31/10/2011

A Mulher Vampiro


O conde Hipólito tinha voltado das suas extensas viagens, a fim de tomar posse da rica herança do pai, que morrera pouco tempo antes. O solar da família era situado numa das mais pitorescas regiões, e as rendas do patrimônio permitiam embelezá-lo custosamente. O conde resolveu reproduzir ali tudo o que durante as suas viagens o impressionara vivamente pela magnificência e bom gosto. Chamou uma nuvem de artistas e de operários, que começaram logo a embelezar, ou para melhor dizer, a reconstruir o castelo, rasgando ao mesmo tempo um parque do mais grandioso estilo, onde se encravaram, como dependências, a igreja paroquial e o cemitério.
Possuidor dos conhecimentos necessários, o conde dirigiu em pessoa os trabalhos e entregou-se completamente a esta ocupação.
E assim decorreu um ano, sem que lhe passasse pela idéia ir brilhar, como lhe aconselhava um tio velho, na sociedade da capital, sob os olhares das meninas casadoiras, a fim de desposar a melhor, a mais bela e a mais nobre de todas.
Estava, uma manhã, sentado à mesa desenhando o plano duma nova construção, quando lhe anunciaram uma parente de seu pai.
Ao ouvir o nome da baronesa, Hipólito recordou-se logo de que o pai se lhe referia sempre com uma mistura da mais profunda indignação e certo receio. Sem explicar o perigo que havia na convivência, afastara sempre dela as pessoas que lhe eram caras. Se teimavam em pedir-lhe explicações, o conde respondia que havia coisas em que era melhor não falar.
O certo é que na capital circulavam certos boatos a respeito de um processo criminal muito singular, em que a baronesa estivera envolvida e em conseqüência do qual se havia separado do marido e fora obrigada a retirar-se para o campo. Todavia o príncipe perdoara-lhe.
Hipólito experimentou uma sensação desagradável à aproximação da pessoa detestada pelo pai apesar de desconhecer as razões dessa aversão. Os deveres da hospitalidade, que se respeitam principalmente no campo, impunham-lhe, porém, a necessidade de receber a importuna visita.
A baronesa estava longe de ser feia, mas nunca pessoa alguma produzira no conde repugnância tão manifesta.
Ao entrar, a baronesa cravou no dono da casa um olhar incendiado, mas logo baixou os olhos, e pediu-lhe desculpa da sua visita nos termos mais aviltantes de rasteira humildade. Lastimou que o pai do conde, possuído das mais extraordinárias prevenções inspiradas maldosamente pelos seus inimigos, a tivesse odiado de maneira tão acirrada. Apesar de ter caído em profunda miséria, chegando quase a padecer de fome, o conde nunca a socorrera. Ia agora refugiar-se numa cidade da província, tendo acabado de receber inesperadamente uma pequena quantia. Rematou dizendo que não pudera resistir ao desejo de ver o filho do homem, a cujo ódio irreconciliável sempre correspondera com profunda estima.
Estas palavras, pronunciadas com o acento tocante da verdade, conseguiram comover o conde, para o que também muito contribuiu a presença da graciosa e encantadora menina que acompanhava a baronesa. Calou-se esta finalmente, mas o conde pareceu não reparar em tal, e ficou silencioso e contrafeito. A baronesa pediu-lhe então desculpa duma falta em que o embaraço a fizera incorrer e apresentou-lhe a sua filha Aurélia.
Corando como um rapaz dominado por suave embriaguez, o conde suplicou-lhe que lhe permitisse reparar os agravos do pai, devidos certamente a uma inadvertência, oferecendo-lhe hospitalidade no castelo. Ao certificar-lhe as suas boas disposições, pegou-lhe na mão e estremeceu de terror. Sentiu-lhe os dedos gelados, sem vida, ao mesmo tempo que o vulto descarnado da baronesa, que fixava nele uns olhos embaçados, tomava o aspecto dum cadáver vestido de brocado.
- Valha-me Deus! Que contrariedade! E logo nesta ocasião! - exclamou Aurélia.
E com voz terna, que se insinuava na alma explicou que a sua desgraçada mãe tinha às vezes ataques de catalepsia, mas que estas sincopes passavam de pronto sem auxílio de remédios.
O conde retirou com dificuldade a mão que a baronesa apertava nervosamente, e, no arroubamento dum amor nascente, pegou na de Aurélia cobrindo-a de beijos.
Chegara à idade madura, mas experimentava agora pela primeira vez uma forte paixão, tornando-se impossível dissimular o que sentia, tanto mais que era animado pela graça encantadora com que Aurélia lhe acolhia as amabilidades.
A baronesa voltou a si passados alguns minutos, sem se recordar do que lhe tinha acontecido. Afirmou ao conde que se sentia honrada com aquele convite, e que este procedimento lhe apagava para sempre da lembrança a injusta conduta do pai de Hipólito.
Foi assim que o viver íntimo do fidalgo mudou subitamente. Chegava a crer que um favor especial do destino lhe trouxera a única pessoa que podia, como esposa, dar-lhe a suprema ventura.
A velha observou sempre a mesma conduta. Silenciosa, séria, reservada, deixava a propósito transparecer uma alma cheia de paz e de bons sentimentos. O conde acostumara-se àquele rosto singularmente pálido e enrugado, e aquela aparência de espectro, e atribuía tudo à má saúde da sua hóspede e ao gosto que ela tinha por sombrios passatempos. Com efeito os criados contaram-lhe que a baronesa dava passeios noturnos pelo parque, para os lados do cemitério.
Sentiu-se envergonhado por se ter deixado arrastar, no começo, pelas prevenções do pai, e o tio velho despendeu em vão a inesgotável eloqüência, exortando-o a renunciar ao sentimento que o dominava e a relações que um dia poderiam desgraçá-lo. Convencido de que Aurélia o amava, pediu-a em casamento. É fácil de imaginar o quanto a baronesa ficou encantada com esta proposta, que a arrancava à miséria e lhe assegurava uma existência feliz.
A palidez desaparecera do rosto de Aurélia anuviado por uma expressão de invencível pesar, e as delícias do amor deram-lhe aos olhos suave brilho e às faces frescura e colorido.
Um acontecimento funesto retardou, porém, o cumprimento dos desejos do conde. Na manhã do dia da boda, encontraram a baronesa estendida e sem movimento no parque, a pouca distância do cemitério, com o rosto contra o chão. O conde acabava de levantar-se e pusera-se à janela, pensando com embriaguez na felicidade que ia gozar, quando trouxeram a baronesa para o castelo. Pensou que se tratava dum ataque cataléptico, como era costume, mas todos os meios empregados para a chamar à vida foram inúteis. Estava morta!
Aurélia não se entregou a violenta angústia. Parecia consternada e atônita por causa deste imprevisto golpe do destino, mas não verteu uma única lágrima.
O conde, temendo melindrá-la, observou-lhe, com precaução e delicadeza infinitas, que era necessário pôr de parte as conveniências e apressar o mais possível o casamento não obstante a morte da baronesa, afim de evitar maiores transtornos. Ao ouvi-lo, Aurélia deitou-lhe os braços ao pescoço e, derramando muitas lágrimas, exclamou:
- Sim, pela minha salvação, consinto!
O conde atribuiu esta exaltação à desconsoladora idéia de que, órfã e sem asilo, Aurélia não tinha para onde ir e que o decoro lhe não permitia ficar no castelo. Teve o cuidado de colocar junto de Aurélia, até ao dia fixado para a cerimônia, uma aia, matrona respeitável.
No entanto Aurélia estava numa agitação singular, proveniente mais da angústia cruciante que a perseguia incessantemente, do que do desgosto causado pela morte da mãe.
Um dia, quando conversava amorosamente com o conde, ergueu-se de súbito, pálida, num mortal terror, e banhada em lágrimas refugiou-se nos seus braços como se quisesse fugir a um perseguidor invisível. Exclamou:
- Não, nunca, nunca!
Depois do casamento, que não foi perturbado por nenhum contratempo, é que a perturbação e a ansiedade de Aurélia pareceram dissiparem-se.
Como bem se compreende, o conde suspeitou de que no coração de sua esposa existisse alguma causa desconhecida, que a atormentava. Contudo, foi bastante delicado para não a interrogar enquanto a viu aflita, mas depois, com grandes rodeios, perguntou-lhe o que produzira aquela extraordinária disposição de espírito. Aurélia significou-lhe que ia com vivo prazer patentear o coração ao esposo da sua alma. O conde, surpreendido, soube que a perturbação de Aurélia provinha do procedimento criminoso da mãe.
- Há nada mais horrível, perguntou ela, do que vermo-nos obrigados a aborrecer, e odiar a nossa própria mãe?
Provaram estas palavras que o pai e o tio do conde não se haviam enganado, e que a baronesa captara este último por meio de requintada hipocrisia.
O castelão nem tentou ocultar que a morte da baronesa lhe parecia mercê da Providência, mas Aurélia declarou-lhe que fora precisamente a morte da mãe que a enchera de pressentimentos sombrios, e que o receio de que não poderia ainda triunfar, lhe dizia que a mãe havia de ressuscitar algum dia, para vir precipitá-la num abismo, depois de arrancá-la dos braços do seu amado esposo.
E falou das recordações que tinha conservado da sua infância.
Eram estas.
Um dia, ao acordar, achou a casa em completa desordem. Abriam-se e fechavam-se as portas com estrondo, ouviam-se gritos soltos por vozes desconhecidas. Quando o sossego se restabeleceu, a ama de Aurélia pegou-lhe ao colo e levou-a para uma vasta sala onde estava muita gente. Sobre uma grande mesa, no meio da casa, viu estendido um homem, que brincava sempre muito com ela e lhe dava bolos, e a quem a pequena chamava papá. Estendeu-lhe os braços para o beijar, mas aqueles lábios, que tinha conhecido quentes e cheios de vida, estavam gelados. Desatou a chorar sem saber porquê. Dali a ama levou-a para uma casa desconhecida, onde ficou por muitos dias. Passado tempo a mãe foi buscá-la de carruagem e levou-a para a capital.
Completava Aurélia dezesseis anos, quando se apresentou em casa da baronesa um homem a quem ela recebeu com alegria e familiaridade, como antigo conhecimento. Multiplicaram-se as visitas e dentro em pouco operou-se considerável mudança na vida da baronesa. Em vez de morar numa água-furtada, de vestir pobremente, de passar mal, foi habitar uma casa esplêndida no melhor bairro da cidade, passou a ter fatos magníficos, e mesa lauta, sendo seu inseparável comensal o desconhecido, e, finalmente, não faltava a nenhum divertimento público.
Só Aurélia não participava da melhoria, que, segundo era fácil de conhecer, provinha do desconhecido. Não vestia melhor do que dantes e estava sempre fechada no quarto, ao passo que a mãe ia às festas com o tal homem.
Este, apesar de já ter ultrapassado os quarenta anos, parecia muito mais novo. Bonito de semblante e esbelto de figura, nem por isso deixava de repugnar a Aurélia, porque às vezes era ordinário e desastrado de maneiras, contradizendo assim as pretensões que tinha a homem amável e afidalgado.
Por este tempo, começou a deitar à menina certos olhares, que lhe infundiam inexplicável horror.
Até então a mãe nunca lhe falara a respeito dele. Limitara-se a dizer-lhe o seu nome e que o barão era um parente afastado, possuidor de colossal fortuna. Outra vez, gabou-lhe os dotes físicos e perguntou à filha que tal o achava, e, como esta não ocultasse a repugnância que tinha por ele, chamou-a de tola e dardejou-lhe um olhar de meter medo, mas passou depois a tratá-la com agrado, deu-lhe bons vestidos, e levou-a aos divertimentos. O intitulado barão manifestava tanta solicitude e um tal desejo de agradar a Aurélia, que se lhe tornou verdadeiramente insuportável, tanto mais que ela um dia presenciou, cheia de mágoa, uma cena escandalosa, que lhe tirou todas as dúvidas acerca das relações da mãe com o barão. Este, meio ébrio, apertou-a nos braços, mostrando-lhe claramente as suas intenções abomináveis. O desespero deu forças à donzela, que repeliu o miserável com vigor, fazendo-o cair para trás, e correu a fechar-se no quarto.
A baronesa declarou à filha, com frieza e terminantemente, que se deixasse de esquisitices fora de propósito, pois era o titular quem fazia todas as despesas da casa. Como não estava para recair na miséria de outros tempos, aconselhou-a a ceder à vontade do barão, o qual, em caso de recusa, já ameaçara deixá-las. Longe de se impressionar com as lágrimas e queixumes de Aurélia, a velha recebeu-os às gargalhadas e com zombaria provocante. Gabou-lhe impudicamente uma ligação, que lhe ofereceria todas as voluptuosidades mundanas, servindo-se de termos tão abomináveis e desbragados que Aurélia ficou aterrorizada.
Julgando-se perdida, só viu recurso na fuga imediata. Achou meio de apanhar a chave da porta da rua, e à meia noite, depois de fazer uma trouxa com as coisas mais indispensáveis, encaminhou-se para a antecâmara, que se achava debilmente alumiada. Julgava que a mãe estaria dormindo e já ia sair, quando alguém subiu precipitadamente a escada e empurrou a porta. Soltos os cabelos grisalhos e vestida com uma camisola suja, que deixava a descoberto os braços e o peito, a baronesa entrou na antecâmara e foi cair aos pés de Aurélia. O suposto barão perseguia-a, armado com uma bengala nodosa, e bradando:
- Espera, filha maldita de Satanás, bruxa do inferno, espera que já vou dar-te a refeição de núpcias!
E, arrastando-a pelos cabelos para o meio da casa, começou a maltratá-la cruelmente, espancando-a com a bengala.
A baronesa desatou a gritar desapoderadamente, e Aurélia, quase desfalecida, abriu a vidraça e clamou por socorro. Por acaso ia passando uma patrulha policial e acudiu logo.
- Prendam-no! - bradou aos soldados a baronesa, louca de aflição e de raiva. Prendam-no! Olhem para o ombro, que está a descoberto! É Urian!
Assim que ela pronunciou este nome, o sargento comandante da patrulha soltou um grito e disse:
- Olá! Apanhei-te finalmente!
Os guardas agarraram o desconhecido e levaram-no, a despeito da resistência que empregava para desenvencilhar-se.
Não obstante a violência do que se tinha passado, a baronesa percebeu o que a filha estivera prestes a fazer. Agarrou-a brutalmente por um braço, empurrou-a para o quarto e fechou a porta à chave, sem dizer palavra.
No dia seguinte saiu e só voltou tarde de noite. Entretanto Aurélia, ali encerrada não viu nem ouviu pessoa alguma, e padeceu as torturas da fome e da sede. Nos dias seguintes não recebeu muito melhor tratamento. A mãe deitava-lhe por vezes uns olhos cintilantes de cólera e parecia meditar qualquer projeto sinistro. Afinal recebeu, certa noite, uma carta que pareceu alegrá-la, e disse a Aurélia:
- Foste tu, criatura disparatada, a causa de tudo isto, mas agora, felizmente, tudo vai bem e Deus queira que evites o terrível castigo, que o demônio te reservava.
Dali por diante tornou-se mais complacente, e Aurélia, que desde que Urian se fora já não pensava em fugir, passou a gozar de mais ampla liberdade.
Passado tempo, estando sozinha, sentada no seu quarto, ouviu um grande barulho na rua.
A criada de quarto entrou precipitadamente e disse-lhe que a polícia levava preso o filho do carrasco de **. O facínora, acusado do crime de roubo à mão armada, fôra, tempos antes marcado a ferro em brasa e era levado para a cadeia quando conseguiu fugir à escolta. Desta vez não lograria escapar, certamente.
Aurélia teve um sinistro pressentimento e correu à janela. Adivinhara. Era o suposto barão que ia passando algemado e amarrado a uma carroça. Transferiam-no para outra prisão, a fim de cumprir a pena a que o tinham condenado. Ao ser alvejada pelo furioso olhar que o malvado ergueu para ela, ao mesmo tempo que lhe fazia um gesto de ameaça, Aurélia sentiu-se esmorecer e foi cair numa poltrona.
A baronesa ficava muito tempo fora de casa e deixava a filha ao abandono, pensando tristemente nas desventuras que ainda lhe estariam iminentes.
A criada de quarto entrara para o serviço depois da cena noturna, e, sabendo que o ladrão tivera relações íntimas com a ama, disse um dia a Aurélia que lastimava sinceramente a senhora baronesa, por ter sido enganada tão indignamente por aquele infame. Aurélia bem sabia o que havia de pensar a este respeito. Parecia-lhe impossível que os guardas, que tinham prendido Urian em casa da baronesa, não ficassem cientes das verdadeiras relações que existiam entre ambos, pois que ela lhes dissera o nome do criminoso e indicara o sinal infamante que ele tinha no ombro.
Segundo dizia a criada nas suas palavras ambíguas, falava-se muito àquele respeito. Andava de boca em boca o fato de que a justiça fizera uma severa sindicância e que ameaçara a baronesa com a prisão, porque o filho do carrasco tinha revelado casos verdadeiramente extraordinários.
A pobre Aurélia era obrigada a reconhecer a depravação da mãe, visto que, depois daquele terrível acontecimento ela continuava ainda a residir na capital.
A baronesa viu-se enfim reduzida à necessidade de sair de uma cidade onde estava exposta a infames suspeitas, aliás muito bem fundadas, e de fugir para lugar distante. Durante esta viagem é que tinha ido ter ao castelo do conde.
Aurélia considerava-se sumamente venturosa e ao abrigo de receios, mas qual não foi o seu espanto quando, num dia em que manifestava à mãe a alegria que o céu lhe concedera, esta, com os olhos cintilantes, exclamou desabridamente:
- Foste a causa da minha desgraça, criatura abjeta e maldita; mas ainda que a morte me leve repentinamente, a vingança virá surpreender-te no meio da tua imaginária felicidade. É nestes acessos nervosos, cuja origem remonta ao teu nascimento, que os artifícios de Satanás...
A mulher do conde calou-se de repente, e, abraçando-se ao marido, pediu-lhe que a dispensasse de repetir as palavras que a mãe pronunciara numa crise de furor insensato. Sentia o coração esfacelar-se, ao recordar as medonhas ameaças daquela possessa do demônio, ameaças que excediam todos os horrores imagináveis. O conde consolou a esposa o melhor que pôde, sem contudo esquivar-se a ter medo.
Quando sossegou um pouco mais, não deixou de reconhecer que os crimes da baronesa, apesar de ela já ter falecido, haviam lançado uma sombra funesta numa existência que ele futurará cheia de felicidade.
Passado pouco tempo, Aurélia foi mudando sensivelmente. A palidez do rosto e o olhar extinto pareciam indicar doença, mas ao mesmo tempo os seus modos extraordinários e inquietos faziam suspeitar novo mistério. Afastava-se de todos, até do marido; fechava-me no quarto ou buscava os sítios mais solitários do parque; quando aparecia, trazia os olhos vermelhos de chorar, o rosto desfigurado, denunciando o pesar que a devorava.
Em vão o conde se esforçou por indagar as causas que punham a mulher naquele estado. Aurélia caiu em profundo abatimento, de que saiu tão somente depois de consultar uma celebridade médica.
O homem de ciência foi de parecer que a grande irritabilidade nervosa da condessa e os seus incômodos de saúde podiam fazer conceber a esperança de que ia ter fruto aquele casamento venturoso. Um dia, durante o jantar, aludiu ao estado de Aurélia. Esta, a princípio, não deu atenção à conversa do doutor com o conde, mas aplicou depois o ouvido, quando ouviu falar nos singulares caprichos que as mulheres tinham quando grávidas, e a que não podiam resistir sem prejuízo da sua saúde e até da saúde do filho. Fez então ao médico perguntas sobre perguntas, e este não se cansou de lhe citar muitos fatos, alguns altamente burlescos.
- Contudo, acrescentou ele, há também exemplos de desejos desregrados, que levaram diversas mulheres a ações verdadeiramente horríveis. Por exemplo, a mulher dum ferreiro sentia irresistível desejo de comer carne do marido, fez esforços baldados para se dominar, mas um dia em que o viu entrar em casa embriagado, atirou-se a ele com uma faca, e feriu-o tão cruelmente, que o desgraçado expirou poucas horas depois.
Mal o doutor acabava de pronunciar estas palavras, a condessa desmaiou, e as convulsões que se seguiram ao desmaio acalmaram-se com grande dificuldade. O médico reconheceu que andara mal contando semelhante aventura na presença duma senhora tão impressionável.
Pareceu, todavia, que esta crise tivera salutar influência no estado da condessa, dando-lhe algum sossego, mas pouco depois caía ela novamente num acesso de profunda melancolia.
Brilhavam-lhe os olhos com estranho fulgor e seu rosto cobria-se de palidez mortal, sempre crescente. O conde tornou a inquietar-se com a saúde da esposa. Havia no seu estado uma coisa inexplicável: não tomava o mínimo alimento, manifestando invencível horror por todas as iguarias, especialmente pela carne. Quando se servia qualquer prato desta substância, era obrigada a levantar-se da mesa, dando evidentes sinais de nojo.
Foi inútil toda a ciência do médico, porque Aurélia não quis nunca tocar em remédios, apesar das súplicas do marido.
Passaram-se semanas e meses sem que a condessa tomasse alimento algum. O mistério continuava impenetrável e o médico era de opinião que havia ali qualquer coisa que frustrava o saber humano. Afinal despediu-se, apresentando um vago pretexto, mas o conde percebeu claramente que o estado da esposa parecera muito perigoso e enigmático ao hábil clínico e que ele não quisera tratar por mais tempo duma inexplicável doença, que reputava absolutamente impossível de curar.
Imaginem-se as desagradáveis disposições em que estaria o infeliz. A desgraça, porém, ainda havia de ir mais longe. Um criado velho aproveitou um momento, em que o encontrou sozinho, para o avisar de que a condessa saía todas as noites do castelo e recolhia de madrugada. O conde estremeceu e lembrou-se de que, havia tempos, ao soar a meia noite, se apossava dele uma extraordinária sonolência. Atribuiu-a a qualquer narcótico, que a condessa lhe ministrasse sem ele dar por isso, para poder sair clandestinamente do quarto de cama, que tinham em comum infringindo o estabelecido na sua classe. Aguilhoado pelas mais terríveis suspeitas, Hipólito recordou-se da sogra e do espírito mau de que ela estivera possuída, e que talvez houvesse passado para a filha. Lembrou-se também do filho do carrasco e suspeitou de qualquer ligação adultera.
A noite seguinte ia desvendar-lhe o mistério abominável, causa única do estado singular de Aurélia.
Tinha ela por hábito ir deitar-se depois de fazer o chá, que só o conde bebia. Teve este o cuidado de não o tomar naquela noite, meteu-se na cama, leu como de costume, e não sentiu a sonolência habitual. Ainda assim, deixou cair a cabeça no travesseiro e fingiu que dormia profundamente. A condessa levantou-se então, sem fazer o mínimo ruído, aproximou uma luz do rosto do marido, examinou-o por momentos, e saiu devagarinho do quarto.
Todo a tremer, o conde ergueu-se, embuçou-se numa capa e seguiu a mulher cautelosamente. Esta já ia longe, mas como fazia luar, avistava-se distintamente o seu vestido branco. Atravessou o parque e dirigiu-se para o cemitério, desaparecendo por trás do muro Hipólito segui-a, quase de corrida; achou aberta a porta e entrou.
Viu à claridade do luar um espetáculo medonho.
A curta distância, aparições hediondas acocoravam-se no chão, formando círculo. Eram velhas seminuas, de cabelos desgrenhados, dilacerando com os dentes, como feras, o cadáver dum homem.
E Aurélia estava no meio delas!... Com que pungente angústia e profundo horror o desgraçado fugiu àquela cena infernal! Correu ao acaso pelas alas do parque, e só caiu em si quando, de madrugada, se encontrou em frente da porta do castelo. Subiu rápida e maquinalmente a escadaria, atravessou as salas e entrou no quarto de cama. A condessa parecia dormir serenamente.
Tanto não fora sonho ela sair do castelo, que estava ainda úmida do orvalho a capa. Ainda assim tentou persuadir-se de que tinha sido joguete duma alucinação.
Sem esperar que a esposa despertasse, foi dar um passeio a cavalo. A beleza da manhã, os aromas dos bosques, o gorjeio das aves fizeram-lhe esquecer os fantasmas noturnos.
Voltou mais tranqüilo ao castelo e sentou-se à mesa com a mulher. Quando, porém, serviam um prato de carne cosida e a condessa quis retirar-se mostrando repugnância, o conde reconheceu a realidade dos fatos de que fora testemunha, e exclamou com violência:
- Ah! Mulher abominável e diabólica! Bem sei de que provém a tua aversão pelo comer dos homens. É nas sepulturas que te vais banquetear!
Mal ouviu estas palavras, Aurélia atirou-se a ele rugindo, e mordeu-o no peito, com a fúria duma hiena. O marido repeliu violentamente a possessa, que morreu no meio de atrozes convulsões.
Veio a enlouquecer o desgraçado.


E.T.A. Hoffmann
Alemanha

29/10/2011

A Força das Circunstâncias



Estava sentada na varanda à espera do marido para o almoço. O criado malaio tinha descido os estores quando a manhã começou a perder a frescura, mas ela tinha subido parcialmente um deles para olhar o rio, que sob o sol sufocante do meio-dia tinha a palidez branca da morte. Um indígena remava numa canoa tão pequena que mal se via acima da superfície da água. O dia estava pálido e cor de cinza, cores que não eram mais do que as várias tonalidades do calor. (Era como uma melodia oriental em tom menor que exacerba os nervos com a sua monotonia ambígua e em que o ouvido fica impaciente, mas em vão, à espera de um final.) As cigarras cantavam com frenesim a sua canção irritante que era tão contínua e monótona como o sussurro de um ribeiro sobre as pedras e que, de súbito, era abafada pelo cantar alto de um pássaro, melífluo e rico; e por instantes, com um aperto no coração, ela pensou no melro inglês.
Depois ouviu os passos do marido na gravilha do caminho por detrás do bangaló, o carreiro que levava até ao tribunal onde ele tinha estado a trabalhar, e levantou-se da cadeira para o saudar. Ele subiu a correr o curto lance de escadas, porque o bangaló assentava sobre pilares, e à porta estava o criado à espera para lhe pegar no capacete colonial. Entrou na sala que servia de sala de jantar e de estar, e os olhos iluminaram-se-lhe com o prazer de a ver.
— Olá, Doris. Com fome?
— Devoradora,
— É só um minuto para tomar um banho.
— Despacha-te — disse ela a sorrir.
Ele meteu-se no quarto e ela ouviu-o a assobiar alegremente enquanto, com a falta de cuidado de que ela andava sempre a queixar-se, despia a roupa e a atirava para o chão. Tinha trinta e nove anos, mas parecia ainda um adolescente; nunca ia crescer. Fora esta talvez a razão por que ela se apaixonara por ele, porque nenhuma afeição, por maior que fosse, a poderia convencer de que ele era um homem bem parecido. Era baixo e redondo, com um rosto vermelho como a lua cheia, e olhos azuis. Era bastante gordo. Ela examinara-o cuidadosamente e vira-se forçada a confessar-lhe que ele não tinha um único traço fisionómico que ela pudesse apreciar. Tinha-lhe dito muitas vezes que ele não era de modo nenhum o seu tipo.
— Eu nunca disse que era uma beleza — dizia ele a rir.
— Não consigo saber o que é que vi em ti.
Mas claro que ela sabia muito bem. Ele era um homenzinho jovial, alegre, que não levava nada muito a sério, e estava constantemente a rir. E fazia rir também. Ele achava que a vida, mais do que uma coisa séria, era um divertimento, e tinha um sorriso encantador. Quando estava com ele, ela sentia-se feliz e bem disposta. E a profunda afeição que ela via naqueles seus alegres olhos azuis tocava-a. Era muito bom ser amada daquela maneira. Certa vez, sentada ao seu colo, durante a lua de mel, ela tomou-lhe a cara entre as mãos e disse-lhe:
— Tu és um homenzinho feio e gordo, Guy, mas tens encanto. Não posso deixar de te amar.
Uma onda de emoção apoderou-se dela e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Viu-lhe o rosto por momentos contorcido com o embaraço do que estava a sentir e a voz tremia-lhe um pouco quando respondeu.
— Para mim é terrível ter casado com uma mulher mentalmente deficiente — disse ele.
Ela soltou um riso abafado. Era exactamente a resposta característica que ela queria ouvir.
Era difícil imaginar que ainda há nove meses atrás ela nunca tinha sequer ouvido falar dele. Tinha-o conhecido numa pequena praia onde estava a passar um mês de férias com a mãe. Doris era secretária de um deputado. Guy estava na terra de licença. Estavam no mesmo hotel e ele contou-lhe logo tudo a seu respeito. Nascera em Sembulu, onde o pai estivera a prestar serviço durante trinta anos, no tempo do segundo Sultão, e quando saiu da escola entrou para o mesmo serviço. Estava muito dedicado ao país.
— Afinal, para mim a Inglaterra é um país estrangeiro — disse-lhe ele. — A minha pátria é Sembulu.
E agora era também a pátria dela. Ele pediu-lhe que casasse com ele no fim daquele mês de férias. Ela já sabia que ele o ia fazer e já decidira recusar. Era a única filha de uma mãe viúva e não podia ir para muito longe dela, mas quando o momento chegou, sem saber muito bem o que lhe tinha acontecido, levada por uma inesperada emoção, disse que sim. Há quatro meses que viviam naquele pequeno posto longínquo de que ele fora encarregado. Ela sentia-se muito feliz.
Uma vez contou-lhe que já tinha decidido rejeitar o seu pedido.
— E estás arrependida de não o teres feito? — perguntou ele com um alegre sorriso nos olhos cintilantes.
— Teria sido uma grande idiota se o tivesse feito. Que sorte a minha o destino, ou o acaso, ou fosse o que fosse, ter intervindo e tomado o assunto nas suas mãos!
Agora ouvia-o a bater com os pés pela escada abaixo em direcção ao balneário. Ele era um tipo barulhento, e mesmo descalço não conseguia andar silenciosamente. Mas ele proferiu uma exclamação. Disse duas ou três palavras no dialecto local que ela não percebia. Depois ouviu alguém a falar com ele, não muito alto, antes num sussurro sibilante. Realmente era muito mau as pessoas virem interpelá-lo quando ia tomar o seu banho. Ele falou de novo e embora o tivesse feito em voz baixa ela conseguiu perceber que ele estava aborrecido. A outra voz agora subiu de tom; era voz de mulher. Doris pensou que devia ser alguém a apresentar uma queixa qualquer. Era próprio das mulheres malaias entrarem assim sorrateiramente. Mas era evidente que ela não estava a levar nada do Guy, porque ela ouviu-o dizer: Rua! Isso pelo menos entendia ela, e depois ouviu-o trancar a porta. Ouviu-se então o barulho da água que ele atirava sobre si próprio (os preparativos para o banho ainda a divertiam, os balneários ficavam por baixo dos quartos, no piso térreo; havia uma enorme banheira e a pessoa banhava-se com uma pequena selha de lata) e poucos minutos depois já estava de novo na sala de jantar. Trazia ainda o cabelo molhado. Sentaram-se para o almoço.
— É uma sorte eu não ser uma pessoa desconfiada ou ciumenta — disse ela a rir. — Não sei se deva concordar com essas tuas conversas animadas com mulheres enquanto tomas banho.
A cara dele, habitualmente tão sorridente, tinha tomado um ar carrancudo quando entrou, mas agora ficou mais animada.
— Não foi exactamente agradável falar com ela.
— Isso vi eu pelo tom da tua voz. Até achei até que tinhas sido muito seco com a jovem.
— Que raio de descaramento vir assim interpelar-me daquela maneira!
— O que é que ela queria?
— Oh, não sei. É uma mulher do Kampong. Teve uma briga com o marido ou coisa do género.
— Será a mesma que andou por aí a rondar hoje de manhã?
Ele franziu um pouco as sobrancelhas.
— Andou por aí alguém a rondar?
— Andou, eu fui ao teu quarto de vestir ver se estava tudo em ordem e depois fui até ao balneário. Vi alguém a sair a porta sorrateiramente quando eu ia a descer as escadas e quando olhei vi lá uma mulher.
— Falaste com ela?
— Perguntei-lhe o que é que ela queria e ela disse qualquer coisa mas eu não consegui perceber.
— Não vou deixar que todo o tipo de transviados andem por aqui a deambular — disse ele. — Não têm esse direito.
Sorriu, mas Doris, com aquela intuição de mulher apaixonada, reparou que ele sorriu apenas com a boca e não como de costume também com os olhos, e procurava descobrir o que é que o perturbava.
— O que é que andaste a fazer hoje de manhã? — perguntou ele.
— Oh, pouco coisa. Fui dar um pequeno passeio.
— Pelo Kampong?
— Sim, Vi um homem a mandar um macaco acorrentado ao cimo de uma árvore apanhar cocos, o que muito me impressionou.
— É engraçado, não é?
— Oh, Guy, estavam lá dois rapazitos a vê-lo que eram muito mais brancos do que os outros e eu quis saber se eles não seriam mestiços. Falei com eles, mas não sabiam uma palavra de inglês.
— Há dois ou três mestiços no Kampong — respondeu ele.
— De quem são eles?
— A mãe é uma das raparigas da aldeia.
— E quem é o pai?
— Oh, minha querida, essa é o tipo de pergunta que é um bocado perigoso fazer por estes lados. — Fez uma pausa. — Muitos tipos têm mulheres indígenas e quando se vão embora ou casam estabelecem-lhes uma pensão e mandam-nas de volta para a aldeia.
Doris ficou calada. A indiferença com que ele falava parecia-lhe um tanto dura. Havia mesmo alguma severidade no seu bonito rosto inglês, franco e aberto, quando respondeu.
— Então e as crianças?
— Não tenho dúvida de que são bem tratadas. Dentro das suas possibilidades um homem geralmente tem o cuidado de dar dinheiro suficiente para que eles tenham uma educação decente. Arranjam emprego como funcionários do governo, sabes; eles estão bem.
Ela teve um sorriso um pouco triste.
— Com certeza que não estás à espera que eu pense que esse é um bom sistema.
— Não deves ser demasiado dura — disse ele, devolvendo-lhe o sorriso.
— Eu não estou a ser dura. Mas graças a Deus que tu nunca tiveste uma mulher malaia. Eu ia detestar. Imagina só se aqueles pequeninos eram teus.
— O criado mudou-lhes os pratos. Os menus nunca eram muito variados. Começavam por peixe do rio, sem graça e insípido, de maneira que era preciso pôr-lhe uma boa quantidade de ketchup para o tornar saboroso, e depois continuava com um qualquer tipo de assado. Guy regava-o com molho Worcester.
— O velho Sultão pensava que este país não era para mulheres brancas — disse ele passado pouco tempo. — Preferia encorajar as pessoas a… manter mulheres indígenas. Claro que as coisas já mudaram. O país está perfeitamente calmo e suponho que já sabemos lidar melhor com o ambiente.
— Mas, Guy, o mais velho daqueles rapazes não tinha mais do que sete ou oito anos e o outro devia ter cinco.
— Um posto longínquo como este torna-se terrivelmente solitário. Muitas vezes passamos seis meses seguidos sem ver outro banco. Uma pessoa vem para aqui ainda miúdo. — Sorriu-lhe daquela sua maneira encantadora que transfigurava a sua cara redonda e franca. — Há desculpas, sabes.
Ela achava sempre aquele sorriso irresistível. Era o seu melhor argumento. Os olhos dela tornaram-se mais suaves e ternos.
— Com certeza que há — Ela estendeu o braço sobre a pequena mesa e pôs a sua mão na dele. — Tive muita sorte em te apanhar ainda tão novo. Sinceramente, eu ficaria terrivelmente transtornada se me dissessem que tu tinhas levado essa vida.
Ele pegou-lhe na mão e apertou-a.
— Sentes-te feliz aqui, querida?
— Desesperadamente.
Ela estava com um ar muito fresco no seu vestido de linho. O calor não lhe provocava angústia. A sua beleza era apenas a da juventude, embora tivesse uns bonitos olhos castanhos; mas tinha uma fisionomia de uma agradável franqueza e o cabelo castanho curto era brilhante e bem cuidado. Ela dava a impressão de ser uma jovem com talento e com certeza que o deputado para quem ela trabalhara devia ter tido nela uma secretária competente.
— Fiquei logo a adorar o país — disse ela. — Embora passe tanto tempo sozinha, nunca senti solidão.
Claro que ela tinha lido romances sobre o arquipélago malaio e tinha ficado com a impressão de que era uma terra sombria com grandes rios sinistros e uma selva silenciosa e impenetrável. Quando o navio de cabotagem os deixou na boca do rio, onde um barco grande com uma dúzia de remadores Diaks os esperava para os levar até ao porto, a paisagem, mais acolhedora do que aterradora, deixou-a sem respiração. Tinha uma alegria, com aquele cantar jovial dos pássaros nas árvores, de que ela não estava à espera. Em ambas as margens do rio havia mangues e palmeiras indianas e por detrás delas o verde denso da floresta. À distância estendiam-se as montanhas azuis, cadeia após cadeia, até onde a vista alcançava. Não tinha qualquer sensação de reclusão ou de melancolia, mas antes de suavidade e espaço aberto onde a imaginação podia vaguear com deleite. O verde brilhava ao sol e o céu estava alegre e animado. Aquela graciosa terra parecia dar-lhe umas boas vindas sorridentes.
Continuaram a remar ao longo da margem e no alto voava um par de pombos. Um clarão colorido, qual jóia viva, atravessou-lhes o caminho. Era um pica-peixe. Num ramo de árvore estavam dois macacos sentados lado a lado com as caudas a abanar. No horizonte, do lado de lá do largo rio barrento, para lá da selva, via-se uma fila de pequenas nuvens brancas, as únicas no céu, que lembrava uma fila de bailarinas vestidas de branco à espera, nos bastidores, atentas e alegres, que o pano subisse. Sentia o coração cheio de alegria; e agora, recordando tudo aquilo, os olhos pousaram sobre o marido com uma afeição grata e firme.
E que divertido fora o arranjo da sala de estar! Era uma sala muito grande. No chão, quando ela chegou, havia esteiras sujas e esfarrapadas; pendurados nas paredes de madeira sem pintura, fotogravuras de quadros da Academia, escudos Diak e parãos. As mesas estavam cobertas de toalhas Diak de cores escuras e sobre elas havia peças de latão a precisar muito de limpeza, latas de cigarros vazias e peças de prata malaias. Havia uma prateleira tosca de madeira com edições baratas de romances e um grande número de livros de viagens antigos com encadernação de couro; e uma outra prateleira cheia de garrafas vazias. Era a sala de um homem solteiro, desarrumada mas formal; achou-lhe graça mas também lhe pareceu intoleravelmente patética. Que vida monótona e desconfortável Guy ali levara; e pôs-lhe os braços à volta do pescoço e beijou-o.
— Pobre querido — disse ela a rir.
Era habilidosa de mãos e depressa tornou a sala habitável. Arranjou isto e aquilo e o que não pôde usar deitou fora. Os presentes de casamento também ajudaram. A sala agora já estava confortável e acolhedora. Havia jarras de vidro com belas orquídeas e grandes vasos com enormes arbustos em flor. Ela sentia um grande orgulho porque aquela era a sua casa (nunca na sua vida tinha vivido senão num acanhado apartamento) e tinha-a tornado encantadora para ele.
— Estás satisfeito comigo? — perguntou ela depois de acabar.
— Mais ou menos — disse ele a sorrir.
A desvalorização deliberada era muito o seu jeito. Que bom que era eles entenderem-se tão bem! Ambos eram reservados na expressão das emoções e raras eram as ocasiões em que eles não usavam o gracejo irónico um com o outro.
Terminaram o almoço e ele estendeu-se num sofá para fazer uma sesta. Ela dirigiu-se para o quarto e ficou um pouco surpreendida por ele a puxar para si quando ela ia a passar, fazê-la inclinar-se e beijá-la. Não tinham o hábito de trocar carícias durante o dia.
— A barriga cheia torna-te sentimental, meu cordeirinho — troçou ela.
— Vai-te embora e não me apareças aqui pelo menos nas próximas duas horas.
— Não te ponhas a ressonar.
Doris acordou com o barulho do marido a tomar banho no balneário. As paredes do bangaló deixavam passar o som e nada do que um fizesse escapava ao outro. Sentia uma preguiça tão grande que não lhe apetecia mexer-se, mas ouviu o criado trazer as coisas para o chá; saltou da cama e correu pelas escadas abaixo em direcção ao seu balneário. A água, não muito fria, mas apenas fresca, foi deliciosamente refrescante. Quando entrou na sala de estar Guy estava a tirar as raquetas do armário, porque eles costumavam ir jogar ténis pela fresquinha do fim da tarde. Às seis era já de noite.
O campo de ténis ficava a duzentos ou trezentos metros do bangaló, e depois do chá, ansiosos por não perder tempo, foram até lá.
— Olha, — disse Doris — está ali a rapariga que eu vi hoje de manhã.
— Guy voltou-se muito depressa e os seus olhos pousaram por momentos numa mulher indígena, mas não disse nada.
— Que bonito sarong ela traz — disse Doris. — Gostava de saber onde é que ela o arranjou.
Passaram por ela. Era franzina, com aqueles olhos grandes, escuros e brilhantes característicos da sua raça e cabelo preto volumoso. Não se mexeu quando eles passaram, mas fixou-os de uma maneira estranha. Doris reparou então que ela não era tão nova como ela primeiro pensara. As feições eram um tanto pesadas e a pele era escura, mas era muito bonita. Tinha uma criança pequena ao colo. Doris sorriu um pouco quando a viu, mas a boca da mulher não lhe retribuiu o sorriso. A sua expressão ficou impassível. Não olhou para Guy, olhou só para Doris e ele continuou a andar como se a não tivesse visto. Doris voltou-se para ele.
— Não é um querido, aquele bebé?
— Não reparei.
Ela ficou intrigada com a cara com que ele estava. Branco como a cal, e as borbulhas, que não lhe faziam impressão nenhuma, estavam invulgarmente vermelhas.
— Reparaste nas mãos e nos pés dela? Podia ser uma duquesa.
— As indígenas têm todas mãos e pés finos — respondeu ele, mas não tão jovialmente como de costume; como que a falar à força.
Mas Doris estava intrigada.
— Quem é ela, sabes?
— É uma das raparigas do Kampong
Tinham chegado então ao campo de ténis. Quando Guy foi junto da rede ver se ela estava esticada olhou para trás. A rapariga ainda estava no mesmo sítio onde eles tinham passado por ela. Os olhares de ambos cruzaram-se.
— Posso servir? — disse Doris.
— Podes. As bolas estão aí desse lado.
Ele jogou muito mal. Geralmente ele dava-lhe quinze de avanço e vencia-a, mas desta vez ela estava a ganhar-lhe com facilidade. Ele jogava em silêncio. Era geralmente um jogador barulhento, sempre a gritar, a praguejar contra a sua parvoíce quando falhava uma bola e a troçar dela quando conseguia colocar uma bola fora do seu alcance.
— Já perdeste, meu menino — exclamou ela.
— Nem por sombras — disse ele.
Começou a bater as bolas tentando vencê-la e mandou-as contra a rede umas atrás das outras. Ela nunca o tinha visto com aquela cara tão dura. Seria possível que estivesse fora de si por não estar a jogar bem? Escureceu e eles acabaram o jogo. A mulher por quem tinham passado estava ainda exactamente no mesmo sítio como quando eles tinham vindo e mais uma vez os observava com uma cara inexpressiva.
Os estores da varanda já estavam subidos e sobre a mesa, entre dois sofás, havia garrafas e água tónica. Era a hora da primeira bebida do dia e Guy preparou dois cocktails. O rio estendia-se à sua frente e na outra margem a selva estava envolta no mistério da noite que se aproximava. Um indígena remava silenciosamente rio acima, de pé, na proa, com dois remos.
— Joguei como um idiota — disse Guy a quebrar o silêncio. — Estou um bocado em baixo.
— Lamento. Não vais ter febre, pois não?
— Oh, não. Amanhã já estou bom.
A escuridão abateu-se sobre eles. As rãs coaxavam alto e de vez em quando ouviam-se alguns curtos sons de aves nocturnas. Os pirilampos voavam pela varanda e davam às árvores que a rodeavam um ar de árvores de Natal iluminadas por pequenas velas. Cintilavam suavemente. Doris julgou ouvir um leve suspiro que a incomodou vagamente. Guy andava sempre tão bem disposto.
— O que foi, meu amigo? — perguntou ela gentilmente. — Conta à mãe.
— Nada. Está na altura de tomar outra bebida — respondeu ele prazenteiro.
No dia seguinte já estava bem disposto como sempre, e o correio chegou. O navio de cabotagem passava na entrada do rio duas vezes por mês, uma a caminho dos campos de carvão e outra no regresso. Na ida trazia o correio e Guy mandava um barco buscá-lo. A sua chegada era um acontecimento para aquelas vidas rotineiras. Durante um ou dois dias folheavam rapidamente tudo o que chegara, cartas, jornais ingleses e jornais de Singapura, revistas e livros, deixando para as semanas seguintes uma leitura mais demorada. Arrancavam os jornais uns aos outros. Se Doris não estivesse tão absorvida poderia ter reparado que houve uma mudança em Guy. Teria achado difícil descrevê-la e mais ainda explicá-la. Havia no seu olhar uma espécie de estado de alerta e na boca um ligeiro traço de ansiedade.
Então, uma certa manhã, talvez uma semana mais tarde, quando ela estava sentada na sala escurecida a estudar a gramática malaia (porque ela andava empenhada em aprender a língua) ouviu uma certa agitação dentro do recinto da casa. Ouviu a voz do criado que estava a falar com ar zangado, a voz de outro homem, talvez a do aguadeiro, e depois a de uma mulher, estridente e injuriosa. Houve um tumulto. Ela foi à janela e abriu as persianas. O aguadeiro tinha agarrado uma mulher pelo braço e arrastava-a enquanto o criado a empurrava por detrás com ambas as mãos. Doris reconheceu-a logo como a mulher que tinha visto uma manhã a vaguear pelo recinto, e mais tarde, no mesmo dia, perto do campo de ténis. Trazia um bebé ao colo. Todos os três berravam zangados.
— Parem com isso — exclamou ela. — O que é que estão a fazer?
Ao ouvir a sua voz, o aguadeiro largou bruscamente a mulher e esta, ainda empurrada por detrás, caiu ao chão. Seguiu-se por instantes um súbito silêncio e o criado olhava carrancudo para o ar. O aguadeiro hesitou por momentos e depois escapuliu-se. A mulher levantou-se devagar, arranjou o bebé nos braços e ficou impassível a olhar para Doris. O criado disse-lhe qualquer coisa que Doris não poderia ter ouvido mesmo que pudesse entender; pela impassividade da expressão a mulher mostrou que as palavras dele não eram nada com ela; mas afastou-se. O criado foi atrás dela até ao portão. Doris chamou-o quando ele voltava, mas ele fingiu que não ouviu. Ela já estava a ficar irritada e chamou-o mais rispidamente.
— Anda aqui imediatamente — exclamou ela.
Subitamente, evitando o seu olhar zangado, dirigiu-se para o bangaló. Entrou e ficou junto da porta. Olhou-a com enfado.
— O que é que vocês estavam a fazer àquela mulher? — perguntou ela abruptamente.
— O tuan diz ela não vir mais aqui.
— Tu não deves tratar uma mulher dessa maneira. Não posso tolerar isso. — Vou contar ao tuan exactamente o que acabei de ver.
O criado não respondeu. Desviou o olhar, mas ela ficou com a sensação de que ele a estava a observar por entre as longas pestanas. Ela mandou-o embora.
— É tudo. Podes ir.
Sem uma palavra, ele deu meia volta e foi para as instalações dos criados. Ela estava exasperada e já não conseguiu concentrar-se mais nos exercícios de malaio. Pouco depois o criado entrou para pôr a mesa para o almoço. De repente dirigiu-se para a porta.
— O que foi?
— O tuan já chegou.
Saiu para recolher o chapéu de Guy. O seu ouvido apurado tinha detectado os passos antes de eles serem audíveis para ela. Guy, ao contrário do habitual, não veio logo para cima; parou, e Doris viu logo que o criado lhe quis contar a sua versão primeiro. Mas ela ficou espantada quando Guy entrou. Estava pálido.
— Que diabo é que se passa, Guy?
Ele ficou subitamente muito vermelho.
— Nada. Porquê?
Ela estava tão espantada que o deixou passar para o quarto sem lhe dizer nada do que pretendia. Ele demorou mais tempo do que de costume a tomar banho e a mudar de roupa e o almoço foi servido quando ele voltou.
— Guy — disse ela quando se sentaram, — aquela mulher que nós vimos no outro dia esteve aqui outra vez hoje de manhã.
— Já me disseram — respondeu ele.
— Os criados estavam a tratá-la com brutalidade. Tive de pôr cobro àquilo. Tens de falar com eles, realmente.
— Apesar de perceber perfeitamente o que ela disse, o malaio não deu qualquer sinal de ter ouvido e serviu-lhe a torrada.
— Já lhe disseram para não voltar a vir aqui. Dei ordens para que a expulsem se ela aparecer por aqui outra vez.
— Eles tinham de ser tão duros?
— Ela não queria ir-se embora. Eu acho que, nas circunstâncias, eles não se excederam.
— Foi horrível ver uma mulher ser tratada daquela maneira. Tinha um bebé ao colo.
— Não é bem um bebé. Já tem três anos.
— Como é que sabes?
— Eu sei tudo sobre ela. Ela não tem o direito de vir aqui incomodar toda a gente.
— E o que é que ela quer?
— Ela quer fazer exactamente aquilo que já fez. Quer provocar distúrbios.
Doris ficou calada por momentos. Ficou surpreendida com o tom do marido. Foi muito lacónico. Falou como se tudo aquilo não fosse da conta dela. Achou-o um pouco indelicado. Estava nervoso e irritável.
— Não sei se poderemos jogar ténis hoje à tarde — disse ele. — Parece-me que vai haver uma tempestade.
Quando ela acordou estava a chover e era impossível sair. Durante o chá Guy esteve sempre calado e distraído. Ela pegou na sua costura e começou a trabalhar. Guy sentou-se a ler os jornais ingleses que ainda não tinha lido de princípio ao fim; mas ele estava inquieto; andava de um lado para o outro na sala e depois foi até à varanda. Olhou a chuva que caía monótona. Que estaria ele a pensar? Doris estava vagamente preocupada.
Só depois do jantar é que ele falou. Durante toda a refeição tinha-se esforçado por mostrar a sua habitual jovialidade, mas o esforço era aparente. A chuva parara e a noite estava estrelada. Sentaram-se na varanda. Para não atraírem os insectos tinham apagado a luz da sala. A seus pés, silencioso, misterioso e fatal, corria o rio na sua poderosa e formidável lentidão. Tinha a determinação e inexorabilidade do destino.
— Doris, eu tenho uma coisa para te dizer — disse ele de repente.
Estava com uma voz esquisita. Seria imaginação sua ou ele estava com dificuldade em mantê-la firme? Sentiu um baque no coração porque ele estava triste e gentilmente pôs a sua mão na dele. Ele tirou-a.
— É uma longa história. Receio que não seja muito agradável e é-me muito difícil contá-la. Peço-te que não me interrompas nem digas nada até eu acabar.
No escuro ela não conseguia ver-lhe a cara, mas sentia que devia estar alterada. Não respondeu. Ele falava em voz tão baixa que mal quebrava o silêncio da noite.
— Eu tinha só dezoito anos quando para aqui vim. Vim da escola directamente para aqui. Estive três meses em Kuala Solor e depois fui mandado para um posto junto do rio Sembulu. Claro que estava lá um representante do governo e a sua mulher. Eu vivia no tribunal, mas tomava as refeições com eles e passava também com eles os serões. Foi um belos tempos para mim. Depois o indivíduo que lá estava adoeceu e teve de regressar a casa. Havia falta de homens por causa da guerra e eu fui encarregado deste posto. Claro que era muito novo, mas falava a língua como um indígena e eles lembravam-se do meu pai. Sentia-me feliz por estar por minha conta.
Calou-se enquanto despejava a cinza do cachimbo e o enchia de novo. Quando ele acendeu um fósforo Doris, sem o olhar, reparou que a mão lhe tremia.
— Eu nunca tinha vivido sozinho. Lá em casa havia, claro o pai e a mãe e geralmente um ajudante. E depois na escola havia sempre colegas à minha volta. No barco, quando saí, havia sempre pessoas por perto, e também em K.S. e no meu primeiro posto. Dava a impressão de que eu vivia sempre no meio de uma multidão. Eu gosto das pessoas. Sou um chato barulhento. Gosto de me divertir. Rio-me por qualquer coisa e uma pessoa tem de ter alguém que ria connosco. Mas aqui as coisas eram diferentes. Claro que durante o dia estava tudo bem; tinha o meu trabalho e podia falar com os Diaks. Apesar de nessa altura eles serem caçadores de cabeças e de vez em quando ter alguns problemas com eles, eram tipos muito fixes. Dava-me muito bem com eles. Claro que gostaria de ter um branco com quem tagarelar, mas eles eram melhor que nada, e para mim era mais fácil porque eles não me viam como um estranho. Também gostava do meu trabalho. À noite sentia-me muito só, sentado na varanda a beber sozinho. Mas podia ler. E os criados andavam por ali. O meu criado particular chamava-se Abdul. Conhecera o meu pai. Quando estava cansado de ler, chamava-o para tagarelar um bocado com ele.
— O que mais me custava eram as noites. Depois do jantar os criados saíam para ir dormir no Kampong. Eu ficava completamente só. Não se ouvia o mínimo som no bangaló, a não ser de vez em quando o grasnar do chik-chak, que de repente quebrava o silêncio e me fazia saltar de susto. Do Kampong vinha o som de um gongue ou de bombinhas de brincar. Estavam a divertir-se e não estavam muito longe, mas eu tinha de ficar onde estava. Estava farto de ler. Se estivesse na cadeia não me poderia sentir mais prisioneiro. Era sempre a mesma coisa noite após noite. Tentava beber três ou quatro whiskies, mas beber sozinho não tem graça nenhuma e não me punha bem disposto, apenas me fazia sentir mal na manhã seguinte. Tentava ir para a cama logo depois do jantar, mas não conseguia dormir. Ficava deitado, cada vez com mais calor, cada vez mais acordado até não saber o que fazer. Que compridas eram aquelas noites, meu Deus. Podes crer que fiquei tão em baixo, sentia tanta pena de mim próprio que às vezes — e agora quando me lembro disso faz-me rir, mas eu tinha apenas dezanove anos e meio — às vezes chorava.
— Então, um certa noite, depois de jantar, Abdul levantara a mesa e ia mesmo a sair quando o ouvi tossicar. E ele disse: não me sentia eu muito só toda a noite sozinho? «Oh, não. Está tudo bem,» disse eu. Não queria que ele soubesse o idiota que eu era, mas já contava que ele soubesse. Ele ficou ali, sem falar, e eu sabia que ele me queria dizer qualquer coisa. «O que é?» perguntei eu. «Desembucha». Então ele disse-me que se eu quisesse uma rapariga para vir viver comigo ele sabia de uma que estava disposta a isso. Era uma belíssima rapariga e ele recomendava-a. Não traria qualquer problema e era alguém para ter ali pelo bangaló. Remendaria as minhas coisas… Eu sentia-me muito em baixo. Tinha estado a chover todo o dia e eu não tinha podido fazer qualquer exercício. Eu sabia que não iria dormir durante horas. «Não me custaria muito dinheiro» disse ele, «a família era pobre e ficariam completamente satisfeitos com um pequeno presente. Duzentos dólares.» «Veja,» disse ele, «se não gostar dela, manda-a embora.» Perguntei-lhe onde ela estava. «Está aqui,» disse ele. «Vou chamá-la.» Foi até à porta. Ela tinha estado à espera na escada com a mãe. Entraram e sentaram-se no chão. Dei-lhes chocolates. Ela estava envergonhada, claro, mas bastante calma e quando eu lhe disse qualquer coisa ela sorriu-me. Era muito nova, pouco mais do que uma criança, disseram que tinha quinze anos. Era extremamente bonita e trazia as suas melhores roupas. Começámos a conversar. Ela pouco falou, mas riu-se muito quando eu me meti com ela. Abdul disse que ela teria muito a dizer quando me conhecesse melhor. Disse-lhe para se ir sentar ao pé de mim. Ela deu uma risadinha e disse que não, mas a mãe mandou-a ir e eu deixei-lhe espaço na cadeira para ela se sentar. Ela corou e riu, mas veio e depois aninhou-se junto de mim. O criado também riu. «Está a ver, ela já está caidinha pelo senhor» disse ele. «Quer que ela fique?» perguntou ele. «Queres ficar?» disse-lhe eu. Ela escondeu a cara no meu ombro, a rir. Ela era muito macia e pequena. «Muito bem,» disse eu, «deixa-a ficar.»
Guy inclinou-se para a frente e serviu-se de whisky e soda.
— Já posso falar? — perguntou Doris.
— Um momento, ainda não acabei. Eu não estava apaixonado por ela, nem mesmo no princípio. Apenas fiquei com ela para ter alguém no bangaló. Acho que, de contrário, teria enlouquecido ou então teria começado a beber. Estava já no limite. Era novo demais para estar sozinho. Nunca estive apaixonado por ninguém a não ser por ti — Hesitou por momentos — Ela viveu aqui até eu ir de licença o ano passado. É a mulher que tu tens visto a rondar por aí.
— Já calculava. Ela trazia um bebé ao colo. É teu?
— É. É uma menina.
— É o único?
— Outro dia tu viste dois rapazinhos no Kampong. Falaste nisso.
— Então ela tem três filhos.
— Tem.
— Tens então uma família completa.
Ela pressentiu-lhe o súbito gesto que a sua observação lhe provocou, mas ele não disse nada.
— Ela só soube que tinhas casado quando de repente apareceste aqui com uma mulher? — perguntou Doris.
— Ela soube que eu ia casar.
— Quando?
— Eu mandei-a de volta para a aldeia antes de partir. Disse-lhe que estava tudo acabado. Dei-lhe o que tinha prometido. Ela sempre soube que se tratava de uma relação temporária. Eu estava farto. Disse-lhe que ia casar com uma branca.
— Mas nessa altura ainda nem me conhecias.
— Não, eu sei. Mas eu tinha decidido casar-me quando fosse a casa — e riu à velha maneira. — Não tenho qualquer problema em dizer-te que já estava a ficar desanimado, quando te conheci. Apaixonei-me à primeira vista e depois fiquei convencido que ou seria contigo ou com mais ninguém.
— Por que é que não me falaste nisto? Não achas que seria justo dar-me uma oportunidade de julgar o caso por mim própria? Devias-te ter lembrado do choque que seria para qualquer rapariga descobrir que o marido tinha vivido dez anos com outra mulher de quem tinha três filhos.
— Eu não podia ficar à espera da tua compreensão. As circunstâncias aqui são muito peculiares. Este é o procedimento normal. Em seis homens, cinco fazem isto. Pensei que isto te iria chocar e não queria perder-te. Compreendes, eu estava extremamente apaixonado por ti. E ainda estou, querida. Não havia razão nenhuma para que viesses a saber disto. Não contava voltar para aqui. Raramente se volta para o mesmo posto depois de uma licença. Quando voltámos para aqui ofereci-lhe dinheiro se ela fosse para outra aldeia qualquer. Primeiro ela disse que sim, mas depois mudou de ideias.
— Por que é que me contaste isto agora?
— Ela tem andado a fazer cenas incríveis. Não sei como é que ela descobriu que tu não sabias nada sobre o assunto. Logo que o descobriu começou a fazer chantagem comigo. Já tive de lhe dar uma boa maquia. Dei ordens para não a deixarem entrar no recinto da casa. Hoje de manhã ela fez aquela cena apenas para chamar a tua atenção. Ela queria meter-me medo. E eu não podia continuar assim. Achei que a única coisa a fazer era confessar tudo.
Quando ele terminou seguiu-se um prolongado silêncio. Por fim ele pôs a mão sobre a dela.
— Tu compreendes, não é verdade, Doris? Eu sei que fui culpado.
Ela não tirou a mão. Ele sentiu-a fria sob a sua.
— Ela é ciumenta?
— Posso dizer que ela tinha uma série de regalias quando vivia aqui e acho que agora não quer ficar sem elas. Sabes que as mulheres indígenas nunca gostam realmente muito dos homens brancos.
— E os filhos?
— Oh, esses estão bem. Eu sustento-os. Logo que os rapazes tenham idade mando-os para a escola em Singapura.
— Não sentes nada por eles?
Ele hesitou.
— Quero ser perfeitamente franco contigo. Teria muita pena se lhes acontecesse alguma coisa. Quando o primeiro estava para nascer, pensei que iria ficar muito mais ligado a ele do que alguma vez estive à mãe. Acho que teria sido assim se ele tivesse saído branco. Claro que enquanto ele foi bebé, a coisa era engraçada e tocante, mas eu não sentia que ele era meu. Acho que é isso; tu compreendes, eu não os sinto como meus filhos. Às vezes sentia-me culpado porque a coisa me parecia anti-natural, mas a pura verdade é que eles não me dizem mais do que se fossem filhos de qualquer outro. Claro que se ouvem muitas baboseiras vindas da parte das pessoas que não têm filhos.
Ela já tinha ouvido tudo e ele ficou à espera que ela falasse, mas ela não disse nada. Ficou sentada, imóvel.
— Há mais alguma coisa que queiras saber, Doris? — disse ele por fim.
— Não, estou cheia de dores de cabeça. Acho que vou para a cama. — O seu tom era firme como nunca. — Não sei bem o que dizer. Claro que foi tudo muito inesperado. Tens de me dar algum tempo para pensar.
— Estás muito zangada comigo?
— Não, absolutamente nada. Só que… só que quero ficar só por algum tempo. Não te levantes. Vou para a cama.
Levantou-se da cadeira e pôs-lhe a mão no ombro.
— Está tanto calor esta noite. É melhor ires dormir no teu quarto de vestir. Boa noite.
E foi-se embora. Ele ouviu-a fechar a porta do quarto à chave.
No dia seguinte estava pálida, e ele percebeu que ela não tinha dormido. Não havia azedume nos seus modos, falou como de costume, mas sem à-vontade; falou disto e daquilo como se estivesse a conversar com um estranho. Eles nunca tinham tido uma zanga, mas ele ficou com a impressão de que ela devia falar assim se eles tivessem tido um desentendimento e a reconciliação subsequente a tivesse deixado ainda magoada. O seu olhar intrigava-o; parecia ler nele um estranho receio. A seguir ao jantar ela disse:
— Não me estou a sentir muito bem esta noite. Acho que vou já para a cama.
— Oh, minha pobre querida, tenho tanta pena — exclamou ele.
— Isto não é nada. Dentro de um ou dois dias já estou boa.
— Mais logo vou lá dar-te as boas noites.
— Não, não faças isso. Vou tentar dormir já.
— Bem, então dá-me um beijo antes de ires.
Ele viu-a corar. Ela pareceu hesitar por momentos; depois, desviando os olhos, inclinou-se para ele. Ele tomou-a nos braços e procurou-lhe os lábios, mas ela voltou a cara e ele beijou-a na face. Deixou-o rapidamente e ele ouviu mais uma vez a chave a rodar de mansinho na fechadura da porta do quarto. Estendeu-se pesadamente na cadeira. Tentou ler, mas o seu ouvido estava atento ao mais pequeno som que viesse do quarto da mulher. Ela dissera que ia para a cama, mas ele não a ouvia a mexer. Aquele silêncio no quarto deixou-o inexplicavelmente nervoso. Cobrindo o candeeiro com a mão, viu que havia luz por debaixo da porta; ela ainda não a tinha apagado. Que diabo estaria ela a fazer? Pousou o livro. Não teria ficado nada admirado se ela tivesse ficado zangada e lhe tivesse feito uma cena ou tivesse desatado a chorar; isso teria ele sido capaz de enfrentar; mas aquela sua calma amedrontava-o. E depois, que medo era aquele que ele tinha visto tão claramente nos seus olhos? Pensou outra vez em tudo o que lhe tinha dito na véspera à noite. Não sabia de que outra maneira deveria ter posto as coisas. Afinal, o ponto principal era que ele tinha simplesmente feito o mesmo que toda a gente e já estava tudo acabado muito antes de ele a conhecer. Claro que da maneira como as coisa acabaram, ele tinha sido um idiota, mas qualquer pessoa sabe muito depois de as coisas acontecerem. Pôs a mão sobre o coração. Esquisito como aquilo o magoava ali.
— Deve ser isto que as pessoas querem dizer quando dizem que têm o coração destroçado — disse ele consigo mesmo. — Quanto tempo irá isto durar?
Será que ele devia ir bater-lhe à porta e dizer-lhe que precisava de falar com ela? Era melhor desabafar. Tinha de a fazer compreender. Mas aquele silêncio atemorizava-o. Não se ouvia o mínimo som. Talvez fosse melhor deixá-la em paz. Claro que aquilo tinha sido um choque. Tinha de lhe dar todo o tempo que ela quisesse. Afinal, ela sabia como ele a amava devotadamente. Tinha que ter paciência; talvez ela estivesse a debater-se; tinha de dar-lhe tempo; tinha de ter paciência. Na manhã seguinte perguntou-lhe se estava melhor.
— Muito melhor — disse ela.
— Estás zangada comigo? — perguntou-lhe com ar triste.
Ela olhou-o candidamente e de olhos bem abertos.
— De modo nenhum.
— Oh, minha querida, fico tão contente. Fui um bruto, fui uma besta. Eu sei que isto tem sido uma coisa detestável para ti. Mas perdoa-me. Tenho-me sentido tão desgraçado.
— Eu perdoo-te. Nem sequer te culpo.
Ele lançou-lhe um sorriso pesaroso e havia no seu olhar um ar de cão castigado.
— Não gostei nada de dormir sozinho estas duas noites.
Ela desviou o olhar e empalideceu ligeiramente.
— Já mandei tirar a cama do meu quarto. Ocupava muito espaço. Mandei substituí-la por uma pequena cama de campanha.
— De que é que estás a falar, querida?
Desta vez ela olhou-o firmemente.
— Não vou voltar a viver contigo como tua mulher.
— Nunca mais?
— Ela abanou a cabeça. Ele olhou-a intrigado. Mal podia acreditar no que ouvira e o coração começou a bater-lhe apressado.
— Mas isso é extremamente injusto, Doris.
— E tu não achas que foi extremamente injusto trazeres-me para aqui nestas circunstâncias?
— Mas ainda agora disseste que não me culpavas.
— Isso é perfeitamente verdade. Mas a outra coisa é diferente. Não consigo.
— Mas como é que nós vamos viver juntos dessa maneira?
Ela olhou para o chão. Parecia meditar profundamente.
— Quando ontem tu me quiseste beijar na boca eu… quase que fiquei enjoada.
— Doris!
Ela olhou-o subitamente e os seus olhos eram frios e hostis.
— Aquela cama em que eu dormi, é a cama onde ela teve os filhos? — Ela viu-o corar intensamente. — Oh, é horrível. Como é que tu foste capaz? — Ela torcia as mãos e os dedos torcidos e torturados pareciam cobras enroscadas. Mas fez um grande esforço e controlou-se. — Estou perfeitamente decidida. Não quero ser desagradável contigo, mas há coisas que tu não me podes pedir que faça. Já pensei em tudo. Desde que tu me contaste, não penso noutra coisa noite e dia até ficar exausta. O meu primeiro instinto foi fazer as malas e ir embora. Imediatamente. O navio deve chegar aqui dentro de dois ou três dias.
— E o facto de eu te amar não significa nada para ti?
— Oh, eu sei que tu me amas. Não vou fazer isso. Quero dar-nos a ambos uma oportunidade. Eu amava-te tanto, Guy. — A sua voz cedeu, mas não chorou. — Não quero ser excessiva. Meu Deus, não quero ser desagradável. Guy, dás-me um tempo?
— Não sei bem o que queres dizer.
— Só quero que me deixes só. Estou com medo dos sentimentos que me assaltaram.
Então ele tinha razão; ela estava com medo.
— Que sentimentos?
— Por favor, não me perguntes. Não quero dizer qualquer coisa que te possa magoar. Talvez eu os consiga ultrapassar. Deus é testemunha de que eu quero. Vou tentar, prometo. Dá-me seis meses. Farei o impossível por ti, e apenas isso. — Fez um pequeno gesto de apelo. — Não há razão nenhuma para que não possamos ser felizes os dois juntos. Se realmente me amas… com certeza que vais ter paciência.
Ele suspirou fundo.
— Muito bem — disse. — Evidentemente que não quero obrigar-te a fazer uma coisa que tu não queres. Será como dizes.
Sentou-se por momentos, pesadamente, como se de repente tivesse ficado velho e tivesse dificuldade em mexer-se, e depois levantou-se.
— Vou para o escritório.
Pegou no chapéu colonial e saiu.
Passou-se um mês. As mulheres escondem melhor os seus sentimentos do que os homens e qualquer pessoa estranha que os visitasse nunca imaginaria que Doris tinha algum problema. Mas em Guy a tensão era evidente; a sua cara redonda de boa pessoa tinha um ar cansado e os olhos revelavam alguma ansiedade e perturbação. Ele observava Doris. Ela andava alegre e brincava com ele com de costume; jogavam ténis; falavam disto e daquilo. Mas era evidente que ela andava apenas a representar um papel, e por fim, incapaz de se conter, ele tentou falar outra vez da sua relação com a mulher malaia.
— Oh, Guy, não faz qualquer sentido voltar outra vez a esse assunto — respondeu ela jovialmente. — Já dissemos tudo o que havia a dizer sobre isso e eu não te culpo de nada.
— Então por que é que me castigas?
— A minha intenção não é castigar-te, meu pobre amigo. Não tenho culpa que… — encolheu os ombros — A natureza humana é tão estranha.
— Não compreendo.
— Nem tentes compreender.
As palavras podiam ter sido ásperas, mas ela suavizou-as com um agradável sorriso amigável. Todas as noites quando ia para a cama inclinava-se sobre Guy e beijava-o de leve na cara. Os lábios mal o tocavam. Era como se uma traça lhe roçasse a cara no seu voo.
Passou outro mês e depois mais outro e em breve os seis meses que pareceram tão infindáveis tinham terminado. Guy perguntava-se se ela se lembraria. Ele prestava agora uma atenção esforçada a tudo o que ela dizia, a todas as suas expressões, a todos os seus gestos. Ela continuava impenetrável. Ela pedira-lhe seis meses. Pois bem, já os tivera.
O navio de cabotagem passou na boca do rio, deixou o correio e seguiu a sua rota. Guy escreveu atarefadamente as cartas que o barco recolheria na sua viagem de regresso. Passaram-se dois ou três dias. Era agora terça-feira e o prahu devia partir na madrugada de quinta-feira para aguardar o navio. Excepto durante as refeições, altura em que Doris se esforçava por manter uma conversa, ultimamente eles não tinham falado muito; e depois do jantar, como de costume, pegaram nos seus livros e puseram-se a ler; mas depois de o criado ter levantado a mesa e se ter ido embora para casa Doris pousou o livro.
— Guy, tenho uma coisa para te dizer — murmurou.
Sentiu um baque no coração e começou a mudar de cor.
— Oh, querido, não fiques assim, não é nada de terrível — disse ela a rir.
Mas a ele pareceu-lhe que a voz dela tremeu um pouco.
— Então?
— Queria que me fizesses uma coisa.
— Por ti faço qualquer coisa.
Estendeu a mão para tomar a dela, mas ela retirou a sua.
— Queria que me deixasses ir para casa.
— Tu? — exclamou aterrado. — Quando? Porquê?
— Aguentei tudo isto quanto pude. Agora não posso mais.
— E por quanto tempo queres ir? Para sempre?
— Não sei bem. Creio que sim. — Procurou buscar determinação. — Sim, para sempre.
— Oh, meu Deus!
A voz falhou-lhe e ela temeu que ele começasse a chorar.
— Oh, Guy, não me culpes. De facto a culpa não é minha. Não consigo evitá-lo.
— Tu pediste-me seis meses. Aceitei as tuas condições. Não podes dizer que andei a aborrecer-te.
— Não, não.
— Tentei sempre fazer com que tu não visses o mau bocado que eu estava a passar.
— Eu sei, e estou-te muito grato por isso. Foste extremamente amável comigo. Ouve, Guy, quero dizer-te outra vez que não te culpo por nada daquilo que fizeste. Afinal, eras apenas um miúdo e não fizeste nada mais do que os outros; eu sei o que é a solidão aqui. Oh, meu querido, tenho tanta pena de ti. Eu sempre soube isto logo desde o início, por isso é que te pedi seis meses. O meu bom senso diz-me que estou a exagerar, que estou a ser pouco razoável, que estou a ser injusta contigo. Mas compreendes, o bom senso não tem nada a ver com isto; toda a minha alma está revolta. Quando vejo aquela mulher com os filhos, na aldeia, sinto as pernas a tremer. Tudo nesta casa; quando penso naquela cama em que eu dormi fico arrepiada… Tu não podes imaginar o que eu suportei.
— Acho que consegui convencê-la a ir-se embora. E requeri a transferência.
— Isso não serve de nada. Ela vai estar sempre presente. Tu pertences-lhes a eles, não a mim. Acho que talvez tivesse aguentado se fosse só um filho, mas três; e os rapazes são bem grandes. Foram dez anos que viveste com ela. — E então ela chegou àquele ponto para que tinha avançado gradualmente. Estava desesperada. — Isto é uma coisa física que não consigo evitar, é mais forte do que eu. Quando penso naqueles braços escuros dela a abraçarem-te, fico fisicamente enjoada. Penso em ti com aqueles pretinhos ao colo. Oh, é horrível. Tocar-te é para mim uma coisa odiosa. Quando cada noite te beijava, tinha de fazer um esforço, tinha de cerrar os punhos e fazer força para tocar a tua cara — E agora fechava e abria as mãos numa agonia nervosa, e tinha a voz descontrolada. — Eu sei que agora a culpa é minha. Sou uma parva, uma histérica. Pensei que ia ultrapassar isto. Mas não consigo, nem nunca vou conseguir. Eu é que provoquei tudo isto a mim mesma; estou disposta a arcar com as consequências: se tu disseres que tenho de ficar, eu fico, mas se ficar morro. Peço-te que me deixes ir.
E então as lágrimas que ela conseguira reter durante tanto tempo jorraram e ela chorou convulsivamente. Ele nunca a tinha visto a chorar.
— É claro que eu não quero reter-te aqui contra a tua vontade — disse ele com voz rouca.
Exausta, ela recostou-se na cadeira. Tinha as feições deformadas. Era terrível ver o sofrimento naquele rosto habitualmente tão plácido.
— Desculpa, Guy. Dei cabo da tua vida, mas também dei cabo da minha. E podíamos ter sido tão felizes.
— Quando é que queres partir? Na quinta-feira?
— Sim.
Ela olhou-o com compaixão. Ele escondeu a cara entre as mãos. Por fim levantou os olhos.
— Estou exausto — murmurou.
— Deixas-me ir?
— Deixo.
Durante talvez dois minutos ficaram sentados sem uma palavra. Ela despertou quando o chik-chak soltou o seu grito agudo, rouco e estranhamente humano. Guy levantou-se e foi até à varanda. Encostou-se ao varão e olhou o rio que corria suavemente. Ouviu Doris a ir para o quarto.
Na manhã seguinte, a pé mais cedo do que habitualmente, ele foi até à porta do quarto dela e bateu.
— Sim?
— Hoje tenho de subir o rio. Volto muito tarde.
— Está bem.
Ela entendeu. Ele arranjara as coisas de maneira a estar todo o dia fora para não ficar ali a vê-la fazer as malas. Foi um trabalho pungente. Depois de pôr as roupas todas, percorreu a sala com os olhos à procura das coisas que lhe pertenciam. Achou deplorável levá-las. Deixou ficar tudo, excepto a fotografia da mãe. Guy só voltou pelas dez da noite.
— Desculpa não ter podido vir jantar — disse ele. — O chefe da aldeia onde eu tive de ir tinha uma série de coisa para eu resolver.
Ela viu-o percorrer a sala com o olhar e reparar que a fotografia da mãe já lá não estava.
— Está tudo pronto? — perguntou. — Eu disse ao barqueiro para ter o barco aqui no cais de madrugada.
— Pedi ao criado para me acordar às cinco.
— É melhor eu dar-te algum dinheiro. — Dirigiu-se à escrivaninha e passou um cheque. Tirou algumas notas de uma gaveta. Aqui tens algum em dinheiro para a viagem até Singapura e aí podes levantar o cheque.
— Obrigada.
— Queres que eu te vá acompanhar até à boca do rio?
— Oh, acho que será melhor despedirmo-nos aqui.
— Está bem. Acho que vou dormir. Tive um dia muito comprido e estou morto de cansaço.
Nem sequer lhe tocou na mão. Foi para o quarto. Minutos depois ela ouviu-o a atirar-se para cima da cama, e ficou sentada a percorrer com o olhar aquela sala onde tinha sido tão feliz e tão desgraçada. Deu um suspiro fundo. Levantou-se e foi apara o quarto. Já estava tudo nas malas, excepto uma ou outra coisa de que precisava para a noite.
Era ainda escuro quando o criado os chamou. Vestiram-se apressadamente e depois de prontos esperava-os o pequeno almoço. Pouco depois ouviram o barco a atracar no cais junto do bangaló e depois os criados levaram a bagagem dela para baixo. Apenas fingiram comer. A escuridão desvanecia-se já e o rio tinha um ar fantasmagórico. Ainda não era dia, mas também já não era noite. Naquele silêncio, as vozes dos indígenas no cais eram muito claras. Guy olhou o prato intacto da mulher.
— Se já acabaste podemos ir descendo. Acho que são horas.
Ela não respondeu. Levantou-se da mesa. Foi ao quarto ver se não se tinha esquecido de nada e depois desceu os degraus lado a lado com o marido. Seguiram pelo pequeno caminho que serpenteava até ao rio. No cais os guardas indígenas estavam formados nos seus uniformes elegantes e apresentaram armas à passagem de Guy e Doris. O chefe dos barqueiros estendeu a mão a Doris para a ajudar a entrar no barco. Ela voltou-se e olhou para Guy. Queria dizer-lhe uma última palavra de conforto, pedir-lhe perdão uma vez mais, mas parecia ter emudecido.
Ele estendeu-lhe a mão.
— Bem, adeus, espero que faças uma boa viagem.
Apertaram a mão. Guy acenou com a cabeça ao barqueiro e o barco largou. A aurora avançava agora enevoada pelo rio, mas a noite emboscava-se ainda nas árvores escuras da selva. Ele ficou no cais até o barco desaparecer nas sombras da manhã. Afastou-se com um suspiro. Acenou com a cabeça distraidamente quando a guarda de novo apresentou armas. Mas quando entrou no bangaló chamou o criado. Deu uma volta pela sala recolhendo tudo o que pertencia a Doris.
— Guarda todas estas coisas — disse. — Já não faz sentido deixá-las por aí.
Depois sentou-se na varanda a observar o dia a avançar gradualmente, como uma dor amarga, imerecida e avassaladora. Por fim olhou para o relógio. Eram horas de ir para o escritório.
À tarde não conseguiu dormir, doía-lhe a cabeça e por isso pegou na espingarda e foi fazer uma caminhada pela selva. Não caçou nada, mas caminhou sempre, para ficar extenuado. Voltou ao pôr do sol e tomou duas ou três bebidas, e depois eram já horas de se vestir para o jantar. Agora não fazia muito sentido vestir-se; ficava muito bem como estava; vestiu um casaco indígena largo e um sarong. Era a isso que ele estava habituado antes de Doris chegar. Estava descalço. Jantou sem apetite, e o criado levantou a mesa e foi-se embora. Sentou-se a ler o Tattler. O bangaló estava muito silencioso. Não conseguiu ler, e o jornal caiu-lhe sobre os joelhos. Estava exausto. Não conseguia pensar e sentia a cabeça estranhamente vazia. O chik-chak estava muito barulhento naquela noite, e o seu grito súbito e rouco parecia estar a troçar dele. Era difícil acreditar que este som ressonante pudesse sair de garganta tão pequena. Pouco depois ouviu uma tosse discreta.
— Quem está aí?
Houve uma pausa. Olhou para a porta. O chik-chak ria estridente. Um miúdo entrou de esguelha timidamente e ficou à porta. Era um miúdo mestiço de camisola interior andrajosa e sarong. Era o seu filho mais velho.
— O que é que tu queres? — perguntou Guy.
O rapaz entrou na sala e sentou-se no chão em cima das pernas.
— Quem é que te mandou cá?
— Foi a minha mãe. Ela pergunta se o senhor precisa de alguma coisa.
Guy olhou o miúdo intencionalmente. O miúdo não disse mais nada. Ficou sentado à espera e a olhar timidamente para o chão. Guy, a reflectir profunda e amargamente, escondeu a cara entre as mãos. Porquê? Estava tudo acabado. Completamente acabado! Rendeu-se. Recostou-se na cadeira e suspirou fundo.
— Diz à tua mãe que arrume as coisas dela e as vossas. Pode voltar.
— Quando? — perguntou o miúdo impassível.
Lágrimas quentes corriam pela cara sarapintada, redonda, cómica de Guy.
— Esta noite.


Somerset Maugham
The Force of Circumstance
in Collected Short Stories

25/10/2011

História da Baleia



Há muito, muito, muito tempo, vivia no mar a baleia, que comia peixes. Ainda ela, nesse tempo, podia comer peixes. Comia sardinhas e tainhas, gorazes e roazes, bugios e safios, pescadas e douradas, bacalhaus e carapaus. Todos os peixes que ia encontrando deitava-lhes a boca, - ão! Por fim, só havia no mar um salmonete vermelhete, que nadava sempre atrás da orelha esquerda da baleia, para ela lhe não fazer mal. Um dia, a baleia pôs-se a pensar muito séria, e disse assim :
- Tenho fome !
E o salmonete vermelhete, com a sua voz muito agudita, disse à baleia :
- Nobre e generoso cetáceo : já experimentou comer homens?
- Não - respondeu a baleia. - A que sabe? como é?
- Bom, mas traquinas - respondeu o salmonete vermelhete.
- Então, vai-me buscar três dúzias deles - ordenou a baleia.
- Basta um de cada vez - disse o salmonete vermelhete. - Se for à latitude 60 graus norte e longitude 40 graus oeste (isto, amigos, são umas palavras mágicas que o salmonete lá sabia) encontrará uma jangada feita de tábuas, e sobre a jangada um marinheiro náufrago de calças de ganga azul, uma faca de ponta aguda, e suspensórios encarnados (não se esqueçam dos suspensórios!). O marinheiro, devo dizer-lhe, é arguto, astuto, e resoluto.
A baleia, então, foi aonde lhe disse o salmonete vermelhete, e encontrou a jangada e o marinheiro. Aproximou-se, abriu a bocarra imensa, e engoliu a jangada e o marinheiro, com as calças de ganga azul, com a faca de ponta aguda e com os suspensórios encarnados (nunca se esqueçam dos suspensórios!). E assim a baleia arrecadou tudo na despensa escura, quentinha e fofazinha, que tinha lá dentro do seu corpanzão. E como gostou, deu três estalos com a língua e três voltas sobre a cauda, levantando muita espuma.
O marinheiro (que era arguto, astuto, e resoluto) mal se viu dentro da baleia. na despensa escura, quentinha e fofazinha, pulou, saltou, rebolou, cambaleou, espinoteou, dançou, sapateou, fandangueou, esperneou, gritou, berrou, cantou, estrondeou tanto, tanto, tanto, que a baleia se sentiu com enjoos, engulhos e soluços (já se esqueceram dos suspensórios?). E disse a baleia ao salmonete vermelhete :
- O teu homem é muito traquinas, e dá-me engulhos. Que hei-de eu fazer?
- Diga-lhe que saia cá para fora - respondeu o salmonete vermelhete.
E a baleia gritou pela garganta abaixo:
- Saia cá para fora, homenzinho, e veja se tem juízo!
- Isso é que eu não saio- respondeu o homem. - Leve-me primeiro para a minha terra, e depois veremos o que se poderá fazer.
E pôs-se outra vez a saltar, a pular, a espinotear e a rebolar.
- O melhor é levá-lo para casa- aconselhou o salmonete vermelhete. - Eu já tinha prevenido a senhora baleia de que o marinheiro era arguto, astuto e resoluto.
E a baleia nadou, nadou, nadou, dando à cauda e às barbatanas, mas sempre com soluços e muito enjoada. Quando avistou a terra do marinheiro, nadou para a praia, pôs a boca sobre a areia, abriu-a muito, e disse:
- Cá chegámos à sua terra!
O marinheiro, que era na verdade arguto, astuto e resoluto, tinha durante a viagem puxado da sua faca de ponta aguda, e cortado as tábuas da jangada em fasquiazinhas muito estreitas, que ligou muito bem com tiras dos suspensórios (bem lhes dizia eu que não se esquecessem dos suspensórios!) e fez com elas uma grade que empurrou, ao sair, contra a garganta da baleia. E, deixando a grade bem presa na garganta da baleia, saltou para terra e foi ter com a mãe, com a qual viveu muito contente.
A baleia foi-se embora também muito contente, assim como o salmonete vermelhete; mas a grade é que nunca mais saiu da garganta da baleia. E por isso é que a baleia nunca mais pôde comer homens, nem meninos, nem peixes - nem sardinhas nem tainhas, nem gorazes nem roazes, nem bugios nem safios, nem pescadas nem douradas -, porque os peixes não podem passar pelas grades da garganta, mas só bichinhos pequeninos, como, por exemplo, as pulgas-do-mar.
Pouco depois, o marinheiro casou e viveu muito feliz; tinha em casa as calças de ganga azul e a navalha de ponta aguda; mas não tinha os suspensórios, porque esses ficaram a atar a grade, muito apertada. que só deixa passar bichinhos pequeninos - como as pulguinhas-do-mar - na garganta da baleia.


António Sérgio