28/11/2009

A Ida ao Namibe

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Fomos num avião bem pequenino. Íamos passar quinze dias noutra província. Era o sítio onde tinha nascido o meu pai: chama-se Namibe. O meu avô disse-me que se chamava Moçâmedes.
Para mim os nomes não interessavam muito. O que me deixava mais curioso é que me disseram que lá havia um deserto, e eu já tinha aprendido na escola que era a província de Angola que tinha avestruzes que corriam bué rápido, tinha gazelas e a famosa Welwitchia mirabilis, a planta mais bonita de todos os desertos do mundo.
Quando saímos do avião já fazia bué de frio. Estávamos no mês de Agosto, mês do Cacimbo para todas as crianças que gostam de sentir aquela geada das cinco da tarde, e mês das piores crises de asma para mim. Mas aquela província era tão bonita e gostei tanto de ter passado aquelas duas semanas na casa do primo Beto que nem tive nenhuma crise. Foi muito bom conhecer a província do Namibe.
Os dois primeiros dias ficámos na cidade, na casa desse primo do meu pai chamado Beto. Como toda a gente lhe chamava "primo Beto", eu também cheguei na sala e chamei-lhe de primo Beto. Todos os mais velhos riram, só a minha mãe não riu. Mas depois passou-me logo essa atrapalhação porque vi, pela primeira vez na minha vida, esses caroços que eles chamavam de "tremoços". Por alguma razão o meu pai ainda não tinha me chamado para eu vir provar. É que eu era assim um pouco estraga-tudo nessa altura, e o meu pai já devia desconfiar mais ou menos o que eu ia fazer com os tais tremoços.
Disseram para eu provar, não gostei do sabor. Mas pelo formato, e também por causa da experiência que eu já tinha com as fisgas lá na minha rua de Luanda, vi que aquele tremoço dava masé para ser disparado só assim apertando com os dedos. Fui lá fora treinar na árvore e quando voltei à sala já tinha a pontaria bem afinada. A primeira vítima foi a minha irmã, a segunda foi uma velha que estava lá sentada e que era muda. Fiquei todo satisfeito porque pensei que ela não fosse me queixar. Mas era uma velha queixinhas e o meu pai pôs-me de castigo.
O resto dos dias passámos na quinta do primo Beto. Aí gostei muito de ter conhecido uma horta com um pequeno lago, onde nós arrancávamos o tomate do chão, lavávamos e comíamos logo ali. Também uma menina muito bonita chamada Micaela, ensinou a mim e à mana Tchi a comer batata-doce crua, que era uma maravilha. Comíamos a bata-doce e, se tínhamos sede, atacávamos o tomate. Voltávamos os três para a quinta, ao fim do dia, e eu dava corrida aos perús. Também nunca tinha conhecido um perú assim de perto com os gritos dele tão engraçados de glu-glu.
O pai da Micaela, o primo Zequinha, foi muito simpático e ensinou-me duas técnicas de caçar rolas, uma era pôr visgo nas árvores e esperar os pássaros pousarem, e a outra, que eu gostei mais, era usar a arma de chumbo para tentar caçar alguma coisa. Digo "tentar" porque a minha pontaria não era lá muito boa, então dediquei-me mais à técnica da cola branca na árvore.
De manhã acordávamos cedinho e era tudo muito frio e muito bonito. Eu usava aquele casaco azul bem antigo que a minha mãe me deu, e que tinha um tecido bem macio tipo veludo que eu adorava tanto. Matabichávamos devagar. Os mais velhos falavam devagar. Combinaram ir à caça. A minha irmã riu, baixinho, e não disse a ninguém, mas eu sei que ela viu a maneira como eu olhava para a Micaela. É que a Micaela era muito bonita.
Podíamos brincar de manhã e até perto da hora do almoço. Ajudávamos a pôr a mesa, e depois do almoço eu e a mana Tchi tínhamos que estudar um bocado. Havia também um livro, sobre o comportamento do corpo humano, que a minha mãe dividiu em dez partes para eu e ela lermos um bocadinho todos os dias. Quando chegou o capítulo das relações sexuais eu gostei muito daquelas fotografias do homem deitado todo nu com a mulher, e da parte que dizia que, para fazer um filho, "o homem introduzia suavemente o pénis na vagina da mulher". Eu nunca queria avançar esse capítulo. A minha mãe é muito querida porque ela sabia que já tínhamos passado aquele capítulo mas deixou-me repetir outra vez a lição.
Um dia, ao fim da tarde, o sol estava muito bonito assim todo amarelo quase bem torrado. O meu pai tinha ido à caça com o primo Beto e o primo Zequinha também. A mana Tchi tava a descansar e a minha mãe a ler. Eu perguntei à Micaela se ela queria dar uma volta comigo ali pela quinta. Ela disse que sim. Mas a volta foi muito rápida, e eu perguntei se ela queria dar outra volta. Ela riu e disse que sim. Como não queríamos dar outra volta, sentámo-nos numas pedras mais distantes da casa e eu tinha muita vergonha mas também muita vontade de lhe perguntar se ela queria namorar comigo. E ela disse que sim. Então, talvez para comemorar, demos mais duas voltas à casa, mas já de mãos dadas.
Na província do Namibe eu conheci a avestruz, as gazelas, um montão de pássaros, o deserto, e nesse dia à noite, o meu pai e os primos dele caçaram um olongo. Aquilo é que foi ficar de boca aberta: eu nunca tinha visto um animal tão grande e tão pesado, e também nunca tinha visto umas armas tão compridas. O primo Zequinha disse que até podiam matar elefantes com aquelas balas, eu pensei que não era verdade, mas o meu pai disse-me que sim.
No último dia de manhã é que o meu pai se lembrou de tirar fotografias a todos. Eu também aproveitei uns pássaros que o primo Zequinha já tinha conseguido matar, pus todos assim no chão perto dumas pedras e fui buscar a arma de chumbo. Fiz um póster de joelho no chão estilo filme de cobói e o meu pai tirou uma foto que eu tenho até hoje, também com chapéu que me ficava grande mas que tinha assim aquele estilo do Trinitá.
Gosto muito dessas fotos todas que nós tirámos na província do Namibe, tem uma muito bonita da minha mãe bem distraída a fumar um cigarro, tem a foto do meu pai perto do olongo que eles tinham caçado mas, para dizer mesmo a verdade, a foto mais bonita é uma que tou eu, a Micaela e a mana Tchi. A Micaela tá bonita, eu até que tou posterado, mas a mana Tchi, com o fato olímpico vermelho também desse tecido fofo tipo veludo, a mana Tchi é a que está mais bonita: com o riso bem bonito e, assim quase a sair da foto, os dois puchinhos, bem grandes, a prender o cabelo todo preto dela. A mana Tchi.


Um conto de Ondjaki


22/11/2009

O mendigo Sexta-Feira jogando no Mundial

Lhe concordo, doutor: sou eu que invento minhas doenças. Mas eu, velho e sozinho, o que posso fazer? Estar doente é minha única maneira de provar que estou vivo. É por isso que frequento o hospital, vezes e vezes, a exibir minhas maleitas. Só nesses momentos, doutor, eu sou atendido. Mal atendido, quase sempre. Mas nessa infinita fila de espera, me vem a ilusão de me vizinhar do mundo. Os doentes são a minha família, o hospital é o meu tecto e o senhor é o meu pai, pai de todos meus pais.
Desta feita, porém, é diferente. Pois eu, de nome posto de Sexta-Feira, me apresento hoje com séria e verídica queixa. Venho para aqui todo desclaviculado, uma pancada quase me desombrou. Aconteceu quando assistia ao jogo do Mundial de Futebol. Desde há um tempo, ando a espreitar na montra do Dubai Shoping, ali na esquina da Avenida Direita. É uma loja de tevês, deixam aquilo ligado na montra para os pagantes contraírem ganas de comprar. Sento-me no passeio, tenho meu lugar cativo lá. Junto comigo se sentam esses mendigos que todas sexta-feiras invadem a cidade à cata de esmola dos muçulmanos. Lembra? Foi assim que ganhei meu nome de dia da semana. Veja bem: eu, que sempre fui inútil, acabei adquirindo nome de dia útil.
É ali no passeio que assisto futebol, ali alcanço ilusão de ter familiares. O passeio é um corredor da enfermaria. Todos nós, os indigentes ali alinhados, ganhamos um tecto nesse momento. Um tecto que nos cobre neste e noutros continentes.
Só há ali um no entanto, doutor. É que sou atacado de um sentimento muito ulceroso enquanto os meus olhos apanham boleia para a Coreia do Sul. O que me inveja não são esses jovens, esses finta-bolistas, todos cheios de vigor. O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino?
Eu sei, doutor, lhe estou roubando o tempo. Vou directo no assunto do meu ombro. Pois aconteceu o seguinte: o dono da loja deu ontem ordem para limpar o passeio. Não queria ali mendigos e vadios. Que aquilo afastava a clientela e ele não estava para gastar ecrã em olho de pobre. Recusei sair, doutor. O passeio é pertença de um alguém? Para me retirarem dali foi preciso chamar as forças policiais. Vieram e me bateram, já eu estendido no chão e eles me ponteavam, com raiva como se não me batessem em mim, mas na sua própria pobreza. Proclamei que hoje voltaria mais outra vez, para assistir ao jogo. É que jogam os africanos e eles estão a contar comigo lá na assistência. Não passam sem Sexta-Feira. O dono da loja me ameaçou que, caso eu insistisse, então é que seria um festival de porrada. O que eu lhe peço, doutor, é que intervenha por mim, por nós os espectadores do passeio da Avenida Direita. O proprietário do Dubai Shoping não vai dizer que não, se for um pedido vindo de si, doutor.
Pois eu, conforme se vê, vim ao hospital não por artimanha, mas por desgraça real. O doutor me olha, desconfiado, enquanto me vai espreitando os traumatombos. Contrariado, ele lá me coloca sob o olho de uma máquina radiográfica. Até me atrapalho com tanta deferência. Até hoje, só a polícia me fotografou. Se eu soubesse até me tinha preparado, doutor, escovado a dentuça e penteado a piolheira.
Quando me mostram a chapa, porém, me assalta a vergonha de revelar as minhas pobres e desprevenidas intimidades ósseas. Quase eu grito: esconda isso, doutor, não me exiba assim às vistas públicas. Até porque me passa pela cabeça um desconfio: aqueles interiores não eram os meus. E o doutor não fique espinhado! Mas aquilo não são ossos: são ossadas. Eu não posso estar assim tão cheio de esqueleto. Aquela fotografia é de chamar saliva a hienas. Sem ofensa, doutor, mas eu peço que se deite fogo nessa película. E me deixe assim, nem vale a pena enrolar-me as ligaduras, aplicar-me as pomadas. Porque eu já vou indo, com as pressas. Não esqueça de telefonar ao dono da loja, doutor. Não esqueça, por favor. Foi por esse pedido que eu vim. Não foi pelo ferimento.
E logo me desando, já as rua desaguam. Chego à loja dos televisores e me sento entre a mendigagem. Veja bem: tinham-me guardado o lugar em meu respeito. Isso me comove. Afinal, o doutor sempre telefonou, sempre se lembrou do meu pobre pedido. Ainda há gente neste mundo! Meus olhos brilham olhando não o jogo, mas as pessoas que olhavam a montra. Quem disse que a televisão não fabrica as actuais magias?
O que eu vi num adocicar de visão foi isto, sem mais nem menos: eu e os mendigos de sexta-feira estamos no mundial, formamos equipa com fardamento brilhoso. E o doutor é o treinador. E jogamos, neste momento preciso. Eu sou o extremo esquerdo e vou dominando o esférico, que é um modo de dominar o mundo. Por trás, os aplausos da multidão. De repente, sofro carga do defesa contrário. Jogo perigoso, reclamam as vozes aos milhares. Sim, um cartão amarelo, brada o doutor. Porém, o defesa continua a agressão, cresce o protesto da multidão. Isso, senhor árbitro, cartão vermelho! Boa decisão! Haja no jogo a justiça que nos falta na Vida.
Afinal, o vermelho é do cartão ou será o meu próprio sangue? Não há dúvida: necessito de assistência, lesionado sem fingimento. Suspendessem o jogo, expulsassem o agressor das quatro linhas. Surpresa minha - o próprio árbitro é quem me passa a agredir. Nesse momento, me assalta a sensação de um despertar como se eu saísse da televisão para o passeio. Ainda vejo a matraca do polícia descendo sobre a minha cabeça. Então, as luzes do estádio se apagam.


Mia Couto, In O Fio das Missangas




15/11/2009

Livro fechado


Era uma vez um livro. Um livro fechado. Tristemente fechado. Irremediavelmente fechado.
Nunca ninguém o abrira, nem sequer para ler as primeiras linhas da primeira página das muitas que o livro tinha para oferecer.
Quem o comprara trouxera-o para casa e, provavelmente insensível ao que o livro valia, ao que o livro continha, enfiara-o numa prateleira, ao lado de muitos outros.
Ali estava. Ali ficou.
Um dia, mais não podendo, queixou-se:
— Ninguém me leu. Ninguém me liga.
Ao lado, um colega disse:
— Desconfio que, nesta estante, haverá muitos outros como tu.
— É o teu caso? — perguntou, ansiosamente, o livro que nunca tinha sido aberto.
— Por sinal, não — esclareceu o colega, um respeitável calhamaço. — Estou todo sublinhado. Fui lido e relido. Sou um livro de estudo.
— Quem me dera essa sorte — disse outro livro ao lado, a entrar na conversa. —
Por mim só me passaram os olhos, página sim, página não... Mas, enfim, já prestei para alguma coisa.
— Eu também — falou, perto deles, um livrinho estreito. — Durante muito tempo, servi de calço a uma mesa que tinha um pé mais curto.
— Isso não é trabalho para livro — estranhou o calhamaço.
— À falta de outro... — conformou-se o livro estreitinho.
Escutando os seus companheiros de estante, o livro que nunca fora aberto sentiu uma secreta inveja. Ao menos, tinham para contar, ao passo que ele... Suspirou.
Não chegou ao fim do suspiro, porque duas mãos o foram buscar ao aperto da prateleira. As mãos pegaram nele e poisaram-no sobre os joelhos.
— Tem bonecos esse livro? — perguntou a voz de uma menina, debruçada sobre o livro, ainda por abrir.
— Se tem! Muitos bonecos, muitas histórias que eu vou ler-te — disse uma voz mais grave, a quem pertenciam as mãos que escolheram o livro da estante.
Começou a folheá-lo e, enquanto lhe alisava as primeiras páginas, foi dizendo:
— Este livro tem uma história. Comprei-o no dia em que tu nasceste. Guardei-o para ti, até hoje. É um livro muito especial.
— Lê — exigiu a voz da menina.
E o pai da menina leu. E o livro aberto deixou que o lessem, de ponta a ponta.
Às vezes, vale a pena esperar.

António Torrado

13/11/2009

História norueguesa ou como o urso ficou sem rabo





Nas terras da Noruega o Inverno é longo, longo. Desce do Pólo Norte, num arrepio: os lagos ficam gelados, lisos como espelhos, vergam-se as florestas ao peso mole dos flocos que caem, imobilizam-se as cascatas entre os rochedos e a terra esconde-se debaixo do grosso cobertor branco.
As andorinhas, as cegonhas, os patos-bravos voam em bandos para as bandas do Sol, as renas esgravatam obstinadamente em busca da erva congelada debaixo da neve. Os esquilos, nas tocas, comem as avelãs que armazenaram no Verão, enquanto o urso, o lobo, a raposa descem das serranias.
Chegara Dezembro. O frio cortava como uma faca e há muito que não farejavam carne pelas redondezas. Trincavam neve ao almoço, lambiam gelo ao jantar.
Andava a raposa tão chupadinha que parecia um cabide com a pele pendurada, rabo caído a vassourar o chão, focinho afiado que nem ponta de Iápis acabado de aparar. Resolveu, então, arrastar-se de noite até à aldeia, rondar as capoeiras - galinhas recolhidas, fechadas a sete chaves. Rastejou aos currais - portas trancadas, o gado bem a recato.
Luzes apagadas nas casas, estrelas apagadas no céu. Como era negra a noite e ainda mais negra a fome. Então a raposa alongou os olhos para o mar. Baloiçavam os barcos com suas lanternas e, ao longe ondulando, aquelas luzes lembravam olhos de gato brilhando na escuridão. Pata ante pata, desceu à praia, escondeu-se atrás das dunas e ficou à coca. Era ainda madrugada quando os primeiros barcos aportaram. Entre os gritos dos pescadores, o alvoroço das redes a abrirem, carregadas de peixe, a raposa, num pulo, filou um bacalhau.
Fugiu com ele bem preso nos dentes, pesado, enorme, ainda a escorrer água salgada.
Ao chegar à orla da floresta encontrou o urso, de olhos pasmados, sentado na neve.
- Ó comadre raposa, que bela pescaria a sua! Não me dá ao menos a guelra e a tripa do peixe?
- Nos tempos que correm tudo é pouco, amigo urso, e como tenho frigorífico a comida não se me estraga. Por que não vai você à pesca?
- Mas não tenho rede!
- Faça como eu: use o rabo como cana de pesca. Abra um furo no lago gelado, meta lá o rabo de molho e quando sentir uma mordedela puxe depressa e com força.
Assim fez o urso. Raspou um furo no gelo, enfiou o rabo, à Iaia de cana, e esperou, esperou, esperou até que sentiu uma mordedela. Deu um salto de dor e olhou para trás, à procura do peixe.
Nem peixinho nem peixão. A água tornara a gelar e o rabo do urso ficara preso no bloco de gelo.
Sem pesca e sem rabo, voltou à floresta. E nessa noite, para não variar, comeu sorvete, amaldiçoando a dona raposa, que, na Noruega como em Portugal, é gaiteira, matreira, trapaceira e engana os outros bichos de toda a maneira.

Luísa Ducla Soares In O Meio Galo



03/11/2009

A cambalhota do macaco


Numa montanha a Oriente, lá muito em cima, onde já nenhum pássaro quer fazer o ninho, havia um ovo de pedra. O vento soprava-lhe e o sol batia-lhe, ninguém sabia há quanto tempo. Um dia, a montanha moveu-se, moveram-se as pedras até ao cume mais alto, o ovo rachou e abriu-se. Saltou um macaco. O corpo era de pedra brilhante, onde a luz do sol se reflectia.
O macaco desceu a montanha. Os outros macacos, de pêlo vulgar, onde nem um único raio de sol se reflectia, vieram ao seu encontro. Inclinavam-se perante o macaco de pedra e saudavam-no como seu chefe.
Quando se tornou chefe, o macaco saltou por todas as terras e países do mundo e mergulhou em todos os mares. As montanhas abriam-se perante ele e mostravam-lhe todos os seus tesouros. As flores abriam os seus cálices. O macaco juntou todo o saber e conheceu todos os segredos. Quando se tornou mais sábio do que qualquer outro ser à face da terra, treinou ainda a arte das cambalhotas. Treinou incansavelmente e, por fim, conseguiu, com uma só cambalhota, medir o ar, a terra e a água. Então, o macaco de pedra exclamou, orgulhoso:
— Nenhuma criatura da terra pode comparar-se a mim. Eu sou superior a todas elas. Agora quero ser o senhor dos céus.
Inspirou fundo e saltou. Deu uma cambalhota e aterrou no céu. Aterrou exactamente aos pés do Pai Buda. Buda – assim chamam os homens e os animais do Oriente ao criador do céu e da terra.
— Meu macaco — falou o Pai Buda — o que queres daqui?
O macaco respondeu:
— Quero tornar-me senhor do céu, já que sei mais do que todos os outros seres da terra. Até sei mais do que tu, Pai Buda. Ou será que consegues dar uma cambalhota e nesse mesmo instante aterrar do outro lado da terra? Aposto como não consegues.
O Pai Buda riu-se.
— Bem, meu macaco, vamos então fazer uma aposta. Se conseguires saltar para fora da minha mão, cedo-te o meu lugar no céu. Mas, se não conseguires, tens de te contentar com o lugar que te dei na terra.
O macaco de pedra riu-se para dentro, pois a aposta parecia-lhe fácil. Buda estendeu a mão e o macaco saltou para cima dela.
— Upa! — Deu uma cambalhota e voou, voou.
Voou sobre as alturas, larguras e profundidades da terra, até chegar ao fim do mundo. Aí, no silêncio infinito, havia cinco colunas. Para mostrar que tinha saltado até àquele lugar, o macaco de pedra mordeu uma das colunas com os seus dentes fortes. Depois, voltou a lançar-se pelo espaço até ao céu, e sentou-se na mão de Buda.
— Aqui estou eu — arfou o macaco exausto. Mas Buda perguntou:
— Então, quando é que saltas finalmente para fora da minha mão?
— Como? — gritou o macaco. — Então não fui até ao fim do mundo? Não deixei a minha marca numa das colunas?
Respondeu Buda:
— Meu macaco, acabaste agora mesmo de morder o meu dedo. É este o teu sinal? Fica a saber que, durante o teu salto, a minha mão esteve todo o tempo debaixo de ti.
O macaco reconheceu a sua marca. Ficara agora a saber que era impossível saltar para fora da mão de Buda, pois o mundo está nas suas mãos, e ele nunca deixa cair os seus filhos. O macaco de pedra começou a sentir-se atordoado.
— Para onde quer que salte, estarei sempre nas tuas mãos — disse.
Buda deixou o macaco escorregar docemente para a montanha, para o local de onde saíra do ovo.
Desde então, o macaco passou a viver modestamente no seu lugar.


Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986