09/05/2012

Oír Ese Rio


"Hoje a Nuvem está toda de azul-bebé. Ou será azul-cueca? Blue is the colour of the sky, ai, ai, in the morning...". Era o primeiro bilhete da manhã, via Manuel, Joli, Teresa, com paragem e momices no Zé Fernando, que fingia sempre abrir e ler, irritando toda a cadeia de mensageiros. "Qualquer dia esgano aquele ali" escrevia eu. "Acho que é mais azul-eliane, só ela é que se lembrava de usar aquela cor." E o bilhete ia, de volta, por baixo das carteiras, de mão em mão. O Tito não se virava para mim quando recebia a resposta, mas eu via o canto do olho dele, sabia que era isto toda a nossa vida, a nossa escola.
Encontrei agora estes papéis nos confins duma gaveta, à procura de outra coisa. São, na maioria, folhas arrancadas a cadernos, umas com mais acerto do que outras, dependendo da urgência da mensagem; mas há fichas, guardanapos de papel, envelopes, bilhetes de cinema, programas de concertos, duas páginas de um dicionário de Francês da biblioteca, escritas em todas as margens. No ano seguinte mudaram a mobília da sala e ocupámos a mesma mesa de tampo de fórmica verde, lado a lado. Passámos então aos cadernos, em que escrevíamos à vez, embora seja difícil, em algumas passagens, determinar a autoria : fazíamos gala em nos imitarmos um ao outro; comentários que seriam caracteristicamente dele são escritos na minha letra redonda, espaçosa e preguiçosa, enquanto outros, que tudo levaria a esperar que fossem meus, aparecem feitos na letra bicuda e incerta dele. Tenho à minha frente quatro desses cadernos, escritos de ponta a ponta. São páginas e páginas de desenhos feitos a meias, máquinas compostas que levam legendas: "fábrica de salsichas e de tamancos, também produz velas de cera e, às quintas-feiras, sopa de tomate para quem se portar mal" ou uma "misturadora de cimento-grua-pocilga-saladeira-pistolinha (também bate-limpa-aspira)" e monstros, que se estendem por quatro ou cinco páginas e acoplam medusas a centopeias, dragões a coelhos de peluche e borboletas, tudo enfeitado de espadas heróicas e manchas de sangue que gotejam por cima de corações e cabeças decepadas. Numa janela-lareira-casaco-instituto de línguas, Tito pendurara uma tabuleta que dizia "avariado". Salomé e S. João Baptista, este cortado às peças, aparecem no segundo caderno, o profeta desgrenhado e ainda clamante, com interjeições à margem, exclamações dentro de balões de banda desenhada. "És um cão, Ana!" e a minha resposta: "És um pardalito, Tito". O nosso nome aparece por todo o lado, em letra desenhada por ele, gótica, arabesca, romana, letras que eram casas, ou bichos, outra vez máquinas que ele inventava. "Coelho Ana, dentes coelho!", escreve ele. "Morde o Tito!" e um coelho imenso salta do caderno para o atacar. Daí a pouco, na página seguinte, presumo que na primeira aula da manhã: "A Nuvem saíu-se ontem com uma muito inteligente. Conto pormenores depois da aula. Ao vivo e em pessoa". Às vezes é só um relâmpago desenhado a ocupar a página toda e, a meio dum caderno, três ou quatro folhas seguidas de pequenas nuvens muito correctas, nítidas, desenhadas a rotring fina, que ele acabara de descobrir e que experimentava em tudo.
Nada disto tem data, mas pelas minhas contas devíamos ter dezasseis anos e estar no princípio do nosso sétimo ano. Quase todos os dias começam com inscrições dele que se referem a Eliane. "A Nuvem cortou o cabelo, parece o Príncipe Valente"; eu acrescento "o Príncipe Valente debaixo duma valente carga de água. Tenho a impressão de que ela passou o cabelo a ferro com uma daquelas maquinetas de espalmar o alcatrão nas estradas". E, noutro dia: "A Nuvem traz uma saia toda catita, já viste? Será uma saia ou uma tanga?". E eu: "Saia não é com certeza e a tanga não mostra assim". O cabelo de Eliane, comprido até à cintura, liso e fino e brilhante, fora o nosso tema durante o período anterior. "Deve com certeza dormir de touca, estás a vê-la de touca, ou barrete de dormir, com borla vermelha", escrevia ele "pois tem de ser, se não sufoca, com o cabelo enrolado à volta do pescoço", punha eu; e ele, em letras tremidas, "aargh! sufoco! tirem-me deste cabelo! são facas, são agulhas, são agrafo" e passava o resto da aula a desenhar a Eliane afogueada, de mãos na garganta, enrodilhada numa cabeleira gigantesca de onde saíam patos grasnando, uma mobília completa de sala de jantar, um faqueiro para doze pessoas ainda no estojo e o famoso colchão do soneto do Tolentino, que o Tito sabia de cor. Agora ela cortara o cabelo pelos ombros e pusera franja e abria-se para nós uma paisagem nova de comentários e barbaridades.
Éramos duas almas perdidas, eu e ele. Íamos juntos a todo o lado, não fazíamos parte de grupos, não nos convidavam para festas, para aniversários, se nos convidavam não íamos, se íamos ficávamos a um canto a olhar de viés a companhia e saíamos ao fim de pouco tempo. Andávamos por Lisboa, subindo e descendo colinas, e imitávamos os miúdos da rua pendurados nos eléctricos à revelia do condutor. Apanhávamos o comboio, altas horas, discutindo o amor e a amizade e se Deus existia e porque não. Cantávamos, na carruagem vazia, a vozes, recriações dos Grateful Dead , dos Doors, dos Jefferson Airplane, dos Cream, dos Black Sabbath. O Tito preferia naturalmente cantá-las em tradução portuguesa, que eu acompanhava com trinados e voltas de fado. "Strange Brew, Estranha mistela - gritava ele, assim que o pica-bilhetes virava costas - estranha mistela, estranha mistela, mata o que está dentro de ti, que espécie de idiota é que tu és?". E eu, na exaltação final de uma noite em branco, dançaricava sentada e fazia harmonias. Só nos tínhamos um ao outro. Os professores conheciam-nos por Anitito, um nome colectivo que nos deslumbrava a ambos. Ninguém se atrevia, dos da nossa idade, a aproximar-se. Os que tentavam eram demolidos à força de comentários e crueldades. Levante-se o Anitito, venha cá o Anitito, e estávamos nas nuvens. Por isso, quando o Reitor nos chamava a ambos para me repreender só a mim - por andar descalça ou por usar calças compridas quando não era ainda permitido - acabávamos a manhã na praia a tomar banho completamente vestidos no mar gelado e a gritar a Ode Marítima a umas ondas que faziam o possível por parecerem bravias. Anitito. Isso nunca mais aconteceu na minha vida.
No princípio da Primavera, no entanto, aquela grande euforia, transformou-se, e dum dia para o outro, no mais negro dos sofrimentos. A uma página coberta de línguas que voam, sorrindo, ornadas de belas asas de galinha, ao encontro de botas fortes e botinas, seguem-se duas outras cheias de frases riscadas e de silêncios. "O que é que tens?", escrevo eu. "Nada, hoje não". E continuamos, linha a linha:
Cabisbaixo Tito.
Metediçana.
Tito Chato.
Chatana.
O que é que se passa?
Já passou.
O que é que foi?
Foi.
Diz lá, porra.
Não digas palavrões.
Se me apetecer.
Não me apetece.
És muito parvo.
Parvo é pequeno em Latim, sabias?
E é parvo em Português, minha besta.
Devíamos ter ficado zangados, não me lembro. A caneta é diferente na página seguinte, não é a rotring fina do primeiro caderno, nem a parker de tinta roxa do princípio do segundo, que ia da mão dele para a minha e regressava, perante a complacência dos professores. Pode ter havido um interregno, provavelmente não durou muito. E sou eu que começo:
- Meu Deus, são os Herman´s Hermits? São os Hollies?! Não ! É Crosby, Stills & Nash (salve-se o Young enquanto é jovem!). Como é possível cantar tão afinadinho? Tenho impressão de que falta qualquer coisa ao Crosby... quero dizer lá em baixo no gancho... tem uma voz tão fininha...
É melhor que nada, escreve ele.
É pior que nada.
Ou isso.
Como é que estás hoje? Melhorzinho?
Piorzinho.
Já vais falar ou é preciso ameaçar-te de morte?
Já estou ameaçado de morte.
????
De morte.
Seria talvez um bom sinal a linha de caveiras que desenhou, com o seu par de fémures cruzados, à maneira dos piratas. Queria dizer que nem tudo estava perdido e eu desenhei um cão esfaimado babando-se por baixo de cada caveira, à espera da queda dos ossos. E os cães diziam:
- Larga, que é meu.
Enquanto as caveiras, agora transformadas em crânios cantantes, comentavam:
- Somos pó, pó, pó. Somos pó, pó, pó.
Na página seguinte, provavelmente na mesma aula, o Tito escreveu:
O Tito gosta do narizito botanito da Ana. Tens uma borbulhona no botanito.
Não me digas, nem tinha reparado, embora ande a alimentá-la a Clearasil há bem uma semana. Mantém-te alerta.
Alerta estou.
Queres falar?
Estou a falar.
Do que te chateia, bolas.
Nada me chateia. Sou inchateável.
Ora ainda bem. Então vamos ao que interessa. Sabes distinguir um professor de Educação Física de um professor de Filosofia?
Um flecte e o outro reflecte?
São fáceis de distinguir, não têm nada em comum.
Um camba e o outro descamba - escreve ele.
Um corre e o outro discorre.
Um pula e o outro especula.
Um sobe e o outro sabe.
Um cheira mal e o outro sabe muito.
Há muitos bocados destes nos cadernos, um género de cânone que vai esticando, colado por um fio de sentido que ele próprio se enrola, desenrola, estende, condensa, e segue sempre, umas vezes melhor, outras pior, distinguindo parvos de idiotas, ou patos selvagens de galinhas da índia ou um dia de chuva de um dia de sol.
Daquela vez, no entanto, ele volta ao silêncio, numa página inteira de monólogo meu, em que a letra, em crescendo, vai da minha impaciência à irritação, enfim, à zanga. "Não queres falar comigo, acabou-se o Anitito".
Lembro-me só de uma tarde no parque - ou aquilo que penso ser uma tarde, e são provavelmente factos tirados de várias tardes e assim organizados. No entanto, nada se encontra nos cadernos que dê a entender o que eu sei que Tito me disse. A memória, a que resta, não consegue passar disto que está escrito ao que realmente terá acontecido fora dos cadernos. Terei estranhado a maneira como olhava para mim, com aquilo que me pareceu ansiedade, embora ainda não soubesse exactamente que nome dar à maneira fixa, tensa, mecânica com que palidamente o amigo me enfrentava. Pela primeira vez e talvez a última o Tito fez uma observação que, sem ser propriamente negativa, trazia uma sombra crítica que me afastou.
- Andas sempre assim descalça - disse ele - qualquer dia magoas-te a sério, cortas-te num vidro ou coisa parecida. Porque é que não tiras as botas de cima do ombro e as calças nos pés como toda a gente normal?
E ,sem qualquer transição, disse que há uns tempos que queria falar comigo, que não sabia bem o que se passava com ele, mas que gostava de ser mais do que amigo e o que é que eu achava de namorarmos. Eu disse que sim a tudo, sentia-lhe o mal-estar, queria pô-lo a salvo daquela provação. Ficámos um pouco calados , sem nos olharmos, sem nos tocarmos e, de comum acordo, caminhámos para saídas opostas do jardim.
Não nos devemos ter falado durante uns dias, porque a minha próxima mensagem no caderno é um desenho de dois bichos, que se soubesse desenhar melhor seriam ursos, cada um em sua jaula, em cantos opostos da página. A legenda, em gótico, que quase de certeza é minha, mas que imitava a letra dele, diz: "O namoro de dois ursos só pode fazer mal ao circo." "Hoje há espectáculo?", pergunta ele. "A ursa está constipada". O que parece, portanto, é que até eu tinha perdido a vontade de conversar, e com essa rejeição acaba o segundo caderno, deixando ainda em branco, e desolada, metade duma página perfeitamente preenchível, que um ponto final isolado e negro , bem encostado à direita na última linha, baliza com brio e galhardia.
É curioso que me lembre apenas das consequências da tarde em que me contou a paixão por Eliane. Vejo-me sentada à minha secretária, a fumar de cavalada um maço de Negritas pela noite dentro. No entanto, suspeito que a confissão de Tito tivesse sido muito demorada, muito rebuscada, feita de rodeios e de eufemismos, na intenção gentil e inútil de me poupar o sofrimento. Mas eu não sofria, afinal, sentia alívio e pena e experimentava extraordinária clareza de visão. Antes, na escada, subindo para casa dele, ouvíramos distintamente as Nights in White Satin, vindas da porta entreaberta dum vizinho. Tínhamos parado os dois no patamar, guinchado para dentro: Letters I´ve written, never meaning to send e lançáramo-nos a correr para cima. Tito desculpou-se, disse que eu não podia considerá-lo responsável pela música que os seus vizinhos ouviam. E deu-se ao trabalho de ir ao frigorífico buscar duas folhas de alface para me fazer um capacete protector.
Reconstituindo o que me dissera, percebi que se devia ter apaixonado há mais de um ano, assim que Eliane, recém-chegada de Madrid, entrara o portão do Liceu, com aquele dengue meio parado que a fazia chumbar anos, apesar da boa vontade de todos diante da sua beleza. Enquanto a rondava em horário extra-curricular, portanto, Tito chamava-lhe a "bela cabrita" e "a escultural beleza negra" nos nossos bilhetes e lançava suspeitas sobre a honestidade do pai mulato, diplomata-empresário-espião que trabalhava, dizia, em Espanha para o Governo português. Ninguém soube, e eu menos do que ninguém, que ele e Eliane tinham sido mais do que namorados novatos durante seis meses. Era amor de adulto, e tempestuoso. Não se mostravam, não se falavam diante de outros. Tito ia a casa.
O que me propôs, depois dos rodeios e pedidos de desculpa e salvaguardas e explicações e considerações que agora só posso imaginar, era que eu intercedesse por ele junto de Eliane. Para isso fizera aquela estranha actuação no parque, emaranhando-se nem ele sabia como numa teia que o levara a declarar, ainda que de raspão, um amor que não sentia, ficando depois desesperado de embaraço, sem saber nem como avançar, nem como recuar. Disse-me ainda que a amada me tinha em grande conta, porque eu, entre outras interessantes proezas, não me importava de ser apanhada a fumar na casa-de-banho e sabia distinguir em cada caso o dativo do ablativo, fenómeno que muito a confundia e maravilhava. Calculo que depois disto eu não tenha querido ouvir mais nada, usando por isso aquele modo muito meu de dizer que sim a tudo para poder sair do quarto do Tito e descer a escada onde os Moody Blues já não se queixavam, provavelmente ainda com as duas folhas de alface atadas à cabeça, e magoando os pés nas arestas dos degraus.
Foi assim que cheguei à fala com Eliane das calças-brancas, das longas unhas a que a palavra nacarado finalmente se aplicava, Eliane dos olhos-azuis fosforescentes e ela me recomendou, logo à entrada, uma nova marca de rimmel que não saía com água. Podia chorar-se à vontade, não esborratava.
- Rimmel para tristes? Rimmel para chorões? - perguntei.
E ela, como se fosse hoje:
- A ti no, bonita. A ti si, visita.
E eu, procurando fingir que ignorava o arrepio que me causava com a maneira esquisita de falar:
- Então não sai com água, sai com quê? Dióxido de enxofre?
Ela ficou a olhar-me num meio sorriso, de cima para baixo, porque tinha bem à vontade mais um palmo do que eu. Nesse silêncio eu vi uma aberta para lhe pedir que fosse a minha casa à tarde, precisava de lhe falar de um assunto que pedia a máxima discrição. Não sei se terei dito exactamente "discrição", mas o tom era esse, jocoso, cúmplice, passando-me, pelo menos temporariamente, para o lado dela.
Eliane tomou a peito o convite e apareceu-me no bater das três, mui bem trajada e maquilhada, como se estivesse a ponto de ir dançar fora. Eu não sabia bem o que fazer, ofereci-lhe limonada do dia anterior que encontrei no frigorífico e que ela bebeu aos golinhos, de perna traçada, bamboleando a sandália de plataforma dourada, entremostrando os dedos compridos e esguios dos pés, onde as unhas perfeitamente pintadas brilhavam como rebuçados de laranja. Antes que eu tivesse tempo de reagir, disse:
- Contemporizador, fisioterapêutica, antiescorbútica, cinematográfico, biblioteconomia,desmelancolizar. São tudo palavras com quinze letras, já reparou? Agora com dezasseis letras, veja se nota a diferença: cromotipográfica, pleuronectiforme, intencionalmente, colaboracionista, anticlericalismo, antropocentrismo, contraconceptivo...
- É só uma letra - interrompi - não faz muita diferença.
- Mas a música é outra, não acha?
- Talvez.
Apoderou-se de mim uma grande urgência de a ver pelas costas . Quis despachá-la e despachar-me. Introduzi imediatamente o tema Tito, ao que ela respondeu:
- Ama Ana sólo dios o ídolos Ana ama. Si Tito ya muere de reúma, muere de reúma y otitis. Si vivo no vivís. São três palíndromos, reconheceu-os?
- Se soubesse o que são palíndromos .
Eliane suspendeu-se, como quem acordasse. Enunciara as palavras com quinze e dezasseis letras, pausadamente, olhando para dentro, contando-as. O tique dela, e eu sei que foi exactamente o que fez o Tito cair amoroso sem salvação, era lançar a cabeça para trás e manter os olhos fechados um instante, apenas um instante mais do que o esperado:
- Desculpe... são palavras ou frases que dizem o mesmo lidas da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. Olhe este, parece-me engraçado, desculpe ser em espanhol, mas o Português é ingrato para palíndromos e jogos de palavras, eu suponho que por causa dos ditongos e do til, enfim. Si, si toses es eso, tisis.
- E engraçado - disse eu - mas e o Tito?
- Sé : amar drama es . Sé: amar broma es.
Estava apostada em impressionar-me. Passou aos anagramas, esses às dezenas, com o meu nome e o dela e o de Tito, com lugares, frutos, marcas de automóveis. Depois foram palavras em que a letra A aparecia quatro vezes. No fim de muita insistência, despertando para o meu desconforto, Eliane disse simplesmente que não amava Tito e rematou :
- Sé verle al revés.
O terceiro caderno é exclusivamente sobre ela. É aparente que eu continuo a falar com Eliane, sob pretexto de ir intercedendo pelo Tito, que pedia um último encontro, um último beijo, um último adeus, uma carta, um postal, um bilhete, um aceno, um olhar de longe, um pensamento carinhoso e ia baixando o estatuto do pedido diante das repetidas recusas dela. Deve ser da mesma altura, embora não tenha maneira de o saber ao certo, a imagem que guardo de Tito, ao pé das escadas que levavam ao primeiro andar onde Eliane tinha as aulas, a imitar o flautista dos Jethro Tull, de perna alçada, como um sátiro sem jeito, caricato. E ela, no primeiro degrau, sacudida de riso, nas suas impecáveis calças brancas que lhe caíam como abat-jours à volta das sandálias, os dedos dos pés de rebuçado espreitando, manhosos, a figura triste do meu Tito. O tom do terceiro caderno é, no entanto, e considerando o sofrimento em que ambos nos tínhamos instalado, jovial e quase sereno, interrompido por uma ou outra explosão delirante, como quando me pareceu obter de Eliane uma esperança de vida para Tito, que me trata por amor de amiga nas duas páginas seguintes. Falávamos constantemente dela, do que dizia e fazia e pensava e vestia e comia, ainda era a nossa cabrita, a beleza negra; e eu consolo e encorajo o Tito de cada vez que ele, exausto, pretende desistir, e não há em todo o escrito um momento de dúvida, uma hesitação, sequer uma pergunta.
No entanto, Eliane não me parecia agora menos monstruosa e incapaz do que no nosso primeiro encontro. Continuava a recebê-la em casa ou a encontrar-me com ela pelos Cafés e a ouvir-lhe enfadada as listas de palavras com oito sílabas, as considerações sobre as diversas tonalidades das palavras graves, os anagramas , os acrósticos, os mesacrósticos de que entretanto se tornara adepta, até uma tarde em que, não sei porquê, mas provavelmente determinada por uma razão próxima e suficiente, me pus a ouvi-la de outra maneira, não a autística ladainha de sempre, mas a revelação de uma coisa qualquer faiscante e que me era dada enquanto me fugia. O que terei percebido nessa tarde, e deduzo-o pela alteração de humor revelada a partir de finais do terceiro caderno, era que não sabia o que ela era. Vi que não sabia o que aquilo era, provavelmente nunca viria a saber. Talvez por isso escreva, ao alto da página: "Para si, meu caro amigo, tudo são folhos azuis", ao que ele acrescenta : "E negros céus e ânsia de beijos", e continuamos:
Para si, meu caro amigo, tudo é gordura e formosura.
E cemitérios de croquetes de vitela.
E pernilongas nacaradas cabeludas.
Que romântica, Ana!
Uma perna aberta e um seio firme.
Para mim para mim para mim.
Paraíso de alarves, escrevo eu.
Paraíso tout de même
Vossa Excelência não entende, abocanha
Por outras palavras, eu começo a ter pena dele e a desprezá-lo pela dupla traição - a que me cabe a mim e a que repetidamente comete contra Eliane - e o terceiro caderno esforça-se, em vão, por dissimular tanto o meu ressentimento como o medo de que ele o perceba. Devo ter demorado, ao todo, talvez um mês a compreender o que se passara no mês anterior. E nesse mês é evidente que não quero ver o que é visível, mas manter os olhos fechados um instante mais . A dissimulação é, no entanto, escorregadia e diálogos destes sucedem-se e as falas vão-se extremando, interrompidas por desenhos que imitam com desinteresse os dos primeiros cadernos inocentes e que agora são, grande parte das vezes, deixados a meio ou acabados à pressa. Isto devia ser o mês de Maio, estudávamos para os pontos, porque queríamos não ir a exame e sobretudo não fazer orais, que ambos temíamos como a própria morte. Páginas há em que nos esquecemos da cruzada e falamos como simples colegas: "Lembra-te de me passar a retroversão assim que acabares". E eu: "Não estou muito bem a ver como é que vou ter tempo de fazer três pontos de Latim, um para a Teresa, um para ti e um para mim". "O melhor é fazeres o meu primeiro, depois se vê". "Engraçadinho". "Trazes-me o livro do Camus amanhã?", "Não sei se terás idade para aquilo. Tem umas cenas muito puxadas". "Já me disseste.". "Há uma parte em que o velho dá um pontapé num cão. Não sei se vais aguentar". E, mais à frente: "Se ela não se cala, adormeço aqui mesmo". "Cala-te e sublinha". "Porque é que eu tenho de estudar a Revolução Francesa? Não me dizes? Para já, passou-se há mil anos, depois nem sequer foi no nosso Portugal." "Abaixo a França!", escrevo eu. "E a Inglaterra!", escreve ele. "Viva o nosso Portugal!" e seguem-se bandeiras, rodeadas de pares de bandarilhas dispersos e um olho enorme donde cai uma lágrima.
Eliane tratava o Tito por José. Mas logo na primeira vez, quando lhe chamou assim, aquela singularidade de ser a única a tratá-lo pelo seu nome mais comum pôs-me de sobreaviso. Nas raras conversas em que falámos dele, não tinha complacências. O Tito era cobarde, era falso, não havia coluna vertebral que o segurasse - e Eliane fazia um gesto de mão, que o relegava para a parte de trás da última Humanidade. Não conseguia que se lhe referisse senão de passagem, nem compreender que facto a decidira a tal opinião absoluta, o que tornava as nossas conversas extenuantes para mim. Percebera, aliás, ao longo desse mês e meio, que ela não se dava ao trabalho de fazer pontos nem exames. Estava acima dos nossos medíocres constrangimentos, não mencionava as matérias da escola, interessava-se por pedras, por jóias e pela extravagância linguística . Mas depois da iluminação em que percebi que não a percebia, descansei. Eliane não queria falar de Tito, não falaria. Acabara para mim essa missão. Podia, finalmente, ouvi-la sem interferências. O que eu ouvia não era muito diferente do que ouvira até ali. Mas era com outro ouvido que eu ouvia esse rio sereno de maquinações entre sílabas, que ela apresentava sem ironia, como um mistério que era preciso considerar dentro do espírito das curiosidades do nosso planeta. Era um rio que me levava, no entanto, para longe dela, e por arrastamento, para longe dele.
O quarto caderno traz-nos gradualmente a ambos à falsa gravidade de uma ficção, com a pedanteria comum das obras de estreia. As frases que tinham sido nossas são agora usadas para ocultar e fingir. Há subtilezas, estruturas, recorrências, suspensões, cenas dos próximos capítulos. Calculo que três quartos do que lá está sejam citações, de Sartre, de Camus, dos Doors, de Rilke, que o Tito traduz livremente e toscamente, usando os primitivos conhecimentos de Alemão - "Todo o espaço feliz é filho ou neto duma separação ultrapassada com espanto", ao que eu aponho: "Qual é o limite de velocidade para uma separação? Cuidado na ultrapassagem!", e mais à frente, em maiúsculas: "Adianta-te a toda a despedida, como se estivesse já atrás de ti, como o Inverno que agora acaba". E eu : "E os exames à porta!". Tito vai, de resto, muito atrás do Álvaro de Campos, com poemas que chegam a estender-se por dez páginas, cheios de exclamações e sentimentos exaltados interrompidos por questões quase filosóficas "porque a amo tanto? porque preciso tanto dela?". Deixámos de brincar. Não há desenhos, não há experiências. Anitito assumiu a sua forma retórica definitiva. Mesmo um poema - um mesacróstico - cujo sentido era Antes Morto, não chega para me preocupar. E o que sempre pensei ser uma espécie de elegia fúnebre por Eliane, que entretanto deve ter partido para Madrid, vejo agora ser uma pobre despedida a Ana & Tito. A história do quarto caderno, que vai da dissimulação ao toca-e-foge, daí à guerra aberta, uma curta negociação, uma recaída na dissimulação, mais apelos da parte dele, sempre ouvidos com meio-ouvido por mim e acatados com meia-alma, é a da clara consciência das nossas recíprocas traições e o estabelecimento do preço que havíamos de pagar por elas. É Tito que começa, escrevendo que a minha amizade por Eliane é uma forma de vingança contra ele. Eu, ofendida, hipócrita, a negá-lo. "Vingança de quê?" pergunto, humilhada. "O inferno são os outros!", responde ele, com certeza embaraçado. Susceptibilizado pela traição que lhe faço, fala em mudar-se para Coimbra, sair de Lisboa logo no dia a seguir ao final das aulas. Deve ser princípio de Junho. Ainda me propõe que vá com ele, mas eu já não acredito em nada. E o caderno acaba suspenso por dois cordéis: um diz, na letra certificadamente de Tito "ela não é nada. não precisamos dela" e o outro, num tom melodramático: "vem ter comigo à praia, sabes onde, preciso de te falar, urgente, sem falta, já, imediatamente".
Se me conheço bem, e dada a história anterior, sou capaz de ter lá ido fingir que continuávamos melhores amigos inquebrantáveis. Sou capaz de ter lá ido consolá-lo e oferecer-lhe mais préstimos e mais créditos. Talvez não me lembre se fui, exactamente porque hoje me envergonha. Não me ocorre imagem nenhuma, a não ser uma figura fluida, ao fundo, sentada na areia, encostada a uma rocha. Pode ser o Tito. Mas também posso ser eu.


In Império do Amor, Luísa Costa Gomes