29/11/2011

Red



O mestre meteu a mão num dos bolsos das calças e, com alguma dificuldade por os bolsos não serem dos lados mas à frente e ele ser corpulento, tirou de lá um grande relógio de prata. Olhou para o relógio e depois de novo para o sol que declinava. O canaca que estava ao leme olhou-o de relance, mas não disse nada. O mestre ficou a olhar a ilha de que se aproximavam. Uma linha de espuma branca marcava o recife. Ele sabia que havia uma abertura suficientemente larga para o barco passar e estava a contar vê-la quando se aproximassem um pouco mais. Ainda tinham mais uma hora de sol. Na laguna as águas eram profundas e podiam lá ancorar em segurança. O chefe da aldeia que ele já conseguira ver no meio dos coqueiros era amigo do contramestre, e seria agradável ir passar a noite em terra. Nesse preciso momento o contramestre aproximou-se e o mestre voltou-se para ele.
“Levamos uma pinga e arranjam-se umas moças para dançar,” disse ele.
“Não consigo descobrir a passagem,” disse o contramestre.
Era canaca e um tipo bem parecido, moreno, com algo de imperador romano, quase se podia dizer corpulento, mas com feições finas e regulares.
“Tenho a certeza absoluta de que há uma mesmo por aqui,” disse o mestre a olhar pelo binóculo. “Não percebo por que é que não consigo dar com ela. Um dos homens que suba ao mastro e dê uma olhadela.”
O contramestre chamou um dos homens da tripulação e deu-lhe a ordem. O mestre ficou a ver o canaca a trepar e esperou que ele dissesse qualquer coisa. Mas o canaca gritou para baixo a dizer que não conseguia ver nada a não ser a linha contínua de espuma. O mestre sabia falar samoano como um nativo e praguejou com ele com todo o à-vontade.
“Ele fica lá em cima?” perguntou o contramestre.
“Que raio é que ele lá fica a fazer?” respondeu o mestre. “O palerma não vê um palmo à frente do nariz. Podes apostar que se eu estivesse lá em cima descobria logo a passagem.”
Olhou com raiva o esguio mastro. Para um indígena toda a vida habituado a trepar aos coqueiros era tudo muito fácil. Mas ele estava gordo e pesado.
“Desce daí,” gritou. “Um gato morto fazia o mesmo que tu. Temos de ir andando ao longo do recife até encontrarmos a passagem.”
O barco era uma escuna com motor auxiliar e quando não havia vento de proa navegava a quatro ou cinco nós por hora. Era uma coisa com ar enxovalhado; fora pintada de branco havia muitos anos, mas agora estava suja, cheia de lama e de manchas de várias cores. Cheirava muito a petróleo e também a copra, que era a sua carga habitual. Estavam agora a trinta metros do recife e o mestre disse ao homem do leme para ir andando ao longo do recife até encontrarem a passagem. Mas depois de terem andado duas milhas concluiu que já deviam ter passado por ela sem dar por isso. Deu a volta e voltou a passar devagar. A espuma branca do recife continuava sem interrupção e o sol já estava a pôr-se. Praguejando e amaldiçoando a estupidez da tripulação o mestre acabou por se resignar a esperar pela manhã seguinte.
“Vira,” disse ele. “Não podemos ancorar aqui.” Afastaram-se um pouco para o mar aberto e o dia agora já estava bastante escuro. Ancoraram. Depois da vela recolhida, o barco começou a balançar bastante. Em Ápia dizia-se que um dia o barco acabaria por se virar; e o armador, um germano-americano que tinha uma das maiores lojas de lá costumava dizer que não sairia naquele barco por dinheiro nenhum. O cozinheiro, um chinês de calças brancas muito sujas e esfarrapadas e uma fina bata branca veio dizer que o jantar estava pronto, e quando o mestre entrou na cabine já encontrou o maquinista sentado à mesa. Era um homem alto, magro, de pescoço descarnado. Estava de fato-macaco azul e de camisola sem mangas que deixava ver os seus finos braços cobertos de tatuagens do cotovelo ao pulso.
“Raios, temos de passar a noite ao largo,” disse o mestre.
O maquinista não respondeu e começaram a comer em silêncio. Um fosco candeeiro de petróleo iluminava a cabina. Depois de comerem os damascos de conserva com que terminaram a refeição, o chinês trouxe-lhes uma chávena de chá. O mestre acendeu um charuto e saiu para o convés superior. A ilha agora não era mais do que uma massa mais escura contra o fundo escuro da noite. As estrelas brilhavam muito. O vaivém da ressaca era o único som que se ouvia. O mestre afundou-se numa cadeira de convés e fumou ociosamente. Pouco depois três ou quatro membros da tripulação vieram sentar-se por ali. Um deles trazia um banjo e outro uma concertina. Começaram a tocar e um deles cantava. Aquela música indígena parecia estranha tocada naqueles instrumentos. Depois dois dos homens começaram a dançar ao som da música. Era uma dança bárbara, selvagem e primitiva, rápida e de movimentos bruscos das mãos e dos pés e contorções do corpo; era sensual e mesmo erótica, mas erótica sem paixão. Era muito animal, directa, estranha sem mistério, em suma, natural, e poderia até dizer-se infantil. Por fim ficaram cansados. Deitaram-se no convés e adormeceram, e tudo ficou silencioso. O mestre levantou-se pesadamente da cadeira e com esforço desceu a escada do convés. Entrou na sua cabine e despiu-se. Trepou para o beliche e deitou-se. Suspirou um pouco com o calor da noite.
Na manhã seguinte, quando a aurora rastejava lentamente por sobre o mar tranquilo, a abertura no recife, que os iludira na noite anterior podia ver-se agora um pouco para oriente do sítio onde se encontravam. A escuna entrou na laguna. Não havia o mínimo movimento na superfície das águas. Bem fundo, por entre as rochas de coral, viam-se pequenos peixes coloridos a nadar. Depois de ter ancorado o barco, o mestre tomou o pequeno almoço e foi para o convés. O sol brilhava num céu sem nuvens, mas o ar naquelas primeiras horas da manhã estava agradável e fresco. Era domingo e notava-se uma sensação de sossego, um silêncio, como se a natureza estivesse em descanso, o que a ele lhe deixava uma peculiar sensação de bem-estar. Sentou-se a olhar a costa arborizada e sentiu-se indolente e tranquilo. Pouco depois os lábios abriram-se-lhe num sorriso lento e atirou o charuto para a água.
“Acho que vou a terra,” disse ele. “Manda arriar o bote.”
Desceu a escada muito direito e levaram-no no bote até uma pequena enseada. Os coqueiros vinham quase até à água, não em fileiras, mas espaçados numa disposição muito ordenada. Pareciam um grupo de ballet de solteironas, já de idade mas ainda desenvoltas, com ar postiço e de uma elegância afectada de outros tempos. Deambulou por entre elas ao longo de um carreiro de que apenas se via o serpentear e que o levou pouco depois até um largo ribeiro atravessado por uma ponte, mas uma ponte feita de simples troncos de coqueiro, uma dúzia deles, colocados longitudinalmente e assentes sobre um ramo bifurcado enterrado no leito. Caminhava-se sobre uma superfície redonda e macia, estreita e escorregadia, e não havia qualquer apoio para as mãos. Atravessar uma ponte assim requeria pé firme e coração resistente. O mestre hesitou. Mas viu do outro lado, escondida no meio das árvores, a casa de um branco; decidiu-se e com extremo cuidado começou a caminhar. Ia muito atento a onde punha os pés e no sítio onde dois troncos se uniam e havia uma diferença de nível cambaleou um pouco. Foi com um suspiro de alívio que chegou à última árvore e por fim pôs o pé em terra firme no outro lado. Fora sempre tão absorto naquela difícil travessia que nem reparou em alguém a observá-lo e foi com surpresa que ouviu uma pessoa a falar-lhe.
“É preciso alguma coragem para atravessar pontes destas quando não se está habituado.”
Ergueu o olhar e viu um homem de pé à sua frente. Era evidente que tinha saído da casa que ele já tinha avistado.
“Vi-o a hesitar,” continuou o homem com um sorriso nos lábios, “e fiquei a observá-lo a ver se caía na água.”
“Nem morto,” disse o mestre, que já recuperara a confiança.
“Eu já lá caí. Lembro-me de uma noite em que voltava da caça e caí, com arma e tudo. Agora arranjo um rapaz para me levar a arma.”
Era um homem que já não era novo, com uma curta barba já meio grisalha e rosto magro. Estava de camisola interior sem mangas e calças de cotim e sem sapatos nem meias. Falava inglês com um ligeiro sotaque.
“O senhor chama-se Neilson? perguntou o mestre.
“Sim, é esse o meu nome.”
“Já ouvi falar de si. Calculei que devia viver algures por aqui.”
O mestre seguiu o seu anfitrião para dentro do pequeno bangaló e sentou-se pesadamente na cadeira que o outro lhe indicou. Enquanto Neilson se ausentou para ir buscar whisky e copos deu uma vista de olhos à sala. Ficou espantado. Nunca tinha visto tantos livros juntos. As prateleiras iam do chão ao tecto nas quatro paredes e os livros estavam todos bem apertados. Havia também um piano de cauda cheio de músicas e uma grande mesa onde se amontoavam livros e revistas. Aquela sala deixava-o constrangido. Lembrou-se de que Neilson era um tipo esquisito. Pouco se sabia sobre ele, embora já vivesse nas ilhas há tantos anos, e os que o conheciam concordavam que ele era realmente esquisito. Era sueco.
“O senhor tem aqui um enorme monte de livros,” disse ele quando Neilson voltou.
“Não fazem mal a ninguém,” respondeu Neilson com um sorriso.
“Já os leu todos?” perguntou o mestre.
“A maioria.”
“Eu também leio alguma coisa. Recebo regularmente o Saturday Evening Post.”
Neilson serviu ao visitante um bom copo de whisky forte e ofereceu-lhe também um charuto. O mestre explicou-se espontaneamente.
“Cheguei aqui a noite passada mas não consegui descobrir a passagem e tive de ancorar lá fora. Nunca tinha feito esta rota, mas a minha gente tinha algum material que queria trazer para aqui. O Gray, conhece-o?”
“Conheço, tem uma loja um pouco mais adiante.”
“Bem, ele queria grande quantidade de enlatados e tem alguma copra. Pensaram que eu podia bem vir até aqui em vez de ficar em Ápia sem fazer nada. O meu serviço é sobretudo entre Ápia e Pago-Pago mas eles têm lá a varíola e está tudo parado.
Bebeu um gole e acendeu o charuto. Era um homem taciturno, mas Neilson tinha qualquer coisa que o deixava nervoso e o nervoso fazia-o falar. O sueco olhava para ele com os grandes olhos escuros em que havia uma leve expressão de divertimento.
“O senhor arranjou aqui uma bela casinha.”
“Fiz o melhor que pude.”
“As árvores devem ser bem tratadas. Têm bom aspecto. Com o preço a que está a copra. Eu também já tive uma plantação, era em Upolu, mas tive de a vender.”
Olhou de novo à sua volta naquela sala onde todos aqueles livros lhe deixavam uma sensação de qualquer coisa incompreensível e hostil.
“Mas o senhor deve achar isto aqui um pouco solitário,” disse ele.
“Já me habituei. Já aqui vivo há vinte e cinco anos.”
E agora o mestre já não encontrava mais nada para dizer e continuou a fumar em silêncio. E Neilson aparentemente não quis quebrá-lo. Olhava para o seu visitante com ar pensativo. Era um homem alto, mais de metro e oitenta, e muito corpulento. Tinha a cara vermelha e manchada, com uma teia de pequenas veias avermelhadas nas faces e as suas feições mergulhavam na gordura do rosto. Tinha os olhos raiados de sangue. O pescoço estava enterrado em refegos de gordura. Era quase completamente calvo, apenas com uma franja de compridos cabelos encaracolados, quase brancos, na parte de trás da cabeça; e aquela enorme testa a brilhar, que lhe poderia dar um falso ar de inteligência, dava-lhe, pelo contrário, um ar de particular imbecilidade. Trazia uma camisa de flanela azul aberta no pescoço, a deixar ver o peito gordo coberto de um tufo de pêlos ruivos, e umas calças já velhas de sarja azul. Estava sentado na cadeira numa postura indolente e desajeitada, com a enorme barriga atirada para a frente e as pernas gordas descruzadas. Os seus membros tinham perdido toda a elasticidade. Neilson perguntava-se que tipo de homem teria ele sido na juventude. Seria quase impossível imaginar que aquela criatura com todo aquele vasto volume tivesse alguma vez sido um rapaz para grandes correrias. O mestre acabou o seu whisky e Neilson empurrou a garrafa para o pé dele.
“Sirva-se.”
O mestre inclinou-se para a frente e pegou na garrafa com a sua enorme mão.
“Mas afinal como é que o senhor veio parar aqui a estes lados?” perguntou ele.
“Oh, eu vim para aqui para as ilhas por motivo de saúde. Os meus pulmões estavam mal e disseram-me que eu já não tinha um ano de vida. Como vê, enganaram-se.”
“O que eu queria dizer é como é que veio assentar aqui mesmo, neste sítio em particular?”
“Sou um sentimental.”
“Oh!”
Neilson sabia que o mestre não fazia ideia do que ele queria dizer e olhou-o com uma centelha de ironia nos seus olhos escuros. Talvez por o mestre ser uma pessoa tão bronca, deu-lhe para continuar a falar.
“O senhor estava demasiado ocupado a procurar manter o equilíbrio para reparar, quando ia a atravessar a ponte, mas este sítio é geralmente considerado muito bonito.”
“É gira, esta casinha que o senhor arranjou aqui.”
“Ah, mas ela não estava aqui quando eu cá cheguei. Havia aqui uma cabana indígena com o seu telhado de colmo e os seus pilares, à sombra de uma grande árvore com flores vermelhas; e o bucho de crotão com as suas folhas amarelas, vermelhas e douradas fazia uma vedação colorida ao seu redor. E a toda a volta os coqueiros extravagantes como as mulheres e tão vaidosas como elas, que passavam os dias à beira-mar a olhar para a sua imagem na água. Eu era novo nessa altura - meu Deus, isto já foi há um quarto de século - e queria desfrutar de toda a beleza do mundo no pouco tempo que me restava antes de mergulhar nas trevas. Achava que este era o lugar mais belo que já vira. A primeira vez que o vi senti um baque no coração e tive medo de começar a chorar. Não tinha mais do que vinte e cinco anos e embora encarasse os factos da melhor maneira possível não queria morrer. E, de alguma maneira, parecia-me que a própria beleza deste lugar fazia com que aceitasse facilmente o meu destino. Quando aqui cheguei tive a sensação de que toda a minha vida passada tinha desaparecido, Estocolmo, a universidade e depois Bona: tudo isso me parecia a vida de outra pessoa, como se agora eu tivesse finalmente atingido a realidade sobre que os nossos doutores em filosofia - eu sou um deles, sabe - já tanto discutiram. 'Um ano,' exclamei eu para mim mesmo, 'só tenho um ano de vida. Vou passá-lo aqui e assim morrerei satisfeito.' Aos vinte anos nós somos tolos, sentimentais e melodramáticos, mas se assim não fosse, talvez fôssemos menos sensatos aos cinquenta. Agora, beba, meu amigo. Não deixe que os meus disparates interfiram consigo.”
Apontou para a garrafa com a fina mão e o mestre bebeu o que restava no copo.
“O senhor não está a beber nada,” disse ele pegando na garrafa.
“Eu sou uma pessoa de hábitos sóbrios,” respondeu o sueco a sorrir. “Embriago-me de uma maneira que me parece mais subtil. Mas talvez isto seja apenas vaidade. De qualquer maneira, os efeitos são mais duradouros e as consequências menos perniciosas.”
“Dizem que agora nos Estados Unidos há muita gente a consumir cocaína,” disse o mestre.
Neilson soltou uma breve gargalhada abafada.
“Mas são tão poucas as vezes que eu vejo um branco,” continuou ele, “que por uma vez acho que uma gota de whisky não fará mal nenhum.”
Deitou um bocadinho no copo, adicionou-lhe soda e bebeu um gole.
“E passado pouco tempo descobri por que é que este sítio tinha este encanto tão pouco terreno. É que o amor morou aqui por algum tempo, qual ave migradora que poisa num barco no meio do mar e por instantes recolhe as asas exaustas. A fragrância de uma bela paixão pairou aqui como a fragrância de um espinheiro em Maio nos prados do meu país. Parece-me que os lugares onde os homens amaram ou sofreram conservam sempre um leve aroma a qualquer coisa que não morreu completamente. É como se tivessem adquirido um sentido espiritual que afecta misteriosamente aqueles que lá passam. Gostava de me poder fazer entender.” Sorriu um pouco. “Embora imagine que se o conseguisse o senhor não compreenderia.”
Fez uma pausa.
“Acho que este lugar se tornou belo porque, durante certo tempo, o êxtase do amor o encheu de beleza.” E encolheu os ombros. “Mas talvez seja apenas o meu sentido estético que se sente encantado com a feliz conjugação de um amor jovem com um cenário adequado.”
Mesmo a um homem menos bronco do que o mestre se perdoaria se ficasse confuso com as palavras de Neilson. Porque ele quase parecia rir do que estava a dizer. Era como se falasse com uma emoção que a razão achava ridícula. Ele próprio dissera que era um sentimental e quando o sentimentalismo se junta ao cepticismo fica tudo uma confusão.
Calou-se por instantes e olhou o mestre com uns olhos que revelaram uma súbita perplexidade.
“Sabe que não consigo deixar de pensar que já o vi algures,” disse ele.
“Não me lembro de alguma vez o ter visto,” respondeu o mestre.
“Tenho uma curiosa sensação, como se a sua cara me fosse familiar. Isto tem-me estado a intrigar. Mas não consigo situar a recordação nem em lugar nem em tempo nenhum.”
O mestre encolheu maciçamente os pesados ombros.
“Eu vim para as ilhas há trinta anos. Uma pessoa não se pode lembrar de toda a gente que conheceu em tão grande espaço de tempo.”
O sueco abanou a cabeça.
“O senhor sabe como às vezes a pessoa tem a sensação de que um lugar onde nunca esteve lhe é estranhamente familiar. É isso que eu sinto em relação a si.” Teve um sorriso bizarro. “Talvez eu o tenha conhecido numa outra existência passada. Talvez, talvez o senhor fosse o mestre de uma galera na antiga Roma e eu um escravo aos remos. Há trinta anos que vive cá?”
“Trinta anos vividos um a um.”
“Por acaso conheceu um homem chamado Red?”
“Red?”
“É o único nome por que eu sempre o conheci. Mas nunca o conheci pessoalmente. Nem nunca sequer lhe pus a vista em cima. E contudo parece-me vê-lo a ele com mais nitidez do que a muitas pessoas, aos meus irmãos, por exemplo, com quem passei a minha vida do dia a dia durante muitos anos. Ele vive na minha imaginação com a nitidez de um Paolo Malatesta ou de um Romeu. Mas atrevo-me a dizer que o senhor nunca leu Dante nem Shakespeare?”
“Mentia se lhe dissesse que sim,” disse o mestre.
Neilson, a fumar um charuto, recostou-se na cadeira e olhou vagamente para o anel de fumo que flutuou no ar parado. Um sorriso brincava-lhe nos lábios, mas o olhar era sério. Depois olhou para o mestre. Havia naquela grosseira obesidade qualquer coisa de extraordinariamente repelente. Tinha a auto-satisfação estuante própria dos muito gordos. Era um insulto. Deixava os nervos de Neilson em franja. Mas agradava-lhe o contraste entre o homem que tinha à sua frente e aquele que tinha na ideia.
“Parece que Red era a coisa mais donairosa jamais vista. Já falei com inúmeras pessoas que o conheceram nesses tempos, brancos, e todas concordam que a primeira vez que uma pessoa o via a sua beleza era de cortar a respiração. Chamavam-lhe Red por causa do seu cabelo flamejante. Era naturalmente ondulado e ele usava-o comprido. Devia ser daquela maravilhosa cor de que os Pré-Rafaelitas falavam com tanto entusiasmo. Não me parece que ele sentisse qualquer vaidade nisso; era ingénuo demais para tal, mas ninguém o poderia censurar se ele de facto a sentisse. Era alto, um metro e oitenta e tal - na cabana indígena que aqui estava havia uma marca da sua altura feita à navalha no tronco central que suportava o telhado - e a sua constituição era a de um deus grego, largo de ombros e fino de cintura; era como Apolo, justamente com aquelas formas suavemente arredondadas que Praxíteles lhe deu e aquela graça suave e feminina que contém algo de perturbador e misterioso. A pele era de uma brancura deslumbrante, leitosa, como cetim; era como a de uma mulher.”
“Eu próprio também tinha uma pele branquinha quando era rapaz,” disse o mestre, com um brilho nos olhos raiados de sangue.
Mas Neilson não lhe prestou atenção. Estava a contar a sua história e as interrupções deixavam-no impaciente.
“E o rosto dele era também belo como o corpo. Tinha olhos azuis, grandes, muito escuros, tão escuros que diziam alguns que eram negros, e ao contrário da maioria dos ruivos tinha sobrancelhas escuras e compridas pestanas também escuras. As feições eram perfeitamente regulares e a boca era como uma ferida escarlate. Tinha vinte anos.”
Neste ponto, o sueco fez uma pausa com um certo sentido do dramático. Bebeu um gole de whisky.
“Ele era único. Nunca houve ninguém mais belo do que ele. Tal como para um qualquer botão maravilhoso, era natural que florescesse numa planta silvestre. Foi um feliz acidente da natureza. Um dia aportou àquela mesma enseada onde o senhor ancorou hoje de manhã. Pertencia à Marinha de Guerra Americana e desertara de um navio em Ápia. Tinha convencido um qualquer nativo bem disposto a transportá-lo numa baleeira que por acaso seguia de Ápia para Sapoto e largaram-no aqui numa canoa. Não sei a razão por que desertou. Talvez a vida num vaso de guerra com todas as suas restrições o aborrecesse, talvez se tivesse metido em sarilhos, e talvez fossem os Mares do Sul e estas românticas ilhas que lhe penetraram na alma. De vez em quando apanham estranhamente um homem, que fica como uma mosca numa teia de aranha. É possível que houvesse nele um ponto fraco e que estas colinas verdes com o seu ar suave, este mar azul, lhe tivessem retirado a força nórdica como Dalila a tirou ao nazarita. Seja como for, ele queria esconder-se e pensou que ficaria bem seguro neste recanto solitário até o seu navio zarpar de Samoa. Na enseada havia uma cabana indígena e quando ele lá estava perto a pensar no próximo passo a dar, uma moça veio à porta e convidou-o a entrar. Ele não sabia mais do que duas palavras da língua indígena e ela outro tanto de inglês. Mas ele percebeu muito bem o que os sorrisos dela queriam dizer, bem como os seus belos gestos, e seguiu-a lá para dentro. Sentou-se numa esteira e ela ofereceu-lhe fatias de ananás para comer. De Red só posso falar do que ouvi dizer, mas a ela, vi-a três anos depois daquele primeiro encontro dos dois, e nessa altura ela não tinha mais do que dezanove anos. O senhor não imagina como ela era rara. Tinha a graça apaixonada do hibisco e a riqueza da sua cor. Era bastante alta, esbelta, com as delicadas feições da sua raça e olhos grandes como lagos de águas mansas sob as palmeiras; o cabelo negro encaracolado caía-lhe pelas costas abaixo, e usava uma grinalda de flores perfumadas. Tinha umas mãos encantadoras: eram tão pequenas, de formas tão raras que nos provocavam um baque no coração. E nesses tempos ela ria facilmente. Tinha um sorriso tão delicioso que nos punha as pernas a tremer. A pele era como um campo de trigo maduro num dia de verão. Meu Deus, como é que eu a posso descrever? Era demasiado bela para ser real. E aquelas duas jovens criaturas, ela tinha dezasseis anos e ele vinte, apaixonaram-se à primeira vista. Um amor real, não aquele amor que resulta da simpatia, de interesses comuns, de uma comunidade intelectual, mas amor puro e simples. Aquele amor que Adão sentiu por Eva quando acordou e a viu no jardim a olhá-lo de olhos orvalhados. Aquele amor que atrai os animais uns aos outros, e também os deuses. Aquele amor que faz do mundo um milagre. Aquele amor que dá à vida o seu sentido pleno. O senhor nunca ouviu falar daquele duque francês muito sensato e muito cínico que dizia que em dois amantes há sempre um que ama e outro que se deixa amar; é uma verdade amarga a que a maioria de nós tem de resignar-se. Mas de vez em quando, há dois que amam e se deixam amar. Nessa altura pode-se imaginar que o Sol pára, como aconteceu quando Josué orou ao Deus de Israel. E ainda hoje, passados todos estes anos, quando penso nestes dois, tão jovens, tão belos, tão simples, e no seu amor, sinto um baque. Sinto o coração despedaçado como em certas noites quando vejo a lua cheia num céu sem nuvens a brilhar sobre a laguna. Há sempre dor na contemplação da beleza. Eram duas crianças. Ela era boa, doce, gentil. Dele nada sei e gosto de pensar que nessa altura ele seria ingénuo e honesto. Gosto de pensar que a sua alma seria tão bela como o seu corpo. Mas atrevo-me a dizer que ele não teria mais alma do que as criaturas dos bosques e florestas que faziam cachimbos de cana e se banhavam nos ribeiros das montanhas quando o mundo era jovem e se podiam vislumbrar pequenas corças a galopar nas sendas da floresta sobre o dorso de barbudos centauros. A alma é um bem problemático e quando o homem a desenvolveu perdeu o Jardim do Paraíso. Bem, quando Red chegou à ilha tinha havido aqui pouco tempo antes uma daquelas epidemias que os brancos trouxeram para os Mares do Sul e um terço dos habitantes tinha morrido. Parece que a moça tinha perdido todos os seus parentes mais próximos e agora vivia em casa de uns primos afastados, onde havia um casal de velhos encarquilhados e curvados, duas mulheres mais novas e um homem e um rapaz. Ficou lá alguns dias. Mas talvez se sentisse demasiado perto da costa com a possibilidade de se cruzar com brancos que viessem a revelar o seu esconderijo, ou talvez os amantes não conseguissem suportar o facto de a companhia de outras pessoas lhes roubar um instante da delícia de estarem juntos. Um dia de manhã partiram os dois com os poucos haveres da moça e foram caminhando ao longo de um carreiro sob os coqueiros e coberto de ervas até chegarem a este ribeiro que o senhor vê. Tiveram de atravessar a ponte que o senhor atravessou e a moça ria alegremente porque ele estava com medo. Levou-o pela mão até chegarem à primeira árvore e nessa altura ele perdeu a coragem e teve de voltar para trás. Viu-se obrigado a despir a roupa toda antes de se arriscar, e ela levou-lha à cabeça. Instalaram-se na cabana vazia e aí ficaram. Se ela tinha alguns direitos sobre a cabana (a propriedade da terra nas ilhas é um assunto complicado) ou se o dono tinha morrido durante e epidemia, não sei, mas também ninguém lhes levantou a questão e eles tomaram posse dela. A mobília consistia em duas esteiras de palha onde eles dormiam, um fragmento de espelho e uma ou duas tigelas. Nestas deliciosas terras isto é o suficiente para iniciar uma vida doméstica. Costuma dizer-se que as pessoas felizes não têm história e um amor feliz certamente que a não tinha. Eles não faziam nada durante todo o dia, mas os dias pareciam demasiado pequenos. A moça tinha um nome indígena mas Red chamava-lhe Sally. Ele aprendeu o fácil dialecto rapidamente e deixava-se ficar deitado na esteira durante horas seguidas enquanto ela tagarelava com ele alegremente. Ele era um tipo calado e talvez o seu espírito fosse um tanto letárgico. Fumava incessantemente os cigarros que ela lhe fazia com folhas de tabaco e de pandano indígenas e ficava a observá-la enquanto com as destras mãos ela fazia esteiras de palha. Muitas vezes iam lá indígenas contar longas histórias dos velhos tempos quando a ilha era perturbada por guerras tribais. Às vezes ele ia pescar no recife de coral e trazia um cesto cheio de peixes coloridos. Outras vezes saía à noite com uma lanterna para apanhar lagostas. À volta da cabana havia bananas e Sally grelhava-as para a sua frugal refeição. Ela sabia fazer um delicioso sumo de coco e a fruteira-pão dava-lhes os seus frutos. Em dias festivos matavam um porquito e assavam-no sobre pedras quentes. Iam nadar os dois no ribeiro e à tardinha desciam até à laguna e iam remar numa canoa de grandes forquilhas. O mar era azul escuro, cor de vinho ao pôr do sol, como o mar da Grécia de Homero; mas na laguna a cor tinha uma variedade infinita de tonalidades, verde-azulado, ametista e esmeralda; e o sol poente tornava-a por instantes ouro líquido. Depois havia a cor do coral, castanho, branco, rosa, vermelho, púrpura; e as formas que ele tomava eram maravilhosas. Era como um jardim mágico e os peixes a nadar apressados eram como borboletas. Estranhamente, tudo aquilo carecia de realidade. Por entre os corais havia pequenas lagoas com chão de areia branca e aqui, onde a água era de uma limpidez deslumbrante, era muito bom tomar banho. Depois, refrescados e felizes, ao anoitecer voltavam para o ribeiro a vaguear sobre o macio carreiro de ervas, de mão dada, e agora os pássaros tropicais enchiam os coqueiros com o seu clamor. E depois a noite com aquele imenso céu a brilhar de ouro e que parecia alongar-se ainda mais do que os céus da Europa, e suaves brisas que sopravam levemente através da cabana aberta, a longa noite que outra vez se tornava curta demais. Ela tinha dezasseis anos e ele vinte. O amanhecer insinuava-se por entre os pilares de madeira da cabana e olhava aquelas crianças encantadoras a dormir nos braços uma da outra. O sol escondia-se por detrás das grandes folhas pintalgadas das bananeiras para não os incomodar e depois com brincalhona malícia disparava um raio dourado, como a pata estendida de um gato persa, sobre os seus rostos. Eles abriam os olhos sonolentos e sorriam a dar as boas-vindas a mais um dia. As semanas passaram a meses e um ano passou. Eles pareciam amar-se - hesito em dizer apaixonadamente, pois a paixão tem sempre em si mesma uma sombra de tristeza, um toque de amargura ou de angústia, mas de maneira tão sincera, tão simples, tão natural como naquele primeiro dia em que, olhando-se, descobriram que havia neles um deus. Se lhes tivessem perguntado, não tenho dúvida de que teriam considerado impossível imaginar que o seu amor alguma vez acabaria. Não sabemos nós muito bem que o elemento essencial do amor é a crença na sua própria eternidade? E contudo, talvez que em Red já houvesse uma pequeníssima semente, ainda desconhecida para ele próprio e insuspeitada pela moça, daquilo que com o tempo cresceria e se transformaria em enfado. Pois, um dia, um dos indígenas da enseada disse-lhes que na costa um pouco mais abaixo estava ancorado um navio baleeiro inglês. 'Eia!' disse ele, 'Talvez eu possa trocar cocos e bananas por meio quilo ou um quilo de tabaco.' Aqueles cigarros de pandano que Sally lhe fazia com mãos incansáveis eram bastante fortes e agradáveis mas deixavam-no insatisfeito e ele subitamente sentiu uma enorme ânsia por tabaco real, duro, forte, acre. Já não fumava uma cachimbada há muitos meses. A ideia fez-lhe crescer água na boca. Poderia pensar-se que um qualquer mau presságio teria levado Sally a tentar dissuadi-lo, mas ela estava de tal maneira possuída de amor que nunca lhe ocorreu que qualquer poder da terra pudesse tirar-lho. Embrenharam-se os dois nas colinas e colheram uma enorme cesta de laranjas silvestres, verdes, mas doces e sumarentas; e apanharam bananas que havia à volta da cabana e cocos dos coqueiros e fruta-pão e mangas; transportaram tudo para a enseada. Carregaram a instável canoa e Red e o indígena que lhes tinha trazido a notícia do barco remaram para fora do recife. Foi a última vez que ela o viu. No dia seguinte o rapaz voltou sozinho. Vinha lavado em lágrimas. Eis a história que ele contou: quando depois de muito remarem chegaram junto do navio e Red chamou, um branco espreitou por sobre a amurada e disse-lhes para subirem para bordo. Levaram a fruta que tinham trazido e Red empilhou-a no convés. Ele e o branco começaram a falar e pareceu que chegaram a um qualquer acordo. Um deles desceu e trouxe o tabaco. Red pegou logo num bocado e acendeu o cachimbo. O rapaz imitou o entusiasmo com que ele deitou pela boca uma grande nuvem de fumo. Depois disseram-lhe qualquer coisa e ele entrou na cabine. Pela porta aberta o rapaz, a observar tudo aquilo com grande curiosidade, viu aparecer uma garrafa e copos. Red bebia e fumava. Parecia que lhe estavam a perguntar qualquer coisa porque ele abanava a cabeça e ria muito. O homem, o primeiro que tinha falado com eles, também se ria muito e encheu o copo de Red mais uma vez. Continuaram a conversar e a beber e pouco depois já farto de estar a ver qualquer coisa que não lhe dizia nada o rapaz aninhou-se no convés e adormeceu. Acordaram-no com um pontapé. Levantando-se de um salto, viu que o navio ia já a sair lentamente da laguna. Viu Red sentado à mesa, com a cabeça pesadamente pousada sobre os braços a dormir profundamente. Fez um gesto na sua direcção com a intenção de o acordar, mas uma mão dura segurou-lhe o braço e um homem com ar encolerizado e palavras que ele não percebeu apontou-lhe a amurada. Ele gritou para Red, mas logo foi agarrado e atirado borda fora. Desesperado, nadou até à canoa que andava à deriva um pouco mais adiante e empurrou-a para o recife. Subiu para ela e sempre a soluçar remou para a praia. O que aconteceu era bastante óbvio. O baleeiro estava com falta de pessoal por simples deserção ou por doença e o mestre quando Red subiu a bordo quis contratá-lo; perante a sua recusa, embebedou-o e raptou-o. Sally ficou fora de si com o desgosto. Durante três dias não fazia senão chorar e gritar. Os indígenas faziam o que podiam para a confortar, mas ela não se resignava. Não comia. E depois, exausta, mergulhou numa triste apatia. Passava longos dias na enseada a olhar a laguna na esperança vã de que Red arranjaria uma maneira de escapar. Ficava sentada na areia branca horas a fio com as lágrimas a correrem-lhe pela cara abaixo e à noite arrastava-se penosamente a atravessar o ribeiro de volta à cabana onde tinha sido feliz. As pessoas com quem ela vivia antes de Red ter vindo para a ilha queriam que ela voltasse para eles, mas ela não quis; estava convencida de que Red havia de voltar e queria que ele a viesse a encontrar no mesmo sítio onde a deixara. Quatro meses depois, deu á luz um nado-morto e a velha indígena que viera ajudá-la no parto ficou com ela na cabana. Toda a sua alegria desaparecera. Se com o tempo a sua angústia se tornou menos intolerável, por outro lado, foi substituída por uma permanente melancolia. Nunca pensei que entre aquela gente, cujas emoções, embora muito violentas, são também muito passageiras, uma mulher fosse capaz de paixão tão duradoura. Ela nunca perdeu a convicção profunda de que mais cedo ou mais tarde Red voltaria. Estava sempre alerta e de cada vez que alguém atravessava aquela estreita pontezinha feita de coqueiros ela olhava. Podia ser ele finalmente.”
Neilson calou-se e deu um leve suspiro.
“O que é que lhe aconteceu por fim?” perguntou o mestre.
Neilson sorriu amargamente.
“Oh, três anos depois acabou por ir viver com outro branco.”
O mestre soltou uma gargalhada alarve e cínica.
“É isso que geralmente lhes acontece,” disse ele.
O sueco lançou-lhe um olhar de ódio. Não sabia a razão por que aquele homem gordo e bronco lhe provocava uma tão grande repulsa. Mas o seu pensamento começou a vaguear e o espírito encheu-se-lhe de recordações do passado. Recuou vinte e cinco anos. A altura em que ele veio para aquela ilha pela primeira vez, farto de Ápia das bebidas fortes, do jogo, e da grosseira sensualidade, um homem doente a tentar resignar-se com a perda de uma carreira que lhe incendiara a imaginação com ideias ambiciosas. Abandonou resoluto todas as suas esperanças de fazer um grande nome e procurou contentar-se com os pobres meses de uma vida cheia de cuidados, que era tudo aquilo com que ele podia contar. Estava hospedado em casa de um comerciante mestiço que tinha uma loja na costa duas milhas mais abaixo, junto a uma aldeia indígena; e um dia, quando andava a vaguear pelos caminhos relvados das matas de coqueiros foi ter à cabana onde Sally vivia. A beleza do lugar arrebatou-o de tal maneira que quase se tornou dolorosa, e depois viu Sally. Era a mais encantadora criatura que jamais vira e a tristeza naqueles magníficos olhos escuros afectou-o de maneira estranha. Os canacas eram uma raça formosa e a beleza não era rara entre eles, mas era uma beleza de animal bem talhado. Vazia. Mas aqueles olhos trágicos eram escuros de mistério e sentia-se neles a amarga complexidade da inquieta alma humana. O comerciante contou-lhe a história dela, que o comoveu.
“Acha que ele alguma vez vai voltar?” perguntou Neilson.
“Nem pensar. Repare, o barco só ficará pago daqui a dois anos e antes disso já ele a deve ter esquecido. Aposto que ele deve ter ficado furioso quando acordou e viu que tinha sido raptado e não me admiraria muito que quisesse mesmo bater em alguém. Mas teve de aguentar de cara alegre e acho que passado um mês já devia estar a pensar que ter deixado a ilha fora a melhor coisa que jamais lhe acontecera.”
Mas Neilson não conseguia tirar aquela história da cabeça. Talvez por estar fraco e doente a saúde radiante de Red excitava-lhe a imaginação. Como homem feio que ele próprio era, de aparência insignificante, prezava muito o donaire nas outras pessoas. Nunca estivera apaixonado por ninguém e certamente que nunca ninguém o amara apaixonadamente. A mútua atracção daqueles dois jovens dava-lhe um prazer muito singular. Tinha a inefável beleza do Absoluto. Voltou outra vez à cabana junto do ribeiro. Ele tinha um dom especial para as línguas e um espírito enérgico habituado ao trabalho e já tinha dedicado muito tempo ao estudo da língua local. Os velhos hábitos eram muito fortes nele e andava a recolher material para um jornal em língua samoana. A velha que partilhava a cabana com Sally convidou-o a entrar e sentar-se. Deu-lhe kava para beber e cigarros para fumar. Estava contente por ter alguém com quem conversar e enquanto ela falava ele olhava para Sally. Fazia-lhe lembrar a Psique do museu de Nápoles. As feições tinham a mesma pureza nítida de linhas e embora já tivesse dado à luz mantinha ainda um ar virginal.
Só depois de a ter visto duas ou três vezes é que conseguiu que ela falasse. E só para lhe perguntar se ele tinha visto em Ápia um homem chamado Red. Já tinham passado três anos desde o seu desaparecimento, mas era muito claro que ela continuava a pensar nele incessantemente.
Neilson não levou muito tempo a descobrir que estava apaixonado por ela. Só graças a um esforço da vontade é que conseguia evitar ir todos os dias até ao ribeiro, e mesmo quando não estava com ela, era o seu pensamento que lá estava. A princípio, vendo-se como uma pessoa moribunda, apenas pedia para olhar para ela e ocasionalmente ouvi-la falar, e o seu amor dava-lhe uma maravilhosa felicidade. Exultava com a pureza desse amor. Não queria nada dela a não ser a oportunidade de tecer à volta da sua encantadora pessoa uma teia de belas fantasias. Mas o ar puro, a temperatura amena, o descanso, a alimentação simples, começaram a ter um inesperado efeito na sua saúde. À noite a febre não atingia aqueles valores alarmantes, ele tossia menos e começou a aumentar de peso; esteve seis meses sem hemorragias e subitamente viu a possibilidade de que talvez conseguisse viver. Tinha estudado a doença cuidadosamente e crescia nele a esperança de que com muito cuidado talvez conseguisse deter o seu desenvolvimento. Animava-o a ideia de poder de novo ansiar pelo futuro. Fazia planos. Era evidente que qualquer tipo de vida activa estava fora de questão, mas podia viver nas ilhas e o pequeno rendimento que tinha, insuficiente em qualquer outro sítio, seria o bastante para se manter. Podia dedicar-se ao cultivo de coqueiros; isso dar-lhe-ia uma ocupação; mandaria buscar os seus livros e o piano; mas o seu espírito perspicaz percebeu que estava apenas a tentar esconder de si próprio aquele desejo que o obcecava. Queria Sally. Amava não só a sua beleza mas também aquela alma indistinta que ele adivinhava por detrás daqueles olhos sofredores. Intoxicá-la-ia com a sua paixão. No fim havia de conseguir fazê-la esquecer. E num êxtase de rendição imaginou-se a dar-lhe também a felicidade que ele pensara nunca voltar a conhecer mas que agora conseguira de maneira tão milagrosa. Pediu-lhe que vivesse com ele. Ela recusou. Já o esperava e não se deixou abater por isso, pois tinha a certeza de que mais cedo ou mais tarde ela acabaria por ceder. O seu amor era irresistível. Deu a conhecer à velha indígena os seus desejos e descobriu para surpresa sua que ela e os vizinhos, há muito sabedores, andavam a fazer tudo para a convencer a aceitar a sua proposta. Afinal, todas as indígenas gostavam de viver com um homem branco e Neilson, segundo os padrões da ilha, era um homem rico. O comerciante onde ele estava hospedado foi ter com ela e aconselhou-a a que não fosse tola; uma oportunidade daquelas não aparecia segunda vez e passado tanto tempo ela não podia já acreditar que Red alguma vez voltasse. A resistência da moça apenas fazia aumentar o desejo de Neilson e aquilo que fora um amor muito puro tornara-se já uma paixão angustiante. Estava determinado a remover qualquer obstáculo. Não deixou Sally em paz. Por fim, cansada da sua persistência e da persuasão ora suplicante ora zangada de toda a gente que a rodeava, ela cedeu. Mas no dia seguinte quando exultante ele foi falar com ela descobriu que durante a noite ela tinha deitado fogo à cabana onde Red e ela tinham vivido. A velha indígena correu para ele iradíssima com aquela ofensa de Sally. Mas ele afastou-a; aquilo não tinha importância nenhuma; construíam um bangaló no sítio onde era a cabana. Uma casa europeia seria realmente mais conveniente uma vez que ele queria mandar vir o piano e um grande número de livros.
E assim se construiu aquela pequena casa de madeira onde ele já vivia há muitos anos e Sally tornou-se a sua mulher. Mas após as primeiras semanas de arrebatamento durante as quais ela o satisfez com o que lhe deu, ele pouca felicidade conheceu. Ela rendera-se-lhe por enfado, mas só cedera naquilo a que não dava grande importância. A alma que indistintamente vislumbrara escapou-lhe. Sabia que ela não o amava. Continuava a amar Red e continuava sempre à espera do seu regresso. A um sinal seu, Neilson sabia que, a despeito do seu amor, da sua ternura, da sua simpatia, da sua generosidade, ela deixá-lo-ia sem hesitar um segundo. E nunca daria um segunda de atenção à sua tristeza. A angústia apoderou-se dele e martelava-lhe aquele impenetrável ego que lhe resistia soturnamente. O seu amor tornou-se amargo. Tentou enternecer-lhe o coração pela gentileza, mas ele continuava duro como antes; fingiu indiferença, mas ela nem deu por isso. Às vezes perdia a cabeça e insultava-a e depois ela chorava em silêncio. Chegava a pensar por vezes que ela não passava de uma fraude e aquela alma pura invenção sua e que ele não conseguia penetrar no santuário do seu coração simplesmente porque lá não havia santuário nenhum. O seu amor tornou-se uma prisão donde ele ansiava fugir, mas não tinha força suficiente para sequer abrir a porta - era só isso que era preciso - e ir para o ar livre. Aquilo era tortura e por fim, ele ficou entorpecido e desesperado. No fim o fogo extinguiu-se por si e quando ele lhe via por instantes os olhos postos naquela estreita ponte, não era já a raiva que lhe enchia o coração, mas a impaciência. Já há muitos anos que eles viviam juntos ligados apenas pelo hábito e pelas conveniências e era com um sorriso que ele agora recordava a sua velha paixão. Ela já era velha, pois as mulheres das ilhas envelhecem rapidamente e se ele já não lhe tinha amor nenhum, tinha ainda alguma tolerância. Ela deixava-o em paz. O piano e os livros bastavam-lhe.
Os seus pensamentos levaram-no a um desejo de palavras.”Quando agora olho para trás e penso naquele amor apaixonado de Red e Sally, acho que talvez eles devessem dar graças por o destino cruel os ter separado quando o seu amor parecia estar ainda no seu auge. Sofreram, mas sofreram em beleza. Foram poupados à verdadeira tragédia do amor.”
“Acho que não entendi,” disse o mestre.
“A tragédia do amor não é a morte ou a separação. Quanto tempo é que o senhor acha que seria preciso para que um deles deixasse de amar? Oh, é extremamente amargo olhar para uma mulher que se amou de alma e coração, que se amou tanto que sentíamos que não suportaríamos a sua ausência e perceber que agora não nos importaríamos de nunca mais a ver. A tragédia do amor é a indiferença.”
Mas enquanto estava a falar aconteceu uma coisa extraordinária. Embora dirigindo-se ao mestre, não estivera a falar com ele, estivera a pôr os seus pensamentos em palavras para si próprio e mesmo com os olhos postos no homem que tinha à sua frente, não o vira. Mas agora apresentou-se-lhes uma imagem, uma imagem não do homem que estava à sua frente, mas de outro homem. Era como se estivesse a olhar para um daqueles espelhos que distorcem as imagens, que nos tornam extraordinariamente atarracados ou escandalosamente alongados, mas neste caso era exactamente o contrário que acontecia e naquele velho feio e obeso ele vislumbrou um jovem. Lançou-lhe um rápido olhar escrutinador. Como é que um passeio meramente casual o trouxera precisamente àquele lugar? Um súbito tremor no coração quase o deixou sem fôlego. Uma suspeita absurda apoderou-se dele. O que lhe tinha ocorrido era impossível e contudo podia ser real.
“Como é que o senhor se chama?” perguntou abruptamente.
A cara do mestre franziu-se e ele deu uma gargalhada matreira. Depois ficou com um ar malicioso e extremamente ordinário.
“Já não o ouvia há tanto tempo que até já o tinha esquecido. Mas há trinta anos que aqui nas ilhas me chamam Red.”
O seu enorme corpo abanou quando ele deu uma gargalhada baixinho, quase silenciosa. Aquilo era obsceno. Neilson sentiu um arrepio. Red estava extremamente divertido e dos olhos raiados de sangue escorriam-lhe lágrimas pela cara abaixo.
Neilson suspirou, porque nessa altura entrou uma mulher. Era indígena, uma mulher com uma presença que como que se impunha, forte sem ser corpulenta, escura, pois as mulheres indígenas escurecem com a idade, de cabelos muito grisalhos. Trazia vestido um Mother Hubbard preto e tão fino que lhe deixava perceber os pesados seios. Chegara o momento.
Fez a Neilson uma qualquer observação sobre assuntos domésticos e ele respondeu, enquanto se perguntava sobre se a sua voz lhe soara a ela tão pouco natural como lhe soou a ele próprio. Ela lançou ao homem que estava sentado na cadeira junto da janela um olhar indiferente e saiu da sala. O momento chegara e partira.
Por instantes Neilson não conseguiu dizer palavra. Ficou estranhamente abalado. Depois disse:
“Dar-me-ia muito prazer se ficasse para jantar comigo. Daquilo que houver.”
“Não, obrigado,” disse Red. “Tenho de ir procurar o tal Gray. Entrego-lhe o material e depois vou-me embora. Quero estar de volta a Ápia amanhã.”
“Vou mandar um rapaz indicar-lhe o caminho.”
“Agradeço.”
Com esforço, Red levantou-se da cadeira enquanto o sueco chamava um dos rapazes que trabalhavam na plantação. Disse-lhe onde o mestre queria ir e o rapaz começou a atravessar a ponte. Red preparava-se para o seguir.
“Veja lá não caia à água,” disse Neilson.
“Não, nem morto.”
Neilson ficou a vê-lo atravessar e depois de ele desaparecer por entre os coqueiros continuou a olhar. Depois deixou-se cair na cadeira. Era então aquele o homem que não o deixara ser feliz? Era então aquele o homem que Sally amara todos aqueles anos e por quem tinha esperado tão desesperadamente? Tudo aquilo era grotesco. Uma súbita fúria apoderou-se dele e apeteceu-lhe saltar da cadeira e dar cabo de tudo o que estava à sua volta. Tinha sido enganado. Eles tinham-se finalmente encontrado e nem tinham dado por isso. Começou a rir desconsoladamente e o riso cresceu até se tornar histérico. Os deuses tinham-lhe pregado uma cruel partida. E agora já estava velho.
Por fim Sally entrou para lhe dizer que o jantar estava pronto. Ele sentou-se em frente dela e tentou comer. Perguntava-se sobre o que é que ela diria se ele agora lhe dissesse que aquele velho gordo que estivera sentado naquela cadeira era o amante que ela ainda lembrava com o deslumbramento da juventude. Há anos, quando ele a odiava por ela o fazer tão infeliz teria ficado radiante em lho dizer. Nessa altura queria magoá-la como ela o magoava a ele, pois aquele seu ódio era apenas amor. Mas agora já não lhe interessava. Encolheu os ombros com indiferença.
“O que é que esse homem queria?” perguntou ela pouco depois.
Ele não respondeu logo. Ela era já muito velha, uma indígena velha e gorda. Ele interrogava-se como é que pudera amá-la tão loucamente. Tinha posto a seus pés todos os tesouros da sua alma e ela ficara completamente indiferente. Um desperdício, e que desperdício! E agora quando olhava para ela só sentia desprezo. A sua paciência esgotara-se finalmente. Respondeu então à pergunta.
“É o mestre de uma escuna. Veio de Ápia.”
“E então?”
“Trouxe-me notícias de casa. O meu irmão mais velho está muito mal e eu tenho de regressar.”
“E ficas lá muito tempo?”
Ele encolheu os ombros.


Somerset Maugham
Red
in Collected Short Stories

27/11/2011

Uma estrela subiu ao céu



Estava no chão do recreio, no meio da sujidade. No fim do intervalo grande, Regina pegou nela. Era uma bolacha de Natal em forma de estrela, escura e com uma espessa cobertura de açúcar.
Na sala, Regina pôs a estrela na secretária, em frente da professora, a D. Mariana.
— Encontrei-a no recreio — disse.
— Alguém a deitou fora — disse Carolina.
— Está suja e já ninguém pode comê-la. — disse Francisco.
— Se alguém tivesse fome de verdade, comia-a — assegurava Regina.
— Ugh! Eu nunca iria metê-la à boca — disse Francisco.
A D. Mariana, em silêncio, ouviu as crianças durante algum tempo.
— Qual de vocês já teve fome de verdade, uma fome a sério? — perguntou por fim.
Alguns dedos levantaram-se.
— Uma vez, eu tive de ir para a cama sem jantar.
— Num passeio, no Verão, esquecemo-nos do cesto do piquenique.
— Nós fomos visitar a nossa tia Emília, mas ela não nos ofereceu nada para comer.
— E a vossa fome era tão grande que seriam capazes de comer a estrela? — perguntou a professora.
— Não, não era assim tão grande — respondeu Sandra por todos.
— Se comermos uma coisa assim, ficamos doentes.
Então, a D. Mariana contou a história do pequeno Sindra Singh, que vive na Índia longínqua e que tem aproximadamente a idade dos alunos da turma B da terceira classe. Todos os dias, Sindra recebe na Estação uma mão-cheia de arroz. São aproximadamente 300 grãos. Um dia Sindra contou-os. Come 150, assim que o senhor da estação lhos dá. Mete 100 grãos à boca quando o sol está alto e guarda o resto para a altura em que o sol se põe. Às vezes, faz batota e começa a comer quando o sol ainda está por cima das árvores.
— O que acham? — pergunta D. Mariana às crianças. — Acham que o Sindra Singh comeria esta estrelinha?
— Eu acho que sim — admitiu Regina.
— Mas, aqui, a bolacha estava caída no recreio, no meio da sujidade.
— O meu avô disse-me que não se deve deitar pão fora — contou Matilde. – Ele disse que aprendeu isso na Rússia, quando esteve preso depois da guerra.
— Em África, as pessoas também passam fome — disse Francisco.
— E no Brasil também. Lá, num certo sítio não choveu durante dois anos — contou Carolina.
— O meu tio escreveu da Anatólia — relatou Zeki. — Houve lá um terramoto e as pessoas já não têm quase nada para comer.
Até ali, Maria não tinha dito nada. Agora pedia para falar.
— Ontem à noite, na festa de Natal, cantámos e tocámos para os pais — disse. — Juntámos algum dinheiro. Com ele, podíamos fazer uma encomenda…
Maria hesitou e sentou-se novamente.
— Um embrulho de Natal! — exclamou Francisco.
— Depois de amanhã, parte da igreja um camião para o local do terramoto – disse Carolina. — De certeza que levava o embrulho!
As crianças estavam entusiasmadas. Escreveram no quadro tudo o que queriam meter no embrulho: chocolate e massapão, farinha, açúcar, biscoitos, conservas e, e, e…
Quando tocou para o intervalo, cada criança da turma sabia o que devia comprar nessa tarde, para se mandar a encomenda. Era o único trabalho de casa desse dia.
No fim, a D. Mariana ergueu a estrela.
— Estou enganada, meninos, ou ela está mesmo a brilhar um bocadinho? — As crianças também acharam que estava um pouco mais clara.
A professora voltou para casa bastante cansada, mas satisfeita. À noite, o telefone tocou. Era o Sr. Mateus, o pai de Francisco, a queixar-se.
O dinheiro tinha sido reunido para a turma. O dinheiro estava pensado para papel e lápis de cor. O dinheiro era para proveito das crianças da classe B. O dinheiro não era para deitar pela janela.
A D. Mariana objectou que tinham sido as crianças a terem a ideia de, no Advento, fazerem algum bem com aquele dinheiro.
O Sr. Mateus disse que a escola não existia para isso.
— Mas, Sr. Mateus, então o Francisco não contou nada da estrela?
— Estrela? — perguntou o Sr. Mateus. — Mas que estrela?
— Bem — disse a D. Mariana um pouco desamparada — a bolacha de Natal. Quando as crianças tiveram a ideia do embrulho, de repente, ela começou a brilhar. Quero dizer…
— Quer é enfiar-me o barrete, não é? — resmungou o Sr. Mateus. — Vou tomar outras medidas. O ministro…
— Pergunte ao Francisco sobre a estrela. Ele também viu! — podia ainda ter dito a D. Mariana, mas o pai de Francisco já tinha desligado.
Na manhã seguinte, a professora foi para a escola um pouco abatida. O marido tinha-a animado, e sugerido, caso fosse preciso, que pagasse ela própria as coisas para a encomenda, mas a D. Mariana achava que não era a mesma coisa.
No recreio, Francisco veio logo a correr ao seu encontro e entregou-lhe uma carta. A professora abriu apressadamente o envelope e a nota de vinte euros que vinha lá dentro quase voava para o chão. O Sr. Mateus tinha escrito ainda algumas linhas.

Cara D. Mariana,
Falei com o meu filho Francisco. Ainda não sei se é correcto o que pensa fazer, mas tive a impressão de que ainda se via nos olhos do Francisco o brilho da estrela.
Desculpe, por favor, o meu telefonema de ontem. A minha mulher diz muitas vezes que eu sou uma pessoa impetuosa.

Alexandre Mateus

No dia seguinte, saiu o camião para a Anatólia com muitas encomendas. No embrulho da turma B, ia uma carta.
Feliz Natal! — estava escrito. Cada uma das vinte e seis crianças escrevera o seu nome por baixo.
— Algures, na Anatólia, uma estrela vai subir ao céu — disse a D. Mariana às crianças.


Willi Fährmann
Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV Junior, 1989

A boneca



— Não leves sempre essa boneca suja contigo para a cama — disse a mãe de Eva.
— A minha Anita não é nenhuma boneca suja. — respondeu Eva — A minha Anita é muito querida.
— Mas está muito feia — continuou a mãe. — Olha só para a cara e para os cabelos dela!
Quando se olha para a boneca Anita, assim, sem se gostar dela, tem de se admitir. Bonita, não é. As bochechas estão cinzentas e a esboroar-se de tantos beijos e tantas lavagens. Já não tem propriamente um nariz, apenas uma saliência suja, e dos cabelos castanhos já só ficou um pequeno tufo de cabelos ralos.
Isto não incomodava Eva, mas a mãe dizia-lhe constantemente:
— Não queres pedir uma boneca nova pelo Natal? — perguntava-lhe.
Eva apertava a Anita contra si e dizia:
— Não!
— Tenho outra ideia — disse a mãe. — Vamos levar a Anita a um hospital de bonecas e lá põem-lhe cabelo novo e outro nariz.
Eva defendia-se. Não queria entregar a Anita.
Mas, certo dia, Alex, o irmão mais velho, disse uma coisa feia, uma coisa muito má. Disse:
— A tua boneca é um careca tinhoso!
Eva desatou a chorar. Depois, observou a sua Anita pela primeira vez com olhos de ver. Era verdade! A cara da Anita estava cheia de nódoas e a descamar-se, e quase totalmente careca.
Eva correu para a mãe.
— Achas — disse a soluçar — que no hospital das bonecas vão ser bons para a minha Anita?
— Mas claro que sim! — sossegou-a a mãe.
— Então… Por mim, podes levá-la…
Logo na manhã seguinte, a mãe foi ao hospital das bonecas. Era o único na cidade, pois já não havia muita gente que mandasse consertar bonecas.
No hospital das bonecas, um homem examinou a Anita.
— Tem pouco que se aproveite. Precisa de uma cabeça nova, e os braços e as pernas também deviam ser substituídos.
Apresentou à mãe diversas cabeças de bonecas, mas não havia nenhuma que fosse igual à da Anita.
— Além disso — continuou o homem — a reparação custa mais do que uma boneca nova.
A mãe de Eva procurou em todas as lojas de brinquedos uma boneca que, pelo menos, fosse mais ou menos semelhante à antiga Anita. Acabou por comprar uma do mesmo tamanho e com os mesmos cabelos castanhos. No resto, a nova boneca era um pouco diferente, mas encantadora, e tinha uma cara que se podia lavar com água.
Quando chegou a casa com as duas Anitas, a nova e a velha, Eva ainda estava no infantário. Mas Alex já tinha vindo da escola e descobriu a caixa no cesto de compras da mãe.
— Aha! — disse. — Compras de Natal!
— Uma boneca nova para a Eva — respondeu a mãe. — Mas ela não pode saber. Tem de pensar que é a sua Anita.
— Aha! — disse Alex. — Mentiras de Natal!
— Não sejas atrevido — disse a mãe. — É o melhor para a Eva.
— Deixa-a lá ficar com o careca tinhoso — disse Alex.
A mãe arrumou a caixa com a nova boneca no armário da roupa.
— Fico contente por finalmente nos vermos livres daquela coisa tão estragada.
Atirou a Alex o saco de plástico com a antiga boneca.
— Toma — disse. — Mete-a no contentor do lixo, mas lá para o fundo.
Alex pegou na boneca e saiu do quarto a assobiar baixinho.
Desde que a Anita desaparecera, Eva perguntava por ela todos os dias.
— A minha Anita ainda está no hospital? O homem é simpático com ela? Ela não tem saudades? Vou mesmo voltar a tê-la pelo Natal?
E a mãe respondia sempre:
— Sim, Eva. Com certeza, Eva. Não te preocupes, Eva.
Para a noite de Natal, a mãe de Eva vestiu à nova boneca o vestido da Anita e pô-la debaixo da árvore. Com o vestido vermelho, achava a mãe, ficava mesmo parecida com a Anita.
Mas, quando estendeu a boneca a Eva e disse:
— Ora vê como ficou linda a tua Anita! — Eva não aceitou e cruzou as mãos atrás das costas.
— Não! — gritou. — Essa não é a minha Anita!
E olhava decepcionada para a nova boneca:
— Eu quero a minha Anita… a minha Anita! — e começou a chorar baixinho sem parar.
A mãe não contara com isto e tentou consolar Eva. Mostrava-lhe outras prendas, levava-a à árvore de Natal, mas Eva mantinha os olhos baixos. Não queria ouvir nada nem ver prenda nenhuma.
— Anita! —queixava-se a menina. — Onde é que puseram a minha Anita?
Disse então Alex:
— Se não lhe devolverem o careca tinhoso, vai estragar-nos a festa de Natal.
— Mas… — balbuciou a mãe — tu deitaste…
— Achas? — perguntou Alex.
Correu ao quarto e regressou com um saco de plástico que meteu nas mãos de Eva.
— Anita! — gritou Eva, tirando do saco a velha boneca careca.
Alex sorria.
— E o que vais fazer agora à boneca nova?
— Esta? — perguntou Eva. — Vou dá-la a uma menina que eu não conheça.
— A uma menina… — repetiu Alex. — Ah, claro. Ela não pode ficar a saber que tens uma boneca careca fantástica!


Tilde Michels
Anne Braun (org.)
Weihnachtsgeschichten
Würzburg, Arena Verlag, 1991

17/11/2011

O Imortal



Solomon saith: “There is no new thing upon the
earth”. So that as Plato had an imagination,
“that all knowledge was but remembrance”; so
Solomon giveth his sentence, “that all novelty is
but oblivion”.

FRANCIS BACON: Essays LVIII.


Em Londres, em princípios do mês de junho de 1929, o antiquário Joseph Cartaphilus, de Esmirna, ofereceu à princesa de Lucinge os seis volumes em quarto-menor (1715-172O) da Ilíada de Pope. A princesa adquiriu-os; ao recebê-los, trocou algumas palavras com ele. Era; diz-nos, um homem muito magro e terroso, de olhos apagados e barba cinzenta, de traços singularmente vagos. Empregava com fluidez e ignorância as diversas línguas; em poucos minutos, passou do francês ao inglês e do inglês a uma conjunção enigmática de espanhol de Salonica e de português de Macau. Em outubro, a princesa ouviu de um passageiro do Zeus que Cartaphilus havia morrido no mar, ao regressar a Esmirna, e que o haviam enterrado na ilha de Ios. No último tomo da Ilíada encontrou este manuscrito.

O original está escrito em inglês e é abundante em latinismos. A versão que oferecemos é literal.

I

Que eu me lembre, meus trabalhos começaram em um jardim de Tebas Hekatómpylos, quando Diocleciano era imperador. Militei (sem glória) nas recentes guerras egípcias, sendo tribuno de uma legião que esteve aquartelada em Berenice, diante do mar Vermelho: a febre e a magia consumiram muitos homens que cobiçavam com magnanimidade o aço. Os mauritanos foram vencidos; a terra, antes ocupada pelas cidades rebeldes, foi dedicada eternamente aos deuses plutônicos; Alexandria, debelada, implorou em vão a misericórdia de César; antes de um ano, as legiões alcançaram o triunfo, mas eu mal consegui divisar a face de Marte. Essa privação me doeu e foi talvez a causa de eu ter me lançado, por temerosos e extensos desertos, a descobrir a secreta Cidade dos Imortais.

Meus trabalhos, como disse, começaram em um jardim de Tebas. Toda essa noite não dormi, pois algo estava combatendo em meu coração. Levantei-me pouco antes do amanhecer; meus escravos dormiam, a lua tinha a mesma cor da infinita areia. Um cavaleiro vencido e ensangüentado vinha do oriente. A uns passos de mim, caiu do cavalo. Com tênue voz insaciável, perguntou-me em latim o nome do rio que banhava os muros da cidade. Respondi-lhe que era o Egito, que as chuvas alimentam. “Outro é o rio que persigo”, replicou com tristeza, “o rio secreto que purifica da morte os homens”. Escuro sangue brotava de seu peito. Disse-me que sua pátria era uma montanha que está do outro lado do Ganges e que nessa montanha se falava que, se alguém caminhasse até o ocidente, onde o mundo se acaba, chegaria ao rio cujas águas dão a imortalidade. Acrescentou que na margem ulterior se ergue a Cidade dos Imortais, rica em baluartes e anfiteatros e templos. Antes do amanhecer, morreu, mas determinei descobrir a cidade e seu rio. Interrogados pelo verdugo, alguns prisioneiros mauritanos confirmaram a informação do viajante; alguém lembrou a planície elísia, no fim da terra, onde a vida dos homens é perdurável; outro, os cumes onde nasce o Pactolo, cujos moradores vivem um século. Em Roma, conversei com filósofos que sentiram que prolongar a vida do homem era prolongar sua agonia e multiplicar o número de suas mortes. Ignoro se acreditei alguma vez na Cidade dos Imortais: penso que então me bastou o trabalho de procurá-la. Flávio, procônsul de Getúlia, entregou-me duzentos soldados para a tarefa. Também recrutei mercenários, que se disseram conhecedores dos caminhos e foram os primeiros a desertar.

Os fatos posteriores deformaram até o inextricável a lembrança de nossas primeiras jornadas. Partimos de Arsinoe e entramos no abrasado deserto. Atravessamos o país dos trogloditas, que devoram serpentes e carecem do comércio da palavra; o dos garamantes da Líbia, que têm as mulheres em comum e se nutrem de leões; o da tribo dos augilas, que só veneram o Tártaro. Fatigamos outros desertos, onde é negra a areia, onde o viajante deve roubar as horas da noite, pois o fervor do dia é intolerável. De longe divisei a montanha que deu nome ao Oceano: em suas ladeiras cresce o eufórbio, que anula os venenos; no cume, vivem os sátiros, nação de homens cruéis e rústicos, inclinados à luxúria. Que essas regiões bárbaras, onde a terra é mãe de monstros, pudessem abrigar em seu seio uma cidade famosa, a todos nos pareceu inconcebível. Prosseguimos na marcha, pois teria sido uma desonra retroceder. Alguns temerários dormiram com o rosto exposto à
lua; a febre os queimou; na água corrompida das cisternas outros beberam a loucura e a morte. Então, começaram as deserções; muito pouco depois, os motins. Para reprimi-los, não vacilei no exercício da severidade. Procedi corretamente, mas um centurião me advertiu que os sediciosos (ávidos por vingar a crucificação de um deles) tramavam minha morte. Fugi do acampamento, com os poucos soldados que me eram fiéis. No deserto, perdi-os entre os redemoinhos de areia e a vasta noite. Uma flecha cretense me lacerou. Por vários dias, errei sem encontrar água, ou por um só enorme dia multiplicado pelo sol, pela sede e pelo temor da sede. Deixei o caminho ao arbítrio de meu cavalo. Na aurora, a distância encrespou-se de pirâmides e de torres. Insuportavelmente, sonhei com um exíguo e nítido labirinto: no centro havia um cântaro; minhas mãos quase o tocavam, meus olhos o viam, mas tão intrincadas e confusas eram as curvas que eu sabia que ia morrer antes de alcançá-lo.

II

Ao desenredar-me por fim desse pesadelo, vi-me atirado e manietado a um oblongo nicho de pedra, não maior que uma sepultura comum, superficialmente escavado no áspero
declive de uma montanha. Os lados eram úmidos, antes polidos pelo tempo que por labor. Senti no peito um doloroso latejo, senti que a sede me abrasava. Ergui-me e gritei debilmente. Ao pé da montanha, estendia-se sem rumor um arroio impuro, entorpecido por escombros e areia; na oposta margem, resplandecia (sob o último sol ou sob o primeiro) a evidente Cidade dos Imortais. Vi muros, arcos, frontispícios e foros: o alicerce era uma meseta de pedra. Uma centena de nichos irregulares, análogos ao meu, sulcavam a montanha e o vale. Na areia havia poços de pouca profundidade; desses mesquinhos buracos (e dos nichos) emergiam homens de pele cinzenta, de barba desleixada, nus. Pensei reconhecê-los: pertenciam à estirpe bestial dos trogloditas, que infestam as margens do golfo Arábico e as grutas etíopes; não me surpreendi que não falassem e que devorassem serpentes.

A urgência da sede me fez temerário. Considerei que estava a uns trinta pés da areia: de olhos fechados, com as mãos atadas às costas, atirei-me montanha abaixo. Afundei o rosto ensangüentado na água escura. Bebi como abeberam os animais. Antes de perder-me outra vez no sonho e nos delírios, inexplicavelmente repeti algumas palavras gregas: “Os ricos teucros de Zeléia que bebem a água negra do Esepo…”

Não sei quantos dias e noites rodopiaram sobre mim. Dolorido, incapaz de recuperar o abrigo das cavernas, despido na ignorada areia, deixei que a lua e o sol brincassem com meu aziago destino. Os trogloditas, infantis na barbárie, não me ajudaram a sobreviver ou a morrer. Em vão, roguei-lhes que me dessem a morte. Um dia, com o fio de um pedernal, parti minhas ligaduras. Em outro, levantei-me e pude mendigar ou roubar – eu, Marco Flamínio Rufo, tribuno militar de uma das legiões de Roma – minha primeira detestada ração de carne de serpente.

A ânsia de ver os Imortais, de tocar a sobre-humana Cidade, quase me impedia de dormir. Como se penetrassem em meu propósito, não dormiam também os trogloditas: a princípio, inferi que me vigiavam; depois, que se haviam contagiado por minha inquietude, como poderiam contagiar-se os cães. Para afastar-me da bárbara aldeia, escolhi a mais pública das horas, o cair da tarde, quando todos os homens emergem das gretas e dos poços e olham o poente, sem vê-lo. Orei em voz alta, menos para suplicar o favor divino que para intimidar a tribo com palavras articuladas. Atravessei o arroio que os bancos de areia entorpecem e dirigi-me à Cidade. Confusamente, seguiram-me dois ou três homens. Eram (como os demais dessa linhagem) de minguada estatura; não inspiravam temor, mas repulsa. Tive de contornar algumas ribanceiras irregulares que me pareceram pedreiras; ofuscado pela pedreiras; ofuscado pela grandeza da Cidade, eu a supusera próxima. Por volta da meia-noite, pisei, eriçada de formas idolátricas na areia amarela, a negra sombra de seus muros. Deteve-me uma espécie de horror sagrado. Tão abominados pelo homem são a novidade e o deserto que me alegrei que um dos trogloditas me tivesse acompanhado até o fim. Fechei os olhos e aguardei (sem dormir) que rebrilhasse o dia.

Disse que a Cidade estava construída sobre uma meseta de pedra. Essa meseta, comparável a um alcantilado, não era menos árdua que os muros. Em vão esgotei meus passos; o negro embasamento não registrava a menor irregularidade, os muros invariáveis não pareciam consentir uma única porta. A força do dia fez com que me refugiasse numa caverna; no fundo havia um poço, no poço uma escada que se abismava até a treva inferior. Desci; por um caos de sórdidas galerias cheguei a uma vasta câmara circular, a muito custo visível. Havia nove portas naquele porão; oito davam para um labirinto que falazmente desembocava na mesma câmara; a nona (através de outro labirinto) dava para uma segunda câmara circular, igual à primeira. Ignoro o número total de câmaras; minha desventura e minha ansiedade as multiplicaram. O silêncio era hostil e quase perfeito; outro rumor não havia nessas profundas redes de pedra além de um vento subterrâneo, cuja causa não descobri; sem ruído, perdiam-se entre as gretas fios de água enferrujada. Habituei-me com horror a esse duvidoso mundo; considerei inacreditável que pudesse existir outra coisa além de porões providos de nove portas e além de longos porões que se bifurcavam. Ignoro o tempo que tive de caminhar sob a terra; sei que certa vez confundi, na mesma nostalgia, a atroz aldeia dos bárbaros e minha cidade natal, entre as videiras.

No fundo de um corredor, um não previsto muro me barrou os passos, uma remota luz caiu sobre mim. Ergui os ofuscados olhos: no vertiginoso, no mais alto, vi um círculo de céu tão azul que chegou a parecer-me de púrpura. Alguns degraus de metal escalavam o muro. O cansaço me relaxava, mas subi, só me detendo às vezes para pesadamente soluçar de felicidade. Fui divisando capitéis e astrágalos, frontões triangulares e abóbadas, confusas pompas do granito e do mármore. Foi-me assim concedido ascender da cega região de negros labirintos entretecidos à resplandecente Cidade.

Emergi numa espécie de pequena praça, ou melhor, de pátio. Circundava-o um só edifício de forma irregular e altura variável; a esse edifício heterogêneo pertenciam as diversas cúpulas e colunas. Mais que qualquer outro traço desse monumento inacreditável, causou-me admiração o antiquíssimo de sua construção. Senti que era anterior aos homens, anterior à terra. Essa evidente antigüidade (embora, de algum modo, terrível para os olhos) pareceu-me adequada ao trabalho de operários imortais. Cautelosamente a princípio, com indiferença depois, com desespero por fim, errei por escadas e pavimentos do inextricável palácio. (Depois averigüei que eram inconstantes a extensão e a altura dos degraus, fato que me fez compreender a singular fadiga que me infundiram.) “Este palácio é obra dos deuses”, pensei primeiramente. Explorei os inabitados recintos e corrigi: “Os deuses que o edificaram morreram”. Notei suas peculiaridades e disse: “Os deuses que o edificaram estavam loucos”. Disse isso, bem sei, com incompreensível reprovação que era quase remorso, com mais horror intelectual que medo sensível. A impressão de enorme antigüidade juntaram-se outras: a do interminável, a do atroz, a do complexamente insensato. Eu havia cruzado um labirinto, mas a nítida Cidade dos Imortais me atemorizou e repugnou. Um labirinto é uma casa edificada para confundir os homens; sua arquitetura, pródiga em simetrias, está subordinada a esse fim. No palácio que imperfeitamente explorei, a arquitetura carecia de fim. Abundavam o corredor sem saída, a alta janela inalcançável, a aparatosa porta que dava para uma cela ou para um poço, as inacreditáveis escadas inversas, com os degraus e a balaustrada para baixo. Outras, aderidas aereamente ao costado de um muro monumental, morriam sem chegar a nenhuma parte, no fim de dois ou três giros, na treva superior das cúpulas. Ignoro se todos os exemplos que enumerei são literais; sei que durante muitos anos infestaram meus pesadelos; já não posso saber se esse ou aquele traço é transcrição da realidade ou das formas que desatinaram minhas noites. “Esta Cidade”, pensei, “é tão horrível que sua mera existência e perduração, embora no centro de um deserto secreto, contamina o passado e o futuro e, de algum modo, compromete os astros. Enquanto perdurar, ninguém no mundo poderá ser valoroso ou feliz”. Não quero descrevê-la; um caos de palavras heterogêneas, um corpo de tigre ou de touro, em que pululassem monstruosamente, conjugados e odiando-se, dentes, órgãos e cabeças, podem (talvez) ser imagens aproximadas.

Não recordo as etapas de meu regresso, entre os poeirentos e úmidos hipogeus. Sei apenas que não me abandonava o temor de que, ao sair do último labirinto, me rodeasse outra vez a nefanda Cidade dos Imortais. Nada mais posso lembrar. Esse esquecimento, agora insuperável, foi talvez voluntário; talvez as circunstâncias de minha evasão tenham sido tão ingratas que, em algum dia não menos esquecido também, jurei esquecê-las.

III

Os que tiverem lido com atenção o relato de meus trabalhos lembrarão que um homem da tribo me seguiu, como um cão poderia seguir-me, até a sombra irregular dos muros. Quando saí do último porão, encontrei-o na boca da caverna. Estava atirado na areia, onde desenhava grosseiramente e apagava uma fileira de sinais que eram como as letras dos sonhos, que se está a ponto de entender e logo se juntam. A princípio, pensei que se tratava de alguma escrita bárbara; depois vi que é absurdo imaginar que homens que não chegaram à palavra cheguem à escrita. Além disso, nenhuma das formas era igual a outra, o que excluía ou afastava a possibilidade de serem simbólicas. O homem as traçava, olhava para elas e as corrigia. Subitamente, como se esse jogo o enfastiasse, apagou-as com a palma e o antebraço. Olhou-me, não pareceu reconhecer-me. Entretanto, tão grande era o alívio que me inundava (ou tão grande e medrosa minha solidão) que me pus a pensar que esse rudimentar troglodita, que me olhava do chão da caverna, estivera me esperando. O sol escaldava a planície; quando empreendemos o regresso à aldeia, sob as primeiras estrelas, a areia era ardente sob os pés. O troglodita me precedeu; essa noite concebi o propósito de ensiná-lo a reconhecer, e talvez a repetir, algumas palavras. O cachorro e o cavalo (refleti) são capazes do primeiro; muitas aves, como o rouxinol dos Césares, do último. Por muito grosseiro que fosse o entendimento de um homem, sempre seria superior ao de irracionais.

A humildade e a miséria do troglodita trouxeram-me à memória a imagem de Argos, o velho cão moribundo da Odisséia, e assim lhe pus o nome de Argos e tentei ensiná-lo. Fracassei e tornei a fracassar. Os arbítrios, o rigor e a obstinação foram de todo inúteis. Imóvel, com os olhos inertes, não parecia perceber os sons que eu procurava inculcar-lhe. A alguns passos de mim, era como se estivesse muito longe. Deitado na areia, como uma pequena e arruinada esfinge de lava, deixava que sobre si girassem os céus, desde o crepúsculo do dia até o da noite. Julguei impossível que não se apercebesse de meu propósito. Lembrei-me de que se diz entre os etíopes que os macacos deliberadamente não falam para que não os obriguem a trabalhar e atribuí a suspicácia ou a temor o silêncio de Argos. Dessa fantasia passei a outras ainda mais extravagantes. Pensei que Argos e eu participávamos de universos diferentes; pensei que nossas percepções eram iguais, mas que Argos as combinava de outra maneira e construía com elas outros objetos; pensei que talvez não houvesse objetos para ele, mas um vertiginoso e contínuo jogo de impressões brevíssimas. Pensei em um mundo sem memória, sem tempo; considerei a possibilidade de uma linguagem que ignorasse os substantivos, uma linguagem de verbos impessoais ou de indeclináveis epítetos. Assim foram morrendo os dias e com os dias os anos, mas algo parecido com a felicidade ocorreu uma manhã. Choveu, com lentidão poderosa.

As noites do deserto podem ser frias, mas aquela tinha sido um fogo. Sonhei que um rio da Tessália (a cujas águas eu restituíra um peixe de ouro) vinha resgatar-me; sobre a vermelha areia e a negra pedra eu o ouvia aproximar-se; o frescor do ar e o rumor atarefado da chuva me despertaram. Corri para recebê-la, despido. Declinava a noite; sob as nuvens amarelas, a tribo, não menos feliz que eu, oferecia-se aos vívidos aguaceiros numa espécie de êxtase. Pareciam coribantes possuídos pela divindade. Argos, olhos postos na abóbada celeste, gemia; torrentes rolavam-lhe pelo rosto, não só de água, mas (soube-o depois) de lágrimas. Argos, gritei, Argos.

Então, com mansa admiração, como se descobrisse uma coisa perdida e esquecida há muito tempo, Argos balbuciou estas palavras: “Argos, cão de Ulisses”. E depois, também sem olhar-me: “Este cão atirado no esterco”.

Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real. Perguntei-lhe o que sabia da Odisséia. A prática do grego lhe era penosa; tive de repetir a pergunta.

“Muito pouco”, disse. “Menos que o rapsodo mais pobre. Já terão passado mil e cem anos desde que a inventei.”

IV

Tudo me foi dilucidado naquele dia. Os trogloditas eram os Imortais; o riacho de águas arenosas, o Rio que o cavaleiro procurava. Quanto à cidade cujo renome se havia espalhado até o Ganges, nove séculos fazia que os Imortais a haviam assolado. Com as relíquias de sua ruína ergueram, no mesmo lugar, a desatinada cidade que eu percorri: espécie de paródia ou reverso e também templo dos deuses irracionais que manejam o mundo e dos quais nada sabemos, salvo que não se parecem com o homem. Aquela fundação foi o último símbolo a que condescenderam os Imortais; marca uma etapa em que, julgando vã qualquer obra, determinaram viver no pensamento, na pura especulação. Erigiram a obra, esqueceram-na e foram morar nas covas. Absortos, quase não percebiam o mundo físico.

Homero narrou essas coisas como quem fala com uma criança. Também me falou de sua velhice e da derradeira viagem que empreendeu, movido, como Ulisses, pelo propósito de chegar aos homens que não conhecem o mar, nem comem carne temperada com sal, nem suspeitam o que seja um remo. Viveu um século na Cidade dos Imortais. Quando a derrubaram, aconselhou a fundação da outra. Isto não nos deve surpreender; diz-se que, depois de cantar a guerra de Ílion, cantou a guerra das rãs e dos ratos. Foi como um deus que criara o cosmos e em seguida o caos.

Ser imortal é insignificante; com exceção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se imortal. Tenho notado que, apesar das religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que tributam ao primeiro século prova que só crêem nele, já que destinam todos os demais, em número infinito, a premiá-lo ou a castigá-lo. Mais razoável me parece a roda de certas religiões do Industão; nessa roda, que não tem princípio nem fim, cada vida é efeito da anterior e gera a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto… Doutrinada num exercício de séculos, a república de homens imortais atingira a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que em um prazo infinito ocorrem a todo homem todas as coisas. Por suas passadas ou futuras virtudes, todo homem é credor de toda bondade, mas também de toda traição, por suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar, os números pares e os números ímpares tendem ao equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o talento e a estupidez, e talvez o rústico poema de Cid seja o contrapeso exigido por um único epíteto das Éclogas ou por uma sentença de Heráclito. O pensamento mais fugaz obedece a um desenho invisível e pode coroar, ou inaugurar, uma forma secreta. Sei dos que praticavam o mal para que nos séculos futuros resultasse o bem, ou tivesse resultado nos já pretéritos… Encarados assim, todos os nossos atos são justos, mas também são indiferentes. Não há méritos morais ou intelectuais. Homero compôs a Odisséia; postulado um prazo infinito, com infinitas circunstâncias e mudanças, o impossível seria não compor, sequer uma vez, a Odisséia. Ninguém é alguém, um só homem imortal é todos os homens. Como Cornélio Agripa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demônio e sou mundo, o que é uma fatigante maneira de dizer que não sou.

O conceito do mundo como sistema de precisas compensações influiu enormemente nos Imortais. Em primeiro lugar, tornou-os invulneráveis à piedade. Mencionei as antigas pedreiras que sulcavam os campos da outra margem; um homem despenhou-se na mais funda; não podia lastimar-se nem morrer, mas a sede o abrasava; antes que lhe atirassem uma corda, passaram setenta anos. Tampouco interessava o próprio destino. O corpo era um submisso animal doméstico e bastava-lhe, cada mês, a esmola de umas horas de sono, de um pouco de água e de restos de carne. Que ninguém nos queira rebaixar a ascetas. Não há prazer mais complexo que o pensamento e a ele nos entregávamos. Às vezes, um estímulo extraordinário nos restituía ao mundo físico. Por exemplo, naquela manhã, o velho prazer elementar da chuva. Esses lapsos eram raríssimos; todos os Imortais eram capazes de perfeita quietude; lembro-me de um que jamais vi de pé: um pássaro se aninhava em seu peito.

Entre os corolários da doutrina de que não existe coisa que não esteja compensada por outra, há um de muito pouca importância teórica, mas que nos induziu, em fins ou em princípios do século X, a dispersar-nos pela face da terra. Cabe nestas palavras: “Existe um rio cujas águas dão a imortalidade; em alguma região haverá outro rio cujas águas a apaguem”. O número de rios não é infinito; um viajante imortal que percorra o mundo acabará, algum dia, tendo bebido de todos. Propusemo-nos descobrir esse rio.

A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do inditoso. Entre os Imortais, ao contrário, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário. O elegíaco, o grave, o cerimonioso não vigoram para os Imortais. Homero e eu nos separamos nas portas de Tânger; creio que não nos dissemos adeus.

V

Percorri novos reinos, novos impérios. No outono de 1O66, militei na ponte de Stamford, já não lembro se nas fileiras de Harold, que não tardou em encontrar seu destino, ou se nas daquele infausto Harald Hardrada, que conquistou seis pés de terra inglesa, ou um pouco mais. No sétimo século da Hégira, no arrabalde de Bulaq, transcrevi com pausada caligrafia, em um idioma que esqueci, em um alfabeto que ignoro, as sete viagens de Simbad e a história da Cidade de Bronze. Num pátio do cárcere de Samarcanda joguei muitíssimo o xadrez. Em Bikanir, professei a astrologia, e também na Boêmia. Em 1638, estive em Kolozsvar e depois em Leipzig. Em Aberdeen, em 1714, assinei os seis volumes da Ilíada de Pope; sei que os freqüentei com deleite. Por volta de 1729, discuti a origem desse poema com um professor de retórica, chamado, creio, Giambattista; suas razões me pareceram irrefutáveis. No dia 4 de outubro de 1921, o Patna, que me conduzia a Bombaim, teve que fundear em um porto da costa eritréia.1 Desci; lembrei-me de outras manhãs muito antigas, também diante do mar Vermelho, quando era tribuno de Roma e a febre e a magia e a inação consumiam os soldados. Nos arredores, vi um caudal de água clara; provei-a, levado pelo costume. Ao subir à margem, uma árvore espinhosa me lacerou o dorso da mão. A inusitada dor me pareceu muito viva. Incrédulo, silencioso e feliz, contemplei a preciosa formação de uma lenta gota de sangue. De novo sou mortal, repeti a mim mesmo, de novo me pareço com todos os homens. Nessa noite, dormi até o amanhecer.

…Revisei estas páginas, passado um ano. Parece-me que elas se ajustam à verdade, mas nos primeiros capítulos, e ainda em certos parágrafos dos outros, creio perceber algo falso. Isso é efeito, talvez, do abuso de traços circunstanciais, procedimento que aprendi com os poetas e que tudo contamina de falsidade, já que esses traços podem ser freqüentes nos fatos, mas não na memória deles… Creio, contudo, ter descoberto uma razão mais íntima. Vou escrevê-la; não importa que me julguem fantástico.

A história que narrei parece irreal porque nela se mesclam os sucessos de dois homens diferentes. No primeiro capítulo, o cavaleiro quer saber o nome do rio que banha as muralhas de Tebas; Flamínio Rufo, que antes dera à cidade o epíteto de Hekatómpylos, diz que o rio é o Egito; nenhuma dessas locuções é adequada a ele, mas a Homero, que faz menção expressa, na Ilíada, a Tebas Hekatómpylos, e na Odisséia, pela boca de Proteu e de Ulisses, diz invariavelmente Egito por Nilo. No capítulo segundo, o romano, ao beber a água imortal, pronuncia algumas palavras em grego; essas palavras são homéricas e podem ser encontradas no fim do famoso catálogo das naves. Depois, no vertiginoso palácio, fala de “reprovação que era quase remorso”; essas palavras correspondem a Homero, que havia projetado esse horror. Tais anomalias me inquietaram; outras, de ordem estética, permitiram-me descobrir a verdade. O último capítulo as inclui; aí está escrito que militei na ponte de Stamford, que transcrevi, em Bulaq, as viagens de Simbad,
o Marinheiro, e que assinei, em Aberdeen, a Ilíada inglesa de Pope. Lê-se, inter alia: “Em Bikanir, professei a astrologia, e também na Boêmia”. Nenhum desses testemunhos é falso; significativo é o fato de havê-los destacado. O primeiro de todos parece convir a um homem de guerra, mas logo se percebe que o narrador não repara no bélico e sim no destino dos homens. Os que seguem são mais curiosos. Uma obscura razão elementar me obrigou a registrá-los; fiz isso porque sabia que eram patéticos. Não o são, ditos pelo romano Flamínio Rufo. São, ditos por Homero; é estranho que este copie, no século XIII, as aventuras de Simbad, de outro Ulisses, e descubra, muitos séculos depois, em um reino boreal e em um idioma bárbaro, as formas de sua Ilíada. Quanto à frase que reúne o nome de Bikanir, vê-se que foi construída por um homem de letras, desejoso (como o autor do catálogo das naves) de mostrar vocábulos esplêndidos.2

Quando se aproxima o fim, já não restam imagens da lembrança; só restam palavras. Não é estranho que o tempo tenha confundido as que alguma vez me representaram com as que foram símbolos do destino de quem me acompanhou, por tantos séculos. Eu fui Homero; em breve, serei Ninguém, como Ulisses; em breve, serei todos: estarei morto.

Pós-escrito de 195O. Entre os comentários que a publicação anterior despertou, o mais curioso, já que não o mais urbano, biblicamente se intitula A Coat of Many Colours (Manchester,1948 ) e é obra da pena tenacíssima do doutor Nahum Cordovero. Compreende umas cem páginas. Fala dos centões gregos, dos centões da baixa latinidade, de Ben Jonson, que definiu seus contemporâneos com trechos de Sêneca, do Virgilius Evangelizans de Alexander Ross, dos artifícios de George Moore e de Eliot e, finalmente, da “narração atribuída ao antiquário Joseph Cartaphilus”. Denuncia, no primeiro capítulo, breves interpolações de Plínio (Historia Naturalis, V, 8); no segundo, de Thomas de Quincey (Writings,111, 439); no terceiro, de uma epístola de Descartes ao embaixador Pierre Chanut; no quarto, de Bernard Shaw (Back to Methuselah, V). Infere dessas intrusões, ou furtos, que todo o documento é apócrifo.
No meu entender, a conclusão é inadmissível. “Quando se aproxima o fim”, escreveu Cartaphilus, “já não restam imagens da lembrança; só restam palavras”. Palavras, palavras deslocadas e mutiladas, palavras de outros, foi a pobre esmola que lhe deixaram as horas e os séculos.


1 Há uma rasura no manuscrito; talvez o nome do porto tenha sido apagado.
2 Ernesto Sábato sugere que o “Giambattista” que discutiu a formação da Ilíada com o antiquário Cartaphilus seja Giambattista Vico; esse italiano sustentava que Homero é um personagem simbólico, à maneira de Plutão ou de Aquiles.


Jorge Luis Borges