22/05/2010

A carta de Ronaldinho

“O problema não é ser mentira. É ser mentira desqualificada.”
(Provérbio da Munhava)


Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair. Conforme o chão de um é feito para o futuro e o de outro é rabiscado para sobrevivência. Filipão Timóteo pisava ou era pisado pelo chão? O mundo do velho já semelhava a um relvado de futebol: ali ele defrontava a Vida, fintando o tempo e esticando a partida para período de compensação.
- Me restam duas saídas - sorria ele -, ou perder ou ser vencido.
E o dente avulso, já de tão solto, abanava com riso. No bar da Munhava, o velho reformado retorcia a volta ao destino. No meio do cervejeiral, Filipão se vingava. Prova era o salto fantástico e o grito que, de quando em quando, se escutava na rua:
- Gooolooo!
O pulo é o desajeito humano de ensaiar um voo. A alegria de Filipão só podia ser medida em asas, tanto de céu eram seus brados. Sozinho no bar, o velho celebrava o golo da sua equipa. As pessoas passavam e olhavam pelo vidro Filipão aos saltos festejando vitórias. Como um peixe dentro do aquário esperando que a vidraça afastasse a chegada do fim.
Quando saltava, caía-lhe o aparelho da surdez e ele passava o resto do tempo de gatas, procurando o salvador instrumento entre as imundícies do chão. Para tão pouco voo, tanto quadrupedar-se pelo chão!
As pessoas sabiam: não havia televisor. O bar era pobre e, para além do balcão, não sobrava apetrecho. O que havia na parede era um desenho de um ecrã rabiscado a carvão. Filipão desenhara o televisor com detalhe de engenheiro. E ali estavam compostos com perfeição os botões, a antena, os fios. Pobre não festeja por causa da alegria. A alegria é que nele se instala e faz a festa ter casa e causa.
Filipão chegava manhã cedo, carregava no falso botão do inexistente aparelho e se sentava na habitual mesa, ao fundo da sala. Pedia a sagrada cerveja e sorvia o líquido como se bebesse pelos olhos lentos. Bebia todo ele, a sua alma era uma boca. Estalava a língua, ruidosamente. Depois rabiscava num velho e seboso papel uns desenhos: as tácticas do jogo. Filipão organizava os esquemas tácticos, arquitectava a força anímica. Que se estava em pleno Mundial, a distracção é a morte do guarda-redes.
Depois, já deitadas as instruções, o velho vinha à porta da taberna e gritava para o exterior:
- Já começou!
E se adentrava para assistir a mais um desses jogos que só ele testemunhava na sua imaginação.
Até que, um dia, vieram buscá-lo. Eram os filhos que viviam na cidade. O mais velho disse:
- Venha, pai, não queremos que continue sozinho aqui na vila.
- Já todos se riem, pai - confirmava o mais novo.
Filipão ajustou o aparelho auditivo como se não estivesse ouvindo bem. Não iria nem arrastado. Que ali estava seguindo o Mundial. Mais que isso: dando instruções técnicas. Ele o “mister”, o senhor sem anéis.
- Desde quando, pai? Desde quando é que esse Mundial se arrasta?
Os outros fizeram sinal para que não se usasse os argumentos da realidade. Seria pior. Deixassem-no crer que nesse imaginário televisor desfilavam verdadeiros jogos, capazes de fabricar autênticas alegrias. A realidade não é um sonho fabricado pelos mais ricos?
E assim se ficou. Filipão no sonho do jogo, os outros no jogo dos sonhos. Um dia, o filho mais novo trouxe uma carta. Era um papel sério, com carimbo e redigido em máquina.
- O que é isso?
- É para o senhor, meu pai.
- Não sabe que eu não leio letras?
O filho ajustou os óculos e leu em voz alta. Era uma convocatória da Federação Nacional de Futebol. Congratulando-o pelo seu contributo para o desporto e pelos galardões alcançados pela selecção. Chamavam-no para ir para a capital. Para descansar junto da família.
- Essa carta é falsa!
- Como falsa?! Tem carimbo, tem assinatura, tem tudo.
- Veja esta outra carta!
E o pai estendeu um envelope ao filho. Tinha selo do Brasil e estava assim endereçada: Senhor Filipão Timóteo, Bar da Munhava. Assim, sem emenda nem gatafunho. Em baixo, a assinatura bem desenhada: Ronaldinho Gaúcho. O moço foi saindo, sem fôlego para palavra. A voz do pai o fez parar.
- E já agora, meu filho...
- Sim?- o filho perguntou, sem se virar.
- Você pode-me trazer lã da cidade um pauzinho de giz que é para eu desenhar um televisor no vinho?

Mia Couto,O Fio das Missangas

10/05/2010

De como se vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro


Vivenda da Santíssima Palha era o nome na tabuleta, à margem da estrada. Um atalho de areia levava à quinta, lugar esquecido do suor e das canseiras. No centro, meio coberta pelas mangueiras, a casa colonial media-se com o tempo. Ali, na sombra das tardes, se varandeava Ascolino Fernandes do Perpétuo Socorro. Herdeiro da propriedade, ruminava lembranças sem pressa nem obrigações. Recordava Goa, sua terra natal. Caneco se negava:
- Indo-português sou, católico de fé e costume.
Vestia sempre de rigor, fato de linho branco, sapatos de igual branco, chapéu de idem cor. Cerimonioso, emendado, Ascolino costurava no discurso os rendilhados lusitanos da sua admiração. Enfeitava os ditos com adévrbios sem propósito nem cabimento. Uma imensa lista dava entrada nas frases, mal faladas de sotaque:
- Não obstante, porém, todavia, contudo...
Na Munhava estabelecera seus domínios, mais sonhados que plantados. A glória do goês só ele a via, enquanto nas demoradas tardes separava as brisas das moscas.
As visitas distribuía vénias, longos silêncios e mangas verdes com sal. Dona Epifânia, sua esposa, era quem servia. Tão magra que nem se sentia chegar. As portas de rede batiam: assim se sabia de sua presença. Gesto de amor entre os dois nunca foi visto. Amavam-se? Se sim, amavam sem corpo. Ascolino sofria do eterno retiro de sua esposa. Consolava-se mas desconven-cido. Epifânia, dizia ele, uma amêijoa. Se for aberta morre, exposta ao mundo e às marés. Quando os outros lhe notavam as ausências da mulher, Ascolino confirmava:
- Epifane, sagrada esposa. Contudo, porém, trinte anos di casamento.
Hora respeitada, mais sagrada que a esposa, era das cinco da tarde. Houvesse ou não visitas repetia-se o ritual. Vasco João Joãoquinho, fiel e dedicado empregado, surgia da sombra das mangueiras. Fardava caqui, balalaica e calção engomado. Aproximava-se trazendo uma bicicleta. Ascolino Fernandes, protocolar, inclinava-se perante ausentes e presentes. O empregado entregava-lhe uma pequena almofada que ele ajeitava no quadro da bicicleta. Acomodava-se, com cuidado de não manchar as calças na corrente. Ultimados os preparos, Vasco João Joãoquinho montava no selim e, com um puxão vigoroso, dava início ao desfile. Arrancada difícil, ondeada nas areias. E os dois, Ascolino e o seu biciclitista, seguiam de adeuses em diante, rumo à cantina do Meneses. Os modos de um e de outro estavam certos, só o veículo não encostava ao estatuto. Seguiam, obedecidos à vontade viciosa de Ascolino, pedalando contra a sede e a distância.
Naquela tarde se repetia a paisagem com os homens dentro. Vasco esco-lhia os capins para segurar as rodas no caminho. De súbito, a bicicleta resvala e os dois, patrão e criado, caem na valeta. Ascolino fica imóvel, deitado na lama. Vasco arruma os desperdícios, endireita o volante, alisa o chapéu do patrão.
A custo, Ascolino se recompõe. Avalia os estragos e dispõe-se a ralhar:
- Qui têm, homem? Essetragô sapéu de nosso. Não obstante, quem qui vai pagar?
- Desculpa, patrão. Foi desviar bacecola. De vido desse matope que passámos.
- Vucê não viu, p? Já disse toda hora: não faça travage deripente.
E montaram mais outra vez. Ascolino Perpétuo Socorro, dignidade reposta, chapéu amolgado. Vasco pedalando pelo pôr do Sol. Em cima, os coqueiros vão barulhando brisas.
- Vê se descarril outra vez velocípede, hein, Vasco?
Caracolando nas areias, o criado puxava a foras pelas pernas. Mas longos sao os minutos da sede do gos:
- Celere, Vasco. Pedal com mais força!
Chegam ao Viriato, a cantina do Meneses. A bicicleta pra junto ao pátio de cimento. O patrão desmonta, aliviado das poeiras. Puxa a corrente do relógio enquanto se dirige para a mesa reservada. O Vasco não entra nas dianteiras. Preto vai nas traseiras, a norma do tempo. No quintal, atrás, serve-se vinho aguado. No bar, frente, são outras qualidades.
Vasco João Joãoquinho ia entrando nos seus vagares. Os outros sauda-vam-lhe a chegada e pediam-lhe histórias acontecidas com patrão Ascolino. Vasco sempre contava, inventador de graças. Mas demorava-se nos começos enquanto preparava os condimentos da aventura.
- Então, Vasco? E essa noite o seu patrão?
Vasco olhou as palavras, ante-riu com a história.
- O meu patrão, nem vocês não acreditam...
- Conta lá, pá.
E relatou o que passara na noite anterior, incrível. Ascolino Fernandes, ao meio da meia-noite, iniciara as cantorias, o fado das andorinhas. Vasco Joãoquinho imitava, de copo na mão:
- Por morrer uma andorinha...
Ascolino cantou a noite toda. As andorinhas iam morrendo e a fria dele ia crescendo. Até que, pela janela, comeou a anunciar as ameaças:
- Agora, vou deitar a ventoinha.
E seguiu ventoinha, do primeiro andar para baixo. Rebentou-se no chão, as peças tin-tin-tin no pátio. Depois, outro aviso:
- Agora, são pratos.
E voaram louças para o quintal. Vidros devolveram mil luas no pátio da vivenda. O Ascolino cada vez mais alto:
- Por morrer uma andorinha...
Epifânia nem se ouvia. Talvez estivesse fechada no quarto. Ou talvez chorasse daquela maneira dela. Tristeza mais triste aquela que não se ouve.
- Estou a falar sério, meus amigos, porque entendo da tristeza. Na nossa raça choramos com o corpo. Eles não, ficam presos da desgraça.
- Ouve lá, ó Vasco, deixa lá essa conversa. Continua história do teu patrão.
Mobílias viajavam pela janela até em baixo. Vasco se aproximou e pediu:
- Patrão, faça favor, pára com isso.
- Sai dai, Vasco.
- Ó patrão, não faça mais isso, não estraga toda casa.
- Casa di quem, é sua?
- Mas, patrao, já viu sucata toda que está aqui em baixo?
- Afaste, depressa. Agora, vou deitar frigorife.
Aterrado, Vasco saiu do pátio. Um passo curto, outro comprido para não pisar os vidros, o criado escondeu-se na sombra. Ali, ajudado pelo escuro, esperou o estrondo. Nada. Geleira não descia.
- Patrão?
- Quê qui quer? Todavia, ainda me chateia?
E de novo fadista. Cantava aos berros, toda a Munhava se espalhando de andorinhas. Interrompia as artes para insultar, virado para dentro, para Epifânia:
- Não me dás carinhos. É só oração, di manhã até di noite. Isto não é casa de mortal. Vivenda não é! É igreja. Catedral de Santíssima Palha. Mas porém, já lhe digo o que vou fazer: atirar fora mobília di reza, cruz e altar qui tem. Tudo fora, fora!
Depois, foi a vez do silêncio. Vasco Joãoquinho perguntava-se: intervalo ou fim do espectáculo? Parecia o final quando se ouviu o ruído de uma cadeira arrastando junto à janela. Foi entâo que surgiu, inteiro dos joelhos até à cabeça, o vulto do goês. As suas mãos finas corrigiram os desalinhos enquanto, solene, anunciava:
- Mobília tudo já foi. Agora vou eu.
E antes que Vasco pudesse dizer alguma coisa, Ascolino Fernandes do Perpétuo Socorro atirou-se da janela abaixo. Magreza do Ascolino não ajudou a velocidade. Não parecia um corpo mas uma cortina. Quando caiu não arrancou barulho da terra. Foi só um suspiro, uma nuvenzita de poeira. Vasco, espantado, acorreu a ajudar Procurou sangue, remendos do corpo. Não havia.
- Patrão, não estragou nada?
- Quê nada? Me ajude sair de chão.
Levantou o patrao. Já no alto de si mesmo, Ascolino olhou os estragos em volta. Depois, foi-se pelo escuro cantarolando, baixinho, o seu fado. Todos, nas traseiras do Bar Viriato, se riram com a história. Desta vez, porém, Vasco Joãoquinho arrumou o silêncio num rosto triste.
- Eh pá, Vasco, você sempre traz boas histórias, tantíssimas.
- Não inventei, tudo isso aconteceu. Mas não riam-se tao alto, pode ser ele escuta lá do outro lado.
Mas do outro lado não se ouvia. Ascolino estava de serviço no uísque. Separado por uma nica parede, o outro lado era muito longe.
Na mesa reservada, Ascolino demora seus modos, relembra Goa, Damão e Diu, repuxa advérbios. Não obstante, porém.
- Sai mais dose dele, rebise o visqui.
O Meneses parece nem ver o Ascolino. Aponta as bebidas encomendadas enquanto o céu desalumia. O tempo vai escorrendo, copo a copo. Ascolino bebe com a certeza de um vice-rei das Índias. Ascolino superior a Ascolino, o indo-português vencendo, pelo álcool, o caneco. Só uma inquietação permanecia sem ter sido afogada no uísque: Epifânia. Nessa altura, a esposa já devia revirar o sono entre injúrias e cansaços. Ascolino espreita a hora, não quer transnoitar no caminho. Adivinhando-lhe os receios, um português diz:
- Não se apresse, Fernandes. Não se apresse que a sua patroa diz-lhe a bonita.
Ascolino nega prazos, mostra-se homem, ousado a demoras. Se no viver era calcado, no falar se levantava.
- Epifane, tudo já sabe. Caril, chácuti, sarapatel, boa comida qui tem, tudo ela já cozinhou para chegada di nosso. Epifane, sagrada esposa.
Numa outra mesa, soldados espreitam ocasião. Resolvem, então, lançar provocação:
- Goa, lá se foi. Sacanas de monhés, raça maldita!
Mas o Ascolino, para espanto, não regista ofensa. Antes se junta aos ofensores.
- Monhés, sacana sim senhor. Aliás, porém, indo-português qui sou, combatente dos inimigos di Pátria lusitane.
Os soldados entreolham-se, desconfiados. Mas o Ascolino leva mais alto a afirmação da lusitanidade. Subindo à cadeira, oscilante, discursa heroísmos sonhados. Uma cruzada, sim, uma cruzada para recuperar o nome de Goa para uso português. À frente, comandando os pelotões, ele, Ascolino Fernandes do Perpétuo Socorro. Atrás, soldados e missionários, navios carregados de armas, bíblias e umas garrafitas de visqui.
- O tipo está a gozar com a malta - conclui um dos soldados, o maior. Levanta-se e aproxima-se de Ascolino, farejando-lhe os humores:
- Cruzadas, quais cruzadas? A única coisa que você tem cruzadas são as pernas, essas perninhas de caneco.
Não foi por mal, talvez do desequilíbrio, mas o copo do Ascolino respin-gou na farda do outro. Um murro cruza o ar, rasga as palavras do orador e Ascolino despeja-se no chão. Os outros agarram o agressor, afastam-no, põem-no fora da cantina. Ascolino continua deitado de costas, vice-morto, um braço erguido a segurar no copo. O Meneses acode-lhe:
- Senhor Ascolino, está bem?
- Essetatetou.
- Mas, como que foi que isto aconteceu?
- Abruptamente.
Endireitam o goês. Ele arruma os vincos, investiga os restos no copo. Olha em volta a multidão e proclama o adiamento da cruzada.
No pátio da cantina o goês prepara a retirada:
- Vassco, vamusembor!
Enquanto espera o chofer, procura a corrente do relógio, cumpre o hábito. Mas, desta vez, a corrente está, o relógio é que não. Ascolino vê as horas no relógio que já não tem e comenta o tardio regresso.
- Depresse, Vassco.
E ajeita a almofada no quadro, antes de sentar. A almofada está no lugar, Ascolino é que falhou. Cai, insiste e, de novo, regressa ao chão.
- Vassco, cende luz. Apague essa escuridão.
O empregado encosta o dínamo ao pneu e anima uma pedalada forte. Ascolino está de gatas, procura do próprio corpo.
- Sapéu pissgou?
Vasco Joãoquinho também está de passo torcido. Apanha o chapu e, depois, sobe na bicicleta. Lá se aprontam os dois, desajudando-se. Na janela, Meneses goza o espectculo:
- O caneco já vai de todo. Aviado de usque e de murraças.
Vasco afasta pedaços do escuro, estorvos no regresso. Vai campainhando, trim-trim-trim. Já não se escutam os corvos, nem se vêem as garas. A noite igualou as cores, apagou as diferenças. No caminho, o goês piora dos fermentos escoceses e abandona o porte.
- Sou caneco de cu lavado. Primeir catégoria, si fassfavor. - E gritando com toda a alma:
- Viva Nehru!
Mais adiante, já quando acabam os arrozais e começam os coqueiros, Ascolino troca o empregado pela mulher, chama-lhe Epifânia.
- Mulher não ande atrás, passe a frente.
Vasco, obediente, dá-lhe o lugar no selim. O goês excitado agarra o criado pela cintura.
- Patrão, vamos embora disto.
Mas Ascolino insiste, açucaroso. Tenta beijar o empregado que se esquiva com vigor. Insistência aumenta, respeito diminui. O Vasco já que empurra o patrao:
- Deixa-me, não sou tua mulher.
E um safanão maior derruba Ascolino. Silêncio nos coqueirais. Só os corvos, curiosos, vigiam a briga. O goês está espalhado no chão. Pede um pouco de luz para ver se aquele molhado nas calças é água do charco ou que se mijou. Vasco ri-se. Ascolino, pendente, rodopia, nariz quase a raspar o chão. Chegado vertical, interroga o capim em volta:
- Vassco, roubaram vivenda de Santíssima Palha!
- Não, patrão! E que não chegámos, ainda falta.
Capaz de mais concluir, Ascolino retorna:
- Vassco, perdemos vivenda. Não obstante, você vai lá e procura ela.
O empregado impacienta-se e puxa-o pelas axilas. E assim rebocado, AscoIino vê o avesso do caminho, a estrada caranguejando. Confundindo ida com vinda, solicita:
- Vassco, não ande pra trás. Estamos voltar na cantina de Mneses.
E adiantando-se à chegada, encomenda:
- Méneses, sai visqui para mim e outra dose para Epifane, sagrade bebida.
E voltando a cabeça para trás, generoso:
- Quando vucê quer pode pedir, Vassco.Desconte depois, no salário de mês. Pode beber neste lado, não precisa ir nas traseiras.
Esgotado de andar às arrecuas, Vasco larga-o. Sentindo-se na horizontal, o goês reza e despede-se:
- Boa noite, Epifane, sagrade esposa.
Mas Vasco já não està. Voltou atràs para buscar a bicicleta. Ascolino ergue a custo a cabeça e, vendo o empregado carregado, aplaude:
- Isso, traz cobertor, me tape. Epifane, tape ela também.
Vasco, em desespero, tenta o aviso final:
- Eu não sei, patrão. Se não chegarmos essa noite, se dormirmos aqui, vai ser grande milando com a senhora.
Ascolino concorda. A ameça parece ter resultado. Sustentado pelos coto-velos, o patrão encara o criado:
- Qui têm Epifane? Agora, voce dorme de calção de caqui?
E, abreviando o tempo, adormeceu. De tal maneira entrou no seu peso que Vasco desconseguiu deslocá-lo.


No dia seguinte, cobria-os um lençol de insectos, folhas e cacimbo. Vasco foi o primeiro a chegar ao mundo. Estranhou o ruído de um motor nas vizinhanças. Olhou em volta, resistindo ao peso das pálpebras. É então que vê, próxima, a vivenda da Santíssima Palha. Afinal, tinham dormido ali a um instante de casa?
No pátio da entrada estão as mobílias todas amontoadas. Há homens carregando tudo para cima de um camião. Era esse, então, o motor. Dona Epifânia, ordenosa, vai orientando o carregamento.
O empregado hesita. Olha o patrão ainda entregue ao sono. Decide-se, por fim. Filho das areias, Vasco Joãoquinho segue para a vivenda. Chegado, viu a intenção da patroa. Ela queria sair, fechar sua vida com Ascolino, sem anúncio nem explicação.
- Senhora, não vai embora.
A patroa surpreende-se. Refaz-se do susto e prossegue o despejo.
- Senhora, o atraso foi devido de porrada que deram no patrão, lá na cantina.
Palavras do empregado disseram nada. A patroa continuou a distribuir ordens. Mas Vasco Joãoquinho não desiste:
- Senhora, não foi só isso da porrada. Trasámos por causa de acidente na estrada.
- Acidente?
Epifânia, duvidosa, medita. Pede prova da verdade. Vasco mostra o chapéu retorcido. Ela olha as manchas, morde os lábios. Segurou a palavra, antes da pergunta:
- Morreu?
- Morrer? Não, senhora. Só está deitado no caminho.
- Machucou?
- Nada. Só está dormitoso. Posso-lhe ir buscar?
Palavras arrependidas. Logo ouvidas, Epifânia refaz a decisão de partir e as mobílias recomeçam o embarque.
Vasco recuou o pé no caminho. Vagaroso, regressa ao lugar onde deixara o sono do patrão. Quando chegou, já Ascolino espreguiçava. Incapaz de traduzir a claridade, esfrega-se nos olhos sem entender o ruído do camião que se aproxima. Sentado, resume-se ao corpo dolorido. A buzina do camião assusta-o. De um salto, arruma-se na valeta. O carregamento passa, lento, quase oposto viagem. Ali, frente aos olhos desinstruídos de Ascolino, se vazava sua vida, sem notícia nem reparo. Passada a poeira, Vasco est de um lado da estrada, funeroso. Do outro lado, Ascolino vai subindo a valeta. Durante o tempo da visão, segue o camião que se afasta. Depois, sacudindo as rugas do casaco, pergunta:
- Qui tem Vasco? Vizinhos estão mudar na Munhava?
- Não são vizinhos, patrão. É a senhora, dona Epifânia própria, que se vai embora.
- Epifane?
- Sim. E está a levar todas coisas.
Ascolino ficou todo na admiração do impossível. Só repetia:
- Epifane?
Ficou rodando, chutando capins, desarrumando a paisagem. O empre-gado nem levantava os olhos do chão. Até que Ascolino, decidido:
- Traz bacecola, Vassco. Vamos perseguir esse camião. Depresse.
- Mas, patrão, se o camião já vai na distância.
- Cala, vucê não sabe nada. Carrega velocípede, rápido.
E o empregado prepara os assentos. No quadro, sem almofada, se senta o patrão. No selim, o criado. E começam a bicicletar, estrada fora. O sulco da roda vai-se desfiando na manhã. Já nem sequer o ruído do camião se sente nos arrozais em volta. Ascolino, vice-rei, comanda a impossível cruzada para resgatar a esposa perdida.
- Pedal, pedal depresse. Não obstante, temos que chegar cedo. Hora de cinco hora temos que voltar na cantina de Meneses.


Mia Couto, In Vozes Anoitecidas



06/05/2010

O Sacristão

Houvera um batizado aquela tarde, na igreja de São Pedro, e Albert Edward Foreman ainda estava com sua batina de sacristão. Ele reservava sua melhor indumentária do cargo para casamentos e funerais, e a que usava naquele momento era a segunda melhor. Gostava de usar a batina, por ser um digno símbolo das suas funções, e se sentia insuficientemente vestido sem ela. Cuidava do traje com todo carinho, e durante os dezesseis anos no cargo tivera uma série delas, mas nunca fora capaz de jogá-las fora quando desgastadas pelo uso, guardando-as embrulhadas em papel marrom nas gavetas inferiores do guarda-roupa.
Estava esperando apenas o vigário sair, para poder arrumar tudo, trancar a igreja e ir para casa. O vigário passou para o presbitério, fez uma genuflexão diante do altar e começou a caminhar numa das alas de bancos.
— “Que será que ele está procurando? — pensou. — Ele devia perceber que eu tenho de ir para casa tomar o meu chá”.
O vigário era um homem de seus quarenta anos, rosto corado e enérgico, que assumira o cargo recentemente. Albert ainda lamentava a perda do antecessor, um sacerdote da velha escola que pregava seus sermões monotonamente, com voz argêntea, e freqüentemente jantava com seus paroquianos mais aristocráticos. Gostava das coisas assim, não como esse novo vigário, que queria dar palpite em tudo. Mas Albert era tolerante, e nunca se agastava.
A Igreja de São Pedro era muito bem localizada, com paroquianos muito distintos. O novo vigário estivera antes junto a paroquianos de outro nível social, e era natural que demorasse um pouco a se adaptar aos novos.
— “Mudanças assim contundem as pessoas — pensava Albert, — mas ele acabará aprendendo”.
Quando o vigário se aproximou de Albert a ponto de poder falar-lhe no tom de voz baixo adequado ao lugar sagrado, parou e o chamou.
— Foreman, venha comigo à sacristia, que eu preciso conversar um pouco com você.
— Pois não, senhor.
Enquanto caminhavam juntos, Albert comentou:
— Bonito batizado, senhor. E foi muito interessante como a criança parou de chorar exatamente quando o senhor a tomou nos braços.
— Já notei que isso acontece com freqüência. De fato eu consegui boa prática em lidar com bebês.
Albert ficou um tanto surpreso ao encontrar na sacristia os dois conselheiros da paróquia, que ele não vira entrar. Cumprimentou-os cortesmente. Eles ocupavam o conselho há muito tempo, quase tanto quanto o dele como sacristão. Estavam sentados atrás de uma grande mesa, e o vigário ocupou a cadeira vaga entre os dois. Albert sentou-se do outro lado da mesa, enquanto procurava, com certa intranqüilidade, descobrir o que podia ter acontecido. Lembrava-se de quando o organista criou uma encrenca, e dos aborrecimentos que os três tiveram para acertar as coisas. Numa igreja como a de São Pedro não se podiam admitir escândalos. O vigário tinha um ar de benevolência, mas os outros estavam um tanto a contra-gosto.
— “Ele os deve ter repreendido — pensou o sacristão. — Parece que ele os convenceu a fazer alguma coisa, mas não estão gostando nem um pouco”.
— Foreman — começou abruptamente o vigário, — temos algo bem desagradável a comunicar-lhe. Você está aqui há bastante tempo, e estamos de acordo em que vem desempenhando a contento as suas funções — os outros dois assentiram, com uma inclinação da cabeça. — Mas uma informação surpreendente chegou ao meu conhecimento: você não sabe ler nem escrever.
— O vigário anterior sabia disso — replicou Albert sem nenhum embaraço. — Ele me disse que isso não tinha importância, e que para o gosto dele já havia educação em excesso no mundo.
— Isto é a coisa mais espantosa que eu já ouvi — replicou um dos conselheiros. — Quer dizer que você foi sacristão desta igreja dezesseis anos, sem saber ler nem escrever?
— Eu comecei a trabalhar aos doze anos, senhor. O cozinheiro do meu primeiro emprego tentou ensinar-me, mas parece que eu não tinha embocadura para o negócio. E daí para diante, sempre mexendo com uma coisa e outra, não me sobrava tempo. De fato eu nem queria, pois estou cansado de ver essa gente perdendo tempo em ler, quando podia estar fazendo alguma coisa útil.
— Mas você não se interessa em ler os jornais? Nunca quis escrever uma carta?
— Não, senhor. Vivo muito bem sem isso. De uns tempos para cá os jornais trazem fotografias, e assim eu fico sabendo o que acontece por aí. Além disso, a minha mulher é instruída, e escreve todas as cartas de que eu preciso. Não sou nenhum imprestável por isso.
Os dois conselheiros olhavam para o vigário, um tanto perturbados, e depois baixaram os olhos para a mesa.
— Bem, Foreman. Eu discuti o assunto com os conselheiros, e eles concordaram em que numa igreja do porte da nossa não é admissível um sacristão analfabeto. Quero que você compreenda, Foreman, que não tenho nenhuma reclamação contra você, pois tenho em alto conceito o seu caráter e a sua capacidade, além disso você desempenha bem suas funções. Mas não temos o direito de arriscar-nos a que algum acidente possa ocorrer devido à sua lamentável ignorância. É por motivo de prudência, e também por princípio.
— Você não conseguiria aprender, Foreman? — perguntou um dos conselheiros.
— Não, senhor. É muito tarde para isso. Se eu não consegui quando era criança, acho pouco provável que consiga enfiar as letras na cabeça agora.
— Não queremos agir com brutalidade, Foreman, mas os conselheiros e eu já decidimos dar-lhe três meses de prazo. Se até lá você não conseguir, teremos de dispensá-lo.
— Lamento, senhor, mas isso será perda de tempo. Burro velho não pega marcha. Vivi muitos anos sem saber ler e escrever, e modéstia à parte desempenhei bem o meu papel sem isso. Mesmo que eu tivesse condições para aprender agora, não me interessaria nem um pouco.
— Neste caso, Foreman, lamento dizer-lhe que o dispensamos.
— Sim, senhor. Com prazer eu entregarei meu cargo tão logo o senhor contrate um substituto.
Depois que se despediu dos três e fechou atrás de si a porta da sacristia, Albert relaxou o ar de serena dignidade com que suportara o golpe, e seus lábios se contraíram. Pendurou a batina no armário, vestiu o sobretudo e saiu da igreja pensativo. Não tomou o caminho de casa, onde o esperava o seu chá. De coração oprimido, caminhou lentamente, sem saber de momento o que fazer da vida. Não lhe passava pela cabeça voltar à função de mordomo, depois de ser o dono de si mesmo por tanto tempo, pois quem de fato administrava aquela igreja era ele. Tinha economizado bastante, mas não o suficiente para viver sem trabalhar, e além disso a vida estava cada dia mais cara.
Nunca pensara que viria a enfrentar esse problema. Afinal de contas, os sacristães da Igreja de São Pedro eram vitalícios, tanto quanto os Papas. Pensara até nas elogiosas referências que o vigário faria, no sermão seguinte à sua morte, sobre a dedicação e o caráter exemplar do falecido sacristão Albert Edward Foreman. E suspirou profundamente.
Albert não fumava nem bebia. Ou melhor, não em termos tão absolutos. Tomava uma cerveja no jantar, algumas vezes, e fumava um cigarro quando se sentia preocupado ou cansado. Era bem o caso, naquele momento, e como não costumava trazê-los consigo, começou a olhar de um lado e outro daquela rua movimentada, à procura de uma tabacaria. Havia por ali lojas de todos os tipos, mas nenhuma tabacaria. Foi até o fim da rua, e nada.
— “Que coisa estranha!” — pensou.
Para não haver dúvidas, voltou ao início da rua: nenhuma tabacaria.
— “Não é possível que eu seja o único homem, em toda esta rua, que de vez em quando quer dar uma tragada. E acho que um comerciante poderia ter bom lucro com uma loja dessas aqui”.
Albert tomou o caminho de casa, e ia pensando:
— “Estranho, como as idéias ocorrem quando a gente menos espera”.
Em casa, enquanto tomava o chá, a mulher comentou:
— Você está silencioso hoje, Albert.
— Estou pensando.
Examinou os vários aspectos do assunto, e no dia seguinte voltou àquela rua. Encontrou facilmente uma loja adequada, alugou-a, e um mês depois despedia-se do emprego na igreja, iniciando suas novas atividades de comerciante de tabaco e jornaleiro. A mulher o censurou pela queda de status, mas ele argumentou que se deve dançar conforme a música, e que agora ele ia dar a César o que é de César.
Albert saiu-se muito bem. Tão bem que depois de um ano resolveu montar outra loja, a ser confiada a um gerente. Procurou uma rua nas mesmas condições, que também não tivesse tabacaria, e a abasteceu convenientemente. Novo sucesso.
Ocorreu-lhe então que, se podia administrar duas, podia administrar meia-dúzia. E começou a andar pela cidade, à procura de ruas movimentadas desprovidas de tabacarias. Em dez anos, as lojas dele já eram nada menos que dez. Toda Segunda-feira ele as percorria, recolhia a renda e depositava num banco.
Um dia, quando fazia esses depósitos habituais, o funcionário do banco o avisou de que o gerente queria conversar com ele. Foi conduzido a uma sala, onde o gerente o recebeu sorridente:
— Sr. Foreman, gostaria de conversar sobre o seu saldo conosco. O senhor sabe exatamente o montante?
— Não em todos os centavos, mas tenho uma idéia bastante aproximada.
— Sem contar o que o senhor depositou hoje, é um pouco mais de trinta mil libras. É uma quantia muito alta para ficar simplesmente depositada, e eu acho que o senhor poderia lucrar bastante investindo-a.
— Não quero correr riscos, senhor, e prefiro tê-la garantida no banco.
— O senhor não precisa preocupar-se. Forneceremos para sua escolha uma lista de investimentos seguros, com lastro em ouro, que lhe trarão rendimento maior do que o banco pode oferecer.
— Nunca entendi de ações e títulos, e terei de deixar as aplicações para o senhor decidir.
— Não há problema. Tomaremos todas as providências necessárias. Basta o senhor assinar os papéis quando voltar ao banco.
— Está bem, mas como é que eu vou saber o que é que estarei assinando?
— Basta ler o texto dos próprios documentos.
— Acontece, senhor, que isso eu não posso fazer. Pode parecer estranho, mas não sei ler nem escrever, só sei assinar meu nome. E mesmo isso, só porque fui obrigado, quando entrei no ramo de negócios.
O gerente levou um susto tão grande, que saltou da cadeira.
— Isto é a coisa mais extraordinária que eu já ouvi!
— Mas é como eu lhe estou dizendo. Só tive a oportunidade de aprender quando já era bem idoso, e aí eu decidi não tentar. Uma espécie de obstinação.
O gerente olhava-o fixamente, como se fosse um monstro pré-histórico.
— Quer dizer que o senhor montou todo esse seu negócio e juntou uma fortuna de trinta mil libras sem saber ler nem escrever? Santo Deus! Imagino então o que o senhor teria conseguido, se soubesse.
Foreman deu uma gargalhada, e respondeu:
— Isso eu posso lhe dizer, direitinho: Seria sacristão na igreja de São Pedro.


Somerset Maugham, Collected short stories
Penguin Books, Harmondsworth, 1971