29/08/2010

O rapaz e o preconceito

A cabine telefónica estava temporariamente fora de serviço. Zangado, o rapaz deu um pontapé à porta e gostou de ouvir o barulho que provocou. Chovia a cântaros e o anoraque estava encharcado.
Voltou a montar na bicicleta e foi à procura da cabine mais próxima. Estava alguém lá dentro. Assim que chegou mais perto, viu que era um imigrante. Deu-lhe mais dois minutos e depois bateu à porta.
Só que o imigrante não fez menção de parar o seu telefonema. Abriu um pouco a porta e fez sinal ao rapaz para entrar.
O rapaz encostou a bicicleta à parede amarela, ao lado, e entrou. Não estava com medo nenhum do imigrante. Eles, os imigrantes, é que podiam ter medo dele. Afinal, era um ginasta de primeira classe e também sabia boxe. Além do mais, tinha um canivete. Não era grande nem aguçado, mas quando brilhava, metia medo.
O rapaz não conseguia perceber em que língua o homem falava. Talvez turco, talvez servo-croata. O homem falava muito depressa. O rapaz estava admirado que alguém conseguisse falar assim tão rápido, mas provavelmente só soava rápido aos ouvidos dele.
O homem afastou o cabelo da testa do rapaz e estendeu-lhe um lenço que tirou do bolso interior. O rapaz pegou mesmo no lenço e secou a cara e as mãos. O estrangeiro exalava um cheiro agradável.
Por acaso, ele fazia outra ideia dos emigrantes.

Elisabeth Alexander

Hans-Joachim Gelberg
Die Erde ist mein Haus
Weinheim, Belz Verlag, 1988


25/08/2010

Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha


Numa aldeia, existe um largo. Nesse largo há quatro casas. As mães que vivem no largo acham que é bom que os filhos brinquem ao ar livre.
— Vão brincar lá para fora — dizem. É por isso que Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha brincam muitas vezes juntos.
Lá perto existe um parque com um lago para onde as crianças costumam ir. E não muito longe do lago, há uma árvore. Vermelhinho quer sempre ocupar o ramo mais alto para ver todo o lago. — Estou a ver uma mãe pata com os seus filhotes — exclama. Ou ainda: — Que pássaro magnífico! O bico parece uma colher!
Amarelinho, Pretinha e Branquinha gostariam de ver os patinhos bebés e o pássaro de bico em forma de colher, mas não têm autorização. São obrigados a ficar no seu ramo. Como se a árvore e o lago pertencessem só a Vermelhinho.
Naquela árvore, Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha construíram uma cabana. Pintada de vermelho, está claro. É que Vermelhinho não quis ouvir falar de outra cor. De forma nenhuma!
De vez em quando, é preciso fazer limpeza à cabana. — Tu, tu limpas o chão! — grita Vermelhinho. E Branquinha lá se põe a esfregar. Amarelinho, esse, recebe ordens para lavar muito bem a porta com sabão. Enquanto Amarelinho, Branquinha e Pretinha andam numa roda-viva, Vermelhinho não faz nada.
É sempre a mesma coisa! Mas Amarelinho, Branquinha e Pretinha nunca se atrevem a resmungar.
Quando Pretinha joga a bola, Vermelhinho também quer jogar.
Quando Branquinha se senta na bola, Vermelhinho também quer lá sentar-se.
Quando Amarelinho quer brincar com o carrinho, Vermelhinho diz-lhe: — Dói-me a cabeça. Não faças barulho!
Não passa de uma mentira, mas ninguém se atreve a fazer frente a Vermelhinho.
Um dia, Vermelhinho grita: — A árvore é minha e todos os brinquedos também.
Pretinha vira-se para Amarelinho que se volta para Branquinha. — Não é justo — murmura escandalizada. — Não tens o direito de fazer isso!
— Sim, tenho, sua palerma de tranças! — grita Vermelhinho.
Pretinha não é idiota e sente-se muito orgulhosa das suas tranças. Sente uma raiva terrível subir por ela acima. — E tu és um tirano! — grita. — Estou farta da tua árvore, da tua cabana e dos teus brinquedos!
E vai-se embora.
“O que Pretinha teve a coragem de fazer, eu também tenho!”, pensou Branquinha.
— És um chato! — grita ela para Vermelhinho.
Depois, é a vez de Amarelinho se revoltar: — Palerma!
E os dois apoderam-se do barco vermelho e correm para junto de Pretinha, soltando gritos de alegria.
Vermelhinho fica só. — Não preciso de vocês! — ouvem-no resmungar.
Branquinha, Amarelinho e Pretinha depressa pintam de novo o barco. Amarelinho pinta o leme de amarelo, a cor dos chupas de limão e da flor do dente-de-leão. Pretinha pinta o casco de preto. — Negro como uma linda noite estrelada — acrescenta, orgulhosa. Branquinha pinta a cabine de branco. — É como a neve— exclama. O barco está magnífico.
Pretinha, Amarelinho e Branquinha estão doidos de alegria.
— Quem é o capitão? — pergunta Amarelinho. — Eu! — grita Pretinha que salta para dentro do barco e se agarra ao leme. Branquinha morde os lábios. — Eu também quero ser capitã — murmura com um bocadinho de inveja. — Tu não és a única — acrescenta Amarelinho.
Se Vermelhinho lá estivesse, as coisas seriam mais simples. — E se fôssemos à vez capitães? — propõe Pretinha. — Boa ideia — aprovam os outros dois.
Com Pretinha ao leme, o barco nem sequer avança um palmo. É com um certo alívio que entrega a direcção a Branquinha. Esta bem se agarrou ao leme, mas nada mudou. O barco só deslizou um bocadinho. Chega a vez de Amarelinho. De tanto baloiçar ficou enjoado e já não tem vontade de ser capitão!
Vermelhinho continua a brincar aos chefes. Como está sozinho, é obrigado a dar ordens a si mesmo:
— Limpa o chão! — diz muito alto. E limpa o chão até não poder mais.
— Não te esqueças de limpar os cantos! — grita.
Ao esfregar, tropeça na esfregona.
— Vê onde pões os pés, seu palerma! — Vermelhinho já não pode mais. Acaba por rebentar: — Palerma! Nem jeito tens para chefe!
De tão furioso que está, até dá bofetadas a si mesmo! Depois, desata a chorar e corre para a árvore. Vê Pretinha, Branquinha e Amarelinho lá longe, no barco.
Vermelhinho compreende finalmente o que custa ser chefe. Os chefes aborrecem-
-no. Pretinha, Branquinha e Amarelinho tiveram razão em ir embora. Vermelhinho já não tem amigos. Chora em silêncio. — Vou construir uma vela — pensa.
— Fiz uma vela para vocês — grita Vermelhinho.
Pretinha vira-se para Amarelinho que se volta para Branquinha. — Bem precisamos dela! — suspira Branquinha. Os três ajudam Vermelhinho a subir para dentro do barco. Vermelhinho mantém-se calmo, mas em breve o desejo de mandar volta a fazer-lhe comichão. — Posso ser o capitão? — pergunta. — Podes sê-lo, até regressarmos à nossa árvore — diz Amarelinho. Vermelhinho pega no leme e grita: — Icem a vela e limpem a ponte!
Algum tempo depois, Pretinha, Amarelinho e Branquinha largam escovas e vassouras. — O que se passa? — pergunta Vermelhinho muito admirado.
— Estamos quase a chegar — lembram-lhe os três amigos. Então, Vermelhinho abandona o leme…
A partir daquele dia, cada um dirige o barco à vez. Se vissem a velocidade a que ele vai!
Até se esquecem de voltar para casa!


Brigitte Minne et Carll Cneut
RougeJauneNoireBlanche
Paris, Ed. Pastel, l’école des loisirs, 2002

O menino que escrevia versos

De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(Versos do menino que fazia versos)


- Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
- Há antecedentes na família?
- Desculpe, doutor?
O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava-a bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
- Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor. Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
- São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?
Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
- O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
- Dói-te alguma coisa?
- Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Esta a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
- E o que fazes quando te assaltam essas dores?
- O que melhor sei fazer, excelência.
- E o que é?
- É sonhar.
Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu--se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
- Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
- Não continuas a escrever?
- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida - disse, apontando um novo caderninho - quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
- Não temos dinheiro, fungou a mãe entre soluços.
- Não importa, respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica que o menino seria sujeito a devido tratamento.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração.


Mia Couto,O Fio das Missangas

23/08/2010

A verdadeira e maravilhosa história do dragão Samuel


Para lá das montanhas onde o dia acaba, por trás da noite e do escuro, num sítio escuro e muito perigoso, fica o terrível país dos dragões.
Foi aí que nasceu o pequeno Samuel, que logo revelou ser um dragão muito especial, embora quem o visse pela primeira vez o achasse igualzinho a todos os outros dragões.
Na aparência geral, Samuel era um bebé lindo e sem nenhum defeito. Muito verde, tinha umas lindas escamas a cobrirem-lhe o corpo, uns olhos enormes, vermelhos e flamejantes, e sete cabeças enormes como é normal entre os dragões.
Quando começou a crescer é que as coisas se tornaram muito complicadas para o nosso pobre Samuel.
Como nós sabemos, desde pequeninos que os dragões aprendem a meter medo às pessoas e aos outros animais. E para isso não lhes basta ser verdes e horrendos. Todos os dias têm de comer enormes quantidades de carvão para, depois, deitarem pela boca grandes labaredas que queimam tudo em redor e mantêm à distância os homens e todos os outros animais.
Todos os dragões eram assim. Todos menos o Samuel. O nosso pequeno dragãozinho era igual aos outros dragões em tudo menos numa coisa. Não era capaz de comer carvão. Nem de o cheirar. Mal lhe chegava à boca tinha vómitos e tonturas. Samuel, o pequeno dragãozinho só gostava de comer nuvens.
A princípio ninguém deu grande importância ao assunto. Mas, quando chegou à idade de aprender a deitar labaredas pela boca, foi com grande espanto que os pais e todos os outros dragões se aperceberam de que o Samuel, em vez de fogo, deitava rios e rios de água pela boca.
O pobre do Samuel tornou-se alvo da risota de todos os outros dragõezinhos da sua idade. Todos se riam dele e o empurravam e diziam que ele nunca havia de ser um dragão como deve ser.
Samuel, o pequeno dragãozinho, vivia muito infeliz. Queria ser igual aos outros e deitar fogo e queimar tudo em redor como faziam os seus camaradas de escola. Mas não era capaz. Só sabia deitar água pela boca. Um fiozinho fino e delicado de água que em vez de assustar as árvores e os arbustos só lhes dava alegria e felicidade.
Definitivamente, Samuel não era um dragão como todos os outros.
Um dia, o Conselho dos Velhos Dragões resolveu mandar chamá-lo. Samuel apresentou-se cheio de medo perante aquele friso solene de velhos dragões onde pontuavam os mais sábios, os mais valentes e os mais fortes de todos os dragões.
O mais velho olhou para ele e com a sua voz de trovão ribombante perguntou-lhe severamente: — É verdade que tu, em vez de fogo, deitas água pela boca?
— É sim... — respondeu Samuel, que não era capaz de mentir mas sentia as pernas a tremer e o chão a tremer e o céu parecia mesmo que ia cair-lhe em cima da cabeça.
Os velhos dragões olharam uns para os outros, desataram a falar baixinho e depressa, e tomaram uma terrível decisão: resolveram expulsá-lo para sempre do país dos dragões.
Triste e muito solitário, o pobre dragãozinho Samuel teve de abandonar a sua terra e foi pelo mundo fora sem ter casa para onde voltar, nem cama onde dormir nem sopa quente que o esperasse à noite.
Correndo mundo, passaram muitos anos. Samuel vagueava por montes e florestas sem meter medo a ninguém, comendo uma nuvem aqui, outra acolá, deitando água pela boca e tornando-se no amigo preferido das gazelas, dos patos, dos peixes e de todos os animais que vivem ao pé da água.
Entretanto, na terra de onde tinha vindo Samuel, os dragões continuavam a comer carvão e a deitar labaredas pela boca. E tanto carvão comeram, e tanto fogo espalharam à sua volta que, a pouco e pouco, acabaram por queimar tudo em seu redor. As flores murcharam, árvores morreram, os rios secaram e o país dos dragões tornou-se num deserto.
Sem flores, nem árvores, nem rios, os dragões perceberam que iam acabar por morrer.
O seu fim aproximava-se a passos largos e o desespero era já muito grande quando um dos dragões mais velhos e mais sábios se lembrou do Samuel, o dragão que deitava água pela boca e que por isso mesmo tinha sido expulso para sempre daquela terra. Só ele é que podia salvar os dragões.
Partiram vários emissários que correram montes e montanhas, vales e florestas até que encontraram o dragão Samuel.
Não foram precisos muitos pedidos para fazer o dragão Samuel voltar. É verdade que sentiu uma dor no peito quando encontrou de novo aqueles que o tinham expulsado da sua terra. Mas, como não era capaz de guardar raiva no coração, dispôs-se a ajudar os seus irmãos.
O dragão Samuel desatou a comer nuvens e a deitar água pela boca. E, num ápice, inundou de água o país dos dragões. Os lagos voltaram a encher-se, os rios voltaram a correr caudalosos, as árvores voltaram a crescer grandes e frondosas, as flores voltaram a sorrir ao orvalho da manhã.
Os dragões não tinham ficado muito diferentes. Continuavam a deitar fogo pela boca. Se não o fizessem não eram dragões. Mas aprenderam a não queimar mais árvores do que aquelas que eram necessárias e, assim, não deixar a água chegar ao fim.
Encontrado o equilíbrio, os dragões viveram de novo felizes e, no meio de um lago redondo, ergueram uma estátua de homenagem ao dragão Samuel. Da boca da estátua sai um fio de água que está sempre a correr, e aos domingos todos os dragões vão atirar bolinhas de pão aos peixes vermelhos que nadam em redor muito satisfeitos.


José Fanha
A noite em que a noite não chegou
Porto, Campo das Letras, 2001

17/08/2010

A princesa desencantada

Quando alguma vez, em sonho ou viagem, voltar àquela terra, não poderei esquecer a história que certa tarde lá ouvi. Contou-ma um ancião, de olhar profundo e barba ruiva, à hora em que me deu para subir ao ponto mais alto da cidade e ver de lá as grandes torres espelhadas na água do rio que ali corre – rio de lágrimas que uma princesa, um dia, então chorou.
Em tempos, este reino fora terra de encanto.
Deixou de o ser a partir do momento em que o rei mandou prender a filha, na mais fortificada masmorra da cidade, por ela achar infame a servidão em que viviam os súbditos do reino.
— Esta é a história de Tristália — resmoneou o velho — e, como todas as histórias, não é uma história perfeita: o fim parece o princípio e quem uma vez a ouvir logo pedirá que ninguém a volte a repetir.
Fitando a mão trémula que apontava na direcção do rio, vi o desconhecido entrever o lugar onde se erguia a fortaleza em que a filha do rei vivera encerrada. Então ele contou:
Desencantada, como a princesa, com a maldade que, às ordens do rei, cumpria lei, Tristália deixou de ser terra de amor.
Dia e noite, a princesa não parava de chorar. Recomendavam-na às cortes, os nobres, convidava-a o clero a arrepender-se, mesmo temendo que sobre o povo desabassem novas iras do rei.
O mais arrasador dos desencantos, porém, devia-se ao modo com que o rei Severo, seu pai, tratava a rainha Edwiges, sua mãe.
Escandalizavam-se os chanceleres, o episcopado, a nação. De banquete em banquete, o rei Severo é que não.
Por desígnio divino iluminada, resolveu a princesa pôr fim à humilhação.
Qual segredo de estado, determinou sem demora escapar-se da prisão, correr mundo, revoltar-se como só o faz quem tem razão.
Como mais vale fuga que espera, assim foi. Em semanas, conquistou as boas-graças do guarda-mor Epaminondas, logo obteve a sela dum fogoso cavalo alazão.
Do tesoureiro Sigesmundo, em poucos dias, elevada quantia em peças de oiro.
Do camareiro Malaquias, em horas, uma poderosa espada de dois gumes.
Planeada a evasão, antes fugir que ficar mal.
Não ia ainda longe o cavaleiro embuçado, de armadura e espada em riste, e já um mensageiro, ao serviço do rei, passava aviso por terras de província e lugarejo.
Entraram as tropas em estado de alerta. Povoaram-se de espiões os postos de fronteira.
Um capacete de sombra abateu-se sobre o rosto dos soldados entrincheirados nas esquinas.
À saída da cidade, um mendigo, que acorrera ao som de tão ligeiro trote, interrompeu:
— Onde vos leva esta pressa de viver, senhor do cavalo alazão?
Deixou-lhe o cavaleiro idade a menos, que outra coisa não tinha ali na ocasião!
Fugia de si mesmo, não do mundo, o cavaleiro, atrás de si deixando um rasto de miséria e escravidão.
De uma casa em ruínas saiu, de filho ao colo, uma mulher a quem a guerra encontrara vazio o coração:
— Quem feliz fará, um dia, Senhor meu, todo o oiro que levais?
Deixou-lhe o cavaleiro o sol e a lua, que mágoas há na vida que não esquecem mais.
Entretanto, podia alguém adivinhar quem, assim disfarçado, segredava às ervas do caminho quantas vezes subidas honras, por muito que se diga, desonras são?
À porta de um albergue, uma criança, fascinada pelo anel de luz que, na corrida, cavalo e cavaleiro lanço a lanço envolvia, fê-los estacar:
— Se na tua espada, Rosa Peregrina, a vontade do povo assim confia, por que não voltas de pronto ao Palácio onde o terror da noite, em boa hora se fez dia?
Deu meia-volta o cavaleiro que de si tanto fugia. Aclamado nas ruas de Tristália, juntou-se o foragido aos Pares do Reino, que já nas cortes buscavam herdeiro entre os bastardos que, do rei Severo, então havia.
Largado o manto, aos pés, ninguém ousou dizer que aquele misterioso cavaleiro a coroa não merecia.
— Não há outro encanto — comentou o velho, emocionado — senão o que põe fim à reinação que os reis tiranos, quase sempre, espalham por servidão gratuita ou por mania.


Vergílio Alberto Vieira
O Livro dos Enganos
Lisboa, Editorial Caminho, 2002



15/08/2010

O pato e a coruja




Era uma vez uma bétula que se erguia no meio de um prado.
Mesmo à beirinha do prado cintilava um charco onde um pato nadava em círculo, mergulhando o bico de vez em quando.
O pato subiu para terra, sacudiu-se e olhou para o cimo da árvore.
Após ter olhado algum tempo, gritou:
— Eh, tu, aí em cima!
— Uhm — resmungou uma voz lá em cima, na bétula.
— És uma coruja a sério? — pergunta o pato.
— Uhm.
— Ora chega cá abaixo — gritou o pato.
— Uhm — resmungou a coruja a bocejar. E esvoaçou para o chão.
— Oh! — disse o pato. — Nunca pensei que uma coruja tivesse asas tão bonitas.
— Uhm — tornou a coruja, contente por o pato achar bonitas as suas asas.
— Porque é que estás sempre a dizer Uhm? Não sabes dizer mais nada?
— Claro que sei — disse a coruja — mas não me apetece. Estava a dormir.
— Oh, meu Deus! — exclamou o pato. — Como é que tu consegues dormir em pleno dia? Ninguém consegue!
— Não percebo o que queres dizer — respondeu a coruja. — Durmo sempre de dia.
— Isso é esquisito — disse o pato. — De noite é que se dorme.
— Dormir de noite, dizes tu? De forma alguma! A noite é demasiado excitante para ser gasta a dormir. É quando está escuro, é quando se arregalam bem os olhos, e se espera que passe alguma coisa que se possa comer.
— Não estás boa da cabeça! — disse o pato. — A comida não passa. Tem de se nadar, mergulhar e procurar até encontrar.
— Que forma mais disparatada de comer! — murmurou a coruja.
O pato zangou-se.
— Não é nada disparatada, é o normal! — disse, furioso.
— Não estás bom da cabeça! — respondeu a coruja. — Normal é pairar às escuras no bosque sem fazer barulho. E, então, quando algum animalzinho se mexer nas folhas secas, caímos-lhe em cima rapidamente e comemo-lo.
— Que horror! — gritou o pato. — Só de pensar nisso fico logo enjoado.
— E tu, o que é que comes? — berrou a coruja, que também estava zangada. — Comes alpista para patos. Que nojo! Até fico enjoada! E como é que se consegue comer durante o dia!
O pato até assobiou de raiva.
— Fica a saber que é de dia que se come! Todos fazem isso!
— Ora, ninguém faz isso! — gritou a coruja. — Quando fica escuro é que se tem fome a sério.
— Isso é uma estupidez! — grasnou o pato — Estupidez, estupidez, estupidez!!
E ali estavam os dois no meio do prado a discutir.
A coruja abriu e fechou o bico um par de vezes como se estivesse a pensar, e depois sacudiu-se.
— Ó pato — perguntou a coruja — afinal porque é estamos a discutir? Ainda te lembras porque é que começámos?
— Claro — responde o pato. — Porque tu fazes tudo mal. É por isso…
— Não é verdade — disse a coruja. — Eu não faço nada errado. Faço é de maneira diferente, e, assim, também dá. Faço como fazem todas as corujas.
— E eu faço como fazem todos os patos. Tens razão. Não é preciso discutir por causa disso.
“Ah”, pensava a coruja para si, “por sinal, até gosto do pato. Tem uma maneira esquisita de ver as coisas, mas será que, apesar disso, não podemos ser amigos?…”
— Mas que pés esquisitos tu tens! — observou a coruja.
— Não são esquisitos — responde o pato — são práticos. São para nadar.
— Para nadar, talvez sejam bons — opinou a coruja. — Quando se gosta de nadar. E, vendo melhor, até os acho bonitos.
— A sério? — sussurrou o pato.
— Anda comigo — disse a coruja de seguida— já me doem as pernas de estar aqui em baixo. Vamos pôr-nos confortáveis, em cima da bétula.
— O quê? — perguntou o pato.
— Vamos voar lá para cima — responde a coruja. — Em cima das árvores está-se melhor.
O pato nunca na vida tinha pousado numa árvore, mas se isso dava alegria à coruja, quis experimentar.
— Como queiras — respondeu.
E voaram os dois lá para cima; instalaram-se num ramo de onde podiam ver tudo em redor.
— Aqui tem-se melhores vistas — disse a coruja satisfeita.
— Bem… — murmurou o pato.
Olhava para o prado e para o charco onde o sol reluzia. Não gostou mesmo nada de pousar tão alto em cima de uma árvore. Esteve o tempo todo com medo de cair.
— Isto aqui não é bom — disse ele para a coruja. — Vamos antes nadar para o lago.
— Deves ter ficado maluco, de certeza! — gritou a coruja. — Para a água? Mas tu queres matar-me?
— Não te exaltes! — disse o pato. — Se queres, sentamo-nos então outra vez na erva. Vocês, corujas, são demasiado estúpidas para nadarem.
— E vocês, patos, são tão estúpidos que nem sabem pousar numa árvore!
— Oh, meu Deus — disse o pato. — Lá estamos nós a discutir outra vez.
— É porque tu começas sempre — retorquiu a coruja.
— Isso não é verdade — berrou o pato, furioso. — Não fui eu, tu é que começaste!
— Não, foste tu! — gritou a coruja.
— Ei, porque é que estás a gritar assim? — disse o pato.
— Eu não estou a gritar, tu é que estás! — disse a coruja.
— Não, tu é que estás!
— Oh, meu Deus! — disse a coruja. — Basta! Porque é que só sabemos discutir um com o outro?
— Porque tu fazes tudo errado.
— Eu não! — disse a coruja. — Tu é que fazes!
— Não, tu é que fazes! — disse o pato.
— Mas isso não tem importância. — disse a coruja. — Não é preciso discutir por uma coisa dessas.
O pato pensou melhor e disse:
— Também acho, não é preciso discutir por isso. Mas, olha, quem é que começa sempre?
— Eu acho que és tu.
— Não deves estar boa da cabeça — disse o pato. — Tu é que começas sempre!
— Uhm — disse a coruja — às vezes começo eu e tu imitas-me em seguida.
— Eu? — gritou o pato e bateu as asas com força.
— Não faças tanto vento — disse a coruja. — Queres que eu caia daqui a baixo?
— Pronto, está bem — diz o pato. — Mas se queres que sejamos
amigos, tens de acabar com a discussão.
— Pára tu! — disse a coruja.
Então o pato começou a rir e disse:
— Basta! Além disso, estou a ficar com fome. E a fome deixa-me impaciente. Vou mas é procurar alguma coisa para comer.
— E eu estou cansada. E sempre que fico cansada, fico zangada. Agora vou mas é dormir.
O pato voou para baixo. Aterrou no lago, voltou-se, olhou para cima e gritou:
— Então adeus, coruja. Dorme bem.
— Uhm — respondeu a coruja, sonolenta. — Dorme tu também, pato.
Já tinha os olhos quase a fecharem-se.
— Ah, é verdade — disse de seguida — tu não dormes. Só dormes quando fizer escuro. Bom dia para ti, pato. E até à próxima!


Hanna Johansen
Die Ente und die Eule
Zürich, Nagel & Kimche, 1988

14/08/2010

Embargo

Acordou com a sensação aguda de um sonho degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse a voltar a dormir já, acabaria por ter o dia estragado. Faltou-lhe porém o ânimo para levantar-se, para tapar a janela: preferiu cobrir a cara com um lençol e virar-se para a mulher que dormia, refugiar-se no calor dela e no cheiro d seus cabelos libertos. Esteve ainda uns minutos à espera, inquieto, a temer a espertina matinal. Mas depois acudiu-lhe a idéia do casulo morno q era a cama e a presença labiríntica do corpo a que se encostava, e, quase a deslizar num círculo lento de imagens sensuais, tornou a cair no sono. O olho cinzento da vidraça foi-se azulando aos poucos, fitando fixo as duas cabeças pousadas na cama, como restos aquecidos de uma mudança para outra casa ou para outro mundo. Quando o despertador tocou, passadas duas horas, o quarto estava claro.
Disse à mulher que não se levantasse, que aproveitasse um pouco mais da manhã, e escorregou para o ar frio, para a humidade indefinível das paredes, dos puxadores das portas, das toalhas da casa de banho. Fumou o primeiro cigarro enquanto se barbeava e o segundo com o café, que entretanto aquecera. Tossiu como todas as manhãs. Depois vestiu-se às apalpadelas, sem acender a luz do quarto. Na queria acordar a mulher. Um cheiro fresco de água-de-colônia avivou a penumbra, e isso fez que a mulher suspirasse de prazer quando o marido debruçou-se na cama para lhe beijar os olhos fechados. E ele sussurrou que não viria almoçar a casa.
Fechou a porta e desceu rapidamente a escada. O prédio parecia mais silencioso que de costume. Talvez do nevoeiro, pensou. Reparara que o nevoeiro era assim como uma campânula que abafava os sons e os transformava, dissolvendo-os, fazendo deles o que fazia com as imagens. Estaria nevoeiro. No último lanço da escada já poderia ver a rua e saber se acertara. Afinal havia uma luz ainda cinzenta, mas dura e rebrilhante, de quartzo. Na berma do passeio, um grande rato morto. E enquanto, parado à porta, acendia o terceiro cigarro, passou um garoto embaçado, de gordo, que cuspiu em cima do animal, como lhe tinham ensinado e sempre via fazer.
O automóvel estava cinco prédios abaixo. Grande sorte ter podido arrumá-lo ali. Ganhara a superstição de que o perigo de lhe roubarem seria tanto maior quanto mais longe o tivesse deixado à noite. Sem nunca o ter dito em voz alta, estava convencido de que não voltaria a ver o carro se o deixasse em qualquer extremo da cidade. Ali, tão perto, tinha confiança. O automóvel apareceu-lhe coberto de gotículas, os vidros tapados de humidade. Se não fosse o frio tanto, poderia dizer-se que transpirava como um corpo vivo. Olhou os pneus segundo o deu hábito, verificou de passagem que a antena não fora partida e abriu a porta. O interior do carro estava gelado. Com os vidros embaciados, era uma caverna translúcida afundada sob um dilúvio de água. Pensou que teria sido melhor deixar o carro em sítio onde pudesse faze-lo descair para pegar mais facilmente. Ligou a ignição, e no mesmo instante o motor roncou alto, com um arfar profundo e impaciente. Sorriu, satisfeito da surpresa. O dia começava bem.

Rua acima, o automóvel arrancou, raspando o asfalto como um animal de cascos, triturando o lixo espalhado. O conta-quilómetros deu um salto repentino para 90, velocidade de suicídio na rua estreita e ladeada de carros parados. Que seria isto? Retirou o pé de acelerador, inquieto. Por pouco diria que lhe teriam trocado o motor por outro muito mais potente. Pisou à cautela o acelerador dominou o carro. Nada de importância. Às vezes não se controla bem o balanço do pé. Basta que o tacão do sapato não assente no lugar habitual para que se altere o movimento e a pressão. É simples.
Distraído com o incidente, ainda não olhara o marcador da gasolina. Ter-lhe-iam roubado durante a noite, como já não era a primeira vez? Não. O ponteiro indicava precisamente meio depósito. Parou num sinal vermelho, sentindo o carro vibrante e tenso nas suas mãos. Curioso. Nunca dera por essa espécie de frémito animal que percorria em ondas a chapas da carroçaria e lhe fazia estremecer o ventre. Ao sinal verde, o automóvel pareceu serpentear, alongar-se como um fluido , para ultrapassar os que lhe estavam à frente. Curioso. Mas, na verdade, sempre se considerara muito melhor condutor do que o comum. Questão de boa disposição, esta agilidade dos reflexos hoje, talvez excepcional. Meio depósito. Se encontrasse um posto de abastecimento a funcionar, aproveitaria. Pelo seguro, com todas as voltas que tinha que dar antes de ir para o escritório, melhor de mais que de menos. Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, filas de dezenas e dezenas de carros. Meio depósito. Outros andam a essa hora com muito menos, mas se for possível atestar. O carro fez uma curva balançada, e, no mesmo movimento, lançou-se numa subida íngreme sem esforço. Ali perto havia uma bomba pouco conhecida, talvez tivesse sorte. Como um perdigueiro que acode ao cheiro, o carro insinuou-se por entre o trânsito, voltou duas esquinas e ocupar espaço na fila que esperava. Boa lembrança.
Olho o relógio. Deviam estar à frente uns vinte carros. Nada de exagerado. Mas pensou que seria melhor ir ao escritório e deixar as voltas para a tarde, já cheio o depósito, sem preocupações. Baixou o vidro para chamar um vendedor de jornais que passava. O tempo arrefecera muito. Mas ali, dentro do automóvel, de jornal aberto sobre o volante, fumando enquanto esperava, havia um calor agradável, como o dos lençóis. Fez mover os músculos das costas, com uma torção de gato voluptuoso, ao lembrar-se da mulher ainda enroscada na cama àquela hora, e recostou-se melhor no assento. O jornal não prometia nada de bom. O embargo mantinha-se. Um Natal escuro e frio, dizia um dos títulos. Mas ele ainda dispunha de meio depósito e ao tardaria a té-lo cheio. O automóvel da frente avançou um pouco. Bem.
Hora e meia mais tarde estava a atestar , e três minutos depois arrancava. Um pouco preocupado porque o empregado lhe dissera, sem qualquer expressão particular na voz, de tão repetida a informação, que não haveria ali gasolina antes de quinze dias. No banco, ao lado, o jornal anunciava restrições rigorosas. Enfim, do mal o menos, o depósito estava cheio. Que faria? Ir directamente ao escritório, ou passar primeiro por casa de cliente, a ver se apanharia a encomenda? Escolheu o cliente. Era preferível justificar o atraso com a visita, a ter de dizer que passara hora e meia na fila da gasolina quando lhe restava meio depósito. O carro estava óptimo. Nunca se sentira tão bem a conduzi-lo. Ligou o rádio e apanhou um noticiário. Notícias cada vez piores. Estes árabes. Este estúpido embargo.
De repente, o carro deu uma guinada e descaiu para a rua à direita, até parar numa fila de automóveis mais pequena do que a primeira. O que fora aquilo? Tinha o depósito cheio, sim, praticamente cheio, porque diabo de lembrança. Manejou a alavanca das velocidades para meter a marcha atrás, mas caixa não lhe obedeceu. Tentou forçar, mas as engrenagens pareciam bloqueadas. Que disparate. Agora avaria. O automóvel da frente avançou. Receosamente, a contar com o pior, engatou a primeira. Tudo perfeito. Suspirou de alívio. Mas como estaria a marcha atrás quando tornasse a precisar dela?
Cerca de meia hora depois metia meio litro de gasolina no depósito, sentindo-se ridículo sob o olhar desdenhoso do empregado da bomba. Deu uma gorjeta absurdamente alta e arrancou num grande alarido de pneus e acelerações. Que diabo de ideia. Agora ao cliente, ou será uma manhã perdida. O carro estava melhor do que nunca. Respondia aos seus movimentos como se fosse um prolongamento mecânico do seu próprio corpo. Mas o caso da marcha atrás dava que pensar. E eis que teve que pensar mesmo. Uma grande camioneta avariada tapava todo o leito da rua. Não podia contorná-la, não tivera tempo, estava colado a ela. Outra vez a medo, manejou a alavanca, e a marcha atrás engrenou com um ruído suave de sucção. Não se lembrava de a caixa de velocidades ter reagido dessa maneira antes. Rodou o volante para esquerda, acelerou, e de um só arranco o automóvel subiu o passeio, rente aa camioneta, e saiu do outro lado, solto, com uma agilidade de animal. O diabo do carro tinha sete fôlegos. Talvez que por causa de toda essa confusão do embargo, tudo em pânico, os serviços desorganizados tiveram feito meter nas bombas gasolina de muito maior potência. Teria a sua graça.

Olhou o relógio. Valeria ir ao cliente? Por sorte apanharia o estabelecimento ainda aberto. Se o trânsito ajudasse, sim, se o trânsito ajudasse, teria tempo. Mas o trânsito não ajudou. Tempo do Natal, mesmo faltando a gasolina, toda a gente vem para a rua, a empatar quem precisa de trabalhar. E ao ver uma transversal descongestionada, desistiu de ir ao cliente. Melhor seria explicar qualquer coisa no escritório o e deixar para tarde. Com tantas hesitações desviara-se muito do centro. Gasolina queimada sem proveito. Enfim, o depósito estava cheio. Num largo ao fundo da rua por onde descia viu outra fila de automóveis, à espera de vez. Sorriu de gozo e acelerou, decidido a passar roncando contra os entanguidos automobilistas que esperavam. Mas o carro, a vinte metros, obliquou para esquerda, por si mesmo, e foi parar, suavemente, como se suspirasse, no fim da fila. Que cisa fora aquela, se não decidira meter mais gasolina? Que coisa era, se tinha o depósito cheio? Ficou a olhar os diversos mostradores, a apalpar o volante custando-lhe a reconhecer o carro, e nessa sucessão de gestos puxou o retrovisor e olhou-se no espelho. Viu que estava perplexo e considerou que tinha razão. Outra vez pelo retrovisor distinguiu um automóvel que descia a rua, com todo o ar de vir colocar-se na fila. Preocupado com ideia de ficar ali imobilizado, quando tinha o depósito cheio, manejou rapidamente a alavanca para a marcha atrás. O carro resistiu e alavanca fugiu-lhe das mãos. No segundo imediato achou-se apertado entre seus dois vizinhos. Diabo. Que teria o carro? Precisava de leva-lo à oficina. Uma marcha atrás que funcionava ora sim ora não, é um perigo.
Tinha passado mais de vinte minutos quando fez avançar o carro até à bomba. Viu chegar-se o empregado e a voz apertou-se-lhe ao pedir que atesta-se o depósito. No mesmo instante, fez uma tentativa para fugir à vergonha, meteu uma rápida primeira e arrancou. Em vão. O carro não se mexeu. O homem da bomba olhou desconfiado, abriu o depósito, e, passados poucos segundo, veio pedir o dinheiro de um litro, que guardou resmungando. No instante logo, a primeira entrava sem qualquer dificuldade e o carro avançava, elástico, respirando pausadamente. Alguma coisa não estaria bem no automóvel, nas mudanças, no motor, em qualquer sítio, diabo levasse. Ou estaria ele a perder a suas qualidades de condutor? Ou estaria doente? Dormira ainda assim bem, não tinha mais preocupações da vida que em todos os outros dias dela. O melhor seria desistir por agora de cliente, não pensar neles durante o resto do dia e ficar no escritório. Sentia-se inquieto. Em redor de si, as estruturas do caro vibravam rapidamente, não à superfície, mas no interior dos aços, e o motor trabalhava com aquele rumor inaudível de pulmões enchendo e esvaziando, enchendo e esvaziando. Ao princípio, sem saber por quê, deu por que estava a traçar mentalmente um itinerário que o afastasse das outras bombas de gasolina, e quando percebeu o que fazia assustou-se, temeu-se de não estar bom da cabeça. Foi dando voltas, alongando e cortando caminho, até que chegou em frente ao escritório. Pôde arrumar o carro suspirou de alívio. Desligou o motor, tirou a chave e abriu a porta. Não foi capaz de sair.

Julgou que a aba da gabardina se prendera, que a perna ficara entalada na coluna do volante, e fez outro movimento. Ainda procurou o cinto de segurança, a ver se o colocara sem dar por isso. Não. O cinto estava pendurado ao lado, tripa negra e mole. Disparate, pensou. Devo estar doente. Podia mexer livremente os braços e as pernas, flectir ligeiramente o tronco consoante as manobras, olhar para trás, debruçar-se um pouco para a direita, para o cacifo das luvas, mas as costas aderiam ao encosto do banco. Não rigidamente, mas como um membro adere ao corpo. Acendeu um cigarro, e de repente preocupou-se com o que diria ao patrão se assomasse a uma janela e o visse ali sentado, dentro do carro, a fumar, sem nenhuma pressa de sair. Um toque violento de claxon fé-lo fechar a porta, que abrira para a rua. Quando o outro carro passou, deixou descair lentamente a porta outra vez, atirou o cigarro fora e, segurando-se as mãos ambas ao volante, fez um movimento brusco, violento. Inútil. Nem sequer sentiu dores. O encosto do banco segurou-o docemente e manteve-o preso. Que era isto que estava a acontecer? Puxou para baixo retrovisor e olhou-se. Nenhuma diferença no rosto. Apenas uma aflição imprecisa que mal se dominava. Ao voltar a cara para a direita, para o passeio, viu uma rapariguinha a espreitá-lo, ao mesmo tempo intrigada e divertida. Logo a seguir surgiu uma mulher com um casaco de abafo nas mãos, que a rapariga vestiu, sem deixar de olhar. E as duas afastaram-se, enquanto a mulher compunha a gola e os cabelos da menina.

Voltou a olhar no espelho e compreendeu o que devia fazer. Mas não ali. Havia pessoas a olhar, gente que o conhecia.Manobrou para desencostar, rapidamente, deixando a mão à porta para fechá-la, e desceu a rua o mais depressa que podia. Tinha um fito, um objectivo muito definido que já o tranqüilizava e tanto que se deixou ir com um sorriso que aos poucos lhe abrandara a aflição.

Só reparou na bomba de gasolina quando lhe ia a passar pela frente. Tinha um letreiro que dizia “esgotado”, e o carro seguiu, sem o mínimo desvio, sem diminuir a velocidade. Não quis pensar no carro. Sorriu mais. Estava a sair da cidade, eram já os subúrbios, estava perto o sito que procurava. Meteu por uma rua em construção, virou à esquerda e à direita, até uma azinhaga deserta, entre valados. Começava a chover quando parou o automóvel.

A sua ideia era simples. Consistia em sair de dentro da gabardina, torcendo os braços e o corpo, deslizando para fora dela, tal como faz a cobra quando abandona a pele. No meio de gente não se atreveria, mas, ali, sozinho, com um deserto em redor, só longe a cidade que se escondia por trás da chuva, nada mais fácil. Enganara-se, porém. A gabardina aderia ao encosto do banco, do mesmo modo que ao casaco, à camisola de lã, à camisa, à camisola anterior, à pele, aos músculos, aos ossos. Foi isso que pensou não pensando quando daí a dez minutos se retorcia dentro do carro, a chorar. Desesperado. Estava preso no carro. Por mais que se torcesse para fora, para a abertura da porta, por onde a chuva entrava emperrada por rajadas súbitas e frias, por mais que fincasse os pés na saliência alta da caixa de velocidades, não conseguia arrancar-se do assento. Com as duas mãos segurou-se ao tejadilho e tentou içar-se. Era como se quisesse levantar o mundo. Diante dos seus olhos, os limpa-vidros, que sem querer pusera em movimento no meio da agitação, oscilavam com um ruído seco, de metrônomo. De longe veio o apito da fábrica. E logo a seguir, na curva do caminho, apareceu um homem pedalando numa bicicleta, coberto com uma grande folha de plástico preto, por onde a chuva escorria como sobre a pele de uma foca. O homem que pedalava olhou curiosamente para dentro do carro e seguiu, talvez decepcionado ou intrigado, por ver um homem sozinho, e não o casal que de longe lhe parecera.
O que estava a passar-se era absurdo. Nunca ninguém ficara preso dessa maneira no seu próprio carro, pelo seu próprio carro. Tinha de haver um processo qualquer de sair dali. À força não podia ser. Talvez numa garagem? Não. Como iria explicar? Chamar a polícia? E depois? Juntar-se ia gente, tudo a olhar, enquanto a autoridade evidentemente o puxaria por um braço e pediria ajuda aos presentes, e seria inútil, porque o encosto do banco docemente o prenderia a si. E viriam os jornalista, os fotógrafos, e ele seria mostrado metido no seu carro em todos os jornais do dia seguinte, cheio de vergonha como um animal tosquiado à chuva. Tinha de arranjar outra maneira. Desligou o motor e sem interromper o gesto atirou-se violentamente para fora, como quem ataca de surpresa. Nem um resultado. Feriu-se na testa e na mão esquerda, e a dor causou-lhe uma vertigem que se prolongou , enquanto uma súbita e irreprimível vontade de urinar se expandia, libertando interminável o líquido quente que vertia e escorria entre as pernas para piso do carro. Quando tudo isso sentiu, começou a chorar baixinho, num ganido, miseravelmente, e assim esteve até que um cão, vindo da chuva, veio ladrar-lhe, esquálido e sem convicção, à porta do carro.

Embraiou devagar, com os movimentos pesados de um sonho de cavernas, e avançou pela azinhaga fazendo força para não pensar, para não deixar que a situação se lhe figurasse num entendimento. De um modo vago sabia que teria de procurar alguém que o ajudasse. Mas quem poderia ser? Não queria assustar a mulher, mas não restava outro remédio. Talvez ela conseguisse. Ao menos não se sentiria tão desgraçadamente sozinho.
Voltou a entrar na cidade, atento aos sinais, sem movimentos bruscos no assento, como se quisesse apaziguar os poderes que o prendiam. Passavam das duas horas e o dia escurecera muito. Viu três bombas de gasolina, mas o carro não reagiu. Todas tinham o letreiro de “esgotado”. À medida que penetrava na cidade, ia vendo automóveis abandonados em posições anormais, com os triângulos vermelhos colocados na janela de trás, sinal que noutras ocasiões seria de avaria, mas que significava, agora, quase sempre, falta de gasolina. Por duas vezes viu grupos de homens a empurrar automóveis para cima dos passeios , com grandes gestos de irritação, debaixo da chuva que não parara ainda.
Quando enfim chegou à rua onde morava, teve de imaginar como iria chamar a mulher. Parou o carro em frente da porta, desorientado, quase à beira doutra crise nervosa. Esperou que acontecesse o milagre de a mulher descer por obra e merecimento do seu silencioso chamado de socorro. Esperou muitos minutos, até que um garoto curioso da vizinhança se aproximou e ele pôde pedir-lhe, com o argumento de uma moeda, que subisse ao terceiro andar e dissesse à senhora que lá morava que o marido estava em baixo à espera, no carro. Que viesse depressa, que era muito urgente. O rapaz foi e desceu, disse que a senhora já vinha e afastou-se a correr, com o dia ganho.
A mulher descera como sempre andava em casa, nem sequer lembrara de trazer um guarda-chuva e agora estava entreportas, indecisa, desviando sem querer os olhos para um rato morto na berma do passeio, para o rato mole, de pelo arrepiado, hesitando em atravessar o passeio debaixo da chuva, um pouco irritada contra o marido que a fizera descer sem motivo, quando poderia muito bem ter subido a dizer o que queria. Mas o marido acenava de dentro do carro e ela assustou-se e correu. Deitou a mão ao puxador, precipitando-se para fugir à chuva, e quando enfim abriu a porta e viu diante do seu rosto a mão do marido aberta empurrando-a sem lhe tocar. Teimou e quis entrar, mas ele gritou-lhe que não, que era perigoso, e contou-lhe o que acontecia, enquanto ela encurvada recebia nas costas toda a chuva que caía e os cabelos se lhe desmanchavam, e o horror lhe crispava a cara toda. E viu o marido, naquele casulo quente e embaciado que o isolava do mundo, torcer-se todo no assento para sair do carro e não conseguir. Atreveu-se a agarra-lo por um braço e puxou, incrédula, e não pode também move-lo dali. E como aqui era horrível demais para ser acreditado, ficaram calados a olhar-se, até que ela pensou que o marido estava doido e fingia não poder sair. Tinha de ir chamar alguém para o tratar, para o levar aonde as loucuras se tratam. Cautelosamente, com muitas palavras, disse ao marido que esperasse um bocadinho, que ela não tardaria, ia procurar ajuda para ele sair, e assim até poderiam almoçar juntos e ele telefonaria para o escritório a dizer que estava constipado. E não iria trabalhar da parte da tarde. Quer sossegasse, o caso não tinha importância, a ver que não demora nada.
Mas quando ela desapareceu na escada, ele tornou a imaginar-se rodeado de gente, o retrato nos jornais, a vergonha de se ter urinado pelas pernas abaixo, e esperou ainda uns minutos. E quando em cima a mulher fazia telefonemas para toda a parte, para a polícia, para o hospital, lutando para que acreditassem nela, e não na sua voz, dando seu nome e o do marido, a cor do carro, e a marca, e a matrícula, ele não pôde agüentar a espera e a imaginação, e ligou o motor. Quando a mulher tornou a descer, o automóvel já desaparecera e o rato escorregara da berma do passeio, enfim, e rolava na rua inclinada, arrastado pela água que corria dos algeroses. A mulher gritou, mas as pessoas tardaram a aparecer e foi muito difícil de explicar.
Até o anoitecer o homem circulou pela cidade, passando por bombas esgotadas, entrando em filas de espera sem o ter decidido, ansioso por o dinheiro se lhe acabava e ele não saberia o que poderia acontecer quando não houvesse mais dinheiro e o automóvel parasse ao pé duma bomba para receber mais gasolina. E isso só não aconteceu porque todas as bombas começaram a fechar e as filas de espera que ainda se viam apenas aguardando o dia seguinte, e então o melhor era fugir de encontrar bombas ainda abertas para não ter que parar. Numa avenida muito longa e larga, quase sem outro trânsito, o carro da polícia acelerou e ultrapassou-o, e quando o ultrapassava um guarda fez-lhe sinal para que parasse. Mas ele teve outra vez medo e não parou. Ouviu atrás de si a sereia da polícia e viu, também, vindo não soube donde, um motociclista fardado quase a alcançá-lo. Mas o carro, o seu carro, deu um rondo, um arranco poderoso e saiu, de um salto, logo adiante, para o acesso duma auto-estrada. A polícia seguia-o de longe, cada vez mais longe, e quando a noite se fechou não havia sinais deles, e o automóvel rolava por outra estrada.
Sentia fome. Urinara outra vez, humilhado demais para se envergonhar e delirava um pouco: humilhado, himolhado. Ia declinando sucessivamente, alterando as consoante e as vogais, num exercício in consciente e obsessivo que o defendia da realidade. Não parava porque não sabia para que iria parar. Mas, de madrugada, por duas vezes, encostou o carro a berma e tentou sair devagarinho, como se entretanto ele e o carro tivessem chegado a um acordo de pazes e fosse a altuar de tirar a prova da boa-fé de cada um. Por duas vezes falou baixinho quando o assento o segurou, por duas vezes tentou convencer o automóvel a deixa-lo sair a bem, por duas vezes num descampado nocturno e gelado, onde a chuva não parava, explodiu em gritos, em uivos, em lágrimas, em desespero cego. As feridas da cabeça e da mão voltaram a sangrar. E ele, soluçando, sufocado, gemendo como um animal aterrorizado, continuou a conduzir o carro. A deixar-se conduzir.

Toda a noite viajou sem saber por onde. Atravessou povoações de que não viu o nome, percorreu longas rectas, subiu e desceu montes, fez e desfez laços e deslaços de curvas, e quando a manhã começou a nascer estava em qualquer parte, numa estrada arruinada, onde a água da chuva se juntava em charcos arrepiados à superfície. O motor roncava poderosamente , arrancando as rodas à lama, e toda a estrutura do carro vibrava, com um som inquietante. A manhã abriu por completo, sem que o sol chegasse a mostrar-se, mas a chuva parou de repente. A estrada transformava-se num simples caminho, que adiante, a cada momento, parecia que se perdia entre pedras. Onde estava o mundo? Diante dos olhos eram serras e um céu espantosamente baixo. Ele deu um grito e bateu com os punhos cerrados no volante. Foi nesse momento que viu que ponteiro do indicador da gasolina estava em cima do zero. O motor pareceu arrancar-se a si mesmo e arrastou o carro por mais vinte metros. Era outra vez estrada para lá daquele lugar, mas a gasolina acabara.
A testa cobriu-se-lhe de suor frio. Uma náusea agarrou nele e sacudiu-o dos pés a cabeça, um véu cobriu-lhe por três vezes os olhos. Às apalpadelas, abriu a porta para se libertar da sufocação que aí vinha, e nesse movimento, por que fosse morrer ou porque o motor morrera, o corpo pendeu para o lado esquerdo e escorregou do carro. Escorregou um pouco mais, e ficou deitado sobre as pedras. A chuva recomeçara a cair.


SARAMAGO, José. Objeto Quase.
São Paulo: Cia das Letras, 1994.

Gaiola de moscas

Zuzé Bisgate. Logo na entrada do mercado, bem por baixo da grande pahama se erguia sua banca. Quando a manhã já estava em cima, Zuzé Bisgate assentava os negócios. O que ele fazia? Alugava bisga, vendia o cuspo dele. A saliva de Zuzé tinha propriedades de lustrar sapatos.
- “É melhor que graxa, enquanto graxa nem há”.
Além disso, o preço dele era mais favorável. Cada cuspidela saía a trezentos, incluindo o lustro. Maneira como ele procedia era seguinte: o cliente tirava o sapato e colocava o pé empeugado do cliente sobre uma fogueirita. O pé ficava ali apanhando uns fumos para purificar dos insectos infecciosos. Zuzé Bisgate pegava no sapato e cuspia umas tantas vezes sobre ele. Cada cuspidela contava na conta. Passava o lustro com um pano amarrado no próprio cotovelo. Razão do pano, motivo de esfregar com o cotovelo:
- “Dessa maneira a minha saliva me volta no corpo. É que este não é um cuspe qualquer, um produto industrioso desses. Não, isto é uma saliva bastantíssima especial, foi-me emprestada por Deus, digamos foi um pequeno projecto de apoio ao sector informal. É que Deus conhece-me bem, pá. Eu sou um gajo com bons contactos lá em cima”.
Os clientes não se faziam enrugados. Às vezes até abichavam frente à banca dele. Fosse da saliva, fosse da conversa que ele lustrava. Verdade era que o negócio de Zuzé corria em bom caudal.
Quem não se dava bem com os cuspes era sua mulher Armantinha. “Não se pode beijar aquela boca engraxadora dele”, se lamentava. “Prefiro beijar uma bota velha”, concluía. “Ou lamber uma caixa de graxa”.
Armantinha sonhava para saltar frustração. Um dia, qualquer dia, haveria de beijar e ser beijada. Sonhava e resonhava. Lhe apetecia um beijo, água fazendo crescer outra água na boca. Lhe apetecia como um cacto sonha a nuvem. Como a ostra ela morria em segredo, como a pérola seu sonho se fabricava nos recônditos.
Avisaram o marido. Armantinha estava sonhando longe de mais. O homem respondeu em variações. “Beijo é coisa de branco, quem se importa. E depois, minha boca cheira a coisa falecida. Quem se aflije com matéria morta? Só os da cidade. Nós, daqui, sabemos bem: é do podre que a terra se alimenta”.
Acontece que Zuzé Bisgate se foi metendo nos copos, garrafas, garrafões. Tudo servia de líquido, Zuzé destilava até pedra. De toda a substância se pode espremer um alcoolzinho, dizia. Mais e mais ele desleixava a caixa de cuspos e lustros. Até que os clientes reclamaram: a saliva de Zuzé está ganhando ácidos, aquilo é bom é para de entupir as pias. E temendo pelos sapatos os demais se evitavam de frequentar a tenda banhada pela grande pahama.
Até Chico Médio, homem sempre calado, reclamou que a saliva dele lhe fez murchar os atacadores, pareciam agora cobras sem esqueleto vertebral. Pouco a pouco Zuzé perdeu toda a clientela e o negócio das salivas fechou.
Se decidiu então a mudar de ramo. Recordou, de seu pai, a máxima: a alma é o segredo de um negócio. Alma, era isso que se necessitava. E assim ele imaginou um outro negócio. E agora quem o vê, nos actuais dias, constata a banca com sua nova aparência. E Zuzé mais seu novo posto. Seu labor é um quase nada, coisa para inglês não ver.
Ali, na fachada, arregaça as calças, com cuidado para não as desvincar. Sempre com desvelo de burocrata, desembrulha um volume retirado das entranhas de sua banca: uma gaiola forrada a rede fina. Dentro voam moscas. Pois é o que ele vende: moscardos. Matéria viva e mais que viva - vital para o mortal cidadão. Pois, diz o Bisgate, cada um deve tratar as moscas que, depois de mortos, nos visitarão o túmulo.
- “São os nossos últimos acompanhantes”...
A pessoa passa por ali, se debruça sobre o vendedor e escolhem as voadoras bastas, as mais coloridas que engalanarão o funeral:
- “Esta há-de ficar mesmo bem na sua cerimónia”.
Ele convida o hesitante cliente a ir à banca ao lado, a banca da Dona Cantarinha. Para lavar as moscas, explica.
- “Lavar as moscas?
- Sim, é lavagem a seco”.
Armantinha cada vez mais se distancia daquela loucura. O marido se apronta é para grandes descansaços.
- “Ai nosso Senhor Jesus Cristão! Você, homem, você vende alguma coisa?
- “Faça as contas, mulher.
- “Que contas? Que contas se pode fazer sem números?
- Ainda hoje vendi uma manada de moscas a esse tipo novo que chegou à aldeia.
- “Qual que chegou?
- “Esse gajo que montou banca lá nas traseiras do bazar. Uma banca que até mete as graças, chama-se “Pinta-Boca”.
- “O homem se chama Pinta-Boca?
- “Qual o homem! A banca se chama”.
Armantinha se inflama logo de sonho. Já a boca dela se liquidesfaz. Sua boca pedia pintura como a cabeça lhe requeria sonho. E, logo nessa manhã, ela ronda a nova tenda, se apresenta ao novo vendedor. Ele se declina:
- “Sou Julbernardo, venho de lá, da cidade”.
Banca Pinta-Boca. O nome faz jus. Na prateleira ele tem uma meia dúzia de bâtons com outras tantas cores. As mulheres se chegam e estendem os lábios. Julbernardo pede que escolham a coloração. Moda as brancas, vermelhudas das beiças. Uma pintadela 250 meticais.
Armantinha, já devidamente apresentada, ganha coragem e encomenda uma coloradela.
- “Aqui, se paga em adiantado”.
Ela retirou as notas encarquilhadas do soutien. Vasculhou as largas mamas à procura dos papéis. Tinha seios tão grandes que nem conseguia cruzar os braços.
- “Está aqui seu dinheiro.
- “Não chega nem basta. Essa tabuleta do preço era na semana passada. Agora é 250 um lábio.
- “Um lábio?
- “Se for o de cima, o de baixo custa mais caro. Por causa que é maior.
- “Estou fracassada com você, Julbernardo. Vá, pinte o de cima, amanhã venho pintar o de baixo.
- “Está certo, eu vou pintar”.
Julbernardo pegou no bâton com habilidade de artista. Aquilo era obra para ser vista. Metade do povoado vinha assistir às pinturas. A gente seguia caladinha, aquilo era cena à prova de fala. Julbernardo metia um avental, ordenava à cliente que sentasse no tronco cortado do canhoeiro.
Armantinha obedecia ao ritual. Sentada, ergueu o rosto. Fechou os olhos, compenentrada em si. O pintador limpou as mãos no avental. Se debruçou sobre a tela viva e fez rodar o bâton no ar antes de riscar a carne da cliente. Sentada no improvisado banco Armantinha deu largas ao sonho. O bâton acariciava o lábio e tornava seu corpo misteriosamente leve, como se naquele toque se anulasse todo o peso dela.
Sonhava Armantinha e o sonho dela se apoderava. Nesse devaneio o bâton se convertia em corpo e já Julbernardo se inclinava todo sobre ela e os lábios dele pousavam sobre a boca dela, trocando húmidas ternuras. Mundo e sonho se misturavam, os gritos da multidão ecoavam na gruta que era sua boca e, de repente, a voz raivosa de Zuzé também lhe esvoaça na cabeça.
E eis que Armantinha abre os olhos e ali, bem à sua frente, o seu marido se engalfinhava com Julbernardo. E murro e grito, com a gentalha rodopiando em volta. De repente, já um deles se apresenta de desbotar vermelhos. Os dois se misturam e uma faca rebrilha na mão de Zuzé. Depois, num sacão, se separam os dois corpos. Estão ambos ensanguentados. Julbernardo com o avental ensopado de vermelho dá dois passos e cai redondo. Num instante, uma multidão de moscas se avizinha. Zuzé, vitorioso, aponta a mulher:
- “Vê? Vê as moscas que vendi a esse cabrão?”
Mas as moscas, em lugar de escolherem o tombado Julbernardo, circundam a cabeça de Zuzé. Alarmado, ele enxota-as. Em vão: já a moscardaria lhe pousa, vira e revira. Então, Zuzé Bisgate desce dos seus próprios joelhos e se derrama em pleno chão. O sangue se vê brotar de seu peito. Julbernardo desperta e se ergue, ante o espanto geral. Com mão corrige a mancha vermelha com que o bâton esmagado enchera o seu branco avental.

Mia Couto,
Contos do nascer da Terra

13/08/2010

Uma questão de honra

Tempo é um fruto: na medida, amadurece; em demasia, apodrece.
À volta do tabuleiro os dois tinham construído uma ilha, um castelo sem areia onde ainda valiam a palavra, a honra e a amizade. Eles os cavalheiros e, no tabuleiro, as damas.
Quanto mais envelheciam, mais os jogos demoravam. O último decorria desde há semanas. Enquanto um jogava, o outro passava pelo sono. O aconchego do pequeno bar era o melhor lugar para dormirem. Ao menos ali estavam longe da abandonada solidão de seus quartos. O bar era o lar. E cada um deles era, para o outro, a humanidade inteira.
Até que, um dia, sucedeu o conflito. Nessa manhã, incidentou-se o seguinte: as peças tinham mudado de posição. As jogadas se desenhavam agora em desfavor de Quintério Luca. O velho entesou a voz, em aplicação de zanga:
- Siwale, você veio aqui essa noite?
- Minha honra!- negou Esmerado Fabião.
- O jogo não estava assim, nem tão pouco.
- Mas eu acabei de entrar agora. Entrámos juntos, não entrámos?
- Então, quem mexeu no tabuleiro? Já viu: o meu jogo encontra-se todo comestível...
- Com isso eu que não tenho a ver, Quintério.
Mais grave não podia ser. Decidiram consultar o doutor juiz. Encontraram-no na barbearia do Cova-ne. Altisentado, preparado para a barbeação do cabelo. Quase o desconheceram: o juiz modernizara o visual e passara a rapar a cabeça, aos modos da moda. Permaneceu imóvel e distante enquanto escutou o relato dos reformados.
- Diga-nos, senhor doutor: pode um jogo mexer-se sozinho à noite?
- Depende- respondeu o juiz.
Passou a mão suada pelo couro descabeludo. E acrescentou, enquanto se espreitava ao espelho:
- São fenómenos.
Os velhos boquiabriam-se, sem expressão. Nunca tinham escutado palavra com tais sílabas. Mas bastava que o juiz a pronunciasse para que o universo ganhasse congruência.
- É isso que se chamam fenómenos paranormais. Nunca ouviram falar?
- É que, ultimamente, estamos aqui na vila, sem sair para nenhum lado.
- Psicocinese, tropismos sem casualidade determinada. Entendem?
Mentiram acenando com as cabeças. Fez-se pausa, espessou-se o silêncio. Os velhos alinhados, mãos cruzadas em respeito ante a curva do ventre. Mas não havia mais a ser dito. O juiz, entre vénias e licenças, se retirou. Passando pelos mortais com seu ar divino, o juiz se resumia numa palavra: fenomenal.
Retiraram-se também os velhos, ombros estreitos, passos miúdos. Na rua, Esmerado Fabião sublinhou sua inocência:
- Eu não disse que não tinha mexido em nada?
E separaram-se, cada um conforme sua solidão.
Quintério Luca deitou-se no seu quarto, calado, mal digerido. Para ele, aquilo tinha sido um irrevogável rasgão. Já não lhe apetecia voltar ao bar, não lhe apetecia viver. Em sua consciência não havia reverso: confiança manchada, amizade desmanchada.
Noite alta, Quintério saiu de casa, cruzando a vila como a coruja furtiva. Bateu na porta da residência do juiz. O magistrado, estremunhado, de roupão, entreabriu-lhe os olhos inquisitivos.
- Desculpe, excelência, mas é que uma pergunta ficou-me encravada e quase nem consigo respirar.
- Fale, homem.
- É que não entendi bem. Afinal, o compadre Quintério aldrabou ou não?
- A ética, meu caro Fabião, a ética é profundamente irrelevante, num caso destes. E agora, vá com Deus. Deixe dormir os homens de bem.
Quintério Luca, voz educada, voltou a insistir. O doutor lhe perdoasse, mas não o mandasse embora assim, na ética de Deus. Era pobre, não tinha palavra dispendiosa. Mas ele não podia ficar torturado por aquela dúvida. Que aquilo não era um simples caso de batota ao jogo. Quintério estava a embatotar a vida. Porque, afinal, nunca tinha sido às damas que eles jogavam. O que faziam, repartidamente, era distraírem a espera do fim. E o compadre Fabião era a quem confiava sua única e última riqueza: gordas lembranças, magras confidências.
Foi então que o juiz se alertou, num arrepio. Não foi mais que um simples rebrilho no escuro: o que Luca trazia por baixo do braço era uma antiga, mas autêntica espingarda. O juiz aconchegou o roupão como se invadido pelo repentino de um frio. O velho ainda demorou a perguntar:
- Se eu matar Esmerado Fabião terei desculpa de sua excelência?
- Não. Terei que o culpar.
- Então, com a devida desculpa, acho que tenho que matar primeiro o senhor doutor juiz.
E disparou sobre o aterrado magistrado. Mas sem ponto na mira. A bala sulcou os céus, sem rumo. O guarda-costas do juiz, aparecido das traseiras da casa, devolveu disparo. O velho Quintério Luca tombou vegetalmente, já sem suspiro.
Desde então, quem passa no bar da vila pode Esmerado Fabião sentado na eterna mesa, contemplando a cadeira vaga na sua frente. No intervalo dos cabeceios, ele vai repetindo:
- É a sua vez, compadre! É a sua vez de pedir.


Mia Couto, O Fio das Missangas

12/08/2010

Uma decisão importante


Quando, em 1933, os nazis sobem ao poder e começa a perseguição aos cidadãos judeus, os pais de Anna e Max consideram que o mais seguro será fugir. Neste excerto, Anna e Max vivem num hotel, na Suíça, onde travam amizade com Vrenelli e com Franz, os filhos dos donos, até ao dia em que chegam duas crianças alemãs. De início brincam todos juntos, mas essa situação não se prolonga por muito tempo.
Brincavam todos juntos à apanhada. Antes nunca tinha sido muito divertido, porque eles eram só quatro. (Trudi não contava, porque, como não conseguia correr depressa, era logo apanhada e depois gritava sempre). Mas as duas crianças alemãs eram muito velozes e, pela primeira vez, a brincadeira era mesmo emocionante. Vreneli acabara de apanhar o menino alemão e ele apanhou Anna, por isso agora era a vez da Anna apanhar alguém, e ela correu atrás da menina alemã. Elas corriam às voltas pelo pátio da hospedaria, aos ziguezagues, para trás e para a frente, pulando sobre as coisas, até que Anna julgou que estava quase a apanhá-la – mas uma senhora alta e magra, com uma expressão desagradável, barrou-lhe subitamente o caminho. A senhora apareceu tão de repente, como que saída do nada, que, por pouco, Anna não tinha tempo de parar e quase chocou com ela.
— Desculpe — disse Anna, mas a mulher não lhe respondeu.
— Siegfried! — chamou, com voz estridente. — Gudrun! Já disse que não quero que brinquem com estas crianças!
Agarrou a menina alemã e arrastou-a consigo. O menino seguiu-as, mas quando a mãe não estava a olhar, olhou para Anna, fez uma cara engraçada e acenou com as duas mãos, como que a pedir desculpa. Depois desapareceram os três no interior da hospedaria.
— Que mulher tão mal-encarada! — disse Vreneli.
— Ela deve pensar que nós somos mal-educados — disse Anna.
Tentaram continuar a brincar sem os meninos alemães, mas a brincadeira assim já não prestava. E acabou na confusão do costume, com Trudi em lágrimas, por ter sido apanhada.
Anna só voltou a ver os meninos alemães ao fim da tarde. Eles devem ter andado às compras em Zurique, porque cada um deles trazia um embrulho e a mãe trazia vários, grandes. Quando estavam quase a entrar na hospedaria, Anna pensou que aquela era a sua oportunidade de mostrar que não era mal-educada. Com um salto, passou-lhes à frente e abriu-lhes a porta.
Mas a senhora alemã não parecia estar, de todo, agradada.
— Gudrun! Siegfried! — disse ela, empurrando rapidamente os filhos para dentro. Depois, com um ar carrancudo e mantendo-se o mais afastada possível de Anna, comprimiu-se ela própria para passar. Foi difícil. Os embrulhos quase tapavam a entrada. Finalmente, ela lá entrou e desapareceu. «Sem sequer dizer obrigada», pensou Anna. «A senhora alemã é que é mal-educada!»
No dia seguinte, Anna e Max tinham planeado ir ao bosque com os meninos Zwirn, no segundo dia choveu e no terceiro dia foram com a mãe a Zurique para comprar meias – por isso não voltaram a ver os meninos alemães. Mas depois do pequeno-almoço, na manhã seguinte, quando Anna e Max saíram para o pátio, lá estavam eles outra vez a brincar com os meninos Zwirn. A Anna correu logo em direcção a eles.
— Vamos brincar à apanhada? — perguntou.
— Não — respondeu Vreneli, meio-corada. — E tu nem sequer podes brincar.
Anna ficou tão admirada que, por alguns momentos, não conseguiu pensar em nada para dizer. Será que Vreneli tinha outra vez o menino ruivo na cabeça? Mas ela já não o via há tanto tempo...
— Porque é que a Anna não pode brincar? — perguntou Max. Franz estava tão envergonhado como a irmã.
— Nenhum de vocês pode — respondeu e, apontando para os meninos alemães, acrescentou: — Eles dizem que não podem brincar convosco.
Pelos vistos, não só tinham sido proibidos de brincar com eles, como também de lhes falar, porque o menino parecia querer dizer alguma coisa, mas acabou por fazer apenas a mesma cara engraçada, com ar de quem pede desculpa, e encolheu os ombros.
Anna e Max olharam um para o outro. Nunca se tinham visto numa situação daquelas. Então Trudi, que tinha estado à escuta, começou a cantarolar:
— A Anna e o Max não brincam! A Anna e o Max não brincam!
— Oh! Cala-te! — disse Franz. — Vamos! — e começou a correr com Vreneli em direcção ao lago, com os meninos alemães atrás deles. Durante um momento Trudi ficou surpreendida. Depois cantarolou um último e desafiador «A Anna e o Max não brincam!» e, com as suas curtas perninhas, rompeu em correria atrás deles.
Atrás, ficaram especados Anna e Max.
— Porque é que eles não podem brincar connosco? — perguntou Anna, mas Max também não sabia. Parecia nada mais haver a fazer do que voltar para a sala de jantar, onde o pai e a mãe ainda acabavam de tomar o pequeno-
¬-almoço.
— Pensei que estivésseis a brincar com o Franz e a Vreneli — disse a mãe.
Max explicou o que sucedera.
— Isso é muito estranho — disse a mãe.
— Talvez a mamã pudesse falar com a mãe deles — disse Anna. Ela acabara de reparar na senhora alemã e num homem, que certamente era o marido, sentados numa mesa ao canto.
— Com certeza que falo — disse a mãe.
Nesse preciso momento, a senhora alemã e o marido levantaram-se para sair da sala de jantar e a mãe de Max e de Anna foi ao encontro deles. Estavam muito longe para que Anna pudesse ouvir o que diziam, mas a mamã ainda só tinha dito algumas palavras quando a senhora alemã respondeu alguma coisa que a fez mãe corar de raiva. A senhora alemã disse mais qualquer coisa e fez tenções de ir embora, mas a mamã agarrou-lhe o braço.
— Ai não, não é! — gritou a mãe numa voz que ecoou por toda a sala. — Não é o fim, não senhora. — E rodou sobre os calcanhares, voltando para a mesa, enquanto a senhora alemã e o marido saíram, cabisbaixos.
— Toda a sala te ouviu — disse o pai zangado, quando a mãe se sentou. Ele odiava cenas.
— Ainda bem! — disse a mamã num tom tão alto que o papá sussurrou:
— Chiu! — e acenou para a acalmar.
Ter de falar baixo fez com que a raiva da mãe aumentasse ainda mais, a ponto de mal conseguir falar.
— Eles são nazis — disse ela por fim. — E proibiram os filhos deles de brincar com os nossos, porque os nossos são judeus — o tom da voz dela aumentava com a indignação. — E tu queres que eu fale baixo?! — gritou de tal modo, que uma velha senhora ainda a acabar de tomar o pequeno-almoço ficou tão assustada que quase entornou o café.
O pai cerrou os lábios e disse:
— Eu também jamais permitiria que a Anna e o Max brincassem com filhos de nazis. Por isso não vejo qualquer problema.
— Então, e Vreneli? E Franz? — perguntou Max — Isso significa que se eles brincam com os meninos alemães não podem brincar connosco?
— Eu acho que Franz e Vreneli terão de decidir quem são os amigos deles — disse o pai. — A neutralidade suíça é muito boa, mas pode ir longe demais — e levantou-se da mesa. — Agora sou eu quem vai falar com o pai deles.
Pouco depois, o pai voltou. Ele dissera ao senhor Zwirn que os seus filhos tinham de decidir se queriam brincar com Anna e Max ou com os visitantes alemães. Eles não podiam brincar com os dois. O pai pediu-lhes que não decidissem apressadamente, mas que lhe transmitissem a decisão nessa noite.
— Acho que nos vão escolher a nós — disse Max. — Afinal de contas, nós vamos continuar aqui depois de aqueles meninos se irem embora.
Mas foi difícil saber o que fazer com o resto do dia. Max foi para a beira do lago com a cana de pesca, minhocas e pedaços de pão. Anna não sabia o que havia de fazer. Por fim decidiu escrever um poema sobre uma avalanche que engolira uma cidade inteira, mas não se saiu muito bem. Quando chegou ao desenho ficou tão aborrecida com a ideia de ter de pintar tudo de branco, que desistiu de o fazer. Max, como de costume, não pescou qualquer peixe. A meio da tarde estavam os dois tão deprimidos que a mãe lhes deu meio-franco para irem comprar chocolates –apesar de já ter dito que eram demasiado caros.
No caminho da loja de doces para casa, viram Vreneli e Franz a falar com um ar muito sério à entrada da hospedaria e a seguir passaram por eles com uma expressão embaraçada, olhando em frente, o que os fez sentir pior do que nunca.
Então, Max voltou para a sua pescaria e Anna decidiu ir tomar banho para tentar salvar alguma coisa do dia. Flutuou de costas, coisa que aprendera muito recentemente, mas nem isso a animou. Parecia tudo tão absurdo. Porque é que ela e Max e os meninos Zwirn e os meninos alemães não podiam brincar todos juntos? Porque é que era preciso toda esta história das decisões e de tomar partidos?
De repente, ouviu-se um chape na água ao lado dela. Era Vreneli. As suas tranças compridas estavam atadas num totó no cimo da cabeça, para não se molharem, e o rosto comprido estava mais cor-de-rosa e mais preocupado que nunca.
— Desculpa por esta manhã — disse Vreneli sem fôlego. — Decidimos que preferimos brincar convosco, mesmo que isso signifique não podermos brincar com o Siegfried e a Gudrun.
Depois apareceu Franz na margem.
— Olá Max — gritou. — As minhocas estão a gostar do banho?
— Eu teria apanhado um peixe enorme agora mesmo, se tu não o tivesses espantado com o barulho que fizeste — disse Max, muito satisfeito mesmo assim.
Nessa noite, ao jantar, Anna viu os meninos alemães pela última vez.
Eles estavam sentados, muito direitos, com os pais na sala de jantar. A mãe falava com eles, pausada e insistentemente, e nem mesmo o menino se voltou para olhar para Anna e Max, uma única vez que fosse. No final da refeição, ele passou pela mesa deles, como se os não visse. Toda a família se foi embora na manhã seguinte.
— Lamento que tenhamos feito perder alguns clientes ao senhor Zwirn — disse o papá.
A mãe estava triunfante.
— É uma pena — disse Anna. — Tenho a certeza de que aquele menino gostava mesmo de nós.
Max abanou a cabeça.
— No fim, já não gostava de nós. Depois da a mãe ter falado com ele, ele deixou de gostar de nós.
«É verdade», pensou Anna. Ela imaginou o que o menino estaria a pensar agora, o que a mãe lhe teria dito acerca dela e de Max, e como seria ele quando crescesse.

Judith Kerr

Manuela Fonseca e outros (org.)
Lá longe, a paz
Porto, Edições Afrontamento, 2001


02/08/2010

As baleias de Quissico



Só ficava sentado. Mais nada. Assim mesmo, sentadíssimo. O tempo não zangava com ele. Deixava-o. Bento João Mussavele.
Mas não dava pena. A gente passava e via que ele, lá dentro, não estava parado. Quando o inquiriam, respondia sempre igual:
- Estou frescar um bocadinho.
Já devia estar muito fresco quando, um dia, decidiu levantar-se.
- Já vou-me embora.
Os amigos pensaram que ele regressava à terra. Que decidira finalmente trabalhar e se aplicara a abrir uma machamba. Começaram os adeuses.
Alguns arriscaram contrariar:
- Mas onde vai? Na sua terra está cheio com os bandidos.
Mas ele não ouvia. Tinha escolhido a sua ideia, era um segredo. Confessou-o ao seu tio.
- Você sabe, tio, agora a fome é de mais lá em Inhambane. As pessoas estão a morrer todos os dias.
E abanava a cabea, parecia condoído. Mas não era sentimento: apenas respeito pelos mortos.
- Contaram-me uma coisa. Essa coisa vai mudar a minha vida. - Fez uma pausa, endireitou-se na cadeira: - Você sabe o que uma baleia... sei lá como...
- Baleia?
- É isso mesmo.
- Mas a propósito de quê vem a baleia?
- Porque apareceu no Quissico. É verdade.
- Mas não há baleias, nunca eu vi. E mesmo que aparecesse como é que as pessoas sabem o nome do animal?
- As pessoas não conhecem o nome. Foi um jornalista que disse essa coisa de baleia, não-baleia. Só sabemos que é um peixe grande, cujo esse peixe vem pousar na praia. Vem da parte da noite. Abre a boca e, chii, se você visse lá dentro... está cheio das coisas. Olha, parece armazém mas não desses de agora, armazém de antigamente. Cheio. Juro, é a sério.
Depois, deu os detalhes: as pessoas chegavam perto e pediam. Cada qual, conforme. Cadaqualmente. Era só pedir. Assim mesmo sem requisição nem guia de marcha. O bicho abria a boca e saía amendoim, carne, azeite de oliveira. Bacalhau, também.
- Você já viu? Um gajo ali com uma carrinha? Carrega as coisas, enche, traz aqui na cidade. Volta outra vez. Já viu dinheiro que sai?
O tio riu-se com vontade. Aquilo parecia uma brincadeira.
- Tudo isso é fantasia. Não há nenhuma baleia. Sabe como nasceu estória?
Não respondeu. Era já conversa gasta, no educado fingimento de ouvir; o tio prosseguiu:
- E a gente de lá que está com fome. Muita fome. Depois inventam esses aparecimentos, parecem chicuembo. Mas são miragens...
- Baleias - corrigiu Bento.
Não se demoveu. Não era aquela dúvida que o faria desistir. Havia de pedir, arranjar maneira de juntar o dinheiro. E começou.
Ruava o dia inteiro, para trás e para diante. Falou com a tia Justina que tem banca no bazar e com o outro, o Marito, que tem negócio de carrinha. Desconfiaram, todos eles. Ele que fosse lá primeiro, a Quissico, e arranjasse provas da existência da baleia. Que trouxesse alguns produtos, de prefer~encia garrafas daquela água de Lisboa que, depois, eles o haviam de ajudar.
Até que um dia decidiu arrumar-se melhor. Perguntaria aos sábios do bairro, àquele branco, o Sr. Almeida, e ao outro, preto, que dava pelo nome de Agostinho. Começou por consultar o preto. Falou rápido, a questão que se colocava.
- Em primeiro lugar - disse o professor Agostinho -, a baleia não é o que à primeira vista parece. Engana muito a baleia.
Sentiu um nó na garganta, a esperana a desmoronar.
- Já me disseram Sr. Agostinho. Mas eu acredito na baleia, tenho que acreditar.
- Não é isso, meu caro. Quero dizer que a baleia parece aquilo que não é. Parece um peixe mas não é. É um mamífero. Como eu e como você, somos mamíferos.
- Afinal? Somos como a baleia?
O professor falou durante meia hora. Aplicou duro no português. O Bento com os olhos arregalados, ávido naquela quase tradução. Mas se a explicação zoológica foi detalhada a conversa não satisfez os propósitos de Bento.
Tentou em casa do branco. Atravessou as avenidas cobertas de acácias. Nos passeios as crianças brincavam com os estames das flores das acácias. Olha para isto, todos misturados, filhos de brancos e de pretos. Se fosse era no tempo de antigamente...
Quando bateu à porta de rede da residência do Almeida um empregado doméstico espreitou, desconfiado. Venceu com um esgar a intensidade da luz exterior e, quando deu conta da cor da pele do visitante decidiu manter a porta fechada.
- Estou pedir falar com Sr. Almeida. Ele já me conhece.
A conversa foi breve, Almeida não respondeu nem sim nem não. Disse que o mundo andava maluco, que o eixo da terra estava cada vez mais inclinado e que os pólos se estavam a chatear. Ou a achatar, não percebeu bem.
Mas aquele discurso vago incutiu-lhe esperanas. Era quase uma confir-mação. Quando saiu, Bento estava eufrico. Já via baleias estendidas a perder de vista, a jiboiarem nas praias de Quissico. Centenas, todas carregadinhas e ele a passar-lhes revista com uma carrinha station, MLJ.
Com o escasso dinheiro que acumulara comprou passagem e partiu. Pela estrada a guerra via-se. Os destroços dos machimbombos queimados juntavam-se ao sofrimento das machambas castigadas pela seca.
- Agora só o sol é que chove?
O fumo do machimbombo em que viajava entrava para a cabina, os passageiros a reclamarem mas ele, Bento Mussavele, tinha os olhos bem longe, vigiando já a costa do Quissico. Quando chegou, tudo aquilo lhe parecia fami-liar. A enseada aguava-se pelas lagoas de Massava e Maiene. Era lindo aquele azul a dissolver-se nos olhos. Ao fundo, depois das lagoas, outra vez a terra, uma faixa castanha estacando a fria do mar. A teimosia das ondas foi criando fendas naquela muralha, cingindo-a em ilhas altas, pareciam montanhas que emergiam do azul para respirar. A baleia devia apresentar-se por ali, misturada com aquele cinza do céu ao morrer do dia.
Desceu a ravina com a pequena sacola a tiracolo até chegar às casas abandonadas da praia. Em tempos, aquelas casas tinham servido para fins turísticos. Nem os portugueses chegavam ali. Eram só os sul-africanos. Agora, tudo estava deserto e apenas ele, Bento Mussavele, governava aquela paisagem irreal. Arrumou-se numa casa velha, instalando-se entre restos de mobília e fantasmas recentes. Ali ficou sem dar conta do ir e vir da vida. Quando a maré se levantava, fosse qual hora fosse, Bento descia à rebentação e ficava vigiando as trevas. Chupando um velho cachimbo apagado, cismava:
- Há-de vir. Eu sei, há-de vir.
Semanas depois, os amigos foram visitá-lo. Arriscaram caminho, nos Oliveiras, cada curva na estrada era um susto a emboscar o coração. Chegaram casa, depois de descerem a ladeira. Bento lá estava, sonecando entre pratos de alumínio e caixas de madeira. Havia um velho colchão desfazendo-se sobre uma esteira. Estremunhado, Bento saudou os amigos sem dar grandes confianças. Confessou que já ganhara afecto à casa. Depois da baleia, havia de meter móveis, desses que se encostam nas paredes. Mas os planos maiores estavam nas alcatifas. Tudo o que fosse chão ou que com isso se parecesse seria alcatifado. Mesmo as imediações da casa, também, porque a areia é uma chatice, anda junto com os pés. Especial era um tapete que se estendia pelo areal, a ligar a casa ao lugar onde desaguaria a dita cuja.
Finalmente, um dos amigos abriu o jogo.
- Sabe, Bento: lá em Maputo estão espalhar que você é um reaccionário. Está aqui, como que está, só por causa dessa coisa de armas não-armas.
- Armas?
- Sim - ajudou outro visitante. – Você sabe que a África do Sul está bastecer os bandos. Recebem armas que vêm pelo caminho do mar. E por isso que estão falar muita coisa sobre de você.
Ele ficou nervoso. Eh, pá, já não guento sentar. Conforme quem recebe as armas não sei, repetia. Estou a espera da baleia, só mais nada.
Discutiu-se. O Bento sempre na vanguarda. Sabia-se lá se o raio da baleia não vinha dos países socialistas? Até mesmo o professor Agostinho, que todos conhecem, disse que só faltava ver porcos a voar.
- Espera lá, você. Agora já começa uma estória de porcos quando ainda ninguém viu a porcaria da baleia.
Entre os visitantes havia um que pertencia às estruturas e que dizia que tinha uma explicação. Que a baleia e os porcos...
- Espera, os porcos não têm nada a ver...
- Certo, deixe lá os porcos, mas a baleia essa uma invenção dos imperia-listas para que o povo fique parado, à espera que a comida chegue sempre de fora.
- Mas os imperialistas andam inventar baleia?
- Inventaram, sim. Esse boato...
- Mas quem deu olhos às pessoas que viram? Foram os imperialistas?
- Está bem, Bento, você fica, nós já vamos embora.
E os amigos foram, convictos que ali havia feitiaria. Algum dera um remédio para que o Bento se perdesse na areia daquela espera idiota.
Uma noite, o mar barulhando numa zanga sem fim, Bento acordou em sobressalto. Estava a tremer, parecia atacado de paludismo. Apalpou-se nas pernas: escaldavam. Mas havia um sinal no vento, uma adivinha no escuro que o obrigava a sair. Seria promessa, seria desgraça? Chegou-se à porta. A areia perdera o seu lugar, parecia um chicote enraivecido. De súbito, por baixo dos remoinhos de areia, ele viu o tapete, o tal tapete que ele estendera no seu sonho. Se isso fosse verdade, se ali estivesse o tapete, então a baleia tinha chegado. Tentou acertar os olhos como que a disparar a emoçãoo mas as tonturas derrubavam-lhe a visão, as mãos pediam apoio ao umbral da porta. Meteu pelo areal, completamente nu, pequeno como uma gaivota de asas quebradas. Não ouvia a sua própria voz, não sabia se era ele que gritava. Ela veio, ela veio. A voz estalava dentro de sua cabeça. Estava já a entrar na água, sentia-a fria, a queimar os nervos tensos. Havia mais adiante uma mancha escura, que ia e que vinha como um coração trôpego de babalaze. Só podia ser ela, assim fugidia.
Mal descarregasse as primeiras mercadorias ele mandava-se logo a um pedaço de comida porque a fome há muito que lhe disputava o corpo. Só depois arrumaria o resto, aproveitando os caixotes velhos da casa.
Ia pensando no trabalho que faltava enquanto caminhava, a água agora envolvendo-o pela cintura. Estava leve, talvez a angústia lhe tivesse esvaziado a alma. Uma segunda voz foi-lhe aparecendo, a morder-lhe os últimos sentidos. Não há nenhuma baleia, estas águas vão-te sepultar, castigar-te do sonho que acalentaste. Mas, morrer assim de graça? Não, o animal estava ali, ouvia-lhe a respiração, aquele rumor profundo já não era a tempestade, era a baleia chamando por ele. Sentiu que já sentia pouco, era quase só aquele arrefecimento da água a tocar-lhe o peito. Qual invenção, qual quê? Eu não disse que era preciso ter fé, mais fédo que dúvida?
Habitante único da tempestade, Bento João Mussavele foi seguindo mar adiante, sonho adiante.
Quando a tempestade passou, as águas azuis da lagoa deitaram-se, outra vez, naquele sossego secular. As areias retomaram o seu lugar. Numa casa velha e abandonada restavam as roupas desalinhadas de Bento João Mussavele, guardando ainda a sua última febre. Ao lado havia uma sacola contendo as réstias de um sonho. Houve quem dissesse que aquela roupa e aquela sacola eram prova da presença de um inimigo, responsável pela recepção do armamento. E que as armas seriam transportadas por submarinos que, nas estórias que passavam de boca em boca, tinham sido convertidos nas baleias de Quissico.

Mia Couto, In Vozes Anoitecidas


O mundo começa aqui

À Maria Alberta.


A chuva separara a luz com grossos cordões que desciam das nuvens e se prendiam à silhueta das pessoas, raras, que se encontravam. Mas, depois da chuva, veio a pausa amena em que a Terra e o ar se harmonizaram. O pai disse para a menina: Veste o casaco. Vamos passear.
Então, rua fora, com a mão na mão do pai, a menina caminhou em pequenos passos saltitantes. O cachecol branco que levava era uma mancha de luz, um fragmento da Via Láctea. Clara. Esvoaçante. Os caracóis louros uma auréola de alegria no vento discreto e húmido da tarde.
Atravessaram ruas e casas, cruzaram-se com pessoas e animais, depois entraram no campo onde a Primavera próxima já perturbava os aromas e fazia espreitar as primeiras flores.
A menina ria, conversava muitas coisas, conversava sempre e ao pai, lá em cima, tudo isso chegava como um som de chilreios, música de pássaros.
Era bom passear assim, no dia lavado, por entre árvores e gente e flores, sentir as botas molhadas e este cheiro tão bom e inicial, de terra húmida a pedir sementes. Era bom, levar pela mão esta criança curiosa, ávida de descoberta, para quem tudo era uma festa prometida e inesgotável. Era bom, pensava também a menina, caminhar com a mão deste homem-pai, alto como um gigante. A mão era quentinha e macia; era forte e doce e o perfume discreto a tabaco que dela se desprendia era um perfume de pai, único e para sempre. Tão bom! E respirou fundo e encostou mais o rosto dourado àquela flor de cinco pétalas fechadas onde se sentia protegida.
Andaram mais.
Andaram toda a tarde pelas pequenas veredas, pelos verdes caminhos onde as gotas de chuva punham reflexos e frescura.
A certa altura, o pai parou para acender um cigarro e libertou a mão da criança. À sua frente, ali mesmo junto aos pequenos pés, havia uma poçazinha de água que a chuva deixara. Era um círculo mínimo, mas estava ali, à sua frente e fechava-lhe o horizonte, interrompia-lhe a aventura.
Sem a mão do pai na sua mão, o obstáculo tornara-se intransponível.
Puxou-lhe várias vezes pelo casaco e, quase a medo, sussurrou, perplexa pela imensidão daquele mar tão súbito:
«Ó pai, o mundo acaba aqui?»
Foi então que lá em cima os deuses se sorriram e enviaram para coroar esse instante, um arco-íris com todas as cores da poesia. Que a menina ainda conserva no olhar e já lá vão tantos anos.


Maria Rosa Colaço
Não quero ser grande
Lisboa, Ed. Escritor, 1996


Os negros olhos de Vivalma

Há mulheres que procuram um homem que lhes abra o mundo. Outras buscam um que as tire do mundo. A maior parte, porém, acaba se unindo a alguém que lhes tira o mundo.
Este foi o destino de Vivalma, mulher entre as mulheres, cheia de desgraça, nem o Senhor punha oração nela. Mulher gorda, exibia os seios em cacho, carnes de muito volume e herança. Tanta redondeza, aliás, suprimia a curva. Viva] na era esposa do latoeiro Xidakwa, homem zangadiço e com nervo florindo na pele.
A volumosa senhora saía de manhã para o serviço de sentar no bazar, em banca rente ao chão. Eram tão poucas e abreviadas as coisas que vendia que ela nunca fazia as contas. A vida é um por enquanto no que há-de vir. Vivalma se deixava no assento, mais vagarosa que orvalho. Até a mão dela poupava esforços, num mesmo gesto de ida e volta: para lá, enxotava mosca; para cá, chamava cliente. Seus braços eram tão curtos que nem era capaz de arregaçar as mangas.
Pois Vivalma se dava a conhecer pelo modo como zarolhava, olho deitado abaixo. Razão de que o marido lhe batia, por dádiva daquela palha. Nem carecia de motivo: o murro era a língua dele, vingança de lhe fugirem desejos de sua vista. Todos se admiravam: Xidakwa até que parecia tranquilinho, sonholento, incapaz de violência. Mas os hematombos no rosto da mulher, o sangue pisado lhe enchendo a quotidiana pálpebra dela, eram provas indesmentíveis. Todos punham a devida pena na vendecora. Tão batidinha, coitada. E ainda por cima, sempre no mesmo olho. As colegas lhe sugeriam:
- “Você podia pedir a ele para variar-se: cada vez num lado, cada vez no outro”.
Ela sorria, parecia isenta de pensamento. A gordura era sua única resposta. Ela sabia: mais se engorda, menos se sofre. Com o volume a dor vai ficando mais e mais distante, perdida lá nas curvas das entranhas. As vendedeiras lhe puxavam o brio:
- “Mas você Vivalma, nem viva nem alma?”
Quem fala consente? E a mulher gorda suspirava:
- “Deus me reze, minhas amigas”.
Ela é que sabia. Xidakwa, seu marido, enganava era nas aparências. Ele era um mosca-viva, esgazelado, tratando-lhe a berro e fogo. Outros já lhe tinham chamado as atenções. Mas o latoeiro varria os reparos, explicando:
- “A vida é dura de mais para aceitar carícia: cabedal se cose é com dedal”.
As colegas do bazar insistiam:
- “Ora, Vivalminha, lhe deixe de vez, esse homem não vale uma vida. Você é como o nariz: toda a vida no meio, sem nunca fazer escolha”.
Em silêncio, Vivalma amealhava suas razões. Não que houvesse segredo: para ela, aquela era a ordem do mundo, estavam-se cumprindo destinos. Nem ela nem ele teriam tempo para uma outra ocasião. O mundo dele era de outra razão, um confim. Ele lhe queria à razão de pontapés? Que fosse. Ela não tinha querer nem ser. E quem não tem vontade, não tem lamento.
E era sem lamento que ela regressava a casa, tardes a fio, sempre última das vendedoras. Demorava os vinte e quatro ponteiros no caminho. Perto de casa colhia uma flor mas, ao entrar no portão, a deitava no chão. No pátio se acumulavam pétalas brancas, secreto e perfumado lençol da noiva que nunca houve.
Até que, um dia, o olho negro de Vivalma se apresentou piorado, em feio e ampliado derrame. As vendeiras transbordaram-se. Não, aquilo era de mais! E se conluiaram para desafiar o marido violento. Sem que Vivalma suspeitasse, umas delas lá foram a casa de Xidakwa. Enquanto pisavam aquele mar de flores desfeitas souberam o espantável: que o dito marido, Xidakwa, há tempo que se fora, amanteado com outra. As vizinhas diziam e comprovavam. Os tais derrames que Vivalma exibia no rosto eram por ela mesma fabricados, sem infligência de mais ninguém.
As vendedores regressaram ao bazar, caladas, sob uma bategazinha de Verão. A chuva caía tristonha como um luto, cada gota uma mulher em Outono, chuviuvinha. Ingrata é a morte que não agradece a ninguém. Vivalma teatrava, para que ninguém suspeitasse de seu abandono? Pois as amigas se compustararam em igual disfarce. Na Natureza ninguém se perde, tudo inventa outra forma.
Sucedeu, por astúcia do acaso, o seguinte percalço: a nova mulher de Xidakwa ouviu dizer que Vivalma continuava a revalidar suas equimoças, olho da cor do chão. Se assim era, quem mais poderia ser o batedor senão o dito latoeiro? E a moça, mais nascida que a gorda vendedeira, contraverteu caminho e foi agasalhar outra felicidade.
O homem, desconcertado, voltou a casa para afinar contas com Vivalma. Se admirou de ver o pátio varrido, limpo das habituais florinhas. Os vizinhos se surpreenderam, depois, a ouvir os gritos dele, batendo em sua original esposa.
Manhãzinha seguinte, viram Vivalma sair de casa, canteirando pelo jardim, a encher as mãos de petalazitas brancas. Haveria quê nessas flores: alegria de quem se ilude vencer? Ou eram pequenitas raivas, desapercebidas como lágrimas em seu rosto molhado? Só ela, a matinal vendedeira, sabe do valor dessas minusculinhas naturezas em seus dedos decepadas. Dizem, finalmente, que sob o véu de seus enegrecidos olhos havia, nessa manhã, uns fiapos de satisfeição. Poderá ela, alguma vez, ser sabida? Se, como diz nenhuma canção, a água corre com saudade do que nunca teve: o total,
imenso mar.

Mia Couto,
Contos do nascer da Terra