30/11/2010

A porta verde

A Chave

A D. Sónia Black é uma senhora muito velhinha. Tem oitenta anos e gosta muito de histórias. Os seus netos, Susan e Tom, adoram as histórias da avó. Vêm sempre vê-la depois da escola.
― Conte-nos uma história, avozinha ― dizem.
Sentados no chão, bebem um pouco de limonada e comem bolo enquanto a avó, sentada no cadeirão, conta a sua história.
“Quando eu era menina, vivia numa casa grande. Tinha um jardim enorme onde havia árvores e flores. Ao fundo do jardim, havia uma porta verde.
Como eu era muito pequena, não chegava à maçaneta. Mas, mesmo quando cresci, não conseguia abri-la porque não tinha a chave.
Um dia, quando estava na cozinha, reparei num grande armário que tinha muitas gavetas. Pus-me em cima de uma cadeira e abri-as, uma por uma.
Havia uma grande chave numa das gavetas. Era uma chave muito antiga. Que porta abriria?
Fui ao jardim. Estava um dia radioso, cheio de sol. Caminhei até à porta verde. Meti a chave antiga na fechadura e rodei-a. A porta abriu-se.
O que estaria por detrás?
Entrei. Estava num grande jardim mas havia muitas nuvens e vento, e senti frio. No meu jardim estava sol e calor. Mas aqui estava escuro e frio.
Foi então que vi o castelo. Tinha torres altas. Havia algumas árvores. Era Verão mas as árvores não tinham muitas folhas. Não havia pássaros nas árvores. Neste jardim, era Inverno.
Apareceu uma mulher pequena e velha que vestia de preto e tinha um chapéu alto e também preto.
― O que estás aqui a fazer? ― perguntou. ― Este é o meu jardim. Não podes ficar aqui.
― Peço desculpa ― disse eu. ― Há uma porta ao fundo do jardim. É uma grande porta verde. Foi por lá que entrei.
― Não se abre a porta verde ― disse a velha senhora. ― Vai-te embora!
A porta do castelo rangeu e saiu de lá uma menina.
― Avó, quem está aí? Quem é essa rapariga?
― Entrou pela porta verde ― disse a velha senhora. ― Não pode ficar cá.
A pequena, triste, olhou para mim.
― Ela podia brincar comigo. Deixa-a ficar, avó, deixas? ― pediu.
A velha senhora ficou zangada.
― Está bem ― disse. E entrou no castelo.


Às escondidas

― Eu sou a Sónia ― disse eu. ― Como te chamas?
― Leila ― disse a menina triste.
― Quantos anos tens? ― perguntei-lhe.
― Não sei ― disse Leila.
― Quando fazes anos?
― Não sei.
― Pergunta à tua avó.
― Ela não sabe.
― Pergunta à tua mãe e ao teu pai.
― Não tenho mãe nem pai ― disse Leila com tristeza.
O céu estava nublado e escuro. Estava frio e não havia folhas nas árvores. O castelo tinha um aspecto muito triste.
― A que é que vamos jogar? ― perguntou Leila.
― Às escondidas ― disse eu.
― O que é isso? Não conheço esse jogo.
― Tu fechas os olhos e eu escondo-me. Contas até vinte e abres os olhos. E vais à minha procura ― expliquei.
Escondi-me atrás de uma árvore mas a Leila encontrou-me.
― Estás atrás da árvore ― gritou.
Leila estava contente. Quando olhei para a árvore, reparei que já tinha algumas folhas verdes.
Jogámos às escondidas. Depois veio a velha senhora. Estava zangada.
― Vocês estão a fazer muito barulho ― disse. ― Não gosto de barulho. Estejam caladas.
― Desculpe, avó ― disse Leila.
A velha senhora olhou para mim.
― Como te chamas? ― perguntou.
― Sónia.
― Vai-te embora, Sónia ― disse.
― A Sónia pode vir amanhã? ― perguntou Leila.
― Pode. Pode vir amanhã. Mas não façam demasiado barulho.
Saí pela porta verde e fechei-a. No meu jardim estava sol e calor. Havia muitas flores e as árvores estavam em flor. Subi à árvore mais alta do meu jardim e consegui ver por cima do muro. Observei o castelo, que estava escuro, e o jardim silencioso. Voltei para casa e pus a chave na gaveta.
No dia seguinte, estava sol. Peguei na chave e abri novamente a porta verde. Leila já se encontrava no jardim do castelo. Mas, embora o jardim estivesse frio e escuro, Leila não estava triste. Sentia-se contente. Tinha um vestido novo, vermelho e branco.
― Leila ― disse eu ― no meu jardim há sol e está quente. Por que é que aqui o tempo está nublado e frio?
― Não sei ― disse Leila.
― Anda. Vamos brincar às escondidas.
Brincámos às escondidas. Depois, Leila sugeriu: ― Vamos até ao castelo.
― O que é que a tua avó vai dizer?
― Não vai dizer nada.
― Porquê?
― Porque está a dormir no quarto. O quarto dela é no cimo da torre mais alta.
Fomos até ao castelo e entrámos numa grande sala. Também lá estava frio e escuro.
― Anda comigo até à cozinha ― disse Leila. ― Há lá uma lareira.
A cozinha estava escura mas havia uma lareira pequena. Um homem pequeno, velhinho, estava sentado à lareira.
― Este é o Ben ― disse Leila. ― É o nosso cozinheiro.
― Sou o cozinheiro, mas não gosto de cozinhar ― disse Ben.
― Queres almoçar? ― perguntou Leila.
― Sim, por favor ― respondi.
― O que há para o almoço, Ben?
― Batatas.
― Com…?
― Batatas com batatas ― disse Ben.
― Não gosto de batatas ― disse Leila. ― Posso comer uma omeleta?
― Omeleta, pateta ― disse Ben. ― Fá-la tu.
― Não sei cozinhar ― disse Leila.
― Eu sei cozinhar ― disse eu. ― Vou fazer uma omeleta.
― Como é que se faz uma omeleta? ― perguntou Leila.
― É fácil. Põe-se quatro ovos numa tigela… um pouco de leite… uma pitada de sal e de pimenta… mistura-se… põe-se um pouco de óleo numa frigideira… põe-se a frigideira ao lume… põe-se tudo na frigideira. E aqui temos… uma omeleta!
― Posso comer um bocadinho? ― perguntou Ben.
― Claro que sim. ― disse eu. ― Vamos comer todos.

Os brinquedos

Comemos a omeleta.
― Estava muito bom ― disse Ben, a rir. ― Amanhã também podes cozinhar, Sónia.
O Sol brilhou através da janela. Brilhou sobre Ben.
― O Sol não pode brilhar aqui dentro ― disse Ben. ― Vou correr as cortinas.
― Não corras as cortinas ― pedi. ― Olha, vê-se que a cozinha não está nada limpa.
― Vamos limpar a cozinha. O Ben é muito preguiçoso ― disse Leila.
― Não sou preguiçoso. Não sei cozinhar, mas consigo limpar a cozinha.
O Sol brilhou através da janela. Limpámos a cozinha, que ficou a brilhar.
Voltámos para a sala grande.
― Leila, sabes por que é que está escuro aqui dentro? ― perguntei.
― Porquê?
― Porque as cortinas estão corridas. Podemos abri-las?
― A avó não quer abri-las. Vai ficar zangada. Vamos para a torre. Vou mostrar-te o meu quarto.
Subimos algumas escadas e chegámos ao quarto de Leila. Era um quarto grande mas só tinha uma cama, uma mesa e um armário.
― Onde estão os teus brinquedos? ― perguntei-lhe.
― Não tenho nenhuns brinquedos ― disse Leila.
― Quantos quartos há no castelo?
― Não sei.
― O que há dentro deles?
― Não sei. Não vou lá.
― Vamos ver.
― A minha avó vai ficar zangada.
― Ela está a dormir. Não nos vai ouvir.
Fomos até ao primeiro compartimento. Era um quarto de dormir. Fomos ao segundo. Era uma sala de estar. Havia um piano. Fomos ao terceiro. Estava cheio de brinquedos.
Havia um grande cavalo de baloiço.
― Posso andar nele? ― perguntei.
― Claro ― disse Leila. ― Mas não faças barulho.
Sentei-me no cavalo. Havia igualmente uma casa de bonecas com a qual brincámos. Tinha algumas bonecas e livros.
― Vamos pôr estes brinquedos no teu quarto ― disse eu.
― Está bem.
Levámos os brinquedos para o quarto de Leila.
― Agora, o teu quarto está muito mais bonito.
― Sim, mas a avó vai ficar zangada.
Apareceu uma mulher alta e magra.
― Olá ― disse Leila. ― Sónia, esta é a Sra. Grime. Ela é empregada de limpeza no castelo.
― Eu não faço limpeza. São as minhas raparigas que fazem limpeza.
― Mas não há nenhumas outras raparigas ― disse Leila.
― Vai haver e elas limparão o castelo.
― Nós seremos as suas raparigas ― disse eu. ― Vamos nós limpar o castelo.
A Sra. Grime sorriu. Já tinha algumas raparigas e estava radiante.
Limpámos o castelo. Corremos as cortinas, lavámos as janelas, limpámos os móveis e lavámos o chão. Trabalhámos toda a tarde. O castelo ficou limpo e a Sra. Grime muito contente.
Quando me vim embora, estava escuro. Atravessei a porta verde. Fechei-a e dei a volta à chave.

O Castelo Encantado

O dia seguinte estava soalheiro e quente. No meu jardim, as flores eram belas e as árvores tinham rebentos cor-de-rosa e brancos. Fui até à porta verde e abri-a.
Desta vez, o jardim do castelo não estava frio nem escuro mas quente, e o Sol brilhava. Havia folhas e rebentos nas árvores e flores. Os pássaros cantavam nas árvores. O castelo resplandecia. As janelas e as torres brilhavam.
Leila saiu do castelo.
― Olá, Sónia ― disse. ― Olha para o jardim. Está bonito, não está? Ontem não havia flores, mas hoje há muitas. Não havia folhas nas árvores, mas hoje há muitas. Não havia pássaros, mas hoje há muitos. O jardim está bonito e o Sol brilha.
Fomos até ao castelo. As cortinas estavam corridas para os lados, os quartos cheios de luz e de sol e as janelas e o chão limpos. Fomos até à cozinha, que estava limpa e resplandecente. O velho Ben estava lá.
― Entrem ― disse. ― Estou a fazer um bolo. Comam um bocadinho.
A velha senhora entrou. Tinha um vestido azul.
― Avó! ― exclamou Leila. ― O teu vestido é muito bonito.
― Obrigada, Leila. Estava sol quando me levantei de manhã. Olhei pela janela e vi o jardim. Então apeteceu-me pôr o meu vestido azul e andei pelo castelo. Vi os quartos limpos e radiosos. Fui também ao teu quarto e vi os brinquedos. Eram os meus brinquedos.
― Desculpa, avó. Fomos buscá-los.
― Não há problema nenhum. Agora são os teus brinquedos.
― Obrigada, avó ― disse Leila.
― Olha o bolo que o Ben fez! Vamos prová-lo ― disse a avó.
Estava escuro quando vim embora. Parei no jardim e olhei para o castelo. Havia luzes nos quartos. A Lua reflectia-se nas torres altas. Era como um castelo encantado. Fechei a porta verde, fui para casa e pus a chave na gaveta.
A minha mãe estava na cozinha.
― Onde foste, Sónia? ― perguntou.
― Olá, mãe. Estive no castelo.
― Que castelo?
― O castelo que fica para lá da porta verde.
A minha mãe riu. ― Não há nenhum castelo para lá da porta verde.
― Vem comigo. Eu mostro-to.
Peguei na chave e fomos na direcção da porta verde. Abri-a.
― Estás a ver? ― disse a minha mãe. ― Não há nenhum castelo, mas há muitas casinhas. Houve aqui em tempos um castelo, mas isso foi há muito tempo. Não há nenhum castelo agora.”


Ron Holt
The Green Door
London, Macmillan Education, 1992

A cerejeira do Natal


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O senhor Tadeu tinha, lá na horta, uma cerejeira de que gostava muito. Quando chegava o tempo das cerejas, era uma fartura, uma doçura que não havia igual.
Pois é, mas os pardais também diziam o mesmo. Tinham uma predilecção por aquela cerejeira, como se as cerejas fossem de mel. Eram quase.
O senhor Tadeu enxotava-os, pendurava fitas nos ramos para assustá-los e chegou a armar um espantalho de vassoura na mão, que prendeu no alto da cerejeira. Fazia vista, mas não metia medo.
Mal chegava o tempo das cerejas amadurarem, a pardalada vinha em excursão festiva para o meio da cerejeira. Depenicavam com tal arte que chegavam a deixar só o caroço das cerejas, preso ao pezinho suspenso da árvore. Um desespero para o senhor Tadeu.
Há dias, encontrei-o, na loja de artigos de Natal, a carregar um enorme embrulho.
— Ena! — exclamei eu. — O seu pinheiro vai ficar bem enfeitado.
— Não é para o pinheiro — emendou o senhor Tadeu. — É para a cerejeira.
Então, explicou-me o seu plano. Quando, da Primavera para o Verão, os frutos da cerejeira começassem a engordar, ele ia enfeitar a árvore com sininhos e bolas de Natal.
— Para os pardais julgarem que é um pinheiro — concluí eu, pouco convencido da eficácia do projecto. — Eles são mais espertos do que isso.
Seriam, de facto, reconheceu o senhor Tadeu, mas também são uns passarinhos alarmados. Detestam ruídos imprevistos. Ouvindo os sininhos agitados pelo vento, fogem. E as bolas de Natal, brilhando ao sol, também hão-de meter-lhes respeito.
O senhor Tadeu lá se foi, muito contente com o seu plano. Resulte ou não resulte, a cerejeira há-de gostar.


António Torrado


29/11/2010

Uma Estrela


Todos os anos, pelo Natal, eu ia a Belém. A viagem começava em Dezembro, no princípio das férias. Primeiro pela colheita do musgo, nos recantos mais húmidos do jardim. Cortava-se como um bolo, era bom sentir as grandes fatias despregarem-se da areia, dos muros ou dos troncos das árvores velhas, principalmente da ameixieira. Enchia-se a canastra devagar, enquanto a avó ia montando o que hoje se chamaria as estruturas, ou mesmo as infra-estruturas, junto da parede da sala de jantar que dava para o jardim. Eram caixotes, caixas de chapéus e de sapatos viradas do avesso, tábuas, que pouco a pouco ela ia cobrindo de musgo, ao mesmo tempo que fazia carreiros e caminhos com areia e areão. Mais tarde, os rios e os lagos, com bocados de espelhos antigos, de vidros ou mesmo de travessas cheias de água. Até que todos os caixotes, caixas e tábuas desapareciam. Ficavam montanhas, planícies, rios, lagos. Era uma nova criação do mundo. Aqui e ali uma casinha ou um pastor com suas cabras. E todos os caminhos iam para Belém.
Não era como o presépio da Igreja que estava sempre todo pronto, mesmo antes de o Menino nascer. A cabana, a vaca, o burro, os três reis do Oriente. Maria, José, Jesus deitado nas palhinhas. Via- se logo que era a fingir. Não o da avó, que era mais do que um presépio, era uma peregrinação, uma jornada mágica ou, se quiserem, um milagre. Nós estávamos ali e não estávamos ali. De repente era a Judeia, passeávamos nas margens do Tiberíades, andávamos pelo Velho Testamento, João Baptista baptizava nas águas do Jordão e aquele monte, ao longe, podia ser Sinai ou talvez o último lugar onde Moisés, sem lá entrar, viu finalmente a terra onde corria o leite e o mel. Mas agora era o Novo Testamento. A avó ia buscar as figuras ao sótão, eram bonecos de barro comprados nas feiras, alguns mais antigos, de porcelana inglesa, como aquele caçador que a avó colocava à frente dizendo: Este é o pai. Seguia-se a mãe, de vestido comprido, dir-se-ia que ia para o baile, mas não, saía de cima de uma mesinha da sala de visitas e agora estava ao lado do pai, olhando levemente para trás onde, entretanto, a avó já tinha colocado figuras mais toscas, eu, a minha irmã, os primos, alguns amigos, todos a caminho de Belém.
— E a avó? — perguntava eu.
— Eu já estou velha para essas andanças.
De dia para dia mudávamos de lugar. E todas as manhãs deparávamos com novas casas, mais rebanhos, pastores, gente que descia das serras, atravessava os rios e os lagos. Os caminhos ficavam cada vez mais cheios. E todos iam para Belém. À noite tremulavam luzes. Acendiam e apagavam. Mas ainda não se via a cabana, nem Maria, nem José.
Então uma noite, entre as estrelas do céu, aparecia uma que brilhava mais que todas.
— Esta é a estrela — dizia a avó.
Era uma estrela que nos guiava. Na manhã seguinte lá estavam eles, os três reis do Oriente, Magos, explicava o pai, que também não dizia Pai Natal, dizia S. Nicolau, talvez por influência de uma misse de origem russa que em pequeno lhe falava de renas e trenós e de S. Nicolau atravessando as estepes.
Cheirava a musgo na sala de jantar. Cheirava a musgo e a lenha molhada que secava em frente do fogão. E os Magos lá vinham, a pé, de burro, de camelo. Traziam o oiro, o incenso, a mirra. Às vezes nós, os mais pequenos, juntávamo-nos e cantávamos: “Os três reis do Oriente/Já chegaram a Belém.”
— Não chegaram nada — atalhava a avó — ainda não.
Estávamos cada vez mais perto. E também nervosos. Confesso que às vezes fazia batota. Empurrava-os um pouco mais para a frente, para mais perto de Belém e do lugar onde eu sabia que mais tarde ou mais cedo a avó ia pôr a cabana. Mas ela descobria.
— Não lucras nada com isso, podes apressar toda a gente, não podes apressar o tempo.
Cada vez havia mais luzes na Judeia. Por vezes surgiam novos lagos, eram mistérios da minha avó. E a estrela lá estava, a grande estrela de prata que brilhava mais do que todas as outras, às vezes eu ia à janela e via a projecção daquela estrela, ficava confuso, já não sabia se era a estrela da sala ou uma estrela do céu, era uma estrela nova, uma estrela de prata, era uma estrela que nos guiava. No céu, na sala, na Judeia, talvez dentro de nós.
Até que chegava o primeiro dos grandes momentos solenes. A avó chamava-nos ao sótão (nós dizíamos forro), abria uma velha arca e desempacotava a cabana. Depois, muito comovida, quase sempre com lágrimas nos olhos, as figuras de Maria e José.
— Não há nada tão antigo nesta casa, já eram dos avós dos meus avós.
Impressionava-me sobretudo o manto muito azul de Maria e o rosto magro, quase assustado, de José. A avó limpava-os com muito cuidado e mandava-nos sair. Nunca nos deixou ver o resto.
À noite, quando regressávamos da missa do galo, a que a avó não ia, chegávamos a casa e finalmente estávamos em Belém.
A estrela brilhava intensamente sobre a cabana, Maria e José debruçavam-se sobre o berço, onde Jesus, todo rosado, deitado nas palhinhas, agitava os braços e as pernas, envolvido pelo bafo quente dos animais, enquanto os três reis do Oriente, agora sim, chegavam a Belém para depositar aos pés do Menino o oiro, o incenso, a mirra. E vinham os pastores, e vinha o pai, de caçador, a mãe, de vestido de baile, e vínhamos nós, eu, a minha irmã, os primos, não eramos de porcelana nem de barro, estávamos ali em carne e osso, era noite de Natal, uma estrela nos guiava, brilhava sobre a Judeia e sobre o presépio, brilhava cá fora entre as estrelas, brilhava dentro de nós. Naquela noite, naquele momento, nós não estávamos na sala de jantar em frente do presépio, tínhamos chegado finalmente a Belém para adorar o Menino ao lado de Maria e José e dos três reis do Oriente, Magos, não consegui deixar de corrigir o meu pai. Mas mágica, verdadeira mágica, era a avó. Era ela que fazia o milagre da transfiguração, trazia o Natal para dentro de casa, levava-nos a todos até Belém. O cheiro a musgo e a lenha. Os montes, os vales, os rios, os lagos. Caminhos e caminhos que iam para Belém. E a estrela de prata, a estrela que nos guiava. Era uma estrela no céu, dentro de casa, dentro de nós. Pela mão da avó ela brilhava. Pela sua magia, Belém estava dentro de casa. E a casa também ia até Belém.
Mais tarde, muito mais tarde, eu estava no exílio. Na noite de Natal, os revolucionários ficavam tristes e nostálgicos. Talvez recordassem outras avós, outros presépios, outros lugares. Reuniam- se em casa deste ou daquele, improvisava-se uma árvore de Natal, trocavam-se presentes. Mas ninguém, nem mesmo os mais duros, os que faziam gala em dizer que o Natal para eles não significava nada, nem mesmo esses conseguiam disfarçar uma sombra no olhar. Saudade, dir-se-á. Mas talvez fosse mais do que saudade e solidão e o pior de todos os exílios é o de se sentir estrangeiro no mundo. Talvez fosse a consciência de que, para lá de todas as crenças ou não crenças, havia um irremediável sentimento de perda. Muitas vezes me perguntei o que seria. Mas não conseguia responder. Sentia o mesmo aperto, o mesmo buraco por dentro, o mesmo sentimento de algo para sempre perdido.
Uma noite de Natal, em Paris, eu estava sozinho. Comprei uma garrafa de vinho do Porto, mas não fui capaz de bebê-la assim, completamente só, num quarto de criada num sexto andar duma velha rua do Quartier Latin. Peguei na garrafa e fui até aos Halles. Procurei o bistrô onde costumava comer uma omelete de fiambre. Felizmente estava aberto. Pedi a omelete e abri a garrafa. Havia mais três solitários no bistrô, um velho de grandes barbas, um tipo com cara de eslavo, um africano. Convidei-os para partilharem comigo a garrafa de Porto, que não resistiu muito tempo. Encomendámos outras bebidas.
— Conta uma história de Natal do teu país — pediu o velho.
— Só se for a do presépio da minha avó.
— Então conta.
Eu contei. Era já muito tarde e o patrão disse-nos que queria fechar. Chegados à rua, o africano apontou para o céu e disse-me:
— Olha.
E eu vi. Uma estrela que brilhava mais que as outras estrelas. Era uma estrela de prata. A estrela da avó. Brilhava no céu, brilhava outra vez dentro de mim, quase posso jurar que brilhava dentro dos outros três.
Então eu perguntei ao africano como se chamava. Ele respondeu:
— Baltazar.
Perguntei ao velho e ele disse:
— Melchior.
E sem que sequer eu lhe perguntasse, o eslavo disse:
— O meu nome é Gaspar.
Era noite de Natal e talvez ainda por magia da avó eu estava na rua, em Les Halles, com os três reis do Oriente, Magos, diria o meu pai.
— E agora? — perguntei a Baltazar.
— Agora — respondeu o africano apontando a estrela — agora vamos para Belém.


Lisboa, 3.10.2000

Manuel Alegre, Uma Estrela
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005

O presente-surpresa do Rei Wod


O rei Wod era muito, muito rico.
Tinha tanto dinheiro que podia encher a meia de Natal de todas as crianças do país – incluindo a tua, se lá morasses – e ainda lhe sobraria muito dinheiro. Por que razão, então, odiava ele o Natal?
A razão era esta. O Rei Wod queria um presente-supresa na manhã de Natal.
Só isso?
Aha… não esqueçamos quão rico ele era. Todos os anos, acontecia a mesma coisa. Por muito maravilhoso que fosse o presente que recebia, nunca era novidade. Por exemplo:
Um cavalo com cascos multicoloridos para andar sobre o arco-íris.
Um livro de respostas a todas as perguntas dos professores.
Um cesto de piquenique que brilhava no escuro quando o levávamos a uma festa depois da meia-noite.
Uma almofada para nos adormecer ao som de uma canção.
Uma poça de água para saltar dentro de casa sem molhar a carpete…
Para quê mais exemplos?
“Já tenho um desses”, dizia sempre o Rei Wod.
Um dia, bem cedo, numa manhã de Natal, mesmo antes de o sol nascer, o Rei perdeu a paciência. Deu um pontapé no trono, rasgou o manto em dois e atirou a coroa pela janela.
— Será que ninguém pode trazer-me um presente-surpresa? — gritou. — Chamem o feiticeiro real!
— Aqui me tendes, Majestade.
— Não fiques aí especado! Faz alguma coisa. Isto é uma ordem!
ABRA – CA – ZAM!
— O que é que aconteceu?
Num abrir e fechar de olhos, o Rei Wod encontrou-se numa floresta escura, coberta de neve.
— Onde estou? No Pólo Norte? — perguntou. — Esperem até eu regressar ao palácio. Aquele feiticeiro não sabe com quem se meteu!
Agora, porém, quem estava em apuros era o Rei Wod. Em alguns sítios, a neve chegava-lhe aos joelhos e, noutros, mesmo aos sovacos. O Rei não sabia onde se encontrava. Em breve estava tão hirto e gelado como um pingente de neve.
— Se não me mexer depressa, acabo por me transformar num pingente. Um pingente gigante. Alto lá, será que estou a ver além uma casa?
Suspirando de alívio, caminhou pesadamente até chegar a uma cabana minúscula, com o telhado coberto de neve, situada na orla da floresta.
A cabana estava vazia.
Não que estivesse abandonada. Havia uma lareira acesa, comida na despensa e mobília confortável na sala de estar.
— Onde estará o dono? — perguntou o Rei. — E porque não há decorações de Natal e uma árvore com luzinhas?
Na cabana não havia o menor indício de Natal. Excepto um calendário do Advento em cima do fogão de sala. Estava aberto no dia 24 de Dezembro.
— É véspera de Natal — disse o Rei.
Isto tornou a cabana ainda mais deserta. O Rei sentia-se só. Será que iria passar o primeiro Natal sozinho da sua vida?
— Para começar, é melhor aquecer-me. E tenho de me manter ocupado.
Foi divertido cortar uma árvore na floresta e colocá-la num canto da sala, especialmente depois de ter encontrado uma grande caixa com decorações de Natal no armário debaixo das escadas.
Também foi divertido pendurá-las, bem como acender a lareira e pôr a mesa para a ceia de Natal.
Depois de ter feito tudo isto, o Rei desenhou um cartão de Natal para o dono da cabana e colocou-o em cima da chaminé. Fez, em seguida, uma embalagem de oferta, dentro da qual colocou um bilhete:
Este espaço está reservado para um presente do Rei Wod. Pode ser um livro de respostas a todas as perguntas dos professores, um cesto de piquenique que brilha no escuro quando o levamos a uma festa depois da meia-noite, um cavalo com cascos multicoloridos para andar sobre o arco-íris… O que lhe apetecer. A escolha é sua.
Colocou, depois, a caixinha debaixo da árvore de Natal. Por último, pôs a mesa para mais uma pessoa.
— Nunca se sabe… — suspirou.
Adormeceu profundamente diante da lareira.
A claridade do dia acordou-o. A claridade e o tilintar de campainhas de trenó. A porta abriu-se de repente e um homem gorducho entrou. Exactamente o tipo de pessoa que esperaríamos ver num sítio como este. Como trazia geada nas sobrancelhas, gelo na barba, flocos de neve a derreter no fato vermelho, e um saco vazio, o Rei Wod demorou algum tempo a reconhecê-lo.
— Pai Natal! — arquejou.
— Como está? Quem é o senhor?
— Sou o Rei Wod. Desculpe esta…
— O Rei Wod?
O Pai Natal olhou o seu visitante com espanto.
— Isso quer dizer que a carta do feiticeiro era verdadeira? A carta que dizia que me ia trazer…
A voz do Pai Natal foi-se apagando, enquanto percorria com os olhos as decorações, a mesa de jantar, o cartão na chaminé, e o presente debaixo da árvore.
— Como é que sabia? — exclamou este.
— Sabia? — perguntou Wod. — Sabia o quê?
— Que nunca tive um Natal a sério?
— Nunca?
— Estou sempre demasiado ocupado antes do Natal. Depois fico demasiado cansado. E agora Vossa Majestade organizou tudo para mim. Que Deus o abençoe! Estou-lhe tão grato. Como se lembrou de um presente-surpresa tão bonito?
— Presente-surpresa?
— O meu próprio Natal — respondeu o Pai Natal. — É o meu primeiro Natal.
— É o primeiro que ofereço — disse o Rei, pensativo.
Mas deu-se logo conta de que não seria o último.
Wod nunca esqueceu a lição que o seu feiticeiro lhe deu. Faz sentido que, quando se é um rei que tem tudo, receber um presente-surpresa é difícil. Mas dar um é fácil.
Algum tempo depois, quando nomeou o feiticeiro seu Primeiro-Ministro, o Rei disse:
— Só há um pequeno problema. O que devo pôr na caixa que deixei debaixo do abeto? O Pai Natal não sabia de que presente gostava mais.
— É simples — sorriu o feiticeiro.
E sussurrou algo ao ouvido do Rei Wod.
Adorava dizer-vos o que ele sugeriu. Mas isso iria estragar a surpresa.


Chris Powling e Sally Grindley (org.)
Christmas stories, London, Kingfisher, 1994

24/11/2010

O fintabolista

(“Ninguém pode imaginar a pequenez da minha cidadezinha. Lá, porém, há gente que me dá os bons-dias”)


Sempre onde chego é um lugar. Mas abrigo maior não encontrei senão nas paragens da memória. É lá que reside minha cidadezinha natal, que se acende devagarinhosa, como barco saindo de um lodoso escuro.
Esse lugar se senta em minha meninice como se o único território fosse o tempo. Esse outro tempo escorria em obediência a secretos mandos de preguiça. Os acontecimentos do mundo ali aportavam sempre tarde, bem depois de atravessarem distancias tais que se desbotava a realidade que lhes tinha ditado origem.
As notícias da Europa nos chegavam como tábuas de navios naufragados para além de extensas neblinas. Essas novidades desembarcavam húmidas em nossas mãos, moldáveis à nossa ideia. O tamanho e gravidade das acontecências éramos nós que ditávamos. Assim destrocado, o mundo parecia um brinquedo.
Engigantecidos ficámos foi quando o nosso patrício Eusébio fintou o universo até penetrar nos relvados no Campeonato Mundial. Wembley e Maracanã passaram a estadiozitos no bairro da nossa infância. O nosso pé sonhava em chuteiras e cada chuto disputava cabeçalhos de jornais. De noite nos desenhávamos em figura dos livrinhos de cromos.
Nesse tempo, a mais mundial das guerras era a que opunha o meu bairro aos restantes bairros da Beira. No centro desse conflito estava o campeonato de futebol em que assanhávamos soco e batota. Ali estava a nossa honra, partíamos de casa como fazem os guerreiros ao despedirem-se das famílias.
Não que a futebolada fosse a única disputa. Passámos por anterior batalha - o basquetebol. Mas na bola ao cesto nós não estávamos tão bem aquilatados. Aquilo era modalidade de gente rica. Tanto estávamos desfasados que, em meio de decisiva batalha, o nosso pivô interrompeu a partida para perguntar ao árbitro se não podia encestar com a cabeça.
Faltavam-nos jogadores altos. O nosso mais alto era o Tony Candeeiro que era cardíaco - tinha pouca válvula para muito coração. A mais centimétrica corrida e já ele exibia um tom arroxeado semelhando a flor do nenúfar. Pedíamos uma pausa para o Tony reganhar a visão e ele, passados segundos, interrompia a ofegação para gemer um “continuemos!”.
E lá seguíamos, perdendo sempre. A única vez que ganhámos nem demos por isso. O esforço tinha sido tal que nem deitámos tento no resultado. Estavámos deitando fresco sobre o Tony quando os adversários nos vieram congratular. Nós retorquimos, surpresos: “Ganhámos?!!”
Desistidos da elitista modalidade, regressamos ao futebol, actividade mais a jeito da nossa condição. E foi então que me vi convertido num glorioso avançado de centro. Minha fama emergiu numa jogada confusa - todas as jogadas para mim eram confusas - quando um poderoso remate disparou a bola na minha direcção. Minha única reacção foi proteger os óculos, fechando os olhos e desviando a cabeça da trajectória.
Por instantes, deixei de ver o estádio. Senti a bola raspar-me o penteado. Sonhe depois que esse impensado reflexo tinha feito “anichar caprichosamente o esférico no fundo das redes adversárias”. Com estas palavras o meu feito se maiusculizou na história do meu bairro. No final do jogo fui conduzido em ombros, me aplicaram a vitalícia braçadeira de capitão. Com duvidoso mérito, ganhara o estatuto de comandar a minha equipa e a honra do meu bairro.
Acontecia, no entanto, que a minha equipa sofria de carência grave de rematadores. Passávamos o jogo fintando de um ao outro lado do campo sem nunca nos decidirmos a rematar. Ainda adoptámos a táctica de chutar alto para aproveitar a altura do nosso Tony Candeeiro mas ele, com sua falta de válvula, assim que saltava, perdia a visão.
“Falta-nos a concretização”, dizia o Senhor Herberto, nosso ilustre treinador, um goês cinquentão que suspeitávamos nunca ter sequer assistido a um partida de futebol. Queixava-se assim: “vocês só fintam, não rematam”. E suspirava: “somos uma equipa de fintabolistas”.
Entre esforçados empates e involuntárias vitórias lá conseguimos chegar à finalíssima do campeonato interbairros. O Senhor Herberto que estava sempre calado trouxe então a solução - que tinha ouvido falar que, na vila de Marromeu, havia um jovem dotado de poderosíssimo remate. De tal modo, que era conhecido pelo “Chimbo de Marromeu”. Com seu vertiginoso pontapé o moço já tinha derrubado postes e árvores e só de mencionar o seu nome os guarda-redes eram acometidos de terrores imobilizantes.
A proposta era contratar o “Chimbo. pagando-lhe para que ele actuasse como avançado da nossa equipa. A ideia foi como pedra em charco. Enviou-se logo mensagem para o mercenário rematador. A resposta veio célere: “Chego no próprio dia da grande final. Eis o meu preço - 150 escudos. Pagos, claro, antes do encontro.”
Exultámos. O dinheiro era uma fortuna, mas nós cobriríamos a parada roubando afincandamente as carteiras dos nossos velhos. O optimismo era tal que deixámos de treinar. O treinador disse que a imobilidade era boa conselheira e os treinos só serviam para esfolar canela e gastar sapatilha.
Na tarde da finalíssima o estádio estava repleto. Até as miúdas lá estavam, com seus risos e segredinhos. Já nos preparávamos para entrar em campo e nem sombra do famoso “Chimbo”. Marromeu era longe, teria ele desconseguido apanhar a carreira?
Mas eis que, no derradeiro instante, surge garboso e portentoso o nosso avançado vindo directamente das savanas de Marromeu. Vê-lo entrar em campo foi como um bálsamo para a nossa angústia. Ali estava ele, fardado diferente da nossa equipa, camisete azul-clara com estrelas prateadas que faiscavam ao fulgor do sol. Penteado até à risca, o nosso precioso reforço entrou em campo com aqueles saltinhos que só os grandes profissionais usam para aquecer o próprio corpo e o animo da multidão. O mais espantoso eram as pernas, cilindróides, tão grossas em baixo como em cima. O moço nem deu as confianças. Sem sequer nos olhar, continuando a saltitar, cochichou-nos:
- “O dinheiro, já têm?”
Herberto respondeu que já tinha colocado no lugar combinado. “E a táctica?”, perguntou o contratado, sempre aos pulinhos. A táctica herbertiana era a mais simples: “passar o esférico imediatamente ao Chimbo de Marromou”. E lá começou o jogo.
Na primeira jogada, a bola vem a meus pés e eu, ofuscado pelo sol, levanto a perna ao acaso. A bola toca no meu joelho, ganha efeito, passa por cima de dois adversários, e vai na direcção de Tony. Este salta e, obviamente, sem visão, cabeceia o esférico com a nuca. Atónitos com a arquitectura destas trocas estavam o adversário, o público e, mais que todos, nós próprios. A bola volta a ficar comigo e a nossa claque urra, frenética:
- “Passa ao Chimbo, passa ao Chimbo!”
Eu fiz a bola rolar para os pés do nosso salvador. Ele não rematou logo. Deixou a bola parar e, com estilo de exímio executante, deu uns passinhos para trás para ganhar balanço. Um silêncio se instalou em todo o campo como se o universo inteiro se atentasse no virtuosismo do futebolista. O Chimbo, qual búfalo, deflagrou um tropel em direcção à bola. O barulho dos seus passos e a poeira que se levantou à sua passagem foram tais que eu fechei os olhos. Esperava escutar o vigoroso bater da bola. Mas o tudo que ouvi foi um tímido “trrrrr”, igual a um rasgão de roupa, uma costura se desfazendo. Quando reabri os olhos ainda vi a perna gorda do Chimbo chutando o ar e uma suspeitosa mancha castanha lhe surgindo nos calções. O mercenário rematara em falso, com impulso tal, que se borrara em vergonhoso descuido.
O que se passou em seguida foi o maior embaraço - o glorioso rematador saindo em soluços, rodeado por nós que parecíamos nem dar pelos odores castanhos que lhe escorriam pelas pernas. Enquanto ele se retirava ainda um de nós balbuciou:
- “Eh pá... e o nosso dinheiro?”
Contudo, já o mercenário escapava pelos caniços que rodeavam o estádio. Me recordo ainda de ver rebrilhar, entre as densas folhagens, as estrelas prateadas do seu espantoso fardamento. Com o poente daquelas estrelas se extinguia a minha ilusão de ser campeão mundial de futebol.


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra

09/11/2010

Raízes

Uma vez um homem deitou-se, todo, em cima da terra. A areia lhe servia de almofada. Dormiu toda a manhã e quando se tentou levantar não conseguiu. Queria mexer a cabeça: não foi capaz. Chamou pela mulher e pediu-lhe ajuda.
- “Veja o que me está a prender a cabeça”.
A mulher espreitou por baixo da nuca do marido, puxou-lhe levemente pela testa. Em vão. O homem não desgrudava do chão.
- “Então, mulher? Estou amarrado?
- “Não, mando, você criou raízes.
- “Raízes?”
Já se juntavam as vizinhanças. E cada um puxava sentença. O homem, aborrecido, ordenou à esposa:
- “Corta!
- “Corta, o quê?
- “Corta essa merda das raízes ou lá o que é”...
A esposa puxou da faca e lançou o primeiro golpe. Mas logo parou.
- “Dói-lhe?
- “Quase nem. Porquê me pergunta?
- “É porque está sair sangue”.
Já ela, desistida, arrumara o facão. Ele, esgotado, pediu que alguém o destroncasse dali. “Me ajudem”, suplicou. Juntaram uns tantos, gentes da terra. Aquilo era assunto de camponês. Começaram a escavar o chão, em volta. Mas as raízes que saíam da cabeça desciam mais fundo que se podia imaginar. Covaram o tamanho de um homem e elas continuavam para o fundo. Escavaram mais que as fundações de uma montanha e não se vislumbrava o fim das radiculações.
- “Me tirem daqui”, gemia o homem, já noite.
Revesaram-se os homens, cada um com sua pá mais uma enxada. Retiraram toneladas de chão, vazaram a fundura de um buraco que nunca ninguém vira. E laborou-se semanas e meses. Mas as raízes não só não se extinguiam como se ramificavam em mais redes e novas radículas. Até que já um alguém, sabedor de planetas, disse:
- “As raízes dessa cabeça dão a volta ao mundo”.
E desistiram. Um por um se retiraram. A mulher, dia seguinte, chamou os sábios. Que iria ela fazer para desprender o homem da inteira terra? Pode-se tirar toda a terra, sacudir as remanascentes areias, disse um. Mas um outro argumentou: assim teríamos que transmudar o planeta todo inteiro, acumular um monte de terra do tamanho da terra. E o enraizado, o que que se faria dele e de todas suas raízes? Até que falou o mais velho e disse:
- “A cabeça dele tem que ser transferida”.
E para onde, santos deuses? Se entreolharam todos, aguardando pelo parecer do mais velho.
- “Vamos plantar a cabeça dele lá!”
E apontou para cima, para as celestiais alturas. Os outros devolveram a estranheza. Que queria o velho dizer?
- “Lá, na lua”.
E foi assim que, por estreia, um homem passou a andar com a cabeça na lua. Nesse dia nasceu o primeiro poeta.


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra


08/11/2010

A menina de futuro torcido

Joseldo Bastante, mecânico da pequena vila, punha nos ouvidos a solução da sua vida. Viajante que passava, carro que parava, ele aproximava e capturava as conversas. Foi assim que chegou de ouvir um destino para sua filha mais velha, Filomeninha. Durante toda uma semana, chegavam da cidade notícias de um jovem que fazia sucesso virando e revirando o corpo, igual uma cobra. O rapaz tinha sido contratado por um empresário para exibir suas habilidades, confundir o trás para a frente. Percorria as terras e o povo corria para lhe ver. Assim, o jovem ganhou dinheiro até encher caixas, malas e panelas. Só devido das dobragens e enrolamentos da espinha e seus anexos. O contorcionista era citado e recitado pelos camionistas e cada um aumentava uma volta nas vantagens elásticas do rapaz. Chegaram mesmo a dizer que, numa exibição, ele se amarrou no próprio corpo como se fosse um cinto. Foi preciso o empresário ajudar a desatar o nó; não fosse isso, ainda hoje o rapaz estaria cintado.
Joseldo pensou na sua vida, seus doze filhos. Onde encontraria futuro para lhes distribuir? Doze futuros, onde? E assim tomou a decisão: Filomeninha havia de ser contorcionista, apresentada e noticiada pelas estradas de muito longe. Ordenou filha:
- A partir desse momento, vais treinar curvar-te, tevar a cabeça até no chão e vice-versa.
A pequena iniciou as ginásticas. Evoluía lentamente para o gosto do pai. Para acelerar os preparos, Joseldo Bastante trouxe da oficina um daqueles enormes bidões de gasolina. A noite amarrava a filha ao bidão para que as costas dela ficassem noivas da curva do recipiente. De manhã, regava-a com água quente quando ela ainda estava a despertar:
- Essa água é para os seus ossos ficarem moles, daptáveis.
Quando a retiravam das cordas, a menina estava toda torcida para trás, o sangue articulado, ossos desencontrados. Queixava-se de dores e sofria de tonturas.
- Você não pode querer a riqueza sem os sacrifícios - respondia o pai.
Filomeninha amarrotava a olhos vistos. Parecia um gancho já sem uso, um trapo deixado.
- Pai, estou a sentir muitas dores cá dentro. Deixa-me dormir na esteira.
- Nada, filhinha. Quando você for rica hás-de dormir até de colchão. Aqui em casa todos vamos deitar bem, cada qual no colchão dele. Vai ver que só acordamos na parte da tarde, depois dos morcegos despegarem.
Os tempos passaram, Joseldo sempre esperando que o empresário pas-sasse pela vila. Na garagem os seus ouvidos eram antenas à procura de notícias do contratador. Nos jornais os olhos farejavam pistas do seu salvador. Em vão. O empresário recolhia riquezas em lugar desconhecido.
Enquanto isso, Filomena piorava. Quase não andava. Começou a sofrer de vómitos. Parecia que queria deitar o corpo pela boca. O pai avisou-lhe que deixasse essas fraquezas:
- Se o empresário chegar não pode-lhe encontrar da maneira como assim. Você deve ser contorcionista e não vomitista.
Decorreram as semanas, destiladas na angústia de Joseldo Bastante. Numa terra tão pequena só se passa o que passa. O acontecimento nunca é indígena. Chega sempre de fora, sacode as almas, incendeia o tempo e, depois, retira-se. Vai-se embora tao depressa que nem deixa cinza para os habitantes reacen-derem aquele fogo, se gostarem. O mundo tem sítios onde pra e descansa a sua rotação milenar. Aquele era um desses lugares.
O tempo foi-se enchendo de nadas até que, uma tarde, Joseldo escutou de um camionista a chegada do destino: o empresário estava na cidade preparando um espectáculo.
O mecânico abandonou o serviço e rapidou para sua casa. Disse à mulher:
- Veste Filomeninha com seu vestido novo!
A mulher estranhou:
- Mas essa menina não tem vestido novo.
- Estou a falar o seu próprio vestido. O seu, mulher.
Puseram a menina de pé e meteram-lhe o vestido da mãe. Largo e comprido, via-se que as medidas não condiziam.
- Tira o leno. Artistas não usam panos na cabeça. Mulher: trança lá o cabelo dela, enquanto vou arranjar dinheiro da passagem do comboio.
- Vai onde arranjar o tal dinheiro?
- Não é seu assunto.
- Joseldo?
- Não me chateia mulher.


Horas depois partiam para a cidade. No comboio, o mecânico satisfez-se de pensamentos: um fruto não se colhe só pressas. Leva seu tempo, de verde-amargo até maduro-doce. Se tivesse procurado a solução, como outros queriam, teria perdido esta saída. Orgulhoso, respondia aos apressados: esperar não é a mesma coisa que ficar à espera.
No embalo dos carris seguia Joseldo Bastante a entregar sua pequena filha à sorte das estrelas, à fortuna dos imortais. Olhou a menina e viu que ela estremecia. Perguntou-lhe. Filomeninha queixou-se do frio.
- Qual frio? Com todo esse calor, onde está o frio?
E procurou o frio como se a temperatura tivesse corpo e lhe tocasse num arrepio dos olhos.
- Deixa, filhinha. Quando começar entrar fumo, isto já vai aquecer.
Mas as tremuras da menina aumentavam sempre até serem mais que o balanço do comboio. Nem o vestido largo escondia os estremeções. O pai tirou o casaco e colocou-o sobre os ombros de Filomena.
- Agora veja se pára de tremer que ainda me descose o casaco todo.
Chegaram à cidade e começaram a procurar o escritório do empresário. Seguiram por ruas sem fim.
- Charra, filha, tantas esquinas! E todas são iguais.
O mecânico arrastava a filha, tropeçando nela.
- Filomena, fica direita. Hão-de dizer que lhe levo até no hospital.
Por fim, deram com a casa. Entraram e foram mandados esperar numa pequena sala. Filomeninha adormeceu-se na cadeira, enquanto o pai se entretinha com sonhos de riqueza.
O empresário recebeu-os só no fim do dia. Respondeu sem muitos quês.
- Não me interessa.
- Mas, senhor empresário...
- Não vale a pena perder tempo. Não quero. O contorcionismo já está visto, não provoca sensação.
- Não provoca? Veja lá a minha filha que chega com a cabeça...
- Já disse, não quero. Essa menina está doente.
- Essa menina? Essa menina tem saúde do ferro, aliás de borracha. Só está cansada da viagem, só mais nada.
- A única coisa que me interessa agora são esses tipos com dentes de aço. Umas dessas dentaduras que vocês às vezes têm, capazes de roer madeira e mastigar pregos.
O Joseldo sorriu, envergonhado, e desculpou-se de não poder servir:
- Sou mecânico, mais nada. Parafusos mexo com a mão, não com os dentes.
Despediram-se. O empresário ficou sentado na grande cadeira achando graça quela menina tão magra dentro de vestido alheio.
No regresso Joseldo ralhava com o destino. Dentes, agora são dentes! A seu lado, Filomena arrastava-se, trocando os passos. Entraram no comboio e esperaram a arrancada do regresso. O pai foi acalmando. Parecia olhar o movimento da estação mas os seus olhos não passavam além do vidro fosco da janela. De súbito, um brilho acendeu-lhe o rosto. Segurando a mão da filha, perguntou, sem a olhar:
- É verdade, Filomena: você tem dentes fortes! Não é isso que diz a sua mãe?
E como não tivesse resposta, abanou o braço da criança. Foi então que o corpo de Filomeninha tombou, torcido e sem peso, no colo de seu pai.


Mia Couto, In Vozes Anoitecidas