31/01/2010

Princesa Pemba, a filha do grande Soba Li-U-Thab



Conta a lenda de uma pequena mas pujante tribo da África Oriental, junto da actual costa Moçambicana, o seguinte sobre a princesa Pemba:

Pemba era o nome de uma gentil e formosa filha do grande Soba Li-U-Thab, educado em Medina, na Arábia Saudita. Este era um Soba poderosíssimo, dono de uma grande região e exercendo a sua autoridade tradicional sobre um grande número de regulados.
Ela estava destinada a ser conservada virgem, para ser ofertada às divindades de uma tribo maioritária, como tributo; acontece porém que um jovem estrangeiro de origem árabe de nome Mussah, muito audaz, conseguiu penetrar nos sertões da imensa África e enamorou-se dela arrebatadoramente.
Esta, por sua vez, correspondeu fervorosamente a este amor e, durante algum tempo, gozaram as delícias que só estão reservadas aos apaixonados que se amam verdadeiramente, aos sonhadores.
Porém, não há bem que dure sempre. O grande Soba Li-U-Thab foi sabedor destes amores profanos e, numa noite de luar, mandou degolar o jovem estrangeiro e deitou o seu corpo inerte em pedaços no rio sagrado U-Sil, para que os crocodilos e as piranhas o devorassem rapidamente.
Não se pode descrever o desespero e o desgosto da princesa Pemba. E, para provar a sua dor, esfregava todas as manhãs no seu lindo corpo e rosto um pó extraído dos montes brancos Kabanda e, à noite, para que o seu pai não soubesse dessa sua demonstração de pesar pela morte do seu amado, lavava-se nas margens do rio sagrado U-Sil.
Assim fez, durante muito tempo. Porém, um dia, as pessoas da sua tribo que sabiam dessa velha paixão e que assistiram ao seu banho nupcial diário viram com assombro e espanto que ela elevava-se no espaço ficando, em seu lugar, uma grande quantidade de massa branca, lembrando um tubo.
Apavorados, correram a contar ao velho Soba o que viram; este, profundamente desesperado, quis mandar degolar todos os súbditos denunciantes. Porém, como eles houvessem passado e esfregado nas mãos e corpo o pó branco deixado pela princesa Pemba, notaram que a cólera do grande Soba se esvaía, se evaporava, fazendo-o manso, prudente e ponderado, acabando mesmo por não castigar os seus servos.
Começou, então, a correr a fama das qualidades milagrosas da massa deixada pela princesa, que sobreviveu muitas gerações, chegando até aos nossos dias, para benefício daqueles que a ela recorrem e nela ainda acreditam.



Delmar Maia Gonçalves
(autor moçambicano)


Pequeno glossário:
Pemba: é o nome de um objecto permanente nos ritos africanos mais antigos que se conhecem, fabricado com o pó extraído dos montes brancos Kabanda e água do rio divino U-Sil. Diz-se que é empregue em todos os ritos, cerimónias, festas, reuniões ou solenidades africanas.
É também o nome da cidade capital da província Moçambicana de Cabo Delgado, situada no Norte.
Soba: Chefe da tribo em África; régulo.
Regulados: povoações tribais chefiadas por um régulo.

25/01/2010

O Grilo Verde




Certo dia, apareceu na horta do Tio Manuel Liró um grilo espantoso. Era verde, tão verde como as alfaces repolhudas que cresciam num pequeno canteiro ao cimo da horta. E em dias de sol e noites estreladas, punha-se a assobiar modinhas.
Os grilos que viviam por perto, como não eram verdes nem sabiam assobiar, acharam aquele vizinho esquisito, muito invulgar. Foram contar aos colegas que moravam por aquelas redondezas.
— VERDE?!
— E ASSOBIA?!… PODE LÁ SER!
A notícia espalhou-se, andou de toca em toca, voou de lura em lura. Todos os grilos ficaram a saber das afrontas do parceiro que morava na horta do Tio Manuel Liró. Sim, afrontas! Ser-se verde e assobiador não eram coisas de grilo que se fizessem… Resolveram fazer-lhe uma visita para o convencer a mudar de farda e de música.
Numa tarde de domingo deixaram as luras que tinham nos quintais, campos, bouças e matas. Entraram na horta do Tio Manuel Liró e perguntaram ao companheiro:
— Porque não tens uma cor igual à nossa? Porque não cricrilas?
Então o Grilo Verde respondeu-lhes:
— Se nasci verde, não posso ser preto. E se assobio é porque não sei fazer outra coisa. E vós — perguntou — porque não sois verdes e não sabeis assobiar como eu?
— Porque sempre fomos pretos e só sabemos cricrilar.
— Então — concluiu o Grilo Verde — estamos empatados: se eu sou verde — vós sois pretos; se assobio — vós cricrilais. Para quê tanta preocupação?
— Alto lá! — reagiram os grilos pretos — Esqueces-te que és o primeiro colega a fazer tamanhos disparates!
— E não será disparate ter cor preta e cricrilar?
— Não venhas com bazófia. Por acaso já pensaste na confusão que vais criar?
— Confusão!? — espantou-se o Grilo Verde — Eu?!…
— Já pensaste que, se por acaso os homens te vêem, vão logo dizer aos seus amigos que há grilos que não são pretos e grilos que assobiam. Já pensaste nisso? E por tua causa todos os grilos do Mundo ficam desacreditados!
— Não vejo mal nisso… Mas dizei-me — pediu o Grilo Verde — o que devo fazer?
— Deves mudar de cor e nunca mais, mas nunca, nunca mais assobiar, entendido?
O Grilo Verde ficou calado, pensativo.
— Ides desculpar — disse ele — mas não posso fazer o que me pedis.
— Pensa bem…
— Já pensei o que devia pensar, e volto a dizer que estais a pedir coisas impossíveis, coisas malucas. Cada um é como é…
— Então — decidiram os grilos pretos — somos obrigados a agir imediatamente para remediar o equívoco: vamos prender-te.
— Prender-me?
— Sim, caro colega. Serás metido na lura mais funda que conseguirmos fazer. Ninguém mais verá esse ridículo verde da tua pele, ninguém mais escutará essas estúpidas modinhas que assobias… Descansa, fome não passarás, haverá sempre à tua disposição alface e senradela com fartura.
O Grilo Verde olhou à sua volta e ficou desesperado: eram tantos os grilos pretos a rodeá-lo… como poderia escapar?
— Não vos passou pela cabeça — disse o Grilo Verde — que ides fazer uma coisa estúpida, praticar uma grande injustiça? Que mal vos fiz? Governo a minha vida como qualquer grilo e dou umas assobiadelas. Onde está o mal, dizei-me?!
— Ó coleguinha! Estás a esquecer um assunto demasiado importante para todos nós: A NOSSA REPUTAÇÃO!
— RE-PU-TA-ÇÃO? O que é isso?!… — admirou-se o Grilo Verde.
— É o nome, a fama, a tradição, a reputação! Os grilos sempre foram pretos e nunca deixaram de cricrilar!
— E o nome, a fama, a tradição e a reputação dos grilos também diz que se deve prender os que não são pretos nem sabem cricrilar? — perguntou o Grilo Verde.
— Não venhas com conversa fiada, nem tentes baralhar-nos as ideias. Prepara-te para partires connosco.
Os grilos pretos começaram a fazer um cerco cada vez mais apertado ao colega vestido de verde — e este, quando se viu muito entrasgado, desatou aos saltos, tentando fugir.
— Agarra que é verde! Apanha o assobiador! Cri-cri-cri-cri — E os grilos pretos saltavam, pulavam, caíam. O Grilo Verde, esse fugia para um lado, fintava um colega, saía para o lado contrário, dava um salto e fintava outro.
— Ai a minha vida! Ai que lá vou para a toca funda — mas o Grilo Verde fugia sempre, sempre — cada vez mais aflito, mais cercado, mais cansado…
E se o Tio Manuel Liró não entrasse na horta a tempo de escorraçar os grilos pretos, certamente o Grilo Verde seria apanhado pelos colegas e de seguida metido numa lura funda.
Eu conto como tudo se passou.
Nas tardes de sol, o Tio Manuel Liró costumava ir sentar-se sob a sombra de uma oliveira ramalhuda que havia ao fundo da horta, para ler o jornal, e por fim dormir uma pacífica soneca! Ora, nessa tarde de domingo, o Tio Manuel Liró entrou na horta e, como de costume, foi sentar-se à sombra da oliveira, ignorando que havia visitantes por perto. Abriu o jornal, leu as palavras de letras gordas com muita atenção. Depois virou a página e começou a ler as letras mais pequenas. Mas essas letras, como eram pequenas, gostavam de brincar: punham-se a dar saltinhos de um lado para o outro, pulavam para cima e para baixo, faziam danças de roda… E os olhos do Tio Manuel, que já estavam um pouco cansados, não acharam piada nenhuma àquelas letras brincalhonas — fecharam-se. O sono, que rondava por perto, aproveitou a ocasião e, rápido, enfiou-se no corpo do Tio Manuel Liró.
Mas foi por pouco tempo. Era grande, muito grande a barulheira que os grilos faziam. E o sono, que detesta barulho, fugiu em grande velocidade.
O Tio Manuel Liró acordou estremunhado.
— Raio de grilos! Que barulho, santo Deus!… Calai-vos, desafinados duma cana!
Todavia, os grilos continuavam a fazer grande algazarra, indiferentes à zanga do dono da horta.
— Calai-vos! — gritou o Tio Manuel Liró. E a barulheira continuava…
— Ai sim! Então esperai pelas alfaces… esperai.
Zangado, estremunhado, o Tio Manuel Liró levantou-se, atirou o jornal ao chão e, correndo, atravessou a horta.
Voltou daí a momentos com uma grande enxada nas mãos. Sem fazer barulho começou a percorrer a horta, talho por talho, tentando localizar os importunadores barulhentos.
E tanto andou, tanto rebuscou, que conseguiu descobrir o paradeiro deles. Mas, ó grande azar, ó pouca sorte! Onde é que os grilos haviam de estar metidos? — No meio do feijoal, no talho dos seus viçosos feijoeiros…
«E agora, Manuel? — pôs-se o velho Manuel Liró a pensar.
— Desfaço ou não desfaço? Se desfaço o feijoal e espanto os grilos para longe daqui, passo a dormir descansado. Mas, se não desfaço os feijoeiros e não espanto os grilos, jamais dormirei uma soneca em paz. E agora, o que faço?».
O Tio Manuel pensou, matutou, ponderou e finalmente decidiu:
— Guerra aos grilos! Nem mais um cri-cri na minha horta! Quero dormir descansado. Fora! Fora daqui, seus casacas! — E, pegando na enxada, pôs-se o Tio Manuel a cavar o talho, a arrancar os feijoeiros, a cortar as vagens, a desfazer os feijões…
Os grilos pretos mal viram aquele pedaço de ferro afiado a arrasar tudo, tiveram medo, esqueceram-se de dar caça ao colega verde e tentaram escapar-se, fugindo ligeirinhos, mais lestos que saltaricos.
E o Grilo Verde? Esse, empoleirou-se numa couve, e dando um suspiro de alívio, escondeu-se entre as suas folhas verdes, tenras e largas, deixando-se estar quieto, caladinho.
E o Tio Manuel Liró continuou a cavar o talho, mexendo-o de ponta a ponta. Grilos não viu. E voltou a cavar, cada vez mais furioso. Cavou, cavou, estrangalhou, revirou a terra e voltou a revirar… Mas como podiam aparecer grilos se já tinham dado à pata?!
Transpirado, corado, aborrecido, enervado, fatigado, o Tio Manuel Liró pensou: «Foram-se os grilos e foi-se o feijoal».
Exausto, voltou para a sombra da oliveira. Pegou no jornal, leu novamente as palavras de letras gordas, virou a folha, suspirou três vezes, esqueceu o incidente, fechou os olhos e adormeceu.
E foi então que se deu um caso extraordinário, só estando lá para ver e pasmar:
Enquanto o Tio Manuel dormia a sua soneca, cresceram umas grandes asas cor de fogo no corpo do Grilo Verde. E este, saindo da couve onde estava empoleirado, começou a voar à roda da horta, por cima dos talhos. Depois subiu e foi poisar no ramo mais alto da oliveira, enquanto assobiava uma bela e estranha melodia.
O Tio Manuel acordou de mansinho ao som da música.
«Mas que belíssima melodia! Onde está o seu executante?», pôs-se o dono da horta a pensar, enquanto olhava para todos os lados, atento, admirado.
A música vinha de cima, dos ramos da oliveira, mas não se via nada!
— Quem assobia tão bem que faça o favor de descer e de se mostrar para que eu o felicite — pediu o Tio Manuel Liró.
Então o Grilo Verde desceu da oliveira, voando com as suas asas cor de fogo, e mostrou-se ao dono da horta.
— Que bicho tão estranho tu és! Pareces uma borboleta, mas assobias maravilhosamente… Também és parecido com um grilo… mas és verde! És tão estranho!… Espera aí! — E o Tio Manuel pensou apanhar o Grilo Verde e levá-lo consigo para mostrar aos amigos. Mas, quando estendeu os braços e abriu as mãos para o apanhar, o Grilo Verde escapou-se e de imediato começou a subir no céu azul.
Foi subindo, subindo e assobiando aquela bela e estranha melodia, até que, e para espanto do Tio Manuel Liró, o Grilo Verde desapareceu entre um castelo de nuvens, voando, voando com as suas asas cor de fogo.


António Mota
O grilo verde
Porto, Ambar, 1999

16/01/2010

Mademoiselle Fifi




O major comandante prussiano, conde de Farlsberg, acabava de ler sua correspondência, com as costas afundadas numa ampla poltrona estofada e as botas pousados no elegante mármore da lareira, onde as esporas, no decurso dos três meses em que ocupava o castelo de Uville, haviam traçado dois fundos orifícios, dia a dia um pouco mais escavados.
Uma xícara de café fumegava sobre uma mesa redonda de marchetaria, manchada pelos licores, queimada pelos charutos, talhada pelo canivete do oficial, que às vezes traçava sobre o gracioso móvel algarismos ou desenhos, ao capricho da sua indolente fantasia.
Tendo terminado a leitura das cartas e percorrido os jornais alemães que seu ordenança lhe trouxera, levantou-se, e depois de ativar o fogo com três ou quatro enormes achas de lenha verde, das árvores que derrubavam do parque para se aquecer, aproximou-se da janela.
A chuva caía a cântaros, uma chuva normanda que se diria atirada por mão furiosa, uma chuva enviesada, espessa como uma cortina, formando uma espécie de muro de listras oblíquas, uma chuva fustigante, tudo salpicando, tudo inundando, verdadeira chuva dos arredores de Rouen, esse vaso noturno da França.
O oficial contemplou longamente os relvados cheios d’água, e ao longe o Andelle engrossado, que transbordava. Tamborilava contra a vidraça uma valsa do Reno, quando um rumor fê-lo voltar-se. Era seu imediato, o barão de Kelweigstein, que ocupava o posto equivalente ao de capitão.
O major era um gigante de espáduas largas, com longa barba em forma de leque, abrindo-se sobre o peito como um guardanapo. Da cabeça aos pés, a sua pessoa avantajada dava a idéia de um pavão militar, um pavão cuja cauda se desdobrasse no queixo. Tinha olhos azuis, frios e tranqüilos, uma das faces lanhada por um golpe de sabre, recebido na guerra da Áustria, e diziam-no homem tão reto quanto oficial destemido.
O capitão, homenzinho corado, de ventre proeminente, estreitamente cintado, usava muito curta a barba vermelha, cujos fios cor de fogo fariam supor, quando batidos por certos reflexos, que seu rosto fora esfregado com fósforo. Dois dentes perdidos numa noite de pândega, sem que ao menos se lembrasse como, faziam-no cuspir palavras espessas, nem sempre inteligíveis. Era calvo apenas no alto do crânio, tonsurado como um frade, com uma coroa de cabelinhos frisados, dourados e brilhantes orlando aquele círculo de carne nua.
O comandante apertou-lhe a mão, e em seguida engoliu de um só trago a sua xícara de café, a sexta nessa manhã, enquanto escutava do seu subordinado a relação dos incidentes ocorridos em serviço. Depois ambos se aproximaram da janela, comentando que aquilo não era nem um pouco divertido. Homem sossegado, casado em sua pátria, o major adaptava-se facilmente à situação. O barão, porém, boêmio incorrigível, freqüentador de lupanares, impetuoso conquistador, irritava-se com estar encerrado havia três meses naquela posição perdida, numa castidade obrigatória.
Ouvindo alguém bater à porta, o comandante mandou entrar e um de seus soldados autômatos apareceu, anunciando pela sua simples presença que o almoço estava servido.
Na sala de refeição encontraram três oficiais de posto inferior: um tenente, Otto de Gossling; dois subtenentes, Fritz Schcenaubourg e o marquês Wilhem d’Eyrik, lourinho orgulhoso e brutal com seus subordinados, duro para com os vencidos e violento como uma arma de fogo.
Desde que entrara na França, os companheiros do marquês d’Eyrik só o tratavam por Mademoiselle Fifi. Devia a alcunha ao seu andar requebrado, à sua cintura fina que se diria comprimida por espartilho, ao seu rosto pálido onde mal repontava um bigode incipiente, e também ao hábito que adquirira de, para expressar seu soberano desprezo pelos seres e pelas coisas, servir-se a todo momento da locução francesa fi, fi donc, que pronunciava com ligeiro sibilo.
A sala de jantar do castelo de Uville era uma peça ampla e imponente. Os espelhos de cristal antigo, agora estrelados de balas, e as requintadas tapeçarias de Flandres, dilaceradas por golpes de sabre e despregadas em alguns lugares, denunciavam as ocupações de Mlle. Fifi nas suas horas de lazer. Nas paredes, três retratos de família — um guerreiro de armadura, um cardeal e um presidente fumando longo cachimbo de porcelana — enquanto uma nobre dama de busto espartilhado, na sua moldura desdourada pelos anos, exibia um enorme bigode desenhado a carvão.
O almoço dos oficiais decorreu quase em silêncio naquele salão mutilado, ensombrecido pela embriaguez, confrangedor pelo seu aspecto de derrota, tornado sórdido como um chão de taberna o seu antigo soalho de carvalho.
Terminada a refeição, à hora de fumar, puseram-se a falar, como faziam todos os dias, do tédio que experimentavam. As garrafas de conhaque e de licores passavam de mão em mão, e todos, recostados nas cadeiras, bebiam vagarosamente, em goles repetidos, conservando o cachimbo no canto da boca, longo tubo curvo rematado pelo ovo de faiança, sarapintado como para seduzir hotentotes. Mal os copos se esvaziavam, tornavam a enchê-los, com um gesto de resignada lassidão. Mlle. Fifi quebrava o seu, a toda hora, e imediatamente um soldado lhe apresentava outro.
Envolvia-os uma cerração feita de fumaça acre, e pareciam engolfar-se numa embriaguez triste e entorpecedora, naquela ebriedade melancólica das pessoas que nada têm com que se ocupar.
Subitamente, o barão se aprumou. Sacudia-o um assomo de revolta. Praguejou:
— Com todos os diabos! Isto assim não pode continuar! Afinal, é preciso inventar qualquer coisa para fazer!
O tenente Otto e o subtenente Fritz, dois alemães dotados de características fisionomias pesadas e graves, indagaram:
— O que podia ser, capitão?
Ele refletiu alguns segundos, e depois observou:
— O quê? Ora, é preciso organizar uma festa, caso o comandante o permita.
O major largou o cachimbo:
— Que festa, capitão?
O barão aproximou-se:
— Encarrego-me de tudo, comandante. Mandarei o ajudante de ordens a Rouen, e ele nos trará algumas damas. Sei onde encontrá-las. Uma ceia será preparada aqui. Aliás, nada falta, e passaremos uma noitada divertida.
O conde de Farlsberg meneou os ombros com um sorriso:
— O senhor está louco, meu amigo.
Mas todos os oficiais se tinham levantado e rodeavam o superior, suplicando:
— Comandante, consinta, por favor. É tão triste a nossa vida aqui.
— Está bem — concordou finalmente o major.
Sem perder tempo, o barão mandou chamar o ajudante de ordens. Era um velho subtenente, a quem jamais ninguém vira rir-se, mas que cumpria fanaticamente todas as ordens de seus superiores, fossem quais fossem.
Perfilado, rosto impassível, recebeu as instruções do barão. Retirou-se em seguida, e cinco minutos mais tarde um grande carro militar, coberto com um toldo encerado estendido à maneira de cúpula, deslocava-se apressadamente sob a chuva torrencial, ao galope de quatro cavalos.
Imediatamente um frêmito perpassou pelos espíritos, despertando-os. Os corpos languidamente recostados se aproximaram, animaram-se os rostos e todos se puseram a conversar.
Embora o aguaceiro continuasse a cair com a mesma intensidade, o major afirmou que já estava menos escuro, e o tenente Otto anunciou, convicto, que o céu ia clarear. O próprio Mlle. Fifi parecia inquieto. Levantava-se, tornava a sentar-se. Seu olhar claro e duro procurava algo para quebrar. De repente, fitando a dama de bigodes, o lourinho puxou o revólver:
— Você não assistirá a nada disso — declarou ele.
Sem se levantar da cadeira, fez pontaria, e duas balas sucessivamente furaram os dois olhos do retrato. Exclamou depois:
— Agora vamos fazer a mina!
E as palestras interromperam-se, como se um novo e poderoso interesse a todos empolgasse. “Fazer mina” era a invenção de Mlle. Fifi, sua maneira de destruir, seu divertimento predileto.
Ao abandonar o castelo, o seu legítimo proprietário, conde Fernand d’Amoys d’Uville, não tivera tempo para transportar nem esconder coisa alguma, salvo a prataria oculta no oco de uma parede. Como era muito rico e munificente, o salão do castelo, cuja porta se abria para a sala de jantar, apresentava antes da fuga precipitada o aspecto de uma galeria de museu. Telas, desenhos e aquarelas de preço pendiam das paredes. Dispostos sobre os móveis e aparadores, e nas vitrines elegantes, mil bibelôs, porcelanas, estatuetas, figurinhas de Saxe e bonecos da China, marfins antigos e cristais de Veneza, enchendo o vasto aposento com a sua presença preciosa e rara.
Pouco restava de tudo aquilo. Não que os objetos houvessem sido pilhados, pois tal coisa o major conde de Farlsberg não teria permitido. Porém, de quando em quando, Mlle. Fifi preparava uma mina, e então os oficiais realmente se divertiam durante quinze minutos.
O marquesinho foi ao salão buscar o material de que precisava. Trouxe um bule de chá de porcelana chinesa, família rósea, sobremaneira frágil, que encheu de pólvora. Introduziu no bico, com delicadeza, um longo pedaço de estopim, e apressou-se em levar essa máquina infernal ao compartimento vizinho. Acendeu-o e regressou rápido, depois de fechar a porta. Os alemães esperaram de pé, o rosto sorridente espelhando uma curiosidade infantil. Assim que a explosão estremeceu o castelo, precipitaram-se todos para o salão.
Mlle. Fifi, o primeiro a entrar, batia freneticamente as mãos diante de uma Vênus de terracota, cuja cabeça afinal saltara. Cada um deles apanhou cacos de porcelana, admirando os estranhos recortes dos estilhaços, verificando os estragos novos e atribuindo outros a uma explosão anterior. E o major considerava com ar paternal o vasto salão, violentamente abalado por aquela metralha à maneira de Nero e coalhado de fragmentos de objetos de arte. Foi o primeiro a sair, depois de observar com bonomia:
— Desta vez foi um sucesso.
Mas tamanho turbilhão de fumaça invadira a sala de jantar, misturando-se ao fumo dos cachimbos, que ninguém mais conseguia respirar. O comandante abriu a janela, e os oficiais, que haviam retornado para beber um último copo de conhaque, foram-se aproximando.
O ar úmido penetrou no aposento, trazendo consigo uma espécie de poeira d’água e um cheiro de inundação. Puseram-se a contemplar as enormes árvores, vergadas pelo aguaceiro, o amplo vale obscurecido pela aglomeração de nuvens baixas e sombrias, e bem ao longe o campanário da igreja, alteando-se como uma flecha cinzenta no meio da chuva torrencial.
Desde que eles tinham chegado, os sinos da igreja haviam deixado de tocar. Era a única resistência com que os invasores tinham deparado nos arredores: a do campanário. O vigário absolutamente não se recusara a abrigar e alimentar soldados prussianos. Concordara até em beber uma garrafa de cerveja ou de bordeaux com o comandante inimigo, que muitas vezes o utilizava como intermediário voluntário. Porém, não lhe pedissem uma só badalada de seu sino! Mais depressa se deixaria fuzilar. Era a sua maneira de protestar contra a invasão: protesto pacífico, protesto de silêncio, o único, segundo dizia, adequado a um sacerdote, homem de doçura e não de sangue. E todos, numa circunferência de dez léguas, gabavam a firmeza, o heroísmo do Pe. Chantavoine, que ousava afirmar o luto público e proclamá-lo através do obstinado mutismo da sua igreja.
A aldeia inteira, entusiasmada com essa resistência, mostrava-se disposta a apoiar até o fim o seu pastor, disposta a tudo afrontar, pois considerava esse protesto tácito como um desagravo à honra nacional. Os camponeses tinham a impressão de que a pátria lhes devia mais do que a Blefort e a Strasbourg; parecia-lhes ter dado um exemplo equivalente, e que haviam imortalizado o nome da aldeia. Com exceção disso, nada recusavam aos prussianos vencedores.
Tanto o comandante como os oficiais se riam dessa inofensiva coragem. Como a região inteira se mostrava obediente e submissa para com eles, de boa vontade toleravam aquele silencioso patriotismo.
Apenas o pequeno marquês Wilhem teria gostado de forçar o sino a tocar. Irritava-o a condescendência política do seu superior em relação ao pároco, e todos os dias insistia com o comandante para que o deixasse fazer “ding-don-don” uma vez, uma única vez, somente para divertir-se um pouco. Fazia tal pedido com requebros felinos, meiguices femininas e as doçuras na voz que teria uma amante obcecada por um desejo. Mas o comandante não cedia, e para consolar-se Mlle. Fifi “fazia mina” no castelo de Uville.
Durante alguns momentos, os cinco homens permaneceram agrupados no mesmo lugar, aspirando a umidade. Enfim, soltando uma risada pastosa, o tenente Fritz assim se expressou:
— Aquelas senhorritas tecididamente não terrão uma tempo ponito para sua passeio.
Logo em seguida eles se separaram. Cada um retomou seu serviço, e o capitão ocupou-se com os múltiplos preparativos do jantar.
Ao cair da noite, quando novamente se encontraram, puseram-se a rir, vendo-se todos faceiros e reluzentes como nos dias de revista solene, os cabelos lustrosos, perfumados e limpos. Os cabelos do comandante se haviam tornado menos grisalhos do que pela manhã, e o capitão fizera a barba, só conservando o bigode ruivo, que lhe parecia uma chama sob o nariz.
Não obstante a chuva, deixaram a janela aberta, e de vez em quando um deles ia escutar. Às seis horas e dez minutos, o barão percebeu um rodar longínquo. Todos se alvoroçaram, e o enorme carro não tardou em aproximar-se, sem deter o galope dos quatro cavalos esbaforidos, enlameados até às costas.
Cinco mulheres desceram no patamar, cinco bonitas raparigas escolhidas a dedo por um companheiro do capitão. Não se tinham feito rogar, certas de que seriam bem pagas. Conheciam os prussianos, que há três meses agüentavam, e sabiam tirar partido tanto dos homens como das coisas. “São exigências da profissão” — explicavam, a caminho, sem dúvida para acalmar o secreto prurido de uns restos de consciência.
Imediatamente entraram na sala de jantar. Iluminada, esta ainda parecia mais lúgubre, deixando perceber o lamentável estado a que fora reduzida. A mesa farta de carnes, com a rica baixela e a prataria encontrada na parede onde a escondera seu proprietário, conferia-lhe o aspecto de uma taverna, na qual bandidos fossem cear depois de uma pilhagem. Radiante, o capitão apossou-se das raparigas como de objetos familiares, aquilatando-as como dispensadoras de prazer. Como os três mais moços se apressavam em fazer sua escolha, opôs-se categoricamente, atribuindo-se a partilha, que seria feita dentro da maior eqüidade, tendo-se em conta as patentes, a fim de que a hierarquia fosse respeitada.
Assim sendo, no propósito de evitar qualquer discussão, qualquer contestação, qualquer suspeita de parcialidade, alinhou-as pela estatura, e dirigindo-se à mais alta, indagou com voz de comando:
— Seu nome?
— Pamela.
— Número um, a chamada Pamela, adjudicada ao comandante.
Em seguida, depois de beijar em sinal de posse a Blondine, a segunda, ofereceu ao comandante Otto a rechonchuda Amanda, Eva ao subtenente Fritz, e Raquel, a mais baixa de todas, ao mais moço dos oficiais, o marquesinho Wilhem d’Eyrik. Raquel era morena muito jovem, de olhos negros como borrões de tinta, uma judia, cujo nariz adunco confirmava a regra que caracteriza sua raça,
Todas eram gordas e bonitas, sem fisionomias muito marcadas, como se as práticas quotidianas e a vida comum nos prostíbulos as tivessem tornado parecidas de rosto e de porte.
Os três jovens tencionavam subir com as suas damas, sob o pretexto de oferecer-lhes escovas e sabão para se lavarem. Prudentemente o capitão se opôs, declarando que estavam bastante limpas para sentarem-se à mesa, e argumentando que aqueles que subissem poderiam propor permutas, com isso perturbando os outros pares. Sua experiência deu-lhe ganho de causa.
Sentaram-se. O próprio comandante parecia encantado. Colocou Pamela à sua direita, Blondine à sua esquerda, e observou, ao desdobrar o guardanapo:
— O senhor teve uma ótima idéia, capitão.
Os tenentes Otto e Fritz, afetando polidez como se tratassem com senhoras da sociedade, intimidavam um pouco as suas vizinhas. Mas o barão de Kelweigstein, entregue ao seu prazer predileto, soltava palavras picantes, galanteava em francês do Reno, e seus cumprimentos de taverna, expectorados pela abertura dos dois dentes partidos, chegavam às raparigas de envolto a uma metralha de saliva.
De resto, elas não compreendiam coisa alguma, e sua inteligência só pareceu despertar quando ele começou a cuspir-lhes palavras obscenas, expressões cruas, que o seu sotaque estropiava. Então, todas ao mesmo tempo puseram-se a rir como loucas, repetindo as palavras que o barão se comprazia em deformar, a fim de obrigá-las a proferir obscenidades. Vomitavam tais obscenidades sem hesitar, bêbedas desde as primeiras garrafas de vinho. Tendo assim voltado a ser elas mesmas, e aberto a porta aos hábitos, bebiam em todos os copos, cantavam coplas francesas e trechos de canções alemãs aprendidas nos seus contatos quotidianos com o inimigo.
Bem depressa os homens, também embriagados, puseram-se a berrar e a quebrar a baixela, enquanto às suas costas, impassíveis, os soldados os serviam.
O comandante era o único a guardar a compostura.
Tinham chegado à sobremesa. O champanhe estava sendo servido. O comandante levantou-se, e no mesmo tom que empregaria para erguer um brinde à imperatriz Augusta, saudou:
— Às nossas damas!
Foi o início de uma série de toasts, de galanterias de soldados bêbedos misturadas a gracejos obscenos, que a ignorância do idioma tornava ainda mais brutais. Um por um eles se levantaram, tentando mostrar-se espirituosos, esforçando-se por parecer engraçados. E as mulheres embriagadas, olhos vagos, lábios pastosos, aplaudiam freneticamente.
Na provável intenção de acrescentar um toque galante à orgia, mais uma vez o capitão ergueu o copo e proferiu:
— Às nossas vitórias sobre os corações!
Então o tenente Otto, espécie de urso da Floresta Negra, retesou-se, inflamado, saturado de bebidas. Subitamente possuído de patriotismo alcoólico, gritou:
— Às nossas vitórias sobre a França!
Por mais bêbedas que estivessem, as mulheres calaram-se. Raquel, trêmula, retrucou:
— Fique sabendo: conheço franceses diante dos quais você não falaria assim.
O marquesinho pôs-se a rir, pois o vinho o deixara muito alegre:
— Ah! ah! ah! Nunca vi esses franceses. Mal aparecemos, eles somem!
— Você está mentindo, seu sujo! — gritou-lhe ao rosto a rapariga, exasperada.
Durante um segundo ele fixou nela os olhos claros, tal como os fixava nas telas quando as furava a tiros de revólver, e depois soltou uma risada.
— Ah! Quanto a isso, beleza, acaso estaríamos aqui se eles fossem valentes? Somos donos dos franceses! A França é nossa! — Levantou-se, estendeu o copo até ao centro da mesa, e repetiu: — A França é nossa, assim como os franceses, os bosques, os campos e as casas da França!
Completamente bêbedos, subitamente dominados por um entusiasmo militar, um entusiasmo de brutos, os outros também empunharam os copos, vociferando:
— Viva a Prússia! — e esvaziaram os copos de um só trago.
As raparigas não protestavam, emudecidas e presas do medo. A própria Raquel calava-se, impotente para responder. Foi então que o marquesinho colocou sobre a cabeça da judia a taça de champanha que tornara a encher, e gritou:
— A nós também todas as mulheres da França!
Raquel se pôs de pé rapidamente, derramando sobre seus cabelos o cálice de champanhe, que em seguida caiu ao chão, espatifando-se. Com os lábios trêmulos, afrontava com o olhar o oficial, que continuava a rir-se. E balbuciou, com voz sufocada pela cólera:
— Isso... isso não é verdade! Absolutamente vocês não terão as mulheres da França!
Ele se sentou, para rir-se mais à vontade, e procurando imitar o sotaque parisiense:
— Essa é pem poa, pem poa, enton que veiu facer aqui, pequena?
Interdita, ela se calou, tão perturbada que não podia compreender bem o que ele dizia. Depois, assim que alcançou o sentido daquelas palavras, retorquiu, indignada e veemente:
— Eu... eu... não sou mulher, sou prostituta. É o que serve para vocês, prussianos.
Nem bem terminara, e ele já a esbofeteara com força. Ao vê-lo erguer a mão outra vez, enlouquecida pela raiva, Raquel apanhou na mesa uma faca, e bruscamente cravou-a no pescoço do marquesinho, bem no côncavo onde começa o peito. A palavra que articulava foi cortada na garganta, e ele se quedou de boca escancarada, com olhar terrível.
Um bramido ergueu-se, e todos se levantaram em tumulto. Porém, depois de atirar sua cadeira às pernas do tenente Otto, que se estatelou no chão, Raquel correu à janela, abriu-a antes que conseguissem alcançá-la, e desapareceu na noite, sob a chuva que continuava a cair.
Dois minutos depois, Mlle. Fifi morria. Então Fritz e Otto desembainharam as espadas e quiseram trucidar as outras mulheres. Não sem dificuldade, o major impediu o morticínio e mandou fechá-las num quarto, sob a guarda de dois soldados.
Tal como se dispusesse militares para um combate, o major organizou a perseguição à fugitiva, plenamente convencido de que seria capturada. Cinqüenta homens, fustigados por ameaças, foram lançados ao parque. Duzentos outros esquadrinharam os bosques e as casas do vale.
A mesa, instantaneamente desocupada, servia agora de leito mortuário. Os quatro oficiais, dissipada a embriaguez, rígidos e perfilados junto às janelas, com a fisionomia de guerreiros em serviço, sondavam a noite.
A chuva torrencial continuava. Um marulhar contínuo enchia as trevas, murmúrio ondeante de água que cai e de água que escorre, de água que goteja e de água que esguicha.
De repente ressoou um tiro, depois outro, muito ao longe. Durante algumas horas, de quando em quando repercutiram detonações próximas ou distantes, assim como gritos para reunir e palavras estranhas, lançadas como apelos por vozes guturais. Pela manhã todos regressaram. Dois soldados haviam sido mortos e três outros feridos por companheiros, durante a caçada, na confusão daquela perseguição noturna.
Raquel não fora encontrada.
Em conseqüência, os habitantes do lugar foram submetidos a um regime de terror, as casas revistadas, toda a região percorrida, explorada, revolvida. A judia parecia não haver deixado um único vestígio da sua passagem.
Informado, o general ordenou que se abafasse o caso, para não dar maus exemplos ao exército, e infligiu uma pena disciplinar ao comandante, que por sua vez puniu seus inferiores. O general dissera:
— Ninguém faz guerra para se divertir e meter-se com mulheres da vida.
E o conde de Farlsberg, exasperado, resolveu vingar-se sobre a região. Como necessitasse de um pretexto para exercer livremente as suas represálias, mandou chamar o vigário e deu-lhe ordem para tocar o sino por ocasião do sepultamento do marquês d’Eyrik. Contra a sua expectativa, o sacerdote mostrou-se dócil, humilde, cheio de deferência.
Quando o corpo de Mlle. Fifi, carregado por soldados, precedido, cercado e acompanhado por soldados que marchavam de armas embaladas, deixou o castelo de Uville a caminho do cemitério, pela primeira vez o sino dobrou a finados, mas com um ritmo vivo, como se mão amiga o acariciasse.
Ressoou também à noite, no dia seguinte, e todos os dias daí em diante. Repicou todas as vezes que desejaram. Mesmo durante a noite, acontecia-lhe agitar-se sozinho, de manso, e lançar à sombra duas ou três sonoridades, tomado de estranhas alegrias, despertado não se sabia por quê. Os camponeses do lugar deram-no como enfeitiçado, e ninguém, salvo o vigário e o sacristão, se aproximava do campanário.
É que uma pobre rapariga vivia lá no alto, na angústia e na solidão, alimentada às escondidas por aqueles dois homens.
No alto permaneceu até a retirada das tropas alemãs. Certa noite, tendo pedido emprestado a carroça do padeiro, o próprio vigário conduziu sua prisioneira às portas de Rouen. Algum tempo depois um patriota a desposou, entusiasmado pela bela ação que praticara.


Guy de Maupassant, in Maravilhas do conto universal
Cultrix, SP, 1958

08/01/2010

A televisão mais bonita do mundo


Sempre que era para ir a algum lugar de demorar, o tio Chico dizia que íamos à «casa andeia». Nunca percebi aquilo. Era uma dica dos mais-velhos. Nem mesmo a tia Rosa fazia só o favor de me explicar. Nada. Todos riam e eu apanhava do ar. Nessa noite o tio Chico falou:
– Dalinho, vamos à casa andeia.
Deviam ser umas sete da noite e fazia frio de cacimbo fresco.
Isso da «casa andeia» muitas vezes era então ficarmos sentados num bar com os mais-velhos a beber um monte de cerveja e a comer quase nada. Se havia outras crianças eu ainda ia brincar mas normalmente nem já isso. Os homens conversavam, a tia Rosa também bebia mas ficava muito tempo calada. Eu brincava um pouco se houvesse jardim ou mesmo rua. Depois sentava-me no colo da tia Rosa e começava a «encher o saco», como dizia o tio Chico. Começava a perguntar se já íamos embora, dizia que tinha sono e fome, mas só me respondiam que estava quase a chegar a hora de irmos. E vinham mais cervejas. Muitas mais.
A cerveja era a bebida preferida do tio Chico. A cerveja em muita quantidade, para dizer bem as coisas. O tio Chico era uma pessoa que podia beber muita cerveja e não ficava bêbado, podia mesmo conduzir o carro dele nas calmas. Só não podia misturar. Um dia o tio Chico misturou vinho e whisky e depois mandou parar o carro que o filho dele ia a conduzir, começou a me abraçar e a falar à toa. Eu fiquei com vontade de chorar mas a tia Rosa veio me dizer que aquilo era normal. Mas se fosse só cerveja, acho que ninguém aguentava o tio Chico. Um dia, num desses lanches de fim de tarde, enquanto eu comia, ele, o amigo dele e a tia Rosa varreram assim uns trinta e nove copos de cerveja.
Desta vez o tio Chico disse que íamos à «casa andeia » mas era só a brincar. No caminho eu ouvi ele dizer à tia Rosa que íamos à casa do Lima buscar umas cadeiras para o quintal. O Lima era um senhor muito magrinho que também bebia bem, tinha os olhos sempre a brilhar e a boca sempre a rir. Era simpático o Lima, e devia ser amigo do tio Chico porque o tio Chico gostava de lhe chamar «o sacana do Lima». Chegámos à casa do sacana do Lima numa rua bem escura que era preciso cuidado quando andávamos para não pisar nas poças de água nem na dibinga dos cães. Eu ainda avisei a tia Rosa, «cuidado com as minas», ela não sabia que «minas» era o código para o cocó quando estava assim na rua pronto a ser pisado.
O Lima veio abrir a porta, os olhos dele brilhavam muito e trazia já na mão uma nocal bem gelada. Passou a garrafa para a mão esquerda e apertou a mão de todo o mundo, mesmo da tia Rosa, e a mão dele estava muito gelada. Isso era bom na casa do Lima, as bebidas estavam sempre a estalar, eu assim me imaginei já a saborear uma fanta bem gelada. E me deram mesmo.
Ainda estávamos no quintal, o Lima mostrou ao tio Chico as tais cadeiras encomendadas. O Lima vendia mobílias muito feias, com um aspecto assim de cadeiras que os mais-velhos adormecem quando estão na casa de alguém com um funeral e o morto também. Eu não gostava dos móveis que o Lima vendia, mas aquelas cadeiras até que eram fixes, pintadas de uma cor clara com fitas assim de um plástico verde. Da cor da cadeira comprida, verde também, que estava sempre no quintal da minha casa. Mas o tio Chico não gostou muito, disse que estavam mal soldadas e que aquilo era perigoso.
O Lima riu, mas o tio Chico não estava a brincar.
– Ó meu sacana, já viste se eu sento aí a minha sogra e ela cai no chão, como é que tu vais ficar quando eu te der essa notícia?
O Lima transpirava. Passou a mão na testa, olhou a cadeira.
– A malta dá um jeito nisso depois, não te preocupes. Entra, Chico.
Entrámos todos, mas até tenho que dizer aqui uma coisa. Nessa altura, em Luanda, não apareciam muitos brinquedos nem coisas assim novas. Então nós, as crianças, tínhamos sempre o radar ligado para qualquer coisa nova. Mal entrámos no quintal, vi uma caixa de papelão bem grande e restos de esferovite no chão. Isso só podia significar uma coisa: havia material novo naquela casa, podia ser fogão, geleira ou outra coisa qualquer, e mesmo acho que era essa a razão de estar toda gente com bebidas na mão. Eu tinha pensado isso tudo, mas calado e, quando entrámos, entendi: na estante, havia uma televisão nova tipo um bebé daqueles acabados de nascer. Os olhos do Lima brilharam mais ainda:
– Olha lá esta maravilha, Chico.
Foi buscar com a mão ainda fresca da cerveja um manual de instruções dentro de um plástico que cheirava a novo. Eu já nem liguei mais à gasosa, fiquei a olhar a estante com bué de fotos da família do Lima.
Mandaram-nos sentar. O Lima carregou no botão e nada. Ele transpirava. Ficou triste de repente. Mexeu na tomada, acendeu e apagou a luz da sala. O tio Chico com a cerveja dele. A tia Rosa de braços cruzados. Eu à espera da imagem a qualquer momento. Olhei o cinzento da televisão e umas três luzes apareceram de repente como se fossem um semáforo maluco e tive a certeza que aquela era mesmo a televisão mais bonita do mundo. Fez um ruído tipo um animal a respirar e acendeu devagarinho. Não consegui ficar calado e disse bem alto: «chéeeeeee, essa televisão é bem esculú!», e todos riram do meu espanto assim sincero: era a primeira televisão a cores que eu via na minha vida.
A imagem apareceu bem nítida e cheia de cores. Era lindo e eu nunca tinha reparado que um apresentador de televisão podia vestir uma roupa com tantas cores. Lembro-me ainda hoje: estava a dar o noticiário em língua nacional tchokwe. Ninguém entendia nada, baixaram o som. A tia Rosa disse-me «fecha a boca, vai entrar mosca», e todos riram outra vez. Não me importei.
Falaram de novo das cadeiras. O Lima dizia tudo que sim, que podia ser resolvido. Mexeu nos botões da televisão e a cor ficou ainda mais viva. Na imagem tudo já estava misturado, parecia um quadro molhado com aguarelas bem exageradas. Pensei nos meus primos, a essa hora lá na casa da Praia do Bispo, com a televisão da avó Agnette a preto-e-branco, e aquele plástico azul que até hoje não sei para que servia. Quando eu contasse da televisão a cores exageradas na casa do Lima, os primos iam me acreditar, ou será que todos iam rir e me chamar de mentiroso com força?
Fiquei com inveja dos filhos do Lima que todos dias iam ver cores naquela televisão a cores: a telenovela Bem-Amado com o Odorico e o Zeca Diabo, o Verão Azul com o Tito e o Piranha, os bonecos animados do Mitchi, o Gustavo com três fios de cabelo e até a Pantera Cor-de-Rosa com o cigarro bem comprido. «Tudo a cores, como uma aguarela bem bonita», pensei, enquanto a tia
Rosa me fazia festinhas na cabeça.

Ondjaki (Angola), in Os da Minha Rua


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06/01/2010

O Retrato Oval



O castelo em que o meu criado se tinha empenhado em entrar pela força, de preferência a deixar-me passar a noite ao relento, gravemente ferido como estava, era um desses edifícios com um misto de soturnidade e de grandeza que durante tanto tempo se ergueram nos Apeninos, não menos na realidade do que na imaginação da senhora Radcliffe. Tudo dava a entender que tinha sido abandonado recentemente. Instalamo-nos num dos compartimentos mais pequenos e menos sumptuosamente mobilados, situado num remoto torreão do edifício. A decoração era rica, porém estragada e vetusta. Das paredes pendiam colgaduras e diversos e multiformes troféus heráldicos, misturados com um desusado número de pinturas modernas, muito alegres, em molduras de ricos arabescos doirados. Por esses quadros que pendiam das paredes - não só nas suas superfícies principais como nos muitos recessos que a arquitectura bizarra tornara necessários - , por esses quadros, digo, senti despertar grande interesse, possivelmente por virtude do meu delírio incipiente; de modo que ordenei a Pedro que fechasse os maciços postigos do quarto, pois que já era noite; que acendesse os bicos de um alto candelabro que estava à cabeceira da minha cama e que corresse de par em par as cortinas franjadas de veludo preto que envolviam o leito. Quis que se fizesse tudo isto de modo a que me fosse possível, se não adormecesse, ter a alternativa de contemplar esses quadros e ler um pequeno volume que acháramos sobre a almofada e que os descrevia e criticava.
Por muito, muito tempo estive a ler, e solene e devotamente os contemplei. Rápidas e magníficas, as horas voavam, e a meia-noite chegou. A posição do candelabro desagradava-me, e estendendo a mão com dificuldade para não perturbar o meu criado que dormia, coloquei-o de modo a que a luz incidisse mais em cheio sobre o livro. Mas o movimento produziu um efeito completamente inesperado. A luz das numerosas velas (pois eram muitas) incidia agora num recanto do quarto que até então estivera mergulhado em profunda obscuridade por uma das colunas da cama. E assim foi que pude ver, vivamente iluminado, um retrato que passava despercebido. Era o retrato de uma jovem que começava a ser mulher. Olhei precipitadamente para a pintura e ato contínuo fechei os olhos. A principio, eu próprio ignorava por que o fizera. Mas enquanto as minhas pálpebras assim permaneceram fechadas, revi em espírito a razão por que as fechara. Foi um movimento impulsivo para ganhar tempo para pensar - para me certificar que a vista não me enganava -, para acalmar e dominar a minha fantasia e conseguir uma observação mais calma e objectiva. Em poucos momentos voltei a contemplar fixamente a pintura. Que agora via certo, não podia nem queria duvidar, pois que a primeira incidência da luz das velas sobre a tela parecera dissipar a sonolenta letargia que se apoderara dos meus sentidos, colocando-me de novo na vida desperta.
O retrato, disse-o já, era de uma jovem. Apenas se representavam a cabeça e os ombros, pintados à maneira daquilo que tecnicamente se designa por vinheta - muito no estilo das cabeças favoritas de Sully. Os braços, o peito, e inclusivamente as pontas dos cabelos radiosos, diluíam-se imperceptivelmente na vaga mas profunda sombra que constituía o fundo. A moldura era oval, ricamente doirada e filigranada em arabescos. Como obra de arte, nada podia ser mais admirável que o retrato em si. Mas não pode ter sido nem a execução da obra nem a beleza imortal do rosto o que tão subitamente e com tal veemência me comoveu. Tão-pouco é possível que a minha fantasia, sacudida da sua meia sonolência, tenha tomado aquela cabeça pela de uma pessoa viva. Compreendi imediatamente que as particularidades do desenho, do vinhetado e da moldura devem ter dissipado por completo uma tal ideia - devem ter evitado inclusivamente qualquer distracção momentânea. Meditando profundamente nestes pontos, permaneci, talvez uma hora, meio deitado, meio reclinado, de olhar fito no retrato. Por fim, satisfeito por ter encontrado o verdadeiro segredo do seu efeito, deitei-me de costas na cama. Tinha encontrado o feitiço do quadro na sua expressão de absoluta semelhança com a vida, a qual, a princípio, me espantou e finalmente me subverteu e intimidou. Com profundo e reverente temor, voltei a colocar o candelabro na sua posição anterior. Posta assim fora da vista a causa da minha profunda agitação, esquadrinhei ansiosamente o livro que tratava daqueles quadros e das suas respectivas histórias. Procurando o número que designava o retrato oval, pude ler as vagas e singulares palavras que se seguem:
«Era uma donzela de raríssima beleza e tão adorável quanto alegre. E maldita foi a hora em que viu, amou e casou com o pintor. Ele, apaixonado, estudioso, austero, tendo já na Arte a sua esposa. Ela, uma donzela de raríssima beleza e tão adorável quanto alegre, toda luz e sorrisos, e vivaz como uma jovem corça; amando e acarinhando a todas as coisas; apenas odiando a Arte que era a sua rival; temendo apenas a paleta e os pincéis e outros enfadonhos instrumentos que a privavam da presença do seu amado. Era pois coisa terrível para aquela senhora ouvir o pintor falar do seu desejo de retratar a sua jovem esposa. Mas ela era humilde e obediente e posou docilmente durante muitas semanas na sombria e alta câmara da torre, onde a luz apenas do alto incidia sobre a pálida tela. E o pintor apegou-se à sua obra que progredia hora após hora, dia após dia. E era um homem apaixonado, veemente e caprichoso, que se perdia em divagações, de modo que não via que a luz que tão sinistramente se derramava naquela torre solitária emurchecia a saúde e o ânimo da sua esposa, que se consumia aos olhos de todos menos aos dele. E ela continuava a sorrir, sorria sempre, sem um queixume, porque via que o pintor (que gozava de grande nomeada) tirava do seu trabalho um fervoroso e ardente prazer e se empenhava dia e noite em pintá-la, a ela que tanto o amava e que dia a dia mais desalentada e mais fraca ia ficando. E, verdade seja dita, aqueles que contemplaram o retrato falaram da sua semelhança com palavras ardentes, como de um poderosa maravilha, - prova não só do talento do pintor como do seu profundo amor por aquela que tão maravilhosamente pintara.
Mas por fim, à medida que o trabalho se aproximava da sua conclusão, ninguém mais foi autorizado na torre, porque o pintor enlouquecera com o ardor do seu trabalho e raramente desviava os olhos da tela, mesmo para contemplar o rosto da esposa. E não via que as tintas que espalhava na tela eram tiradas das faces daquela que posava junto a ele. E quando haviam passado muitas semanas e pouco já restava por fazer, salvo uma pincelada na boca e um retoque nos olhos, o espírito da senhora vacilou como a chama de uma lanterna. Assente a pincelada e feito o retoque, por um momento o pintor ficou extasiado perante a obra que completara; mas de seguida, enquanto ainda a estava contemplando, começou a tremer e pôs-se muito pálido, e apavorado, gritando em voz alta 'Isto é na verdade a própria vida!', voltou-se de repente para contemplar a sua amada: - estava morta!


Edgar Allan Poe,
Histórias Extraordinárias



05/01/2010

O último aviso do corvo falador



Foi ali, no meio da praça, cheio da gente bichando na cantina. Zuzéé Paraza, pintor reformado, cuspiu migalhas do cigarro mata-ratos. Depois, tossiu sacudindo a magreza do seu todo corpo. Entao, assim contam os que viram, ele vomitou um corvo vivo. O pássaro saiu inteiro das entranhas dele. Estivera tanto tempo lá dentro que já sabia falar. Embrulhado nos cuspes, ao princípio não parecia. A gente rodou volta do Zuzéé, espreitando o pássaro caído da sua tosse. O bicho sacudiu os ranhos, levantou o bico e, para espanto geral, disse as palavras. Sem boa pronúncia, mas com convicção. Os presentes perguntaram:
- Está falar, o gajo?
Riram-se, alguns. Mas a voz das mulheres interrompeu-lhes:
- Não riam-se.
Zuzé Paraza aconselhou:
- Isto não é um pássaro qualquer. É bom ter respeito.
- Ei, Zuzé. Traduza lá o discurso dele. Você deve saber o dialecto do corvo.
- Com certeza, sei. Mas agora não, agora não quero traduzir. - Já centro das atenoes, acrescentou: - Esse corvo é dono de muitos segredos.
E arrumando a ave no ombro esquerdo, retirou-se. Atrás ficaram os comentários. Agora já entendiam os ataques de tosse do pintor. Era um pedaço de céu que estava-lhe dentro. Ou talvez eram as penas a comicharem-lhe a garganta. As dúvidas somavam mais que as respostas.
- Um homem pode parir nos pulmões?
- Dar parto um pássaro? Só se o velho namorava as corvas lá nas árvores.
- Vão ver que a alma da mulher falecida que transferiu no viúvo.
No dia seguinte, Zuzé confirmou esta última versão. O corvo vinha lá da fronteira da vida, ninhara nos seus interiores e escolhera o momento público da sua aparição.
Os outros que aproveitassem obter informações dos defuntos, situação e paradeiro dos antepassados. O corvo, através da sua tradução, responderia às perguntas. Os pedidos logo acorreram, numerosos. Zuzé já não tinha quarto, era gabinete. Não dava conversa, eram consultas. Prestava favores, adiava as datas, demorava atendimentos. Pagava-se com tabela: morridos no ano corrente, cinquenta escudos; comunicação com anos transactos, cento e cinquenta; mortos fora de prazo, duzentos e cinquenta.
E aqui entra na histria Dona Candida, mulata de volumosa bondade, mulher sem inimigo. Recém-viúva, já ex-viva. Casou rápido segunda vez, desforrando os destemperos da ausência. Quando recasou, escolheu Sulemane Amade, comerciante indiano da povoação. Não tinha passado tempo desde que morrera Evaristo Muchanga, seu primeiro marido.
Mas Candida não podia guardar a vida dela. Seu corpo ainda estava para ser mexido, podia até ser me. Verdade é que, nesse intervalo, nunca foi muito viva. Era uma solitária de acidente, não de crença. Nunca abrandou de ser mulher.
- Casei. E depois? Preciso explicar o quê?
E nestas palavras, Dona Candida começou sua queixa para Zuzé Paraza. Quando se soube solicitado, o adivinho até adiantou a data da consulta. Nunca tinha chegado uma mulata. Os préstimos de Zuzé nunca tinham sido chamados tão acima.
- Não sou qualquer, Sr. Paraza. Como é que me sucede uma coisa dessas?
A gorda senhora explicou suas aflições: o segundo casamento decorria sem demais. Até que o novo marido, o Sulemane, passou a sofrer de estranhos ataques. Aconteciam à noite, nos momentos em que preparavam namoros. Ela tirava o soutiã, o Sulemane chegava-se, pesado. Era então que aparecia o feitiço: grunhidos em lugar da fala, babas nos lábios, vesgueira nos olhos. Sulemane, confessava ela, o meu Sulemane salta da cama e assim, todo despido, gatinha, fareja, esfrega no chão e, por fim, focinha no tapete. Depois, todo suado, o coitadinho pede água, acaba um garrafão. Não fica logo-logo o mesmo: demora a recuperar. Gagueja, só ouve do direito e adormece de olhos abertos. A noite inteira, aqueles olhos tortos a mentir que olham, um horror. Ai, Sr. Zuzé, me salve. Sofro de mais, até tenho dúvidas de Deus. Isto é obra de Evaristo, maldição dele. Éramos felizes eu e Sulemane. Agora, nós ambos já somos três. Meu Deus, por que não esperei? Por que ele não me deixa?
Zuzé Paraza cruzou as mãos, acariciou o corvo. Tinha suas suspeitas: Evaristo era de raça negra, natural da região. Dona Candida, com certeza não cumprira as cerimónias da tradição para afastar a morte do primeiro marido. Engano seu, ela cumprira.
- Cerimónias comptetas?
- Claro, Sr. Paraza.
- Mas como? A senhora assim mulata da sua pele, quase branca da sua alma?
- Ele era preto, o senhor sabe. Pedido foi da família dele, eu segui.
Paraza, intrigado, parece ainda duvidar.
- Matou o cabrito?
- Matei
- O bicho gritou enquanto a senhora cantava?
- Gritou, sim.
- E que mais, Dona Candida?
- Fui ao rio lavar-me da morte dele. Levaram-me as vivas, banharam comigo. Tiraram um vidro e cortaram-me aqui, nas virilhas. Disseram que era ali que o meu marido dormia. Coitadas, se soubessem onde o Evaristo dormia...
- E o sangue saiu bem?
- Hemorragia completa. As vivas viram.
Pelo sangue disseram que me entendia bem com ele. Não desmenti, preferi assim.
Zuzé Paraza meditou, teatroso. Depois, soltou o corvo. O bicho esvoaçou e pousou no ombro amplo da Candida. Ela encolheu as carnes, arrepiada das cócegas. Espreitou o animal, desconfiada. Olhado assim, o corvo era feio por de mais. Quem quiser apreciar a beleza de um pássaro não pode olhar as patas. Os pés das aves guardam o seu passado escamoso, herança dos rastejantes lagartos.
O corvo rodou no poleiro redondo da mulata.
- Desculpe, Sr. Zuzé: ele não me vai cagar em cima?
- Não fale, Dona Candida. O bicho precisa concentrar.
Por fim, o pássaro pronunciou-se. Zuzé escutava de olhos fechados, ocupado no esforo da tradução.
- Que foi que disse ele?
- Não foi o pássaro que falou. Foi o Varisto.
- Evaristo?- desconfiou ela. - Com aquela voz?
- Falou através do bico, não esqueça.
A gorda ficou séria, ganhando créditos.
- Sr. Zuzé aproveite a ligação para lhe pedir... peça-lhe...
Arrependendo-se, Dona Candida desiste do intermediário e começa ela de berrar no corvo poleirado no seu ombro:
- Evaristo, me deixa em paz. Faça-me o favor, deixa-me sozinha, sossegada na minha vida.
O pássaro, incomodado com a gritaria, saltou do poiso. Paraza impôs a ordem:
- Dona Candida não vale a pena agitar. Viu? O pássaro sustou.
A consultante, esgotada, chorou.
- A senhora escutou o pedido do falecido?
Com a cabeça, ela negou. Ouvira só o corvo, igual aos demais, desses que saltitam nos coqueiros.
- O falecido, Dona Candida, está pedir uma mala cheia com roupa dele, dessa que ele costumava usar.
- Roupa dele? Já não tenho. Eu não disse que pratiquei essas vossas cerimónias? Rasguei, esburaquei a roupa, quando ele morreu. Foi assim que me mandaram. Disseram que devia fazer buracos para a roupa soltar o último suspiro. Sim, eu sei: se fosse agora não cortava nada. Aproveitava tudo. Mas naquele tempo, Sr. Paraza...
- É uma maçada, Dona Candida. O defunto está mesmo precisado. Nem imagina os frios que dão lá nos mortos.
A mulata ficou parada, imaginando Evaristo tremendo, sem amparo dos tecidos. Apesar das maldades que ele causara, não merecia tal vingança. Remediou os ditos: havia de roubar as roupas do Sulemane e trazer tudo num embrulho escondido.
- O Sutemane não pode saber disto. Meu Deus, se ele desconfia!
- Fica descansada, Dona Candida. Ninguém vai saber. Só eu e o corvo.
E, no último instante, antes de sair, a gorda:
- Como será que o Evaristo pode aceitar, naquele ciúme que levou para o outro mundo, como é que pode aceitar a roupa do meu novo marido?
- Aceita. Roupas são roupas. O frio manda mais que ciúme.
- Tem a certeza, Sr. Paraza?
- Experiência que tenho é essa. Os mortos ficam friorentos porque são ventados e chuviscados. Daí que ganham inveja da quentura dos vivos. Vai ver, Dona Candida, que essa roupa vai acalmar as vinganças do Evaristo.
E a gorda mulata confessou o seu receio, nem bem com os mortos nem bem com os vivos:
- O meu medo, agora, é o Sulemane. Ele mata-me, a mim e ao senhor.
Zuzé Paraza levantou-se, confiante. Colocou a mão no braço da cliente e acalmou-a:
- Estive assim pensageiro, Dona Candida. E encontrei a solução. A senhora que vai descobrir o roubo e comunicar o seu marido. Pronto, foi um ladrão qualquer, há tantos deles aqui.


Uma semana depois, chegou uma mala cheiinha. Calas, camisas, cuecas, gravatas, tudo. Uma fortuna. Zuzé começou de experimentar o fato castanho. Estava largo, medida era de um comerciante, homem de esperar sentado, comer bem. Enquanto ele, um pintor, puxava tamanho menor. Era tão magro que nem pulgas nem piolhos lhe escolhiam.
Procurou na mala uma gravata a condizer. Havia mais de dez. Junto com cuecas de perna comprida, pegas sem remendos. Sulemane devia ter ficado descuecado. O seu guarda-fato era agora um guarda-nada.
Vestido das aldrabices da sua invenção, Zuzé Paraza puxou a garrafa de xicadjú. Para festejar, somou mais de dez copos. Foi então que o álcool começou a aldrabar a esperteza dele, também. Havia uma voz que teimava de dentro:
- Essas roupas são minhas próprias, não foi ninguém que deu, não vieram de nenhuma parte. São minhas!
E assim, convencido que era dono dos enfeites, decidiu sair, gingar fora. Parou na cantina, mostrou as vaidades, casacado, gravatado. As vozes em volta encheram-se de invejas:
- Aquela roupa não é dele. Parece já vi um algum com ela.
E os presentes, lembrando, chegaram ao dono: eram de Sulemane Amade. Exactamente, eram. Como foram parar aquelas roupas no Zuzé, sacana, telefonista das almas? Roubou, o gajo. Esse corveiro entrou na casa do Sulemane. E partiram a avisar o indiano.
Desconhecendo as manobras, Zuzé continuou exibindo suas despertenças. O corvo acompanhava-o, grasnando-lhe em cima. Ele, desendireitando-se, fazia o coro.
Foi então que, no cruzamento da cantina, surgiu Sulemane, espumando fúrias. Avançou no pintor e apertou-lhe o pescoço. Zuzé balançava dentro do fato largo.
- Onde é que tiraste este fato, ladrão?
O pintor queria explicar mas desconseguia. Em volta, o corvo saltitava, tentando pousar-lhe na cabeça instável. Quando o indiano aliviou, Zuzé murmurou:
- Sulemane, não me mate. Não roubei. Esta roupa fui dado.
O indiano não abandonara violências. Mudara de táctica: do pescoço para pontapés. Zuzé pulava em concorrência com o corvo.
- Quem te deu a minha roupa, grande aldrabão?
- Pára de me dar pontapés! Vou explicar.
Zuzé Paraza aproveitou uma trégua e atirou, certeiro:
- Foi a tua mulher, Sulemane. Foi Dona Candida que me deu essa roupa.
- Candida deu-te? Mentira, sacana.
Choveram murros, pontapés, bofetadas. A assistência, em volta, aplaudia.
- Fala verdade, Paraza. Não me vergonhes com essa história da minha mulher.
Mas o velho pintor não falava, demasiado ocupado em se desviar das porradas. Uma dessas bofetadas que voava na direcção do nariz do Paraza foi embater no pássaro. Arremessado, o corvo volteou no chão, asa partida, esper-neando os finais. Todos pararam volta da agonia da ave. As vozes aflitas:
- Sulemane se você mataste o corvo, estás mal com a sua vida.
- Estou mal, o caraças! Quem é que acredita num corvo a falar com espíritos?
Zuzé a sangrar do nariz respondeu, com gravidade:
- Se você num acredita, deixa. Mas esse corvo que deste porrada vai-lhe trazer desgraça.
Má lembrança do Zuzé Paraza. O indiano recomeçou a pancadaria. Duas porradas foram dadas, três falharam. O pintor diminua resistência. O álcool no seu sangue atrapalhava-lhe os desvios. Até que um soco derruba Zuzé. Desamparado, cai em cima do corvo. No meio da poeira Zuzé Paraza retira o pássaro morto debaixo de si. Ergue o corvo mágico e aponta-o para o indiano.
- Mataste o pássaro, Sulemane! Estás lixado. Vais ver que o que te vai acontecer! Há-des gatinhar como um porco!
Então, deu-se o incrível. Sulemane começa as tremuras, grunhidos, roncos, babas e espuma. Cai sobre os joelhos, rasteja, revolve-se nas areias. O povo aterrado foge: a maldição do Zuzé ficara verdade. Sulemane, convulso, parece uma galinha a quem se cortou a cabeça. Por fim, pára, cansado dos demónios que o sacudiram. Zuzé sabe que a seguir ele vai sentir sede. Aproveita e ordena:
- Vais ficar com sede, seu porco-espinho! Vais chorar por água!
Provas do poder de Zuzé estavam ali: o Sulemane joelhado suplicando água, chorando para que matassem a sede que o matava.
A notícia, como um relâmpago, correu a povoação. Afinal, esse Zuzé! Era mesmo, o gajo. Dono de bruxezas, realmente. No dia seguinte, todos levan-taram cedo. Correram a casa de Zuzé Paraza. Todos queriam ver o pintor, todos queriam-lhe pedir favor, encomendar felicidades.
Quando chegaram, encontraram a casa vazia. Zuzé Paraza tinha partido. Procuram no horizonte vestígios do adivinho. Mas os olhares morreram nos capins do longe onde os grilos se calam. Revistaram a casa abandonada. O velho tinha levado todas as coisas. Ficara uma gaiola pendurada no tecto. Baloiava, viva, hóspede do silncio. Com o medo crescendo dentro, os visitantes saíram para as traseiras. Foi então que, no pátio, viram o sinal da maldição: um pássaro morto, desenterrado. Sobre a vida quieta soprava uma brisa que, aos poucos, arrancava e lançava no ar as penas magras do corvo falador.
Aceitando o aviso, os habitantes começaram a abandonar a povoação. Saíram em grupos uns, sozinhos outros, e por muitos dias vaguearam errantes como as penas que o vento desmanchava na distância.


Mia Couto, in Vozes Anoitecidas