22/04/2010

Recado com canário dentro

Aos oito anos de idade havia duas coisas de que eu gostava muito: do meu canário e de semear. Semeava tudo: caroços de laranja, de nêsperas e de melancia, raízes minúsculas de violeta, pétalas de papoila, olhinhos amarelos de malmequer. Semeava nos vasos, nos canteiros da escola, nas terrinas partidas, nos buracos dos troncos das oliveiras e, sobretudo, debaixo duma nespereira enorme que havia na quinta da minha casa de infância.
Tão lindo, as sementes a transformarem-se! Primeiro, nasciam duas folhas, tenras, quase transparentes. Depois, cresciam os caules, rapidamente, cobriam-se de mais folhas. Às vezes, trepavam pelas paredes brancas de cal, e as paredes ficavam verdes de folhas e mais tarde de flores, abelhas e borboletas. E, como já referi, também gostava muito do meu canário: porque era pequenino, parecia um novelo de lã amarelinha, e fora uma prenda da minha professora, que achava que eu era a melhor da aula.
O canário acordava-me todas as manhãs com o seu canto, e, mesmo que fosse Inverno, a casa ficava cheia de Sol e perfume de flores quando ele assobiava as suas canções. Mas, um dia, choveu granizo e o canário não resistiu ao frio daquelas pedras de neve. Morreu. Perturbada com a terrível revelação, depressa descobri que alguma coisa de diferente, silenciosa e implacável, pode interromper a vida e os sonhos. Então, cheia de uma tristeza tão grande e pura como só uma criança pode sentir, mas permitindo que uma ténue esperança sobrevivesse no fundo da minha dor, não hesitei: fui também semear o canário!
Do armário, tirei a caixa onde se guardavam os meus sapatos de verniz dos dias de festa. Afastei o papel de seda que os envolvia como quem abre portas de luz. Tapei o fundo da caixa com flores, muitas flores de laranjeira. Nesse pequeno leito de perfume branco, deitei o canário. De lado, como se dormisse. Mas os canários não dormem de lado, pensei; o melhor, seria de ventre para baixo, como se estivesse a cheirar as flores ou tivesse pousado apenas, um momento, para descansar dum voo. Depois, pensei ainda: e se ele acorda daquele frio, tão frio, que lhe deixou os olhos sem brilho como um vidro sujo? Assim, não vê o céu e assusta-se. Então, voltei-‑o com as patinhas para cima: parecia um canário a rezar ao deus dos passarinhos. Coloquei-lhe, entre as patas, um ramo com folhas verdes onde já nascia uma pequena laranja, fechei outra vez as portas de papel de seda, fechei a caixa. Desci as escadas devagar. Para não encontrar gente. Para não me fazerem perguntas. Atravessei a quinta. Penetrei nesse espaço mágico de galerias, planícies, areias lisas, que era o chão, fresco, debaixo da nespereira, e cujos ramos caíam até ao chão, com folhas e frutos a que só eu tinha acesso.
Semeei o canário.
É talvez uma semente que tenha demorado um pouco mais a nascer, porque tem asas e as asas crescem devagar. Mas eu sei, tenho a certeza que ainda um dia, subitamente, no alto duma árvore qualquer, eu avistarei essa ave. Como os meus olhos começam a ficar míopes e já confundo, muitas vezes, canários com raios de sol, espero que alguém, que ainda acredita em asas, me ajude a descobri-lo. E que não desista nunca de esperar a ave. Mesmo que ela tarde. Porque ela virá, temos de acreditar, perfumada de flores de laranjeira, rasgando portas de luz e inaugurando, com o seu canto, os dias claros de uma Primavera tão desejada.
E virá para sempre.


Maria Rosa Colaço
Não Quero Ser grande
Lisboa, Ed. Escritor, 1996


O dono do cão do homem

Conto-vos como fui traído não pela minha amada, mas pelo meu cão. Deixado assim sem palavra, sem consolo. Devia haver um hotel para os donos de cães abandonados pelos bichos. Com ligas de amigos e associações de protecção e senhoras benfazejas, ajustando consciência em leilões de caridade. Não se trata de concluir sobre a geral ingratidão canina. Apenas um aviso aos outros dedicados e fiéis donos de bichos.
Sou um qualquer da vulgar raça humana, sem comprovado pedigree e, se tiver cabimento em jornal, será nas páginas de anúncios desclassificados. Já o meu cão, ao contrário, é de apurada raça, classe comprovada em certificado de nascença. O bicho é bastante congénito, cheio de hereditariedade. Re-triever, filho de retriever, neto de bisneto. Na pura linha dos ancestrais, como os reis em descendência genealógica. Mais caricato é o nome com que já vinha baptizado. Esse nome, de tão humano, quase me humilha: Bonifácio. Nome de bicho? Vou ali e não venho.
Aos fins da tarde, eu o levava a passear. Isto é: ele me arrastava na trela. Bonifácio é que escolhia os atalhos, as paragens, a velocidade. E houve vezes que, para não dar inconveniências, eu me rebaixei a ponto de lhe recolher o fedorento coco. Prestei tal deferência aos meus próprios filhos? Depois de toda esta mordomia, as pessoas atentavam apenas nele:
- Belo exemplar, lindo bicho - diziam.
Quando me notavam era por acidente e acréscimo. Eu, humildemente eu, na outra extremidade da trela. Eu, o atrelado, de simples raça humana, sem prova de pureza. O meu cão, senhor e dono, estava acima dos verbos animais. Não cheirava: aspirava os sofisticados odores nas árvores. Não urinava. Se aliviava com dignidade, mais a fio de aprumo. E se sujava a rua, não era ele o imundo: as vergonhas eram-me endereçadas a mim e só a mim.
A minha disposição ia agravando à medida dessas injustiças a ponto de eu já rosnar quando atrelava o Bonifácio. Essa contrariedade devia traduzir-se em meu rosto quando, certa vez, me perguntaram:
- Morde?
Respondi que não, estivessem à vontade e se aproximassem do bicho.
- Não me referia ao cão, mas a si.
Foi o primeiro alerta. Me assaltou o receio: um dia me obrigariam a usar açaimo. E apresentar certidão de vacina.
Passei a evitar sair com o bicho. Apenas quando a cidade se desabitava, e já nem os nocturnos uivos ecoavam pelos becos, é que eu ousava passear o Bonifácio. Pois foi numa dessas vezes que ele, obediente à sua natureza canina, desfechou umas tantas dentadas num gato. Aquilo deu alarido e pedidos de responsabilidade. E foi a mim que se dirigiram, nervosos:
- Está vacinado?
- Quem, eu?- inquiri, já desvalido.
Não houve mais réplica, nem tira-teimas. Ser dono de gato tem maiores vantagens: a pessoa se convence que ou o bicho é virtual ou existe apenas em horas próprias. Mas, dentro de mim, não descacimbava a dúvida: desconfiavam que tivesse sido eu a morder? Eu já estava perdido, inválido para direitos humanos. Como se podia suspeitar que, entre eu e o Bonifácio, seria eu o mordedor? Bem sei que a boca humana alberga os ditos dentes caninos. E no focinho de Bonifácio morava um sorriso de imaculada inocência.
Para fecho do caso do felino, tive que acarretar todas as culpas e indemnizações. E Bonifácio, em alegre displicência, pronto para outros ataques a gatos inocentes e civis. Aquilo foi o transbordar. O melhor amigo do cão é o homem? Pois eu, por amor de mim, decidi fugir de casa, deixar para trás tudo, vizinhos, amigos, os gastos e os ganhos de uma vida inteira. E nem me dei mal, tal era o alívio de não ter que me manter doméstico e domesticado. Feliz, me alojei em toca bruta, numa arrecadação vaga no jardim público. Desfrutando autêntica vida de cão. Ali me deitavam uns restos. Às vezes, com mais sorte, uns doggy-bags. Saudoso da minha pessoal existência de pessoa? É que pensar já nem era verbo para mim. Homem que ladra não morde, eu ladrava e a caravana passava.
Até que uma destas tardes, meu cão, o tal de Bonifácio, surgiu no horizonte do relvado. Vinha-se arrastando pelo parque, tristonho como um Outono. Quando me viu, a cauda quase se lhe desatou, em violentas pendulações. Correu em minha direcção e, saltitonto, me lambuzou. Ele parecia tão contente que, por momentos, meu coração vacilou e meus olhos se inundaram. Ao chegar-se, mais próximo, vi que trazia uma trela na boca. Agitou-a como que sugerindo para eu o conduzir, uma vez mais, pelos cheirosos caminhos.
- Oh, como é esperto! - comentaram os presentes, comovidos.
- Fui eu que o ensinei- comentei, todo ufano.
- Referíamo-nos a si, meu caro.
Foi o culminar, a gota transbordante. Nem me faltava falar, era o que eu deveria ter acrescido. Mas não falei, nem ladrei. E é sem fala que deixo o meu lamentoso destino. Só a última pergunta: haverá um concurso para homens adestrados? Não me respondam a mim. Quem quer saber é o Bonifácio, meu antigo dono e senhor. É isso que eu leio em seus olhos sempre que ele passa, alto e altivo, pelo parque onde eu vou trocando pulgas com outros canídeos, meus colegas de infortúnio.


Mia Couto, O Fio das Missangas

12/04/2010

Um relógio diferente dos outros


Começa esta história no Parque das Folhas Caídas. E começa quando o senhor Miguel Varredor, que tinha muitas folhas caídas para vassourar, encontrou, junto a um grosso carvalho com séculos de vida, um objecto a luzir no meio das folhas. Parecia um relógio. O senhor Miguel baixou-se e examinou o achado. Era, efectivamente, um relógio.
Desde que entrara ao serviço naquele parque, muitas coisas perdidas, algumas de valor, já achara: luvas, livros, chapéus, óculos, lenços, bolsas… – nem lhes tinha a conta.
E também um relógio, uma vez por outra.
O senhor Miguel pegava no objecto, achado por ele e perdido por alguém, que ele não conhecia, e entregava-o ao porteiro do parque, para que ele se encarregasse de o devolver «a quem provasse pertencer-lhe». Era assim tal e qual que vinha escrito no regulamento do Parque das Folhas Caídas.
Só uma vez não procedeu desta maneira.
Foi quando achou, no meio do parque, um menino que se perdera. Não o entregou ao porteiro, como estava escrito no regulamento. Ele próprio levou o achado pela mão até à casa dos pais do tal menino.
Ali estava mais um objecto perdido: um relógio. Era de ouro e tinha um lindo mostrador desenhado, com os números em relevo. O senhor Miguel observou melhor e reparou que tinha nas mãos um relógio invulgar, um relógio como nunca vira outro assim. Não se limitava a ser um relógio de bolso bonito, mesmo muito bonito. Era, realmente, um relógio extraordinário.
Um raio de sol, suspenso da rede de folhas, incidiu sobre o mostrador, como para apontar ao senhor Miguel as maravilhas de que aquele relógio se compunha.
— Tantos ponteiros! E para quê? – perguntava o senhor Miguel de si para si.
Então começou a reparar: um ponteiro para os segundos, outro para os minutos, outro para as horas. Até aqui era um relógio vulgar. Mas havia mais ponteiros… Um que indicava os dias da semana, outro que indicava os meses e outro que indicava as estações do ano. Numa fresta, numa pequena janela aberta no mostrador, distinguia-se um número de dois algarismos – era o dia do mês, e num buraquinho redondo, que quase se não via, lá estava também um número de quatro algarismos, a indicar o ano. Relógio mais completo seria impossível inventar!
O relógio trabalhava num tic-tac leve, que mal se ouvia. O senhor Miguel procurou a corda. Não tinha. «Talvez trabalhe com o calor do sol, como sucede às plantas… Talvez trabalhe como o próprio Sol, que também não precisa de corda…», pensou o senhor Miguel, mal acreditando em tanta perfeição.
Foi a correr entregar o seu achado ao porteiro do parque. O dono do relógio devia estar em cuidado. De certeza que, àquela hora, corria, aflito, toda a cidade à procura do seu maravilhoso relógio. Daí a pouco passaria pelo parque e perguntaria se tinham encontrado um relógio com seis ponteiros, um relógio de mostrador desenhado, um relógio de ouro, um relógio muito valioso, muito antigo, um relógio extraordinário. Não podia fazê-lo esperar.
Mas o dono não apareceu nesse dia, nem nos dias seguintes. Nunca apareceu. Entretanto, o relógio continuava a trabalhar no seu tic-tac leve e a indicar com toda a precisão o segundo, o minuto, a hora, o dia, o mês, a estação do ano, o ano. Por duas vezes rodou o ponteiro dos meses no mostrador desenhado. Ao fim de dois anos, o relógio foi entregue ao senhor Miguel, porque ninguém o reclamara até então.
O relógio maravilhoso passava a pertencer ao senhor Miguel.
Ele ainda quis opor-se:
— Não mereço. Sou um homem tão simples… – queria ele dizer, mas a felicidade que sentia não o deixou falar.
O relógio de ouro passou a ser a sua única preocupação.
— Se ele pára?

Mas o relógio não parava. Corria o ponteiro dos segundos, arrastava-se o ponteiro dos minutos, nem se via andar o ponteiro das horas. Os outros ponteiros pareciam parados, mas, quando vinha a chuva e o frio, o ponteiro das estações marcava, pontualmente, o Inverno.
O primeiro pensamento do senhor Miguel, ao acordar, era para o seu relógio. Teria o ponteiro dos dias ficado preso?
Ter-se-ia esquecido de andar? Nunca tal sucedia. O relógio maravilhoso nunca se atrasava.
Muitos algarismos passaram pelo buraquinho redondo que marcava os anos. Era um relógio incansável. Não podia dizer o mesmo o senhor Miguel. Envelheceu. Reformara-se. Já lhe faltava a vista para saber as horas e anos que o mostrador indicava. Umas vezes os filhos, outras os netos, outras os bisnetos, é que lhe diziam as horas, quando ele pedia.
Para que lhe servia saber as horas, se já perdera a conta dos anos que tinha? Ora, para quê? Só para ter a certeza de que o relógio que ele achara, o seu relógio, estava ali, continuava a trabalhar.
Quando, sentado numa cadeira de baloiço, com um cobertor pelos joelhos, acordava da sesta, perguntava logo ao bisneto mais novo:
— Que horas são?
— Sete horas, bisavô – respondia o garoto.
— De que dia?
— Terça-feira.
— E de que estação?
— Primavera, bisavô.
O senhor Miguel descansava. Mas esquecera qualquer coisa:
— Olha… e de que ano?
O bisneto dizia.
— Tão tarde – comentava o senhor Miguel, e voltava a adormecer.


António Torrado
O mercador de coisa nenhuma
Livraria Civilização Editora, 1994




09/04/2010

Os pássaros de Deus



Desculpa: mais peregrino que o rio não conheço. As ondas vão, vão nessa ida sem fim. Há quanto tempo a água tem esse serviço? Sozinho sobre a velha canoa, Ernesto Timba media a sua vida. Aos doze anos começara a escola de tirar peixe da água. Sempre no comboio da corrente, a sua sombra havia mostrado, durante trinta anos, a lei do homem sobre o rio. E tudo era para quê? A seca esgotara a terra, as sementeiras não cumpriam promessa. Quando regressava da pescaria, não tinha defesa para os olhos da mulher e dos filhos que se espetavam nele. Pareciam olhos de cachorro, custava admitir, mas a verdade é que a fome iguala os homens aos animais.
Enquanto pensava as suas dores, Timba fez a canoa escorrer devagarinho. Por baixo da mafurreira da margem, ali onde o rio estreitava, parou o barco para enxotar o pensamento triste. Deixou o remo a trincar a água e a canoa agarrou-se à imobilidade. Mas o pensamento insistia:
- Vivi o quê? Água, água, só mais nada.
A canoa, entre um e outro baloiar, multiplicava-lhe a angústia.
- Vão-me tirar um dia, engolido no rio.
Ele antevia a mulher e os filhos a verem-no sair puxado do lodo, e era como se arrancassem as raízes da água.
Por cima, a mafurreira guardava o recado agreste do sol. Mas Timba não escutava a árvore, os olhos espreitavam-lhe a alma. E pareciam cegos, que a dor poeira que nos vai vazando a luz. Mais alto, a manhã chamou e ele sentiu o cheiro do azul intenso.
- Quem me dera ser do céu - suspirou.
E sentia a fadiga de trinta anos a pesar-lhe na vida. Lembrou as palavras de seu pai, feitas para lhe ensinar coragem:
- Está ver o caçador, maneira que ele faz? Prepara a zagaia momento que ele vê a gazela. Enquanto não, o pescador não pode ver o peixe dentro do rio. O pescador credita uma coisa que não vê.
Aquela era a lição do há-de vir da vida e ele, agora, lembrava as sábias palavras. Fazia-se tarde e a fome avisou-o da hora de voltar. Começou a mover o barco enquanto deitava os últimos olhares para lá, atrás das nuvens. Foi então que um pássaro enorme passou no céu, parecia um rei satisfeito com a sua própria grandeza. O bicho, no alto, segurou-lhe os olhos e uma inquietação estranha nasceu dentro de si. Pensou:
“Se aquele pássaro casse agora meu concho!” (Concho: canoa.)
Pronunciou alto aquelas palavras. Mal se calou, o pássaro sacudiu as enormes asas e, bruscamente, desvoou, desvoou, em direcção à canoa. Tombou, parecia despedido da vida. Timba recolheu aquele destroço e, segurando-o nas mãos, viu que o sangue ainda não desabotoara aquele corpo. No barco, o animal foi recuperando. Até que direitou e subiu à proa a olhar a sua sobrevivência. Timba pegou nele, pesou-lhe a carne para lhe adivinhar o caril. Afastou a ideia e, com um empurrão, ajudou a ave a retomar o voo.
- Suca (Suca: Fora daqui!) pássaro, vai donde vieste!
Mas o pássaro deu meia volta e regressou ao barco. O pescador voltou a enxotá-lo. Outra vez, o mesmo regresso. Ernesto Timba começou a sustar.
- Maldito pássaro, volta na tua vida.
Nada, o pássaro não se mexia. Foi então que o pescador suspeitou: aquilo não era um pássaro, era um sinal de Deus. Esse aviso do céu havia de matar, para sempre, o seu sossego.
Acompanhado pelo animal voltou para a aldeia. Chegou a casa, a mulher festejou:
- Vamos armoçar o pássaro!
Num alvoroo chamou as crianças:
- Meninos, andam ver chinhanhane (Chinhanhane: passarinho) .
Sem responder, Timba poisou a ave sobre a esteira e foi às traseiras da casa buscar tábuas, arame e caniço. Começou logo ali a construir uma gaiola de grandes dimensões, mesmo um homem em pé cabia dentro. Meteu nela o animal e deitou-lhe o peixe que pescara.
A mulher dimirava: o homem estava maluco. O tempo foi passando e os cuidados de Timba eram todos para o pássaro.
A mulher perguntava, apontando o pássaro:
- A fome da maneira que está pertar, você não quer-lhe matar?
Timba levantava o braço, categórico. Nunca! Quem tocasse no pássaro seria punido por Deus, seria descontado na vida.
E assim foram passando os dias, o pescador aguardando novos sinais dos desígnios divinos. Vezes sem conta, ficava na tarde molhada enquanto o rio se sentava à sua frente. O sol abaixava e ele fazia a última visita de controlo à gaiola onde o animal engordava. Pouco a pouco, foi notando uma sombra de tristeza pousada no pássaro sagrado. Percebeu que o bicho sofria por estar só. Uma noite pediu a Deus que enviasse uma companheira para a ave solitária. No dia seguinte, a gaiola tinha um novo habitante, uma fêmea. Silenciosamente, Timba agradeceu aos céus pela nova dádiva. Ao mesmo tempo, uma preocu-pação lhe foi nascendo: por que razão Deus lhe confiara a guarda daqueles animais? De que mensagem seriam portadores?
Pensou, pensou. Esse sinal, esse relâmpago de plumas brancas, só podia significar que a disposição do céu estava para mudar. Se os homens aceitassem despender a sua bondade para com os mensageiros celestes, então, a seca terminaria e o tempo da chuva ia começar. Coubera-lhe a ele, pobre pescador do rio, ser hospedeiro dos enviados de Deus. Competia-lhe mostrar que os homens podem ainda ser bons. Sim, que a verdadeira bondade não se mede em tempo de fartura mas quando a fome dança no corpo dos homens.
A mulher, regressada da machamba, interrompeu-lhe o pensamento:
- Afinal? São dois agora?
Ela chegou-se mais perto, sentou-se na mesma esteira e fixando longa-mente o seu companheiro, falou:
- Ó marido: a panela está no fogo. Estou pedir licença no pescoço de um, de um só.
Foi estrago de tempo. Timba prometeu severo castigo a quem maltratasse os pássaros divinos.
Com o tempo, o casal teve crias. Eram três, feios e desajeitados, sempre de goela aberta: um apetite de vazar o rio. Timba trabalhava pelos pais dos passa-rinhos. A comida de casa, já tão escassa, era desviada para alimentar a capoeira.
Na aldeia, espalhou-se a suspeita: Ernesto Timba estava era maluco. A própria mulher, depois de muito ameaçar, abandonou o lar, levando com ela todos os filhos. Timba pareceu nem notar a ausência da família. Preocupou-se, isso sim, em reforçar a segurança do galinheiro. Sentia em redor o espírito da inveja, a congeminação da vingança. Que culpa tinha ele de ter sido escolhido? Diziam que enlouquecera. Mas quem é escolhido por Deus perde sempre os seus caminhos.
E uma tarde, acabando o serviço do rio, uma suspeita queimou-lhe a mente: os pássaros! Pôs-se de regresso, rapidando. Já próximo, viu uma nuvem de fumo subindo nas árvores que cercavam a sua casa. Encostou a canoa sem sequer a amarrar e desatou a correr em direcção à tragédia. Quando chegou já só restavam destroços e cinzas. A madeira e o arame tinham sido mastigados pelo lume. Por entre as tábuas escapava uma asa que o fogo não tocara. O pássaro deve ter-se arremessado contra a parede das chamas e a asa fugira, era uma seta terrível a apontar desgraça. Não baloiçava, como é mania das coisas mortas. Estava firme, cheia de certeza.
Timba recuou aterrado. Gritou pela mulher, pelos filhos e depois, desco-brindo que não havia por quem mais gritar, chorou lágrimas de raiva, tantas que lhe magoaram os olhos.
Porque? Porquê magoaram os pássaros, tão bonitos que eram? E, ali, entre cinza e fumo, explicou-se a Deus:
- Vais zangar, eu sei. Vais castigar os teus filhos. Mas olha: estou pedir desculpa. Faz morrer a mim sozinho, eu. Deixa os outros no sofrimento que já estão sofrer. Mesmo podes esquecer a chuva, podes deixar a poeira encostada no chão, mas faz favor, não castigues os homens desta terra.
No dia seguinte, encontraram Ernesto, abraçado à corrente do rio, arrefecido pelo cacimbo da madrugada. Quando o tentaram erguer, verificaram que estava pesado e que era impossível separá-lo da água. Juntaram-se os homens mais fortes mas foi esforço vão. O corpo estava colado superfície do rio. Um receio estranho espalhou-se entre os presentes. Para iludir o medo, algum disse:
- Vão avisar a mulher. Digam aos outros que morreu o louco da aldeia.
E retiraram-se. Quando subiam a margem, as nuvens estalaram, parecia que o céu tossia, severo e doente. Noutro qualquer momento, teriam festejado o anunciar da chuva. Agora não. Pela primeira vez, se uniram as crenças suplicando que não chovesse.
Plácido, o rio foi ficando longe, a rir-se da ignorância dos homens. E num embalo terno foi levando Ernesto Timba, corrente abaixo, a mostrar-lhe os caminhos que ele apenas tinha aflorado em sonhos.


Mia Couto, In Vozes Anoitecidas