28/05/2011

O Rei Peste



Os deuses suportam nos reis, e permitem, as coisas que odeiam em meio à ralé.
BUCKHURST: A Tragédia de Ferrex e Porrex.

Por volta da meia-noite de um dia do mês de outubro, durante o cavalheiresco reinado de Eduardo III, dois marinheiros pertencentes a tripulação do Free and Easy (Livre e Feliz), escuna de comércio que trafegava entre Eclusa (Bélgica) e o Tâmisa, e então ancorado neste rio, ficaram bem surpresos ao se acharem sentados na ala duma cervejaria da paróquia de Santo André, em Londres, a qual tinha como insígnia a tabuleta dum "Alegre Marinheiro". embora mal construída, enegrecida de fuligem, acachapada de todos os outros aspectos, semelhante às demais tabernas daquela época, estava, não obstante, na opinião dos grotescos grupos de freqüentadores ali dentro espalhados, muito bem adaptada a seu fim.
Dentre aqueles grupos, formavam nossos dois marinheiros, creio eu, o mais interessante, se não o mais notável.
O que parecia mais velho e a quem seu companheiro se dirigia, chamando-o pelo característico apelido de Legs (Pernas) era também o mais alto dos dois. Mediria talvez uns dois metros e dez centímetros de altura e a inevitável conseqüência de tão grande estatura se via no hábito de andar de ombros curvados. O excesso de altura era, porém, mais que compensado por deficiências de outra natureza. Era excessivamente magro e poderia, como afirmavam seus companheiros, substituir, quando bêbedo, um galhardete no topete do mastro, ou servir de pau de bujarrona, se não estivesse embriagado. Mas essas pilhérias e outras de igual natureza jamais produziam, evidentemente, qualquer efeito sobre os músculos cachinadores do marinheiro. Com as maçãs do rosto salientes, grande nariz adunco, queixo fugidio, pesado maxilar inferior e grandes olhos protuberantes e brancos, a expressão de sua fisionomia, embora repassada duma espécie de indiferença intratável por assuntos e coisas em geral, nem por isso deixava de ser extremamente solene e séria, fora de qualquer possibilidade de imitação ou descrição. O marujo mais moço era, pelo menos aparentemente, o inverso de seu companheiro. Sua estatura não ia além de um metro e vinte. Um par de pernas atarracadas e arqueadas suportava-lhe o corpo pesado e rechonchudo, enquanto os braços, descomunalmente curtos e grossos, de punhos incomuns, pendiam balouçantes dos lados, como as barbatanas duma tartaruga-marinha. Os olhos pequenos de cor imprecisa, brilhavam-lhe encravados fundamente nas órbitas. O nariz se afundava na massa de carne, que lhe envolvia a cara redonda, cheia, purpurina. O grosso lábio superior descansava sobre o inferior, ainda mais carnudo, com um ar de complacente satisfação pessoal, mais acentuada pelo hábito que tinha o dono de lamber seus beiços, de vez em quando. E evidente que ele olhava seu camarada alto com um sentimento meio de espanto, meio de zombaria, e, quando, às vezes, erguia a vista para encará-lo, parecia o vermelho sol poente a fitar os penhascos de Ben Nevis. Várias e aventurosas haviam, porém, sido as peregrinações do digno par, pelas diversas cervejarias da vizinhança, durante as primeiras horas da noite. Mas os cabedais, por mais vastos que sejam não podem durar sempre e foi de bolsos vazios que nossos amigos se aventuraram a entrar na taberna aludida. No momento preciso, pois, em que esta estória começa, Legs e seu companheiro, Hugh Tarpaulin, estão sentados, com os cotovelos apoiados na grande mesa de carvalho, em meio da sala e a cara metida entre as mãos. Olhavam, por trás duma enorme garrafa de humming-stuff a pagar, as agourentas palavras: Não se fia, que para indignação e espanto deles, estavam escritas a giz na porta de entrada. Não que o dom de decifrar caracteres escritos - dom considerado então, entre o povo, pouco menos cabalístico do que a arte de escrever - pudesse, em estrita justiça, ter sido deixado a cargo dos dois discípulos do mar; mas havia, para falar a verdade, certa contorção no formato das letras, uma indescritível guinada no conjunto, que pressagiava, na opinião dos dois marinheiros uma longa viagem de tempo ruim, e os decidia a, imediatamente na linguagem alegórica do próprio Legs, "correr às bombas, ferrar todas as velas e correr com o vento em popa".
Tendo, conseqüentemente, consumido o que restava da cerveja e abotoado seus curtos gibões, trataram afinal de saltar para a rua. Embora Tarpaulin houvesse, por duas vezes, entrado de chaminé adentro, pensando tratar-se da porta, conseguiram por fim com êxito a escapada, e meia hora depois da meia-noite achavam-se nossos heróis prontos para outra e correndo a bom correr por uma escura viela, na direção da Escada de Santo André, encarniçadamente perseguidos pela taberneira do "Alegre Marinheiro".
Periodicamente, durante muitos anos antes e depois da época desta dramática estória, ressoava por toda a Inglaterra, e mais especialmente na metrópole, o espantoso grito de: "Peste!" A cidade estava em grande parte despovoada, e naqueles horríveis bairros das vizinhanças do Tâmisa, onde, entre aquelas vielas e becos escuros, estreitos e imundos, O Demônio da Peste tinha, como se dizia, seu berço, a Angústia, o Terror e a Superstição passeavam, como únicos senhores, à vontade.
Por ordem do rei, estavam aqueles bairros condenados e as pessoas proibidas, sob pena de morte, de penetrar-lhes a lúgubre solidão. Contudo, nem o decreto do monarca, nem as enormes barreiras erguidas às entradas das ruas, nem a perspectiva daquela hedionda morte que, com quase absoluta certeza, se apoderaria do desgraçado a quem nenhum perigo poderia deter de ali aventurar-se, impediam que as habitações vazias e desmobiliadas fossem despojadas, pelos rapinantes noturnos, de coisas como ferro, cobre ou chumbo, que pudessem, de qualquer maneira, ser transformadas em lucro apreciável. Verificava-se, sobretudo, por ocasião da abertura anual das barreiras, no inverno, que fechaduras, ferrolhos e subterrâneos secretos não passavam de fraca proteção para aqueles ricos depósitos de vinhos e licores que, dados os riscos e incômodos da remoção, muitos dos numerosos comerciantes, com estabelecimentos na vizinhança tinham consentido em confiar, durante o período de exílio, a tão insuficiente segurança.
Mas poucos eram, entre o povo aterrorizado, os que atribuíam tais fatos à ação de mãos humanas. Os espíritos, os duendes da peste, os demônios da febre eram, para o povo, os autores das façanhas. E tamanhas estórias arrepiantes se contavam a toda hora que toda a massa de edifícios proibidos ficou, afinal, como que envolta numa mortalha de horror e os próprios ladrões, muitas vezes, se deixavam tomar de pavor que suas depredações haviam criado e abandonaram todo o vasto recinto do bairro proibido, às trevas, ao silêncio, e à morte. Foi uma daquelas terrificas barreiras já mencionadas e que indicavam estar o bairro adiante sob a condenação da Peste que deteve, de repente a disparada em que vinham, beco adentro, Legs e o digno Tarpaulin. Arrepiar caminho estava fora de cogitação e não havia tempo a perder, pois os perseguidores se achavam quase a seus calcanhares. Para marinheiros chapados era um brinquedo subir por aquela tosca armação de madeira; exasperados pela dupla excitação do licor e da corrida, pularam sem hesitar para dentro do recinto e, continuando sua carreira de ébrios, com berros e urros, em breve se perderam naquelas profundezas intrincadas e pestilentas .
Não se achassem eles tão embriagados, a ponto de haverem perdido o senso moral, o horror de sua situação lhes teria paralisado os passos vacilantes. O ar era frio e nevoento. As pedras do calçamento, arrancadas do seu leito, jaziam em absoluta desordem, em meio do capim alto e viçoso, que lhes subia em torno dos pés e tornozelos.
Casas desmoronadas obstruíam as ruas. Os odores mais fétidos e mais deletérios dominavam por toda a parte, e, graças àquela luz lívida que, mesmo à meia-noite, nunca deixa de emanar duma atmosfera pestilencial e brumosa, podiam-se perceber, jacentes nos atalhos e becos, ou apodrecendo nas casas sem janelas, as carcaças de muitos saqueadores noturnos, detidos pela mão da peste, no momento mesmo da perpetração de seu roubo.
Mas não estava no poder de imagens, sensações ou obstáculos como esses deter a corrida de homens que, naturalmente corajosos e, especialmente naquela ocasião, repletos de coragem e de humming-stuff, teriam ziguezagueado, tão eretos quanto lhes permitia seu estado, sem temor, até mesmo dentro das fauces da morte. Na frente, sempre na frente, caminhava o disforme Legs, fazendo aquele deserto solene soar e ressoar, com berros semelhantes aos terríveis urros de guerra dos índios; e para a frente, sempre para a frente rebolava o atarracado Tarpaulin, agarrado ao gibão de seu companheiro mais ativo, levando-lhe enorme vantagem nos tenazes esforços, à moda de música vocal, com seus mugidos taurinos arrancados das profundezas de seus pulmões estentóricos.
Haviam agora evidentemente alcançado o reduto da peste. A cada passo, ou a cada tropeção, o caminho que seguiam se tornava mais fedorento e mais horrível, as veredas mais estreitas e mais intrincadas. Enormes pedras e vigas que caiam de repente dos telhados desmoronados demonstravam, com sua queda soturna e pesada, a altura prodigiosa das casas circunvizinhas; e quando lhes era necessário imediato esforço para forçar passagem através de freqüentes montões de caliça, não era raro que a mão caísse sobre um esqueleto ou pousasse num cadáver ainda com carne.
De repente, ao tropeçarem os marujos, à entrada dum elevado e sinistro edifício, um berro, mais retumbante que os outros, irrompeu da garganta do excitado Legs e lá de dentro veio uma em rápida sucessão de ferozes e diabólicos guinchos, semelhantes a risadas. Sem se intimidarem com aqueles sons que, pela sua natureza, pela ocasião e pelo lugar, teriam gelado todo o sangue de corações menos irrevogavelmente incendiados, o par de bêbados embarafustou pela porta, escancarando-a e, cambaleantes, com um chorrilho de pragas, se viram em meio dum montão de coisas.
A sala em que se encontravam era uma loja de cangalheiro; mas um alçapão, a um canto do soalho, perto da entrada, dava para uma longa fileira de adegas, cujas profundezas, reveladas pelo ocasional rumor de garrafas que se partiam, estavam bem sortidas do conteúdo apropriado. No meio da sala havia uma mesa, em cujo centro se erguia uma enorme cuba, cheia, ao que parecia, de ponche. Garrafas de vários vinhos e cordiais, juntamente com jarros, pichéis e garrafões de todo formato e qualidade, estavam espalhadas profusamente pela mesa. Em torno desta via-se um grupo de seis indivíduos sentados em catafalcos. Vou tentar descrevê-los um por um.
Em frente à porta de entrada e em plano acima dos companheiros estava sentado um personagem que parecia ser o presidente da mesa. Era descarnado e alto, e Legs sentiu-se confuso ao notar nele um aspecto mais emaciado do que o seu. Tinha o rosto açafroado, mas nenhum de seus traços, exceção feita de um, era bastante característico para merecer descrição especial. Aquele traço único consistia numa fronte tão insólita e tão horrivelmente elevada que tinha a aparência de um boné ou coroa de carne acrescentada à cabeça natural. Sua boca, enrugada, encovava-se numa expressão de afabilidade horrível, e seus olhos, bem como os olhos de todos quantos se achavam em torno à mesa, tinham aquele humor vítreo da embriaguez. Esse cavalheiro trajava, da cabeça aos pés, mortalha de veludo de seda negra, ricamente bordada, que lhe envolvia, com displicência, o corpo à moda duma capa espanhola. Estava com a cabeça cheia de plumas negras mortuárias, que ele fazia ondular para lá e para cá, com um ar afetado e presunçoso e na mão direita segurava um enorme fêmur humano, com o qual parecia ter acabado de bater em algum dos presentes para que cantasse. Defronte dele, e de costas para a porta, estava uma mulher de fisionomia não menos extraordinária. Embora tão alta quanto o personagem que acabamos de descrever, não tinha direito de se queixar da mesma magreza anormal. Encontrava-se, evidentemente, no derradeiro grau de uma hidropisia e seu todo era bem semelhante ao imenso pipote de cerveja-de-outubro que se erguia, de tampa arrombada, a seu lado, a um canto do aposento. Seu rosto era excessivamente redondo, vermelho e cheio e a mesma peculiaridade, ou antes falta de peculiaridade, ligada à sua fisionomia, que já mencionei no caso do presidente, isto é, somente uma feição de seu rosto era suficientemente destacada para merecer caracterização especial. De fato, o perspicaz Tarpaulin notou logo que a mesma observação podia ser feita a respeito de um dos indivíduos ali presentes. Cada um deles parecia monopolizar alguma porção particular de fisionomia. Na dama em questão, essa parte era a boca. Começando na orelha direita, rasgava-se, em aterrorizante fenda, até a esquerda. Ela fazia, no entanto, todos os esforços para conservar a boca fechada, com ar de dignidade. Seu traje consistia num sudário, recentemente engomado e passado a ferro, chegando-lhe até o queixo, com uma gola encrespada de musselina de cambraia. À sua direita sentava-se uma mocinha chocha, a quem ela parecia amadrinhar. Essa delicada criaturinha deixava ver, pelo tremor de seus dedos descarnados, pela lívida cor de seus lábios e pela leve mancha héctica que lhe tingia a tez, aliás cor de chumbo, sintomas de tuberculose galopante. Um ar de extrema distinção, porém, dominava em toda a sua aparência. Usava, duma maneira graciosa e negligente, uma larga e bela mortalha da mais fina cambraia, indiana. Seu cabelo caía-lhe em cachos sobre o pescoço. Um leve sorriso pairava-lhe nos lábios, mas seu nariz extremamente comprido, delgado, sinuoso, flexível e cheio de borbulhas, acavalava por demais sobre o lábio inferior; e, a despeito da delicada maneira pela qual ela, de vez em quando, o movia para um lado e outro com a língua, dava-lhe à fisionomia uma expressão um tanto quanto equívoca.
Do outro lado, e à esquerda da dama hidrópica, estava sentado um velho pequeno, inchado, asmático e gotoso, cujas bochechas lhe repousavam sobre os ombros como dois imensos odres de vinho do Porto. De braços cruzados e uma perna enfaixada posta sobre a mesa, parecia achar-se com direito a alguma consideração. Evidentemente orgulhava-se bastante de cada polegada de sua aparência pessoal, mas sentia mais especial deleite em chamar a atenção para seu sobretudo de cores vistosas. Para falar a verdade, não deveria este ter custado pouco dinheiro e lhe assentava esplendidamente bem, talhado como estava em uma dessas cobertas de seda, curiosamente bordadas, pertencentes àqueles gloriosos escudos que, na Inglaterra e noutros lugares, são ordinariamente suspensos, em algum lugar patente, nas residências de aristocratas falecidos.
Junto dele, e à direita do presidente, via-se um cavalheiro, com compridas meias brancas e ceroulas de algodão. Seu corpo tremelicava de maneira ridícula, num acesso daquilo que Tarpaulin chamava "os terrores". Seus queixos, recentemente barbeados, estavam estreitamente atados por uma faixa de musselina, e, tendo os braços amarrados nos pulsos da mesma maneira, não lhe era possível servir-se muito à vontade, dos licores que se achavam sobre a mesa, precaução necessária, na opinião de Legs, graças à expressão caracteristicamente idiota e tremulenta de seu rosto. Sem embargo, um par de prodigiosas orelhas, que sem dúvida era impossível ocultar, alteava-se na atmosfera do aposento e, de vez em quando, arrebitavam-se espasmodicamente ao rumor das rolhas que espoucavam. Defronte dele, sentava-se o sexto e último personagem, de aparência rígida que, sofrendo de paralisia, devia sentir-se, falando sério, muito mal à vontade nos seus trajes nada cômodos. Essa roupa um tanto singular, consistia em um novo e belo ataúde de mogno. Sua tampa ou capacete apertava-se sobre o crânio do sujeito e estendia-se sobre ele, à moda de um elmo, dando-lhe a todo o rosto um ar de indescritível interesse. Cavas para os braços tinham sido cortadas dos lados, mais por conveniência que por elegância; apesar disso, o traje impedia seu proprietário de se sentar direito como seus companheiros. E como se sentasse reclinado de encontro a um cavalete, formando um ângulo de quarenta e cinco graus, um par de enormes olhos esbugalhados revirava suas apavorantes escleróticas para o teto, num absoluto espanto de sua própria enormidade.
Diante de cada um dos presentes estava a metade dum crânio, usada como copo. Por cima, pendia um esqueleto humano, pendurado duma corda amarrada numa das pernas e presa a uma argola no forro. A outra perna, sem nenhuma amarra, saltava do corpo em angulo reto, fazendo flutuar e girar toda a carcaça desconjuntada e chocalhante, ao sabor de qualquer sopro de vento que penetrasse no aposento. O crânio daquela hedionda coisa continha certa quantidade de carvão em brasa, que lançava uma luz vacilante, mas viva, sobre a cena, enquanto ataúdes e outras mercadorias de casa mortuária empilhavam-se até o alto, em toda a sala e contra as janelas, impedindo assim que qualquer raio de luz se projetasse na rua.
À vista de tão extraordinária assembléia e de seus mais extraordinários adornos, nossos dois marujos não se conduziram com aquele grau de decoro que era de esperar. Legs, encostando-se à parede junto da qual se encontrava, deixou cair o queixo ainda mais baixo do que de costume e arregalou os olhos até mais não poder, quanto Hugh Tarpaulin, abaixando-se a ponto de colocar o nariz ao nível da mesa e dando palmadas nas coxas, explodiu numa desenfreada e extemporânea gargalhada, que mais parecia um rugido longo, poderoso e atroador.
Sem, no entanto, ofender-se diante de procedimento tão excessivamente grosseiro, o escanifrado presidente sorriu com toda a graça para os intrusos, fazendo-lhes um gesto cheio de dignidade com a cabeça empenachada de negro, e, levantando-se, pegou-os pelos braços e levou-os aos assentos que alguns dos outros presentes tinham colocado, enquanto isso, para que eles estivessem a cômodo. Legs nenhuma resistência ofereceu a tudo isso sentando-se no lugar indicado, ao passo que o galanteador Hugh removendo cavalete de ataúde do lugar perto da cabeceira da mesa para junto da mocinha tuberculosa, da mortalha ondulante derreou-se a seu lado, com grande júbilo, e, emborcando um crânio de vinho vermelho, esvaziou-o em honra de suas mais íntimas relações. Diante de tamanha presunção, o cavalheiro teso do ataúde mostrou-se excessivamente exasperado, e sérias conseqüências poderiam ter-se seguido não houvesse o presidente, batendo com o bastão na mesa, distraído a atenção de todos os presentes para o seguinte discurso:
- É nosso dever nosso na atual feliz ocasião.
- Pare com isso! - interrompeu Legs, com toda a seriedade. Cale essa boca, digo- lhe eu, e diga-nos que diabos são vocês todos e que estão fazendo aqui, com essas farpelas de diabos sujos e bebendo a boa pinga armazenada para o inverno pelo meu honrado camarada Will Wimble, o cangalheiro!
À vista daquela imperdoável amostra de má educação, toda a esquipática assembléia se soergueu e emitiu aqueles mesmos rápidos e sucessivos guinchos ferozes e diabólicos que já haviam chamado antes a atenção dos marinheiros. O presidente, porém, foi primeiro a retomar sua compostura e por fim, voltando-se para Legs com grande dignidade, recomeçou:
- De muito boa-vontade satisfaremos qualquer curiosidade razoável da parte de hóspedes tão ilustres, embora não convidados. Ficai, pois, sabendo que, nestes domínios, sou o monarca e governo, com indivisa autoridade, com o título de "Rei Peste I." Esta sala, que supondes injuriosamente ser a loja do cangalheiro Will Wimble, homem que não conhecemos e cujo sobrenome plebeu jamais ressoara, até esta noite, aos nossos reais ouvidos... esta sala, repito, é a Sala do Trono de nosso palácio. Consagrada aos conselhos de nosso reino e outros destinos de natureza sagrada e superior.
A nobre dama sentada à nossa frente é a Rainha Peste, nossa Sereníssima Esposa. Os outros personagens ilustres que vedes pertencem todos à nossa família e usam as insígnias do sangue real nos respectivos títulos de: "Sua Graça o Arquiduque Peste-Ifero", "Sua Graça o Duque Pest- Ilencial", "Sua Graça o Duque Tem-Pestuoso" e "Sua Serena Alteza a Arquiduquesa Ana-Peste".
Quanto à vossa pergunta - continuou ele -, a respeito do que nos trás aqui reunidos em conselho, ser-nos-ia lícito responder que, concerne e concerne exclusivamente, ao nosso próprio e particular interesse e não tem importância para ninguém mais que não nós mesmos. Mas em consideração aos direitos de que, na qualidade de hóspedes e estrangeiros, possais julgar-vos merecedores, explicar-vos-emos entanto, que estamos aqui, esta noite, preparados por intensa pesquisa e acurada investigação, a examinar, analisar e determinar, indubitavelmente, o indefinível espírito, as incompreensíveis qualidades e natureza desses inestimáveis tesouros do paladar que são os vinhos, cervejas e licores desta formosa metrópole. Assim procedemos não só para melhorar nossa própria situação, mas para o bem-estar verdadeiro daquela soberana sobrenatural que reina sobre todos nós, cujos domínios não têm limites e cujo nome é "Morte".
- Cujo nome é Davi Jones! - exclamou Tarpaulin, oferecendo à sua vizinha um crânio de licor e emborcando ele próprio um segundo.
- Lacaio profanador! - exclamou o presidente, voltando agora para o digno Hugh. - Miserável e execrando profanador. Dissemos que, em consideração àqueles direitos que, mesmo na tua imunda pessoa, não nos sentimos com inclinação para violar, condescendemos em responder às tuas grosseiras e desarrazoadas indagações. Contudo, tendo em vista a vossa profana intrusão no recinto de nossos conselhos, acreditamos ser de nosso dever multar-te a ti e a teu companheiro, num galão de Black Strap, que bebereis pela prosperidade de nosso reino, dum só gole e de joelhos; logo depois estareis livres para continuar vosso caminho ou permanecerdes e serdes admitidos aos privilégios de nossa mesa, se acordo com vossos respectivos gostos pessoais.
- Será coisa de absoluta impossibilidade - replicou Legs, a quem a imponência e a dignidade do Rei Peste I tinham evidentemente inspirado alguns sentimentos de respeito, e que se levantara, ficando de pé junto da mesa, enquanto aquele falava.
- Será, com licença de Vossa Majestade, coisa extremamente impossível arrumar no meu porão até mesmo a quarta parte desse tal licor que vossa Majestade acaba de mencionar. Não falando das mercadorias colocadas esta manhã a bordo para servir de lastro, e não mencionando as várias cervejas e licores embarcados esta noite em vários portos, tenho, presentemente, uma carga completa de humming-tuff, entrada e devidamente paga na taberna do "Alegre Marinheiro". De modo que há de Vossa Majestade ter a bondade de tomar a tenção como coisa realizada, pois não posso de modo algum, nem quero, engolir outro trago e muito menos um trago dessa repugnante água-de-porão que responde ao nome de Black Strap.
- Pare com isso! - interrompeu Tarpaulin, espantado não só pelo tamanho do discurso de seu companheiro como pela natureza de sua recusa. - Pare com isso, seu marinheiro de água doce! Repito, Legs, pare com esse palavreado! O meu casco está ainda leve, embora, confesse-o, esteja o seu mais pesado em cima que em baixo. Quanto à estória de sua parte da carga, em vez de provocar uma borrasca, acharei jeito de arrumá-la eu mesmo no porão, mas...
- Este modo de proceder - interferiu o presidente - não está de modo algum em acordo com os termos da multa ou sentença que é de natureza média e não pode ser alterada nem apelada. As condições que impusemos devem ser cumpridas à risca, e isto sem um instante de hesitação... sem o quê, decretamos que sejais amarrados, pescoços e calcanhares juntos, e devidamente afogados, rebeldes, naquela pipa de cerveja-de-outubro!
- Que sentença! Que sentença! Que sentença justa e direita! decreto glorioso! A condenação mais digna, mais irrepreensível, sagrada! - gritaram todos os membros da família Peste ao mesmo tempo.
O rei franziu a testa em rugas inumeráveis; o homenzinho gotoso soprava, como um par de foles; a dona da mortalha de cambraia movia o nariz para um lado para o outro; o cavalheiro de ceroulas de algodão arrebitou as orelhas; a mulher do sudário ofegava como um peixe agonizante, e o sujeito do ataúde entesou-se mais, arregalando os olhos para cima.
- Oh, uh, uh! - ria Tarpaulin, entre dentes, sem notar a excitação geral. - Uh, uh, ... Uh, uh, uh... Estava eu dizendo quando aqui o Sr. Rei Peste veio meter seu bedelho, que a respeito da questão de dois ou três galões mais ou menos de Black Strap era uma bagatela para um barco sólido como eu que não está sobrecarregado; e quando se tratar de beber à saúde do Diabo (que Deus lhe perdoe) e de me pôr de joelhos diante dessa horrenda majestade aqui presente, que eu conheço tão bem como sei que sou um pecador, e que não é outro senão Tim Hurlygurly, o palhaço!... Ora essa, é muito outra coisa, e vai muito além de minha compreensão.
Não lhe permitiram que terminasse tranqüilamente seu discurso ao nome de Tim Hurlygurly, todos os presente pularam dos assentos.
- Traição! - gritou Sua Majestade o Rei Peste I.
- Traição! - disse o homenzinho gotoso.
- Traição! - esganiçou a Arquiduquesa Ana-Peste.
- Traição! - murmurou o homem dos queixos amarrados.
- Traição! - grunhiu o sujeito do ataúde.
- Traição, traição! - berrou Sua Majestade, a mulher da bocarra. E, agarrando o infeliz Tarpaulin pela traseira das calças, o qual estava justamente enchendo outro crânio de licor, ergueu-o no ar e deixou-o bem alto no ar, e deixou-o cair sem cerimônia no imenso barril aberto de sua cerveja predileta. Boiando para lá e para cá, durante alguns segundos, como uma maçã numa tigela de ponche, desapareceu afinal no turbilhão de espuma que, no já efervescente licor, haviam provocado seus esforços de safar-se.
Não se resignou, porém, o marinheiro alto com a derrota de seu camarada. Empurrando o Rei Peste para dentro do alçapão aberto, Legs deixou cair a tampa do alçapão sobre ele, com uma praga, e correu para o meio da sala. Ali, puxando para baixo o esqueleto que pendia sobre a mesa, com tamanha força e vontade que o fez que conseguiu fazer saltar os miolos do homenzinho gotoso, ao tempo que morriam os derradeiros lampejos de luz dentro da sala.
Precipitando-se, então, com toda a sua energia, contra a pipa fatal cheia de cerveja-de-outubro e de Hugh Tarpaulin, revirou-a, num instante, de lado. Dela jorrou um dilúvio de licor tão impetuoso, violento, tão irresistível, que a sala ficou inundada de parede a parede, as mesas carregadas viraram de pernas para o ar, os cavaletes rebolaram uns por cima dos outros, a tina de ponche foi lançada na chaminé da lareira... e as damas caíram com ataques histéricos. Montes de artigos fúnebres boiavam. Jarros, pichéis e garrafões confundiam-se, numa misturada enorme, e as garrafas de vime embatiam-se, desesperadamente, com cantis trançados. O homem dos tremeliques afogou-se imediatamente. O sujeito flutuava no seu caixão... e o vitorioso Legs, agarrando pela cintura pela criatura a mulher gorda do sudário, arrastou-a para a rua e em linha reta, a direção do Free and Easy, seguido, a bom pano, pelo temível Hugh Tarpaulin, que, tendo espirrado três ou quatro vezes, ofegava e bufava atrás dele, puxando a Arquiduquesa Ana-Peste.


Edgar Allan Poe
(tradução brasileira)

27/05/2011

Duas Palavras


Tinha o nome de Belisa Crepusculario, não por fé de batismo ou escolha de sua mãe, mas porque ela própria o procurou até o encontrar e com ele se ataviou. Percorria o país, desde as regiões mais altas a frias até às costas quentes, instalando-se nas feiras e nos mercados, onde montava quatro paus com um toldo de linho, debaixo do qual se protegia do sol e da chuva para atender a clientela. Não precisava de apregoar a mercadoria, porque de tanto caminhar por aqui e por ali todos a conheciam. Havia os que a aguardavam de um ano para o outro e quando aparecia na aldeia com a trouxa debaixo do braço faziam bicha em frente da sua barraca. Vendia a preços justos. Por cinco centavos entregava versos de memória, por sete melhorava a qualidade dos sonhos, por nove escrevia cartas de namorados, por doze inventava insultos para inimigos irreconciliáveis. Também vendia contos, mas não eram contos de fantasia, mas longas histórias verdadeiras que recitava de enfiada sem saltar nada. Assim levava as notícias de uma aldeia para outra. As pessoas pagavam-lhe por juntar uma ou duas linhas: nasceu um menino, morreu Fulano, casaram-se os nossos filhos, queimaram-se as colheitas. Em cada lugar juntava-se uma pequena multidão à sua volta para a ouvir quando começava a falar e assim se inteiravam das vidas dos outros, dos parentes que viviam longe, dos pormenores da guerra civil. A quem lhe comprasse cinquenta centavos, dava de presente uma palavra secreta para afugentar a melancolia. Não era a mesma para todos, certamente, porque isso teria sido um engano coletivo. Cada um recebia a sua com a certeza de que ninguém mais a empregava para esse fim no universo inteiro e para lá dele.
Belisa Crepusculario nascera numa família tão miserável que nem sequer possuía nomes para chamar aos filhos. Veio ao mundo e cresceu na região mais inóspita, onde alguns anos as chuvas se transformam em avalanchas de água que arrastam tudo e noutros não cai nem uma gota do céu, o sol aumenta até ocupar o horizonte por inteiro e o mundo torna-se um deserto. Até completar 11 anos não teve outra ocupação nem virtude senão sobreviver à fome e à fadiga dos séculos. Durante uma seca interminável coube-lhe enterrar quatro irmãos mais pequenos e, quando compreendeu que chegava a sua vez, decidiu começar a andar pelas planícies em direção ao mar, a ver se, na viagem, conseguia enganar a morte. A terra estava escalvada, partida em gretas profundas, semeada de pedras, fósseis de árvores e de arbustos espinhosos, esqueletos de animais, embranquecidos pelo calor. De vez em quando deparava com famílias que, como ela, iam até ao Sul seguindo a miragem da água. Alguns tinham iniciado a caminhada levando os seus haveres ao ombro ou em carrinhos de mão, mas mal podiam mover os próprios ossos e ao fim de pouco caminhar acabavam por abandonar as suas coisas. Arrastavam-se penosamente, com a pele feita couro de lagarto e os olhos queimados pela reverberação da luz. Belisa saudava-os com um gesto ao passar, mas não parava, porque não podia gastar as suas forças em exercícios de compaixão. Muitos caíram pelo caminho, mas ela era tão teimosa que conseguiu atravessar o inferno e, por fim, chegar aos primeiros mananciais, finos fios de água, quase invisíveis, que alimentavam uma vegetação raquítica e que mais adiante se transformavam em riachos e pântanos.
Belisa Crepusculario salvou a vida e, além disso, descobriu a escrita por acaso. Ao chegar a uma aldeia nas proximidades da costa, o vento pôs-lhe aos pés a folha de um jornal. Pegou naquele papel amarelo e quebradiço, esteve longo tempo a observá-lo sem adivinhar o seu uso, até que a curiosidade pôde mais que a timidez. Aproximou-se de um homem que lavava um cavalo no mesmo charco turvo onde ela saciara a sede.
— Que é isto? — perguntou.
— A página desportiva de um jornal — respondeu o homem sem dar mostras de espanto pela sua ignorância.
A resposta deixou a rapariga atónita mas não quis parecer atrevida, limitou-se a perguntar o significado das patinhas de mosca desenhadas sobre o papel.
— São palavras, menina. Aí diz-se que Fulgêncio Barba derrubou o negro Tiznao ao terceiro assalto.
Nesse dia Belisa Crepusculario soube que as palavras andam soltas, sem dono, e que qualquer um com um pouco de manha pode agarrá-las para as vender. Considerou a sua situação e concluiu que além de se prostituir ou empregar-se como criada nas cozinhas dos ricos, poucas eram as ocupações que podia desempenhar. Vender palavras pareceu-lhe uma alterei nativa decente. A partir desse momento exerceu tal profissão e nunca se interessou por outra. A princípio oferecia a sua mercadoria sem suspeitar que as palavras podiam também escrever-se fora dos jornais. Quando soube isso calculou as infinitas perspetivas do negócio, com as suas poupanças pagou vinte pesos a um padre para lhe ensinar a ler e escrever e com os três que lhe s sobraram comprou um dicionário. Leu-o de A a Z e depois atirou-o ao mar porque não era sua intenção cansar os clientes com palavras enlatadas.
Vários anos depois, numa manhã de Agosto, estava Belisa Crepusculario no meio de uma praça, sentada debaixo do toldo a vender argumentos de justiça a um velho que solicitava a sua pensão há dezassete anos. Era dia de mercado e havia muito bulício à sua volta. Ouviram-se golpes e gritos, ela levantou os olhos da escrita e viu primeiro uma nuvem de pó e, em seguida, um grupo de cavalos que dela saiu. Tratava-se dos homens do Coronel, comandados pelo Mulato, um gigante conhecido em toda a região pela rapidez da sua faca e pela lealdade para com o chefe. Ambos, o Coronel e o Mulato, tinham passado a vida ocupados na guerra civil e os seus homens estavam irremediavelmente unidos ao malefício e à calamidade. Os guerreiros entraram na aldeia como um rebanho em fuga, envoltos em ruído, banhados de suor e deixando atrás de si os destroços de um furacão. As galinhas desapareceram a voar, os cães largaram a correr, as mulheres abalaram com os filhos e não ficou no local do mercado vivalma a não ser Belisa Crepusculario, que nunca tinha visto o Mulato e que por isso mesmo estranhou que ele se lhe dirigisse.
— Procuro-te a ti — gritou, apontando-a com o chicote enrolado e, antes que acabasse de dizer isto, dois homens caíram em cima da mulher atropelando o toldo e partindo o tinteiro, amarraram-lhe os pés e as mãos e puseram-na atravessada como um fardo de marinheiro sobre a garupa do cavalo do Mulato. Depois começaram a galopar em direção às colinas.
Horas mais tarde, quando Belisa Crepusculario estava quase a morrer com o coração transformado em areia pelas sacudidelas do cavalo, sentiu que paravam e que quatro mãos poderosas a punham em terra. Tentou pôr-se de pé e levantar a cabeça com dignidade, mas faltaram-lhe as forças e caiu com um suspiro, afundando-se num sono pesado.
Despertou várias horas depois com o murmúrio da noite no campo, mas não teve tempo de decifrar esses ruídos porque ao abrir os olhos viu na sua frente o olhar impaciente do Mulato, ajoelhado a seu lado.
— Finalmente acordas, mulher — disse, estendendo-lhe o cantil para que bebesse um gole de aguardente com pólvora a acabasse de recuperar à vida.
Ela quis saber a causa de tantos maltratas e ele explicou-lhe que o Coronel necessitava dos seus serviços. Deixou-a molhar a cara e depois levou-a até a um dos extremos do acampamento, onde o homem mais temido do país repousava numa rede pendurada entre duas árvores. Ela não conseguiu ver-lhe o rosto, porque ele tinha em cima a sombra incerta da folhagem e a sombra indelével de muitos anos a viver como um bandido, mas imaginou que devia ter uma expressão viciosa uma vez que o seu gigantesco ajudante se dirigia a ele com tanta humildade. Surpreendeu-a a voz dele, suave e bem modulada como a de um professor.
— És tu a que vende palavras? — perguntou.
— Ao teu serviço — balbuciou ela, procurando na penumbra para o ver melhor.
O Coronel pôs-se de pé e a luz da tocha que o Mulato levava iluminou-lhe a cara. A mulher viu a sua pele escura e os seus ferozes olhos de puma e percebeu logo que estava em frente do homem mais solitário deste mundo.
— Quero ser presidente — disse ele.
Estava cansado de percorrer aquela terra maldita em guerras inúteis e derrotas que nenhum subterfúgio podia transformar em vitórias. Passara muitos anos a dormir à intempérie, picado por mosquitos, alimentando-se de iguanas e sopa de cobra, mas esses inconvenientes menores não eram razão suficiente para lhe mudar o destino. O que em verdade o enfadava era o terror nos olhos dos outros. Desejava entrar nas aldeias debaixo de arcos de triunfo, entre bandeiras de cores e flores, que o aplaudissem e lhe dessem de presente ovos frescos e pão acabado de sair do forno. Estava farto de ver como os homens fugiam à sua passagem, as mulheres abortavam de susto e tremiam as crianças, por isso decidira ser presidente. O Mulato sugeriu-lhe que fossem à capital e entrassem a galope no palácio para se apoderarem do governo, como tomaram tantas outras coisas sem pedir autorização, mas ao Coronel não interessava tornar-se noutro tirano, desses já tinha havido bastantes por ali e, além disso, dessa maneira não conseguiria o afeto das pessoas. A sua ideia consistia em ser eleito por votação popular nos comícios de Dezembro.
— Para isso tenho de falar como um candidato. Podes vender-me as palavras para um discurso? — perguntou o Coronel a Belisa Crepusculario.
Ela já tinha aceitado muitas encomendas, mas nenhuma como essa, no entanto não pôde negar-se, receando que o Mulato lhe enfiasse um tiro entre os olhos ou, pior ainda, que o Coronel desatasse a chorar. Por outro lado, teve vontade de o ajudar, porque sentiu uma palpitação quente na sua w pele, um desejo poderoso de tocar naquele homem, de percorrê-lo com as mãos, de apertá-lo entre os seus braços.
Toda a noite e boa parte do dia seguinte esteve Belisa Crepusculario à procura no seu repertório das palavras apropriadas para um discurso presidencial, vigiada de perto pelo Mulato, que não tirava os olhos das suas firmes pernas de caminhante e dos seus seios virginais. Retirou as palavras ásperas e secas, as demasiado floridas, as que estavam descoloridas pelo abuso, as que ofereciam promessas improváveis, as que careciam de verdade e as confusas, para ficar apenas com aquelas capazes de tocar com certeza o pensamento dos homens e a intuição das mulheres. Fazendo uso dos conhecimentos comprados ao padre por vinte pesos, escreveu o discurso numa folha de papel e fez logo sinais ao Mulato para desatar a corda com a qual a tinha amarrado pelas canelas a uma árvore. Levaram-na novamente ao Coronel e ao vê-lo tornou a sentir a mesma ansiedade palpitante do primeiro encontro. Deu-lhe o papel e esperou, enquanto ele a olhava segurando-o com a ponta dos dedos.
— Que porra diz isto aqui? — perguntou por fim.
— Não sabes ler?
— O que sei fazer é a guerra — respondeu ele.
Ela leu em voz alta o discurso. Leu-o três vezes, para que o seu cliente pudesse gravá-lo na memória. Quando terminou viu a emoção no rosto dos homens da tropa que se haviam juntado para a escutar e notou que os olhos amarelos do Coronel brilhavam de entusiasmo, certo de que com essas palavras a cadeira presidencial seria sua.
— Se, depois de ouvirem três vezes, os rapazes continuam de boca aberta, é porque esta droga serve, Coronel — aprovou o Mulato.
— Quanto te devo pelo teu trabalho, mulher? — perguntou o chefe.
— Um peso, Coronel.
— Não é caro — disse ele, abrindo a bolsa que trazia pendurada do cinturão com os restos do último saque.
— Além disso, tens direito a uma prenda. Correspondem-te duas, palavras secretas — disse Belisa Crepusculario.
— Como é isso?
Ela começou a explicar-lhe que, por cada cinquenta centavos que um cliente pagava, oferecia-lhe uma palavra de uso exclusivo. O chefe encolheu os ombros, porque não tinha o menor interesse na oferta, mas não quis ser indelicado com quem o servira tão bem. Ela aproximou-se devagar do tamborete de cabedal onde ele estava sentado e inclinou-se para lhe dar a sua prenda. Então o homem sentiu o cheiro de animal montês que saía daquela mulher, o calor de incêndio irradiado pelas ancas, o roçar terrível dos seus cabelos, o perfume de hortelã-pimenta sussurrando-lhe ao ouvido as duas palavras secretas a que tinha direito.
— São tuas, Coronel — disse, ao retirar-se. — Podes usá-las como quiseres.
O Mulato acompanhou Belisa até à beira do caminho, sem deixar de a olhar com olhos suplicantes de cão perdido, mas quando estendeu a mão para lhe tocar, ela deteve-o com um chorrilho de palavras inventadas que tiveram a virtude de lhe espantar o desejo, porque julgou tratar-se de alguma maldição irrevogável.
Nos meses de Setembro, Outubro e Novembro, o Coronel pronunciou o seu discurso tantas vezes, que se não fosse feito com palavras refulgentes e duradoiras o uso tê-lo-ia transformado em cinza. Correu o país em todas as direções, entrando nas cidades com ar triunfai e detendo-se também nas aldeias mais esquecidas, lá onde só o rasto do lixo indicava a presença humana, para convencer os eleitores a votarem nele. Enquanto falava em cima de um estrado no centra da praça, o Mulato e os seus homens distribuíam caramelos e pintavam o seu nome com tinta dourada nas paredes, mas ninguém prestava atenção a esses recursos de mercador, porque estavam deslumbrados pela claridade das suas propostas e pela lucidez poética dos seus argumentos, contagiados pelo seu desejo tremendo de corrigir os erros da história e alegres pela primeira vez na sua vida.
Ao terminar a arenga do candidato, a tropa dava tiros de pistola para o ar e acendia petardos e, quando por fim se retiravam, ficava atrás um rasto de esperança que permanecia muitos dias no ar, como a recordação magnífica de um cometa. Imediatamente o Coronel se tornou o político mais popular. Era um fenómeno nunca visto, aquele homem surgido da guerra civil, cheio de cicatrizes, falando como um catedrático, cujo prestígio se espalhava pelo território nacional comovendo o coração da pátria. A imprensa ocupava-se dele. Os jornalistas viajaram de longe para o entrevistar e repetir as suas frases, e assim cresceu o número dos seus segui¬dores e inimigos.
— Estamos a ir bem, Coronel! — disse o Mulato ao completarem-se doze semanas de êxito.
Mas o candidato não o ouviu. Estava a repetir as suas duas palavras secretas, como fazia, cada vez com mais frequência.
Dizia-as quando abrandava a nostalgia, murmurava-as adormecido, levava-as consigo no cavalo, pensava-as antes de pronunciar o seu célebre discurso e surpreendia-se a saboreá-las nos momentos descui¬dados. E em todas as ocasiões em que essas duas palavras lhe vinham à mente evocava a presença de Belisa Crepusculario e excitavam-se-lhe os sentidos com a recordação do cheiro montês, o calor de incêndio, o roçar terrível e o perfume de hortelã-pimenta, até que começou a andar como um sonâmbulo e os seus homens compreenderam que se lhe tinha acabado a vida antes de alcançar a cadeira dos presidentes.
— Que se passa contigo, Coronel? — perguntava-lhe muitas vezes o Mulato, até que por fim, um dia, o chefe não aguentou mais e confessou-lhe que a razão do seu ânimo eram as duas palavras que trazia cravadas no ventre.
— Diz-mas, para ver se perdem o seu poder — pediu-lhe o fiel ajudante.
— Não tas direi, são só minhas — replicou o Coronel.
Cansado de ver o chefe a definhar como um condenado à morte, o Mulato pôs a espingarda ao ombro e partiu à procura de Belisa Crepusculario. Seguiu as suas pegadas por toda a vasta geografia até a encontrar numa aldeia do Sul, instalada debaixo do toldo do seu ofício, contando o rosário de notícias. Ficou à sua frente com as pernas abertas, empunhando a arma.
— Vem comigo — ordenou.
Ela estava à sua espera. Guardou o tinteiro, dobrou o pano da barraca, pôs o xaile pelos ombros e, em silêncio, trepou para a garupa do cavalo. Não trocaram nem um gesto em todo o caminho, porque o desejo que o Mulato sentia por ela se tornara raiva e só o medo que a sua língua lhe inspirava o impedia de a desfazer à chicotada, nem estava disposto a dizer que o Coronel andava aparvalhado, e que aquilo que tantos anos de batalha não haviam logrado, conseguiu-o um encantamento sussurrado ao ouvido. Três dias depois, chegado ao acampamento, levou de imediato a sua prisioneira até ao candidato, diante de toda a tropa.
— Coronel, trouxe-te esta bruxa para que lhe devolvas as suas palavras e para ela te devolver a hombridade — disse, apontando o cano da espingarda à nuca da mulher. O Coronel e Belisa Crepusculario olharam-se longamente, medindo-se à distância. Os homens compreenderam então que o seu chefe já não podia desfazer-se do feitiço das suas palavras endemoninhadas, porque todos puderam ver os olhos carnívoros do puma tornarem-se mansos quando ele avançou e lhe pegou na mão.


ISABEL ALLENDE, Contos de Eva Luna (1988)



26/05/2011

O café de Surata

Havia em Surata um café onde muitos estrangeiros se reuniam à tarde. Certo dia aí foi um "seidre" persa, ou doutor da lei que escrevera toda a sua vida sobre a teologia e que não mais acreditava em Deus. "Que é Deus? dizia; de onde vem? Quem o criou? onde está? Se fosse um corpo nós o veríamos; se fosse um espírito seria inteligente e justo: não permitiria que houvesse infelizes sobre a terra. Eu próprio, após tanto haver trabalhado a seu serviço, seria pontífice em Ispahan e não teria sido obrigado a fugir da Pérsia, depois de haver procurado esclarecer os homens. Logo, Deus não existe. Destarte o doutor, transviado por sua ambição, à força de raciocinar sobre a razão primeira de todas as coisas, acabara perdendo a sua e acreditando que não era a sua própria inteligência que deixara de existir, mas sim aquela que governa o universo. Tinha como escravo um cafre quase nu, que ficou à porta do café. Quanto a ele, foi deitar-se num divã e tomou uma tapa de coquenar ou de ópio. Quando essa bebida começou a esquentar-lhe o cérebro, dirigiu-se ao escravo que estava sentado numa pedra, ao sol, entretido em afugentar as moscas que o devoravam, e disse-lhe: "Miserável negro, acredita na existência de Deus?" - "Quem pode duvidar?" .respondeu-lhe o cafre. Pronunciando essas palavras, o cafre tirou da tanga que lhe rodeava a cintura uma figurinha de madeira e disse: "Aqui está o Deus que me protege desde que estou no mundo; é feito de um galho da árvore sagrada de minha terra." Todos as pessoas que se encontravam no café ficaram tão surpresas com a pergunta do senhor quanto com a resposta do escravo.
Então um brâmane, encolhendo os ombros, disse ao negro: "Pobre imbecil, como, levas teu deus em tua cintura? Saiba que o único Deus que há é Brama, criador do mundo, e cujos tempos ficam às margens do Ganges. Os brâmanes são os seus únicos sacerdotes e é por sua especial proteção que eles subsistem há cento e vinte mil anos, apesar de todas as revoluções da Índia". Imediatamente, um judeu, agenciador de negócios, tomou a palavra e disse: "Como podem acreditar os brâmanes que Deus só possui templos na Índia e que ele só exista para sua casta? 0 único Deus é o de Abraão, cujo único povo é o de Israel. Ele conserva-o, embora dispersado por toda a terra, até reuni-lo em Jerusalém para lhe dar o império das nações, quando tiver sido reedificado seu templo, outrora a maravilha do universo." Ao pronunciar essas palavras, o israelita derramou algumas lágrimas. Dispunha-se a prosseguir quando um italiano, trajado de azul, disse-lhe colérico: "Está fazendo Deus injusto, dizendo que ele só ama o povo de Israel. Ele repeliu-o há mais de mil e setecentos anos, como pode verificar pela sua própria dispersão. Hoje ele chama todos os homens para a Igreja Romana, fora da qual não há salvação." Um ministro protestante, da missão dinamarquesa de Trinquebar, respondeu empalidecendo ao missionário católico: "Como pode limitar a salvação dos homens a sua comunhão idólatras? Saiba que só se salvarão aqueles que, conforme os Evangelhos, adorarem Deus em espírito e em verdade, sob a lei de Jesus." Aí um turco, oficial da alfândega de Surata, que fumava seu cachimbo, disse gravemente aos dois cristãos: "Padres, como podem restringir o conhecimento de Deus às suas igrejas? A lei de Jesus foi abolida depois da chegada de Mafoma, o Paráclito predito pelo próprio Jesus, o Verbo de Deus. Sua religião subsiste apenas em alguns reinos, e foi sobre suas ruínas que a nossa se ergueu na mais bela parte da Europa, da África, da Ásia e de suas ilhas. Ela hoje se acha instalada no trono do Mogol e espalha-se até a China, esse país de sabedoria. Os senhores mesmos reconhecem a condenação dos judeus à sua humilhação; reconheçam, portanto, a predestinação do Profeta às suas vitórias; só se salvarão os amigos de Mafoma e de Omar; quanto aos seguidores de Ali, são infiéis." A tais palavras, o "seidre", que era da Pérsia, onde o povo pertence à seita de Ali, pôs-se a sorrir; mas começou no café uma grande disputa por causa de todos os estrangeiros que pertenciam a várias religiões e entre os quais ainda havia cristãos abissínios, coptas, lamas tártaras, árabes ismaealitas, e guebros, ou adoradores do fogo. Todos discutiam sobre a natureza de Deus e sobre seu culto, cada qual afirmando que a verdadeira religião só existia em sua terra.
Havia também no café, um letrado da China, discípulo de Confúcio, que viajava para se instruir. Estava a um canto, tomando chá, tudo ouvindo sem pronunciar palavra. 0 turco, funcionário de alfândega, dirigindo-se a ele, gritou com voz forte: "Bom chinês, que se conserva em silêncio, o senhor sabe que muitas religiões penetraram na China? Assim mo disseram mercadores de seu país que necessitavam de meus serviços, afirmando-me que a melhor era a de Mafoma. Renda, - a exemplo deles, justiça à verdade: que pensa, de Deus e da religião de seu Profeta?" Fez-se então profundo silêncio no café. 0 discípulo de Confúcio, retirando as mãos das largas mangas de sua veste, e cruzando-as sobre o peito, concentrou-se e disse em voz suave e pausada: "Senhores, dir-lhes-ei, caso mo permitam, que a ambição é que impede, em todas as coisas, que os homens fiquem de acordo. Se tiverem a paciência de me ouvir, hei de lhes citar um exemplo que ainda está muito recente em minha memória. Quando parti na China, com destino a Surata, embarquei num navio inglês que fizera a volta do mundo. Durante a viagem, ancoramos na costa oriental de Sumatra. Cerca de meio-dia, havendo eu descido à terra com muitos homens da tripulação, fomos sentar-nos à beira-mar, junto a uma aldeola, debaixo de coqueiros a cuja sombra repousavam muitos homens de diferentes países. Entre eles havia um cego que perdera a visão à força de contemplar o sol. Tivera a ambiciosa loucura de compreender sua natureza, a fim de apropriar-se de sua luz. Tentara todos os meios da ótica, da química, e mesmo da necromancia, para encerrar numa garrafa um de seus raios; não havendo conseguido faze-lo, dizia: A luz do sol não é absolutamente um fluido, porque não pode ser agitado pelo vento; não é absolutamente um sólido, porque não se pode partir; de modo algum um fogo, porque não se apaga na água; de modo algum é espírito, porque é visível; não é um corpo, porque não é suscetível de ser manejada; nem mesmo é um movimento, porque não agita os corpos mais leves: logo, não é coisa alguma". Afinal, de tanto contemplar o sol e raciocinar sobre sua luz, perdera os olhos, e, o que é pior, a razão. Acreditava que não era a sua visão, mas sim o sol, que deixara de existir no universo. Tinha como guia um negro que, depois de fazer seu amo sentar-se à sombra de um coqueiro, apanhou do chão um coco e posse a fazer uma candeia com a casca, uma mecha com a fibra, e a espremer um pouco de óleo do caroço para pô-lo na candeia. Enquanto o negro estava assim entretido, disse-lhe o cego suspirando: "Então não há mais luz no mundo? Há a do sol, respondeu o negro. - Que é o sol? retrucou o cego. - Nada sei a esse respeito, respondeu o africano, a não ser que começo a trabalhar quando ele nasce e acabo quando se esconde. Sua luz interessa-me menos que a de minha candeia, que me ilumina em minha choupana; sem ela eu não poderia atende-lo durante a noite". E então; apontando para o coquinho disse: "Aqui está meu sol". Ao ouvir isso um homem da aldeia, que andava com muletas, começou a rir. E, julgando que o cego nascera assim, disse-lhe: "Saiba que o sol é um globo de fogo que nasce todos os dias no mar e que se põe todas as tardes no ocidente, nas montanhas de Sumatra. É o que o senhor veria pessoalmente como todos nós, se possuísse a visão". Um pescador tomou então a palavra e disse ao coxo: "Bem se vê que o senhor nunca saiu de sua aldeia. Se possuísse pernas e tivesse dado a volta. à ilha de Sumatra, saberia que o sol não se põe em suas montanhas, mas sim, que todas as manhãs nasce do mar e todas as tardes volta a ele para se refrescar; é o que todos os dias vejo ao longo da costa". Um habitante da península da Índia disse então ao pescador: "Como pode um homem dotado de senso comum acreditar que o sol seja um globo de fogo que todos os dias sai do mar e que a ele retorna sem se apagar? Saiba, assim, que o sol é uma "denta" ou divindade de meu país, que todos os dias percorre o céu num carro, girando em torno da montanha de ouro da Meruwa, que quando se eclipsa é que foi - devorado pelas serpentes Ragu e Quetu, das quais só se liberta com as orações dos hindus nas margens do Ganges. É uma ambição bem louca, para um habitante de Sumatra julgar que ele só resplandece no horizonte de sua ilha; ela só pode entrar na cabeça de um homem que apenas haja navegado numa piroga". Um "lascar", patrão de um barco mercante que estava fundeado, tomou então a palavra e disse: "Ambição ainda mais louca é a de julgar que o sol prefere a Índia a todos os países do mundo. Viajei pelo mar Vermelho, nas costas da Arábia, em Madagascar, nas ilhas Molucas e nas Filipinas: o sol ilumina a todas essas regiões tanto quanto a Índia. Não gira absolutamente em torno de uma montanha; mas ergue-se nas ilhas do Japão por esse motivo chamadas Jepon ou Guepuan, terra do sol nascente; e deita-se muito longe, no ocidente, atrás das ilhas inglesas. Tenho toda a certeza, porque em criança o ouvi de meu avô, que viajara até os confins do mar." Ia prosseguir quando um marinheiro inglês de nossa tripulação o interrompeu dizendo: "Não há região onde se conheça melhor o curso do sol do que na Inglaterra; saiba, pois, que ele não se ergue nem se põe em parte alguma. Dá sem cessar volta ao mundo; e tenho toda certeza disso, porque o mesmo acabamos de fazer e por toda parte o encontramos". Tomando, então, um rotim das mãos de um dos ouvintes, traçou um círculo na areia, procurando explicar-lhe o curso do sol de um trópico a outro; mas, não o conseguindo fazer, tomou como testemunha de tudo o que acabava de dizer o piloto de seu navio. 0 piloto que era um homem sábio, e que ouvira toda a discussão sem dizer coisa alguma, quando viu todos os presentes manterem-se em silêncio para ouvi-lo, tomou palavra e disse: "Cada um de vocês engana os outros e engana-se. 0 sol não gira absolutamente em redor da terra; mas a terra é que gira à sua volta, apresentando-lhe sucessivamente, em cada vinte e quatro horas, as ilhas do Japão, as Filipinas, as Molucas, Sumatra, a África, a Europa, a Inglaterra, e muitas outras regiões. 0 sol não brilha apenas para uma montanha, uma ilha, um horizonte, um mar, nem mesmo para a terra, mas encontra-se no centro do universo, de onde a ilumina e mais cinco outros planetas que também giram à sua roda, e alguns dos quais são muito maiores que a terra e estão muito mais distantes do sol, que ela. Assim, entre outros Saturno, de trinta mil léguas de diâmetro e que está a duzentos e oitenta e cinco milhões de léguas do sol. Não me refiro às luas, que reflectem a luz do sol nos planetas dele afastados, e que são bastante numerosas. Cada um dos presentes teriam a ideia dessas verdades si se contentasse em dirigir, à noite, os olhos para o céu e não tivesse a ambição de julgar que o sol só brilha para a sua terra". Assim falou, com grande surpresa dos ouvintes, o piloto que dera a volta ao mundo e observara o firmamento.

"Em relação a Deus, acrescentou o discípulo de Confúcio, acontece o mesmo que em relação ao sol. Todos os homens acreditam possuí-lo com exclusividade, em sua capela, ou pelo menos em sua terra. Todos os povos julgam encerrar em seu templo aquele que o universo visível não contém. E entretanto haverá algum templo comparável àquele que o próprio Deus ergueu para congregar todos os homens na mesma comunhão. Todos os templos do mundo são feitos apenas à imitação do templo da natureza. Em quase todos eles se encontram lavabos ou pias, colunas, abóbadas, lâmpadas, estátuas inscrições, livros da lei, sacrifícios, altares, sacerdotes. Mas em que templo haverá uma pia tão vasta quanto o mar, que não está contido numa concha? colunas tão belas quanto as árvores das florestas, ou dos pomares carregados de frutos? abóbada tão alta quanto o céu e lâmpada tão resplandecente quanto o sol? Onde veremos estátuas tão interessantes como tantas criaturas sensíveis que se amam, que mutuamente se ajudam e que falam? Inscrições tão legíveis e mais religiosos que as próprias mercês da natureza? um livro da lei tão universal quanto o amor de Deus baseado em nosso reconhecimento e quanto o amor de nosso semelhante baseado em nossos próprios interesses? sacrifícios mais comoventes que o de nossos louvores àquele que tudo nos deu, e que o de nossas paixões por aqueles com os quais tudo devemos partilhar? finalmente, um altar tão augusto quanto o coração do homem de bem, cujo pontífice é o próprio Deus? Assim, quanto mais o homem ampliar o poder de Deus, tanto mais próximo estará de conhecê-lo; e quanto mais indulgência revelar para com os homens, tanto mais imitará sua bondade. Que aquele, portanto, que desfruta da luz divina, espalhada por todo o universo, não despreze o supersticioso que da mesma só distingue um raiozinho em seu ídolo, nem mesmo o ateu que está inteiramente privado dela, de medo que em punição de seu orgulho não lhe aconteça como àquele filósofo que, querendo apossar-se da luz do céu, cegou e viu-se reduzido, para se orientar, a servir-se da candeia de um negro."

Assim falou o discípulo de Confúcio; e todas as pessoas presentes no café, que discutiam quanto à primazia de sua religião, conservaram-se em profundo silêncio.


Bernardin Saint Pierre


25/05/2011

O Pequeno Heidelberg


Tantos anos dançaram juntos o capitão e a menina Eloísa que alcançaram a perfeição. Cada um podia intuir o movimento seguinte do outro, adivinhar o momento exato da própria volta, interpretar a mais subtil pressão da mão ou o desvio de um pé. Não haviam perdido o passo nem uma única vez em quarenta anos, moviam-se com a precisão de um par acostumado a fazer amor e a dormir em estreito abraço, por isso era tão difícil imaginar que nunca tinham chegado a trocar uma única palavra.
O Pequeno Heidelberg é um salão de baile a certa distância da capital, construído num cerro rodeado de plantações de bananeiras, onde além de boa música e de um ar menos quente oferecem um insólito guisado afrodisíaco aromatizado com toda a variedade de especiarias, demasiado contundente para o clima ardente daquela região, mas em perfeito acordo com as tradições que inspiraram o proprietário, Dom Rupert. Antes da crise do petróleo, quando se vivia ainda a ilusão da abundância e se importavam frutos de outras latitudes, a especialidade da casa era o struddel de maçã, mas depois que do petróleo ficou apenas um monte de lixo indestrutível e a recordação de tempos melhores, fazem o struddel com goiabas ou mangas. As mesas, dispostas em amplo círculo que deixa no centro um espaço livre para o baile, estão cobertas com toalhas de quadrados verdes e brancos e nas paredes brilham cenas bucólicas da vida campestre dos Alpes: pastoras de tranças amarelas, robustos mocetões e vacas magníficas. Os músicos -vestidos com calções curtos, meias de lã, suspensórios tiroleses e chapéus de feltro, que com o suor perderam a excelência e de longe parecem perucas esverdeadas - ficam sobre uma plataforma coroada por uma águia embalsamada, à qual, segundo diz Dom Rupert, de vez em quando nascem penas novas. Um toca o acordeão, o outro um saxe e o terceiro com pés e mãos consegue tocar simultaneamente a bateria e os pratos. O do acordeão é um mestre no seu instrumento e também canta com voz quente de tenor e um vago aceno da Andaluzia.
Apesar do seu disparatado aparato de taberneiro suíço é o favorito das senhoras assíduas do salão, de tal modo que muitas delas acalentam a secreta fantasia de se enrolarem com ele nalguma aventura mortal, por exemplo, uma derrocada ou um bombardeamento, onde dariam contentes o último suspiro envoltas por aqueles braços poderosos, capazes de arrancar tão desgostantes lamentos ao acordeão.
O facto de a idade média dessas senhoras andar pelos setenta anos, não inibe a sensibilidade evocada pelo cantor, pelo contrário, junta-se-lhe o doce sopro da morte. A orquestra começa a sua atuação depois do pôr-do-sol e termina à meia-noite, exceto aos sábados e domingos, quando o local se enche de turistas e continuam até que o último cliente se retire, de madrugada. Só interpretam polcas, mazurcas, valsas e danças regionais da Europa, como se em vez de estar encravado no Caribe, o Pequeno Heidelberg estivesse nas margens do Reno.
Na cozinha reina Dona Burgel, a esposa de Dom Rupert, uma matrona formidável que poucos conhecem, porque a sua existência desliza entre folhas e molhos de verduras, concentrada em preparar pratos estrangeiros com ingredientes crioulos. Ela inventou o struddel de frutas tropicais e o tal guisado afrodisíaco capaz de devolver o vigor ao mais depauperado. As mesas são atendidas pelas filhas dos donos, um par de sólidas mulheres, perfumadas com canela, cravo de cheiro, baunilha e limão, e por algumas moças da localidade, todas de faces rubicundas. A clientela habitual compõe-se de emigrantes europeus chegados ao país escapando de alguma guerra ou da pobreza, comerciantes, agricultores, artesãos, pessoas amáveis ou simples, que talvez não o tenham sido sempre, mas a quem a passagem da vida tenha nivelado nessa benévola cortesia dos velhos sadios.
Os homens põem laços e coletes, mas à medida que as sacudidelas do baile e a abundância de cerveja lhes aquece a alma, vão-se despojando do supérfluo até ficarem em camisa. As mulheres vestem-se de cores alegres e estilo antiquado, como se os seus trajes tivessem sido tirados do baú de noiva que trouxeram ao emigrar.
De vez em quando aparece um grupo de adolescentes agressivos, cuja presença é precedida pelo estardalhaço atordoador das suas motos e a chocalhada de botas, chaves e correntes, e que chegam com o único propósito de gozar os velhos, mas o incidente não passa de uma escaramuça, porque o músico da bateria e o saxofonista estão sempre dispostos a arregaçar as mangas e impor a ordem.
Aos sábados, lá pelas nove da noite, quando já toda a gente saboreou a sua dose do guisado afrodisíaco e se abandonou ao prazer do baile, aparece a Mexicana que se senta sozinha. É uma cinquentona provocante, mulher de corpo galeão - quilha alta, barriguda, ampla de popa, rosto de carranca de proa - que mostra um decote maduro, mas ainda túmido, e uma flor na orelha. Não é a única vestida de bailarina flamenca, certamente, mas nela fica mais natural que nas outras senhoras de cabelo branco e cintura triste que nem sequer falam um espanhol decente. A Mexicana bailando a polca é um navio à deriva em ondas abruptas, mas ao ritmo da valsa parece deslizar em águas doces. Assim a via por vezes em sonhos o capitão e despertava com a inquietação quase esquecida da sua adolescência.
Dizem que o capitão provinha de uma frota nórdica cujo nome ninguém conseguiu decifrar.
Era um especialista em barcos antigos e rotas marítimas, mas todos esses conhecimentos jaziam sepultados no fundo da sua mente, sem a menor possibilidade de serem úteis na paisagem quente daquela região, onde o mar é um plácido aquário de águas verdes e cristalinas, impróprio para a navegação dos intrépidos barcos do mar do Norte. Era um homem alto e seco, uma árvore sem folhas, as costas direitas e os músculos do pescoço ainda firmes, vestido só com o seu casaco de botões dourados e envolto naquela aura trágica dos marinheiros reformados. Nunca ninguém lhe ouviu uma palavra em espanhol ou em algum outro idioma conhecido. Trinta anos atrás, Dom Rupert disse que o capitão era certamente finlandês, pela cor de gelo das suas pupilas e a justiça irrenunciável do seu olhar, e como ninguém o pôde contradizer, acabaram por aceitá-lo. Além disso, no Pequeno Heidelberg o idioma não tem importância, porque ninguém vai lá para conversar. Algumas regras de comportamento têm sido' modificadas, para comodidade e conveniência de todos. Qualquer um pode ir para a pista sozinho ou convidar alguém de outra mesa, e as mulheres também tomam a iniciativa de aproximar-se dos homens, se assim o desejam. É uma solução para as viúvas sem companhia, ninguém leva a Mexicana para dançar, porque se parte do princípio que ela acharia isso ofensivo e os cavalheiros devem aguardar, tremendo pela antecipação, que ela o faça. A mulher poisa o cigarro no cinzeiro, descruza as ferozes colunas das suas pernas, ajeita o espartilho, avança até ao escolhido e fica na sua frente sem um olhar. Muda de par em cada dança, mas antes reservava pelo menos quatro peças para o capitão. Ele agarrava-a pela cintura com a sua firme mão de timoneiro e guiava-a pela pista sem permitir que os seus muitos anos lhe cortassem a inspiração.
A mais antiga paroquiana do salão, que em meio século não faltou nem um sábado no Pequeno Heidelberg, era a menina Eloísa, uma dama minúscula, branda e suave, com pele de papel de arroz e uma coroa de cabelos transparentes. Por tanto tempo ganhou a vida a fabricar bombons na cozinha, que o aroma do chocolate a impregnou completamente, deixando-a a cheirar a festa de aniversário.
Apesar da idade, ainda mantinha alguns gestos da primeira juventude e era capaz de passar toda a noite às voltas na pista de baile sem despentear os caracóis do carrapito nem perder o ritmo do coração. Tinha chegado ao país nos princípios do século, proveniente de uma aldeia do Sul da Rússia, com a mãe, que nessa altura era de uma beleza deslumbrante. Viveram juntas a fabricar chocolates, completamente alheias aos rigores do clima, do século e da solidão, sem maridos, sem família, sem grandes sobressaltos e sem outra diversão que o Pequeno Heidelberg, todos os fins-de-semana.
Desde que morrera a mãe, a menina Eloísa aparecia sozinha. Dom Rupert recebia-a à porta com grande deferência e acompanhava-a até à mesa, enquanto a orquestra lhe dava as boas-vindas com os primeiros acordes da sua valsa favorita. Em algumas mesas levantavam-se canecas de cerveja para a saudar, porque era a pessoa mais velha e sem dúvida a mais querida.
Era tímida, nunca se atreveu a convidar um homem para dançar, mas durante todos aqueles anos não teve necessidade de o fazer, porque para qualquer um representava um privilégio pegar na sua mão, enlaçá-la pela cintura com delicadeza para não lhe desconjuntar qualquer ossinho de cristal e levá-la até à pista. Era uma bailarina graciosa e tinha aquela fragrância doce, capaz de dar a quem a cheirasse as melhores recordações da infância.
O capitão sentava-se sozinho, sempre na mesma mesa, bebia com moderação e não demonstrou nunca nenhum entusiasmo pelo guisado afrodisíaco de Dona Burgel. Seguia o ritmo da música com um pé e quando a menina Eloísa estava livre convidava-a, perfilando-se-lhe à frente com um discreto bater de tacões e uma leve inclinação. Nunca falavam, olhavam-se apenas e sorriam entre os galopes fugas e diagonais de uma dança antiga.
Num sábado de Dezembro, menos húmido que os outros, chegou ao Pequeno Heidelberg um par de turistas. Desta vez não eram os disciplinados japoneses dos últimos tempos, mas uns escandinavos altos, de pele queimada e cabelos claros, que se instalaram numa mesa a observar os bailarinos, fascinados. Eram alegres e ruidosos, batiam as canecas de cerveja, riam-se com gosto e falavam aos gritos. As palavras dos estrangeiros chegaram ao capitão, à sua mesa, e desde muito longe, desde outro tempo e outra paisagem, chegou-lhe o som da sua própria língua, inteira e fresca, como que recém-inventada, palavras que há décadas não ouvia, mas que permaneciam intactas na sua memória.
Uma expressão suavizou-lhe o rosto de velho navegante, fazendo-o vacilar por alguns minutos entre a reserva absoluta onde se sentia cómodo e o deleite quase esquecido de se abandonar a uma conversa. Por fim, pôs-se de pé e aproximou-se dos desconhecidos. Atrás do bar, Dom Rupert observou o capitão, que estava a dizer qualquer coisa aos recém-chegados, ligeiramente inclinado, com as mãos nas costas. Logo os outros clientes, as moças e os músicos deram conta que aquele homem falava pela primeira vez desde que o conheciam e também ficaram quietos para o ouvir melhor. Tinha uma voz de bisavô, apagada e lenta, mas punha uma grande determinação em cada frase. Quando acabou de tirar todo o conteúdo do seu peito, fez-se tal silêncio no salão que Dona Burgel saiu da cozinha para saber se alguém tinha morrido. Por fim, depois de uma longa pausa, um dos turistas tomou coragem e chamou Dom Rupert para dizer em inglês primitivo, que o ajudassem a traduzir o discurso do capitão. Os nórdicos seguiram o velho marinheiro até à mesa onde a menina Eloísa aguardava e Dom Rupert aproximou-se também, tirando o avental pelo caminho, com a intuição de um acontecimento solene. O capitão disse algumas palavras no seu idioma, um dos estrangeiros interpelou-o em inglês e Dom Rupert, com as orelhas vermelhas e o bigode a tremelicar, repetiu tudo no seu espanhol torcido.
- Menina Eloísa, o capitão pergunta se quer casar com ele.
A frágil anciã ficou sentada com os olhos redondos de surpresa e a boca oculta pelo seu lenço de baptista, e todos esperaram suspensos num suspiro, até que ela conseguiu falar.
- Não lhe parece que isto é um pouco precipitado? - cochichou ela. As suas palavras passaram pelo taberneiro e pelos turistas e a resposta fez o mesmo percurso ao contrário.
- O capitão diz que esperou quarenta anos para dizer isto e que não poderia esperar até que volte a aparecer alguém que fale o seu idioma. Pede que lhe responda agora, por favor.
- Está bem - sussurrou Eloísa, e não foi necessário traduzir a resposta, porque todos a compreenderam.
Dom Rupert, eufórico, levantou os braços e anunciou o compromisso, o capitão beijou as faces da noiva, os turistas apertaram as mãos de toda a gente, os músicos tocaram os instrumentos numa chinfrineira de marcha triunfal e os assistentes fizeram uma roda à volta do par. As mulheres limpavam as lágrimas, os homens brindavam emocionados, Dom Rupert sentou-se à frente do bar e escondeu a cabeça entre os braços sacudido pela emoção, enquanto Dona Burgel e as duas filhas abriam garrafas do melhor rum. Em seguida, os músicos tocaram a valsa do Danúbio Azul e todos saíram da pista.
O capitão pegou na mão da suave mulher que tinha amado sem palavras por tanto tempo e levou-a até ao centro do salão, onde dançaram com a leveza de duas garças na sua dança nupcial. O capitão segurava-a com o mesmo cuidado amoroso com que na sua juventude apanhava o vento nas velas de alguma nave etérea, levando-a pela pista como se navegasse nas macias ondas de uma baía, enquanto lhe dizia no seu idioma de nevões e bosques tudo o que o seu coração tinha calado até àquele momento. Dançando, dançando sempre o capitão sentia que se lhes ia recuando a idade e a cada passo estavam mais alegres e leves. Uma volta, depois outra, os acordes da música mais vibrantes, os pés mais rápidos, a cintura dela mais delgada, o peso da sua mãozinha na sua mais ligeiro, a sua presença mais incorpórea. Então, ele viu que a menina Eloísa se ia tornando renda, espuma, névoa, até se tornar impercetível e, por último, desaparecer de todo e ele viu-se a girar, a girar com os braços vazios, sem outra companhia que um ténue aroma de chocolate.
O tenor indicou-o aos músicos que se dispuseram a continuar tocando a mesma valsa para sempre, porque compreenderam que com a última nota o capitão acordaria do sonho e que a recordação da menina Eloísa se esfumaria definitivamente. Comovidos, os velhos paroquianos do Pequeno Heidelberg permaneceram imóveis nas cadeiras, até que por fim a Mexicana, com a sua arrogância transformada em caridosa ternura, se levantou, avançando discretamente até às mãos trementes do capitão, para dançar com ele.


Isabel Allende, Contos de Eva Luna