29/04/2011

Regresso a Casa


A quinta ficava num vale, entre as colinas de Sommersetshire, uma casa de pedra, de estilo antiquado, rodeada de celeiros, capoeiras e alpendres. Por sobre a porta de entrada tinha esculpida, nos caracteres elegantes da época, a data em que fora construída, 1673, e a casa, cinzenta e marcada pela intempérie, parecia fazer parte da paisagem, tal como as árvores que a protegiam. Uma alameda de magníficos ulmeiros, que seriam o orgulho de muitas mansões senhoriais, ligava a estrada ao jardim bem arranjado. As pessoas que aqui viviam eram tão calmas, fortes e modestas como a casa; o seu único orgulho era que, desde que fora construída, toda a família, dos pais aos filhos, numa linha ininterrupta, tinha nascido e morrido ali. Durante trezentos anos, tinham cultivado as terras à sua volta. George Meadows era agora um homem de cinquenta anos, e a mulher era um ou dois anos mais nova. Eram ambos pessoas boas e aprumadas, na força da vida; e os filhos, dois rapazes e três raparigas, eram fortes e bonitos. Não tinham quaisquer recém-adquiridas pretensões senhoris; conheciam bem a sua condição e tinham orgulho nela. Nunca vi família mais unida. Eram alegres, trabalhadores e simpáticos. A sua vida era patriarcal. Era de uma plenitude que lhe conferia uma beleza tão definitiva como a de uma sinfonia de Beethoven ou de um quadro de Ticiano. Eram felizes e mereciam essa felicidade. Mas o chefe da casa não era George Meadows (nem por sombras, como se dizia na aldeia); era a mãe dele. Ela era, muito mais do que o filho, o homem da casa, diziam. Era uma mulher de setenta anos, alta, muito direita, e majestosa, de cabelo grisalho, e embora tivesse a pele do rosto muito enrugada, os olhos eram brilhantes e vivos. A sua palavra fazia lei lá em casa e na quinta; mas tinha sentido de humor, e se a sua direcção era despótica, não deixava de ser também compreensiva. As pessoas riam das suas graças e repetiam-nas. Era uma excelente mulher de negócios, e para lhe levar a melhor num negócio era preciso não ter nascido ontem. Era uma pessoa original. Combinava de maneira rara a benevolência com um agudo sentido do ridículo.
Um dia Mrs.George deteve-me quando eu ia para casa. Estava toda excitada. (A sogra era a única Mrs.Meadows que nós conhecíamos; a mulher do George era apenas conhecida por Mrs.George.)
“Sabe quem é que chega hoje?” perguntou-me ela. “O Tio George Meadows. Sabe? Aquele que estava na China.”
“Como! Eu pensava que ele tinha morrido.”
“Todos nós pensávamos que ele tinha morrido.”
Eu já tinha ouvido a história do Tio George Meadows uma dúzia de vezes, e essa história divertia-me porque tinha o sabor de uma velha balada: era estranhamente tocante vê-la reproduzida na vida real. Porque o Tio George Meadows e Tom, seu irmão mais novo, ambos tinham cortejado Mrs.Meadows, quando ela ainda se chamava Emily Green, há mais de cinquenta anos, e quando ela casou com o Tom, o George partiu para o mar.
Tiveram notícias dele na costa da China. Durante vinte anos foi-lhes mandando de vez em quando alguns presentes; depois deixaram de ter notícias dele; quando Tom Meadows morreu, a viúva escreveu-lhe a dar a notícia, mas não recebeu resposta; e por fim chegaram à conclusão que ele devia ter morrido. Mas há dois ou três dias, para espanto de todos, tinham recebido uma carta da governanta do lar dos marinheiros em Portsmouth. Parece que nos últimos dez anos George Meadows, incapacitado com reumatismo, estivera lá instalado, e agora, ao sentir que já não teria muito mais tempo de vida, queria ver uma vez mais a casa onde nascera. Albert Meadows, seu sobrinho-neto, tinha ido buscá-lo a Portsmouth, no Ford, e devia chegar nessa tarde.
“Imagine só,” disse Mrs.George, “já aqui não vem há mais de cinquenta anos. Nem sequer conhece o meu George, que vai fazer cinquenta e um.”
“E o que é que Mrs.Meadows pensa disto?” perguntei.
“Bem, o senhor sabe como ela é. Fica ali sentada a sorrir. Só diz: ‘Era um rapaz muito bem parecido quando se foi embora, mas não tão estável como o irmão.’ Por isso é que ela preferiu o pai do meu George. ‘Mas agora já deve ter assentado,’ diz ela.”
Mrs.George pediu-me para ir lá a casa vê-lo. Com a simplicidade de uma mulher do campo que nunca viajara para mais longe do que Londres, pensava que, como ambos tínhamos estado na China, devíamos ter qualquer coisa em comum. Claro que aceitei. Quando lá cheguei, encontrei a família toda reunida; estavam todos sentados na grande cozinha velha, com o seu chão de pedra, Mrs.Meadows na sua cadeira habitual junto do borralho, muito direita, e achei graça quando reparei que ela tinha posto o seu melhor vestido de seda, e o filho e a mulher à mesa com os filhos. Do outro lado do borralho, todo curvado, estava sentado um velho. Era muito magro e a pele pendia-lhe dos ossos como um velho fato já grande demais para ele; tinha o rosto engelhado e amarelado e a boca quase completamente desdentada.
Trocámos um aperto de mão.
“Fico contente por saber que chegou bem, Mr.Meadows,” disse eu.
“Comandante,” corrigiu ele.
“Veio a pé até aqui,” contou-me Albert, o sobrinho-neto. “Quando chegámos ao portão, mandou-me parar e disse-me que queria ir a pé.”
“E repare bem, há dois anos que eu não me levantava da cama. Trouxeram-me para baixo e puseram-me no carro. Pensei que nunca mais ia andar, mas quando vejo aqueles ulmeiros, lembro-me da importância que o meu pai dava àqueles ulmeiros, senti que ia conseguir andar. Foi por aquele caminho que, há cinquenta e dois anos, me fui embora, a pé, e agora regressei por ele, também a pé.”
“A isso chamo eu uma patetice,” disse Mrs.Meadows.
“Fez-me bem. Sinto-me agora melhor, mais forte do que me senti durante estes dez anos. Tu ainda hás-de ir à minha frente, Emily.”
“Não tenhas tanta certeza disso,” respondeu ela.
Creio que já ninguém tratava Mrs.Meadows por tu talvez há uma geração. Isso chocou-me um pouco, era como se aquele velho estivesse a tomar demasiadas liberdades com ela. Ela olhava-o com um sorriso muito vivo, e ele, ao falar com ela, abria a boca num sorriso largo que mostrava as suas gengivas desdentadas. Era muito estranho vê-los ali, aqueles dois velhos que não se viam há meio século e pensar que há todo esse tempo ele a amara e ela amara outro. Eu gostava de saber se eles ainda se lembravam do que então sentiam e do que tinham dito um ao outro. E gostava também de saber se, a ele, agora lhe parecia estranho ter deixado a casa dos pais, sua herança legítima, e ter vivido uma vida de exílio, tudo por aquela mulher.
“Chegou a casar, alguma vez, Comandante Meadows?” perguntei.
“Eu, nunca,” disse ele na sua voz trémula, com um sorriso irónico. “Conheço muito bem as mulheres para cair numa dessas.”
“Isso é o que tu dizes,” retorquiu Mrs.Meadows. “Se se pudesse saber a verdade, não ficaria nada admirada se me dissessem que tinhas vivido com uma dúzia de negras.”
“Elas, na China, não são negras, Emily, tinhas obrigação de saber isso, são amarelas.”
“Se calhar é por isso que tu próprio estás tão amarelo. Quando te vi, disse para mim própria, oh, ele está com icterícia.”
“Eu disse que nunca casaria com ninguém, a não ser contigo, Emily, e nunca casei.”
Não disse isto com dramatismo ou ressentimento, mas apenas como a simples expressão de um facto, como quem dissesse, “Eu disse que faria vinte milhas a pé e fiz mesmo.” Havia um vestígio de satisfação naquela afirmação.
“Bem, podias ter-te arrependido se o tivesses feito,” respondeu ela.
Conversei durante algum tempo com o velho sobre a China.
“Não há um só porto na China que eu não conheça melhor do que o senhor conhece as suas mãos. Não há lugar nenhum onde um navio possa aportar que eu não conheça. Podíamos ficar aqui o dia inteiro, durante seis meses, que eu, mesmo assim, não teria tempo de vos contar metade das coisas que vi na minha vida.”
“Bem, mas pelo que já vi, há uma coisa que tu não fizeste, George,” disse Mrs.Meadows ainda com um olhar trocista, mas não malévolo, “foi fortuna.”
“Eu não sou pessoa para poupar dinheiro. Ganhar e gastar; é esse o meu lema. Mas uma coisa posso afirmar: se eu tivesse a oportunidade de voltar a viver a minha vida, não a deixaria escapar. E não deve haver muita gente que possa dizer o mesmo.”
“De facto, não,” disse eu.
Olhei-o com admiração e respeito. Estava velho, coxo, desdentado e sem vintém, mas tinha feito da vida um sucesso, porque a tinha desfrutado. Quando o deixei, ele pediu-me para o ir ver outra vez no dia seguinte. Se eu estava interessado na China, ele contar-me-ia tudo aquilo que eu quisesse ouvir.
Na manhã seguinte, pensei ir lá perguntar se o velho queria que eu fosse estar com ele. Fui pela bela alameda dos ulmeiros abaixo e quando cheguei ao jardim vi Mrs.Meadows a apanhar flores. Dei-lhe os bons-dias e ela ergueu-se. Sobraçava um enorme ramo de flores brancas. Olhei para a casa e reparei que os estores estavam corridos: fiquei surpreendido, porque Mrs.Meadows gostava de sol.
“Bem basta a escuridão quando nos enterrarem,” costumava ela dizer.
“Como é que está o comandante Meadows?” perguntei-lhe.
“Ele foi sempre um cabeça-no-ar,” respondeu ela. “Quando a Lizzie lhe levou uma chávena de chá, de manhã, encontrou-o já morto.”
“Morto?”
“Sim, morreu durante o sono. Eu andava precisamente a apanhar estas flores para lhas pôr no quarto. Mas, ainda bem que ele morreu naquela velha casa. Isso é sempre muito importante para todos os Meadows.”
Tinha sido muito difícil convencê-lo a ir para a cama. Contou-lhes tudo o que lhe tinha acontecido na sua longa vida. Sentia-se feliz por estar de novo na sua velha casa. Sentia-se orgulhoso por ter feito a alameda a pé, sem ajuda, e gabou-se de que iria ainda viver mais vinte anos. Mas o destino fora bom para ele: a morte tinha posto o ponto final no lugar certo.
Mrs.Meadows cheirou as flores brancas que tinha nos braços.
“Ainda bem que ele voltou,” disse ela. “Depois de me casar com o Tom Meadows, e de o George se ter ido embora, a verdade é que eu nunca tive bem a certeza sobre se tinha casado com o irmão certo.”


Somerset Maugham
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28/04/2011

O Poço e o Pêndulo



Impia tortorúm longos hic turba furores Sanguinis innocui, non satiata, aluit. Sospite nunc patria, fracto nunc funeris antro, Mors ubi dira fuit vita salusque patent.

"Aqui, a multidão ímpia dos carrascos, insaciada, alimentou sua sede violenta de sangue inocente. Agora, salva a pátria, destruído o antro do crime, reinam a vida e a salvação onde reinava a cruel morte.
(Quadra composta para as portas de um mercado a ser erigido no terreno do Clube dos Jacobinos, em Paris)

Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença - a terrível sentença de morte - foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho. O ruído despertava em minha alma a idéia de rotação, talvez devido à sua associação, em minha mente, com o ruído característico de uma roda de moinho. Mas isso durou pouco, pois, logo depois, nada mais ouvi.
Não obstante, durante alguns momentos, pude ver, mas com que terrível exagero! Via os lábios dos juízes vestidos de preto. Pareciam-me brancos, mais brancos do que a folha de papel em que traço estas palavras, e grotescamente finos - finos pela intensidade de sua expressão de firmeza, pela sua inflexível resolução, pelo severo desprezo ao sofrimento humano. Via que os decretos daquilo que para mim representava o destino saíam ainda daqueles lábios. Vi-os contorcerem-se numa frase mortal; vi-os pronunciarem as sílabas de meu nome - e estremeci, pois nenhum som lhes acompanhava os movimentos.
Vi, também, durante alguns momentos de delírio e terror, a suave e quase imperceptível. ondulação das negras tapeçarias que cobriam as paredes da sala, e o meu olhar caiu então sobre as sete grandes velas que estavam em cima da mesa. A princípio, tiveram para mim o aspecto de uma claridade, e pareceram-me anjos brancos e esguios que deveriam salvar-me. Mas, de repente, uma náusea mortal invadiu-me a alma, e senti que cada fibra de meu corpo estremecia como se houvesse tocado os fios de uma bateria galvânica. As formas angélicas se converteram em inexpressivos espectros com cabeças de chama, e vi que não poderia esperar delas auxílio algum. Então, como magnífica nota musical, insinuou-se em minha imaginação a idéia do doce repouso que me aguardava no túmulo.
Chegou suave, furtivamente - e penso que precisei de muito tempo para apreciá-la devidamente. Mas, no instante preciso em que meu espírito começava a sentir e alimentar essa idéia, as figuras dos juízes se dissiparam, como por arte de mágica, ante os meus olhos. As grandes velas reduziram-se a nada; suas chamas se apagaram por completo e sobreveio o negror das trevas; todas as sensações pareceram desaparecer como numa queda louca da alma até o Hades. E o universo transformou-se em noite, silêncio, imobilidade.
Eu desmaiara; mas, não obstante, não posso dizer que houvesse perdido de todo a consciência. Não procurarei definir, nem descrever sequer, o que dela me restava. Nem tudo, porém, estava perdido. Em meio do mais profundo sono... não! Em meio do delírio... não! Em meio do desfalecimento. . . não! Em meio da morte... não! Nem mesmo na morte tudo está perdido. Do contrário, não haveria imortalidade para o homem. Quando despertamos do mais profundo sono, desfazemos as teias de aranha de algum sonho. E, não obstante, um segundo depois não nos lembramos de haver sonhado, por mais delicada que tenha sido a teia. Na volta a vida, depois do desmaio, há duas fases: o sentimento da existência moral ou espiritual e o da existência física. Parece provável que, se ao chegar à segunda fase tivéssemos de evocar as impressões da primeira, tornaríamos a encontrar todas as lembranças eloqüentes do abismo do outro mundo. E qual é esse abismo? Como, ao menos, poderemos distinguir suas sombras das do túmulo?
Mas, se as impressões do que chamamos primeira fase não nos acodem de novo ao chamado da vontade, acaso não nos aparecem depois de longo intervalo, sem ser solicitadas, enquanto, maravilhados, perguntamos a nós mesmos de onde provêm? Quem nunca perdeu os sentidos não descobrirá jamais estranhos palácios e rostos singularmente familiares entre as chamas ardentes; não contemplará, flutuante no ar, as melancólicas visões que muitos talvez jamais contemplem; não meditará nunca sobre o perfume de alguma flor desconhecida, nem mergulhará no mistério de alguma melodia que jamais lhe chamou antes a atenção.
Em meio de meus freqüentes e profundos esforços para recordar, em meio de minha luta tenaz para apreender algum vestígio desse estado de vácuo aparente em que minha alma mergulhara, houve breves, brevíssimos instan-tes em que julguei triunfar, momentos fugidios em que cheguei a reunir lembranças que, em ocasiões posteriores, meu raciocínio, lúcido, me afirmou não poderem referir-se senão a esse estado em que a consciência parece aniquilada. Essas sombras de lembranças apresentavam, indistintamente, grandes figuras que me carregavam, transportando-me, silenciosamente, para baixo... para baixo... ainda mais para baixo... até que uma vertigem horrível me oprimia, ante a idéia de que não tinha mais fim tal descida. Também me lembro de que despertavam um vago horror no fundo de meu coração, devido precisamente à tranqüilidade sobrenatural desse mesmo coração. Depois, o sentimento de uma súbita imobilidade em tudo o que me cercava, como se aqueles que me carregavam (espantosa comitiva!) ultrapassassem, em sua descida, os limites do ilimitado, e fizessem uma pausa, vencidos pelo cansaço de seu esforço. Depois disso, lembro-me de uma sensação de monotonia e de humidade. Depois, tudo é loucura - a loucura da memória que se agita entre coisas proibidas.
Súbito, voltam à minha alma o movimento e o som - o movimento tumultuoso do coração e, em meus ouvidos, o som de suas batidas. Em seguida, uma pausa, em que tudo é vazio. Depois, de novo, o som, o movimento e o tato, como uma sensação vibrante que penetra em meu ser. Logo após, a simples consciência da minha existência, sem pensamento - estado que durou muito tempo. Depois, de maneira extremamente súbita, o pensamento, e um trémulo terror - o esforço enorme para compreender o meu verdadeiro estado. Logo após, vivo desejo de mergulhar na insensibilidade. Depois, um brusco renascer da alma e um esforço bem sucedido para mover-me. E, então, a lembrança completa do que acontecera, dos juízes, das tapeçarias negras, da sentença, da fraqueza, do desmaio. Esquecimento completo de tudo o que acontecera - e que somente mais tarde, graças aos mais vivos esforços, consegui recordar vagamente.
Até então, não abrira ainda os olhos. Sentia que me achava deitado de costas, sem que estivesse atado. Estendi a mão e ela caiu pesadamente sobre alguma coisa húmida e dura. Deixei que ela lá ficasse durante muitos minutos, enquanto me esforçava por imaginar onde é que eu estava e o que é que poderia ter acontecido comigo. Desejava, mas não me atrevia a fazer uso dos olhos. Receava o primeiro olhar sobre as coisas que me cercavam. Não que me aterrorizasse contemplar coisas terríveis, mas tinha medo de que não houvesse nada para ver. Por fim, experimentando horrível desespero em meu coração, abri rapidamente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então, confirmados. Envolviam-me as trevas da noite eterna. Esforcei-me por respirar. A intensidade da escuridão parecia oprimir-me, asfixiar-me. O ar era intoleravelmente pesado. Continuei ainda imóvel, e esforcei-me por fazer uso da razão. Lembrei-me dos procedimentos inquisitoriais e, partindo daí, procurei deduzir qual a minha situação real.
A sentença fora proferida, e parecia-me que, desde então, transcorrera longo espaço de tempo. Não obstante, não imaginei um momento sequer que estivesse realmente morto. Tal suposição, pese o que lemos nos livros de ficção, é absolutamente incompatível com a existência real. Mas onde me encontrava e qual era o meu estado? Sabia que os condenados à morte pereciam, com frequência, nos autos-de-fé - e um desses autos havia-se realizado na noite do dia em que eu fora julgado. Teria eu permanecido em meu calabouço, à espera do sacrifício seguinte, que não se realizaria senão dentro de muitos meses? Vi, imediatamente, que isso não poderia ser. As vítimas eram exigidas sem cessar. Além disso, meu calabouço, bem como as celas de todos os candenados, em Toledo, tinha piso de pedra e a luz não era inteiramente excluída.
De repente, uma idéia terrível acelerou violentamente o sangue em meu coração e, durante breve espaço, mergulhei de novo na insensibilidade. Ao recobrar os sentidos, pus-me logo de pé, a tremer convulsivamente. Alucinado, estendi os braços para o alto e em torno de mim, em todas as direções. Não senti nada. Não obstante, receava dar um passo, com medo de ver os meus movimentos impedidos pelos muros de um túmulo. O suor brotava-me de todos os poros e grossas gotas frias me salpicavam a testa. A angústia da incerteza tornou-se, por fim, insuportável e avancei com cautela, os braços estendidos, os olhos a saltar-me das órbitas, na esperança de descobrir algum ténue raio de luz. Dei muitos passos, mas, não obstante, tudo era treva e vácuo. Sentia a respiração mais livre. Parecia-me evidente que o meu destino não era, afinal de contas, o mais espantoso de todos.
Continuei a avançar cautelosamente e, enquanto isso, me vieram à memória mil vagos rumores dos horrores de Toledo. Sobre calabouços, contavam-se coisas estranhas - fábulas, como eu sempre as considerara; coisas, contudo, estranhas, e demasiado horríveis para que a gente as narrasse a não ser num sussurro. Acaso fora eu ali deixado para morrer de fome naquele subterrâneo mundo de trevas, ou
quem sabe um destino ainda mais terrível me aguardava? Conhecia demasiado bem o caráter de meus juízes para duvidar de que o resultado de tudo aquilo seria a morte, e uma morte mais amarga do que a habitual. Como seria ela e a hora de sua execução eram os únicos pensamentos que me ocupavam o espírito, causando-me angústia.
Minhas mãos estendidas encontraram, afinal, um obstáculo sólido. Era uma parede que parecia de pedra, muito lisa, húmida e fria. Segui junto a ela, caminhando com a cautelosa desconfiança que certas narrações antigas me haviam inspirado. Porém, essa operação não me proporcionava meio algum de averiguar as dimensões de meu calabouço; podia dar a volta e tornar ao ponto de partida sem perceber exatamente o lugar em que me encontrava, pois a parede me parecia perfeitamente uniforme. Por isso, procurei um canivete que tinha num dos bolsos quando fui levado ao tribunal, mas havia desaparecido. Minhas roupas tinham sido substituídas por uma vestimenta de sarja grosseira. A fim de identificar o ponto de partida, pensara em enfiar a lâmina em alguma minúscula fenda da parede. A dificuldade, apesar de tudo, não era insuperável, embora, em meio à desordem de meus pensamentos, me parecesse, a princípio, uma coisa insuperável. Rasguei uma tira da barra de minha roupa e coloquei-a ao comprido no chão. formando um ângulo reto com a parede. Percorrendo as palpadelas o caminho em torno de meu calabouço, ao terminar o circuito teria de encontrar o pedaço de fazenda. Foi, pelo menos, o que pensei; mas não levara em conta as dimensões do calabouço, nem a minha fraqueza. O chão era úmido e escorregadio. Cambaleante, dei alguns passos, quando, de repente, tropecei e caí. Meu grande cansaço fez com que permanecesse caído e, naquela posição, o sono não tardou em apoderar-se de mim.
Ao acordar e estender o braço, encontrei ao meu lado um pedaço de pão e um púcaro com água. Estava demasiado exausto para pensar em tais circunstâncias, e bebi e comi avidamente. Pouco depois, reiniciei minha viagem em torno do calabouço e, com muito esforço, consegui chegar ao pedaço de sarja. Até o momento em que caí, já havia contado cinquenta e dois passos e, ao recomeçar a andar até chegar ao pedaço de pano, mais quarenta e oito. Portanto, havia ao todo cem passos e, supondo que dois deles fossem uma jarda, calculei em cerca de cinquenta jardas a circunferência de meu calabouço. No entanto, deparara com numerosos ângulos na parede, e isso me impedia de conjeturar qual a forma da caverna, pois não havia dúvida alguma de que se tratava de uma caverna.
Tais pesquisas não tinham objetivo algum e, certamente, eu não alimentava nenhuma esperança; mas uma vaga curiosidade me levava a continuá-las. Deixando a parede, resolvi atravessar a área de minha prisão. A princípio, procedi com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente revestido de material sólido, era traiçoeiro, devido ao limo. Por fim, ganhei coragem e não hesitei em pisar com firmeza, procurando seguir cm linha tão reta quanto possível. Avancei, dessa maneira, uns dez ou doze passos, quando o que restava da barra de minhas vestes se emaranhou em minhas pernas. Pisei num pedaço da fazenda e caí violentamente de bruços.
Na confusão causada pela minha queda, não reparei imediatamente numa circunstância um tanto surpreendente, a qual, no entanto, decorridos alguns instantes, enquanto me encontrava ainda estirado, me chamou a atenção. Era que o meu queixo estava apoiado sobre o chão da prisão, mas os meus lábios e a parte superior de minha cabeça, embora me parecessem colocados numa posição menos elevada do que o queixo, não tocavam em nada. Por outro lado, minha testa parecia banhada por um vapor pegajoso, e um cheiro característico de cogumelos em decomposição me chegou às narinas. Estendi o braço para a frente e tive um estremecimento, ao verificar que caíra bem junto às bordas de um poço circular cuja circunferência, naturalmente, não me era possível verificar no momento. Apalpando os tijolos, pouco abaixo da boca do poço, consegui deslocar um pequeno fragmento e deixei-o cair no abismo. Durante alguns segundos, fiquei atento aos seus ruídos, enquanto, na queda, batia de encontro às paredes do poço; por fim, ouvi um mergulho surdo na água, seguido de ecos fortes. No mesmo momento, ouvi um som que se assemelhava a um abrir e fechar de porta. acima de minha cabeça, enquanto um débil raio de luz irrompeu subitamente através da escuridão e se extinguiu de pronto.
Percebi claramente a armadilha que me estava preparada, e congratulei-me comigo mesmo pelo oportuno acidente que me fizera escapar de tal destino. Outro passo antes de minha queda, e o mundo jamais me veria de novo. E a morte de que escapara por pouco era daquelas que eu sempre considerara como fabulosas e frívolas nas narrações que diziam respeito à Inquisição. Para as vítimas de sua tirania, havia a escolha entre a morte com as suas angústias físicas imediatas e a morte com os seus espantosos horrores morais. Eu estava destinado a esta última. Devido aos longos sofrimentos, meus nervos estavam à flor da pele, a ponto de tremer ao som de minha própria voz, de modo que era, sob todos os aspectos, uma vítima adequada para a espécie de tortura que me aguardava.
Tremendo dos pés à cabeça, voltei, às apalpadelas, até a parede, resolvido antes a ali perecer do que a arrostar os terrores dos poços, que a minha imaginação agora pintava. em vários lugares do calabouço. Em outras condições de espírito, poderia ter tido a coragem de acabar de vez com a minha miséria, mergulhando num daqueles poços; mas eu era, então, o maior dos covardes. Tampouco podia esquecer o que lera a respeito daqueles poços: que a súbita extinção da vida não fazia parte dos planos de meus algozes.
A agitação em que se debatia o meu espírito fez-me permanecer acordado durante longas horas; contudo, acabei por adormecer de novo. Ao acordar, encontrei ao meu lado, como antes, um pão e um púcaro com água. Consumia-me uma sede abrasadora, e esvaziei o recipiente de um gole só. A água devia conter alguma droga, pois, mal acabara de beber, tornei-me irresistivelmente sonolento. Invadiu-me profundo sono - um sono como o da morte. Quanto tempo aquilo durou, certamente, não posso dizer; mas, quando tornei a abrir os olhos, os objetos em torno eram visíveis. Um forte clarão cor de enxofre, cuja origem não pude a princípio determinar, permitia-me ver a extensão e o aspecto da prisão.
Quanto ao seu tamanho, enganara-me completamente. A extensão das paredes, em toda a sua. volta, não passava. de vinte e cinco jardas. Durante alguns minutos, tal fato me causou um mundo de preocupações inúteis. Inúteis, de fato, pois o que poderia ser menos importante, nas circunstâncias em que me encontrava, do que as simples dimensões de minha cela? Mas minha alma se interessava vivamente por coisas insignificantes, e eu me empenhava em explicar a mim mesmo o erro cometido em meus cálculos. Por fim, a verdade fez-se-me subitamente clara. Em minha primeira tentativa de exploração, eu contara cinquenta e dois passos até o momento em que caí; devia estar, então, a um ou dois passos do pedaço de sarja; na verdade, havia quase completado toda a volta do calabouço. Nessa altura, adormeci e, ao despertar, devo ter voltado sobre meus próprios passos - supondo, assim, que o circuito do calabouço era quase o dobro do que realmente era. A confusão de espírito em que me encontrava impediu-me de notar que começara a volta seguindo a parede pela esquerda, e que a terminara seguindo-a para a direita.
Enganara-me, também, quanto ao formato da cela. Ao seguir o meu caminho, deparara com muitos ângulos, o que me deu ideia de grande irregularidade, tão poderoso é o efeito da escuridão total sobre alguém que desperta do sono ou de um estado de torpor! Os ângulos não passavam de umas poucas reentrâncias, ou nichos, situadas em intervalos iguais. A forma geral da prisão era retangular. O que me parecera alvenaria, parecia-me, agora, ferro, ou algum outro metal, disposto em enormes pranchas, cujas suturas ou juntas produziam as depressões. Toda a superfície daquela construção metálica era revestida grosseiramente de vários emblemas horrorosos e repulsivos nascidos das superstições sepulcrais dos monges. Figuras de demónios de aspectos ameaçadores, com formas de esqueleto, bem como outras imagens ainda mais terríveis, enchiam e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos de tais monstruosidades eram bastante nítidos, mas que as cores pareciam desbotadas e apagadas, como por efeito da humidade. Notei, então, que o piso era de pedra. Ao centro, abria-se o poço circular de cujas fauces eu escapara - mas era o único existente no calabouço.
Vi tudo isso confusamente e com muito esforço, pois minha condição física mudara bastante durante o sono. Estava agora estendido de costas numa espécie de andaime de madeira muito baixo, ao qual me achava fortemente atado por uma longa tira de couro. Esta dava muitas voltas em torno de meus membros e de meu corpo, deixando apenas livre a minha cabeça e o meu braço esquerdo, de modo a permitir que eu, com muito esforço, me servisse do aumento que se achava sobre um prato de barro, colocado no chão. Vi, horrorizado, que o púcaro havia sido retirado, pois uma sede intolerável me consumia. Pareceu-me que a intenção de meus verdugos era exasperar essa sede, já que o alimento que o prato continha consistia de carne muita salgada.
Levantei os olhos e examinei o teto de minha prisão. Tinha de nove a doze metros de altura e o material de sua construção assemelhava-se ao das paredes laterais. Chamou-me a atenção uma de suas figuras, bastante singular. Era a figura do Tempo, tal como é comumente representado, salvo que, em lugar da foice, segurava algo que me pareceu ser, ao primeiro olhar, um imenso pêndulo, como esses que vemos nos relógios antigos. Havia alguma coisa, porém, na aparência desse objeto, que me fez olhá-lo com mais atenção.
Enquanto a observava diretamente, olhando para cima, pois se achava colocada exatamente sobre minha cabeça, tive a impressão de que o pêndulo se movia. Um instante depois, vi que minha impressão se confirmava. Seu oscilar era curto e, por conseguinte, lento. Observei-o, durante alguns minutos, com certo receio, mas, principalmente, com espanto. Cansado, por fim, de observar o seu monótono movimento, voltei o olhar para outros objetos existentes na cela.
Um ligeiro ruído atraiu-me a atenção e, olhando para o chão, vi que enormes ratos o atravessavam. Tinham saído do poço, que ficava a direita. bem diante de meus olhos. Enquanto os olhava, saíam do poço em grande número, apressadamente, com olhos vorazes, atraídos pelo cheiro da carne. Foi preciso muito esforço e atenção de minha parte para afugentá-los.
Talvez houvesse transcorrido meia hora, ou mesmo uma hora - pois não me era possível perceber bem a passa-gem do tempo -, quando levantei de novo os olhos para o teto. O que então vi me deixou atônito, perplexo. O oscilar do pêndulo havia aumentado muito, chegando quase a uma jarda. Como conseqüência natural, sua velocidade era também muito maior. Mas o que me perturbou, principal-mente, foi a idéia de que havia, imperceptivelmente, descido. Observei, então - tomado de um horror que bem se pode imaginar -, que a sua extremidade inferior era formada de uma lua crescente feita de aço brilhante, de cerca de um pé de comprimento de ponta a ponta. As pontas estavam voltadas pura cima e o fio inferior era, evidentemente, afiado como uma navalha. Também como uma navalha, parecia pesada e maciça, alargando-se, desde o fio, numa estrutura larga e sólida. Presa a cela havia um grosso cano de cobre, e tudo isso assobiava, ao mover-se no ar.
Já não me era possível alimentar qualquer dúvida quanto à sorte que me reservara o terrível engenho monacal de torturas. Os agentes da Inquisição tinham conhecimento de que eu descobrira o poço - o poço cujos horrores haviam sido destinados a um herege tão temerário quanto eu -, o poço, imagem do inferno, considerado como a Última Tule de todos os seus castigos. Um simples acaso me impedira de cair no poço, e eu sabia que a surpresa, ou uma armadilha que levasse ao suplício constituíam uma parte importante de tudo o que havia de grotesco naqueles calabouços de morte. Ao que parecia, tendo fracassado a minha queda no poço, não fazia parte do plano demoníaco o meu lançamento no abismo e, assim, não havendo outra alternativa, aguardava-me uma forma mais suave de destruição. Mais suave! Em minha angústia, esbocei um sorriso ao pensar no emprego dessas palavras.
Para que falar das longas, longas horas de horror mais do que mortal, durante as quais contei as rápidas oscilações do aço? Polegada a polegada, linha a linha, descia aos poucos, de um modo só perceptível a intervalos que para mim pareciam séculos. E cada vez descia mais, descia mais!...
Passaram-se dias, talvez muitos dias, antes que chegasse a oscilar tão perto de mim a ponto de me ser possível sentir o ar acre que deslocava. Penetrava-me as narinas o cheiro do aço afiado. Rezei - cansando o céu com as minhas preces - para que a sua descida fosse mais rápida. Tomado de frenética loucura, esforcei-me para erguer o corpo e ir ao encontro daquela espantosa e oscilante cimitarra. Depois, de repente, apoderou-se de mim uma grande calma e permaneci sorrindo diante daquela morte cintilante, como uma criança diante de um brinquedo raro.
Seguiu-se outro intervalo de completa insensibilidade -um intervalo muito curto, pois, ao voltar de novo à vida, não me pareceu que o pêndulo houvesse descido de maneira perceptível. Mas é possível que haja decorrido muito tempo; sabia que existiam seres infernais que tomavam nota de meus desfalecimentos e podiam deter, à vontade, o movimento do pêndulo. Ao voltar a mim, senti um mal-estar é uma fraqueza indescritíveis, como se estivesse a morrer de inanição. Mesmo entre todas as angústias por que estava passando, a natureza humana ansiava por alimento. Com penoso esforço, estendi o braço esquerdo tanto quanto me permitiam as ataduras e apanhei um resto de comida que conseguira evitar que os ratos comessem. Ao levar um bocado à boca, passou-me pelo espírito um vago pensamento de alegria... de esperança. Não obstante, .que é que tinha com a ver com a esperança? Era, como digo, um pensamento vago - desses que ocorrem a todos com freqüência, mas que não se completam. Mas senti que era de alegria, de esperança. Como senti, também, que se extinguira antes de formar-se. Esforcei-me em vão por completá-lo... por reconquistá-lo. Meus longos sofrimentos haviam quase aniquilado todas as Faculdades de meu espírito. Eu era um imbecil, um idiota.
A oscilação do pêndulo se processava num plano que tormava um ângulo reto com o meu corpo. Vi que a lâmina fora colocada de modo a atravessar-me a região do coração. Rasgaria a ininha roupa, voltaria e repetiria a operação... de novo, de novo. Apesar da grande extensâo do espaço percorrido - uns trinta pés, mais ou menos - e da sibilante energia de sua oscilação, suficiente para partir ao meio aquelas próprias paredes de ferro, tudo o que podia fazer, durante vários minutos, seria apenas rasgar as minhas roupas. E, ao pensar nisso, detive-me. Não ousava ir além de tal reflexão. Insisti sobre ela com toda atenção, como se com essa insistência pudesse parar ali a descida da lâmina. Comecei a pensar no som que produziria ao passar pelas minhas róupas, bem como na estranha e arrepiante sensação que o rasgar de uma fazenda produz sobre os nervos. Pensei em todas essas coisas fazendo os dentes rangerem, de tão contraídos.
Descia... cada vez descia mais a lâmina. Sentia um prazer frenético ao comparar sua velocidade de cima a baixo com a sua velocidade lateral. Para a direita... para a esquerda... num amplo oscilar... com o grito agudo de uma alma penada; para o meu coração, com o passo furtivo de um tigre! Eu ora ria, ora uivava, quando esta ou aquela idéia se tornava predominante.
Sempre para baixo... certa e inevitavelmente! Movia-se, agora, a três polegadas do meu peito! Eu lutava violentamente, furiosamente. para livrar o braço esquerdo. Este estava livre apenas desde o cotovelo até a mão. Podia mover a mão, com grande esforço, apenas desde o prato, que haviam colocado ao meu lado, até a boca. Nada mais. Se houvesse podido romper as ligaduras acima do cotovelo, teria apanhado o pêndulo e tentado detê-lo. Mas isso seria o mesmo que tentar deter uma avalancha!
Sempre mais baixo, incessantemente, inevitavelmente mais baixo! Arquejava e me debatia a cada vibração. Encolhia-me convulsivamente a cada oscilação. Meus olhos seguiam as subidas e descidas da lâmina com a ansiedade do mais completo desespero; fechavam-se espasmodicamente a cada descida, como se a morte houvesse sido um alívio... oh, que alívio indizível! Não obstante, todos os meus nervos tremiam. à idéia de que bastaria que a máquina descesse um pouco mais para que aquele machado afiado e reluzente se precipitasse sobre o meu peito. Era a esperança que fazia com que meus nervos estremecessem, com que todo o meu corpo se encolhesse. Era a esperança - a esperança que triunfa mesmo sobre o suplício -, a que sussurrava aos ouvidos dos condenados à morte, mesmo nos calabouços da Inquisição.
Vi que mais umas dez ou doze oscilações poriam o aço em contato imediato com as minhas roupas e, com essa observação, invadiu-me o espírito toda a calma condensada e viva do desespero. Pela primeira vez durante muitas horas - ou, talvez dias - consegui pensar. Ocorreu-me, então, que a tira ou correia que me envolvia o corpo era inteiriça. Não estava amarrada por meio de cordas isoladas.
O primeiro golpe da lâmina em forma. de meia lua sobre qualquer lugar da correia a desataria, de modo a permitir que minha mão a desenrolasse de meu corpo. Mas como era terrível, nesse caso, a sua proximidade. O resultado do mais leve movimento, de minha parte, seria mortal! Por outro lado, acaso os sequazes do verdugo não teriam previsto e impedido tal possibilidade? E seria provável que a correia que me atava atravessasse o meu peito justamente no lugar em. que o pêndulo passaria? Temendo ver frustrada essa minha fraca e, ao que parecia, última esperança, levantei a cabeça o bastante par ver bem o meu peito. A correia, envolvia-me os membros e o corpo fortemente em todas as direções, menos no lugar em que deveria passar a lâmina assassina.
Mal deixei cair a cabeça em sua posição anterior, quando senti brilhar em meu espírito algo que só poderia descrever proximadamente, dizendo que era como que a metade não formada da idéia de liberdade a que aludi anteriormente, e da qual apenas uma parte flutuou vaga-mente em meu espírito quando levei o alimento aos meus lábios febris. Agora, todo o pensamento estava ali presente - débil, quase insensato, quase indefinido -, mas, de qualquer maneira, completo. Procurei imediatamente, com toda a energia nervosa do desespero, pô-lo em execução.
Havia várias horas, um número enorme de ratos se agitava junto do catre em que me achava estendido. Eram temerários, ousados, vorazes; fitavam sobre mim os olhos vermelhos, como se esperassem apenas minha imobilidade para fazer-me sua presa. "A que espécie de alimento", pensei, "estão eles habituados no poço?" Haviam devorado, apesar de todos os meus esforços para o impedir, quase tudo o alimento que se encontrava no prato, salvo uma pequena parte. Minha mão se acostumara a um movimento oscilatório sobre o prato e, no fim, a uniformidade inconsciente de tal movimento deixou de produzir efeito. Em sua veracidade, cravavam freqüentemente em meus dedos os dentes agudos. Com o resto da carne oleosa e picante que ainda sobrava. esfreguei fortemente, até o ponto em que podia alcançá-la, a correia com que me haviam atado. Depois, erguendo a mão do chão, permaneci imóvel, quase sem respirar.
A princípio, os vorazes animais ficaram surpresos c aterrorizados com a mudança verificada - com a cessação de qualquer movimento. Mas isso apenas durante um momento. Não fora em vão que eu contara com a sua voracidade. Vendo que eu permanecia imóvel, dois ou três dos mais ousados soltaram sobre o catre e puseram-se a cheirar a correia. Dir-se-ia que isso foi o sinal para a investida geral. Vindos da parede, arremeteram em novos bandos. Agarraram-se ao estrado, galgaram-no e pularam. as centenas sobre o meu corpo. O movimento rítmico do pêndulo não os perturbava de maneira alguma. Evitando seus golpes, atiraram-se à correia besuntada. Apertavam-se, amontoavam-se sobre mim. Contorciam-se sobre meu pescoço; seus focinhos, frios. procuravam meus lábios. Sentia-me quase sufocado sob o seu peso. Um asco espantoso, para o qual não existe nome, enchia-me o peito e gelava-me, com pegajosa umidade, o coração. Mais um minuto, e percebia que a operação estaria terminada. Sentia claramente que a correia afrouxava. Sabia que, em mais de um lugar, já devia estar completamente partida. Com uma determinação sobre-humana continuei imóvel.
Não errei em meus cálculos; todos esses sofrimentos não foram em vão. Senti, afinal, que estava livre. A correia pendia, em pedaços, de meu corpo. Mas o movimento do pêndulo já se realizava sobre o meu peito. Tanto a sarja da minha roupa, como a camisa que vestia já haviam sido cortadas. O pêndulo oscilou ainda por duas vezes, e uma dor aguda me penetrou todos os nervos. Mas chegara o momento da salvação. A um gesto de minha mão, meus libertadores fugiram tumultuosamente. Com um movimento decidido, mas cauteloso, deslizei encolhido, lentamente, para o lado, livrando-me das correias e da lâmina da cimi-tarra. Pelo menos naquele momento, estava livre.
Livre! E nas garras da Inquisição! Mal havia escapado daquele meu leito de horror e dado uns passos pelo piso de pedra da prisão, quando cessou o movimento da má-quina infernal e eu a vi subir, como que atraída por alguma força invisível, para o teto. Aquela foi uma lição que guardei desesperadamente no coração. Não havia dúvida de que os meus menores gestos eram observados. Livre! Escapara por pouco à morte numa determinada forma de agonia, apenas para ser entregue a uma outra, pior do que a morte. Com este pensamento, volvi os olhos, nervosamente, para as paredes de ferro que me cercavam. Algo estranho - uma mudança que, a princípio, não pude apreciar claramente - havia ocorrido, evidentemente, em minha cela. Durante muitos minutos de trêmula abstração, perdi-me em conjeturas vãs e incoerentes. Pela primeira vez percebi a origem da luz sulfurosa que alumiava a cela. Procedia de uma fenda, de cerca de meia polegada de largura, que se estendia em torno do calabouço, junto a base das paredes, que pareciam, assim, e, na verdade estavam, completamente separadas do solo. Procurei, inutilmente, olhar através dessa abertura.
Ao levantar-me, depois dessa tentativa, o mistério da modificação verificada tornou-se-me, subitamente, claro. Já observara que, embora os contornos dos desenhos das paredes fossem bastante nítidos, suas cores, não obstante, pareciam apagadas e indefinidas. Essas cores, agora, haviam adquirido, e estavam ainda adquirindo, um brilho intenso e surpreendente, que dava às imagens fantásticas e diabólicas um aspecto que teria arrepiado nervos mais firmes do que os meus. Olhos demoníacos, de uma vivacidade sinistra e feroz, cravavam-se em mim de todos os lados, de lugares onde antes nenhum deles era visível, com um brilho ameaçador que eu, em vão, procurei considerar como irreal.
Irreal! Bastava-me respirar para que me chegasse às narinas o vapor de ferros em brasa! Um cheiro sufocante invadia a prisão! Um brilho cada vez mais profundo se fixava nos olhos cravados em minha agonia! Um vermelho mais vivo estendia-se sobre aquelas pinturas horrorosas e sangrentas. Eu arquejava. Respirava com dificuldade. Não poderia haver dúvida quanto à intenção de meus verdugos, os mais implacáveis, os mais demoníacos de todos os ho-mens! Afastei-me do metal incandescente,colocando-me ao centro da cela.
Ante a perspectiva da morte pelo fogo,que me aguardava, a idéia da frescura do poço chegou à minha alma como um bálsamo. Precipitei-me para as suas bordas mortais. Lancei o olhar para o fundo. O resplendor da abóbada iluminava as suas cavidades mais profundas. Não obstante, durante um minuto de desvario, meu espírito se recusou a compreender o significado daquilo que eu via. Por fim, aquilo penetrou, à força, em minha alma, gravando-se a fogo em minha trêmula razão. Oh, indescritível! Oh, horror dos horrores! Com um grito, afastei-me do poço e afundei o rosto nas mãos, a soluçar amargamente.
O calor aumentava rapidamente e, mais uma vez, olhei para cima, sentindo um calafrio. Operara-se uma grande mudança na cela - e, dessa vez, a mudança era, evidentemente, de forma. Como acontecera antes, procurei inutilmente apreciar ou compreender o que ocorria. Mas não me deixaram muito tempo em dúvida. A vingança da Inquisição se exacerbara por eu a haver frustrado por duas vezes - e não mais permitiria que zombasse dela! A cela, antes, era quadrada. Notava, agora, que dois de seus ângulos de ferro eram agudos, sendo os dois outros, por conseguinte, obtusos. Com um ruído surdo, gemente, aumentava rapidamente o terrível contraste. Num instante, a cela adquirira a forma de um losango. Mas a modificação não parou aí - nem eu esperava ou desejava que parasse. Poderia haver apertado as paredes incandescentes de encontro ao peito, como se fossem uma vestimenta de eterna paz. "A morte", disse de mim para comigo.
"Qualquer morte, menos a do poço!" Insensato! Como não pude compreender que era para o poço que o ferro em brasa me conduzia? Resistiria eu ao seu calor? E, mesmo que resistisse, suporturia sua pressão? E cada vez o losango se aproximava mais, com uma rapidez que não me deixava tempo para pensar. Seu centro e, naturalmente, a sua parte mais larga chegaram até bem junto do abismo aberto. Recuei, mas as paredes, que avançavam, me empurravam, irresistivelmente, para a frente. Por fim, já não existia, para o meu corpo chamuscado e contorcido, senão um exíguo lugar para firmar os pés, no solo da prisão. Deixei de lutar, mas a angústia de minha alma se extravasou em forte e prolongado grito de desespero. Senti que vacilava à boca do poço, e desviei os olhos...
Mas ouvi, então, um ruído confuso de vozes humanas! O som vibrante de muitas trombetas! E um rugido poderoso, como de mil trovões, atroou os ares! As paredes de fogo recuaram precipitadamente! Um braço estendido agarrou o meu, quando eu, já quase desfalecido, caía no abismo. Era o braço do General Lassalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição estava nas mãos de seus inimigos."


Edgar Allan Poe
(tradução brasileira)


18/04/2011

A beleza total

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços.
A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa.
O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito.
Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.


Carlos Drummond de Andrade,
Contos Plausíveis

Contos Plausíveis

A amante ideal




Esses cavalheiros haviam mostrado um certo apetite. Era, após o jantar, na residência de Ernesto Pereira, assaz feliz para ter, antes dos quarenta anos, um palacete discreto e muito mais de cem mil contos.
Com tão confortável fortuna, Ernesto estava quase branco, não bebia senão águas minerais e mantinha as mulheres como simples companheiras para distrair. Após um negócio - ceia com elas e champagne bebido pelos outros. Enriquecer quando não custa a vida e uma fortuna, custa, pelo menos, o melhor bem humano, porque transitório - a mocidade. Ernesto aliás tratava o doloroso e delicado assunto com cinismo amável. - Que querem vocês? Aos vinte anos, afastei as mulheres para conquistar a Fortuna. A Fortuna vingou-se desabituando-me do amor...
Mas era gentil, muito gentil, como diziam essas damas. Fazia as despesas de uma italiana, montara casa a uma espanhola, comia com as figuras mais impressionantes do armorial da galanteria, e protegia, às ocultas, algumas costureiras e modistas. O desprezo, ou antes, a integral indiferença de Ernesto pelas mulheres, só poderia ser notada porque esse homem jamais tinha uma história de mulher a contar. Quando narrava um fato era dos outros e referia-o sempre com o riso ingênuo da completa incompreensão. Parecia contar pilhérias de bonecos.
Os amigos julgavam-no feliz. Era-o. O homem feliz é aquele que não conhece o amor.
Nesse momento, porém, acesos os charutos no terraço sobre o mar a roda se fazia de homens, como é a maioria dos homens, tendo a vida com dois fins: dinheiro e mulher. Estavam Otaviano Rodrigues, que se arruinara por uma princesa austríaca, e André Figueiredo, com quem a princesa enganava Otaviano, mas que por sua vez tinha várias paixões, menos a princesa. Estava Clodomiro Viegas, que nunca pagara o amor e andava sempre a arranjar dinheiro para ser gentil com as generosas criaturas. Estava o comendador Andrade, que em trinta anos de francesas ainda não aprendera a falar francês. Estava Teodoro Gomes, o bolsista que enriquecia a bailarina russa de uma companhia italiana, em companhia de Godofredo de Alencar, o único literato com dinheiro.
E também palestrava Júlio Bento, lindo e excelente rapaz de trinta e cinco anos, casado, pai de cinco filhos, mas cuja lista de conquistas não deixava de ser profusa.
A conversa, precisamente, generalizava-se a propósito da última paixão de Júlio, senhora alta, com enorme boca vermelha e dois braços de tragédia, admiráveis e brancos, "as duas velas de seda da trirreme do amor", como dizia, com exagero, Godofredo de Alencar. Essa mulher agoniava Júlio Bento. Eram cartas, telegramas, chamadas ao telefone, imprevistas aparições, cenas de ciúme, ataques, tentativas de suicídio, recriminações, inquéritos minuciosos.
- Um inferno, meus caros! E eu tenho receio que minha esposa venha a saber.
- Mas deixa-a. Nada mais simples! insinuou Ernesto com o seu ingênuo e feliz desconhecimento do complicado desespero das ligações amorosas.
- É bom dizer. Ela mata-se...
- Ora!

- E para que deixar esta, se são todas assim? indagou ironicamente Alencar. Amar é sofrer, mas ser amado é o cataclismo. Não se pode fazer mais nada. Elas caem sobre a gente como os andaimes. Um gnóstico dizia que é preciso passar pela mulher como pelo fogo. Nós imbecilmente ficamos a assar. Ao demais o Elifas Levi já teve uma frase lapidar - "Queres possuir? Não ames! Nós, sem inteligência, em vez de possuir, somos possuídos. A inteligência é um perigo no amor."
- Paradoxal!
- Conforme. Qual de nós não almeja, não sonha com o tipo da amante ideal? Qual de nós, porém não sofreria se amasse o tipo da amante ideal?
- A questão é saber qual a amante ideal, após três meses...
- A amante ideal! suspirou Júlio Bento.
- É a esposa, sentenciou o velho solteirão Andrade.
- A esposa, meu caro amigo, desde a Grécia, é a mãe dos nossos filhos. Não a sobrecarreguemos... Moisés, segundo a legenda, forjou o anel do Amor. E tais foram as complicações, que logo teve de forjar com pressa um outro: o anel do Esquecimento. Nenhum dos dois é a aliança matrimonial...
Júlio Bento ficara pensativo. E de repente:
- Como o Alencar fala a verdade. Eu já tive a amante ideal.
Houve na roda um alegre sobressalto.
- Tu?
- Como era ela?
- E deixaste-a fugir?
Júlio Bento, sem tristeza, suspirou.
- Sim. Apenas só depois é que soube... E até agora, francamente, não compreendo, não atino, não sinto bem... Que aventura! Imaginem vocês...
Acendeu outro charuto e, impaciente, continuou:
- Há uns cinco anos encontrei no teatro uma encantadora mulher. Pálida, da cor dos jasmins, dois olhos verdes, pestanudos, uma longa cabeleira de ébano, alta, magra. Estava no camarote pegado ao meu, só, vestida de preto. Olhou-me duas vezes. Da segunda havia muitas intenções. Fiquei desejoso de a conhecer, de falar-lhe. Mas, evidentemente, não era uma qualquer mulher. Saiu em meio de um ato e eu fiquei com a família, não sei por que, raivoso. Quatro dias depois ia pela rua do Ouvidor, quando a vi que vinha a sorrir. Tinha uma linda boca. Cumprimentei-a. Continuou a andar. Segui-a. Voltou-se uma só vez e logo meteu-se pela rua Gonçalves Dias. Continuei a acompanhá-la. Ela ia pelo meandro de ruas estreitas e comerciais. Enfim, num beco deserto, entrou por uma porta. Quando passei pela porta, ela estava no corredor. Timidamente disse-lhe:
- Desculpe se a acompanhei...
- Entre, fez ela com a voz calma. Não podíamos falar em ruas de movimento. Não seria conveniente nem para mim nem para você.
Fez uma pausa, murmurou: Simpatizei muito com a sua pessoa.
- E eu, então!
Ela riu:
- Sempre que as mulheres querem, os homens simpatizam ao menos uma vez.
Agarrei-a, ela ofereceu-me a boca, que cheirava a rosa, e gulosamente mordeu-me. Depois, desprendendo-se:
- Agora vá embora!
- Mas isso não pode ficar assim. Onde a posso encontrar?
- Na minha casa é impossível neste momento...
- Como se chama?
- Adelina. Até outro dia...
- Há outras casas. Por aqui mesmo...
- Hoje não.
- Por quê?
- Ninguém tem mais vontade do que eu... Amanhã, se quiser. Serve-lhe às duas horas da tarde, num automóvel defronte do terraço do Passeio Público?
Concordei. No dia seguinte rolávamos, às duas da tarde, para a Quinta da Boa Vista e essa mulher era de um ardor, de uma paixão alucinantes. Apenas não saiu do automóvel e no automóvel estivemos até às seis horas. Ao deixá-la, Adelina disse-me apenas:
- Moro numa pensão da rua da Piedade. Quando quiser, escreva-me.
- E não posso lá ir?
- Se quiser, durante o dia.
A minha curiosidade conseguiu saber aquilo que ela não dizia, mas de que não fazia mistério. Chamava-se Adelina Roxo. Era casada, separada do marido. Vivia mantida por um velho diretor de banco, que lhe dava larga vida. O seu modo era tão esquisito, tão diverso das outras mulheres quando desejavam, que me abstive de a procurar oito dias. Quando as mulheres são sinceras, os homens são "cocottes".
O "chiquet" é a essência do amor. Apenas verifiquei a inutilidade do processo e apertou-me o desejo. Queria aquela volúpia e queria também conhecer a mulher. Escrevi, pela manhã, uma carta sem assinatura, e lá fui. Recebeu-me deliciosamente. Tinha três salas admiráveis. O gabinete de vestir era mobiliado de sândalo com incrustações de marfim. Os tapetes altos de seda turca contavam em azul sobre fundo rosa suratas do Korão. Um cheiro de rosas errava no ar, e ela despindo um "chartcha" de seda pesada apareceu-me através de um tecido de Brussa com a pulcra delicadeza de um lírio à sombra. Amei-a furiosamente. Ela era das que, entregando-se, infiltram nos mortais ainda mais desejo. E se eu a amei, ela teve todas as etapas do delírio desde o frenesi ao desmaio. Ao sair esperei alguma frase, um pedido, uma súplica. Nada. Não me demorou, beijou-me com a alma. E não disse uma palavra.
Era diversa, integralmente diversa das outras. Certo gostava de mim, gostava com um calor que eu não sentira em nenhum outro corpo. Mas todas as mulheres querem saber coisas, perguntam onde vamos, indagam se as amamos muito, se será para sempre, e não deixam de reter mais alguns momentos a criatura... Ela não teve um só gesto nem uma das frases banais, mas que estamos acostumados a ouvir.
Claro que voltei. Conversávamos. Ela, sem pedantismos, sabia muito mais do que eu. Viajara a Europa inteira, falava várias línguas, conhecia os poetas de diversos países, que lia em encadernações de antílope com fechos de ouro lavrado. Mas, rindo com infinita alegria, prendendo com a sua clara voz, o seu olhar de brasa verde, o seu corpo de jasmim, jamais perguntou pela minha vida. E também não me disse uma palavra a respeito da sua, e também não me pediu nada. Sabem vocês como as mulheres gostam de contar a própria vida aos amantes. É um duplo exercício de mentira e de tortura. Sabem vocês, como ao cabo de uma semana não se pode dar um passo sem ter a senhora apaixonada a perguntar-nos os detalhes mínimos do dia. Ela abstinhase desses atos, naturalmente. E, talvez por isso, se o meu desejo aumentava, a minha desconfiança irritada crescia. Nem o meu nome ela perguntara - nome que, de resto, devia saber. Tratava-me de "Meu pequeno", meu "guru". Um dia disse-lhe:
- Não sabes o meu nome?
- Não.
- Mas eu assino as cartas...
- Ah! sim, as cartas... Mas não quero o teu nome, quero-te a ti. Que me importa que te chames João, Antônio ou mesmo Júlio?...
- O tratamento de "guru", entretanto...
Ela deu uma grande risada.
- Ah! essa palavra é de um grande poema de amor, o "Ramayana". É uma palavra de carinho, de afeição que não tem tradução. Achei-a simpática. Só a ti no mundo eu chamo assim. Porque só a ti no mundo eu amo, meu pequeno...
- Enfim, um homem casado transformado em "guru"...
Eu dizia para forçá-la a perguntar-me as coisas. Foi em vão. Em virtude de tanta liberdade, como sou humano entre os lamentáveis humanos, aproveitei-a para traí-la. Traí-la? Pode-se trair uma mulher que não nos toma contas? Tive várias intrigas amorosas, que me deram enormes incômodos e fizeram-me enormes despesas. Todas essas mulheres amavam-me como loucas e eu as deixei sem que elas mudassem. Alguns negócios forçaram-me a ausentar da cidade.
- É uma aventura mortal! dizia a mim mesmo para convencer-me.
E ao chegar das viagens, lá ia entre desejoso daquele amor impossível de pôr em dúvida e um vago mal-estar, uma inquietação. Afinal, teria ou não interesse por mim? Tinha, era evidente que tinha. Mas não era bem esse alheamento da vida comum. Talvez forçasse a indiferença para não contar os mistérios da sua existência. Mas, respondia sempre com franqueza a tudo quanto lhe perguntava! Talvez tivesse outro amante. Inquiri, observei. Não. Além do velho banqueiro, só a mim...
Os nossos encontros faziam-se intermitentes. Semanas havia que estávamos juntos todos os dias. Depois passávamos semanas sem nos vermos. Era natural que essa mulher, diante de uma ausência prolongada, procurasse falar-me, escrevesse, passasse um telegrama ao menos. Pois nada. E recebia-me com a mesma ternura, o mesmo sincero amor, sem uma pergunta. Às vezes resolvia não a procurar mais. Encontrava-a, porém, na rua, e a irradiação do desejo era tão forte, que tivesse eu o mais urgente negócio, largava tudo para segui-la. Ela também ficava trêmula, com as mãos frias. Tomávamos o primeiro automóvel e era um verdadeiro frenesi.
Diante da sua absoluta discrição, era forçado a ser discreto. Nunca trocamos uma palavra a propósito do velho diretor do banco. E a necessidade de contar a minha vida se fazia nula com o acanhamento que produzia o seu ar de não querer saber. Uma vez gabei-lhe os olhos. Eram macios e ardentes.
- Herança, meu pequeno.
- Como?
- Eu sou descendente de armênios. Minha avó devia tapar os olhos. Eles ficaram com mais luz e mais doçura. São olhos de serralho...
- Curioso. Por que não me contas a tua vida?
- Porque não vale a pena.
- Mas não perguntas pela minha?
- Para não te aborrecer. Eu sou a tua escrava. Dei-te o meu desejo e o meu coração. Não tenho o direito de perguntar. Estamos assim tão bem...
Ela falava com tanta brandura, as suas mãos de jasmim pousavam tão docemente sobre os meus olhos, que senti uma infinita pena de mim mesmo, e calei-me... Sim, de fato, para que falar, para que mentir, quando não mentíamos ao nosso desejo? Vivemos assim largo tempo. Se não ia à sua casa e a via na rua - era fatal, soçobrávamos na volúpia. Às vezes o desejo era tão forte e imediato, que ela entrava em qualquer porta e ali mesmo as nossas bocas se ligavam vorazes - antes de seguirmos para a luxúria ardente dos seus aposentos.
Possuía-me e entregava-se como jamais pensara que fosse possível!
Conservara durante anos a mesma chama, a mesma maravilhosa chama. Sem uma intimidade, sem detalhes da vida comum, sem me interrogar, sem chegar a esse momento habitual em que dois amantes são iguais a duas criaturas comuns. Eu a consideraria exasperante, se, talvez por isso - o meu desejo nunca tivesse força de resistir.
Enfim, há três meses tive de ir à Bahia. Ia demorar, pelo menos, trinta dias. Podia dizer-lho. Mas o meu orgulho resistiu. Passei a tarde com ela, aliás, e quando consultei o relógio, ainda esperava uma pergunta, que não veio. Parti. Não escrevi. Não escrevi, posto que pensasse nela. Era o que eu julgava uma vingança. Ao chegar, não resisti e fui vê-la. Recebeu-me a dona da pensão, uma velha francesa.
- Bem dizia madame que o senhor tornaria...
- Onde está ela?
- Oito dias depois daquela tarde, ela caiu doente, muito mal. Esteve assim três dias. Afinal, os médicos acharam necessário uma operação. Era apendicite. Saiu daqui para ser operada no Hospital dos Ingleses. Mas antes de sair, chamou-me. Lembro-me bem das suas palavras, 'la pauvre"!
"Madame Angéle, eu vou morrer, sinto que vou morrer. Quando o meu pequeno aparecer, diga-lhe que não fique triste, mas que eu morrerei pensando nele como o meu único bem..."
- Então?
- "Pauvre petite!". Morreu na mesa de operações...
- Mas onde a enterraram?
- Não sei, não acompanhei. Talvez perguntando ao Sr.Herbrath...
Desci, quase a correr, para não mostrar à velha francesa as minhas lágrimas. Todo esse longo, o único longo amor da minha vida, surgia aos olhos do meu desejo como um sonho. Tinha sido uma ilusão, a imensa ilusão. E desaparecera, de modo que nem mesmo lhe sentira o amargor, nem mesmo lhe compreendia o fim, pensando na última tarde que fora a primeira, sempre primeira, sempre nova, sempre a que afasta para depois a tristeza...
Na rua, eu era como o homem que; tendo tido uma entrevista de amor em que amou com fúria - procura encontrar de novo aquela que não teve tempo de conhecer bem, com a ânsia dos vinte anos.
O criado de Ernesto entrou nesse momento com o café e largos copos de cristal, onde gotejou uma famosa "fine" de 1840. Júlio recebeu o copo, virou-o. Se estivéssemos em tempo de emoções, a sua história poderia ter comovido. Mas não estamos. Otaviano é que disse com indiferença:
- Curioso!
- Nunca me pediu nada, nunca lhe dei nada, nunca me perguntou nada, continuou Júlio Bento, com a voz surda. O sentimento que conservo por ela é o mesmo: um louco desejo e uma certa humilhação...
- Porque tu és da vida comum e ela era o amor, respondeu Alencar. O amor é o desejo acima da vida. Talvez nunca tivesse dito sem o sentir uma tão profunda frase. Nenhum de nós nascidos e vividos na mentira e na tortura da mulher, compreenderia essa amante que existiu, como todas as coisas irreais. Mas, se nos fosse dado compreender - aos homens como às mulheres, todos nós invejaríamos a tua sorte e o prazer superior dessa suave perfeição. Para conservar o desejo é preciso não mentir, não pedir e não saber. Ela foi a amante ideal, a única sincera.
Nesse momento o criado voltou a prevenir Bento de que uma senhora estava à sua espera num automóvel, a chorar.
- É, a Hortência! bradou Bento. Nem aqui me deixa! Por Deus, não lhe contem essa aventura. Teria ciúmes da morta. É insuportável!
E como todos os homens neste mundo, precipitou-se ansioso para a amante, igual às outras.


João do Rio

17/04/2011

A palmeira de Nguézi


No lugar de Nguézi há uma palmeira sagrada, dizem que nascida antes do mundo. Do colmo pende um único fruto, de aparência estranha e que nunca pode ser olhado. Porque, segundo a lenda, os olhos que ali apontem se enchem de estrelas mais que as que poeiram a própria noite.
A razão dessa palmeira, vertida sobre as águas do rio, se transcreve aqui. Nem tudo se explica, para que se compreenda melhor. Para ver a gente necessita transparência, mas se tudo fosse transparente todos seríamos cegos. Ficará a saber-se: em tempos de apocalipse o histórico se converte em religioso. E vice-versa. A crença da palmeira sagrada nasceu de um facto tropeçando num acontecimento.
Estava o mundo numa tarde, dessas de lamber o tempo. Na varanda se dispunha Tonico Canhoto. Quem o visse parecia ele estava na simples disposição de estar, sereno e demorado em existir. Para o Canhoto era sempre o mesmo: o tempo, nestes dias, está muito depressa. Convém a gente se resguardar.
Mas, por dentro, o nosso varandeante se abatia a abismos. Talvez era a monotonia do campo, esse morre-morre de esperar e ficar à espera. Talvez era esse o motivo de seu esmorecimento.
- “Pai, há-de haver acontecimento, o senhor vai ver.
- “Vocês não entendem, filhos. Eu não careço de acontecimentos, não. Eu pretendo é uma revelação”.
Uma revelação? A outra filha se aproximou e tentou um consolo. E lhe perguntou: já ele olhara quanta árvore, quanta extensão pelos aís foras?
- “Se não vejo? Vejo o mato todo, em volta. Está tudo morto, tudo seco.
- “Engano seu: o mato não está seco. Apenas vazou o verde, apenas engordou o amarelo.
- “Conversa afiada”.
Os filhos desistiram. A Canhoto lhe custava simplesmente existir. Morrer é fácil, difícil é existir-se morto, simplesmente havido, quieto e inestudável. E mais, aliás, menos nada. Tonico ficara assim desde que sua mulher Razia desaparecera, ida sabe-se com quem, desconhece-se para onde. Fora há uns anos, mas a ferida era ainda maior que a cicatriz. Quando sucedeu, nesse tempo em que tudo era tudo, Canhoto anunciou aos numerosos filhos:
- “Vossa mãe, meus filhos. Vossa mãe, ela faleceu”.
Todos sabiam que era mentira. Ela tinha desistido de constar, tentada em mulherar-se em outros lugares. Deixado o marido em órfã viuvez, desconsolado.
Tinha-se passado tempo, os miúdos cresceram, se graúdaram e se graduaram em pais e mães. O que sobrava agora eram netos. Naquela tarde, fazia anos que a avó saíra. Falecera, como dizia o avô Canhoto. A família se juntava, como era costume.
A netaria espalhava algazarras e a alegria barulhava pela varanda. Mas, o velho Tonico Canhoto se debruçava triste sobre a paliçada. Em seu magro corpo já não cabia mais angústia. Os filhos tentaram distrair a tentação dessa tristeza. Em vão. O homem já havia se decidido que a sua vida era sem depois. Nada enfeitava a sua esperança. Todos calaram quando ele anunciou:
- “Vou daqui ao rio”.
Todos lhe adivinharam o intento: ele se iria deixar tombar, encher-se de líquido até se ensopar como se o dele corpo fosse roupa, ido na corrente, nem corpo nem alma.
Ainda o tentaram desvanecer. Mas o velho tinha dado de testa naquela decisão.
E assim se ergueu, perante a numerosa família, todos assistindo o ancião se afastar' converso em bruma. Chegado à margem, levantou os braços e assim, imóvel como pau de vela, as roupas lhe começaram a cair, desabadas por forças nenhumas, só por via de seu magro peso. A sua gente o viu nu, completamente. Constaram, no momento, que seu corpo se mantinha de músculo e lustro, a idade se concentrara apenas em sua cabeça. Ficou um tempo nessa espécie de despedida, Cristo sem crucifixo. Ou simples esquecido talvez do passo próximo?
Nesse entretempo, o lugar se apoclipsou. A terra, em desfecho de estrondos, se estremeceu. Em basaltos e baixos, esguichos de água fervente e fogos de martifício, estrelas rebentavam como borbulhas na superfície do rio. A casa, junto com seu tecto, insubstanciou-se e ruiu, chão no chão. Os familiares todos se sepultaram, sem espirro nem respiro, apagados, apaguados.
Sobrou quem? O velho Canhoto, próprio. Ele vira a terra se rachar por baixo dos pés, as duas metadas se abrirem como lábios. Nessa greta ele se afundou, pronto a ser engolido, trevoso e súbito. Mas no momento em que seu corpo perdia o pé, a terra se volveu a fechar, ajustada ao corpo. Ficou-lhe só a cabeça de fora. Tudo o resto estava encravado em pedra, rocha, raiz, sobra do mundo. Mexer um dedo, dedículo que fosse, lhe era impossível. O velho rodou a cabeça para avistar em volta. Nada, nem rio nem árvore, nem gente. Só chão, poeira, remoinhos de folhas mortas.
- “Deus me proíbe?”
Chorou. Sem tristeza, só para arrefecer o rosto, deixar a carícia da água lhe premiar a boca. O sol nasceu, esmoreceu, se ocasionou. E dia. E noite. E fome. E sede. Já nem lágrima lhe sobrava. O velho Canhoto que sempre fora acusado de não ter essa parte de si vivia agora exclusivamente de sua cabeça. O resto, já nem lhe restava. Todo ele aprendera a ciência de ser raiz, o orgânico sem organismo. De noite, um cacimbito. De dia, as grainhas de uma ventania. Assim ele se mantinha, feito único receptáculo onda a vida ainda se entesourava.
Foi quando, no fundo do sem-fim, uma andorinha riscou o céu. Feita de conta um desenho torto, um rabisco tonto de um menino, no brevíssimo instante do arrependimento e da borracha. A avezinha, transmeteórica, como uma foice negra ceifou os ares. Voava mais rápido que vivia? Estranhamente, a andorinha pousou na cabeça do velho. Fincou as patas, unhando-lhe a testa, sujando-lhe o cabelo.
O passarito piou, rodopiou e, por fim, meteu o bico nos lábios secos do velho. Lhe dava, se imagine, uma naco de água, qualquerzita migalha. O bico beijou o lábio, o lábio bicou o pássaro: dúzias de vezes, repetidas. O velho perguntou, lábios rasos de silêncio:
- “É você, Razia?”
A ave toda a noite debicou o pescoço de Canhoto. Dizem que, desse mesmo pescoço, ascendeu a matéria do colmo, dos cabelos brotou a folhagem, dos olhos nasceu a florescência. Tudo em jeito de árvore, palmeira e sagrada.


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra


16/04/2011

Simão, O Cireneu



O velho sentou-se com a cabeça encurvada e as costas doloridas enquanto as censuras, fúteis de sua colérica mulher, lhe feriam os ouvidos.
Semelhante a uma infindável cascata, ela espadanava toda uma série de recriminações: imbecil barbudo, por que desperdiças o teu tempo vagabundeando pelas estradas? O teu pai, o teu avô e o teu bisavô foram todos guardiães do Templo; se estivesses a postos quando foste chamado, sem dúvida terias sido nomeado guardião como os outros. Agora, porém, um homem mais expedito foi o escolhido. Tu, o mais idiota dos homens, preferiste vagabundear pelas estradas, afim de que, renegado, pudesses carregar a cruz de um jovem carpinteiro sedicioso.
- Isto é verdade – disse o velho -, encontrei um jovem que ia ser crucificado e o centurião mandou-me carregar a cruz. Carreguei-a até o cimo da colina e demorei-me porque as palavras que ele pronunciou, embora grandemente maltratado, não eram de pesar por ele mesmo e, sim, pelos outros; as suas palavras retardaram-me lá. Por isso esqueci tudo mais.
- Sim, na verdade esqueceste tudo mais e o pouco senso que possuías, e regressaste demasiadamente tarde para ser guardião do Templo! Não estás envergonhado ao pensares que teu pai, teu avô e teu bisavô, foram todos guardiães da Casa do Senhor, que seus nomes estão lá escritos em letras de ouro e serão lidos pelos homens do futuro para todo o sempre? Quanto a ti, velho tonto, quando morreres isolado de todos os parentes, quem se lembrará neste mundo de Simão, o Cireneu?


Oscar Wilde

14/04/2011

O Homem de muitos livros




Era uma vez um homem que, por estranhado pavor ao tumulto da vida, preferira retirar-se, desde sua mocidade, para a companhia tranquila dos livros. Vivia encerrado em casa, cujos quartos e salas estavam repletos de volumes e não tinha outras convivências e relações senão com os amados livros. Em sua opinião, era muito mais acertado viver na intimidade da Beleza e da Verdade, com os mais nobres espíritos da humanidade, do que expor-se ao convívio ocasional de pessoas e aos acasos de uma existência falsa e traiçoeira. Seus livros eram todos de autores clássicos, dos sábios e poetas gregos e latinos, cujos idiomas ele amava e cujo mundo lhe parecia tão claro e harmonioso que, frequentemente, não compreendia por que a humanidade abandonara aqueles excelsos caminhos para se entregar ás piores loucuras. Em todos os domínios do saber e do escrever, os antigos já tinham feito o melhor que se podia exigir do espírito humano, pelo menos, pouca coisa lhes fora acrescentado em épocas ulteriores, um Goethe, talvez. E se a humanidade realizou alguns progressos desde então foi, unicamente, naqueles domínios que os antigos não tinham abordado, por considerarem supérfluas, prescindíveis e transitórias tais conquistas: a construção de máquinas, as armas de guerra cada vez mais eficientes para a transformação de vivos em mortos, as modificações da natureza em função de números e dinheiro. Levava o nosso homem uma vida serena, sem sobressaltos. Passeava em seu pequeno jardim, lendo e recitando poemas de Teócrito; coleccionava máximas antigas, e saboreava como um delicioso manjar os mais belos pensamentos, sobretudo os de Platão. Por vezes, sentia em sua vida uma certa estreiteza de horizontes e como que uma indigência de emoções, mas logo acudia a um sábio de priscas eras que lhe ensinava, em palavras lúcidas e convincentes, que a felicidade do homem não depende da diversidade e do imprevisto. O ser inteligente encontrá-la-á, igualmente, no autodomínio e na fidelidade a si próprio. Ora, certa vez, sua vida serena sofreu uma interrupção quando, durante a viagem a uma cidade vizinha, onde fora visitar uma famosa biblioteca, decidiu ir à noite ao teatro. Representava-se um drama de Shakespeare, que ele já conhecia dos tempos de escola mas daquele modo peculiar como se aprendem as coisas na escola e que, muitas vezes, nos tiram a vontade de recordá-las mais tarde. Ocupou seu lugar na ampla e escura sala, um pouco perturbado, pois não gostava de aglomerações. Ao subir o pano, não tardou que o nosso bibliômano se deixasse empolgar e angustiar pelo enredo do drama. Reconheceu que os artistas não eram mais do que razoáveis, mas, por cima de todos os obstáculos e deficiências, sentiu que era dominado por uma força avassaladora, ofuscado por m i l relâmpagos fulminantes, arrebatado por sensações que nunca experimentara antes. Atordoado, confuso, saiu do teatro mal o pano caiu sobre o último ato. Antes da viagem de regresso, aproveitou para comprar as obras completas daquele autor inglês e levou-as para casa. Logo no dia seguinte, passou horas delirantes lendo o Rei Lear, depois o Otelo, e o Hamlet, e o Romeu e Julieta, sentado, silencioso, dias e dias a fio, envolto numa tempestade de paixões, de pensamentos diabólicos, de aventuras fantásticas. Os meses passavam num constante delírio e, deslumbrado, compreendeu que uma outra face da vida lhe fora revelada, que um outro mundo se lhe abria. Vivia agora, dentro de casa ou no jardim, constantemente cercado pelas figuras da apaixonante galeria gerada por esse estranho poeta que parecia ter visto o mundo pelo avesso, que era uma contradição de carne e sangue daquela marmórea harmonia que os gregos lhe haviam ensinado e, entretanto, estava aparentemente com a razão e a verdade. Pela primeira vez, o mundo do bibliómano fora violentamente perturbado e sacudido em seu silêncio clássico… ou talvez já existisse algo em seu íntimo que fora agora acordado e começava a pulsar em suas veias com inquietas asas. Como tudo isso era estranho! Como tudo isso era novo! Esse Shakespeare, que já morrera há muitos anos, parecia ser um poeta despido de ideais ou, pelo menos, eram, bem diferentes dos dos antigos, pois a humanidade não era para ele um templo de recolhidos e sábios pensamentos, antes um oceano de gigantescas tempestades, onde navegavam e naufragavam seres frágeis, angustiados, ébrios de fatalidade mas capazes de viver num êxtase de sentidos enquanto não fossem tragados pelo destino! A humanidade do poeta movimentava-se no universo com as constelações, cada uma delas obedecendo a impulsos predeterminados, cumprindo sua rota em virtude de uma força constante que jamais lhes consente um desvio, até o dia em que se precipitam no abismo e se extinguem em cinzas. Quando, por fim, o bibliómano, como se tivesse despertado de uma bacanal, meditou sobre o que era e o que fora, e decidiu voltar aos seus clássicos gregos e latinos, notou perplexo que eles tinham um sabor muito diferente, um tanto insípido e mofado. Experimentou ler então alguns livros de poetas actuais. Estes, porém, não lhe agradaram. Interessavam-se apenas por coisas mesquinhas e triviais, .seus problemas eram insignificantes e pareciam não estar levando muito a sério o que escreviam. Mas a fome de novas e grandes sensações não mais deixou de estimular o nosso homem. Quem procura encontra. E, assim o autor que, a seguir, lhe chamou a atenção foi um norueguês chamado Hamsun. Um estranho poeta e um estranho livro. Segundo parecia, Hamsun — que ainda era vivo, ao que constava — dedicou sua vida a vaguear sozinho pelo mundo afora, sem destino certo, sem crença, meio ingénuo e meio degenerado, na busca eterna de sensações que, por momento, colocassem o seu coração em harmonia com a humanidade à sua volta. Esse poeta não criara um mundo, como Shakespeare, com que se pudesse dialogar, preferia falar de si próprio. Mas, em muitas passagens, o leitor era acometido de profundas emoções e, não poucas vezes, de dolorida amargura. Em outras passagens, porém, era obrigado a rir, de súbito — e também isso era uma experiência nova para ele, pois nunca a leitura de um clássico lhe dera azo a soltar uma boa gargalhada. Como era infantil , esse poeta, e que moço teimoso! Mas era fascinante, sem dúvida, e quem o lia não podia deixar de escutar longínquas e arrasadoras quedas de meteoros ou o trovejar de distantes ressacas em rochosas costas de exóticas terras. Tempos depois, o bibliómano encontrou um grosso volume que se intitulava Ana Karenina. Mais adiante, as poesias de Richard Dehmel. E pouco depois deu com as obras de Dostoiévski. Desde que começara a ler Shakespeare, a poesia como que passara a persegui-lo sem descanso. E, tão logo começava a sentir um certo vazio, surgia-lhe como que por encanto alguém realmente capaz de entusiasmá-lo de novo e com quem poderia falar. O nosso homem chorou e ficou longas noites sem dormir, debruçado sobre esses livros russos. Num momento de raiva, atirou Horácio para longe e desfez-se de uma boa quantidade dos seus outrora tão amados livros clássicos. Por mero acaso, caiu-lhe sob os olhos um livro em latim a que, até então, dera pouco valor. Sentiu então curiosidade de o ler e assim fez, de um só fôlego: eram as Confissões de Santo Agostinho. Depois voltou a Dostoiévski. Certo dia, ao entardecer, quando já estava cansado de ler e lhe doíam os olhos — pois já não era nenhum jovem — caiu em profundas cogitações. Em uma das altas estantes havia mandado gravar em letras douradas, que o tempo já desgastara, uma frase grega que dizia: “Conhece-te a ti mesmo!” Leu aquelas palavras e seu espírito se toldou. Sim, ele nada mais sabia de si mesmo, não se conhecia como antes, quando um verso de Horácio, uma ode de Píndaro, não só o extasiavam mas lhe abriam o caminho luminoso para o conhecimento de si próprio. Sim, em suas antigas leituras ele sentia algo pulsando dentro de si a que chamava humanidade. Com os poetas fora poeta, com os sábios fora sábio, promulgara leis e respeitara-as; e, com uma corajosa dignidade, afastara-se do tumulto da natureza sem alma, renunciara a um mundo de trevas e vícios, caminhando sempre pelo caminho da Luz. Agora tudo isso fora destruído. Não só havia lido terríveis histórias de homicídio, latrocínios, paixões pecaminosas, suicídios, ódios, ambições desvairadas, injustiças, mas também se deslumbrara e fascinara por esse estranho mundo, também amara, assassinara, tinha chorado e pecado, rira e debochara, tinha caído nos abismos mais nefandos do crime, da miséria, da perdição; trêmulo de desejos e instintos latejantes, fora atraído para domínios proibidos e sentira, simultaneamente, medo e prazer! Suas meditações não deram frutos. Pelo contrário, não tardou a buscar febrilmente novos e estranhos livros. Embriagou-se no ambiente depravado e excitante de. Óscar Wilde, perdeu-se nos meandros nostálgicos e desencantados de Flaubert, leu alguns recentes poetas franceses que lhe pareciam ferozmente hostis à antiga ordem, a tudo o que era harmonia clássica dos helenos e latinos, e que pregavam a revolta, a anarquia, a grandeza do vicio, glorificando o feio e cortejando o horror. E o nosso homem concluía que também eles tinham razão, que também tudo isso existia na humanidade, e que assim tinha de ser. Escondê-lo seria uma fraude. A maior de todas as mentiras é querermo-nos evadir à realidade do sangrento caos da vida. Seguiu-se um período de abatimento e invencível cansaço. Cada livro que tomasse entre as mãos só lhe evocava novos e perturbadores sentimentos que o distanciavam mais e mais do seu antigo mundo apolíneo. Sentiu-se doente, velho e enganado. Um sonho revelou-lhe seu verdadeiro estado. Sonhou que estava empenhado em erguer uma gigantesca muralha feita apenas de livros. A muralha crescia, crescia, e ele já não podia ver o mundo em seu redor e o próprio sol não penetrava mais no espesso muro de livros. A obrigação dele era empilhar todos os livros do universo e construir um gigantesco monumento. De repente, uma parte da edificação começou balançando, livros escorregavam e caíam no vazio, uma estranha luz penetrou pelas frestas abertas e, do outro lado da muralha em ruínas, ele viu algo pavoroso, viu um caos apocalíptico de formas e figuras, de seres humanos e paisagens, de recém-nascidos e moribundos, crianças e tigres, répteis e soldados, cidades ardendo e navios naufragando, gritos alucinados e exclamações de júbilo, sangue correndo, vinho escorrendo, archotes que corriam de um lado a outro, deslumbrantes e cínicos… e acordou de súbito, sobressaltado, desceu da cama, torturado por um peso esmagador sobre o coração. Foi até à janela do seu quarto em silêncio e deixou-se ficar imóvel, iluminado apenas pelo luar. Reconheceu as árvores defronte da janela e o livro que repousava sobre a mesinha-de-cabeceira. E, num lampejo fulminante, percebeu tudo: Fora enganado, fora novamente enganado por todos! Tinha lido, folheara milhares e milhares de páginas; devorara papel e tinta com os olhos e, entrementes, por detrás da obscena muralha de livros, a vida passara em vertiginosa cavalgada, queimando corações, agitando paixões, gerando amores e crimes, abnegações e egoísmos, renúncias e ambições, esparzindo sangue e vinho, derrotas e triunfos. É nada disso lhe pertencera, em nada disso estivera, nada lhe passara pelas mãos… nada!, apenas aquelas finas e lisas sombras estampadas nas folhas de papel de seus livros! N ã o voltou para a cama. Desalinhado, saiu e correu pela cidade, correu por cem ruas à luz dos mortiços lampiões, olhando para milhares de janelas escuras, ouvindo atrás das portas fechadas o ruído de centenas de vozes alegres, ameaçadoras, esperançosas, desesperadas. Despontou a manhã, as ruas acordaram e, como um ébrio sem rumo, continuou vagando na pálida luz da alvorada, a cabeça estonteada, as pernas doridas, prestes a desfalecer. Uma moça pálida e de aspecto doentio apareceu à sua frente; ele cambaleou e a moça levou-o consigo. Na alcova dela, o nosso homem viu-se recostado numa cama simples e desataviada, sobre a qual havia um leque japonês, cheio de poeira e teias de aranha. Viu a moça brincando com as suas moedas de dez talentos entre os dedos e agarrou-lhe a mão fina e exangue: Não me deixes só! Ajude-me! Sou velho, não tenho ninguém, só a t i ! Fica comigo! Talvez eu já nada mais tenha a esperar senão doença e morte. Mas, ao menos, quero sofrer e morrer eu mesmo com o meu próprio sangue e o meu coração. Como és bonita! Importas-te que eu te toque? Não? Como és gentil. Imagina que passei toda minha vida enterrado, enterrado em montanhas de papel! Podes entender o que isso significa? Não? Tanto melhor. Oh, ainda quero viver, ainda viveremos, sim! O sol já nasceu? Pela primeira vez verei o sol com os meus olhos! A moça sorria, alisava-lhe os cabelos com suas finas mãos e escutava Não entendia o homem e, na luz cinza da madrugada, parecia ser uma frágil e mísera criatura. Também ela passara a noite inteira na rua. Sim, sim , vou te ajudar — disse ela. — Fica calmo, eu te ajudarei.


Hermann Hesse

13/04/2011

Guilherme Mona


Vivia na aldeia de Fouly, faz alguns anos, um pobre camponês chamado Guilherme Mona. Todas as noites um urso ia roubar-lhe as pêras, porque para esses animais tudo serve. Ele se dirigia, contudo, de preferência a uma pereira carregada de pêras d'água. Quem suspeitaria que um animal desses possuísse gostos iguais aos dos homens e que fosse escolher num pomar justamente as pêras d'água? Ora, por desgraça o camponês de Fouly também preferia essas pêras a todos os demais frutos. A princípio ele julgou que as crianças fossem responsáveis pelos danos ao pomar; por isso apanhou o fuzil, carregou-o com sal grosso de cozinha e pôs-se à espreita. Cerca de onze horas, reboou pela montanha um rugido. “Ora essa, disse ele, há um urso nas proximidades.” Dez minutos depois se ouviu um segundo rugido, mas tão forte, tão próximo, que o camponês pensou não dispor de tempo para alcançar sua casa e estendeu-se a fio comprido no chão, alimentando uma única esperança: a de que o urso viesse atrás das pêras e não dele.
De fato, o animal apareceu quase imediatamente a um canto do pomar e dirigiu-se em linha recta para a pereira em questão, passou a dez passos de Guilherme, subiu rapidamente na árvore, cujos galhos estalavam ao peso de seu corpo, e pôs-se a causar aí tais estragos que se tornava evidente serem bastantes duas visitas iguais àquela para a terceira se tornar inútil. Quando se fartou, o urso desceu vagarosamente, como se lhe pesasse fazê-lo, tornou a passar junto ao nosso caçador, a quem o fuzil carregado de sal não poderia ser muito útil, naquela situação, e retirou-se tranquilamente para a montanha. Tudo isso durara cerca de uma hora, durante a qual o tempo parecera maior para o homem que para o urso.
0 homem era valente, entretanto…, e dissera baixinho, ao ver o urso afastar-se: “Está bem, vai-te, mas isto não ficará assim, tornaremos a nos ver.” No dia seguinte, um vizinho que fora visitá-lo encontrou-o serrando em pedaços os dentes de um forcado.
- Que estás a fazer? – perguntou-lhe:
- Divirto-me, – respondeu Guilherme.
0 vizinho apanhou os pedaços de ferro, votou-se em todos os sentidos, como homem que sabe o que pensar, e depois de reflectir um instante disse: “Olha, Guilherme, se queres ser franco confessa que estes pedacinhos de ferro estão destinados a furar uma pele mais grossa que a de um camelo.
-Talvez – respondeu Guilherme.
- Sabes que sou boa pessoa – prosseguiu Francisco (era o nome do vizinho), – pois bem! se quiseres, enfrentaremos ambos o urso: mais valem dois homens que um só.
- Depende, – disse Guilherme. E continuou a serrar um terceiro pedaço de ferro.
- Olha, – continuou Francisco, ficarás com a pele sozinho; apenas dividiremos a prémio e a carne.
- Prefiro tudo – disse Guilherme.
- Mas não me podes impedir de procurar o rastro do urso na montanha e, caso o encontre, de me emboscar em seu caminho.
- És livre de fazê-lo.
E Guilherme, que acabara de serrar seus três pedaços de ferro, começou, assobiando, a preparar uma carga de pólvora duas vezes maior do que a geralmente usada em carabinas.
- Parece-me que vais usar teu fuzil, – disse Francisco.
- Claro! Três pedaços de ferro são mais seguros que uma bala de chumbo.
- Isso estraga a pele.
- Porém mata mais depressa.
- E quando pretendes fazer a caçada?
- Saberás amanhã.
- Pela última vez, não queres?
- Não.
- Previno-te que vou procurar o rastro.
- Divirta-se.
- Nós ambos, não?
- Cada qual por si.
- Adeus, Guilherme!
- Boa sorte, vizinho!
E o vizinho, ao se afastar, viu Guilherme colocar no fuzil a dupla carga de pólvora, carregá-lo com os três pedaços de ferro e encostar a, arma a um canto do aposento. A noite, voltando a passar em frente à casa, avistou, no banco junto à porta, Guilherme sentado, a fumar tranqüilamente seu cachimbo. Procurou-o novamente. “Olha, disse-lhe, não guardo rancor. Achei o rastro do nosso animal; de modo que não mais preciso de ti. Contudo, proponho-te mais uma vez trabalharmos juntos.
- Cada qual por si – disse Guilherme.
As dez e meia, sua mulher viu-o apanhar o fuzil, dobrar de baixo do braço um saco de cor cinzenta e sair. Não ousou perguntar-lhe aonde ia. Francisco, por seu lado, realmente encontrara o rastro do urso; seguira-o até o instante em que penetrara no pomar de Guilherme. E, não tendo o direito de ficar de tocaia nas terras de seu vizinho, postou-se no pinheiral que fica a meio caminho entre a montanha e o pomar de Guilherme.
Como a noite estivesse muito clara, viu este último sair de casa pela porta dos fundos. Guilherme caminhou até um rochedo acinzentado que rolara da montanha até o meio de sua propriedade e que ficava a vinte passos, quando muito, da pereira, deteve-se aí, olhou para o saco, meteu-se dentro dele, deixando aparecer apenas a cabeça e os braços, e apoiando-se à rocha, depressa confundiu-se a tal ponto com a pedra, graças à cor do saco e à imobilidade em que se conservava, que o vizinho, embora ciente de que ele ali estava, não conseguia distingui-lo. Um quarto de hora decorreu assim à espera do urso. Por fim, um rugido prolongado anunciou-o. Cinco minutos após Francisco avistou-o.
Mas, fosse por malícia, fosse por ter farejado o segundo caçador, ele não seguia o caminho habitual; fizera, pelo contrário, uma volta, e em vez de passar à esquerda de Guilherme, como acontecera na véspera, passava agora à sua direita, fora do alcance da arma de Francisco, mas a dez passos, no máximo, do fuzil de Guilherme.
Guilherme não se moveu. Poder-se-ia julgar que nem mesmo estivesse vendo a fera que ele fora tocaiar e que parecia desafiá-lo passando tão próximo. 0 urso, ao qual o vento não ajudava, pareceu, por seu lado, ignorar a presença de um inimigo, e continuou rapidamente seu caminho em direção à árvore. Mas no instante em que, erguendo-se nas patas traseiras, abraçou o tronco com as patas dianteiras, descobrindo o peito, que seus grossos ombros não mais protegiam, brilhou de súbito um sulco rápido de luz junto ao rochedo e todo o vale reboou com a descarga do fuzil provido de dupla carga, de pólvora, e com os bramidos do animal, mortalmente ferido. Não houve uma pessoa sequer na aldeia, talvez, que não ouvisse a detonação do fuzil de Guilherme e o bramido do urso. Este fugiu, tornando a passar, sem velo, a dez passos de Guilherme, que tornara a meter os braços e a cabeça no saco confundindo-se outra vez com o rochedo.
0 vizinho olhava semelhante cena apoiado nos joelhos e na mão esquerda, apertando a carbina com a direita, pálido e contendo a respiração; não obstante tratar-se de um caçador arrojado, confessou-me que, nesse instante, preferia estar em sua cama a estar ali na tocaia.
Muito pior foi quando ele viu o urso ferido, depois de dar uma longa volta, tentar seguir o caminho da véspera, que o levava diretamente onde ele se encontrava. Fez o sinal da cruz, porque nossos caçadores são religiosos, encomendou a alma a Deus e verificou se a carabina estava pronta para disparar. 0 urso estava somente a cinqüenta passos, rugindo de dor, parando para torcer-se e morder o flanco no lugar do ferimento, e depois continuando a avançar.
Cada vez mais se aproximava. Estava apenas a trinta passos. Mais dois segundos e iria chocar-se contra o cano da carabina do vizinho quando parou de repente, aspirou ruidosamente o vento que soprava do lado da aldeia, soltou um bramido terrível e voltou para o pomar.
- Cuidado, Guilherme! Cuidado! – exclamou Francisco precipitando-se atrás do urso e tudo esquecendo para apenas pensar no amigo, porque bem via que se Guilherme ainda não houvesse carregado de novo o fuzil, estaria perdido. Não dera dez passos quando ouviu um grito. Um grito humano, um grito ao mesmo tempo de dor e de agonia; um grito no qual a pessoa que o soltava reunira todas as forças de seu peito, todos os seus rogos a Deus, todos os seus pedidos de socorro aos homens: “A mim!…”
Depois, mais nada, nem sequer um lamento sucedeu ao grito de Guilherme.
Francisco não corria, voava; o declive do terreno acelerava-lhe a corrida. A medida que se aproximava, distinguindo cada vez mais nitidamente o monstruoso animal que se movia na sombra, pisando o corpo de Guilherme e despedaçando-o.
Francisco estava a quatro passos deles, e o urso estava tão embravecido que não dera mostra de vê-lo. Ele não se atrevia a atirar, com receio de matar Guilherme, se este ainda não houvesse morrido, porque tremia tanto que não podia responder por sua pontaria. Apanhou uma pedra e jogou-a no urso. 0 animal voltou-se enfurecido contra o novo inimigo; estavam tão próximos um do outro que o urso levantou-se nas patas traseiras para sufocá-lo; Francisco sentiu-o empurrar com o peito o cano da carabina. Premiu, maquinalmente, o dedo no gatilho e o tiro partiu. 0 urso caiu para trás, a bala atravessara-lhe o peito e partira-lhe a coluna vertebral.
Francisco deixou-o arrastar-se, bramindo, sobre as patas dianteiras, e correu para Guilherme. Este não era mais um homem, nem mesmo era um cadáver: dele restavam apenas ossos e carne esmagada, a cabeça estava quase completamente devorada.
Como visse então, pelo movimento das luzes atrás das janelas, que muitos habitantes da aldeia haviam despertado, gritou repetidas vezes, indicando o lugar onde se encontrava. Alguns camponeses acudiram com armas, porque tinham ouvido os gritos e os tiros. Depressa toda a aldeia se encontrou reunida no pomar de Guilherme. Sua mulher veio com os outros. Foi uma cena horrível. Todos os presentes choravam como crianças. Fizeram para ela, no vale do Ródano, uma colecta que rendeu 700 francos. Francisco deu-lhe o prémio que recebeu, bem como lhe entregou o produto da venda da pele e da carne do urso. Finalmente, todos se esforçaram em ajudá-la e socorrê-la.


Alexandre Dumas, Pai

08/04/2011

O amor acaba



O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.



Paulo Mendes Campos,
in "13 melhores contos de amor da literatura brasileira".
Strausz, Rosa Amanda (org.).
Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.