29/08/2011

O Dr. Sabe-Tudo



Estava disposto a antipatizar com Max Kelada antes mesmo de conhecê-lo. Terminara a guerra e era grande a afluência de passageiros aos navios de carreira. Dificilmente se conseguia acomodação e quem desejasse viajar tinha que se conformar com o que as agências ofereciam.
Ninguém pensava na possibilidade de ocupar sozinho um camarote, e me senti feliz quando me deram um onde havia apenas duas camas. Mas quando me disseram o nome do companheiro, a minha satisfação se desfez. Era como uma sugestão de vigias rigidamente fechadas, ausência de ar no camarote, durante a noite.
Já era desagradável compartilhar de um camarote durante quatorze dias (eu viajava de São Francisco para Yokoama); mas a partilha ter-me-ia parecido menos desalentadora se o passageiro se chamasse Smith ou Brown.
Quando embarquei já estava no camarote a bagagem de Mr. Kelada. Desagradou-me o aspecto; rótulos em excesso nas malas de mão e demasiado grande a mala de camarote.
Mr. Kelada já retirara do estojo os objetos de toucador, e observei que era cliente do maravilhoso Mousieur Coty, pois no lavatório o seu perfume, sua loção e a sua brilhantina. As escovas do Mr. Kelada, em suportes de ébano com o monograma em ouro, eram o que havia de melhor na matéria.
Antipatizei inteiramente com Mr. Kelada. Dirigi-me para a sala de fumar. Pedi um baralho e pus-me a jogar “paciência”. Mal começara, aproximou-se alguém, perguntando-me se o meu nome não era esse mesmo.
- Eu sou Mr. Kelada – acrescentou, com um sorriso em que mostrava uma fila de dentes brilhantes; e sentou-se.
- Ah, sim, creio que estamos no mesmo camarote.
- É o que chamo de sorte. A gente nunca sabe com quem vai no camarote. Fiquei contentíssimo ao saber que você era inglês. Gosto muito que nós, ingleses, fiquemos juntos, a bordo, está entendendo?
Pestanejei.
- É inglês? – perguntei, talvez sem habilidade.
- Totalmente. Acha-me parecido com um americano? Sou inglês até a medula.
Para prová-lo, Mr. Kelada tirou do bolso um passaporte e, ufano, agitou-o junto ao meu nariz.
O Rei Jorge tem muitos súditos estranhos. Mr. Kelada era baixo e de construção vigorosa, moreno e escanhoado; possuía um nariz carnudo e adunco, e uns olhos muito grandes, brilhantes e límpidos.
Os cabelos negros e longos eram reluzentes e encaracolados. Falava com uma fluência nada inglesa e os gestos eram exuberantes. Tinha a íntima convicção de que um exame mais detido naquele passaporte britânico me revelaria que Mr. Kelada nascera sob céu mais azul do que se vê geralmente na Inglaterra.
- Que vai tomar? – perguntou-me.
Olhei-o hesitante. A lei seca estava em vigor e, segundo todas as aparências, o navio estava integralmente seco.
Quando não estou com sede, não sei se o que me desagrada mais é “ginger ale” ou limonada. Mas no rosto de Mr. Kelada um sorriso oriental.
- Uísque com soda, ou Martini seco, é só dizer a palavra.
De cada um dos bolsos posteriores das calças retirou um frasco, colocando-o sobre a mesa, diante de mim. Escolhi o martini. Ele chamou o garçom e pediu gelo e dois copos.
- Um ótimo coquetel – disse eu.
- Pois há em quantidade na fonte de origem, e se você tiver amigos a bordo, diga-lhes que descobriu um indivíduo que dispõe de todo o álcool do mundo.
Mr. Kelada era loquaz. Falou de Nova Iorque e de São Francisco.
Discutiu peças de teatro, filmes, política. Era patriota.
O pavilhão britânico é um impressionante pedaço de pano, mas quando é enfeitado por um homem de Alexandria ou Beirute, não posso evitar a impressão de que perde um quê de sua dignidade.
Mr. Kelada era íntimo. Não gosto de me fazer importante mas julgo sempre inconveniente que uma pessoa totalmente estranha não me conceda o tratamento de senhor. Mr. Kelada certamente para me deixar à vontade, não usava tal formalidade. Não gostei dele. Deixei as cartas de lado quando ele se sentou: mas, achando que para a primeira vez a nossa conversa já se estendera demais, continuei com a paciência.
- O três no quarto – disse Mr. Kelada.
- Nada há demais desesperante quando estamos jogando paciência do que nos dizerem onde devemos por a carta que viramos, antes de termos tempo de olhar por nós mesmos.
- Está andando, está andando – gritou: - O dez no valete.
Com o coração cheio de ódio, terminei o jogo.
Neste momento ele segurou o baralho.
- Gosta de truques com cartas?
- Não; detesto truques com cartas, respondi.
- Bem, vou mostrar-lhe só este.
Mostrou-me três. Depois, disse que ia descer para o salão de refeições e escolher um lugar.
- Oh, não se incomode – disse ele. Já reservei um lugar para você. Achei que, como estávamos no mesmo camarote, bem podíamos sentar-nos à mesma mesa.
Sim, eu não gostava de Mr. Kelada.
Não somente eu compartilhava o camarote com ele e fazia três refeições por dia na mesma mesa, como também não podia passear pelo convés sem que se juntasse a mim. Era inútil fingir que não o via. Nunca lhe ocorria que não era desejado. Tinha a convicção de que os outros ficavam tão contentes de vê-lo como ele de os ver. Se estivéssemos em casa, poderíamos empurrá-lo escada abaixo, batendo com a porta, sem que surgisse no seu cérebro a suspeita de que não era uma visita desejada.
Era muito sociável e, em três dias, já se dava com todo o mundo a bordo.
Dominava tudo. Arranjava apostas, dirigia leilões, organizava subscrições para os prêmios nas competições esportivas, inventava partidas de chinquilho, promoveu o concerto e o baile à fantasia.
Estava sempre em toda a parte. Sem dúvida, era o homem mais odiado do navio. Chamavamos-lhe o Dr. Sabe-Tudo, mesmo diante dele.
Mr. Kelada considerava-se elogiado. Mas, nas horas das refeições era que se tornava ainda mais intolerável. Então, durante a melhor parte de uma hora, tinha-nos à sua mercê. Era jovial, veemente, loquaz e questionador. Sabia tudo melhor do que qualquer pessoa; e afrontava a sua vaidade presunçosa quem discordasse dele. Não abandonava um assunto, por menos importante que tivesse, a não ser quando conseguisse reduzir o interlocutor ao seu ponto de vista.
Nunca lhe ocorria a possibilidade de que pudesse estar equivocado.
Era o homem que sabia. Sentávamo-nos à mesa do médico.
Mr. Kelada sem dúvida manteria pacificamente a hegemonia, pois o médico era preguiçoso e eu, frigidamente indiferente; mas havia também um homem chamado Ramsay como companheiro de mesa. Era tão dogmático como Mr. Kelada e irritava-se amargamente com a inabalável firmeza do levantino. As discussões que travaram eram ardentes e intermináveis.
Ramsay estava no serviço consular dos EUA em Kobe. Era um americano do meio oeste, grande e pesado. A gordura esticava-lhe a epiderme, e por sua vez esticara-lhe seus ternos de confecção.
Viajava de volta para o seu posto, depois de uma rápida visita a Nova Iorque onde fora buscar a esposa, que estivera passando um ano em sua terra. Mrs. Ramsay era uma mulher miúda e linda, de maneiras agradáveis e portadora de senso de humor. O serviço consular é mal pago e ela vestia com simplicidade, mas sabia tirar partido de seus vestidos. O efeito que causava era de serena distinção. Não teria lhe prestado atenção particular se ela não tivesse uma qualidade que poderá ser bastante comum nas mulheres, mas que hoje não é comum no comportamento delas. Não era possível olhar Mrs. Ramsay sem notar desde logo a sua modéstia. Fulgia na sua pessoa como uma flor na lapela.
Uma noite, durante o jantar, a conversa casualmente recaiu sobre o tema pérolas. Os jornais vinham noticiando a cultura de pérolas pelos hábeis processos dos japoneses e o médico observou que as pérolas cultivadas diminuiriam o valor das verdadeiras. Aquelas já eram ótimas; em breve seriam perfeitas. Mr. Kelada, como era de seu hábito, embrenhou-se no novo tema. Disse-nos tudo o que havia sobre pérolas. Creio que Ramsay soubesse pouco sobre elas, mas não pôde resistir à oportunidade de zombar do levantino e, em cinco minutos, estávamos numa discussão exaltada.
Eu já assistira a outros gestos de impetuosidade e volubilidade de Mr. Kelada, nunca, porém, o vira tão impetuoso e volúvel como agora.
Finalmente, estimulou-o qualquer coisa que Ramsay disse, porque ele deu um soco na mesa e gritou:
- Bem, acho que entendo do que estou falando. Vou ao Japão exatamente para tratar desse negócio de pérolas. Estou no ramo e não há qualquer homem no ramo que não lhe afirme que o digo sobre pérolas é lei. Conheço as melhores pérolas do mundo e o que não conheço não vale a pena conhecer.
Eram novas para nós, porque Mr. Kelada, apesar de toda sua loquacidade, não dissera a ninguém qual a sua ocupação.
Sabíamos apenas vagamente que ia ao Japão a negócios. Olhou a volta da mesa, triunfalmente.
- Os japoneses jamais conseguirão uma pérola cultivada que um perito, como eu, não conheça, olhando-a com o canto do olho. – Apontou para o colar que Mrs. Ramsay usava: - Pode confiar na minha palavra, Mrs. Ramsay: “este colar que a senhora está usando nunca valerá um cent menos do que vale agora.”
Mrs. Ramsay, à sua maneira modesta, corou um pouco e empurrou o colar para dentro do vestido. Ramsay inclinou-se para a frente. Olhou para nós todos. Um sorriso brincava nos seus olhos.
- É um belo colar, esse da minha esposa, não acha?
- Notei-o logo – respondeu Mr. Kelada – Hanhan, disse cá comigo; essas pérolas são verdadeiras.
- Não fui eu quem as comprou, naturalmente. Gostaria de saber quanto calcula que custaram.
- Oh, no comércio em grosso devem ter andado em quinze mil dólares. Mas se forem compradas na Quinta Avenida, não me surpreenderia se dissessem que o preço andou pelos trinta mil.
Ramsay sorriu com crueldade.
- Pois vai surpreender-se ao saber que minha esposa comprou esse colar no balcão da bijuteria de um magazine na véspera de nossa saída de Nova Iorque por dezoito dólares.
Mr. Kelada ruborizou-se.
- Tolice! O colar é legítimo; é, pelo tamanho, um dos mais belos que eu já vi.
- Quer fazer uma aposta? Aposto cem dólares como é imitação.
- Aceito.
- Ora Elmer, você não pode apostar numa certeza – disse Mrs. Ramsay.
Trazia um leve sorriso nos lábios e o tom de sua voz era levemente súplice.
- Acha? Se tenho uma oportunidade como esta de ganhar dinheiro facilmente, seria um tolo se não aproveitasse.
- Mas como vamos provar? – continuou ela. – é apenas a minha palavra contra a de Mr. Kelada.
- Permita-me examinar o colar; se for imitação, hei de lhe dizer logo. Posso perder cem dólares. – Disse Mr. Kelada.
- Tire-o querida. Deixe Mr. Kelada examiná-lo à vontade.
Mrs. Ramsay vacilou um momento. Levou as mãos ao fecho.
- Não posso abrir – disse - Mr. Kelada terá de contentar-se com a minha palavra.
Invadiu-me a súbita suspeita de que estava para acontecer qualquer coisa infeliz, e não me ocorreu nada para dizer.
Ramsay levantou-se bruscamente.
- Eu abro.
Entregou o colar a Mr. Kelada. O levantino retirou do bolso uma lupa e examinou-o atentamente. Um sorriso de triunfo espalhou-se pelo rosto liso e trigueiro. Devolveu o colar. Ia falar quando subitamente reparou no rosto de Mrs. Ramsay. Estava tão pálido que parecia que ela ia desmaiar. Encarava-o de olhos muito abertos, aterrorizados. Transmitia um desesperado apelo; tão claro que estranhei que o marido não o notasse.
Mr. Kelada ficou silencioso, a boca entreaberta. Enrubesceu violentamente. Quase podia ver-se o esforço que fazia sobre si mesmo.
- Enganei-me – disse – É uma excelente imitação, mas naturalmente, quando examinei o colar com a lupa, vi que não era legítimo. Creio que vale dezoito dólares, no máximo.
- Talvez isso o ensine a não ser tão auto-suficiente de outra vez, meu jovem amigo – disse Ramsay tomando a nota.
Notei que as mãos de Mr. Kelada tremiam.
A história espalhou-se pelo navio, como sucede sempre com as histórias e, naquela noite, ele teve de enfrentar a zombaria de muitos. Era um grande motivo para hilaridade o ter sido apanhado em erro o Dr. Sabe-Tudo. Mas Mrs. Ramsay se retirou para o camarote com uma dor de cabeça.
Na manhã seguinte, levantei-me e pus-me a fazer a barba. Mr. Kelada permanecia deitado, fumando. Subitamente, ouvi um pequeno roçar, e vi uma carta deslizando por baixo da porta. Abri a porta e olhei para fora. Não havia ninguém. Tomei da carta e vi que estava endereçada para Mr. Kelada. O nome estava escrito em letras de imprensa. Entreguei-lhe.
- De quem é? – Abriu-a. – Oh!
Tirou do envelope não uma carta, mas uma nota de cem dólares.
Olhou para mim e tornou a enrubescer. Rasgou o envelope em pedacinhos e os pôs na minha mão.
- Quer fazer o favor de atirar pela vigia?
Fiz o que me pedia e depois olhei-o com um sorriso.
- Ninguém gosta de passar por um perfeito idiota – disse ele.
- As pérolas eram legítimas?
- Se eu tivesse uma linda mulher, não a deixaria passar um ano em Nova Iorque, enquanto eu estivesse em Kobe... – disse-me.
Nesse momento, não antipatizei de todo com Mr. Kelada. Ele estendeu a mão, tirou a carteira, e nela colocou cuidadosamente a nota de cem dólares.


Somerset Maugham
(Tradução brasileira)

28/08/2011

O Diabo no campanário


Que horas são?
(Velho ditado)

Toda a gente sabe, de modo geral, que o mais belo lugar do mundo é… ou, aí! era o burgo holandês de Vondervotteimittiss, (1). Contudo, como se encontre a alguma distância de qualquer das principais estradas, estando de certo modo fora de mão, talvez poucos de meus leitores o tenham alguma vez visitado. Em benefício daqueles que não o hajam visitado, portanto, acho acertado dar alguns informes a seu respeito. E isto é, de fato, tanto mais necessário quanto, na esperança de conquistar a simpatia pública para seus habitantes, me proponho aqui relatar a historia dos acontecimentos calamitosos, que recentemente ocorreram, dentro de seus limites. Ninguém que me conheça duvidará de que o dever assim imposto a mim mesmo será cumprido, com o melhor da minha habilidade, com toda aquela severa imparcialidade, todo aquele exame cauteloso dos fatos e diligente citação de autoridades, que sempre distinguiram aquele que aspira ao título de historiador.

Graças ao auxílio reunido de medalhas, manuscritos e inscrições, estou capacitado a afirmar positivamente, que o burgo de Vondervotteimittiss sempre existiu, desde suas origens, precisamente nas mesmas condições em que se conserva em nossos dias. A respeito da data de sua origem, porém, lamento só poder falar com aquela espécie de precisão indefinida a que são forçados, às vezes, os matemáticos, a sujeitar-se, em certas fórmulas algébricas. A data, posso assim exprimir-me, em relação à sua remota antiguidade, não pode ser menor que qualquer quantidade determinável.
No que se refere à etimologia da palavra Vondervotteimittiss, confesso-me com pesar igualmente em falta. Em meio duma multidão de opiniões sobre este delicado ponto, algumas argutas, algumas eruditas, outras suficientemente o contrário, nada posso escolher que deva ser considerado satisfatório. Talvez a opinião de Grogswigg, quase coincidente com a de Kroutaplentey, deva ser prudentemente preferida. É a seguinte: "Vondervotteimittiss - Vonder, longe Donder - Votteimittiss quasi und Bleitziz - Bleitziz obsol: pro Blitzen." Esta derivação, para falar a verdade, é ainda sustentada por alguns restos do fluido elétrico, evidentes no alto do campanário da Casa do Conselho Municipal. Não pretendo, contudo, comprometer-me sustentar uma tese de tal importância, devo endereçar o leitor, desejoso de informação, ao livro ORATIUNCULAE DE RERUS PROETER-VETERIS de Dundergutz. Veja, também, Blunderbuzzard, DE DERIVATIONIBUS, pp. 27 a 5010, in-fólio, edição gótica, caracteres vermelhos e negros, com chamadas e em monograma; consulte também, as notas marginais no autógrafo de Stuffundpuff, com os sub-comentários de Gruntundguzzell.
Não obstante a obscuridade que envolve dessa forma a data da fundação de Vondervotteimittiss e a etimologia de seu nome, não pode haver dúvida, como disse antes, que ele sempre existiu tal como o vemos na época atual. O mais velho homem do burgo não pode recordar-se da mais leve diferença, na sua aparência de qualquer porção dele, e, de fato, a simples sugestão de tal possibilidade é considerada um insulto. A aldeia está situada num vale perfeitamente circular, com cerca dum quarto de milha de circunferência e inteiramente cercada de leves colinas, cujos cumes ninguém de lá se aventurou ainda a passar, e seus habitantes dão como boa razão disto não acreditarem que haja absolutamente alguma coisa do outro lado.
Em torno das ourelas do vale (que é completamente plano e todo pavimentado de tijolos lisos), estende-se uma fila contínua de sessenta casinhas. Estas, dando os fundos para as colinas olham, sem dúvida, para o centro da planura, que fica justamente a sessenta jardas, da porta da frente de cada habitação. Cada casa tem um pequeno jardim à frente, com um caminho circular, um relógio de sol e vinte e quatro couves. As próprias construções são tão precisamente idênticas, que não se pode distinguir de maneira alguma, uma da outra. Devido à sua extrema antiguidade, o estilo arquitetónico é um tanto esquisito, mas nem por isso deixa de ser notavelmente pitoresco. As casas são feitas de pequenos tijolos bem cozidos, vermelhos, com cantos pretos, de modo que as paredes parecem um tabuleiro de xadrez, de grandes proporções. Os torreões estão voltados para a frente e há cornijas tão grandes, como todo o resto da casa, sobre os beirais e as portas principais. As janelas são estreitas e profundas, com pequeninas vidraças e grande quantidade de caixilhos. Nos telhados, numerosas são as telhas com longas ponta arrebitadas. O madeiramento, por toda a parte, apresenta uma cor escura, muito lavrado, mas com pouca variedade de desenhos, pois desde tempo imemorial, os entalhadores de Vondervotteimittiss nunca foram capazes de entalhar mais do que dois objetos: um relógio de mesa e uma couve. Mas estes faziam-nos demasiadamente bem e os entremeava, com singular habilidade, por toda a parte onde encontrassem lugar para o cisel.
As habitações tanto se parecem, interna como externamente, e o mobiliário obedece todo a um só modelo. O chão é de tijolos quadrados, as cadeiras e mesas de madeira preta, com pernas delgadas e recurvas e pés de cachorrinho. As chaminés são largas e altas e não tem somente relógios e couves insculpidos na frontaria, mas um verdadeiro relógio que emite um prodigioso tique-taque, bem no meio e no alto, com um jarro de flores em cada extremidade, contendo uma couve, como se fosse um batedor. Entre cada couve e o relógio há ainda um homenzinho de porcelana, com uma grande barriga, onde se abre um buraco redondo, através do qual vê-se o mostrador dum relógio.
São as lareiras largas e profundas, com cães-de-chaminé grosseiros e retorcidos. Constante fogo se alteia, com uma imensa marmita sobre ele, cheia de chucrute e carne de porco, sempre vigiada pela boa dona da casa. É uma velhinha gorducha, de olhos azes e rosto vermelho, usando uma enorme touca, semelhante a um pão de açúcar, ornado de fitas vermelhas e amarelas. Seu vestido é de droguete, cor de laranja, muito amplo atras e muito curto na cintura e, na verdade, sob outros aspectos, curtíssimo, não passando do meio das pernas. Estas e os tornozelos são grossos, mas cobertos por um lindo par de meias verdes. Seus sapatos, de couro cor de rosa, são amarrados por laço de fitas amarelas, pregueados em forma de couve. Na mão esquerda usa ela um pesado reloginho holandês e na direita empunha um colherão, para a chucrute e a carne de porco. A seu lado, aninha-se um gordo gato malhado, tendo amarrado à cauda, pelos "meninos", por pilhéria um dourado relógio de repetição, de brinquedo.
Quanto aos meninos da casa, estão todos três cuidando do porco no jardim. Têm cada um dois pés de altura. Usam chapéus de três pontas, coletes encarnados, que lhes caem até as coxas, calções de couro de gamo, meias de lã vermelha, sapatões com grandes fivelas de prata e longos gabões, com grandes botões de madrepérola. Cada um tem também um cachimbo na boca e um pequeno relógio barrigudo, na mão direita. Solta uma baforada e dá uma olhadela para o relógio. Outra baforada e outra olhadela. O porco - que é corpulento e preguiçoso, - está ocupado ora em fossar as folhas esparsas, caídas dos pés de couve ora a dar um pontapé para trás, no dourado relógio de repetição, que os garotos amarraram--lhe à cauda, a fim de torná-lo tão belo, quanto o gato. Bem defronte da porta, numa cadeira de braços de alto espaldar e fundo de couro, de pernas torneadas e pés de cachorrinho como as mesas, esta sentado o próprio dono da casa. É um velhinho, excessivamente gorducho, com grandes olhos redondos e uma imensa papada. Seu traje se assemelha ao dos meninos; portanto, não preciso dizer nada mais a seu respeito. Toda a diferença esta em que seu cachimbo é um tanto maior do que o deles e ele pode dar uma baforada maior. Como eles, tem um relógio, mas leva-o no bolso. Para falar a verdade, tem ele algo de mais importante a atender e que isso seja passarei a explicar. Ele se senta, com a perna direita sobre o joelho esquerdo, mostra uma fisionomia grave e conserva sempre um dos olhos, pelo menos, resolutamente fixo sobre certo objeto notável, no centro do largo.
Este objeto está situado no campanário da casa do Conselho Municipal. Os conselheiros municipais são todos homens pequeninos, redondos, gorduchos e inteligentes, com grandes olhos de boi e gordas papadas e tem os gabões muito mais compridos e as fivelas dos sapatos muito maiores, do que os habitantes comuns de Vondervotteimittiss.
Desde que moro no burgo, tiveram eles varias reuniões especiais e adotaram estas três importantes resoluções:
"Não está direito alterar o bom e velho curso das coisas."
"Nada existe de tolerável fora de Vondervotteimittiss".
"Juramos fidelidade aos nossos relógios e couves".
Acima da sala de sessões do Conselho acha-se a torre e na torre o campanário, onde existe e tem existido, desde tempos imemoriais, o orgulho e maravilha da aldeia: o grande relógio do burgo Vondervotteimittiss. E é para este objeto que se volvem os olhos dos velhos, que se assentam nas cadeiras de braços de fundo de couro.
O grande relógio tem sete faces, uma para cada um dos sete lados da torre, de modo que pode ser prontamente visto de todos os quarteirões. Seus mostradores são largos e brancos e seus ponteiros grossos e negros. Há um sineiro, cuja única obrigação é cuidar do campanário, obrigação esta que é mais perfeita das sinecuras, pois o relógio de Vondervotteimittiss nunca, que se saiba, precisou de conserto. Até recentemente, a mera posição de tal coisa era considerada herética. Desde a mais remota antiguidade, a que se referem os arquivos, as horas tem sido regularmente batidas pelo grande sino. E, na verdade, a mesma coisa acontecia com todos os outros relógios de parede e de bolso do burgo. Jamais houve um lugar onde se marcasse tão bem a hora certa. Quando o grande badalo achava conveniente dizer "Doze horas", todos os seus obedientes servidores abriam suas gargantas, simultaneamente, e respondiam, como um verdadeiro eco. Em suma, os bons burgueses eram loucos pela sua chucrute, mas orgulhavam-se também dos seus relógios.
Toda as pessoas que exercem sinecuras são tratadas com mais ou menos respeito e com o sineiro de Vondervotteimittiss tivesse a mais perfeita das sinecura era o mais perfeitamente respeitado de todos os homens do mundo. É o principal dignitário do burgo e até os porcos olham para ele, com sentimento de reverência. A aba de seu gabão é bem mais comprida; seu cachimbo, as fivelas de seus sapatos, seus olhos e seu estômago, bem maiores do que os de qualquer outro velho da aldeia. E quanto à sua papada, e não somente dupla, mas tripla.
Acabo de descrever a feliz situação de Vondervotteimittiss. Que pena que tão lindo quadro tivesse algum dia de apresentar um reverso!
Um velho ditado corria, há muito, entre os mais sábios habitantes: que "nada de bom pode vir de além das colinas; e realmente parece que as palavras contêm algo do espírito profético.
Faltavam cinco para meio-dia, ante de ontem, quando apareceu um objeto, bastante esquisito, no cume da crista de leste. Tal fato, por certo, atraiu a atenção geral, e cada velhinho, que estava sentado numa cadeira de braços, de fundo de couro, voltou um dos olhos, com um olhar de consternação, para o fenômeno, conservando ainda o outro olho sobre o relógio da torre. Faltavam três minutos apenas para o meio-dia, quando se verificou que o estranho objeto em questão era um rapazinho, bem pequeno e de aparência estrangeira. Desceu as colina a toda carreira, de modo que todos, em breve, puderam vê-lo bem. Era, na realidade, a criaturinha mais esquisita, que jamais fora vista em Vondervotteimittiss. Seu rosto era de um negro cor de rapé e tinha um longo nariz adunco, olhos miúdos, uma boca larga e admirável dentadura, que ele parecia ter gosto em exibir, escancarando a boca de orelha a orelha. Além de bigodes e suíças, nada mais havia a ver no resto de seu rosto. Estava com a cabeça descoberta e seu cabelo fora cuidadosamente arranjado com papelotes. Seu traje era uma casaca preta, bem apertada, terminando em cauda de andorinha (de um de cujos bolsos pendia um enorme lenço branco), calções de casimira preta, meias pretas escarpins de entrada baixa, tendo, como laços, enormes molhos de fita de cetim preto. Sob um braço, levava um desmedido claque e debaixo do outro uma rabeca, quase cinco vezes tão grande quanto ele próprio. Na mão esquerda trazia uma tabaqueira de ouro, da qual, enquanto cabriolava, colinas abaixo, dando os passos mais fantásticos, ia tomando incessantes pitadas, com um ar da maior satisfação possível. Valha-me Deus! Que espetáculo para os honestos burgueses de Vondervotteimittiss.
Para falar claramente, o sujeito tinha, a despeito de seu sorriso, uma espécie de cara audaciosa e sinistra e, enquanto galopava, diretamente, rumo à aldeia, o aspecto acalcanhado de seus escarpins excitou não poucas suspeitas. E mais de um burguês, que o contemplou naquele dia, teria dado qualquer coisa por uma olhadela, sob o lenço de cambraia branca, que pendia tão impertinentemente do bolso de sua casaca de rabo de andorinha. Mas o que causou principalmente justa indignação foi que o velhaco peralvilho, enquanto dançava um fandango aqui e dava uma pirueta ali, não parecia ter a mais remota ideia disso que se chamava marcar compasso na dança.
O bom povo do burgo, contudo, mal tivera ocasião de abrir completamente os olhos, quando, precisamente, ao faltar meio minuto para o meio-dia, o patife saltou, como eu disse, bem no meio deles, deu um casses aqui, um balances ali; e, em seguida, depois de uma pirueta em pas de zéphyr, subiu em voo de pombo, para o campanário, da casa do Conselho Municipal, onde o aterrorizado sineiro se achava sentado, fumando, num estado de dignidade e pavor. Mas o sujeitinho agarrou-o imediatamente pelo nariz, deu-lhe um piparote e um puxão, bateu-lhe com o grande claque na cabeça, enfiando-lho até os olhos e a boca e depois, levantando o rabecão, bateu com ele no homem, sineiro tão gordo e a rabeca tão oca, a gente teria jurado que cabia um regimento de tocadores de bombos, batendo todos os tam-tam do diabo, no campanário da torre de Vondervotteimittiss.
Não se sabe a que ato desesperado de vingança podia esse ataque revoltante ter levado os habitantes, não fosse o importante fato de que faltava agora apenas meio segundo, para o meio-dia. O sino estava quase a bater e era questão de absoluta e premente necessidade que todos olhassem bem para o seu relógio. Era evidente, porém, que justamente, nesse momento, o sujeito, lá na torre, estava fazendo algo, que não devia com o relógio. Mas como este estivesse agora a bater, ninguém tinha tempo de prestar atenção às manobras do tal, pois tinham todos de contar as pancadas do sino, à proporção que soavam.
- "Uma!" - disse o relógio.
- "Una" - respondeu em eco cada um dos velhotes, em cada uma das cadeiras de braço de fundo de um couro, em Vondervotteimittiss. "Una"- disse também o relógio de bolso deles.
"Una!"- disse o relógio de sua "frau". E "Una!" disseram os relógios dos meninos e os relogiozinhos de repetição, nas caudas do gato e do porco.
- "Duas!"- continuou o grande sino. E
- "Tuas!"- repetiram todos os repetidores.
- "Três! Quatro! Cinco! Seis! Sete! Oito! Nove! Dez!"- disse o sino.
- Drês! Guadro! Zingo! Zeis!Zete! Oito! Nofe! Tez!"- responderam os outros.
- "Onze!"- disse o sino grande.
- "Once!"- concordaram os pequenos.
- "Doze!"- disse o sino.
- "Toce!"- replicaram, perfeitamente satisfeito, ritmando as vozes.
- E zong toce horras! - disseram todos os velhinhos, tornando a guardar seus relógios. Mas o sino grande não dera a coisa por terminada.
- TREZE! - disse ele.
"Des Teufel! - disseram ofegantes os velhotes, empalidecendo, deixando cair os cachimbos e as pernas direitas de cima dos joelhos esquerdos.
- "Der Teufel! - gemeram eles.
"Drece! Drece! Mein Gott! Zong drece horras! Por que tentar descrever a terrível cena que se seguiu? Toda Vondervotteimittiss precipitou-se imediatamente em lamentável tumulto. - Gue fai agondezer ao meu parriga? - berravam todos os rapazes.
- Estar gom uma horra te vome! - Gue fai agondezer ao meu coufe? - guinchavam todas as mulheres. - Estar firando mingau teste uma horra! - "Gue fai agontecer ao meu gajimba? - praguejavam todos os velhotes. - Raias e Drovongs! Teve estarabacata teste una horra!" E os encheram de novo com grande raiva e, encostando-se e tão violentas, que todo o vale imediatamente ficou cheio de impenetrável fumaça.
Entrementes, todas as couves ficaram bastante vermelhas e pareciam que o próprio Diabo velho tomara posse de tudo quanto tinha forma de relógio. Os relógios esculpidos, sobre os móveis, começaram a dançar, como se estivessem enfeitiçados, enquanto os que se achavam sobre as chaminés mal podiam conter-se de furor e tão continuamente batiam as treze horas, com tais pulos e balanços de seus pêndulos, que era coisa realmente horrível de ver-se. Mas o pior de tudo é que nem os gatos, nem os porcos, podiam suportar por mais tempo a conduta dos remoinhos de repetição, amarrados às suas caudas, e vingavam-se disso, abalando todos precipitadamente para o largo, arranhando, empurrando, grunhindo e guinchando, miando e berrando, voando de encontro às caras, correndo para baixo das saias das mulheres e provocando a mais completa, a mais abominável, a mais barulhenta confusão que é possível uma pessoa de juízo conceber. E para tornar as coisas ainda mais angustiosas, o velhaquinho mandrião, lá na torre, estava evidentemente se excedendo. De vez em quando, podia-se vislumbrar o patife, através da fumaça. Achava-se sentado ainda no campanário, em cima do sineiro, que jazia completamente espichado de costas. Nos dentes, o infame conservava a corda do sino, que agitava em torno com a cabeça, fazendo tal barulheira, que meus ouvidos ainda retinem, só de pensar nisso. Em seus joelhos repousava a enorme rabeca, cujas cordas ele tangia, fora de qualquer compasso ou toada, com ambas as mãos, procurando exibir-se, o palhaço, a tocar, com ambas as mãos, procurando exibir-se, o palhaço a tocar as canções "Judy O'Flannagan"e "Paddy O'Rafferty".
Estando assim as coisas neste miserável estado, abandonei o lugar, cheio de desgosto, e agora faço um apelo a todos os amantes da hora certa e da boa chucrute. Vamos todos, incorporados, ao burgo, e restauremos a antiga ordem de coisas, em Vondervotteimittiss, jogando aquele sujeitinho de cima da torre.


Edgar Allan Poe
(tradução brasileira)

Silêncio



"Escuta - disse o demónio, pousando a mão sobre a minha cabeça. - O país de que te falo é um país lúgubre, na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali não há repouso nem silêncio. As águas do rio, amarelas e insalubres, não correm para o mar, mas palpitam sempre sob o olhar ardente do Sol, com um movimento convulsivo. De cada lado do rio, sobre as margens lodosas, estende-se ao longe um deserto sombrio de gigantescos nenúfares, que suspiram na solidão, erguendo para o céu os longos pescoços espectrais e meneando tristemente as cabeças sempiternas. E do meio deles sai um sussurro confuso, semelhante ao murmúrio de uma torrente subterrânea. E os nenúfares, voltados uns para os outros, suspiram na solidão.
E o seu império tem por limite uma floresta alta, cerrada, medonha! Lá, - como as vagas em torno das Híbridas, pequenos arbustos agitam-se sem repouso, contudo não há vento no céu! - e as grandes árvores primitivas oscilam continuamente, com um estrépito enorme. E dos seus cumes elevados filtra, gota a gota, um orvalho eterno. A seus pés contorcem-se num sono agitado, flores desconhecidas - venenosas. E por cima das suas cabeças, com um ruge-ruge retumbante, precipitam-se as nuvens negras a caminho do ocidente, até rolarem as cataratas para trás da muralha abrasada do horizonte. E nas margens do rio Zaire há repouso nem silêncio.
Era noite e a chuva caía enquanto caía, era água mas quando chegava ao chão era sangue! E eu estava na planície lodosa, por entre os nenúfares, vendo a chuva que caía sobre mim. E os nenúfares voltados uns para os outros suspira na solenidade da sua desolação.
De repente apareceu a lua através do nevoeiro fúnebre vinha toda carmesim! e o meu olhar caiu sobre um rochedo enorme, sombrio, que se erguia a borda do Zaire, refletindo a claridade da lua; era um rochedo sombrio sinistro de uma altura descomunal!
Sobre o seu cume estavam gravadas algumas letras. Caminhei através dos pântanos de nenúfares, até a margem para ler as letras gravadas na pedra; mas não pude decifrá-las. Ia voltar quando a lua brilhou mais viva e mais vermelha; olhando outra vez para o rochedo distingui só caracteres. E esses caracteres diziam: desolação.
Levantei os olhos; na crista do rochedo estava um homem de figura majestosa. Pendia-lhe dos ombros a antiga toga romana, cobrindo-se até aos pés. Os contornos da sua pessoa não se distinguiam, mas as feições eram as da divindade porque brilhavam através da escuridão da noite a do nevoeiro. Tinha a fronte alta e pensativa, os olhos profundos e melancólicos. Nas rugas do semblante, liam-se as legendas da desgraça e da fadiga o aborrecimento da humanidade e o amor da solidão. Escondi-me no meio dos nenúfares para ver o que aquele homem fazia ali.
E o homem assentou-se no rochedo, deixou pender a cabeça sobre a mão e espraiou a vista pela soledade, contemplou os arbustos buliçosos e as grandes árvores primitivas; depois, ergueu os olhos para a céu a para a lua carmesim. Eu observava as ações do homem escondido no meio dos nenúfares e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.
Então o homem desviou os olhos do céu para o rio lúgubre para as águas amarelas do Zaire, e para as legiões sinistras dos nenúfares; escutou-lhes os suspiros melancólicos e as oscilações murmurantes E eu o espreitava sempre, do meu esconderijo e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.
Embrenhei-me na profundezas longínquas do pântano, caminhei sobre e as flores dos nenúfares e chamei os hipopótamos que habitavam a espessura do bosque. E os hipopótamos ouviram o meu chamado e vieram os Behemothes até o pé do rochedo e soltaram um rugido medonho. E eu, escondido por entre os nenúfares, espreitava os movimentos do homem e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.
Então invoquei os elementos e uma tempestade horrorosa rosa sobreveio. E o céu tornou-se lívido pela violência da tempestade e a chuva caía em torrente sobre a cabeça do homem e as ondas do rio transbordavam e o rio espumava enfurecido e os nenúfares suspiravam com mais força, e a floresta debatia-se com o vento, e o trovão ribombava e os raios flamejavam, e o rochedo estremecia.
Irritei-me e amaldiçoei a tempestade, o rio e os nenúfares, o vento e as floresta, o céu e o trovão. E na minha maldição os elementos emudeceram e a lua parou na sua carreira, e o trovão expirou e o raio deixou de faiscar, e as nuvens ficaram imóveis e as águas tornaram n repousar no seu imenso leito, e as árvores cessaram de se agitar, e os nenúfares não suspiraram mais e na floresta não se tornou a ouvir o mínimo murmúrio, nem a sombra de um som no vasto deserto sem limites. Olhei para os caracteres escritos no rochedo e os caracteres diziam agora: Silêncio.
Volvi outra vez os olhos para o homem, e o seu rosto estava pálido de terror. De repente, levantou a cabeça, ergueu-se sobre o rochedo e pôs o ouvido à escuta. Mas não se ouviu nem uma voz no deserto ilimitado. E os caracteres gravados no rochedo diziam sempre: Silêncio. E o homem estremeceu e fugiu e para tão longe fugiu que jamais o tornei a ver.
Ora, os livros dos magos, os melancólicos livros dos magos encerram belos contos, esplêndidas histórias do céu, da terra e do mar poderosos; dos génios que têm reinado sobre a terra, sobre o mar e sobre o céu sublime. Há muita ciência na palavra das Sibilas. E das florestas sombrias de Dodona saíam outrora oráculos profundos.
Mas jamais se ouviu uma história tão espantosa como esta! Foi o demónio que ma contou, assentado ao um lado, na solidão do túmulo. Quando acabou de falar, desatou a rir e como não pudesse rir com ele, amaldiçoou-me. Então o lince, que vive eternamente no túmulo, saiu do seu esconderijo e veio deitar-se aos pés do demónio, olhando-o fixamente nas pupilas."


Edgar Allan Poe
(tradução brasileira)

20/08/2011

A cidade Sonhada



Quando eu tinha nove anos, a Beira era a maior cidade do mundo. As avenidas de minha terra natal eram as mais largas do universo e apenas se esperava que o futuro, triunfal, por ali desfilasse. Na Praça do Município cabiam os mais demorados domingos da História, e o Chiveve competia com os mais amazónicos estuários.
A estação ferroviária era de tal dimensão que ali poderia desembarcar Sophia Loren ou uma outra artista saída das matinés do Olympia. As mangas do Dondo eram comidas em todo o planeta e, do alto do farol do Macúti, se contemplavam extensões que fariam inveja aos astronautas.
De noite, enquanto nos chegavam os sons dos batuques do Chipangara, eu e o meu irmão discutíamos, especialistas em lonjuras. Ele assegurava que a floresta de Inhaminga era o lugar mais distante do planeta. Eu abria o mapa-mundo e a Beira se confirmava epicentro cósmico. Confortado, adormecia com pena dos meninos que nasciam noutros periféricos lugares.
Certa vez embarquei num avião para rumar a Lourenço Marques. A família veio despedir-se, em lágrimas, ao maior aeroporto do mundo e era como se eu partisse para além do último horizonte. A malta do bairro também foi ao aeroporto e lançou-me um derradeiro olhar, misto de inveja e raiva. Eu ia para território rival, para a terra dos “laurentinos”, contaminar-me de valores tribais alheios.
Regressei uma semana depois com a suspeita de que havia lugares mais distantes que Inhaminga e cidades maiores que a minha. Nos dias subsequentes, fui colocado em quarentena, punido por confessar que, afinal, outros mundos poderiam haver.
Na altura, eu não sabia que as pequenas cidades vivem sempre o sonho de serem outra coisa. Sonham ser grandes cidades. A minha terra natal, era, afinal, um lugar acanhado, onde o mundo chegava em segunda mão. Talvez, por isso, o tamanho dos nossos sonhos fosse reforçado. Talvez, por isso, o meu lugar tivesse ficado maior quando o soube pequeno. Naquele momento, porém, eu estava sendo penalizado como Galileu que ousou descentrar o cosmos. Deixado em abandono pelos amigos, fui pescar para os lados do porto. Ao passar pelo Beira Terrace, uma multidão me alertou: num lugar onde nada sucedia algo trágico acontecera. Estavam retirando das águas os corpos de dois jovens que se tinham suicidado. Um detalhe me chamou a atenção: estavam amarrados pelos pulsos, um arame lhes prendia o fatal destino. Eram dois namorados, impedidos de exercer o seu amor porque pertenciam a raças diferentes.
Sentado na amurada do cais, sem nenhuma vontade de lançar a linha, olhei a cidade e ela, pela primeira vez, me pareceu pequena. Como poderia ser grande um lugar se nele não cabia o amor de dois anónimos adolescentes? Até àquela tarde eu era ainda um moço capaz de sonhar vidas e viver sonhos.
Naquele momento creio ter entendido: a cidade não é um lugar. É a moldura de uma vida, um chão para a memória. Enrolei a linha, e regressei a casa, o poente avermelhando a paisagem e os flamingos trazendo o céu para junto da terra. Então, ganhei certeza: a cidade em que nasci estava destinada a nascer de mim. Um arame invisível nos prendia os pulsos, a mim e à minha terra natal. Se alguma vez nos atirássemos sobre o abismo não seria para nos afundarmos mas para ganharmos voo, o mesmo voo dos flamingos cruzando os poentes sobre o rio Pungwé.


(Abril de 2007)
COUTO, Mia (2010): Pensageiro Frequente.
Caminho, Alfragide, pp. 17-19.