22/10/2009

As meias dos flamingos



Certa vez as víboras deram um grande baile. Convidaram as rãs e os sapos, os flamingos, os jacarés e os peixes. Como não andam, os peixes não puderam dançar, mas como o baile era na orla do rio, ficaram sentados na areia a aplaudir com o rabo.
Os jacarés, para irem bem enfeitados, tinham posto ao pescoço um colar de bananas e minavam charutos paraguaios. Os sapos tinham colado escamas de peixe em todo o corpo e caminhavam bamboleando-se, como se nadassem. E sempre que passavam, muito sérios, pela orla do rio, os peixes gritavam, troçando deles.
As rãs tinham perfumado todo o corpo e caminhavam sobre ambos os pés. Além disso, todas traziam pendurada, como um farol pequenino, uma candeia que balançava.
Lindíssimas, porém, estavam as víboras. Todas sem excepção usavam vestidos de bailarina da cor de cada uma delas. As víboras coloridas tinham uma saia pequenina de tule colorido; as verdes, de tule verde; as amarelas, de tule amarelo; e as jararacas, uma saia curta de tule cinzento pintada com riscas de pó de azulejo e cinza, por ser essa a cor das jararacas.
E as mais esplendorosas de todas eram as víboras de coral, que estavam vestidas com longuíssimas sedas finas, vermelhas, brancas e pretas, e dançavam como serpentinas. Quando as víboras dançavam e davam voltas apoiadas na ponta da cauda, todos os convidados aplaudiam furiosamente.
Só os flamingos, que nessa altura tinham as patas brancas e têm agora, como então, o nariz muito grosso e torto, só os flamingos estavam tristes, por¬que como têm pouca inteligência, não tinham sabido como enfeitar-se. Invejavam os trajes de todos e sobretudo o das víboras de coral. Sempre que uma víbora passava diante deles, saracoteando-se e fazendo ondular as serpentinas de seda, os flamingos morriam de inveja.
Então, um dos flamingos disse:
— Já sei o que vamos fazer. Vamos calçar meias coloridas, brancas e pretas, e as víboras de coral vão apaixonar-se por nós.
E, levantando voo todos juntos, atravessaram o rio e foram bater à porta de uma loja da aldeia.
— Tan, tan! — bateram com as patas.
— Quem é? — respondeu o dono da loja.
— Somos os flamingos. Tem meias coloridas, brancas e pretas?
— Não, não há — respondeu o dono da loja. — Estão malucos? Não vão encontrar meias dessas em lado nenhum.
Os flamingos foram, então, a outra loja.
— Tan, tan! Tem meias coloridas, brancas e pretas? O dono da loja respondeu:
— Como diz? Coloridas, brancas e pretas? Não há meias dessas em lado nenhum. Vocês estão malucos. Quem são vocês?
— Somos os flamingos — responderam eles. E o homem disse:
— Então são flamingos malucos, com certeza. Foram então a outra loja.
— Tan, tan! Tem meias coloridas, brancas e pretas? O dono da loja gritou:
— De que cor? Coloridas, brancas e pretas? Só a pássaros narigudos como vocês é que passa pela cabeça pedir meias assim. Vão-se imediatamente embora!
E o homem pô-los na rua com a vassoura.
Os flamingos percorreram assim todas as lojas e em todo o lado os julgavam loucos.
Foi então que um tatu, que tinha ido ao rio beber água, quis pregar uma partida aos flamingos dizendo-lhes, fazendo um grande cumprimento:
— Boas noites, senhores flamingos! Eu sei do que andam à procura. Não vão encontrar meias assim em nenhuma loja. Talvez haja em Buenos Aires, mas teriam de mandá-las vir pelo correio. A minha cunhada, a coruja, tem meias dessas. Vão pedir-lhe e ela vos dará as meias coloridas, brancas e pretas.
Os flamingos agradeceram-lhe e partiram, voando para a toca da coruja. E disseram-lhe:
— Boas noites, coruja! Viemos pedir-te meias coloridas, brancas e pretas. Hoje é o grande baile das víboras e se calcarmos tais meias, as víboras de coral vão ficar apaixonadas por nós.
— Com muito gosto! — respondeu a coruja — Esperem um segundo que eu volto já.
E partindo a voar, deixou os flamingos sozinhos; pouco depois, regressava com as meias. Mas não eram meias mas peles de víbora de coral, lindíssimas peles acabadas de tirar às víboras que a coruja caçara.
— Aqui estão as meias — disse-lhes a coruja. — Não se preocupem com nada a não ser com uma única coisa: dancem toda a noite, dancem sem parar um só instante, dancem de costas, de pernas para o ar, como quiserem, mas não parem um só instante, porque se o fizerem, em vez de dançar vão chorar.
Mas os flamingos, por serem tão tontos, não perceberam bem o grande perigo que aquilo representava e, loucos de alegria, calçaram as peles de víbora de coral, enfiando nelas as patas como se fossem meias. E, muito contentes, foram a voar para o baile.
Quando viram os flamingos com as suas lindíssi¬mas meias, todos tiveram inveja. As víboras só queriam dançar com eles e como os flamingos mexiam constantemente as patas, as víboras não conseguiam ver bem de que eram feitas aquelas meias maravilhosas.
Mas a pouco e pouco, porém, as víboras começaram a desconfiar. Quando os flamingos passavam a dançar perto delas, baixavam-se até ao chão para verem melhor.
As víboras de coral, sobretudo, estavam muito inquietas. Não afastavam os olhos das meias e também se baixavam, tentando tocar com a língua nas patas dos flamingos, porque a língua das víboras é como a mão das pessoas. Mas os flamingos dançavam e dançavam sem parar, embora estivessem cansadíssimos e já não aguentassem mais. As víboras de coral, que perceberam isto, pediram então às rãs as suas pequenas candeias, que eram pirilampos, e ficaram todas à espera de que os flamingos caíssem de cansaço.
Com efeito, um minuto depois, um dos flamingos, que já não podia mais, tropeçou no charuto de um jacaré, cambaleou e caiu de costas. A seguir, as víboras de coral acorreram com as suas pequenas candeias e iluminaram bem as patas do flamingo. E viram o que eram aquelas meias, deram um silvo que se ouviu na outra margem do Paraná.
— Não são meias! — gritaram as víboras — Sabemos o que são! Enganaram-nos! Os flamingos mataram as nossas irmãs e vestiram as suas peles como meias! As meias deles são de víboras de coral!
Ao ouvir isto, os flamingos, cheios de medo, porque tinham sido descobertos, quiseram voar; mas estavam tão cansados que não conseguiram erguer uma só pata. Então as víboras de coral lançaram-se sobre eles e, enroscando-se nas suas patas, desfizeram-lhes as meias às dentadas. Arrancavam-lhes as meias aos pedaços, furiosas, e mordiam-lhes também as patas, para que morressem.
Os flamingos, loucos de dor, saltavam de um lado para o outro, sem que as víboras de coral se desenroscassem das suas patas. Até que por fim, vendo que já não restava um só pedaço de meia, as víboras os deixaram partir, cansadas e compondo as sedas dos seus fatos de baile.
Além do mais, as víboras de coral estavam certas de que os flamingos morreriam porque pelo menos metade das que os tinham mordido eram venenosas.
Mas os flamingos não morreram. Correram para a água, sentindo uma dor fortíssima. Gritavam de dor e as suas patas, que eram brancas, estavam agora coloridas pelo veneno das víboras. Passaram dias e dias e não deixavam de sentir um ardor terrível nas patas que estavam sempre cor de sangue porque estavam envenenadas.
Isto passou-se há já muito tempo. E ainda hoje os flamingos passam quase todo o dia com as suas patas coloridas dentro de água, tentando acalmar o ardor que nelas sentem.
Às vezes, afastam-se da orla e dão alguns passos em terra, para ver como estão. Mas as dores do veneno regressam logo a seguir e correm para dentro de água. Por vezes o ardor que sentem é tão grande que encolhem uma pata e ficam assim horas a fio porque não conseguem esticá-la.
Esta é a história dos flamingos, que antes tinham patas brancas e agora as têm coloridas. Todos os peixes sabem porquê e troçam deles. Mas os flamingos, enquanto se curam na água, não perdem uma ocasião de se vingar comendo todos os peixinhos que se aproximam demasiado para fazer troça deles.

Horácio Quiroga, Campos da Selva

13/10/2009

Adeus, Gasolina!

Era uma vez um país à beira-mar, com florestas, campos, cidades e gentes. Rasgado por estradas, cortado por ruas, cheio de automóveis por toda a parte. Os jardins tinham sido alcatroados para parques de estacionamento. As estátuas deitadas abaixo para erguer bombas de gasolina.
Grandes petroleiros aportavam ao cais, carregados de petróleo que grandes refinarias transformavam em gasóleo, gasolina, que, por sua vez, grandes autotanques levavam até às grandes estações de serviço.
Os sapateiros remendões tinham deixado de trabalhar porque já ninguém se lembrava de andar a pé. Em vez de se gastarem solas, gastavam-se pneus.
Os meninos ficavam fechados em casa para não serem atropelados e, de rastos nos corredores, brincavam com automóveis-miniatura.
Longe, muito longe, do outro lado do mar, havia outros países com suas gentes. Aí estoiravam bombas no deserto escaldante, furado de poços de onde saía o petróleo. Morriam homens por um palmo de terra ou por uma ideia. E como a única riqueza que possuíam era o petróleo, deixaram de o fornecer aos países inimigos.
Os petroleiros, então, partiam e passavam a voltar vazios. Os autotanques paravam junto ao cais, vazios; bichas enormes se formavam junto às bombas quase esgotadas. Passou a vender-se vinte litros, dez litros, cinco litros, um litro… até que acabou a última gota de gasolina.
Então foi o pânico. Não havia sequer autocarros, carrinhas de escola, carros de bombeiros ou ambulâncias. Os soldados passaram a ir para a guerra a pé. Mas os generais e outros oficiais superiores requisitaram os cavalos brancos da Guarda Republicana.
Os ministros conferenciaram pelo telefone e acharam por bem exigir os camelos do Jardim Zoológico.
E o presidente? Como poderia ele fazer as suas deslocações patrióticas, de Norte a Sul do território? Para o primeiro cidadão da Nação, enfeitou-se, com grande pompa, o elefante que toca o sino no Jardim Zoológico. Era imponente e tinha a grande vantagem de ir recebendo moedas dos admiradores que se juntavam para o saudar.
Aqueles senhores endinheirados que andavam a matar gente com carros de corrida compravam cavalos puro-sangue. Os homens da "Volta" pedalavam bicicletas. As famílias numerosas optaram pelas últimas carroças puxadas a mulas. As senhoras medrosas montavam vacas leiteiras. Alguns pais extremosos fizeram carrinhos puxados a cães para os meninos não faltarem às aulas. E o povo, os antigos donos dos automóveis Mini e dos modelos comprados a prestações ou em segunda mão? Começaram a comprar burros, tantos, tantos, tantos que em breve toda a cidade estava atulhada de burros, trotando, galopando, embirrando que não queriam andar.
Nas inúteis bombas de gasolina vendiam-se molhos de palha e braçados de erva. Já ninguém tinha os ouvidos martirizados pelas buzinas, mas pela bela voz grave e sentimental dos burros a zurrar.
E quando um condutor, furioso, gritava para o outro "saia da minha frente, seu burro!", já ninguém se irritava, pois pensava que o insulto era dirigido ao orelhudo bicho de quatro patas.


Luísa Ducla Soares In O Meio Galo


11/10/2009

Entrada no Céu




Nada é repetível, tudo é repetente? Era o que eu perguntava na catequese. E mais buscava, em clareza:
- A vida, Santo e Deus, tem segunda via?
O Padre Bento não queria nem escutar: só a dúvida, em si, já era desobediência. Primeiro, ninguém descasca duas vezes o gergelim. Depois, vale a pena o pecado se confessável. E Bento avisava: não se entra no Céu de qualquer maneira. Aquilo lá, nos portões celestiais, requer devida licença. E mais eu perguntava: quem executa essa triagem, à entrada do paraíso? Um encartado porteiro? Um tribunal com seus veneráveis julgadores?
Passaram anos, persistiram enganos. E ainda por esclarecer me resta o assunto. É por isso que regresso ao senhor para que me escute, nem que seja em religioso fingimento. Se faça-me o favor, senhor padre, me diga: cuja essa entrada no Paraíso é à moda da raça, ou das cláusulas de sermos um zé-alguém? Os pretos como eu, salvo sou, apanham licença? Ou Precisam pagar umas facilidades, encomendar um abre-boca nalgum mandante?
Estou prosapioso, mas é derivado da dúvida, Excelentíssimo. As perguntas me fazem risco na garganta. Exemplo: a pessoa pode sair directamente da aldeia para o Céu? Assim, sem passar devidamente pela capital, nem estar documentado com guia de marcha, averbada e carimbada nas instâncias?
Depois, veja: eu não falo inglês. Mesmo em português, eu só rabisco fora da cartilha. Já estou a ver lá o letreiro, ao jeito dos filmes: welcome to para-dise! E não mais saberei ler. Bem poderão me conceder a palavra. É como dar um alto-falante a um mudo.
Minha esperança é que aconteça como no baile do Ferroviário. Faz tanto tempo que aconteceu que, para lembrar, devo ir além da memória. O baile era o do fim do ano. O Padre bem sabe: o ano não é como o sol que nasce para todos. O ano acaba só para uns e começa cada vez para menos pessoas.
Eu sabia que não me iriam deixar entrar. Mas a minha paixão pela mulata Margarida era maior que a certeza de ser excluído. E assim, todo envergonhado, com vestes de empréstimo, me alinhei na fila da entrada. Eu era o único não-branco nas redondezas. Meu espanto: o porteiro não pareceu surpreso. Apoiou a mão no meu ombro e disse:
- Entra, rapaz.
Confundiu-me, por certeza, com um empregado de bar. Quem sabe, agora, o porteiro do Céu me confunda também e me deixe entrar, na crença que irei prestar serviço nos lugares da criadagem?
Porque o que acontece, caro Excelentíssimo Padre, é que eu estou morrendo, escoado em sangue, por vontade do meu desviver. Vê este punhal? Não foi com ele que me golpeei. Há muito que pego na faca não pelo cabo, mas pela navalha. De tanto segurar em lâmina, minhas mãos já cortam sozinhas. Eu dispenso instrumento para decepar. Aliás, o senhor conhece esta minha deficiência, estes dedos que não me obedecem, esta minha mão que não é minha, como se ela concedesse gesto apenas à minha alma já morta. Se me matei, desta vez, foi por acutilância de meus dedos. Não fique assim, não se desabe. Recorda-se do que eu lhe pedia, padre?
- Quero ser santo, senhor padre.
E o senhor se ria. Que santo não podia. E porquê? Porque santo, dizia o senhor, é uma pessoa boa.
- E eu não sou bom?
- Mas o santo é uma pessoa especial, mais único que ninguém.
- E eu, Padre, sou especialmente único.
Que eu não entendia: um santo é uma pessoa que abdica da Vida. No meu caso, Padre, a Vida é que tinha abdicado de mim. Sim, agora entendo: os santos são santificados pela morte. Enquanto eu, eu é que santifiquei a vida.
Agora, estou no fim. Um santo começa quando acaba. Eu nunca comecei. Mas não é desta vez que a morte em mim se estreia. O meu coração se apagou foi nessa longínqua noite do baile. Entrei no salão do Ferroviário, sim. Mas fiquei fora do coração da mulata Margarida. A moça nem deu deferimento de me olhar à distância, fria e ausente. Branca entre os brancos. Foi quando ela deixou cair um copo, que se estilhaçou no chão. E eu, para lhe diminuir a atrapalhação, logo me inclinei e recolhi os cacos, reunindo-os na minha mão. Foi quando o segurança da festa, chamado pelos doutores, me agarrou no braço e me forçou a levantar. O homem me puxou Pelas mãos e me apertou com tais vigores que os vidros cortaram fundo. Foi aí que decepei a carne, os nervos, os tendões. E escorreu sangue de um preto, como doença manchando o imaculado território dos brancos.
O que mais me fez sofrer, caro Padre, não foi o golpe. Não foi também o vexame. Foi Margarida ver-me ser expulso sem levantar protesto. Sofri tanto com essa desatenção dela, que a minha alma imitou o vidro: tombada aos despedaços. Quando me expulsaram já eu nem me sentia, despedido para sempre de mim.
Agora que pouco me resta, meu peito já não escuta senão a música desse baile onde a mulata Margarida me aguarda, braços estendidos a dar razão ao meu adiado viver. Estou entrando no salão de dança e, desculpe o contradito desrespeitoso, já não tenho força de mais falar. Só o desfazer dessa sua certeza: a vida, sim, tem segunda via. Se o amor, arrependido de não ter amado, assim o quiser.


Mia Couto, In O Fio das Missangas

09/10/2009

A aluna estrangeira

Chama-se Salima, a nova da turma.
Não é uma menina calada e tímida, como Gabi. Salima faz-se notada em todo o lado.
Fala mais alto do que os outros. Veste roupas mais garridas do que a maioria. E não deixa que lhe preguem partidas.
Por isso, as crianças tentam constantemente arreliá-la. Diverte-as enfurecerem Salima, ouvi-la gritar, vê-la debater-se à volta delas.
Troçam dos seus cabelos encarapinhados, das narinas grandes e da pele escura.
Salima é negra.
Fala bem alemão porque veio para a Europa com os pais quando ainda era bebé.
Gabi acha graça a tudo na nova menina.
Gosta dos olhos grandes, da voz gutural, da pele cor de chocolate.
Quando Salima ri, ri-se com o corpo todo.
Quando está furiosa, parece um vulcão, onde tudo ferve.
Gabi emprestou logo o seu caderno à nova aluna, para ela copiar as lições.
Com ela, Salima nunca é atrevida ou rude. Quando a deixam em paz, ela é igual aos outros.
Mal a menina estrangeira chegou à turma, há um mês, a escaramuça começou imediatamente:
— Uma preta! — disse Bettina bastante alto. Está sentada ao lado de Gabi e é a sua melhor amiga.
— É negra! — disse Georg arregalando os olhos.
— A cozinheira negra já cá está… já, já, já…(1) — trauteou Inga baixinho, da penúltima carteira.
Infelizmente, a pior é Bettina. Tem sempre alguma coisa a apontar à nova menina. A culpada disso é a mãe. Até a proibiu de voltar da escola para casa com “a tal preta”. A mãe nem conhece a menina estrangeira mas, mesmo assim, não gosta dela.
— Não é de cá — diz. — Vê-se à distância de dez metros que é diferente de nós.
Bettina também acha.
Gabi não percebe. “Isso não é motivo para não se gostar de alguém”, pensa. “Até é feio excluir-se uma pessoa, só porque ela tem um aspecto diferente do nosso.”
Gabi sabe o que é não pertencer ao grupo, porque também já foi nova na turma e ainda não há muito tempo. A nova, com grandes dentes da frente e um nariz demasiado comprido. “Peixe Espada”, foi como lhe chamaram na altura. Precisou de um ano inteirinho até conseguir aguentar, sem chorar, a troça dos outros.
Mesmo assim, foi-lhe mais fácil do que o é agora para Salima. Porque Gabi é branca. Gradualmente, foi conseguindo ultrapassar o medo em relação aos outros.
Mas Salima nunca conseguiria esconder a sua pele escura.
Gabi gostava de dizer aos outros da classe que a nova só é atrevida porque tem de estar sempre a defender-se. Porque não a deixam em paz de uma vez por todas?
Só que Gabi tem medo de se pôr claramente do lado da menina estrangeira. Bem lhe quer mostrar que gosta dela, mas os outros não podem notar.
Não gostaria de vir a ter a maioria dos colegas contra ela, como antes, quando chegou como nova à turma.
Mesmo assim…
“Tenho de arranjar maneira de mostrar à Salima que estou do lado dela”, pensa Gabi. “E que gosto dela.”
Às vezes, no fim das aulas, depois dos outros já terem saído, Gabi atrasa-se de propósito para ficar mais um pouco com Salima, que demora sempre muito tempo a arrumar as coisas e a metê-las na pasta.
De repente, cai-lhe o estojo das mãos, e todos os lápis, os lápis de cor, duas borrachas e um pedaço de chocolate já mordido rolam para debaixo da carteira.
— Vá, eu ajudo-te — oferece-se Gabi.
Deitadas de barriga para baixo, tentam “pescar” o material escolar e o chocolate. Assim, ao tentarem chegar as duas ao mesmo lápis, chocam com os narizes uma na outra debaixo da carteira.
— Ai! Ui! — exclamam em coro, esfregando os narizes amachucados. E desatam a rir.
Salima diz de repente:
— Tu és simpática, sabes, mas os outros… —E faz um gesto de desprezo com a mão, que mais parece uma tentativa de nadar, porque Salima ainda está deitada. Gabi levanta-se e sacode o pó das calças.
Salima gatinha para fora da carteira mas fica sentada no chão.
— Sabes — diz, apontando para a sala vazia — se não lhes fizer frente desde o início, acabam comigo. Aprendi isto quando ainda era pequena e nos mudámos para cá. Algumas pessoas comportam-se de forma muito estúpida só porque tenho a pele escura. Acham que tenho de me sujeitar a tudo! — Salima levanta-se e mantém-se direita.
— Mas de mim não conseguem nada. De mim, não!
Por momentos, parece que vai chorar, mas não.
Gabi admira a menina estrangeira por ter a coragem de não se submeter. Ela própria tinha-se sempre escondido na sua casinha de caracol.
Encolhida, amedrontada, magoada nos seus sentimentos.
Salima, no entanto, é um pouco como um ouriço-cacheiro. Mal há sinal de perigo, fica logo eriçada. Ela até é bem-disposta e gosta de rir. “Só temos de afastar os picos um pouco para o lado e não a provocar,” pensa Gabi. “E também ser amáveis com ela. Porque é que a maioria não percebe isso?”
A maior parte dos meninos não se deu sequer ao trabalho de tentar compreender a nova colega. Pensam que podem ofendê-la. Ela grita, mas ri logo a seguir.
Podem pisá-la. Ela riposta, mas, quando vai para casa, já vai a cantar.
Aguenta muita coisa. Podem fazer-lhe sentir que é diferente. É mesmo bom que haja cá uma aluna como ela. Ao menos, há mais animação.
É sempre Bettina quem desafia a menina negra e quem provoca os outros. Como neste momento.
Bettina faz pontaria com a borracha às costas de Salima. A borracha faz ricochete e salta de novo para a mesa. A brincadeira repete-se quatro, cinco vezes.
Alguns riem.
— Palerma! — grita Salima, que já começa a ficar farta.
— Acalma-te — diz Paul, com uma voz zangada e dura, ele que nem tem nada a ver com o assunto.
— Deixa-a em paz! — mete-se Alexa, que está sentada ao lado de Salima.
Alexa tomou o partido de Salima. Pode dar-se ao luxo de dizer abertamente o que pensa.
“Como ela é querida por todos, pode admitir que gosta da nova”, pensa Gabi.
Com Gabi é mais do que “gostar”. Ela sente com Salima. Sabe, pelo que passou, o que Salima tem de aguentar. Tem pena dela. Lá por Salima, para quem vê de fora, reagir melhor do que ela reagiu, não quer dizer que não se sinta igualmente ferida.
“Tenho mesmo de fazer alguma coisa”, pensa Gabi. “Tenho de lhe provar que sou sua amiga.”
“A dois”, pensa Gabi, “dói tudo um pouquinho menos. A dois, pode-se partilhar a dor. Mas o que posso fazer sem pôr logo os outros contra mim?”
Gabi decide deitar-se na varanda todas as tardes depois da escola e “torrar” ao sol. Uma hora inteirinha até ficar cor de chocolate. Assim, Salima deixaria de ser a única com a pele escura. No Verão, a mãe está sempre a dizer a Gabi:
— Pareces uma negra!
Assim, a partir de hoje, Gabi tornar-se-ia negra.
— Que estupidez — diz em voz alta, afastando aquela ideia. — Uma pessoa não se torna negra só por se deitar umas horas ao sol. Não se fica, só por isso, com nariz largo, nem com lábios grossos, nem com carapinha. É preciso muito mais. E, principalmente, ter uma mãe ou um pai que sejam negros.
Gabi continua a magicar. Tem os cotovelos fincados na mesa e a cara apoiada nas mãos. Nem repara no que está a passar-se à sua volta. Tem o olhar fixo no padrão verde das costas do casaco de Salima.
De repente, um bico de lápis desliza para a frente, na diagonal. Pertence ao lápis que Bettina segura na mão.
— O que estás outra vez a fazer? — Gabi desvia Bettina com um toque.
— Deixa-me!
Bettina segura no lápis afiado de forma a apontar a mina à nuca de Salima. Estica o braço até quase lhe tocar.
— Será que ela sente? — segreda Bettina.
— Pára com isso!
Mas Bettina há muito que quer saber como é uma carapinha. Se é rija ou se é mole.
Bettina estica o braço um pouco mais para a frente. Alguns observam a brincadeira. De repente, Salima começa a balançar-se na cadeira. Dá lanço na beira da mesa, inclina-se com força para trás e acerta com a nuca no bico do lápis.
Um grito. Breve e cortante.
Com a mão direita na nuca, Salima dá umas voltas sobre si mesma. Com a esquerda, dá uma bofetada a Bettina.
— Estás maluca!! — grita Bettina — Não te fiz nada!
— Picaste-me!
— Não picou nada! — confirma Brigitte, que nem tinha prestado atenção ao que se passara.
Que pena a professora ainda não estar na sala. Podia ter acalmado a discussão.
— Vais pagar-me pela bofetada! — diz Bettina zangada.
Gabi estende o braço. Quer afagar a menina negra.
Mas Salima levantou-se de um salto e corre para a porta, a mão ainda na cabeça. Sobre a mão escorre um pouco de sangue. Antes de sair, Salima pára repentinamente. Devagar, muito devagarinho, vira-se para a turma, que a olha com curiosidade.
A menina estrangeira chora. Em silêncio. Só o subir e descer do corpo e o fungar baixinho revelam a intensidade do choro. Os grandes olhos parecem ainda maiores sob as lágrimas.
Fica por uns momentos parada, sem se mexer. Depois, fecha a porta com estrondo.
Silêncio aflitivo.
Salima chora. Já não ri. Não canta. Chora, como qualquer outra criança também teria chorado.
Gabi está como que pregada à carteira. Muda com o susto. As pernas estão pesadas como se tivesse chumbo nos pés. Porque não se levanta? Porque não corre atrás de Salima? Ela própria não percebe. Era precisamente agora que Salima mais precisava dela.
“Vocês são maus!”, quer gritar. Mas não lhe sai nada.
— Vocês são maus! — grita Michael em vez dela. Está sentado na primeira fila. — Ela não vos fez nada. Se fosse comigo, tinhas apanhado logo duas bofetadas, Bettina.
“Agora que Salima não está cá e não pode ouvir, é que ele diz isto”, pensa Gabi.
E ela própria, que tanto queria ter corrido atrás dela, que queria tê-la agarrado, protegido… não conseguiu!!
De repente começam todos a falar ao mesmo tempo.
— Ela não tem culpa de ser preta — diz Alexa novamente, que foi a primeira a defender a menina estrangeira. — Imaginem-se o único branco numa turma de pretos. Gostavam que vos acontecesse o mesmo?
— Salima pode não ter culpa de ser preta — diz Inga — mas no meu pão com fiambre é que nunca a deixaria trincar.
— Ugh! — diz Helga, arrepiando-se.
— Ugh! — diz Paul, arrepiando-se também.
— A ti é que ninguém te deixava trincá-lo, com tantas borbulhas — grita Martin.
— Saliva é saliva — diz Paul.
— Exactamente! E com Salima não é a mesma coisa? — Alex bate com o punho na mesa.
Gabi assusta-se. As vozes ressoam-lhe na cabeça. A pancada com o punho arrancou-a da confusão das palavras.
Há pouco, quando Salima estava a chorar à porta, Gabi tinha tido uma oportunidade. Podia ter mostrado que achava horrível a forma como os outros se comportavam. Especialmente Bettina. Em vez disso, tentou apenas acariciar a nova menina. Medrosamente, do seu lugar, de onde não precisava de se levantar nem de sentir a turma atrás das costas. Mas novamente a mesma sensação… Não.
O medo de tornar a ser ridicularizada é maior do que a ligação a Salima.
Mesmo assim, Gabi diz, muito baixinho:
— A Salima é querida. Porque é que és tão antipática com ela?
Bettina ouviu.
— Muito querida — diz, venenosa. — Mas cheira mal!
— Que estupidez! — grita Michael, que só ouviu as últimas palavras. — Já alguma vez estiveste sentada ao lado do Markus? Ele cheira tão mal que até as minhas meias fogem dele!
Markus, hoje, não veio às aulas. Por isso, a ofensa não o magoa. Se estivesse presente, ninguém teria dito aquilo.
Mas à menina estrangeira diz-se-lhe tudo na cara.
Bettina cala-se. A cara ainda está um pouco vermelha da bofetada. De repente, começa outra vez a barafustar:
— Anda vestida como um papagaio. Só lhe faltam as penas no rabo.
Risos abafados.
— Cala a boca de uma vez por todas! — diz Gabi, agora em voz alta.
A frase desapareceu na risota geral. Cada um grita à turma a sua opinião.
— Acabou! Acabou! Já chega! — Gabi grita agora mais alto do que os outros. Grita e tapa os ouvidos ao mesmo tempo. Ninguém repara que a porta da sala se abre.
Quando Salima se dirige em silêncio para o seu lugar, todos se calam de repente. Não olha para ninguém, tem os olhos pregados no chão e um grande penso na nuca.
Gabi levanta-se antes de Salima se sentar. É automático, o chumbo dos pés desapareceu. Gabi nem precisa de pensar. Vai direita a Salima e, em frente de toda a turma, põe-lhe carinhosamente o braço à volta dos ombros. Não custou nada.
— Lamentamos todos — diz Gabi em voz alta, de forma a que todos ouçam, especialmente Bettina.
Salima não diz nada.
Agora levantam-se também Alexa e Michael. Inga e Martina. Até Paul se chega à frente. O pequeno grupo cresce à volta de Bettina.
— Não fiz de propósito! — diz esta baixinho.
— Dói muito? — pergunta Gabi.
Salima levanta finalmente os olhos e olha para Gabi. Põe o braço à sua volta.
— Agora já não — diz.


Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990



03/10/2009

A busca do tesouro



A pequena princesa está há cinco dias de visita em casa do pequeno rei. Durante todo esse tempo não se aborreceram um único minuto mas hoje estão sentados nas escadas no palácio e não parecem muito alegres. Já jogaram os jogos todos, visitaram as torres todas, comeram a reserva de doces que havia na despensa e a despedida aproxima-se.
— No meu último dia vamos ficar aqui sem fazer nada? — pergunta a pequena princesa impaciente.
— Bem… — diz o pequeno rei — acho que sei o que ainda podíamos fazer.
— Sim? Ora diz lá! — pede-lhe a pequena princesa, curiosa.
— Pronto!
O pequeno rei vai ao quarto, tira da gaveta da secretária uma caixinha de ouro e abre-a.
— Eu tenho uma carta antiquíssima de um tesouro — sussurra misteriosamente, ao abri-la.
— Oh, óptimo! — a pequena princesa bate palmas, entusiasmada e depois começam a estudar o mapa em conjunto.
— Aqui é o castelo — diz o pequeno rei, apontando com o dedo para a parte de baixo do mapa.
— E daqui segue-se para esta árvore. Anda! — ordena a princesa.
Os dois correm para fora de casa.
— Oh, tantas árvores! Qual será a árvore certa?
— A que for parecida com uma ovelhinha.
— Está aqui!
As duas crianças reais correm para a árvore de copa um tanto singular.
— E a partir daqui?
— Está um olho marcado ao lado da árvore — murmura o pequeno rei.
A pequena princesa descobre um buraco num nó de um ramo e espreita por ele.
— Estou a ver um montículo.
O pequeno rei alegra-se.
— Oh! Isso também vem marcado no meu mapa!
Quanto mais a princesa e o pequeno rei se aproximam do objectivo, mais se entusiasmam.
— Primeiro precisamos de cinco sapatos — pondera o pequeno rei.
— Porquê?
— É assim que está no meu mapa.
A pequena princesa já tem uma ideia: cinco sapatos são cinco passos para a esquerda.
— Ele tem de estar aqui! Viva! — os dois caçadores de tesouros dão as mãos e dançam em roda aos saltos.
— Temos um tesouro, temos um tesouro! — cantam alegremente. A pequena princesa senta-se sem fôlego no chão e diz:
— Vá, começa!
— O quê? — pergunta o pequeno rei.
— Então! A escavar!
O pequeno rei olha para a princesa muito admirado.
— Aaa… Não tenho pá nenhuma … e já descobri o mapa do tesouro. Tu é que tens de cavar.
— Uma princesa não pode andar por aí a cavar. Sê um cavalheiro e faz isso pela tua visita, está bem? — a pequena princesa pisca o olho ao pequeno rei e acrescenta: — Vais buscar uma pá?
— Não, tenho uma ideia muito melhor. Greta! Au-Au! Tigre! Vinde todos aqui! Encontrámos um tesouro. Vinde todos ajudar!
Os amigos chegam a relinchar, a ladrar e a bufar. Mas Au-Au não precisa de ajuda e faz tudo sozinho e, além do mais, ainda se diverte. Cavou um buraco no chão arenoso e fofo à velocidade do vento. O pequeno rei, a pequena princesa, Greta e os outros estão um pouco afastados para não receberem com a terra. Agora já nem se vê Au-Au.
— O tesouro está muito fundo! — comenta a pequena princesa.
— É esquisito. Pára, Au-Au, há aqui qualquer coisa que não bate certo! — o pequeno rei olha pelo buraco e ajuda Au-Au a trepar para fora.
— Ora bem, não entendo. Porque é que não está cá nenhum tesouro, quando fui eu mesmo que fiz o mapa?
— Hiii! — Greta relincha um resmungo.
— Au, au, au! — ladra Au-Au indignado.
E a pequena princesa até dá um empurrão ao pequeno rei.
— Como? Uma carta do tesouro feita por ti? Então bem podemos procurar durante muito tempo! — ofendida, cruza os braços e vira a cara para o lado. O pequeno rei volta a estudar novamente o mapa.

— Vamos lá ver outra vez… Primeiro estivemos aqui e depois… Oh, já sei! No monte seguimos na direcção errada. Não é para a esquerda, mas para a direita. Venham, vamos tentar outra vez.
O pequeno rei vai a correr à frente e os outros seguem atrás devagar.
— Desta vez estamos bem. Venham! Onde é que estão? Venham ajudar-me!
— Auuuuuu — uiva Au-Au. Ele já cavou. Greta faz de conta que está a coxear e a pequena princesa limita-se a dizer:
— Pf!
— Ajudai-me, que eu dou-vos do meu tesouro!
— Não — diz a pequena princesa abanando a cabeça.
— Pronto, eu faço sozinho e fico com tudo para mim!
O pequeno príncipe começa a cavar e, passado um momento, exclama:
— Oh, está aqui alguma coisa dura!
Os amigos apuram o ouvido mas não se aproximam. O pequeno rei continua a escavar.

— Está aqui uma caixa! Ahh, eu sabia! É o meu tesouro! Iupi!

Com muito esforço, o pequeno rei retira a caixa da terra mas, mesmo assim, ninguém o ajuda, pois estão todos muito surpreendidos. O pequeno rei sacode a terra do velho baú e abre-o.
— Hiiii! — relincha Greta admirada. E a pequena princesa fica de boca aberta.
— Descobriste um tesouro verdadeiro? Não é possível! Isso nem era nenhum mapa a sério! Ou seria?
Por cima da tampa do baú, o pequeno rei olha para os amigos, que ainda não deitaram uma olhadela à sua caixa.
— Claro que era verdadeiro! Não estão a pensar que eu ia fazer um mapa sem um tesouro verdadeiro, pois não?
Os amigos olham de boca aberta.
— Claro que não esqueci o tesouro. Uhm! E que coisas deliciosas estão na caixa! Ossos tenros, boas cenouras, cerejas e bolos. Oh, e até uma bola para jogar! Que pena vocês não quererem nada disto…
À volta do pequeno rei, todos ficam embaraçados.
— Isto é alguma surpresa de despedida? — pergunta a pequena princesa baixinho.
— Bem, talvez — responde o pequeno rei. Todos se aproximam e espreitam, curiosos para dentro da caixa.
— Só mesmo tu! Primeiro esqueces-te da pá e agora faltam as facas e os garfos.
— Mas nunca me esqueci do mais importante. Do que se precisa numa busca ao tesouro? De um mapa e de um tesouro. E de que é que se precisa para comer um tesouro? De uma única coisa: de amigos que comam connosco, ah, ah, ah!
O pequeno rei também tem uma toalha de piquenique dentro da caixa. Foi, assim, um belo lanche de despedida para a pequena princesa. E ela já sabia o que iria oferecer-lhe na próxima visita: uma pá. Pelo sim, pelo não…


Hedwig Munck
Der kleine König sagt “Gute Nacht”

02/10/2009

À beira do lume

Sossegadas as balbúrdias do dia, já a noite vinha devagarinho deitar pozinhos de sono por aqui e por ali.
Sentadas à lareira da velha casa, a avó e a neta começaram a pensar qual havia de ser a última história do dia.
― Conte lá a história da Carochinha! ― pediu a Mariana.
A avó admirou-se:
― Outra vez?! Mas tu nunca me deixas acabar como deve ser…
― Hoje deixo! ― prometeu a menina.
E a avó contou a história da Carochinha, como ela é conhecida. Falou da Carochinha à janela, toda contente por ter encontrado uma moeda ao varrer sua casinha:
― Quem quer casar com a Carochinha que é formosa e bonitinha?
― “Quero eu, quero eu!” ― tinham dito um cão, um gato, um galo, um boi, um burro…
Mas a Carochinha não tinha gostado da voz de nenhum deles e todos se tinham ido embora. Até que apareceu um ratinho: “Quero eu, quero eu!”
― Oh, como és engraçado! Ora fala um bocadinho, para eu ouvir bem a tua voz!
― Chi… Chi… Chi…
― Que linda fala! Vamos já casar! Vamos já casar!
E assim foi. No dia da boda, já iam a caminho da igreja para o casório, quando a Carochinha deu por falta de uma luva que tinha esquecido na cozinha, ao mexer o panelão que fervia ao lume.
― Vou já buscar a luva! ― disse o ratinho, muito amável.
― Tem cuidado, não te debruces no caldeirão!!! ― avisou a noiva.
― Bem ― continuou a avó ―, o ratinho foi até à cozinha e…
A neta, que ouvia a história com muita atenção, disse de repente:
― Mas a porta estava fechada!!!
A avó continuou:
― Pronto, a porta estava fechada e então o ratinho foi logo a ver da chave…
― Mas não a encontrou!!! ― disse muito depressa a Mariana.
― Bem ― continuou a avó ―, o ratinho então subiu a um postigo de grades que dava para a cozinha, e…
― Viu que não cabia por entre as grades!!! ― acudiu muito aflita a Mariana.
A avó não desistiu:
― Bem, então o ratinho, que era muito esperto e queria ir buscar lá dentro da cozinha a luva da Carochinha, pôs-se à procura de um buraco na porta pelo qual entrasse…
― Mas não encontrou!!! A porta era nova! ― interrompeu a Mariana.
― Bem, então não pôde ir buscar a luva da Carochinha à cozinha e voltou muito triste para junto da sua noiva, que…
― Ó avó, escusa de dizer agora que ela lhe deu a chave da cozinha, porque eu sei que não deu nada!!! ― quase gritou a neta.
― Por acaso era isso mesmo que eu ia dizer… — riu a avó.
E as duas, avó e neta, ali ficaram a rir e a brincar à beira do lume e à beira de uma velha história da Carochinha que a neta não queria, por nada deste mundo, que acabasse

“com o João Ratão
cozido e assado
dentro do caldeirão!”


Maria Alberta Menéres
Histórias de tempo vai tempo vem
Porto, Ed. Asa, 2002