28/02/2011

Drama humilde


Os encontros dão encanto às viagens. Quem nunca terá sentido a alegria de, a cinquenta léguas do torrão natal, inesperadamente dar de rosto com um parisiense, um colega de colégio, um vizinho de campo? Quem não terá passado uma noite, de olhos abertos, na pequena diligência tilintante das regiões onde o vapor ainda não chegou, ao lado de uma desconhecida apenas vislumbrada à luz da lanterna, no momento em que subia no veículo, à porta de uma casa branca, numa cidadezinha qualquer?
E pela manhã, ainda com o espírito e os ouvidos entorpecidos pelo contínuo tilintar dos guizos ou pela trepidação sonora das vidraças, como é agradável ver a nossa bonita vizinha de cabelos alvoroçados descerrar as pálpebras, correr o olhar em torno e com a ponta dos dedos finos alisar os cabelos rebeldes, ajeitar o chapéu, verificar com mão experiente se o colete não saiu do lugar, se a cintura está firme e a saia não se amarrotou muito!
Ela também nos lança um olhar frio e curioso. Depois se aconchega a um canto e parece unicamente ocupada com a paisagem.
Contra a nossa vontade, não deixamos de observá-la, contra a nossa vontade continuamos a pensar nela. Quem será? De onde vem? Para onde irá? Relutantes, esboçamos mentalmente um pequeno romance. É bonita; parece encantadora! Feliz aquele que... Talvez a vida fosse deliciosa ao seu lado... Quem sabe? Seria talvez a mulher reclamada pelo nosso coração, nossos sonhos, nosso temperamento.
E como é delicioso, também, o despeito que sentimos ao vê-la descer diante da cancela de uma casa de campo! Um homem a espera, tendo ao lado duas crianças e duas criadas. Recebe-a nos braços, beija-a e coloca-a no chão. Ela se inclina, ergue os pequenos, que lhe estendem as mãos, acaricia-os ternamente; e enveredam por uma aléia, afastando-se, enquanto as criadas recebem as bagagens atiradas do toldo pelo cocheiro.
Adeus! É o fim. Nunca mais a veremos, nunca mais. Digamos adeus à moça que passou a noite ao nosso lado. Não a conhecemos mais, nem sequer lhe falamos; mesmo assim, a sua partida nos entristece um pouco. Adeus!
Conservo muitas dessas lembranças de viagem, algumas alegres, outras melancólicas.
Encontrava-me em Auvergne, vagando por entre aquelas encantadoras montanhas francesas, nem altas demais, nem escarpadas demais, íntimas, familiares. Havia subido ao monte Sancy e entrava num pequeno albergue, junto a uma capela de tomaria chamada Nossa Senhora de Vassivière, quando avistei uma senhora idosa, esquisita e ridícula, que almoçava sozinha a uma mesa, ao fundo.
Teria no mínimo setenta anos, alta, seca, angulosa, com cabelos brancos enrolados em caracóis nas têmporas, de acordo com modas já passadas. Vestida como uma inglesa errante, despreocupada e grotescamente, como se vestem as pessoas indiferentes à própria aparência, ela comia uma omelete e bebia água.
Tinha um aspecto singular, olhos inquietos, rosto de alguém a quem a vida maltratou. Involuntariamente eu a fitava, indagando comigo mesmo: "Quem será? Que espécie de vida terá essa mulher? Por que estará vagando sozinha por estas montanhas?"
Ela pagou a conta e depois se levantou para partir, ajeitando nos ombros um incrível xalezinho, cujas pontas lhe pendiam dos braços. Apanhou num canto um longo bastão de viagem recoberto de nomes gravados a ferro em brasa, e depois se afastou, erecta, tesa, com o passo de um carteiro que se põe a caminho.
Um guia esperava-a junto à porta. Afastaram-se. Acompanhei-os com o olhar enquanto desciam o vale, ao longo do caminho assinalado por uma fila de grandes cruzes de madeira. Ela era mais alta do que o companheiro e parecia andar mais depressa do que ele.
Duas horas mais tarde eu avançava pelos rebordos de um enorme funil, em cujo fundo, dentro de uma vasta e maravilhosa cova de verdura, se encontra o lago Pavin, tão redondo que parece traçado a compasso, tão claro e tão azul que se diria uma onda de anil tombada do céu, tão belo que desejaríamos viver numa choupana, lá na vertente do bosque que domina a cratera dentro da qual dorme a água tranqüila e fria.
Lá estava ela, de pé, imóvel, contemplando aquele lençol transparente no fundo do vulcão extinto. Fitava-o como se quisesse varar com o olhar as suas misteriosas profundezas, povoadas, segundo contavam, por trutas grandes como monstros, que devoram todos os outros peixes. Ao passar junto dela, tive a impressão de que duas lágrimas rolavam de seus olhos. Mas ela se afastou com largas passadas, a fim de reunir-se ao seu guia, que permanecera numa taverna, ao sopé da encosta, no caminho do lago. Não tornei a revê-la nesse dia.
No dia seguinte, ao cair da noite, cheguei ao Castelo de Murol. A velha fortaleza, gigantesca torre erigida no alto do pico do mesmo nome, ao centro de um amplo vale, no cruzamento de três pequenas várzeas, projecta-se contra o céu, escura, cheia de fendas e protuberâncias, mas toda redonda, da larga base circular aos arruinados torreões da cumeeira.
Impressiona, mais do que qualquer outra ruína, por causa da sua grandeza singela, da sua majestade, do seu ar de velhice, grave e imponente. Mantém-se de pé, sozinha, alta como uma montanha, rainha morta, mas ainda rainha dos vales desdobrados abaixo dela. Atingimo-la através da encosta de pinheiros que lhe dá acesso, penetramos no seu interior por uma porta estreita e estacamos junto às muralhas, no primeiro recinto, que domina a região inteira.
Dentro, salas em ruínas, escadas sem degraus, cavidades misteriosas, subterrâneos, masmorras, muros reduzidos à metade, abóbadas que continuam de pé não se sabe como, um labirinto de pedras, de fendas, onde cresce o mato e animais rastejam. Eu vagava, sozinho, por entre aqueles escombros.
De súbito, divisei, atrás de uns restos de muro, um ser, uma espécie de fantasma, como se fosse o espírito da velha e arruinada morada.
Tive um sobressalto de surpresa, quase de medo. Depois, reconheci a senhora idosa com quem já me encontrara por duas vezes. Chorava. Chorava grossas lágrimas e apertava o lenço na mão.
Voltei-me, decidido a ir embora. Então, vexada por haver sido surpreendida, ela se dirigiu a mim:
- É verdade, estou chorando... Não é coisa que me aconteça muitas vezes.
Balbuciei, confuso, não sabendo o que responder:
- Peço-lhe perdão por tê-la perturbado. Sem dúvida, a senhora sofreu algum grande desgosto.
Ela murmurou:
- Sim... Não... Sou igual a um cão sem dono.
E, levando o lenço aos olhos, pôs-se a soluçar.
Segurei-lhe as mãos, tentando acalmá-la, emocionado com aquelas lágrimas contagiantes.
E então ela me contou a sua história, como se não mais quisesse ser a única a suportar o peso da sua mágoa:
- Oh!... Oh!... Se o senhor soubesse... em que estado de angústia eu vivo... em que estado de angústia...
"Eu era feliz. . . Tenho uma casa lá. . . na minha terra. Não quero mais voltar, nunca mais voltarei, é por demais doloroso.
"Tenho um filho... É ele! É ele! Os filhos não sabem... É tão curto o tempo que temos para viver! Se eu o visse, agora, talvez nem o reconhecesse mais! Como eu amava meu filho! Mesmo antes de ter nascido, quando o sentia bulir dentro do meu corpo. E mais tarde, então! Como o beijei, como o acariciei, como lhe quis! Se o senhor soubesse quantas noites passei olhando-o dormir, quantas noites passei pensando nele! Amava-o loucamente. Quando fez oito anos, seu pai internou-o num colégio. Foi o fim. Não me pertencia mais. Óh, meu Deus! Ele vinha aos domingos, apenas, e mais nada.
"Depois foi para o colégio, em Paris. Só nos visitava quatro vezes por ano, e de cada vez eu me surpreendia diante das mudanças operadas na sua pessoa, surpreendia-me ao achá-lo mais alto sem tê-lo visto crescer. Roubaram-me sua infância, sua confiança, sua ternura, que de outra forma não se teria desprendido de mim, roubaram-me a alegria de vê-lo crescer, de vê-lo transformar-se em homenzinho.
"Só o via quatro vezes por ano! Imagine! A cada uma de suas visitas, seu corpo, seu olhar, seus gestos, sua voz, seu riso, não eram mais os mesmos, não eram mais meus. Uma criança muda depressa; e, se não estamos presentes para acompanhar suas transformações, é tão triste! Não a reencontramos mais!
"Houve um ano em que chegou com uma penugem no rosto! Ele, o meu filho! Fiquei estupefacta... e triste, o senhor acredita? Mal ousava abraçá-lo. Seria ele meu filhinho, meu pequenino de cabelos louros e crespos de antigamente, meu querido, meu amado filho que eu tivera, ainda em cueiros, nos joelhos, que sugara meu leite com os pequenos lábios ávidos, aquele rapagão moreno, que não sabia mais acarinhar-me, que parecia amar-me como se cumprisse um dever, que me chamava 'minha mãe' convencionalmente, e que me beijava a testa quando eu teria querido esmagá-lo nos braços?
"Meu marido morreu. Depois foi a vez de meu pai, e em seguida perdi minhas duas irmãs. Quando a morte entra numa casa, é como se quisesse ceifar o máximo para não precisar voltar tão cedo. Só deixa vivas uma ou duas pessoas, para que chorem as outras.
"Fiquei sozinha. Nessa ocasião meu filho estudava direito. E eu esperava viver e morrer ao seu lado.
"Fui reunir-me a ele, a fim de vivermos juntos. Adoptara hábitos de rapaz; fez-me compreender que o incomodava. Afastei-me. Fiz mal; porém, sofria demasiadamente por sentir-me importuna, eu, a mãe. Retornei à minha casa.
"Quase não o vi mais, quase
. "Casou-se. Que alegria! Finalmente nos reuniríamos para sempre. Teria netos. Ele desposara uma inglesa que tomou aversão por mim. Por quê? Será que percebeu que eu o amava demais?
"Mais uma vez fui obrigada a afastar-me. Vi-me sozinha. É verdade.
"Depois ele partiu para a Inglaterra. Ia morar com eles, os pais de sua mulher. 0 senhor compreende? Eles se apoderaram de meu filho! Roubaram-no de mim! Ele me escreve todos os meses. Nos primeiros tempos vinha visitar-me. Agora não vem mais.
"Faz quatro anos que o vi pela última vez! Tinha o rosto enrugado e cabelos brancos. Seria possível? Meu filho, aquele homem quase velho? Minha criancinha toda cor-de-rosa de outrora? Provavelmente nunca mais o reverei.
"E agora viajo o ano inteiro. Vou para a direita, vou para a esquerda, como o senhor vê, sem que ninguém me acompanhe.
"Sou igual a um cão sem dono. Adeus, senhor, não fique junto de mim, sinto-me perturbada por ter-lhe contado essas coisas todas."
E, ao tornar a descer a colina, voltando-me, avistei a velha senhora de pé no muro em ruínas, contemplando os montes, o amplo vale e o lago Chambon, perdido na distância.
E o vento fazia tremular, como se fossem bandeiras, a barra do seu vestido e o pequeno e estranho xale que usava aos ombros.


Guy de Maupassant



O Barril de Amontillado



"Suportei o melhor que pude as mil e uma injúrias de Fortunato; mas quando começou a entrar pelo insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha índole, não ireis supor que me limitei a ameaçar. Acabaria por vingar-me; isto era ponto definitivamente assente, e a própria determinação com que o decidi afastava toda e qualquer ideia de risco.
Devia não só castigar, mas castigar ficando impune. Um agravo não é vingado quando a vingança surpreende o vingador. E fica igualmente por vingar quando o vingador não consegue fazer-se reconhecer como tal àquele que o ofendeu.
Deve compreender-se que nem por palavras, nem por atos, dei motivos a Fortunato para duvidar da minha afeição. Continuei, como era meu desejo, a rir-me para ele, que não compreendia que o meu sorriso resultava agora da ideia da sua imolação.
Tinha um ponto fraco, este Fortunato sendo embora, sob outros aspectos, homem digno de respeito e mesmo de receio. Orgulhava-se da sua qualidade de entendido em vinhos. Poucos italianos possuem o verdadeiro espírito de virtuosidade. Na sua maior parte, o seu entusiasmo é adaptado às circunstâncias de tempo e de oportunidade para ludibriar milionários britânicos e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunato, à semelhança dos seus concidadãos, era um charlatão, mas na questão de vinhos era entendido. Neste aspecto eu não diferia substancialmente dele: eu próprio era entendido em vinhos de reserva italianos, e comprava-os em grandes quantidades sempre que podia.
Foi ao escurecer, numa tarde de grande loucura pelo carnaval, que encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessivo calor, pois bebera demais. Trajava de bufão; uma roupa justa e parcialmente às tiras, levando na cabeça um barrete cônico com guizos. Fiquei tão contente de o ver que julguei que nunca mais parava de lhe apertar a mão.
- Meu caro Fortunato - disse eu -, ainda bem que o encontro. Você tem hoje uma aparência notável! Saiba que recebi um barril de um vinho que passa por ser Amontilado; mas tenho cá as minhas dúvidas.
- O quê? - disse ele - Amontilado? Um barril? Impossível! E em pleno Carnaval!
- Tenho as minhas dúvidas - respondi -, e estupidamente paguei o verdadeiro preço do Amontilado sem ter consultado o meu amigo. Não o consegui encontrar e tinha receio de perder o negócio!
- Amontilado!
- Tenho as minhas dúvidas - insisti.
- Amontilado!
- E tenho de as resolver.
- Amontilado!
- Como vejo que está ocupado, vou procurar Luchesi. Se existe alguém com espírito crítico, é ele. Ele me dirá.
- Luchesi não distingue Amontilado de xerez.
- No entanto, há muito idiota que acha que o seu gosto desafia o do meu amigo.
- Venha, vamos lá.
- Aonde?
- À sua cave.
- Não, meu amigo, não exigiria tanto da sua bondade. Vejo que tem compromissos. Luchesi...
- Não tenho compromisso nenhum, vamos.
- Não, meu amigo. Não será o compromisso, mas aquele frio terrível que bem sei que o aflige. A cave é insuportavelmente húmida. Está coberta de salitre.
- Mesmo assim, vamos lá. O frio não é nada. Amontilado! Você foi ludibriado. E quanto a Luchesi, não distingue xerez de Amontilado.
Assim falando, Fortunato pegou-me pelo braço. Depois de pôr uma máscara de seda preta e de envergar um roquelaire cingido ao corpo, tive que suportar-lhe a pressa que levava a caminho do meu palacete. Não havia criados em casa; tinham desaparecido todos para festejar aquela quadra. Eu tinha-lhes dito que não voltaria senão de manhã e dera-lhes ordens explícitas para se não afastarem de casa. Ordens essas que foram o suficiente, disso estava eu certo, para assegurar o rápido desaparecimento de todos eles, mal voltara costas.
Retirei das arandelas dois archotes e, dando um a Fortunato, conduzi-o através de diversos compartimentos até à entrada das caves. Desci uma grande escada em caracol e pedi-lhe que se acautelasse enquanto me seguia. Quando chegamos ao fim da descida encontrávamo-nos ambos sobre o chão húmido das catacumbas dos Montresores. O andar do meu amigo era irregular e os guizos da capa tilintavam quando se movia.
- O barril? - perguntou.
- Está lá mais para diante - disse eu -, mas veja a teia branca de aranha que cintila nas paredes da cave.
Voltou-se para mim e pousou nos meus olhos duas órbitas enevoadas pelos fumos da intoxicação.
- Salitre? - perguntou por fim.
- Sim - respondi. - Há quanto tempo tem essa tosse?
- Hâg!, hâg!, hâg! Hâg!, hâg!, hâg!
O meu amigo ficou sem poder responder-me durante bastante tempo.
- Não é nada - acabou por dizer.
- Venha - disse-lhe com decisão. - Retrocedamos, a sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz como eu já o fui em tempos. Você é um homem cuja falta se sentiria. Quanto a mim, não importa. Retrocedamos. Ainda é capaz de adoecer e não quero assumir tal responsabilidade. Além disso, há Luchesi...
- Basta! - replicou. - A tosse não é nada, não me vai matar. Não vou morrer por causa da tosse.
- Pois decerto que não, pois decerto - respondi -; não é minha intenção alarmá-lo desnecessariamente, mas deve usar de cautela. Um gole deste médoc defender-nos-á da humidade. Quebrei o gargalo de uma garrafa que retirei de uma longa fila de muitas outras iguais que jaziam no bolor.
- Beba - disse, apresentando-lhe o vinho.
Levou-o aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e abanou a cabeça significativamente, enquanto os guizos tilintavam.
- Bebo - disse - aos mortos que repousam à nossa volta.
- E eu para que você viva muito.
Novamente me tomou pelo braço e prosseguimos.
- Estas catacumbas são enormes - disse ele.
- Os Montresores - respondi - constituíam uma família grande e numerosa.
- Não me lembro do vosso brasão.
- Um enorme pé humano, de ouro, em campo azul; o pé esmaga uma serpente rampante cujas presas estão ferradas no calcanhar.
- E a divisa?
- Nemo me impune lacessit.
- Ótimo! - disse ele.
O vinho brilhava no seu olhar e os guizos tilintavam. A minha própria disposição melhorara com o médoc. Tinha passado por entre paredes de ossos empilhados, à mistura com pipas e barris, nos mais recônditos escaninhos das catacumbas. Parei novamente e desta vez fiz questão de segurar Fortunato por um braço, acima do cotovelo.
- Salitre! - disse eu -, veja como aumenta. Parece musgo nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de humidade escorrem por entre os ossos. Venha, vamo-nos embora que já é muito tarde. A sua tosse...
- Não faz mal - retorquiu -, continuaremos. Antes, porém, mais um trago de médoc. Abri e passei-lhe uma garrafa de De Grâve. Despejou-a de um trago. Os olhos brilharam-lhe com um fulgor feroz. Riu e atirou a garrafa ao ar, com uns gestos que não entendi. Olhei-o surpreso. Repetiu o movimento grotesco.
- Não compreende?
- Não, não compreendo - respondi.
- Então não pertence à irmandade.
- Como?
- Quero eu dizer que não pertence à Maçonaria.
- Sim, sim - disse -, sim, pertenço.
- Você? Impossível! Um maçom?
- Sim, um maçom - respondi.
- Um sinal - disse ele.
- Aqui o tem - retorqui, mostrando uma colher de pedreiro que retirei das dobras do meu roquelaire.
- Está brincando - exclamou, recuando alguns passos. - Mas vamos lá, ao Amontilado.
- Assim seja - disse eu, tornando a colocar a ferramenta sob a capa e tornando a oferecer-lhe o meu braço. Apoiou-se nele pesadamente. Continuamos o nosso caminho à procura do Amontilado. Passamos por uma série de arcos baixos, descemos, atravessamos outros, descemos novamente e chegamos a uma profunda cripta na qual a rarefacção do ar fazia com que os archotes reluzissem em vez de arderem em chama. No ponto mais afastado da cripta havia uma outra cripta menos espaçosa. As paredes tinham sido forradas com despojos humanos, empilhados até à abóbada, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três das paredes desta cripta interior estavam ainda ornamentadas desta maneira. Na quarta parede, os ossos tinham sido derrubados e jaziam promiscuamente no solo, formando num ponto um montículo de certo vulto. Nessa parede assim exposta pela remoção dos ossos, percebia-se um recesso ainda mais recôndito, com um metro e vinte centímetros de fundo, noventa centímetros de largo e um metro e oitenta a dois metros e dez de alto. Parecia não ter sido construído com qualquer fim específico, constituindo apenas o intervalo entre dois dos colossais suportes do teto das catacumbas, e era limitado, ao fundo, por uma das paredes circundantes em granito sólido. Foi em vão que Fortunato, levantando o seu tíbio archote, tentou sondar a profundidade do recesso. A enfraquecida luz não nos permitia ver-lhe o fim.
- Continue - disse eu -, o Amontilado está aí dentro. Quanto a Luchesi...
- É um ignorante - interrompeu o meu amigo, enquanto avançava, vacilante, seguido por mim. Num instante atingira o extremo do nicho, e vendo que não podia continuar por causa da rocha, ficou estupidamente desorientado. Um momento mais e tinha-o agrilhoado ao granito. Havia na parede dois grampos de ferro, distantes um do outro, na horizontal, cerca de sessenta centímetros. De um deles pendia uma pequena corrente e do outro um cadeado. Lançar-lhe a corrente em volta da cintura e fechá-la foi obra de poucos segundos. Ficara demasiado surpreendido para oferecer resistência. Retirei a chave e recuei.
- Passe a mão pela parede - disse eu. - Não deixará de sentir o salitre. Na realidade está muito húmido. Mais uma vez lhe suplico que nos retiremos. Não lhe convém? Nesse caso, tenho realmente de o deixar. Mas, primeiro, quero prestar-lhe todas as pequenas atenções ao meu alcance.
- O Amontilado! - berrou o meu amigo, que se não recompusera ainda do espanto em que se encontrava.
- É verdade - respondi. - O Amontilado.
Ao dizer isto, pus-me a procurar com todo o afã por entre as pilhas de ossos de que já falei. Atirando com eles para o lado, pus a descoberto uma quantidade de pedras e argamassa. Com estes materiais e com a ajuda da minha trolha, comecei a entaipar com todo o vigor a entrada do nicho. Mal tinha colocado a primeira fiada de pedras quando descobri que a embriaguez de Fortunato tinha em grande parte desaparecido. A este respeito, o primeiro indício foi-me dado por um longo gemido vindo da profundidade do recesso. Não era o gemido de um ébrio. Sucedeu-se um prolongado e obstinado silêncio. Pus a segunda fiada de pedras, a terceira e a quarta. Em seguida ouvi as vibrações furiosas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para me ser possível ouvi-lo com maior satisfação, suspendi a minha tarefa e sentei-me no montículo de ossos. Quando finalmente cessou o tilintar, retomei a trolha e completei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima fiadas. A parede estava agora quase ao nível do meu peito. Parei novamente e, elevando o archote acima do parapeito, fiz incidir alguns raios de luz sobre a figura que lá estava dentro.
Uma sucessão de gritos altos e agudos, irrompendo de súbito da garganta da figura agrilhoada, quase me atirou violentamente para trás. Por um breve momento hesitei, tremi. Desembainhei o florete e com ele comecei a tatear o recesso, mas bastou pensar um momento para voltar a sentir-me seguro. Coloquei a mão sobre a sólida construção das catacumbas e fiquei satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede. Respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os como um eco, juntei-me a eles, ultrapassei-os em volume e força. Depois disto, o outro sossegou.
Era agora meia-noite e a minha tarefa aproximava-se do fim. Completara já a oitava, a nona e a décima fiadas. Tinha acabado uma porção da décima primeira e última; faltava apenas colocar e fixar uma pequena pedra. Lutava com o seu peso; coloquei-a parcialmente na posição que lhe cabia. Soltou-se então do nicho um riso abafado que me arrepiou os cabelos. Seguiu-se uma voz triste que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. Dizia aquela voz:
- Ah!, ah!, ah!, eh!, eh!, boa piada, de fato, excelente gracejo. Havemos de rir bastante acerca disto, lá no palácio, eh!, eh!, eh!, acerca do nosso vinho, eh!, eh!, eh!
- O Amontilado? - disse eu.
- Eh!, eh!, eh!, eh!, eh!, eh!, sim, o Amontilado. Mas não estará a fazer-se tarde? Não estarão à nossa espera no palácio lady Fortunato e os convidados? Vamo-nos embora.
- Sim - disse eu -, vamo-nos.
- Pelo amor de Deus, Montresor!
- Sim - disse eu -, pelo amor de Deus!
Em vão esperei uma resposta a estas palavras. Comecei a ficar impaciente. Chamei em voz alta:
- Fortunato!
Não obtive resposta. Chamei novamente:
- Fortunato!
Continuei sem resposta. Meti um archote pela pequena abertura e deixei-o cair lá dentro. Em resposta ouvi apenas um tilintar de guizos. Senti o coração oprimido, dada a forte humidade das catacumbas. Apressei-me a pôr fim à minha tarefa. Forcei a última pedra no buraco, e fixei-a com a argamassa. De encontro a esta nova parede tornei a colocar a velha muralha de ossos. Durante meio século nenhum mortal os perturbou. In pace requiescat!"


Edgar Allan Poe
(tradução brasileira)

27/02/2011

O morto




Que um homem do subúrbio de Buenos Aires, que um triste compadrito sem mais virtude que a enfatuação da coragem, se interne nos desertos eqüestres da fronteira com o Brasil e chegue a capitão de contrabandistas, parece de antemão impossível. Aos que assim o entendem, quero contar o destino de Benjamín Otálora, de quem talvez não reste nenhuma lembrança no bairro de Balvanera e que morreu, a seu modo, de um balaço, nos confins do Rio Grande do Sul. Ignoro pormenores de sua aventura; quando me forem revelados, hei de retificar e ampliar estas páginas. Por ora este resumo pode ser útil.
Benjamín Otálora conta, por volta de 1891, dezenove anos. É um rapagão de fronte pequena, de sinceros olhos claros, com o vigor dos bascos; uma punhalada feliz revelou-lhe que é homem valente; não o inquieta a morte do adversário, tampouco a imediata necessidade de fugir da República. O caudilho da paróquia dá-lhe uma carta para um tal Azevedo Bandeira, do Uruguai. Otálora embarca, a travessia é tormentosa e rangente; no outro dia, vagueia pelas ruas de Montevidéu, com inconfessada e talvez ignorada tristeza. Não encontra Azevedo Bandeira; pela meia-noite, num armazém do Paso del Molino, assiste a uma discussão entre alguns tropeiros. Um punhal rebrilha; Otálora não sabe de que lado está a razão, mas o atrai o puro sabor do perigo, como a outros o baralho ou a música. Segura, no entrevem, uma punhalada baixa que um peão desfere contra um homem de chapéu escuro e de poncho. Este, depois, resulta ser Azevedo Bandeira. (Otálora, ao sabê-lo, rasga a carta, porque prefere dever tudo a si mesmo.) Azevedo Bandeira, embora robusto, dá a injustificável impressão de aleijado; em seu rosto, sempre demasiado próximo, estão o judeu, o negro e o índio; em sua afetação, o macaco e o tigre; a cicatriz que lhe atravessa a face é mais um adorno, bem como o negro bigode cerdoso.
Projeção ou erro do álcool, a disputa cessa com a mesma rapidez com que se produziu. Otálora bebe com os tropeiros e depois os acompanha a uma farra e depois a um
casarão na Cidade Velha, já com o sol bem alto. No último pátio, que é de terra, os homens estendem os arreios para dormir. Obscuramente, Otálora compara essa noite com a anterior; agora já pisa terra firme, entre amigos. Inquieta-o algum remorso, isso sim, de não sentir saudades de Buenos Aires. Dorme até as seis, quando o desperta o paisano que, bêbado, agrediu Bandeira. (Otálora se lembra de que esse homem participou com os outros da noite de tumulto e de alegria e que Bandeira o sentou à sua direita e o obrigou a continuar bebendo.) O homem lhe diz que o patrão o manda buscar. Numa espécie de gabinete que dá para o vestíbulo (Otálora nunca viu um vestíbulo com portas laterais), Azevedo Bandeira o está esperando, com uma clara e desdenhosa mulher de cabelo ruivo. Bandeira examina-o, oferece-lhe um copo de aguardente, repete que ele parece um homem corajoso, propõe-lhe ir ao Norte com os demais para trazerem uma tropa. Otálora aceita; de madrugada, estão a caminho, rumo a Tacuarembó.
Começa então para Otálora uma vida diferente, uma vida de vastos amanheceres e de jornadas que têm o cheiro do cavalo. Essa vida é nova para ele, e às vezes atroz, mas já está em seu sangue, pois, assim como os homens de outras nações veneram e pressentem o mar, assim nós (também o homem que entretece estes símbolos) ansiamos pela planície interminável que ressoa sob os cascos. Otálora criou-se nos bairros de carreteiros e quarteadores; em menos de um ano se torna gaúcho. Aprende a montar, a entropilhar o gado, a carnear, a manejar o laço que subjuga e as boleadeiras que derrubam, a resistir ao sono, às tormentas, às geadas e ao sol, a tanger com o assobio e o grito. Só uma vez, durante esse tempo de aprendizado, vê Azevedo Bandeira, mas o tem muito presente, porque ser homem de Bandeira é ser considerado e temido, e porque, diante de qualquer gesto valente, os gaúchos dizem que Bandeira o faz melhor. Alguém opina que Bandeira nasceu do outro lado do Quaraí, no Rio Grande do Sul; isso, que deveria rebaixá-lo, obscuramente o enriquece de selvas populosas, de lamaçais, de inextricáveis e quase infinitas distâncias. Aos poucos, Otálora entende que os negócios de Bandeira são múltiplos e que o principal é o contrabando. Ser tropeiro é ser um criado; Otálora propõe-se ascender a contrabandista. Dois dos companheiros, numa noite, cruzarão a fronteira para voltar com algumas partidas de aguardente; Otálora provoca um deles, fere-o e toma seu lugar. Move-o a ambição e também uma obscura fidelidade. “Que o homem”, pensa, “acabe por entender que tenho mais valor que todos os seus orientais juntos”.
Outro ano passa antes que Otálora regresse a Montevidéu. Percorrem os arredores, a cidade (que a Otálora parece muito grande); chegam à casa do patrão; os homens estendem os arreios no último pátio. Passam os dias e Otálora não vê Bandeira. Dizem, com temor, que ele está enfermo; um homem moreno costuma subir a seu dormitório com a chaleira e o mate. Uma tarde, encarregam Otálora dessa tarefa. Ele sente-se vagamente humilhado, mas também satisfeito.

O dormitório é desmantelado e escuro. Há uma sacada para o poente, há uma longa mesa com uma resplandecente desordem de chicotes, de relhos, de cintos, de armas de fogo e de armas brancas, há um remoto espelho de cristal embaçado. Bandeira está de boca para cima; sonha e se lamenta; uma veemência de sol último o define. O enorme leito branco parece diminuí-lo e obscurecê-lo; Otálora observa os cabelos brancos, a fadiga, a debilidade, as rugas dos anos. Revolta-o que esse velho os esteja mandando. Pensa que um golpe bastaria para dar conta dele. Nisso, vê no espelho que alguém entrou. É a mulher de cabelo ruivo; está meio vestida e descalça, e o observa com fria curiosidade. Bandeira recompõe-se; enquanto fala de coisas da campanha e bebe um mate atrás do outro, seus dedos brincam com as tranças da mulher. Por fim, dá licença a Otálora para ir embora.
Dias depois, chega-lhes a ordem de irem para o Norte. Param em uma estância perdida, situada em qualquer lugar da interminável planície. Nem árvores nem um arroio a alegram, o primeiro sol e o último a golpeiam. Há currais de pedra para o gado, que tem grandes chifres e está necessitado. EI Suspiro é o nome desse pobre estabelecimento.
Otálora ouve na roda de peões que Bandeira não tardará a chegar de Montevidéu. Pergunta por quê; alguém esclarece que há um forasteiro agauchado que está querendo mandar demais. Otálora compreende que é um gracejo, mas lhe agrada que esse gracejo já seja possível. Verifica, depois, que Bandeira se inimizou com um dos chefes políticos e que este lhe retirou seu apoio. Ele gosta dessa notícia.
Chegam caixões de armas longas; chegam uma jarra e uma bacia de prata para o aposento da mulher; chegam cortinas de intrincado damasco; chega das coxilhas, numa manhã, um cavaleiro sombrio, de barba cerrada e de poncho. Chama-se Ulpiano Suárez e é o capanga ou guarda-costas de Azevedo Bandeira. Fala muito pouco e de maneira abrasileirada. Otálora não sabe se atribui sua reserva a hostilidade, a desdém ou a mera barbárie. Sabe, isso sim, que para o plano que está maquinando tem de ganhar a amizade dele.
Entra depois no destino de Benjamín Otálora um alazão de extremidades negras, que Azevedo Bandeira traz do sul e que ostenta arreios chapeados e carona com bordas de pele de tigre. Esse cavalo liberal é símbolo da autoridade do patrão e por isso o cobiça o rapaz, que chega também a desejar, com desejo rancoroso, a mulher de cabelos resplandecentes. A mulher, os arreios e o alazão são atributos ou adjetivos de um homem que ele aspira a destruir.
Aqui a história se complica e se afunda. Azevedo Bandeira é hábil na arte da intimidação progressiva, na satânica manobra de humilhar gradativamente o interlocutor, combinando seriedade e brincadeira; Otálora resolve aplicar esse método ambíguo à dura tarefa que se propõe. Resolve suplantar, lentamente, Azevedo Bandeira. Consegue, em jornadas de perigo comum, a amizade de Suárez. Confia-lhe seu plano; Suárez lhe promete sua ajuda. Muitas coisas vão acontecendo depois, das quais sei algumas poucas. Otálora não obedece a Bandeira; dá para esquecer, corrigir, inverter suas ordens. O universo parece conspirar com ele e apressa os fatos. Num meio-dia, ocorre em campos de Tacuarembó um tiroteio com gente rio-grandense; Otálora usurpa o lugar de Bandeira e comanda os orientais. Uma bala atravessa-lhe o ombro, mas nessa tarde regressa a EI Suspiro no alazão do chefe e nessa tarde umas gotas de seu sangue mancham a pele de tigre e nessa noite dorme com a mulher de cabelos reluzentes. Outras versões mudam a ordem desses fatos e negam que eles tenham acontecido em um único dia.
Bandeira, entretanto, continua sendo nominalmente o chefe. Dá ordens que não se executam; Benjamín Otálora não toca nele, por um misto de rotina e de pena.

A última cena da história corresponde à agitação da última noite de 1894. Nessa noite, os homens de EI Suspiro comem cordeiro recém-carneado e bebem um álcool pendenciador. Alguém infinitamente zangarreia uma trabalhosa milonga. Na cabeceira da mesa, Otálora, bêbado, ergue brinde atrás de brinde, em júbilo crescente; essa torre de vertigem é símbolo de seu irresistível destino. Bandeira, taciturno entre os que gritam, deixa que flua clamorosa a noite. Quando soam as doze badaladas, levanta-se como quem se lembra de uma obrigação. Levanta-se e bate com suavidade à porta da mulher. Ela abre em seguida, como se esperasse o chamado. Sai meio vestida e descalça. Com uma voz que se afemina e se arrasta, o chefe lhe ordena:
– Já que tu e o portenho se querem tanto, agora mesmo vais dar um beijo nele, à vista de todos.
Acresce uma circunstância brutal. A mulher quer resistir, mas dois homens a tomam pelo braço e a lançam sobre Otálora. Arrasada em lágrimas, beija-o no rosto e no peito. Ulpiano Suárez empunha o revólver. Otálora compreende, na iminência da morte, que o traíram desde o princípio, que foi condenado à morte, que lhe permitiram o amor, o mando e o triunfo porque já o davam por morto, porque para Bandeira ele já estava morto.
Suárez, quase com desdém, abre fogo.


Jorge Luis Borges



26/02/2011

O navio das sombras




É noite escura e o cais está deserto. Ivo ergue a gola do sobretudo. Sente muito frio, e o silêncio enorme e hostil enche-o de um vago medo. Vai viajar. Mas é estranho... Tudo parece diferente do que ele sempre imaginara. O grande transatlântico se desenha sem contornos certos contra o céu de fuligem. Não se vê um só vulto humano no cais. Adivinha-se, entretanto, na treva, a presença rígida e gelada dos guindastes.
Os minutos passam. Ivo olha. Sim, agora vê com mais clareza a silhueta do grande barco. A grande Viagem! O seu sonho vai se realizar. Ficarão para trás todas as suas angústias. É uma libertação. Devia estar alegre, sacudir os braços, correr, gritar. Mas uma opressão estranha o paralisa. Que é isto? Onde estão os outros passageiros? Onde se meteu a tripulação? É inquietante este silêncio noturno. E pavorosa esta sombra glacial que envolve tudo. Ivo quer lançar ao ar uma palavra. Pronuncia bem alto seu próprio nome. O som morre sem eco. O silêncio persiste. Então ele começa a sentir um mal-estar que nem a si mesmo consegue explicar.
Divisa aos poucos, vultos imóveis na amurada do paquete. Parecem guardas petrificados dum barco fantasma. Por que não se movem? Por que não falam? A esta hora a orquestra de bordo devia estar tocando uma marcha festiva. Carregadores gritando. Passageiros, empregados de hotel, agentes da companhia de navegação, guardas — muita gente devia andar pelo cais num formigamento sonoro. No entanto reina o mais espesso silêncio... Ivo dá dois passos e é tomado duma esquisita sensação de leveza. Caminha sem o menor esforço. E como se não encontrasse nenhuma resistência no ar, como se suas pernas fossem de algodão.
Mete a mão no bolso. Sim, ali está a sua passagem. Fica mais tranqüilo e encorajado. Pode embarcar. Deve embarcar... Seria decepcionante perder o navio...
Dirige-se para a prancha. Hesita um instante antes de partir, porque a seus ouvidos soa, muito fraca, muito abafada, uma voz amiga.
— Ivo, Ivo querido, não me abandones! Inexplicável. De onde veio a voz? Volta a cabeça para os lados, procurando. Só encontra a escuridão fria e inimiga, O navio apita. Um som soturno, grave e prolongado, enche a grande noite. E uma queixa, quase um choro e, apesar disso, tem um certo tom de ameaça. Nesse apito rouco Ivo sente o pavor do oceano desconhecido na noite negra, a angústia dos navios perdidos a pedirem socorro, a aflição dos náufragos, o horror das profundezas do mar. O apito uivante e áspero parece feito dos gritos de todos os afogados, de todos os mares.
Ivo sente-se desfalecer de medo.
— Meu Ivo, por que foi? Por que foi?
Outra vez a voz. Ivo estremece. De onde vem aquela voz? Na amurada, os vultos continuam imóveis. Nenhum deles podia ter falado assim com aquela ternura longínqua. Porque eles devem ter uma voz cavernosa de pedra.
Parado ao pé da prancha, Ivo olha para o alto. Vê um homem na extremidade superior da escada. Está de pernas abertas, braços cruzados, olhando para baixo. Ivo não lhe pode distinguir £s feições. Mas é curioso, ele sente a força de dois olhos magnéticos que o fitam. E aquele olhar é um chamado, uma ordem.
Começa a subir. Lembra-se de um trecho de antologia da sua infância. André Chenier subindo as escadas do cadafalso. Sim, ele sente que vai ser guilhotinado. Lá em cima está o carrasco. Ou será apenas o capitão? Ivo sobe. Um, dois, três, quatro degraus ... O frio aumenta, Ivo começa a tiritar. Cinco, seis, sete. Sente uma fraqueza, uma tontura. Subiu apenas sete degraus, mas agora o cais está tão longe de seus pés, que ele tem a sensação de se encontrar no alto duma torre altíssima. O vento sopra gelado como a face dum morto. Mas por que lhe vêm com tanta insistência esses pensamentos macabros? Esta não é então a Viagem, a sua desejada aventura transoceânica? Deve então alegrar-se, cantar . . . Procura assobiar uma ária alegre. Mas o vento lhe impõe silêncio. Ivo sobe sempre . . . Quando senta o pé no navio, não vê mais o capitão. Volta os olhos e só enxerga a noite, a grande noite, a densa noite.
Por que não acendem as luzes deste navio? Senhores, as luzes! Outros vultos passam. Mulheres, homens, crianças. É aflitivo. Ivo não lhes pode ver os rostos. E o silêncio apavorante!...
Ivo se aproxima dum homem que se acha encostado à amurada.
— Por favor, meu amigo, pode me dizer se este vapor é o...
Cala-se. É assustador. Ele não sabe o nome do barco em que entrou. Como foi isso? Não se trata então duma viagem, da "sua" desejada viagem, por tanto tempo planejada e acariciada? Por que tudo agora está tão esfumado e confuso, como se sobre sua memória tivesse caído um véu? Ivo começa a suar. O suor lhe escorre pelo rosto em bagas frias.
- Pode me dizer onde fica o bar?
Sim, precisa tomar uma bebida qualquer. Deve ser o frio que o deixa assim tão sem memória, tão fraco e trêmulo.
— Cavalheiro, pode me dizer onde fica o sol?
O sol? Mas ele não queria perguntar onde ficava o sol. Jurava que ia perguntar onde ficava o bar.
— Por favor, cavalheiro...
O vulto se move sem o menor ruído e some-se na sombra.
Ivo treme dos pés à cabeça. "Preciso encontrar o meu camarote" diz para si mesmo — "preciso descobrir a minha bagagem" — pensa, numa crescente aflição. — "Deve existir alguém a bordo que possa me explicar. Talvez um doutor... Sim. Estou doente..."
E agora ele tem consciência duma dor, não aguda mas continuada e martelante, bem no lado esquerdo do peito. Leva a mão ao coração. Retira-a úmida. Será sangue ? Sim, deve ser...
Sai a correr apavorado. Um médico! Um médico! Estou ferido, vou morrer,
socorro! Mas suas pernas, de tão leves, agora se vergam. Ivo pára. Ajoelha-se e grita ainda: Um médico! Mas não consegue ouvir a própria voz. Ergue-se, agoniado. Homens, mulheres e poucas crianças continuam a passar. São ainda sombras sem vozes nem gestos.
Ivo procura orientar-se na escuridão. Parece-lhe agora enxergar contornos mais nítidos. Sim. Ali está uma porta. Um corredor. Se ele entrar no corredor talvez ache o seu camarote. Tem agora vagamente a lembrança dum número. 27... 27... Recorda-se de tê-lo visto impresso em algarismos negros sobre um quadro branco. 27... Onde?
De repente tem a impressão de que na memória se lhe abre uma clareira por onde ele enxerga o passado. Mas é apenas um relâmpago. De novo cai a névoa. Já não lhe dói mais o peito. Tudo deve ter sido ilusão ... ele não está ferido. As sombras passam. A bruma que vem do mar invade o navio. Onde estará o capitão? O frio e o silêncio persistem. O barco misterioso torna a soltar um gemido rouco e prolongado. Mas - é incrível, incompreensível, endoidecedor — nem o apito consegue quebrar o silêncio.
Ivo caminha sem destino. Não ouve o ruído dos próprios passos. Não tropeça em nada. Aproxima-se da amurada e olha o mar. Só vê a escuridão velada duma bruma de cor doentia.
Um homem se aproxima dele. Ivo olha-lhe o rosto.. Já se lhe distinguem alguns traços. Decerto o hábito da escuridão. Céus, mas que rosto pálido! Parece a cara dum cadáver. A pele está ressequida e tem um tom esverdeado. Os olhos, parados e sem brilho. Os dentes arreganhados...
Agora aparecem outras faces. Uma criança sorrindo um sorriso horrendo. Uma mulher com os olhos furados escorrendo sangue. Um velho com a boca queimada de ácido. Ivo solta um grito... Mas o silêncio continua. Onde estarei? — pensa ele. — Onde estarei? Faz um esforço dolorido para se lembrar.
Quem sou eu? Como foi que vim parar aqui? Onde estão os meus amigos, as pessoas que eu via todos os dias?
O frio aumenta. Ivo sente-se desfalecer. Tem a impressão de estar boiando nas ondas dum mar gelado, como um náufrago; como um iceberg...
Camarote 27! — diz Ivo, - 27... 27... — Seus lábios se movem, mas nenhum som perturba o silêncio do grande barco e da enorme noite.
De repente uma onda morna lhe invade o corpo. Pela proa do navio começa a nascer uma luz, pálida a princípio, mas a pouco e pouco se fazendo mais viva e dourada. Os olhos de Ivo se agrandam. Aquela luminosidade vai ser a explicação de tudo, a volta da memória... Sim, ele vai descer pela prancha e ganhar o cais. O cais também é negro e silencioso. Mas não há nada como a terra firme. Ele não quer viajar neste vapor tenebroso cujos passageiros são fantasmas. O mar desconhecido é um pavor na noite. Oh Deus! - pensa Ivo - como foi que eu cheguei a desejar esta viagem!? Que louco! Que louco! A luz cresce. O calor aumenta. A voz amiga se ouve mais forte: "Ivo, meu querido, fica comigo!" Sim, ele quer ficar. E preciso fugir do capitão do barco noturno. Ivo dá dois passos para a luz.
Ajoelhada ao pé da cama a moça aperta e beija a mão pálida do rapaz.
— Ivo, não quero que morras, não quero. Por que foi que fizeste isso? Por que foi?
Com a seringa de injeção numa das mãos, o médico contempla o rosto pálido do suicida. Pobre diabo! Perdeu tanto sangue... O corpo está quase frio.
A um canto do quarto, a dona da casa, torcendo o avental, olha muito assustada para a cama. "Por causa do que me devia, ele não precisava fazer isso. Eu podia esperar. Não tinha importância. Deus me perdoe. Se eu soubesse, não tinha vindo hoje trazer a conta. Logo hoje, Nossa Senhora!"
Ao pé da janela, o porteiro da casa conversa com um agente de polícia.
— De onde era ele?
— Do interior.
— Tinha família?
O porteiro encolhe os ombros.
— Era um moço muito calmo, muito delicado. Andava sem emprego. Eu dizia para ele que tivesse paciência. Mas qual! Não agüentou... Há gente nervosa.
Falam já de Ivo como quem fala dum morto. O médico aproxima-se do grupo.
— Fiz uma tentativa desesperada. Injetei-lhe adrenalina no coração. — Sacode a cabeça. — Não tenho muita esperança. Enfim... acontecem milagres...
Ao ouvir a palavra milagre a velha começa a rezar.
De repente a moça se ergue, como que impelida por uma mola.
— Doutor! Ele está se mexendo... venha! Venha! Os três homens se aproximam da cama. O rosto de Ivo se move, seus olhos se entreabrem. Há um breve instante de aflitiva esperança. Ivo como que se baloiça, indeciso, por sobre as tênues fronteiras que separam a vida da morte.Mas parece haver do outro lado um chamado mais forte. O corpo se imobiliza.
O doutor inclina-se e ausculta-lhe o coração. Olha para a moça e diz, baixinho:
— Sinto muito. Mas não há mais nada a fazer. A dona da casa desata a chorar. Com o rosto contraído numa expressão mais de estupefação que de dor, a rapariga olha do médico para o morto, do morto para a folhinha da parede, onde o número 27 em letras negras se destaca sobre o quadrado branco. Iam contratar casamento, hoje, hoje...
O transatlântico vai partir. O transatlântico apita. É um gemido rouco, longo, doloroso, desesperado, irremediável. Debruçado à amurada, Ivo olha o vácuo. Agora é uma sombra resignada entre as outras sombras. O vento do grande mar desconhecido varre o barco dos suicidas. E todos eles ali vão em silêncio, enquanto na ponte o fantástico Capitão olha com seus olhos vazios a noite insondável.


Erico Verissimo
Contos

21/02/2011

Marcolina corpo de sereia


Não serei diferente do que sou, tenho muito prazer em minha condição. Sempre sou acariciada.
(Uma jovem feiticeira francesa de 1660)


Nascera linda. Crescera maravilhosa. Cuidava dos porcos e das galinhas. Chafurdava na lama, calçada com suas botas de borracha preta que resguardavam os membros em mutação, abrigava os cabelos de seda do sol inclemente sob um saco de estopa amarrado à bandeira de rebeldes.
Rebelde não era. Mas a ponta da luxúria já era incipiente. Insidiosa, começava a escalar a árvore do desejo pela raiz. Marcolina coleccionava revistas que chegavam à venda na pequena vila de pescadores, um lapso do correio, pois revistas fashion look e vogues estrangeiras, outras do mundo inteiro, até uma nacional com apresentação de modelos com traseiros superdesenvolvidos, misturavam-se às batatas e à ração animal. "Leve, leve, para que me servem", dizia o vendeiro, "E para o que te servem, Marcolina? - Vai mostrar aos porcos, engordar suas vistas?” •
Marcolina-corpo-de-sereia morava junto ao mar, respirava o ar de sal e algas, ouvia cantos ao longe, ninfa ingénua que se transmutava subtilmente à medida que se banhava abaixo da cintura, nas ondas encrespadas do mar, no fundo de seu quintal.
Marcolina-corpo-de-sereia ainda não sabia para o que as tais revistas serviam e carregava todas, tinha a colecção debaixo de sua cama, o lugar ideal para o esconderijo, jamais vasculhado pelas vassouras que passavam ao largo.
Marcolina crescia. Os seios em botão afloravam pontudos na blusa, os pêlos dourados, penugem de seda, cobriam seu corpo alvo, até a cintura. Abaixo desta, a indagação. Marcolina virava sereia e ninguém percebia, nem os porcos satisfeitos com a lavagem diária não queriam saber sobre o sexo ou a imagem de quem os alimentava.
À noite Marcolina sonhava, folheando as revistas e descobrindo mulheres belas, despidas e ousadas, famosas mulheres da cidade. E desejava, ansiava, suspirava.
Um dia foi dar comida aos porcos, nua da cintura para cima. E o tio velho, os pais alienados, até os porcos pararam, o mundo cessou o seu giro, o sol brilhou mais intensamente para Marcolina desfilar. Seios empinados apontando para o céu, nua até onde o corpo de sereia permitia, Marcolina desfilou com o balde da comida dos porcos sobre os ombros ante os olhares tristes de todos: a princesinha transformara-se em rainha, e todos teriam que se conformar. Só não se conformaram os porcos com o atraso da alimentação.
Marcolina decidira. Queria desfilar sobre as calçadas cobertas de ouro, na passarela onde mulheres bonitas tornavam-se rainhas, mostravam o corpo, os seios, a bunda, suas carnes eram admiradas por todos e premiadas pela exposição.
A mãe era ignorante; porém, a ignorância não elimina a inteligência e constatava a mudança no comportamento de Marcolina. Aconselhar a filha? E o que poderia dizer-lhe? Que a verdadeira essência da vida é a simplicidade e que ela deveria conformar-se cuidando da sua vida ali naquela terra junto ao mar, alimentando os porcos, o seu dote para o futuro? Estava preparada para o revoar de sua pombinha.
Num dia da faxina no quarto da filha pronta para o voo, encontrou as revistas. E perdeu metade do dia maravilhada, até que as devolveu ao esconderijo, saindo do quarto como de um castelo encantado.
Marcolina-corpo-de-sereia não nadou. Viajou. Subiu a colina num trem de segunda categoria, mochila nas costas, longa saia esvoaçante, e desembarcou na cidade que oferecia ouro às mulheres formosas.
Mulher linda e exótica, mesmo com corpo de sereia, sempre acha algum malandro querendo ser encantado pelo seu encanto. Com Marcolina não foi diferente e, ao ouvir aquela voz maviosa perguntando onde estavam as ruas cobertas de ouro, não teve dúvida em afirmar que conhecia o endereço das minas. Marcolina estranhou o ambiente ao sair da estação ferroviária e mergulhar no enxame humano de seres de todos os tipos, de mulatos mequetrefes a banqueiros raquíticos, de garotos de motos com botas de vaqueiro a adolescentes que paravam defronte às vitrines das lojas para ajeitar a roupa barata, os corpetes justos e as calças iguais, fazendo de todas apenas uma. Marcolina-corpo-de-sereia queria saber das calçadas douradas, das mulheres glamourosas, dos homens que sussurravam; seu corpo de sereia doía, sua cabeça latejava, aquele cheiro azedo de gente junta lembrava-lhe os porcos comendo lavagem e começava a impregnar-se da nostalgia da brisa do mar, do cheiro do sal, da lama da pocilga dos porcos.
"Eu me chamo Cobra", falou ele, indicando-lhe a moto escrachada e dizendo "suba aí na garupa que eu vou levar você até as calçadas de ouro". E partiram para a Mansão das Damas, a pensão na casa antiga e velha, ladeada de floreiras com flores de plástico, "veja é aqui que você vai morar, minha rainha, e já vou arranjar ouro para você hoje mesmo. Tome um banho, vista este vestido, jogue fora essa sua saia de cigana", sussurrava ele em seus ouvidos, escorregando a mão pelo seu corpo, enquanto a empurrava para um quarto minúsculo sobre uma cama quebrada, dizendo "o banheiro é no fundo do corredor, eu já volto".
Marcolina afinal tivera os sussurros nos ouvidos. A barra dourada e desbotada de mulheres nuas da pintura barroca na parede do quarto, mais o cansaço da viagem e a excitação da cidade grande a deslumbraram. Deitou, dormiu e sonhou com os seus porcos. Mas antes vestiu a roupa de escamas verdes brilhantes que amoldou o seu corpo de sereia.
A noite chegou e com ela o Cobra mais um fulano de terno e gravata que, sem abrir a boca, mostrou-lhe uma pulseira dourada, dizendo, ofegante, "olha, eu lhe trouxe o ouro", e logo abraçou-a pela cintura, procurando as suas profundezas, fungando e grunhindo, mordendo seus peitos duros, retirando-lhe o ar, na busca pelo imã que atrai todos os homens, e se da cintura para baixo Marcolina era mutante, outros orifícios o satisfizeram. Foi a primeira noite da sereia em terra de bárbaros que em troca do ouro, tão falso quanto a pintura das paredes, lhe extraíram prazeres. Outras noites vieram, novas pulseiras douradas, outros fulanos de terno e gravata irromperam pelo quarto do Cobra. Vamos ficar ricos, menina. Ela não acreditava, pedia as calçadas de ouro, as passarelas brilhantes, os vestidos de rainha. Mas ia ficando no seu vestido de escamas brilhantes, porque percebia que da cintura para baixo já não era mais a mesma. Alguma coisa estranha estava acontecendo — e aconteceu de fato. Examinando-se ao espelho viu suas pernas unindo-se debaixo do vestido de escamas brilhantes e verdes, sua cintura colava-se ao tecido, e ali no espelho a metamorfose mostrava a mais linda sereia do mundo. Cobra não se assustou. Colocou-a de lado na garupa da moto, levou-a até o litoral e despejou-a no mar revolto, resmungando que com cafetão de segunda classe as minas se transformam até em peixes.
Marcolina-corpo-de-sereia vagou pelas ondas, penetrou nas profundas do oceano, distraiu-se atrás dos peixes dourados até que, seguindo o som do canto embriagador, foi dar com os costados na praia de sua casa. Reconheceu o terreno pelo cheiro de lavagem dos porcos e pelo ressoar do cochilo de seu tio velho dormindo na areia.
Emergiu nua, largando as escamas brilhantes na água verde. Membros recompostos conduziram-na até sua casa, os porcos grunhiram satisfeitos, o amanhecer a encontrou folheando as revistas glamourosas, satisfeita de haver conhecido, se não as ruas cobertas de ouro, o outro lado da vida para além do mar. O tio alienado acordou com os grunhidos dos porcos, e Marcolina percebeu que já era hora de calçar as botas de borracha, próprias para chafurdar na lama. As pulseiras douradas brilhavam em seu pulso.


Nilza Amaral
Brasil

18/02/2011

A gargalhada


— Não grita, por favor.
— Não estou gritando. Estou rindo.
— Falar alto ou gargalhar é a mesma coisa. É manifestação de animalidade que a minha natureza não suporta. Vocês conhecem a minha fascinação pelas mulheres. Nada para mim tem um poder de atração maior do que uma mulher. Porém a mulher mais linda, a mais perfeita, a mais fascinante, falando alto ou gargalhando, faz crescer em mim um ímpeto monstruoso e sinto que sou capaz de abrir com as mãos o seu pescoço. Fico desvairado; é uma repulsa incontida. Só os animais se expressam com alarido, só as criaturas desclassificadas, moral e espiritualmente, falam aos gritos e riem com a garganta. Já sabem, não gritem nem dêem gargalhadas perto de mim se não quiserem transformar-me num criminoso. Fico descontrolado com o barulho, seja ele qual for.
Gaspar e dois amigos conversavam num bar, de madrugada, onde a fumaça dos cigarros e o cheiro de álcool misturavam-se ao som de um piano tocado por dedos já. cansados e indiferentes ao ambiente.
André, de temperamento alegre, depois de tomar duas ou três doses de álcool, expandia-se em piadas de mau gosto, acompanhadas de estridentes gargalhadas.
O outro, Maurício, quase silencioso, observava demoradamente os freqüentadores do bar, Possuía um interesse especial por dois detalhes do corpo humano: mãos e nucas.
— Gaspar, você define e classifica as criaturas pelo falar alto e o gargalhar. Tem razão. Não pode haver inteligência nem condições espirituais numa pessoa que expressa suas alegrias e suas opiniões aos berros. Vocês dois criticam sempre a minha atitude quando em silêncio fico a maior parte do tempo com os olhos pregados nas mãos e na nuca das pessoas à minha frente. Eu explico. Gosto de definir, através das mãos e da nuca, a essência do indivíduo. Reparem, por exemplo, aquele sujeito sentado na mesa à nossa esquerda. Forçosamente tem de ser uma pessoa mesquinha, de fundo avarento, capaz de sujeiras freqüentes nas vinte e quatro horas do dia. Está acompanhado de uma mulher que chama a atenção unicamente pela tristeza do olhar. O resto é comum e insignificante. O seu modo de trajar é suburbano. O seu olhar, entretanto, carrega pesadas humilhações e penas. O homem que a acompanha não vê nada disso que esmaga a pobre mulher.
— E você, Maurício, verificou a tristeza da mulher e a mesquinhez do caráter do homem pelas mãos dele, só pelas mãos? — perguntou André.
— Sim, pelas mãos. Observem seus gestos e a forma das suas mãos curtas e gordas, achatadas, de unhas minúsculas enterradas na carne, dedos cabeludos, pulsos cabeludos. Suas mãos, quando paradas, assemelham-se a aranhas adormecidas. São mãos asquerosas, devem ter uma transpiração abundante. Sempre molhadas de suor. Reparem nos seus gestos em curvas pequenas em direção à sua barriga, Parecem trazer as migalhas da mesa para o seu estômago. Nada em seu físico define com mais segurança a sua mesquinha personalidade do que as suas mãos.
— Você o conhece, para marcá-lo assim de maneira tão positiva?
— Não, nunca o vi. Mas desde que cheguei notei a sua repelente personalidade pelas suas mãos cabeludas, curtas e de movimentos repulsivos.
Enquanto Maurício falava sobre as suas observações, o homem reclamava aos brados, do garçom, uma insignificante quantia adicionada à nota das despesas. Dava a entender que o pagamento daquele mínimo excedente iria obrigá-lo a voltar a pé para casa.
A mulher que o acompanhava, de olhos baixos, sentia a humilhação de quem contribuíra para um grave problema financeiro do companheiro que a trouxera para o bar; como se reclamasse o preço excessivo da sua presença ao seu lado, A mulher somava tristezas.
Maurício olhou para os amigos com ar vitorioso de quem acerta no objetivo. 0 homem de mãos curtas e cabeludas exibira a sua essência.
— Vejam também agora a nuca deste sujeito que está sentado de costas para nós. Nuca pálida, enxundiosa, com o nascimento do cabelo muito alto e semelhante a uma franja rala. Nuca de homem tem de ser com o nascimento do cabelo no meio do pescoço, de fios grossos marcando vitalidade e decisão de atitudes. Desconfiem de todo homem que possuir uma nuca que sobe até o meio da cabeça. Não escapará de ser um indivíduo desleal, traiçoeiro, com tendência à vida sórdida, vivendo da exploração de mulheres.
— Ora, isso é bobagem. E os que não têm pescoço, os que não têm nuca, os que têm a cabeça. Diretamente pregada nos ombros, como são? — perguntou André já bastante alcoolizado.
— Bem, esses são os burros teimosos. Teimosos e vaidosos. Esses são perigosos. Sentem-se um deus de sabedoria e, se têm uma parcela de poder ou uma fortuna assegurada, entendem que têm o direito de arrasar com a humanidade, e que as suas opiniões estão na razão direta do seu dinheiro, Como já disse, esses sem pescoço são perigosos para a coletividade.
Nesse instante, Maurício chamou a atenção dos companheiros para o homem da nuca flácida.
— Reparem o que ele está fazendo e vejam como os meus estudos são infalíveis!
O homem recebia, sob a toalha da mesa, das mãos da mulher que o acompanhava, o dinheiro com que iria pagar as despesas feitas.
— Qual é a sua finalidade, Maurício, ao estudar e observar a personalidade das criaturas através dos detalhes das mãos e da nuca?
— A de definir para conhecer a essência das coisas. É um estudo como outro qualquer. É um divertimento. Meus estudos e observações não impedirão o nascimento de homens mesquinhos, sórdidos e de vidas repugnantes, eu sei. Mas cada vez que acerto nas minhas observações, mais vontade tenho de observar para acertar. É uma espécie de jogo comigo mesmo. O princípio da ignorância humana é o definir aquilo que se fala ou o que se prefere falar, sobre o que ainda não se sabe e nem se pode definir. Eu falo do que ainda não se pode definir. Tento chegar à ignorância humana.
— Por exemplo, o descontrole de Gaspar ao ouvir alguém gritar ou dar gargalhadas, parece-me uma reação intimamente ligada à sua sensibilidade. As suas impressões, as suas visões ou os seus ímpetos inesperados devem variar dependendo da sua receptividade brutalizada por risos estridentes e barulhos fortes. A reação da sensibilidade de cada pessoa pode encaminhar-se para o estoicismo ou para o crime. Conheci um rapaz que desde menino perdia a fala quando cercado de conversas tumultuosas ou de ruídos agudos. Permanecia completamente mudo por várias horas. Mas mudo mesmo. Trancava-se no quarto e entregava-se à leitura. A família desorientava-se com a sua mudez prolongada e repentina. A medicina não oferecia maiores explicações. A sua mudez era total e a sua audição também seguia o mesmo processo. No dia seguinte aparecia com a fala e a audição perfeitamente normais. Assustava-se, terrivelmente, quando ao longe percebia o ronco dos motores de um avião no céu. Quando o telefone tocava, se ele estivesse perto, corria para o quarto como um animal batido. Diziam que era um desequilibrado, mas essa conclusão foi posta por terra quando a família resolveu enviá-lo para uma fazenda no interior, onde ele só tinha contato com o silêncio. A solução foi afastá-lo de tudo e de todos na medida do possível. Durante esse período falava e ouvia normalmente, Interessante é que cantava canções de acalanto e a sua voz tinha uma sonoridade maravilhosa, 0 tumulto, os gritos, as conversas misturadas, as risadas, extinguiam instantaneamente a sua voz e a sua audição, mas voltavam perfeitas na substância do silêncio. Era por isso considerado um tipo estranho e enigmático. Ora, Gaspar deve estar incluído, sem saber, entre os raros que sofrem desse mesmo fenômeno. Daí o seu descontrole, a sua angústia, quando alguém a ao seu lado fala aos gritos ou dá estrondosas gargalhadas. Nota-se em Gaspar uma imediata transformação fisionômica, um ar desvairado, e não deve ser sem fundamentos que ele afirma a possibilidade de tornar-se um criminoso ao ouvir uma gargalhada.
Gaspar ouvia sem interromper Maurício, parecendo concordar com o diagnóstico do amigo.
Um grande silêncio envolveu a mesa dos três. Ao longe, rompendo a densidade da fumaça e o enjoativo cheiro de álcool que dominava o bar, o piano continuava tateado por mãos cansadas e indiferentes àquelas vidas gastando-se na madrugada. Vinda de um canto do bar, passou pela mesa dos três amigos uma mulher jovem. Não era bela nem feia. Era uma mulher de bar. Gaspar segurou-lhe o braço e indagou se estava sozinha. A mulher respondeu afirmativamente.
— Para onde vai?
— Para casa.
— Espere, vou com você.
Saíram os dois.
Num hotel barato, os outros hóspedes ouviram a porta de um quarto fechar-se. Depois o murmúrio de vozes do casal. De repente, uma gargalhada inundou o corredor do hotel. Outra gargalhada. Depois o silêncio absoluto.
Pela manhã, quando a arrumadeira iniciou o seu serviço, ao passar pelo quarto ocupado pelo casal da madrugada, viu pela porta entreaberta uma mulher nua, deitada na cama, tendo sobre a cabeça um travesseiro.
O seu corpo morto deixava fora do lençol um seio alvo e volumoso.


Adalgisa Nery


16/02/2011

Francisco e o lobo


Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as Tuas criaturas,
especialmente,meu Senhor, o irmão Sol, que faz o dia e nos dá a luz.
São Francisco de Assis[1]


Num tempo chamado Idade Média, na pequena cidade italiana de Assis, vivia um jovem de nome Francisco.
Era o filho mais velho de um dos homens mais ricos da sua cidade, o negociante de panos Pietro di Bernardone.
À loja do pai de Francisco, no rés-do-chão da casa onde moravam, iam os senhores e senhoras mais endinheirados da região comprar belas e pesadas peças de veludo e de brocado para com elas mandarem fazer os seus sumptuosos fatos, mantos e capas.
Desde que nascera, Francisco vivia rodeado de todo o conforto e até de um certo luxo. Como os outros jovens de famílias ricas, gostava de se vestir com roupas vistosas e de participar, com os seus amigos, em banquetes e outras festas. Às vezes, ficava a divertir-se nessas festas até de madrugada, ouvindo música, comendo saborosas carnes assadas e bebendo os melhores vinhos de Itália.
Assim, durante algum tempo, a vida do jovem Francisco foi idêntica à de outros rapazes da sua idade e condição social.
Um dia, Francisco adoeceu gravemente e teve de ficar de cama durante algum tempo para se recuperar. A sua mãe nunca deixou que lhe faltasse nada e confortou-o sempre com muito carinho, desejosa de que o filho mais velho se curasse o mais rapidamente possível.
Quando, finalmente, o rapaz melhorou, quis imediatamente levantar-se da cama para sair, pois já estava cansado de estar fechado no seu quarto. Porém, ao pôr os pés no chão depois de tanto tempo deitado, sentiu-se fraquejar.
Na realidade, Francisco ainda não tinha força suficiente para se manter de pé e, por essa razão, a mãe veio logo trazer-lhe uma ajuda: uma bonita bengala de madeira envernizada com cabo de marfim, para o filho se apoiar nos primeiros tempos.
Francisco quis, então, ir dar um longo passeio pelo campo, perto da cidade onde morava. Lá, teve ocasião de pensar bastante sobre a vida que levara até àquela altura e chegou à conclusão de que queria mudar, para viver de uma forma completamente diferente da que ele conhecia até então.
Naquele dia, caminhou pelos campos e pensou longamente, enquanto admirava a beleza que havia à sua volta.
Desde cedo se habituara a observar a Natureza: as árvores, as flores silvestres, os rios, os campos cultivados, os animais, o Sol, a Lua e todos os astros do firmamento. Ao contemplar a Natureza, Francisco sentia-se cada vez mais perto de Deus, o Criador de todas as coisas.
Uns dias mais tarde, na loja do seu pai, enquanto atendia um cliente que vinha comprar ricos tecidos, reparou que um homem muito pobre tinha entrado na loja para pedir dinheiro, e Francisco apressou-se a mandá-lo embora, quase sem se aperceber do que fazia. No entanto, nessa noite, lembrou-se do que tinha feito e arrependeu-se muito! Aquele pobre contava com a sua ajuda e ele nada fizera por ele...
Então, tomou a decisão mais importante da sua vida: a partir daquele dia, iria dar tudo o que pudesse a quem viesse pedir-lhe ajuda.
Assim fez, tornando-se generoso como nunca tinha sido. Na verdade, acabou mesmo por dar tudo o que tinha e mudou-se para uma cabana fora da cidade de Assis, para viver da forma mais simples possível, como Jesus tinha vivido.
Francisco começou, então, uma vida de serviço aos pobres e doentes com quem se cruzava, lamentando-se apenas do tempo que tinha perdido em festas luxuosas e grandes banquetes, enquanto tantas pessoas passavam fome e frio por não terem quem as ajudasse.
A partir daquela altura, todos os pedintes que dele se aproximavam recebiam ajuda e palavras de conforto. O mesmo acontecia com os doentes, de quem Francisco tratava o melhor que sabia, sobretudo daqueles que não tinham ninguém que quisesse cuidar deles.
Como gostava muito da Natureza, Francisco de Assis foi-se tornando também cada vez mais amigo de todos os animais, árvores, flores e tudo o mais que Deus tinha criado com tanto amor e perfeição. Para ele, todos os seres da Natureza eram como seus irmãos, e assim os tratava por onde quer que passasse, nas viagens que fazia.
Certo dia, Francisco compreendeu que a população de uma cidadezinha chamada Gubbio andava muito zangada e preocupada por causa de um lobo feroz que por lá aparecia frequentemente para atacar galinhas e outros animais domésticos.
A certa altura, as pessoas de Gubbio, já desesperadas com a situação, decidiram que um grupo de homens iria procurar o lobo pelas matas para o matar. Ao saber isto, Francisco resolveu falar ao povo de Gubbio:
— Deixai-me, primeiro, ir ter com o lobo — pediu-lhes. — Em breve, regressarei e direi o que haveis de fazer.
Conforme prometera, Francisco foi à procura do tal lobo feroz e, finalmente, encontrou-o. Viu, então, que ele estava magro e faminto e percebeu imediatamente a razão que o levara a atacar os animais domésticos e até alguns habitantes de Gubbio.
Então, aproximou-se suavemente do lobo, acariciou-lhe o lombo e falou com ele, como conversava com outros animais, plantas, e até com o Sol e a Lua, dos quais cada vez gostava mais. É que Francisco sabia que todos eram criaturas de Deus e, portanto, havia que tratá-los com respeito e carinho.
Depois de ter falado ao lobo, regressou a Gubbio, tal como havia combinado.
Os habitantes já o esperavam ansiosamente e quase não o deixavam falar, fazendo-lhe muitas perguntas. Por fim, Francisco disse-lhes:
— Vi o lobo. Falei-lhe e posso garantir-vos que não voltará a atacar, desde que vocês passem a deixar-lhe alguns restos de comida à entrada de Gubbio. Se assim fizerem, não será necessário matá-lo nem continuar a temê-lo, pois não voltará a fazer-vos mal algum.
Muito impressionados com as palavras de Francisco, os homens e mulheres que o ouviram foram guardar os paus e armas que já tinham preparado para a caça ao lobo e regressaram a suas casas muito mais tranquilos. Na verdade, conheciam bem Francisco e, embora achassem estranho que ele conseguisse falar com os animais, sabiam que ele era um homem bom e que cumpria a sua palavra.
A partir daquele dia, reinou a paz entre o lobo e a população de Gubbio, que não deixou de arranjar comida para lhe matar a fome.
Por esta e muitas outras razões, Francisco veio a ser considerado um homem santo e é também o padroeiro dos ecologistas e de todos aqueles que se dedicam a proteger a Natureza.
Ao longo dos tempos, muitos homens resolveram seguir o exemplo de Francisco de Assis e são conhecidos por «fransciscanos»! Todos eles decidiram viver na maior simplicidade, ajudando, com alegria, os pobres e os doentes, e respeitando sempre a Natureza!


Maria Teresa Gonzalez
Histórias do céu



Os Mínimos Carapinas do Nada

No Ponto, na farmácia de seu Belo, no armazém de secos e molhados de seu Bernardino, mesmo no final das tardes de conversação distinta do Banco Duas Pontes, no gabinete do nobre de alma e de gestos Vítor Macedônio (o belo varão, bem-nascido e gentil-homem), que reunia em torno de si (ali se servia do melhor conhaque francês) os potentados do café como o coronel Tote ou ilustres desocupados como seu Bê P. Lima, maledicente e boa-vida, mas de berço, enfim nas várias ágoras da cidade onde se comerciava a novidade, a imaginação, o ócio e o tédio...
Nas janelas das casas terreiras de grandes e pesadas janelas de marco rústico, baixo e retangular, junto das calçadas, onde se ficava sabendo de tudo pelos passantes que iam e vinham (como era bom se debruçar e bater dois dedinhos de prosa ou fugir para dentro, se quem apontava na esquina era um maçante), de tudo se sabia sem carecer de estafeta e selo, as notícias e novidades: quem andava pastoreando quem, aquela que tinha caído na vida e agora era carne nova, estava de rapariga na Casa da Ponte, na testa de quem apontara o broto de futura e soberba galhada...
Mesmo nas nobres sacadas de ferro, nas janelas de ricos sobrados, podia-se ver a qualquer hora do dia, no enovelar lento do tempo, os carapinas do nada, ocupados na gratuita e absurda, prazerosa ocupação.
Eram os carapinas do mínimo e do nada, os devoradores das horas, insaciáveis Saturnos, dizia o sapientíssimo, alambicado, precioso dr. Viriato. Quem não tem o que fazer, faz colher de pau e enfeita o cabo, vinha por sua vez o proverbial, memorioso, eterno, pantemporal noveleiro Donga Novais, uma das poucas pessoas a não se entregar inteiramente ao vício e paixão da cidade. É porque para ele a entidade metafísica do tempo não existe (como para os platônicos que, ao contrário dos hebreus, não tinham o senso da historicidade, lidavam com o puro universal), passado, presente e futuro são uma coisa só, retrucava o dr. Viriato súbito espantosamente aderindo à fiação e tecelagem dos nossos mitos. Ele que era um cientista exaltado, um agnóstico convicto, de dialético linguajar maneirista que demandava precioso raciocínio, imaginação, dicionário.
Não que o dr. Viriato tivesse as mãos ocupadas no admirável passa-tempo (santo remédio para a ansiedade e a angústia), que demandava habilidade, precisão e paciência, a que se dedicavam aristocraticamente potentados e pingantes que só tinham de seu serem bem-nascidos. Tão alto-crítico ele era, jamais se permitiria aquela vamos dizer arte, paixão antiga de Duas Pontes. De uma certa maneira ele colaborava era na criação de nossos mitos, mesmo negando-os, racionalista que ele se dizia e era.
Quando, quem inventou tão sublime vamos dizer desocupação e alívio do espírito, perguntava o dr. Viriato a seu Donga Novais, sapiência viva do nosso tempo e história, os fabulosos, inconclusos e aéreos anais. Você, Donga, é o Sócrates da nossa pólis. Não sei, dizia desapontando à gente o nosso macróbio cidadão Donga Novais: amor e ócio são maus negócios. Eu acho que deve ser invenção de índio, que enfeitava caprichosamente as suas flechas que, partidas do arco, não voltavam mais. Mas eles não estão enfeitando nada, dizia por sua vez o dr. Viriato. Os puristas, os cultores do absoluto, os escribas da idéia, dos protótipos e arquétipos ideais, os minúsculos carapinas do nada.
Seu Donga ficou um tempo parado, assuntando, ideando. Não é que o senhor tem razão, dr. Viriato? Sim, dizia o médico, porque a finalidade mágica dos bisões e demais caças pintadas nas cavernas pelo homem de Cro-Magnon... Seu Donga desatou a rir, não tinha mesmo jeito aquele dr. Viriato, comia brisas com pirão de areia.
Porque havia três categorias de livres oficinas que se dedicavam à nobre arte de desbastar e trabalhar a madeira com o simples canivete e um ou outro instrumento auxiliar feito as latinhas que faziam as vezes do compasso. Três, porque não se podia considerar como cultores da Idéia, do sublime e do nada, os carpinteiros e marceneiros, que se utilizavam da madeira e de instrumentos mais eficientes como o formão, o cepilho, as brocas, e tudo sabiam de sua arte, ofício e meio de vida. São os nossos sofistas, dizia o dr. Viriato, que pensavam ser possível ensinar a arete e recebiam pelo seu trabalho e tinham as mãos calosas.A primeira categoria quase se podia, se não fosse o nenhum pagamento, considerar uma corporação de operários, que faziam de sua técnica e imaginação um ofício. Se vendiam o produto, não eram bem vistos pelos autênticos carapinas do nada, os sublimes; podiam começar a receber encomendas como qualquer trabalhador, o que se considerava degradante.Não há dúvida que o elogio é uma forma sublimada de remuneração e só se remunera operário, o que nem de longe se podia dizer deles (se ofendiam) que nunca pegaram no pesado. Eles e seus ancestrais, patriarcas absolutos, sempre estiveram do lado do cabo do chicote.Eram os fabricantes de carrinhos de bois, caminhões, mobilinhas, monjolos de sofisticada feitura e perfeita serventia, usados para compor presépio. Em geral exerciam a sua ocupação ociosa em casa, se serviam de instrumentos caseiros para auxiliar o trabalho do canivete, e chegavam a utilizar outros materiais que não a madeira, como espelhinhos, pregos, folhas-de-flandres.
A segunda categoria, os marceneiros da nobre arte. Era exatamente aquela, sem metáfora ou imagem, de que falou o sábio e intemporal rifoneiro Donga Novais - os que literalmente enfeitavam cabo de colher de pau. Às vezes se dava o caso de que a colher ficava tão bem-feitinha e artística, com delicado e sutil rendilhado, labiríntica barafunda, de quase absoluta nenhuma serventia, que a peça passava de mão em mão por toda a parentela, vizinhos e mesmo estranhos. Os elogios que recebiam valiam por uma paga ao artista, que acabava por consentir (queriam) que a mulher ou a filha colocasse a colher na parede, para nunca ser usada.
O perigo dessa categoria era o autor, por vaidade ou outro motivo subalterno, gravar o seu nome na concha ou no cabo da colher. Como o primeiro artista da antiguidade que gravou numa obra sua a frase "Felix fecit", inaugurando assim o culto da personalidade, tão contrário aos artistas do gótico, que nunca tinham a certeza de verem concluídas as catedrais que iniciavam, e eram anônimos, senão humílimos oficiais.
O coronel Sigismundo era exemplo típico dos oficiais da segunda categoria. Era não só meio destelhado e quarta-feira, mas verdadeira alimária. Dele constavam dos anais fantásticas proezas nos seus carros sempre novos e lustrosos, se dando ao luxo e à extravagância de às vezes vestir a sua brilhosa e engalanada farda da Guarda Nacional, que não mais existia, e passear de carro pela cidade.
Tudo se desculpava no coronel Sigismundo, por respeito ou medo. Ele se deu ao máximo, como nos tempos de casa-grande e senzala, de oferecer não uma colher de pau, mas palmatória de manopla por ele rendilhada, verdadeiro instrumento de suplício, ao major Américo, diretor e dono do Colégio Divino Espírito Santo, de terrível e acrescentada memória, capaz de desasnar a própria alimária. O velho major da Guarda Nacional recuou, os tempos agora eram outros. O gesto de ofertar e a utilidade do produto desqualificavam muito o coronel Sigismundo. Podia-se argumentar em seu favor que uma colher de pau finamente trabalhada para remexer panela, o bom dela, após o trabalho do artista, era não servir para coisa nenhuma, puro deleite.
E agora se apresenta a pura, a sublime, a extraordinária terceira categoria. Só aos seus membros, peripatética academia, se podia aplicar estes qualificativos: divinos e luminosos, aristocráticos artífices do absurdo. Eram como poetas puros, narradores perfeitos, cepilhando e polindo as vazias estruturas do nada. A terceira categoria era o último estágio para se atingir a sabedoria e a salvação.
Às vezes se dava o caso de que o artista (e isso não se ensina, ao contrario do que afirmava os sofistas, dizia o Dr. Viriato, emérito teórico do vazio e do absoluto) vinha diretamente da primeira categoria, e alcançava a plenitude do nada , era um dos amados dos deuses, para os quais o grande, senão único pecado é a ignorância. Não se atingia essa categoria (era raríssimo o caso de um jovem a ela pertencer; falta à juventude ócio e paciência) senão a velhice, quando se alcançava a plenitude da arte.
Vovó Tomé era um desses casos raros do artista que passa veloz e diretamente da primeira à terceira categoria. Atribuem a sua proeza e sua mestria no ofício ao sofrimento, que é uma das vias para se atingir o absoluto e a glória. Ele os alcançou, e isso consta dos anais do vento, na última velhice, quando atingiu, de apara em apara, cada vez mas longe e mais longas e mais finas, enroladinhas que nem cabelo de preto, o etéreo e o que lhe restou na mão foi um minúsculo pedacinho de pau. Na mesa, a sue lado, no círculo de luz do cone do abajur, um monte de finíssimas aparas , nenhuma delas partida. Uma obra divina, foi o que disse o famigerado artista Bê P. Lima, quando viu o tiquinho de nada que restou. Falou quem pode, disse seu Donga Novais da sua aérea fantástica e insone janela, almenara da cidade. Um mestre e guru nirvântico, acolitou o Dr. Viriato.
Para atingir esse estágio, o noviço carece de muita paciência, aplicação, humildade, modéstia. É preciso enfrentar a maledicência dos ocupados, vence a delicadeza e timidez, correr o risco de se ferir.
O mais elevado ideal dos membros dessa categoria era se dedicar a tão sublime ocupação sentado numa roda, prestando atenção no desenrolar da conversa vadia e mesmo dela participando com um ou outro aforismo ou ponderação, sem despregar os olhos da mecânica ocupação. Conta-se a fantástica proeza de um dos sacerdotes do culto, o inefável seu Bê P. Lima, que começou desbastando um grande pedaço de madeira e foi indo, de caracol, sem pressa, preciso, cuidando do seu gratuito ofício, o ouvido porém atento a conversa, que esquentava, e seu Bê não queria perder nada, cujo tema principal era comportamento de certa dama de nossa cidade.
E de repente se suspendeu a conversação, todos voltados para ele. Seu Bê se aproximava do fim, faltava-lhe uma última e mínima apara para atingir o nada. O próprio seu Belo veio lá de dentro do laboratório e ficou à espera. Então aconteceu. Não se podia dizer se o que ficou na mão de seu Bê fosse ou não minúsculo caracol que ele soprou. Como num circo ou num concerto, após sustenida atenção, a respiração suspensa, a roda prorrompeu num coro de palmas.
Seu Vítor Macedônio, que passava pela farmácia, diante do silêncio da roda, parou. Não se dedicava ao nobre ofício, mas vendo a atenção de todos, também ele aderiu à rodada de palmas. Seu Bê , me faça o favor de comparecer no banco lá pelo fim da tarde, para comemoramos o evento. Mais do que o normal, ele seria generoso com seu conhaque francês.Acredito com os outros que o móvel inicial que levou vovô Tomé à nobre ocupação de pica-pau tenha sido o sofrimento. O suicídio de tio Zózimo, a loucura mansa de tia Margarida, um desastre econômico de papai que o obrigou a vender a Fazenda do Carapina para que não lhe tomassem a casa. Mas muito antes da terrível morte do tio Zózimo ele já se ocupava em fazer a canivete um ou outro objeto de alguma serventia. A gratuidade mesmo de magníficos caracóis ele só viria a atingir depois da morte por enforcamento de tio Zózimo.
Mas antes mesmo do primeiro desses tristes acontecimentos vovô Tomé já se dedicava a manter as mãos ocupadas. Acredito em parte que foi a tentativa de manter as mãoos ocupadas para vencer a opressão e a angústia que o levou a se dedicar a pequena tarefas caseiras. Porque não lhe bastava fazer um longo, caprichando e lento cigarro de palha, tarefa em que era perito.
Os outros podem estar certos, e eu mesmo recuaria no tempo (não conhecia senão de crônica vovô Zé Mário, pai de vovô Tomé), se pudesse contar a historia que num dia de maior solidão e sufocamento, sob a maior promessa de sigilo, me contou vovó Tomé. Mas é um caso longo não é para agora.
Não , não foi só isso. Havia um lado menino muito bom em vovô Tomé. Eu me lembro do entusiasmo em que ele ficava quando da chegada de um circo à nossa cidade, mesmo que fosse circo de tourada. E eu muito criança ia com ele, ficava no seu camarote. Só depois é que o abandonei para estar com meus amigos mais velhos lá no alto das arquibancadas.Me lembro( e isso mamãe e vovó Naninha confirmam) dos primeiros passos de vovô Tomé na arte de picar pau. Eu estava sentado no chão de tábuas lavadas e secas da sala, cortando umas figuras de umas revistas velhas. Eram de uma coleção de tia Margarida.Quando vovô Tomé viu e me chamou. João, deixa isso de banda, guarde as revistas onde você tirou, venha comigo, tive uma idéia. Vamos ao armazém de seu Bernardino buscar material.Ele me deu a mão e eu estava muito feliz. Não era meu aniversário quando, como fazia com os netos e afilhados, ele nos levava ao armazém de seu Bernardino para comprar um sapato de ver Deus.
No armazém, depois de uma conversa breve e formal com seu Bernardino, vovô perguntou se ele podia nos arranjar um caixote vazio. Seu Bernardino se espantou com o pedido, vovô ainda não era da confraria. Quer que eu mande levar, perguntou seu Bernardino. Se me fizessem a bondade... Eu tive um ímpeto, disse pode deixar que eu levo. Seu Bernardino olhou pra min, olhou para vovô Tomé, e disse com ficamos, seu Tomé? Mande levar, disse vovô. E o preço da peça e do carreto, por favor. Seu Bernardino disse brincando nem o preço de uma das suas fazendas bastaria. Então lhe mandarei no fim da safra, uma saca do melhor café tipo sete. Ora, seu Tomé, e eu ia acreditar?! Não é pelo caixote, é por nossa velha amizade, disse vovô Tomé.
Aprendi então um dos preceitos do seu código de aristocracia rural. Eu e ele não podíamos fazer qualquer trabalho manual, a nossa posição nos vedava. O primeiro foi (como esquecer!) quando soube que o delegado seu Dionísio tinha mandado dar uma surra num preso para ele confessar. Em homem não se bate, é melhor matar, por respeito à sua condição de homem, é mais digno. Outro preceito do seu código de honra aprendi muito menino, quando uma vez, a mando de mamãe, lhe fui tomar bênção. Ele me recusou a mão, disse homem não beija mão de homem. Era um comportamento raro em Duas Pontes, cidade de velhos patriarcas.
Nem bem chegamos em casa e veio o empregado com o caixote. Era um caixote de madeira branca que, pelos dizeres e pelo cheiro, se viu que tinha servido para embalar bacalhau, madeira das estranjas.
Vovô tirou o paletó, desabotoou o colete, afrouxou o colarinho e começou a fazer um caminhãozinho para mim. Para quem parecia estar usando as mãos pela primeira vez, não estava mal. No final da tarde, a obra estava pronta. Tinha ficado um tanto rústica, mas eu não disse nada a vovô Tomé, para não atrapalhar a sua satisfação.
No outro dia dei com vovô Tomé aparando pachorrentamente um pedaço de pau. Quê que o senhor está fazendo, perguntei. Uma colher de pau para Naninha, ela me pediu, disse ele meio envergonhado, talvez pela sua utilidade doméstica. O senhor parece que não está gostando, não é, perguntei. Para lhe ser franco, não, disse vovô. O que gostaria de fazer, um monjolinho, indaguei. Não, gostaria de fazer nada, disse ele. Nada, à toa? Disse eu meio desapontado. Não, fazendo absolutamente nada, quer dizer, ir aparando vagarosamente a madeira até não restar mais nada. Assim feito seu Bê, perguntei. Vovô riu, achava muita graça nas bestagens de seu Bê P. Lima, nas histórias obscenas que ele contava, quando não tinha menino por perto, na presença de menino e de mulher ele fechava a cara, metia a viola no saco, se dava ao respeito. Bê é um artista do nada, por isso é um homem feliz, disse.E vovô Tomé foi ficando um perito na arte dos caracóis. Demorava muito o aprendizado, ele porém não tinha pressa. Pra quê? dizia, não falta matéria-prima neste mundo. E brincando, haja povo na terra para desbastar a floresta amazônica. Às vezes fico imaginando o povo todo do mundo picando pauzinho. Seria a paz e a união dos homens.Eu tinha um certo medo de que vovô enjoasse do gratuito ofício e virasse um teórico do não fazer nada, absolutamente nada. Seu Bê, por exemplo, não tinha dessas cogitações, apenas ia aparando as suas fitas e caracóis.
Vovô não tinha a pachorra e a tranqüilidade de seu Bê. Era exigente, ia ao armazém de seu Bernardino escolher as melhores madeiras, havia uma certa qualidade de pinho que era em si uma beleza. A madeira não podia ter olhos nem veios muito acentuados, nem mistura de tons. Quanto mais lisas e uniformes, melhor. Quem tem pressa não faz nada, dizia ela já agora conceituoso. Ele tinha a sua poética, a diferença entre ele e seu Bê é que seu Bê não tinha poética nenhuma, era um puro artista do nada.
Com o passar do tempo, vovô Tomé viu que se aprende até certo ponto, depois é desaprender de tal maneira que cada dia se tenha diante de si o puro nada.
E os anos passaram e eu me afastei de vovô Tomé. Fui para Belo Horizonte, onde fiz o meu curso superior sustentado por ele. É com remorso que me lembro de que lhe escrevi apenas umas minguadas cartas. Em nenhuma delas perguntei como ele ia na sua velha arte. Fiquei sabendo por uma carta de vovó Naninha que ele tinha morrido.
Voltei imediatamente a Duas Pontes. Vovó Naninha disse que ele morrera de pé, feito queria, sem curtir leito de doente, à grande mesa da sala de jantar, tirando um enorme caracol. Tinha encontrado o seu nada.
Vovó Naninha me deu o seu canivete preferido. Não sei o que fazer com ele, é de outra maneira que procuro o meu nada.


Autran Dourado
Os cem melhores contos brasileiros do século



13/02/2011

Miudádivas, pensatempos

(“Para Manoel de Barros, meu ensinador de ignorâncias”)


Estou sem texto, enriquecido de nada. Aqui, na margem de uma floresta em Niassa, me desbicho sem vontades para humanidades. Entendo só de raízes, vésperas de flor. Me comungo de térmites, socorrido pela construção do chão. No último suspiro do poente é que podem existir todos sóis. Essa é minha hora: me ilimito a morcego. Já não me pesam cidades, o telhado deixa de estar suspenso ao inverso em minhas asas. Me lanço nessa enseada de luz, vermelhos desocupados pelo dia.
Nesse entardecer de tudo vou empobrecendo de palavras. Não tenho afilhamento com o papel, estou pronto para ascender a humidade, simples desenho de ausência. Na tenda onde me resguardo me chegam, soltas e díspares, de visões, pensatempos, proesias. Assim, em miudádivas ao poeta:

A primavera cabe dentro do grilo.
Cigarras se alfabetizam de silêncios.
No liso da parede,
a osga se prepara para transparências,
adquire a forma do nada.
Enquanto o ramo vai transitando para camaleão.

Na mafurreira,
sobem ninhos de arribação, ovos do arco-íris.
A aranha confunde madrugada com sótão,
artefactando materiais de orvalho.
Ela se mantimenta de esperas.
Minha tenda se engrandece a teia.

Uma mosca se inadverte na armadilha.
Igual o amor
que me rouba mecanismos de viver.

Formigas transportam infinitamente a terra.
Estarão mudando eternamente de planeta?
Estarão engolindo o mundo?

Insectos sonham ser olhados pelo sol.
Mas só a chama da vela os vela.
Já o ovo é iluminado por dentro,
tocado pela luz do infinito.
O ovo repete o total início,
redundante gravidez do mundo.

Por isso, este surpreendido ovo
não tem competência para meu jantar.
Pena o estômago não entender poesias.

Nada se parece tanto: poente e amanhecer.
Defeitos na tela do firmamento?
Instantâneas aves,
pedras que se despoentam.
A noite acende o escuro.
Tudo semelha tudo.
Só a coruja atrapalha a eternidade.

Está chovendo horas,
a água está a ganhar-me semelhanças.
Escuto ventos,
derrames de céu.

Parecem-me luas e são lábios.
Lembranças de minha amada.
A tua boca me ilude, sou culpado de teu corpo.
Saudade: sou mais tu que tu.

Escuto, depois, a enchente.
Longe, a água desobedece a paisagens.
O rio toma banho de troncos,
raízes da água se soltam.
Sigo de catarata, luz encharcada.
E peço desculpa à margem:
desconhecia as unhas de minha transbordância.
Meu sonho está cego para razões.
Sei só escrever palavras que não há.

Depois, o sono me encaracola:
estou a ser pensado por pedras,
me habilito a chão, o desfuturo.


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra

11/02/2011

Um Gato à Chuva



Apenas dois americanos estavam hospedados no hotel. Eles não conheciam nenhuma das pessoas com quem tinham cruzado pelas escadas, no movimento de “entra e sai” do quarto. Estavam hospedados no segundo andar, num apartamento que ficava de frente para o mar e também de frente para a praça e o monumento de guerra. Havia enormes palmeiras e bancos verdes na praça. Quando o tempo estava bom havia sempre um pintor com o seu cavalete por lá. Os artistas gostavam das formas das palmeiras e das cores brilhantes dos hotéis, de frente para os jardins e para o mar. Italianos vinham de longe para ver o monumento de guerra. Era feito de bronze e reluzia na chuva. Estava a chover. Gotas de chuva caiam das palmeiras. A água formava poças nos caminhos de cascalho. O mar quebrava numa extensa linha, na chuva, e deslizava rumo à praia para retornar e quebrar novamente numa longa linha, repetindo o mesmo movimento. Os carros já tinham deixado a praça, passando pelo monumento de guerra. Do outro lado, um garçom olhava a praça vazia, da porta de uma lanchonete. A mulher americana, de pé, próxima à janela, observava o movimento. Fora do hotel, bem debaixo da janela deles, uma gata estava encolhida debaixo de uma das mesas verdes encharcadas. A gata se enroscava para não molhar.
– Eu vou descer e pegar aquela gatinha – disse a mulher americana.
- Deixa que eu cuido disso – o marido falou da cama.
- Não, pode deixar que eu vou. Pobre gatinha, tentando se proteger da chuva debaixo da mesa. O marido continuou sua leitura, apoiado em dois travesseiros nos pés da cama.
- Não vá se molhar – disse ele.
A mulher desceu as escadas e o dono do hotel levantou-se para a cumprimentar quando ela passou pelo seu escritório. Ele era velho e muito alto.
- Il piove – a mulher falou. Ela gostava do dono do hotel.
- Si, si, Signora, brutto tempo. O tempo está muito ruim.
Ele ficou de pé atrás de sua mesa, no fundo da sala escura. A mulher gostava dele. Apreciava o jeito extremamente sério com que ele recebia qualquer reclamação. Admirava sua dignidade. Gostava do jeito como ele a tratava. Gostava de como ele se sentia honrado em cuidar do hotel. Gostava de seu rosto velho e marcado pelo tempo, e de suas mãos grandes. Enquanto pensava nele, ela abriu a porta e olhou para fora. A chuva estava mais forte. Um homem com uma capa de chuva estava atravessando a praça em direção ao café. A gata deveria estar por perto, à direita. Talvez pudesse ir por debaixo dos telhados. Ainda estava na porta quando um guarda-chuva se abriu atrás dela. Era a empregada do quarto deles.
- A senhora não se deve molhar – ela sorriu, falando italiano.
Obviamente tinha sido mandada pelo dono do hotel. A americana andou pelo caminho de cascalho, com a empregada a segurar o guarda-chuva para que ela não se molhasse, até que chegou debaixo da janela de seu quarto. A mesa estava lá, com um verde brilhante após ter sido lavada pela chuva, mas o gato tinha desaparecido. De repente, ela se sentiu desapontada. A empregada olhou para a hóspede.
- Ha perduto qualque cosa, Signora?
- O gato – disse a mulher americana.
- Um gato?
- Si, il gatto.
- Um gato? – a empregada riu.
- Um gato na chuva?
- Sim – ela disse.
- Debaixo da mesa. Eu queria tanto que ela fosse minha. Queria ter uma gatinha. Quando ela falou em inglês o rosto da empregada se contraiu.
- Venha signora – ela disse.
- Devemos voltar para dentro. A senhora vai acabar se molhando.
- Está bem – disse a garota americana. Elas voltaram pelo caminho de cascalho e entraram pela porta. A empregada ainda ficou do lado de fora para fechar o guarda-chuva. Quando a garota americana passou pelo escritório, o padrone fez um gesto de cortesia, de sua mesa. A garota sentiu como se houvesse algo bem pequeno e apertado dentro de si. O padrone fez com que ela se sentisse insignificante e ao mesmo tempo muito importante. Subiu as escadas. Abriu a porta do quarto. George estava a ler, na cama.
- Conseguiu agarrar o gato? – ele perguntou, abaixando o livro.
- Não, desapareceu.
- Para onde será que ele foi? – ele perguntou, tirando os olhos do livro. Ela sentou na cama.
- Eu queria tanto aquela gatinha. Nem sei porque queria tanto. Queria aquela pobre gatinha. Deve ser horrível ser uma gatinha indefesa nessa chuva. George estava lendo de novo. Ela caminhou e sentou-se na frente do espelho da cómoda, olhando para si mesma, com um espelho na mão. Estudou seu perfil, primeiro de um lado, depois do outro. Então estudou a parte de trás de sua cabeça e a sua nuca.
- Você não acha uma boa ideia deixar meu cabelo crescer? – perguntou, olhando novamente seu perfil. George olhou e viu sua nuca, raspada como a de um garoto.
- Gosto dele como está.
- Estou tão cansada deste cabelo – ela disse. Estou tão cansada de parecer um rapaz. George mudou de posição na cama. Ainda não tinha desviado os olhos dela desde que havia começado a falar.
- Você está bem bonitinha – ele falou. Ela colocou o espelho na cómoda e foi para a janela e olhou para o lado de fora. Estava escurecendo.
- Quero puxar meu cabelo para trás, bem preso e liso, e fazer um coque bem grande para que eu o sinta. E quero uma gatinha para sentar no meu colo e fazer ronrom quando eu fizer carinho nela.
- É – George disse da cama.
- E eu quero comer numa mesa com meus próprios talheres e quero velas. E quero que seja primavera, quero escovar meu cabelo na frente de um espelho e quero uma gatinha e roupas novas.
- Ora, cale a boca e vá ler alguma coisa – disse George. Ele estava lendo de novo. Sua esposa estava olhando pela janela. Agora o céu estava bastante escuro e a chuva continuava caindo nas palmeiras.
- De qualquer modo, eu quero um gato – ela disse
- Eu quero um gato. Quero um gato agora. Se não posso ter cabelos compridos nem uma distração, posso ter um gato sim. George não estava ouvindo. Estava lendo seu livro. Sua mulher olhou pela janela e viu que a luz da praça estava acesa. Alguém bateu na porta.
- Avanti – George disse. Ele levantou os olhos do livro. A empregada estava de pé na porta. Ela segurava um grande gato malhado, apertado fortemente contra seu corpo.
- Com licença – ela disse – O padrone mandou trazer isso para a Signora.


Ernest Hemingway