19/03/2012

Vítimas de uma História muito longa e imbricada


Para iludir o spleen dos domingos, iam até Lisboa. Embora ilimitados, os encantos dos três cafés, a surpreendente variedade de bolos, as belezas sossegadas da praceta, da esplanada, da praia e das colinas de Paço de Arcos, não chegavam a entusiasmá-las. Tinham quinze anos, uma queria ser médica, a outra mudava de ideias todos os dias. Ao sábado, as aulas acabavam à uma da tarde. Elas começavam pelas três as voltas à praceta, descidas à praia, subidas aos campos. Passando como proscritas pelos grupos de amigos, formados à roda das motoretas, ouvem-nos de raspão falar de cilindradas e de professores do liceu. As raparigas do grupo, periféricas aos rapazes dos motores, olham de viés essas que aí vão, fora do jogo. No dia seguinte, depois da missa, só a ideia de refazerem, pela tarde, o que ficara feito no dia anterior, lhes aperta a garganta, lhes dá vontade de chorar.
Agora uma diz que se tratava de um passeio normal, a outra insiste que só esporadicamente saltavam para o comboio que as levava a parar em todas até ao Cais do Sodré. Uma lembra-se de viagens diferentes, que a outra diz não ter acompanhado, por não se recordar dos pormenores. A primeira reclama da má qualidade da memória da segunda. A segunda protesta que é a primeira a cometer confusões, a misturar as épocas e reclama do abuso. Estão as duas no intervalo maior, na sala de aula de uma delas - e sem saber como, foram parar ao passado.
Já nessa altura, nos domingos de mil novecentos e sessenta e oito, só se encontrava no centro da cidade quem não tinha mesmo mais nada que fazer. Os divertimentos eram poucos e consistiam sobretudo em passear e em olhar. Grande parte deste passear e deste olhar fazia-se em ruas, praças, igrejas e castelos. A elas, ainda incertas dos interesses espirituais próprios, a arquitectura, e mesmo a história daquelas pedras motivava pouco.
O entretenimento que sobrava eram os estrangeiros. Havia relativamente poucos franceses. De qualquer modo, o francês era uma língua escolar, que evocava o senhor e a senhora Dupont dos manuais, com os dois pequenos Marie e Michel e as suas actividades impossivelmente pequeno-burguesas. Quando interferidos na promenade, os franceses respondiam mal aos avanços delas. Eram desconfiados e as mulheres faziam beicinho aos contratempos. Não gostavam que se lhes demonstrasse que não estavam absolutamente a par de tudo, passado ou presente. Se as raparigas, no seu fervor, diziam que os portugueses tinham inventado as touradas, o casal antipático lembrava que já os Gregos, já os Micénicos se confrontavam com a besta e, ainda por cima, não se matavam aqui os toiros como era de lei . Se , em desespero, elas falavam de Francisco Sanches, de Pedro Nunes e do nónio, não muito seguras da importância universal daqueles sábios, o casal havia de encolher os ombros, de recordar a Inquisição, as Invasões, quando não a guerra em África. Só mais tarde, uns anos mais tarde, é que os franceses se renderam ao típico e exigiram ser levados como iguais às tascas onde se comem as coisas populares. Os alemães, por seu lado, punham dois problemas : não falavam línguas e eram demasiado cultos. Quando falavam Inglês, e o faziam sem esforço e sem desagravo para as glotes, eram temíveis. Ninguém conseguia enganar um alemão. Quando ouviam as raparigas dizer que os portugueses tinham descoberto a América, o Brasil, o Japão, povoado a Índia e, sem qualquer ajuda, colonizado duma penada o continente africano, olhavam friamente uma e outra raparigas, abanavam a cabeça e puxavam do guia de bolso. Esse livro estava cheio de datas, de reproduções de fachadas e repunha a verdade dos factos. Não havia nada de mais humilhante do que um alemão bem informado.
Houve outros dissabores. O maluco que as perseguiu um dia, Rua dos Fanqueiros abaixo, teimando em convencê-las de que era ele mesmo Pedro Álvares Cabral. Os dois velhos surdos que elas acompanharam pelas ruas de Alfama em altos brados, fazendo assomar às portas as comadres interrompidas no eterno dormitar. Uma família de nacionalidade indefinida, intrigante, com três meninos tão bem comportados que davam arrepios na espinha, colados como guarda-costas às saias da mãe. E os turistas que, de guiados se transformavam em guias, e as puxavam por capelas, por museus, a explicar as riquezas patrimoniais que lhes davam sono e tédio. Havia ainda as nacionalidades intermédias que não tinham para elas qualquer interesse: os luxemburgueses, os holandeses, felizmente raros ; evitavam aproximar-se de noruegueses , suecos e dinamarqueses pela reputação de imoralidade que os precedia. E os espanhóis de todos os quadrantes, evidentemente, não contavam.
Por isso elas preferiam, sobre todos os outros, os americanos. Entre esses, os hippies americanos no Rossio. Entre esses, preferiam os que tivessem as jeans mais rasgadas, os pés mais sujos, os cabelos mais emaranhados. Se eles tocassem guitarra, a tarde estava ganha. Estes rapazes americanos, foram elas descobrindo com a experiência, eram de uma candura inexcedível. Se lhes diziam que tinham sido os portugueses a inventar o telefone, o fio do telefone, a linha do comboio, as árvores de fruto, o andar em pé, maravilhavam-se. Maravilhavam-se igualmente de tudo, fosse o elas terem caçado leões, haver termas romanas por baixo do Rossio, ou ter o bom do Giraldo Giraldes ficado entalado na porta de um castelo. Não eram capazes de suspeição. Iam sempre dedilhando a sua guitarra, e dizendo bestial, incrível. Eram tão fáceis como difíceis de impressionar. Uma diz agora que não era por isso que preferia os americanos. Preferia os americanos porque eles se estavam nas tintas para o lugar. Insiste que, a maior parte das vezes, eles nem sabiam bem onde é que estavam. Não estavam na América, isso chegava-lhes. Era tudo bestial, o mar, o sol, as raparigas. E ela queria era ir para a América e não se lembrar mais de onde é que estava. A outra diz que não era bem assim. Admite que eles não fariam muito finca-pé na verdade dos factos, porque o americano não compreende a noção abstracta de História Muito Longa e Imbricada, apenas aceita a ideia de Facto Histórico Concreto. Mas tem de concluir que eles sabiam que estavam a ser vigarizados, como era possível não saberem que os portugueses não tinham inventado o telefone? Era por delicadeza que se maravilhavam. Afinal, estavam num país que não era o deles. E é preciso ver que, por mais nordestinos que fossem, tinham o seu quinhão - nesse tempo ainda limitado - de convivência com Latinos. Começavam a reconhecer, educados pelo cinema, a figura e as patranhas dos Mexicanos . Na pior das hipóteses, tinham atravessado a Espanha. E desenvolvido, com isso, uma atitude de entusiasmo sem compromisso em relação a tudo o que lhes quisessem contar.
É preciso saber que todos estes estrangeiros, cultos ou brutos , para além do fascínio inerente para elas ao simples facto de serem estrangeiros, vinham favorecidos pela experiência da viagem. Elas tinham Paço d´Arcos e o liceu. Imaginavam esses longos e retorcidos percursos, sem rumo, leves, de mochila às costas. Toda a experiência das viagens. O que tinham para dar? O Quinto Império do Mundo e uma guerra em África.
O seu modus operandi tinha poucas variações. Agora, caladas na sala de aula, ouvindo o tumulto dos miúdos no recreio, uma pensa que não havia intenção deliberada, que tudo se passava por acaso. Pensa que é a outra a inventar um propósito, quase um sistema, onde ele nunca chegou a existir. Mas para a outra é claro que pelo menos o método de aproximação era constante. É verdade que tanto podiam meter conversa com um casal de velhos alemães, como com três colegiais suíças que, com risinhos, procuravam maneira de chegar ilesas ao Castelo. A acostagem dava-se logo no Cais do Sodré, porque era aí que começavam as dificuldades dos turistas saídos do comboio. Para onde ir? Que autocarro tomar? Onde descer? Era sobre essa aflição do turista que elas agiam.
Uma diz que era sempre a outra que começava . A segunda afirma que não teria imaginação para tanto. A primeira lembra-se da versão - tão inventada como outras - da lenda de S.Vicente, em que os corvos que acompanharam a barcaça do santo se transformavam em abutres negros, uma espécie rara e que hoje não existe na Península, e comeram - enquanto conversavam, porque eram abutres muito faladores - as entranhas do primeiro traidor português, um tal Gonçalo Anes de Bandarra, que elas esperavam não constar dos guias .
Depois era conforme. Se os tinham ali, fixos e bem impressionados, evoluíam para histórias de casas assombradas na baixa pombalina. Velhos arruinados que se atiravam de janelas, na tradição solene dos Vasconcelos. Muito ouro, afundado em galeões, à boca do porto. Histórias de amor negro, com corações arrancados, palpitantes, pela boca. E a epopeia das Descobertas, com a sua procissão de sucessos, colocação de padrões, invenção do mundo, domínio do mundo . Eram mitos universais, não tinham nada que enganar. Os velhos alemães, se percebiam o Inglês delas, sorriam de uma certa maneira. As raparigas suíças davam os seus gritinhos, em pé aos solavancos no eléctrico dos Prazeres. Lá estava uma mais séria que pedia pormenores, para se recolher a ponderar. E havia sempre um momento em que passava nos olhos do estrangeiro uma espécie de medo, que o retraía.
- Medo de quê? - pergunta a primeira - De duas miúdas que se divertem a contar patranhas aos turistas?
Essa diz que não era medo, mas suspeita, depois certeza. A outra insiste que era medo, havia sempre um momento em que eles tinham medo. Do nosso império? Da nossa força? Não sei de quê, responde a segunda, nem há mistério. Medo de ser escolhido para a mentira numa terra alheia.
- Porque deixámos de o fazer? Ter-nos-á acontecido alguma coisa?
A segunda, talvez porque tenha acabado por se dedicar ao estudo da História, responde que tudo acaba um dia naturalmente, pela mera força da passagem do tempo. Mas também sabe que deve ter acontecido alguma coisa que possa fazer as vezes de uma conclusão.
- Lembro-me de um inglês- diz a primeira - de bicicleta e sandálias.
Houve um senhor inglês de bicicleta que, naquele tempo , era coisa pitoresca de labrego. As sandálias com meias, fundo motivo de riso. Que lhes disse ele? Ficam ambas caladas, olham para o quadro verde onde uma alinhou as formas de um verbo em -ir, e esse inglês entre elas, muito rosado, com o panamá descaído sobre os óculos de lentes grossas. Perguntou-nos primeiro se éramos portuguesas, diz uma. E tu disseste “infelizmente”. E ele até estremeceu. A segunda tem de concordar. Estavam à porta da Sé e ele tinha-as ouvido falar Inglês com uma rapariga que esbracejava sobriamante num pânico todo alemão. Segundo perceberam, a fachada da Sé não correspondia à reprodução que ela trazia no seu livro de bolso. Estava suja, estava velha, e ficava contra todas as expectativas a meio de uma subida. Paisagisticamente, o fenómeno era um desastre.
A primeira diz que o inglês deve ter feito uma pergunta muito simples. Uma pergunta cuja resposta se aprende nas primeiras classes e se esquece em virtude do peso de tantos outros factos que se aprendem depois. Elas ficaram as duas em silêncio um bom bocado e a primeira diz que foi a segunda que decidiu mentir. Como fazíamos sempre, diz a acusada. Como fazíamos sempre. A meio da resposta pronta, o inglês montara na bicicleta, disposto a descer para a Baixa. Já de perna alçada, abanara vigorosamente a cabeça, lançara-lhes um olhar rancoroso que as desmoronara:
- You don´t know? You don´t know?
Vieram, sem ser propriamente atrás dele, descendo silenciosas, parando só no Cais das Colunas. É curioso, diz a primeira, é exactamente assim que me vejo ainda. A segunda brinca: não, eu nessa altura ainda não sabia de que terra era. Dando as costas aos turistas que passavam de mãos dadas, em pequenos bandos, ficaram ambas viradas ao rio, pregadas ao chão - e tinham aos ombros todo o peso de Lisboa.


In Setembro, Luísa Costa Gomes