28/12/2009

Jangada para longe

File:Jangada-Tibau.jpg

Si rotcha é pâgina! pedra ê sílaba
si corpé é caneta! coraçon ê tinta

Corsino Fortes, Árvore & tambor.



Para ele o mundo era um quintal enorme dotado de compartimentos separados por água e fenómenos como as chuvas, as tempestades ou mesmo os ódios dos homens carregados em navios enormes eram gotículas para qualquer sorriso desfazer.
Por hábito, sentava-se no monte observando navios partir e chegar. Vivia obcecado com a ideia de conhecer outros países, mais do que isso!, outras gentes, como se as suas veias fossem irrigadas por sensações movediças e volúveis ao empurrão do vento, nisso que era o seu prazer mais íntimo: observar os que chegavam, cheirar-lhes os cabelos, catalogar-lhes o sorriso segundo a proveniência, e, quase imperceptivelmente, fazê-los falar de coisas banais acontecidas do outro lado do mundo.
Trabalhava há meses na secreta engenhoca, desenvolvendo no alpendre barulhos entrecortados com pancadinhas, importando para o habitáculo toda uma gama variada de pregos, panos, tubagens diversas, correntes, metais, tintas, até ao dia em que a barulhagem cessou e apenas restou o som de um assobio simples, desnutrido de qualquer ritmia mais complicada – como cantam os pássaros antes de terem molhado o bico na frescura da manhã.
Sem cerimónias para empolar o acontecimento, retirou o engenho da casa num lento mas eficaz berço semi-mecanizado, e o povoado sorriu em uníssono numa candura de espanto e respeito pelo enorme objecto misterioso que desfilava pelas pedras da calçada. O desfile solitário cessou na praça principal.
A estranha criatura de madeira era perturbante e bela, fria e poética, ridícula e cativadora, o que impelia os observadores locais a sorrir de modo involuntário, como se a incompreensão do seu funcionamento em vez do rancor pelo inventor antes instigasse uma sensação de autoria colectiva. Todos, cada um a seu tempo, modo e sorriso, sentiam patentes na obra o cunho da sua contribuição pessoal e nunca se saberá quem foi o primeiro jovem ou a primeira velha a depositar no corpo do ser móbil a primeira recordação, o segundo objecto de decoração, a terceira folha de árvore, a quarta estátua de madeira ou a quinta folha da secção de poesia do único jornal local. Naquilo que se julgou ser o guiador da máquina, a velha mais velha do povoado (sendo por isso, de certo modo, a mais bela) amarrou com vigor o único sibitchi que o engenho levaria.
Durante dois dias a exibição perdurou, numa ânsia que crescia por si e se alimentava de horas e olhares, tendo originado que a máquina fosse já outra, repleta de decorativos tradicionais, besuntada de cores vivas, vítima de peso duplicado pelas oferendas que as suas bagageiras abarrotavam. Crianças, aleijados e idosos, bebés de colo e cães vadios, nuvens e sóis, centopeias negras e pássaros brancos, marinheiros e putas pobres, comerciantes e doidos serenos, pescadores com estórias de sereias e ventos místicos, farmacêuticos e padres, bêbados e beatas, o governador e a esposa gorda e até um caixeiro viajante, estiveram todos na praça, no terceiro dia, aguardando as primeiras palavras do inventor da escultura já carnavalesca. A velha mais velha do povoado (sendo por isso a mais sabedora e intuitiva) viu o mundo e o povoado banhados pela névoa da sua lágrima idosa e todos então souberam: era uma máquina de se pedalar para longe.
Depois das palavras do governador, onde encorajava a atitude criativa do cidadão, elogiava com veemência e emoção a sua iniciativa cultural, declarando aquele dia feriado nacional, o inventor tomou a palavra e, nuns modos verbais desajeitados e caducos, instigou a população a contribuir com gravuras, comida seca, plantas medicinais, panos, sementes e livros ou registos pessoais de poesia:
– Poesia, sim... – disse, em banho de comoção. – Porque é isso que um povo deve oferecer a outro!
Mais adiantou o local da sua derradeira partida, explicando que faria esse longo percurso em velocidade lentíssima para que os conterrâneos apreciassem as qualidades da máquina, indagassem de suas potencialidades e lhe fossem entregando, nesse percurso inclinado para o lado de lá do mundo, as cartas, os recados e os conselhos válidos para a movimentação humana que aquela viagem materializava.
Ao longo da estrada, entre um e outro solavanco de pedra, exibiu ao povoado o complicado engenho que a sua imaginação fizera eclodir: uma labiríntica máquina de ventos e popas, tubos de refrigeração e reaproveitamento de líquidos e sopros, compartimentos impossíveis, reguladores de temperatura e duas enormes bagageiras para livros já com cantos falsos previstos para a naftalina em bola branca. Era máquina para ocupar meia dúzia de metros quadrados mas com estabilidade estudada e apetrechos científicos que a permitiam mover-se a vento, ácido úrico ou força humana que se expressasse em acto de pedalação.
Quando chegou à praia, nesse lento cortejo que havia acontecido, alguns dos ilustres convivas do povoado já lá o esperavam e, na tendência narcísica de se voltarem a ouvir, quiseram mesmo reinventar novos discursos. O dono da engenhoca dissuadiu-os de o fazer, enquanto se desfazia de alguns volumosos mantimentos gastronómicos que a população ofertara, sendo que a praia, azulada e linda, foi palco de um improvisado banquete de que as crianças puderam usufruir com certa euforia.
O fim da tarde, propício a momentos de marítima aventuragem, havia-se já instalado. Pássaros ao longe, o sol se extinguindo nas águas do mundo, o violão sorridente de Kaká Barbosa, as cervejas derretendo os corações e a mulata triste, ao longe também, que com o olhar se despedia do homem que partia.
Movimento humano, rústico, o homem iniciou as movimentações – correntes puxadas e velas içadas, duas espécies de pedais que se desdobravam de tubos secretos, e a máquina de se pedalar revelou uma poética simbiose de jangada com algo que existisse sob a designação de bicicleta naval. As gentes afastaram-se do homem deixando-o a braços suados com a sequencial preparação mecânica que o acto requeria. E moveu-se – aquilo.
Uma onda embateu estrondosa na janguicleta, como seria mais tarde chamada, e os lábios de cima das pessoas se afastaram dos lábios de baixo – espanto e burburinho, pois a máquina dançava encaixada na curva das ondas, resistindo às laterais investidas da água, desenvolvendo um ruído manso e redistribuindo brilhos d’água nas gotas de sol que as enormes pás movimentavam.
A estranha criatura de madeira e o homem nela baloiçavam na direcção do horizonte estirado, e só então um padre despertou para a evidência do que não havia sido indagado:
– Ó nhôôôôô... – o berro sobre as gentes, sobre as águas. – Undi ki nhu átabai?
Lá das guelras salgadas da sua garganta, entre sorriso-só e suor-delícia, entre sombra de sol e raio lunar, entre certezismo hirto e utópico deslumbramento, o homem pedalante gritou assim:
– N’ta ba tê Spanha..., ta ba tê Merca di bicycleeeeetaaaaa!


Ondjaki, e se amanhã o medo


18/12/2009

A cigarra e a formiga



O inverno chega, e a formiga está confortavelmente fornecida, mas a cigarra tem a despensa vazia: dirige-se à formiga e pede-lhe alguma comida. Então, a formiga dá-lhe a resposta clássica:
“O que é que andaste a fazer durante o verão?”
“Com o devido respeito, cantei, cantei dia e noite.”
“Ai cantaste? Então agora, dança.”
Não atribuo o fato a perversidade da minha parte, mas antes à inconsequência da infância, a que falta sentido moral, mas realmente nunca aceitei bem esta lição. As minhas simpatias iam para a cigarra, e durante algum tempo nunca via uma formiga que não lhe pusesse um pé em cima. Desta maneira sumária (e, como tenho vindo a descobrir desde então, inteiramente humana) procurava exprimir o meu repúdio da sisudez e do senso-comum.
Não pude deixar de pensar nesta fábula quando outro dia encontrei George Ramsay a almoçar sozinho num restaurante. Nunca vi ninguém com uma expressão tão profundamente sombria. Olhava fixamente o espaço. Dava a impressão de que carregava o mundo inteiro sobre os ombros. Tive pena dele: desconfiei logo de que o infeliz irmão lhe tinha dado problemas outra vez. Dirigi-me a ele e estendi-lhe a mão.
“Como estás?” perguntei.
“Não estou muito bem disposto,” respondeu ele.
“Foi o Tom outra vez?”
Ele suspirou.
“Foi. Foi o Tom outra vez.”
“Por que é que não te vês livre dele? Já fizeste por ele tudo o que podias. Já devias saber que é um caso perdido.”
Parece-me que em todas as famílias há uma ovelha ranhosa. Tom fora uma dura provação para a sua, durante vinte anos. Começara a vida bastante bem: meteu-se no negócio, casou, e teve dois filhos. Os Ramsay eram pessoas perfeitamente respeitáveis, e tudo levava a crer que Tom Ramsay iria ter uma carreira útil e meritória. Mas um dia, sem aviso prévio, anunciou que não gostava do trabalho e que não estava talhado para o casamento. Queria gozar a vida. E não quis ouvir mais nada. Deixou a mulher e o escritório. Tinha algum dinheiro e passou dois anos felizes em várias capitais da Europa. Aos ouvidos dos familiares chegavam de vez em quando rumores do que ele andava a fazer, o que os chocava profundamente. Fartou-se de gozar, com certeza. Eles abanavam a cabeça e interrogavam-se sobre o que aconteceria quando se lhe acabasse o dinheiro. Em breve o ficaram a saber: pedia emprestado. Ele era encantador e não tinha escrúpulos. Nunca conheci ninguém a quem fosse tão difícil recusar um empréstimo. Conseguiu, dos amigos, uma receita certa, e ele fazia amigos muito facilmente. Mas sempre dizia que o dinheiro que se gastava para satisfazer as necessidades era enfadonho; o dinheiro que dava gozo gastar era aquele que se despendia em coisas supérfluas que dão prazer. Em relação a este, dependia do irmão George. Mas não desperdiçava com ele os seus encantos. George era um homem sério e insensível a tal tipo de sedução. Era um homem respeitável. Por uma ou duas vezes deixou-se levar pelas promessas de emenda de Tom e deu-lhe quantias consideráveis para que ele pudesse começar tudo de novo. Com esse dinheiro, Tom comprou um carro e algumas jóias lindíssimas. Mas quando as circunstâncias levaram George a aperceber-se de que o irmão nunca assentaria, e a lavar daí as mãos, Tom começou, sem o mínimo receio, a fazer chantagem com ele. Para um advogado tão respeitável, não era muito agradável encontrar o irmão atrás do balcão do bar do seu restaurante favorito a preparar cocktails, ou vê-lo ao volante de um taxi à saída do seu clube. Tom dizia que trabalhar num bar ou conduzir um taxi era um emprego perfeitamente decente, mas se George o obsequiasse com algumas centenas de libras não se importaria, por uma questão de honra da família, de desistir da idéia. E George pagou.
Uma vez aconteceu que Tom quase foi parar na cadeia. George ficou perturbadíssimo. Tomou todo aquele incômodo assunto em suas mãos. Realmente o Tom tinha ido longe demais. Já fora insensato, irrefletido e egoísta, mas até agora não fizera ainda nada de desonesto, isto é, ilegal, no dizer de George; e se fosse acusado seria, com toda a certeza, condenado. Mas não se pode permitir que o nosso único irmão vá para a prisão. O homem que Tom enganou, de nome Cranshaw, era vingativo. Estava decidido a levar a questão ao tribunal; dizia que Tom era um canalha e que devia ser punido. A resolução da questão custou a George quinhentas libras e um enormíssimo monte de trabalho. E nunca o vi tão furioso como quando soube que, mal levantaram o cheque, Tom e Cranshaw partiram juntos para Monte Carlo. Passaram lá um mês delicioso.
Durante vinte anos Tom apostou em corridas e jogou, flertou com as mais bonitas mulheres, dançou, comeu nos restaurantes mais caros e vestiu elegantemente. Tinha sempre o ar aprumado de quem tinha acabado de se arranjar para uma festa. Embora tivesse já quarenta e seis anos, ninguém lhe daria mais de trinta e cinco. Era um companheiro extremamente divertido e, embora sabendo-o um perfeito inútil, ninguém podia deixar de gostar da sua companhia. Era bem humorado, de uma alegria inabalável, e de um encanto incrível. Nunca regateei as contribuições que ele regularmente me pedia para satisfação das suas necessidades básicas. Nunca lhe emprestei cinquenta libras que fossem sem ficar com a sensação de que eu é que lhe ficava a dever. Tom Ramsay conhecia toda a gente, e toda a gente conhecia o Tom Ramsay. Ninguém podia concordar com o seu comportamento, mas também ninguém podia deixar de gostar dele.
O pobre George, um ano apenas mais velho do que o estouvado do irmão, parecia ter já sessenta anos. Durante um quarto de século, nunca tinha tirado mais do que quinze dias de férias por ano. Chegava ao escritório todas as manhãs às nove e meia e nunca saía antes das seis. Era honesto, trabalhador e digno. Tinha uma boa esposa, a quem nunca fora infiel, nem em pensamento, e quatro filhas para quem era o melhor dos pais. Fazia questão de poupar um terço do seu rendimento, e a sua idéia era aposentar-se aos cinqüenta e cinco anos e retirar-se para uma casinha no campo onde tencionava dedicar-se à jardinagem e ao golfe. A sua vida era irrepreensível. Sentia-se contente por estar envelhecendo, porque afinal com o Tom acontecia o mesmo. Esfregava as mãos e dizia:
“Quando Tom era jovem e bem parecido, ainda enfim, mas ele é apenas um ano mais novo do que eu. Daqui a quatro anos ele faz cinqüenta. Nessa altura não vai achar a vida assim tão fácil. Quando eu fizer cinqüenta já terei trinta mil libras. Há vinte e cinco anos que ando a dizer que o Tom vai acabar na sarjeta. E vamos ver como é que ele vai se dar nessa situação. E vamos ver então o que é que compensa mais, se trabalhar ou preguiçar.”
Coitado do George! Ofereci-lhe a minha solidariedade. Agora, ali sentado a seu lado, perguntava-me que coisa terrível não teria feito o Tom. George estava visivelmente muitíssimo perturbado.
“Sabe o que é que aconteceu agora?” perguntou-me.
Eu estava preparado para o pior. Perguntava-me se o Tom não teria finalmente caído nas mãos da polícia. Com alguma dificuldade George decidiu-se a começar:
“Você não pode negar que eu tenho sido trabalhador, honesto, respeitável e reto durante toda a minha vida. Depois de uma vida trabalhando e poupando, posso pensar numa aposentadoria com um pequeno rendimento de títulos de toda a confiança. Sempre cumpri com o meu dever na vida que a Providência me reservou.”
“É verdade.”
“E também não se pode negar que o Tom tem sido um patife preguiçoso, indigno, dissoluto, sem princípios. Se houvesse justiça, ele estaria num reformatório.”
“É verdade.”
George corou.
“Há poucas semanas ficou noivo de uma mulher com idade para ser mãe dele. E agora ela morreu e deixou-lhe tudo o que tinha. Meio milhão de libras, um iate, uma casa em Londres e uma casa no campo.”
George Ramsay deu um murro na mesa.
“Não é justo, digo, não é justo. Que diabo, não é justo.”
Não pude evitá-lo. Desatei à gargalhada quando vi o olhar irado do George, rebolei na cadeira, quase caí ao chão. O George nunca me perdoou. Mas o Tom convida-me muitas vezes para jantares excelentes na sua encantadora casa em Mayfair, e se ocasionalmente me pede um dinheirinho insignificante é apenas a força do hábito. Nunca mais do que uma libra.

William Somerset Maugham
(tradução brasileira)



As primas do Bruno Viola

para o Bruno Ferraz


As festas na casa do Bruno Viola tinham sempre muitos bolos e salgados, música bem alta, boa jantarada tipo feijoada ou churrasco, e muita, muita gasosa. Mas nós, os rapazes da rua Fernão Mendes Pinto, gostávamos mesmo era das primas do Bruno. O Bruno Viola tinha umas primas muito bonitas.
Uma tinha o cabelo assim bem liso e loiro, vinha do Bairro Azul com umas saias bem curtas que todo mundo queria dançar slow com ela. Primeiro era o Bruno que, mesmo sendo primo, sempre gostava de dançar apertado com as primas dele. Lembro até hoje: os cabelos dela cheiravam a um amaciador de abacate que uma pessoa no meio da dança até quase que ficava nas nuvens. Esse cheiro se misturava com o perfume que era o mesmo que a mãe dela usava. A camisa era preta e branca às riscas com um ursinho mesmo em cima da mama esquerda dela. A saia era jeans azul pré-lavado que nessa época estava na moda. O Bruno já tinha dançado com ela, o Tibas também. Era a minha vez e eles ficaram cheios de inveja porque puseram aquela música do Eros Ramazzotti que durava onze minutos.
O meu nariz perdia-se entre o pescoço suado dela e os cabelos loiros, compridos. Às vezes é só assim, um gajo apanha esse slow bem comprido que dá tempo de falar bué com a dama. Todos a olharem para mim na minha sorte demorada, até as pernas já me doíam do cansaço de estar a dançar tão devagarinho com a prima do Bairro Azul.
Outras primas também estavam na festa: a Filipa, que era da nossa idade; a Eunice, mulata linda e cambaia, que tinha vindo do Sumbe; e a Lara, que era um pouco mais velha, já tinha as mamas grandes como as mulheres adultas, também já punha perfume de mais-velha, e era uma moça que tinha viajado muito, acho eu, porque tava toda hora a falar de Paris. Então foi isso: enquanto eu dançava a música do Eros Ramazzotti, a Lara olhou para mim com um olhar bem estranho. Eu fechei os olhos, dei um beijinho disfarçado no pescoço da prima do Bruno. Um sabor salgado me ficou na boca e eu gostei.
A música acabou, abri os olhos. A prima do Bairro Azul sorriu para mim, mas eu duvidei que aquilo significasse alguma coisa. Ela tava muito doce no sorriso dela, mas acho que ela gostava mesmo era do Tibas. Fui buscar uma gasosa, era uma fanta daquelas bem cor de laranja que até inchava a língua. A música tinha parado, estavam nos preparativos do «parabéns a você». Vi a Lara olhar de novo para mim.
O Pequeno, um miúdo também da minha rua, é que imitava muito bem a voz da Lara. Era uma voz diferente, para uma rapariga, difícil mesmo de imitar ou de explicar. Mas pode-se dizer que era uma voz grossa, muito grossa e rouca. E o Pequeno imitava assim a Lara: «ó pá, eu já fui a Paris, pá, vocês conhecem Paris?». Ele fazia a voz grossa e a malta toda ria, não era preciso dizer nada, todo mundo imaginava a pessoa que falava assim.
A Lara olhava para mim, eu olhava para a Filipa, e o Tibas falava com a prima do Bairro Azul. A Filipa, irmã da Lara, era muito bonita, e até na rua diziam que eu e ela tínhamos de namorar mas isso ainda nunca tinha acontecido. Mas, sim, eu achava a Filipa muito bonita, tinha uma pele escura tipo indiana dos filmes que muitos rapazes da minha rua ficavam atrapalhados a olhar para ela. Começaram a cantar os parabéns. Todo mundo olhava para o centro da mesa onde estava o bolo horroroso e cheio daquele glacê adocicado que enjoa. Eu ouvi a voz, lá longe, do outro lado, perto da bomba de água e da bananeira, a chamar o meu nome. Ouvi mesmo bem, mas fingi que não era comigo.
A voz continuava. Era uma voz grossa tipo um instrumento de tocar jazz. Primeiro baixinho, só dum coro. Depois, naquela parte que se canta «hoje é dia de festa, cantam as nossas almas», e todo mundo já grita bem alto, a Lara me ameaçou com a voz dela:
– Vem cá, não tás a ouvir?
Tive que ir.
A bomba de água disparou, fez um barulho esquisito. A Lara tava sentada numas escadas que já tinham sido invadidas por trepadeiras enormes. Fez-me sinal com a mão para eu me sentar perto dela. Tinha as pernas meio abertas como fazem os rapazes, sentada uma posição que a minha avó Agnette me disse que as meninas nunca se deviam sentar. E falou-me com a voz grossa:
– Anda cá, senta-te aqui perto de mim.
Eu olhei lá para dentro, não consegui ver ninguém. Tava escuro e o lugar só cheirava à trepadeira e ao perfume pesado da Lara. Ela apertou-me no braço, quando eu ia sentar, e sentou-me no colo dela. Não falou nada, ficou só a respirar perto da minha cara. Tinha também um suor molhado no pescoço.
– Dá-me um beijo na boca... – ficou a olhar para mim com uma cara quieta. – Com a língua também.
Puseram música de novo, uma música bem animada, que nós chamávamos de «alice stein», mas que era na verdade uma música dos Kassav. Eu transpirava, aquela já era uma situação muito séria, a Lara era muito assanhada, até diziam que ela já tinha feito malcriado com rapazes mais velhos. Estava bem atrapalhado eu, ela me segurava no braço com força.
– Dá-me lá um linguado – ela disse com a voz mais rouca e a fechar os olhos.
Uma pessoa quando é criança às vezes não sabe que é bom ter medo e deixar certas coisas acontecerem. Não sei como seria o tal «linguado», mas tive medo que a Lara, com a voz dela e as mamas grandes e os perfumes franceses, tive medo que a Lara me beijasse de um modo que eu nem sabia bem qual era.
A mãe do Bruno me chamou para eu comer o bolo horroroso com glacê e eu gritei logo acusando o lugar:
– Tou aqui, tia Luna.
O Tibas e a prima do Bairro Azul vieram com um pires e uma fatia enorme que eu tive mesmo que comer. Muita gente se aproximou das escadas das trepadeiras. A Lara sentou-se de outra maneira, endireitou o vestido e o cabelo. Do meu pires tirava pedaços de bolo que comia muito devagar, e chupava os dedos cheios de glacê branco sem parar de olhar a minha boca.
O Bruno Viola tinha primas muito bonitas e uma prima com uma voz muito grossa, como se fosse um instrumento de tocar jazz.


Ondjaki, Os da Minha Rua

13/12/2009

O presente surpresa do rei Wod


O rei Wod era muito, muito rico.
Tinha tanto dinheiro que podia encher a meia de Natal de todas as crianças do país – incluindo a tua, se lá morasses – e ainda lhe sobraria muito dinheiro. Por que razão, então, odiava ele o Natal?
A razão era esta. O Rei Wod queria um presente-surpresa na manhã de Natal.
Só isso?
Aha… não esqueçamos quão rico ele era. Todos os anos, era a mesma coisa. Fosse qual fosse o presente que recebia, por mais maravilhoso que fosse, nunca era novidade. Por exemplo:
Um cavalo com cascos multicoloridos para andar nos arco-íris.
Um livro de respostas a todas as perguntas dos professores.
Um cesto de piquenique que brilhava no escuro quando o levávamos a uma festa depois da meia-noite.
Uma almofada para nos adormecer ao som de uma canção.
Uma poça de água para saltar dentro de casa sem molhar a carpete…
Para quê mais exemplos?
“Já tenho um desses”, dizia sempre o Rei Wod.
Um dia, numa manhã de Natal bem cedo, mesmo antes de o sol nascer, o Rei perdeu a paciência. Deu um pontapé no trono, rasgou o manto em dois e atirou a coroa pela janela.
— Será que ninguém me pode trazer um presente-surpresa? — gritou. — Chamem o feiticeiro real!
— Aqui me tendes, Majestade.
— Não fiques aí especado! Faz alguma coisa. Isto é uma ordem!

ABRA – CA – ZAM!

— Como?
Num abrir e fechar de olhos, o Rei Wod encontrou-se numa floresta escura, coberta de neve.
— Onde estou? No Pólo Norte? — perguntou. — Esperem até eu regressar ao palácio. Aquele feiticeiro não sabe com quem se meteu.
Agora, porém, quem estava em apuros era o Rei Wod. A neve atingia-lhe os joelhos nalguns sítios e noutros chegava-lhe mesmo aos sovacos. O Rei não sabia onde estava. Em breve estava tão hirto e gelado como um pingente de neve.
— Se não me mexer depressa, acabo por me transformar num pingente. Um pingente gigante. Alto lá, será que vejo uma casa algures?
Suspirando de alívio, caminhou pesadamente até chegar a uma cabana minúscula, com o telhado coberto de neve, situada na orla da floresta.
A cabana estava vazia.
Não que estivesse abandonada. Havia uma lareira acesa, comida na despensa, e mobília confortável na sala de estar.
— Onde estará o dono? — perguntou o Rei. — E porque não há decorações de Natal e uma árvore com luzinhas?
Na cabana não havia o menor indício de Natal. Excepto um calendário do Advento em cima do fogão de sala. Estava aberto no dia 24 de Dezembro.
— É véspera de Natal — disse o Rei.
Isto tornou a cabana ainda mais deserta. O Rei sentia-se só. Será que iria passar o primeiro Natal sozinho da sua vida?
— É melhor aquecer-me, para começar. E tenho de me manter ocupado.
Foi divertido cortar uma árvore na floresta e colocá-la num canto da sala, especialmente depois de ter encontrado uma grande caixa com decorações de Natal no armário debaixo das escadas. Também foi divertido pendurá-las, bem como acender a lareira e pôr a mesa para a ceia de Natal.
Depois de ter feito isto tudo, o Rei desenhou um cartão de Natal para o dono da cabana e colocou-o em cima da chaminé. Fez, em seguida, uma embalagem de oferta, dentro da qual colocou um bilhete:
Este espaço está reservado para um presente do Rei Wod. Pode ser um livro de respostas a todas as perguntas dos professores, um cesto de piquenique que brilha no escuro quando o levamos a uma festa depois da meia-noite, um cavalo com cascos multicoloridos para andar nos arco-íris… O que lhe apetecer. A escolha é sua.
Colocou, depois, a caixinha debaixo da árvore de Natal. Por último, pôs a mesa para mais uma pessoa.
— Nunca se sabe… — suspirou.
Adormeceu profundamente diante da lareira.
A claridade do dia acordou-o. A claridade e o tilintar de campainhas de trenó. A porta abriu-se de repente e um homem gorducho entrou. Exactamente o tipo de pessoa que esperaríamos ver num sítio como este. Como trazia geada nas sobrancelhas, gelo na barba, flocos de neve a derreter no fato vermelho, e um saco vazio, o Rei Wod demorou algum tempo a reconhecê-lo.
— Pai Natal! — arquejou.
— Como está? Quem é o senhor?
— Sou o Rei Wod. Desculpe esta…
— O Rei Wod?
O Pai Natal olhou o seu visitante com espanto.
— Isso quer dizer que a carta do feiticeiro era verdadeira? A carta que dizia que ia trazer-me…
A voz do Pai Natal foi-se apagando, enquanto percorria com os olhos as decorações, a mesa de jantar, o cartão na chaminé, e o presente debaixo da árvore.
— Como sabia? — exclamou este.
— Sabia? — perguntou Wod. — Sabia o quê?
— Que nunca tive um Natal a sério?
— Nunca?
— Estou sempre demasiado ocupado antes do Natal. Depois fico demasiado cansado. E agora Vossa Majestade organizou tudo para mim. Que Deus o abençoe! Estou-lhe tão grato. Como se lembrou de um presente-surpresa tão bonito?
— Presente-surpresa?
— O meu próprio Natal — respondeu o Pai Natal. — É o meu primeiro Natal.
— É o primeiro que ofereço — disse o Rei, pensativo.
Mas deu-se logo conta de que não seria o último.
Wod nunca esqueceu a lição que o seu feiticeiro lhe deu. Faz sentido que, quando se é um rei que tem tudo, receber um presente-surpresa é difícil. Mas dar um é fácil.
Algum tempo depois, quando nomeou o feiticeiro seu Primeiro‑Ministro, o Rei disse:
— Só há um pequeno problema. O que devo pôr na caixa que deixei debaixo do abeto? O Pai Natal não sabia de que presente gostava mais.
— É simples — sorriu o feiticeiro.
E sussurrou algo ao ouvido do Rei Wod.
Adorava dizer-vos o que ele sugeriu. Mas isso ia estragar a surpresa.



Chris Powling
Sally Grindley (org.)
Christmas stories

Jacob procura um deserto

O professor de religião está a explicar às crianças por que razão os profetas e Jesus gostavam de ir para o deserto.
— No deserto, o homem está completamente sozinho. Pode fazer silêncio e meditar. Pode pôr-se à prova e ver se consegue passar sem as coisas a que está habituado: sem boa comida e sem conforto, sem diversões e amigos. Não há nada que o distraia quando quer falar com Deus.
— O Sr. Professor já esteve no deserto? — pergunta Jacob.
— Já — responde o professor. — Depois de visitar Jerusalém fui até lá. Gostei tanto, que quase nem consigo descrever.
“Eu também gostava de ir para o deserto” — pensa Jacob. Só é pena que à beira de sua casa não haja nenhum deserto, nenhum local onde possa ficar em silêncio e meditar.
Ou será que há?
No quarto de Jacob, a seguir ao almoço, não há barulho. Só ouve, baixinho, a música da Antena l vinda da casa do vizinho e a mãe a lavar a loiça na cozinha. No pátio, uma criança atira a bola repetidamente contra a parede, e ao longe ouve-se o ruído dos automóveis.
Ali ainda há demasiado barulho para poder estar em silêncio, mas, se fizer um esforço, talvez consiga abstrair-se. Jacob vai perguntar à mãe se pode ir dar um pequeno passeio.
Não é fácil encontrar na cidade um pouco de deserto. Talvez no parque, mas ao lado está a ser aberta uma estrada, e as máquinas fazem tanto barulho que nem se consegue ouvir os pardais a chilrear no arvoredo.
Três quarteirões mais à frente, atrás da fábrica de calçado, há uma sucata. Está fechada com arame farpado, mas Jacob conhece um buraco por onde pode escapar-se. O local da sucata é uma paisagem deserta, só com canos de fogões, detritos, máquinas de lavar e peças de automóveis. Um homem já de certa idade caminha, curvado, por entre os montes de ferro-velho e recolhe metal.
— Andas à procura de alguma coisa? — pergunta, olhando para Jacob.
Jacob salta novamente para a estrada e anda, anda, até chegar em frente da casa de Catarina. Sobe as escadas e toca à campainha.
— Ando à procura de um local para meditar – diz-lhe ele.
Ela condu-lo à sala, afasta para o lado livros e brinquedos com o pé, e encosta uma almofada à parede.
— Pronto, senta-te aqui — diz ela. — Vou ficar quieta para tu poderes meditar.
Catarina senta-se à mesa a fazer os trabalhos de casa. Não diz uma palavra nem olha uma única vez para Jacob. A sala está tão silenciosa que ele consegue ouvir a caneta de tinta permanente a arranhar o papel. E o ruído abafado que os sapatos fazem quando Cati roça a perna da cadeira, porque Cati nunca consegue sentar-se totalmente quieta.
Jacob fecha os olhos. Ouve a sua própria respiração e admira-se por respirar tão devagar. Sente como a barriga sobe e desce quando respira. O sangue palpita-lhe levemente nas orelhas e também no pescoço. Cati foi muito simpática em tê-lo deixado ficar na sala, mas Jacob não lho diz.
— Está-se tão bem aqui. Quase como no deserto.
— Se andas à procura de um deserto, tens de ir à sucata.
— Já lá estive — diz Jacob.
— E?...
— Nada.
— Tens de atravessar devagarinho e com calma a sucata toda — diz Cati. — Não vás só pela beira.
De regresso a casa, Jacob volta a entrar pelo buraco do arame farpado.
— Então, de que é que andas à procura? — pergunta o velho. — De alguma coisa para a bicicleta? Talvez possa ajudar-te.
— Eu só vim dar uma volta — diz Jacob, e continua por entre o ferro-velho. As pedras rolam-lhe por debaixo dos pés, escorrega, segue em frente. Ouve-se o vento a assobiar. Um cão ladra algures.
No céu, bandos de gralhas voam em círculos. Jacob fica espantado. Nunca pensou que ali fosse tão calmo. Não há nada que o distraia.
“Jesus” — pensa ele. — “O que achas do meu deserto?”


Lene Mayer-Skumanz
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986

10/12/2009

A caçada



A loja de antigüidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus panos embolorados e livros comidos de traça. Com as pontas dos dedos, o homem tocou numa pilha de quadros. Uma mariposa levantou vôo e foi chocar-se contra uma imagem de mãos decepadas.
- Bonita imagem- disse ele.
A velha tirou um grampo do coque e limpou a unha do polegar.
- É um São Francisco.
Ele então voltou-se lentamente para a tapeçaria que tomava toda a parede no fundo da loja. Aproximou-se mais. A velha aproximou-se também.
- Já vi que o senhor se interessa mesmo é por isso…Pena que esteja nesse estado.
O homem estendeu a mão até a tapeçaria, mas não chegou a tocá-la.
- Parece que hoje está mais nítida…
- Nítida?- Repetiu a velha, pondo os óculos. Deslizou a mão pela superfície puída- Nítida, como?
- As cores estão mais vivas. A senhora passou alguma coisa nela?
A velha encarou-o. E baixou o olhar para a imagem de mãos decepadas.O homem estava tão pálido e perplexo quanto a imagem.
- Não passei nada, imagine…Por que o senhor pergunta?
- Notei uma diferença.
- Não, não passei nada, essa tapeçaria não agüenta a mais leve escova, o senhor não vê? Acho que é a poeira que está sustentando o tecido – acrescentou, tirando novamente o grampo da cabeça. Rodou-se entre os dedos com ar pensativo. Teve um muxoxo: – Foi um desconhecido que trouxe, precisava muito de dinheiro. Eu disse que o pano estava por demais estragado, que era difícil encontrar um comprador, mas ele insistiu tanto…Preguei aí na parede e aí ficou. Mas já faz anos isso. E o tal moço nunca mais me apareceu.
- Extraordinário…
A velha não sabia agora se o homem se referia à tapeçaria ou ao caso que acabara de lhe contar. Encolheu os ombros. Voltou a limpar as unhas com o grampo.
- Eu poderia vendê-la, mas quero ser franca, acho que não vale à pena. Na hora que se despregar, é capaz de cair em pedaços.
O homem acendeu um cigarro. Sua mão tremia. Em que tempo, meu Deus! Em que tempo teria assistido a essa mesma cena. E onde?…
Era uma caçada. No primeiro plano, estava o caçador de arco retesado, apontado para uma touceira espessa. Num plano mais profundo, o segundo caçador espreitava por entre as árvores do bosque, mas esta era apenas uma vaga silhueta, cujo rosto se reduzira a um esmaecido contorno. Poderoso, absoluto era o primeiro caçador, a barba violenta como um bolo de serpentes, os músculos tensos, à espera de que a caça levantasse para desferir-lhe a seta.
O homem respirava com esforço. Vagou o olhar pela tapeçaria que tinha a cor esverdeada de um céu de tempestade. Envenenando o tom verde-musgo do tecido, destacavam-se manchas de um negro-violáceo e que pareciam escorrer da folhagem, deslizar pelas botas do caçador e espalhar-se pelo chão como um líquido maligno. A touceira na qual a caça estava escondida também tinha as mesmas manchas e que tanto podiam fazer parte do desenho como ser simples efeito do tempo devorando o pano.
- Parece que hoje tudo está mais próximo- disse o homem em voz baixa.- É como se… Mas não está diferente? A velha firmou mais o olhar. Tirou os óculos e voltou a pô-los.
- Não vejo diferença nenhuma. – Ontem não se podia ver se ele tinha ou não disparado a seta…
- Que seta? O senhor está vendo alguma seta?
- Aquele pontinho ali no arco…
A velha suspirou.
- Mas esse não é um buraco de traça? Olha aí, a parede já está aparecendo, essas traças dão cabo de tudo- lamentou disfarçando um bocejo. Afastou-se sem ruído, com suas chinelas de lã. Esboçou um gesto distraído: – Fique aí à vontade, vou fazer o meu chá.
O homem deixou cair o cigarro. Amassou-o devagarinho na sola do sapato. Apertou os maxilares numa contração dolorosa. Conhecia esse bosque, esse caçador, esse céu- conhecia tudo tão bem, mas tão bem! Quase sentia nas narinas o perfume dos eucaliptos, quase sentia morder-lhe a pele o frio úmido da madrugada, ah, essa madrugada! Quando? Percorrera aquela mesma vereda, aspirara aquele mesmo vapor que baixava denso do céu verde…Ou subia do chão? O caçador de barba encaracolada parecia sorrir perversamente embuçado. Teria sido esse caçador? Ou o companheiro lá adiante, o homem sem cara espiando entre as árvores? Uma personagem de tapeçaria. Mas qual? Fixou a touceira onde a caça estava escondida. Só folhas, só silêncio e folhas empastadas na sombra. Mas, detrás das folhas, através das manchas pressentia o vulto arquejante da caça. Compadeceu-se daquele ser em pânico, à espera de uma oportunidade para prosseguir fugindo. Tão próxima a morte! O mais leve movimento que fizesse, e a seta… A velha não a distinguira, ninguém poderia percebê-la, reduzida como estava a um pontinho carcomido, mais pálido do que um grão de pó em suspensão no arco.
Enxugando o suor das mãos, o homem recuou alguns passos. Vinha-lhe agora uma certa paz, agora que sabia Ter feito parte da caçada. Mas essa era uma paz sem vida, impregnada dos mesmos coágulos traoçoeiros da folhagem. Cerrou os olhos. E se tivesse sido o pintor que fez o quadro? Quase todas as antigas tapeçarias eram reproduções de quadros, pois não eram? Pintara o quadro original e por isso podia reproduzir, de olhos fechados, toda a cena nas suas minúcias: o contorno das árvores, o céu sombrio, o caçador de barba esgrouvinhada, só músculos e nervos apontando para a touceira…”Mas se detesto caçadas! Por que tenho que estar aí dentro?”
Apertou o lenço contra a boca. A náusea. Ah, se pudesse explicar toda essa familiaridade medonha, se pudesse ao menos…E se fosse um simples espectador casual, desses que olham e passam? Não era uma hipótese? Podia ainda Ter visto o quadro no original, a caçada não passava de uma ficção. “Antes do aproveitamento da tapeçaria…”- murmurou, enxugando os vãos dos dedos no lenço.
Atirou a cabeça para trás como se o puxassem pelos cabelos, não, não ficara do lado de fora, mas lá dentro, encravado no cenário! E por que tudo parecia mais nítido do que na véspera, por que as cores estavam mais fortes apesar da penumbra? Por que o fascínio que se desprendia da paisagem vinha agora assim vigoroso, rejuvenescido?…
Saiu de cabeça baixa, as mãos cerradas no fundo dos bolsos. Parou meio ofegante na esquina. Sentiu o corpo moído, as pálpebras pesadas. E se fosse dormir? Mas sabia que não poderia dormir, desde já sentia a insônia a segui-lo na mesma marcação da sua sombra. Levantou a gola do paletó. Era real esse frio? Ou a lembrança do frio da tapeçaria? “Que loucura!… E não estou louco”, concluiu num sorriso desamparado. Seria uma solução fácil. “Mas não estou louco.”
Vagou pelas ruas, entrou num cinema, saiu em seguida e, quando deu acordo de si, estava diante da loja de antigüidades, o nariz achatado na vitrina, tentando vislumbrar a tapeçaria lá no fundo. Quando chegou em casa, atirou-se de bruços na cama e ficou de olhos escancarados, fundidos na escuridão. A voz tremida da velha parecia vir de dentro do travesseiro, uma voz sem corpo, metida em chinelas de lã: “Que seta? Não estou vendo nenhuma seta…”Misturando-se à voz, veio vindo o murmurejo das traças em meio das risadinhas. O algodão abafava as risadas que se entrelaçavam numa rede esverdinhada, compacta, apertando-se num tecido com manchas que escorreram até o limite da tarja. Viu-se enredado nos fios e quis fugir, mas a tarja o aprisionou nos seus braços. No fundo, lá no fundo do fosso podia distinguir as serpentes enleadas num nó verde-negro. Apalpou o queixo. “Sou o caçador?” Mas ao invés da barba encontrou a viscossidade do sangue.
Acordou com o próprio grito que se estendeu dentro da madrugada. Enxugou o rosto molhado de suor. Ah, aquele calor e aquele frio! Enrolou-se nos lençóis. E se fosse o artesão que trabalhou na tapeçaria? Podia revê-la, tão nítida, Tão próxima que, se estendesse a mão, despertaria a folhagem. Fechou os punhos. Haveria de destruí-la, não era verdade que além daquele trapo detestável havia alguma coisa mais, tudo não passava de um retângulo de pano sustentado pela poeira. Bastava soprá-la, soprá-la!
Encontrou a velha na porta da loja. Sorriu irônica:
- Hoje o senhor madrugou.
- A senhora deve estar estranhando, mas…
- Já não estranho mais nada, moço. Pode entrar, o senhor conhece o caminho…
“Conheço o caminho”- murmurou, seguindo lívido por entre os móveis. Parou. Dilatou as narinas. E aquele cheiro de folhagem e terra, de onde vinha aquele cheiro? E porque a loja foi ficando embaraçada, lá longe? Imensa, real só a tapeçaria a se alastrar sorrateiramente pelo chão, pelo teto, engolindo tudo com suas manchas esverdinhadas. Quis retroceder, agarrou-se a um armário, cambaleou resistindo ainda e estendeu os braços até a coluna. Seus dedos afundaram por entre galhos e resvalaram pelo tronco de uma árvore, não era uma coluna, era uma árvore! Lançou em volta um olhar esgazeado: penetrara na tapeçaria, estava dentro do bosque, os pés pesados de lama, os cabelos empastados de carvalho. Em redor, tudo parado.Estático. No silêncio da madrugada, nem o piar de um pássaro, nem o farfalhar de uma folha. Inclinou-se arquejante. Era o caçador? Ou a caça? Não importava, não importava, sabia apenas que tinha que prosseguir correndo sem parar por entre as árvores, caçando ou sendo caçado. Ou sendo caçado?…Comprimiu as palmas das mãos contra cara esbraseada, enxugou no punho da camisa o suor que lhe escorria pelo pescoço. Vertia sangue o lábio gretado.
Abriu a boca. E lembrou-se. Gritou e mergulhou numa touceira. Ouviu o assobio da seta varando a folhagem, a dor!
“Não…”- gemeu, de joelhos. Tentou ainda agarrar-se à tapeçaria. E rolou encolhido, as mãos apertando o coração.

Lygia Fagundes Telle, In Antes do Baile Verde.


09/12/2009

A libélula

[palavras para o Dr. Carvalho]

se destas pedras uma
anunciasse
o que a faz silêncio:

aqui, muito perto,
[...] isso se abriria, como ferida
em que terias de mergulhar


Paul Celan, A Força da Luz.




Um som fluido abandonava a casa, roçava na poeira das trepadeiras no jardim, influenciava as mangas e os mamões no seu processo de maturação, arrepiava uma libélula inebriada que ali adormecera, fazia o sol abrandar e chegava, ainda forte, ainda nítido, ao ouvido da mulher. Depois disto, um sorriso.
Na aparelhagem o som acontecia contínuo, ininterrupto. O doutor solidificara este hábito domingueiro: sentar-se no fresco da sua varanda ouvindo, durante extensos momentos, a voz de Adriana Calcanhoto. Ora dormitava, ora lia, ora escrevia, ora se quedava simplesmente de olhos rasgados contemplando as nuvens gordas azularem o céu. Para ele não se tratava de beatificar um domingo, mas sim a própria paz. Aliás, «domingo» era, para o doutor, uma palavra muito interna. Fosse um poço.
Pressentindo isto – que o doutor se apresentava em pleno estado de domingo –, a mulher hesitou. Encostou a testa ao ferro do portão e quis acreditar no impossível: que não tinha sede. A testa latejava; os olhos se queriam, de facto, fechar, olvidar o mundo, cessar a prestação de serviços visuais. O frio do portão trouxe-lhe agrado aos dedos, ao coração também. A música invadia-lhe os poros. Então, aí sim, ela partilhou uma sensação com o doutor. Ele, no mesmo instante pensava: esta voz pode ser dividida. A voz de Adriana, empurrando a tarde: «será que a gente é louca, ou lúcida... quando quer que tudo vire música».
No intervalo de voz, a libélula decidiu acordar, mover-se em zum-zum aberto, e aterrisar junto aos apontamentos do doutor. Gatafunhos, memórias recusadas, esquebras de horas mais sensíveis que escusava aceitar como suas. «Eu perco o chão, eu não acho as palavras» – a voz cantava. Há anos que o doutor acertara as contas com os animais e se apaziguara numa relação equilibrada com eles. Mantinha uma relação ainda conflituosa com as baratas e os sardões, mas já não era homem para matar. Em vez disso, usava sorrir. Não raras vezes, pela manhã, sentia saudades de ver correr olongos como vira na infância, na província do Namibe; também por vezes, na praia, encontrando cavalos suados se detinha, de olhos a quererem fechar, saboreando o odor forte a pêlo de cavalo suado. Se feliz ou em vésperas de viajar, sonhava com borboletas brancas ou amarelas, e não procurava interpretar o sonhado. Há anos que fizera as pazes com os animais, incluindo a espécie dengosa dos gatos, à qual ele mesmo infligira uma baixa mortal. Os gatos, essencialmente os gatos, haviam-no reaproximado dos bichos.
Foi depois da libélula que reparou na mulher encostada ao seu portão, de olhos fechados, pareceu-lhe, a ouvir a música de Adriana: «tenho por princípios nunca fechar portas, mas... como mantê-las abertas, o tempo todo...»
Descruzou as pernas; lentamente as desceu da outra cadeira; enfiou as sandálias. Andando, mirava a tranquila libélula caminhando sobre as suas letras, sobre o cheiro da sua tinta 971 violet. Era tinta um tanto pegajosa, exigia mesmo um ritmo acelerado de escrita pois, em contacto com o ar, era veloz em solidificar. Mas a libélula, pouco curiosa, não chegaria ao frasco, não beberia. Um degrau, dois. Está junto ao portão e a mulher, ao contrário do que ele desejava, não abriu os olhos. Mas falou.
– Desculpe interrompê-lo...
Nem foi susto nem foi coisa de se descrever. Simplesmente o doutor não contava com aquela noção de proximidade.
– Reconheço o cheiro da tinta... O senhor escreve com uma pena?
– Não... Isto é... Bom, é uma espécie de pena.
O portão estava destrancado. Ele fez menção de o abrir, ela abriu os olhos, afastou-se ligeiramente das grades.
– Desculpe interrompê-lo, mas estou com muita sede – ela, talvez esperando que o doutor revelasse se desculpava ou não a intromissão, se havia alterado o seu humor.
O portão foi aberto pela mão certeira do doutor, enquanto a outra executava um gesto afável que a elucidou. Aquele homem não era facilmente perturbável. «Lá mesmo esqueci que o destino, sempre me quis só...» – cantava Adriana.
– Água ou refrigerante? – o doutor.
– Água, por favor.
A mulher viu a libélula parada. Tinha a cor demasiado viva para estar morta ou embalsamada, mas era totalmente imune ao vento que baloiçava as folhas de papel. Aproximou-se da mesa sem se sentar – a mulher. Por curiosidade olhou as letras sobre o branco, não no intuito de ler a composição, mas pelo hábito de apreciação estética da ortografia masculina. Era, viu depois, uma «espécie de pena», como lhe dissera o doutor, a que havia produzido aqueles gatafunhos encantadores. Não resistiu e chegou a mão perto: parecia cristal.
– É de vidro. Vidro mesmo. Não é bonita? – o doutor.
– Muito... É uma pena muito especial – a mulher.
A água, num copo normal, chegou-lhe às mãos. O doutor entretanto pousou o jarro no lado longínquo da mesa, sem perturbar a libélula. Convidou a mulher a sentar-se.
– Obrigado. O senhor deve estranhar, não?
– Estranhar?
– Pedirem-lhe água. Já ninguém toca às campainhas para pedir água, não é?
– É. A senhora não é de cá, pois não?
– Não.
A mulher serviu-se novamente. Bebia devagar, como convinha.
– Contava uma avó minha que, certa ocasião, em Silva Porto, um senhor lhe entrou pela casa adentro cheio de sede e lhe pediu água. A minha avó voltou à sala com um jarro de água muito fresca e assistiu-o beber três copos de água de seguida, sem parar.
– Foi?
– Foi. O senhor só teve tempo de lhe devolver o jarro, pois o copo partiu-se enquanto ele tombava no chão. Morreu ali mesmo, sabe? Desde então a minha avó vivia a contar esta estória, de resto, verdadeira, pois foi-me confirmada pelo meu avô – terminou o doutor.
– Não me assuste.
– Não foi para assustá-la, desculpe.
– E o que lhe disse o seu avô?
– Sabe, o meu avô era um homem de invulgar humor e sensibilidade. Em criança confirmou-me toda a estória e por fim disse-me: esse homem nem agradeceu a água à tua avó.
A mulher pousou o copo, respirou fundo.
– Sabe porquê que pedi água aqui na sua casa?
– Não.
– Por causa da música... Esta voz tão doce.
– Adriana.
– Como?
– Adriana Calcanhoto, cantora brasileira.
– É poeta?
– Também.
– Não... O senhor. O senhor é poeta?
– Ah, eu! Não, sou médico. E a senhora?
– Eu estou cá de férias.
A libélula progrediu no terreno. Finalmente mexeu-se, mas caminhando.
Na expressão de ambos era visível o espanto de duas crianças que atentas e boquiabertas assistissem, de repente, ao movimento gracioso de uma pedra. A libélula caminhou em direcção ao objecto. Num breve sacudir de asas saltou e voltou a estar quieta – uma guerreira demarcando o território conquistado. «E a greve entre as estrelas só para mim», a cantora progredia na varanda, na tarde.
O objecto era uma espessa redoma de vidro, certamente cara, que protegia uma pedra minúscula, cinzenta, banal. Uma pedra pequenina, era o máximo que se poderia dizer. Nem graciosa, nem peculiar, nem mesmo exótica ou atraente. Era uma pedra brutalmente vulgar. A instalação, contudo, valorizava a pedra.
– Julgo que o valor dessa pedra não pode ser medido pela sua aparência. É assim?
– Sim.
– Mas esta redoma parece muito bem trabalhada...
O doutor, num gesto resoluto, abanou a libélula – uma surpresa para a mulher e para a libélula. O insecto voltou a pousar sobre as letras. A pedra e a sua redoma foram arremessadas ao chão. A mulher não teve tempo de invocar um susto. O objecto bateu ruidosamente no chão por duas vezes e, após rolar alguns centímetros, terminou a digressão. O doutor pegou no objecto e voltou a pousá-lo sobre a mesa, ao pé das letras, dos papéis, da libélula. O insecto, num breve aspergir de asas, realcançou o seu posto.
– Nem todo o vidro é frágil, dizia o meu avô. Esta redoma é muito boa para proteger objectos valiosos.
A mulher voltou a sentir sede mas não quis incomodar.
– Uma oferta?
– Sim, uma oferta muito especial, muito sincera.
– Os médicos recebem muitas ofertas?
– Algumas, é uma maneira das pessoas expressarem carinho e gratidão.
E calou-se.
A mulher não queria partir mas julgou estar a forçar o momento. O doutor mantivera-se calado por mais de cinco minutos. À mulher pareceu justo que fosse sua a iniciativa de partir. A música parecia terminar e, a voz, era uma voz difícil de recordar no ouvido da memória.
– Adriana, disse?
– Adriana Calcanhoto. Brasileira.
– Muito obrigada pela água.
– De nada. Já sabe, beba sempre devagar.
– E agradeço antes de morrer!
O doutor quase sorriu. Os lábios contorceram-se; apenasmente uma tentação de sorriso. Talvez.
O portão foi aberto. A mulher, pegando propositadamente nas grades reconheceu a sensação de frieza na pele.
– Sabe, foi num domingo – iniciou o doutor. – Fui chamado à frente de combate e ninguém queria operar o homem: tinha uma espécie de explosivo preso à perna. Era uma operação muito delicada, ainda hoje penso nisso. Tive que fazer tudo muito devagar, enquanto o homem sofria com as dores, e ambos tínhamos que ser pacientes. Quase no fim, o soldado disse-me: deixa-me morrer, tou muito cansado já. Eu respondi: já te deixo morrer, deixa-me só salvar-te primeiro.
– Ele morreu?
– Não. A operação correu bem. Ele, no fim, quis dar-me uma prenda. Como não trazia nada, descalçou a bota e disse: agora já sei porquê que a pedra anda a me incomodar há dois dias. Toma lá, doutor, só pra não esquecermos esta nossa conversa de hoje. Você ficas com a pedra, eu fico com a cicatriz.
O portão fechou-se. A sede tinha passado. A mulher, caminhando lentamente pelo passeio, entendeu que era a pedra que valorizava a instalação. Ouviu passos. A música recomeçou: «minha música quer estar além do gosto, não quer ter rosto, não quer ser cultura.»
Entre duas folhas acastanhadas – numa janela de poeira – a mulher viu: a libélula, parada, ondululava o corpo. Fosse uma dança. Sob as suas patas, a pedra brutalmente vulgar repousava. Entre a memória do homem e a redoma inquebrantável de vidro.

Ondjaki, e se amanhã o medo


Um pouco de silêncio

Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.
Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam connosco nem nos interessam.
Não há perdão nem amnistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço da sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.
O normal é ser actualizado, produtivo e bem informado. É indispensável circular, ser bem-relacionado. Quem não corre com a manada, praticamente nem existe, se não tomar cuidado, põem-no numa jaula: um animal estranho.
Pressionados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou por trilhos determinadas – como hamsters que se alimentam da sua própria agitação.
Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo ameaça quem apanha um susto de cada vez que examina a sua alma.
Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não «se arranjou» ninguém – como se a amizade ou o amor se «arranjasse» numa loja.
Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Pensamos logo em depressão: quem sabe terapia e antidepressivos? Uma criança que não brinca ou salta ou participa de actividades frenéticas está com algum problema.
O silêncio assusta-nos por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incómodas e mal--resolvidas, ou se observa outro ângulo de nós mesmos. Damo-nos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre a casa, o trabalho e o bar, a praia ou o campo.
Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo para além desse que paga contas, faz amor, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais os seus desejos e medos, os seus projectos e sonhos?
No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos a casa e ligamos a televisão antes de largarmos a carteira ou a pasta. Não é para assistirmos a um programa: é pela distracção.
O silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de vermos quem – ou o que – somos, adiamos o confronto com a nossa alma sem máscaras.
Mas, se aprendermos a gostar um pouco de sossego, descobrimos – em nós e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente negativas.
Nunca esqueci a experiência de quando alguém me pôs a mão no ombro de criança e disse:
— Fica quietinha um momento só, escuta a chuva a chegar.
E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela nos refazemos para voltarmos mais inteiros ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.
Então, por favor, dêem-me isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito para além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.

Lya Luft
Pensar é trangredir
Lisboa, Presença, 2005

08/12/2009

A história dos aparecidos


É uma verdade: os mortos não devem aparecer, saltar a fronteira do mundo deles. Só vêm desorganizar a nossa tristeza. Já sabemos com certeza: o tal desapareceu. Consolamos as vivas, as lágrimas já deitámos, completas.
Ao contrário, há desses mortos que morreram e teimam em aparecer. Foi o que aconteceu naquela aldeia que as águas arrancaram da terra. As cheias levaram a aldeia, puxada pelas raízes. Nem ficou a cicatriz do lugar. Salvaram-se os muitos. Desapareceram Luís Fernando e Aníbal Mucavel. Morreram por dentro da água, pescados pelo rio furioso. A morte deles era uma certeza quando uma tarde apareceram mais outra vez.
Os vivos perguntaram muita coisa. Assustados, chamaram os milícias. Compareceu Raimundo que usava a arma como se fosse enxada. Estava a tremer e não encontrou outras palavras:
- Guia de marcha.
- Você está maluco, Raimundo. Baixa lá essa arma.
O milícia ganhou coragem quando ouviu a voz dos defuntos. Mandou que recuassem.
- Vão donde que vieram. Não adianta tentarem alguma coisa: serão rechaçados.
A conversa não se resolvia. Surgiu Estevão, responsável da vigilância. Luís e Aníbal foram autorizados a entrar para se explicarem às autoridades.
- Vocês já não são contados. Vao morar onde?
Os aparecidos estavam magoados com a maneira como eram recebidos.
- Fomos levados no rio, aguámos sem saber onde e agora vocês nos tratam como infiltrados?
- Espera, vamos falar com o chefe dos assuntos sociais. Ele é que tem a competência do vosso assunto.
Aníbal ainda tristeceu mais. Agora somos assunto? Uma pessoa não é um divórcio, um milando. Não é que tinham um problema: era a vida inteira que faltava resolver.
O responsável veio. Estava gordado, a barriga curiosa, espreitando na balalaica. Foram cumprimentados com o respeito devido aos defuntos. O responsável explicou as dificuldades e o peso deles, mortos de regresso imprevisto.
- Olha: mandaram os donativos. Veio a roupa das calamidades, chapas de zinco, muita coisa. Mas vocês não estão planificados.
O Aníbal ficou nervoso com as contas de que eram excluídos:
- Como não estamos? Vocês riscam a pessoa assim qualquer maneira?
- Mas vocês morreram, nem sei como que estão aqui.
- Morremos como? Não acredita que estamos vivos?
- Talvez, estou confuso. Mas este assunto de vivo não-vivo é melhor falarmos com os outros camaradas.
E foram para a sede. Explicaram a sua história mas desconseguiram de apresentar provas da sua verdade. Um homem arrastado como peixe só procura o ar, não se interessa de mais nada.
O responsável consultado concluiu, rápido:
- Não interessa se morreram completamente. Se estão vivos ainda pior. Era melhor ter aproveitado a água para morrerem-se.
O outro, o da balalaica em luta com os botões, acrescentou:
- Não podemos consultar as estruturas do distrito, dizer que já apareceram fantasmas. Vão responder que estamos envolvidos com o obscurantismo. Mesmo podemos ser punidos.
- É verdade - confirmava outro. - Já assistimos um curso da política. Vocês são almas, não são a realidade materialista como eu e todos que estão connosco na nova aldeia.
O gordo sublinhava:
- Para abastecer a vocês temos pedir reforço das quotas. Como vamos justificar? Que temos almas para dar comida?
E assim ficaram sem mais conversa.
Luís e Aníbal saíram da sede, confusos e abatidos. Lá fora, uma multidão curiosa contemplava-os. Os dois aparecidos decidiram procurar Samuel, o professor.
Samuel recebeu-os em casa. Explicou-lhes a razão de eles estarem fora das contas do abastecimento.
- Os responsáveis daqui não são como das outras aldeias. Fazem candonga com os produtos. São distribuídos primeiro às famílias deles. Às vezes dizem que não chega enquanto na casa deles está cheio.
- Porquê não denunciam?
Samuel encolheu os ombros. Soprou no fogo para dar fora ao lume. Flores vermelhas das chamas espalharam o perfume da luz no pequeno quarto.
- Olha, vou dizer um segredo. Algum queixou-se às estruturas superiores. Dizem que esta semana há-de vir uma comissão saber a verdade das queixas. Vocês devem aproveitar essa comissão para expor o vosso caso.
Samuel ofereceu a casa e a comida, até que chegasse a comissão de inquérito.
Anbal sentou o pensamento nas traseiras da casa. Longamente contemplou os próprios pés e murmurou baixinho como se falasse com eles:
- Meu Deus, como somos injustos com nosso corpo. De quem nos esquecemos mais? É dos pés, coitados, que rastejam para nos suportar. São eles que carregam tristeza e felicidade. Mas como estão longe dos olhos, deixamos os pés sozinhos, como se não fossem nossos.
«Só por estarmos em cima, calcamos os nossos pés. Assim começa a injustiça neste mundo. Agora, neste caso, os pés sou eu e Luís, desimportados, caídos na poeira do rio.
Luís chegou-se com menos luz que uma sombra e pediu-lhe explicação daquele murmúrio.
Anbal contou-lhe a descoberta dos pés.
- Era melhor se pensasse uma maneira para mostrar essa gente que, afinal das contas, somos alguns.
- Sabe o quê? Antigamente o mato, tão vazio de gente, me fazia medo. Pensava só podia viver nas pessoas, vizinho de gente. Agora, penso o contrário. Já quero voltar no lugar dos bichos. Tenho saudades de ser ninguém.
- Cala-se, você. Essa conversa já parece dos espíritos.
Calaram-se os dois, receosos da sua condição trémula. Muitas vezes mexiam nas coisas, raspavam no chão como se quisessem confirmar a matéria do seu corpo. Luís perguntou:
- Ser que verdade? Não ser que somos mesmo falecidos? Pode ser eles têm razão. Ou talvez estamos nascer outra vez.
- Pode ser, meu irmão. Pode ser tudo isso. Mas o que não está certo serem acusados, serem esquecidos, riscados, indeferidos.
Era a voz de Samuel, o professor. Aproximou-se trazendo na mão algumas mangas que distribuiu pelos dois candidatos à existência. Cascaram os frutos, enquanto o professor continuava:
- Não é justo esquecerem que vocês, vivos ou mortos, fazem parte da nossa aldeia. Afinal, quando foi preciso defender a aldeia dos bandidos, vocês não pegaram as armas?
- E verdade. Até eu sofro desta cicatriz da bala do inimigo. Aqui.
Aníbal erguia-se para apontar a prova do sofrimento, um risco fundo que a morte escrevera nas costas.
- Todos sabem que vocês merecem ser contados. É medo, só, que lhes faz calar, aceitar mentiras.
De pé, como que estava, Aníbal espremeu a raiva nos seus punhos. A manga gotejou e o sumo doce-triste caiu.
- Você, Samuel, sabe as coisas da vida. Não acha que é melhor sairmos, escolhermos outro lugar?
- Não, Aníbal. É melhor ficar. Hão-de conseguir, tenho a certeza. E depois, um homem que abandona um sítio porque foi derrotado, esse homem já não vive. Não tem mais lugar para começar.
- Afinal, Samuel? Você também não acredita que somos vivos?
- Cala-te, Luís. Deixa o Samuel nos conselhar.
- Esses que vos complicam hão-de cair. São eles que não pertencem a nós, não são vocês. Fiquem, meus amigos. Ajudam-nos no nosso problema. Nós também não somos considerados: somos vivos mas é como se tivssemos menos vida, como se fôssemos metades. Isso não queremos.
Luís levantou-se e espreitou no escuro. Andou em círculo e regressou ao centro, aproximando-se do professor:
- Samuel, não tens medo?
- Medo? Mas, essa gente tem que cair. Não foi a razão da luta acabar com esta porcaria de gente?
- Não estou a falar disso - respondeu Luís. - Não tens medo que nos apanhem aqui contigo?
- Com vocês? Mas, afinal, vocês existem? Não posso estar com quem não existe.
Riram-se. Levantaram-se e separaram-se pelas duas portas da casa. Anbal, antes de entrar:
- Eh, Samuel! A luta continua!

A comissão chegou três dias depois. Era acompanhada por um jornalista que se interessou pela história de Luís e Aníbal. Prometeu-lhe mexer no problema. Se as coisas não se resolvessem, ele publicaria no jornal e os responsáveis da aldeia seriam desmascarados.
A comissão trabalhou durante dois dias. Convocaram então uma assembleia geral dos aldeões. O recinto ficou cheio vieram todos saber das novidades. O chefe da comissão anunciou as solenes conclusões:
- Estudámos com muita atenção o problema dos dois elementos que deram aparecimento na aldeia. Chegámos à seguinte conclusão oficial: os camaradas Luís Fernando e Aníbal Mucavel devem ser considerados populações existentes.
Aplausos. A assembleia parecia mais aliviada que contente. O orador prosseguiu:
- Mas os dois aparecidos bom serem avisados que não devem repetir essa saída da aldeia ou da vida ou seja lá de onde. Aplicamos a política de clemência, mas não iremos permitir a próxima vez.
A assembleia aplaudiu agora com convicção.
Ao outro dia, Luís Fernando e Aníbal Mucavel começaram a tratar dos documentos dos vivos.

Mia Couto, In Vozes Anoitecidas


A história dos aparecidos


É uma verdade: os mortos não devem aparecer, saltar a fronteira do mundo deles. Só vêm desorganizar a nossa tristeza. Já sabemos com certeza: o tal desapareceu. Consolamos as vivas, as lágrimas já deitámos, completas.
Ao contrário, há desses mortos que morreram e teimam em aparecer. Foi o que aconteceu naquela aldeia que as águas arrancaram da terra. As cheias levaram a aldeia, puxada pelas raízes. Nem ficou a cicatriz do lugar. Salvaram-se os muitos. Desapareceram Luís Fernando e Aníbal Mucavel. Morreram por dentro da água, pescados pelo rio furioso. A morte deles era uma certeza quando uma tarde apareceram mais outra vez.
Os vivos perguntaram muita coisa. Assustados, chamaram os milícias. Compareceu Raimundo que usava a arma como se fosse enxada. Estava a tremer e não encontrou outras palavras:
- Guia de marcha.
- Você está maluco, Raimundo. Baixa lá essa arma.
O milícia ganhou coragem quando ouviu a voz dos defuntos. Mandou que recuassem.
- Vão donde que vieram. Não adianta tentarem alguma coisa: serão rechaçados.
A conversa não se resolvia. Surgiu Estevão, responsável da vigilância. Luís e Aníbal foram autorizados a entrar para se explicarem às autoridades.
- Vocês já não são contados. Vao morar onde?
Os aparecidos estavam magoados com a maneira como eram recebidos.
- Fomos levados no rio, aguámos sem saber onde e agora vocês nos tratam como infiltrados?
- Espera, vamos falar com o chefe dos assuntos sociais. Ele é que tem a competência do vosso assunto.
Aníbal ainda tristeceu mais. Agora somos assunto? Uma pessoa não é um divórcio, um milando. Não é que tinham um problema: era a vida inteira que faltava resolver.
O responsável veio. Estava gordado, a barriga curiosa, espreitando na balalaica. Foram cumprimentados com o respeito devido aos defuntos. O responsável explicou as dificuldades e o peso deles, mortos de regresso imprevisto.
- Olha: mandaram os donativos. Veio a roupa das calamidades, chapas de zinco, muita coisa. Mas vocês não estão planificados.
O Aníbal ficou nervoso com as contas de que eram excluídos:
- Como não estamos? Vocês riscam a pessoa assim qualquer maneira?
- Mas vocês morreram, nem sei como que estão aqui.
- Morremos como? Não acredita que estamos vivos?
- Talvez, estou confuso. Mas este assunto de vivo não-vivo é melhor falarmos com os outros camaradas.
E foram para a sede. Explicaram a sua história mas desconseguiram de apresentar provas da sua verdade. Um homem arrastado como peixe só procura o ar, não se interessa de mais nada.
O responsável consultado concluiu, rápido:
- Não interessa se morreram completamente. Se estão vivos ainda pior. Era melhor ter aproveitado a água para morrerem-se.
O outro, o da balalaica em luta com os botões, acrescentou:
- Não podemos consultar as estruturas do distrito, dizer que já apareceram fantasmas. Vão responder que estamos envolvidos com o obscurantismo. Mes-mo podemos ser punidos.
- É verdade - confirmava outro. - Já assistimos um curso da política. Vocês são almas, não são a realidade materialista como eu e todos que estão connosco na nova aldeia.
O gordo sublinhava:
- Para abastecer a vocês temos pedir reforço das quotas. Como vamos justificar? Que temos almas para dar comida?
E assim ficaram sem mais conversa.
Luís e Aníbal saíram da sede, confusos e abatidos. Lá fora, uma multidão curiosa contemplava-os. Os dois aparecidos decidiram procurar Samuel, o professor.
Samuel recebeu-os em casa. Explicou-lhes a razão de eles estarem fora das contas do abastecimento.
- Os responsáveis daqui não são como das outras aldeias. Fazem candonga com os produtos. São distribuídos primeiro às famílias deles. Às vezes dizem que não chega enquanto na casa deles está cheio.
- Porquê não denunciam?
Samuel encolheu os ombros. Soprou no fogo para dar fora ao lume. Flores vermelhas das chamas espalharam o perfume da luz no pequeno quarto.
- Olha, vou dizer um segredo. Algum queixou-se às estruturas superiores. Dizem que esta semana há-de vir uma comissão saber a verdade das queixas. Vocês devem aproveitar essa comissão para expor o vosso caso.
Samuel ofereceu a casa e a comida, até que chegasse a comissão de inquérito.
Anbal sentou o pensamento nas traseiras da casa. Longamente contem-plou os próprios pés e murmurou baixinho como se falasse com eles:
- Meu Deus, como somos injustos com nosso corpo. De quem nos esque-cemos mais? É dos pés, coitados, que rastejam para nos suportar. São eles que carregam tristeza e felicidade. Mas como estão longe dos olhos, deixamos os pés sozinhos, como se não fossem nossos.
«Só por estarmos em cima, calcamos os nossos pés. Assim começa a injustiça neste mundo. Agora, neste caso, os pés sou eu e Luís, desimportados, caídos na poeira do rio.
Luís chegou-se com menos luz que uma sombra e pediu-lhe explicação daquele murmúrio.
Anbal contou-lhe a descoberta dos pés.
- Era melhor se pensasse uma maneira para mostrar essa gente que, afinal das contas, somos alguns.
- Sabe o quê? Antigamente o mato, tão vazio de gente, me fazia medo. Pensava só podia viver nas pessoas, vizinho de gente. Agora, penso o contrário. Já quero voltar no lugar dos bichos. Tenho saudades de ser ninguém.
- Cala-se, você. Essa conversa já parece dos espíritos.
Calaram-se os dois, receosos da sua condição trémula. Muitas vezes mexiam nas coisas, raspavam no chão como se quisessem confirmar a matéria do seu corpo. Luís perguntou:
- Ser que verdade? Não ser que somos mesmo falecidos? Pode ser eles têm razão. Ou talvez estamos nascer outra vez.
- Pode ser, meu irmão. Pode ser tudo isso. Mas o que não está certo serem acusados, serem esquecidos, riscados, indeferidos.
Era a voz de Samuel, o professor. Aproximou-se trazendo na mão algumas mangas que distribuiu pelos dois candidatos à existência. Cascaram os frutos, enquanto o professor continuava:
- Não é justo esquecerem que vocs, vivos ou mortos, fazem parte da nossa aldeia. Afinal, quando foi preciso defender a aldeia dos bandidos, vocês não pegaram as armas?
- E verdade. Até eu sofro desta cicatriz da bala do inimigo. Aqui.
Aníbal erguia-se para apontar a prova do sofrimento, um risco fundo que a morte escrevera nas costas.
- Todos sabem que vocs merecem ser contados. É medo, só, que lhes faz calar, aceitar mentiras.
De pé, como que estava, Aníbal espremeu a raiva nos seus punhos. A manga gotejou e o sumo doce-triste caiu.
- Você, Samuel, sabe as coisas da vida. Não acha que é melhor sairmos, escolhermos outro lugar?
- Não, Aníbal. É melhor ficar. Hão-de conseguir, tenho a certeza. E depois, um homem que abandona um sítio porque foi derrotado, esse homem já não vive. Não tem mais lugar para começar.
- Afinal, Samuel? Você também não acredita que somos vivos?
- Cala-te, Luís. Deixa o Samuel nos conselhar.
- Esses que vos complicam hão-de cair. São eles que não pertencem a nós, não são vocês. Fiquem, meus amigos. Ajudam-nos no nosso problema. Nós também não somos considerados: somos vivos mas é como se tivssemos menos vida, como se fôssemos metades. Isso não queremos.
Luís levantou-se e espreitou no escuro. Andou em círculo e regressou ao centro, aproximando-se do professor:
- Samuel, não tens medo?
- Medo? Mas, essa gente tem que cair. Não foi a razão da luta acabar com esta porcaria de gente?
- Não estou a falar disso - respondeu Luís. - Não tens medo que nos apanhem aqui contigo?
- Com vocês? Mas, afinal, vocês existem? Não posso estar com quem não existe.
Riram-se. Levantaram-se e separaram-se pelas duas portas da casa. Anbal, antes de entrar:
- Eh, Samuel! A luta continua!

A comissão chegou três dias depois. Era acompanhada por um jornalista que se interessou pela história de Luís e Aníbal. Prometeu-lhe mexer no proble-ma. Se as coisas não se resolvessem, ele publicaria no jornal e os responsáveis da aldeia seriam desmascarados.
A comissão trabalhou durante dois dias. Convocaram então uma assem-bleia geral dos aldeões. O recinto ficou cheio vieram todos saber das novidades. O chefe da comissão anunciou as solenes conclusões:
- Estudámos com muita atenção o problema dos dois elementos que deram apareci-mento na aldeia. Chegámos à seguinte conclusão oficial: os camaradas Luís Fernando e Aníbal Mucavel devem ser considerados populações existentes.
Aplausos. A assembleia parecia mais aliviada que contente. O orador prosseguiu:
- Mas os dois aparecidos bom serem avisados que não devem repetir essa saída da aldeia ou da vida ou seja lá de onde. Aplicamos a política de clemência, mas não iremos permitir a próxima vez.
A assembleia aplaudiu agora com convicção.
Ao outro dia, Luís Fernando e Aníbal Mucavel começaram a tratar dos documentos dos vivos.

Mia Couto, In Vozes Anoitecidas


A fogueira

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Vozes Anoitecidas - A Fogueira - Óleo S/ Tela - 80x80

A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem sadio no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados.
A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.
O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso.
“Meu marido está diminuir”, pensou ela. “É uma sombra”.
Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:
- Estou a pensar.
- E o quê, marido?
- Se tu morres como que eu, sozinho, doente e sem as foras, como que eu vou-lhe enterrar?
Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:
- Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. E melhor começar já a abrir a tua cova, mulher.
A mulher, comovida, sorriu:
- Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida.
O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião:
- Vou ver se encontro uma pá.
- Onde podes levar uma pá?
- Vou ver na cantina.
- Vais daqui até na cantina? É uma distância.
- Hei-de vir da parte da noite.
Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou.
- Então, marido?
- Foi muito caríssima - e levantou a pá para melhor a acusar.
- Amanhã de manhã começo o serviço de covar.
E deitaram-se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu-lhe o adormecer:
- Mas, marido...
- Diz lá.
- Eu nem estou doente.
- Deve ser que estás. Você és muito velha.
- Pode ser - concordou ela. E adormeceram.
Ao outro dia, de manhã, ele olhava-a intensamente.
- Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é maior que eu pensava.
- Nada, sou pequena.
Ela foi lenha e arrancou alguns toros.
- A lenha está para acabar, marido. Vou no mato levar mais.
- Vai, mulher. Eu vou ficar covar seu cemitério.
Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:
- Olha, velho. Estou pedir uma coisa...
- Queres o quê?
- Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho.
- Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra.
Durante duas semanas o velho dedicou-se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram.
- Não fala asneiras, vai ser dado o castigo - aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra.
- Sai da chuva, marido. Você não aguenta, assim.
- Não barulha, mulher - ordenou o velho. De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele se a chuva.
No dia seguinte, o velho foi acordado pelos seus próprios ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido.
- Estou a doer-me, mulher. Já não aguento levantar.
A mulher virou-se para ele e limpou-lhe o suor do rosto.
- Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste.
- Não mulher. Foi que dormi perto da fogueira.
- Qual fogueira?
Ele respondeu um gemido. A velha assustou-se: qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido?
Levantou-se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou-se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar.
- Marido, não vai assim. Come primeiro.
Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu:
- Você está esquerdear, direitar. Descansa lá um bocado.
Ele estava já dentro do buraco e preparava-se para retomar a obra. A febre castigava-lhe a teimosia, as tonturas danando com os lados do mundo. De repente, gritou-se num desespero:
- Mulher, ajuda-me.
Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer.
- Estás muito doente.
Puxando-o pelos braos ela trouxe-o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte um simples deslizar, um recolher de asas. Não um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
- Mulher - disse ele com voz desaparecida. - Não lhe posso deixar assim.
- Estás a pensar o quê?
- Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar-te.
- É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. E uma pena ficar assim.
- Sim, hei-de matar você; hoje no, falta-me o corpo.
Ela ajudou-o a erguer-se e serviu-lhe uma chávena de chá.
- Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.
O velho adormeceu, a mulher sentou-se porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu-se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou-se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu-se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar-se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. Os ruídos da manhã foram-na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho. Pediu à noite que ficasse para demorar o sonho, pediu com tanta devoção como pedira vida que não lhe roubasse os filhos.
Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar fora naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que ele estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.

O peixinho que descobriu o mar


Cristóbal nasceu num aquário. O mundo dele resumia-se a um pouco de água entre quatro paredes de vidro. Isso, alguma areia. Algas, pedras de diversos tamanhos, a miniatura em madeira de uma caravela naufragada. Ah! E trinta e sete outros peixinhos, quase todos irmãos de Cristóbal, ou primos, tios, parentes próximos. Havia ainda uma velha tartaruga, chamada Alice, que já vivia no aquário quando os avós de Cristóbal nasceram. Os peixes acreditavam que Alice vivia no aquário desde a criação do Universo e ela deixava que eles acreditassem naquilo.
Às vezes os peixes mais velhos contavam histórias que tinham escutado aos seus avós. Diziam que, para além das paredes do aquário, longe dali, havia água, tanta água que um peixe podia passar a vida inteira a nadar, sempre em linha recta, sem nunca bater de encontro a um vidro. A essa água imensa, onde tinham nascido os primeiros peixes, chamava-se Mar.
Os peixes falavam do Mar como quem fala de um sonho. Cristóbal tantas vezes escutou aquela história que um dia decidiu perguntar a Alice. A tartaruga era velhíssima, devia saber, tinha de saber. Encontrou-a a tomar sol em cima de uma pedra. Cristóbal prendeu a respiração, ergueu a cabeça acima da água, e fez-lhe a pergunta. Alice torceu a boca numa careta de troça:
- Disparate: o Mar não existe! Não existe nada para além daquelas quatro paredes de vidro. O universo inteiro somos nós.
Cristóbal foi-se embora pensativo. Sempre que ouvia falar no mar o aquário parecia-lhe mais pequeno. Não achava possível que os peixes, seus avós, tendo vivido sempre dentro de um aquário, tivessem conseguido inventar uma coisa tão grande como o Mar. Ele tinha de saber a verdade. Ele queria saltar as paredes de vidro e ir à procura do Mar. Os outros peixinhos não compreendiam a angústia de Cristóbal:
- Não estás bem aqui? – perguntavam-lhe -, não tens tido tudo o que precisas?
Cristóbal olhava para eles, aflito, incapaz de explicar aquela vontade de partir que sentia crescer, todos os dias, dentro do seu coração e o empurrava contra as paredes do aquário, tentando espreitar, para além delas, um outro mundo. O que via, porém, eram os seus pró-prios olhos reflectidos no vidro gelado.
Uma manhã, muito cedo, ainda todos os peixes dormiam, Cristóbal encheu-se de coragem, tomou balanço, e saltou. Percebeu imediatamente que o mundo não terminava no aquário. Percebeu também, assustadíssimo, que o resto do mundo era um lugar tão seco quanto a pedra onde Alice costumava descansar. Percebeu isso tarde demais.
Estava estendido num chão de madeira e não conseguia respirar. Foi então que viu o gato. Ele não sabia o que era um gato. Nunca tinha visto nenhum. O gato, no entanto, sabia o que era um peixe. Os peixes, na opinião do gato, eram comida. Cristóbal viu o gato e gritou:
- Ajuda-me! Vou morrer!...
- Pois vais – disse o gato, que aliás, não era um gato, era uma gata, e por sinal lindíssima -, eu vou-te comer.
Cristóbal conseguia ver o aquário e do lado de lá do vidro os outros peixes. Mas eles não o podiam ver.
- Não me comas – pediu -, eu quero ver o Mar.
A gata olhou para ele admirada:
- O Mar? Pois tu nunca viste o Mar?
Cristóbal, com dificuldade, porque fora de água não conseguia respirar, contou-lhe a sua história. Verónica – era assim que se chamava a gata -, ficou com pena dele. Agarrou-o com a boca, cuidadosamente, para não o magoar, e colocou-o numa tigela com água.
- Vou-te ajudar –disse-lhe -, porque nunca conheci ninguém tão corajoso como tu.
Nessa tarde a gatinha saiu pelos telhados à procura de Nicolau, o albatroz, um pássaro enorme, bico largo e fundo, capaz de transportar lá dentro uma enorme quantidade de peixes. Nicolau, velho amigo, recebeu-a com alegria. Verónica contou-lhe a história de Cris-tóbal e pediu-lhe para levar o peixinho até ao mar. O albatroz achou a ideia um pouco estranha: afinal ele tirava os peixes do mar para os comer. Mas quando Verónica o apresen-tou a Cristóbal depressa se convenceu. Colocou então o peixinho dentro do bico, com uma larga porção de água, para que ele não sentisse dificuldades em respirar, e levantou voo.
Voavam há quase uma hora quando Nicolau abriu o bico e disse a Cristóbal para espreitar. Cristóbal ergueu a cabeça e o que viu deixou-o mudo de espanto. O Mar brilhava imenso à sua frente. Era muita água. Havia muitíssimo mais água ali do que dentro do seu aquário, muito, muito mais, muito mais do que ele se tinha alguma vez atrevido a imaginar. Nicolau abriu as grandes asas e começou a descer em direcção ao imenso azul, lá em baixo, ao salgado rumor das ondas. Gritou:
- Adeus, amigo. Boa sorte!
Sacudiu o bico e soltou Cristóbal! O peixinho olhou para cima, antes de mergulhar nas águas livres do Mar, e ainda o viu agitando as asas, adeus, adeus, e desaparecer entre as nuvens altas.
Longe dali, Verónica, a gata, pensava em Cristóbal. A partir daquela data ela nunca mais foi capaz de comer peixe. Coitada, hoje, só come vegetais.


José Eduardo Agualusa

07/12/2009

O voo do Jika

os+da+minha+rua.jpg (image)
[os+da+minha+rua.jpg]

O Jika era o mais novo da minha rua. Assim: o Tibas era o mais velho, depois havia o Bruno Ferraz, eu e o Jika. Nós até às vezes lhe protegíamos doutros mais-velhos que vinham fazer confusão na nossa rua.
O almoço na minha casa era perto do meio-dia. Às vezes quase à uma. Ao meio-dia e quinze, o Jika tocava à campainha.
– O Ndalu tá? – perguntava à minha irmã ou ao camarada António.
– Sim, tá.
– Chama só, faz favor.
Eu interrompia o que estivesse a fazer, descia.
– Mó Jika, comé?
– Ndalu, vinha te perguntar uma coisa.
– Diz.
– Hoje num queres me convidar pra almoçar na tua casa?
– Deixinda ir perguntar à minha mãe.
Entrei. O Jika ficou ansioso na porta, aguardando a resposta. Quase sempre a minha mãe dizia sim. Só se fosse mesmo maka de pouca comida, ou muita gente que já estava combinada para o almoço. Se a avó Chica viesse, ia trazer também a Helda, e assim já não ia dar.
Mas normalmente a minha mãe dizia mesmo «sim». E ficava a rir.
– A minha mãe disse que podes.
– Ah é? – ele pareceu surpreendido. – E a que horas é que vocês vão almoçar?
– Ao meio-dia e meia, Jika.
– Então vou pedir na minha mãe.
Deixei a porta aberta. O Jika devia voltar sem demora quase nenhuma. Gritou contente, cá de baixo, na direcção da janela do quarto da mãe dele:
– Maaaaãe, a tia Sita me convidou pra almoçar na casa dela. Posso?
– Podes. Mas vem mudar essa camisa suada.
O Jika deu uma esquindiva, fingiu que já tinha mudado, veio a correr numa transpiração respirada. Contente. Olhos do miúdo que ele era. Fosse o melhor programa da semana dele. E eu, mesmo miúdo candengue, fiquei a pensar nas razões do Jika não gostar nada de almoçar na própria casa dele.
O Jika estava habituado a muita gasosa. Nesse tempo, se houvesse gasosa na minha casa era para dividir. Como nós éramos três, eu e duas irmãs, quando o Jika vinha almoçar, até a divisão corria melhor. Ele por vezes queria fugir desse ritual:
– Tia Sita, posso beber uma gasosa sozinho?
– Sozinho, bebes na tua casa – a minha mãe respondeu.
– Aqui divide-se.
Depois do almoço, o Jika disse que ia à casa dele buscar «uma coisa». Eu fiquei à espera, no portão aberto. Prometeu não demorar. Voltou com a tal coisa escondida debaixo do braço, e entrámos rapidamente na minha casa. Subimos ao primeiro andar, fomos até ao quarto da minha irmã Tchi, e saltámos da varanda para uma espécie de telhado. Aproximámo-nos da berma. Lá
em baixo estava a relva verde do jardim. O Jika abriu um muito, muito pequenino guarda-chuva azul.
– Põe a mão aqui – ensinou-me. – Agora podemos saltar.
– Tens a certeza? – olhei para baixo.
– Vamos só.
Saltámos.
A infância é uma coisa assim bonita: caímos juntos na relva, magoamo-nos um bocadinho, mas sobretudo rimos. O Jika teve outra ideia.
– Calma só, mô Ndalu. Vou na minha casa buscar um maior.
– Não, Jika, desculpa lá. Vais saltar sozinho, eu já
num vou saltar mais de guarda-chuva.
– Nem num bem grande que tenho, daqueles da praia, anti-sol e tudo, colorido tipo arco-íris?
– Nem esse!
O Jika ficou desanimado. Sem outras propostas para brincadeiras perigosas, decidiu ir para casa. Ao cruzar o portão, falou ainda:
– Posso te perguntar uma coisa?
– Diz, Jika.
– Amanhã num queres me convidar pra almoçar na tua casa?


Ondjaki (Angola), in Os da Minha Rua


06/12/2009

Tu és o Homem




DESEMPENHAREI agora o papel de Édipo, para o enigma de Rattleburgo. Expor-vos-ei, como somente eu posso fazê-lo, o segredo do maquinismo que efetuou o milagre de Rattleburgo o autêntico, o admitido, o indisputado e indisputável milagre que pôs definitivamente fim à infidelidade entre os rattleburgueses, converteu à ortodoxia das vovós e de qualquer materialista que antes se aventurara a ser cético.
Este acontecimento, que seria triste discutir num tom de inoportuna leviandade, ocorreu no verão de 18... O Sr. Barnabé Shuttleworthy, um dos mais ricos e dos mais respeitáveis cidadãos do burgo, estivera desaparecido por vários dias, em circunstâncias que despertavam suspeitas de uma má acção. O Sr. Shuttleworthy se ausentara de Rattleburgo num sábado, de manhã, bem cedo, a cavalo, com a confessada intenção de ir à cidade de N***, a cerca de quinze milhas de distância, e de lá voltar na noite do mesmo
dia. Duas horas depois de sua partida, porém, seu cavalo voltou sem ele e sem os alforjes, que lhe tinham sido amarrados ao lombo, ao partir. O animal estava também ferido e coberto de lama. Estas circunstâncias suscitaram naturalmente. grande alarme entre os amigos do homem desaparecido, e quando se verificou, no domingo de manhã, que ele ainda não havia reaparecido, todo o burgo se ergueu para ir procurar seu corpo.
O primeiro e mais enérgico em organizar essa busca era o amigo do peito o Sr. Shuttleworthy, um tal Sr. Carlos Goodfellow, ou como era por todos chamado, "Carlito Goodfellow", ou "Carlito Velho Goodfellow". Ora, se se trata apenas de maravilhosa coincidência, ou se e que o próprio nome tem imperceptível efeito sobre o carácter, não fui capaz de certificar-me; mas é fato questionável que nunca houve ninguém chamado Carlito que não fosse um sujeito franco, valente, honesto, afável e cordial, com uma rica e clara voz, agradável de ouvir-se, e um olhar que parece encarar sempre a gente directamente como se dissesse: "Tenho uma consciência limpa, não tenho medo de homem nenhum e sou completamente incapaz de praticar uma acção indigna." E assim todos os alegres e descuidados artistas secundários do palco estão bem certos de ser chamados Carlos.
Ora, o "Carlito Velho Goodfellow", embora estivesse em Rattleburgo, não havia mais de seis meses ou por aí assim, e embora soubesse qualquer coisa a seu respeito antes que viesse estabelecer-se na vizinhança, não tivera dificuldade alguma em travar conhecimento com todas as pessoas respeitáveis do burgo. Nenhuma delas havia que não acreditasse piamente numa sua simples palavra, a qualquer momento; quanto às mulheres, não se pode dizer o que elas não teriam feito para obsequiá-lo. E tudo isso lhe vinha do fato de ter sido baptizado como Carlos e de possuir, em consequência, aquele rosto ingénuo, que é proverbialmente a "melhor carta de recomendação".
Já disse que o Sr. Shuttleworthy era um dos mais respeitáveis e indubitavelmente, o homem mais rico de Rattleburgo e que "Carlito o Goodfellow" estava em tão íntimas relações com ele como se fosse seu próprio irmão. Os dois velhos cavalheiros eram vizinhos de casas contíguas e, embora o Sr. Shuttleworthy raramente, ou jamais visitasse "Carlito Velho", nunca se soube que tivesse feito alguma refeição em sua casa; contudo, isso não impedia que os dois amigos fossem excessivamente íntimos, como justamente observei. Quanto a "Carlito Velho", nunca deixou passar um dia sem ir três ou quatro vezes ver como seu vizinho ia passando e as vezes ficava para almoçar ou para o chá, e quase sempre jantar. Coisa realmente bem difícil de averiguar seria a quantidade de vinho escorrupichada pelos dois camaradas numa reunião dessas. A bebida preferida de "Carlito Velho" era o Château Margaux e parecia confortar o coração do Sr. Shuttleworthy ver o amigo bebê-lo, como fazia, quartilho após quartilho. De modo que um dia, quando o vinho estava dentro e o juízo, como consequência natural, um tanto fora, disse ele a seu
companheiro, dando-lhe pancadinhas nas costas:
- Vou dizer-lhe o que é que você é, "Carlito Velho". Você é indubitavelmente o sujeito mais cordial que eu jamais encontrei desde de que nasci. E já que você gosta de beber vinho dessa maneira, muito me haveria de amaldiçoar se não lhe fizesse presente de uma grande caixa do Château Margaux.
- Diabos me levem! – exclamou o Sr. Shuttleworthy, que tinha o triste hábito de praguejar, embora raramente passasse de: "Diabos me levem!", "Que eu me dane”, ou "Com os seiscentos diabos!". - Diabos me levem -ele - se não mandar uma ordem para a cidade esta tarde pedindo uma caixa dupla do melhor que se possa encontrar, fazer presente dela a você. E mando mesmo! Você não diz uma só palavra agora: eu mando, é o que lhe digo, e não se fala mais nisso. E não se preocupe. Chegará às nossas mãos um destes belos dias, precisamente quando menos o esperarmos.
Menciono essa pequena amostra de liberalidade da parte do Sr. Shuttleworthy justamente para mostrar-vos quanta intimidade e compreensão existia entre os dois amigos.
Pois bem, na manhã do domingo em questão, quando se tornou claramente patente que algo de mau havia acontecido ao Sr. Shuttleworthy, jamais vi alguém tão profundamente abalado como "Carlito Velho Goodfellow". Quando soube, a princípio, que o cavalo voltado para casa sem seu dono e sem os alforjes, todo ensangüentado por um tiro de pistola, que atravessara simplesmente o peito do pobre animal, sem matá-lo; quando ouviu tudo isso, ficou pálido como se o homem desaparecido tivesse sido seu irmão querido ou seu pai, e tremia e se agitava todo, como se tivesse com um ataque de maleita.
A princípio sentia-se demasiado acabrunhado de tristeza para poder fazer qualquer coisa ou decidir qualquer plano de acção. Assim é que, durante muito tempo, tentou dissuadir os outros amigos do Sr. Shuttleworthy de provocar qualquer agitação em torno do assunto, achando melhor esperar-se, entrementes – digamos, uma semana ou duas, ou um mês, ou dois -, para ver se alguma coisa não se apresentaria ou se o Sr.
Shuttleworthy não voltaria de maneira natural e explicaria as razões de ter enviado seu cavalo na frente. Suponho que tendes muitas vezes observado esta disposição para contemporizar, ou para adiar, nas pessoas que sofrem qualquer pungente sofrimento. As forças de sua parecem cair em torpor, de maneira que têm elas horror de qualquer coisa que se pareça com acção e nada acham melhor no mundo que ficar quietamente na cama e "ninar sua dor", que dizem as velhas, isto é, ruminar as contrariedades.
O povo de Rattleburgo tinha, de fato, tão alta opinião da sabedoria e da discrição de "Carlito Velho" que a maior parte das pessoas se sentiu disposta a concordar com ele, e não agitar o caso, "até que alguma coisa se apresentasse", como tinha dito honesto cavalheiro. E eu acredito que, afinal, teria sido esta decisão geral, não fosse a interferência bem suspeitosa do sobrinho do Sr. Shuttleworthy, rapaz de costumes dissipados e, além disso, um tanto dotado de mau caráter. Esse sobrinho, cujo nome Pennifeather, não concordava absolutamente com aquela estória de ficar quieto", mas insistiu numa imediata busca do "cadáver do homem assassinado". Era esta a expressão que ele empregava.
O Sr. Goodfellow agudamente observou, no mesmo instante, que era singular, para não dizer mais . Essa observação de Carlito Velho, produziu também grande efeito sobre a multidão e alguém do grupo perguntou, muito intencionalmente, como era que o jovem Sr. Pennifeather se mostrava tão íntimo conhecedor de todas as circunstâncias relacionadas com o desaparecimento de seu rico tio, a ponto de sentir-se autorizado a afirmar, inequivocamente, que seu tio era "um homem assassinado".
Nisso, ocorreram pequenas altercações e disputas entre várias pessoas do povo e especialmente entre "Carlito Velho" e o Sr. Pennyfeather, embora esta última ocorrência não fosse de fato absolutamente novidade, pois certa má-vontade se suscitara entre os dois os últimos três ou quatro meses, e as coisas tinham ido tão longe que o Sr. Pennifeather tinha realmente esmurrado o amigo do tio, por causa de um alegado excesso de liberdade que o último tomara, na casa do tio, da qual era o sobrinho morador.
Nessa ocasião, conta-se que "Carlito Velho" comportou-se com exemplar moderação e caridade cristã. Levantou-se, depois de recebido o golpe , ajeitou as roupas e nenhuma tentativa fez de reacção, murmurando apenas algumas palavras relativas a "tomar sumária vingança na primeira oportunidade conveniente" natural e bem justificável ebulição de cólera, que nada significava porém, e sem dúvida tão logo fora expressa, já estava esquecida.
Seja como for (coisa que não diz respeito ao assunto agora em questão ), é completamente certo que o povo de Rattleburgo, principalmente em virtude da persuasão do Sr. Pennifeather, decidiu-se a dispersar-se pelas regiões adjacentes, em busca do desaparecido Sr. Shuttleworthy. Digo que chegaram esta decisão em primeiro lugar.
Depois que fora completamente resolvido que se fizesse uma busca, considerou-se quase fora de questão que os pesquisadores se dispersariam, isto é, se distribuiriam em grupos, para mais cuidadoso exame de toda a região em redor. Não sei, porém, porque engenhoso raciocínio foi que "Carlito Velho", finalmente, convenceu a assembleia de que era aquele o plano mais desarrazoado do que se poderia realizar. Convenceu-os, contudo, a todos, excepto ao Sr. Pennifeather; e afinal ficou combinado que se faria uma busca cuidadosa e bem completa, por todos os habitantes em massa, dirigidos pelo próprio "Carlito Velho".
Quanto a isto, não poderia haver melhor pioneiro do que "Carlito o Velho", que todos sabiam possuir olhos de lince; mas, embora ele os levasse a tudo quanto era recanto e buraco, fora da estrada e linhos que ninguém jamais suspeitara existissem na vizinhança embora a busca fosse mantida, sem cessar, dia e noite, durante quase uma semana, nenhum sinal do Sr. Shuttleworthy pôde ser descoberto. Quando digo "nenhum sinal", porém, não se deve entender que falo literalmente, porque sinais, até certo ponto, certamente havia.
O pobre homem tinha chegado, como se verificou pelas ferraduras de seu cavalo (que eram características), a um lugar situado a três milhas a leste do burgo, na estrada principal que levava à cidade. Ali, o rastro desviou-se para uma vereda, através de um trecho de mata, entroncando-se a vereda, novamente para a estrada principal e atalhando assim cerca de meia milha da distância regular. Acompanhando as marcas de ferradura por aquele atalho, o grupo chegou afinal a um brejo de água estagnada, oculto pelas sarças, à direita do atalho. Do outro lado do brejo todo o vestígio do rastro desaparecera. Parecia, porém, que luta de certa natureza ali se realizara e que algum corpo, grande e pesado, muito maior e mais pesado que o de um homem, tinha sido arrastado da vereda para o brejo.
Este foi cuidadosamente dragado duas vezes, mas nada se encontrou. E a ponto de retirar-se, sem ter conseguido chegar a resultado algum quando a Providência sugeriu ao Sr. Goodfellow o expediente de drenar toda a água. Esse projecto foi recebido com aplausos e elevados cumprimentos se dirigiram a Carlito Velho, por sua sagacidade e ponderação.
Como muitos dos habitantes tinham pás consigo, na suposição de que teriam de desenterrar um cadáver o drenamento foi fácil e rapidamente efectuado; e tão logo o fundo do brejo se tornou visível, surgiu em meio da lama restante o colete de veludo preto, que quase todos os presentes, imediatamente reconheceram como pertencente ao Sr.Pennifeather.
Esse estava bastante dilacerado e manchado de sangue e muitas das pessoas que ali se achavam lembravam-se, distintamente, de que o dono o usara justamente na manhã da partida do Sr. Shuttleworthy para a cidade, ao mesmo tempo que outras estavam prontas a testemunhar, sob juramento, se preciso, que o Sr. Pennifeather não usara a peça de roupa em questão, durante o restante daquele mesmo dia; como também ninguém se podia achar que dissesse ter aquele colete na pessoa do Sr. Pennifeather em tempo algum seguida ao desaparecimento do Sr. Shuttleworthy.
As coisas agora estavam tomando aspecto muito sério para o Sr. Pennifeather e foi observado, como indubitável confirmação das suspeitas levantadas contra ele, que se tornou excessivamente pálido e, quando perguntado o que tinha a dizer em seu favor, foi absolutamente incapaz de dizer uma palavra. Nisto os poucos amigos que o seu modo dissoluto de vida lhe deixara abandonaram imediatamente como um só homem e se mostraram mesmo indignados do que seus antigos e confessados inimigos, exigindo, imediata detenção. Mas, por outro lado, a magnanimidade do Goodfellow esplendeu, com o mais brilhante lustre, pelo contraste. Fez, calorosa e intensamente, eloqüente defesa do Sr. Pennifeather na qual aludiu mais de uma vez ao seu próprio e sincero perdão àquele grosseiro rapaz, "o herdeiro do digno Sr. Shuttleworthy pelo insulto que ele (o rapaz) tinha, sem dúvida no ardor da paixão achado próprio descarregar na pessoa dele (Sr. Goodfellow).
Perdoava-o - dizia ele - do âmago do seu coração e quanto a mesmo (Sr. Goodfellow), longe de levar ao extremo as circunstancias suspeitas, que, sentia muito dizê-lo, se haviam realmente levantado contra o Sr. Pennifeather, ele (Sr. Goodfellow) faria o estivesse em seu poder, empregaria toda a pouca eloqüência de que era possuidor, para a suavizar, tanto quanto lhe fosse possível fazer em consciência, os piores aspectos daquela parte excessivamente espantosa do caso.
O Sr. Goodfellow prosseguiu, durante uma comprida meia hora, desse jeito para muito crédito de sua cabeça e de seu coração; mas toda essa gente muito bondosa raramente se mostra bem ajuizada em suas observações; mete-se em toda espécie de disparates, contra tempos e despropósitos, na efervescência de seu zelo em servir a um amigo de modo que, muitas vezes, com a mais bondosa das intenções, causa infinitamente mais prejuízo à sua causa do que serve.
Assim no caso presente, aconteceu com toda a eloquência de Velho, pois, embora procurasse ativamente atenuar as suspeitas contudo aconteceu que, duma forma ou de outra, cada sílaba pronunciava, e cuja tendência directa, mas inconsciente, não fosse a de exaltar o orador no bom conceito de seu auditório, produziu o efeito de intensificar a suspeita já ligada ao indivíduo cuja causa ele advogava e de suscitar contra este a fúria da multidão. Um dos mais inacreditáveis erros, cometidos pelo orador, foi sua alusão ao suspeito como sendo "o herdeiro do digno cavalheiro Shuttleworthy". O povo, realmente, nunca tinha pensado nisso. Lembrava-se de certas ameaças de deserdação proferidas uma ou duas vezes antes pelo tio (que não tinha parente vivo, exceto o sobrinho), e tinha por isso encarado sempre essa deserdação como questão assentada, tão simplórios eram os rattleburgueses. Mas a observação de "Carlíto Velho" levou-os imediatamente a considerar o ponto, fazendo-os ver que a possibilidade das ameaças nada mais tinha sido que uma ameaça.
E logo directamente ergueu-se a questão do cui bono?, questão que, muito mais do que o concorreu para ligar o rapaz ao terrível crime. E aqui, no de poder vir a ser malentendido, permití-me uma rápida digressão para simplesmente observar que a frase latina, excessivamente breve e simples, por mim empregada, é invariavelmente mal traduzida e mal entendida. Cui' bono?, em todas as novelas famosas e em qualquer outra parte - nas da Sra. Gore, por exemplo (a de Cecílio), mulher que cita todas as línguas, do caldaico ao chickasaw, e foi ajudada no seu aprendizado, "quando necessário por um sistemático plano do Sr. Bedford -, em todas as novelas famosas, dizia eu, das de Bulwer e Dickens às de Turnapenny Ainsworth, as duas pequenas palavras latinas cui bono? aduzidas como "com que propósito?" ou (como se fosse quo bono "com que utilidade?"
Sua verdadeira significação, no entanto é "para beneficiar a quem?". Cui, a quem; bono, o benefício.
É uma frase puramente legal e aplicável precisamente a casos como o que temos agora a considerar, onde a probabilidade de autor da façanha gira sobre a probabilidade do benefício em acréscimo para esse indivíduo, ou para o que resulta do cumprimento da façanha. Ora, no presente caso, a questão cui bono? Mui diretamente implicava o Sr. Pennifeather. Seu tio o havia ameaçado de deserdá-lo, depois de haver feito um testamento em seu favor. Mas a ameaça não fora realmente mantida; o testamento não fora alterado, supunha-se. Se tivesse sido alterado, o único motivo provável para o crime, por parte do suspeito, teria sido o vulgar da vingança; e mesmo este teria sido contrabalançado com a esperança de ser reintegrado nas boas graças do tio. Mas, se o testamento não estivesse alterado, enquanto a ameaça de alteração permanecesse
suspensa sobre a cabeça do sobrinho, era de supor-se imediatamente, o incitamento mais forte possível para cidade; e assim concluíam bem sagazmente os dignos burgos de Rattle.
O Sr. Pennifeather foi, consequentemente, detido na mesma hora e a multidão, depois de mais algumas buscas, voltou para casa levando-o preso. Em caminho, porém, outra circunstância ocorreu tendente a confirmar a suspeita existente. O Sr. Goodfellow, cujo o zelo o levava a ficar sempre um pouco à frente do grupo, foi correr subitamente para a frente e curvar-se, depois de poucos passos, aparentando apanhar um pequeno objecto dentre a relva. Tendo-o examinado rapidamente, observaram também que ele fazia uma espécie de semi tentativa de ocultá-lo no bolso de seu paletó; esse gesto foi percebido, como eu disse, e conseqüentemente apanhado, quando se verificou que o objecto apanhado era uma faca espanhola, que uma dúzia de pessoas imediatamente reconheceu pertencente ao Sr. Pennifeather. Além disso, suas iniciais estavam gravadas no cabo. A lâmina daquela faca estava aberta e ensanguentada. Nenhuma dúvida restava agora a respeito da culpabilidade do sobrinho e, logo depois que chegaram a Rattleburgo, foi ele conduzido à presença de um magistrado para ser interrogado.
Ali as coisas tomaram, de novo, um aspecto ainda mais desfavorável. Interrogado a respeito de seus passos na manhã do desaparecimento do Sr. Shuttleworthy, teve o prisioneiro a absoluta audácia de confessar que justamente naquela manhã estivera com seu rifle de caçar veados, na imediata vizinhança de onde o colete manchado de sangue fora descoberto, graças à sagacidade do Sr. Goodfellow. Este último adiantou-se então e, com lágrimas nos olhos, pediu permissão para ser interrogado. Disse ele que um agudo senso dever para com seu Criador, e não menos para com seus companheiros, não lhe permitia que permanecesse por mais tempo silêncio. Até então, o mais sincero afecto pelo rapaz (não obstante o mau tratamento que o último infligira a ele, Goodfellow) o induzido a levantar todas as hipóteses que a imaginação pudesse sugerir, a fim de tentar explicar o que parecia suspeito nas circunstâncias que falavam tão seriamente contra o Sr. Pennifeather. Mas estas circunstâncias eram agora tão totalmente convincentes, tão condenatórias, que não hesitaria por mais tempo.. . Contaria tudo. quanto sabia , embora seu coração (o do Sr. Goodfellow), com esse esforço se fizesse em pedaços.
Passou então, a relatar que, na tarde do dia anterior ao da partida do Sr. Shuttleworthy para a cidade, aquele digno cavalheiro tinha referido a seu sobrinho, em sua presença (dele, Goodfellow), que o fim de sua ida à cidade no outro dia era fazer um depósito de uma soma de dinheiro, insolitamente elevada, no Banco da Lavoura e Comércio e que, nessa mesma ocasião, o dito Sr. Shuttleworthy tinha distintamente confessado ao dito sobrinho sua irrevogável decisão de rescindir o testamento originariamente feito e de deixá-lo sem um vintém. Ele (testemunha) apelava agora solenemente para o acusado, a fim de afirmar se o que ele (testemunha) acabava de relatar era ou não a verdade, em todos os seus pormenores substanciais. Para grande espanto de todos os presentes, o Sr. Pennifeather admitiu francamente que era a pura verdade.
O magistrado então achou de seu dever mandar dois policiais dar busca no quarto do acusado, na casa de seu tio. Voltaram imediatamente, com a bem conhecida carteira de couro vermelha com cantos de aço, que o velho costumava usar durante anos. Os valores que continha, porém, tinham sido retirados. E o magistrado em vão tentou obrigar o prisioneiro a confessar o uso que deles, ou o lugar em que os ocultara. De fato, negou ele obstinadamente que soubesse qualquer coisa a respeito daquilo. Os policiais também descobriram entre a cama e o saco de roupas do infortunado homem uma camisa e um lenço de pescoço, ambos marcados com as iniciais de seu nome e ambos horrendamente manchados com o sangue da vítima.
Nesta conjuntura, foi anunciado que o cavalo do homem assassinado acabava justamente de expirar, na estrebaria, em conseqüência do tiro que recebera. E foi proposto, pelo Sr. Goodfellow, que se fizesse imediatamente a necropsia do animal com objetivo, se possível de encontrar a bala. Foi tudo efetivamente realizado; e como a demonstrar, fora de qualquer dúvida, a culpa do acusado, o Sr. Goodfellow, depois de considerável pesquisa na cavidade torácica conseguiu localizar e retirar uma bala, de bem extraordinário tamanho, que, examinada, achou-se que se adaptava exatamente ao calibre do rifle do Sr. Pennifeather, ao passo que era bastante grande para o da arma de qualquer outra pessoa do burgo ou na vizinhança.
Para tornar o caso ainda mais seguro, porém, descobriu-se que aquela bala tinha uma fenda ou sutura nos ângulos direitos, em vez da sutura habitual, e, examinada, essa sutura correspondeu precisamente a uma crista acidental ou elevação, num par de moldes que o acusado reconheceu como de sua propriedade. Com a descoberta dessa bala, o magistrado sumariamente recusou-se a ouvir qualquer outro testemunho e imediatamente ordenou o julgamento do prisioneiro, negando-se de modo resoluto a aceitar qualquer fiança para o caso, embora contra semelhante severidade Goodfellow, mui calorosamente, protestasse e se oferecesse como fiador de qualquer quantia em que fosse ela arbitrada, generosidade da parte de "Carlito Velho" estava simplesmente de acordo com todo o teor de sua amigável e cavalheiresca conduta durante todo o período de sua residência no burgo de Rattle. No presente caso, o digno homem se deixou de tal
modo arrebatar excessivo ardor de sua simpatia que pareceu ter-se esquecido completamente, quando se ofereceu para fiador de seu jovem amigo de que ele próprio, Goodfellow, não possuía um simples dólar de propriedade na face da terra.
O resultado do inquérito pode ser prontamente previsto. O Sr. Pennifeather, entre as elevadas execrações de todo Rattleburgo levado a julgamento na próxima sessão do júri, quando a cadeia de provas circunstanciais (reforçada como foi por alguns adicionais fatos condenatórios, que a sensível retidão de consciência do Sr. Goodfellow proibia que subtraísse ao conhecimento do tribunal) foi considerada tão indestrutível e tão totalmente conclusivo que o júri, sem mesmo levantar-se das cadeiras, pronunciou imediato veredicto de Réu de assassínio em primeiro grau. Logo depois o infeliz coitado recebeu sentença de morte e foi recambiado para a cadeia regional, a fim de lá aguardar a inexorável vingança da lei.
Entrementes, a nobre conduta de "Carlito Velho Goodfellow" tinha-o feito ser duplamente estimado pelos cidadãos honestos do burgo. Tornou-se dez vezes mais preferido que dantes; e, como natural resultado da hospitalidade com que era tratado, relaxou como era de esperar, por força, os hábitos extremamente parcimoniosos que sua pobreza até então o haviam forçado a observar, e mui freqüentemente proporcionava pequenas reuniões, em sua própria casa, ocasião em que a espirituosidade e a jovialidade imperavam supremamente, ensombradas um tanto, sem dúvida, pela fortuita recordação do destino fatal e melancólico que impendia a presença do sobrinho do falecido e pranteado amigo íntimo do generoso anfitrião. Um belo dia, aquele magnânimo cavalheiro ficou agradavelmente surpreendido, ao receber a seguinte carta.

Senhor Carlos Goodfellow, Esq., Rattleburgo.
Caro Senhor:
Em conformidade com uma ordem transmitida à nossa firrna, há mais de dois meses, pelo nosso estimado correspondente Sr. Barnabé Shuttleworthy, temos a honra de despachar esta manhã, para seu endereço, uma caixa dupla de Château Margaux, marca antílope, selo roxo. A caixa numerada é marcada como se indica à margem. Somos de V. Senhoria os mais obedientes servos,.
Hoggs, Frogs, Bogs & Co.
Cidade de..., 21 de junho de 18...
P.S. - A caixa chegará ai', pelo trem de ferro, um dia após o recebimento desta carta.
Nossos respeitos ao Sr. Shutdeworthy.
H., F., B. & Co.
Chat. Mar. A. N.0 1, 6 doc. bot. (½ grossa).

O facto é que, desde a morte do Sr. Shuttleworthy, perdera o Sr. Goodfellow a esperança de jamais receber o prometido Château Margaux; por isso, encarou aquilo agora como uma espécie de dom da Providência em seu favor. Ficou altamente deleitado e sem dúvida, e, na exuberância de sua alegria, convidou numerosos amigos para um petit souper no dia seguinte, com o fim de abrir o presente do bom velho Shuttleworthy. Não que dissesse coisa a respeito do "bom velho Shuttleworthy", quando fez os convites.
O facto é que ele pensou muito e concluiu em nada dizer absolutamente. Não fez menção a ninguém - se bem me recordo - de haver recebido um presente de Château Margaux. Convidou simplesmente os amigos a ir ajudá-lo a beber um pouco de vinho de excelente e notável qualidade e rico sabor que mandara buscar uns dois meses atrás, e que iria chegar no dia seguinte.
Tenho muitas vezes indagado, de mim mesmo, por que foi que chegou à conclusão de nada dizer a respeito do recebimento daquele vinho do seu velho amigo, mas nunca pude precisamente compreender a razão de seu silêncio, embora tivesse uma razão excelente e bem magnânima, sem dúvida.
Chegou afinal o dia seguinte, e com ele apareceu em casa do Sr. Goodfellow uma numerosa e altamente respeitável companhia. De fato, metade do burgo ali se achava - eu mesmo me encontrava no número dos presentes - mas, para grande vexame do anfitrião o Château Margaux não havia chegado até o último instante e quando já tinham feito todos os convidados ampla justiça à suntuosa ceia proporcionada por "Carlito Velho".
Chegou afinal, uma caixa monstruosamente grande, e, como toda a companhia estivesse de excessivo bom-humor, decidiu-se, nemine contradicente, que seria colocada sobre a mesa e seu conteúdo retirado imediatamente.
Dito e feito. Dei uma ajuda também e num instante tínhamos sobre a mesa, no meio de todas as garrafas e copos, não poucos dos quais se quebraram na confusão. "Carlito Velho", que lindamente embriagado e de rosto excessivamente vermelho, tomou então uma cadeira, com um ar de fingida dignidade, à cabeceira da mesa e bateu com furor sobre ela com uma garrafa, convidando a companhia a manter a ordem "durante a cerimônia do desenterro do tesouro".
Depois de algumas vociferações, o silêncio foi afinal restaurado, e como acontece muitas vezes em casos semelhantes, seguiu-se profundo e admirável silêncio.
Sendo então solicitado a abrir a tampa cumpri a tarefa, sem dúvida, "com infinito prazer". Inseri um formão e dando- lhe umas leves marteladas, a tampa da caixa subitamente fora, e, no mesmo instante, saltou, em posição de quem está sentado, encarando diretamente o anfitrião, o corpo ensangüentado e quase podre do assassinado Sr. Shuttlewothy. Contemplou em cheio, durante poucos segundos, fixa e tristemente, com seus olhos mortos e baços, o rosto do Sr. Goodfellow; mas clara e marcadamente, pronunciou as palavras: "Tú és o homem!", e depois, caindo sobre um lado do peito, como se totalmente satisfeito, esticou os membros, tremendo, sobre a mesa.
A cena que se seguiu está além de qualquer descrição. A carreira para as portas e janelas foi terrível, e muitos dos homens robustos que se achavam na sala perderam por completo os sentidos, tomados de pânico horror. Mas depois da primeira e selvagem explosão de tumultuoso terror, todos os olhos se fixaram Sr. Goodfellow. Se mil anos viver, jamais poderei esquecer a agonia mais do que mortal que se estampava naquele seu rosto lívido, até então rubicundo de triunfo e de vinho. Durante muitos minutos, conservou-se ele sentado, rígido, como uma estátua de mármore. Seus olhos pareciam, na intensa vacuidade do olhar, ter-se voltado para dentro, absorvendo-se na contemplação de sua própria alma, miserável e assassina. Afinal sua expressão pareceu reacender-se, subitamente, para o mundo exterior quando, num salto ligeiro, pulou da cadeira e, caindo, pesadamente, com a cabeça e os ombros sobre a mesa, em contacto com o cadáver, esboçou, rapidamente e veementemente, uma pormenorizada confissão do horrível crime pelo qual estava preso o Sr. Pennifeather, e condenado à morte.
O que ele contou foi, em substância, o seguinte: acompanhou sua vítima até a vizinhança do brejo; ali atirou no seu cavalo, uma pistola; matou o cavaleiro com a coronha da arma; apossou-se de sua carteira e, supondo morto o cavalo, arrastou-o com esforço até as sarças junto do brejo. Em seu próprio animal, colocou o cadáver do Sr. Shuttleworthy e assim o levou até um esconderijo seguro e bem distante, através das matas.
O colete, a faca, a carteira e a bala foram colocados por ele próprio nos lugares em que foram encontrados, com o fito vingar-se de do Sr. Pennifeather. Tinha também tramado a descoberta do lenço e da camisa manchados.
Já para o fim daquela narrativa, de fazer gelar o sangue, as palavras do miserável assassino tornaram-se gaguejantes e surdas. Quando a confissão chegou afinal a termo, ele se levantou, afastando cambaleante da mesa e caiu. . . morto.
Os meios pelos quais aquela felizmente oportuna confissão foi extorquida, embora eficientes, eram na realidade simples. O excesso de franqueza do Sr. Goodfellow havia-me desgostado e excitado minhas suspeitas, desde o princípio. Eu estava presente quando o Sr. Pennifeather lhe havia batido, e a odienta expressão que revelou na sua fisionomia, embora momentânea, assegurou-me que sua ameaça de vingança seria, se possível, rigorosamente executada. Estava eu assim preparado para observar as manobras de "Carlito Velho", a uma luz bem diversa daquela a que as viam os bons cidadãos de Rattleburgo. Vi imediatamente que todas descobertas incriminantes partiam, quer direta, quer indiretamente, dele. Mas o fato que claramente me abriu os olhos à verdadeira situação do caso foi o negócio da bala, encontrada pelo Sr.Coodfellow na carcaça do cavalo.
Eu não havia esquecido, embota rattleburgueses o houvessem, que havia um buraco no lugar em tinha penetrado no cavalo e outro por onde ela saíra. Se, fora encontrado no animal depois de haver saído, é que evidente ali teria sido depositada pela pessoa que a encontrou. A camisa ensangüentada e o lenço confirmavam a idéia sugerida pela bala pois o sangue examinado revelou-se não ser mais do que excelente clarete. Quando vim a pensar nessas coisas, e também no recente aumento de prodigalidade e gastos da parte do Sr. Goodfellow, abriguei uma suspeita ainda mais forte, porque a conservava totalmente para mim mesmo.
Entrementes, iniciei uma rigorosa busca particular do cadáver do Sr Shuttleworthy, e, com bons fundamentos, minhas pesquisas eram em lugares os mais divergentes possíveis daqueles aonde o Sr. Goodfellow conduzira seus acompanhantes. O resultado foi que, depois de alguns dias, dei com um velho num poço seco, cuja boca estava oculta pelas sarças, e ali, no fundo, descobri o que procurava. Ora, aconteceu que eu havia ouvido o colóquio entre os dois amigos quando o Sr. Goodfellow tinha levado seu anfitrião a prometer-lhe uma caixa de Cháteau Margaux. Baseado nessa sugestão, arranjei um forte pedaço de barbatana de baleia, enfiei-o pela garganta do cadáver e depositei este último numa velha caixa de vinho, tomando o cuidado de dobrar o corpo de modo a dobrar a barbatana dentro dele. Desta maneira, tive de fazer forte pressão a tampa, para conservá-la fechada, enquanto a segurava com pregos. E previ, sem dúvida, que logo que estes últimos fossem removidos a tampa saltaria e o corpo se levantaria.
Tendo assim preparado a caixa, marquei-a, numerei-a e enderecei-a como já foi dito; e depois, escrevendo uma carta em nome dos comerciantes de vinho com quem o Sr. Shuttleworthy estava em relações, dei instruções a meu criado para rodar a caixa até a porta do Sr. Goodfellow, num carro de mão, a dado sinal meu. A respeito das palavras que eu queria que o cadáver pronunciasse, confiava eu nas minhas habilidades de ventríloquo. Quanto a seu efeito contava com a consciência do miserável assassino.
Creio que nada há mais a explicar. O Sr. Pennifeather foi imediatamente posto em liberdade, herdou a fortuna de seu tio, aprendeu bem as lições da experiência, virou nova página, e levou nova vida, sempre, felizmente, em progresso.

Edgar Allan Poe, Contos Policiais
(tradução brasileira)