24/12/2010

Hoje é Natal

O avô Fernando chegou de longe com uma mala muito pesada. Ajudei-o a levá-la para o meu quarto e não o larguei mais, enquanto não a abriu. O que traria ele dentro daquela mala tão grande? Prendas de Natal? Surpresas? Brinquedos? Livros? – perguntava a mim próprio. Mortinho de curiosidade, andei à sua volta como uma mosca, a zumbir perguntas.
— Ó avô, o que é que trazes?
— Tem calma, tem paciência, que logo te mostro! – aconselhou, ainda com a voz ofegante por ter carregado comigo aquela mala.
— Anda lá, diz-me só a mim, que eu não digo a mais ninguém!
— As prendas e as surpresas só se mostram logo, depois da ceia. Não sejas chato!
— Diz-me, que eu prometo guardar segredo! – insisti.
Como tinha de entregar à minha mãe uns produtos para a ceia, que tinha trazido da sua terra, começou a abrir a mala devagarinho e eu fiquei à espera que de lá de dentro saísse qualquer coisa de mágico: um avião que voasse – vrrruuum, vrrruuummm – ou uma coisa assim… capaz de fazer pasmar os meus amigos.
Mas não. Apareceram, entre a escova de dentes, a gilete, o pincel da barba, uma toalha de rosto e o pijama do meu avô, vários embrulhinhos amarrados com fitas coloridas, uma garrafa de azeite, um queijo, uma broa de Avintes, um frasco de azeitonas e uma garrafa que parecia ter dentro água amarela.
— Avô, que prenda me vais oferecer?
— Que prenda me vais dar a mim?
Não lhe respondi. A um canto, estava um rolo envolvido em papel azul-marinho, prateado.
— E isso, o que é? É um telescópio? É um caleidoscópio?
— Olha que tu és muito pegajoso! Está bem, pronto! Eu digo-te, se não, nunca mais te calas. Isso é uma luz para o Natal!
— É de ligar à electricidade? É de acender? É uma estrela para pôr no presépio? – perguntei, agitado.
— Não. Isto é o Espírito do Natal! – exclamou o meu avô, com mistério na voz.
— Espírito? Igual àquele da Lâmpada do Aladino? Se esfregar, sai um génio que faz tudo o que a gente quer? Ó avô és mesmo fixório! Mostra, avô, mostra!
Para não me aturar mais, ele ia a desembrulhar o rolo de papel prateado, quando foi salvo da minha curiosidade pelo chamamento da minha mãe:
— Venham para a mesa!
O meu avô, ainda a arfar da viagem, desceu devagar com a mão no corrimão, e eu acompanhei-lhe os passos.
O meu pai fechou-se na sala de jantar e, querendo fazer um bonito, não nos deixou entrar na sala, onde a mesa já estava posta para a ceia.
As luzes estavam apagadas e a porta fechada. Quando íamos para entrar, o meu pai, muito teatreiro e eufórico, fez:
— Te te te tzzéééé! ! ! – e abriu a porta e as luzes.
Senti uma baforada quente e fui abraçado por um cheirinho a rabanadas, a sonhos, a filhoses, a aletria com desenhos de canela e a bilharacos, que era um doce que o meu avô apreciava muito.
A iluminação da sala estava um espanto, a mesa um espectáculo, a lareira soltava línguas de fogo e a música ambiente eram as vozes de anjos de um CD que a minha mãe comprara de propósito para aquela noite.
Por cima da lareira, o meu pai pôs o presépio e ao canto construiu uma Árvore de Natal, apenas com ramos de pinheiro, porque pensava ele que as árvores não se deviam abater.
Disse-me uma vez:
— Se um dia tiveres de cortar uma árvore, deves pedir-lhe desculpa, ouviste? Uma árvore é um ser vivo!
O meu avô dirigiu-se ao presépio, mirou-o e remirou-o e, por fim, disse:
— Que engraçado! Nunca vi um presépio assim: o Menino Jesus está ao colo da mãe e a manjedoura vazia. Ó Castro, dou-te os meus parabéns, o presépio está muito bonito!
Os olhos do meu pai brilharam com o elogio.
E sabem porquê? É que o meu avô achava que o meu pai era um bocado azelhote para fazer coisas e habilidades com as mãos.
Era a primeira vez que ele vinha a nossa casa, depois do segundo casamento da minha mãe.
Para o impressionar, os meus pais receberam-no com mimos e atenções como se fosse um rei.
Por causa disso, eu comecei a ficar um bocado chateado. Até parecia que os meus pais, naquela noite, decidiram riscar-me do mapa das suas atenções.
Mas não, para mim, aquele Natal não foi só uma noite de paz, foi uma noite de pazes.
— Ah, já me esquecia… Olha, Mário, vai à minha mala buscar o Espírito do Natal, mas trá-lo com cuidado, não lhe mexas, ouviste? – pediu-me o avô Fernando.
O meu pai e a minha mãe cruzaram os olhos de interrogação, ao saber que o meu avô tinha trazido para casa um espírito.
Subi a correr as escadas que davam para o meu quarto e senti que os bichos carpinteiros da curiosidade me atacavam com perguntas:
— O que estaria dentro daquele rolo de papel prateado? Seria mesmo um espírito? E os espíritos têm a forma de um charuto comprido? Seria uma brincadeira ou uma história do meu avô? Pelo sim e pelo não, passei os dedos, ao de leve, pelo rolo.
E se o tal espírito saísse do tubo e me falasse: “Diz-me, Mário, meu amo, que desejas? Diz-me, que a tua vontade será satisfeita!”
Se isso me acontecesse, o que é que eu desejaria? Sei lá, se não ficasse atrapalhado, era capaz de pedir:
— Ó alma boa, ó espírito da luz, quero que arranjes alguém que me faça os deveres de casa, quero um avião a sério que aterre no meu pátio e quero uma moto a motor!
Estava a minha imaginação com gás na tábua quando ouvi a voz do meu avô:
— Então, vens ou não?!
Desci as escadas a correr e entreguei-lhe o rolo de papel prateado. Fiquei à espera, para ver o que de lá saía.
Era agora, era agora que eu ia conhecer o tal Espírito do Natal. Como o avô desembrulhou o rolo com muito cuidadinho, eu comecei a acreditar que, se calhar, havia ali mesmo qualquer mistério.
Desenrolou, desenrolou, até que… apareceu uma simples vela de cera branca.
— Oooohhhh! Uma vela! – disse de mim para mim, muito desiludido.
Embora a sala estivesse inundada de luz, o avô Fernando riscou um fósforo, pediu à minha mãe um castiçal, acendeu a vela e colocou-a no centro da mesa. Depois, disse:
— Na chama desta vela mora o Espírito do Natal! Nesta noite, nesta mesa e nesta chama, para mim estarão presentes todos os nossos antepassados, todas as nossas recordações e todas as pessoas de quem gostamos. Está o meu pai e a minha mãe, está a tua… está a tua… avó que Deus tenha…
O meu avô parou de falar e, em vez de palavras, saíram apenas lágrimas grossas que escorreram pela cara abaixo.
O silêncio que se fez foi tão grande que ficámos todos muito encolhidos, sem saber o que dizer.
Quem nos salvou do peso do silêncio e das lágrimas foi a minha mãe:
— Então, então, pai, hoje é Natal! – falou baixinho a minha mãe, misturando a fala com um beijo.
— Vamos à ceia! – disse, por fim, o avô, ainda com a coragem engasgada.
Depois, comemos, rimos, jogámos ao rapa, ao tira, ao deixa e ao põe até que chegou a hora da distribuição das prendas.
O meu pai deu-me um livro, a minha mãe uma camisa aos quadrados e o meu avô umas grossas meias de lã.
Eu fiquei muito desconsolado porque esperava um brinquedo de espanto, daqueles que fizessem roer de inveja os colegas da rua. O meu avô andava sempre com os pés frios e trouxe meias de lã porque, se calhar, pensou que sofríamos todos do mesmo mal.
Estava tudo a correr bem. Até o meu pai, que andava quase sempre, “cabisbundo” e “meditabaixo”, ria-se, ria-se até mais não. A certa altura, o avô chamou-me para a sua beira e disse-me:
— Olha para a luz da vela. Fixa o Espírito do Natal! O que vês? Eu lá olhei, mas o que via era que a chama se inclinava, lenta mente, ora para um lado, ora para o outro.
— Vês alguma coisa?
— Não vejo nada. Só a chama a dizer não, devagarinho!
— Para mim, na Noite de Natal, esta chama significa tudo o que o ser humano tem de bom dentro de si: a saudade do amor, da amizade e da partilha das coisas. É por isso que lhe chamo o Espírito do Natal. Nesta noite, quando fixo a luz da vela, diante dos meus olhos passam, como se fosse em cinema, histórias e vidas das pessoas que amei e se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estou agora a olhar para ela e estou a lembrar-me do Natal mais lindo que eu tive em toda a minha vida. Queres que te conte?
— Conta, avô, conta!
— Mas olha que é uma história triste! Mas verdadeira!
— Não faz mal! Mesmo assim, conta!
A minha mãe e o meu pai aproximaram-se do sítio onde nós estávamos. O avô fixou os seus olhos de formiga na chama da vela e, com uma voz quente e pausada…
— No tempo em que o Natal custava a chegar, vivia eu numa casa pequenina. Eu era pobre e não tinha brinquedos, mas não me importava. Bastava o cheiro que andava pelas ruas e pelos caminhos a fazer miminhos de fraternidade no coração das pessoas.
Era por isso que, quando tinha a tua idade, na véspera de Natal, ao passar pelas outras pessoas, dizia, cheio de alegria:
— Hoje é Natal!
A pouca distância de minha casa, havia uma outra, que não era bem casa. As paredes eram de chapa velha e o chão de terra batida.
O vento entrava por tudo o que era frincha e o frio estava ali plantado.
Uma fogueira fazia de fogão e a única cama que havia era feita de paus de pinheiro, ainda por descascar.
E nessa casa que não era bem casa, tão pequenininha e tão pobre de tudo, morava a Ti Adelaide Tintureira e os seus filhos: a Rosa e o Domingos.
Esta mulher de pele enrugada, de olhos verdes e vida amargurada foi, um dia, transformada em pássaro negro. Por duas vezes se quis matar, atirando-se da ponte de D. Luís para o rio Douro.
Da primeira vez, as saias largas que usava amorteceram a queda e um barqueiro que por ali andava viu-a e, remando rapidamente, retirou-a do rio, ainda com vida.
Da segunda vez que se quis matar estava muito vento. Ao atirar-se da ponte, uma rajada empurrou-a contra os fios de electricidade e neles ficou enrodilhada. Os bombeiros tiraram-na com vida, apenas ficando magoada no peito.
Disseram as velhas da aldeia que tudo isso aconteceu porque o Anjo da Guarda da Ti Adelaide Tintureira, cansado de a proteger durante uma vida cheia de aflições, adormeceu duas vezes.
E, nessas duas vezes, a Morte, ao ver aquela mulher de olhos tristes, transformada em ave negra, não a quis e devolveu-a, sã e salva, para viver o resto do seu destino.
Naquele tempo, a Ti Adelaide Tintureira e os filhos viviam da venda da lenha, apanhada nos pinhais, e de pequenos serviços que lhe encomendavam. Ela e os filhos vestiam do que algumas “almas caridosas” lhe davam.
Passavam muito mal e, quando se vive assim, nem é bom sentir o cheiro do Natal nem ouvir falar de prendas nem de rabanadas. Isso só serve para entristecer a vida de quem tem pouquinho.
— Natal é um dia como os outros! – dizia a Ti Adelaide Tintureira para tentar convencer os filhos a não olharem para as roupas novas que os outros meninos vestiriam no dia seguinte.
Na noite de Natal, em cima da nossa pequena mesa, já fumegava a travessa de bacalhau cozido com batatas e couves-galegas.
Nesse ano, para além das rabanadas, havia um bocadinho de queijo, uns pastéis comprados no Porto e uma garrafa de vinho fino, oferecida pelo Ti Zé Estureta, como consoada, por lhe gastarmos da mercearia.
Para operários de vida dura, aquela ceia de Natal era quase um banquete de rei.
Quando íamos iniciar a refeição da noite de Natal…
— E se fôssemos chamar a Ti Adelaide Tintureira e os seus filhos para cearem com a gente? – propôs o meu pai.
A minha mãe disse que sim e, momentos depois, eu batia à porta da barraca da Ti Adelaide Tintureira.
Lá dentro, a chama da candeia de azeite furava a escuridão e os olhos da Rosa e do Domingos enchiam de tristeza aquela noite, que não era bem igual às outras.
Sem saber o que dizer nem fazer, seguiram-me até à porta da minha cozinha.
Disseram boa noite com voz sumida e, quando se sentaram à volta da mesa daquela família de pobres operários, que era a minha, dei com uns olhos verdes, acesos de alegria.
Eram os da Ti Adelaide Tintureira que pagava aquele gesto bonito com um olhar que já não usava há muito tempo: um olhar de felicidade.
Quando acabámos de comer e de jogarmos o rapa a pinhões, vim cá fora e, pelo intervalo das folhas de uma laranjeira, vi, lá longe, o brilho de uma estrelinha que mais ninguém viu.
Agora, quando olho para o céu, lembro-me dos olhos acesos da Ti Adelaide Tintureira, que foram morar para as estrelas e que me aparecem, na noite de Natal, para me recordarem dos bons sentimentos que ainda não foram apagados do coração das pessoas.
Quando o avô Fernando se calou, olhei para a chama da vela e senti que o Espírito do Natal estava ali e me tinha visitado naquela noite.


José Vaz
Hoje é Natal
Ed. Gailivro, 2000


23/12/2010

A Noite de Natal

O amigo

Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à volta.
No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro. Depois imaginava os anõezinhos que, se existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e mais complicada para o rei dos anões.
Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às vezes, ela ia a uma festa. Mas esses meninos a casa de quem ela ia e que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas. Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu jardim.
E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros meninos. Só sabia estar sozinha.
Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de Outubro.
Joana estava encarrapitada no muro. E passou pela rua um garoto. Estava todo vestido de remendos e os seus olhos brilhavam como duas estrelas. Caminhava devagar pela beira do passeio sorrindo às folhas do Outono. O coração de Joana deu um pulo na garganta.
— Ah! — disse ela. E pensou:
«Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo.» E do alto do muro chamou-o:
— Bom dia!
O garoto voltou a cabeça, sorriu e respondeu:
— Bom dia!
Ficaram os dois um momento calados.
Depois Joana perguntou:
— Como é que te chamas?
— Manuel — respondeu o garoto.
— Eu chamo-me Joana.
E de novo entre os dois, leve e aéreo, passou um silêncio. Ouviu-se tocar ao longe o sino de uma quinta. Até que o garoto disse:
— O teu jardim é muito bonito.
— É, vem ver.
Joana desceu do muro e foi abrir o portão.
E foram os dois pelo jardim fora. O rapazinho olhava uma por uma cada coisa. Joana mostrou-lhe o tanque e os peixes vermelhos. Mostrou-lhe o pomar, as laranjeiras e a horta. E chamou os cães para ele os conhecer. E mostrou-lhe a casa da lenha onde dormia um gato. E mostrou-lhe todas as árvores e as relvas e as flores.
— É lindo, é lindo — dizia o rapazinho gravemente. — Aqui — disse Joana — é o cedro. É aqui que eu brinco. E sentaram-se sob a sombra redonda do cedro.
A luz da manhã rodeava o jardim: tudo estava cheio de paz e de frescura. Às vezes do alto de uma tília caía uma folha amarela que dava voltas no ar.
Joana foi buscar pedras, paus e musgo e começaram os dois a construir a casa do rei dos anões.
Brincaram assim durante muito tempo.
Até que ao longe apitou uma fábrica.
— Meio-dia — disse o garoto — tenho de me ir embora.
— Onde é que tu moras?
— Além nos pinhais.
— É lá a tua casa?
— É, mas não é bem uma casa.
— Então?
— O meu pai está no céu. Por isso somos muito pobres. A minha mãe trabalha todo o dia mas não temos dinheiro para ter uma casa.
— Mas à noite onde é que dormes?
— O dono dos pinhais tem uma cabana onde de noite dormem uma vaca e um burro. E por esmola dá-me licença de dormir ali também.
— E onde é que brincas?
— Brinco em toda a parte. Dantes morávamos no centro da cidade e eu brincava no passeio e nas valetas. Brincava com latas vazias, com jornais velhos, com trapos e com pedras. Agora brinco no pinhal e na estrada. Brinco com as ervas, com os animais e com as flores. Pode-se brincar em toda a parte.
— Mas eu não posso sair deste jardim. Volta amanhã para brincar comigo.
E daí em diante todas as manhãs o rapazinho passava pela rua. Joana esperava-o empoleirada em cima do muro.
Abria-lhe a porta e iam os dois sentar-se sob a sombra redonda do cedro.

E foi assim que Joana encontrou um amigo.
Era um amigo maravilhoso. As flores voltavam as suas corolas quando ele passava, a luz era mais brilhante em seu redor e os pássaros vinham comer na palma das suas mãos as migalhas de pão que Joana ia buscar à cozinha.


A festa

Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até que chegou o Natal.
E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu do quarto e desceu a escada.
Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande; eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar. Por isso foi à casa de jantar ver se já lá estavam os copos.
Os copos passavam a sua vida fechados dentro de um grande armário de madeira escura que estava no meio do corredor. Esse armário tinha duas portas que nunca se abriam completamente e uma grande chave. Lá dentro havia sombras e brilhos. Era como o interior de uma caverna cheia de maravilhas, e segredos. Estavam lá fechadas muitas coisas, coisas que não eram precisas para a vida de todos os dias, coisas brilhantes e um pouco encantadas: loiças, frascos, caixas, cristais e pássaros de vidro. Até havia um prato com três maçãs de cera e uma menina de prata que era uma campainha. E também um grande ovo de Páscoa feito de loiça encarnada com flores doiradas.
Joana nunca tinha visto bem até ao fundo do armário. Não tinha licença de o abrir. Só conseguia que a criada às vezes a deixasse espreitar entre as duas portas.
Nos dias de festa, do fundo das sombras do interior do armário saíam os copos. Saíam claros, transparentes e brilhantes tilintando no tabuleiro. E para Joana aquele barulho de cristal a tilintar era a música das festas.
Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam, tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário. As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma festa. Era o Natal.
Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de Natal as estrelas são diferentes.
Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio, mas o próprio frio brilhava. As folhas das tílias, das bétulas e das cerejeiras tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos.
E muito alto, por cima das árvores, era a escuridão enorme e redonda do céu. E nessa escuridão as estrelas cintilavam, mais claras do que tudo. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas coisas brilhantes: velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal. Mas no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas.
Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. Não pensava em nada. Olhava a imensa felicidade da noite no alto céu escuro e luminoso, sem nenhuma sombra.
Depois voltou para casa e fechou a porta. — Ainda falta muito tempo para o jantar? — perguntou ela a uma criada que ia a atravessar o corredor.
— Ainda falta um bocadinho, menina — disse a criada. Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira Gertrudes, que era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar, e mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia.
A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada.
— Gertrudes, ouve uma coisa — disse Joana.
A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus.
— O que é? — perguntou ela.
— Que presentes é que achas que eu vou ter?
— Não sei — disse Gertrudes —, não posso adivinhar.
Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso continuou a fazer perguntas.
— E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes?
— Qual amigo? — disse a cozinheira.
— O Manuel.
— O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns.
— Não vai ter presentes nenhuns!?
— Não — disse a Gertrudes abanando a cabeça.
— Mas porquê, Gertrudes?
— Porque é pobre. Os pobres não têm presentes.
— Isso não pode ser, Gertrudes.
— Mas é assim mesmo — disse a Gertrudes fechando a tampa do forno.
Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que era «assim mesmo».
Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite. E sabia tudo o que se passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as histórias das pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens.
Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira. Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha.
De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse:
— Já chegaram os primos.
Então Joana foi ter com os primos.
Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa.
Tinha começado a festa do Natal.
Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas. E as pessoas riam e diziam umas às outras: «Bom Natal». Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Joana pensava:
— Com certeza que a Gertrudes se enganou. O Natal é uma festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também tem presentes.
E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes.
O jantar do Natal era igual ao de todos os anos.
Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananases.
No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala.
As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do pinheiro.
Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez. Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.
Joana olhava, olhava, olhava.
Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel.
Um dos primos puxou-a por um braço.
— Joana, ali estão os teus presentes.
Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a bola, os livros cheios de desenhos a cores, a caixa de tintas.
À sua volta todos riam e conversavam.
Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido, falando ao mesmo tempo.
E Joana pensava:
— Talvez o Manuel tenha tido um automóvel.
E a festa do Natal continuava.
As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar.
Até que alguém disse:
— São onze horas e meia. São quase horas da missa. E são horas de as crianças se irem deitar.
Então as pessoas começaram a sair.
O pai e a mãe de Joana também saíram.
— Boa noite, minha querida. Bom Natal — disseram eles.
E a porta fechou-se.
Daí a um instante saíram as criadas.
A casa ficou muito silenciosa. Tinham ido todos para a Missa do Galo, menos a velha Gertrudes, que estava na cozinha a arrumar as panelas.
E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a Gertrudes.
— Bom Natal, Gertrudes — disse Joana.
— Bom Natal — respondeu a Gertrudes. Joana calou-se um momento. Depois perguntou:
— Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade?
— O que é que eu disse?
— Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os pobres não têm presentes.
— Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os pobres são os pobres. Têm a pobreza.
— Mas então o Natal dele como foi?
— Foi como nos outros dias.
— E como é nos outros dias?
— Uma sopa e um bocado de pão.
— Gertrudes, isso é verdade?
— Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite.
— Boa noite — disse Joana. E saiu da cozinha.
Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava:
— Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada.
E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.
«Que frio lá deve estar!», pensava ela.
«Que escuro lá deve estar!», pensava ela.
«Que triste lá deve estar!», pensava.
E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde Manuel dormia em cima das palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro.
— Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. Depois suspirou e pensou:
«Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.»
Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros espreitou a rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria na manhã seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal.
Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as doze pancadas da meia-noite.
«Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.»
Foi ao armário tirou um casaco e vestiu-o. Depois pegou na bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas.
Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as panelas e não a ouviu.
Na sala de jantar havia uma porta que dava para o jardim. Joana abriu-a e saiu, deixando-a ficar só fechada no trinco.

Depois atravessou o jardim. O Alex e a Ghiribita ladraram.
— Sou eu, sou eu — disse Joana.
E os cães, ouvindo a sua voz, calaram-se.
Então Joana abriu a porta do jardim e saiu.


A estrela

Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar para trás. As árvores pareciam enormes e os seus ramos sem folhas enchiam o céu de desenhos iguais a pássaros fantásticos. E a rua parecia viva. Estava tudo deserto. Àquela hora não passava ninguém. Estava toda a gente na Missa do Galo. As casas, dentro dos seus jardins, tinham as portas e as janelas fechadas. Não se viam pessoas, só se viam coisas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a olhavam e a ouviam como pessoas.
«Tenho medo», pensou ela.
Mas resolveu caminhar para a frente sem olhar para nada.
Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu a um atalho entre dois muros. E no fim do atalho encontrou os campos, planos e desertos. Ali, sem muros nem árvores nem casas, a noite via-se melhor. Uma noite altíssima e redonda e toda brilhante.
O silêncio era tão forte que parecia cantar. Muito ao longe via- se a massa escura dos pinhais.
«Será possível que eu chegue até lá?», pensou Joana.
Mas continuou a caminhar.
Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. Ali no descampado soprava um curto vento de neve que lhe cortava a cara como uma faca.
«Tenho frio», pensou Joana.
Mas continuou a caminhar.
À medida que se ia aproximando dele, o pinhal ia-se tornando maior. Até que ficou enorme.
Joana parou um instante no meio dos campos.
«Para que lado ficará a cabana?», pensou ela.
E olhava em todas as direcções à procura de um rasto.
Mas à sua direita não havia rasto, à sua esquerda não havia rasto e à sua frente não havia rasto.
«Como é que hei-de encontrar o caminho?», perguntava ela.
E levantou a cabeça.
Então viu que no céu, lentamente, uma estrela caminhava.
«Esta estrela parece um amigo», pensou ela.
E começou a seguir a estrela.
Até que penetrou no pinhal. Então num instante as sombras fizeram uma roda à sua volta. Eram enormes, verdes, roxas, pretas e azuis, e dançavam com grandes gestos. E a brisa passava entre as agulhas dos pinheiros, que pareciam murmurar frases incompreensíveis. E vendo-se assim rodeada de vozes e de sombras Joana teve medo e quis fugir. Mas viu que no céu, muito alto, para além de todas as sombras, a estrela continuava a caminhar. E seguiu a estrela.
Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos.
«Será um lobo?», pensou.
Parou a escutar. O barulho dos passos aproximava-se. Até que viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha caminhando ao seu encontro.
«Será um ladrão?», pensou.
Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto azul todo bordado de diamantes.
— Boa noite — disse Joana.
— Boa noite — disse o rei. — Como te chamas?
— Eu, Joana — disse ela.
— Eu chamo-me Melchior — disse o rei. E perguntou:
— Onde vais sozinha a esta hora da noite?
— Vou com a estrela — disse ela.
— Também eu — disse o rei —, também eu vou com a estrela.
E juntos seguiram através do pinhal.
E de novo Joana ouviu passos. E um vulto surgiu entre as sombras da noite.
Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e safiras.
— Boa noite — disse ela. — Chamo-me Joana e vou com a estrela.
— Também eu — disse o rei —, também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar.
E seguiram juntos através dos pinhais. E mais uma vez Joana ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as sombras azuis e os pinheiros escuros.
Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde bordado de pérolas. A sua cara era preta.
— Boa noite — disse ela. — O meu nome é Joana. E vamos com a estrela.
— Também eu — disse o rei — caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar.
E juntos seguiram os quatro através da noite.
No chão, os galhos secos estalavam sob os passos, a brisa murmurava entre as árvores e os grandes mantos bordados dos três reis do Oriente brilhavam entre as sombras verdes, roxas e azuis.
Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade. E sobre essa claridade a estrela parou.
E continuaram a caminhar.
Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre sem porta. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava.
E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo.
Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam os anjos. O seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz sem nenhuma sombra.
E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados no ar.
Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel.
— Ah — disse Joana — aqui é como no presépio!
— Sim — disse o rei Baltasar — aqui é como no presépio.
Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes.


Sophia de Mello Breyner Andresen, A Noite de Natal
Porto, Figueirinhas, 1989. Adaptado.

22/12/2010

Sonhos de Natal

Eu nasci e vivi alguns anos numa aldeia muito pequena escondida por uma enorme mancha de altos pinheiros e carvalhos gigantescos. Pedra de Hera era o nome dessa aldeia.
Todos os anos, com a chegada do Outono, da chuva e dos fortes ventos, as castanhas desprendiam-se dos redondos ouriços que enfeitavam os castanheiros centenários que havia espalhados por toda a Pedra de Hera. Sem as castanhas, os ouriços abertos lá no cimo dos castanheiros faziam-me lembrar ninhos cobertos por picos. E as folhas amarelecidas pareciam cobertores pequeninos a secar ao sol.
Com o passar dos dias e das noites cada vez mais frios, a chuva e as medonhas rajadas de vento punham as copas das árvores a abanar e faziam calar o canto dos pássaros.
As folhas dos castanheiros voavam em todas as direcções, como se fossem as borboletas da Primavera. Acabavam por cair em cima dos telhados, nos pátios, nos campos e nos caminhos estreitos, onde, além dos homens, mulheres e crianças, também passavam as cabras e as ovelhas, as vacas, os cães, os gatos, as raposas, os ratos do monte, as doninhas, os coelhos bravos e os javalis.
Quando os ramos dos castanheiros ficavam sem folhas, às vezes a minha pequena Pedra de Hera ficava coberta por um imenso manto de nuvens muito cinzentas.
O vento deixava de soprar, e os pássaros festejavam esse tempo tão sereno com as suas tímidas cantorias. Os camponeses apressavam os trabalhos nos campos e nas matas. Punham bastante comida nos estábulos dos animais. Depois iam sentar-se em frente da lenha que ardia calmamente nas lareiras de pedra, queimadas pelas fogueiras de muitos e muitos anos.
Nós, as crianças, começávamos a dar grandes gargalhadas e a saltar de contentes porque sabíamos que a neve não demoraria a chegar. Flocos ainda mais brancos do que as rocas de açúcar desceriam das nuvens, bailariam no ar e cairiam no chão.
E assim acontecia. De repente, os flocos de neve apareciam. E eram tantos e tantos e tantos, dançando e caindo de mansinho, que daí a pouco os caminhos, os campos, as matas e os telhados ficavam brancos.
Às vezes, a neve caía de noite sem fazer barulho.
Logo de manhã, enquanto bebia por uma malga com flores azuis o leite fervido e ainda a escaldar que a minha avó Mariana tirava da nossa cabra Lourença, espreitava pela vidraça da janela do meu quarto. E via marcadas na neve que tudo cobria, as patas dos pássaros desorientados e quase me parecia ouvir o bater muito apressado dos seus minúsculos corações. Daí a nada, com um carapuço de lã de ovelha que minha avó tricotara, e me oferecera no primeiro dia em que fui para a escola, pisava a neve, enterrava-me nela, e começava a fazer enormes bolas que acabavam em pedacinhos quando batiam nas paredes das casas, ou nos muros de pedra onde os lagartos e as sardaniscas dormiam profundamente.
Depois aparecia a Ana, a Joana, o Pedro, o Ricardo, meus companheiros de escola e brincadeiras, e também o senhor Afonso, que vivia sozinho numa casa muito pequenina e era muito mais velho que nós. Ele costumava dizer que tinha quarenta mais trinta anos.
Eu gostava muito do senhor Afonso e achava normal que ele tivesse quarenta mais trinta anos. Também achava natural que ele brincasse connosco, nos fizesse brinquedos de madeira, e que, de vez em quando, nos chamasse para dentro da sua cozinha escura e pobre e nos oferecesse pataniscas de bacalhau tão bem fritas e tão saborosas como só ele sabia cozinhar. Nem a minha avó era capaz de fazer pataniscas tão boas como as do senhor Afonso. A minha avó ficava triste por eu ter essa opinião, e dizia:
— As pataniscas do velhote são boas porque sabem a fumo. — Minha mãe ria-se. E eu respondia:
— Então porque é que a avó não vai fritá-las a casa dele?
— Era o que faltava, menino! — zangava-se minha avó Mariana.
Quando vinha muita neve, nós não íamos à escola, que ficava muito longe da nossa aldeia, e o senhor Afonso também saía de casa para nos ajudar a fazer um grande boneco de neve.
Púnhamos-lhe pauzinhos na cabeça a fazer de conta que eram cabelos, uma cenoura para que o nariz ficasse bem comprido.
Grãos de milho para que pudesse ver, uma manga de uma camisola vermelha a fazer de conta que era uma gravata muito vistosa. E, finalmente, uma vassoura velha para que se transformasse numa bruxa e voasse de noite, se tivesse vontade. Depois, com as mãos dormentes, ríamos muito e corríamos ao encontro das fogueiras, para nos aquecermos. E o senhor Afonso recomendava:
— Estejam atentos. Se ouvirem barulho saltem da cama. Se calhar, desta vez é que vai acontecer!
Quando vinha a noite, eu ficava muito ansioso. O que eu mais queria era ver o nosso boneco de neve a voar.
Eu vivia com a minha avó Mariana e com a minha mãe. O meu pai não estava na Pedra de Hera. Quando aconteceu tudo isto que estou aqui a contar, eu não sabia como era a voz do meu pai. Conhecia apenas uma fotografia de um homem muito sério que estava dentro de um caixilho pendurado na sala da nossa casa.
De vez em quando, o senhor Martins aparecia na Pedra de Hera. O senhor Martins era o velho carteiro, gorducho e bonacheirão, que trazia dentro de um saco de couro envelhecido boas e más novidades escritas em cartas e postais. A minha mãe ficava muito contente, se o via a parar junto de nossa casa. O senhor Martins, enfiado na sua farda de carteiro, quase sempre bastante transpirado por causa da longa caminhada, entregava uma carta a minha mãe e dizia, sorrindo:
— Que lhe faça bem!
Minha mãe ia para a cozinha, sentava-se num banquinho, abria o envelope com muito cuidado, retirava uma folhinha cheia de letras e começava a ler. E, enquanto lia, eu via-a sorrir, ficar de repente com um ar muito sério. Quando acabava de ler tudo, dava um suspiro fundo, olhava para mim e dizia:
— O teu pai manda-te mil beijinhos.
E a minha avó Mariana perguntava:
— Então?
— Está bem, tirando as queixas do costume.
Ora num ano, quando as férias do Natal já tinham começado, o senhor Martins entregou uma carta a minha mãe e disse, sorrindo:
— Que lhe faça bem!
Minha mãe foi para a cozinha, sentou-se num banquinho, abriu o envelope com muito cuidado, retirou uma folhinha cheia de letras e começou a ler. E, enquanto lia, eu via-a sorrir, sorrir sempre. Quando acabou de ler tudo, arrumou a carta no bolso do avental e não disse nada.
E a minha avó Mariana perguntou:
— Então?
— Está bem, tirando as queixas do costume.
E eu fiquei muito admirado:
— Então ele não manda nada para mim?
— Manda dar-te mil beijinhos.
Eu não disse mais nada. Mas achei que o meu pai escrevera coisas diferentes naquela carta
O meu pai estava a trabalhar no Brasil. Fora para lá três meses depois de eu ter nascido. Era o que minha mãe contava.
— Um dia ele aparece por aí — dizia a avó Mariana.
No tempo das férias de Natal, eu, o Ricardo, o Pedro, a Joana e a Ana passávamos muitas tardes enfiados na cozinha do senhor Afonso a ouvir as histórias que ele sabia contar. Às vezes ajudávamo-lo a cortar lenha. Empilhávamos as achas delgadas de carvalho a um canto da cozinha, que ele rachava com um machado muito afiadinho. Depois de estar tudo arrumado, ele dava-nos pataniscas de bacalhau. E era uma festa.
O senhor Afonso também ia cortar lenha para nossa casa. Mas a minha avó, em vez de fazer pataniscas, punha nos pratos arroz com penca e grossas fatias de salpicão cozido.
No tempo das férias de Natal, cada dia que passava, mais cedo anoitecia. As noites eram imensas e frias e eu, sentado num banquinho, ficava em frente da lareira a desejar que o Natal não tardasse muito a aparecer. Porque é no Natal que os sonhos são mais bonitos.
Uma semana antes do Natal, os dias andam ainda mais vagarosamente do que minúsculos caracóis. E dentro de nós vai crescendo uma vontade muito grande de ir ao calendário e apagar todos esses dias.
Naquele tempo também eu pensava do mesmo modo. Lá, na Pedra de Hera, nós andávamos cada vez mais ansiosos. E o Pedro voltava a contar o que lhe tinha acontecido no ano anterior. Nós já estávamos fartos de ouvir aquela história, mas deixávamo-lo falar, porque era muito bonita e fazia-nos sonhar. E eu aprendi, agora que já tenho quase tantos anos como o senhor Afonso, que uma das coisas mais bonitas da vida são os nossos sonhos ou os dos nossos amigos.
Contava o Pedro que, na noite de Natal do ano anterior, depois de se deitar na cama, ouviu, a meio da noite, um barulhinho muito estranho. Então, ele, com o coração aos saltos, pensou que era o Menino Jesus que estava a descer pela chaminé para entregar os presentes. Depois de muito hesitar, saiu da cama sem fazer barulho e foi caminhando com muitas cautelas em direcção à cozinha. Quando lá chegou, ficou sem poder falar nem mexer-se quando viu uma luz a desaparecer pela chaminé. Apesar da luz ser muito intensa, ainda teve tempo de ver os pés pequeninos do Menino Jesus.
— Se ele aparecer este ano, de certeza que o apanho! — terminava o Pedro, com os olhos muito brilhantes.
— E para que é que tu o queres apanhar? — perguntava a Joana.
O Pedro ficava calado por alguns instantes.
— Fazia-lhe muitas perguntas.
— Podias pedir-lhe para me levar uma boneca muito grande a minha casa — dizia a Ana, que sonhava ter uma boneca que fosse tão alta como ela.
E eu dizia:
— O Menino Jesus é muito esperto, nunca se deixa apanhar. Ninguém consegue vê-lo.
— Eu gostava de o ver… — suspirava o Ricardo. — E nós também.
Nem sempre houve televisão, vídeo e jogos de computador. A história que estou a contar passou-se num tempo em que essas coisas não existiam. Mas, mesmo sem essas coisas, nós, as crianças, gostávamos de ter presentes muito especiais. Para esse ano a nossa lista era a seguinte:
Ana — uma boneca muito grande.
Joana — uma casa de bonecas, com caminhas, berços e um trem de cozinha.
Pedro — um carro de corrida e uma carroça puxada por um burrinho.
Ricardo — um avião e um barco.
Manuel (que era eu) — Livros que tivessem muitas figuras coloridas e contassem histórias com aventuras extraordinárias e uma gravata vermelha.
— Para que é que queres a gravata? — perguntava o Ricardo.
— Para parecer bem. Não posso?
— Um avião e um barco é melhor, porque, assim, eu posso brincar a dar muitos passeios.
— Os livros são melhores porque contam histórias com princesas, monstros e bruxas.
— Tu lês muito bem, mas não sabes a tabuada toda… — ria-se o Pedro.
E eu fazia de conta que não tinha ouvido. Mas era verdade. Eu nunca me lembrava que sete vezes oito são cinquenta e seis. Mas sabia muito bem que três vezes nove são vinte e sete, sentadinho na retrete está o senhor Valete a comer um sabonete.
E, assim, cada um de nós ficava com o seu sonho. E é por isso que hoje temos profissões diferentes.
A Ana é costureira e tem uma filha que é muito maior do que ela.
A Joana é cozinheira num restaurante.
O Pedro é taxista.
O Ricardo trabalha no aeroporto de Lisboa.
O Manuel (que sou eu) inventa histórias e tem algumas gravatas vermelhas.
No dia vinte e três de Dezembro, depois do almoço, a Joana fazia lembrar a menina da história do Capuchinho Vermelho. Só que, em vez do capuz, a Joana trazia na cabeça um lenço muito florido que era de sua mãe, a Aninhas tecedeira. Toda a gente a tratava assim porque ela tinha um velho tear de madeira onde fazia mantas, lençóis de linho e cobertores de lã. De manhã à noite, ouvia-se sempre o mesmo som, que já nem os pássaros espantava: truc-truc, truc-truc, truc-truc, truc-truc…
Nesse ano, a Joana veio ter a minha casa com o lenço na cabeça e uma cestinha de vime na mão. Atrás dela, cada um com sua cestinha, vinham o Pedro, a Ana e o Ricardo, muito bem agasalhados, com carapuços enfiados na cabeça.
Fomos ter a casa do senhor Afonso, que ficava perto da fonte da Pedra de Hera e encontrámo-lo a dormitar, sentado em frente da sua lareira, onde havia sempre uma panela de ferro com água, muita cinza, um gato e um lume brandinho.
— Onde é que vão os meninos com essas cestinhas todas? Vão aos cogumelos, ou há por aí alguma videira que ainda não foi vindimada? — perguntou o senhor Afonso. Riu-se e eu reparei que naquela boca já não havia muitos dentes. E a cara tinha muitas rugas.
— Já está na hora de ir arranjar musgo e heras! Venha! Venha! — gritava a Joana.
E ele, muito sério:
— Agora não posso, tenho muita coisa para fazer…
— Venha agora, se não, vem a noite e já não conseguimos fazer nada.
— Se eu for, o que é que os meninos me dão?!…
Ficámos calados a olhar uns para os outros. Nós não tínhamos nada para lhe dar.
— Perderam a língua?!…
Então, eu lembrei-me das nozes que trazia nos bolsos das calças.
— Dou-lhe duas nozes.
— Não quero, é muito pouco… E eu já não tenho dentes para comer nozes…
— Venha, por favor! – pediu a Ana.
— Está bem. Se é um favor que me pedem… É só o tempo de calçar as botas.
Pouco depois, andávamos na mata a escolher o musgo que revestia pedras e penedos. E as nossas cestas foram-se enchendo de pequeninos tapetes verdes que não se podiam dobrar.
— Deixem ficar a terra, levem só o musgo — aconselhava o senhor Afonso, colhendo heras para um cesto.
As heras tinham muitos metros de comprimento e bagas muito pretas. Eu punha-me a imaginar que aquelas bagas bem podiam ser os olhos das heras. Às vezes, também imaginava como seria bom se os pássaros falassem connosco, mesmo os gaios e os melros que me roubavam as cerejas da cerejeira e bicavam as peras que havia no meu quintal.
Quando as cestas ficaram cheias, carregámo-las para o cimo da Pedra de Hera. Como as cestas pesavam imenso, caminhávamos devagar e tínhamos de descansar de dez em dez metros. O senhor Afonso, apesar de levar um cesto cheio de heras às costas, ia sempre a andar e nunca fazia pausas.
Finalmente chegámos junto de uma borda, à beira dum caminho estreito e pousámos as cestas. Nessa borda, havia uma gruta que há muitos anos alguém ali escavara. Dentro da gruta, talhado no saibro, havia um banquinho. Assim, se de repente chovesse, toda a gente lá podia entrar para se abrigar.
Nós gostávamos de ir para dentro da gruta, quando começava a cair imenso granizo. Sentados no banco, ficávamos calados e cheios de medo. As nossas mães não gostavam que fôssemos, mas aquele espectáculo era fascinante e nós gostávamos de ter medo durante algum tempo.
Na véspera de Natal, o interior da gruta que havia ao ciminho da minha aldeia sofria uma grande transformação. E em toda a Pedra de Hera nada havia mais bonito do que aquela gruta escavada na terra saibrenta.
O cesto com a hera e as cestinhas com o musgo ficaram no caminho, junto da gruta. E nós corremos para casa do senhor Afonso. Mas ele não nos acompanhou, vinha muito devagar, pouco se importando com as nossas pressas.
— Venha depressa! — gritava a Ana.
E ele respondia:
— Já tenho idade para não ter pressas.
Quando o senhor Afonso chegou, nós já tínhamos comido todas as nozes que havia nos bolsos das minhas calças, e estávamos fartos de esperar.
O senhor Afonso abriu a porta da cozinha; nós entrámos depois dele e corremos para junto de uma grande caixa de madeira enegrecida que havia na sala pequenina, à beira da janela, que tinha um vidro estalado.
Ele levantou a tampa da caixa com muito cuidado, encostou-a à parede, e nós espreitámos lá para dentro. Dentro da caixa havia saquinhos de linho com centeio, milho e feijões. No fundo de tudo, estava outra caixa, muito mais pequena, também de madeira.
Com muito cuidado, o senhor Afonso apanhou essa pequena caixa e foi pousá-la sobre uma cadeira. Depois de ter fechado a caixa grande, pegou na mais pequena com muito cuidado e saiu de casa.
Nós seguimo-lo, muito devagarinho, fartos de saber que o senhor Afonso já não tinha idade para ter pressas. E íamos calados para que a caixa não fugisse das mãos do senhor Afonso.
Quando a caixa ficou junto das nossas cestinhas cheias de musgo e do cesto carregado de hera, o senhor Afonso disse:
— Isto tem de ficar muito bem feito, ouviram? Agora quem manda sou eu. Combinado?
— Combinado!
— Ninguém se zanga. Combinado?
— Combinado!
— Só fazem o que eu disser. Combinado?
— Combinado!
— Vamos lá começar!
— Combinado! — disse a Joana, pouco atenta. E toda a gente se riu.
A primeira coisa a ir para dentro da gruta foi o musgo. Com muito jeito, alcatifámos o chão com as mantas fofas e verdes que fomos tirando das cestas. As heras foram crescendo em redor. E, de repente, o interior da gruta transformou-se numa serra verdinha, com arvoredo e cheia de pasto, a precisar de um rebanho de ovelhas e de alguns pastores.
O senhor Afonso levantou a tampa da caixa e nós ficámos calados a ver o que estava lá dentro. E o que estava lá dentro eram muitos embrulhinhos de jornal muito bem acondicionados.
Ai, mas aqueles jornais escondiam figuras que ganhavam vida e nos faziam sonhar tanto!
A primeira figura que ficou sem o papel era um pastor que se fartava de rir. Tinha umas bochechas muito encarnadas, vestia uns calções que lhe davam até aos joelhos e trazia um saquinho pelo ombro e uma cabaça à roda da cintura. Era um pastor alegre e devia ser bem amigo das suas ovelhas. Muito atento, o pastor foi para o cimo do monte e começou a assobiar pelo seu cão.
O cão, todo preto e com manchas brancas por todo o corpo, pulou da caixa, desembaraçou-se dos jornais que o embrulhavam, e foi logo ter com ele. Aquele cão era, com toda a certeza, um grande amigo do pastor, sempre pronto a ajudá-lo a guardar as ovelhas e a fazer-lhe companhia naquela serra imensa e silenciosa, onde o tempo custava a passar.
Gordinhas, com o corpo coberto de lã branca muito encaracolada, as ovelhas também apareceram e espalharam-se por toda a verdura. Muitas estavam cheias de fome, porque não paravam de pastar. Duas estavam tão fartas que nem sequer olhavam para aquele belo pasto. De cabeça erguida, fartavam-se de balir. Se calhar, achavam que estava na hora de dar a mama aos filhotes. Mas eles andavam lá longe, nos sítios mais altos do monte, a dar pinotes, felizes com tanta liberdade.
Feita com espigas de trigo, saiu da caixa uma manjedoura. Era uma boa ideia. Se chovesse ou nevasse, aquela manjedoura serviria para lá pôr feno seco para o rebanho comer.
Outro pastor chegou. Aquele pastor, que era ainda rapazinho e tinha um chapéu roto na cabeça, foi pôr-se junto dos cordeiros. E fez muito bem. Aquela parte da serra não estava vigiada. Se aparecesse um lobo, os cordeiros, coitaditos, nem sequer teriam tempo de chamar pelo cão.
Depois apareceu uma vaca. Devia ter dentro dela um filhote, porque tinha uma grande barriga e quis deitar-se junto da manjedoura. Do outro lado veio encostar-se um burrinho. Logo depois apareceu S. José e foi encostar-se à manjedoura. Atrás de José, veio Maria.
O burrinho, a vaca, José e Maria estavam a olhar para a manjedoura. Bem se via que estavam bastante preocupados. O bafo muito quente saía das narinas da vaca e do burrinho e aquecia a palha da manjedoura.
Uma estrela prateada apareceu no cimo da gruta, bem perto de um galo, que não parava de cantar.
Finalmente, muito gorducho, sempre a rir, só com uma fralda de pano no corpo, o Menino Jesus foi posto na manjedoura.
Depois ficámos bastante tempo a olhar, calados.
O silêncio era tão grande naquela gruta que até parecia que ouvíamos o Menino Jesus a respirar tranquilamente.
O senhor Afonso deixou-nos carregar a caixinha e os jornais que vinham dentro dela. Quando entrámos na sala, fui eu que meti a caixinha dentro da caixa de madeira enegrecida, junto dos sacos de linho cheios de centeio, milho e feijões.
Estava a anoitecer quando eu entrei em casa. Fui encontrar a minha mãe a mudar a água às muitas postas de bacalhau que estavam a demolhar num balde de madeira. Antes de me sentar, fiz-lhe um recadinho: fui à fonte buscar um regador de água.
Andei bem depressa, entornei até alguma água. Mas tinha de ser assim. É que já estava a ficar muito escuro e eu tinha medo que alguma bruxa má ou até um lobisomem surgisse de repente na curva do caminho, que era estreito e serpenteado.
Já vi muitas coisas, umas boas outras más.
Já ouvi muitas verdades e muitas mentiras.
Já passei por grandes cidades e por lugares ainda mais pequeninos do que a minha Pedra de Hera.
Muitas vezes me alegrei e algumas vezes fiquei triste.
Já não têm conta as vezes que sonhei acordado. E muitos sonhos compartilhei com os meus amigos.
Mas nada foi tão especial como aquele dia que calhou a vinte e quatro de Dezembro desse ano que agora relembro.
Quando acordei, já a minha mãe e a minha avó andavam muito atarefadas na cozinha. Na lareira, enormes labaredas aqueciam grandes panelas de ferro. Depois de almoçar o leite e as sopas de pão que a minha avó pôs dentro da malga com flores azuis, minha mãe mandou-me tratar da cabra Lourença.
E eu fui. Pelo caminho reparei que todas as casas da Pedra de Hera tinham um chapéu de fumo a cobri-las.
No nosso lameiro, que ficava junto da ribeira, comecei a cortar a erva com uma foicinha muito bem afiada.
Tinha já cortado um bom pedaço quando me assustei. No meio da erva encontrei um ninho de ratos pequeninos, ainda sem pêlo, muito rosadinhos. Estive quase para os matar com a ponta da foicinha. Depois pensei no Menino Jesus e nas prendas de Natal e deixei-os viver. O Menino Jesus devia ter ficado muito contente por ver que eu tinha um bom coraçao.
Com uma cordinha apertei a erva num belo molho e levei-o para a manjedoura da cabra. A Lourença ficou contente comigo. Ao regressar a casa, surpreendi-me com o cheiro diferente que envolvia toda a Pedra de Hera. Cheirava a açúcar queimado, a canela e a frituras.
Nessa noite, que demorava tanto a chegar, a nossa casa iria encher-se de gente. À volta da mesa comprida estariam os meus tios e os meus primos, a minha avó, a minha mãe e eu. Ao todo, éramos catorze.
Quando entrei na cozinha, minha avó enfeitava com canela grandes travessas de aletria. Minha mãe, com o rosto muito vermelho, transpirada, fritava as primeiras rabanadas. Em cima da mesa estava um monte de pencas repolhudas, e no chão um balde cheio com as maiores batatas criadas no nosso quintal.
— Queres comer uma postinha de bacalhau assado? — perguntou minha mãe.
Não cheguei a dizer que sim, que era muito capaz de comer uma bela posta de bacalhau assadinha nas brasas muito vivas da lareira, muito bem regada com azeite aquecido, e temperada com um dente de alho partido em pedacinhos.
E não cheguei a dizer que sim, porque ouvimos um barulho que não era habitual na Pedra de Hera.
As galinhas ficaram alvoroçadas, os cães desataram a ladrar. E a minha mãe disse, quase a medo:
— Será?
— É! — respondeu a minha avó.
Saí da cozinha a correr. Minha mãe acompanhou-me.
Quando cheguei ao largo da Pedra de Hera, vi a Ana, o Pedro, a Joana e o Ricardo, o velho táxi do senhor Joaquim a largar fumo e um homem alto e magro, de fato e gravata. Esse desconhecido ajudava o senhor Joaquim a retirar do velho táxi uma grande mala castanha. Três malas estavam amontoadas no chão.
Ao ver-me, o senhor Joaquim disse, de dedo apontado:
— Ó Zé, olha quem está ali!
O homem alto e magro olhou para a minha mãe e depois para mim. Abriu os braços e começou a caminhar devagarinho. Eu estava bem colado à minha mãe e vi que ele tinha os olhos muito brilhantes e sorria.
Aqueles braços abertos vieram enlaçar-se na minha mãe. Estiveram imenso tempo abraçados. E um manto de silêncio envolveu o largo.
Depois o homem olhou para mim. E, de repente, pegou em mim, atirou-me ao ar, como se eu fosse uma pena de um pássaro e acabei por cair nos seus braços. Apertou-me contra o seu peito.
E eu apercebi-me que os nossos corações batiam com muita força.
— Não dás um beijo ao teu pai? — perguntou.
E eu dei. A cara dele tinha uma barba que picava. Os beijos dele eram húmidos.
Quando meu pai me pôs no chão, toda a gente da Pedra de Hera estava no largo. O último a chegar foi o senhor Afonso.
E eu fiquei muito admirado: era a primeira vez que eu via lágrimas nos seus olhos.
Quando a escuridão tomou conta da Pedra de Hera, fui dizer ao senhor Afonso para vir consoar connosco, como era costume.
Nessa noite, a nossa sala ficou cheia de gente muito faladora à volta da mesa comprida. E era uma alegre confusão:
— Dá cá as batatas!
— Passa para aqui essa travessa de bacalhau!
— Não entornes o azeite!
— Quem é que tem a garrafa do vinagre?
— Estas tronchas estão muito paladosas. Só a geada é que lhes dá este sabor!
— Quero aletria!
— Dá-me daí um sonho!
— Que belas rabanadas!
— Quero outro bolinho de chila!
— Olha o que fizeste à toalha! Que grande nódoa de vinho…
— É Natal, não faz mal…
— O que eu mais gosto é de formigos. Ah, este sabor do mel é tão bom! Quero mais um bocadinho.
— Não quero mais nada. Estou satisfeito.
— Ó Zé, bebe mais um cálice de vinho fino!
— Está aqui muito calor!
— Quando é que vem o Menino Jesus?
— Não há-de demorar!…
— Não dormes, menino!
— Quem quer figos secos?
— Vamos jogar o par e o pernão?
— Atenção, o rapa vai rodar… Mãos abertas em cima da mesa!
— Rapa, tira, põe e deixa!
— Rapa os pinhões todos!
— Tanta loiça para lavar!
— Oxalá que para o ano toda a gente esteja aqui!
— Tenho sono…
— A missa do Galo deve estar a começar.
— Que horas são?
— Breve é meia-noite! O tempo corre!
— Lá fora está um frio de rachar. Agasalhem-se!
De repente, um sono muito forte tomou conta de mim. Tinha sido um dia muito especial.
Fui ao meu quarto buscar um sapato e pu-lo na lareira. Sentei-me no colo de meu pai e…
E não me lembro de mais nada!
Acordei com o cócórócócó do Pintinhas. O Pintinhas era o nosso galo de crista tombada. Eu é que lhe tinha posto esse nome por causa das suas penas com muitas cores.
O Pintinhas acordou-me e eu deixei-me ficar estendido na cama, com os cobertores por cima da cabeça. Na Pedra de Hera só se ouvia o cantar dos galos e o latido dos cães mais medrosos.
Era tão bom ficar a dormitar!
Depois, lembrei-me que era dia de Natal. E a vontade de ficar no morninho gostoso da cama passou num instante. O Menino Jesus já tinha passado pela minha casa e eu ali deitado!…
Nem sequer tive tempo de me vestir e calçar. Sempre a correr, em bicos de pés para não acordar a minha avó nem os meus pais, atravessei a sala e entrei na cozinha. Era gelado o chão da cozinha, mas a pedra da lareira ainda estava morna. A minha gata Tareca estava lá enroscada e não gostou nada que eu aparecesse.
Sentei-me num banco, pus os pés na pedra e ali fiquei a olhar, com o coração a bater com muita força. Pousado na lareira estava um grande embrulho. Que prenda estaria ali dentro? Eu nunca tinha visto um embrulho tão grande…
Devagarinho, muito, devagarinho, assim como quem come um chocolate delicioso em pequenas dentadas, comecei a tirar o laço. Oh! Era um laço tão bonito, tão dourado, que dava pena ter de o desfazer. Mas a vontade de ver o que estava ali dentro era tão grande!…
Agora que o laço estava enrolado em cima da mesa, era preciso retirar o papel. Era um papel vermelho, muito mais vermelho do que a crista do Pintinhas. Não, não podia estragar um papel tão bonito. Com ele até podia fazer moinhos de vento.
Com muito cuidado, fui retirando o papel.
O que estaria dentro daquela caixa de cartão? O que seria? O que seria?
Agora que o papel estava dobrado em cima da mesa, era preciso tirar a tampa da caixa. O que estaria ali dentro?
Tirei a tampa. Vi o que estava dentro da caixa e soltei um grito que espantou a Tareca.
Dentro da caixa estava um livro cheio de histórias, um livro de capa dura com muitas folhas cheias de linhas azuis sem uma única palavra, uma caneta de tinta permanente, um par de meias, uma gravata vermelha e um tambor.
Agora que as prendas estavam alinhadas em cima da mesa, era preciso admirá-las e decidir qual delas deveria usar pela primeira vez.
De repente, senti que tinha os pés gelados. Peguei nas prendas e levei-as para a minha cama.
E ali fiquei muito quieto a saborear o espanto e a alegria.
Por muitos anos que viva, nunca hei-de esquecer esse dia de Natal vivido nessa aldeia muito pequena, escondida por uma enorme mancha de altos pinheiros e carvalhos gigantescos. Pedra de Hera era o seu nome.


Vilarelho, Fevereiro de 1997


António Mota
Sonhos de Natal
V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2003


21/12/2010

O desejo do pastor

Era uma vez um pastor que, para além de algumas ovelhas, nada mais possuía, a não ser uma flauta que ele mesmo fizera com um ramo de sabugueiro.
Não passava um dia que ele não a tocasse, às vezes alto, outras vezes baixinho, às vezes alegre, outras, triste, conforme se sentia no momento.
Ao tocar, sentia o desejo da perfeita beleza. E a esperança de vir a encontrá-la inspirava-lhe novas melodias.
Certa vez, quando voltara a tocar na sua flauta, descobriu um pássaro. Estava pousado no sabugueiro, a escutá-lo.
As suas penas brilhavam com todas as cores do arco-íris.
“Oh!”, pensou o pastor fascinado. “Aqui está finalmente a beleza que eu procuro.”
Aproximou-se devagarinho do sabugueiro para apanhar o pássaro. Mas quando ia agarrá-lo com as mãos, o pássaro levantou voo e foi sentar-se no ramo de um pinheiro.
O desejo de o apanhar era tão grande, que o pastor seguiu-o.
Mas, quando chegou junto do pinheiro, o pássaro ergueu-se nos ares e partiu.
No seu lugar, o pastor encontrou um melro ameaçado por um gato.
Mal acabara de afugentar o gato, descobriu o pássaro parado na margem de um regato.
Mas quando o pastor chegou junto do regato, o pássaro levantou voo.
No seu lugar, o pastor encontrou um peixe preso numa rede.
Mal o pastor acabara de libertar o peixe, descobriu o pássaro no cume de um monte.
Ao chegar ao cume, o pássaro elevou-se nos ares e voou.
No lugar do pássaro, o pastor encontrou uma flor murcha pelo calor.
Mal o pastor acabara de regar a flor, descobriu o pássaro à beira-mar.
Mas, quando o pastor chegou à beira-mar, o pássaro elevou-se nos ares e voou por sobre a água, em direcção ao pôr-do-sol.
“Ah”, pensou o pastor, “a beleza estava a fazer troça de mim.”
Desapontado, fez-se ao caminho de regresso a casa e às suas ovelhas.
Mas, quando chegou ao cimo do monte, diante dos seus olhos abria-se uma flor maravilhosa.
No regato, esperava-o um peixe. E, no pinheiro, um melro saudou-o com o seu canto.
Então, o pastor pensou que, afinal, fazia sentido ansiar pela beleza, mesmo que não fosse possível agarrá-la com as mãos, e continuar, até ao fim da sua vida, tocando as suas melodias.


Max Bolliger/Jindra Čapek
Der Wunsch des Hirten


O melhor presente de Natal do mundo


A todos quantos, de ambos os lados do conflito,
tomaram parte na trégua de Natal de 1914.


Vi-a numa loja de velharias em Bridport. Era uma escrivaninha de tampo corrediço, e o vendedor afirmava tratar-se de uma peça de carvalho do início do século XIX. Havia anos que procurava uma escrivaninha deste estilo, mas nunca tinha encontrado uma que pudesse comprar. Esta não estava em bom estado: a tampa mostrava várias rachadelas, uma das pernas estava mal consertada, e tinha partes queimadas.
Não era cara, e pensei que eu próprio poderia tentar restaurá-la. Seria um risco, um desafio, mas era a minha única oportunidade de possuir uma escrivaninha de tampo corrediço. Paguei o que o homem pediu, e levei-a para a minha oficina, na parte de trás da garagem. Comecei a restaurá-la na véspera de Natal, sobretudo devido à quantidade de visitas que tinha em casa. Faziam muito barulho e eu queria encontrar algum sossego.
Abri o tampo e puxei as gavetas. Cada uma delas anunciava um desafio maior do que eu tinha imaginado. O verniz estava a descascar um pouco por todo o lado: parecia que a peça tinha sido salva de um naufrágio. Era evidente que esta escrivaninha tinha atravessado fogo e água. A última gaveta estava empenada e tentei abri-la com cuidado. Mas os meus esforços não resultaram e tive de usar toda a força que pude. Bati-lhe com o punho e logo ela se abriu, revelando um compartimento secreto. Este continha uma pequena caixa de folha, com uma folha de papel pautada, na qual a mão trémula de alguém tinha escrito: “A última carta de Jim, recebida a 25 de Janeiro de 1915. Para ser enterrada comigo, quando eu morrer.”
Soube, logo que o fiz, que não deveria abrir a caixa, mas a curiosidade levou a melhor sobre os meus escrúpulos. Como sempre.
Dentro da caixa estava um envelope, endereçado a Mrs Jim Macpherson, 12 Copper Beeches, Bridport, Dorset. Peguei na carta e abri-a. Estava escrita a lápis e datava de 26 de Dezembro de 1914.


Querida Connie

Escrevo-te, feliz, porque acaba de acontecer algo de maravilhoso que quero contar-te desde já. Ontem de manhã, encontrávamo-nos todos nas trincheiras. Era Dia de Natal e estava uma das manhãs mais bonitas que vira até então, tranquila e gelada como uma manhã de Natal deve ser.
Gostava de poder dizer-te que fomos nós a ter a iniciativa. Mas a verdade, envergonho-me de to dizer, foi que os Alemães é que tomaram a iniciativa. Primeiro, alguém viu uma bandeira branca a ondular nas trincheiras do inimigo. Depois, alguém gritou:
— Feliz Natal! Feliz Natal!
Quando nos tínhamos recomposto da surpresa, alguns de nós retribuíram:
— Feliz Natal para vocês também!
Pensei que tudo ficaria por ali. Todos pensámos, aliás. Mas, de repente, vimos um deles, no seu sobretudo cinzento, a agitar uma bandeira branca.
— Não atirem, rapazes! — alguém gritou.
E logo vimos mais Alemães, uns a seguir aos outros, a aproximar-se da nossa trincheira.
— Mantenham-se em baixo — ordenei aos meus homens. — É uma armadilha.
Mas não era tal.
Um dos Alemães agitava uma garrafa no ar.
— É Dia de Natal. Temos cerveja e salsichas. Querem juntar-se a nós?
Por esta altura, já dezenas deles se dirigiam até nós, atravessando a terra de ninguém que nos separava. Nenhum deles transportava armas.
O soldado Morris foi o primeiro a mexer-se.
— Vamos lá, rapazes! De que estamos à espera?
Ninguém conseguiu impedi-los. Eu era o oficial e devia ter travado tudo aquilo imediatamente. Mas nem sequer me ocorreu. Homens de ambos os lados, vestidos com sobretudos cinzentos ou com uniformes caqui, caminhavam em direcção uns aos outros, e eu era um deles. Fazia parte daquilo. No meio da guerra, celebrávamos a paz.
Não podes imaginar, querida Connie, o que senti, quando olhei, nos olhos, o oficial alemão que se aproximava de mim, com a mão estendida.
— O meu nome é Hans Wolf — disse, segurando a minha mão com firmeza e afabilidade. — Sou de Dusseldorf e toco violoncelo na orquestra da cidade. Feliz Natal!
— Sou o Capitão Jim Macpherson — respondi. — Sou professor em Dorset, no leste de Inglaterra. Feliz Natal para si, também!
— Dorset — repetiu. — Conheço muito bem esse lugar.
Partilhámos a minha ração de aguardente e a excelente salsicha dele. E falámos, falámos sem parar. O inglês dele era excelente, mas acontece que nunca tinha posto os pés em Dorset. Tudo o que sabia sobre Inglaterra tinha-o aprendido na escola e nos livros que lia em inglês. O seu escritor favorito era Thomas Hardy,e o seu livro preferido Far from the Madding Crowd. Naquela terra de ninguém, conversámos sobre Bathsheba, Gabriel Oak, Sergeant Troy e Dorset. Tinha mulher e um filho, com seis meses de idade. Enquanto olhava à minha volta, só via manchas de cor cinzenta e caqui a fumar, a rir, a comer e a beber. Hans Wolf e eu partilhámos o que restava do teu óptimo bolo de Natal. Segundo ele, o teu maçapão era o melhor que alguma vez provara. Concordei. Concordávamos em tudo, Connie, e ele era meu inimigo. Nunca houvera uma festa de Natal assim.
Alguém trouxe uma bola de futebol. Os sobretudos foram despidos e transformados em postes de balizas. O jogo começou. Hans Wolf e eu assistimos e encorajámos os jogadores, aplaudindo e batendo com os pés no chão, para afastarmos o frio. Houve um momento em que vi a nossa respiração misturar-se. Ele viu o mesmo e sorriu.
— Jim Macpherson — disse, passado um bocado — penso que é assim que esta guerra devia ser resolvida. Como um jogo de futebol. Ninguém morre num jogo de futebol. Ninguém fica órfão. Nenhuma mulher fica viúva.
— Prefiro o críquete — disse-lhe. — Assim, os Ingleses ganhariam.
Rimo-nos da minha piada e assistimos ambos ao jogo. Pena-me dizer que os Alemães ganharam 2-1. Mas Hans Wolf comentou, com generosidade, que o nosso golo fora mais bem marcado do que o deles.
Quando o jogo acabou, já há muito tinham desaparecido a cerveja, o bolo, a aguardente e as salsichas. Desejei felicidades a Hans e fiz votos de que voltasse a ver a família em breve, de que a guerra acabasse depressa, e de que todos regressássemos a casa sãos e salvos. Respondeu-me:
— Penso que é o que todos os soldados querem, sejam Alemães ou Ingleses. Tome cuidado consigo, Jim Macpherson. Nunca o esquecerei, nem esquecerei este momento.
Fez-me continência e afastou-se, devagar, como que involuntariamente. Virou-se para acenar, uma vez mais, e logo se transformou num elemento mais, entre as centenas de homens vestidos de cinzento, que regressavam às suas trincheiras.
Nessa noite, ouvimo-los entoar um belo cântico de Natal, Noite Feliz. Os nossos rapazes responderam com Enquanto os pastores observavam. Trocámos cânticos durante mais algum tempo e depois calámo-nos. Foi um momento de paz e boa vontade, que recordarei com carinho enquanto viver.

Querida Connie, no Natal do ano que vem, esta guerra não será mais do que uma recordação vaga e terrível. Sei, por tudo o que aconteceu hoje aqui, o quanto ambos os exércitos desejam a paz. Em breve estaremos de novo juntos, tenho a certeza.

O teu querido Jim


Dobrei a carta e coloquei-a de novo no envelope. Não contei a ninguém o meu achado: guardei para mim mesmo a vergonha da minha intrusão. Penso que foi este sentimento de culpa que me manteve toda a noite acordado. Na manhã seguinte, já sabia o que devia fazer. Apresentei uma desculpa qualquer e não fui à igreja com o resto da família. Guiei até Bridport, que ficava apenas a uns quilómetros dali. Perguntei a um rapaz, que passeava o cão, onde ficava a casa.
O número 12 não passava de uma concha vazia, com um telhado em ruínas e as janelas entaipadas. Toquei na casa ao lado e perguntei se sabiam o paradeiro de Mrs Macpherson. Um homem de idade, em pantufas, respondeu afirmativamente. Disse que era uma senhora amorosa, um pouco confusa, o que era normal, dado que tinha 101 anos. Estava em casa quando esta se incendiou. Ninguém sabia como o incêndio começara, mas pensavam que deveriam ter sido as velas. A senhora usava velas em vez de electricidade, porque achava que a electricidade era demasiado cara. O bombeiro tinha-a salvo a tempo. Agora vivia num lar chamado Burlington House, na estrada de Dorchester, do outro lado da cidade.
Encontrei Burlington House com facilidade. Havia serpentinas de papel no corredor e uma árvore de Natal iluminada estava montada num canto, com um anjinho no topo. Disse que era um amigo de Mrs Macpherson e que viera trazer-
-lhe um presente de Natal. Podia ver, através da porta envidraçada da sala que estavam todos com chapéus de papel e a cantar Good King Wenceslas. A Directora também usava um chapéu e ficou contente por me ver. Até me ofereceu uma empada de carne picada. Depois conduziu-me ao quarto de Mrs Macpherson.
— Mrs Macpherson não está na sala com os outros, porque hoje sente-se bastante confusa. Não tem família e ninguém a visita. Tenho a certeza de que vai gostar muito de o ver.
Conduziu-me até uma estufa, cheia de cadeiras de palhinha e vasos com plantas, e deixou-me a sós com Mrs Macpherson. Esta encontrava-se sentada numa cadeira de rodas, com as mãos no regaço. O seu cabelo fino, branco e prateado, estava apanhado num rolo. Contemplava o jardim, absorta.
— Olá! — saudei.
Virou a cabeça e olhou-me com um olhar vago.
— Feliz Natal, Connie! — continuei. — Encontrei isto. Penso que é seu.
Enquanto eu falava, os olhos dela nunca se desviaram da minha cara. Abri a caixinha de folha e dei-lha. Os olhos dela iluminaram-se num reconhecimento do objecto e a sua face irradiou uma felicidade súbita. Falei-lhe da escrivaninha, de como a encontrara. Creio que não me ouviu. Ficou calada durante algum tempo, enquanto acariciava docemente a carta com os dedos.
De repente, pegou na minha mão. Tinha os olhos marejados de lágrimas.
— Bem me disseste que vinhas pelo Natal, querido. E eis-te aqui, o melhor presente de Natal do mundo. Vem para perto de mim e senta-te, meu querido Jim.
Sentei-me ao lado dela e beijou-me a face.
— Lia constantemente a tua carta. Era como se ouvisse a tua voz dentro da minha cabeça. Era uma maneira de sentir-te comigo. E agora estás mesmo. Agora que voltaste, podes ler a carta tu próprio. Queres lê-la? Só quero ouvir a tua voz de novo, Jim. Depois podemos tomar chá. Fiz-te um belo bolo de Natal em maçapão. Sei o quanto adoras maçapão.


Michael Morpurgo
The best Christmas present in the world
London, Egmont Books, 2004



A mais alta estrela


A rua tinha luzes de muitas cores que, encavalitadas nos postes, faziam desenhos de Natal. E dançavam ao som duma música cheia de sonoridades leves como algodão. De vez em quando passava um automóvel apressado. Apesar disto, ali da montra onde se encontravam, tudo era frio e distante. Eram duas bonecas que ninguém quis comprar.
— Este é o nosso primeiro Natal…
— E, decerto, o último. Se ninguém nos comprou, vamos ser retiradas da montra e arrumadas, ou entregues à caridade, ou destruídas.
— Assim será, com certeza. A nossa vida depende das leis do mercado.
E foram conversando para passar o tempo, ora filosofando sobre a sua efémera existência, a sua matéria breve, ora imaginando como seria o Natal das pessoas, que só conheciam de ver passar na rua, ou da loja, quando entravam para comprar bonecas.
— Esta é belíssima, elegante, tem um belo vestido e uma cintura fina.
— Esta tem uma expressão de felicidade, um olhar doce.
— Aquela, de cabelos louros, tem no rosto o sol abrasador do Verão.
Mesmo para uma boneca, era triste ficar ali na noite de Natal a olhar a solidão da rua. Sobretudo quando imaginavam a alegria das outras bonecas que tinham sido vendidas: a emoção de sair de dentro dos embrulhos, de sentir todas as atenções, de receber um nome, de entrar na família fantástica das crianças.
Todas as pessoas deviam ter uma casa, porque ninguém passava na rua. Todos os meninos deviam ter brinquedos na noite de Natal, porque os brinquedos mais bonitos tinham sido vendidos. Em todo o mundo devia haver alegria e surpresa e magia naquela noite, porque era dessa forma que a imaginavam.
Dentro das casas, o ar estaria povoado de seres fantásticos, que se moviam como se não tivessem peso. Esvoaçavam como se fossem pequenos pássaros transparentes. E isto criava uma grande excitação entre as crianças. Elas próprias se sentiam tão leves que os seus movimentos eram como os movimentos dos astronautas: dançavam, elevavam-se, sorriam, tocavam-se, cantavam melodias afinadíssimas e finas como um fio de cristal. As bonecas entravam também nesta dança fantástica como se fossem pessoas de verdade. A árvore de Natal transformara-se numa enorme tília de grandes ramos. Havia baloiços pendurados nos ramos. Havia pequeninas casas suspensas nos ramos. As estrelas desciam e poisavam nos ramos. E todos aqueles seres – crianças, anjos, pássaros, estrelas e bonecas – percorriam os ramos, como se fossem caminhos, entravam nas casinhas, dançavam nos baloiços, agarravam-se à cauda das estrelas. Entre os ramos mais distantes construíam passadiços e imaginavam rios por onde às vezes desciam: bebericavam, tomavam um banho, atiravam salpicos de água uns aos outros.
Estavam assim imaginando, quando se aproximou da montra uma figura muitíssimo estranha: tinha umas roupas sujas e gastas, os cabelos sujos e desalinhados, a barba suja e por fazer e nos seus olhos havia fome, desolação e desprezo. Falava sozinho palavras imperceptíveis.
— Esta figura não deve ser de cá…
— Talvez tenha descido de outro planeta, um planeta onde não há Natal, nem casas, nem anjos, nem estrelas, nem amigos…
A rua continuava deserta e o homem continuava ali fitando a montra e falando desordenadamente. De nenhum lado surgia uma sombra, uma voz, um movimento, um pássaro branco, um anjo de tule, um caule de luz. Até a música de algodão pendurada nos postes se tinha já calado.
— Como deve ser triste a vida na terra, na cidade ou no planeta donde veio…
Nada no seu rosto fazia lembrar a alegria: nenhuma expressão, nenhum traço, nenhuma palavra.
De vez em quando estendia o braço, apontando não se sabia o quê, apontando por apontar; e o vento gelado da noite alinhava os seus cabelos na direcção do braço. E nada lá ao longe fazia lembrar a liberdade. Outras vezes ficava estático e imóvel, fitando o infinito. Parecia uma estátua feita do mais cruel abandono; parecia um tronco velho de uma árvore; parecia a coluna de um palácio abandonado. E nada na sua pose fazia lembrar a paz. Outras vezes ajoelhava-se fitando o chão, como se o chão fosse um enigma por decifrar, como se na pedra do chão estivesse gravado um vestígio de Deus; como se Deus se tivesse esquecido, por acaso, de uma marca, um indício, um grão de poeira, um cabelo que fosse.
— Há tempos ouvi falar aqui na loja de um país ou planeta onde as pessoas são desprezadas, onde lhes negam o pão e as obrigam a matar-se umas às outras. Os que as governam são maus e obrigam-nas a viver na rua como animais vadios.
O homem não tirava os olhos da montra como se estivesse a falar com as bonecas, mas utilizando uma linguagem que elas não entendiam. Poisou no chão umas sacas que trazia consigo e começou a esbracejar. Mas nenhum dos seus gestos fazia lembrar a justiça. Ora estava de pé, ora de cócoras, ora se sentava no passeio. Mas sempre desenhando a mesma veemência, a mesma impaciência.
— Talvez queira dizer-nos alguma coisa. Talvez pense que somos pessoas. Talvez procure em nós uma resposta para as suas perguntas.
— Talvez tenha pena de nós e ficasse ali a distrair a nossa solidão.
Passado muito tempo, adormeceu encostado à montra. Um cão que passava remexeu-lhe nas sacas e fugiu abocando alguma coisa que não puderam ver o que era. Depois veio outro cão e deitou-se ao calor dos seus pés. Assim ficaram ali pela noite dentro. Era quase de madrugada quando apareceu, não se sabe de onde, uma mulher igualmente desgrenhada, cambaleante e com os olhos cheios de amargura e abandono. Trazia nos braços algo que poderia ser uma criança. Deitou-se também, puxou um dos sacos para a cabeça a fazer de travesseiro e adormeceu.
— São estranhas estas figuras… Como é que no país ou no planeta lá onde moram não há Natal?
— Como devem ser infelizes as pessoas… Um planeta sem Natal devia ser extinto, devia explodir nos ares, ficar desfeito em poeira fina e disperso pela imensidão dos céus.
— Provavelmente foram expulsas e tiveram de caminhar dias e noites até encontrar este recanto.
— Tiveram sorte de não serem assaltadas pelo caminho, nem de morrerem de frio, de sede ou de fome.
— Talvez tenham uma resistência e uma energia maior do que a das pessoas que conhecemos.
— Talvez o seu corpo não sinta frio nem calor. Talvez não precisem de alimento, de carinho, de amizade.
— Pelo menos numa coisa são diferentes de nós, bonecas: precisam de dormir…
— Devem ser alimentados e encorajados durante o sono por um anjo ou outro ser invisível.
Por um tempo deixaram-se destas conjecturas e voltaram a pensar como seria o Natal dentro das casas. Agora todos estariam já a dormir, sonhando com os anjos, os pássaros transparentes, as estrelas; sonhando com um tal Jesus, que não sabiam muito bem quem era, mas devia ser tão maravilhoso que até lhe chamavam Salvador.
Estavam assim imaginando, quando surgiu um carro da polícia. Parou em frente à montra. De dentro saiu um homem com uma farda e deu um pontapé no cão, que ganiu e fugiu a coxear. Depois fez o mesmo ao homem e à mulher e obrigou-os a entrar no carro, o que fizeram ensonados e sem oferecer resistência.
— Sempre não devem ser de cá…
— Talvez as autoridades os tenham levado para analisar e estudar como é a vida no país ou planeta de onde vieram.
— Ah! Já sei porque vieram buscá-los. Não te lembras de ouvir falar do Presépio? Era um homem, uma mulher, uma criança e um animal. Decerto andavam à procura de um presépio raro, e encontraram este e levaram-no para um museu.
— O que é um museu?
— É uma casa muito grande cheia de coisas antigas, raras e valiosas onde também há pessoas com olhos, boca, ouvidos e mãos; mas não vêem, não falam, não ouvem, não cumprimentam ninguém. Chamam-se estátuas.
— E dentro dos museus também há Natal?…


Nuno Higino
A mais alta estrela – Sete histórias de Natal
CENATECA, Associação Teatro e Cultura, Marco de Canaveses, 2000



20/12/2010

Uma ceia inesperada


Numa noite gelada de Dezembro, dois pobres cães vadios procuravam abrigo debaixo de uma grande árvore de Natal erguida no meio de uma praça, com uma vistosa iluminação que podia ser observada até do céu. Debaixo dos ramos da árvore e próximo do calor das lâmpadas fortes, eles conseguiam ter algum conforto, protegendo-se da chuva e do frio intenso.
Disse um dos cães para o companheiro:
— Há quanto tempo andas nesta vida?
— Desde o Verão passado. Os meus donos foram de férias e, como acharam que dava muito trabalho arranjar quem tomasse conta de mim, abandonaram-me. Foi assim que me tornei vadio, embora seja um cão de raça.
— Quer então dizer que é o primeiro Natal que passas na rua?
— Sim, é o primeiro. E tu?
— Para mim já é o terceiro. Eu não sou um cão de raça, sou um rafeiro, e tinha uma dona que gostava muito de mim. Eu era a sua única companhia. Um dia ela adoeceu e acabou por morrer.
— E o que foi que te aconteceu?
— Os filhos da minha dona não quiseram ficar com este encargo e puseram-me na rua. Já por cá ando há algum tempo, remexendo nos contentores, bebendo água das poças e das sarjetas e fugindo das camionetas da Câmara que trazem homens com redes para nos apanharem.
— Pois olha que eu ainda não me habituei a esta vida e nem sei se alguma vez me habituarei. Ainda estou muito zangado com os meus donos por me terem feito o que fizeram. Pareciam gostar muito de mim, gabavam-se muito da minha beleza e da minha raça, mas acabaram por me abandonar, dizendo aos filhos que alguém me roubou quando eu passeava sem trela.
— Já ouvi contar muitas histórias como a tua, e olha que cada vez há mais. As pessoas são egoístas e quando nos põem em casa não pensam nas responsabilidades que têm para connosco.
— Mas parece que com os gatos isso não acontece, e repara que eu não gosto nada de gatos.
— Estás enganado. Também há muitos gatos abandonados e há alturas em que nos podíamos entender, já que os nossos problemas são os mesmos quando se trata de abandono.
— Então e qual é o teu desejo para esta noite de Natal?
— Para dizer a verdade, o que eu desejava é que estas lâmpadas se transformassem em ossos saborosos e numa refeição quente. Se isso acontecesse, eu até era capaz de acreditar que há um céu para os cães.
Mal ele acabou de pronunciar estas palavras, caíram sobre eles vários ossos e duas latas de comida apetitosa. Ambos se refastelaram com a abundância e com a qualidade da refeição que iria marcar para sempre a memória que ambos guardariam daquela noite de Natal.
Certamente haverá quem diga que nunca as lâmpadas coloridas de uma árvore de rua se poderiam transformar em comida para cães abandonados. Mas também é verdade que os cães não costumam falar, e os desta história, para que nos lembremos sempre da solidão dos que são condenados a tornar-se vadios, falaram durante um bom bocado. Vale esta história para que não esqueçamos os que não têm tecto, neste ou nos próximos Natais.


José Jorge Letria
A Árvore das Histórias de Natal
Porto, Ambar, 2006


19/12/2010

Bolo-Rei



Todos os anos, quando os velhos Reis Magos acabam de atravessar a pequena estrada de areia que se esboça entre caminhos de musgo e lagos feitos de bocados de espelho partido; quando a estrela de prata que se suspende entre os dois exemplares de “A Paleta e o Mundo” de Mário Dionísio se recolhe para regressar à velha caixa de papelão, com trinta anos de viagens, cheia de bocados de jornal amachucados que ainda guardam notícias de dias que já foram e onde se embrulham os cordeirinhos, os pastores, as oferendas várias que o Menino Jesus recebeu, apesar de já lhe faltar a mãozinha direita que alguém partiu em excesso de limpeza; todos os anos, dizia, recordo a história que o Fernando Midões me contou, certa tarde em que misturámos poemas com lágrimas.
De calças à golfe, lacinho à Baptista Bastos, fato de ver a Deus e celebrar o Dia de Reis, Fernando foi com a mãe jantar a casa das senhoras, gente de talher de prata, criadas de avental branco e crista engomada, cheias de silêncios e reverências.
Com olhos de amora madura, esse sorriso que ainda hoje conserva, sempre molhado de uma melancolia que tem de adivinhar-se mais do que ver-se, Fernando entrou na sala de jantar das anfitriãs, cujas portas só o espírito natalício abria, raros que eram os gestos de caridade e partilha. Assim se explicava a presença do rapazinho e sua mãe, viúva recente e que ali trabalhava de manhã à noite, para que a vida se assemelhasse ao que já fora.
Servidos os manjares da época: a canja onde as bolhas de gordura lembravam pequenos sóis fumegantes, o leitão de maçã vermelha na boca que olhava Fernando em gritos de sufoco que só ele, poeta em germinação, conseguia ouvir; os fritos vários que nas travessas exibiam a abastança, chegou finalmente e foi colocado em lugar de honra, no centro da mesa, ladeado por dois castiçais onde as velas vermelhas ardiam, o bolo-rei, roda magnífica de cores, frutas, pinhões, bocados de açúcar que lembravam neve e cujo esplendor ofuscava o dourado das filhós, os reflexos das garrafas de licor, o brilho dos copos de cristal.
Fernando, pequenino, queixo tocando a toalha de renda, olhava aqueles mistérios de cor e perfume e falava, falava, dizia coisas tão a propósito que as senhoras, enlevadas, não se cansavam de sorrir e felicitar a mãe que tal filho tinha. Então, a mais velha, cabeção de renda e camafeu de marfim a fechar as golas, pega na faca de prata e com solenidade, meticulosamente, parte o bolo. A criada ajuda à distribuição nos pratinhos de sobremesa.
— Agora, não se esqueçam: aquele ou aquela a quem calhar a fava terá de pagar o bolo-rei no ano que vem!
E entre comentários de enlevo, gula, elogios à tessitura e ponto ideal do levedo da massa, à abundância das frutas, à maciez e agrado do paladar, se comeu a sobremesa.
A prenda calhou à criada.
— Que sorte! Mostre lá!
— Olhe que medalha tão bonita! Parece uma libra de verdade. Até pode usar no fio que ninguém diz que não é autêntica.
— E tu, Fernandinho, não acabas de comer a tua fatia de bolo?
— Come que está bom e fofinho!
Fernando, subitamente silencioso, abanava a cabeça em negativas.
— Então, filho! Não sabes falar? Responde às senhoras: queres mais um bocadinho de bolo?
— Ao menos acaba esse!
— Está cansado, coitadinho! Deixe-o lá.
Fernando baixava a cabeça, cabelos lisos na testa. A noite ia adiantada. A Miguel Bombarda, onde moravam, ainda ficava longe. Sim, minha senhora, amanhã às oito cá estarei, se Deus quiser, para cortar o vestido novo e pôr em prova a saia do “tailleur”. Foi uma noite muito bonita. Muito obrigada! Fernando dá um beijo às senhoras e agradece. Diz obrigado, Fernando!
Fernando deu o beijo às senhoras, esticou a cara, pôs-se em bicos dos pés, encheu os olhos de gratidão.
— Diz obrigado, filho! Mas o que te aconteceu?
— Deixe-o lá, coitadinho, perdeu a língua. É o sono, não é?
Descem o elevador, abrem a porta da rua. A mãe, agastada, ralha:
— Mas que vergonha! Umas senhoras tão boas, recebem-nos como família, estavas a portar-te tão bem e agora isto, nem uma palavra de agradecimento, nem boa noite, é esta a educação que te tenho dado? Se o teu pai fosse vivo…
Então, já na rua, o frio de Janeiro a gelar-lhe as mãos e o nariz, a névoa a transfigurar a rua e as pessoas, Fernando, finalmente, abre a boca e lá do fundo deixa voar o mistério da sua inesperada mudez:
— É que me calhou a fava, mãezinha. Eu sei que tu não tens dinheiro para, no ano que vem, comprares um bolo-rei igual àquele.
E, na palma da mão pequenina, cuspiu a fava que ali nascia, quente ainda, do esconderijo em que estivera.
E ainda hoje, nas horas mais dolorosas, quando se esquece de mastigar a comida que arrefece no tabuleiro da cantina e prefere viajar no país da infância, Fernando Midões, meu irmão mais antigo, sente a ternura solidária do abraço e o húmido das lágrimas com que a mãe o aconchegou junto de si.
Sem palavras, mãe.
Sem palavras.


Maria Rosa Colaço
Viagem com Homem dentro (adaptação)


17/12/2010

O Primeiro Natal em Portugal


É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.
A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.
O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas.
Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.

ОЛiВЕДЬ — lápis
ЗОШИТ — caderno
КИГА — livro
ШКОЛА — escola

Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe “língua de trapos”. Que quererá isso dizer?
Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...
Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:

Irina, Irina, Irina,
Que menina tão fina!
Tem cara cor de sal,
Olhos cor de piscina.
Cabelos cor de margarina.
Ai, doem-te as saudades?
Vai tomar aspirina.
Na Ucrânia deixou tantos amigos...

Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.
Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?
Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:
— Pareces uma fada!
E foge logo a correr.
Que palavrão será “fada”? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.
— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?
Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?
Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.
É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.
Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!
De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda...
Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!
— Acudam! Acudam!
Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.
Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.
Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.
Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.
— Ladrão atacar tu? Estar doente?
Tremendo, a outra responde:
— Chama o 112. O bebé vai nascer.
Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.
Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.
— Pai, pai! — grita ela.
Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.
— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?
Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.
Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.
— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.
A miúda obedece, confusa.
— Traz-me roupa lavada, para me mudar!
O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.
— Irina, a água já ferve?
De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.
— Força! Coragem! Está quase...
De súbito ouve-se o choro de um bebé.
— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.
Entrega-lhe o recém-nascido.
A rapariga, na cama desalinhada, sorri.
— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.
Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.
O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.
— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.
— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras...
As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.
— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.
A mãe olha para o homem e pergunta:
— Como é que o doutor se chama?
— Anton.
— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.
As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.
— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.
— Manhã nós visitar! — exclama a garota.
Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas... Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.
— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.
Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.

Para uma fada loura.
com amizade

A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.
— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.
— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.
Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:

OЗНАКА — fada

Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.


Luísa Ducla Soares
Há sempre uma estrela no Natal
Porto, Civilização Editora, 2006