09/06/2012

Quadro Abstracto

Em certo dia de Janeiro dos seus quarenta e cinco anos, a um sábado à tarde, sentado de perna traçada no escritório, Alberto Inácio reparou pela primeira vez no quadro que tinha diante de si. Chamava-se "Cão que Não Ladra" e declarava influências de grande parte dos pintores e correntes do último século e meio. Este quadro estava com Alberto desde o primeiro casamento, seguindo-o pelas paredes das várias casas em que vivera. Era "abstracto".
O primeiro casamento passara-se todo em três assoalhadas. O quadro estava na parede da sala, prenda dos amigos, e presenciara muito jantar silencioso entre cônjuges; escapara à jarra toda cinematograficamente atirada pela esposa ao saber que Alberto iniciara já uma segunda ligação, num outro apartamento, um pouco mais a Oeste, na mesma cidade. Aí, "Cão que Não Ladra", por falta de espaço e distracção do proprietário, pendurou-se na húmida marquise fechada a alumínio, a olhar para as traseiras de outros prédios. Mais tarde, no segundo casamento, com uma recém-licenciada em Biologia que abandonou tudo para se dedicar a um par de gémeos que lhe nascera por acaso, o quadro fora muito visto, mas pouco comentado, no patamar da entrada, encimando um liminar arranjo de telefone-de-teclas/jarra com túlipas de pano/fotografia dos noivos no dia do casamento, sobre uma mesinha envernizada de pernas arqueadas tais as do vaqueiro que se visse obrigado, de chapéu de abas e chicote em punho, a palmilhar os campos em busca da montada. Aqui se deixavam também, pelas sete da tarde de todos os dias, as chaves de Alberto Inácio, do carro, do alarme do carro ,da casa e da casa-de-campo que fora herança desleixada da mulher, tudo preso num anel de aço inoxidável, e culminando numa bola de borracha vermelha eriçada de múltiplos tentáculos muito finos. Esta era uma bola em que a mulher de Alberto não conseguia tocar, pegando nas chaves com todo o cuidado de dois dedos.
Terminando este casamento por razões que nunca se chegaram a esclarecer, de todas as discussões que se geraram entre ambos, o debate sobre o destino do quadro foi, sem dúvida, o mais pacífico. Alberto levou-o consigo para um outro andar, em alguns aspectos bastante melhor do que o anterior, pois tinha muito sol e um quarto suplementar, onde ficavam os gémeos de quinze em quinze dias fazendo de escritório no resto do tempo.
A terceira mulher de Alberto Inácio era, até à data, a de mais fácil convívio. Érnia tinha uma disposição risonha e extrovertida, falava alto, acordava a cantar, achava graça a tudo o que ele dizia. Gostava de sexo, estava sempre pronta para as novidades, bebia com moderação, fumava, viajava. Para cúmulo, tinha fortuna própria, gastava o tempo em horário flexível numa loja de sofás que pertencia à família e não precisava de crianças. Quando os gémeos iam passar o fim-de-semana, ela observava-os de uma distância segura, fixa num grande sorriso mudo.
A felicidade desta mulher cedo começou a agastar o Alberto. Érnia não sabia distinguir o fim-de-semana dos outros dias. Era sempre festa, uma cara de riso. Ele usou todos os pretextos para a rebaixar, muitas vezes em público, aludindo a uma sua suposta costela brasileira e a tudo ela respondia simpática e compreensiva, dando ao marido a noção cada vez mais absoluta de que lhe era indiferente tudo o que ele dissesse. Alberto passou a fechar-se no escritório nos sábados em que os gémeos não vinham e a precipitar-se para o computador, fingindo-se ocupado, de cada vez que ouvia os passos dela no corredor. Mas Érnia entrava, abria os cortinados e a janela para deixar sair o fumo, mostrava compaixão pelo excesso de trabalho que a empresa exigia, fazia-lhe uma festa no cabelo e ele tinha de reprimir um movimento de repulsa. Pouco depois Érnia saía porta fora para se encontrar com os amigos e, como um miúdo, Alberto corria para a sala a ver na televisão o basquete da NBA.
Nos últimos meses procurara, de todas as formas, destruir a felicidade inexpugnável desta mulher. Irritavam-no a forma como pronunciava os erres, que vinha do facto de ser ainda um bocado alemã, os sapatos rasos de tamanho generoso, que facilmente descambavam e o modo como levava a mão à gola do casaco, fazendo-lhe festas. Havia ali comparações muito desmerecedoras para a Érnia. Mas nada parecia tocá-la.
Nesta tarde, fechado no escritório a olhar para a parede, Alberto reparara pela primeira vez no quadro. Tivera um choque de reconhecimento e depois um pânico que parecera deslocar todos os objectos. Deu-se uma torção do espaço, como um tremor de terra instantâneo, e depois um rasgão, um raio invisível - e o computador, o candeeiro de pé, o cinzeiro, o relógio de prata pousado no tampo da secretária, o maço de folhas eternamente em branco, todos eles se transmutaram: eram as suas próprias coisas, mas inteiramente alheias.
A psicóloga da empresa, anafada, cinquentona, olhava-o por cima das meias-lentes, com a placidez dos psicólogos, enquanto Alberto Inácio descrevia essa e outras experiências. Na cabeleira dela, volumosa e grisalha, presa numa grande variedade de ganchos, de travessas e de pequenas fitas negras de veludo, o cabelo procurava escapar-se como podia para longe da cabeça; caía, já sem força, esgotado por aquele grande combate, em madeixas desiguais, espalhando-se sobre a falta de pescoço e o triplo queixo - e ia intrometer-se, maroteco, no colarinho da blusa de seda cor de mostarda. Ele, na primeira hora, perante o silêncio dela, começou por identificar os sintomas que o atenazavam: irritação permanente, insónia, contrariedade, frustração, refeições de despejar frigoríficos a meio da noite, vontade de atirar a mulher pela janela fora, vontade que se estendia a todas as suas anteriores mulheres, todas as mulheres, sem excluir a psicóloga que quando cruzava os pezinhos papudos em sapatos de salto confortáveis fazia ouvir o roçagar das meias que espartilhavam a perna curta. Passada esta fase introdutória e perante o silêncio impávido da doutora Anália, Alberto falou das suas fantasias sexuais (capítulo violação colectiva). Estava convencido de que era o que ela queria ouvir.
- Não - disse ela, por fim - você fala daquilo que quiser. Daquilo que o preocupa.
Ficaram calados a olhar um para o outro - ele ainda não tinha passado à fase do decúbito dorsal - e Alberto procurava uma coisa para dizer, mas a psicóloga advertiu que tinham esgotado o tempo e perguntou-lhe se queria voltar noutro dia.
- Porquê? - perguntou ele - Acha que estou maluco?
- Acha que eu acho que está maluco? - perguntou ela.
Assim calou-o.
Alberto tivera as suas razões para sentir relutância pela psicoterapia. De facto, o que poderiam alguma vez dizer-lhe de sofá para sofá que ele não soubesse desde sempre sobre si próprio? Nesses dois meses em que resistiu, a mulher e os colegas tinham tentado primeiro animá-lo, depois persuadi-lo de que devia procurar alguém com quem falar, e finalmente, quiseram dissuadi-lo de tomar, de motu proprio, umas pastilhas que, dizia a literatura e quem já experimentara, eram pouco menos que o paraíso na terra. Alberto acedera, então, a procurar esta doutora Anália, querendo e temendo ao mesmo tempo que ela lhe desse a tal receita das pastilhas. Anália Pinto fora, no entanto, muito clara: não dava pílulas. Dava conversa.
Na segunda sessão, Alberto falou da sua infância (feliz, embora o pai fosse severo e o irmão mais velho um perfeito delinquente que o atormentava e lhe roubava tudo). Na terceira sessão foi sexo na infância, primeiras experiências. Na quarta, sem saber porquê, pôs-se a falar da mãe. Era boa senhora, apagadota, dedicada à família. Uma mulher normal, como tantas outras donas-de-casa, que guardava distraidamente os ovos no bolso e depois se esquecia de os misturar na massa dos pastéis. E se maldizia por isso, com um porco ovo em cada mão, mostrados como chagas mentais à mesa do almoço, perante o embaraço da família .
Alberto e a psicóloga tinham chegado a um protocolo apropriado a ambos. Ela ouvia e ele falava. Não do que lhe apetecia, embora ela insistisse para que ele estivesse à-vontade, deitado no divã de pele negra a olhar para uma racha no tecto que não lhe sugeria nada de especial, porque justamente não tinha a menor ideia do que lhe apetecia, mas falando do que ele pensava que era adequado àquele tipo de situações.
Cedo Alberto Inácio se habituou às suas terças-feiras com Anália. Era uma obrigação como outra qualquer. Esgotada a riqueza das experiências infantis (primeira cabeça partida, primeira injecção, primeiro sonho com abelhas assassinas, primeira separação da mãe, primeiras apalpadelas com o irmão e colegas da escola, primeira vez que viu o pai todo nu), entrou a falar da sua concepção do mundo já em velocidade de cruzeiro. A psicóloga não queria saber de resultados. Semicerrava os olhos, deixava correr o marfim e muitas vezes Alberto suspeitou que ela tivesse adormecido, pela respiração pausada e profunda que ouvia atrás de si.
- Toda esta conversa fiada sobre a defesa do ambiente - dizia ele - está-se mesmo a ver que não vai dar em nada. As grandes empresas americanas só querem é sacar o delas, estão agora preocupadas com os tigres da Malásia ou a protecção das tartarugas gigantes. Dentro de vinte anos não vai haver água para todos. Só para os que puderem pagar. Sabe quanto é que vai custar uma garrafa de litro e meio segundo os últimos cálculos que li num sítio da Internet? Vai custar vinte e tal contos, é conforme o câmbio do dólar estiver na altura. O dólar reina em todo o lado. Nós aqui não somos nada. Os tipos é que mandam na gente, tudo o que eles querem, faz-se. Nem perguntam. Também, iam perguntar a quem? Aos badamecos dos governos que só lá estão a encher-se ? Eles querem cá saber se a qualidade de vida vai piorar, se as pessoas ficam cada vez mais endividadas? Os Bancos é que mandam e funcionam com lavagem de dinheiro da droga.
A droga era um problema. E, mais adiante, sobre "as pessoas":
- As pessoas são estúpidas e mesquinhas. Nunca vi país em que as pessoas fossem mais estúpidas e mesquinhas. Um dia destes fiz uma ultrapassagem perfeitamente dentro das regras, veio o tipo atrás de mim a buzinar o tempo todo. Seguiu-me até casa, não devia ter mesmo mais nada que fazer. E depois quando devem lutar pelos seus direitos, por aquilo que é realmente importante, encolhem-se, são uns vermes, sempre com medo de perder o emprego ou de apanhar na cabeça da mulher.
Sobre "as mulheres":
- Eu não compreendo as mulheres. Quanto mais as conheço, menos as compreendo. Falam muito, com muitos pormenores, não se calam, são umas perfeitas gralhas. É muito cansativo. A Lena, a minha segunda mulher, era ao contrário. Deprimia, estava sempre de trombas. Primeiro era da gravidez, depois era dos gémeos que não a deixavam dormir, se dormia demais era porque ficava com dores de cabeça, se dormia de menos andava aos berros pela casa, e nunca sabia nada, eu perguntava-lhe o que é que ela achava disto ou daquilo e ela respondia "não sei". Sempre. Respondia a tudo "não sei". Esta agora, que se chama Érnia, a minha actual mulher, então sabe tudo, tem opiniões sobre tudo, anda sempre toda contente, é insuportável.
Sobre "os amigos":
- Os meus amigos são todos gajos muito porreiros. Não tenho muitos, mas são todos bons. O Paiva é que é um bocado mais chato, é um tipo neurótico que pensa sempre o pior, daquelas pessoas que está sempre a imaginar o que é que pode correr mal e quase nem sai de casa, é um castigo para a gente se encontrar. Mas é o meu amigo mais antigo, conhecemo-nos no Secundário e agora às vezes vamos comer umas tapas e beber umas bejecas, mas eu não tenho muita paciência para o aturar.
Sobre "o amor" :
- O amor é complicado. É complicado. Primeiro ligamo-nos às pessoas, depois desiludem-nos... É difícil. Tive sempre desilusões. O amor é muito... fugidio. Não dura sempre, acho eu. Dura o que dura, temos de nos defender o tempo todo, se não comem-nos as papas na cabeça. Isto é uma selva, ou se come, ou se é comido.
Sobre "o amor e o sexo":
- Não são bem a mesma coisa.
Sobre "a Primavera":
- Não gosto, a minha estação favorita é o Verão. A Primavera dá-me uma certa angústia, não sei se isto será normal.
A estas íntimas confidências seguiam-se períodos de silêncio em que Alberto Inácio olhava a racha no tecto que já o começava a irritar e se perguntava se a psicóloga estaria a dormir ou acordada.
- Uma vez conheci numa festa de anos uma psicóloga... - disse ele, por fim.
- Acho que laboramos aqui num malentendido, senhor Duarte, eu não sou psicóloga, sou psiquiatra e psicanalista.
Foi a única vez que Alberto Inácio a viu zangada. Deu-lhe um certo mal-estar aquele engano, não estava a ver a diferença entre uma coisa e outras, mas fez-se penalizado de a ter ofendido, mesmo sem querer. Na empresa perguntou aos colegas se sabiam qual era a diferença entre um psicólogo, um psicoterapeuta, um psicanalista e um psiquiatra, e gerou-se alguma confusão, a que o Manuel António Pinto pôs termo sem demora, porque além de ser grande e gordo, tinha uma voz grossa e dissesse o que dissesse, fazia-o com autoridade.
-Hoje vou comer um bife! - dizia ele à uma da tarde. E ninguém se atrevia a responder-lhe.
Houve uma altura da terapia em que falaram de impostos e da forma mais eficaz de se safarem deles. Seguiram-se informações sobre o sistema caduco da segurança social, os investimentos na Bolsa, pc versus mackintosh, o monopólio da Microsoft, a carestia de vida, o preço dos terrenos, o crédito à habitação e tudo isto porque Alberto desdenhava discutir a programação televisiva, embora não se envergonhasse de admitir que tinha o vício das notícias das oito.
- Gosto de me manter informado.
Com isto Alberto Inácio estava a ficar falho de temas e de opiniões sobre os grandes debates universais. Lá veio o dia em que não lhe ocorreu uma única frase e se deixou ficar um grande bocado, tenso e cheio de sentimentos de culpa, a olhar o tecto.
- Não quereria falar-me um pouco de si? - perguntou a psicóloga.
- Eu? - perguntou o doente.
Estava-se num ponto de viragem. Que diria ainda Alberto Inácio de si próprio? Não tinha ele confidenciado que gostava de ver o noticiário das oito? Que trazia debaixo de olho um terreno muito em conta para os lados da Malveira da Serra? Que não tinha medo da morte? Que o que mais o atraía nas mulheres (seria isto normal?) eram as clavículas? Que não tinha sonhos ou não se lembrava deles, qual era a diferença?
- Mas agora estou melhor- disse ele - acho que me fez bem vir cá falar consigo.
A doutora Anália esperou pacientemente mais cinco minutos e declarou a sessão encerrada. Alberto sentiu-se curado. Já dormia as suas sete horas seguidas, o padrão normal de um adulto normal, uma vez por semana mergulhava higienicamente na mulher, cada manhã bebia o café, fazia o nó da gravata e tomava o seu lugar na fila de trânsito a ouvir um grupo de comediantes no rádio do carro. Uma vez chegou a telefonar para o programa e participou num passatempo. Tinha dias melhores, outros piores. Como toda a gente. Quando chegava ao emprego trocava umas frases com os colegas que discutiam as perguntas exóticas de um programa de televisão em que se ganhava muito dinheiro. Manuel António Pinto entrava, ficava um bocado à escuta e dizia:
- Não era fácil. As pessoas normais não sabem o que quer dizer "aboletamento".
Os outros baixavam a cabeça e, no íntimo, sabiam que deviam imediatamente sentar-se diante dos computadores e começar a trabalhar, enviando facturas, convocando clientes, copiando programas, inserindo ficheiros, enviando e recebendo mensagens, dilitando material comprometedor ou fora de prazo.
Quando havia um silêncio, todos levantavam em uníssono a cabeça, estranhando. Logo tocava um telemóvel, alguém espirrava, ou passava um vauxhall cor-de-laranja, em primeira, subindo a custo a rua íngreme, e lá dentro um senhor de idade perdido nuns óculos imensos, todo composto de chapéu mole e sobretudo, guiando muito chegado ao volante, como que empurrando o velho chasso com a mera força da mente e o medo de ficar a meio-caminho.
Todas as terças-feiras Alberto Inácio sentia, à hora que fora a da consulta, uma certa melancolia. Mas, que fazer? O pânico passara, já dormia bem, cumpria os deveres, até os conjugais, dava rendimento no trabalho. Não havia razão para voltar. Uma vez atreveu-se pelos corredores que iam dar ao gabinete da psicóloga, passou à porta, atardou-se a escutar... De dentro vinha um murmúrio, como uma longa queixa, uma voz de homem à beira do choro... Não resistiu, correu à casa-de-banho a buscar um banco, nervoso, aos tropeções, alinhou-o, trepou e pôs-se à espreita pela bandeira da porta.
A doutora Anália dormia de boca aberta, com uma perna para cada banda, os sapatos de salto confortável bambos nos pezinhos papudos e a paleta dos apontamentos abandonada no regaço, para onde também pendia, em pregas sucessivas, uma barriga que, agora liberta das constrições a que sempre obriga a vida em sociedade, se revelava verdadeiramente monumental. Deitado no sofá de pele negra, Álvaro Almeida choramingava. Tinha demasiadas razões para isso e elas eram todas do conhecimento geral. Alberto, esquecido da periclitante situação, e comprometedora, em que se encontrava, olhava ora um ora outro personagem do quadro e sentia nada senão ciúme. Um ciúme bruto, fino como um punhal. Aquele sofá era seu, a puta da psicóloga era sua. Tinha Álvaro Almeida razões para chorar? Chorava agora Alberto Inácio por maioria de razão. Ninguém o viu. Ele pôde tranquilamente descer do banco e arrastar-se para a casa-de-banho, onde cortou dois quadradinhos de papel higiénico para se assoar.
Érnia mostrou pela primeira vez impaciência quando ele se esqueceu totalmente de se levantar. De facto, Alberto acordava cada dia mais tarde, até chegar a não se levantar da cama senão pelas oito da noite. Primeiro deu razões:
- Hoje chove.
No dia seguinte:
- Com este calor?
Depois:
- Não me sinto bem.
Encolhia os ombros se Érnia lhe chamava a atenção. Ela fez o que lhe recomendou a Maria de S. Tomé, sua guru e companheira de alegrias. Comprou lingerie vermelha indecente e apresentou-se naqueles preparos diante de um Alberto Inácio macilento, barbudo e mal-cheiroso, que lhe deitou um olhar de enfado e disse:
- Não me faças rir, que me dói o peito.
Ela encaixou bem, tomou aquilo como um dito de espírito e foi-se desfardar. Não tinha qualquer experiência em depressões, a Érnia, era uma constituição nervosa à prova de bala, não se lhe podia levar a mal.
- Vai achar isto estranho - começou ele, de regresso à terapia - mas um dia destes passei aqui à porta, fui buscar um banco e pus-me a espreitar pela bandeira da porta. Estava aqui o Álvaro, aquele que tem a mulher muito doente e que é mais baixo do que eu e a doutora estava a dormir.
Caíu o silêncio.
- E você sentiu-se traído?- perguntou ela, ao cabo de uns minutos.
- Sim - disse ele.
Foi o primeiro de muitos "sins" que Alberto havia de dizer à sua médica. Já não insistia tanto nos impostos, nas catástrofes naturais, mas continuava a querer falar, embora não soubesse bem de quê. Anália propôs-lhe de novo que falasse do que lhe apetecia, livremente, sem restrições, e Alberto resolveu começar pelos colegas do emprego, porque era o que estava mais à mão. E foi por ali adiante, com boa-vontade, até a psicóloga lhe perguntar num intervalo:
- Porque é que diz sempre isso?
- Isso o quê?
- De todas as pessoas que mencionou até agora, diz que é mais alto do que elas.
- E sou.
Silêncio, de novo. Por fim, Alberto disse:
- Acho que estou convencido de que sou anão. Sei, racionalmente sei, que tenho um metro e setenta e dois, mas cá dentro estou convencido de que sou anão. Nos primeiros cinco anos de vida praticamente não cresci. A minha mãe preocupava-se, dizia sempre, "olha o João, cresceu tanto!", "olha o António, como está crescido!", havia uma censura no que dizia. Toda a gente crescia à minha volta, menos eu. Ela não dizia nada directamente, mas eu sabia que ela tinha medo de que eu ficasse anão. Andava-me sempre a medir com os olhos. De cada vez que olhava para mim, eu sentia que era para me medir, para perceber se eu já crescera. Aos cinco anos, eu tinha o tamanho de dois ou três. Depois fui para a escola e cresci de repente, da noite para o dia, uns vinte centímetros. Bem via que a minha mãe pensava que aquilo era uma ilusão, que eu ou nunca mais ia crescer, ou ia encolher durante a noite. Mas não, fui crescendo normalmente, sempre a sentir-me um bocado mal por estar a crescer. Mas não podia fazer nada contra isso.
- Ora vê? - disse a psicóloga - Estamos a fazer imensos progressos.
Alberto sentiu um nó na garganta e um calorzinho na boca do estômago. Há muito tempo que ninguém cuja opinião prezasse lhe dizia: "muito bem, Alberto! ". Contente, repetiu a sua história do anão umas três ou quatro vezes, até Anália lhe propor que passassem à frente. Mas ele, que nunca na vida pensara no que lhe tinha acabado de contar, não podia senão sentir-se maravilhado, olhando o imenso abismo de terra incógnita que se lhe apresentava pela frente.
- Nunca tinha pensado nisto- disse ele.
- É perfeitamente normal - respondeu a psicóloga.
Alberto Inácio cedo lhe apanhou o jeito e começava assim grande parte das frases:
- Será com certeza perfeitamente normal...
Compreende-se, deste modo, a indescritível alegria dele ao conseguir pela primeira vez lembrar-se de um sonho. Trouxe-o no regaço psíquico, com mil cuidados, antecipando o apetite de Anália e a gulosa degustação a dois de um conteúdo parco: Alberto, nesse sonho, chamuscava as pontas dos dedos. Era isto. Tudo o resto soçobrara de novo no inconsciente e deixara uma memória fugidia, um cheiro, uma tonalidade, sombras. Mas, como tudo, lembrar-se de um sonho era uma questão de treino e na semana seguinte a história que Alberto trazia para contar já botara corpo e consistência. Mas havia ainda partes moles, outras tantas dúvidas:
- Eu ia pela beira de um rio, não sei com quem... E não era bem um rio. Não sei explicar.
A terapeuta acabou por dizer:
- Porque não tenta desenhar o que não consegue dizer?
E Alberto Inácio começou a pintar. O difícil é compreender porque terá escolhido o formato minúsculo, o pincel número dois e cores puras tiradas a direito do tubo, se tomarmos como premissa o facto de ele já ter tomado consciência da história do anão. Eram guaches em papelitos de nove por doze, toscos e desinteressantes. Mas, tomando a peito a missão, Alberto foi-se esforçando por aprender as leis da perspectiva e as regras da combinação das cores, assimilando preceitos atrás de preceitos dos livros populares, imitando os mestres, grandes e pequenos, conforme a necessidade e o trabalho.
Érnia sossegou. Via Alberto Inácio enterrado no sofá, com a prancheta nos joelhos, diante de um boião de iogurte cheio de água, curvado sobre o desenho. Desistira de o interessar nas coisas exteriores, sabia que estar sentado era um grau acima de estar deitado. E começou a viver sobretudo fora de casa.
Com Anália, Alberto discutia a mistura das cores e a melhor maneira de se obter um ocre luminoso que não lembrasse - e aqui ele hesitava na expressão, para não ofender a sensibilidade da psicóloga - enfim, que não se parecesse com cocó de cavalo. Ela procurou explorar aquela associação mais ou menos directa que ele fazia sem dar por isso entre todas as tonalidades do castanho e as fezes do cavalo, e daí a um nada, já estavam a falar do pai de Alberto, que agora aparecia a seu filho de forma muito diversa daquela com que o despachara numa das primeiras sessões de terapia. Onde estivera um patriarca austero e firme,isolado e indiferente aos afectos, surgia agora um homem tímido e tíbio, preocupado com a sobrevivência da família e submetido ao terror dos ataques de fúria do seu chefe, um homem terrível, a rondar o criminoso, que seria internado no final da vida. Até fisicamente o pai de Alberto se alterara: o peito de ferro e as costas direitas deram lugar a um personagem quase chaplinesco, de longos pés e engraçada maneira de andar.
Numa tarde de sábado, em que Alberto já organizara e arquivara os desenhos que os pequenos gémeos tinham produzido na semana anterior e se preparava para começar a pintar, Érnia entrou no escritório trazendo pela mão Manuel António Pinto.
- Quero que conheças uma pessoa... É o Manel ... - disse ela, e foi a primeira vez que Alberto a viu pouco à-vontade.
- Olá, Manel - disse Alberto, com um tal sentimento de irrrealidade, que se esqueceu da mão com o pincel, suspensa a caminho da água.
- Já nos conhecemos - disse o colega.
A enorme altura e o volume considerável de Manuel António Pinto atravessaram o escritório de Alberto para se postarem diante do quadro abstracto. Érnia e o marido ficaram a aguardar a consequência.
- Foste tu que fizeste? - perguntou o colosso. E, sem precisar de resposta - Gosto. Gosto mesmo muito.


In Império do Amor, Luísa Costa Gomes

08/06/2012

Da Escada


Adelaide chega a casa bastante tarde, pelas três e meia da manhã, e chama o elevador, que não funciona. Carrega de novo no botão, o prédio está completamente silencioso, ela decide subir os cinco andares a pé. Sente-se pesada, bebeu demais, pára ao fundo das escadas e olha para cima, a espiral do corrimão de mármore. Suspira e avança, acelerando sem se aperceber disso, a partir do segundo andar.
Pouco depois, ouve vozes na escada.
Pára, com medo de que sejam ladrões ou drogados. Choveu sem parar todo o dia. Com o Jorge tinha corrido mal outra vez. Ela vestira pela manhã uns collants que lhe estavam grandes e arrependera-se logo à saída de casa de não os ter mudado. Esse escorregar de collants, constante, corrosivo, num dia de muitas urgências que a obrigavam a estar de pé, acabara por transtorná-la. Não tinha querido ir dançar, e dançar era um passo importante da sua rotina com o Jorge. Eles encontravam-se para jantar e dormir juntos uma vez a meio da semana e de novo ao sábado, se ela não estava de banco, para passarem o domingo descansados. Ele ia buscá-la ao hospital, no centro comercial faziam horas para o jantar, escolhiam o restaurante, comiam, iam dançar, iam para a cama, se era quarta-feira ela voltava para casa, se era sábado dormia em casa dele. Mas hoje não houvera dança e decidiram ir para casa do Jorge mais cedo. Já iam amuados porque ele quisera debater mais uma vez a questão da existência ou não de classes sociais, questão que não conseguia despertar o interesse de Adelaide ; quando isto acontecia, ela deixava-o falar, entretinha-se a olhar as pessoas das outras mesas e a criticar intimamente o modo como comiam. Em dada altura, por mero desfastio, ou enojada com um desses gordos pequeno-burgueses, começara a contradizer o Jorge. Para pôr uma pedra em cima das classes sociais foram bebendo brandis, ele não quis desperdiçar a noite e propôs uma sessão de sexo , ela nem chegou a despir-se, e enquanto o acusava das coisas do costume e ouvia dele as acusações do costume, chegara-se à porta e saíra.
As vozes, algures no patamar de cima, suaves, uma pouco mais grave do que outra, continuavam , alternadas. A voz do rapaz, mudando, adolescente, hesitava nos princípios, muitas vezes tornava inaudíveis os fins das frases, que despachava para dentro, temendo talvez a interrupção da rapariga ; parecia não controlar o seu próprio volume de som , o riso era um guinchinho de rato, havia afirmações cuja veemência se frustrava na súbita falha da voz que se tornava de repente excessivamente velada e grave. Ela, por seu lado, atacava com verve e espírito todas as suas deixas e mantinha um ligeiro tom interrogativo que muitas vezes não era suficiente para provocar as respostas. Adivinhava-se que fizesse gestos, pausas expressivas, deitasse olhares intensos, porque havia ali no meio silêncios sérios, e o retomar da conversação parecia a Adelaide que se fazia sempre noutra clave, num patamar superior.
Passando-lhe o medo, Adelaide sentara-se.
- Porque é assim : - disse a rapariga - o corpo morre e a alma é imortal, quer dizer que sobra. O tipo morre, vai para debaixo da terra, passam os anos e abre-se o caixão e não está lá nada; foi-se, ficou um monte de ossos, às vezes nem isso. Ou queima-se e fica feito em cinzas e depois mistura-se no estrume e serve para pôr nos campos e qualquer dia estás tu muito descansado a comer na fruta um bocado do desgraçado. Já imaginaste os milhões e montões de almas imortais que ficam livres, olha só para o passado da Humanidade, os milhões e biliões de almas , onde é que isso está tudo? Hão-de estar em qualquer lado...
- As almas não ocupam espaço, não é? Podem estar em todo o lado e em lado nenhum, é a mesma coisa...
- Não ocupam espaço se forem uma ou duas. Agora milhões e biliões... De vez em quando sinto isso. O peso dessas almas todas em cima de mim.
- Se não ocupam espaço, não ocupam nem uma nem duas, nem um bilião.
- Mas há vários tipos de espaço e o espaço que não se ocupa também existe. Também faz peso.
- Não acredito nisso das almas - disse ele - quando se morre, morre-se todo e pronto. Não sobra nada. Nem pó.
- Então - perguntou ela, mas o seu tom não era de desafio - porque é que eu tenho medo de morrer à fome?
- Tens medo de morrer à fome? - perguntou o rapaz com o seu riso de rato. - Porquê?
- Sei lá! Até tenho pesadelos com isso e acordo e vou ao frigorífico só para ver se há alguma coisa para o pequeno-almoço. Acho que a minha mãe até já percebeu e deixa-me sempre tudo bem à vista, para eu não me assustar.
- Mas acordas com fome?
- Não tenho fome. Nunca sequer cheguei a ter fome. É por isso é que eu acho que as almas que sobram das pessoas que morrem, voltam ao mundo nos bebés que vão nascendo.
- E os bebés choram porque têm fome? É isso?
- Eu é que acho que devo ter morrido à fome noutra vida. E que é por isso que me faz impressão nesta vida.
- Nasceste com a alma doutra pessoa? Uma coisa já gasta, em segunda mão? Não achas um bocado porco isso tudo? É como usar uns sapatos velhos ou comer a pastilha elástica doutra pessoa.
- Não se consegue explicar isso, mas a morte é capaz de ser uma forma de lavar as almas, de apagar o que lá está, como nos dvd , para se poder gravar outra vez.
- Mas se apagam o que lá está, como é que te podes lembrar que morreste à fome?
- Ficam lá uns restos, não sei. Podem apagar as coisas, mas não as sombras que elas deixam.
- Mas tu não achas - disse ele, pela primeira vez com uma certa veemência - que esta vida...quer dizer, é uma merda tão grande, e ainda por cima nos obrigam a voltar?
- Ninguém te obriga a voltar.
- Então para onde é que vai a minha alma?
- Não sei.
- Ou voltam todas ou não volta nenhuma. Porque é que há-de haver umas almas que voltam e outras que não?
-Sim, se calhar obrigam-te a voltar. Não tens outra hipótese. Mas há pessoas que não acham nada que esta vida é uma merda. São felizes. Querem cá voltar, não querem morrer tudo de uma vez. Mas é que nem sequer se trata de querer ou não, porque uma alma não tem para onde ir a não ser para dentro de outro corpo. O que é que achas que uma alma andava por aí a fazer sozinha a voar, para onde é que ia? Isso são almas penadas. E eu se calhar tenho esta mania porque a minha alma, ou a alma que agora é a minha, já pertenceu a um tipo que morreu à fome, num campo de concentração ou a uma criança, em África, ou noutro sítio.
Houve aqui um silêncio prolongado que fez Adelaide hesitar. Sabia que bastava mexer um músculo, arranhar com o pé no degrau, para que eles se calassem, se debruçassem a ver quem ali estava. E aquilo que iriam dizer a seguir, a frase misteriosa e salvadora que os faria ligarem-se para sempre, ou continuarem hesitantes à procura do caminho de um para o outro, perder-se-ia, provavelmente sem apelo.
- Eu sinto - disse o rapaz por fim - também, às vezes, que sou outra pessoa. Se eu fosse eu, estás a ver, seria o eu do dia-a-dia, mas o eu não é o meu eu do dia-a-dia, porque eu sou outro, ou então, o eu normal já não sou eu, já fui eu, mas agora já não sou eu, ou ele é que sou eu...? O que eu quero dizer é que eu sou o eu normal do dia-a-dia, o eu que tu vês e os outros vêem, o que vai à escola e ouve... mas sou diferente disso, sou outro que não é esse. Se eu fosse eu já cá não estava.
- E essa pessoa que tu sentes que és, é capaz de ser uma alma doutra pessoa dentro do teu corpo a fazer-te medo de coisas de que não tens nada que ter medo.
- Eu não tenho medo - disse ele - sinto é que não sou eu.
- Sentes que és pessoas diferentes, como é que sabes qual é que és tu e qual é que não és?
- Sou sempre eu.
- Mas umas vezes mais do que outras...
- Sim, por exemplo agora.
- Agora és tu.
- Há uns dias tive que ir ao dentista e estava de boca aberta e ele tem um espelho enorme à frente da cadeira, daquelas que sobem e descem e deitam e levantam, vi-me no espelho e não era eu, com um babete à frente e uma coisa pendurada na boca. Não era o eu de todos os dias, era um tipo que eu vi num vídeo, um médico ou coisa assim, que matava gente, violava as mulheres e depois matava-as com uma anestesia e ninguém o apanhava, só lá para a quinta ou sexta mulher é que a polícia começou a desconfiar do homem.
- Mas não eras tu.
- Não.
- E porque é que foste pensar que eras um médico maluco que mata mulheres e não pensaste que eras um homem do talho com um cachimbo esquisito na boca?
- Também podia ser.
- Mas não foi. É o mesmo comigo. Porque é que eu tenho medo de morrer à fome? Lá em casa sempre houve tudo, muito, a minha mãe é fanática da cozinha, mata e esfola coelhos à mão, já te contei essa? Pega nos coelhos pelas orelhas e dá-lhes uma cacetada com o rolo-da-massa e depois tira-lhes a pele como se lhes despisse uma camisola.
- Achas que os animais também sabem que vão morrer? - perguntou o rapaz.
- Eles não podem falar, não é? Mas podem sentir e eu acho que eles sentem medo. Estás a ver o Estevão, o meu cachorro, sabe logo quando vai apanhar no focinho, fica a tremer de medo, achas que quando pegam num coelho pelas orelhas e o deixam pendurado no ar ele não sabe que lhe vai acontecer alguma coisa de mal? É claro que sente e é horrível, quando se pensa nisso e estamos a comer um frango e sabemos que o desgraçado deve ter sabido que ia morrer.
- Um frango? - perguntou ele - Achas que o frango também tem sentimentos?
- Então o coelho tem e o frango não tem porquê? São tudo bichos e até do mesmo tamanho, mais ou menos.
Aqui houve outro silêncio, mas breve, transitório. Adelaide estava a sentir-se muito cansada e fechou os olhos. Aquela conversa de coelhos e de frangos parecia não ir a lado nenhum. Eles eram tão miúdos... Começou a duvidar do seu poder, desconfiando ao mesmo tempo do valor e da importância do que diziam. Talvez não tivesse grande consequência interrompê-los, aquela não parecia uma conversa fundadora; mas o seu era um poder inevitável, mais cedo ou mais tarde teria de subir e revelar-se.
- Achas que a sotôra de Português tem alma?- perguntou ele.
- Deve ser a alma dum cão raivoso que morreu numa floresta gelada para onde teve de fugir sozinho depois de morder toda a gente na aldeia - disse ela.
- É lixada , parece que gosta de gozar connosco.
- Se tiver alma, vai para o Inferno.
- Para o Inferno? Não achas que ela reencarna numa toupeira ou numa cobra ou num animal assim repelente?
- Acho, acho. Mas de cobra não, eu gosto de cobras. Uma coisa mais horrível, reencarna num cancro ou numa doença que não tem cura. O que me faz impressão é... Já viste que nunca mais nos livramos do que fazemos? O que se faz, fica feito para sempre e não pode ser desfeito. E sofremos as consequências pelas várias vidas fora.
Ele concordava, entusiasmou-se:
- Dá um bocado de medo de mexer até um dedo. Já viste se eu agora te vou dizer uma coisa com uma intenção e tu percebes outra coisa ou percebes que a minha intenção era outra, muito diferente... quando me responderes, já vai ficar tudo lixado só porque não percebeste o que eu disse, nem a intenção com que disse.
- Podemos falar mais e tentar perceber.
- Mas não vês que se eu disser uma coisa e tu perceberes outra, quando disseres a coisa seguinte já vais partir do princípio que eu disse uma coisa que não disse, ou não disse com essa intenção, e portanto o que tu disseres já vem enganado e mesmo que eu diga que não era o que eu queria dizer, tu se calhar vais achar que aquilo que percebeste do que eu disse é mais importante do que aquilo que eu disse mesmo ou julgo que disse... E por aí fora, sem fim... Cada vez nos afastamos mais e estamos cada vez mais longe daquilo que queríamos dizer no princípio. Parece que, de cada vez que queremos acertar e dizer exactamente o que se passa, mais nos enganamos. É como estar a lutar contra uma corrente forte, que nos afasta da praia, e vemos a praia cada vez mais longe, e vamos arrastados para o alto mar e ninguém nos pode ajudar.
Ele calou-se e pela primeira vez a rapariga não lhe deu resposta. Adelaide sentiu um aperto na garganta, encolheu-se mais no seu canto, esperou que algum deles soubesse o que fazer.
- E se eu faço uma coisa que te magoa muito? - perguntou ela - E depois morro ou tu morres e não há mais conversa? Não achas pior do que tentar acertar? Ou mesmo do que andar enganado?
Ele não disse nada.
- Na nossa turma somos trinta - disse a rapariga - . Na tua turma, para aí outros trinta e tal, não é? Na escola toda, deve haver o quê? Seiscentos, mil? Então porque é que só tu e eu é que estamos aqui sentados a esta hora, nesta escada, deste prédio e a minha mãe já deve andar maluca à minha procura ?
- Mas tu se calhar podias estar aqui com outro a dizer as mesmas coisas.
- Se calhar não podia, estás a ver, e é isso é que faz confusão.
Aqui houve outro silêncio, mas Adelaide ouviu a rapariga mexer-se, sentiu-se mais intrusa do que antes porque imaginou que eles se beijavam pela primeira vez.
- Olha, Bruno.
- É bonito.
- És capaz?
- Chega cá.
- Cuidado com o cabelo.
- Está quieta.
- Não consegues?
- É lixado de abrir.
- Não, tira, tira. Tens de puxar, se não, não dá.
- Onde é que arranjaste?
- Toma, dou-te. Para te lembrares de mim.
- Não.
- Sério, dou-te.
- Não quero, obrigado. É teu, fica com ele.
- Mas eu quero dar-to.
- Não gosto de usar coisas ao pescoço.
- Mas toda a gente usa.
- Só os maricas.
- Parvo.
-Não fiques chateada, detesto usar coisas ao pescoço e pulseiras e essas merdas.
- Está bem, não uses dá cá.
Uma pausa. E depois, ele:
- Achas que se duas pessoas gostarem muito uma da outra, depois de morrerem , quando entram noutro corpo, encontram a pessoa de quem gostaram na vida anterior?
- Isso queria dizer que pelos tempos fora as duas pessoas andavam sempre uma com a outra, era capaz de ser um bocado monótono. Não havia grande variedade, estás a ver. Acabavam por não aprender nada.
- Mas se elas se sentissem bem uma com a outra... E se cada uma tivesse vivido várias vidas, já não seriam as mesmas pessoas.
- Se não eram as mesmas, porque haviam de se encontrar outra vez?
Era evidente que tinha ficado magoada com a recusa dele. A curiosidade de Adelaide aguçava-se, porque aquela era uma primeira ferida, que exigia um primeiro tratamento. Mas o rapaz também compreendera que só avançando podia reparar o mal. E disse, violento:
- Pois eu não quero cá voltar. Nem sequer quero cá ficar por muito tempo. Digo-te, já fiz um pacto comigo mesmo, vou-me embora se a minha vida não melhorar.
- Vais-te embora para onde?
- Logo vês.
- Está-se assim tão mal no Grande Forte do Silêncio?
- Fortaleza. Segurança Máxima. Cada vez pior. Quando se mexem, nem que seja ao de leve, acho que se vão atirar um contra o outro e que se vão despedaçar. Tipo Luta de Titãs. Mas agora os dragões já não lançam chamas. Recolheram as garras, pôs-se cada um no seu canto, nem se olham, só rosnam quando um entra no espaço do outro . Ao jantar, tremo o tempo todo. Fica-me a comida entalada numa bola na garganta, não passa. Penso : é agora, ele vai atirar-lhe com a faca do bife, é agora, ela vai estrangulá-lo com o guardanapo.
- Não podes estar sempre a pensar neles. Tens de pensar na tua vida.
- Com o peso daquelas duas almas em cima de mim? Não consigo pensar em nada.
- E as tuas irmãs?
- Risinhos, galinhas.
- Não te podes chatear tanto. Não ligues, finge que não existem.
- Quem não vai existir sou eu.
- Cala-te com isso. Se começas a pensar assim, a certa altura até já achas normal e isso é perigoso.
- Mas queres que eu te diga ou não queres saber?
Ela calou-se. Em baixo, Adelaide dividia-se : uma era a médica de hospital competente perante a ameaça de suicídio, a outra a vencida, silenciosa perante os ecos da escada. Depois ouviu, incrédula, o ronco do elevador. Alguém subia, alguém com o poder de fazer andar o mesmo elevador que se recusara a transportá-la. Olhou para o relógio, eram quatro e dez, o seu primeiro impulso não foi esconder-se dos miúdos, mas temer por eles qualquer interrupção, o medo que alguém mais viesse ouvir o que diziam . Alguém, quem sabe, que não tivesse conquistado, sentado na pedra fria, com os joelhos gelados e fixos, o mérito de os ouvir. Ficaram todos calados à espera de que o elevador parasse, o que fez, todo insólito, encravando a meio de dois andares. Adelaide calculou que em breve se ouviria um restolhar de gente, gritos de socorro, murros na porta. Mas ninguém chamou. E, passado pouco tempo, ela pôs o fenómeno na classe das coisas que acontecem sem razão alguma, descarga arbitrária de electricidade ou poltergeist de trazer por casa, e estava a tentar mudar silenciosamente a posição das pernas, esticando-as uma a uma lentamente e mimando-as de massagens calorosas, quando a rapariga disse:
- Os meus também não são fáceis de aturar, o que é que imaginas? A maior parte do tempo até parece que estavam melhor sem mim, ficam ali todos melados, olhos nos olhos, e vão-se fechar no quarto, outra lua-de-mel, Adélia? E lá vão eles, nem lhes ponho a vista em cima. E a minha mãe já a ouvi dizer que gosta de mim, claro que gosta, sempre sou filha, mas que se eu não tivesse nascido era igual. A ver se eu me ralo.
- Não contes isto a ninguém - pediu ele. - Fiz este pacto. Dei a Deus um ano para melhorar as coisas. Se Ele não quiser, e não o fizer, vou para debaixo do comboio.
- Achas que Deus está preocupado contigo?
- Problema Dele.
- Porque não te atiras antes de um penhasco? Último voo para Paris.
Ele calou-se. Estava magoado.
- Olha - disse ela .- Estou toda arrepiada.
Adelaide imaginou-a a mostrar o braço ao amigo, no escuro. Ele teria de lhe fazer uma festa para a sentir gelada. De repente, sem razão nenhuma, levantaram-se e começaram a descer as escadas, depressa, comendo degraus. Num instante chegavam ao patamar onde Adelaide, apanhada de surpresa, tentava compor uma imagem credível, procurando decidir se devia levantar-se e fingir que vinha agora mesmo a subir as escadas ou que se encontrava adormecida como qualquer vagabundo vulgar sem outro sítio onde passar a noite. Resolveu ignorá-los. Deixou-se estar sentada a olhar em frente, os braços rodeando os joelhos, contemplando, sonhadora, a janela e a chuva que continuava a cair lá fora . Só mexeu a cabeça para que o cabelo lhe tapasse a cara. Ouviu-os chegar e estacar a um passo dela, era mais que certo que trocavam algum olhar que ela não quis ver.
Inclinou o tronco para se chegar ainda mais ao corrimão e alargar o espaço da passagem. Sentiu os poderosos cheiros deles, os ténis molhados, o tilintar de mochilas e percebeu que o rapaz se adiantava, de cabeça baixa, as costas curvadas, fugindo nas pernas muito altas . Mas a rapariga voltara-se para encarar Adelaide, com um pé em cima e o outro dois degraus abaixo, o que lhe dava um aspecto provocante de pegador de touros. Levantando os olhos para ela, Adelaide sentiu-se um fantasma, uma alma que ainda não fora para lado nenhum . Mas a rapariga não mostrava medo, nem qualquer espécie de perplexidade. Via-se que o sobrenatural não a impressionava. Curvando a cabeça até quase tocar a cara de Adelaide, com um sorriso, levou um dedo à boca a impor silêncio.

in Império do Amor, Tinta Permanente, 2001

09/05/2012

Oír Ese Rio


"Hoje a Nuvem está toda de azul-bebé. Ou será azul-cueca? Blue is the colour of the sky, ai, ai, in the morning...". Era o primeiro bilhete da manhã, via Manuel, Joli, Teresa, com paragem e momices no Zé Fernando, que fingia sempre abrir e ler, irritando toda a cadeia de mensageiros. "Qualquer dia esgano aquele ali" escrevia eu. "Acho que é mais azul-eliane, só ela é que se lembrava de usar aquela cor." E o bilhete ia, de volta, por baixo das carteiras, de mão em mão. O Tito não se virava para mim quando recebia a resposta, mas eu via o canto do olho dele, sabia que era isto toda a nossa vida, a nossa escola.
Encontrei agora estes papéis nos confins duma gaveta, à procura de outra coisa. São, na maioria, folhas arrancadas a cadernos, umas com mais acerto do que outras, dependendo da urgência da mensagem; mas há fichas, guardanapos de papel, envelopes, bilhetes de cinema, programas de concertos, duas páginas de um dicionário de Francês da biblioteca, escritas em todas as margens. No ano seguinte mudaram a mobília da sala e ocupámos a mesma mesa de tampo de fórmica verde, lado a lado. Passámos então aos cadernos, em que escrevíamos à vez, embora seja difícil, em algumas passagens, determinar a autoria : fazíamos gala em nos imitarmos um ao outro; comentários que seriam caracteristicamente dele são escritos na minha letra redonda, espaçosa e preguiçosa, enquanto outros, que tudo levaria a esperar que fossem meus, aparecem feitos na letra bicuda e incerta dele. Tenho à minha frente quatro desses cadernos, escritos de ponta a ponta. São páginas e páginas de desenhos feitos a meias, máquinas compostas que levam legendas: "fábrica de salsichas e de tamancos, também produz velas de cera e, às quintas-feiras, sopa de tomate para quem se portar mal" ou uma "misturadora de cimento-grua-pocilga-saladeira-pistolinha (também bate-limpa-aspira)" e monstros, que se estendem por quatro ou cinco páginas e acoplam medusas a centopeias, dragões a coelhos de peluche e borboletas, tudo enfeitado de espadas heróicas e manchas de sangue que gotejam por cima de corações e cabeças decepadas. Numa janela-lareira-casaco-instituto de línguas, Tito pendurara uma tabuleta que dizia "avariado". Salomé e S. João Baptista, este cortado às peças, aparecem no segundo caderno, o profeta desgrenhado e ainda clamante, com interjeições à margem, exclamações dentro de balões de banda desenhada. "És um cão, Ana!" e a minha resposta: "És um pardalito, Tito". O nosso nome aparece por todo o lado, em letra desenhada por ele, gótica, arabesca, romana, letras que eram casas, ou bichos, outra vez máquinas que ele inventava. "Coelho Ana, dentes coelho!", escreve ele. "Morde o Tito!" e um coelho imenso salta do caderno para o atacar. Daí a pouco, na página seguinte, presumo que na primeira aula da manhã: "A Nuvem saíu-se ontem com uma muito inteligente. Conto pormenores depois da aula. Ao vivo e em pessoa". Às vezes é só um relâmpago desenhado a ocupar a página toda e, a meio dum caderno, três ou quatro folhas seguidas de pequenas nuvens muito correctas, nítidas, desenhadas a rotring fina, que ele acabara de descobrir e que experimentava em tudo.
Nada disto tem data, mas pelas minhas contas devíamos ter dezasseis anos e estar no princípio do nosso sétimo ano. Quase todos os dias começam com inscrições dele que se referem a Eliane. "A Nuvem cortou o cabelo, parece o Príncipe Valente"; eu acrescento "o Príncipe Valente debaixo duma valente carga de água. Tenho a impressão de que ela passou o cabelo a ferro com uma daquelas maquinetas de espalmar o alcatrão nas estradas". E, noutro dia: "A Nuvem traz uma saia toda catita, já viste? Será uma saia ou uma tanga?". E eu: "Saia não é com certeza e a tanga não mostra assim". O cabelo de Eliane, comprido até à cintura, liso e fino e brilhante, fora o nosso tema durante o período anterior. "Deve com certeza dormir de touca, estás a vê-la de touca, ou barrete de dormir, com borla vermelha", escrevia ele "pois tem de ser, se não sufoca, com o cabelo enrolado à volta do pescoço", punha eu; e ele, em letras tremidas, "aargh! sufoco! tirem-me deste cabelo! são facas, são agulhas, são agrafo" e passava o resto da aula a desenhar a Eliane afogueada, de mãos na garganta, enrodilhada numa cabeleira gigantesca de onde saíam patos grasnando, uma mobília completa de sala de jantar, um faqueiro para doze pessoas ainda no estojo e o famoso colchão do soneto do Tolentino, que o Tito sabia de cor. Agora ela cortara o cabelo pelos ombros e pusera franja e abria-se para nós uma paisagem nova de comentários e barbaridades.
Éramos duas almas perdidas, eu e ele. Íamos juntos a todo o lado, não fazíamos parte de grupos, não nos convidavam para festas, para aniversários, se nos convidavam não íamos, se íamos ficávamos a um canto a olhar de viés a companhia e saíamos ao fim de pouco tempo. Andávamos por Lisboa, subindo e descendo colinas, e imitávamos os miúdos da rua pendurados nos eléctricos à revelia do condutor. Apanhávamos o comboio, altas horas, discutindo o amor e a amizade e se Deus existia e porque não. Cantávamos, na carruagem vazia, a vozes, recriações dos Grateful Dead , dos Doors, dos Jefferson Airplane, dos Cream, dos Black Sabbath. O Tito preferia naturalmente cantá-las em tradução portuguesa, que eu acompanhava com trinados e voltas de fado. "Strange Brew, Estranha mistela - gritava ele, assim que o pica-bilhetes virava costas - estranha mistela, estranha mistela, mata o que está dentro de ti, que espécie de idiota é que tu és?". E eu, na exaltação final de uma noite em branco, dançaricava sentada e fazia harmonias. Só nos tínhamos um ao outro. Os professores conheciam-nos por Anitito, um nome colectivo que nos deslumbrava a ambos. Ninguém se atrevia, dos da nossa idade, a aproximar-se. Os que tentavam eram demolidos à força de comentários e crueldades. Levante-se o Anitito, venha cá o Anitito, e estávamos nas nuvens. Por isso, quando o Reitor nos chamava a ambos para me repreender só a mim - por andar descalça ou por usar calças compridas quando não era ainda permitido - acabávamos a manhã na praia a tomar banho completamente vestidos no mar gelado e a gritar a Ode Marítima a umas ondas que faziam o possível por parecerem bravias. Anitito. Isso nunca mais aconteceu na minha vida.
No princípio da Primavera, no entanto, aquela grande euforia, transformou-se, e dum dia para o outro, no mais negro dos sofrimentos. A uma página coberta de línguas que voam, sorrindo, ornadas de belas asas de galinha, ao encontro de botas fortes e botinas, seguem-se duas outras cheias de frases riscadas e de silêncios. "O que é que tens?", escrevo eu. "Nada, hoje não". E continuamos, linha a linha:
Cabisbaixo Tito.
Metediçana.
Tito Chato.
Chatana.
O que é que se passa?
Já passou.
O que é que foi?
Foi.
Diz lá, porra.
Não digas palavrões.
Se me apetecer.
Não me apetece.
És muito parvo.
Parvo é pequeno em Latim, sabias?
E é parvo em Português, minha besta.
Devíamos ter ficado zangados, não me lembro. A caneta é diferente na página seguinte, não é a rotring fina do primeiro caderno, nem a parker de tinta roxa do princípio do segundo, que ia da mão dele para a minha e regressava, perante a complacência dos professores. Pode ter havido um interregno, provavelmente não durou muito. E sou eu que começo:
- Meu Deus, são os Herman´s Hermits? São os Hollies?! Não ! É Crosby, Stills & Nash (salve-se o Young enquanto é jovem!). Como é possível cantar tão afinadinho? Tenho impressão de que falta qualquer coisa ao Crosby... quero dizer lá em baixo no gancho... tem uma voz tão fininha...
É melhor que nada, escreve ele.
É pior que nada.
Ou isso.
Como é que estás hoje? Melhorzinho?
Piorzinho.
Já vais falar ou é preciso ameaçar-te de morte?
Já estou ameaçado de morte.
????
De morte.
Seria talvez um bom sinal a linha de caveiras que desenhou, com o seu par de fémures cruzados, à maneira dos piratas. Queria dizer que nem tudo estava perdido e eu desenhei um cão esfaimado babando-se por baixo de cada caveira, à espera da queda dos ossos. E os cães diziam:
- Larga, que é meu.
Enquanto as caveiras, agora transformadas em crânios cantantes, comentavam:
- Somos pó, pó, pó. Somos pó, pó, pó.
Na página seguinte, provavelmente na mesma aula, o Tito escreveu:
O Tito gosta do narizito botanito da Ana. Tens uma borbulhona no botanito.
Não me digas, nem tinha reparado, embora ande a alimentá-la a Clearasil há bem uma semana. Mantém-te alerta.
Alerta estou.
Queres falar?
Estou a falar.
Do que te chateia, bolas.
Nada me chateia. Sou inchateável.
Ora ainda bem. Então vamos ao que interessa. Sabes distinguir um professor de Educação Física de um professor de Filosofia?
Um flecte e o outro reflecte?
São fáceis de distinguir, não têm nada em comum.
Um camba e o outro descamba - escreve ele.
Um corre e o outro discorre.
Um pula e o outro especula.
Um sobe e o outro sabe.
Um cheira mal e o outro sabe muito.
Há muitos bocados destes nos cadernos, um género de cânone que vai esticando, colado por um fio de sentido que ele próprio se enrola, desenrola, estende, condensa, e segue sempre, umas vezes melhor, outras pior, distinguindo parvos de idiotas, ou patos selvagens de galinhas da índia ou um dia de chuva de um dia de sol.
Daquela vez, no entanto, ele volta ao silêncio, numa página inteira de monólogo meu, em que a letra, em crescendo, vai da minha impaciência à irritação, enfim, à zanga. "Não queres falar comigo, acabou-se o Anitito".
Lembro-me só de uma tarde no parque - ou aquilo que penso ser uma tarde, e são provavelmente factos tirados de várias tardes e assim organizados. No entanto, nada se encontra nos cadernos que dê a entender o que eu sei que Tito me disse. A memória, a que resta, não consegue passar disto que está escrito ao que realmente terá acontecido fora dos cadernos. Terei estranhado a maneira como olhava para mim, com aquilo que me pareceu ansiedade, embora ainda não soubesse exactamente que nome dar à maneira fixa, tensa, mecânica com que palidamente o amigo me enfrentava. Pela primeira vez e talvez a última o Tito fez uma observação que, sem ser propriamente negativa, trazia uma sombra crítica que me afastou.
- Andas sempre assim descalça - disse ele - qualquer dia magoas-te a sério, cortas-te num vidro ou coisa parecida. Porque é que não tiras as botas de cima do ombro e as calças nos pés como toda a gente normal?
E ,sem qualquer transição, disse que há uns tempos que queria falar comigo, que não sabia bem o que se passava com ele, mas que gostava de ser mais do que amigo e o que é que eu achava de namorarmos. Eu disse que sim a tudo, sentia-lhe o mal-estar, queria pô-lo a salvo daquela provação. Ficámos um pouco calados , sem nos olharmos, sem nos tocarmos e, de comum acordo, caminhámos para saídas opostas do jardim.
Não nos devemos ter falado durante uns dias, porque a minha próxima mensagem no caderno é um desenho de dois bichos, que se soubesse desenhar melhor seriam ursos, cada um em sua jaula, em cantos opostos da página. A legenda, em gótico, que quase de certeza é minha, mas que imitava a letra dele, diz: "O namoro de dois ursos só pode fazer mal ao circo." "Hoje há espectáculo?", pergunta ele. "A ursa está constipada". O que parece, portanto, é que até eu tinha perdido a vontade de conversar, e com essa rejeição acaba o segundo caderno, deixando ainda em branco, e desolada, metade duma página perfeitamente preenchível, que um ponto final isolado e negro , bem encostado à direita na última linha, baliza com brio e galhardia.
É curioso que me lembre apenas das consequências da tarde em que me contou a paixão por Eliane. Vejo-me sentada à minha secretária, a fumar de cavalada um maço de Negritas pela noite dentro. No entanto, suspeito que a confissão de Tito tivesse sido muito demorada, muito rebuscada, feita de rodeios e de eufemismos, na intenção gentil e inútil de me poupar o sofrimento. Mas eu não sofria, afinal, sentia alívio e pena e experimentava extraordinária clareza de visão. Antes, na escada, subindo para casa dele, ouvíramos distintamente as Nights in White Satin, vindas da porta entreaberta dum vizinho. Tínhamos parado os dois no patamar, guinchado para dentro: Letters I´ve written, never meaning to send e lançáramo-nos a correr para cima. Tito desculpou-se, disse que eu não podia considerá-lo responsável pela música que os seus vizinhos ouviam. E deu-se ao trabalho de ir ao frigorífico buscar duas folhas de alface para me fazer um capacete protector.
Reconstituindo o que me dissera, percebi que se devia ter apaixonado há mais de um ano, assim que Eliane, recém-chegada de Madrid, entrara o portão do Liceu, com aquele dengue meio parado que a fazia chumbar anos, apesar da boa vontade de todos diante da sua beleza. Enquanto a rondava em horário extra-curricular, portanto, Tito chamava-lhe a "bela cabrita" e "a escultural beleza negra" nos nossos bilhetes e lançava suspeitas sobre a honestidade do pai mulato, diplomata-empresário-espião que trabalhava, dizia, em Espanha para o Governo português. Ninguém soube, e eu menos do que ninguém, que ele e Eliane tinham sido mais do que namorados novatos durante seis meses. Era amor de adulto, e tempestuoso. Não se mostravam, não se falavam diante de outros. Tito ia a casa.
O que me propôs, depois dos rodeios e pedidos de desculpa e salvaguardas e explicações e considerações que agora só posso imaginar, era que eu intercedesse por ele junto de Eliane. Para isso fizera aquela estranha actuação no parque, emaranhando-se nem ele sabia como numa teia que o levara a declarar, ainda que de raspão, um amor que não sentia, ficando depois desesperado de embaraço, sem saber nem como avançar, nem como recuar. Disse-me ainda que a amada me tinha em grande conta, porque eu, entre outras interessantes proezas, não me importava de ser apanhada a fumar na casa-de-banho e sabia distinguir em cada caso o dativo do ablativo, fenómeno que muito a confundia e maravilhava. Calculo que depois disto eu não tenha querido ouvir mais nada, usando por isso aquele modo muito meu de dizer que sim a tudo para poder sair do quarto do Tito e descer a escada onde os Moody Blues já não se queixavam, provavelmente ainda com as duas folhas de alface atadas à cabeça, e magoando os pés nas arestas dos degraus.
Foi assim que cheguei à fala com Eliane das calças-brancas, das longas unhas a que a palavra nacarado finalmente se aplicava, Eliane dos olhos-azuis fosforescentes e ela me recomendou, logo à entrada, uma nova marca de rimmel que não saía com água. Podia chorar-se à vontade, não esborratava.
- Rimmel para tristes? Rimmel para chorões? - perguntei.
E ela, como se fosse hoje:
- A ti no, bonita. A ti si, visita.
E eu, procurando fingir que ignorava o arrepio que me causava com a maneira esquisita de falar:
- Então não sai com água, sai com quê? Dióxido de enxofre?
Ela ficou a olhar-me num meio sorriso, de cima para baixo, porque tinha bem à vontade mais um palmo do que eu. Nesse silêncio eu vi uma aberta para lhe pedir que fosse a minha casa à tarde, precisava de lhe falar de um assunto que pedia a máxima discrição. Não sei se terei dito exactamente "discrição", mas o tom era esse, jocoso, cúmplice, passando-me, pelo menos temporariamente, para o lado dela.
Eliane tomou a peito o convite e apareceu-me no bater das três, mui bem trajada e maquilhada, como se estivesse a ponto de ir dançar fora. Eu não sabia bem o que fazer, ofereci-lhe limonada do dia anterior que encontrei no frigorífico e que ela bebeu aos golinhos, de perna traçada, bamboleando a sandália de plataforma dourada, entremostrando os dedos compridos e esguios dos pés, onde as unhas perfeitamente pintadas brilhavam como rebuçados de laranja. Antes que eu tivesse tempo de reagir, disse:
- Contemporizador, fisioterapêutica, antiescorbútica, cinematográfico, biblioteconomia,desmelancolizar. São tudo palavras com quinze letras, já reparou? Agora com dezasseis letras, veja se nota a diferença: cromotipográfica, pleuronectiforme, intencionalmente, colaboracionista, anticlericalismo, antropocentrismo, contraconceptivo...
- É só uma letra - interrompi - não faz muita diferença.
- Mas a música é outra, não acha?
- Talvez.
Apoderou-se de mim uma grande urgência de a ver pelas costas . Quis despachá-la e despachar-me. Introduzi imediatamente o tema Tito, ao que ela respondeu:
- Ama Ana sólo dios o ídolos Ana ama. Si Tito ya muere de reúma, muere de reúma y otitis. Si vivo no vivís. São três palíndromos, reconheceu-os?
- Se soubesse o que são palíndromos .
Eliane suspendeu-se, como quem acordasse. Enunciara as palavras com quinze e dezasseis letras, pausadamente, olhando para dentro, contando-as. O tique dela, e eu sei que foi exactamente o que fez o Tito cair amoroso sem salvação, era lançar a cabeça para trás e manter os olhos fechados um instante, apenas um instante mais do que o esperado:
- Desculpe... são palavras ou frases que dizem o mesmo lidas da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. Olhe este, parece-me engraçado, desculpe ser em espanhol, mas o Português é ingrato para palíndromos e jogos de palavras, eu suponho que por causa dos ditongos e do til, enfim. Si, si toses es eso, tisis.
- E engraçado - disse eu - mas e o Tito?
- Sé : amar drama es . Sé: amar broma es.
Estava apostada em impressionar-me. Passou aos anagramas, esses às dezenas, com o meu nome e o dela e o de Tito, com lugares, frutos, marcas de automóveis. Depois foram palavras em que a letra A aparecia quatro vezes. No fim de muita insistência, despertando para o meu desconforto, Eliane disse simplesmente que não amava Tito e rematou :
- Sé verle al revés.
O terceiro caderno é exclusivamente sobre ela. É aparente que eu continuo a falar com Eliane, sob pretexto de ir intercedendo pelo Tito, que pedia um último encontro, um último beijo, um último adeus, uma carta, um postal, um bilhete, um aceno, um olhar de longe, um pensamento carinhoso e ia baixando o estatuto do pedido diante das repetidas recusas dela. Deve ser da mesma altura, embora não tenha maneira de o saber ao certo, a imagem que guardo de Tito, ao pé das escadas que levavam ao primeiro andar onde Eliane tinha as aulas, a imitar o flautista dos Jethro Tull, de perna alçada, como um sátiro sem jeito, caricato. E ela, no primeiro degrau, sacudida de riso, nas suas impecáveis calças brancas que lhe caíam como abat-jours à volta das sandálias, os dedos dos pés de rebuçado espreitando, manhosos, a figura triste do meu Tito. O tom do terceiro caderno é, no entanto, e considerando o sofrimento em que ambos nos tínhamos instalado, jovial e quase sereno, interrompido por uma ou outra explosão delirante, como quando me pareceu obter de Eliane uma esperança de vida para Tito, que me trata por amor de amiga nas duas páginas seguintes. Falávamos constantemente dela, do que dizia e fazia e pensava e vestia e comia, ainda era a nossa cabrita, a beleza negra; e eu consolo e encorajo o Tito de cada vez que ele, exausto, pretende desistir, e não há em todo o escrito um momento de dúvida, uma hesitação, sequer uma pergunta.
No entanto, Eliane não me parecia agora menos monstruosa e incapaz do que no nosso primeiro encontro. Continuava a recebê-la em casa ou a encontrar-me com ela pelos Cafés e a ouvir-lhe enfadada as listas de palavras com oito sílabas, as considerações sobre as diversas tonalidades das palavras graves, os anagramas , os acrósticos, os mesacrósticos de que entretanto se tornara adepta, até uma tarde em que, não sei porquê, mas provavelmente determinada por uma razão próxima e suficiente, me pus a ouvi-la de outra maneira, não a autística ladainha de sempre, mas a revelação de uma coisa qualquer faiscante e que me era dada enquanto me fugia. O que terei percebido nessa tarde, e deduzo-o pela alteração de humor revelada a partir de finais do terceiro caderno, era que não sabia o que ela era. Vi que não sabia o que aquilo era, provavelmente nunca viria a saber. Talvez por isso escreva, ao alto da página: "Para si, meu caro amigo, tudo são folhos azuis", ao que ele acrescenta : "E negros céus e ânsia de beijos", e continuamos:
Para si, meu caro amigo, tudo é gordura e formosura.
E cemitérios de croquetes de vitela.
E pernilongas nacaradas cabeludas.
Que romântica, Ana!
Uma perna aberta e um seio firme.
Para mim para mim para mim.
Paraíso de alarves, escrevo eu.
Paraíso tout de même
Vossa Excelência não entende, abocanha
Por outras palavras, eu começo a ter pena dele e a desprezá-lo pela dupla traição - a que me cabe a mim e a que repetidamente comete contra Eliane - e o terceiro caderno esforça-se, em vão, por dissimular tanto o meu ressentimento como o medo de que ele o perceba. Devo ter demorado, ao todo, talvez um mês a compreender o que se passara no mês anterior. E nesse mês é evidente que não quero ver o que é visível, mas manter os olhos fechados um instante mais . A dissimulação é, no entanto, escorregadia e diálogos destes sucedem-se e as falas vão-se extremando, interrompidas por desenhos que imitam com desinteresse os dos primeiros cadernos inocentes e que agora são, grande parte das vezes, deixados a meio ou acabados à pressa. Isto devia ser o mês de Maio, estudávamos para os pontos, porque queríamos não ir a exame e sobretudo não fazer orais, que ambos temíamos como a própria morte. Páginas há em que nos esquecemos da cruzada e falamos como simples colegas: "Lembra-te de me passar a retroversão assim que acabares". E eu: "Não estou muito bem a ver como é que vou ter tempo de fazer três pontos de Latim, um para a Teresa, um para ti e um para mim". "O melhor é fazeres o meu primeiro, depois se vê". "Engraçadinho". "Trazes-me o livro do Camus amanhã?", "Não sei se terás idade para aquilo. Tem umas cenas muito puxadas". "Já me disseste.". "Há uma parte em que o velho dá um pontapé num cão. Não sei se vais aguentar". E, mais à frente: "Se ela não se cala, adormeço aqui mesmo". "Cala-te e sublinha". "Porque é que eu tenho de estudar a Revolução Francesa? Não me dizes? Para já, passou-se há mil anos, depois nem sequer foi no nosso Portugal." "Abaixo a França!", escrevo eu. "E a Inglaterra!", escreve ele. "Viva o nosso Portugal!" e seguem-se bandeiras, rodeadas de pares de bandarilhas dispersos e um olho enorme donde cai uma lágrima.
Eliane tratava o Tito por José. Mas logo na primeira vez, quando lhe chamou assim, aquela singularidade de ser a única a tratá-lo pelo seu nome mais comum pôs-me de sobreaviso. Nas raras conversas em que falámos dele, não tinha complacências. O Tito era cobarde, era falso, não havia coluna vertebral que o segurasse - e Eliane fazia um gesto de mão, que o relegava para a parte de trás da última Humanidade. Não conseguia que se lhe referisse senão de passagem, nem compreender que facto a decidira a tal opinião absoluta, o que tornava as nossas conversas extenuantes para mim. Percebera, aliás, ao longo desse mês e meio, que ela não se dava ao trabalho de fazer pontos nem exames. Estava acima dos nossos medíocres constrangimentos, não mencionava as matérias da escola, interessava-se por pedras, por jóias e pela extravagância linguística . Mas depois da iluminação em que percebi que não a percebia, descansei. Eliane não queria falar de Tito, não falaria. Acabara para mim essa missão. Podia, finalmente, ouvi-la sem interferências. O que eu ouvia não era muito diferente do que ouvira até ali. Mas era com outro ouvido que eu ouvia esse rio sereno de maquinações entre sílabas, que ela apresentava sem ironia, como um mistério que era preciso considerar dentro do espírito das curiosidades do nosso planeta. Era um rio que me levava, no entanto, para longe dela, e por arrastamento, para longe dele.
O quarto caderno traz-nos gradualmente a ambos à falsa gravidade de uma ficção, com a pedanteria comum das obras de estreia. As frases que tinham sido nossas são agora usadas para ocultar e fingir. Há subtilezas, estruturas, recorrências, suspensões, cenas dos próximos capítulos. Calculo que três quartos do que lá está sejam citações, de Sartre, de Camus, dos Doors, de Rilke, que o Tito traduz livremente e toscamente, usando os primitivos conhecimentos de Alemão - "Todo o espaço feliz é filho ou neto duma separação ultrapassada com espanto", ao que eu aponho: "Qual é o limite de velocidade para uma separação? Cuidado na ultrapassagem!", e mais à frente, em maiúsculas: "Adianta-te a toda a despedida, como se estivesse já atrás de ti, como o Inverno que agora acaba". E eu : "E os exames à porta!". Tito vai, de resto, muito atrás do Álvaro de Campos, com poemas que chegam a estender-se por dez páginas, cheios de exclamações e sentimentos exaltados interrompidos por questões quase filosóficas "porque a amo tanto? porque preciso tanto dela?". Deixámos de brincar. Não há desenhos, não há experiências. Anitito assumiu a sua forma retórica definitiva. Mesmo um poema - um mesacróstico - cujo sentido era Antes Morto, não chega para me preocupar. E o que sempre pensei ser uma espécie de elegia fúnebre por Eliane, que entretanto deve ter partido para Madrid, vejo agora ser uma pobre despedida a Ana & Tito. A história do quarto caderno, que vai da dissimulação ao toca-e-foge, daí à guerra aberta, uma curta negociação, uma recaída na dissimulação, mais apelos da parte dele, sempre ouvidos com meio-ouvido por mim e acatados com meia-alma, é a da clara consciência das nossas recíprocas traições e o estabelecimento do preço que havíamos de pagar por elas. É Tito que começa, escrevendo que a minha amizade por Eliane é uma forma de vingança contra ele. Eu, ofendida, hipócrita, a negá-lo. "Vingança de quê?" pergunto, humilhada. "O inferno são os outros!", responde ele, com certeza embaraçado. Susceptibilizado pela traição que lhe faço, fala em mudar-se para Coimbra, sair de Lisboa logo no dia a seguir ao final das aulas. Deve ser princípio de Junho. Ainda me propõe que vá com ele, mas eu já não acredito em nada. E o caderno acaba suspenso por dois cordéis: um diz, na letra certificadamente de Tito "ela não é nada. não precisamos dela" e o outro, num tom melodramático: "vem ter comigo à praia, sabes onde, preciso de te falar, urgente, sem falta, já, imediatamente".
Se me conheço bem, e dada a história anterior, sou capaz de ter lá ido fingir que continuávamos melhores amigos inquebrantáveis. Sou capaz de ter lá ido consolá-lo e oferecer-lhe mais préstimos e mais créditos. Talvez não me lembre se fui, exactamente porque hoje me envergonha. Não me ocorre imagem nenhuma, a não ser uma figura fluida, ao fundo, sentada na areia, encostada a uma rocha. Pode ser o Tito. Mas também posso ser eu.


In Império do Amor, Luísa Costa Gomes

09/04/2012

Por Extenso


Quero o maior! – desde pequeníssima, sempre o maior. O urso : o maior. O cãozinho : o maior. O livro, se o escolhia : o maior, o com mais cores , o com a letra mais gorda. E, na comida: o prato maior, a fatia maior, a posta maior. O bolo : evidentemente, o maior. Poupada apenas nisto das letras. Abreviaturas, simplificações. Escolhido para nome Nê, porque encontra muito comprido o que lhe impuseram – Ana Lúcia é o seu nome da escola, com que assina os testes e os trabalhos, e Nê o seu nome livre.
Vai agora a atravessar a passadeira de peões e a escrever uma sms ao mesmo tempo. É um truq q costuma fzer para mostrar q tanto se lhe dá. Que é forte. Um carro pára, os travões guincham, os pneus até dtm fmo, a mulher baixa o vidro e grita-lhe :
- Ó menina, quer ir já para o céu, tão novinha?
Nê treme tanto que os dentes chocalham na boca, o carro a dois milímetros dos ténis de plataforma que nesse dia estreia, o telemóvel na mão onde a sms começada ainda enlanguesce : “vmos hje ao cc cnema k v o k?”; e a condutora olha-a de dentro da carrinha familiar, sorrindo, cínica e arrancando, em esfogueteada primeira, grita:
- Menina (...) ! Menina Qualquer Coisa, palavra que ela não percebe e escreve no tlm “ia sendo atropelada! tou aq td a trmer!” e envia à Ana Márcia que lhe responde logo “táse!”.
Aq palavra q ela não percebeu teve um efeito curioso em Ana Lúcia. Começou a tomar mais atenção ao mundo, a estar mais alerta para td o que ia e vinha à sua volta, à espera de a reconhecer. Podia acontecer em qualquer lado, na piscina, a meio de um salto da prancha, e ter a orelha tapada pela touca. No polivalente, à passagem de alguém, embora lhe parecesse pouco provável. No polivalente havia sobretudo ruído. Mas era preciso estar preparada. No café, ao interv do almoço, no meio da vozearia dos rapazes que se batiam por td e por nada, ouviu a palavra “desconchavada” vinda de uma mesa de mulheres-gralhas e achou q não era Aquela a Que Demandava, mas acabou por ficar.
Agora, em vez de responder “táse” quando o tio António, o meio tolinho meio irmão do pai q vive na cave, lhe pergunta com um olho meio fechado : “Q tal o dia...? Na escola...?”, ela diz “Olha, tive um dia mesmo desconchavado”, deixando a Leila interdita, com a franja a encaracolar-se-lhe e a escova de alisar o cabelo a pilhas rodando estupidamente na mão. Foi lanchar, quase sem fome, escolhendo a fatia maior. Leila disse, no dia seguinte, afundada na torrente de palavras sem sentido com q normalmente a enviava para a escola: “encardida”. “O quê?”, perguntou. “O quê o quê?”, perguntou a Leila. “Disseste que a camisola estava o quê?”. “Encardida?”. A palavra que Ana Lúcia buscava não era “encardida”, mas passou a usá-la tb. na frase “ Sinto esta fase da minha vida um bocado encardida”. E comeu pouco ao pequeno almoço.
SMS para cá e para lá nas aulas. O tema: um MMS da Ana Sandra que mostrava um homem todo nu com uma grande cabeça de abóbora. Mas Nê já estava noutra. Achou os colegas todos “lúgubres”. E, no interv das dez e meia, espantou a Ana Margarida ao dizer que a comida do refeitório era “sórdida”, que o Paulo andava “sorumbático” e “extravagante”, mas sorriu ao nome da namorada dele, quando lho disseram : Mirtília Túlia. Não era de troça, era um nome q era um nome verdadeiro. E a frase favorita : “ O Paulo é cá um lapa”. E o filme de murros no centro comercial? “Inane”, comentou. Procurou (sem realmente procurar) os sítios onde seria mais provável ouvir o que não percebera da primeira vez. A casita onde morava com o meio tio e a mulher, Leila, passou a ser uma “choça” e o carro deles um “chaço”. Olhou Silvestre, o misterioso vizinho que estudava matérias misteriosas, com nova motivação. Espiava-o do seu pátio em frente à garagem e achava tudo feio – fora a cameleira, “deslumbrante”. E pequenos musgos no muro, “pitoresco”. Não falava muito. Ficava a apreciar o pouco que tinha, procurando as palavras mais apropriadas com gula. Não era, por exemplo, paixão o que sentia por Silvestre, mas “encantamento”, e em outros momentos, “delírio”. De vez em quando escrevia uma palavra no muro, de líquen a líquen. Silvestre, entretanto conquistado pelo prolongado silêncio dela, convidou-a para tomar um café. Acompanhou-a à vitrina.
- É um pastelzinho, por favor – pediu Ana Lúcia - aquele ali.
E apontou, discreta. Era o mais humilde, mas foi dito por extenso, com um belo sorriso de amor, com as letras todas.

In Setembro, Luísa Costa Gomes

19/03/2012

Vítimas de uma História muito longa e imbricada


Para iludir o spleen dos domingos, iam até Lisboa. Embora ilimitados, os encantos dos três cafés, a surpreendente variedade de bolos, as belezas sossegadas da praceta, da esplanada, da praia e das colinas de Paço de Arcos, não chegavam a entusiasmá-las. Tinham quinze anos, uma queria ser médica, a outra mudava de ideias todos os dias. Ao sábado, as aulas acabavam à uma da tarde. Elas começavam pelas três as voltas à praceta, descidas à praia, subidas aos campos. Passando como proscritas pelos grupos de amigos, formados à roda das motoretas, ouvem-nos de raspão falar de cilindradas e de professores do liceu. As raparigas do grupo, periféricas aos rapazes dos motores, olham de viés essas que aí vão, fora do jogo. No dia seguinte, depois da missa, só a ideia de refazerem, pela tarde, o que ficara feito no dia anterior, lhes aperta a garganta, lhes dá vontade de chorar.
Agora uma diz que se tratava de um passeio normal, a outra insiste que só esporadicamente saltavam para o comboio que as levava a parar em todas até ao Cais do Sodré. Uma lembra-se de viagens diferentes, que a outra diz não ter acompanhado, por não se recordar dos pormenores. A primeira reclama da má qualidade da memória da segunda. A segunda protesta que é a primeira a cometer confusões, a misturar as épocas e reclama do abuso. Estão as duas no intervalo maior, na sala de aula de uma delas - e sem saber como, foram parar ao passado.
Já nessa altura, nos domingos de mil novecentos e sessenta e oito, só se encontrava no centro da cidade quem não tinha mesmo mais nada que fazer. Os divertimentos eram poucos e consistiam sobretudo em passear e em olhar. Grande parte deste passear e deste olhar fazia-se em ruas, praças, igrejas e castelos. A elas, ainda incertas dos interesses espirituais próprios, a arquitectura, e mesmo a história daquelas pedras motivava pouco.
O entretenimento que sobrava eram os estrangeiros. Havia relativamente poucos franceses. De qualquer modo, o francês era uma língua escolar, que evocava o senhor e a senhora Dupont dos manuais, com os dois pequenos Marie e Michel e as suas actividades impossivelmente pequeno-burguesas. Quando interferidos na promenade, os franceses respondiam mal aos avanços delas. Eram desconfiados e as mulheres faziam beicinho aos contratempos. Não gostavam que se lhes demonstrasse que não estavam absolutamente a par de tudo, passado ou presente. Se as raparigas, no seu fervor, diziam que os portugueses tinham inventado as touradas, o casal antipático lembrava que já os Gregos, já os Micénicos se confrontavam com a besta e, ainda por cima, não se matavam aqui os toiros como era de lei . Se , em desespero, elas falavam de Francisco Sanches, de Pedro Nunes e do nónio, não muito seguras da importância universal daqueles sábios, o casal havia de encolher os ombros, de recordar a Inquisição, as Invasões, quando não a guerra em África. Só mais tarde, uns anos mais tarde, é que os franceses se renderam ao típico e exigiram ser levados como iguais às tascas onde se comem as coisas populares. Os alemães, por seu lado, punham dois problemas : não falavam línguas e eram demasiado cultos. Quando falavam Inglês, e o faziam sem esforço e sem desagravo para as glotes, eram temíveis. Ninguém conseguia enganar um alemão. Quando ouviam as raparigas dizer que os portugueses tinham descoberto a América, o Brasil, o Japão, povoado a Índia e, sem qualquer ajuda, colonizado duma penada o continente africano, olhavam friamente uma e outra raparigas, abanavam a cabeça e puxavam do guia de bolso. Esse livro estava cheio de datas, de reproduções de fachadas e repunha a verdade dos factos. Não havia nada de mais humilhante do que um alemão bem informado.
Houve outros dissabores. O maluco que as perseguiu um dia, Rua dos Fanqueiros abaixo, teimando em convencê-las de que era ele mesmo Pedro Álvares Cabral. Os dois velhos surdos que elas acompanharam pelas ruas de Alfama em altos brados, fazendo assomar às portas as comadres interrompidas no eterno dormitar. Uma família de nacionalidade indefinida, intrigante, com três meninos tão bem comportados que davam arrepios na espinha, colados como guarda-costas às saias da mãe. E os turistas que, de guiados se transformavam em guias, e as puxavam por capelas, por museus, a explicar as riquezas patrimoniais que lhes davam sono e tédio. Havia ainda as nacionalidades intermédias que não tinham para elas qualquer interesse: os luxemburgueses, os holandeses, felizmente raros ; evitavam aproximar-se de noruegueses , suecos e dinamarqueses pela reputação de imoralidade que os precedia. E os espanhóis de todos os quadrantes, evidentemente, não contavam.
Por isso elas preferiam, sobre todos os outros, os americanos. Entre esses, os hippies americanos no Rossio. Entre esses, preferiam os que tivessem as jeans mais rasgadas, os pés mais sujos, os cabelos mais emaranhados. Se eles tocassem guitarra, a tarde estava ganha. Estes rapazes americanos, foram elas descobrindo com a experiência, eram de uma candura inexcedível. Se lhes diziam que tinham sido os portugueses a inventar o telefone, o fio do telefone, a linha do comboio, as árvores de fruto, o andar em pé, maravilhavam-se. Maravilhavam-se igualmente de tudo, fosse o elas terem caçado leões, haver termas romanas por baixo do Rossio, ou ter o bom do Giraldo Giraldes ficado entalado na porta de um castelo. Não eram capazes de suspeição. Iam sempre dedilhando a sua guitarra, e dizendo bestial, incrível. Eram tão fáceis como difíceis de impressionar. Uma diz agora que não era por isso que preferia os americanos. Preferia os americanos porque eles se estavam nas tintas para o lugar. Insiste que, a maior parte das vezes, eles nem sabiam bem onde é que estavam. Não estavam na América, isso chegava-lhes. Era tudo bestial, o mar, o sol, as raparigas. E ela queria era ir para a América e não se lembrar mais de onde é que estava. A outra diz que não era bem assim. Admite que eles não fariam muito finca-pé na verdade dos factos, porque o americano não compreende a noção abstracta de História Muito Longa e Imbricada, apenas aceita a ideia de Facto Histórico Concreto. Mas tem de concluir que eles sabiam que estavam a ser vigarizados, como era possível não saberem que os portugueses não tinham inventado o telefone? Era por delicadeza que se maravilhavam. Afinal, estavam num país que não era o deles. E é preciso ver que, por mais nordestinos que fossem, tinham o seu quinhão - nesse tempo ainda limitado - de convivência com Latinos. Começavam a reconhecer, educados pelo cinema, a figura e as patranhas dos Mexicanos . Na pior das hipóteses, tinham atravessado a Espanha. E desenvolvido, com isso, uma atitude de entusiasmo sem compromisso em relação a tudo o que lhes quisessem contar.
É preciso saber que todos estes estrangeiros, cultos ou brutos , para além do fascínio inerente para elas ao simples facto de serem estrangeiros, vinham favorecidos pela experiência da viagem. Elas tinham Paço d´Arcos e o liceu. Imaginavam esses longos e retorcidos percursos, sem rumo, leves, de mochila às costas. Toda a experiência das viagens. O que tinham para dar? O Quinto Império do Mundo e uma guerra em África.
O seu modus operandi tinha poucas variações. Agora, caladas na sala de aula, ouvindo o tumulto dos miúdos no recreio, uma pensa que não havia intenção deliberada, que tudo se passava por acaso. Pensa que é a outra a inventar um propósito, quase um sistema, onde ele nunca chegou a existir. Mas para a outra é claro que pelo menos o método de aproximação era constante. É verdade que tanto podiam meter conversa com um casal de velhos alemães, como com três colegiais suíças que, com risinhos, procuravam maneira de chegar ilesas ao Castelo. A acostagem dava-se logo no Cais do Sodré, porque era aí que começavam as dificuldades dos turistas saídos do comboio. Para onde ir? Que autocarro tomar? Onde descer? Era sobre essa aflição do turista que elas agiam.
Uma diz que era sempre a outra que começava . A segunda afirma que não teria imaginação para tanto. A primeira lembra-se da versão - tão inventada como outras - da lenda de S.Vicente, em que os corvos que acompanharam a barcaça do santo se transformavam em abutres negros, uma espécie rara e que hoje não existe na Península, e comeram - enquanto conversavam, porque eram abutres muito faladores - as entranhas do primeiro traidor português, um tal Gonçalo Anes de Bandarra, que elas esperavam não constar dos guias .
Depois era conforme. Se os tinham ali, fixos e bem impressionados, evoluíam para histórias de casas assombradas na baixa pombalina. Velhos arruinados que se atiravam de janelas, na tradição solene dos Vasconcelos. Muito ouro, afundado em galeões, à boca do porto. Histórias de amor negro, com corações arrancados, palpitantes, pela boca. E a epopeia das Descobertas, com a sua procissão de sucessos, colocação de padrões, invenção do mundo, domínio do mundo . Eram mitos universais, não tinham nada que enganar. Os velhos alemães, se percebiam o Inglês delas, sorriam de uma certa maneira. As raparigas suíças davam os seus gritinhos, em pé aos solavancos no eléctrico dos Prazeres. Lá estava uma mais séria que pedia pormenores, para se recolher a ponderar. E havia sempre um momento em que passava nos olhos do estrangeiro uma espécie de medo, que o retraía.
- Medo de quê? - pergunta a primeira - De duas miúdas que se divertem a contar patranhas aos turistas?
Essa diz que não era medo, mas suspeita, depois certeza. A outra insiste que era medo, havia sempre um momento em que eles tinham medo. Do nosso império? Da nossa força? Não sei de quê, responde a segunda, nem há mistério. Medo de ser escolhido para a mentira numa terra alheia.
- Porque deixámos de o fazer? Ter-nos-á acontecido alguma coisa?
A segunda, talvez porque tenha acabado por se dedicar ao estudo da História, responde que tudo acaba um dia naturalmente, pela mera força da passagem do tempo. Mas também sabe que deve ter acontecido alguma coisa que possa fazer as vezes de uma conclusão.
- Lembro-me de um inglês- diz a primeira - de bicicleta e sandálias.
Houve um senhor inglês de bicicleta que, naquele tempo , era coisa pitoresca de labrego. As sandálias com meias, fundo motivo de riso. Que lhes disse ele? Ficam ambas caladas, olham para o quadro verde onde uma alinhou as formas de um verbo em -ir, e esse inglês entre elas, muito rosado, com o panamá descaído sobre os óculos de lentes grossas. Perguntou-nos primeiro se éramos portuguesas, diz uma. E tu disseste “infelizmente”. E ele até estremeceu. A segunda tem de concordar. Estavam à porta da Sé e ele tinha-as ouvido falar Inglês com uma rapariga que esbracejava sobriamante num pânico todo alemão. Segundo perceberam, a fachada da Sé não correspondia à reprodução que ela trazia no seu livro de bolso. Estava suja, estava velha, e ficava contra todas as expectativas a meio de uma subida. Paisagisticamente, o fenómeno era um desastre.
A primeira diz que o inglês deve ter feito uma pergunta muito simples. Uma pergunta cuja resposta se aprende nas primeiras classes e se esquece em virtude do peso de tantos outros factos que se aprendem depois. Elas ficaram as duas em silêncio um bom bocado e a primeira diz que foi a segunda que decidiu mentir. Como fazíamos sempre, diz a acusada. Como fazíamos sempre. A meio da resposta pronta, o inglês montara na bicicleta, disposto a descer para a Baixa. Já de perna alçada, abanara vigorosamente a cabeça, lançara-lhes um olhar rancoroso que as desmoronara:
- You don´t know? You don´t know?
Vieram, sem ser propriamente atrás dele, descendo silenciosas, parando só no Cais das Colunas. É curioso, diz a primeira, é exactamente assim que me vejo ainda. A segunda brinca: não, eu nessa altura ainda não sabia de que terra era. Dando as costas aos turistas que passavam de mãos dadas, em pequenos bandos, ficaram ambas viradas ao rio, pregadas ao chão - e tinham aos ombros todo o peso de Lisboa.


In Setembro, Luísa Costa Gomes