25/10/2010

Passa-boné e belos bolinhos


Todos os dias, às quatro horas, abre-se a porta da casa branca: é a hora do passeio do Leonel e da sua irmã Maria. Fecham a porta, atravessam o jardim e vão-se embora. O Leonel põe um boné que enterra até às orelhas e a Maria leva no braço um grande cesto. Caminham devagar, não estão com pressa. Quando passam por um vizinho, a Maria sorri e o Leonel tira o boné.
Às quatro e meia chegam diante da escola; toca a campainha, é a hora da saída. Quando vêem o Leonel, os rapazes largam as pastas e correm para ele.
— Passa, Leonel, passa! — gritam eles, empurrando-se uns aos outros.
Com um movimento da cabeça, o Leonel faz saltar o boné e atira-o aos garotos.
— Aqui, dá-me a mim o boné — grita o Joaquim.
Zum, o boné rodopia no ar. Cai no chão e quatro mãos se lançam para o apanhar.
— Apanhei-o — grita o Joaquim; e corre até ao caixote do lixo, deita-o lá para dentro e berra: – Golo!
Então o Leonel vai buscar o boné, sacode-o no joelho e finge que volta a pô-lo.
— Toma — grita ele de repente a um rapazinho — apanha.
E o boné lá volta a rodopiar no ar.
Os rapazes gostam muito do Leonel; inventou um jogo muito giro: o passa-boné!
Entretanto, a Maria sentou-se num banco e meteu a mão no cesto.
— O que é isto? — pergunta ela tirando um engraçado bolinho redondo.
— É uma argola de guardanapo — sugere a Gabriela.
— É um O — diz a Manuela.
Outra menina avança e grita:
— Não, isso conheço eu bem. É um zero, e eu cá como os zeros!
Agarra no bolinho e come-o de uma só vez. Do cesto a Maria tira ainda borboletas folhadas, broinhas em forma de lápis e ratinhos de chocolate. Os gulosos gostam muito dela; com a Maria o lanche é um encanto!
Ao voltarem para casa, o Leonel e a Maria vão às compras. Lá no bairro todos dizem:
— Como eles são amáveis e simpáticos!
Mas, quando chegam a casa, o Leonel e a Maria já não sorriem nem são nada delicados. O Leonel diz à Maria:
— Quando deixas de empanturrar os miúdos com os teus horríveis bolos cheios de açúcar? Vão ficar gordalhufos que nem conseguem correr!
E a Maria responde:
— Quando é que deixas de fazer de palhaço com o boné? Por tua causa a saída da escola parece um campo de batalha!
Ao jantar a discussão continua:
— Maria, este guisado não presta, parece comida do gato!
Furiosa, a Maria diz para o Leonel:
— Vou cortar o teu boné às rodelas para cozer com as batatas!
— Velha dos tachos! — grita o Leonel.
— Palhaço velho! — grita a Maria.
À noite, sobem a escada lentamente; estão muito cansados de terem passado o dia a discutir! O Leonel fecha a porta do quarto dele.
A Maria fecha a porta do quarto dela. Não se ouve mais nada.
Então, com muito cuidado, o Leonel abre as gavetas. Tira de lá belas taças de prata, jornais velhos e fotografias; são fotografias de uma equipa de futebol. O que está de cócoras com a bola é o Leonel. Então, o Leonel recorda os gritos e os “vivas” dos espectadores quando marcava um golo.
No seu quarto, a Maria também abre as gavetas. Tira grandes livros de cozinha e fotografias onde ela está diante de um grande fogão. Então a Maria recorda as pirâmides de bolos de creme e os noivos de açúcar que sabia fazer tão bem. Recorda também todas as pessoas que vinham felicitá-la. À noite, o Leonel sonha com a bola; a Maria só vê bolos.
O Leonel e a Maria vivem tristes no meio das suas recordações. Só gostam do passeio; o Leonel imagina que os rapazes são jogadores de futebol e a Maria olha os gulosos a devorarem os seus engraçados bolinhos.
Um dia, o Leonel e a Maria não estão na saída da escola.
— Se calhar estão doentes — diz o Joaquim.
E, com os outros meninos e meninas, vai bater à porta da casa branca.
O Leonel e a Maria estão lá dentro; afinal não estão doentes! Só que discutiram tanto que se esqueceram do passeio!
Ao vê-los, os meninos e meninas não dizem nada, ficam a olhar espantados.
Então a Maria vira-se para o Leonel: ele também faz uma cara esquisita.
“Que palermice”, pensa a Maria, “hoje não houve jogo de passa-boné”.
Ao mesmo tempo, o Leonel pensa:
“Que pena, não houve bolinhos para ninguém!”
Então, o Leonel corre para as crianças e agarra-lhes nas pastas.
— Vão depressa ter com a Maria, ela vai fazer-lhes biscoitos e caramelos.
— Vão antes para o jardim — diz a Maria.
— De certeza que não conhecem o passe de cabeça do Leonel!
Diante da porta, as crianças não se mexem; hesitam. Os jogadores de passa-boné pensam: “O passa-boné é óptimo, mas os biscoitos e os caramelos também não são nada maus!” E os gulosos pensam: “O lanche é bom, mas o passe de cabeça do Leonel deve ser formidável!”
A Gabriela pergunta timidamente:
— Não podemos fazer as duas coisas?
— Que bela ideia — exclama o Leonel. — Vá, todos lá para fora. Primeiro jogamos e depois lanchamos.
Depois pergunta baixinho à Maria:
— Vens connosco?
— Claro — responde a Maria. — Mas não me obriguem a correr como um coelho!
E todos os meninos e meninas jogaram ao passa-boné e comeram bolinhos engraçados. Depois foram-se embora.
O Leonel e a Maria fecharam a porta; estavam um bocadinho cansados de todo aquele barulho.
— Como a casa está calma – diz o Leonel.
— E como se está bem aqui — diz a Maria.
Nessa noite o Leonel e a Maria conversaram muito tempo. Quando o Leonel lhe contou os jogos de antigamente, a Maria disse-lhe com delicadeza:
— Estás a exagerar um bocadinho Leonel. Naquele dia não marcaste os dez golos sozinho!
Quando a Maria contou como fazia as pirâmides de bolos de creme, o Leonel disse-lhe:
— Achas mesmo que precisavas de um banco para pôr o último bolo lá no cimo?
O Leonel e a Maria olharam um para o outro e riram-se das suas recordações.
Nessa noite aconteceu-lhes uma coisa estranha: a Maria sonhou que fazia bolos mas que no cimo da pirâmide dos bolos de creme punha uma bola muito redondinha!
E o Leonel sonhou que jogava futebol; mas, quando correu para marcar um golo, foi num bolo de creme que deu o pontapé.
Ah! Que confusão vai nos sonhos da Maria e do Leonel!
Desde esse dia, todos os meninos e meninas vêm jogar e lanchar depois da escola. A Maria aplaude os jogos de passa-boné e o Leonel felicita a Maria pelos seus bolos tão bons. Quando chega a noite, o Leonel instala-se na poltrona e a Maria puxa a cadeira para perto do candeeiro. Estão os dois contentes; agora as recordações já não dormem dentro das gavetas; passeiam pela casa e misturam-se com os gritos das crianças.
Quando está a ficar tarde, o Leonel levanta-se e diz:
— Vamos, Maria, agora temos de ir dormir.
E sobem lentamente a escada e vão para a cama.


Bénédicte Laferté
Passa-boné e belos bolinhos
Lisboa, Editorial Caminho, 1991



22/10/2010

O despertar de Jaimão

Ouviu a voz da mulher gotejando. Como se estivesse submerso num tanque de água e as palavras dela fossem caindo, lágrimas da lua.
- “Graças a Deus, você acordou”.
Jaimão não percebeu o motivo da fala de Elvira. Olhou-se no corpo, horizontal. Os pés, de pé, todos despidos. Se recordava, em cacos de memória. Deitou-se foi num dia, longe.
- “Não deitei calçado, mulher?
- “Deitou, sim”.
Então porquê a ausência dos sapatos? Elvira explicou: tiraram enquanto ele dormia. Foi ideia do vizinho Raimundo: ele sabia que os mortos falam com os dedos dos pés. Essa é maneira de conversarem com os vivos. “Sim, o vizinho disse assim, Jaimão. Tirámos seus sapatos quando já pensávamos que não acordava mais. Você, Jaimão, é o pai mais novo dos meus filhos, você dormiu quinze dias, de fio em novelo. Juro, mando, quinze dias de tempo. Até já pensávamos você tinha chegado ao fim, parado de doença falecível”.
- “Qual dia é hoje?
- “O dia não interessa”, respondeu Elvira, “o que importa é que você acordou”. Jaimão se ergueu no leito, sentou-se com custosos gemidos. “Mineiro que fui, tantos anos, me habituei a descer lá nas funduras, mais fundo que os subterrâneos. Desta vez, Elvira, escavei-me fundo de mais. Demorei foi a chegar à tona do mundo”.
- “Deixa ver seus olhos, Elvira. É que quase não lembro deles”.
Elvira se postou perante o recém-regressado. Jaimão passeou saudades pelo rosto da mulher. Mas logo ele pousou o olhar no chão.
- “Sonhei que você tinha saído com outro.
- “Com outro?”
O despertado tossiu, saltaram-lhe sangues de dentro. Tentou esconder o vermelho nos lençóis. “Deixa que eu limpo”, sossegou a mulher. Ele desviou-se da intenção dela. Mas ela insistiu:
- “Homem não deve mexer em sangue. Só a mulher.
- “E porquê?
- “Em vocês, homens, o sangue anda junto com a morte.
- “Você fala coisa que nem sabe.
- “A mulher é que pega no sangue e faz nascer uma outra vida.
- “Conversa redonda, Elvira. Mas me diga uma coisa, mulher: todo esse tempo você não chamou ajuda de ninguém?
- “Ninguém.
- “Mas então o satanhoco do Raimundo não veio me ver, nesse meu estado?”
Sim, ela chamara Raimundo, o vizinho. Isto é, não é bem que chamara. Apenas mostrou ponta de chamamento. “Que eu, marido, não gosto de falar fora assuntos de dentro. No início ele recusou vir. Raimundo até que falou, rindo, assim”:
- “Doente? Isso é manha dele. Eu desautentico esse seu marido, Dona Elvira. O gajo é mestre da preguiça, lhe conheço desde-desde. O sacana só está fingir do sono, mais nada.
- “O sacana? Raimundo me apelidou mesmo assim?”
Jaimão não cabia em si. “Conta mais, mulher, quero saber bem desse Raimiudinho”.
- “Mas, marido, nem imagina o seu amigo quem é. Não foi que ele me aproveitou?
- “Lhe aproveitou, como?
- “Sim, ele me fez adiantamentos. Que eu era bonita de mais valer, devia era aproveitar o seu adormecimento.
- “Ai, sim? Raimundo disse isso? Vai ver, traidor. Lhe despromovo, filho de uma quinhenta, lhe desconto no retroactivo.
- “Foi nesse momento que você, marido, começou a mexer os dedos dos pés. O Raimundo se debruçou todo para assistir ao seu dedilhar. Você movimentava e ele lia seus dedos.
- “Não quero ouvir mais essa história, mulher. Chama-me esse sacana. Agora mesmo”.
Elvira sai para ir chamar Raimundo. O vizinho não demora a chegar. Na soleira da porta trocam palavras, ele e a dona da casa. Segredam-se:
- “Você já lhe disse, Elvira?
- “Lhe disse o quê?
- “Que ele vai morrer.
- “Eu não sei como falar essas coisas”...
Do seu leito, o despertado grita: “que fazem vocês aí, aos segredinhos? Não me diga você está escadear na minha mulher?” Elvira se chega ao leito do moribundo, festeja-lhe a fronte, deitando-lhe ternuras. O vizinho também se aproxima, mãos cruzadas no ventre, sinal do respeito. O recém-dormido fala:
- “Então Raimiúdo, eu te mandei estudar, tu és quase da família. E agora me fazes assim de mim, teu pai hierárquico?
- “Fiz o quê, vizinho?
- “Me redemoinhas na mulher. Diga, sinceramente, estamos de homem para homem.
- “Pensava que você já não acordava mais. Mas foi por causa do que você falou.
- “Falei o quê, seu aldrabão?
- “Disse para eu tomar conta das suas heranças... incluindo ela.
- “Mentira, satanhoco!
- “Falou, juro, falou com os dedos dos pés”...
O grande Jaimão espumava as raivas. “Trabalhei anos, deixei meus pulmões nas minas do John. Onde estão meus randes, onde mexeram minhas poupanças?” Súbito, em sua mão se acendeu um brilho de faca. “Respeito, Raimundo, ainda lhe vou naifar essas fuças todas. Não estudou o respeito, lá na escola que lhe mandei? Mas com gente igual a você, não se gasta palavra. Com você a gente se explica com lamina. Daí o motivo da bala, a razão da catana”.
- “Estou pedir grande desculpa, Jaimão.
- “Sabe qual é o castigo? Sabe, não é?”
Enquanto perguntava ia raspando a barriga da faca na pedra do chão. O outro se placava de encontro à parede, milimétrico. “A vida, caro vizinho, a vida é que é muito mortífera”.
- “Não me mate, Jaimão!”
O outro prosseguia com esmero a afiação da lamina. Levantava o punhal, examinava-o à contraluz. Vistoriava o instrumento da punição. Demorava-se só para aumentar o sofrimento do outro? Ou, de contrária maneira: muito tacto, pouco acto? Raimundo, de joelhos, implorava. Mas Jaimão prosseguia ameaça:
- “Eu vou-lhe deseliminar. Ou você pensa que sou um papagago?”
De repente, o vizinho atrevido se reatreveu e, aos gritos, desatou a arguir:
- “Você, Jaimão, você é que vai morrer de castigo dos xicuembos.
- “Eu?
- “Sim, morrer e de vez. Então, não se lembra? Você estava morto, falou-me, deu-me as devidas ordens. Agora queria que eu não cumprisse? Sim, não conhece a tradição? Pedido de morto é ordem.
Jaimão ainda tentou um golpe. A faca lhe saltou da mão, subiu pelos ares mas não tombou. Estranhamente ficou volteando, em infindável remoinho.
De repente, o Jaimão sentiu um sono pesado, maior que morte. “Escute, Raimundo, vou dormir, agora. Depois, acordo e lhe mato”. E tombou, pesadelento. “Que chão é este, que poeira, que cheiro? Onde estou, afinal? Este escuro em que penetro não é a mina, essa fundura onde me infernei tantos anos? Se estou nas galerias como é que Elvira está atravessando o quarto e se atira nos braços de Raimundo? Se me estou obscurecendo por que motivo Raimundo me está cobrindo meus pés com essa capulana? E porquê esse pano me aparece como se fosse terra, me pesando mais que o inteiro planeta?”


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra


20/10/2010

O Macarronete

A Sr.ª Joana estava de vigia durante o intervalo grande.
Da zona dos quartos de banho, soava em coro:
“Tónio Macarronete tem lêndeas e uma pulga no barrete.”
Correu para o magote de crianças que se acotovelavam num círculo fechado à volta de Tónio Zuccarelli.
Tónio tinha as mãos enfiadas nos bolsos das calças, a cabeça encolhida e os olhos pregados no chão. Era um palmo mais alto do que as restantes crianças da terceira classe.
— “Tónio Macarronete…” — recomeçava Carlos Blum a cantar.
— Acabou! — gritou a Sr.ª Joana, separando as crianças. — É muito feio andarem sempre a aborrecer o Tónio — ralha à sua classe.
— Ele é engraçado quando fica furioso — diz Carlos Blum.
— Fica parecido com um cão que farejou um gato — grita Sílvia.
— Calados! Ninguém se parece com um cão.
— Quando Tónio se enfurece, fica parecido com o nosso cão. —replica Sílvia.
— É isso mesmo! — confirma Carlos, embora nunca tenha visto o cão de Sílvia.
Carlos está zangado com Tónio. Antes do Italianito ter vindo para a turma, Carlos era o mais forte. Mas Tónio suplantou-o. E o Sr. Blum também dizia: “ Os Esparguetes aqui só nos tiram os postos de trabalho.”
Por que é que a Sr.ª Joana tinha de ter sentado o Italianito precisamente na mesa de Carlos? O pai também tinha dito: “Nem deviam deixar os estrangeiros frequentar as escolas alemãs.”
Depois do intervalo, a Sr.ª Joana faz uma proposta:
— Como estamos no Advento, vamos fazer um jogo bonito — diz.
— Escrevi o vosso nome em papelinhos. Cada um vai tirar um nome mas ninguém deve dizer o que lhe saiu.
— Não se pode dizer a ninguém? — pergunta Sílvia.
— A ninguém. Depois cada um de vocês vai fazer as vezes de gnomo para aquele menino cujo nome lhe saiu.
— Gnomo? Que disparate! O que é isso? — gritam as crianças numa grande confusão.
— Eu não inventei o nome nem o jogo — diz a Sr.ª Joana. — Mas posso explicar-vos o que é. Cada gnomo deve pensar, para cada dia, como fazer uma surpresa ao outro. Tudo tem de ser feito em segredo. Ninguém deve dizer a quem é que vai fazer essa surpresa durante o Advento.
— Disparate — diz Carlos. — Gnomices, mas que disparate!
— Não é disparate nenhum — retorquiu a Sr.ª Joana. — A alegria é muito mais bonita quando é proporcionada a outro.
— E se eu tirar o nome deste aqui? Vou ter então de lhe dar alguma coisa todos os dias? — Carlos aponta para Tónio.
“Isso é que seria óptimo para o Carlos!”, pensa a Sr.ª Joana.
Mas Carlos não tirou o nome de Tónio. No seu papel estava escrito Miguel.
No primeiro dia, Carlos encontrou no bolso do anoraque uma bolachinha de canela. Quem é que sabia que bolachas de canela eram as suas preferidas? Teria sido o seu amigo João que lhas oferecera?
No segundo dia encontrou no estojo um cromo de colecção do famoso futebolista brasileiro Pelé. Era mesmo aquele que lhe faltava. O gnomo parecia conhecer Carlos muito bem. Mas quem seria?
Nos dias seguintes, recebeu imensas coisinhas que já há muito tempo queria ter: um pequeno aguça em forma de globo, uma pastilha elástica enorme, um berlinde minúsculo, um anzol e, de uma vez, até uma coisa com a qual toda a turma se admirou. Carlos metera muito naturalmente a mão à pasta e retirou-a logo, assustado. Alguma coisa se mexia lá dentro. Com cuidado, tira então um pequenino novelo castanho que era afinal um ratinho hamster.
Talvez Carlos descobrisse agora quem lho teria oferecido. Quem é que tinha em casa um goldhamster? Mas por mais que investigasse, não foi muito longe. Embora João tivesse um goldhamster, onde já se viu um hamster macho ter filhotes?
No último dia de aulas antes das férias de Natal, a maior parte dos alunos já adivinhara quem tinha sido o seu gnomo.
Fora uma bonita época de adivinhas e surpresas. Só Carlos não fazia a menor ideia de quem lhe tinha dado os presentes. Até que encontrou no caderno, depois do intervalo grande, uma magnífica série de selos italianos. Selos? Italianos? Carlos olhou Tónio com um olhar duvidoso.
Este olhou-o com medo.
— Tu, Macarr…? — Carlos engoliu em seco. — Foste tu, Tónio?
Tónio acenou com a cabeça.
— Eh, pá! — disse Carlos, dando-se conta de como tinha sido mau.
— Obrigado!
— Foi bonito — respondeu Tónio.
Na noite de Natal, o carteiro trouxe um postal de boas festas gigante para o aluno Tónio Zuccarelli, onde estava escrito:

Querido Tónio, desejo de todo o coração que tenhas um Feliz Natal.
Carlos

Tónio pregou o postal por cima da cama.


Willi Fährmann

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
Munique, DTV, 1989

17/10/2010

O homem de barbas azuis

Estava um lenhador sentado, junto à margem de um rio, de queixo nos joelhos, muito triste, quando por ele passou um homem de barbas azuis.
Um homem de barbas azuis? Como pode ser isso? Pode, pois.
Nas histórias tudo pode acontecer. Então, era um feiticeiro?
Talvez fosse. Continuam a aparecer nas histórias. Uns de barbas encarnadas, outros de barbas verdes... Este tinha-as azuis, que mal há nisso?
O lenhador nem reparou na cor das barbas do homem. Estava tão desolado, a olhar para o rio, que tudo o mais lhe era indiferente.
- Aconteceu-lhe alguma desgraça? - perguntou o homem de barbas azuis, numa voz que parecia de pessoa bondosa.
- Uma grande desgraça - respondeu o lenhador. - Estava a dormitar, cansado do trabalho, ao fresco da beira-rio, quando o machado me escorregou. Foi para o fundo e eu, que não sei nadar, não tendo machado, fico um inútil.
- Deixe que eu trato disso - tranquilizou-o o homem de barbas azuis, despindo a camisa e as calças e tirando meias e sapatos.
Mergulhou nas águas do rio, que estava limoso e redemoinhento. Um perigo. Voltou ao cimo com um machado de oiro.
- É este? - perguntou.
- Ó meu senhor, esse não é. O meu machado é ferramenta de pobre.
O homem de barbas azuis mergulhou de novo, para logo voltar à superfície, empunhando um machado de prata. Claro que também aquele não era o machado do lenhador.
Ao terceiro mergulho trouxe-lhe o machado perdido.
- E, como és honesto e sincero, levas também os outros machados - disse-lhe o homem de barbas azuis.
Pela primeira vez o lenhador reparou nas barbas do seu benfeitor. Assustou-se, atrapalhou-se e, tartamudeando uns agradecimentos em voz sumida, abalou com os três machados. Entardecia.
Antes de chegar a casa, encontrou um vizinho a quem contou a maravilha, exibindo os machados de oiro e de prata que refulgiam, à luz do sol a despedir-se.
O vizinho, que vinha da lavoura numa carrocita a desfazer-se, nem quis ouvir a história segunda vez. Puxou as rédeas e fez a mula trotar por barrancos, até à beira do rio.
Estava a noite a descer. O vizinho do lenhador, num afogadilho, desatrelou a mula e atirou a carroça com tudo dentro, ribanceira abaixo. O rio engoliu-a num trago.
Depois ainda atirou o relógio, a bolsa com moedas, o colete e a camisa para o meio do rio. E pôs-se a gritar, numa grande choradeira:
- Ai quem me acode, que perdi todos os meus pertences e não sei nadar!
Relanceava os olhos cobiçosos para as moitas que escureciam, à espera do tal bruxo de barbas azuis. De mãos nas cavas, tiritando da friagem da noite, gritou e voltou a gritar:
- Quem me devolve os meus ricos bens, a carroça de prata, com rodas de oiro e a riqueza toda que lá ia dentro, mais a camisa e o colete com botões de oiro e a bolsa cheia de libras, mais o relógio de oiro, ai quem me acode?!
A mula pastava solta, de dente arreganhado para a ervinha tenra. Ou estaria a rir-se?
Mais se ria, à socapa, a Lua, cheia e chapada, no meio da noite.
E o homem, quase nu, numa aflição, cada vez mais a sério:
- Quem me salva? Quem me acode?
Mas ninguém lhe acudiu.

António Torrado


11/10/2010

Rungo Alberto ao dispor da fantasia

Conto uma verdade de Rungo Alberto, meu completo amigo, perdido em escura noite na ilha da Inhaca. Ele nasceu junto do mar, em lugar onde terra e água se fronteiriçam. Dizia: “minha água-natal”. Rungo já não se abastecia de ilusão: tudo é areia sem castelo. O que ele queria era ver chegar a Paz. Nisso se duvidava. Afinal, a única maneira de a guerra terminar é ela nunca ter começado. Lá tinha suas razões. Porque ele era um fugido da guerra. Magro: descurava um esterno muito externo. Cabelo branco mas por indevida idade.
Me chamava assim: Mio Conto, Mira Cuito, Miraconcho. Me desapelidava? Não, aquilo era simples inclinação do peito. Uma amizade funda lhe fazia inventar aqueles todos nomes. Um só não serviria. Eu ria: há tanto que precisava aquela falha de identidade. Há tanto eu carecia de certidão de inabilitações. Mas eu naquele amigo punha também as muitas visões. Rungos, tantos ele era. Qual deles o verdadeiro? Pois, meu suposto Rungo Alberto, uma certa manhã anunciou:
- “Vou construir um barco!”
Duvidei. Rungo Alberto era uma pessoa muito instantânea mas aquele caroço me parecia maior que a garganta. Não sendo engenheiro marinho, nem tendo artes de carpintaria, onde iria ele buscar qualificação? Rungo virou costas entoando sua única canção. Uma vez mais me inquiririu:
- “Não conhece esta canção? É um hino quase nacional”.
Na manhã seguinte, o homem deitou mãos à manobra. Sua oficina foi instalada numa clareira da floresta, perto da Estação de Biologia. Para ali ele passou a se deslocar muito diariamente, em competição com a madrugada. Se escutavam os martelos, fazendo calar a piadeira da passarada. Manhã à noite, Rungo Alberto instrumentava nos enormes troncos. Convertera-se em mercenário marceneiro? Na oficina do improvisado construtor de navios, se viam intermináveis troncos transitando de madeira para tábua.
Eu queria espreitar, ele recusava. A construção não podia ser olhável. Assim se protegia de invejas e feitiços. Ele engenhava o barco como o mar fabrica os corais, petrificando o rendilhado de suas espumas. Os ilhéus passavam por ali, gozavam com a proclamação de Rungo. Podia um semi-urbano se aventurar a embarcadeiro?
Uma madrugada, Rungo me alvoroçou a janela. Coração aos tropeços, ele me conduziu pelos atalhos secretos que desaguavam em sua oficina:
- “Você se arregale, mano”.
Apontava uma enorme embarcação. Me espantei. Aquilo era um barco, autêntico, da proa à ré. Superava a dezena de metros, lindo de pintado: azul, branco, castanho. O mastro, vaidoso, ascendia a copa da floresta. Rungo Alberto, porventuroso e circunsperto, me afrontava. Não encolhi uma dúvida:
- “Agora, caro Rungo, eu lhe pergunto: como vai levar o barco até ao mar?”
Tudo ele tinha antepensado. “Os estudantes”, me respondeu sorrindo.
- “Os estudantes?
- “Sim, os seus alunos podem tchovar o barco. Peço: fale com eles”.
Não houve estudante que se furtasse. Todos juntaram braços e alegrias. Quatro horas depois o barco entrava nas ondas do Índico. Rungo abriu vinho português, despejou as primeiras gotas sobre o barco, outras sobre o mar. Só depois a garrafa circulou por todos. Abençoado, o barco parecia se afeiçoar melhor ao bate-onda. No baptismo a criança é que abençoa o mundo?
Os estudantes voltaram às camaratas, algazarrentos. Na praia fiquei eu e ele contemplando o barco no embalo de seu destino.
- “E agora que vai fazer com ele?
- “Com o barco?”
Não sabia, nem queria ideia. Fizera o barco, provara. A viagem era outro assunto. Insonhável. “Minha viagem foi esta, eu termino aqui”. Mas, então qual o beneficio da obra?
- “Não é no deserto que ganhamos miragem?”
Durante dias ele sentou na praia contemplando o barco. Parecia ancorado à sua própria vitória. Rungo perdera a noção, divaguava? A mulher zangava-se: em casa, Rungo não dava atendimento. E ela me pediu em choro: eu que acudisse à réstia do senso dele...
- “Eu, mulher, não tenho voto na madeira. Esse homem é casburro”.
E ela se calou. Rungo era tão bom que ninguém aguentava ser inimigo dele. Aquilo era maldição, serviço encomendado dos aléns. Ela sabia, ali se vivia muito oralmente. E, nessa tarde, ela foi ao feiticeiro. O depois não se esperou.
Nessa mesma noite rebentou uma tempestade de escangalhar o oceano. O barquinho se soltou do mundo, desnavegou pela escuridão. Rungo, dizem, foi no encalço da sua criação.
Dias depois, o país via chegar a Paz. Ainda hoje, de regresso à ilha, eu me sento junto ao mar. Quem sabe da estória de Rungo, seu barco vogando na outra margem? Com suas águas sempre moventes, o mar não nos deixa ver o tempo. Quem me encara, espreitando o poente, acredita que eu me consagro a saudades. A tristeza é uma janela que se abre nas traseiras do mundo. Através dela eu vislumbro Rungo Alberto, meu velho amigo. Depois, um deserto me engole a alma. Estrangeiro é o lugar onde não se espera ninguém.


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra


03/10/2010

Recordar para não esquecer

Jerusalém, Israel. É Primavera. Visitantes de todos os credos, vindos de vários países do mundo, acorreram a esta cidade santa para celebrar a Páscoa cristã e a Páscoa judaica. Um homem alto e bem parecido entra numa loja de lembranças na Rua de Jaffa. A loja está cheia de clientes. O homem aproxima-se do dono, um senhor idoso, e pergunta-lhe:
— Fala alemão?
O velho responde, num alemão impecável:
— Falo, sim. Seja bem-vindo à minha loja. Está a gostar do nosso país?
— Estou a gostar muito — responde o turista. — Procuro um daqueles candelabros judaicos, que são como que um símbolo do vosso país. Gostaria de levar um comigo, como recordação da minha visita.
— Ah, quer um menorah. — Claro que tenho. Venha ver alguns.
Depois de o jovem alemão ter escolhido um candelabro e de o ter pago, o lojista apertou-lhe a mão e desejou-lhe uma boa viagem de regresso. Quando o homem esticou o braço, viu-se neste um número púrpura tatuado, sinal de que o homem tinha sido condenado à morte por alemães, num tempo não muito remoto.
Entre 1933 e 1945 seis milhões de judeus, homens, mulheres e crianças, foram assassinados na Alemanha e noutros países europeus.
Embora a maioria tenha morrido durante a Segunda Guerra Mundial, não morreram no campo de batalha como soldados. Também não eram culpados de crime algum. Morreram pela simples razão de que eram judeus.
Como pôde isto acontecer? Para responder a esta pergunta, temos de recuar na história.
Há dois mil anos os judeus viviam na sua terra. No ano 70 da era cristã, Jerusalém, a capital do país, foi atacada e destruída e os judeus foram forçados a abandonar as suas casas e o seu país. Durante os dois mil anos que se seguiram, os judeus viveram como nómadas e estrangeiros em muitos países do mundo. E durante séculos, o mundo assistiu ao eclodir de uma nova doença: o anti-semitismo.
Anti-semitismo significa ódio pelos judeus, pela sua religião e pela sua cultura. As suas causas são o medo e a falta de compreensão. Os seus sintomas são os insultos, a discriminação e a violência. Mesmo quando a doença do anti-semitismo parece curada, os sintomas podem irromper a qualquer momento.
Nos países onde viviam, como estrangeiros que eram, os judeus funcionavam facilmente como bodes expiatórios para tudo o que corria mal. Problemas como a doença, a fome, a guerra e o desemprego eram todos imputados aos judeus.
Durante dois mil anos, os judeus rezaram pela paz e pelo direito de voltarem a viver em liberdade. A nível exterior, tiveram de suportar a solidão, o medo e o ódio. A nível interior, reconfortavam-se com o seu orgulho, as suas tradições e a sua religião.
Entre 1933 e 1945, o anti-semitismo funcionou como lei oficial na Alemanha e nos países europeus conquistados pela Alemanha. Sob o lema “Os judeus são a causa do nosso infortúnio”, Adolf Hitler e o seu Partido Nazi delinearam uma série de planos destinados a erradicar o que eles chamavam de “problema judeu”.
Primeiro vieram as humilhações e as expulsões.
Os judeus deixaram de ser considerados como cidadãos. Os seus negócios foram boicotados e não lhes era permitido exercer as suas profissões ou ofícios. As crianças judias deixaram de poder ir à escola pública e todos os judeus foram forçados a usar em público uma estrela amarela simbólica.
Os judeus viviam na Alemanha há centenas de anos e tinham-se tornado participantes activos em todos os sectores da sociedade. Fossem soldados, advogados, homens de negócios ou professores, os judeus consideravam-se, em primeiro lugar, cidadãos alemães.
Embora sempre tenha havido uma vertente anti-semita na sociedade alemã, quando os nazis conquistaram o poder e começaram a ameaçar abertamente os judeus, estes não acreditavam que algum mal pudesse acontecer-lhes. Quando foram promulgadas leis anti-semitas, alguns judeus reconheceram os sinais de perigo e fugiram da Alemanha. Mas muitos outros ficaram para trás. Quando o perigo se tornou real, era demasiado tarde para fugirem.
Depois das humilhações, multiplicaram-se as cenas de violência contra os judeus e contra os seus bens.
Em 1938, durante dois dias em Novembro, foram presos trinta mil judeus. As sinagogas, os edifícios e todas as lojas pertencentes a judeus foram destruídas. Chamou-se a este período Kristallnacht ou “Noite de Cristal”, por causa dos vidros partidos que, no dia seguinte, havia em todas as ruas da Alemanha. Aconteceu o mesmo por toda a Europa, à medida que o exército nazi ia anexando países.
Mas a discriminação e a violência eram apenas o começo; os guetos e os campos de concentração seguiram-se logo depois.
Os nazis construíram uma série de cidades-prisão chamadas campos de concentração, para onde as pessoas que fossem declaradas “inimigas do Estado” eram enviadas. Mas ser judeu apenas era suficiente para se ser enviado para Buchenwald, Auschwitz ou Treblinka.
Para lhes tornarem a vida ainda mais insuportável, os nazis obrigaram os judeus a saírem das suas casas e aldeias e a concentrarem-se em zonas de grandes cidades rodeadas de muros, arame farpado e soldados. Estas áreas vigiadas eram conhecidas como “guetos”. Aí, em condições de higiene deploráveis, os judeus tentavam manter-se vivos e conservar a sua dignidade.
Aqueles que não morreram de fome ou de doença foram condenados à morte nos campos de concentração, que se transformaram nos palcos da morte de seis milhões de judeus e de milhões de vítimas inocentes dos nazis.
Poucos escaparam.
Não importava se se era rico ou pobre, novo ou velho, crente ou ateu, ignorante ou instruído ─ se se fosse judeu, estava-se condenado à morte.
À medida que os nazis conquistavam a Europa, forças especiais do exército prendiam os judeus e levavam-nos para matas ou valas, onde os matavam a sangue-frio. Mais tarde, não satisfeitos com a rapidez das execuções, introduziram o uso do gás venenoso e aumentaram o tamanho dos campos de concentração, a fim de receberem o cada vez maior número de judeus presos por toda a Europa. Conceberam assim um método inédito na história da humanidade ─ a destruição de um povo inteiro através de um plano de extermínio extensivo e preciso.
Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, mais de dois terços dos judeus europeus estavam mortos, e o mundo, chocado, perguntava-se como tal podia ter acontecido. Foi uma tragédia inconcebível e medonha. Foi um incêndio selvagem de uma intensidade devastadora ─ um Holocausto.
Algumas pessoas acreditam que a passagem do tempo é, em si mesma, uma forma de curar o sofrimento. A longa história do povo judeu comporta muitos episódios dolorosos. Embora o passar do tempo possa amortecer alguma da dor original, os judeus nunca permitirão que a recordação destas tragédias iniciais se apague. Da mesma forma, nunca esquecerão o Holocausto.
Em 1948, nasceu o Estado de Israel. Ao fim de dois mil anos, os judeus recuperaram a sua terra. Muitos dos que regressaram a Israel eram sobreviventes do Holocausto. Embora fossem estes que carregavam pessoalmente as cicatrizes profundas do sofrimento, muitos outros judeus espalhados pelo mundo compartilhavam a sua dor.
Às vezes, é difícil exprimir publicamente os nossos sentimentos mais íntimos. Queremos poupar aqueles que amamos ao sofrimento, à dor e à vergonha. A tragédia do Holocausto foi tão grande que algumas pessoas não quiseram falar sobre ela ou sequer lembrarem-se do que vivenciaram durante aqueles anos trágicos.
Mas outros sentiram a necessidade de manter viva a memória do Holocausto para impedir que algo de semelhante pudesse voltar a acontecer. Nos últimos dez anos, o Holocausto tem vindo a ser estudado nas escolas e nas universidades. Muitos livros e artigos de revista foram escritos, muitos filmes e documentários produzidos, para darem testemunho das experiências de muitas pessoas que viveram o Holocausto.
Em 1953, uma lei especial aprovada no Knesset, o parlamento israelita, criou uma instituição nacional chamada Yad Vashem, consagrada a estudos e pesquisas sobre o Holocausto.
A tarefa principal do Yad Vashem é documentar todos os acontecimentos do Holocausto, em especial a luta pela vida que os judeus empreenderam por toda a Europa. Os arquivos e a biblioteca do Yad Vashem contêm os arquivos da luta infrutífera travada por milhões de judeus, homens, mulheres e crianças. Fora do edifício, existe um caminho bordejado de árvores, para honrar aqueles que, não sendo judeus, arriscaram as suas vidas para salvar os seus vizinhos judeus.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, têm-se realizado diversos eventos e programas para honrar os mortos. Só faltava uma data simbólica para que a importância do Holocausto fosse reconhecida e para que a memória dos milhões de pessoas que morreram fosse honrada.
Em 1959 o parlamento israelita promulgou uma lei que criou o Yom Hashoa, o Dia do Holocausto, que se celebra no dia 27 do mês de Nisan, de acordo com o calendário judaico. Esta data coincide com a revolta heróica ocorrida no Gueto de Varsóvia em 1943, que opôs judeus a nazis. Geralmente, tem lugar em Abril.
A comunidade judaica internacional seguiu o exemplo de Israel e, agora, as comunidades judaicas espalhadas pelo mundo celebram essa data para honrar a memória de seis milhões de judeus mortos.
A forma de a comemorar varia de comunidade para comunidade. Em Israel faz-se uma celebração nacional no enorme pátio do Yad Vashem. Às oito horas da manhã, as sirenes de alarme aéreo tocam por todo o país. Todos interrompem as suas actividades para observarem dois minutos de silêncio em memória dos que morreram.
Noutros países, incluindo os Estados Unidos, o dia é assinalado com acontecimentos especiais e com serviços religiosos. Estes podem ser ao ar livre, se o público for numeroso, ou em pequenas sinagogas. Sobreviventes do Holocausto participam com frequência como convidados de honra.
À medida que os anos passam, aqueles que conseguiram sobreviver à brutalidade nazi vão envelhecendo e morrendo. Em breve, não haverá mais ninguém vivo que tenha experimentado pessoalmente o Holocausto. Por isso se torna cada vez mais importante lembrar não só aqueles anos terríveis e a forma como começaram, mas também como a crueldade, o ódio e a discriminação conduziram à violência, à morte e à destruição.
Todos os anos, no Yom Hashoa, judeus de todo o mundo pararão para se lembrarem… de recordar para não esquecer.


Norman H. Finkelstein
Remember Not To Forget
Philadelphia, The Jewish Publication Society, 2004