27/09/2010

O espantalho aventureiro



Era uma vez um espantalho. De braços abertos, no meio da seara, grande chapéu desabado e camisa ao vento, o espantalho aborrecia-se:
- Estou aqui especado, a guardar o que não é meu e nem me pagam o encargo. Até os pardais já troçam de mim. Vou mas é desempregar-me.
E desempregou-se mesmo, isto é, saltou para o chão, atravessou a seara e foi dar à estrada.
De princípio, custou-lhe a andar. Tinha as pernas trôpegas, claro. Em compensação, podia descansar os braços. Que alívio! Pelo caminho ia pensando: ?Preciso de arranjar trabalho que me dê maquia. Hei-de poupar, porque não sou de grandes gastos e, um dia, com uma bolsa cheia de dinheiro dos meus ganhos, compro uma terra. Uma terra para eu guardar. Uma terra minha."
Ele a perder-se nestes sonhos e uma caravana de saltimbancos a passar.
- Venha connosco - convidaram eles. - Um homem de palha, no nosso espectáculo, é novidade que enche um programa.
Ele foi, que o trabalho não era difícil. Dava uns saltos, fazia umas cabriolas, umas palhaçadas e recebia dinheiro. Com o primeiro ordenado comprou uma bolsa e na bolsa meteu as moedas, que ia ganhando. Nada mau! Mas, um dia, apanhou um susto. Imaginem que o homem-vulcão, que deitava fumo pelos ouvidos e labaredas pela boca, cuspiu, num dos seus ensaios, uma faúlha ainda espevitada, que deitou fogo ao homem de palha. Vá lá que lhe acudiram a tempo, senão a história acabava mesmo aqui.
- Ná! Isto de ser artista de circo tem os seus perigos - disse o chamuscado espantalho, dizendo adeus aos saltimbancos.
No largo da vila, havia um editorial que convocava voluntários para o exército. O espantalho alistou-se.
De arma ao ombro, percorreu caminhos, guerras, países. Foi considerado um herói. Recebeu medalhas e louvores. Pois pudera: as balas atravessavam-no, que o sangue não corria, porque sangue não havia. As lanças trespassavam-no, que dor nunca sentia, porque nervos não havia. Não, nunca caía o espantalho no meio da batalha. Era tal a valentia.
Mas também se desconsolou de ser soldado. Certa vez, no quartel, enquanto dormia, uma mula sem cerimónias meteu o dente ao herói. E se estava com fome.
Assustou-se o soldado com o desplante do animal, que não conhecia os superiores. Pediu a demissão.
E agora, espantalho?
Consultou a bolsa, que sempre trazia à cinta, e contou as moedas, umas grandes, outras pequenas. Dava para comprar uma horta? Dava, desde que fosse pequena - uns palmos de terra com um espantalho ao meio.
Foi o que fez. Colocou-se de braços abertos, a proteger a propriedade, e ali ficou, de grande chapéu desabado, camisa ao vento... Tinha sido espantalho, saltimbanco, mercenário. Voltava a ser espantalho - perdão! - proprietário! Estava feliz? Não sabemos.
- Também agora os pardais troçam de mim - queixava-se ele, quando pouco mais ou menos a história chega ao fim.
Para nós, que aqui o vemos, o fim voltou ao princípio, ao ofício de espantalho. Há muitas histórias assim...


António Torrado

25/09/2010

Célia e a água doce da infância


Há muito, muito tempo, viviam, numa pequena casa no campo, uma mulher chamada Mara, a sua filha Célia, e um cão grande, peludo e extremamente mal-humorado, chamado Brumble. Tal como a maioria dos cães que vivem com famílias, Brumble falava sem cessar. Às vezes, Mara e Célia prestavam atenção; outras vezes, não.
Ao contrário de Brumble, que era um lamuriento nato, Célia estava quase sempre feliz. Daí que ficasse surpreendida quando, às vezes, via lágrimas nos olhos belos de sua mãe.
Mara lembrava-se da guerra, que lhe roubara tanto a casa da sua infância como o marido. Nunca falava à filha desses tempos, nem de como tinha fugido com ela e com o cão para escapar ao conflito. Na cabana isolada que encontrara, há já dez anos, tinha-se sempre sentido segura e confortável. Quando Célia a via chorar, Mara apressava-se a limpar as lágrimas e tocava uma melodia alegre na sua flauta de madeira, até se sentirem ambas felizes de novo.
Só que Célia não era nem uma criança mimada, nem uma filha inconsciente. Amava muito a mãe e, quando um dia esta ficou doente, tratou de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para a ajudar a recuperar. Fez chá de casca de árvore, esfregou os pés frios da mãe e tocou-lhe melodias na flauta de madeira. Em vão. Mara virava-se e revirava-se na cama com febre, e parecia já nem reconhecer a filha. Célia estava a ficar desesperada.
— Que hei-de fazer?
— Eu digo-te o que deves fazer — resmungou Brumble. — Sossega e deixa este cão honesto descansar.
A menina não lhe prestou atenção. Estava habituada ao seu mau génio e aos seus ainda piores modos. Além disso, estava demasiado preocupada com a mãe para se maçar com os resmungos de Brumble.
Foi então que ouviu a mãe. Parecia uma pessoa a falar durante o sono e dizia qualquer coisa como: — Se pudesse voltar a beber a água doce da minha infância, ficaria de novo boa.
Célia sabia que a mãe tinha nascido a muitos quilómetros dali, numa aldeia que a filha nunca conhecera. No entanto, corajosa como era, estava disposta a encontrar esse lugar. Tinha de trazer à mãe a água milagrosa do poço.
Encontrou uma garrafa de vidro com uma rolha de cortiça e atou-a à cinta. Arranjou um pequeno cesto com pão e queijo, porque sabia que a viagem seria longa. Enrolou-se na capa de lã da mãe, por causa do ar fresco da Primavera, e pôs a flauta à cinta, caso viesse a necessitar de música para a alegrar na viagem.
Debruçou-se sobre a mãe e sussurrou-lhe:
— Vou buscar a água doce da tua infância. Tens algo para comer e beber na mesinha de cabeceira. Voltarei em breve.
Brumble abriu um olho.
— O que estás a dizer? Uma criança da tua idade não pode andar por aí sozinha, sem saber por onde ir.
— Não há outra hipótese — retorquiu Célia. — Se eu não for, a minha mãe morre.
Brumble pôs-se de pé, a resmungar:
— Bem, acho que tenho de ir contigo.
Célia ficou contente por ter companhia para a viagem, mesmo tratando-se de alguém tão rabugento como Brumble.
Puseram-se a caminho a meio da manhã. O sol já ia alto, e o cheiro das folhas novas e das flores silvestres enchia o ar de Abril.
— Que dia maravilhoso! – exclamou Célia.
— Espera para ver – aconselhou Brumble.
Tinha razão, porque em breve chegavam à orla de uma floresta. As árvores eram tão cerradas que, mesmo ao meio-dia, o sol mal penetrava entre os ramos entrelaçados. Célia caminhou em frente, não fosse Brumble pensar que estava com medo.
De repente, ouviu um grito tão agudo que parecia cortar as folhas das árvores.
— O que foi aquilo? – perguntou, assustada, já esquecida de que queria parecer corajosa.
O canzarrão afilou as orelhas.
— Ou me engano muito, ou é a criança selvagem da floresta.
“Se for apenas uma criança”, pensou Célia, “não me importa que seja selvagem. De certeza que não há nada a temer.”
Surgiu, então, uma criatura, que veio das árvores mesmo de encontro a ela. Tinha o cabelo todo espetado e lançava gritos estridentes.
Célia engoliu em seco.
— Rapazinho – conseguiu dizer, num tom gentil – não sabes que é mal-educado não cumprimentar as visitas? O Brumble e eu gostávamos de ser teus amigos. Se parares de gritar e nos contares o teu problema, podemos tentar ajudar-te.
Mas o rapaz rosnou-lhe e continuou a coçar a cabeça com as unhas compridas e sujas.
— Vá lá – disse Célia, tentando empregar o mesmo tom da mãe. — Do que precisas é de um bom almoço. Acontece que o trouxe comigo, e que o partilharei contigo se te portares bem.
A criança selvagem ficou atónita. Nunca ninguém lhe tinha falado de forma tão doce. As outras pessoas que encontrava na floresta lançavam-lhe um olhar rápido e saíam dali ainda mais rapidamente. O rapaz sentou-se no chão e apontou o lugar à sua beira com a mão suja.
— Lá se vai o nosso almoço – resmungou Brumble.
E foi-se mesmo. Célia deu quase todo o pão e queijo ao rapaz, que os comeu avidamente e sem maneiras.
— Se voltarem a passar por aqui – disse a criança a Célia – não se esqueçam de parar para me cumprimentarem.
Célia prometeu que o fariam.
— Porque haveríamos de o fazer? – interrogou-se Brumble. — Já não há mais nada para comer.
Quando chegaram ao outro lado da floresta, sentiam um pouco de fome. Mas Célia estava contente. Isto até ver um lago enorme e verde diante de si.
— Ora bolas, esqueci-me da água – resmungou Brumble.
— Escuta – instou Célia, que tinha ouvido um som estranho. Alguém estava a chorar sem cessar, com se tivesse o coração despedaçado.
— Também me esqueci da mulher infeliz do lago – suspirou Brumble. — Devo estar a ficar velho.
Logo que Brumble se calou, Célia viu um barco no lago. Dentro dele, estava uma mulher a chorar tanto que nem se detinha para enxugar as lágrimas.
Célia era uma menina bondosa e condoeu-se da velha. Também era suficientemente esperta para perceber que o barco lhes seria útil.
— Minha senhora, o que a faz sentir tão infeliz? – perguntou Célia.
Os olhos da mulher abriram-se, surpresos. Ninguém lhe tinha perguntado isso antes. Habitualmente, as pessoas ficavam muito embaraçadas e iam-se embora.
— Tenho frio e estou só – lamentou-se. — Não tenho um único amigo no mundo.
— Tenho mesmo aquilo de que necessita. Uma capa quente e confortável e dois companheiros de viagem que atravessarão o lago consigo e lhe contarão histórias – disse Célia, olhando Brumble de soslaio.
Brumble suspirou, desagradado, mas ficou contente por não ter de molhar as patas.
A mulher já não se sentia infeliz quando os deixou do outro lado do lago. Estava embrulhada na capa quente de Mara e sorria. — Obrigada – disse. — Quando regressarem, não se esqueçam de me chamar para voltarmos atravessar o lago juntos.
— Fá-lo-emos com prazer – disse Célia. Brumble não resmungou, ao contrário do que costumava fazer.
Na praia coberta de seixos onde aportaram, depararam-se com uma montanha enorme. O coração de Célia apertou-se perante este obstáculo.
— Com os diabos – resmungou Brumble. — Tinha-me esquecido da montanha.
— Quem se atreve a pisar a minha praia? – gritou uma voz furiosa.
Célia ergueu os olhos e viu o mais alto e mais irado homem de toda a sua vida. Brandia um machado enorme, como se tivesse a intenção de o atirar à cabeça da menina.
— Meu Deus, como está zangado! – exclamou Célia, com a voz a tremer ligeiramente.
— Também me tinha esquecido do louco da montanha – murmurou Brumble entredentes.
— Sabe o que me acalma quando estou zangada? – perguntou Célia, sentindo-se mais corajosa a cada palavra que proferia. — Música. Quer que toque para si?
Sem esperar pela resposta, tirou a flauta da cintura e começou a tocar.
Junto à água, a música ainda soa melhor do que num quarto fechado. O homem pôs-se a escutar. Em breve pousava o machado e sentava-se nos rochedos, sem qualquer vestígio de fúria no rosto.
Quando Célia parou de tocar, o gigante ficou tão triste que Célia lhe deu a flauta para a mão. — É para si. Para que possa tocar quando quiser.
— Podes ficar comigo e ensinar-me a tocar? – pediu o homem.
— Posso ficar um pouco. Mas estou com muita pressa. Tenho de ir à aldeia que fica por detrás desta montanha buscar água do poço para salvar a minha mãe.
— Eu levo-te e podes ir-me ensinando enquanto caminhamos.
Embora Brumble tivesse dificuldade em subir, o homem não fez qualquer menção de o carregar.
— Que vida de cão! – resmungou Brumble.
Ao subir a montanha, Célia tocou uma melodia tão alegre que o homem riu alto. Quando atingiram o cume, a menina mostrou-lhe como se colocavam os dedos e se soprava para extrair sons da flauta. Quando desceram a montanha, Célia agarrou-se aos cabelos do homem para ele poder praticar.
Depois de a colocar no chão com suavidade, o gigante tocou uma pequena melodia para demonstrar quão bom aluno era.
— Chama-me quando regressares, e atravesso a montanha contigo de novo.
Célia prometeu fazê-lo, embora Brumble rosnasse disfarçadamente.
Quando se deu conta de que a aldeia estava perto, Célia esqueceu a fome e o cansaço e correu.
— Lá está o poço, Brumble. O poço com a água doce da infância da minha mãe.
O seu grito ecoou na rua deserta. A erva crescera entre as pedras e, pelos telhados e paredes das casas, via-se que a aldeia estava há muito em ruínas.
— Não faz mal – disse Célia. — Só viemos buscar a água. Deve haver água no fundo do poço.
Debruçou-se sobre a borda, mas não conseguia ver nada.
Brumble pegou num seixo com a boca e deixou-o cair. Imediatamente se ouviu o ruído da água a ser tocada.
— Hurra! Temos água! – exclamou Célia.
— Que frustração – queixou-se o cão. — Temos água mas não temos balde para a tirar.
Sem dizer palavra, a menina subiu para a borda do poço, enrolou o que restava da corda à cinta e pediu ao cão que a baixasse devagar.
— Quando te chamar, segura bem a manivela, de forma a eu poder encher a garrafa. Depois, iças-me novamente.
Brumble não parecia satisfeito com o plano. E se a manivela se soltasse? Mas, embora se sentisse receosa, Célia estava disposta a ir até ao fim. Nada a deteria agora.
Desceu o poço de cabeça para baixo. Não conseguia ver a água, mas via o rosto da mãe e isso deu-lhe coragem. Sentiu, finalmente, a água fresca na sua mão.
— Pára! – ordenou a Brumble, que segurava com firmeza a manivela, enquanto Célia enchia a garrafa. — Já podes içar-me! – pediu a menina.
Brumble assim fez e só respirou quando viu Célia sã e salva fora do poço.
— Não foi difícil, pois não? – perguntou a menina.
— Estou a ficar velho para aventuras – lamentou-se o cão, e lambeu a cara suja da menina com a sua língua vermelha e áspera.
A viagem de regresso a casa foi bem mais rápida do que a ida. O gigante, que já não estava irado, levou Célia aos ombros e tocou-lhe uma linda melodia, enquanto esperavam que o ofegante Brumble os apanhasse. A mulher, que já não se sentia infeliz, levou-os novamente à outra margem do lago e desejou-lhes boa sorte. A criança, que já não era tão selvagem, ia de árvore em árvore a cumprimentá-los, o que fazia Célia rir, os pássaros grasnar e Brumble resmungar.
Quando avistaram a sua querida casa, Célia desatou a correr.
— Chegámos – gritou, tirando a garrafa preciosa da cintura. — Coragem, mãe! Estou de volta e trago-te a água doce da tua infância!
— Cuidado e atenção – murmurou Brumble. — Uma viagem só está completa quando chega ao fim.
O cão tinha razão, porque Célia, com a pressa, tropeçou nas escadas, a garrafa voou-lhe da mão, indo partir-se contra a parede da cabana.
A água preciosa escorreu para o chão.
Célia nem conseguia olhar. Correu para dentro de casa e abraçou-se à mãe, cujo corpo estava hirto como a morte.
— Oh, mãe, como pude ser tão descuidada e estúpida? Não fui capaz de te ajudar.
Célia sentia-se tão selvagem como a criança, tão zangada como o homem, e muito mais infeliz do que a mulher. Chorou como se o seu coração se tivesse partido em mil bocados, e as suas lágrimas cairam sobre o rosto da mãe como se de uma nascente se tratasse.
Foi então que os lábios da mãe se entreabriram e que esta provou um pouco das lágrimas que escorriam da face da filha. Sorriu, lentamente.
— Que água tão doce – murmurou, abrindo os olhos. — É tal e qual a água de que me lembro da minha infância. E foste tu, minha querida Célia, que a trouxeste até mim.
Durante todos os anos das suas ainda longas vidas, Mara e Célia conheceram uma alegria que muitos não chegam a conhecer. Uma alegria que nenhuma delas conhecera até então, e que consiste em dar-se conta de que só quando partilhamos as lágrimas de alguém é que partilhamos também a sua felicidade.
Quanto a Brumble, foi ficando cada vez mais velho, nunca se sentindo tão feliz como quando se podia queixar de alguma coisa.


Katherine Paterson
Celia and the Sweet, Sweet Water
New York, Clarion Books, 1998




18/09/2010

A lei das leis

Nesse tempo reinava no país um velho rei. Era um pai amoroso, justo, um homem recto. Mas era cego. Um dia, mandou erigir à entrada do palácio um grande pilar decorado com figuras de antepassados e pequenos poemas. No topo, quis que colocassem um sino cuja corda penderia sobre a praça pública. Quando tal foi feito, mandou publicar um aviso: «Se alguém de entre nós sofrer alguma injustiça, que venha aqui tocar. O meu juiz virá cá fora e ditará o direito segundo a lei das leis.»
Aconteceu que uma serpente fez o seu ninho na erva, à beira de uma muralha. Num fim de tarde, quando se aquecia na borda do rio com as crias, um soldado cansado fez rolar uma pedra sobre a sua casa de palha e sentou-se para beber. Quando a serpente voltou, já não tinha abrigo. Esperou pela noite, foi até ao lugar onde a corda pendia, enrolou-se à volta dela e sacudiu-a tanto que o juiz, meio surdo, saiu cá para fora, na noite clara. Procurou aqui e ali quem pudesse ter tocado; apenas viu um cão a vaguear na rua deserta. Encolheu os ombros e deu meia-volta. Quando ia a entrar, a serpente endireitou-se de repente diante das suas pernas, ergueu a cabeça chata e disse com voz humana:
— Há pouco, um soldado destruiu o meu ninho. Segundo a lei das leis, isto será justo?
— Tremo com as tuas palavras — respondeu-lhe o juiz.
— Também eu, fica a saber. Será que por isso devemos perder a confiança no direito?
— Claro que não — disse o juiz. O diabo tem a sua casa, Deus e os homens também. Segundo a lei das leis, a tua casa vale tanto como a minha. Amanhã, levarei o teu pedido ao meu rei.
Na manhã seguinte, quando o juiz falou na câmara real, o rei cego colocou, para honrar o céu, umas lentes azuis, meditou um momento e disse:
— Que esse soldado dê à serpente o seu ninho. E que lá não falte o mais pequeno tufo de erva. Exijo expressamente que seja como era antes de ele o ter destruído.
Tal foi feito nesse mesmo dia.
O rei, nessa noite, deitou-se cedo. Ora, enquanto suspirava na sua almofada branca, a serpente introduziu-se no quarto pela janela aberta. Tinha na boca uma pedra brilhante. Um escudeiro apercebeu-se de que ela deslizava pelo solo. Convocou a guarda. Postaram-se à volta da cama.
— Deixem-na – disse a todos o Justo, sonolento. — Esse humilde animal conhece a lei das leis.
A serpente prontamente se ergueu sobre o leito. Subiu pelo edredão, chegou à face do rei, depôs na sua fronte a bela pedra cintilante e partiu apressadamente por entre os pés da gente.
O rei abriu os olhos. Já não era cego. Apagou o candeeiro e adormeceu contente.


Henri Gougaud
La Bible du Hibou


17/09/2010

Um caminho difícil

Catarina hesitou antes de atravessar a rua. O caminho mais curto para casa da avó passava pelo meio do jardim. Mas de certeza que no parque infantil estavam todos os rapazes turcos da zona. E eles ficam sempre a olhar… Andam por ali e, quando alguém passa, põem-se a olhar para as pessoas e gritam entre eles em turco. De certeza que estão a rir-se dela, Catarina.
— Nem deixam os nossos filhos ir para os baloiços. Acham que o parque é todo deles — queixa-se a Dª Maria.
E a Dª Antónia:
— Ai, o que eles gritaram nas minhas costas… nem quero repetir!
E a Gabriela disse, e a Paula disse, e o Jacob disse… Não! Pelo meio do parque é que não vai!
Mas na rua principal está a loja com os faisões e os coelhos pendurados à porta. De uma vez, uma gota de sangue caiu no passeio, no preciso momento em que Catarina passava. E o passeio ali é tão estreito…
E na Rua das Árvores está aquele cão grande que ladra como um maluco. Da última vez, tinha voltado a pôr-se aos saltos e não faltara muito para passar a cerca. Era um pastor alemão. Na mercearia, já tinham dito que os pastores alemães, às vezes, não são muito certos da cabeça. E este tinha um brilho perigoso nos olhos.
Catarina suspirou. Contou os botões do casaco. Turcos, faisões, cão. Turcos, faisões, cão. Turcos. Bom, tinha de ir pelo parque.
Esperou que passassem cinco carros vermelhos. Podia ser que aparecesse alguém que também atravessasse o parque e Catarina seguiria atrás.
Claro que não veio ninguém.
Para casa, Catarina também não podia voltar. A mãe dir-lhe-ia:
— Os Turcos são meninos como tu e os teus amigos; de coelhos e faisões não precisas de ter medo, e cães que ladram não mordem.
E voltaria a contar a história do cão grande que quase parecia que queria comê-la. Um dia, um carro deitara abaixo a cerca do jardim e o cão continuou a correr exactamente como se a grade ainda lá estivesse e não veio para a rua. Só saltava para o ar.
Catarina já sabia tudo isto, o que, mesmo assim, não ajudava nada.
Respirou fundo, atravessou a estrada e transpôs o portão do parque.
O chão estava cheio de castanhas vermelho-acastanhadas brilhantes. Catarina pegou numa e fechou-a com força na mão. Pôs o pé na fenda entre duas patelas de cimento. Se conseguisse andar em cima dela, não lhe aconteceria nada.
De repente, uma bola vermelha passou-lhe por entre os pés. Catarina tropeçou. Alguém se riu, muito alto, e outra, logo a seguir. Começou a correr, pisou um ramo caído, escorregou e caiu ao chão.
Nesse momento, sentiu uma mão no ombro.
Fechou os olhos com quanta força tinha, mas, passado algum tempo, teve mesmo de abrir os olhos.
A menina que estava de pé ao seu lado trazia um bebé à cintura. Ambos tinham cabelo preto.
— Magoaste-te?
A menina ajudava Catarina a pôr-se de pé. Só nesse momento é que Catarina viu o joelho inchado e o sangue a correr pela perna. O joelho começou a arder e a doer.
— Temos de limpar isso — disse a menina. — Senta-te.
Catarina deixou-se conduzir até um banco. Sentou-se, obediente, e esperou.
No parque infantil, estavam quatro rapazinhos a olhar. A menina voltou com um pano molhado. Sentou o bebé no colo de Catarina e começou imediatamente a limpar o joelho. O bebé esperneava e Catarina tinha de o segurar com muita força.
A menina tirava areinhas da ferida. Era muito cuidadosa, mas, mesmo assim, Catarina encolhia-se toda e quase gritou. Em seguida, a menina tirou um frasco do bolso da saia.
— Vai arder um bocadinho — disse, enquanto esguichava um líquido cor-de-laranja no joelho. — Já está! Agora só falta o penso.
— Porque é que tens isso tudo contigo? — perguntou Catarina.
— Tenho de tomar conta dos meus irmãos e está sempre a acontecer-lhes alguma coisa — respondeu, sentando-se ao lado de Catarina.
O bebé começou a queixar-se. A menina levantou-o e cheirou‑lhe as calças.
— Claro, já está sujo outra vez. Tenho de ir para casa porque já não tenho mais fraldas.
Levantou-se, pôs novamente o bebé à cintura, uma perna a baloiçar para a esquerda, outra para a direita. O bebé ria. Catarina mancava ao lado dela. O joelho ardia-lhe de cada vez tentava dobrá‑lo.
Os rapazes estavam debruçados sobre a torneira da água, punham os dedos no cano e esguichavam à sua volta.
A menina gritou-lhes alguma coisa e de seguida murmurou entredentes:
— Rapazes…
Catarina sorriu. A menina interrogou-a com o olhar.
— Tu disseste isso no mesmo tom com que a minha tia costuma dizer: “Homens!”
A menina disse que sim com a cabeça.
— Os irmãos são horríveis, não achas?
— Eu não tenho nenhum — disse Catarina. — Mas gostava de ter um mais velho e um mais novo.
A menina abanou a cabeça. À saída do parque, disse:
— Olha, estou quase sempre aqui no parque. Vens cá amanhã outra vez?
— Talvez.
A menina e o bebé seguiram para a esquerda, Catarina para a direita. De repente lembrou-se de que nem sequer tinha agradecido.
— Obrigada! — gritou, embora soubesse que não podia ser ouvida por causa do barulho da rua. — Amanhã eu volto!


Renate Welsh
Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987


O general infanciado


O General Orolando Resoluto era um homem congélido, capaz de frigorificar o mais pequeno sentimento. Desses que lambem a carta para colar o selo. Seu único amor: a pátria. Sua exclusiva paixão: a guerra. A família ele a vivia com espírito de dever, encargo biológico, contrato social. Por obrigação lhe nasceu o filho, sua primeira e única descendência. O menino veio à luz e o general Resoluto, impassível, espreitou o berço, mais inspector que parente:
- “Hum!”
E mais nada, senão essa interjeição seca. Rectilíneo, o general não despenteou nervo. A mulher Rosanita sorriu: estaria 0 marido apenas invisivelmente comovido? A esposa havia sido formada em credo e cruz, um terço da vida no terço. Mal saída da catequese ela catecasou-se. Rosanita sabia que os homens se comportam, neste mundo, como estrangeiros. A machice é arrogância dos que têm medo, mais excluídos que emigrantes. Só as mulheres são indígenas da vida. Paciente, a esposa ainda negociou com ele um riso:
- “Então, senhor pai?”
Rosanita arredondava os cantos às palavras mas Orolando Resoluto não desenrijeceu. Simplesmente, ajeitou a colcha no berço como se corrigisse a linha de um desenho. Nem um carinho, nem um despenhar de alma. Nada, só aquele gélido olhar de quem passa revista às tropas.
Já em casa, ele recusou dar colo ao estreado filho. A farda era imaculável, inodoável. Haja disciplinas. A mulher muito se sofria com aquele alheamento.
O tempo ia tricotando semanas e o militarão continuava impávido, sem sequer se chegar ao menino. No dia do registo Rosanita impôs obrigamentos de credo:
- “Quero que lhe ponha nome de santo”.
Orolando protestou: havia mandos da tradição, regulamento de família. Depois, o que se impunha era nome guerreiro, não fosse a criança amolecer logo de apelido. E sentenciou heróicas nomeações: Gungunhana, Muzila, Sochangane.
- “Quero nome de santo. Me deixe carinhar esse menino, me favoreça um nome de santo para lhe darmos garantias”.
Cristóvão ficou. Notificado de ternura: Cristovinho. O menino cresceu e foi enchendo a casa de contentações. O general se incomodava e urgia a mulher de pôr cobro às excendentárias alegrias. Cristovinho em tudo inventava brinquedo. O pai se libertava da farda e ele, instantâneo, pegava as solenes medalhas e as pendurava em desrespeitosos lugares.
- “Deixe, Orolando. Ele só está dar riso ao metal”.
Volta e não-volta, o menino laçava os bracinhos no paterno pescoço. Nordicamente, o general rompia o abraço. Mas quanto mais afastava o filho mais ele se chegava. Até que o miúdo cresceu a ponto de aniversários. Começava o serviço da infância, voz e riso solares. Aquela alegria não tinha companhia do pai. A mãe sempre rezando para que o marido se detivesse um simples instante de ternura. Ao menos o santificado nome do miúdo operasse em Orolando um desatendido milagre. Em vão.
Certa tarde, o menino desapareceu. Perdido no jardinzal da frente, fugido da mão da tia. A mãe chamou o marido em aflição, avisando-o da tragédia. O general fez subir nos ombros as divisas. Resgatar o miúdo era missão de honra. Na falta de guerra há que inventar outros belicismos. E saiu, no encalço da procura.
Depois de muito voltear, Orolando encontra o menino junto dos falecidos balouços. Cristovinho persegue um balão vagabundo. O pai, vigoroso, intende encher o balão de imediatos furos. Com raiva, o balão lhe escapa e sobe, matreiro. Rodopiou no ar, o militar salta, as medalhas se soltam e tombam com tilintes e requintes. O menino despercebe: acredita que o soturno pai, finalmente, se decidiu a brincadeiras. E junta-se aos saltos do pai, deflagrando risos. O general em fúria dá voz de comando ao balão. E quando já crê ter o brinquedo domado, misteriosa brisa o faz soltar e ressubir em livres cambalhotações. Até que o general em fúria saca da pistola e dispara. O primeiro tiro desconsegue. No segundo tiro, o balão subita-se, deflagrado. Com o susto, o menino cai e fere o rosto numa pedra. O sangue ingénuo e inocente enche os lenços do pai. O militar, num momento, se aflige e recolhe o menino nos braços. Cristovinho se aconchega no colo dele e assim se deixa até chegar a casa, já adormecido.
No portão, a mãe espera, atarantonta. O pai abre alas e conduz a criança, dormida, ao leito. A mãe segue atrás, as mãos se recolhendo uma na outra como pássaros cegos. Vê o general sentar no leito do menino e debruçar cuidados, quase paternos. Rosanita sonha que esse momento é a terna eternidade, fracção de paraíso. E dá graças aos céus pela visão.
Nessa noite, o general é que levanta para espreitar o sossego do menino. Dia seguinte, ele chega mais cedo do serviço e acorre ao quarto para olhar o filho. E assim toda a semana: Orolando Resoluto escapa do quartel e entra em casa, urgente, sem cumprimentar esposa nem parar no televisor. Vem ver o filho, escutar suas brincriações. Fim da tarde, ele pega a mão do menino e vai passear com ele, compra-lhe doces, mimos.
A mulher contenta-se, crendo em milagre. Mesmo que Orolando, agora, apenas lhe preste desatenções. Não é só ela a alheada. O general vai amolecendo a ponto de esquecer as invioláveis obrigações. A carreira de militar está agora descarreirando. Um dia, distraído, entrou no quartel ainda envergando a máscara com que brincava.
As botas, outrora intocáveis, agora são divertimento. As medalhas servem de imaginários veículos, carregados de pedrinhas e poeiras. Certa manhã, Resoluto estende um bilhete à mulher e lhe pede que faça entrega dessa mensagem no quartel.
- “Está escrito que eu não vou, estou doente.
- “Verdade, mando?
- “Não. Eu quero só ficar com Cristovinho”.
Essa manhã faltou ao serviço. Outras manhãs, idem. Ao pouco e pouco ele se inseparava do menino, se distanciando das militares obrigações. Até que, definitivamente, se demitiu, prescindindo de carreira, acumuladas honras, engomadas memórias.
Agora, Orolando Resoluto só fica em casa. Se transferiu de vez para o quarto do menino. Dormem juntos, pai e filho, abraçados em bonecos. O ex-general adormece fetal, meninado. Tal pai, fatal filho. A mulher entra no quarto, noite alta, e aconchega o sono de seus dois meninos.


Mia Couto,
Contos do nascer da Terra


05/09/2010

A ponte



Max e Pedro eram alunos da terceira classe. Moravam em frente um do outro, na mesma rua de uma pequena cidade. Já tinham sido grandes amigos, mas, por um motivo qualquer, tiveram um dia uma discussão e passaram a odiar-se.
Quando Max saía da porta do pátio, gritava para o outro lado da rua:
— Ó palerma! — E mostrava o punho ao ex-amigo.
Pedro respondia:
— Quantos escaravelhos como tu são precisos para fazer um quilo? — E ameaçava-o também com o punho.
Os colegas da turma tinham já tentado reconciliá-los por várias vezes, mas todos os esforços haviam sido vãos. Eram mesmo dois teimosos! Da última vez, acabaram a atirar bolas de lama um ao outro.
Um dia, tinha chovido muito. Depois, as nuvens afastaram-se e o sol voltou a brilhar, mas a rua ficara inundada. Quem queria atravessar tentava, a medo, medir a profundidade da água com a ponta do pé, e recuava.
Max saiu de casa, parou na frente do pátio e olhou satisfeito à sua volta. Tudo fresco e lavado pela chuva, brilhava agora ao sol. De repente, o seu rosto tornou-se sombrio. Do outro lado da rua, estava Pedro parado à porta de casa. E Max reparou que ele tinha na mão uma grande pedra.
“Ah!”, pensou Max. “Então queres atirar-me com uma pedra! Isso também eu sei fazer!”
Correu novamente em direcção ao pátio, procurou um tijolo e voltou para a rua, pronto para se defender.
Mas Pedro não lhe atirou a pedra. Baixou-se na beira do passeio e depô-la na água com cuidado. Depois, experimentou com o pé para ver se oscilava, e desapareceu.
A pedra parecia uma pequena ilha.
“Ah!”, pensou Max. “Isso também eu sei fazer!” E colocou o seu tijolo na água.
Pedro voltou a aparecer, carregando uma segunda pedra. Pôs o pé com cuidado em cima da primeira e colocou a segunda pedra na água, alinhada com o tijolo do seu inimigo. Max trouxe então três tijolos de uma só vez.
E assim foram construindo uma passagem sobre a água.
Nos dois lados da rua, as pessoas observavam-nos e esperavam. Por fim, ficou apenas a distância de um passo entre o último tijolo e a última pedra. Max e Pedro estavam em frente um do outro. Era a primeira vez, desde há muito tempo, que se olhavam novamente nos olhos.
— Tenho uma tartaruga no meu pátio — diz Max. — Queres vir vê-la?

N. Oettli

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987

Quem semeia ventos, colhe… incêndios



Numa aldeia russa, vivia um camponês chamado Ivan. Estava bem na vida. Era o melhor trabalhador da aldeia e tinha três filhos saudáveis, que também eram bons trabalhadores. O seu velho pai era o único na família que não podia trabalhar, mas cuidavam dele muito bem. Tinham tudo o que precisavam para comer e vestir, e teriam sido felizes se não fosse o vizinho de Ivan, Gavrilo, o coxo. Ivan e Gavrilo detestavam-se.
Tinham sido bons amigos até ao dia em que algo acontecera – algo de tão ridículo e insignificante! Uma galinha que pertencia à filha de Ivan pôs um ovo no pátio de Gavrilo. Todos os dias, a galinha punha um ovo no galinheiro. Quando a filha a ouvia cacarejar, ia buscar o ovo. Mas, daquela vez, os rapazes tinham assustado a galinha e esta tinha saltado a vedação. A filha de Ivan estava ocupada nesse dia e só foi buscar o ovo à noite. Não conseguiu encontrá-lo e os rapazes disseram-lhe onde o procurar. Foi então a casa do vizinho e encontrou a mãe de Gavrilo.
― O que queres, rapariga?
― Avó, a minha galinha esteve hoje no seu pátio. Não pôs lá nenhum ovo?
A velha pensou que a filha de Ivan estava a acusá-la de ter pegado no ovo e respondeu-lhe torto.
― Não lhe pus a vista em cima. Nós temos as nossas galinhas e já há muito tempo que elas andam a pôr. Apanhamos os nossos ovos e não precisamos dos ovos dos outros. Ó rapariga, não precisamos de ir para os pátios dos outros apanhar ovos!
A filha de Ivan não gostou nada do que ouviu. Respondeu desabrida-mente, e a mãe de Gavrilo foi ainda mais desabrida. A mulher de Ivan passou por ali (tinha ido buscar água) e, nesse momento, a mulher de Gavrilo saiu de casa. Começaram todas a falar ao mesmo tempo, a ralhar e a insultar-se. Depois vieram os maridos, que tomaram o partido das respectivas mulheres e começaram à pancada. E Ivan, que era mais forte, feriu Gavrilo, o coxo.
Gavrilo levou o caso ao tribunal da aldeia, declarando que queria que Ivan fosse castigado. Quando o pai de Ivan ouviu isto, falou com firmeza.
― Rapazes, vocês estão a fazer uma asneira. Pensem bem! Tudo começou por causa de um ovo. Um ovo não vale muito. Há que chegue para todos. Foram ditas muitas palavras incorrectas; agora mostrem como se dizem palavras simpáticas. Façam as pazes e acabem com tudo isto. Se persistirem no erro, será cada vez pior.
Mas Ivan e a família não o escutaram. Pensavam que o velho estava a dizer disparates. Em vez de fazerem as pazes, Ivan foi a tribunal e tentou que Gavrilo fosse punido por lhe ter rasgado a camisa enquanto discutiam por causa do ovo.
Depois disso, os vizinhos discutiam todos os dias e sempre por motivos mesquinhos. Foram a tribunal tantas vezes que o juiz já estava cansado de os ver. E assim continuaram durante seis anos.
Por fim, a filha de Ivan acusou publicamente Gavrilo de roubar cavalos, e Gavrilo bateu-lhe de tal forma que a deixou de cama durante uma semana. Desta vez, o caso era mais sério e, quando Ivan levou o caso a tribunal, o juiz deu ordem para que Gavrilo fosse chicoteado. Era uma forma muito dolorosa de punir as pessoas culpadas. Quando Gavrilo ouviu o que iria acontecer-lhe, ficou tão branco e protestou tão veementemente que até o juiz teve medo e pediu a Ivan que lhe perdoasse e desistisse do caso. Mas Ivan não cedeu e foi para casa dizer ao pai que Gavrilo iria finalmente ser castigado.
― Ivan ― disse o velho ― não estás a proceder correctamente. Vês a maldade dele mas esqueces-te da tua. Jesus ensinou-nos algo de diferente. Se te insultam, mantém-te calado. Se te baterem, oferece a outra face. Faz as pazes com ele. Não é tarde demais para evitares que ele seja castigado, e o convidares para jantar, a ele e à família.
Como Ivan não se mexesse, o pai continuou:
― Não te demores, Ivan. A tua raiva é como o fogo. Apaga-a no início porque, se ela começar a alastrar, não poderás controlá-la.
Ivan começava a entender o que o pai queria dizer. Preparava-se para ir fazer as pazes quando as mulheres chegaram e disseram que Gavrilo estava tão zangado que ameaçara pegar fogo à casa. Então, Ivan ficou outra vez furioso, como se ele próprio estivesse a arder, e não desistiu do castigo de Gavrilo.
Nessa noite, Ivan lembrou-se do que Gavrilo dissera a propósito de atear um incêndio. Ficou tão perturbado que saiu para inspeccionar o pátio. Caminhou lentamente ao longo da vedação. Tinha acabado de virar a esquina quando lhe pareceu que algo se mexera na outra ponta, algo que se teria erguido e voltado a baixar. Ivan ficou quieto. Escutou e olhou: estava tudo sossegado; apenas o vento agitava as folhas do salgueiro e a palha. Estava escuro como breu mas os seus olhos habituaram-se à escuridão. Continuou a olhar, mas não viu ninguém.
― Devo ter-me enganado ― disse Ivan ― mas vou ver.
Avançou tão devagar que nem os próprios passos ouvia. Chegou à esquina e parou. Conseguia ver claramente alguém, com um boné na cabeça e agachado de costas para ele, a pegar fogo a um feixe de palha que tinha nas mãos. Ficou imóvel.
“Agora”, pensou, “não vai escapar-me. Vou apanhá-lo com a boca na botija.”
De repente, tudo se iluminou. A chama lambeu a palha no barracão e saltou para o telhado. Já não era um pequeno fogo. Ivan conseguiu ver Gavrilo e correu para ele. Mas Gavrilo fugiu e, apesar de coxo, correu como uma lebre. No entanto, Ivan ainda conseguiu apanhá-lo pela aba do casaco. Só que a aba rasgou-se, Ivan caiu e magoou-se na cabeça. Quando se levantou, Gavrilo tinha fugido. O incêndio era tão forte que parecia dia em vez de noite. Ivan conseguia ouvir os bramidos e a crepitação no seu pátio. Foi então que viu a palha a arder em direcção à casa.
Ivan tentou apagar o incêndio. “Se ao menos conseguisse tirar a palha para fora do barracão e apagar o fogo!”, pensou. A princípio, os seus pés não se mexiam. Depois, tropeçaram um no outro. As pessoas vinham a correr, mas já nada podia ser feito. Os vizinhos retiravam as coisas de suas casas e mandavam sair o gado. Depois da casa de Ivan foi a vez da de Gavrilo se incendiar. Levantou-se um vento que levou o fogo para o outro lado da rua. Metade da aldeia ficou reduzida a cinzas.
Tudo o que se salvou da casa de Ivan foi o velho pai, que fugira para uma parte distante da aldeia. Quando Ivan foi vê-lo, o velho comentou:
― Que te disse eu, Ivan? Quem incendiou a aldeia?
― Foi ele, pai. Apanhei-o. Se ao menos tivesse apanhado o pedaço de palha e o tivesse tirado para fora, nada disto teria acontecido.
― Ivan ― perguntou de novo o pai ― de quem é realmente a culpa?
Ivan fitou-o. Depois, lembrou-se de como tinha magoado Gavrilo em primeiro lugar, e de como não tinha ido fazer as pazes com ele enquanto ainda era tempo.
― A culpa foi minha, pai ― disse. E calou-se.
Em seguida, o velho disse-lhe:
― Ivan.
― Sim, pai.
― O que deves fazer agora?
― Não sei, pai. Como posso continuar? Tudo o que tinha ficou queimado.
― Vais conseguir. Com a ajuda de Deus, vais conseguir. Mas lembra-te, Ivan, não deves dizer a ninguém que foi Gavrilo quem começou o fogo. Se não disseres, Deus perdoar-vos-á a ambos.
Ivan assim fez e ninguém descobriu como o fogo começara.
Depois, Ivan começou a ter pena de Gavrilo. E Gavrilo, por sua vez, ficou surpreendido por Ivan não ter dito nada. A princípio, tinha medo de Ivan, mas depois começou a sentir-se mais à vontade. Os homens deixaram de discutir, e as famílias também. Enquanto reconstruíam as casas, viviam todos juntos, e quando a aldeia foi finalmente reconstruída, Ivan e Gavrilo permaneceram vizinhos. E foram sempre amigos.
Ivan nunca se esqueceu do que o pai lhe dissera sobre apagar um fogo logo que ele começa. Se alguém lhe falava duramente, ele respondia com gentileza. A pessoa ficava envergonhada e não havia discussão. Assim, Ivan foi mais feliz do que nunca, e ninguém na aldeia teve tantos amigos como ele.



L. Tolstoi
Lightning candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001

O piano velho

Sonata by Firelight Art Print

Quando ela vem e se senta, o meu coração começa a bater mais forte.
Os seus dedos, macios de veludo, seguram-me a tampa, encostam-na, com cuidado, à parte de trás. Dois panos do pó que um dia a avó bordou, que me tapam e protegem as teclas, são atirados para cima da escrivaninha, ao meu lado, onde ela costuma sentar-se a estudar e a ler.
É então que sinto as cordas do meu coração quase a estoirar de alegria, pois que é agora que lhe posso dizer tudo o que me vai na alma!!!
Os seus deditos a medo, titubiantes, começam a arrancar os primeiros acordes. E eu a fazer todo o possível para que tudo saia bem e ela não desista e me tape outra vez. Que esforço eu faço!… Mas alguns dos meus dentes brancos já não correspondem totalmente ao acorde que ela pretende. E eu esforço-me…
Ela levanta-se, e eu penso sempre, de cada vez, que se vai embora, que já não quer mais,… mas não! São sobressaltos do vem-que-não-vem, do fica-que-não-fica,… mas a vida é isso mesmo!
Só que desta vez ela não foi. Procurou apenas a partitura de Beethoven.
Que lindo! Toda a minha sensibilidade se motiva e canaliza nesta bonita sonata. Todo eu estou ali, inteiro, a dar o meu melhor; eu e ela numa música só, em uníssono, na produção da música-vida-beleza que Beethoven nos deu.
São os meus melhores momentos…! Em que eu dou conta que sou mais que um simples móvel de quarto…; em que sinto que faço parte da vida presente-futuro dela, pois sou eu que a ajudo a criar, a ser capaz de transmitir a todo o universo o que sente, o que lhe vai na alma e que lhe sai pelas pontas dos dedos.
Quando ela acaba, e me tapa outra vez, já não me importa! Demos a nossa contribuição à vida, por hoje.
O que me entristece e me faz infeliz, isso sim, é o facto de ela deixar o amanhã para depois de amanhã. O de ela, pequenina ainda, não compreender que a vida se vive em cada minuto, que o dia que passa se não recupera mais!
Mas só lho posso dizer através dela e é ela que tem de o compreender sozinha, enquanto eu, fechado, tapado, espero o toque da sua mão.


Gabriela Carvalho
A caixinha de Memórias
Magna Design, 1999
adaptado

03/09/2010

O homem da rua

Ainda o dia andava à procura do céu, vinha eu em vagaroso carro que mais a mim me conduzia. De repente, um homem atravessou a calçada, desavultado vulto avulso. Uma garrafa o empunhava. E ele, todo súbito e poentio, se embateu frentalmente na viatura. Saltou pelos ares, se aplacando lá mais adiante, onde se iniciava o passeio. Saí do susto para inspeccionar sua sobrevivência.
Me debrucei sobre o restante dele, seu rolado enrodilhado. Não havia sangue nem quebradura de osso. O maltrapalhado estava a salvo, salvo erro. Todavia, me meteu pena: suas vestes eram a sujidade. Havia quase nenhuma roupa em seu sarro. Mesmo o corpo era o que menos lhe pesava. Os olhos estavam parados, na grade do rosto. Me pareciam pedir, o quê nem sei.
De inesperado, o vagabundo se ergueu e apressou umas passadas para encalçar o longe. Se entrecruzou com sua sombra, assustado de haver escuro e luz. Em muito zig e pouco zag ele acabou por se devolver ao chão. Voltei a acudir, cheio dessa culpa que não cabe na razão. Apanhei o vulto, desarranjado, sem estrutura. Pareceu tontolinho, sempre agarrado ao arregalado gargalo. Me deitou olhos muito espantados e pediu desculpa por incómodos. Apalpou o lugar onde se deitava, e disse:
- “Um de nós está morrendo”.
Entreolhei-me a mim e ao restante mundo. Ele se precisou:
- “Estou falando da terra, parece ela está moribundando”.
Lhe disse que o levaria dali para um sítio que fosse dele. Ajudei-lhe a entrar no meu carro. Ele recusou com terminância:
- “Não entro em coisa que serve para levar morto”.
Amparei o desandrajoso. Se sustentou em meu ombro e me foi levando pelo passeio sombrio, através dessa desvastidão onde o negro escurece a preto.
- “Agora o senhor me entorne aqui...
- “Aqui?”
Esfregando-se no pescoço como se as mãos fossem de outrem, acrescentou:
- “Aqui, sim. Quero acordar com dormência de lua”.
Dali ele passou a esbanjar conversa. Quem sabe o homem desjejuava palavra? E dizia sem aparência nenhuma:
- “Bem hajam as folhas, minha cama!”
E explicava-se enquanto alisava as folhagens mortas: quando se deitava lhe doía a curva da terra, a costela quebrada do próprio universo. Assim deitadinho, todo simetrado com o planeta, um subterrâneo rio falava com suas veias.
- “Até foi bom me aleijar um bocado. Ri-se? Nem sabe como é bom haver um chão para a gente ter onde cair”.
E nos trocamos nessa conversa com vontade de ser corpo, encosto, adormecimento. Ficámos a ver as luzinhas da cidade, lá em baixo, a lembrar que o homem sofre de incurável medo de ser noite. O país daquele homem seria a noite. Meu território era o dia, com sua luminesciência tanta que serve mais é para deixarmos de ver.
E pensei: o primeiro alimento é a luz. Nos invade logo quando nascemos. Depois, a luminosidade, com suas infinitas cascatas, nos fica a engordar a alma. Em mim, pelo menos, a primeira saudade é da luz. Direi, então: me falta a minha luz natal? Quem sabe a alma deste homem, sempre ninhado no escuro, emagrecera assim a olhos não-vistos? O homem é bicho diurno. O dia é bicho humano?
Me foi descendo, espesso, o sono. Avancei despedida não sem retirar do bolso algumas notas que estendi em direcção ao desastrado:
- “Deixo o senhor com algum dinheiro. Quem sabe lhe virão, mais tarde, as dores do acidente?”
Para meu espanto ele recusou. Sem veemência, sem nenhum ênfase. Era recusa verdadeira.
- “Posso pedir uma qualquer coisa?
- “Peça.
- “Me dê um pouco mais da sua acompanhia. Só isso: acompanhia”.
Ainda hesitei, inesperando aquele pedido. O homem nem me fitava, estivesse envergonhado. E assim, de cabeça baixa, insistiu:
- “É que, sabe, eu não tenho ninguém. Antes ainda tinha quem me dispensasse migalha de conversa. Mas, agora, já nem. E me dá um medo de me sozinhar por esses aís”.
Quase que falava para dentro, eu devia baixar orelha para o entender. Assim, cabismudo, prosseguiu:
- “Sabe o que faço? Vou dizer... mas o senhor me prometa que não zanga...
- “Prometo.
- “O que eu faço, agora, é me deixar atropelar. É. Ser embatido num resvalo de quase nada. Indemnização que peço é só esta: companhia de uma noite”.
Fiquei quieto sem me achar conveniência. Nem gesto nem palavra me defendiam. O atropelado centrou esforço em se erguer, mão sobre o joelho. Já de pé me segurou o cotovelo:
- “Pode ir, à vontade. _nem imagina como senhor me faz bem, me bater e, depois, me falar. Agora já nem sinto dor nem dentro nem fora”.
Anda fiz menção de ficar, perdido entre garganta e coração. Mas o andrajoso levantou o braço, em serena sentença:
- “Vá, meu amigo, vá na sua vida”.
Regressei ao carro. Arranquei-me dali, devagar. Olhei no espelho para retrover o vagabundo. Me lembrei então que nem o nome dele eu anotara. Lhe chamo agora: o homem da rua. Seu nome ficará assim, inominável, simplesmente: homem da rua. Lembrando este tempo em que deixou de haver a rua do homem.

Mia Couto,
Contos do nascer da Terra

02/09/2010

De como o velho Jossias foi salvo das águas

I - LEMBRANÇA DO TEMPO DE ANTIGAMENTE

A terra estava a conversar com Agosto e o velho Jossias, parado, escutava. Os meses estão todos no ventre uns dos outros, pensava ele. E adivinhava a chegada dos dias, suas roupas e cores. Sabia da chegada da chuva, pressentia as suas gotas timbilando (Timbila: xilofone de madeira) a areia.
- A água vai andar ter o chão. Vai lamber as feridas da terra, parece um cão vadio - dizia o velho.
E voltava ao silêncio, os olhos no alto a medir as nuvens, por precaução.
- Parece só metade da chuva. Há-de caber bem na terra.
Enquanto profetizava, amoleciam-lhe os olhos de promessas, uma procis-são de verde a tomar-lhe conta dos sonhos.
- O milho vai-me tratar por senhor.
E era já gente grande, sorrindo do gozo antecipado da fartura. Assaltou-o a recordação da grande fome de há vinte anos. Foi-se rendendo ao sono, agora que o pensamento se deitara na sombra daquela lembrana.
Recordava-se bem: as cerimónias para pedir chuva sucediam-se em casa do régulo. As rezas eram palavras sem mais além: nem uma gota se convencera a descer. Durante mais três anos os velhos insistiram, conversando com os mortos que mandam na vontade da chuva.
Naquela manhã, logo cedo mataram o boi. As mulheres prepararam a aguardente do milho, o ngovo.
No cemitério os velhos pediam aos defuntos a licença da chuva. Depois das rezas, dariam de beber aos mortos deitando aguardente sobre as campas.
- Sou eu que vou levar as panelas do ngovo - ofereceu-se Jossias.
Deram-lhe a vaidade daquela entrega. Com respeito, ele partiu pela areia quente dos trilhos. No caminho, parou com pena do cansaço dos braços. Pesavam as panelas. O calor e a sede sopravam-lhe maus conselhos, barulhando convites.
Bebeu, fechando os olhos voz da aguardente. Repetiu mais três vezes. Certeiro, o álcool comeou a cacimbar a razão. As panelas sorriam-lhe, mornas e gordas. Parecem a Armanda quando dança a provocação que ela sabe, murmurava.
- Vocês? Vocês estão-me sacudir o sangue!
Falava devagarmente, enrolando as palavras sem que a cabeça entrasse naquele pensamento. A voz de Armanda avisava-o do castigo, endireitando-lhe o juízo que faltava. E ele, outra vez para as panelas:
- Meninas, vocês estão desgraar minha vida. Provocar-me da maneira como assim? É melhor marrar mais outra vez as capulanas. Vou acabar o serviço que fui mandado.
Quis-se levantar mas era um peso. Bebeu mas era só metade: o outro tanto entornava-se pelo peito. Quando reparou, a aguardente tinha quase desapare-cido. Restava um quase nada lá no fundo dos potes. Entrou em pânico: como explicar aos velhos? Como contar à aldeia que o ngovo se desviara do seu destino? Tinha que encontrar maneira de emendar a boca, fechar a desgraça que ela destapara.
Passou por um poço abandonado e meteu-se por dentro do escuro. Lá em baixo, havia uma réstia de água estagnada, à espera da sua esperteza. Acrescen-tada daquela água mal-cheirosa a bebida do milho voltaria a encher os potes de barro. Os mortos não notariam a diferença, o paladar deles está já esquecido dos saborosos pecados.
Moda os mineiros, pensou enquanto descia pelas paredes do velho poço. Estava suspenso pelas maos, os pés a procurarem o fundo, quando, de repente, as paredes desabaram. Caíram pareciam o céu inteiro a desfazer-se em areia e pó, o peso do mundo a pisar-lhe no peito. Mãe, vou ficar aqui em baixo de embaixo, ninguém que me vai encontrar, chorava Jossias.
E ali ficou imóvel, soterrado, dormindo no subúrbio da morte, expulso da luz e do ar. Horas de tempo, pensou no nunca mais. A lembrança de Armanda veio socorrê-lo. Agarrou-se à frescura da recordação, aquele rosto era a sua última crença.
E os outros quando viessem procurá-lo? Haviam de o adivinhar subter-râneo, toupeirando a réstia de vida que lhe faltava? Aguentariam descascar a terra até lhe encontrar?
Mas mesmo a esperança dele já não tinha vontade. Ser salvo, para quê? Beber areia, afundar-se num poço, despedir-se do mundo, tudo isso, não era nada comparado com o que vinha a seguir. Todos lhe negariam desculpas. Mesmo Armanda.
Quando saísse ele havia de escolher o longe, viver na distância, envelhecer sem nome nem história.


II - O AZUL TODO DAS CHEIAS

É o quê? Deus já desistiu dos homens? Não se importa da desgraça da terra?
A chuva está a chover até os poços começaram cuspir. Mesmo os sapos e as cobras já não têm casa. E o velho pergunta:
- Por que não descansas sofrimento? Depois de depois voltas mais outra vez...
Mas o destino da morte é ser sempre muita. E chove mais, vão-se molhan-do as tardes de Novembro, o pilão e a esteira a pingarem juntos no pátio.
O velho está sentado na sombra dos gemidos, só os seus suspiros sonham. O resto é resignação que conspira. Pode-se assim tanto morrer?
Mas ele aprendera a espalhar na sua alma o remédio do há-de vir. E consolava-se:
- A farinha há-de-me visitar, eu sei.
Lentamente, as chuvas iam pousando em todo o lado. Os rios agarravam-se com fora ao céu e já nenhum xicuembo (Xicuembo: feitiço) sabia desamarrar aquela água. Talvez que o sol, do quente que lhe sobrava, levasse com ele todo aquele azul. Mas não, o sol escorregava pelo zinco, sem beber quase nada. Passava com a cerimónia de um estranho.
- A boca que o sol tem já não chega - lamentava o velho.


II - O SALVAMENTO

A água crescia, as coisas e os bichos era só nadarem. Quando tudo em volta era só fumo da água apareceu um barco a motor que trazia dois pretos e um branco. Foi este que falou. As coisas que disse foi no respeito que nunca ouvira. Que palavras eram essas, afinal? Sempre foram asneiras a subirem-lhe no nome, a língua dos portugueses a disparar-lhe na família. Agora, essa língua não tinha maneira de patrão?
- Deve ser maneira de me tevar longe da machamba (Machamba: terreno de cultivo), afastar-me das minhas coisas.
Ou parece não. Os homens queriam que ele subisse para o barco, vinham salvá-lo.
O velho coçou a cabeça, arrastando a mão de trás para a frente.
- Ir onde, se depois da água é só água? Não estão ver que Deus nos quer peixando?
Os pretos falaram atrás, mesma coisa, as pessoas que não viessem no barco haviam de morrer, era com certeza. O velho num sorriso incrédulo:
- Isto é salvar-me? Salvar de quê?
E o velho lembrava-se do desastre nas minas do John, o fogo a espalhar desgraça nas galerias, a devorar vidas e corpos, sim, aquilo era morrer. Quando veio a brigada de salvamento ele sentou-se como uma criança perdida, a chorar. Mas os homens da brigada não pararam para o socorrer, prosseguiram à procura de outras vidas mais valiosas. Um outro mineiro puxou-o pelos braços e gritou-lhe:
- Queres ser lenha, homem?
Lenha? A madeira lenha antes mesmo de arder. Ser lenha, compreendeu, é morrer assim só, sem ninguém para nos chorar. Só o seu número seria riscado na lista dos contratados. Mas o fumo entrou-lhe pela tristeza e os pulmões ordenaram que procurasse outro lugar. Um homem salva-se se é vontade da sua vida. Os outros são só o alimento dessa vontade.
E assim ficou de estar vivo até hoje.
Salvaram Jossias por duas vezes. Salvaram-no da morte, não o salvaram da vida. Para os outros, para os que o tinham ajudado, foram prémios, fotos no jornal. Ninguém falou que ele, Jossias Damião Jossene, continuava igual como antes, encostado à miséria.
- Salvar um alguém deve ser serviço completo - concluíra. - Não é levantar a pessoa e depois abandonar sem querer saber o depois. Não chega ficar vivo. Palavra da minha honra. Viver é mais.
E assim se decidira Jossias sobre o assunto da morte, não-morte.
Agora, neste caso, mudar para onde? A seguir é só água, o lugar onde saiu esse barco também é água. Mesmo isso já não é barco, é uma ilha com motor. Se é para morrer então prefiro esta morte que veio nadar até à minha casa. Esta terra aqui em baixo já tem as minhas mãos, a minha vida está enterrada neste chão, só falta agora o meu corpo, só.
A equipa de salvamento impacientava-se com a conversa do velho. O gajo o que é que quer, perguntava o branco. Os outros não traduziam, riam-se apenas. O velho maluco, vamos carregá-lo à força. Não temos tempo, há outras pessoas para recolher, o velho já perdeu o juízo.
- Deixem-me ficar, não posso morrer longe da minha vida.
Puxaram-no pelas axilas, sentaram-no no banco traseiro do barco e cobriram-no com uma manta.
- Não tens família?
Era o branco. Família? Talvez vocês, agora, são a minha família, aguen-taram esta maçada de salvar-me. Apeteceu-lhe responder mas estava a tremer de mais.
- Perguntem-lhe na vossa língua, se a família não está por aqui, nas redondezas.
Perguntaram-lhe. Demorou a responder, queria usar bom português. Agarrou-se com fora à velha manta e pôs os olhos naquele mar em volta como se inquirisse pelas coisas que ele cobria.
- Dentro de água não está frio. Porquê não me deixam lá?
Os outros riram-se. Colocaram-lhe mais uma manta sobre os ombros e passaram-lhe uma chávena de chá bem quente. Pelos dedos magros, segurando trémulos a chávena de alumínio, subiu-lhe um estranho calor que não sabia traduzir. E veio-lhe a vontade de ficar para sempre quase naquele barco. Desejou que a viagem não tivesse fim como se o salvassem do tempo e não das águas, como se o tivessem liberto não da morte mas da sua terrível e solitária espera.
Com olhos de menino, fixou o escuro engolindo a terra, a tarde anoite-cendo tudo.
A mentira da noite é matar o cansaço dos homens, pensou enquanto fechava os olhos.


Mia Couto, In Vozes Anoitecidas

Peixe para Eulália

A seca durava há anos. Sem pingo, sem lágrima, sem gota. Estranhava-se a tanta agrura daquela estiagem. Só podiam ser as irrazoáveis razões. Tudo isso desacontecia em Nkulumadzi.
Pediram parecer a Sinhorito. Era um tresandarilho, incapaz de solver nenhum problema. Que a simples existência era, para ele, uma insuperável dificuldade. Só podia ser por brincadeira que lhe pediam explicação para a não comparência da chuva. Mas foi a ele que se dirigiram para saber da razão daquele destempero do tempo. Sinhorito nunca tinha sido consultado nem para secundar opinião de outro. Quanto mais para dar parecer. Ficou insdrúxulo, a debicar luzes dentro da cabeça. Nem emitiu boca, nem autorizou mosca.
- Calem para ouvirmos bem o que ele vai falar!
A risada esperava, no arco tenso da multidão. Necessitava-se de um escape para o destino. Um bode respiratório. Sinhorito era conhecido por não ter sabedoria de nada. Única especialidade que dele se dizia: seus olhos seriam portáteis, de tirar e aplicar.
O próprio proclamava: que ele, sempre que lhe dava a gana, arrancava os globos oculares e os escondia nas mãos. Sempre que se avizinhava momento penoso ou coisa feia, Sinhorito retirava os olhos. Uma coruja negra entrava na treva da noite, janelas por onde saía o mundo e vazava o corpo. Nunca ninguém assistiu. Dizia-se, talvezmente. Mas, enfim. Ninguém é só atrasado: outras habilidades se esconderão, em outra dimensão do ser. Desconfie-se.
- Assim sem as vistas, quem sabe, evito as feiuras dessa vida.
Todavia, ninguém acreditava em tais prodígios. Apenas Eulália, a mulher dos Correios, se declarava crente. E ela lhe pedia, enquanto no assento da praça:
- Vá, tire agora.
E ele, de pálpebras fechadas, exibia o cerrado dos punhos. Que estavam ali, seus dois olhos, vivos como peixes fora de água. A mulher sorria e mandava que fossem repostos. Que ela merecia era ser vista, ainda que gasta e engordada. E o moço grunhia que era o modo de sua risada. E recarregava os olhos no lugar do rosto.
Pois era a este Sinhorito que consultavam agora sobre o anti-dilúvio. E rodeavam-no, preparados para troçar. Não teriam outra glória, nem vitória. A chacota do palerma lhes servia. O moço enchia o rosto, olhos rondando no vácuo, à procura de um esboço para uma ideia. Depois, ousou falar:
- Se calhar...
- Se calhar?
- Ou quem sabe, o céu está de pernas para o ar?
Os primeiros risos. O disparate já começava a desenhar-se, segundo as expectativas. A aldeia, quanto mais pequena, mais carece de um louco.
Como se por via desse louco se salvassem, os restantes, da loucura. Mas eis que, no momento, a palma da mão ordenava contenção:
- Esperem. Esperem que o gajo ainda vai dizer mais. Acaba lá, Doutor Sinhorito.
- É que, quem sabe...
- Quem sabe o quê?
- Quem sabe a chuva está caindo para o lado de lã do céu...
Deflagraram as gargalhadas. E repetiram, uns e outros, o absurdo do desatinado. No fim, dispersaram. Ficou só Eulália, a dos Correios, toda sentada e imóvel junto do apalermado. Então, ela lhe segurou a mão e lhe pediu que não ficasse triste. E assim, como confissão primeira, disse:
- Eu acredito em si. Já me choveu uma água dessas, de outro céu...
E beijou na testa o moço. Depois, ela se enroscou junto aos pés dele. Sinhorito, delicado, fez questão. Queria corrigir a sua postura, tirá-la do chão. Mas Eulália desfez seus intentos.
- Deixe-me assim, na sua sombra. Nunca tive quem me protegesse.
Sinhorito quedou-se imóvel. Tão compenetrado em fazer sombra que adormeceu, singelo e desprovido. E ela se retirou, subtil como brisa.
Muitas sombras passaram, muito sonho desandou. Só a seca não passava. E já nem havia atmosfera, apenas calores. Já a sede ombreava com a fome. E nem verde nem carne, tudo se consumira, do sol ao solo. E os seres ganharam fraqueza: os bichos vitamínimos, as plantas franzininhas. Até Eulália aconteceu de adoecer. Magra de se contar mais ossos que os que realmente detinha. E já nem forças tinha para sofrer. Carecia de urgente substância.
Quando soube do estado de Eulália, o moço se encheu de gravidade e mandou convocar a aldeia de Nkulumazi. À praça cheia, ele anunciou:
- Senhores, eu vou ser pescador! Digo, quem sabe...
E adiantou: não houvesse mais aflição de peixe e não-peixe. As panelas iriam, muito próximo, rever esse bicho escamoso, já preparado em postas, mesmo antes de sair das águas.
- Das águas? Quais elas?
Mais risos. Pescasse ele em seu próprio suor. Pois não havia nem rio nem lagoa que restasse. Sinhorito apontou os céus, acima da cabeça.
- Vou lá, vou subir às águas de lá.
Entrou no barco e ajeitou-o em posição vertical, proa virada ao firmamento. Face ao espanto geral, Sinhorito começou a remar. Os remos cruzavam o ar, vincados no vazio. As bocas abertas, em multidão de exclamações, se inexplicavam: o barco subia em invisível afluente de nuvem. Os remos, mais e mais, semelhavam asas. E o barco transparecia em ave. Até que as nuvens engoliram aquela inteira visão. Então, alguém gritou:
- Venham, ver. Vejam, Sinhorito que sobe!
Mas já ele se extinguia, gradualmente nulo. De pois, se apagou, ponto no infinito.
- Onde ele está?
Foi, nunca mais desceu. Ainda esperaram que Sinhorito tombasse, desamparado, mais sua embarcação. Como nada sucedesse, um por um, os aldeões regressaram a suas casas. Ficou Eulália, só e sozinha. E ali na praça ela montou espera de um acontecimento. A mulher olhava o céu, fosse sol, fosse estrelas. Mas Sinhorito não descia. Nem ele nem a chuva que se propôs buscar. E ainda menos um qualquer peixe.
Vieram buscá-la. Vieram familiares, veio o chefe dos Correios. Puxaram-na, força contra a vontade. Eulália contrariou os intentos. Apontava, desapontada, o vasto céu.
- Há-de vir, há-de voltar...
Que ela jurara não o abandonar lá, onde há tanto que remar. Mas o cunhado maior interpôs proibição: nem sonhasse. Sinhorito era louco. A moça esquecesse que o fulano existira, fizera ou sonhara. Eulália parecia conformada. Mas, por dentro, ela arrumara segredo: construiria um barco, ao modo que Sinhorito fizera. Foi juntando pau e tábua, às escondidas.
- Um dia, quem sabe, um dia... - repetia enquanto acarretava materiais.
Foi tudo descoberto, num entretanto. Pelas fúrias tudo foi ardido. Queimavam-se as madeiras como se se eliminasse um foco de impurificação.
Eulália, entretanto, regressara à serenidade. Parecia ter cancelado seu delírio. Ou ganhara juízo mais calmo? Só os olhos grandes vasculhavam as nuvens enquanto passeava pelos campos. Um dia, porém, ela entrou, em alvoroço, pela cozinha. Anunciou:
- Caíram duas chuvinhas do céu.
Riram-se. Como chovem só duas unidades, gotas de contar por dedos de camaleão? A mulher insistiu, gritou, empurrou. Já todos na varanda, apontou entre os capins os dois olhos de Sinhorito. Haviam caído do céu como dois frutos de carne. E estavam esbugalhados, espantados com coisa vista lá de onde tombaram.
A mulher, escapando dos braços que a continham, correu a apanhar o achado. Mas quando ainda se debruçava, o céu se abriu em relampejos. E choveu, chuva gorda, farta, despenteada trança de água no colo do universo. E peixes, aos cardumes, resvalaram dos céus.
É esta história que, agora, Eulália conta quando, na aldeia, os outros lhe pedem para falar do dia que choveu peixe. E riem-se do pasmo ao espasmo. Com a fartura de quem sabe da magreza de suas vidas. Vale não haver escassez de loucos. Uns seguindo-se aos outros, em rosário. Como contas de missanga, alinhadas no fio da descrença.

Mia Couto, O Fio das Missangas