31/03/2010

Edmar e a montra da loja franca

O Edmar era um rapazito pálido. Tinha uns enormes olhos castanhos que espreitavam por entre uma longas pestanas e sorria a toda a gente com a graça dos seus seis aninhos.
Viviam-se os tempos da revolução. Bendita Revolução!
O Edmar levantava-se sempre muito cedo para ir à estação dos caminhos-de-ferro de Moçambique buscar os jornais, que durante o dia vendia.
Ao meio-dia ia à sua barraca comer um bolinho de arroz que a mãe sempre lhe preparava; depois saía de novo para apregoar os jornais que trazia no enorme saco, quase do tamanho dele. Orgulhava-se de ser o miúdo que mais depressa despachava os jornais, mas nem assim os conseguia vender todos.
Já quase no declínio da tarde, ia entregar os restantes, depois era o seu momento mais desejado: o princípio da noite; quando já todas as crianças da sua idade tinham recolhido a casa, ele descia a Avenida 24 de Julho de Maputo de mãos nos bolsos a assobiar à ardina. Contudo, havia sempre a meio da rua, algo que o prendia por um tempo que não cabia no maior instante do mundo. Era a montra dos brinquedos, a montra a que todos os dias ele colava o nariz e onde ficava pregado ao chão. A montra da loja Franca de Maputo.
Era a montra da ilusão, a montra que ilustrava os seus sonhos ali mesmo na fronteira e sem passaporte. Via e revia as gorjetas que sobravam de todo o dinheiro que fizera; porém nunca chegava para o mais barato carrinho de plástico. Ah!!! Mas o que ele adorava mesmo era a máquina que lhe punha o coração aos pulos e fazia voar o seu pensamento até Roma, Pretória, Paris, Londres, Lisboa, Cairo, Atenas, Estocolmo, Madrid… Estava decidido: quando fosse grande já não vendesse jornais, seria maquinista, ou até quem sabe, fosse vender os seus jornais a Nova Iorque.
Mas o tempo não perdoava. Os dias sucediam-se, uns após os outros e nada de novo traziam. Em todos eles, o Edmar fazia as suas viagens: da sua barraca à estação de caminhos-de-ferro de Moçambique, da estação de caminhos-de-ferro de Moçambique à Avenida 24 de Julho e da Avenida 24 de Julho até ao fim do mundo, ao eterno, ao sonho!...
O ciclo era por isso sempre o mesmo: O Edmar, os jornais, a montra da Loja Franca de Maputo e o comboio eléctrico; este todos os dias lá posto, como se ficasse à espera do Edmar, para ambos irem em viagem e depois lhe dar as boas noites.

Delmar Maia Gonçalves
(autor moçambicano)



21/03/2010

O aniversário da infanta


Era o dia do aniversário da infanta: completava doze anos, e o sol brilhava magnífico nos jardins do palácio.
Embora ela fosse princesa real e infanta de Espanha, fazia anos apenas uma vez em doze meses, como os filhos dos pobres; por isso se tornava deveras importante que em semelhante dia o tempo estivesse muito bom, o que na verdade aconteceu. As altas túlipas raiadas empertigavam-se nos seus caules, lembrando longas filas de soldados, e olhavam com ar de desafio para as rosas, através da relva, como a dizerem-lhes: «Agora já somos tão belas como vocês.» Com pó doirado nas asas, adejavam em torno borboletas cor de púrpura, visitando todas as flores, sem faltar nenhuma. Das fendas dos muros saíam as sardaniscas, e ficavam a aquecer-se à luz esplendorosa. Com o calor, as romãs estalavam e exibiam os seus corações vermelhos e sangrentos. Até os pálidos limões amarelos, que pendiam em profusão entre os encanastrados carunchosos e ao comprido das arcadas sombrias, pareciam haver tomado da claridade fulva do Sol um tom mais rico e mais intenso. As magnólias desabrochavam as suas flores feitas de camadas de marfim, como grandes globos, e impregnavam a atmosfera dum aroma suave e quente.
A princesinha andava cá e lá no terraço, com os seus companheiros, e jogava aos esconderelos de roda dos vasos de pedra e das velhas estátuas cobertas de musgo. Noutro dia qualquer só lhe consentiriam que brincasse com as crianças da sua condição, de que resultava entreter-se sempre sozinha; mas o dia de anos era uma excepção, e o rei dera ordem para que ela convidasse os amigos juvenis que fossem do seu gosto, a fim de brincarem todos juntos. Que majestosa graça nesses pequenos espanhóis, eles de chapéu emplumado e capas curtas esvoaçantes, elas a segurarem a cauda do vestido de brocado, protegendo os olhos da luz muito viva com enormes leques negros e prateados! Mas a infanta era a mais graciosa de todas as crianças, a que estava vestida com maior elegância, à moda um tanto embaraçosa aí época. O vestido dela era de cetim pardo, com a saia e as largas mangas tufadas repletas de bordados de prata e o rígido corpete guarnecido de pérolas valiosas. Quando dava um passo, surgia-lhe de baixo do vestido o sapatinho de enorme laço cor-de-rosa. Deste tom, e também do de pérola, era o vasto leque de gaza; e no cabelo, que lhe emoldurava a facezinha pálida como uma auréola de oiro desmaiado, sustinha uma rosa branca e formosíssima.
Observava-os o rei melancólico, lá duma janela do palácio. Seu mano D. Pedro de Aragão, a quem odiava, permanecia um pouco atrás dele, e o inquisidor-mor de Granada havia-se sentado à sua beira. O rei conservava-se mais triste que de costume, lembrando-se da rainha que lhe parecia ter chegado dias antes da alegre terra de França e que afinal se estiolara já no sombrio esplendor da corte espanhola, morta precisamente seis meses depois do nascimento da filha e antes que houvesse visto as amendoeiras florescer duas vezes no pomar ou colhido o fruto do segundo ano da velha e rugosa figueira que avultava no meio do pátio, agora invadido pelas ervas. Tão grande fora o seu amor por ela que nem suportara que o túmulo lha escondesse: embalsamara-a um físico mouro que em paga desse serviço salvara a vida, condenada já pelo Santo Ofício, ao que se dizia, por ser herético e suspeito de praticar as artes mágicas. Agora o corpo da rainha jazia numa urna envolta em tapeçarias, na capela de mármore preto do palácio, e tal como os frades a trouxeram doze anos antes, naquele tempestuoso dia de Março. Uma vez por mês o rei, embrulhado na capa negra e de lanterna fosca na mão, ia ajoelhar a seu lado, chamando em voz alta mi reina, mi reina! Às vezes, quebrando a rigorosa etiqueta (que em Espanha governa cada acto da vida e até põe limites à dor dum rei) pegava nas lívidas mãos cheias de jóias, e, no desvario da sua aflição, tentava despertar com beijos loucos a face fria e pintada.
Ao ver a infanta saudando, com infantil gravidade, os cortesãos reunidos, ou rindo, por trás do leque, da feia duquesa de Albuquerque, que sempre a acompanhava, o rei evocou de novo a rainha defunta, como a contemplara a primeira vez no castelo de Fontainebleau, quando ele tinha apenas quinze anos e ela era ainda mais nova. Por essa altura haviam ficado oficialmente noivos, com a bênção do núncio apostólico e em presença do rei de França e de toda a corte. Ele voltara depois para o Escoriai, trazendo consigo um anel de cabelo loiro e a recordação de dois lábios infantis que se curvavam para lhe beijar a mão, no momento de entrar para a carruagem. Mais tarde seguira-se o casamento, celebrado à pressa em Burgos, cidadezinha fronteiriça aos dois reinos, e a entrada espectaculosa em Madrid, com a habitual missa cantada na igreja de Atocha e um soleníssimo auto-de-fé, em que cerca de trezentos heréticos, entre os quais muitos ingleses, foram entregues ao braço secular, para serem queimados.
Amara-a, sem dúvida, loucamente, e, na opinião de muitos, em prejuízo do seu país, que se batia então com a Inglaterra pela posse do Novo Mundo. A custo permitira que ela se afastasse da sua vista; por ela esquecera, ou parecera esquecer, os mais graves negócios de Estado. E, com aquela terrível cegueira que a Paixão provoca nos que se lhe entregam, não percebera que as complicadas cerimónias com que se supunha cativá-la só serviam para lhe agravar ainda mais a misteriosa doença de que padecia. Quando ela morreu, ele, durante uns tempos, andou como doido. E decerto que abdicaria, retirando-se para o mosteiro trapista de Granada, se não temesse deixar a infanta à mercê do irmão, cuja crueldade, mesmo em Espanha, era coisa por de mais sabida; até havia quem suspeitasse ser esse homem a causa da morte da rainha, conseguida por meio dum par de luvas envenenadas com que D. Pedro a presenteara quando a cunhada fora em visita ao castelo de Aragão. Ainda depois de expirados os três anos de luto oficial, ordenado em todos os domínios por um edicto régio, o monarca não tolerava que os ministros lhe falassem de novo matrimónio; ao oferecer-lhe o próprio imperador a mão da encantadora arquiduquesa da Boémia, sua sobrinha, ordenou ele aos embaixadores que informassem o seu soberano que o ré: de Espanha estava já casado com a Dor e que, embora fosse uma noiva estéril, lhe tinha mais amor de que à Beleza — resposta que custou à coroa as ricas províncias dos Países Baixos, as quais depressa, a instigação do imperador, se revoltaram sob a chefia; de alguns fanáticos da Reforma.


A sua vida inteira de casado, com as alegrias dos primeiros tempos e o desespero do súbito desenlace, pareciam agora ressuscitar pelo condão da infanta que brincava no terraço. Tinha toda a bela petulância da rainha, o mesmo modo voluntarioso de agitar a cabeça, a mesma curva orgulhosa da linda boca, o mesmo sorriso encantador — de facto, vrai sourire de France — quando erguia de vez em quando o olhar para a janela ou estendia a mãozita a beijar aos soberbos fidalgos espanhóis. Mas o riso estridente das crianças dir-se-ia espicaçar os ouvidos do rei e o sol brilhante troçar impiedosamente da sua melancolia; e um cheiro pesado de estranhas drogas, como as que usam os embalsamadores, parecia corromper (ou era imaginação?) a pureza do ar matutino. Escondeu o rosto nas mãos, e, quando a infanta voltou a olhar para cima, os reposteiros tinham-se fechado e o monarca já não estava ali. Ela então fez um gesto de contrariedade e encolheu os ombros. Achava que o pai a devia ter acompanhado mais tempo, no dia do seu aniversário. Que importavam os estúpidos negócios de Estado? Ou fora àquela soturna capela onde os círios ardiam de contínuo e onde nunca lhe permitiam que entrasse? Que disparate, quando o sol estava tão claro e toda a gente se sentia feliz! Além disso, perderia a corrida de touros simulada para a qual já tinha soado a trombeta, não falando do espectáculo de títeres e de outras coisas deliciosas. O tio e o inquisidor-mor eram muito mais sensatos: haviam saído para o terraço e dirigiam-lhe amáveis parabéns. A infanta sacudiu a cabeça e, tomando D. Pedro pela mão, desceu devagar os degraus que conduziam a uma comprida tenda de seda cor de púrpura, adrede erecta ao fundo do jardim. As outras crianças seguiram-na, observando rigorosamente as precedências: à frente iam as que usavam maior quantidade de apelidos.
Ao seu encontro veio um cortejo de rapazinhos nobres, graciosamente vestidos de toureiros. O conde de Tierra Nueva, lindo menino dos seus catorze anos, descobrindo-se com o à-vontade dum fidalgo de raça e grande de Espanha, conduziu-a solenemente a uma cadeira pequena, cor de oiro e de marfim, colocada sob um dossel, acima da arena. As crianças agruparam-se à volta, agitando os leques espaventosos e falando baixinho umas com as outras, enquanto D. Pedro e o inquisidor-mor se detinham, rindo, à entrada. Até a duquesa (camareira-mor, como lhe chamavam), mulher magra e de feições duras, com golilha amarela, parecia não estar com o seu mau humor habitual: algo de semelhante a um sorriso gelado lhe perpassava pela face enrugada e lhe torcia os lábios delgados e exangues.
Que tourada extraordinária! Mais bonita, pensava a infanta, do que essa verdadeira que ela vira em Sevilha, por ocasião da visita que o duque de Parma! fizera ao rei. Alguns dos rapazes curveteavam em cavalos de pau ricamente ajaezados, brandindo compridas farpas enfeitadas de fitas vistosas; outros iam a pé, agitando capas vermelhas diante do touro e saltando rápidos a barreira quando este os acometia. No que respeitava ao touro, era exactamente como os touros a valer, embora fosse feito de verga e duma pele esticada; às vezes insistia em dar a volta ao redondel, erguido nas pernas traseiras, coisa que um animal genuíno jamais se lembraria de fazer. E quanto a lutar, também não pedia meças a ninguém. As crianças excitavam-se tanto que trepavam para cima das bancadas, ondulavam os lenços e repetiam: «Bravo, touro!» tal como é hábito das pessoas crescidas. Enfim, depois de prolongado combate, durante o qual mais dum cavaleiro foi escorneado e desmontado, o moço conde de Tierra Nueva obrigou o touro a ajoelhar e, obtida autorização da infanta para dar o golpe de misericórdia, mergulhou com tal violência a espada de pau no cachaço do animal que a cabeça deste se desprendeu e mostrou a face risonha do pequeno Lorrame, filho do embaixador francês em Madrid.
Foi então a arena desembaraçada no meio de mui¬tos aplausos e arrastados os cavalos mor-tos, do que se encarregaram dois pajens mouros vestidos de amarelo e preto. Seguiu-se um curto intervalo, e o mestre francês de ginástica exibiu-se na corda bamba; representou-se depois a tragédia semi-clássica Sofonisba, por bonifrates italianos, no palco dum teatrinho expressamente edificado para esse fim. Moveram-se tão bem, foram tão naturais os seus gestos, que no final da peça os olhos da infanta estavam húmidos de lágrimas. Houve uma ou outra criança que chorou a valer e só se calou quando ingeriu guloseimas; o próprio inquisidor-mor, comovido, não pôde deixar de dizer a D. Pedro achar intolerável que simples bonecos de madeira e cera colorida, accionados por cordelinhos, fossem tão infelizes e suportassem tão grandes desgraças.

Veio depois um prestidigitador africano. Trazia um cesto muito grande coberto com toalha; pô-lo no meio da arena, tirou do turbante uma esquisita flauta de cana e principiou a tocar. Daí a pouco a toalha mexia-se e, conforme se tornava mais aguda a música, surgiram duas serpentes amarelas e verdes, que espetavam a cabeça cuneiforme e se erguiam lentamente, balançando-se a compasso como plantas que a água fizesse oscilar num tanque. Os pequenos, contudo, assustaram-se um tanto com esses capelos malhados e essas línguas inquietas, e ficaram mais sossegados quando o prestidigitador conseguiu fazer brotar da areia uma laranjeira, que deu belas flores brancas e ostentou frutos verdadeiros; e quando pegou no leque duma petiza, filha da marquesa de Lãs Torres, e o transformou num pássaro azul que voou em roda da tenda e se pôs a cantar. Nessa altura a admiração e o entusiasmo das crianças não conheceram limites.
Foi também adorável o minuete, executado pelo grupo de dança, composto de rapazes da Igreja de Nossa Senhora do Pilar. A infanta nunca tinha visto essa maravilhosa cerimónia que todos os anos se realiza em Maio, em frente do altar da Virgem e em seu louvor; de facto, nenhum membro da família real espanhola frequentava a catedral de Saragoça desde que um padre louco, que alguns supuseram a soldo de Isabel de Inglaterra, tentara administrar uma hóstia envenenada ao Príncipe das Astúrias. Só, pois, de tradição é que ela conhecia a «dança de Nossa Senhora», sem dúvida belíssimo espectáculo. Os rapazes trajavam antigos fatos da corte, de veludo branco e curiosos tricórnios orlados de prata, sobrepostos de grandes plumas de avestruz; quando se moviam ao sol, acentuava-se-lhes ainda mais a cor trigueira do rosto e o tom negro dos cabelos compridos no meio da brancura ofuscante do vestido. Os assistentes ficaram encantados com a dignidade grave com que eles avançavam e recuavam, consoante a figuração do estilo, e com a graça complicada dos seus gestos lentos e vénias majestosas. Ao finalizar o número, tiraram à infanta os largos chapéus emplumados, saudação a que ela correspondeu com toda a distinção, fazendo mentalmente voto de mandar um círio enorme para o santuário da Senhora do Pilar, em paga do prazer que ela lhe proporcionara.
Avançou então na arena um grupo de vistosos egípcios, como eram designados nesse tempo os ciganos; sentando-se em círculo, de pernas cruzadas, começaram a tanger baixinho as cítaras, movendo o corpo em cadência e entoando no mesmo diapasão uma ária embaladora. Ao descobrirem o vulto de D. Pedro, olharam-no de cenho carregado, e alguns pareceram amedrontar-se, pois havia poucas semanas que mandara enforcar por feitiçaria dois da sua tribo, na praça de Sevilha; mas a formosa infanta, recostada na cadeira e espreitando por cima do leque com os seus grandes olhos azuis, tranquilizou-os e deu-lhes a certeza de que uma criatura assim tão bela jamais poderia ser cruel fosse para quem fosse. Por isso continuaram a tocar com toda a suavidade, mal aflorando as cordas das cítaras com as longas unhas pontiagudas e balanceando a cabeça como se estivessem a cair de sono. De súbito, com um grito tão estridente que todas as crianças se assustaram e D. Pedro apertou na mão o cabo de ágata do seu punhal, ergueram-se num pulo e rodopiaram como loucos em torno da arena, batendo os pandeiros e entoando uma canção bárbara de amor na sua linguagem gutural. Depois, a outro sinal, lançaram-se de novo ao chão e ali ficaram muito quietos, ouvindo-se apenas o tom monótono das cítaras a quebrar o silêncio envolvente. Repetiram a cena várias vezes até que desapareceram, para voltarem com um urso-pardo e hirsuto, preso por uma corrente, e dois ou três macaquinhos da Berberia, empoleirados nos ombros. O urso pôs-se de cabeça para baixo e pés no ar, com a maior naturalidade, e os macacos raquíticos fizeram toda a espécie de gaifonas de sociedade com dois pequenos ciganos, que pareciam ser os donos; lutaram com espadas pequenas, dispararam espingardas, e praticaram exercícios militares com a mesma perfeição que a própria guarda real. O número dos ciganos foi, efectivamente, um êxito.
No entanto, a parte mais divertida desta festa matinal forneceu-a o anão com a sua dança. Quando ele entrou no redondel, bamboleando-se nas pernas arqueadas e abanando a cabeça disforme, para um lado e outro, as crianças soltaram um grito de prazer e a infanta riu tanto que a camareira se viu forçada a recordar-lhe que, embora houvesse precedentes de princesas espanholas chorarem em público, não havia nenhum de uma filha de rei desatar às gargalhadas diante dos seus inferiores. O anão, porém, era deveras irresistível; nem mesmo na corte de Espanha, conhecida pela sua paixão do horrível, fora jamais visto um monstrozinho tão extraordinário. Era aquela, na verdade, a sua primeira exibição. Tinham-no descoberto apenas na véspera, quando corria pelo bosque: viram-no dois fidalgos que andavam à caça numa zona mais distante do sobral que envolve a cidade, e haviam-no trazido para o paço, a fim de fazer surpresa à infanta. O pai do monstro, que era um pobre carvoeiro, não pusera dificuldades em se desfazer duma criança tão feia e inútil. Talvez que o mais engraçado nele fosse a completa inconsciência em que vivia quanto ao seu aspecto grotesco. Dir-se-ia até que se considerava feliz, tão boa era a sua disposição. Quando o público infantil se ria, ele ria também com a mesma alegria sincera, e no fim de cada dança cumprimentava um por um com vénias profundas e cómicas, e sorrindo, tal se fosse um simples espectador e não a criaturinha disforme que a natureza trocista se comprouvera em engendrar para gáudio dos outros.
Quanto à infanta, deslumbrara-o em toda a linha. Não podia despegar dela os olhos, e só para ela parecia dançar. Terminada a exibição, lembrou-se a pequena que a corte lançara flores a Caffarelli (famoso soprano que o papa enviara da sua própria capela, a Madrid, na esperança de curar a melancolia do rei com a doçura daquela voz) e então, parte por brincadeira, parte para arreliar a duquesa, arrancou a bela rosa branca do cabelo e atirou-a, com um sorriso adorável, para o lado da arena em que estava o anão.




Este apanhou-a, levou a flor aos lábios grossos e pô-la depois ao peito, ao mesmo tempo que ajoelhava em terra e sorria num esgar que lhe arregaçava a boca de orelha a orelha e enchia os olhos dum brilho jubiloso.
Tanto a cena perturbou a gravidade da infanta que esta continuou a rir já muito depois de o anão haver desaparecido, e expressou ao tio o desejo de que o número fosse bisado. Contudo a camareira, sob o pretexto de que o sol estava muito quente, decidiu ser melhor que Sua Alteza voltasse sem demora ao palácio, onde fora preparada em sua honra uma festa sumptuosa. Haveria um bolo de anos com as suas iniciais desenhadas a granjeias e um estandarte de prata a ondular no topo. Levantou-se, pois, a princesa, com toda a dignidade, e, tendo dado ordem para que o anão dançasse mais uma vez para ela, depois da sesta, e agradecido ao moço conde de Tierra Nueva a bela recepção que lhe proporcionara, retirou-se para os seus aposentos, seguida por todas as crianças na mesma ordem por que haviam entrado.
Quando o anãozinho soube que teria de dançar mais uma vez diante da infanta e por sua ordem expressa, ficou tão orgulhoso que correu para o jardim, beijando a rosa branca em raptos de insensato prazer e fazendo os mais toscos e desgraciosos gestos de alegria.
As flores mostraram-se indignadas com tamanha ousadia: atrever-se a penetrar na sua linda mansão! Ao verem-no pular pelas alamedas, agitando os braços de modo tão ridículo, não puderam por mais tempo reprimir os sentimentos que as animavam.
— É realmente feio de mais para se permitir o gosto de brincar onde nós estamos — exclamaram as túlipas.
— Devia beber suco de papoilas e dormir milhares de anos — observaram os lírios escarlates. E, de irritados, ficaram ainda mais vermelhos.
— É um verdadeiro horror! — gritou um cacto.
— É torcido, atarracado, e tem a cabeça em desproporção com as pernas. Dá-me comichões por todo o corpo só de pensar nele. Se se aproximar de mim não tenho dúvida em o picar.
— E ostenta um dos meus botões mais formosos
— acudiu a roseira branca. — Eu mesma o dei à infanta esta manhã, como presente de anos, e ele furtou-lho. — E bradou três vezes a palavra «ladrão».
Até os gerânios encarnados, que em geral se não dão grandes ares, e que todos sabem como têm muitos parentes pobres, se enroscaram de nojo mal o viram; e quando a violeta modestamente notou que ele, embora feio em extremo, culpa não tinha de o ser, os gerânios retorquiram, com certa razão, que o facto de estar inocente não implicava maior condescendência. De facto, algumas violetas sentiam que a fealdade do anão era quase agressiva e que ele teria mostrado melhor gosto se se apresentasse triste, ou pelo menos pensativo, em vez de saltar alegremente, tomando atitudes disparatadas e impróprias.
Quanto ao girassol, flor notável que tivera a honra de dizer as horas do dia nada menos que ao imperador Carlos V, achava-se tão surpreendido com o aparecimento do anãozinho que quase se esqueceu de marcar dois minutos completos com o seu longo ponteiro do caule, e não pôde deixar de referir ao pavão branco (nesse momento a apanhar sol na balaustrada) que toda a gente sabia que os filhos dos reis eram reis e os filhos dos carvoeiros, carvoeiros; e que era disparate pretender o contrário. Com isto concordou inteiramente o pavão, o qual soltou um guincho de assentimento tão forte, na sua voz alta e áspera, que os peixes doirados, habitadores do tanque da fonte fresca, assomaram a cabeça fora de água e perguntaram aos enormes tritões de pedra que é que se estava a passar.
As aves, porém, gostavam dele. Tinham-no visto muitas vezes no bosque, dançando como um elfo atrás das folhas redemoinhantes, ou aninhado no côncavo dum velho carvalho, a compartilhar com os esquilos o seu quinhão de frutos. Não se im¬portava nada que ele fosse feio, porque também o rouxinol, que tão suavemente cantava à noite nos laranjais, forçando por vezes a Lua a inclinar-se para o ouvir, o rouxinol, enfim, não era nenhuma beldade; além disso o anão fora bondoso para com elas: durante aquele Inverno terrível, quando não havia bagas nas árvores, e a terra era dura como aço, e os lobos desciam até às portas da cidade em busca de alimento, ele jamais se esquecera das avezinhas, e sempre lhes dera migalhas do seu naco de pão negro e os restos do seu pobre almoço.
Por isso voavam em torno do anão, quase a roçar-lhe a face com as asas e pairando umas com as outras. Ele ficava tão contente que não resistia a mostrar-lhes a linda rosa branca e a dizer-lhes que a princesa lha dera em prova do seu amor. Não percebiam patavina do que esse ente humano contava, mas isso não tinha importância, e punham então a cabecinha de lado, com ar sisudo, o que é o mesmo que entender as coisas e por sinal muito mais fácil.
Os lagartos também simpatizavam com ele e, quando o viam cansado de correr e estirado no chão a repousar, brincavam por sua vez trepando-lhe pelo corpo, na ideia de o divertirem a seu modo: «Nem todos podem ser tão belos como um lagarto», diziam lá consigo. «Seria esperar o impossível. E, embora custe a acreditar, este anãozinho não é tão feio como parece: basta fechar-se os olhos e olhar para outro lado...» Filósofos por natureza, os lagartos às vezes ficam horas e horas a meditar, quando o tempo está de chuva e eles não podem sair.


As flores, contudo, aborreciam-se bastante com o procedimento destes bichos e também com o das aves. «Só conseguem demonstrar», murmuravam, «a vulgaridade das corridas e dos voos repetidos. Os seres bem-educados conservam-se, como nós, sempre no mesmo lugar. Nunca ninguém nos viu aos pulos nos passeios ou a galopar doidamente pela relva atrás das borboletas. Quando necessitamos de mudança de ares, chamamos o jardineiro e ele leva-nos para outro alegrete. Assim é que é digno, e assim se deve fazer. As aves e os lagartos não têm a noção do sossego e, a falar verdade, aquelas nem sequer possuem morada fixa. São simples vagabundas, como os ciganos, e como tal devem ser tratadas.» De modo que as flores ergueram o nariz com ar altivo, e se regozijaram ao ver daí a pouco o anão levantar-se e dirigir-se, através do terraço, para o palácio real.
— Deviam conservá-lo dentro de casa para o resto da vida — declararam. — Reparem naquela giba e naquelas pernas tortas! — E, dizendo isto, mal podiam conter o riso.
Mas o anãozinho ignorava tudo isto. Adorava os pássaros e os lagartos e achava que as flores eram as coisas mais extraordinárias do mundo, exceptuando, já se sabe, a infanta: essa, afinal, dera-lhe uma rosa lindíssima e parecia amá-lo, no que se diferençava grandemente de todos os mais. Gostaria tanto de ter voltado para ela! Colocá-lo-ia decerto à sua mão direita, sorrir-lhe-ia, e ele jamais sairia do seu lado. Torná-la-ia sua compa-nheira de folguedos, ensinar-lhe-ia toda a espécie de jogos engraçados. Se bem que jamais houvesse estado num palácio, sabia muitas coisas surpreendentes: fazia gaiolas pequeninas de cana, para as cigarras cantarem lá dentro, e transformava um galho de bambu em flauta, dessas cuja música Pã se recreia a ouvir. Conhecia o canto de todas as aves, era capaz de chamar os estorninhos do cimo das ramadas ou as garças da margem das lagoas. Conhecia o rastro de cada animal e era capaz de seguir a lebre pelas suas pegadas leves ou o javali pelas folhas pisadas do chão. Todas as danças bárbaras conhecia, a dança louca, em trajes rubros, de Outono, a dança ligeira, de sandálias azuis, sobre as searas, a dança das grinaldas cor de neve, do Inverno, a dança das flores, através dos pomares, da Primavera. Sabia onde os pombos-bravos fazem ninho; duma vez, quando certo criador de aves apanhara um casal, ele próprio fora buscar os filhotes e arranjara-lhes um pombal pequenino no côncavo dum ulmeiro. Ficaram muito mansos e costumavam vir comer-lhe à mão, todas as manhãs. A infanta havia de gostar desses borrachinhos, e dos coelhos que correm entre os fetos altos, e dos gaios de pe¬nas metálicas e bico preto, e dos ouriços-cacheiros que se enroscam em bola coberta de espinhos, e das enormes e pacatas tartarugas que se arrastam lentamente, meneando a cabeça e mordiscando as folhas tenras. Devia vir, sim, para a floresta, brincar com ele. O anão ceder-lhe-ia a sua própria cama e ficaria a vigiá-la de fora da janela até romper a manhã, para que não lhe fizesse mal o gado graúdo nem se aproximassem da cabana os lobos esfaimados. E, quando rompesse a alvorada, bater-lhe-ia ao postigo para a despertar e irem ambos divertir-se o dia inteiro. Na realidade, a floresta não era um lugar muito ermo. Às vezes passava um bispo montado na sua mula branca, a ler um livro iluminado; outras, vinham falcoeiros de boné de veludo verde e gibão de camurça, segurando no punho os falcões carapuçados. Quando chegava o tempo das vindimas, viam-se homens de pés e mãos tintos de roxo, coroados de hera, a transportar odres gotejantes; e os carvoeiros sentavam-se à noite de roda das altas fogueiras, observando as achas secas a carbonizarem-se pouco a pouco, e a assar castanhas nas brasas. Para confraternizar com eles, saíam ladrões das cavernas. Em certo momento, vira uma linda procissão serpenteando na longa estrada poeirenta de Toledo; iam adiante os frades a entoar cânticos suaves e a alçar flâmulas vistosas e cruzes de oiro, em seguida os soldados de armaduras de prata, mosquetes e lanças, e no meio três homens descalços, com esquisitos fatos amarelos, como sacos pintados com figuras estranhas, e de círios acesos na mão. Havia, pois, muito que ver na floresta; e, quando ela estivesse fatigada, ele descobriria um banco de musgo macio, ou levá-la-ia nos braços, porque era forte, se bem que soubesse não possuir grande estatura. Far-lhe-ia ainda um colar de bagas vermelhas de norça, que seriam decerto tão belas como as contas brancas que ela usava no vestido e das quais poderia despojar-se para trocar por outras novas. Trar-lhe-ia também cálices de bolota, e anémonas orvalhadas, e pirilampos que seriam como estrelas no seu cabelo de oiro pálido.
Mas onde estava a infanta? Perguntou à rosa que tinha na mão e ficou sem resposta. O palácio dir-se-ia adormecido de lés a lés; nos vãos em que não tinham fechado os taipais, pendiam grossos reposteiros para deter o fulgor da luz. Vagueou então por acolá, em busca dum lugar por onde pudesse introduzir-se, até que avistou uma portinha de serviço que haviam deixado aberta. Insinuou-se por ela e viu-se num átrio esplêndido, mais vasto, pensou, que o próprio bosque e mais cheio de reflexos oirescentes. O soalho era feito de largas lajes coloridas, que compunham um desenho geométrico. A infanta, porém, não se encontrava ali e só algumas soberbas estátuas brancas o olhavam do seu pedestal de jaspe, com tristes olhos vazios e estranhos lábios sorridentes.
No extremo do átrio pendia uma cortina de veludo preto, ricamente bordada, polvilhada de sóis e de estrelas, emblemas favoritos do rei, recortados na cor que ele mais amava. Quem sabe se ela se escondera aí atrás? Fosse como fosse, espreitaria.
Aproximou-se devagar e afastou a cortina. Não estava lá. Havia ainda outra sala, talvez mais bonita do que essa donde acabava de sair. Das paredes desciam panos de rás, que representavam em tons verdes uma cena de caça. Naquela composição, feita por artistas flamengos, haviam despendido sete anos de labor: fora ali outrora o quarto de João, o Louco, esse rei que tanto gostava de caçar que muitas vezes, no seu delírio, tentara montar os cavalos fogosos da tapeçaria, e abater o veado sobrei que saltavam os galgos enormes, e fazer soar ai trompa, e erguer nas mãos a adaga... Servia agora de sala do Conselho de Estado: ao centro, avultava a mesa com as pastas encarnadas dos secretários, nas quais se viam gravados os lises de oiro de Espanha e as armas e emblemas da casa de Habsburgo.


Olhou em volta o anãozinho, espantado e receoso de avançar. Os estranhos cavaleiros silenciosos, que tão velozes galopavam pelos atalhos da mata, traziam-lhe à memória os fantasmas terríveis de que ouvira os carvoeiros falar: homens que só caçavam de noite e que, se encontravam algum ser humano, o transformavam em corça e a matavam. Recordou-se, porém, da linda princesa e encheu-se de coragem. Era provável que estivesse na sala seguinte.
Correu sobre as fofas alcatifas mouriscas e abriu a porta. Não, também ali não estava. A sala mostrou-se-lhe inteiramente deserta. Era a sala do trono, que servia para receber embaixadores estrangeiros, quando o rei (o que já raras vezes acontecia) se dignava conceder audiências particulares; a mesma que, muitos anos antes, acolhera os emissários da Inglaterra quando foram tratar do casamento da sua rainha, então uma das soberanas católicas da Europa, com o filho mais velho do imperador. As colgaduras eram de couro dourado de Córdova, e um pesado lustre da mesma cor pendia do tecto branco e negro, ostentando trezentas velas de cera. Por baixo do amplo dossel de tecido dourado, no qual estavam bordados a aljôfar os leões e os castelos do reino, ficava o trono, coberto por um pano rico de veludo preto guarnecido de lises dourados e primorosamente franjado de prata e pérolas. No segundo degrau do trono estava colocado o genuflexório da infanta, com a sua almofada de tecido argênteo, e mais abaixo, fora do âmbito do dossel, a cadeira para o núncio apostólico, a única pessoa que podia sentar-se em presença do rei nas cerimónias públicas, e cujo barrete cardinalício, com as borlas escarlates, se via defronte, num tamborete de púrpura. Na parede, em frente do trono, estadeava um retrato de Carlos V em tamanho natural, de traje de caçador, acompanhado dum cão enorme; havia ainda um quadro que representava Filipe II a receber vassalagem dos Holandeses, mas este ocupava o meio da outra parede. Entre as janelas, uma escrivaninha de ébano embutida de marfim, na qual as figuras da Dança da Morte, de Holbein, tinham sido gravadas, dizia-se, pela mão do próprio artista.
O anãozinho, porém, pouco se importava com estes esplendores. Não teria dado a sua rosa por todas as pérolas do dossel, nem uma das pétalas pelo próprio trono. O que queria era ver a princesa antes que ela descesse à tenda e pedir-lhe que viesse com ele quando a dança terminasse. Ali, no palácio, o ar era denso e pesado, mas na floresta o vento soprava livremente e os raios solares, com mãos de oiro trémulas, afastavam as folhas para os lados. Lá, havia flores, talvez não tão imponentes como as dos jardins do Paço, porém mais docemente perfumadas: jacintos, na Primavera, que inundavam de púrpura os frescos vales e as colinas verdejantes, prímulas amarelas que se aninhavam em grupos junto às raízes ásperas dos carvalhos; celidónias brancas, campainhas azuis e íris dou-radas e de tons de lilás. Havia flores alvadias nas aveleiras, as digitais dobravam ao peso dos seus alvéolos frequentados pelas abelhas. O castanheiro ostentava as suas estrelas brancas e o espinheiro as suas luas pálidas. Ah, se a encontrasse, sem dúvida que ela viria! Viria com ele à floresta imaculada e, para a entreter, o anãozinho dançaria o dia inteiro. A esta ideia dardejou-lhe um sorriso nos olhos — e então passou à câmara imediata.
Era esta, de todas as salas, a mais bela e a mais resplandecente. As paredes estavam cobertas de damasco cor-de-rosa, historiado de pássaros e melindrosas flores de prata. De prata maciça era a mobília, com fes¬tões, grinaldas, Cupidos esvoaçantes. Em frente das vastas lareiras, dois guarda-fogos bordados com pa¬pagaios e pavões; e o chão, de ónix verde-mar, dir-se-ia perder-se na distância. Contudo, ele não estava sozinho. De pé, enquadrado numa porta do extremo da sala, viu uma figura pequenina que o observava. Tremeu-lhe o coração, dos lábios soltou-se-lhe um grito de alegria, e ei-lo a caminhar para lá. Conforme avançava, viu a figurinha vir também ao seu encontro.
A infanta? Não, era um monstro, o mais grotesco de todos os monstros. Em vez de talhada como as outras pessoas, esta apresentava-se corcunda, de pernas tortas, com uma cabeça enorme e pendente e uma densa crina sombria. O anãozinho carregou o cenho, e o monstro também. Riu, e o outro riu com ele, e afastou as mãos para o lado, exactamente como ele fazia. Baixou a cabeça numa vénia trocista, e viu retribuído o cumprimento. Adiantou-se e o imitador veio ao seu encontro, arremedando-lhe cada passo e parando quando o anão parava. Este gritou, divertido, correu para a frente, estendeu a mão, e a mão do monstro tocou a sua, fria como gelo. Teve medo, afastou os dedos, e os outros dedos afastaram-se. Tentou depois agarrá-los, mas impedia-o qualquer coisa ao mesmo tempo macia e dura. A face do monstro estava agora muito perto da sua e parecia também aterrorizada. Sacudiu o cabelo, que lhe caía nos olhos, e o outro fez o mesmo. Bateu-lhe, e ele respondeu, pancada por pancada. Bocejou, e viu a carantonha abrir a porta. Recuou, e o monstro recuou também.
Que seria aquilo? Pensou um instante e olhou derredor para o resto da sala. Era esquisito, mas a verdade é que cada objecto se lhe afigurou ter o seu duplo nessa parede invisível, duma limpidez de água. Qualquer quadro mostrava além o seu igual, qualquer sofá se repetia exactamente lá defronte. O Fauno adormecido, que jazia no vão da parede, junto à porta, era irmão gémeo de outro que dormia também, e a Vénus argêntea, banhada agora pela luz do Sol, estendia os braços a uma Vénus tão encantadora como ela.
Seria o eco? Falara alto, certa vez no vale, e o eco repetira-lhe a fala, palavra por palavra. Poderia troçar dos olhos, como troçava da voz? Saberia fa¬zer um mundo de imitação, em tudo semelhante ao verdadeiro? Teriam as sombras das coisas vida, cor e movimento? Admitir-se-ia que...?
Estremeceu, e, tirando do peito a linda rosa branca, voltou-se e beijou-a. O monstro possuía também a sua rosa, igual em todas as pétalas; beijou-a com beijos iguais e apertou-a ao coração em gestos horripilantes.
Quando nele a verdade alvoreceu, soltou o anão um grito de desespero, selvático, e tombou por terra, a soluçar. Era ele, pois, o contrafeito, o corcunda, o grotesco, o risível! Era o próprio monstro, de quem riam todas as crianças, e até a princesinha; ela, que o anão julgou que o amava, apenas escarnecera da sua fealdade, dos seus membros disformes. Por que o não haviam deixado na flores ta, onde não existiam espelhos que lhe dissessem quanto era hediondo? Por que não o matara o pai, em vez de o vender e o expor à humilhação? Pelas faces desciam-lhe lágrimas escaldantes. Desfez em pedaços a rosa branca, e o monstro do espelho procedeu do mesmo modo, atirando ao ar as pétalas delicadas. Rojou-se no chão, e, quando olhou para o seu duplo, este observava-o com uma expressão dolorosa. Afastou-se, com medo de o ver, e tapou os olhos com as mãos; rastejou, como um animal ferido, para o escuro, e ali ficou a gemer.


Neste comenos entrou a infanta com os seus companheiros, vindo pela janela rasgada; quando viram o feio anãozinho deitado, a bater no pavimento com os punhos cerrados, num exagero espectaculoso, soltaram grandes risadas e apinharam-se à volta dele, a observá-lo.
— Quando dança é muito engraçado — disse a infanta —, mas a representar não é menos. Quase tão bom como os bonifrates, só com a diferença de não ser tão natural.
Falando assim, agitou o vasto leque e aplaudiu.
Mas o anãozinho nunca ergueu a vista, e os soluços foram-se-lhe tornando cada vez mais fracos. De súbito, abriu a boca para respirar, levou a mão ao peito, e caiu outra vez para ficar completamente imóvel.
— Muito bem! — exclamou a infanta, depois dum instante de silêncio. — Agora podes dançar.
— Pois é claro — volveram as outras crianças. — É altura de ele se levantar e dançar. Tem a habilidade dum macaquinho, e ainda nos dá mais vontade de rir do que os verdadeiros macacos!
O anão, contudo, permaneceu imóvel.
A infanta bateu o pé e chamou pelo tio, que passava no terraço com o camareiro-mor, lendo cartas acabadas de chegar do México, onde fora recentemente instituído o tribunal do Santo Ofício.
— O meu anãozinho — disse a pequena — está de trombas. — Mandai-o que se levante e que dance para eu ver.
Os dois homens sorriram um para o outro e entraram na sala. D. Pedro curvou-se e bateu na cara do anão, com a luva bordada.
— Tens de dançar, petit monstre — ordenou. — A infanta de Espanha e das índias quer que a distraiam. Mas o anãozinho não se mexeu.
— Dum chicote é que ele precisa — murmurou D. Pedro, enfadado, voltando para o terraço.
O camareiro-mor tomou, porém, um ar grave e, ajoelhando ao lado do bobo, pôs-lhe a mão sobre o peito. Esteve assim um momento, depois encolheu os ombros, ergueu-se e, fazendo uma profunda vénia à infanta, declarou:
— Mi bella Princesa o vosso anão, tão divertido, não voltará a dançar. Tenho pena, porque é tão feio que talvez fizesse o rei sorrir.
— E por que é que não volta a dançar? — inquiriu a infanta, rindo.
— Porque o coração se lhe quebrou — respondeu o camareiro.
A infanta franziu as sobrancelhas, e os lábios de pétala de rosa encolheram-se num movimento desdenhoso.
— Daqui por diante — disse ela — quero que os meus bobos não tenham coração. E foi a correr para o jardim.

Óscar Wilde


20/03/2010

O homem que sabia javanês




Em uma confeitaria, certa vez, contava eu ao meu amigo Castro as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver.
Houve mesmo uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de médico, para mais confiança obter dos clientes que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.
O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:
— Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!
— Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única — sair de casa a certas horas, voltar a outras — aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado!
— Cansa-se; mas não é disso que me admiro. O que me admira é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.
— Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!
— Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?
— Não, antes. Por sinal, fui nomeado cônsul por isso.
— conta lá como foi. Bebes mais cerveja?
— Bebo.
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:
— Eu tinha chegado havia pouco ao Rio, e estava literalmente na miséria. Vivia fugindo de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no “Jornal do Comércio” o anúncio seguinte: “Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc...”. Ora — disse cá comigo — está aí uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me.
Andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os “cadáveres”. Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir, mas entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, decidi pedir a “Grande Enciclopédia”, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio-polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.
A enciclopédia dava indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia, e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto e sua pronunciação figurada, e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras.
Na minha cabeça dançavam hieroglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia esses calungas na areia, para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.
À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu abecê malaio, e com tanto afinco levei o propósito, que de manhã o sabia perfeitamente.
Convenci-me de que aquela era a língua mais fácil do mundo, e saí. Mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:
— Sr. Castelo, quando salda a sua conta?
— Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e...
— Que diabo vem a ser isso, Sr. Castelo?
— É língua que se fala lá pelas bandas de Timor. Sabe onde é?
Oh! Alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida, e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:
— Eu cá por mim não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Sr. Castelo?
Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo “Jornal do Comércio” e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia, ou se por ter-me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.
Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao Dr. Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres de que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo os nomes de alguns autores, e também perguntar e responder “como está o senhor”, além de duas ou três regras de gramática, ilustrando todo esse saber com vinte palavras de léxico.
Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil, podes estar certo, aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo. Com maternal carinho, as nossas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza...
Era uma casa enorme, que parecia deserta. Estava maltratada, mas não sei por que não me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver do que pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam, e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas.
Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.
Na sala havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam, enquadrados em imensas molduras; e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão. Mas daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...
Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com um lenço de Alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.
— Eu sou — avancei — o professor de javanês que o senhor disse precisar.
— Sente-se — respondeu-me o velho. — O senhor é daqui do Rio?
— Não, sou de Canavieiras.
— Como? Fale um pouco mais alto, que sou surdo.
— Sou de Canavieiras, na Bahia — insisti eu.
— Onde fez os seus estudos?
— Em Salvador.
— E onde aprendeu o javanês? — indagou ele, com aquela teimosia peculiar dos velhos.
Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara, e com ele eu aprendera o javanês.
— Ele acreditou? E o seu físico? — perguntou o meu amigo.
— Estes meus cabelos corridos, duros e grossos, e a minha pele basanée, podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio... Tu sabes que entre nós há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos, de fazer inveja ao mundo inteiro.
— Bom — fez o meu amigo — continua.
O velho ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio, e perguntou com doçura:
— Então está disposto a ensinar-me o javanês?
— Pois não — a resposta saiu-me sem querer.
— O senhor há de ficar admirado que eu, nesta idade, queira aprender qualquer coisa, mas...
— Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos...
— O que eu quero, meu caro senhor...
— Castelo — adiantei eu.
— O que eu quero, meu caro Sr. Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, ao qual tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer, meu avô chamou meu pai e disse-lhe: “Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz”. Meu pai — continuou o velho barão — não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; de uns tempos a esta parte, tenho passado por tantos desgostos, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice, que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro que preciso entender o javanês. Eis aí.
Calou-se, e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos, e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos e sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.
Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto, e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.
Logo informei disso o velho barão. Não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, o velho barão ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano.
Dentro em pouco dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês, e o senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria; aprendia e desaprendia.
A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça, e julgaram a coisa boa para distraí-lo. Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa única! Ele não se cansava de repetir: “É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!...”
O marido de D. Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão) era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha a que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.
Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do chronicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos.
Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava eu, enfim, uma vida regalada.
Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a causa ao meu javanês; eu estive quase a crê-lo também.
Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo de que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande quando o doce barão me mandou uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo.
— Qual! — retrucava ele. — Vá, menino, você sabe javanês!
Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros, com diversas recomendações. Foi um sucesso. O diretor chamou o chefe de seção:
— Vejam só, um homem que sabe javanês! Que portento!
Os chefes de seção levaram-me aos oficiais e amanuenses, e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam:
— Então sabe javanês? É difícil! Não há quem o saiba aqui.
O tal amanuense que me olhou com ódio acudiu então:
— É verdade, mas eu sei canaque. O Sr. sabe?
Disse-lhe que não, e fui à presença do ministro. A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, consertou o pincenê no nariz, e perguntou:
— Então, sabe javanês?
Respondi-lhe que sim; e, à pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do pai javanês.
— Bem, o Sr. não deve ir para a diplomacia. O seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério, e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Muller e outros.
Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.
O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro, para que o fizesse chegar ao neto quando tivesse a idade conveniente, e fez-me uma deixa no testamento.
Pus-me com afã no estudo das línguas malaio-polinésias, mas não havia meio! Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Révue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: “Lá vai o sujeito que sabe javanês”. Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber, e recusei uma turma de alunos sequiosos de aprender o tal javanês. A convite da redação, escrevi no “Jornal do Comércio” um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...
— Como, se tu nada sabias? — interrompeu-me o atento Castro.
— Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas noções de geografia, e depois citei a mais não poder.
— E nunca duvidaram?
— Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me a ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês — uff!
Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na seção do tupi-guarani, e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no “Mensageiro de Bâle” o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela seção. Não conhecia os meus trabalhos, e julgara que, por ser eu americano-brasileiro, me estava naturalmente indicada a seção do tupi-guarani. Aceitei as explicações, e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi.
Acabado o congresso, fiz publicar extratos do “Mensageiro de Bâle” em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.
Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional, e ao saltar no cais Pharoux recebi uma ovação de todas as classes sociais. O presidente da República, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.
Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos, e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.
— É fantástico! — observou Castro, agarrando o copo de cerveja.
— Olha: se não fosse estar contente, sabes o que eu viria a ser?
— O quê?
— Bacteriologista eminente. Vamos?
— Vamos.


Lima Barreto, in O. Pimentel, Antologia de contos

Os machos lacrimosos

Eles se encontravam por causa de alegrias. No bar de Matakuane, os homens anedotavam, fabricando risadas. Um único móbil: festejavam a vida. As suas esposas não suportavam aquele disparatar. Afinal, elas, as mulheres, não precisam de ritual para festejar a vida. Elas são a festa da vida. Ou a vida em festa? Para elas, aquela cumplicidade masculina era coisa de tribo. Reminiscência atávica.
Mas os homens não se importavam. Fosse atávico e tribal, eles mantinham o cerimonial. Cada um que chegava ao bar disparava, logo à entrada:
- Sabem a última?
E assim se produziam eles, se consumiam elas. Até que sucedeu a noite em que Luizinho Kapa--Kapa, o grande animador dos encontros, trouxe a notícia tristonha. Estava-se em lua muito minguante e ali, na esplanada, pela primeira vez, os copos ficaram cheios toda a noite. É que Luizinho foi desenrolando a história com voz acabrunhada. Antes de chegar ao busílis do relato, quem sabe um irreversível falecimento, Kapa-Kapa cascateou-se em lembrava. Nos arredores do bar, a noite se adoçava, escutando-se o suave soluçar da rapaziada.
As mulheres até recearam ao ver tanta mudança: seus homens, inexplicavelmente, se revelavam mais delicados e atenciosos. E palavras, flores, carinhos: tudo isso elas passaram a receber. Mordedura de mosca, repentina mudança de idade? E acertaram nem sequer perguntar. Aquilo era tão bom, tão inverosímil, que o melhor era deixar dormir a poeira.
Hoje quem passa pelo bar de Matakuane pode certificar: chorar é um abrir do peito. O pranto é o consumar de duas viagens: da lágrima para a luz e do homem para uma maior humanidade. Afinal, a pessoa não vem à luz logo em pranto? O choro não é a nossa primeira voz?
E é o que, por outras palavras, sentencia Kapa--Kapa: a solução do mundo é termos mais do nosso ser. E a lágrima nos lembra: nós, mais que tudo, não somos água?


Mia Couto, O Fio das Missangas

15/03/2010

Uma para cada pessoa

Birch Silhouette II Art Print

Era uma árvore diferente de todas as árvores. Não dava maçãs. Não dava laranjas. Não dava cerejas. Dava estrelas.
Estrelas azuis, douradas, verdes, vermelhas, prateadas. Para as apanhar não era preciso trepar à árvore, nem encostar-lhe uma escada ao tronco.
Todas as manhãs a árvore sacudia os ramos, e as estrelas caíam no chão para quem as quisesse.
Havia pessoas, que, vendo-as tão lindas, apanhavam-nas e iam para casa muito alegres com as algibeiras cheias de estrelas. Mas havia também gente apressada que passava ao volante do seu automóvel e nem as via.
Como havia gente que andava a pé mas nem olhava para o alto nem olhava para o chão, só olhava para dentro, e por isso também não reparava nelas. E havia outras que se divertiam a fazer pontaria às estrelas; quando lhes acertavam, as estrelas apagavam-se como um gritinho de cristal partido. Que pena!
Mas o vento pegava nas que ficavam esquecidas, e levava-as consigo pelos ares fora. E atirava-as para dentro das casas através das janelas abertas. Deitava-as pela chaminé das casas que tinham as janelas fechadas. Ou dei­xava-as dependuradas numa beirinha do telhado onde ficavam a baloiçar como sinos pequeninos.
E as pessoas que tinham enchido as algibeiras de estrelas, repartiam-nas com os vizinhos distraídos e apressados.
Isto, todos os dias. Sempre. Porque a árvore das estre­las dava tantas que chegavam para todos.
Até ao dia em que cada pessoa do mundo tivesse a sua estrela.
Então o mundo seria feliz.


Maria Isabel Mendonça Soares
Conceição Dinis; Fátima Lima (org.)
Aventura das Letras
Porto, Porto Editora, 2003


13/03/2010

Táxi


Collie Art Print

Deram ao cachorrinho o nome de “Táxi”. Com tantos nomes disponíveis, logo foram escolher este! Mas ele não se importava.
— Táxi! — chamavam.
E ele vinha, a dar ao rabo, sempre contente.
Mas eram os donos de má qualidade. Gostavam de brincar com o cachorrinho, pois gostavam, mas quando o viram crescer e transformar-se num grande cão disseram:
— O Táxi só está a estorvar. Não podemos mantê-lo cá em casa.
Abandonaram-no. Há gente assim, sem coração.
O Táxi viu-se no meio de uma rua, com grande movimento, e desorientou-se.
Cheirou o ar e não deu com o caminho de casa. Nem valia a pena.
Supomos que o Táxi suspeitava que já o não queriam. Tinha de conformar-se. Ia ser um cão vadio, um cão de rua, um Táxi sem dono nem passageiro.
— Táxi — chamaram, perto.
Ele acorreu ao chamamento.
— Sai daqui, cão — enxotou-o uma senhora, que ia a apanhar um táxi.
— Táxi — chamaram, mais adiante.
O cão não se fez esperar, mas um senhor cheio de embrulhos, que ia a entrar num táxi, deu-lhe um pontapé.
Ele não percebia. Chamavam-no e logo o rejeitavam. Gente esquisita.
De desilusão em desilusão, foi ter a uma praça de táxis. Mero acaso. Um motorista, que estava à espera de freguês, partilhou com ele uma bucha com queijo.
— Como te chamas? — perguntou-lhe o motorista por perguntar.
Se ele pudesse responder… Fosse como fosse, talvez por afinidade, foi-se deixando ficar. Os motoristas acharam graça à alegre pressa com que ele se levantava dos quartos traseiros quando alguém pedia um táxi.
— É cá dos nossos — diziam.
E adoptaram-no. Continuava a ser um táxi livre, sem dono, mas protegido por uma quantidade de amigos.
Afinal, o nome Táxi sempre lhe valera para alguma coisa.


António Torrado


08/03/2010

O dia em que explodiu Mabata - bata


De repente, o boi explodiu. Rebentou sem um múúú. No capim em volta choveram pedaços e fatias, grão e folhas de boi. A carne eram já borboletas vermelhas. Os ossos eram moedas espalhadas. Os chifres ficaram num qualquer ramo, balouçando a imitar a vida, no invisível do vento.
O espanto não cabia em Azarias, o pequeno pastor. Ainda há um instante ele admirava o grande boi malhado, chamado de Mabata-bata. O bicho pastava mais vagaroso que a preguiça. Era o maior da manada, régulo da chifraria, e estava destinado como prenda de lobolo do tio Raul, dono da criação. Azarias trabalhava para ele desde que ficara órfão. Despegava antes da luz para que os bois comessem o cacimbo das primeiras horas.
Olhou a desgraça: o boi poeirado, eco de silêncio, sombra de nada.
“Deve ser foi um relâmpago”, pensou.
Mas relâmpago não podia. O céu estava liso, azul sem mancha. De onde saíra o raio? Ou foi a terra que relampejou?
Interrogou o horizonte, por cima das árvores. Talvez o ndlati, a ave do relâmpago, ainda rodasse os céus. Apontou os olhos na montanha em frente. A morada do ndlati era ali, onde se juntam os todos rios para nascerem da mesma vontade da água. O ndlati vive nas suas quatro cores escondidas e só se destapa quando as nuvens rugem na rouquidão do céu. É entao que o ndlati sobe aos céus, enlouquecido. Nas alturas se veste de chamas, e lança o seu voo incendiado sobre os seres da terra. Às vezes atira-se no chão, buracando-o. Fica na cova e a deita a sua urina.
Uma vez foi preciso chamar as ciências do velho feiticeiro para escavar aquele ninho e retirar os ácidos depósitos. Talvez o Mabata-bata pisara uma réstia maligna do ndlati. Mas quem podia acreditar? O tio, não. Havia de querer ver o boi falecido, ao menos ser apresentado uma prova do desastre. Já conhecia bois relampejados: ficavam corpos queimados, cinzas arrumadas a lembrar o corpo. O fogo mastiga, não engole de uma só vez, conforme sucedeu-se.
Reparou em volta: os outros bois, assustados, espalharam-se pelo mato. O medo escorregou dos olhos do pequeno pastor.
- Não apareças sem um boi, Azarias. Só digo: é melhor nem apareceres.
A ameaa do tio soprava-lhe os ouvidos. Aquela angústia comia-lhe o ar todo. Que podia fazer? Os pensamentos corriam-lhe como sombras mas não encontravam saída. Havia uma só solução: era fugir, tentar os caminhos onde não sabia mais nada. Fugir morrer de um lugar e ele, com os seus calções rotos, um saco velho a tiracolo, que saudade deixava? Maus tratos, atrás dos bois. Os filhos dos outros tinham direito da escola. Ele não, não era filho. O serviço arrancava-o cedo da cama e devolvia-o ao sono quando dentro dele já não havia resto de infância. Brincar era só com os animais: nadar o rio na boleia do rabo do Mabata-bata, apostar nas brigas dos mais fortes. Em casa, o tio adivinhava-lhe o futuro:
- Este, da maneira que vive misturado com a criação há-de casar com uma vaca.
E todos se riam, sem quererem saber da sua alma pequenina, dos seus sonhos maltratados. Por isso, olhou sem pena para o campo que ia deixar. Calculou o dentro do seu saco: uma fisga, frutos do djambalau, um canivete enferrujado. Tão pouco não pode deixar saudade. Partiu na direcção do rio. Sentia que não fugia: estava apenas a comeaçr o seu caminho. Quando chegou ao rio, atravessou a fronteira da água. Na outra margem parou à espera nem sabia de quê.
Ao fim da tarde a avó Carolina esperava Raul porta de casa. Quando chegou ela disparou a aflição:
- Essas horas e o Azarias ainda não chegou com os bois.
- O quê? Esse matandro vai apanhar muito bem, quando chegar.
- Não é que aconteceu uma coisa, Raul? Tenho medo, esses bandidos...
- Aconteceu brincadeiras dele, mais nada.
Sentaram na esteira e jantaram. Falaram das coisas do lobolo, preparação do casamento. De repente, alguém bateu porta. Raul levantou-se interrogando os olhos da avó Carolina. Abriu a porta: eram os soldados, três.
- Boa noite, precisam alguma coisa?
- Boa noite. Vimos comunicar o acontecimento: rebentou uma mina esta tarde. Foi um boi que pisou. Agora, esse boi pertencia daqui.
Outro soldado acrescentou:
- Queremos saber onde está o pastor dele.
- O pastor estamos à espera – respondeu Raul. E vociferou: - Malditos bandos!
- Quando chegar queremos falar com ele, saber como foi sucedido. E bom ninguém sair na parte da montanha. Os bandidos andaram espalhar minas nesse lado.
Despediram. Raul ficou, rodando à volta das suas perguntas. Esse sacana do Azarias onde foi? E os outros bois andariam espalhados por aí?
- Avó: eu não posso ficar assim. Tenho que ir ver onde está esse malandro. Deve ser talvez deixou a manada fugentar-se. E preciso juntar os bois enquanto é cedo.
- Não podes, Raul. Olha os soldados o que disseram. É perigoso.
Mas ele desouviu e meteu-se pela noite. Mato tem subúrbio? Tem: onde o Azarias conduzia os animais. Raul, rasgando-se nas micaias, aceitou a ciência do miúdo. Ninguém competia com ele na sabedoria da terra. Calculou que o pequeno pastor escolhera refugiar-se no vale.
Chegou ao rio e subiu as grandes pedras. A voz superior, ordenou:
- Azarias, volta. Azarias!
Só o rio respondia, desenterrando a sua voz corredeira. Nada em toda volta. Mas ele adivinhava a presena oculta do sobrinho.
- Apareça lá, não tenhas medo. Não vou-te bater, juro.
Jurava mentiras. Não ia bater: ia matar-lhe de porrada, quando acabasse de juntar os bois. No enquanto escolheu sentar, estátua de escuro. Os olhos, habituados à penumbra desembarcaram na outra margem. De repente, escutou passos no mato. Ficou alerta.
- Azarias?
Não era. Chegou-lhe a voz de Carolina.
- Sou eu. Raul
Maldita velha, que vinha ali fazer? Trapalhar só. Ainda pisava na mina, rebentava-se e, pior, estoirava com ele também.
- Volta em casa, avó!
- O Azarias vai negar de ouvir quando chamares. A mim, há-de ouvir.
E aplicou sua confiança, chamando o pastor. Por trás das sombras, uma silhueta deu aparecimento.
- Es tu, Azarias. Volta comigo, vamos para casa.
- Não quero, vou fugir.
O Raul foi descendo, gatinhoso, pronto para saltar e agarrar as goelas do sobrinho.
- Vais fugir para onde, meu filho?
- Não tenho onde, avó.
- Esse gajo vai voltar nem que eu lhe chamboqueie até partir-se dos bocados - precipitou-se a voz rasteira de Raul.
- Cala-te, Raul. Na tua vida nem sabes da miséria. - E voltando-se para o pastor: - Anda meu filho, só vens comigo. Não tens culpa do boi que morreu. Anda ajudar o teu tio juntar os animais.
- Não preciso. Os bois estão aqui, perto comigo.
Raul ergueu-se, desconfiado. O coraao batucava-lhe o peito.
- Como ? Os bois estão aí?
- Sim, estão.
Enroscou-se o silêncio. O tio não estava certo da verdade do Azarias.
- Sobrinho: fizeste mesmo? Juntaste os bois?
A avó sorria pensando no fim das brigas daqueles os dois. Prometeu um prémio e pediu ao miúdo que escolhesse.
- O teu tio está muito satisfeito. Escolhe. Há-de respeitar o teu pedido.
Raul achou melhor concordar com tudo, naquele momento. Depois, emendaria as ilusões do rapaz e voltariam as obrigações do serviço das pastagens.
- Fala lá o seu pedido.
- Tio: próximo ano posso ir na escola?
Já adivinhava. Nem pensar. Autorizar a escola era ficar sem guia para os bois. Mas o momento pedia fingimento e ele falou de costas para o pensamento:
- Vais, vais.
- É verdade, tio?
- Quantas bocas tenho, afinal?
- Posso continuar ajudar nos bois. A escola só frequentamos da parte de tarde.
- Está certo. Mas tudo isso falamos depois. Anda lá daqui.
O pequeno pastor saiu da sombra e correu o areal onde o rio dava passagem. De súbito, deflagrou um clarão, parecia o meio-dia da noite. O pequeno pastor engoliu aquele todo vermelho. era o grito do fogo estourando. Nas migalhas da noite viu descer o ndlati, a ave do relâmpago.
Quis gritar:
- Vens pousar quem, ndlati?
Mas nada não falou. Não era o rio que afundava suas palavras: era um fruto vazando de ouvidos, dores e cores. Em volta tudo fechava, mesmo o rio suicidava sua água, o mundo embrulhava o chão nos fumos brancos.
- Vens pousar a avó, coitada, tão boa? Ou preferes no tio, afinal das contas, arrependido e prometente como o pai verdadeiro que morreu-me?
E antes que a ave do fogo se decidisse Azarias correu e abraçou-a na viagem da sua chama.

Mia Couto, In Vozes Anoitecidas

07/03/2010

A casa do remorso

Ele desenhou o AK-14 para as tropas soviéticas, que tinham resistindo às armas automáticas dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial com fuzis comuns, e se orgulha do que fez pela pátria. Se depois o AK-14 (o produto mais exportado da União Soviética) foi usado em guerras sujas, massacres e assassinatos em todo o mundo, inclusive na Rússia, isso não é da conta de Mikhail. A simplicidade e a eficiência do AK-14 foram os responsáveis pela sua adoção universal depois do aparecimento do primeiro protótipo, em 1946. Não Mikhail, que só fez o seu trabalho.
Nenhum fantasma shakespeariano vem perturbar o seu sono nos Urais, como os fantasmas que visitaram Ricardo III antes da sua batalha final para lhe dizer “Desespere e morra”. J. Robert Oppenheimer foi visitado por fantasmas aos milhares. Depois do triunfo do programa do qual ele era o diretor científico, com as explosões atômicas bem-sucedidas em Hiroshima e Nagasaki, que ele festejou alegremente com sua equipe, Oppenheimer teve uma crise de consciência e uma transformação.
Ele e a equipe não tinham apenas feito seu trabalho, e uma arma eficientíssima, com brilhantismo. Tinham dado à luz um monstro inédito no mundo e provocado a mais radical intervenção da ciência na vida humana desde que esta existia. Isto e os mortos assombraram o resto da vida de Oppenheimer. Ele se opôs à construção da bomba de hidrogênio e foi considerado um pouco penitente e filosófico demais para continuar à frente do programa nuclear americano, sendo substituído pelo mais pragmático Edward Teller.
“Let me sit heavy in thy soul”, que eu pese na sua alma, diziam os fantasmas vingativos de Ricardo. O maior feito da ciência na História pesou na alma de Oppenheimer até o fim. Não houve muitas expressões de contrição no julgamento dos criminosos de guerra nazistas, em Nuremberg. Muitos disseram que estavam apenas cumprindo ordens (o adágio do século). Apenas fazendo seu trabalho.
Uma espécie de remorso institucionalizado ocupou a Alemanha depois da Segunda Guerra, dispensando a nação de grandes mergulhos na sua própria consciência, e é recente o aparecimento de uma literatura histórica, auto-reflexiva ou revisionista, no país. O neonazismo é uma coisa de jovens, com novos rancores e nenhuma culpa herdada, ou reconhecida.
Os japoneses também se beneficiaram dessa amnésia induzida e suas atrocidades cometidas durante a guerra não eram assunto em nenhum nível, intelectual ou oficial, no Japão, até há bem pouco tempo. Nos dois casos os fantasmas foram mantidos a distância enquanto deu.
Sarah Winchester conseguiu driblar os fantasmas. Ela era a viúva de William Winchester, filho do fabricante do fuzil Winchester, “o rifle que conquistou o Oeste”. Além de usado para eliminar coiotes, índios e outros entraves à ocupação do Oeste bravio, o Winchester – uma arma tão revolucionária, na sua época, quanto a máquina de matar de Kalashnikov – chegou ao mercado pouco antes de começar a Guerra da Secessão americana, que fez a fortuna da família.
Sarah e William casaram-se em plena Guerra Civil e prepararam-se para uma vida de luxo e conforto com os milhões produzidos pelo fuzil de repetição. Tiveram uma filha, Annie. Que morreu ainda bebê, começando o que Sarah identificou como uma danação sobre a sua família. Pouco depois, William também morreu, de tuberculose, confirmando para Sarah que o nome Winchester vinha carregado de pragas e maus presságios.
Com a morte do marido, ela herdou 20 milhões de dólares e metade da fábrica Winchester, o que lhe rendia mil dólares por dia em royalties, mas isso não foi consolo. Aconselhada por uma amiga, procurou uma médium que lhe disse que os espíritos de todos os mortos pelos rifles Winchester eram os culpados pela maldição. Eles tinham levado sua filhinha e seu marido como retribuição, e a única maneira de Sarah fugir dos espíritos seria comprar uma casa e aumentá-la continuamente.
Construir novas peças, puxados, andares, anexos, terraços, alas – sem parar. No dia em que parasse a construção, segundo a médium, Sarah também morreria. Os espíritos chegariam a ela e também a levariam. Sarah comprou uma casa em San José, na Califórnia, e pôs-se a aumentá-la. As obras duraram, sem interrupção, até o dia da sua morte e a casa – que ainda existe, e hoje é uma atração turística em San José – chegou a ter sete andares, antes de ser parcialmente demolida por um terremoto, que Sarah atribuiu aos espíritos enraivecidos. Sarah era sua própria arquiteta. Construiu corredores que levam a lugar nenhum, escadas para o nada, portas que dão no espaço, e dezenas de quartos. Dormia num quarto diferente a cada noite, para enganar os espíritos.
Pode-se imaginar uma horda variada de fantasmas dos abatidos pelo Winchester – soldados, bandidos, índios, mexicanos, tantos quanto os fantasmas de Hiroshima e Nagasaki – perdida no casarão, atrás de Sarah. Que conseguiu ludibriá-los até os 85 anos, quando morreu. E foi sepultada junto com Annie e William.
Na sua casa de campo de poucos cômodos nos Urais, ao lado de um lago de águas cristalinas como a sua consciência, Mikhail Kalashnikov não teme os fantasmas. Se por acaso for interpelado por um, pode referi-lo aos seus superiores, ou à Rússia, ou aos tempos em que viveu. Nada pesa em sua alma.

Luís Fernando Veríssimo


04/03/2010

Anuska



Neste verão, a senhora Blaha, esposa, de um pequeno funcionário da ferrovia de Turnan, Venceslau Blaha, foi passar algumas semanas a sua terra natal. Era um vilarejo muito pobre e banal, situado na planície pantanosa da Boemia, na região de Nimburgo. Quando a senhora Blaha, que, apesar de tudo, se sentia em certa medida uma pessoa da cidade, tornou a ver todas aquelas casinhas miseráveis, considerou-se capaz de uma acção caridosa.
Entrou em casa de uma camponesa que conhecia e que tinha uma filha e propôs-lhe levar a moça para a sua casa da cidade, tomando-a ao seu serviço.
Pagar-lhe-ia um ordenado modesto e a mocinha gozaria da vantagem de estar na cidade e aprender lá muitas coisas. (A senhora Blaha não se apercebia bem do que a moça lá poderia aprender). A camponesa discutiu a proposta com o marido, que carregava muito o sobrecenho e se limitou, como resposta, a cuspir para o lado e, por fim, perguntou:
- Ora diz lá, a senhora sabe que a Ana é um pouco...?
E dizendo isto, agitou em frente da testa a mão queimada e enrugada como uma folha de castanheiro.
- Imbecil! - respondeu a camponesa. - Não somos nós que devemos...
E assim foi Ana para casa dos Blaha. A maior parte das vezes ficava sozinha durante o dia inteiro. O patrão estava no escritório e a senhora trabalhava em costura fora de casa; não tinham filhos.
Ana passava o tempo sentada na pequena cozinha sombria, uma das janelas da qual dava para o pátio, e esperava a chegada da caixa de música. Vinha todas as tardes, antes do pôr do sol. Inclinava-se então o mais que podia para fora da janela e, enquanto o vento lhe agitava os cabelos claros, dançava interiormente até à vertigem e até que as paredes altas e sujas parecessem balançar-se uma em frente da outra. Quando a dominava o medo da solidão, percorria toda a casa, descia a escada sombria até ao saguão, onde um homem cantava, meio embriagado. Encontrava sempre no seu caminho crianças, que vagabundeavam durante horas sem fim no pátio, sem que os pais notassem a ausência de nenhuma delas, e, coisa estranha, os pequenos pediam-lhe sempre que lhes contasse histórias. Por vezes seguiam-na mesmo até à cozinha. Ana sentava-se então ao lado do forno, escondia o rosto pálido nas mãos e dizia: "Reflectir".
As crianças esperavam durante algum tempo. Mas quando Anuska continuava a reflectir e o silêncio na cozinha sombria as intimidava, as crianças fugiam, sem verem que a pobre moça se punha a chorar com lamentosa meiguice e que a saudade da terra a torturava. De que tinha ela saudades? Ninguém poderia dize-lo. Talvez até das pancadas que lá lhe davam. A maior parte das vezes não sabia o que era que a fazia sofrer de saudades; talvez alguma coisa que um dia existira, a menos que tivesse sido apenas sonho. À força de reflectir sempre que tinha as crianças junto de si, foi-se, pouco a pouco, recordando. A princípio era vermelho, vermelho, depois aparecia uma grande multidão. Ouvia-se então o pesado som de um sino e, em seguida, surgiam um rei, um camponês e uma torre. "Meu senhor rei", disse o campónio... "Sim", respondeu o rei em voz altiva, "Já sei". E, com efeito, como é que um rei poderia ignorar tudo aquilo que um camponês pode ter para lhe dizer?
Algum tempo depois, a patroa levou a mocinha a fazer compras. Como o Natal se aproximava e era à tardinha, as vitrines estavam já iluminadas e providas de uma porção de coisas. Numa loja de brinquedos, Ana viu, de repente, aquilo que era objecto da sua recordação: o rei, o campónio e a torre. Oh! E o coração bateu-lhe com mais força do que os seus passos no lajedo. Mas depressa desviou os olhos e, sem se deter, continuou a seguir a senhora Blaha. Dominava-a o sentimento de que não deveria revelar nada do seu segredo, e o teatro das bonecas ficou atrás delas, como se não o tivessem notado. Com efeito, a senhora Blaha, não tendo filhos, nem sequer tinha feito reparo.
Um pouco mais tarde, Ana teve o seu dia de saída. Não voltou à noite. Um homem, que encontrara à porta de um café, fez-lhe companhia, e não se lembrava com exactidão do lugar aonde ele a conduzira. Afigurava-se ter estado ausente durante um ano inteiro. E quando, fatigada, voltou, na segunda de manhã, para a pequena cozinha, esta pareceu-lhe ainda mais fria e mais sombria do que habitualmente. Nesse dia, partiu uma terrina, o que lhe valeu uma violenta descompostura. A patroa nem sequer notara a sua ausência durante uma noite inteira. Depois, pelo começo do ano, dormiu fora mais três noites. E, de repente, deixou de passear através da casa, fechou, receosamente, a janela e nunca mais apareceu, nem mesmo quando a caixa de música surgia.
Assim passou o Inverno, e uma pálida e tímida Primavera começou.
É uma estação com um aspecto muito particular nos pátios interiores. As casas são negras e húmidas, mas a atmosfera aparece, ali, luminosa e comparável ao linho mais branco. As janelas, mal lavadas, lançam reflexos saltitantes e leves flocos de poeira dançam ao vento, descendo ao longo dos andares. Ouvem-se os ruídos da casa inteira, as caçarolas tilintam com um barulho muito diferente do habitual, com um som mais claro, mais agudo, e até as facas e as colheres têm som diferente.
Nesse tempo, Anuska teve um filho. Foi para ela uma grande surpresa. Depois de se sentir, durante longas semanas, volumosa e pesada, aquilo escapou-lhe, uma bela manhã, de dentro, e surgiu neste mundo, vindo sabe Deus donde. Era domingo e toda a gente dormia ainda em casa. Olhou durante um instante a criança, sem o rosto se lhe alterar o mínimo que fosse. Mal se mexia! De repente, porém, uma vozinha aguda saiu do pequenino peito. No mesmo instante, a senhora Blaha chamou e as molas da cama estalaram no quarto de dormir. Anuska agarrou então no avental azul que estava em cima da cama, apertou as fitas em volta do pescocinho delgado e pôs aquilo, como um embrulho, no fundo da mala. Passou depois à cozinha, entreabriu as cortinas e começou a preparar o café.
Num dos dias seguintes, Anuska deitou contas aos salários que até então recebera: eram quinze florins. Fechou depois a porta, abriu a mala e pousou o avental azul, com o que continha, em cima da mesa. Abriu-o, lentamente, olhou a criança, mediu-a dos pés à cabeça com a ajuda de um metro. Depois, pôs, de novo, tudo em ordem e foi à cidade.
Que pena! O rei, o camponês e a torre eram muito mais pequenos. Trouxe-os, contudo, e, com eles, outras bonecas ainda, a saber: uma princesa com manchas vermelhas e redondas nas faces, um velhote com uma cruz ao peito e que se parecia com São Nicolau por causa da barba comprida e mais duas ou três outras menos belas e imponentes. Além disso, um teatro cujo pano subia e descia, mostrando ou escondendo o jardim que formava o cenário.
Anuska tinha, finalmente, com que se ocupar durante as suas horas de solidão e de nostalgia. Instalou aquele magnífico teatro (custara doze florins) e colocou-se por detrás dele como convém. Mas, por vezes, quando o pano subia, corria pela frente do teatro, olhava para aquele jardim, e toda a cozinha, pardacenta, desaparecia, então, por detrás das grandes árvores magníficas. Depois recuava alguns passos, pegava em duas ou três bonecas e punha-as a falar. Não era uma verdadeira peça; as bonecas falavam e respondiam umas às outras; também, por vezes, acontecia que duas bonecas, como que aterrorizadas, se inclinavam, subitamente, uma diante da outra, ou faziam um cumprimento ao velhote que não podia curvar-se, por ser todo de madeira. Por isso, a emoção fazia-o em todos esses casos cair para trás.
O boato dessa brincadeira correu entre as crianças, e, em breve, os pequenos da vizinhança, a princípio prudentes e depois cada vez mais atrevidos,apareceram na cozinha dos Blaha, de pé, pelos cantos, quando a noite começava a cair, sem perderem de vista as belas bonecas que repetiam sempre as mesmas coisas.
Um dia, Anuska, com as faces em fogo, disse:
- Tenho ainda uma muito maior!
As crianças tremiam de impaciência. Mas Anuska parecia esquecida do que acabara de dizer. Dispôs todas as personagens no jardim, apoiando contra o cenário as que não podiam ter-se em pé. Nesta ocasião apareceu uma espécie de Arlequim, de grande cara redonda, que as crianças não se lembravam de ter visto. A curiosidade ainda ficou mais excitada com todo aquele esplendor, e os pequenos suplicaram que lhes mostrasse a "maior de todas". Só uma vez, a "maior de todas"! Por um instante só, a "maior de todas"!
Anuska caminhou para a mala. A noite caía. As crianças e as bonecas estavam de pé, umas em frente das outras, silenciosas e quase iguais. Mas, dos grandes olhos abertos do Arlequim, que pareciam esperar qualquer espectáculo terrível, espalhou-se, de súbito, um tal pavor pelas crianças que soltando agudos gritos, fugiram sem excepção. Um grande objecto azulado se destacava nas mãos de Anuska que, de repente, tinham começado a tremer. A cozinha, abandonada pelas crianças, ficara estranhamente vazia e silenciosa. Anuska não sentia medo. Riu docemente, derrubou o teatro com um pontapé, depois espezinhou as travessazinhas de madeira que tinham figurado o jardim, e, quando a cozinha ficou mergulhada na noite, andou à volta dela, a machucar o crânio a todas as bonecas, incluindo a azul, a maior.


Rainer Maria Rilke



A Torre de Luz


Felícia sorria para todas as pessoas e todas as coisas, para os outros moços e moças da ceifa, para os tordos e taralhões que cantavam nas pernadas das azinheiras, para a brisa da manhã ou para o sol já forte do meio dia, para o esplendor de Junho, para a pobreza da marmita,onde havia mais migas do que conduto, e até para a severidade do manageiro, que a repreendia com alguma dureza quando ela se descuidava a bichanar com a Gisela, sua amiga de criação e eleição.
Quando eu passava por lá, a pé ou a cavalo, na insegurança dos meus dezasseis (ou dezassete) anos e ela nem tanto teria – parava a contemplá-la, o mais discretamente que conseguia, como algum tempo depois havia de olhar, em Florença, aquelas jovens que Botticelli eternizou nos jardins da adolescência.
Felícia correspondia, aliás, com muito salero, ao meu cumprimento. Mas a luz mais quente do seu olhar aveludado ia para a Gisela, que ceifava ao seu lado, ambas de saia apanhada entre os joelhos, para poderem curvar-se à vontade, e chapéus de homem sobre o lenço de ramagens que lhes escondia os cabelos bastos.
Cintura fina, peitos altos escondidos nas blusas trapalhonas, ancas que se arredondavam na faina que as trazia dobradas para a terra, suando, caladas ou zumbindo baixo, entre risos.
Chamavam-lhes fressureiras, um nome feio, que não lhes quadrava, uma prima minha dizia que a Felícia era lésbida, corruptela de lésbica, que feria menos a sua graça natural, quase aérea.
Vi descansar a cabeça morena de Gisela na concha nervosa das suas mãos. Falavam uma com a outra como se se beijassem.
Uma vez em dia de festa, no salão dos Leões, observei-as a dançarem (e mexendo-se bem) com dois rapazes da vila, um deles muito cobiçado, que vendia chita a metro, na loja do Quintos. Mas não se perdiam de vista, os olhos de água e os olhos de febre.
Volvido um ano, quando refloriram as madressilvas e novamente as papoulas endoideceram de vermelho os trigais, fui dar com elas, por puro acaso, numa saleta reservada da Filarmónica dos Leões, onde ambas aprendiam o solfejo nos poucos minutos vagos, abraçadas uma à outra. Pareciam duas gazelas loucas trocando carinhos no paraíso. Num paraíso sem idade nem cor religiosa.
Estava eu alimentando a esperança de que por milagre me chamassem para o meio delas, mas limitaram-se a rir.
– Então, menino Albano, que confianças são essas? Está a tornar-se muito curioso.
Riam, riam, descaradas (ou inocentes) e eu a afastar-me em passo lento, salvando a dignidade.
Vieram tempos de chuva e tempos de seca, a argamassa dos dias foi crescendo como eu crescia e os rostos de pedra dos meus mestres abriram-se amavelmente para me dar passagem em todas as cadeiras.
Tornei ao “monte” com a estiagem de Agosto, bichos e pássaros dormindo a sesta como nós. Depois foram os punhos do vento quente a baterem nas nossas vidraças, a abanarem até as árvores de sombra à entrada da horta. Um dia de fogo.
Soube nessa mesma tarde do casamento da Gisela, semi-forçada pelos pais, com o caixeiro promissor.
Constou que Gisela havia prometido à Felícia, atordoada, que nada ia mudar entre elas.
A verdade é que o moço, entornando simpatia à sua volta, não tardou a conseguir uma sociedade em Lisboa, num bom armazém, e nada de voltar a Moura, nem pela feira de Setembro.
Quem tem cu tem medo, dizia a voz do povo.
Eu tentava brincar com a Felícia, para despertar a toutinegra que havia nela, sempre disposta ao canto e ao riso, mas agora, pelo contrário, ela emocionava-se com um nada que ricochetasse no seu desgosto e gaguejava, como uma criança, o que a tornava ainda mais tocante.
Aconteceu, nesses momentos raros de convívio, eu ver passar nos seus olhos azul turqueza (dantes dispostos ao pasmo, à malícia, à alegria) a suspeita de uma lágrima ou o calor da gratidão.
Olhos que ainda me faziam sonhar, embora soubesse que nada mais podia esperar desse encanto que às vezes ela esbanjava com toda a gente.
E um dia, subitamente, à hora do calor mais compacto, dos mosquitos arreliadores, chega a notícia brutal.
Gisela e o marido já haviam comprado casa, ele continuava em segura ascensão económica, ela ir-se-ia adaptando a essa outra existência.
Pois bem, ao darem um passeio dominical pela estrada do Guincho, o automóvel despistou-se, foram contra uma árvore, ele ficou todo desfigurado, mas Gisela continuava bonita, mesmo morta.
Houve outra versão, a das más línguas. Que tinham começado a dar-se mal, às vezes era o diabo à solta no apartamento da Estrela onde moravam, perto do estabelecimento, Gisela jurava que largava tudo e voltava para Moura. Mas o dinheiro não era dela e havia o decoro, as vozes do mundo, o respeito pelos pais e outras coisas a que ela anos antes não ligava e agora já contavam.
Teria sido ele, desesperado, a escolher a morte ou então ela que lhe mexera no volante, desviando o carro da estrada, no auge de uma discussão.
Puseram-se muitas hipóteses. Cada qual mais estranha e perturbante.
A família fechou-se em dor e silêncio.
Felícia não chorava, pelo menos em público.
Tornei a vê-la apenas uma vez depois do acidente. Fiquei incapaz de lhe dizer uma só palavra. Apertei-lhe muito as mãos. Ela entendeu e quase sorriu, sabendo como sabia que o seu sorriso me restituía a visão da sua adolescência esfuziante. O meu absoluto encantamento, nesse tempo das mondas e das ceifas, em que eu confundia a epifania do sol com o marejar dos seus desejos.
Houve quem a visse depois, nessa mesma tarde, já ao crepúsculo, entrar na água fresca do rio Ardila.
Avançou olhando não em frente mas para a lua compassiva, que já surgia, imprevista, no firmamento. E assim perdeu pé, escorregou, afundou-se devagar, deixou-se morrer.
Alguém disse que, precisamente nos pegos onde ela se afogou, em certas noites, nascia da água uma torre de luz. Outros confirmavam.
A maioria ia verificar o prodígio e não via nada.
Numa noite de breu, antes de se mostrarem as estrelas, fui até lá, menos por causa do fenómeno do que para ali rever, imaginar a Felícia, o seu delírio, a sua beleza patética, nesses últimos momentos.
E quando, sentado num penedo, a ouvir o pio inquietante do mocho e o marulho do rio, muito lento, já pensava em me ir embora, eis que vejo a torre sair das águas e subir, subir, com nervuras de luz, cartilagens subtis de um branco eléctrico, cristalizações, veios de todo o feitio, ossos fossilizados recuperando o movimento, espirais de luz, gotas de prata, tudo a tremer e a tilintar, um carrilhão de luz, ramos e rumores de luz azul desmaiado, flores de renda e vidro hialino, e sempre mais luz, ou fogo (celeste? satânico?), e a boca desfeita de Felícia, a sua boca fitando-me.
Era uma noite cálida de Agosto. Eu tinha deixado o cavalo roer umas ervinhas e agora perdia-o de vista, suspenso como estava entre a angústia e o fascínio.
Ouvi então a voz de Felícia a dizer-me:
– Menino Albano, não insista. Eu agradeço, mas deixe-me viver em paz a minha morte.
Já não havia sobre a superfície quase lisa e sombria do Ardila quaisquer vestígios da torre de luz.
A lua nova enchia de mistérios o montado fronteiro da Rola, que se desdobrava, muito para além do rio, em filas esburacadas de chaparros e azinheiras. E terra e mais terra mosqueada de sarças que eu conhecia e tufos de piorno, onde os coelhos faziam as luras.
Dentro de mim ressoava fundamente o riso de Felícia.

Urbano Tavares Rodrigues