29/03/2011

A máscara da morte



No dia de S. Miguel, quando as ave-marias batiam no convento do Carmo, uma elegante berlinda de viagem puxada por quatro cavalos de posta rolava com estrondo pelas ruas da pequena cidade de Lilinitz, nas fronteiras da Polônia, indo parar diante do portão da casa que o velho burgomestre alemão habitava.
Os filhos do burgomestre, cheios de curiosidade, correram para a janela; mas a dona da casa levantou-se e atirou zangada para cima da mesa com os apetrechos de costura.
- Maldita idéia a tua de mandares dourar a pomba de pedra, que encima a porta! - disse ela ao marido, que saía precipitadamente dum quarto próximo. - Aí tens mais viajantes, que tomam a nossa casa por uma hospedaria!
O velho sorriu com malícia, sem responder uma única palavra. Despiu num instante o roupão e vestiu o seu fato de cerimônia, o qual, escovado com cuidado quando o envergara para ir à igreja, estava estendido nas costas duma cadeira. Antes que a mulher estupefata tivesse aberto a boca para o interrogar, correra para a portinhola da berlinda que um criado abrira. O burgomestre tinha debaixo do braço o seu boné de veludo, e na obscuridade do crepúsculo brilhava-lhe a cabeça com reflexos de prata.
Uma senhora idosa, envolvida num manto cinzento de viagem, desceu da carruagem, seguida por outra mais nova com o rosto velado; esta encostou-se ao braço do burgomestre e encaminhou-se para a habitação, mais arrastando-se do que andando. Logo que entrou no aposento foi cair, meio desmaiada, numa poltrona, que, a um sinal do marido, a dona da casa se apressara em oferecer-lhe.
- Pobre criança! - disse a senhora idosa ao burgomestre, em voz baixa e melancólica. É preciso que fique alguns instantes ao pé dela.
E, ajudada pela filha mais velha do burgomestre, tirou o manto de viagem. O seu vestido de freira e a brilhante cruz, que trazia ao peito, denunciavam-na como abadessa dum convento da ordem de Cister.
Entretanto a dama velada não dera sinais de vida a não ser um gemido fraco, pouco perceptível. Pediu por fim um copo d'água à dona da casa. Esta foi buscar toda a qualidade de elixires e de licores fortificantes, cujas propriedades maravilhosas elogiou, e pediu licença à dama para lhe tirar o véu espesso, que devia dificultar-lhe a respiração. Mas foram inúteis as instâncias da mulher do burgomestre; a dama repeliu-lhe a mão voltando a cabeça com sinais de terror. A doente bebeu dois os três goles d'água, na qual a serviçal dona da casa deitara algumas gotas dum poderoso cordial; consentiu também em respirar um frasco de sais, mas sem levantar o véu.
- Preparou tudo como lhe foi indicado? - perguntou a abadessa ao burgomestre.
- Sim, minha senhora, respondeu o ancião; espero que o nosso sereníssimo príncipe fique contente comigo, bem como esta senhora, para quem tudo preparei o melhor que pude.
- Bem. Deixem-me por alguns instantes a sós com a pobre criança, tornou a abadessa.
A família saiu do aposento. Ouviram a abadessa falar à dama com fervor e unção e esta pronunciar algumas palavras num tom que comovia profundamente o coração.
Sem querer escutar, a dona da casa ficara junto à porta do quarto. Falavam italiano, o que contribuía para tornar a aventura mais misteriosa e aumentava a angústia da mulher do burgomestre.
Este disse à filha e à mulher que preparassem vinho e refrescos e tornou logo a entrar no aposento.
A dama velada estava em frente da abadessa, com a cabeça inclinada, as mãos postas, parecendo mais sossegada. A abadessa aceitou alguns refrescos, que a dona da casa lhe ofereceu. Depois disse comovida:
- Vamos, já é tempo!
A dama velada caiu de joelhos. A abadessa estendeu-lhe as mãos sobre a cabeça e murmurou uma oração.
Depois abraçou-a, apertando-a contra o coração com urna veemência que bem provava o excesso da sua dor, e o rosto banhou-se-lhe de lágrimas. Com uma imponente dignidade abençoou a família e, ajudada pelo velho, subiu precipitadamente para a berlinda, cujo tiro havia sido renovado.
O postilhão excitou os cavalos, que rinchavam ruidosamente, e a carruagem afastou-se com rapidez.
Quando a dona da casa compreendeu que a dama velada, para quem haviam tirado da berlinda duas pesadas malas, ia ficar talvez por mui tempo ali hospedada, não pôde evitar um penoso sentimento de inquietação e de curiosidade. Foi ter com o marido ao vestíbulo, detendo-o na ocasião em que ia voltar para o aposento.
- Em nome do Cristo, murmurou ela com voz perturbada; quem meteste em casa? Porquê, estando tu prevenido de tudo, nada me disseste?
- Dir-te-ei tudo o que sei, respondeu tranqüilamente o ancião.
- Ah! Ah! - prosseguiu a mulher redobrando de agitação; mas talvez que tu não saibas tudo, pois não estavas há pouco no aposento. Logo que a senhora abadessa saiu, a dama, naturalmente incomodada pelo espesso véu, tirou-o e vi...
- Então o que viste? - interrompeu o velho.
A mulher tremia e passeava em torno de si uns olhares espantados, como se houvesse visto um espectro.
- Nada, continuou ela. Não pude distinguir completamente as feições, porque o rosto ficou coberto por outro véu mais fino, mas pareceram-me as dum cadáver, duma horrorosa cor de cadáver. E também deves notar que é evidente, o mais evidente possível, claro como o dia, que a dama está grávida. O parto não deve demorar-se muitas semanas.
- Já o sabia, mulher, disse o burgomestre com modos desagradáveis. E com medo de que caias doente de inquietação e curiosidade, vou esclarecer-te este mistério em duas palavras. O príncipe Zapolski, nosso poderoso protetor, escreveu-me há algumas semanas, dizendo-me que a abadessa do convento cisterciense de Oppeln me traria uma dama, pediu que eu a recebesse em minha casa, sem ruído, e evitando com cuidado olhares indiscretos. A dama, apresentada com o nome de Celestina, terá em minha casa o parto e depois ir-se-á embora com a criança. O príncipe recomendou-me com instância que tivesse para com ela as maiores atenções. Para me indenizar de despesas e trabalhos, mandou-me uma grande bolsa cheia de ducados, que podes ver, se quiseres remexer na minha cômoda. Acabaram-se-te os escrúpulos?
- Somos então obrigados, disse a mulher, a auxiliar os pecados que os grandes cometem?
Antes que o ancião tivesse tempo de responder, a filha saiu do aposento e disse que a dama, tendo necessidade de descanso, desejava ser conduzida ao quarto que lhe era destinado.

II

O burgomestre fizera arranjar o melhor possível dois pequenos quartos no andar superior e ficou seriamente embaraçado quando Celestina lhe perguntou se, além daquelas duas divisões, não tinha nenhuma outra, cuja janela desse para as traseiras da casa.
Respondeu negativamente, ajuntando, por descargo de consciência, que havia outro quarto mui pequeno, com uma só janela para o jardim, mas que a bem dizer não era um quarto e sim uma péssima mansarda, uma miserável cela, em que só cabia uma cama, uma mesa e uma cadeira.
Celestina pediu logo para ver o tal quarto e, assim que entrou, declarou que era exatamente o que desejava, e que mudaria para outro mais espaçoso, se tivesse necessidade duma enfermeira.
O burgomestre comparara o pequeno quarto a uma cela; desde o dia seguinte esta comparação tornou-se bem exata. Celestina pregou na parede uma imagem da Virgem Maria e colocou em cima da mesa um crucifixo. O leito era um saco de palha com um cobertor de lá. Exceto um escabelo de pau e outra mesa mais pequena, Celestina recusou quaisquer outros móveis.
A dona da casa, reconciliada com a desconhecida pela compaixão que lhe causava a profunda e dilacerante dor demonstrada pelo seu aspecto, julgou do seu dever ir fazer-lhe uma visita, ela porém, rogou-lhe com as mais enternecedoras instâncias que não lhe perturbasse a solidão onde encontrava as consolações que a Virgem e os santos lhe dispensavam.
Todas as manhãs, logo ao despontar do dia, Celestina ia ouvir a missa das almas ao convento do Carmo.
Parecia consagrar o resto do dia a exercícios de devoção, pois que, sempre que havia necessidade de entrar no quarto, a encontravam orando ou lendo livros religiosos.
Só comia legumes e só bebia água. O burgomestre representou-lhe que o seu estado e a conservação da sua saúde exigiam melhor alimentação, mas só à força de muitas súplicas conseguiu que ela aceitasse um pouco de caldo e de vinho.
As pessoas de casa consideravam este modo de vida austero, claustral, como expiação duma falta grave; todavia sentiam pela desconhecida uma comiseração e veneração profundas, aumentadas pela nobreza das suas maneiras e pela cativante graça dos seus movimentos. Mas a persistência em nunca levantar o véu, misturava a estes sentimentos uma espécie de terror. A não ser o burgomestre e a família, ninguém dela se aproximava, e os habitantes, que nunca haviam saído da pequena cidade, não podiam reconhecer as feições dum rosto que nunca tinham visto e não conseguiam assim desvendar o mistério. Para que servia então o tal véu?
A ativa imaginação feminina inventou logo uma história medonha.
Um terrível sinal, diziam as mulheres, a marca das garras do diabo, arrogara horrorosamente o rosto da desconhecida; daí o uso do véu.
O burgomestre teve mui trabalho em reprimir as murmurações, e em impedir que, pelo menos defronte da casa, não se juntassem fazendo errôneas conjecturas a respeito da desconhecida, cujos passeios ao convento do Carmo também foram notados. Passaram a chamar-lhe "a dama negra do burgomestre", qualificação que envolvia a idéia duma aparição sobrenatural.
O acaso quis que um dia, quando a filha do burgomestre levava o jantar a Celestina, uma corrente de ar erguesse o véu. A desconhecida voltou-se com a rapidez do relâmpago, para se subtrair ao olhar da rapariga; esta empalideceu e pôs-se a tremer; não lhe distinguira as feições, mas como sua mãe, vira uma face cadavérica dum branco marmóreo, e, profundamente encovados, uns olhos de fulgor estranho.
O burgomestre combateu com razões as idéias da rapariga, mas ele próprio não estava mui longe de as partilhar e desejava ver sair de sua casa essa desconhecida, que ali levara a inquietação, não obstante a devoção de que fazia tanto alarde.
Uma noite, o ancião acordou a mulher e disse-lhe que já há alguns minutos ouvia queixumes, e gemidos, acompanhados de ligeiras pancadas, que pareciam vir do quarto de Celestina. A dona da casa, pressentindo o que seria, correu ao quarto da desconhecida. Foi encontra-la vestida e envolvida no véu, deitada na cama quase sem sentidos e convenceu-se de que o parto estava próximo. Desde há mui que os preparativos necessários se achavam feitos, e, pouco tempo depois, nasceu um menino encantador e bem constituído.
Este acontecimento teve por efeito o acabar com o constrangimento que tornava pouco agradáveis as relações da família com Celestina. A criança era como que o medianeiro da reconciliação da mãe com a humanidade. O estado de Celestina não lhe permitia as práticas ascéticas, e a necessidade que tinha dos cuidados assíduos dos seus semelhantes habituou-a gradualmente à sua presença. A dona da casa, que tratava da doente e que por suas próprias mãos lhe preparava os caldos nutritivos, esqueceu, entregando-se a estes trabalhos domésticos, a desconfiança que desde o começo lhe inspirara a enigmática desconhecida. O burgomestre, todo contente, brincava e ria com o pequeno como se ele fosse seu neto e acostumou-se, assim como o resto da família, a ver Celestina sempre com o véu, que nem mesmo por ocasião das dores de parto quisera tirar. A parteira fora obrigada a jurar-lhe que, mesmo no caso dum desmaio, não lhe tiraria o véu, o que só faria, no caso de eminente perigo. Era certo que a mulher do burgomestre vira Celestina sem o véu, mas aquela limitava-se a dizer:
- Pobre senhora! Bem precisa de esconder o rosto!
Dias depois voltou o monge do convento do Carmo que batizou a criança. A sua conversação com Celestina, que ninguém se atreveu a ir perturbar, durou mais de duas horas. Ouviram-no falar acaloradamente e orar. Logo que ele saiu, foram encontrar Celestina sentada numa poltrona, com o filho deitado nos joelhos; a criança tinha os ombros cobertos com um escapulário e via-se-lhe ao peito um Agnus Dei.
Semanas e meses se passaram sem que viessem buscar Celestina e o filho, como o burgomestre esperava e como lhe afirmara o príncipe Zapolski. A desconhecida entraria na intimidade da família se não fosse o fatal véu. O burgomestre lembrou-se um dia de lhe pedir explicações, porém ela respondeu com voz surda e solene:
- Só trocarei este véu pela mortalha.
O burgomestre calou-se e de novo desejou a volta da berlinda e da abadessa.

III

Tornara a primavera; a família do burgomestre voltava dum passeio e trazia ramalhetes de flores, as mais belas das quais eram destinadas à devota Celestina.
Na ocasião em que iam a entrar em casa, parou um cavaleiro defronte da porta. Trazia o fardamento dos oficiais de caçadores da guarda imperial francesa; perguntou com instância pelo burgomestre.
- Sou eu, disse o ancião, e está à minha porta.
O cavaleiro apeou-se rapidamente, prendeu o cavalo a um poste e correu para dentro de casa, gritando com voz estridente:
- Ela está aqui! Ela está aqui!
Subiu rapidamente a escada. Ouviu-se uma porta que se abria, e Celestina dar um grito de angústia. O burgomestre acudiu cheio de medo.
O desconhecido arrancara a criança do berço, envolvera-a no manto, e agarrava-lhe com o braço esquerdo enquanto com o direito repelia Celestina, que empregava todos os esforços para tirar o filho ao raptor. Nesta luta, o oficial fez cair o véu e viram então um rosto pálido e inanimado, assombreado por madeixas de cabelos negros, uns olhos que dardejavam relâmpagos e uns lábios imóveis e entreabertos donde saíam clamores estridentes.
O burgomestre compreendeu que Celestina tinha uma máscara branca estreitamente ligada ao rosto, cujos contornos desenhava.
- Horrível mulher! - gritou o oficial, queres que eu partilhe a tua loucura?

E repeliu Celestina com tanta força que esta caiu no chão. A pobre senhora abraçou-lhe os joelhos, esmagada por urna dor invencível.
- Deixa-me essa criança, disse ela num tom suplicante, que dilacerava o coração. Pela tua salvação eterna, não ma roubes! Em nome do Cristo e da Virgem Santa, dá-me essa criança!
E, apesar destas veementes lamentações, nenhum músculo mexia; os lábios daquele rosto de cadáver ficavam imóveis; os circunstantes sentiam que o sangue se lhes gelava nas veias, de horror.
- Não! - retorquiu o oficial, como que arrebatado pelo desespero, não, mulher desumana e inexorável! Podes arrancar-me o coração, mas, no teu delírio funesto, não deves perder este ente, que o céu destinou a minorar as dores duma ferida que sangra ainda!
O oficial apertou com mais força a criança contra o seio; esta pôs-se a chorar e a gritar.
- Vingança! - uivou Celestina com voz surda - que o castigo do céu caia sobre ti, assassino!
- Deixa-me, deixa-me, afasta-te, aparição saída do inferno - exclamou o oficial.
E, empurrando com o pé Celestina, com um movimento brusco, tentou alcançar a porta. O burgomestre embargou-lhe a passagem, mas o oficial puxou rapidamente por uma pistola e apontou-a ao velho.
- Uma bala na cabeça daquele que tentar tirar o filho a seu pai!
Dizendo isto, desceu precipitadamente a escada, correu para o cavalo, sem largar a criança, e partiu a galope.
A dona da casa, com o coração comprimido, dominando o horror que lhe inspirava a terrível máscara de cadáver, entrou no quarto no intuito de consolar Celestina; foi encontrar a pobre mãe no meio da casa, imóvel e muda como uma estátua, com os braços pendentes. Não podendo suportar a vista da máscara, a mulher do burgomestre pôs a Celestina o véu que caíra no chão. Esta não pronunciou uma palavra, não fez um movimento; estava reduzida ao estado de autômato. Ao vê-la assim, a mulher sentiu redobrar a sua inquietação e ansiedade e pediu a Deus que a livrasse da funesta desconhecida.
Fora ouvida aquela prece, porque imediatamente a berlinda que trouxera Celestina parou defronte da porta. A abadessa entrou acompanhada pelo príncipe Zapolski.
Quando este soube o que acabava de passar-se, disse com mui sossego, suavemente:
- Chegamos mui tarde! Submetamo-nos à vontade de Deus!
Celestina foi levada e colocada na carruagem, sem movimento, sem fala, sem dar o mínimo sinal de vontade, de pensamento. A berlinda partiu.
O ancião e a família como que acordavam dum mau sonho, que os enchera de inquietações.
Pouco depois das cenas passadas em casa do burgomestre, era enterrada com uma solenidade desacostumada, uma religiosa da ordem de Cister, em Oppeln. Correu o boato de que esta freira era a condessa Hermenegilda de Czernski, que todos julgavam estar em Itália com a irmã do pai, a princesa Zapolski.
Pela mesma época, o conde Nepomuceno Czernski, pai de Hermenegilda, veio a Varsóvia e reservando para si apenas uma pequena propriedade na Ucrânia, renunciou ao resto dos seus bens a favor dos dois filhos do príncipe Zapolski, seus sobrinhos. Perguntaram-lhe se dotava a filha; por única resposta ergueu ao céu os olhos úmidos de lágrimas, dizendo com voz surda:
- Já está dotada!
Não empregou meio algum para confirmar o boato da morte de Hermenegilda no convento de Oppeln, nem para destruir as suposições que faziam sobre a sorte da filha, que todos julgavam como vítima levada prematuramente ao túmulo pela dor.
Vários patriotas polacos, humilhados, mas não abatidos pela queda da pátria, procuraram fazer entrar de novo o conde numa associação secreta, que se destinava à libertação da Polônia; mas não encontraram já nele o homem ardente, amante entusiástico da liberdade e da pátria, cuja coragem heróica outrora os auxiliara nas suas nobres empresas. Tornara-se um velho sem energia, feito misantropo por uma dor profunda, estranho a todas as cousas mundanas.

IV

Outrora, na época em que o primeiro desmembramento da Polônia excitou uma sanguinolenta insurreição, o castelo do conde Nepomuceno de Czernski fora teatro das secretas reuniões dos patriotas.
Ali, em banquetes solenes exaltavam-se os conjurados, jurando combater pela oprimida pátria. Hermenegilda aparecia no meio destes heróis, como um anjo descido dos céus para os abençoar. Tinha a índole das mulheres da sua nação; tomava parte em tudo, até mesmo nas deliberações políticas; examinava com atenção o estado das cousas, e, apesar de não ter ainda dezessete anos, combatia por vezes o modo de ver geral; a sua opinião, ditada pelo bom senso e por uma extraordinária penetração, arrastava a maioria da assembléia.
Segundo Hermenegilda, ninguém era melhor conselheiro, ninguém examinava melhor as questões do que o conde Estanislau de Ramskay, mancebo de vinte anos, ardente e dotado de grandes qualidades. Acontecia, pois, que, por vezes, Hermenegilda e Estanislau dirigiam o curso das discussões difíceis. A sós, examinavam, aceitavam, rejeitavam e emendavam as propostas; e quase sempre o resultado destas conferências era adotada por velhos hábeis em tratar dos negócios do Estado, e cuja prudência e capacidade eram comprovadas pelos seus conselhos de outrora.
Natural era pensar numa união entre os dois jovens, cujos maravilhosos talentos podiam ser instrumento da salvação da pátria. Além disto a política parecia exigir uma aliança estreita entre as duas famílias, porque as julgavam animadas, uma contra a outra, por interesses opostos, circunstância esta que já arrastara à ruína muitas famílias polacas.
A donzela, compenetrada destas idéias, aceitou como dádiva da pátria, o esposo que lhe destinavam. As patrióticas reuniões do castelo terminaram pelos solenes esponsais de Hermenegilda e Estanislau.
Sabe-se como sucumbiram os polacos e como a queda de Kosciusko produziu a ruína de uma empresa baseada na demasiada confiança que os combatentes tinham em si próprios, em falsas previsões e numa fidelidade cavalheiresca.
O conde Estanislau, cuja estréia na carreira militar, juventude e força lhe marcavam um lugar no exército, bateu-se com a coragem do leão; a custo escapou a um vergonhoso cativeiro e ficou gravemente ferido. Só Hermenegilda o prendia então à vida; julgava ir encontrar nos seus braços consolações e a esperança que perdera. Logo que as feridas começaram a cicatrizar, correu ao castelo do conde Nepomuceno, onde ia ser ferido de novo e mais profundamente.
Hermenegilda recebeu-o com altivez quase desdenhosa.
- Onde está o herói que queria morrer pela pátria? - perguntou ela, indo-lhe ao encontro.
No seu louco entusiasmo parecia considerar o noivo como um paladino dos tempos heróicos, cuja espada podia, por si só, aniquilar exércitos.
Em vão o conde implorou com o mais apaixonado amor, em vão protestou que nenhum poder humano podia lutar contra a torrente devastadora, que caíra mugindo sobre a malfadada Polônia; foi tudo inútil. Hermenegilda, cujo coração frio como a morte só podia aquecer no turbilhão das cousas mundanas, persistiu na resolução de só conceder a sua mão ao conde Estanislau, quando os estrangeiros fossem expulsos da pátria.
O conde viu já tarde que Hermenegilda o não amava; a condição que esta lhe impunha, se viesse a realizar-se, só se daria num tempo mui longínquo. Jurou à sua bem amada que lhe seria fiel até à morte, e deixou-a para ir alistar-se no exército francês, que combatia em Itália.
Diz-se que as mulheres polacas têm uma índole fantástica que lhes é própria. Sensibilidade profunda, inconstância, abandono, abnegação estóica, paixões ardentes, frieza glacial, tudo isto se contém à mistura na sua alma, e produz à superfície espantosas instabilidades. Os caprichos do seu gênio variável, assemelham-se aos redemoinhos dum ribeiro revolvido nas suas profundezas, à superfície do qual sobem sem cessar novas ondas mugidoras.
Hermenegilda viu com indiferença o noivo afastar-se; mas, passados alguns dias, sentiu apoderar-se dela um desejo inexprimível, desejo que só o mais ardente amor podia gerar.
O vendaval da guerra passara. Proclamada uma anistia, foram postos em liberdade os oficiais polacos prisioneiros. Vários irmãos de armas de Estanislau chegaram ao castelo; conversaram com profunda dor do dia da derrota, e da intrepidez que todos, sobretudo Estanislau, haviam mostrado. No momento em que a batalha parecia perdida, o conde fez voltar ao combate os batalhões que recuavam, e conseguiu com a cavalaria romper as fileiras inimigas. Era duvidosa a sorte da batalha quando o atingiu uma bala. Caiu banhado em sangue, repetindo estas palavras:
- Pátria!... Hermenegilda!
Cada palavra daquela narrativa era uma punhalada que trespassava o coração da donzela.
- Não, não sabia que o amava ardentemente, disse ela. Que demônio me cegou e me induziu em erro? Que demônio me fez crer que podia viver sem aquele que é a minha vida? Enviei-o à morte! Não voltará!
E assim Hermenegilda desafogava as tempestuosas dores que lhe iam na alma. Sem sono, incapaz de tomar o mínimo descanso, errava pelo parque, de noite, e, como se o vento pudesse levar ao amado ausente as suas palavras, gritava:
- Estanislau! Estanislau, volta! Sou eu, é Hermenegilda que te chama! Não me ouves? Volta ou morrerei de inquietação, de amor e de desespero!

V

A agitação de Hermenegilda ameaçava degenerar em verdadeira loucura, que se manifestava por mil extravagâncias. O conde Nepomuceno, cheio de temor e de ansiedade pelo estado da filha querida, julgou que talvez lhe fossem salutares os socorros da medicina, e conseguiu encontrar um doutor que condescendeu em passar algum tempo no castelo e em tomar conta da doente.
O seu método, mais moral do que físico, não produziu resultado algum.
A cura de Hermenegilda tornou-se mui duvidosa. Após longos intervalos de tranqüilidade, a jovem recaía de improviso nos mais estranhos paroxismos.
Uma aventura íntima deu à doença de Hermenegilda uma nova direção sintomática.
Tinha ela um boneco vestido de ulano, ao qual testemunhava viva ternura e prodigalizava os mais doces epítetos, como se ele fosse o seu bem amado. Atirou-o ao fogo do salão, despeitada, porque ele não tinha querido cantar uma canção polaca que principiava assim:
"Podrosz twoia nam nie mila"
"Milsza przyiazin w kraiu byla"
(Não nos foi agradável a tua viagem,
A tua amizade era-nos preciosa no país)
Quando atravessava o vestíbulo, para ir para os seus aposentos, ouviu um tinido e a bulha de passos. Olhou em torno de si e viu um oficial com o grande uniforme da guarda imperial francesa, que trazia um braço ao peito.
- Estanislau! Meu Estanislau! - exclamou ela, correndo para ele e caindo desmaiada nos seus braços.
O estupefato oficial a custo susteve Hermenegilda com o braço livre, pois que a jovem, alta e nutrida, estava longe de ser um fardo ligeiro; conduziu-a para uma sala lateral, apertando-a contra o peito numa pressão crescente. Ao sentir o coração da jovem bater tão perto do seu, o oficial confessou que era esta a aventura mais deliciosa que até ali lhe acontecera.
Os minutos passavam; o oficial sentiu invadi-lo o fogo dos desejos, cujas centelhas elétricas jorravam do corpo encantador que apertava nos braços.
O conde Nepomuceno, que saía dos seus aposentos, foi encontrar a filha ainda desmaiada nos braços do oficial; mas neste momento Hermenegilda voltou a si, beijou o oficial com calor, e exclamou de novo, no seu delírio:
- Estanislau! Meu bem amado! Meu esposo!
O oficial todo trêmulo, com o rosto vermelho, perdeu a firmeza, recuou um passo e desenvencilhou-se com brandura do convulsivo amplexo de Hermenegilda.
- É este o mais suave momento da minha vida, balbuciou ele com timidez, mas não quero gozar duma ventura proporcionada por um equívoco. Não sou Estanislau, com pesar meu, não sou Estanislau!
Ao ouvir estas palavras, Hermenegilda espantada deu um salto para trás, fixou no oficial um olhar penetrante, convenceu-se de que fora enganada por uma extraordinária semelhança e afastou-se lastimando-se.
O oficial deu-se a conhecer pelo conde Xavier de Ramskay, primo de Estanislau. O conde Nepomuceno mal podia acreditar que, em tão pouco tempo, a criança que conhecera se houvesse metamorfoseado num homem alto e robusto, a cujo rosto as fadigas da guerra tinham dado um tipo másculo.
O conde Xavier deixara a pátria ao mesmo tempo que o primo e amigo conde Estanislau e, como este fora servir no exército francês e fizera a campanha de Itália.
Tendo então apenas dezoito anos, distinguiu-se mostrando tanta coragem, que o general em chefe o nomeara ajudante de campo e que aos vinte anos alcançara o posto de coronel.
Como as feridas que recebera exigiam algum tempo de repouso, voltara à pátria, e, portador duma carta de Estanislau para a sua noiva, vinha ao castelo do conde Nepomuceno, onde Hermenegilda, numa alucinação febril, o tomou pelo primo.
O conde Nepomuceno e o médico tentaram, mas em vão, acalmar Hermenegilda, que resolveu não sair dos seus aposentos em quanto o recém-vindo estivesse no castelo.

VI

Xavier ficou aflito com a decisão de Hermenegilda. Escreveu-lhe dizendo que lhe fazia expiar bem rigorosamente uma desgraçada semelhança de que não era culpado. Acrescentou que a sua grande desventura atingia também a Estanislau, porquanto este lhe confiara uma carta de amor dizendo que comunicasse a Hermenegilda de viva voz o que não tinha tido tempo de escrever. Pela resolução da jovem, via-se impossibilitado de cumprir aquela missão.
A criada de quarto de Hermenegilda, que Xavier comprara, encarregou-se de lhe apresentar o bilhete aproveitando-se duma ocasião favorável e as poucas linhas de Xavier fizeram o que o pai e o médico não tinham podido fazer. Hermenegilda consentiu em recebe-lo.
Esperou-o no seu quarto, silenciosa, de olhos baixos. Xavier entrou a passos um tanto hesitantes e veio sentar-se defronte da jovem, mas, inclinando-se na cadeira, mais parecia ajoelhado do que sentado.
Nesta postura, pediu-lhe perdão nos mais tocantes termos, como se acusasse dum crime irremissível que, no fim de contas, provinha dum equívoco. Depois, entregou-lhe a carta e começou falando de Estanislau, dizendo-lhe com que fidelidade cavalheiresca pensava sempre na sua dama quando combatia, com que ardor amava a liberdade e a pátria. O fogo e a vivacidade da narração de Xavier arrebataram Hermenegilda, que, pela primeira vez desde o começo da entrevista, fixou no mancebo os seus encantadores olhares; e este, como Calaf, embriagado de amor pelo olhar de Turandot, a custo continuou a narrativa. Sem mesmo dar por isso, e preocupado pela luta que sustentava contra uma paixão cujo ardor ameaçava aumentar, perdeu-se numa confusa descrição de batalhas. Falou de cargas de cavalaria, de batalhões esmagados, de baterias tomadas. Hermenegilda interrompeu-o com impaciência:
- Malditas sejam essas cenas sanguinolentas preparadas pelo inferno! Diga-me só que ele me ama!
Xavier, mui impressionado, pegou na mão da jovem e apoiou-a contra o coração.
- Escuta-o, a ele próprio, ao teu Estanislau! - exclamou, deixando sair dos lábios uma torrente de protestos de ardente amor, como que inspirados na mais devoradora paixão.
Caíra aos pés de Hermenegilda, enlaçara-a nos braços e procurava atraí-la a si, quando a jovem o repeliu, fixando-o com um olhar estranho.
- Vaidoso boneco! - disse com voz surda. Ainda que te desse vida com o calor do meu seio, nunca serias, não és o meu Estanislau!
E saiu do quarto lentamente, sem ruído;
Xavier viu já tarde a sua leviandade; sentiu que amava perdidamente Hermenegilda, a noiva dum parente e amigo, e que corria o risco de atraiçoar a amizade que o unia a Estanislau. Adotou a heróica resolução de partir sem tornar a ver a donzela e mandou arranjar as malas e preparar a carruagem.
O conde Nepomuceno ficou admirado, quando Xavier se foi despedir dele. Empregou todos os meios para o fazer desistir daquele propósito, mas Xavier, a pretexto de negócios urgentes, recusou-se com uma firmeza que mais provinha do nervosismo do que da força de vontade.
Quando o criado de Xavier estava na antecâmara com a capa do amo e este, de espada à cinta, pegava no boné para se dirigir para a carruagem cujos cavalos relinchavam de impaciência, abriu-se a porta do salão e Hermenegilda entrou com o pai, aproximou-se do conde Xavier e disse-lhe com um sorriso de inexprimível graça:
- Vai-se embora, meu caro Xavier? E eu que contava ouvi-lo falar mais vezes do meu amado Estanislau! Não sabe que as suas narrativas me consolam maravilhosamente?
Xavier corou e baixou os olhos. Sentaram-se. O conde Nepomuceno assegurou por várias vezes que desde muitos meses não via Hermenegilda tão tranqüila e expansiva. Chegou a hora da ceia. A uma ordem do conde, foi a refeição servida no salão em que estavam. Com o rosto animado, Hermenegilda encheu uma taça de espumante vinho da Hungria e bebeu pelo noivo, pela liberdade e pela pátria.
- Partirei esta noite, disse Xavier consigo mesmo.
Levantada a mesa, Xavier perguntou ao criado se a carruagem o estava esperando. Este respondeu-lhe que, por ordem do conde Nepomuceno, as bagagens haviam sido descarregadas e postas de novo no quarto, a carruagem voltara para a cocheira e os cavalos para a cavalariça.
Xavier tomou um partido. A imprevista aparição de Hermenegilda convencera-o de que era possível e, mais ainda, conveniente que ficasse, e desta convicção resultou uma outra: devia ser senhor de si, isto é, reprimir os arrebatamentos da paixão, os quais, irritando o espírito doentio de Hermenegilda, lhe podiam ser prejudiciais. E terminou estas reflexões dizendo que podia esperar tudo das circunstâncias, e que Hermenegilda, tirada dos seus devaneios, viria talvez a preferir um presente tranqüilo a um futuro duvidoso, e que, ficando no castelo, não era nem desleal nem traidor para com o amigo.

VII

No dia seguinte, Xavier tornou a ver Hermenegilda. Comedindo-se com cuidado, conseguiu acalmar o ardor do sangue e lutar eficazmente contra a paixão. Conservando-se nos limites das mais estritas conveniências, deu à conversação o tom melífluo de galantaria que muitas vezes oculta um veneno funesto para a mulher.
Xavier, mancebo de vinte anos, pouco hábil nas astúcias amorosas, mais guiado por um fino tacto, demonstrou a arte dum experimentado mestre. Só falou de Estanislau, do seu inexprimível amor pela bela noiva; mas, com o fogo que ativou, soube-se destramente iluminar a si próprio, de maneira que Hermenegilda, apossada dum penoso desvairamento, não sabia como separar as duas imagens, a de Estanislau ausente e a de Xavier presente.
Em breve a presença deste se tornou indispensável para Hermenegilda, completamente fascinada; viram-nos então quase sempre juntos e conversando familiarmente como dois namorados. O hábito foi gradualmente vencendo a timidez de Hermenegilda, e ao mesmo tempo Xavier transpôs a barreira que entre eles levantavam as frias conveniências e em cujos limites se conservara até ali. Hermenegilda e Xavier passeavam, de braço dado, pelo parque e a jovem abandonava-lhe negligentemente a mão quando, sentado junto dela no seu quarto, o mancebo falava de Estanislau.
Absorvido pelos negócios de Estado, e por tudo que se relacionava com a pátria, o conde Nepomuceno era incapaz de sondar corações. Contentava-se em ver o que se passava à superfície; o seu pensamento, morto para qualquer outro assunto, não podia refletir senão passageiramente, como um espelho, às fugitivas imagens da vida, que se desvaneciam sem deixar vestígios. De modo algum suspeitou do estado do coração de Hermenegilda e não achou mau que a filha trocasse um mancebo vivo pelo boneco que o delírio lhe fazia tomar pelo noivo. Julgou mostrar mui finura ao prever que Xavier, genro tão conveniente como o outro, não tardaria a substituir Estanislau, e deixou de pensar neste último.
Xavier teve análogas idéias; persuadiu-se de que, ao cabo de alguns meses, Hermenegilda, por mais preocupada que estivesse com o pensar em Estanislau, consentiria em escutar os juramentos daquele que o substituía.
Uma manhã, disseram que Hermenegilda se fechara nos seus aposentos, com a criada de quarto, e que não queria ver pessoa alguma.
O conde Nepomuceno julgou que se tratava dum novo paroxismo, que pouco duraria. Rogou ao conde Xavier que empregasse na cura da filha o império que sobre esta exercia, mas qual foi o seu espanto quando Xavier não só se recusava a ir ter com Hermenegilda sob pretexto algum, mas também mostrava mudança completa na sua conduta! Em lugar de ostentar, como dantes, uma ousadia excessiva, estava perturbado como se houvesse visto fantasmas; tinha a voz trêmula, exprimia-se com dificuldade e a sua conversação era vaga, incoerente.
Declarou que se via obrigado a voltar a Varsóvia; que nunca mais tornaria a ver Hermenegilda; que, nos últimos tempos, o desvairamento da doente o enchera de espanto; que renunciava a todas as venturas do amor; que a felicidade de Hermenegilda, levada até ao delírio, lhe fazia cruelmente sentir a extensão da perfídia de que ia tornar-se culpado para com o amigo, e que uma pronta fuga era o único recurso que se lhe antolhava.
O conde Nepomuceno nada compreendeu desta conversa, e esteve tentado a crer que o desvairamento de Hermenegilda contagiara o mancebo. Em vão procurou tranqüilizá-lo. Quanto mais o conde provava a necessidade de ver a filha para a curar das suas extravagâncias, mais Xavier teimava em recusar. O oficial abreviou esta discussão atirando-se para dentro da sua carruagem, e afastando-se como que impulsionado por um poder oculto e incompreensível.
O conde Nepomuceno, irritado e pesaroso com a conduta da filha, não mais se importou dela e Hermenegilda passou muitos dias metida nos aposentos com a criada.
Um dia o conde Nepomuceno estava no quarto, sentado e mergulhado nas suas reflexões. Pensava nas façanhas do homem que os polacos invocavam então como um ídolo, ídolo falso. De repente abriu-se uma porta e Hermenegilda apareceu de luto carregado, quase totalmente coberta por um comprido véu preto; aproximou-se do pai a passos lentos, solenes e caiu de joelhos, dizendo com voz trêmula:
- Meu pai! O conde Estanislau, meu mui amado noivo, já não existe! Caiu como um bravo num combate sangrento! Está ajoelhada a teus pés a sua inconsolável viúva!
O conde Nepomuceno considerou estas palavras como uma nova prova do desequilíbrio mental de Hermenegilda, tanto mais que, no dia precedente, recebera notícias da boa saúde de Estanislau. Ergueu-a com brandura, dizendo:
- Tranqüiliza-te, querida filha. Estanislau está de saúde; dentro em pouco o terás nos teus braços.
Hermenegilda deu um suspiro, que mais parecia o estertor dum moribundo e, ferida por dor estranha, foi cair sobre os coxins, ao lado do pai. Levou alguns instantes a restabelecer-se daquele delíquio, e disse com singular tranqüilidade:
- Deixe-me dizer-lhe, meu caro pai, o que se passou, para que possa reconhecer-me como viúva do conde Estanislau. Há seis dias, à tardinha, achava-me no pavilhão situado no sul do parque. Todo o meu ser, todos os meus pensamentos eram para o meu bem amado. Senti que os olhos se me fechavam involuntariamente; não dormia mas estava num estranho estado a que não posso dar outro nome senão o de alucinação. Zumbiram-me os ouvidos e pareceu-me que a casa andava à roda; ouvi um tumulto sinistro e um estrondear de tiros, que se aproximavam cada vez mais. Levantei-me e mui espantada fiquei de me achar numa barraca de campanha. Ele, o meu Estanislau, estava de joelhos em frente de mim! Abracei-o. - "Deus seja louvado! exclamei; vives, és meu!" Disse-me que logo apôs a cerimônia nupcial eu caíra num profundo desmaio. Lembrei-me então da benção que nos fora dada, numa capela vizinha, pelo padre Cipriano, no meio do troar da artilharia e do ruído do combate. Cintilava-me no dedo o anel de casamento; era inexprimível a ventura que sentia em apertar meu esposo nos braços; um arroubamento sem nome, e que nunca experimentara, me enchia a alma; perturbaram-me os sentidos; apoderou-se de mim um frio de gelo; fechei os olhos. Espetáculo horroroso! De repente, acho-me no meio duma refrega furiosa. A tenda, donde provavelmente me haviam arrancado, arde. Estanislau é rodeado por cavaleiros inimigos; os amigos voam em seu socorro, mas é tarde! Um dos cavaleiros derruba o meu querido esposo...
Esmagada pela dor, Hermenegilda caiu de novo desmaiada. Nepomuceno correu em busca de cordiais, que não teve tempo de aplicar porque a filha recuperou os sentidos sob a ação duma energia singular.
- Cumpra-se a vontade do céu! - disse ela, surda e solenemente; não devo lastimar-me; mas, fiel ao meu esposo ate à morte, respeitarei a sua memória e jamais tomarei ligação alguma terrestre! Chora-lo, orar por ele e pela nossa salvação, eis o dever a que nunca faltarei!

VIII

O conde Nepomuceno julgou que a loucura da filha criara aquela visão. Esperou que o luto de Hermenegilda contribuiria para mudar tão desordenada agitação em uma dor tranqüila e concentrada, e contou com o regresso do conde Estanislau para pôr termo a esta nova extravagância.
Por vezes o velho fidalgo pronunciava as palavras: devaneios, visões; mas Hermenegilda sorria com amargura, unia aos lábios o anel de ouro, que trazia no dedo, e banhava-o em lágrimas ardentes.
O conde notou com espanto que aquele anel não pertencia realmente à filha; nunca lho vira; fez mil conjecturas sobre a sua proveniência, mas sem se dar ao trabalho de uma investigação séria.
Veio afligi-lo uma má nova: o conde Estanislau fora feito prisioneiro.
Por esta época chegou ao castelo o príncipe Zapolski com sua mulher. Morta a mãe de Hermenegilda, a princesa substituíra-a para com a órfã, que lhe testemunhava dedicação filial. A jovem, patenteando-lhe o coração, lastimou-se amargamente de que, embora tivesse as mais convincentes provas da sua união com Estanislau, a tratassem como visionária e insensata. A princesa, já sabedora do desequilíbrio mental de Hermenegilda, de modo algum a quis contradizer; contentou-se em lhe assegurar, que com o tempo tudo se esclareceria e que por enquanto era conveniente que se submetesse à vontade do céu.
A princesa tornou-se mais atenta quando Hermenegilda lhe falou do seu estado físico, e lhe descreveu os sintomas singulares duma indisposição que sentia. Viram a princesa velar por Hermenegilda com a mais viva solicitude e surpreendente ansiedade, à medida que a jovem parecia restabelecer-se. Uma vermelhidão bem pronunciada foi substituindo, a pouco e pouco, a palidez lívida do rosto e dos lábios de Hermenegilda, e os olhos perdiam o fogo sombrio, sinistro, que dantes os animava, e tornavam-se suaves e serenos. As suas formas emagrecidas arredondavam-se a olhos vistos, e dentro em pouco voltaram a frescura e a beleza.
Todavia a princesa parecia considera-la mais doente do que nunca, porque, logo que ela suspirava ou empalidecia um pouco, lhe perguntava com inquietação bem visível:
- Como estás? O que tens? O que sentes, minha filha?
O conde Nepomuceno, o príncipe e a princesa, reuniram-se um dia, discutindo o estado de Hermenegilda e a sua idéia fixa de que era viúva de Estanislau.
- Infelizmente creio o seu delírio incurável, disse o príncipe, porque não estando fisicamente doente, as forças corporais mantêm-lhe a perturbação da alma.
A princesa levantou os olhos ao céu com um modo triste e pensativo.
- Sim, continuou o príncipe, não sofre e contudo, em seu detrimento, atormentam-na fora de propósito como se fora uma doente.
A princesa, a quem se dirigiam estas palavras, olhou de frente para o conde Nepomuceno e redarguiu num tom vivo e resoluto:
- Não, Hermenegilda não está doente; mas se não fosse impossível ela ter-se entregado a alguém, diria, convencida, que está grávida.
E, dizendo isto ergueu-se e saiu do salão.
O conde e o príncipe ficaram atônitos, como que feridos por um raio. O príncipe foi quem primeiro tomou a palavra, dizendo que a mulher também tinha por vezes visões singulares.
O conde respondeu de modo severo:
- A princesa tem razão; uma tal falta da parte de Hermenegilda está no rol das cousas impossíveis. Mas, se te disser que o mesmo pensamento me ocorreu ontem quando a vi, que esta idéia me foi facilmente sugerida pelo seu aspecto, compreenderás naturalmente quanta comoção, quanto pesar me causaram as palavras da princesa.
- Pois é preciso que um médico ou uma parteira decidam a questão, tornou o príncipe, para que seja aniquilado o juízo talvez precipitado da princesa ou comprovada a nossa vergonha.
Durante muitos dias divagaram sobre vários projetos. Pareceu-lhes cada vez mais suspeito o estado de Hermenegilda e decidiram consultar a princesa sobre o que se devia fazer. Esta rejeitou a intervenção dum médico tagarela e acrescentou que dentro de cinco meses seriam precisos outros socorros.
- Quais? - perguntaram ao mesmo tempo o conde e o príncipe.
- Já não tenho dúvidas, prosseguiu a princesa com modo firme. Ou Hermenegilda é uma hipócrita infame ou há nisto um mistério inconcebível. Está positivamente grávida.
Esmagado pela consternação, o conde não pôde a princípio articular palavra; mas depois, dominando-se com esforço, pediu à princesa para que a todo o custo soubesse de Hermenegilda o nome do miserável que imprimira no seu nome uma nódoa indelével.
- Hermenegilda ainda não suspeita de que conheço o seu estado, disse a princesa, e decerto saberei tudo logo que lho diga. Cairá a máscara da hipocrisia ou terei brilhantes provas da sua inocência, o que, devo confessar, me parece mui problemática.

IX

Naquela mesma noite, a princesa foi ter com Hermenegilda, cuja gravidez era cada vez mais aparente. Pegou-lhe nos dois braços, encarou-a bem e disse-lhe de repente e com intimativa:
- Minha querida, tu estás grávida!
Hermenegilda ergueu os olhos ao céu como num êxtase celeste, e exclamou com a mais viva alegria:
- Oh! Minha mãe, minha mãe, eu bem o sei! Sei-o há mui tempo e sinto um inexprimível bem estar, não obstante o meu caro esposo ter caído sob os golpes homicidas dos inimigos. Sim, sinto ainda os momentos da minha maior felicidade terrestre. e o meu bem amado revive no terno penhor duma doce união!
Pareceu à princesa que tudo dançava em volta de si e que ia perder a cabeça. A ingenuidade das expressões de Hermenegilda, o seu arroubamento, aquele tom de verdade, não permitiam acusá-la de perfídia, e só se podia compreender que o delírio a cegasse a respeito da grandeza do seu erro.
Ferida por esta última idéia, a princesa repeliu a jovem e exclamou colérica:
- Insensata! Podia um sonho pôr-te nesse estado, que a todos nós nos vota à ignomínia? Julgas lograr-me com essas narrativas absurdas? Reflete; invoca as tuas recordações; só uma confissão ditada pelo arrependimento te pode reconciliar conosco.
Banhada em lágrimas de dor, Hermenegilda caiu aos pés da princesa, dizendo com voz gemebunda:
- Também tu, minha mãe, me chamas visionária? Também tu recusas crer que a Igreja me uniu a Estanislau; que sou sua mulher? Não vês o anel que trago no dedo? Mas o que estou eu a dizer? Pois conhecendo tu o meu estado, não achas isto bastante para te convenceres de que não sonhei?
Com grande espanto seu, a princesa reconheceu que nunca o pensamento duma falta ocorrera a Hermenegilda e que esta não compreendia as censuras que lhe dirigira. A triste, apertando com fogo contra o coração as mãos da mãe adotiva, suplicou-lhe que acreditasse no casamento, comprovado como era pelo seu estado. A boa senhora, desconcertada, fora de si, não soube o que responder, nem que meio devia empregar para descobrir algum vislumbre do segredo que envolvia Hermenegilda.
Só muitos dias depois é que a princesa declarou ao conde Nepomuceno que era impossível saber qualquer cousa pela jovem, que julgava, com profunda convicção, trazer no seio um fruto do amor de seu esposo.
O conde e o príncipe, irritados, alcunharam Hermenegilda de hipócrita, e Nepomuceno jurou que, se os meios brandos não conseguissem dissipar-lhe a loucura e arrancar-lhe a confissão da sua desonra, usaria de medidas de rigor.
A princesa foi de opinião que o emprego da força seria tão cruel como inútil, pois que estava convencida de que Hermenegilda, longe dum embuste, acreditava com toda a alma no que dizia. E acrescentou:
- No mundo há ainda muitos mistérios que estamos mui longe de compreender. Quem sabe se uma ardente união do pensamento terá uma ação física e se as relações espirituais de Estanislau e Hermenegilda produziram esse estado que nos parece incompreensível?
Não obstante a cólera e as inquietações do presente, o príncipe e o conde não puderam deixar de rir, e classificaram a idéia da princesa como uma das mais sublimes e etéreas que o espiritualismo pode ainda produzir.
A princesa, excessivamente corada, disse que semelhantes cousas se achavam fora do alcance do espírito dos homens; persuadida, como estava, da inocência de Hermenegilda, não deixava de julgar crítica a posição. Propôs uma viagem com Hermenegilda, como o único meio de a subtrair à vergonha.
O conde concordou com esta proposta, porque Hermenegilda mistério algum fazia da gravidez e, se queria conservar a reputação, devia afastar-se do círculo das suas habituais relações.
Regulada a questão, todos se sentiram mais tranqüilos, especialmente o conde, perante a possibilidade de esconder o funesto segredo ao mundo, cujo escárnio era o que ele mais temia. O príncipe julgou com razão que, dado o estranho encadeamento das circunstâncias e o desarranjo mental de Hermenegilda, se devia esperar que o tempo trouxesse o desfecho de tão extraordinário acontecimento.
Fechada a discussão, iam separar-se, quando a repentina chegada do conde Xavier veio causar novos cuidados e embaraços.
Afogueado por uma rápida correria, coberto de pó, Xavier precipitou-se no salão com o ardor que produz uma paixão desordenada, e, sem cumprimentar, nem dar atenção a pessoa alguma, gritou com voz estridente:
- Morreu! O conde Estanislau morreu! Não caiu prisioneiro... não... foi morto pelo inimigo... aqui estão as provas!...
E, dizendo isto, tirou rapidamente da algibeira várias cartas e entregou-as ao conde Nepomuceno, que ficou transtornado com o conteúdo. A princesa deitou um olhar a uma das cartas; logo às primeiras linhas pôs as mãos, ergueu os olhos ao céu e exclamou dolorosamente:
- Hermenegilda! Pobre criança! Que inexplicável mistério
Vira que o dia da morte de Estanislau era precisamente o que Hermenegilda designara como sendo o da sua entrevista com o noivo, e que estes dois acontecimentos deviam ter sido simultâneos.
- Morreu, disse Xavier vivamente. Hermenegilda está livre. Obstáculo algum se levanta entre ela e mim, e eu amo-a mais do que a vida. Peço a sua mão!
O conde Nepomuceno estava incapaz de responder. A princesa tomou a palavra, e declarou que certas circunstâncias os colocavam na impossibilidade de bem acolherem aquele pedido, que presentemente ele não podia ver Hermenegilda e que lhe pediam para partir o mais depressa possível.
Xavier respondeu, que mui bem conhecia a perturbação do espírito de Hermenegilda, à qual naturalmente queriam aludir, mas que não a considerava como obstáculo, pois que o casamento poria termo àquele estado funesto.
A princesa afirmou-lhe que Hermenegilda jurara conservar-se fiel a Estanislau até à morte, que repeliria qualquer aliança e que finalmente a jovem não estava no castelo.
Xavier pôs-se a rir, dizendo que lhe bastava o consentimento do pai e que tomaria o cuidado de restabelecer a tranqüilidade na alma de Hermenegilda.
Irritado ao último ponto com a importunidade do mancebo, o conde Nepomuceno declarou que era inútil contar com o seu consentimento e convidou Xavier a sair do castelo.
Xavier encarou-o fixamente, abriu a porta do vestíbulo e gritou ao cocheiro que apeasse as bagagens, que desarreasse os cavalos e os metesse na cavalariça. Depois voltou para o salão e sentou-se numa poltrona junto à janela, dizendo num tom tranqüilo e severo:
- Só à força me arrancarão do castelo antes de ter visto Hermenegilda, antes de lhe ter falado.
- Então ficará aqui por mui tempo, respondeu o conde Nepomuceno. Em quanto a mim cedo-lhe o lugar e peço-lhe licença para deixar o castelo.
O conde Nepomuceno, o príncipe e a princesa saíram logo do salão para prepararem a partida imediata de Hermenegilda.
Quis o acaso que a jovem, contra os seus hábitos saísse a passear no parque. Xavier avistou-a da janela, correu e alcançou-a quando entrava no fatal pavilhão do sul. O seu estado era bem visível.
- Oh! Poder celeste - exclamou Xavier.
E caiu de joelhos diante dela, fazendo-lhe os mais ardentes protestos de amor e suplicando-lhe que o aceitasse por esposo.
- Conduziu-o aqui um mau gênio, respondeu Hermenegilda com temor e surpresa. Não procure perturbar a minha tranqüilidade. Conservar-me-ei fiel até à morte ao meu bem amado; nunca, nunca serei mulher de outro!
Xavier, vendo repelidas as suas instâncias e súplicas, disse-lhe que se enganava a si própria, que já lhe dera, a ele Xavier, as mais doces provas de amor; mas quando se levantou e quis aperta-la nos braços, Hermenegilda, numa palidez mortal, repeliu-o cheia de horror e desdém, dizendo:
- Miserável! Louco presunçoso! Não poderás determinar-me a violar a fé jurada, como não podes anular a prova da minha união com Estanislau! Sai da minha presença!
Xavier cerrou os punhos, e, dando uma gargalhada de desprezo, exclamou:
- Insensata! Não quebraste tu mesmo esses absurdos juramentos? A criança que trazes no seio é meu filho! Fui eu que te apertei nos braços aqui, neste mesmo lugar! Foste minha amante e só te restará este título, se o não trocares pelo de esposa!
Hermenegilda fixou-o com um olhar onde brilhavam as chamas do inferno.
- Monstro! - exclamou ela.
E, como que ferida de morte súbita, caiu no chão.

X

Xavier voltou correndo ao castelo, como se fosse perseguido por todas as fúrias do inferno; encontrou a princesa no caminho, pegou-lhe na mão e arrastou-a para o salão.
- Repeliu-me com horror, a mim, ao pai de seu filho!
- Por todos os santos do paraíso! Tu, Xavier! Fala! Será possível?
- Podem condenar-me, disse ele um pouco mais sossegado; mas quem tiver nas veias um sangue ardente como o meu, tornar-se-á também culpado num momento de fascinação. Encontrei Hermenegilda no pavilhão; era tão extraordinário o seu estado que não posso descreve-lo. Estava estendida num canapé e parecia sonhar, entregue a sono profundo. Apenas entrei, levantou-se, veio ter comigo, pegou-me na mão e conduziu-me para o meio da sala com passos lentos, solenes. Ajoelhou e eu fiz o mesmo; pôs-se a orar e compreendi que imaginava ter um padre na sua presença. Tirou do dedo um anel e apresentou-o ao invisível sacerdote. Recebi-o e dei-lhe o meu em troca. Em seguida deixou-se cair nos meus braços, num acesso de amor ardente... Quando fugi, Hermenegilda ficou mergulhada em profunda modorra...
- Miserável! Que horrendo crime! - exclamou a princesa, fora de si.
O conde Nepomuceno e o príncipe entraram e ficaram ao fato das confissões de Xavier; a princesa sentiu-se ferida na sua delicadeza, quando declararam a ação criminosa de Xavier mui desculpável, já que podia reparar-se pelo casamento.
- Não, disse a princesa, jamais Hermenegilda concedera a mão aquele que, à laia de génio mau, lhe envenenou a existência com um crime odioso.
- Pois é preciso que seja minha mulher, disse o conde Xavier com fria e desdenhosa altivez; assim é necessário, para a salvação da sua honra. Fico e tudo se há de arranjar.
Neste momento ouviu-se um ruído surdo; traziam para o castelo Hermenegilda, que o jardineiro encontrara desmaiada no pavilhão. Colocaram-na num sofá; antes que a princesa tivesse tempo de o impedir, Xavier pegou na mão de Hermenegilda. Esta, de súbito levantou-se, dando um horroroso grito que nada tinha de humano; imóvel, inteiriçada em medonha convulsão, fixou no conde um olhar cintilante.
Era tão fulminante o seu olhar, que Xavier cambaleou e murmurou com voz inteligível a custo:
- Um cavalo!
A um sinal da princesa, saíram a aprontar um.
- Vinho! vinho! - exclamou o mancebo.
Depois de beber precipitadamente alguns copos, montou dum pulo no cavalo e desapareceu.
O estado de Hermenegilda, cujo sombrio delírio parecia querer degenerar em loucura furiosa, mudou as disposições do pai e do príncipe, que reconheceram pela primeira vez o horror da irremediável ação de Xavier. Quiseram mandar chamar um médico, mas a princesa rejeitou os socorros da ciência, pois que o caso só requeria, talvez, consolações espirituais; por isso foi chamado o padre Cipriano, frade da ordem mendicante do Carmo e confessor da casa, o qual conseguiu tirar Hermenegilda do seu abatimento e delírio. As melhoras acentuaram-se. Teve com a princesa conversas bem orientadas e exprimiu-lhe o desejo de ir, após o parto, viver penitente, desolada, no convento da ordem de Cister, em Oppeln.
Acrescentou aos fatos de luto, um véu que lhe escondia completamente o rosto e que nunca mais ergueu.
O padre Cipriano saiu do castelo, mas voltou no fim de alguns dias. Entretanto o príncipe Zapolski escrevia ao burgomestre de Lilinitz, em casa de quem Hermenegilda devia ter o parto; a abadessa do convento de Cister, parente da casa, devia conduzi-la a Lilinitz; durante este tempo a princesa viajaria pela Itália, acompanhada, na aparência, por Hermenegilda.
Era meia-noite; a berlinda que devia transportar a infeliz ao convento parou à porta. Acabrunhado pela dor, Nepomuceno, o príncipe e a princesa, esperavam a pobre criança para fazerem as suas despedidas.
Apareceu coberta com o véu, ao lado do frade, que trazia na mão um candelabro, cuja luz iluminou o vestíbulo.
- A irmã Celestina, disse Cipriano com voz solene, pecou gravemente quando ainda pertencia ao mundo; um crime de Satanás lhe poluiu a pureza; mas um voto, que nunca quebrará, há de dar-lhe consolação, tranqüilidade e a ventura eterna! Nunca mais o mundo tornara a ver o rosto, cuja beleza tentou o demônio! Olhem: é assim que Celestina vai começar a expiação.
O monge levantou o véu e todos deram um grito, Hermenegilda escondera para sempre a angélica beleza do rosto sob uma máscara de palidez mortal.
Sem proferir uma única palavra, a jovem separou-se do pai, que, esmagado pela dor, julgou não poder suportar a vida; o príncipe, homem de mais firmeza, verteu contudo uma torrente de lágrimas; só a princesa, domando com todas os forças o horror que lhe inspirava aquele voto, conseguiu ser senhora de si.
Nunca se pôde explicar como o conde Xavier descobriu o retiro de Hermenegilda, como soube a consagração do recém-nascido à igreja. Foi inútil o rapto do filho, porque, quando chegou a Praga e o quis entregar a uma mulher de confiança, não estava desmaiado de frio, como Xavier pensara, mas sim morto. O conde Xavier desapareceu sem deixar vestígios; pensou-se num suicídio.

*

Eram passados muitos anos quando o príncipe Boleslau Zapolski, durante uma viagem a Nápoles, foi visitar o monte Pausilippo, onde se ergue, no meio da mais deliciosa região, o convento dos Camaldulos. O príncipe dirigiu-se para ali a fim de gozar um panorama dos mais afamados do reino napolitano.
Ao passar pelo jardim do convento, reparou num frade sentado numa grande pedra, com um livro de horas aberto sobre os joelhos e os olhos perdidos no horizonte. No rosto, ainda juvenil, tinha impresso um profundo pesar.
Uma vaga recordação assaltou o príncipe à medida que se aproximava. Cuidadosamente foi prostrar-se atrás dele e reconheceu que o livro era escrito em polaco. Em polaco falou ao religioso, mas este voltou-se com espanto e, apenas reparou no príncipe, velou o rosto e fugiu por entre as moitas, como que perseguido por um gênio mau.
Quando o príncipe contou o incidente ao conde Nepomuceno, este assegurou-lhe que o frade era o conde Xavier.


E.T.A. Hoffmann
Alemanha


28/03/2011

O Coração Delator


É verdade. Tenho sido e sou nervoso, muito nervoso, terrivelmente nervoso. Mas, por que ireis dizer que sou louco? A enfermidade me aguçou os sentidos, não os destruiu, não os entorpeceu. Era penetrante, acima de tudo, o sentido da audição. Eu ouvia todas as coisas, no céu e na terra. Muitas coisas do inferno eu ouvia. Como, então, sou louco? Prestai atenção. E observai quão lucidamente, quão calmamente vos posso contar toda a história.
É impossível dizer como a ideia me penetrou primeiro no cérebro; uma vez concebida, porém, ela me perseguiu dia e noite. Não havia motivo. Não havia cólera. Eu gostava do velho. Ele nunca me fizera mal. Nunca me insultara. Eu não desejava seu ouro.
Penso que era o olhar dele. Sim, era isso. Um de seus olhos se parecia com o de um abutre.... um olho de cor azul pálida, que sofria de catarata. Meu sangue se enregelava, sempre que ele caía sobre mim; e assim, a pouco e pouco, bem lentamente, fui-me decidindo a tirar a vida do velho e desse modo libertar-me daquele olho para sempre.
Ora, aí é que está o problema. Imaginais que sou louco. Os loucos nada sabem. Deveríeis, porem, ter-me visto. Deveríeis ter visto como precedi cautamente, com que prudência, com que previsão, com que dissimulação, lancei mãos à obra.
Eu nunca fora mais bondoso para com o velho que durante a semana inteira, antes de matá-lo. E todas as noites, por volta da meia-noite, eu girava o trinco da porta de seu quarto e abria... Oh! Bem devagarinho. E depois, quando a abertura era suficiente para conter minha cabeça, eu introduzia uma lanterna com tampa, toda velada, bem velada, de modo que nenhuma luz se projetasse para fora, e, em seguida, enfiava a cabeça. Oh! teríeis rido ao ver como a enfiava habilmente. Movia-a lentamente, muito, muito lentamente, a fim de não perturbar o sono do velho. Levava uma hora para colocar a cabeça inteira além da abertura, até poder vê-lo deitado na cama. Ah! Um louco seria precavido assim? E depois, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a tampa da lanterna cautelosamente... Oh! bem cautelosamente!... cautelosamente... porque a dobradiça rangia... abria-a só até permitir que apenas um débil raio de luz caísse sobre o olho de abutre. E isto eu fiz durante sete longas noites... sempre precisamente à meia-noite... e sempre encontrei o olho fechado. Assim, era impossível fazer a minha tarefa, porque não era o velho que me perturbava, mas o seu olho diabólico. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu penetrava atrevidamente no quarto e falava-lhe sem temor, chamando-o pelo nome com ternura e perguntando como havia passado a noite. Por aí vedes que ele precisaria ser um velho muito perspicaz, para suspeitar que todas noites, justamente à meia-noite, eu o espreitava, enquanto dormia.
Na oitava noite, fui mais cauteloso do que de habito, ao abrir a porta. O ponteiro dos minutos de um relógio mover-se-ia mais rapidamente que meus dedos. Jamais, antes daquela noite, sentira eu tanto a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Mal conseguia conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que ali estava eu, a abrir a porta, pouco a pouco, e que ele nem sequer sonhava com os meus atos ou pensamentos secretos... Ri com gosto, entre os dentes, a essa ideia... E talvez ele me tivesse ouvido, porque se moveu de súbito na cama, como se assustado. Pensai talvez que recuei? Não! O quarto dele estava escuro como piche, espesso de sombra, pois os postigos se achavam hermeticamente fechados, por medo dos ladrões. E eu sabia, assim, que ele não podia ver a abertura da porta. Continuei a avançar. Cada vez mais. Cada vez mais.
Já estava com a cabeça dentro do quarto a ponto de abrir a lanterna, quando meu polegar deslizou sobre o fecho de lata e o velho saltou da cama, gritando: "Quem está ai?"
Fiquei completamente silencioso e nada disse. Durante uma hora inteira, não movi um músculo. E, por todo esse tempo, não o ouvi deitar-se de novo. Ele ainda estava sentado na cama à escuta. Justamente como eu fizera, noite após noite, ouvindo a ronda da morte próxima.
Depois, ouvi um leve gemido e notei que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de pesar, oh, não. Era o som grave e sufocado que se ergue do fundo da alma, quando sobrecarregada de medo. Bem conhecia esse som. Muitas noites, ao soar a meia-noite, quando o mundo inteiro dormia, ele irrompia do meu próprio peito, aguçando com seu eco espantoso, os terrores que me aturdiam. Disse que bem o conhecia. Conheci também o que o velho sentia e tive pena dele, embora abafasse um riso no coração. Eu sabia que ele ficara acordado desde o primeiro leve rumor, quando se voltara para a cama. Daí por diante, seus temores foram crescendo. Tentara imaginá-los sem motivo, mas não fora possível. Dissera a si mesmo: "É só o vento na chaminé", ou "É só um rato andando pelo chão", ouvi apenas um grito que trilou um instante só. Sim, ele estivera tentando animar-se com essas suposições, mas tudo fora em vão. Tudo em vão, porque a morte, ao aproximar-se dele, projetara sua sombra negra para a frente, envolvendo nela a vítima. E era a influencia tétrica dessa sombra não percebida que o levava a sentir - embora não visse nem ouvisse - a sentir a presença de minha cabeça, dentro do quarto.
Depois de esperar longo tempo, com muita paciência, sem ouvi-lo deitar-se, resolvi abrir um pouco, muito, muito pouco a tampa da lanterna. Abri-a, podeis imaginar quão furtivamente, até que, por fim, um raio de luz apenas, ténue como o fio de uma teia de aranha, passou pela fenda e caiu sobre o olho de abutre.
Ele estava aberto. Todo, plenamente aberto. E, ao contemplá-lo, minha fúria cresceu-o. Vi-o com perfeita clareza. Todo de azul desbotado, com uma horrível película a cobri-lo, o que me enregelava até à medula dos ossos. Mas não podia ver nada mais da face, ou do corpo do velho, pois dirigira a luz, como por instinto, sobre o maldito lugar.
Ora, não vos disse que apenas é super-acuidade dos sentidos, aquilo que erradamente julgais loucura? Repito, pois, que chegou aos meus ouvidos, um som baixo, monótono, rápido como o de um relógio, quando abafado em algodão. Igualmente eu bem sabia que som era aquele. Era o bater do coração do velho. Ele me aumentava a fúria, como o bater de um tambor estimula a coragem do soldado.
Ainda aí, porém, refreei-me e fiquei quieto. Tentei manter tão fixamente quanto pude a réstia de luz sobre o olho do velho. Entretanto, o infernal tan-tan do coração aumentava. A cada instante ficava mais alto, mais rápido, mais alto, mais rápido. O terror do velho deve ter sido extremo. Cada vez mais alto, repito, a cada momento. Prestais bem atenção? Disse-vos que sou nervoso: Sou-o. E então, àquela hora morta da noite, tão estranho ruído excitou em mim um terror incontrolável. Contudo, por alguns minutos mais, dominei-me e fiquei quieto. Mas o bater era cada vez mais alto. Julguei que o coração ia rebentar. E, depois, nova angústia me aferrou: o rumor poderia ser ouvido por um vizinho. A hora do velho tinha chegado. Com um alto berro, escancarei a lanterna e pulei para dentro do quarto. Ele guinchou mais uma vez... uma vez só. Num instante, arrastei-o para o soalho e virei a pesada cama sobre ele. Então sorri alegremente, por ver a façanha realizada. Mas, durante muitos minutos, o coração continuou a bater, com som cavo e surdo. Isto, porém, não me vexava. Não seria ouvido através da parede. Afinal, cessou. O velho estava morto. Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, era uma pedra, uma pedra morta. Coloquei minha mão sobre o coração e ali a mantive durante muitos minutos. Não havia pulsação. Estava petrificado. Seu olho não mais me perturbaria.
Se ainda pensais que sou louco, não mais o pensareis, quando eu descrever as sábias precauções que tomei, para ocultar o cadáver. A noite avançava e eu trabalhava apressadamente, porém, em silêncio. Em primeiro lugar, esquartejei o corpo. Cortei-lhe a cabeça, os braços e as pernas.
Arranquei depois três pranchas do soalho do quarto e coloquei tudo entre os vãos. Depois recoloquei as tábuas, com tamanha habilidade e perfeição, que nenhum olhar humano, nem mesmo o DELE, poderia distinguir qualquer coisa suspeita. Nada havia a lavar, nem mancha de espécie alguma, nem marca de sangue. Fora demasiado prudente no evitá-las. Uma tina tinha recolhido tudo... ah! ah! ah!
Terminadas todas estas tarefas, eram já quatro horas. Mas ainda estava escuro, como se fosse meia-noite. Quando o sino soou a hora, bateram à porta da rua. Desci a abri-la, de coração ligeiro... pois que tinha eu agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita mansidão, como soldados da polícia. Fora ouvido um grito por um vizinho, durante a noite. Despertara-se a suspeita de um crime. Tinha-se formulado uma denuncia à polícia e eles, soldados, tinham sido mandados para investigar.
Sorri... pois que tinha eu a temer? Dei as boas vindas aos cavalheiros. O grito, disse eu, fora meu mesmo, em sonhos. O velho, relatei, estava ausente, no interior. Levei meus visitantes a percorrer toda a casa. Pedi-lhes que dessem uma busca... COMPLETA. Conduzi-os, afinal, ao quarto dele. Mostrei-lhes suas riquezas, em segurança, intactas. No entusiasmo de minha confiança, trouxe cadeiras para o quarto e mostrei desejos de que eles ficassem ali, para descansar de suas fadigas, enquanto eu mesmo, na desenfreada audácia de meu perfeito triunfo, colocava minha própria cadeira, precisamente sobre o lugar onde repousava o cadáver da vítima.
Os soldados ficaram satisfeitos. Minhas maneiras os haviam convencido. Sentia-me singularmente à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia cordialmente, conversaram coisas familiares. Mas, dentro em pouco, senti que ia empalidecendo e desejei que eles se retirassem. Minha cabeça doía e parecia-me ouvir zumbidos nos ouvidos. Eles, porém, continuavam sentados e continuavam a conversar. O zumbido tornou-se mais distinto. Continuou e tornou-se ainda mais distinto. Eu falava mais, para dominar a situação. Ela, porém, continuava e aumentava sua perceptibilidade, até que, afinal, descobri que o barulho não era dentro de meus ouvidos.
É claro que, então, a minha palidez aumentou sobremaneira. Mas eu falava ainda mais fluentemente e em tom de voz muito elevado. Não obstante, o som se avolumava... E que podia eu fazer? Era um som grave, monótono, rápido... muito semelhante ao de um relógio envolto em algodão. Respirava com dificuldade... E, no entanto, os soldados não o ouviam. Falei mais depressa ainda, com mais veemência. Mas o som aumentava constantemente. Levantei-me e fiz perguntas a respeito de ninharias, em tom bastante elevado e com violenta gesticulação, mas o som constantemente aumentava. Oh! Deus! Que poderia eu fazer? Espumei. Enraiveci-me... Praguejei. Fiz girar a cadeira, sobre a qual estivera sentado, e arrastei-a sobre as tábuas, mas o barulho se elevava acima de tudo e continuamente aumentava. Tornou-se mais alto... mais alto... mais alto. E os homens continuavam ainda a passear, satisfeitos, e sorriam. Seria possível que eles não ouvissem? Deus Todo Poderoso!... Não, não! Eles suspeitavam!... Eles sabiam!... Estavam zombando do meu horror!...
Isto pensava eu, e ainda penso.
Outra coisa qualquer porém, era melhor que essa agonia. Qualquer coisa era mais tolerável que essa irrisão. Sentia que devia gritar, ou morrer!... E agora... de novo!... Escutai... Mais alto! Mais alto! Mais alto! Mais alto!...
- Vilões - trovejei - não finjam mais. Confesso o crime. Arranquem as pranchas!... aqui, aqui!... Ouçam o batido do seu horrendo coração.


Edgar Allan Poe
(tradução brasileira)

27/03/2011

Os teólogos



Arrasado o jardim, profanados os cálices e os altares, entraram a cavalo os hunos na biblioteca monástica e rasgaram os livros incompreensíveis e os injuriaram e queimaram, talvez temerosos de que as letras encobrissem blasfêmias contra seu deus, que era uma cimitarra de ferro. Arderam palimpsestos e códices, mas no coração da fogueira, entre as cinzas, permaneceu quase intato o livro duodécimo da Civitas Dei, que narra que Platão ensinou em Atenas e, no fim dos séculos, todas as coisas recuperarão seu estado anterior, e que ele, em Atenas, diante do mesmo auditório, de novo ensinará essa doutrina. O texto que as chamas perdoaram desfrutou de veneração especial e os que o leram e releram nessa remota província esqueceram que o autor só declarou tal doutrina para poder melhor refutá-la. Um século depois, Aureliano, coadjutor de Aquiléia, soube que às margens do Danúbio a novíssima seita dos monótonos (chamados também anulares) professava que a história é um círculo e que nada é que não tenha sido e que não será. Nas montanhas, a Roda e a Serpente tinham deslocado a Cruz. Todos temiam, mas todos se confortavam com o boato de que João de Panonia, que se distinguira com um tratado sobre o sétimo atributo de Deus, ia impugnar tão abominável heresia.

Aureliano deplorou essas notícias, sobretudo a última. Sabia que em matéria teológica não há novidade sem perigo; depois refletiu que a tese de um tempo circular era demasiado dissímil, demasiado assombrosa para que o perigo fosse grave. (As heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a ortodoxia.) Mais lhe doeu a intervenção – a intrusão – de João de Panonia. Havia dois anos, ele usurpara com seu palavroso De Septima Affectione Dei Sive de Aeternitate um assunto da especialidade de Aureliano; agora, como se o problema do tempo lhe pertencesse, ia retificar, talvez com argumentos de Procusto, com triagas mais temíveis que a Serpente, os anulares… Nessa noite, Aureliano folheou o antigo diálogo de Plutarco sobre a cessação dos oráculos; no parágrafo vinte e nove, leu uma burla contra os estóicos que defendem um infinito ciclo de mundos, com infinitos sóis, luas, Apolos, Dianas e Poseidons. O achado pareceu-lhe prognóstico favorável; resolveu adiantar-se a João de Panonia e refutar os heréticos da Roda.

Há quem procure o amor de uma mulher para esquecer-se dela, para não pensar mais nela; Aureliano, da mesma forma, queria superar João de Panonia para curar-se do rancor que ele lhe infundia, não para fazer-lhe mal. Temperado pelo mero trabalho, pela construção de silogismos e pela invenção de injúrias, pelos nego e os autem e os nequaquam, pôde esquecer esse rancor. Erigiu vastos e quase inextricáveis períodos, entrecortados por incisos, em que a negligência e o solecismo pareciam formas de desdém. Da cacofonia fez um instrumento. Previu que João ia fulminar os anulares com gravidade profética; para não coincidir com ele, optou pelo escárnio. Agostinho tinha escrito que Jesus é a via reta que nos salva do labirinto circular em que andam os ímpios; Aureliano, laboriosamente trivial, comparou-os a Ixion, ao fígado de Prometeu, a Sísifo, àquele rei de Tebas que viu dois sóis, à gaguice, a louros, a espelhos, a ecos, a mulas de carga e a silogismos bicornutos. (As fábulas gentílicas perduravam, rebaixadas a adornos.) Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de não conhecê-la até o fim; essa controvérsia permitiu-lhe chegar a um acordo com muitos livros que pareciam censurar sua incúria. Assim pôde engastar uma passagem da obra De Principiis de Orígenes, na qual se nega que Judas Iscariotes voltará a vender o Senhor, e Paulo, a presenciar o martírio de Estêvão em Jerusalém, e outra dos Academica Priora de Cícero, em que este zomba dos que sonham que, enquanto ele conversa com Lúculo, outros Lúculos e outros Cíceros, em número infinito, dizem exatamente o mesmo, em infinitos mundos iguais. Além disso, esgrimiu contra os monótonos o texto de Plutarco e denunciou o escândalo de que a um idólatra valesse mais o lumen naturae que a eles a palavra de Deus. Nove dias lhe tomou esse trabalho; no décimo, foi-lhe enviada uma cópia da refutação de João de Panonia.

Era quase irrisoriamente breve. Aureliano olhou-a com desdém e depois com temor. A primeira parte glosava os versículos finais do nono capítulo da Epístola aos Hebreus, na qual se diz que Jesus não foi sacrificado muitas vezes desde o início do mundo, senão agora uma vez na consumação dos séculos. A segunda alegava o preceito bíblico sobre as vãs repetições dos gentios (Mateus 6, 7) e aquela passagem do sétimo livro de Plínio, que pondera não haver no vasto universo duas faces iguais. João de Panonia declarava que tampouco há duas almas e que o pecador mais vil é precioso como o sangue que por ele verteu Jesus Cristo. O ato de um único homem (afirmou) pesa mais que os nove céus concêntricos, e imaginar que possa perder-se e voltar é uma aparatosa frivolidade. O tempo não refaz o que perdemos; a eternidade guarda-o para a glória e também para o fogo. O tratado era límpido, universal; não parecia redigido por uma pessoa específica, mas por qualquer homem ou, talvez, por todos os homens.

Aureliano sentiu uma humilhação quase física. Pensou em destruir ou reformar seu próprio trabalho; em seguida, com rancorosa probidade, mandou-o para Roma sem modificar uma letra. Meses depois, quando se reuniu o Concílio de Pérgamo, o teólogo encarregado de impugnar os erros dos monótonos foi (previsivelmente) João de Panonia; sua douta e comedida refutação bastou para que Euforbo, heresiarca, fosse condenado à fogueira. “Isto ocorreu e voltará a ocorrer”, disse Euforbo. “Não acendeis uma pira, acendeis um labirinto de fogo. Se aqui se unissem todas as fogueiras que eu tenho sido, não caberiam na terra e os anjos ficariam cegos. Isto eu falei muitas vezes.” Depois gritou, porque as chamas o atingiram.

Caiu a Roda diante da Cruz[1], mas Aureliano e João prosseguiram sua batalha secreta. Militavam os dois no mesmo exército, ansiavam pelo mesmo galardão, guerreavam contra o mesmo Inimigo, mas Aureliano não escreveu uma palavra que inconfessavelmente não pretendesse superar João. Seu duelo foi invisível; se os numerosos índices não me enganam, não figura uma única vez o nome do outro nos muitos volumes de Aureliano que a Patrologia de Migne entesoura. (Das obras de João, só permaneceram vinte palavras.) Os dois desaprovaram os anátemas do segundo Concílio de Constantinopla; os dois perseguiram os arianos, que negavam a geração eterna do Filho; os dois testemunharam a ortodoxia da Topographia Christiana de Cosmas, que ensina ser a terra quadrangular, como o tabernáculo hebreu. Desgraçadamente, pelos quatro ângulos da terra difundiu-se outra tempestuosa heresia. Oriunda do Egito ou da Ásia (porque os testemunhos diferem e Bousset não quer admitir as razões de Harnack), infestou as províncias orientais e erigiu santuários na Macedônia, em Cartago e em Tréveris. Parecia estar em todas as partes; foi dito que nas dioceses da Bretanha tinham sido invertidos os crucifixos e que a imagem do Senhor, em Cesaréia, viu-se suplantada por um espelho. O espelho e o óbolo eram emblemas dos novos cismáticos.

A história os conhece por muitos nomes (especulares, abismais, cainitas), mas de todos o mais aceito é histriões, dado por Aureliano e que eles com atrevimento adotaram. Na Frigia foram chamados de simulacros, e também na Dardânia. João Damasceno chamou-os de formas; é justo advertir que a passagem tem sido repelida por Erfjord. Não há heresiólogo que, com espanto, não aluda a seus desmedidos costumes. Muitos histriões professaram o ascetismo; um que outro se mutilou, como Orígenes; outros moraram debaixo da terra, nas cloacas; outros arrancaram os olhos; outros (os nabucodonosores de Nitria) “pastavam como os bois e seu cabelo crescia como as penas da águia”. Da mortificação e do rigor passavam, muitas vezes, ao crime; certas comunidades toleravam o roubo; outras, o homicídio; outras, a sodomia, o incesto e a bestialidade. Todas eram blasfemas; não só maldiziam o Deus cristão como as arcanas divindades de seu próprio panteão. Maquinaram livros sagrados, cujo desaparecimento os doutos deploram. Sir Thomas Browne, por volta de 1658, escreveu: “O tempo aniquilou os ambiciosos Evangelhos Histriônicos, não as Injúrias com que se fustigou sua Impiedade”; Erfjord sugeriu que essas “injúrias” (que um códice grego preserva) são os evangelhos perdidos. Isso é incompreensível, se ignoramos a cosmologia dos histriões.

Nos livros herméticos está escrito que o que existe embaixo é igual ao que existe em cima, e o que existe em cima, igual ao que existe embaixo; no Zohar, que o mundo inferior é reflexo do superior. Os histriões fundaram sua doutrina sobre uma perversão dessa idéia. Invocaram Mateus 6, 12 (“perdoa nossas dívidas, como nós perdoamos a nossos devedores”) e 11, 12 (“o reino dos céus adquire-se à força”) para demonstrar que a terra influi no céu, e I Coríntios 13,12 (“vemos agora como que por um espelho, em enigma”) para demonstrar que tudo o que vemos é falso. Talvez contaminados pelos monótonos, imaginaram que todo homem é dois homens e que o verdadeiro é o outro, o que está no céu. Também imaginaram que nossos atos projetam um reflexo invertido, de maneira que, se velamos, o outro dorme, se fornicamos, o outro é casto, se roubamos, o outro é generoso. Mortos, nos uniremos a ele e seremos ele. (Algum eco dessas doutrinas perdurou em Bloy.) Outros histriões discorreram que o mundo acabaria quando se esgotasse o número de suas possibilidades; já que não pode haver repetições, o justo deve eliminar (cometer) os atos mais infames, para que estes não manchem o futuro e para acelerar a vinda do reino de Jesus. Esse artigo foi negado por outras seitas, que defenderam que a história do mundo deve cumprir-se em cada homem. Os demais, como Pitágoras, deverão transmigrar por muitos corpos antes de conseguir sua liberação; alguns, os protéicos, “no termo de uma só vida são leões, são dragões, são javalis, são água e são uma árvore”. Demóstenes cita a purificação pela lama a que eram submetidos os iniciados nos mistérios órficos; os protéicos, analogicamente, procuraram a purificação pelo mal. Entenderam, como Carpócrates, que ninguém sairá da prisão até pagar o último óbolo (Lucas 12, 59), e costumavam ludibriar os penitentes com este outro versículo: “Eu vim para que os homens tenham vida e para que a tenham em abundância” (João 10,10). Também diziam que não ser malvado é soberba satânica… Muitas e divergentes mitologias urdiram os histriões; uns pregaram o ascetismo, outros a licenciosidade, todos a confusão. Teopompo, histrião de Berenice, negou todas as fábulas; disse que cada homem é um órgão que projeta a divindade para sentir o mundo.

Os hereges da diocese de Aureliano eram dos que afirmavam que o tempo não tolera repetições, não dos que afincoavam que todo ato se reflete no céu. Essa circunstância era estranha; em um relatório às autoridades romanas, Aureliano mencionou-a. O prelado que receberia o relatório era confessor da imperatriz; ninguém ignorava que esse ministério exigente lhe vedava as íntimas delícias da teologia especulativa. Seu secretário – antigo colaborador de João de Panonia, agora inimizado com ele – gozava do renome de pontualíssimo inquisidor de heterodoxias; Aureliano acrescentou uma exposição da heresia histriônica, tal como esta se dava nos conventículos de Gênova e de Aquiléia. Redigiu alguns parágrafos; quando quis escrever a tese horrível de que não existem dois instantes iguais, sua pena se deteve. Não encontrou a fórmula necessária; as admoestações da nova doutrina (“Queres ver o que não viram os olhos humanos? Olha a lua. Queres ouvir o que os ouvidos não ouviram? Ouve o grito do pássaro. Queres tocar o que não tocaram as mãos? Toca a terra. Digo, verdadeiramente, que Deus está por criar o mundo”) eram bastante afetadas e metafóricas para a transcrição. De repente, uma oração de vinte palavras apresentou-se a seu espírito. Escreveu-a, jubiloso; logo depois, inquietou-o a suspeita de que ela fosse de outro. No dia seguinte, lembrou-se de que a lera havia muitos anos no Adversus Annulares composto por João de Panonia. Verificou a citação; ali estava. A incerteza o atormentou. Alterar ou suprimir essas palavras era debilitar a expressão; deixá-las era plagiar um homem que ele abominava; indicar a fonte era denunciá-lo. Implorou o socorro divino. No princípio do segundo crepúsculo, seu anjo da guarda ditou-lhe uma solução intermédia. Aureliano conservou as palavras, mas lhes antepôs este aviso: “O que ladram agora os heresiarcas para confusão da fé, disse-o neste século um varão doutíssimo, com mais irreflexão que culpa”. Depois, aconteceu o temido, o esperado, o inevitável. Aureliano teve de declarar quem era esse varão; João de Panonia foi acusado de professar opiniões heréticas.

Quatro meses depois, um ferreiro de Aventino, alucinado pelos enganos dos histriões, pôs sobre os ombros de seu filhinho uma grande bola de ferro, a fim de que seu outro voasse. O menino morreu; o horror produzido por esse crime impôs uma irrepreensível severidade aos juízes de João. Este não quis retratar-se; repetiu que negar sua proposição era incorrer na pestilencial heresia dos monótonos. Não entendeu (não quis entender) que falar dos monótonos era falar do que já estava esquecido. Com insistência um tanto senil, desperdiçou os períodos mais brilhantes de suas velhas polêmicas; os juízes nem sequer ouviam aquilo que outrora os arrebatara. Em lugar de tratar de purificar-se da mais leve mácula de histrionismo, esforçou-se em demonstrar que a proposição de que o acusavam era rigorosamente ortodoxa. Discutiu com os homens de cuja sentença dependia sua sorte e cometeu a máxima grosseria de fazê-lo com talento e com ironia. No dia 26 de outubro, depois de uma discussão que durou três dias e três noites, sentenciaram-no a morrer na fogueira.

Aureliano presenciou a execução, porque não o fazer seria confessar-se culpado. O lugar do suplício era uma colina, em cujo verde pico havia uma estaca, fincada profundamente no solo, e em torno dela muitas achas de lenha. Um ministro leu a sentença do tribunal. Sob o sol das doze, João de Panonia jazia com o rosto no pó, lançando uivos bestiais. Arranhava a terra, mas os verdugos o ergueram, o despiram e por fim o amarraram ao pelourinho. Puseram-lhe à cabeça uma coroa de palha untada de enxofre; ao lado, um exemplar do pestilento Adversus Annulares. Chovera na noite anterior e a lenha ardia mal. João de Panonia rezou em grego e depois em um idioma desconhecido. A fogueira ia levá-lo quando Aureliano se atreveu a erguer os olhos. As chamas ardentes se detiveram; Aureliano, pela primeira e última vez, viu o rosto do odiado. Lembrou-lhe o de alguém, mas não pôde precisar de quem. Depois, as chamas o perderam; depois, gritou e foi como se um incêndio gritasse.

Plutarco conta que Júlio César chorou a morte de Pompeu; Aureliano não chorou a de João, mas sentiu aquilo que sentiria um homem curado de uma enfermidade incurável que já fosse parte de sua vida. Em Aquiléia, em Éfeso, na Macedônia, deixou que sobre si passassem os anos. Procurou os difíceis limites do Império, os rudes lamaçais e os contemplativos desertos, para que a solidão o ajudasse a entender seu destino. Numa cela mauritana, na noite carregada de leões, repensou a complexa acusação contra João de Panonia e justificou, pela enésima vez, o veredicto. Custou-lhe mais justificar sua tortuosa denúncia. Em Rusaddir pregou o anacrônico sermão Luz das Luzes Acesa na Carne de Um Réprobo. Em Hibérnia, em uma das cabanas de um monastério cercado pela selva, surpreendeu-o, numa noite até a alvorada, o rumor da chuva. Lembrou-se de uma noite romana em que fora surpreendido, também, por esse minucioso rumor. Um raio, ao meio-dia, incendiou as árvores e Aureliano pôde morrer como morrera João.

O final da história só pode ser narrado com metáforas, já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Talvez fosse oportuno dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panonia. Isso, entretanto, insinuaria uma confusão da mente divina. Mais correto é dizer que no paraíso Aureliano soube que, para a insondável divindade, ele e João de Panonia (o ortodoxo e o herege, o odiado e o que odeia, o acusador e a vítima) formavam uma única pessoa.


[ 1 ] Nas cruzes rúnicas os dois emblemas inimigos convivem entrelaçados.


Jorge Luis Borges

O Filho da Estrela



Era uma vez dois obres Lenhadores que estavam indo para casa através de uma grande floresta de pinheiros. Era inverno, e fazia um frio terrível. A neve estava alta no chão e recobria os ramos das árvores; o gelo ia estourando os raminhos mais tenros, enquanto passavam; e quando chegaram à Torrente da Montanha ela estava pairando no ar, imóvel, pois o Rei do Gelo já a beijara.
O frio era tão intenso que nem mesmo os animais e os pássaros sabiam o que pensar.
- Uuuhh! – rosnou o Lobo, enquanto capengava entre as plantas rasteiras, com o rabo entre as pernas. – Isso é o que o que chamo de tempo realmente péssimo. Por que será que o governo não faz alguma coisa?
- Piu! Piu! Piu! – chilrearam os Pintarroxos. – A velha Terra morreu e foi embrulhada em uma mortalha branca.
- A Terra vai se casar, e esse é seu vestido de noiva – sussurrou uma Pomba-rola para outra.
Seus pezinhos cor-de-rosa estavam congelados, mas as pombas achavam que era seu dever encarar tudo com certo romantismo.
- Que bobagem! – grunhiu o Lobo. – Estou dizendo que é culpa do Governo, e se não me acreditarem, eu as comerei.
O Lobo sempre tomava atitudes muito práticas, e jamais deixou de encontrar bons argumentos.
- Bom, de minha parte – disse o Pica-pau, um filósofo nato -, procuro teorias atómicas para minhas explicações. Quando uma coisa é assim, ela é assim mesmo e, no momento, elas estão muito frias.
E estava terrivelmente frio. Os Esquilinhos, que viviam dentro de um pinheiro muito alto, e os Coelhos se enrolavam em suas tocas, sem ousar se quer olhar para fora. As únicas que pareciam estar se divertindo eram as grandes Corujas chifrudas. Suas penas estavam durinhas com a geada, mas elas não se importavam, e virando seus grandes olhos amarelos, chamavam umas às outras pela floresta:
- Tu-uit! Tu-ú! Tu-uit! Tu-ú! Que tempo óptimo está fazendo!
E ela iam os dois Lenhadores, soprando com força os dedos, e batendo com suas enormes botas ferradas neve congelada. Uma vez eles caíram num monte de neve mais fundo e saíram parecendo dois moleiros quando moem farinha e ficam todos brancos, e outra vez escorregaram no gelo liso da água congelada dos pântanos, a lenha dos feixes, e eles tiveram de apanhá-la e tornar a amarrá-la; e ainda uma outra vez pensaram que estivessem perdidos e ficaram apavorados, pois sabiam o quanto a Neve é cruel para com aqueles que dormem em seus braços. Mas continuaram confiando no bom São Martinho, que zela pelos viajantes, voltaram atrás pisando nas próprias pegadas, e começaram a andar com muita cautela, até chegarem à fímbria da floresta e verem, lá em baixo no vale, as luzes da aldeia onde moravam.
Eles ficaram tão contentes de se salvarem que riram alto e a Terra pareceu-lhes uma flor de prata, e a Lua uma flor de ouro.
No entanto, depois eles ficaram triste, pois se lembraram do quanto eram pobres, e um disse ao outro:
- Por que nos alegramos, se a vida é para os ricos e não para gente como nós? Melhor seria se tivéssemos morrido de frio na floresta, ou que alguma fera selvagem nos tivesse atacado e matado.
- É verdade que alguns têm muito, enquanto outros têm pouco – respondeu seu companheiro. – A injustiça é distribuída por todo o mundo, e não há divisão equitativa de nada, a não ser de tristeza.
Mas, enquanto se queixavam de sua miséria, aconteceu uma coisa estranha. Caiu do céu uma estrela muito brilhante e muito bonita. Ela escorregou pelo lado do céu, passando por outras estrelas em seu caminho, e enquanto os dois a observavam deslumbrados, ela pareceu-lhes cair atrás de uma moita de chorões que ficava bem junto a um aprisco não mais distante do que o alcance de uma pedra que arremessassem.
- Ora! Eis ali uma pilha de ouro para aquele que a achar – gritaram eles, e saíram correndo, de tal modo ansiavam eles pelo ouro.
Um deles correu mais rápido do que o outro e passou-lhe a frente, forçando seu caminho pelos chorões até que saiu do outro lado onde – que surpresa! – realmente havia uma coisa dourada na neve branca. Então ele correu e, curvando-se, pôs as duas mãos em cima dela: era um manto de tecido dourado, curiosamente bordado com estrelas e enrolado com muitas dobras. Ele gritou para seu companheiro que encontrara o tesouro caído do céu, e quando o camarada chegou, ambos ficaram sentados no chão e foram soltando as dobras do manto, a fim de dividirem as moedas de ouro. Mas ai!, não havia lá dentro nem ouro, nem prata nem tesouro de espécie alguma, mas apenas um criancinha adormecida.
Disseram então um ao outro:
- Esse é um final amargo para nossas esperanças, e em sequer boa fortuna nós temos, pois que adianta uma criança a um homem? Vamos deixá-la aqui e continuar nosso caminho, pois nós somos pobres, e já temos nossos próprios filhos, cujo o pão não podemos dar a outros.
- Não, é um ato de maldade deixar a criança para morrer aqui na neve, e muito embora eu seja tão pobre quanto você, e tenha muitas bocas para alimentar, e muito pouco na panela, mesmo assim eu o levarei para casa, e minha mulher há de cuidar dele.
E como muito carinho pegou a criança, enrolou o manto em volta dela para protegê-la do vento impiedoso, e foi descendo a colina para a aldeia, com seu camarada espantado diante de sua imensa tolice e da moleza de seu coração.
- Você ficou com a criança, então me dê o manto, pois é justo que compartilhemos tudo.
- Não, pois o manto não é nem seu nem meu, mas da própria criança – e desejando-lhe que fosse com Deus, foi para sua casa e bateu na porta.
Quando sua mulher abriu a porta e viu que o marido voltara para casa a salvo, ela jogou os braços em torno do pescoço dele e o beijou, tirou-lhe das costas o feixe de lenha de lenha, limpado a neve de suas botas e pediu-lhe que entrasse.
Porém ele disse:
- Encontrei uma coisa na floresta e trouxe para que você cuide dela – e não arredou pé da soleira da porta.
- O que é? – exclamou ela. – Mostre-me, pois a casa está vazia e temos necessidade de muitas coisas.
E ele, atirando o manto para as costas mostrou-lhe a criança adormecida.
- Ai, marido! – murmurou ela. – Será que já não temos bastante filhos, e você ainda precisa trazer um enjeitadinho para nossa lareira? Quem sabe se ele não pode trazer má sorte? Quem zelará por nós? E quem nos alimentará?
- Ora, Deus cuida até dos pardais, e os alimenta – respondeu ele.
- E os pardais não morrem de fome no inverno? – perguntou-lhe a mulher. – E não é inverno agora? – e o marido não respondeu nada, mas não arredou o pé da soleira da porta. Um vento cortante entrou pela porta aberta fazendo a mulher tremer. Ela teve um arrepio e disse:
- Por que não fecha essa porta? O vento que entra está gelado, e eu estou com frio.
- Na casa em que o coração é duro não é sempre gelado o vento? – perguntou ele.
A mulher não respondeu nada, mas chegou mais perto do fogo.
Depois de algum tempo ela olhou para ele, como os olhos marejados de lágrimas, e ele logo entrou e colocou a criança nos braços dela; ela a beijou, colocando-a na caminha onde estava deitada o caçula do casal. Na manhã seguinte, o Lenhador pegou o curioso manto dourado e colocou-o em uma grande arca; também guardou um grande fio de contas de âmbar que estava no pescoço da criança.
E assim o Filho-da-Estrela foi criado com os filhos do Lenhador, sentando-se à mesma que eles, sendo seu companheiro de brincadeiras.
A cada ano ele ficava mais bonito, de modo que todos os que moravam na aldeia ficavam maravilhados, pois enquanto os outros eram morenos de cabelos negros, ele era branco e delicado como marfim lavrado, e seus cachos pareciam pétalas de junquilhos. Seus lábios também pareciam pétalas de alguma flor rubra, e seus olhos eram como violetas que nascem junto ao regato de água pura, e seu corpo era como o narciso que cresce no campo onde não chega a foice.
Porém essa beleza o fez mau, pois tornou-o orgulhoso, cruel e egoísta. Os filhos do Lenhador e as outras crianças da aldeia ele desprezava, dizendo que eram de pais humildes, enquanto ele era nobre, já que nascera de um Estrela; e por isso dizia-se amo de todos eles, tratando-os como seus servos. Não tinha piedade para com os pobres, ou os que eram cegos, aleijados, ou de algum modo deficientes, antes atirando pedras neles para espantá-los em direcção à estrada , dizendo-lhe que fossem mendigar seu pão em outra parte. De modo que ninguém, a não ser os bandidos, costumavam vir à aldeia para pedir esmolas. Ele parecia, na verdade, enamorado da beleza, debochando dos fracos e feios, menosprezando-os de todo modo. Mas amava a si mesmo, e no verão, quando não havia vento, ficava deitado junto ao poço do pomar do padre, olhando par o fundo a fim de ver seu próprio rosto, rindo do prazer que sentia em ser tão belo.
Muitas vezes o Lenhador e sua mulher o repreenderam dizendo:
- Nós não o tratamos como você trata os outros que estão desamparados e não têm quem o socorra. Por que razão é tão cruel para com todos aqueles que precisam de piedade?
Mas o Filho-da-Estrela não dava atenção às suas palavras, e franzindo a testa e fazendo um muxoxo, voltava para a companhia dos outros meninos, para ser o chefe. Seus companheiros o seguiam, pois ele era lindo, rápido na corrida, sabia dançar, tocar flauta e fazer música. Onde quer que o Filho-da-Estrela os levasse, eles o seguiam, e o que quer que o Filho-da-Estrela lhes mandassem fazer, eles faziam. Quando ele furava com um junco pontudo os olhos da toupeira, eles riam; e quando ele atirava pedras em algum leproso, eles também riam. Em todas as coisas era ele quem os guiava, e seus corações foram ficando tão duros quanto o dele.
- Olhem! Lá está sentada uma mendiga imunda debaixo daquela linda castanheira, com suas folhas verdes. Venham, vamos expulsá-la daqui, pois é feia e mal-enjambrada.
Então ele se aproximou, atirando-lhe umas pedras e caçoou dela; ela ficou apavorada, mas nem por um instante tirou dele o seu olhar. Quando o Lenhador, que estava cortando lenha ali por perto, viu o que o Filho-da-Estrela estava fazendo, veio correndo e repreendeu-lhe, dizendo:
- Você tem mesmo um coração de pedra e não sabe o que é piedade, pois que mal lhe fez essa pobre mulher para que você a trate desse modo?
O Filho-da-Estrela ficou rubro de raiva, bateu com o pé no chão e disse:
- Quem é você para questionar o que eu faço? Eu não sou seu filho para ter de obedecê-lo.
- É verdade – respondeu o Lenhador -, mas eu tive pena de você quando o encontrei na florestas.
Quando a mendiga ouviu essas palavras, deu um grito e caiu desmaiada. O Lenhador carregou-a para sua casa, sua mulher cuidou dela, e quando ela voltou a si do desmaio deles puseram comida e bebida na frente dela e disseram que se reconfortasse.
Sem querer comer nem beber, disse ela ao Lenhador:
- O senhor não disse que a criança foi achada na floresta? E não faz hoje exactamente dez anos?
Então disse o Lenhador:
- Sim, foi na floresta que o encontrei, e faz hoje exactamente dez anos.
- E que sinais encontrou com ele? – gritou ele. – Não trazia ele no pescoço um colar de âmbar?
Não estava ele enrolado em manta de tecido de ouro bordado com estrelas?
- É verdade – respondeu o Lenhador -, foi exactamente assim como disse – e, pegando o colar e a manta na arca, mostrou-os a ela.
- Ele é meu filhinho que eu perdi na floresta. Peço-lhe que mande logo chamá-lo, pois eu tenho andado por todo o mundo à procura dele.
Então o Lenhador e sua mulher saíram e chamaram o Filho-da-Estrela dizendo-lhe:
- Entre em casa, e lá há de encontrar sua mãe, que o espera.
Ele entrou correndo, espantado e muito alegre. Porém ao ver quem esperava lá dentro, ele riu com desdém dizendo: - Bem, aonde esta minha mãe? Pois aqui não vejo ninguém se não essa mendiga.
E a mulher respondeu-lhe.
- Sou eu a sua mãe.
- Esta louca, como pode dizer uma coisa dessas – gritou o Filho-da-Estrela com raiva. – Eu não sou filho seu, pois você não passa de uma mendiga. É muito feia e andrajosa, portanto, sai já daqui, e não me deixe tornar a ver sua cara horrenda.



Oscar Wilde