31/07/2010

Os mil pássaros de Sadako




Prólogo

O livro Os Mil Pássaros de Sadako é baseado na vida de uma menina que viveu no Japão de 1943 a 1955.
Sadako morava em Hiroshima quando a aviação americana largou uma bomba atómica sobre a cidade. Morreu dez anos depois, devido às radiações emitidas pela bomba.
Graças à sua coragem, Sadako tornou-se uma heroína para todas as crianças japonesas. Esta é a sua história.


Um dia de sorte

Sadako tinha nascido para correr. A mãe gostava de dizer que Sadako sabia correr mesmo antes de saber andar…
Nessa manhã de Agosto de 1954, no Japão, mal Sadako acabou de se vestir, desatou a correr para a rua. O sol nascente fazia realçar os reflexos de cobre dos seus cabelos pretos. Nenhuma nuvem escurecia o céu azul. «É bom sinal», disse para consigo Sadako, que estava atenta ao menor presságio.
De regresso a casa, viu que os irmãos ainda dormiam, deitados nos seus pequenos colchões. Sacudiu Masahiro, o irmão mais velho:
— Levanta-te, preguiçoso, é o Dia da Paz!
Masahiro resmungou e bocejou. Como qualquer rapaz de catorze anos, gostava de se levantar tarde. Só que a fome já apertava e da cozinha vinha um delicioso aroma de sopa de peixe. Masahiro levantou-se, seguido de Mitsue e Eiji.
Sadako ajudou Eiji a vestir-se. Eiji tinha seis anos mas, às vezes, ainda perdia uma meia ou a camisola interior. Em seguida, ajudada pela irmã, Mitsue, Sadako dobrou os colchões e arrumou-os no armário. Entrou depois na cozinha, como se fosse um turbilhão, e disse à mãe:
— Mamã, estou tão impaciente por ir ao carnaval! Será que poderíamos tomar o pequeno-almoço mais cedo?
A mãe de Sadako estava a cortar cuidadosamente rabanetes marinados, para servir com o arroz e a sopa. Lançou-lhe um olhar severo e ralhou com ela:
— Tens onze anos, minha filha. Na tua idade, já não devias chamar “carnaval” a este dia de recolhimento. Todos os anos, a 6 de Agosto, celebramos a memória daqueles que morreram quando a bomba atómica foi lançada sobre a nossa cidade.
O senhor Sasaki entrou pela porta das traseiras e secundou o que dissera a esposa:
— É verdade. Tens de mostrar respeito. A tua avó foi morta nesse dia funesto.
Sadako protestou:
— Mas eu respeito a avó. Rezo por ela todas as manhãs. Só que hoje estou tão contente…
O pai interrompeu-a:
— A propósito, é tempo de fazermos as nossas orações.
A família Sasaki reuniu-se em torno do pequeno altar onde se encontrava a fotografia da avó, colocada numa moldura dourada. Sadako ergueu os olhos para o tecto e perguntou-se se o espírito da avó estaria a pairar sobre eles.
O pai interpelou-a:
— Sadako!
A rapariga baixou a cabeça imediatamente. Dançou com os dedos do pé enquanto o pai rezava em voz alta. O senhor Sasaki pediu que o espírito dos seus antepassados estivesse em paz. Agradeceu o salão de cabeleireiro e os filhos maravilhosos que tinha. Rezou para que a leucemia, a chamada “doença da bomba”, não afectasse a família.
Muitos Japoneses ainda morriam devido a esta doença, embora a bomba tivesse sido lançada nove anos antes. A atmosfera tinha ficado saturada de radiações, e as pessoas, como que envenenadas para o resto das suas vidas.
Ao pequeno-almoço, Sadako engoliu a sopa e o arroz. Masahiro falou de raparigas que pareciam dragões esfomeados, mas a irmã nem o ouviu. Estava a pensar no que se tinha passado no ano anterior: os banhos de multidão, a música, o fogo de artifício. Ainda sentia o gosto do algodão-doce na boca.
Foi a primeira a acabar o pequeno-almoço e quase virou a mesa ao levantar-se. Era alta para a idade e as suas pernas compridas atravessavam-se no seu caminho.
— Anda lá, Mitsue, ajuda-me a lavar a louça, para podermos sair mais depressa.
Depois da cozinha limpa e arrumada, Sadako atou fitas vermelhas à ponta das suas tranças e saltitou junto à porta da entrada.
A mãe disse-lhe, num tom gentil:
— Sadako, só saímos às sete e meia. Senta-te e espera, sossegada, que estejamos todos prontos.
Sadako sentou-se na esteira. Os pais nunca estavam com pressa! De repente, uma aranha aveludada atravessou a sala. Era um bom presságio. Sadako tinha a certeza de que aquele ia ser um dia fantástico. Colocou a aranha na palma da mão e deitou-a fora com cuidado.
— Digam o que disserem, as aranhas nunca deram sorte! — disse Masahiro.
— É o que veremos! — respondeu-lhe Sadako, alegremente.


O Dia da Paz

A família Sasaki pôs-se a caminho. O dia estava quente e as ruas encontravam-se cheias de gente e de pó. Sadako correu ao encontro de Chizuko, a sua melhor amiga. Conheciam-se desde o infantário. Sadako sentia que iriam ser sempre muito boas amigas.
Chizuko fez-lhe sinal e aproximou-se, sem pressa. Sadako suspirou. Se ao menos a amiga fosse mais rápida.
— Que tartaruga! Despacha-te ou vamos perder tudo!
— Sadako, anda mais devagar por causa do calor — avisou a mãe.
Mas as raparigas já estavam no fim da rua. A senhora Sasaki franziu o sobrolho.
— A Sadako tem sempre tanta pressa que nunca pára para me ouvir.
— Já a viste caminhar, se podia correr, andar a pé coxinho, ou aos saltos? — perguntou-lhe o marido, orgulhoso da filha, que conseguia correr tão longe e tão depressa.
À entrada do Parque da Paz, as pessoas, em silêncio, fizeram fila indiana. Nas paredes do monumento aos mortos estavam expostas fotografias das vítimas, tiradas um pouco por toda a cidade devastada. A bomba atómica, também chamada “bola de luz”, transformara Hiroshima num deserto.
Sadako recusou-se a ver aquelas imagens assustadoras. Atravessou o edifício, apertando com força a mão de Chizuko.
— Lembro-me da “bola de luz” — murmurou Sadako ao ouvido da amiga. O céu parecia iluminado por mil sóis. O calor trespassou-me como se mil agulhas estivessem a espetar-me!
— Mas tu não passavas de um bebé! Como podes lembrar-te? — perguntou Chizuko.
— Claro que me lembro! — teimou Sadako.
Os sacerdotes budistas e o Presidente da Câmara pronunciaram discursos e depois alguém soltou centenas de pombas brancas, que fizeram um círculo em roda do templo de Genbaku. Para Sadako, estas pombas simbolizavam as almas dos mortos a elevarem-se, livres, no céu. Logo que as cerimónias acabaram, Sadako encaminhou a família para a senhora que vendia algodão-doce. A guloseima ainda sabia melhor do que no ano passado. O dia passou depressa, como sempre! Sadako observou tudo o que estava exposto nas prateleiras e cheirou a comida deliciosa. Havia lojas que vendiam de tudo, desde bolos de soja a grilos.
Seria tudo perfeito se não tivesse de se cruzar com pessoas cheias de cicatrizes esbranquiçadas. Tinham ficado tão queimadas pela bomba que já quase não tinham aparência humana. Sadako não pôde impedir-se de virar a cara à primeira que se aproximou dela.
O barulho da multidão aumentava à medida que a noite caía. Logo que o brilho do último fogo de artifício se esbateu no céu, a multidão dirigiu-se para o rio Ohta com lanternas de papel na mão. O senhor Sasaki tivera o cuidado de acender as velas no interior dos seis lampiões, um para cada membro da família. As lanternas ostentavam os nomes dos familiares mortos pela “bola de luz”. Sadako escolheu pôr o nome da avó na sua. Quando todas as chamas iluminaram a margem, cada um depôs a sua lanterna no rio Ohta, que as conduziria ao mar, como se fossem milhares de pirilampos a flutuar nas águas escuras.
Nessa noite, Sadako demorou a adormecer. Tentou lembrar-se de tudo o que se tinha passado durante o dia. Afinal, Masahiro estava errado. No dia seguinte, Sadako iria dizer ao irmão que a aranha lhe tinha dado sorte.



O Segredo de Sadako

No início do Outono, Sadako recebeu uma notícia tão boa que mal podia esperar para a contar à família. Quando chegou a casa, descalçou os sapatos e abriu a porta com grande alarido.
— Cheguei!
A senhora Sasaki preparava o jantar na cozinha.
— Nem vais acreditar no que tenho para te dizer! Adivinha!
— Passam-se tantas coisas maravilhosas na tua vida, Sadako. Desisto.
— Lembras-te da corrida para a festa das escolas? Fui escolhida pela Turma Bambu para fazer parte da equipa de estafetas.
Sadako dançava na cozinha e fazia voltear a pasta.
— Se ganharmos, serei seleccionada para fazer parte da equipa do colégio!
É o que Sadako mais desejava na vida.
Ao jantar, o senhor Sasaki discorreu longamente sobre o orgulho e a honra familiares. Até Masahiro se sentiu emocionado. Sadako, demasiado excitada para engolir o que quer que fosse, sorria extasiada.
A partir daquele momento, só pensava na corrida de estafetas. Treinava todos os dias e, às vezes, até vinha para casa a correr. Um dia, Masahiro cronometrou-a com o grande relógio do pai e o tempo de Sadako surpreendeu toda a gente. “Quem sabe”, sonhava, “se virei a ser a melhor corredora da escola?”
O grande dia chegou por fim. Uma multidão de pais, familiares e amigos foi assistir às provas. Sadako estava tão nervosa que temia que as pernas não lhe obedecessem. As colegas de equipa pareciam-lhe, de repente, mais pequenas e menos fortes do que as adversárias. A menina confiou os seus receios à mãe, que a tranquilizou:
— É natural que tenhas medo, filha. Mas não te preocupes. Quando estiveres na pista, vais sentir-te forte outra vez.
Chegou a hora da prova.
— Faz o melhor que puderes — disse o senhor Sasaki, pegando na mão da filha. — Temos muito orgulho em ti.
Graças aos ternos encorajamentos dos pais, Sadako sentiu-se menos receosa. “Não importa se ganho ou perco; a minha família gosta de mim”, pensou.
Quando deram o sinal de partida, Sadako concentrou-se. Logo que lhe entregaram o testemunho, correu até perder o fôlego. No fim da prova, o coração doía-lhe de tanto bater. Sadako sentiu-se mal. Tinha vertigens e quase não ouvia o anúncio da vitória da sua equipa. Em volta dela, toda a Turma Bambu aplaudia e gritava de alegria. Sacudiu a cabeça uma ou duas vezes e o mal-estar dissipou-se.
Sadako passou o Inverno a tentar melhorar o seu tempo. Tinha de treinar todos os dias se quisesse entrar na equipa do colégio. Às vezes, depois de ter corrido muito, sentia vertigens, mas decidiu não falar disso a ninguém. Tentou convencer-se de que tudo estava bem, e de que as tonturas iriam desaparecer tão depressa quanto tinham aparecido. Mas não melhorou. Cheia de medo, escondeu este segredo de todos, inclusive da sua melhor amiga, Chizuko.
Na véspera do ano novo, Sadako pediu que o seu mal-estar desaparecesse como por encanto. Tudo seria perfeito se não tivesse de carregar aquele fardo. À meia-noite, confortavelmente coberta com um edredão de penas, ouviu os sinos do templo. Dizia-se que, a cada badalada, os demónios do ano que findava eram expulsos para darem lugar ao novo ano. Sadako repetiu doze vezes o seu desejo.
Na manhã seguinte, como de costume, a família Sasaki juntou-se à multidão que ia homenagear os mortos. A senhora Sasaki estava muito elegante no seu quimono de seda com flores estampadas. Prometeu a Sadako:
— Quando puder, hei-de oferecer-te um lindo quimono. Uma rapariga da tua idade deve ter sempre um no guarda-roupa.
Sadako agradeceu educadamente mas, naquele momento, ter um quimono era a menor das suas preocupações. Estava obcecada pelas corridas e pela equipa do colégio. No meio de tantas pessoas felizes, conseguiu, por instantes, esquecer o seu terrível segredo. A alegria daquele dia de Inverno afastou as suas inquietações. Ao regressar a casa, fez uma corrida com o irmão mais velho e bateu-o. A senhora Sasaki pendurou por cima da porta os símbolos de prosperidade, que protegeriam a casa ao longo do ano. Um ano que começava tão bem dificilmente acabaria mal.


Um segredo desvendado

Durante várias semanas, as orações e os sinais de bom augúrio pareciam surtir efeito. Sadako sentia-se bem e corria cada vez mais longe e mais depressa.
Mas o seu sonho terminou num dia de Fevereiro, frio e cruel. Sadako estava a correr no recreio da escola quando, de repente, começou a ver tudo à roda e caiu ao chão. Um professor precipitou-se para a ajudar.
— Penso… penso que estou um pouco cansada — disse-lhe Sadako, com uma voz fraca.
Quando tentou levantar-se, as pernas tremeram e cederam. O professor pediu a Mitsue que fosse para casa e prevenisse o senhor Sasaki.
Este fechou imediatamente o salão de cabeleireiro e levou a filha ao hospital da Cruz Vermelha. Ao entrar no hospital, Sadako sentiu muito medo. Uma parte do edifício era reservada às pessoas que sofriam da doença da bomba.
Alguns minutos mais tarde, Sadako foi admitida: uma enfermeira fez-lhe uma radiografia aos pulmões e tirou-lhe sangue para análise. O Dr. Numata examinou-lhe as costas e fez-lhe várias perguntas. Três outros médicos vieram também examiná-la. Um deles sacudiu a cabeça e passou-lhe a mão pelos cabelos.
Toda a família de Sadako foi visitá-la. Os pais falavam com o médico em voz baixa. De repente, a senhora Sasaki exclamou:
— Uma leucemia! Não pode ser!
Mal ouviu aquela palavra aterradora, Sadako tapou os ouvidos. Como podia ela sofrer da doença, se a bomba nem lhe tocara? Uma enfermeira, a senhora Yasunaga, acompanhou-a ao quarto e deu-lhe uma espécie de quimono feito de algodão. Mal Sadako se deitou, a família entrou no quarto.
A senhora Sasaki abraçou a filha.
— Tens de ficar aqui durante algum tempo — disse-lhe, num tom de voz que se esforçava por ser alegre. — Virei ver-te todas as noites.
— Nós… nós vimos depois da escola — prometeu Masahiro.
Assustados, Mitsue e Eiji assentiram.
— É verdade que tenho a doença da bomba? — perguntou Sadako ao pai.
O olhar do senhor Sasaki toldou-se, mas tranquilizou a filha:
— Os médicos querem fazer exames suplementares, é tudo! Penso que terás de ficar aqui duas ou três semanas.
Duas ou três semanas! Mas isso era uma eternidade. Já não iam aceitá-la no colégio. Pior ainda: já não ia poder fazer parte da equipa de estafetas. Com um nó na garganta, Sadako reteve as lágrimas.
A senhora Sasaki sacudiu as almofadas e ajustou a coberta. O pai tossicou.
— Precisas…precisas de alguma coisa?
Sadako abanou a cabeça. Do que ela precisava era de regressar a casa. Mas quando? Sente um nó no estômago. Ouviu dizer que muitas das pessoas que eram internadas nunca regressavam a casa.
A senhora Yasunaga disse que Sadako tinha de descansar e que a hora das visitas terminara. Depois de todos se irem embora, a menina enfiou a cara na almofada e chorou. Nunca se tinha sentido tão só e infeliz na vida.


A grua dourada

Na manhã seguinte, Sadako despertou devagar. Tentou ouvir os barulhos habituais da casa: a mãe a preparar o pequeno almoço…mas só lhe chegaram aos ouvidos os sons novos e diferentes do hospital. Suspirou fundo. Tinha desejado tanto que a véspera não tivesse passado de um sonho mau. Mas a chegada da senhora Yasunaga obrigou-a a encarar a realidade. Vinha dar-lhe a primeira injecção.
— As injecções fazem parte da vida no hospital — cantarolou a enfermeira roliça. — Tens de te habituar.
— Eu quero é ficar boa…para poder regressar a casa.
De tarde, Sadako recebeu a sua primeira visita: Chizuko. A amiga sorria misteriosamente e trazia algo escondido atrás das costas.
— Fecha os olhos — pediu Chizuko. Sadako obedeceu prontamente. A amiga colocou algumas folhas de papel e um par de tesouras em cima da cama.
— Já podes abri-los.
— O que é?
Chizuko sorria. Estava muito contente com a surpresa que acabava de fazer à amiga.
— Pensei muito naquilo que te faria sentir melhor — disse com orgulho. — Olha!
Cortou um grande quadrado de papel dourado e, depois de o dobrar algumas vezes, mostrou o pássaro magnífico que tinha feito: era uma grua.
— Mas como posso melhorar com um origami? — inquiriu Sadako, perplexa.
— Não te lembras da lenda das gruas? — perguntou-lhe Chizuko. — Diz-se que vivem mil anos. Se uma pessoa doente fizer mil, os deuses escutarão as suas preces e curá-la-ão.
Estendeu a grua à amiga.
— Ofereço-te a primeira.
Os olhos de Sadako encheram-se de lágrimas. Chizuko era tão gentil em lhe oferecer este talismã, logo ela que não acreditava em augúrios. Sadako pegou na grua dourada e formulou um desejo. Experimentou uma sensação esquisita no momento em que tocou no pássaro: devia ser um bom sinal!
— Obrigada, Chizuko. Nunca hei-de separar-me dela.
Sadako tentou fazer um pássaro, mas não era tão fácil quanto parecia. Chizuko explicou-lhe as partes difíceis. Em cima da mesa-de-cabeceira, ao lado da grua dourada, Sadako colocou os primeiros dez pássaros que fez. Não eram todos perfeitos, mas para começar…
— Já só faltam novecentos e noventa — disse Sadako.
Sentia-se bem com a grua-talismã junto dela. Dentro de algumas semanas, já teria certamente feito mil. Nessa altura, estaria pronta para regressar a casa.
Nessa tarde, Masahiro trouxe-lhe os deveres da escola. Quando viu todos os origami, exclamou:
— Mas estes pássaros estão a ocupar espaço demais. Deixa-me pendurá-los no tecto.
Sadako sorriu abertamente.
— Prometes que penduras todos os que eu fizer?
Masahiro prometeu.
— Muito bem! — disse Sadako, com os olhos a brilhar de malandrice. — Então vais ter de pendurar mil!
— Mil? Estás a brincar, espero — resmungou o irmão.
Sadako contou-lhe a lenda das mil gruas. Masahiro coçou a cabeça.
— Enganaste-me bem — disse, fazendo uma careta. — Mas vou cumprir a minha promessa.
Pediu fio e tachas à enfermeira e pendurou os primeiros pássaros. A grua dourada continuava na mesa-de-cabeceira. Quando a senhora Sasaki chegou, acompanhada de Mitsue e de Eiji, ficaram os três surpreendidos ao ver os pássaros no tecto. A mãe lembrou-se de um velho poema:

Em papel colorido
Aves entraram voando
Na nossa casa.

Mitsue e Eiji gostavam mais do pássaro dourado. A mãe escolheu o mais pequeno, feito em papel verde com guarda-sóis cor-de-rosa.
— Escolho este porque os mais pequenos são os mais difíceis de fazer.
Depois das visitas saírem, os doentes sentiam-se muito sozinhos no hospital. Para se manter ocupada e optimista, Sadako fez mais alguns pássaros.
Onze…Vou ficar boa depressa…
Doze…Vou ficar boa depressa…


Kenji

Todos punham pedaços de papel de lado para as gruas de Sadako. Chizuko trouxe-lhe o papel que a Turma Bambu tinha oferecido; o senhor Sasaki recuperava todo o papel que podia no salão de cabeleireiro. Até a senhora Yasunaga lhe oferecia embalagens de medicamentos. Conforme prometera, Masahiro pendurou todos os pássaros no tecto do quarto. Às vezes, ficavam vários suspensos do mesmo fio.
Durante os meses seguintes, Sadako sentiu-se um pouco melhor. No entanto, o Dr. Numata preferiu que ela continuasse no hospital. A menina sabia que estava com leucemia, mas também sabia que algumas pessoas se curavam. Tinha esperança de vir a ser uma delas. Nos dias que corriam bem, o tempo passava depressa entre os deveres da escola, as visitas que ela distraía com jogos, adivinhas e canções, e as cartas que escrevia a amigos e correspondentes. As noites eram consagradas às gruas de papel. Sadako já tinha mais de trezentas, impecavelmente dobradas. Os seus dedos já se tinham habituado à tarefa: trabalhavam depressa e nunca se enganavam.
Nos dias que corriam mal, tinha dores. Pouco a pouco, a doença da bomba tirara-lhe todas as energias. Quando não estava prostrada, com enxaquecas horríveis que a impediam de ler e escrever, tinha a sensação de que os seus ossos estavam a arder. As vertigens, cada vez mais frequentes, mergulhavam-na num torpor imenso. Sentia-se fraca demais para fazer o que quer que fosse. Ficava então sentada junto da janela e olhava com inveja o ácer do pátio. Passava horas a observá-lo, com a grua dourada no regaço. Naquele dia estava particularmente cansada, mas a senhora Yasunaga insistiu em levá-la na cadeira de rodas até ao pórtico cheio de sol. Aí, Sadako encontrou Kenji pela primeira vez. Tinha nove anos e era pequeno para a idade. A cara era magra e os seus olhos negros brilhavam.
— Olá! Chamo-me Sadako.
Kenji saudou-a docemente, numa voz apagada. Em breve estavam a falar como se se conhecessem desde sempre. Kenji já estava no hospital há muito tempo, mas tinha poucas visitas. Era órfão e morava com uma das tias numa cidade próxima.
— É tão velhinha que só vem ver-me uma vez por semana — confessou a Sadako. — Passo a maior parte do tempo a ler.
Sadako virou a cabeça quando viu o rosto de Kenji ensombrar-se.
— Não é grave — suspirou o menino — porque vou morrer em breve. Tenho a doença da bomba.
— Mas isso é impossível — replicou Sadako. — Nem sequer eras nascido quando a bomba caiu.
— O veneno contaminou o corpo da minha mãe e ela transmitiu-mo.
Sadako gostaria de o reconfortar, mas nem sabia o que dizer. De repente, lembrou-se da lenda das gruas.
— Podias fazer origami como eu — sugeriu-lhe. — Ainda pode acontecer algum milagre!
— Já conheço a história das gruas — respondeu Kenji, tranquilamente — mas é demasiado tarde. Nem mesmo os deuses podem ajudar-me…
A enfermeira juntou-se a eles e perguntou ao menino, num tom severo:
— Kenji, como podes falar assim?
O rapaz lançou-lhe um olhar intenso:
— Não sou nenhum idiota! Além do mais, sei ler. Os resultados das minhas análises estão cada vez piores.
A enfermeira ficou perturbada.
— Com essa tagarelice vais cansar-te ainda mais…
Levou Kenji de volta para o interior do hospital.
Quando Sadako voltou para o quarto, estava pensativa. Tentou imaginar-se doente e sem família. Achava que Kenji era um menino muito corajoso. Fez uma grua no seu papel mais bonito e lançou-a para dentro do quarto do menino, que ficava em frente ao seu. Será que o pássaro iria dar-lhe sorte? Sadako dobrou mais alguns origami para a sua colecção.
Trezentos e noventa e oito…
Trezentos e noventa e nove…
No dia seguinte, Kenji não estava no pórtico. Sadako tinha ouvido barulho no corredor a altas horas da noite, o barulho de uma cama a ser deslocada. A senhora Yasunaga veio anunciar-lhe a morte do amigo. Sadako virou-se para a parede e deixou correr as lágrimas. A enfermeira colocou-lhe suavemente a mão no ombro com gentileza.
— Vem sentar-te junto da janela para falarmos um pouco — convidou-a.
Sadako parou de soluçar e pôs-se a olhar o luar.
— Acha que o Kenji está lá em cima, no mar de estrelas?
— Onde quer que esteja, estou certa de que está feliz — respondeu-lhe a enfermeira. — Já se libertou do corpo fatigado e doente. O seu espírito é agora livre.
Em silêncio, Sadako escutava o rumorejar das folhas do ácer.
— Sou eu a seguir, não sou?
— Claro que não! — respondeu-lhe a enfermeira, sacudindo energicamente a cabeça. — Trouxe-te um pedacinho de papel colorido. Vais fazer uma grua para mim antes de te deitares. Quando tiveres acabado os teus mil pássaros, já serás velhinha.
Sadako queria muito acreditar no que a enfermeira lhe disse e pôs-se a fazer mais pássaros.
Quatrocentos e sessenta e três…Vou ficar boa depressa…
Quatrocentos e sessenta e quatro…Vou ficar boa depressa…


Centenas de desejos

Chegou o mês de Junho e com ele os aguaceiros. Dia após dia, uma chuva tão cinzenta como o céu fustigava as janelas. A água escorria ao longo das folhas da árvore do pátio. O quarto começou a cheirar a mofo. Até os lençóis estavam húmidos.
Sadako empalidecia a olhos vistos e perdera totalmente as forças. As únicas visitas autorizadas eram as dos pais e as de Masahiro, o irmão mais velho. A turma ofereceu-lhe uma boneca Kokeshi para a animar. Sadako gostava muito do sorriso melancólico da boneca de madeira, bem como das rosas vermelhas pintadas no quimono. Pô-la na mesa-de-cabeceira, ao lado da grua dourada.
A senhora Sasaki sentia-se inquieta porque a filha não se alimentava devidamente. Um dia, trouxe-lhe uma surpresa, embrulhada num furoshiki. No quadrado de tecido vinha tudo aquilo de que Sadako mais gostava: paté imperial, frango e arroz, ameixas em calda e bolos de soja.
Sadako reclinou-se nas almofadas e tentou comer. Mas em vão: as gengivas inflamadas doíam-lhe tanto que não conseguia mastigar. Acabou por desistir. Afastou a comida com as mãos. Os olhos da mãe brilhavam como se fosse chorar. Sadako exclamou:
— Sou lenta como uma tartaruga.
Não queria que a mãe se sentisse mal. Sabia que a família não podia dar-se ao luxo de comprar comida tão cara. As lágrimas ardiam-lhe nos olhos, mas apressou-se a limpá-las.
— Não te aflijas — tranquilizou-a a mãe, abraçando-a. — Em breve estarás melhor. Nessa altura…
A senhora Sasaki leu poemas, com a filha aninhada no colo dela. Quando Masahiro chegou, a irmã estava mais tranquila e feliz. Masahiro contou-lhe as últimas novidades da escola e debicou o jantar-surpresa. Antes de se ir embora, disse:
— Já me esquecia! O Eiji manda-te uma prenda.
Enfia a mão no bolso e tira um pedaço de papel prateado e amarrotado.
— Diz que é para fazeres uma grua.
Sadako cheirou o papel.
— Hum… Cheira-me a açúcar cristalizado. Espero que os deuses gostem.
Desataram os três a rir. Há vários dias que Sadako não se ria. Era bom sinal. Será que a magia da grua dourada já tinha começado a fazer efeito? Alisou o papel e fez um pássaro. Quinhentos e quarenta e dois… Mas estava demasiado cansada para continuar. Estendeu-se na cama e fechou os olhos. Ao sair do quarto em bicos de pés, a senhora Sasaki murmurou um poema que recitava a Sadako quando esta era bebé:

Oh! Nuvem de gruas celestes
Protegei o meu filho
Com as vossas asas.


Os últimos dias


Naquele fim de Julho, o sol brilhava e fazia calor. Sadako parecia estar melhor.
— Já ultrapassei as quinhentas gruas — disse a Masahiro. Sinto que vai acontecer algo de bom.
Com efeito, o apetite voltara e as dores eram agora menos fortes. Contente com os progressos de Sadako, o Dr. Numata anunciou que Sadako ia poder ir passar uns dias a casa. Nessa noite, Sadako estava tão excitada que não conseguia dormir. Continuou a fazer gruas para que a magia perdurasse.
Seiscentas e vinte e uma…
Seiscentas e vinte e duas…
Que bom era estar em casa, com a família, a passar as férias grandes! Celebrava-se o O Ban, a festa dos mortos, que regressavam à terra para visitar os seus entes queridos. A senhora Sasaki e Mitsue limparam a casa com desvelo. Havia flores sobre a mesa. A grua dourada e a boneca também lá estavam. Cheirava às iguarias deliciosas dos dias de festa. No altar havia bolos de soja e bolas de arroz dispostos em pratinhos, para os espíritos que estavam de visita. Ao cair da tarde, a senhora Sasaki pendurou uma lanterna por cima da porta para que eles não se perdessem na escuridão. Sadako suspirou de alegria. Talvez não tivesse de regressar ao hospital.
Durante vários dias, os amigos e familiares visitaram-na continuamente. No fim-de-semana, a menina estava de novo pálida e cansada. Contentava-se em ficar sentada, sem se mexer, a olhar para os estavam à sua volta.
— A Sadako é agora uma menina muito educada — disse o pai. — A avó deve estar contente ao ver a neta comportar-se tão bem.
— Como podes falar assim? — insurgiu-se a esposa. — Dava tudo para ter de volta a nossa filha irrequieta.
Precipitou-se para a cozinha enquanto enxugava as lágrimas.
“Estão todos tristes por minha causa”, pensou Sadako “Gostava tanto de voltar ser com dantes. A mamã ficava tão contente!”
Como se lesse os pensamentos da filha, o senhor Sasaki disse-lhe num tom sacudido:
— Então, vá lá… Não te preocupes. Depois de uma boa noite de sono, vais sentir-te melhor.
No dia seguinte, Sadako teve de voltar ao hospital. Pela primeira vez, sentiu-se feliz por regressar à tranquilidade do seu quarto. Os pais ficaram com ela durante muito tempo. De vez em quando, Sadako mergulhava numa estranha sonolência.
— Quando morrer — pediu-lhes — prometem que colocam os meus bolos de soja preferidos no altar, para acolherem o meu espírito?
Demasiado emocionada para falar, a senhora Sasaki apertou com força a mão da filha.
— Chut…— murmurou o pai, numa voz estranha. — Ainda falta muito tempo para que isso aconteça. Não desistas, filha. Só faltam algumas centenas de gruas.
A enfermeira trouxe calmantes. Antes de fechar os olhos, Sadako tocou ao de leve na grua dourada.
— Em breve estarei boa — sussurrou à boneca — e um dia vou correr tão depressa como o vento.
O Dr. Numata fazia-lhe transfusões e dava-lhe injecções quase todos os dias.
— Sei que tens dores, mas não podemos baixar os braços.
A menina anuiu com a cabeça. Nunca se queixava, apesar das dores quase permanentes. Um sofrimento ainda mais horrível a dominava: o medo da morte. Felizmente que a grua dourada a ajudava a resistir, lembrando-lhe de que era preciso manter a esperança.
A senhora Sasaki passava cada vez mais tempo no hospital. Todas as tardes, Sadako ouvia o barulho familiar dos sapatos de plástico que as visitas do hospital tinham de calçar. Os da mãe faziam um barulho particular. Sadako tinha consciência da profunda inquietação da mãe.
As folhas do ácer estavam revestidas de tons de ferrugem e ouro quando os Sasaki vieram fazer uma das últimas visitas a Sadako. Eiji entregou à irmã um embrulho em papel dourado, atado com uma fita vermelha. Sadako abriu-o lentamente e encontrou um quimono em seda estampada com flores de cerejeira. É a prenda que a mãe tanto queria oferecer-lhe. A menina ficou os olhos cheios de lágrimas.
— Nunca vou poder usá-lo e é tão caro!
— Sadako — disse-lhe o pai, num tom de voz doce — a tua mãe deitou-se ontem muito tarde para acabar de o coser. Que tal se o experimentasses, para ela ver se te fica bem?
Sadako teve muita dificuldade de sair da cama. A mãe ajudou-a a enfiar o quimono e a colocar a banda à cinta. A menina ficou contente por ninguém ver as suas pernas inchadas. Atravessou o quarto num passo hesitante e foi sentar-se no sofá junto da janela. Todos se extasiaram diante daquela bela princesa.
Chizuko entrou nesse momento. O Dr. Numata deu-lhe permissão para uma curta visita.
— Fica-te melhor do que o uniforme da escola! — exclamou.
Todos se riram, incluindo Sadako.
— Então, quando estiver melhor, levo-o todos os dias para a escola — brincou.
Mitsue e Eiji riram-se da ideia. Todos tinham a impressão de reviver os bons momentos passados em família. Entretiveram-se com jogos de letras e trautearam as canções favoritas de Sadako. Esta nem se mexia no sofá e tentava por tudo esconder-lhes o seu sofrimento.
A presença deles valia o sacrifício. Quando se foram embora, os pais pareciam quase alegres.
Antes de adormecer, Sadako só conseguiu fazer uma grua. Seiscentas e quarenta e quatro… Seria a última.


Correr tão veloz como o vento

Enquanto enfraquecia a olhos vistos, Sadako pensava cada vez mais na morte. Será que iria viver numa montanha celeste? Será que morrer doía? Será que apenas adormecíamos?
“Se ao menos pudesse deixar de pensar na morte”, disse Sadako para consigo mesma. Mas isso seria como impedir a chuva de cair. A menina não conseguia concentrar-se em nada muito tempo seguido: a morte vinha-lhe constantemente à ideia.
Em meados de Outubro, Sadako começou a perder a noção do tempo. Quando acordou uma manhã, viu a mãe a chorar.
— Não chores, peço-te.
Sadako gostaria de a reconfortar, mas não conseguia mexer nem a boca nem a língua. Uma lágrima deslizou-lhe pela face. A família sofria tanto por sua causa! Talvez bastasse dobrar mais algumas gruas e esperar por um milagre? Ainda pegou num quadrado de papel, mas os seus dedos inchados já não conseguiam fazer nada. “Sou mesmo uma tartaruga. Nem um pássaro consigo fazer.” Sadako tentou dobrar o papel, antes de desfalecer.
Alguns minutos, que pareceram horas, mais tarde, o Dr. Numata entrou e pôs-lhe a mão na testa. Tirou-lhe o papel das mãos com cuidado. Sadako já quase não o ouviu dizer:
— Tens de descansar. Amanhã continuas.
A menina disse que sim com a cabeça. Amanhã…Como amanhã vem longe…
Quando acordou, a família estava reunida em volta dela. Sadako sorriu‑lhes. Sentia que fazia e faria sempre parte daquele círculo cheio de amor e carinho, e que isso nunca iria alterar-se. De repente, começou a ver luzes a dançar diante dos olhos. Estendeu uma mão trémula em direcção à grua dourada. As forças fugiam-lhe, mas o pássaro de papel transmitia-lhe uma grande energia.
Sadako ergueu os olhos para todas as gruas suspensas do tecto. Nesse mesmo instante, uma ligeira brisa de Outono fê-los ondular. Pareciam vivas e dir-se-ia que queriam sair pela janela. Que beleza! Que liberdade! Sadako suspirou e fechou os olhos.
Para não mais os abrir.


Epílogo

Sadako Sasaki morreu a 25 de Outubro de 1955. Os seus colegas de turma dobraram trezentas e cinquenta e seis gruas para que ela fosse enterrada com mil pássaros. O seu desejo de viver longamente foi assim, de alguma forma, realizado, uma vez que viverá para sempre no coração de todos.
Depois das exéquias, a Turma Bambu publicou um livro com as cartas de Sadako, e intitularam-no Kokeshi, em memória da boneca que lhe tinham oferecido no hospital. O livro viajou por todo o Japão e celebrizou a história de Sadako e dos mil pássaros de papel. Os seus amigos sonhavam construir um monumento que eternizasse a memória de Sadako e de todas as crianças mortas pela bomba atómica. Jovens de todo o país uniram esforços e ajudaram-nos a recolher fundos para esse projecto. Em 1958, o seu sonho tornou-se realidade: no Parque da Paz, em Hiroshima, foi descerrada uma estátua de Sadako, que aparece no topo de uma montanha celeste em granito, com uma grua de ouro nas mãos.
Um clube de gruas feitas em origami foi fundado em sua honra e, todos os anos, no dia 6 de Agosto, os seus membros depõem junto da estátua milhares de gruas em papel. Nesse dia, o Dia da Paz, aproveitam para formular um desejo. Esse desejo encontra-se gravado na base da estátua:

Eis o nosso clamor
Eis a nossa prece
Para construir a paz no mundo.


Eleanor Coerr
Les mille oiseaux de Sadako



19/07/2010

O conto da ilha desconhecida




Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.

Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele. Ora, isto era um enorme problema, se tivermos em consideração que, de acordo com a pragmática das portas, ali só se podia atender um suplicante de cada vez, donde resultava que, enquanto houvesse alguém à espera de resposta, nenhuma outra pessoa se poderia aproximar a fim de expor as suas necessidades ou as suas ambições. À primeira vista, quem ficava a ganhar com este artigo do regulamento era o rei, dado que, sendo menos numerosa a gente que o vinha incomodar com lamúrias, mais tempo ele passava a ter, e mais descanso, para receber, contemplar e guardar os obséquios. À segunda vista, porém, o rei perdia, e muito, porque os protestos públicos, ao notar-se que a resposta estava a tardar mais do que o justo, faziam aumentar gravemente o descontentamento social, o que, por seu turno, ia ter imediatas e negativas consequências no afluxo de obséquios. No caso que estamos narrando, o resultado da ponderação entre os benefícios e os prejuízos foi ter ido o rei, ao cabo de três dias, e em real pessoa, à porta das petições, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocráticas. Abre a porta, disse o rei à mulher da limpeza, e ela perguntou, Toda, ou só um bocadinho. O rei duvidou por um instante, na verdade não gostava muito de se expor aos ares da rua, mas depois reflexionou que pareceria mal, além de ser indigno da sua majestade, falar com um súdito através de uma nesga, como se tivesse medo dele, mormente estando a assistir ao colóquio a mulher da limpeza, que logo iria dizer por aí sabe Deus o quê, De par em par, ordenou. O homem que queria um barco levantou-se do degrau da porta quando começou a ouvir correr os ferrolhos, enrolou a manta e pôs-se à espera. Estes sinais de que finalmente alguém vinha atender, e que portanto a praça não tardaria a ficar desocupada, fizeram aproximar-se da porta uns quantos aspirantes à liberalidade do trono que por ali andavam, prontos a assaltar o lugar mal ele vagasse. O inopinado aparecimento do rei (nunca uma tal coisa havia sucedido desde que ele andava de coroa na cabeça) causou uma surpresa desmedida, não só aos ditos candidatos mas também à vizinhança que, atraída pelo repentino alvoroço, assomara às janelas das casas, no outro lado da rua. A única pessoa que não se surpreendeu por aí além foi o homem que tinha vindo pedir um barco. Calculara ele, e acertara na previsão, que o rei, mesmo que demorasse três dias, haveria de sentir-se curioso de ver a cara de quem, sem mais nem menos, com notável atrevimento, o mandara chamar. Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns, trabalhos menores de costura no palácio como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria um barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes à porta das petições, em quem, minuto após minuto, desde o princípio da conversa, a impaciência vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solidária, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer à mulher da limpeza que chamasse a guarda do palácio a vir restabelecer imediatamente a ordem pública e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. Perante uma tão iniludível manifestação da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, já haveria perdido na porta dos obséquios, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas. Os gritos de aplauso do público não deixaram que se percebesse o agradecimento do homem que viera pedir um barco, aliás o movimento dos lábios tanto teria podido ser Obrigado, meu senhor, como Eu cá me arranjarei, mas o que distintamente se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais à doca, perguntas lá pelo capitão do porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te dê o barco, levas o meu cartão. O homem que ia receber um barco leu o cartão de visita, onde dizia Rei por baixo do nome do rei, e eram estas as palavras que ele havia escrito sobre o ombro da mulher da limpeza, Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro, não quero ter remorsos na consciência se as coisas lhe correrem mal. Quando o homem levantou a cabeça, supõe-se que desta vez é que iria agradecer a dádiva, já o rei se tinha retirado, só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar, nem valeria a pena explicar que a confusão foi indescritível, todos a quererem chegar ao sítio em primeiro lugar, mas com tão má sorte que a porta já estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. Agora sim, agora pode-se compreender o porquê da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atrás do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira, no mar, ao menos, a água nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.

Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por trás de uns bidões, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, Para o meu gosto, aquele, pensou, porém a sua opinião não contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dirá o capitão do porto. O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse. O capitão tornou a ler o cartão do rei, depois perguntou, Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais à procura de uma onde nunca ninguém tenha desembarcado, Sabê-lo-ei quando lá chegar, Se chegares, Sim, às vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já. O capitão do porto disse, Vou dar-te a embarcação que te convém, Qual é ela, É um barco com muita experiência, ainda do tempo em que toda a gente andava à procura de ilhas desconhecidas, Qual é ele, Julgo até que encontrou algumas, Qual, Aquele. Assim que a mulher da limpeza percebeu para onde o capitão apontava, saiu a correr de detrás dos bidões e gritou, É o meu barco, é o meu barco, há que perdoar-lhe a insólita reivindicação de propriedade, a todos os títulos abusiva, o barco era aquele de que ela tinha gostado, simplesmente. Parece uma caravela, disse o homem, Mais ou menos, concordou o capitão, no princípio era uma caravela, depois passou por arranjos e adaptações que a modificaram um bocado, Mas continua a ser uma caravela, Sim, no conjunto conserva o antigo ar, E tem mastros e velas, Quando se vai procurar ilhas desconhecidas, é o mais recomendável. A mulher da limpeza não se conteve, Para mim não quero outro, Quem és tu, perguntou o homem, Não te lembras de mim, Não tenho idéia, Sou a mulher da limpeza, Qual limpeza, A do palácio do rei, A que abria a porta das petições, Não havia outra, E por que não estás tu no palácio do rei a limpar e a abrir portas, Porque as portas que eu realmente queria já foram abertas e porque de hoje em diante só limparei barcos, Então estás decidida a ir comigo procurar a ilha desconhecida, Saí do palácio pela porta das decisões, Sendo assim, vai para a caravela, vê como está aquilo, depois do tempo que passou deve precisar de uma boa lavagem, e tem cuidado com as gaivotas, que não são de fiar, Não queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, Tu disseste que era teu, Desculpa, foi só porque gostei dele, Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. O capitão do porto interrompeu a conversa, Tenho de entregar as chaves ao dono do barco, a um ou a outro, resolvam-se, a mim tanto se me dá, Os barcos têm chave, perguntou o homem, Para entrar, não, mas lá estão as arrecadações e os paióis, e a escrivaninha do comandante com o diário de bordo, Ela que se encarregue de tudo, eu vou recrutar a tripulação, disse o homem, e afastou-se.

A mulher da limpeza foi ao escritório do capitão para recolher as chaves, depois entrou no barco, duas coisas lhe valeram aí, a vassoura do palácio e a prevenção contra as gaivotas, ainda não tinha acabado de atravessar a prancha que ligava a amurada ao cais e já as malvadas estavam a precipitar-se sobre ela aos guinchos, furiosas, de goela aberta, como se ali mesmo a quisessem devorar. Não sabiam com quem se metiam. A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse. Atirou para a água os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, até ver. Depois arregaçou as mangas e pôs-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os esticões saudáveis do vento. As velas são os músculos do barco, basta ver como incham quando se esforçam, mas, e isso mesmo sucede aos músculos, se não se lhes dá uso regularmente, abrandam, amolecem, perdem nervo, E as costuras são como os nervos das velas, pensou a mulher da limpeza, contente por estar a aprender tão depressa a arte de marinharia. Achou esgarçadas algumas bainhas, mas contentou-se com assinalá-las, uma vez que para este trabalho não podiam servir a linha e a agulha com que passajava as peúgas dos pajens antigamente, quer dizer, ainda ontem. Quanto aos outros paióis, viu logo que estavam vazios. Que o da pólvora estivesse desmunido, salvo uns pozinhos negros no fundo, que primeiro mais lhe pareceram caganitas de rato, não lhe importou nada, de facto não está escrito em nenhuma lei, pelo menos até onde a sabedoria duma mulher da limpeza é capaz de alcançar, que ir em busca duma ilha desconhecida tenha de ser forçosamente uma empresa de guerra. Já a ralou, e muito, a falta absoluta de munições de boca no paiol respectivo, não por si própria, que estava mais do que acostumada ao mau passadio do palácio, mas por causa do homem a quem deram este barco, não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher, E se já traz marinheiros para a tripulação, que são uns ogres a comer, então é que não sei como nos iremos governar, disse a mulher da limpeza.

Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a idéia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.

Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero, Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mim, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela. A mulher, essa, não pensou nada, devia ter pensado tudo durante aqueles três dias, quando entreabria de vez em quando a porta para ver se aquele ainda continuava lá fora, à espera. Não sobrou migalha de pão ou de queijo, nem gota de vinho, os caroços das azeitonas foram atirados para a água, o chão está tão limpo como ficara quando a mulher da limpeza lhe passou por cima o último esfregão. A sereia de um paquete que saía para o mar soltou um ronco potente, como deviam ter sido os do leviatã, e a mulher disse, Quando for a nossa vez faremos menos barulho. Apesar de estarem no interior da doca, a água ondulou um pouco à passagem do paquete, e o homem disse, Mas baloiçaremos muito mais. Riram os dois, depois ficaram calados, passado um bocado um deles opinou que o melhor seria irem dormir, Não é que eu tenha muito sono, e o outro concordou, Nem eu, depois calaram-se outra vez, a lua subiu e continuou a subir, em certa altura a mulher disse, Há beliches lá em baixo, o homem disse, Sim, e foi então que se levantaram, que desceram à coberta, aí a mulher disse, Até amanhã, eu vou para este lado, e o homem respondeu, E eu vou para este, até amanhã, não disseram bombordo nem estibordo, decerto por estarem ainda a praticar na arte. A mulher voltou atrás, Tinha-me esquecido, tirou do bolso do avental dois cotos de vela, Encontrei-os quando andava a limpar, o que não tenho é fósforos, Eu tenho, disse o homem. Ela segurou as velas, uma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, Até amanhã, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando lá estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-ão à ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando está a sós com uma mulher. Perguntava-se se já dormiria, se teria tardado a entrar no sono, depois imaginou que andava à procura dela e não a encontrava em nenhum sítio, que estavam perdidos os dois num barco enorme, o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa ás pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra, a mulher dorme a poucos metros e ele não soube como alcançá-la, quando é tão fácil ir de bombordo a estibordo.

Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as três velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripulação descansava à sombra. Não percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir à procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos, coelhos, galinhas, o habitual da criação doméstica, debicando os grãos de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, não se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida é, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor será jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais fácil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do porão veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necessários para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripulação humana mal cabe, de súbito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por trás dela estava o que antes não se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparem doutras, está claro que isto só pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e não a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora também não saiba como o sabe, que ela à última hora não quis vir, que saltou para o cais, dizendo de lá, Adeus, adeus, já que só tens olhos para a ilha desconhecida, vou-me embora, e não era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procurá-la e não a encontram. Neste momento o céu cobriu-se e começou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar inúmeras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, não estão ali porque se suspeite que não haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhará tempo, no dia em que lá chegarmos só teremos que transplantar as árvores de fruto, semear os grãos das pequenas searas que vão amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrocharão destes botões. O homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na coberta se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que não vêem nem de umas nem das outras, mas que estão a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apareça, desde que haja lá um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que aqui não se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. Então o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espaço, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo é que queriam desembarcar, Esta é uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se não nos levares lá. Então, por si mesma, a caravela virou a proa em direcção à terra, entrou no porto e foi encostar à muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto contínuo saíram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas não foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e até as gaivotas, uma após outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que não tinha sido cometida antes, mas há sempre uma vez. O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.

José Saramago

A ladeira

Era uma vez dois homens. Um era alto, outro baixo. Um era gordo, outro magro. Um moreno, o outro ruivo. Um tinha a voz muito grossa e outro uma borbulha na ponta do nariz. Um chamava-se Manuel Francisco e o outro Francisco Manuel. E muito mais coisas poderia dizer de cada um deles. Mas, o fundamental, é que eram muito diferentes um do outro. Só numa coisa se assemelhavam: ambos eram tremendamente teimosos.
Na terra onde viviam havia uma ladeira íngreme, inclinada, cheia de pedras e calhaus. Uma ladeira daquelas que a gente só sobe ou desce quando não pode deixar de ser.
Um dia, um dos homens ia a subir a ladeira quando o outro vinha a descê-la. Como é natural, encontraram-se a meio. Bem… A meio, a meio, exactamente a meio, não tenho a certeza se foi. Talvez tenha sido um bocadinho mais para cima ou um bocadinho mais para baixo. Para a nossa história esse pormenor não tem grande importância e, por isso, vamos fazer de conta que foi a meio.
Mais ou menos a meio da ladeira, os dois homens encontraram-se, pararam à frente um do outro e desataram a discutir. Um ia a subir e, por isso, achava que a ladeira era uma subida. O outro vinha a descer e, pelo contrário, garantia que se tratava de uma descida.
Sem chegar a acordo, sentaram-se ali mesmo no chão para tirar a questão a limpo. Quem os conhecesse, sabendo que eram homens de palavra fácil, capazes de inventar sólidas razões e grandes argumentos, logo via que aquela discussão ia demorar. E demorou.
Passaram-se sete dias e sete noites e a discussão não parava. Veio a Lua e foi-se o Sol, veio o Sol e foi-se a Lua e os dois homens a discutir. Nem o frio, nem o calor, nem a chuva, os distraíram. Continuavam na mesma. Para um, aquela ladeira era uma subida porque subia de baixo para cima. Para o outro, era uma descida porque descia de cima para baixo.
A discussão continuou e continuou. À sétima noite começou a soprar um vento muito forte. Um vento tão forte e violento que arrancava terras, árvores e pedras e as atirava de um sítio para outro. Um vento daqueles capazes de trabalhar lentamente, séculos e séculos a fio, para mudar a face da Terra e transformar montes em covas fundas e buracos de meter medo nas mais altas montanhas.
O tempo passou. O vento mexeu com tudo. Mudou a paisagem. Transformou o mundo. Só os dois homens continuavam sentados no meio da ladeira sem darem por nada do que acontecia à sua volta. Estavam tão preocupados, cada um, em ganhar a discussão, que não sentiram nem a chuva na pele, nem o frio nos ossos, nem o sol na moleirinha.
Passaram-se sete mil noites e sete mil dias, os homens a discutir e o vento a trabalhar.
A ladeira, a pouco e pouco, ia ficando diferente. A parte mais alta cada vez menos alta, e a parte mais baixa a crescer sem parar à custa de entulho, areia, calhaus e pedrinhas que a tornavam cada vez menos baixa.
Um belo dia, a parte de baixo e a parte de cima da ladeira ficaram iguais, da mesma altura e, portanto, a ladeira desapareceu. A terra ficou direitinha, lisa, uma planície que se estendia até perder de vista.
O vento, sem mais nada que fazer ali, foi trabalhar para outro lado. Os dois homens que, como eu já disse, eram muito teimosos, continuavam a discutir se a ladeira era uma subida que se descia ou uma descida que se subia.
A certa altura, olharam em volta, para um lado e para outro, até onde a vista podia alcançar. Aperceberam-se então que a ladeira tinha desaparecido. Olharam um para o outro, levantaram-se, cumprimentaram-se e, cheios de orgulho, afastaram-se cada um em sua direcção, ambos seguros de que tinham ganho a discussão.


José Fanha
A noite em que a noite não chegou
Porto, Campo das Letras, 2001

A avó e o S. Nicolau




Vou contar uma história que se passou quando eu era criança. A história do S. Nicolau e da avó.
A minha avó era pequena e franzina e a mim parecia-me muito velhinha. Não por ter rugas ou cabelo branco, mas pela roupa que usava, sempre escura e de um corte antiquado. Também andava sempre com um avental preto, até mesmo ao Domingo. O avental dos domingos era de seda e fazia barulho ao andar.
Todos os anos, no princípio de Dezembro, a avó vinha para nossa casa. Passava o Inverno connosco na cidade. Assim que a avó chegava, começava para mim a época de Natal. Ao crepúsculo das tardes de Inverno, sentávamo-nos as duas diante do fogão de cerâmica. Era um fogão grande e verde e irradiava um calor muito confortável. Nos outros quartos, os fogões eram de ferro e raramente se acendiam.
O fogão tinha uma portinhola por detrás da qual havia uma placa de ferro onde se podia assar maçãs. Ao assar, o cheirinho espalhava-se pela sala, e a avó ia-me lendo histórias em voz alta. Também fazíamos prendas de Natal.
Mas a nossa melhor brincadeira era “Vamos a Belém”, que todos os anos repetíamos. Durava vários dias, talvez semanas até, e deixava a casa em pantanas.
Nada estava a salvo quando andávamos à procura do equipamento para a nossa viagem. Precisávamos de lençóis para a nossa tenda – em que outro sítio se poderia dormir durante a longa viagem para a Terra Santa? Precisávamos de caixas e caixotes para fazermos um barco – de que outra forma poderíamos nós atravessar o Mediterrâneo? Precisávamos de cadeiras e de cobertores para fazermos animais de carga que nos transportassem a nós e à nossa bagagem.
Nessa altura, o meu pai acabava sempre por sentir que lhe faltava qualquer coisa: o martelo, o alicate, os pregos ou o rolo da corda. Uma vez até disse que lhe tinha desaparecido a câmara-de-ar da bicicleta. E tinha razão. Tínhamos precisado dela à última hora para as nossas provisões de água. O caminho passava pelo deserto e já se sabe que os viajantes passam sede por lá, se não levarem água suficiente.
Era sempre uma longa viagem cheia de peripécias. Em terra, tínhamos de vencer lutas com bandidos e animais ferozes. No mar, passávamos por tempestades que quase afundavam o nosso barco. Uma vez, salvei a avó pela saia, mesmo no momento em que ia ser cuspida borda fora
Mas acabávamos sempre por chegar sãs e salvas a Belém. E, como por magia, sempre no dia 24 de Dezembro!
Quando a avó estava em nossa casa, também se passavam coisas misteriosas. Uma vez, ao meter-me na cama, encontrei um grão de ouro na minha almofada. Grãos de ouro! De onde é que vêm os grãos de ouro? Só podem vir das asas dos anjos! Algum anjo devia ter passado a voar sobre a minha cama!
Quando perguntei à avó, ela sorriu, mas não respondeu.
Certa manhã, apareceu uma estrela pendurada no tecto por um fio transparente. Ninguém sabia quem a tinha lá posto. Também ninguém soube explicar como é que o minúsculo presépio feito numa casca de noz fora parar no meio dos meus lápis de cor.
O facto mais maravilhoso era a minha avó conhecer o S. Nicolau. Ela conhecia-o mesmo! Eu sei! Eu estava lá quando ele falou com ela, lá no parque.
Já disse que a avó era antiquada. Mas não era só antiquada na roupa. No resto também. Falava muitas vezes do tempo em que tudo escasseava e ela achava que as pessoas deviam ser mais poupadas no dinheiro e nas coisas.
A avó era-o. Por isso queria trazer o ramo seco que estava caído no caminho.
– Ainda serve para o fogão – disse ela. – Apanha-o, por favor.
Mas eu não queria.
– Não! – disse eu. E, quando ela tentou apanhá-lo, eu afastei-o.
– Nós não apanhamos lenha. Vão levá-la a casa.
Na altura, não sabia porque tinha sido tão impertinente com a avó, mas agora penso que foi por causa das pessoas que passavam. Não queria que pensassem que precisávamos de andar a apanhar a lenha da rua.
A avó hesitou. Reparei que não sabia o que fazer.
De repente, à nossa frente, apareceu um homem idoso. Estava ali como por magia. Alto e respeitável, com uma barba branca e olhos a brilhar.
– Faça favor, minha cara e honrada senhora – disse ele com uma leve vénia. A voz era grave e sonora.
Estremeci como se tivesse sido atingida por um raio. Aquela voz! Aqueles olhos! Aquela barba branca comprida! Só podia… era, de certeza… Nem me atrevia a continuar a pensar. “Minha cara e honrada senhora”, tinha ele dito à avó. Tinha-lhe feito uma vénia e a avó sorrira e agradecera-lhe.
Depois desapareceu. Tão repentinamente como aparecera.
No caminho para casa, não abri a boca. Tropeçava nas pedras do passeio e nas tampas do saneamento, e dentro de mim ia uma grande confusão.
Agora ele viu – pensava eu. – Agora ele já sabe como é que eu às vezes me porto.
A avó caminhava ao meu lado, em silêncio. O ramo meio seco ia a arrastar pelo chão. À porta de casa, não aguentei mais. Enterrei a cara nas pregas da gabardina da avó e desatei num pranto.
A avó deixou-me chorar. Não fez nada para me consolar, e eu pensava: “Agora vai ficar zangada comigo para sempre e aquele… aquele desconhecido do parque, também.”
Mas então reparei que ela se tinha debruçado sobre mim. Sentia a sua respiração quente nos meus cabelos e ouvia-a falar-me muito baixinho. O que dizia, não percebi, porque ainda soluçava com muita força. Não conseguia parar.
A avó então afastou-me um pouco dela e perguntou:
– Queres levá-lo para cima? Já é um pouco pesado para mim.
Claro que percebi imediatamente que se referia ao ramo e por um momento, sustive a respiração. Depois remexi no bolso, tirei um lenço e assoei as lágrimas que tinha no nariz.
– Dá cá! – disse. Peguei no ramo seco e subi ruidosamente as escadas.
Metemo-lo logo no fogão de cerâmica e ouvia-o a crepitar e a estalar.
“Será que ele sabe que fui eu que o carreguei para cima?”, pensava eu. A avó acenou-me com a cabeça e riu-se. Vi então que estava tudo bem outra vez e fiquei muito feliz com isso.


Tilde Michels
Anne Braun (org.)
Weihnachtsgeschichten
Würzburg, Arena Verlag, 1991



18/07/2010

Campos de lágrimas

A VIAGEM E A MEMÓRIA

Francisco nada quis deixar ao acaso na preparação daquela viagem de Verão. Fazendo-a, queria festejar o 14.° aniversário de Sofia, a filha mais velha, e ter uma oportunidade de falar com ela e com João, o filho, sobre a Europa, sobre a paz e sobre a guerra e ainda sobre a memória muito longínqua de um avô que não chegara a conhecer o que sempre fora uma referência de dignidade e de coragem para a sua família.
O avô fora sempre um homem de sonhos e de ideias. Tinha combatido do lado republicano na Guerra Civil de Espanha. Derrotados os republicanos pelas tropas do general Franco, que contava com o apoio dos fascistas de Itália, Alemanha e Portugal, partiu para França, onde acabou por ser capturado pela Gestapo, polícia política do Partido Nazi, e levado para um campo de concentração, onde acabou por morrer. As últimas notícias que os seus pais tiveram dele davam-no como prisioneiro no campo de Buchenwald, na Turíngia, Alemanha, embora nunca se tenha encontrado registo que confirmasse a sua morte naquele local de horror e miséria humana. Queriam agora reencontrar o espaço que evocasse a sua memória.
— É preciso irmos tão longe só para podermos falar do que foi a guerra? — perguntou Sofia ao pai no dia em que ele anunciou o programa da viagem. E o pai respondeu-lhe:
— É preciso irmos até onde as coisas aconteceram para sentirmos melhor o seu significado e as suas causas.
Como Sofia e João gostavam muito de viajar, não viram qualquer inconveniente na escolha e até demonstraram grande entusiasmo por terem a possibilidade de, no recomeço das aulas, poderem falar aos colegas e amigos de uma experiência que, por certo, nenhum outro teria tido até esse momento. Joana, a mulher de Francisco, apoiou-o desde o princípio na opção que fizera. Iriam visitar, na Alemanha, um local que trazia à família memórias pouco agradáveis, mas que seria um pretexto para falarem de assuntos importantes para quem estava a crescer e se esforçava por compreender o mundo em toda a sua complexidade. A de ontem e a de hoje.
Em finais de Agosto apanharam, em Lisboa, um avião para Frankfurt e depois seguiram de comboio até Weimar, uma cidade famosa na história cultural da Europa. Apesar de ser uma cidade pequena, ainda hoje com cerca de 50 mil habitantes, nela viveram e escreveram grandes escritores como Goethe e Schiller, considerados dos maiores poetas e dramaturgos de toda a história da literatura ocidental.
Durante a viagem de comboio a caminho de Weimar, Sofia e João não escondiam a curiosidade e o interesse por aquilo que iam visitar. Da história do século XX ainda sabiam muito pouco, mas tinham vontade de saber muito mais, principalmente acerca daquele bisavô de quem já tinham ouvido falar muitas vezes com muito respeito e admiração e do qual se sabia pouco. Algumas fotografias já amarelecidas pelo tempo mostravam-no em plena juventude, ao ar livre, vestindo roupa leve e deixando que o sorriso confiante deixasse transparecer tudo aquilo que esperava da vida e toda a esperança que tinha no futuro do mundo. Infelizmente, não viveu o tempo suficiente para ver confirmado nada daquilo com que sonhara, mas ficara a sua memória para mostrar que não fora em vão o seu esforço e o seu sacrifício. A memória tem essa vantagem.
Ao chegar à estação de Weimar, a família juntou as bagagens e preparou-se para apanhar um táxi que a levasse até um hotel no centro da cidade, instalado numa velha casa recuperada. Nessa casa, segundo informação que Francisco obteve num folheto fornecido pela agência de viagens, vivera um nome importante da cultura alemã. Era apenas uma das muitas casas com história e memória cultural, numa cidade por onde passaram, onde viveram e trabalharam escritores, cientistas, dramaturgos e pintores e onde nasceram também algumas das piores formas de terror praticadas pelos nazis durante os anos trinta e até 1945. Era a esta estação de caminhos-de-ferro — explicou Francisco à mulher e aos filhos — que chegavam os prisioneiros que depois eram transportados para o campo de concentração de Buchenwald, que fica apenas a oito quilómetros da cidade.
— Então as pessoas viam e não faziam nada? — quis saber Sofia.
— Tanto quanto se sabe — disse o pai — parece que, era de facto, assim, e esse foi um dos grandes problemas desses anos de terror. É que muita gente sabia o tipo de crimes que se cometiam e nada fazia para os evitar.
— Devia ser terrível — comentou a mãe,
— Eu nem quero acreditar que isso pudesse acontecer — acrescentou João.
— De facto — declarou Francisco — pelo menos aqui em Weimar, os prisioneiros, fossem eles judeus, políticos, ciganos ou outros, desembarcavam na estação de caminhos-de-ferro da cidade, pois não havia linha férrea até ao campo de concentração, onde muitos milhares acabaram os seus dias no meio do maior sofrimento físico e moral.
— Mas é terrível pensar — comentou Sofia — que perto de uma cidade onde se fez tanta cultura também foi possível cometer tantos crimes.
— Tens razão, Sofia — respondeu o pai — e não podemos deixar de relacionar uma coisa com outra e de fazer esta pergunta: como foi possível ter, de um lado, a memória de homens como Goethe, um escritor que sempre defendeu a liberdade, e, do outro, a mais terrível falta de respeito pelos seres humanos e pelos seus direitos.
— Nós, se tivéssemos vivido nessa altura, também cá podíamos ter vindo parar? — perguntou João, tentando disfarçar o arrepio que lhe percorreu a espinha.
— Não é muito provável — respondeu o pai — porque não somos judeus, porque não pertencemos a um país que os nazis tenham ocupado e porque nessa época não devíamos ter nenhuma actividade que nos pusesse em risco. De qualquer modo, nunca se sabe, e o melhor é pensarmos sempre que o pior pode voltar a acontecer, se as pessoas, onde quer que estejam e façam o que fizerem na vida, não lutarem pela defesa da liberdade e dos direitos dos seres humanos
— E pensarmos nós que o nosso bisavô veio para aqui, que desembarcou na mesma estação em que nós desembarcámos e que pode ter morrido no campo de concentração que nós vamos visitar!
Francisco teve dificuldade em acrescentar o que quer que fosse às palavras da filha, pois também ele, nesse momento, pensava nessa repetição de itinerários, em condições tão diferentes e com quase sessenta anos de intervalo. Teve a tentação de imaginar o avô numa longa fila de homens e mulheres magros e tristes, alinhados sob a ameaça das armas dos soldados, que não hesitavam em matar quem tentasse fugir, ou mesmo quem se limitasse a protestar contra a forma como estavam a ser tratados, mas evitou fazê-lo, guardando as emoções maiores, as mais intensas, para a visita que iriam fazer, com tempo, ao campo de concentração de Buchenwald.


O LUGAR DO HORROR

Francisco, a mulher e os filhos chegaram ao campo de Buchenwald na manhã seguinte, com tempo suficiente para verem tudo com atenção. Como guia para a visita coube-lhes uma jovem de origem judaica, vinda de um país da América Latina. Tiveram sorte porque ela falava espanhol e assim Sofia e João eram capazes de perceber o fundamental das explicações. Ficaram impressionados com o aspecto exterior do campo, com os seus edifícios sombrios, com a pequena torre do relógio que devia marcar o momento em que o tempo parava para todos quantos ali entravam e com o profundo silêncio que envolvia o local, interrompido aqui e acolá por um riso de criança ou pelo canto de um pássaro.
O campo, foi-lhes explicado, abriu as suas portas em Julho de 1937. Junto do campo foram construídos vários edifícios para instalar os homens das SS, tropa de choque do regime nazi e de muitos dos seus dirigentes.
No princípio, antes do começo da Segunda Guerra Mundial, foram para ali levados presos políticos, criminosos de delito comum e testemunhas de Jeová. A primeira grande onda de judeus, as principais vítimas do terror dos campos, chegaria em meados de 1938. Eram cerca de 13 mil e vinham de vários pontos da Alemanha e também da Áustria, que entretanto Hitler, que era austríaco, mandara anexar à Alemanha, fazendo-a deixar de existir como país independente e soberano.
— A primeira medida que os carrascos adoptavam — explicou Iolanda, a guia da visita — era a eliminação de qualquer elemento ou aspecto que garantisse a individualidade ou personalidade dos detidos As pessoas deixavam de ser conhecidas pelos nomes e pelas nacionalidades e passavam a ser conhecidas apenas pelos números que lhes eram atribuídos e pelos triângulos coloridos que lhes eram colocados nos fardamentos e que correspondiam aos “crimes” que era suposto terem cometido. Essa humilhação começava, aliás, dentro dos vagões que os levavam até à estrada de Weimar. Eram obrigadas a viajar amontoadas durante dias, sem quaisquer condições de higiene, como se fossem cabeças de gado. Tudo isto como se fossem autores de crimes graves.
— E que crimes eram esses? — quis saber Sofia.
— Na verdade — respondeu Iolanda — não eram crimes. O seu crime era serem judeus, comunistas ou socialistas, ciganos, homossexuais ou testemunhas de Jeová. Só por isso teriam que ser presos ou destruídos fisicamente. E entre os presos políticos havia muitas pessoas que tinham combatido na Guerra Civil de Espanha e em França, logo no princípio da Segunda Guerra Mundial.
Ao ouvirem estas palavras, Francisco e a família não puderam deixar de sentir um sobressalto, recordando-se do familiar que supunham ter perdido naquele campo de horror.
— Os guardas dos campos — continuou Iolanda — usavam todos os mesmos métodos, tentando torná-los iguais pela fome, pela humilhação, pela pancada, pela tortura e pelo medo e pela falta de condições mínimas de higiene. Desse modo transformavam, ou, pelo menos, tentavam transformar seres humanos em animais. Para que o terror não tivesse pausas, os prisioneiros eram constantemente chamados para a parada do campo, muitas vezes com temperaturas negativas, para se proceder à sua contagem e recontagem. Isso tanto podia acontecer a meio do dia como durante a madrugada. No princípio, Buchenwald destinava-se a funcionar como um campo de trabalhos forcados, mas, na realidade, era um campo de extermínio.
Sofia e João chamaram a atenção do pai para o contraste que havia entre as condições de vida dentro das vedações electrificadas do campo e os edifícios onde viviam as SS. E foi Sofia que reparou numa pequena gruta com uma entrada protegida por um gradeamento de jaula, perguntando à guia do que se tratava.
— Aqui — explicou Iolanda — funcionava um jardim zoológico mandado construir por um dos comandantes do campo. Tinha várias espécies animais e servia para os filhos dos guardas e das tropas das SS se divertirem, vendo os ursos, os veados, as raposas e outros animais, que eram excepcionalmente bem tratados e bem alimentados.
— Certamente muito melhor que os prisioneiros — comentou Francisco.
— Claro que sim! — confirmou Iolanda — porque era disso mesmo que se tratava: dava-se aos animais melhor tratamento que aos humanos para os humilhar ainda mais. Sabe-se mesmo que, um dia, o comandante do campo mandou castigar dois soldados por terem tratado mal um veado do jardim zoológico.
O número de detidos no campo nunca parou de aumentar, até atingir cerca de 110 mil (85 mil homens e 25 mil mulheres) em 1945. Ao todo terão morrido no campo quase 60 mil pessoas de várias nacionalidades, entre as quais portugueses. Quando as tropas norte-americanas ali chegaram a 11 de Abril de 1945, ainda havia no campo 21 mil prisioneiros, muitos dos quais morreram nos dias seguintes, de tal modo grave era o seu estado de saúde, sempre agravado por epidemias, subnutrição e terríveis experiências médicas feitas pelos nazis. À medida que se iam aproximando as forças dos Aliados, os carrascos aumentaram o ritmo da destruição dos detidos. Nos primeiros meses de 1945 foram assassinadas 13 mil pessoas.
— Uma das experiências mais terríveis aqui realizadas — contou Iolanda, incapaz de disfarçar a emoção que continuava a sentir, apesar de realizar aquele trabalho diariamente — foi a de se concentrarem 100 pessoas dentro de uma vedação, deixando-as morrer à fome e à sede para os médicos poderem observar os diferentes graus de resistência, consoante a idade, a raça c o estado de saúde. Também havia crianças nesse grupo mártir e sabe-se que, no máximo, os últimos conseguiram viver 18 dias ao frio, sem qualquer tipo de alimento. E esta foi apenas uma das numerosas experiências médicas que foram feitas neste campo. Muitas dessas experiências eram subsidiadas por uma grande empresa de produtos farmacêuticos alemã, a IG Farben.
Além de serem humilhados, torturados e assassinados, os prisioneiros serviam também de cobaias para terríveis experiências médicas. Alguns sobreviveram, mas ficaram fisicamente destruídos para o resto das suas vidas.
Joana não conseguiu conter as lágrimas. Sofia e João abraçaram a mãe, sentindo uma emoção igual à sua e sobretudo o peso desta terrível pergunta: como é possível que seres humanos de um país civilizado e culto façam isto a outros seres humanos?
— Que tipo de alimentação tinham os prisioneiros? — perguntou Francisco a Iolanda.
— Inicialmente, recebiam por dia entre 300 a 500 gramas de pão e um litro de sopa, muitas vezes azeda. Na fase final, a ração não ultrapassava 100 ou 200 gramas de pão e cerca de meio litro de sopa, que não passava de um caldo aquoso do qual eram retiradas as couves e as batatas. Por isso, quase todos os detidos sofriam de graves problemas intestinais. Mesmo subnutridos, eram obrigados a trabalhar durante 10 horas e mais, por dia, como animais de carga. Ao fim de cada jornada de trabalho, muitos já não regressavam aos abarracamentos, derrotados pela fadiga e pela doença.
Francisco, por mais que tentasse, não conseguia deixar de imaginar o avô no meio de todo aquele horror, tentando sobreviver, muito magro e angustiado. Era a paga que tinha por ter passado a vida toda a lutar pela liberdade e pela tolerância, primeiro em Portugal, depois em Espanha e, por último, em França.
Um dos momentos mais dramáticos da visita ao campo, num belíssimo dia de sol, com a floresta em redor mostrando as suas cores mais vivas e contrastantes, foi o da passagem pela zona dos fornos crematórios, pela sala das experiências médicas e pela cave onde se fuzilavam prisioneiros. Francisco hesitou quanto ao interesse e à oportunidade de deixar Sofia e João entrarem naqueles locais, mas a verdade é que, se estavam ali, com a memória do seu avô tão presente, deveriam ver tudo, sem nada ficar escondido ou esquecido. Nos grupos de visitantes de outros países também havia adolescentes, e Francisco percebeu que alguns deles pertenciam a famílias cuja história também tinha passado, mais de 50 anos antes, por aquele local de horror ilimitado.
Durante a visita só se ouvia a voz da guia e as perguntas feitas, num quase sussuro, pelos visitantes. Tudo o mais era recolhimento e comoção. Não fazia qualquer sentido que ali houvesse comentários ou pessoas a conversar fora dos grupos organizados. As pessoas estavam naquele local a lidar com os mais terríveis sinais da tragédia humana e encontravam-se, sem excepção, à beira das lágrimas, sentindo também uma grande revolta e repetindo sem cessar a pergunta: como podem seres humanos ter feito isto a outros seres humanos? Cada um teria que encontrar a sua resposta ou ficar apenas com a tristeza da pergunta.
Quando saíam da zona dos fornos crematórios, passou por eles um grupo de jovens alemães falando e rindo alto. Todos ficaram indignados.
— São alemães, não são? Como podem proceder aqui desta maneira? — perguntou um francês de meia-idade que seguia integrado no grupo. E Iolanda respondeu:
— Esse é um dos grandes problemas da Alemanha de hoje. É que há pessoas em Weimar e noutros cantos do país que continuam a dizer que foi tudo mentira e que os campos foram uma mera invenção dos Aliados. Muitas outras pessoas, conscientes da responsabilidade da Alemanha, entendem que isto não só aconteceu, como deve ser mostrado ao mundo para que não se repita. E, depois, há grupos de jovens neonazis que dizem que, de facto, houve os campos de concentração e que ainda bem que houve, pois podem ainda servir para se meterem lá os emigrantes turcos e de outras nacionalidades. Isso é terrível. Estes jovens que aqui passaram a rir e a falar em voz alta devem ser dos que pensam dessa maneira.
Todos ouviram com verdadeira estupefacção estas palavras, não querendo acreditar que, perante os testemunhos vivos do horror, algum ser humano possa pensar ou proceder dessa maneira.
Já no final da visita, os elementos do grupo, onde havia pessoas de várias nacionalidades, concentraram-se junto de uma placa de homenagem às vítimas do terror nazi. Era uma placa metálica incrustada numa outra mais larga feita de granito. Nela liam-se somente as nacionalidades das vítimas. Uma delas era a portuguesa. Em redor da placa havia dezenas de ramos de flores. Sofia perguntou ao pai se podia depositar ali o ramo de dálias que tinham comprado numa florista à saída do hotel. O pai respondeu-lhe que sim e ela acocorou-se junto da placa e deixou ali as flores. Segundo o pai lhe dissera, eram as predilectas do seu bisavô.
Nessa altura, Iolanda disse aos membros do grupo:
— Se quiserem prestar uma última homenagem às vítimas deste campo de concentração, por favor ponham a palma da mão sobre a placa metálica. As pessoas formaram uma pequena fila e corresponderam à sugestão.
— Quando tocarem na placa, perceberão a mensagem final do campo de Buchenwald.
Sofia escondeu a estranheza que sentia, dizendo para o pai:
— A placa está morna. Parece que tem alguma coisa lá dentro a aquecê-la.
Iolanda, sensibilizada com a reacção da jovem visitante, explicou:
— É precisamente essa mensagem que nós queremos que tu leves daqui.
Esta placa metálica que homenageia todos aqueles que aqui morreram, tem uma temperatura constante de 37 graus centígrados.
— Mas porquê essa temperatura? — quis saber Sofia.
— Porque é a temperatura do corpo humano e isso é que nos torna a todos iguais. Podemos falar línguas diferentes, ter diferentes grupos sanguíneos, vir de vários continentes e ter diferentes cores de pele. Mas uma coisa é certa: todos temos uma temperatura média do corpo igual a esta e é isso que também nos define como seres humanos. Se nos lembrarmos sempre desta mensagem, nunca deixaremos que nada se sobreponha à nossa condição de humanos.
As palavras de Iolanda foram muito mais do que a grande lição daquele dia de Agosto, numa visita ao campo de concentração de Buchenwald. Foram a lição de uma vida, daquelas que o tempo nunca apaga na memória.


WEIMAR: ENTRE A CULTURA E O TERROR

No dia seguinte, por mais que se falasse de grandes escritores como Goethe ou Schiller, nomes sem os quais não pode ser contada a história de Weimar, não saíam da cabeça de Sofia e de João as palavras de Iolanda sobre o campo de concentração que tanta impressão lhes causara. Contudo, evitaram falar do assunto, já que o programa estabelecido pelo pai previa que visitassem a cidade, com tempo e com paciência para aprenderem coisas novas sobre os movimentos artísticos que ali tinham nascido ou desenvolvido.
Todos acharam a cidade bonita, limpa, monumental, apesar da sua dimensão reduzida, e ficaram espantados com o facto de quase em cada esquina existir uma estátua de um escritor, de um músico ou de um poeta famoso. Era como se todos os génios de várias épocas tivessem feito questão de passar por Weimar ou de ali viver. Aquela pequena cidade alemã do Estado da Turíngia mais parecia um museu vivo, uma enciclopédia que, aberta numa página ao acaso, teria sempre revelações surpreendentes para fazer.
Quando, passeando despreocupadamente a conversar e a comer gelados, passaram perto da estação da cidade, fez-se um grande silêncio. Não puderam deixar de se lembrar das palavras da guia de Buchenwald quando lhes explicou que, durante bastante tempo, era ali que os presos era desembarcados e encaminhados para o campo de concentração, e deviam ser muito poucas as pessoas na cidade que desconheciam o seu trágico destino antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
Decidiram, porém, não falar do assunto, pois iriam ter muito tempo para reflectir sobre ele quando voltassem a Portugal. O problema é que a visão do campo teimava em não lhes sair do espírito.
Durante todo o dia ninguém falou de Buchenwald, mas as imagens trágicas da visita feita na véspera não saíam da memória da família, porque, ao recordarem-nas, pensavam, inevitavelmente, no parente chegado que ali tinha acabado os seus dias de forma trágica.
Durante o jantar, Sofia, sempre com grande perspicácia, perguntou aos pais:
— Como é possível que quase ao lado de uma cidade toda ela feita de cultura tenha existido um campo de concentração onde morreu tanta gente inocente?
— Essa — disse a mãe — é uma pergunta para a qual é muito difícil encontrar uma resposta aceitável. A cultura deve tornar as pessoas mais sensíveis e mais humanas e, por isso, não faz muito sentido esta vizinhança.
E o pai, que há muito tempo reflectia sobre o assunto, acrescentou:
— Quem tem que tornar a vida dos seres humanos melhor não é a cultura, é o próprio ser humano, e o ser humano é uma criatura muito complexa, capaz de fazer as coisas mais belas e geniais e, ao mesmo tempo, as coisas mais terríveis e brutais. É assim mesmo a natureza humana. Weimar e Buchenwald são um bom exemplo dessa grande contradição.
— Mas há uma coisa que eu ainda não consegui perceber — disse João. — Que mal fizeram, afinal, aquelas pessoas para serem tratadas como foram e morrerem como morreram?
— Essa — respondeu o pai — é outra das perguntas para as quais não é fácil encontrar resposta satisfatória. Em primeiro lugar, nenhuma delas cometeu crimes de qualquer espécie. O único “crime” que podem ter cometido foi o de serem diferentes, o de serem judeus, ciganos ou apenas homens e mulheres que lutavam pela liberdade contra a tirania.
— Mas isso, que eu saiba, não foi nem nunca pode ser considerado um crime — observou Sofia.
— Claro que não! — concordou a mãe.— Isso só pode ser entendido como um crime quando estão no poder loucos e criminosos, que foi o que aconteceu aqui na Alemanha entre 1933 e 1945. Foram 12 anos de grande sofrimento para milhares de pessoas.
— E os que viviam aqui nesta cidade não podiam fazer nada para evitar que isto acontecesse? — quis saber João.
— A esta distância — explicou o pai — tudo parece muito simples e até podemos pensar que as respostas que damos são as mais correctas e definitivas. Mas o problema é que tem que se ver o que aconteceu, à luz da maneira como os alemães pensavam nessa época. Eles tinham sido derrotados e humilhados na Primeira Grande Guerra e Hitler e os nazis prometeram devolver ao país a grandeza e a glória perdidas.
— Mesmo assim... — limitou-se Sofia a comentar, insatisfeita com a resposta.
— Tens toda a razão em fazer esse comentário, porque não há nada que explique o silêncio cúmplice de grande parte de um povo ao ver assassinar milhares de pessoas da mesma nacionalidade e de outras nacionalidades sem razão aparente. E a verdade é que houve muitos milhares de alemães que colaboraram dia a dia com esta máquina de terror e destruição.
— Como, pai? — perguntou João.
— Tínhamos combinado que hoje não voltávamos a este assunto, mas já que estamos a falar nele, não vale a pena adiar a resposta. Calcula-se que cerca de 100 mil alemães podem ter estado ligados a esta indústria de terror, mesmo não sendo militares.
— Se não eram militares, o que é que faziam nos campos de concentração? — quis saber Sofia.
— Uns eram guardas dos campos, e os guardas eram homens e mulheres. Depois, havia gente que trabalhava nas fábricas onde se faziam os produtos usados para assassinar pessoas nos campos e, espero que não se impressionem com o que vos vou dizer: havia muitos homens e mulheres em fábricas e oficinas a fazer travesseiros e cabeleiras postiças com os cabelos que eram cortados rentes àqueles que entravam nos campos, e havia ainda muita gente a negociar com esta mão-de-obra que não custava nada e que dava muito lucro. Isso acontece nos países onde havia campos, e eles existiam na Alemanha, na Polónia, na Checoslováquia e outros mais pequenos nos vários países e os nazis ocupavam. No fundo, existia uma verdadeira economia do horror a girar à volta desta máquina de torturar e de matar. Ainda hoje é difícil percebermos como tudo isto foi possível.
Sofia mordeu o lábio, revoltada com o que acabara de ouvir, e depois perguntou ao pai:
— E as pessoas aqui desta cidade não faziam nada para ajudar os presos?
— Não — respondeu Francisco. — Que se saiba, não faziam. Mantinham aquilo a que eu chamei um silêncio cúmplice. Claro que havia pessoas que não concordavam, mas, se o dissessem publicamente, podiam acabar os seus dias num campo ou noutra qualquer prisão do regime de Hitler. Parece também que muita gente tirava vantagens da proximidade do campo.
— Mas como? — perguntou o João.
— Utilizavam os presos e presas como jardineiros, como cozinheiras, “como costureiras e até como amas de crianças, não pagando nada pelo serviço, ou pagando alguma coisa aos guardas do campo que alinhavam neste tipo de negócio e que até enriqueciam à custa dele.
— Que horror! — exclamou Sofia.
Francisco achou que seria melhor, pelo menos naquela noite, pôr um ponto final no assunto, mas os filhos insistiram para que ele o não fizesse porque queriam saber mais e, sobretudo, conhecer melhor os culpados e a lógica de um terror que não conseguiam justificar.
— Os piores campos — explicou o pai — eram aqueles que existiam sobretudo para matar os prisioneiros. O maior e o pior de todos foi o de Auschwitz, na Polónia. Foi ali que se internaram mais pessoas e que mais pessoas foram mortas. Era um campo enorme. Embora fosse um campo de extermínio, foi, durante quase todo o tempo em que funcionou, um campo de trabalho. Subalimentadas e gravemente doentes, as pessoas, independentemente da idade, tinham que produzir, tinham que render como animais de carga. Ninguém respeitava a sua dignidade nem a sua identidade, e era por isso que eram tratadas somente pelos números que lhes eram tatuados na pele da parte interior do antebraço. Os trabalhos mais pesados e mais brutais estavam reservados para elas, porque era como se tivessem escrito na testa a palavra “culpado”.Embora ninguém soubesse ao certo qual era a natureza dessa culpa. E todos morreram sem resposta para esta pergunta.
— E só judeus terão sido seis milhões a morrer nos vários campos de concentração — acrescentou a mãe, sugerindo que, depois de um dia tão cansativo, fossem todos dormir. A conversa, tão terrível como interessante, podia continuar no dia seguinte.
Antes de adormecer. João olhou para a janela e pareceu-lhe ver uma lágrima muito brilhante a deslizar pela face da lua. Talvez fosse uma lágrima de tristeza por todos os inocentes mortos nos campos de concentração ao longo daqueles anos.

UMA HISTÓRIA PARA LEMBRAR E PARA CONTAR

Os dias de férias que ainda lhes restavam na Alemanha foram reservados para conhecerem melhor Weimar e a região da Turíngia. Visitaram museus e exposições, almoçaram em esplanadas escutando música de qualidade a ser tocada ao ar livre e compraram presentes para trazerem aos amigos, desde as tradicionais canecas de cerveja trabalhadas e pintadas à mão, até caixas de bombons com os rostos de Mozart, Beethoven e Bach pintados nas capas.
Francisco contou aos filhos tudo o que sabia sobre a literatura e a música alemãs, numa linguagem adequada às suas idades e ficou disponível para conversar sobre todos os assuntos que lhes interessassem. Porém, o que continuava a suscitar sempre novas perguntas eram os campos de concentração. Não se lhes podia censurar essa curiosidade.
Sofia, numa dessas conversas, lembrou-se do nome de Anne Frank e do facto de ela e a irmã terem morrido num campo de concentração.
— Tens razão, Sofia — confirmou a mãe — Anne Frank, de quem tu já leste o diário, morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen, depois de ter passado dois anos num sótão de Amesterdão, cidade para onde a sua família, que era alemã, fugiu para escapar à perseguição dos nazis. Se tivesse conseguido resistir um pouco mais, teria sido libertada e talvez tivesse feito a grande carreira de escritora com que tanto sonhou enquanto escrevia os seus textos sem poder fazer barulho para que a família e as outras pessoas que viviam naquele espaço apertado e quase irrespirável não fossem denunciadas à Gestapo.
O pai aproveitou então para explicar que, para além de Buchenwalde, Auschwitz, de que já tinham falado, existiram outros campos igualmente terríveis, citando Dachau, Mauthausen, Treblinka, Maidanek, Chelmno, Ravensbruck e Sachesenhausen, ficando muito longe de esgotar a lista.
Nesses campos foram assassinados, desde meados dos anos trinta e até praticamente ao fim da guerra, em 1945, milhões de judeus, de ciganos, de comunistas, de socialistas, de padres, de testemunhas de Jeová e ainda dezenas de milhares de doentes mentais. A cada um destes grupos correspondia uma estrela ou um pedaço de pano de outra forma, sempre com cores diferentes. A dos judeus era a amarela. Eles já sabiam que essa cor tinha, naquela situação, um significado trágico.
Quase ao mesmo tempo, João e Sofia perguntaram aos pais se foi logo no princípio da guerra que Hitler decidiu exterminar os judeus.
— Não — respondeu Francisco — embora já houvesse muitos internados nos campos, a sua eliminação sistemática começou em meados de 1941 e, no dia 20 de Janeiro de 1942, em Wannsee, nos arredores de Berlim, foi aprovado o que ficou tragicamente conhecido como “A Solução Final”, ou seja, o programa de extermínio em massa dos judeus.
— É então a isso que se chama Holocausto? — quis saber Sofia.
— Holocausto — respondeu Joana, tentando satisfazer a curiosidade da filha — quer dizer “sacrifício pelo fogo” e tornou-se uma expressão usada sobretudo pelos judeus norte-americanos. Há quem prefira chamar-lhe “genocídio; pois foi o extermínio sistemático de uma raça e há quem use o termo hebraico “shoah”, que é outra forma de dizer a mesma coisa, ou seja, de falar no genocídio.
— E porquê este ódio aos judeus? Que mal é que eles fizeram exactamente? — perguntou João, cada vez mais espantado com o absurdo de uma situação para a qual não conseguia encontrar uma explicação lógica. E Francisco respondeu-lhe:
— O ódio aos judeus não era uma coisa nova na Europa. Eles, historicamente, foram sempre vistos como responsáveis pela morte de Jesus Cristo. Essa perseguição que teve na Igreja Católica a sua principal base, manteve-se durante séculos. Os nazis retomaram-na com muito maior violência, tentando fazer dela uma causa nacional capaz de unir os alemães a quem tinha sido feita uma promessa de retorno à glória e à prosperidade.
Os principais inimigos públicos dos nazis eram os judeus e os comunistas e, à volta desse ódio, foi feita uma imensa campanha de propaganda para aumentar a intolerância e justificar o genocídio. Portanto, os judeus não eram culpados de nada em concreto. Eram apenas um pretexto para uma campanha de extermínio sem paralelo na história da Humanidade.
— Mas então — interrompeu João — os judeus não resistiram a essa perseguição?
— Houve muitos — explicou a mãe — que resistiram, integrando-se nos grupos de resistência e de guerrilha que se opunham ao terror nazi, mas não se pode falar de um exército clandestino judaico, organizado para o combate. Por exemplo, muitos dos judeus que resistiram ao terror eram comunistas, para além de serem judeus. Quanto aos campos de concentração, como já vos disse, não os vejam apenas como campos de extermínio, mas também como campos de trabalhos forçados que ajudavam a manter, sem quaisquer custos para os nazis, uma economia de guerra que tinha que produzir armamento e outros bens a um ritmo infernal.
Francisco aproveitou para falar aos filhos, de escritores importantes como o italiano Primo Levi, detido em Auschwitz, ou o espanhol Jorge Semprún, que sobreviveram e escreveram livros impressionantes dando testemunho do que foi essa experiência nas suas vidas de homens ainda muito jovens. Primo Levi acabou por se suicidar, já depois de ter completado 70 anos, por não poder continuar a viver com essa memória que nunca mais lhe deu paz.
Durante a conversa, que se prolongaria sobre o tema, já em Portugal, nas semanas seguintes, também se falou da existência de guetos como o de Varsóvia, onde viviam em condições inqualificáveis dezenas de milhares de judeus, completamente à margem do resto da sociedade. Aí chegou mesmo a haver uma revolta que os nazis conseguiram prontamente abafar.
Como tinham visto no cinema o filme de Steven Spielberg “A Lista de Schindler”, Sofia e João perguntaram aos pais se tinha havido mais pessoas a ajudarem os judeus a escapar ao seu destino trágico. O pai esclareceu-os:
— Houve muito mais pessoas do que se pode imaginar. Para além de Schindler, que o cinema tornou famoso, houve o sueco Raoul Wallenberg e muitos diplomatas, com destaque para o cônsul português Aristides de Sousa Mendes que, em Bordéus e Bayonne, conseguiu, contra a vontade de Salazar e do regime fascista em Portugal, emitir vistos que permitiram salvar a vida a mais de 30 mil judeus. Infelizmente, não há ainda um filme sobre esse herói português do século XX, que foi afastado da carreira diplomática e morreu na miséria em Portugal. Ele obedeceu à sua consciência de ser humano com regras morais e salvou milhares de vidas.
Essas pessoas que ajudaram a salvar milhares de judeus são hoje recordadas no museu Yad Vashem, também conhecido como Museu do Holocausto, em Jerusalém, onde cada uma delas é lembrada com uma árvore e com uma placa recordando o seu contributo para a salvação dos judeus.
Durante a conversa, a pergunta inevitável acabou por surgir:
— E não existe o perigo de uma coisa assim voltar a acontecer? Joana achou que esta poderia ser a melhor das respostas:
— Em princípio não voltará a acontecer, mas como o ser humano é complexo e difícil de prever, nunca se sabe e, por isso, o melhor é estar atento e evitar, por todos os meios ao nosso alcance, que uma situação tão trágica se repita. E há casos recentes preocupantes na ex-Jugoslávia, no Ruanda ou na perseguição ao povo curdo. Depois, há que pensar que existem muitos grupos de neonazis em vários pontos do mundo, a começar pela Alemanha, que admiram Hitler, a Cruz Suástica e as teorias do ódio racial.
Na Áustria, onde Hitler nasceu, há um partido que defende as suas ideias e que é chefiado por um tal Georg Haider. Já faz parte do governo, o que provocou uma forte e justa reacção da União Europeia, dos Estados Unidos e de Israel. Enquanto houver situações dessas, o perigo continuará a existir. Muitos desses grupos utilizam já hoje a Internet para divulgar as suas ideias e as suas acções.
Mesmo em França, existe um partido chamado Frente Nacional que defende ideias contra os estrangeiros que vivem e trabalham naquele país, muito parecidas com as dos nazis. Por isso, toda a vigilância é pouca, na escola, nos sítios onde trabalhamos ou nas cidades onde vivemos.
E também é bom não esquecer que os israelitas, herdeiros e descendentes dos judeus assassinados nos campos de concentração, têm utilizado com os palestinianos métodos que por vezes se assemelham aos que os nazis usaram contra o povo judeu, o que faz com que naquela zona do Médio Oriente se mantenha um clima de guerra que parece não ter fim à vista.
O que uns sofreram não pode justificar o mal que fazem aos outros. A vingança nunca é o caminho.
Tanto Francisco como Joana lembraram aos filhos que a primeira coisa que os nazis tiravam aos presos dos campos, antes mesmo da vida, era a dignidade humana, substituindo-lhes os nomes por números, rapando-os, separando pais de filhos, jovens de idosos, e enviando directamente para os campos de gás os considerados inaptos para o trabalho. Essa foi uma das maiores tragédias de toda a história da Humanidade e, seguramente, a vergonha maior do século XX.
Uma vergonha que ninguém pode ou deve esquecer, sob pena de permitir que ela se repita. Antes de deixarem Weimar, de comboio, rumo a Frankfurt, onde apanharam o avião de regresso a Lisboa, tiveram oportunidade de ver que num país onde a cultura nunca deixou de ter força e uma presença constante na vida das pessoas também houve lugar para o horror, para o extermínio e para a destruição física e moral de milhões de pessoas.
A ideia de terem perdido em Buchenwald alguém que a família nunca deixou de amar e de estimar fazia com que aquela terra distante onde trabalham muitos emigrantes portugueses passasse também a fazer parte das suas memórias e das suas vidas.
Sofia pediu ao pai que, no regresso, a deixasse ler as cartas do bisavô Francisco. E ele prometeu que o faria e que organizaria a sua vida para publicar o livro com essas cartas que tanto o tinham comovido. Tentaria honrar esse compromisso.
Sem se darem conta disso, Sofia e João voltaram mais crescidos e mais maduros daquela viagem de Verão, feita em nome da memória, no final de um século em que aconteceram coisas muito belas e outras assustadoras e tremendas.
Durante a viagem de regresso, o pai leu-lhes um fragmento de um poema escrito por um prisioneiro de um campo de concentração que dizia: Levantei a cabeça / as árvores estão em flor / pela primeira vez desde há trinta meses / chorei.Antes de partir, lembrando o avô e bisavô Francisco e a tragédia de Buchenwald, também eles, olhando as árvores floridas e as estátuas do poeta e ouvindo na rua a música de Mozart, tiveram também vontade de chorar, num misto de alegria e de tristeza que marcaria para sempre as suas vidas.
Quem visita um campo de lágrimas, mas que foi habitado por uma dor sem nome, passa a conhecer melhor a condição humana. As palavras da guia Iolanda nunca mais lhes saíram da cabeça, nem a placa com uma temperatura permanente de 37 graus, que é a do corpo humano, seja de que raça for. Aquela lição foi a maior das suas ainda curtas vidas.
Voltavam agora a Portugal com tanta coisa nova para contar e não iam faltar amigos para escutarem o relato da viagem. Ficou assente que iriam ver no cinema ou em vídeo o filme “A Vida é Bela” de Roberto Benigni, uma obra muito bela sobre os anos de tragédia e resistência, na Segunda Guerra Mundial.

Era uma vez um português que, por ter lutado pela liberdade, deixou a mulher e um filho pequeno e acabou por morrer num campo de horrores onde as pessoas eram conhecidas por números e sabiam que cada dia podia ser o último das suas amargas vidas...

Este bem podia ser, em poucas palavras, o princípio da história que traziam para contar. Uma história que se demora na memória como uma chama que o tempo e o vento não são capazes de apagar.


José Jorge Letria
Campos de Lágrimas
Porto, Ambar, 2001