26/09/2009

Quase me bateu

Esta história começa em 1947. Era um belo dia de Primavera e encontrava-me na Florida a lavrar um campo para um amigo. Fora objector de consciência durante a Segunda Guerra Mundial e estava muito feliz por voltar a casa e ao trabalho do campo, a que já me dedicava antes da guerra.
Um grupo de condenados trabalhava numa conduta de esgotos numa das extremidades do campo. Parei perto do matagal que rodeava aquele lado do campo e ajoelhei-me para arranjar e olear o arado. Enquanto deitava óleo, ouvi um ruído que me fez olhar para cima. Dos arbustos surgiu um homem. Vestia a farda às riscas pretas e brancas dos condenados. Carregava aos ombros uma moca pesada que parecia o cabo de uma ferramenta.
Parou a poucos metros de mim e as primeiras palavras que disse foram:
― Preciso muito de dinheiro e vou levar tudo o que você tiver.
Compreendi imediatamente que não podia fugir nem lutar com ele. Com a moca quase em cima da minha cabeça, não teria qualquer hipótese. Por isso, fiz o que ele menos esperava. Olhei-o nos olhos.
― Se precisa assim tanto de ajuda, porque não o diz? Ninguém precisa de se magoar.
Continuei a olear o arado. Ele ficou especado e, em seguida, baixou a moca. Quando o fez, disse-lhe:
― Com que então vai fugir? Tem consciência de que vai ser um homem procurado?
Respondeu que sim, mas que os capatazes eram maus. Falámos mais alguns minutos enquanto eu oleava e arranjava o arado. De repente, deixou cair a moca.
― Ganhou ― concedeu. ― Vou voltar.
Deu meia volta e, sem dizer palavra, desapareceu no meio dos arbustos.
Depois de dar graças pela força e pela orientação que recebera, liguei o tractor e continuei o trabalho. Sempre que me dirigia para aquele lado do campo onde se encontravam os condenados, tentava ver se o homem estava com eles, mas era demasiado longe para ter a certeza. Supus que tinha sido a última vez que o vira, mas enganava-me.
A segunda parte desta história tem lugar muitos anos mais tarde. Pusera de parte a agricultura e tornara-me Director do Clube de Rapazes da minha terra: Jacksonville, na Florida. Uma noite vinha de uma reunião, ansioso por chegar a casa. Mesmo antes de um cruzamento, dois carros chocaram de frente. À medida que me aproximava, vi os dois condutores, aparentemente sem ferimentos, saírem dos carros e correrem um para o outro, de punhos em riste. Um deles caiu por terra e o outro, furioso, começou a pontapeá-lo e a bater-lhe com uma chave-inglesa.
Tive a forte tentação de dar meia volta em direcção a casa, mas as palavras surgiram-me muito claras: “Não, Calhoun! Tens de parar e ajudar!” Por isso, um pouco contra a vontade, pensei no que poderia fazer: não havia tempo para ir à procura de um telefone e chamar a polícia. O homem morreria rapidamente se os pontapés e os murros não parassem.
De novo, a pequena voz interior falou: “És forte e os teus músculos não te foram dados só para o desporto. Age depressa!”
Saltei para fora do carro e atravessei o curto espaço entre mim e os dois homens: um inconsciente no
passeio, o outro persistindo no seu ataque enraivecido. Pus-me atrás deste, iluminado apenas pela ténue luz de uma estação de serviço próxima. Antes que ele se apercebesse, agarrei-o pelos braços, puxando-os para os lados. Ofereceu resistência mas eu mantive-me firme. Tropeçámos no passeio e caímos perto do outro homem inconsciente. Continuei a fazer força. Não lhe bati nem lhe provoquei qualquer ferimento. Em breve, apareceu um homem da estação de serviço e ofereceu ajuda. Pedi-lhe que chamasse a polícia.
A polícia chegou rapidamente. Eu continuava a agarrar o homem que se debatia e me chamava nomes nada elogiosos. O outro continuava inconsciente. A polícia trouxe algemas e estavam quase a algemar-me quando expliquei o que se passara. Agradeceram o meu gesto e deixaram-me ir para casa, para junto da minha mulher, que entretanto se perguntava por que razão demorava eu tanto. Depois de me ter vindo embora, dei-me conta de que, naquela noite escura, não tinha olhado para a cara de nenhum dos homens, o que lamentei.
A história também não termina aqui. Muitos anos mais tarde, estava a fazer voluntariado no hospital psiquiátrico da região, ajudando nas actividades lúdicas, quando, um dia, uma funcionária telefonou para me dizer que um antigo doente a tinha contactado. Chamava-se George Harris e tinha-me reconhecido no hospital. Assegurei-lhe que não conhecia nenhum George Harris, mas ele tinha-lhe dito que era o condenado fugitivo que me ameaçara naquele campo. E que era também o condutor que batera no outro homem e que o teria morto se eu não o tivesse feito parar. Se não tivesse sido eu, ele ter-se-ia tornado um assassino.
Depois disso, sofrera um esgotamento cerebral e ficara no hospital psiquiátrico durante algum tempo. Quando saiu, foi trabalhar e começou a poupar dinheiro. Agora, queria enviar-me um presente pelo correio. A funcionária tentou convencê-lo a vir trazê-lo pessoalmente, mas ele não quis. Por isso, uns dias mais tarde, passei pelo escritório dela. Quando abrimos a encomenda, vimos um relógio Bulova que, ainda hoje, vinte anos volvidos, funciona perfeitamente.
Pensei que seria este o final da história, mas não. Embora tenha mudado muitas vezes de casa, George Harris não perdeu as minhas coordenadas. Escrevia a dizer-me que estava bem e mandou-me vários presentes – um belo banco de carpinteiro, um par de botas em couro e um relógio Hamilton, da colecção “Railway Special”. Escrevi sempre de volta, a agradecer-lhe, para o apartado que vinha nas encomendas.
Nunca respondeu às minhas cartas, mas, um dia, quando estava a construir uma chaminé na Carolina do Norte, apareceu um carro com matrícula da Virgínia. O condutor dirigiu-se a mim e perguntou:
― É Cal Geiger, não é?
― Sim ― disse. ― Quem é o senhor?
― O meu nome é George Harris.
Contou-me que estudara e se tornara professor. Tinha mulher e dois filhos. Agora estava bastante doente e queria ver-me e agradecer-me pessoalmente, antes de morrer. Voltou para o carro e partiu.
Sei que o que se diz e o que se faz podem fazer a diferença. Fiz a diferença para George Harris, mas também fiz a diferença para mim próprio. Quando penso em toda esta história e no que significou para mim, sinto uma enorme gratidão por ter conhecido George Harris.


Calhoun Geiger
M. Clark; E. Briggs; C. Passmore
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001





17/09/2009

A fita vermelha



Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias do que tristezas.
Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar.
Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.
A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antes, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.
O quê? Português, francês. Hoje sei, acima de tudo, o amor da vida.
Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.
Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez em quando.
Porque, mais do que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina – ou antes, a ter a consciência de que a aprendia.
Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.
Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia.
Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos.
Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em quando. Uma Primavera só no ar adivinhada.
Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora. Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste. A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital. Olhei o retratinho dela na caderneta.
Retratinho de «passe», num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia. Tão cheia de doçura a Aurora! Doente, do hospital tinha-me mandado saudades.
— Vou vê-la no próximo domingo — anunciei às companheiras. E tencionava ir vê-la mesmo no próximo domingo.
Mas o próximo domingo foi cheio de Sol. Sol do próprio astro, quente, luminoso. Igual e diferente, ao mesmo tempo, do sol-sorriso das meninas.
E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do Sol, fui passear. Ver mar? Campos verdes? Flores?
Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar.
Começava a Primavera.
Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo domingo.
Hoje sei que o amor dos outros se não adia.
Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro.
Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me, esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam transmitido.
Veio a família: mãe, pai, irmãos, amigos, as colegas.
— Estou à espera da professora…
No dia seguinte a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua doçura, a sua esperança.
A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na almofada, talvez incómoda, do hospital. Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender.
Não fiquem tristes por isso. Vejam como as flores nascem quase transparentes da terra, como as podemos olhar à luz do Sol, e morrem, para de novo nascerem.
Lembrem-se como de um ovo de pássaro podem sair asas que voem tão alto em dias de Primavera. E morrem, também, e todas as primaveras nascem de novo. E, sobretudo, lembrem-se do coração de cada um de nós, desta força imensa.
E não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural que se não adia.
Às vezes até precisamos uns dos outros para dizermos que estamos felizes, contentes. Só para isso. Mesmo felizes precisamos dos outros.
*
Aurora ensinou-me para sempre esta verdade.
As lágrimas que por ela chorei já não lhe deram aquela visita do próximo domingo.
Nem a mim a alegria de a encontrar sorrindo, cheia de doçura, com uma fita vermelha a prender os cabelos escuros. Vermelha de sangue, como a vida. O Sol. Flores vermelhas.
Aurora era o seu nome. E a sua vida uma manhã apenas que, na minha distracção ou egoísmo, não tive tempo de olhar. Uma manhã com uma fita vermelha. Que lágrima nenhuma pode reflectir.


Matilde Rosa Araújo
O Sol e o Menino dos Pés Frios
Lisboa, Livros Horizonte Lda, 2001

13/09/2009

A Arvorezinha da vida

Na Rua do Ferro-Velho, em frente ao lar da Terceira Idade onde vivia a minha mãe, existia, por detrás de um muro coberto de telhas e com uma porta de grade, um pequeno jardim aberto aos moradores do lar e aos transeuntes que quisessem descansar num dos bancos lá existentes. O jardim era um triângulo delimitado por dois altos muros corta-fogo, enquanto o lado mais pequeno dava para a rua.
Pelas paredes não rebocadas trepava hera até ao segundo andar, tentando esconder o castanho-ferrugem dos tijolos gastos pelo tempo. Encostados às paredes havia alguns bancos, de onde se podia olhar para o centro do jardinzinho triangular, que só à tarde recebia a luz quente do sol, e ainda assim por pouco tempo. De resto, ficava mergulhado numa sombra melancólica.
Pela sua forma, o terreno não servia para construção, por isso o proprietário oferecera-o à casa Edmund-Hilvert, para que os seus moradores pudessem usá-lo como uma espécie de oásis no meio do deserto de pedra. A minha mãe usufruía do pequeno jardim. Depois do almoço, saía pela porta das traseiras, passava pelos contentores do lixo, atravessava a rua, abria a portinhola de grade e entrava no jardim, para se sentar num dos bancos pintados de branco virados para a parede com hera, ficando com o relvado à sua frente e, no meio deste, um pequeno ácer que lutava pela vida.
Ou porque a camada de húmus era muito fina, ou porque o terreno estava cheio de entulho, de pedras, de argamassa, de calcário e de cimento, ainda do tempo da guerra — talvez até venenos — ou mesmo por falta de sol, a pequena árvore era raquítica, miserável, com os seus frágeis ramos tristemente erguidos para a luz, como numa prece nunca atendida.
As folhas estioladas, sempre cobertas de pó, pendiam da arvorezinha: era como se ela não conseguisse respirar, ou melhor, sofresse de asma e respirasse com dificuldade.
A pequena árvore bem poderia ter feito parte do cenário da peça “Godot” de Beckett. ( À espera de Godot, peça do escritor irlandês Samuel Beckett). Era um cadáver vivo marcado pelo hálito da morte. E, ao mesmo tempo, na sua derradeira essência, representava a árvore como ser. Assim era e assim queria ficar.
Quando ia ao jardinzinho, minha mãe levava sempre um pequeno regador de plástico cor-de-laranja. Enchia de água o regador, com o qual, aliás, costumava regar as flores do peitoril da janela, e dava água à arvorezinha, a pouca que o regador podia levar e que ela conseguia transportar. Sentava-se então em frente da pequena árvore e ficava a vê-la agitar-se. Sim, porque ela mexia-se quando o vento passava e a bafejava; o vento que era capaz de dar vida, de a tirar e de a voltar a dar. E eu tenho a certeza de que, de algures, vinha até nós o chamamento de um melro. Ou ouvia-se o saltitar de um pássaro, de um pássaro qualquer, ali entre as paredes, de manhã cedo, pelo nascer do sol, e à noitinha, ao pôr-do-sol; e a minha mãe ouvia o chamar do pássaro, assim como percebia a muda agitação da pequena árvore. E mesmo que a não abraçasse nem falasse com ela, tinha na pequena árvore um vizinho e um alimento para os olhos, que, de outro modo, estariam cegos e vazios.
A arvorezinha erguia-se ali em representação de todas as árvores que alguma vez, ali ou noutros lugares, se ergueram, cresceram e definharam, e das que naquele momento cresciam noutro lugar. Árvores que, dali em diante, viveriam e morreriam como os homens e os animais e tudo o que, tendo vida e querendo viver, estava já talhado para a morte.
Eu encontrava-me sentado ao lado de minha mãe, que tinha ido visitar. Ela regara a arvorezinha, como fazia todos os dias, e estava agora com o regador cor-de-laranja vazio ao colo a dizer-me que todos os dias fazia aquilo.
— Espera só mais um bocadinho! — dissera-me quando ainda estávamos no lar. — Primeiro tenho de encher o regador.
De início, eu não percebia porque levava o regador, mas agora sabia-o.
— Sempre foste adoentado — disse minha mãe. — Já em criança. Adoecias muitas vezes.
Olhei para a arvorezinha. Era tão pequena, que tive a impressão de estar a olhá-la de cima para baixo. Encontrava-me sentado ao lado de minha mãe, que sabia que a sua vida se aproximava do fim e que, mesmo assim, se preocupava com aqueles que viviam. E eu sabia que, fizesse eu o que fizesse, nunca iria ser capaz de fazer nada melhor do que aquilo.


Theodor Weissenborn
SOS-Kinderdorf Caderno Anual, 1996

Uma vaca chamada Estrelinha

Lado a lado viviam o primo Zé mais o primo Barnabé.
Cada qual tinha a sua casa de pedra escurecida, apanhada aqui e além, pelas serranias, cada qual a sua horta de pobre, com o milho a crescer junto às batatas, couves repolhudas roídas pelos caracóis, meia dúzia de galinhas a debicarem à solta. E cada qual tinha o seu sonho também.
- Ah!, se eu tivesse uma vaca! - dizia o primo Zé -, não era eu que engolia este café aguado. Havia de beber uma boa caneca de leite.
- E não seria o Barnabé a roer pão seco. Não! Havia de guardar as natas para fazer manteiga, havia de ir buscar cardos ao monte para talhar o leite e preparar queijos de se Ihes tirar o chapéu.
O primo Zé coçava a cabeça, o primo Barnabé repuxava o bigode, pois bem sabiam que era sonho alto de mais para tão pequenas economias.
No entanto, mal se encontravam voltava a mesma conversa.
- Farta-se a gente de suar e esta terra não dá nada. O milho seca antes de criar espiga, a batata é miúda e engelhada, as couves mais duras do que caniços - lamentava-se um.
- Tivéssemos nós uma vaquinha isto andaria que nem um brinco. Adubava-se a preceito, com bom estrume, e era ver as plantas crescerem, os milhos dobrarem ao peso das maçarocas, as sacas encherem-se de batatas, as couves tornarem-se tenras, viçosas que nem flores - exclamava o outro.
Assim passaram semanas, meses, anos. Chegado Outubro, marchavam para a feira a vender o que granjeavam, com a carteira magra no bolso do casaco. Lá se ia o dinheiro em sementes, em pás e enxadas, lá se gastava num casal de coelhos, numa cabra, num porco para a engorda.
Não deixavam por isso de parar diante das vacas de trabalho, amarelas, musculosas, de grandes chifres revirados, das gordas vacas leiteiras, todas malhadas, de pequenos chifres e grandes olhos meigos, resignados.
Primo Zé apalpava a carteira, primo Barnabé apalpava a carteira.
- Ah!, se eu tivesse oito notas de mil… - resmungava o Barnabé.
- Quatro contos ainda eu arranjo...
- Outros quatro, eu! - atalhou o primo
- E se comprássemos a meias aquela vaca?
Era uma estampa: branca e preta, de raça turina, muito luzidia, com uma estrela preta na testa e uma estrela branca no lombo.
Resolvido o negócio, ataram-lhe uma corda ao pescoço e deitaram pernas ao caminho.

Temos uma vaca
chamada Estrelinha
Metade é tua,
metade é minha.

Cantarolavam com bom humor.
Chegados ao seu destino, fizeram-lhe um curral - metade na terra de um, metade na terra de outro - e aí instalaram a Estrelinha, vaidosa que nem princesa num palácio.
Então, contemplando a obra, o primo Zé exclamou:
- Comprámos a vaca a meias, mas ainda não decidimos qual metade será a minha - a da cabeça ou a do rabo.
- Mas que pergunta! Se queres que te diga, a cabeça sempre é mais airosa, mais limpa, mas a mim tanto me faz.
- Então eu fico com a parte de trás.
No dia seguinte, logo de manhã, primo Barnabé encontrou o Zé a mungir a vaca. Zumba que zumba, era apertar-lhe as tetas que o leite jorrava num esguicho. Já enchera uma vasilha até ao gargalo. E para o carrinho de mão acarretava duas pazadas de estrume.
- O meu trabalho está pronto! - disse o madrugador, esfregando as mãos de contente. - Cabe-te a ti, agora, dar a ração ao animal, visto ele comer com a boca, e essa parte não me pertence.
Ficou abismado o primo Barnabé, mas lá veio com seu carrego de palha, de fava, de erva, enquanto o outro batia manteiga e fazia queijos para ir vender.
Enriquecia o segundo, empobrecia o primeiro, matutando na triste sorte que lhe coubera. A parte da frente da vaca só dava gastos, a de trás rendia um dinheirão. Até que teve uma ideia...
- Ó primo - disse ele -, fartei-me da minha meia vaca. Desde que a comprei que não passo da cepa torta, que não provo um naco de carne. Ao menos hoje vou regalar-me com bifes!
E pôs-se a afiar um facalhão para cortar a vaca ao meio. Mas esta é que não gostou da proposta. Atirou dois coices ao Barnabé, uma marrada ao Zé e fugiu pela porta escancarada.

Assim acabou a história
De uma linda vaca
chamada Estrelinha
Metade é tua,
metade é minha.


Luísa Ducla Soares In O Meio Galo






11/09/2009

A infinita fiadeira


(A aranha ateia
diz ao aranho na teia:
o nosso amor
está por um fio!)

A aranha, aquela aranha, era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.
E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem fim nem finalidade. Todo o bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatais funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.
Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.
- Não faço teias por instinto.
- Então, faz porquê?
- Faço por arte.
Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. Os pais, após concertação, a mandaram chamar. A mãe:
- Minha filha, quando é que assentas as patas na parede?
E o pai:
- Já eu me vejo em palpos de mim...
Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
- Estamos recebendo queixas do aranhal.
- O que é que dizem, mãe?
- Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.
Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.
- Vai ver que custa menos que engolir mosca - disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar a sua colecção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova de seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime.
Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?
- Faço arte.
- Arte?
E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos - chamados de obras de arte - tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.


Mia Couto, In O Fio das Missangas



07/09/2009

Apenas um rapaz

Era uma vez um rapaz bravio que gostava de pregar partidas e fazer matulices, só por embirração. Era muito antipático este rapaz.
Mas emendou-se. Eu conto como foi.
Um dia, por maldade, deu-lhe na veneta atormentar uma pobre velhota, que vivia numa casinha pobre, à beira do povoado. Foi para uma pedreira que havia perto e pôs-se a atirar pedras e a rebolar pedregulhos, que iam cair no quintal da velhota. Para o que lhe havia de dar!?
No fim do seu feito, já cansado, aproximou-se da casa da velhinha, para ver de perto os resultados da sua proeza. Andava a velhinha a recolher as pedras, espalhadas pelo quintal.
— Foi uma bênção que me caiu do céu — dizia a velhinha. — Precisava, há que tempos, de consertar o muro do quintal, mas não tinha forças para trazer tantas pedras. Se não fosse esta avalanche...
O rapaz ficou de boca aberta. E mais sem fala ficou quando a velhinha lhe propôs:
— Bom rapazinho, importas-te de me ajudar a consertar o muro?
Ele, que tinha de fazer de conta que era um bom rapazinho, não teve outro remédio. Passou o resto do dia a acartar pedras, as pedras que ele lançara do alto do monte.
No fim da tarefa, a velhota agradeceu-lhe o trabalho e deu-lhe um grande boião de mel. O rapaz lá se foi, cansado e a lamber os beiços, um tanto confundido. À noite, quando se deitou, estava cá com uma dor nas costas, que não lhes digo nada! Mas regalado com o mel que a velhinha lhe dera.
Ora pois! Serviu-lhe de emenda. Mudou de intenções. Não posso garantir se, dessa vez em diante, nunca mais pregou partidas. Um diabinho não se transforma de repente num santinho. É exigir demais. Mas, na verdade, deixou-se de brincadeiras tolas.
Sem que possa ser considerado um virtuoso rapazinho, também já não é um venenoso rapazote. Nem rapazinho, nem rapazote. Apenas um rapaz. Nem muito mau, nem muito bom. Como quase toda a gente, aliás.

António Torrado

04/09/2009

A Doida e os Miúdos


Certa noite, Sagüi acordou em sobressalto, ao barulho de alguém que resmungava. Mirrou-se mais contra as pedras, tapou a cabeça com a manta de retalhos. Mas a voz trespassava a roupa, tanto como os baques do coração sob a caverna do peito. «Quem seria, àquela hora?... Talvez ladrão que descobrira o esconderijo da fruta, ou espião mandado pelo senhor Castro».
A voz, aguda e áspera, parecia de mulher. «Se calhar era algum dos companheiros disfarçado, por brincadeira... » Espreitou por um rasgão da manta.
A fraca claridade da lua definia um vulto escuro, estendido sobre monte de caliça, como que à espreita também. Sagüi sentiu saudades da palhota da vinha em que dantes dormia, e onde nada mais chegava que latidos de cães.
«...E se aquele vulto fosse de cão raivoso?» Um calafrio gelou-lhe o corpo e as pedras da cama. «Não. A voz era de mulher.» Ouvia agora gemidos abafados e palavras sem nexo... Depois, o silêncio pesou-lhe nas pálpebras. Fechou os olhos, esquecido; mas logo voltou a fixá-los no vulto imóvel. Por fim, cansado, adormeceu profundamente.
Quando acordou, o dia dormitava ainda, e o vulto também. Aproximou-se dele. Era a Doida. Ao primeiro impulso pensou em fugir, antes que ela tivesse algum daqueles ataques em que corria, à pedrada e aos gritos, os garotos da rua. Mas viu-lhe o rosto pálido, empastado de sangue. Lembrou-se da mulher que veio na lancha, chorosa, a engalhar o menino morto – e apiedou-se.
Levemente, estancou-lhe a ferida com um trapo molhado. Ela abriu para ele os olhos tontos, susteve-o nos braços, chamou-lhe meu menino. Sagüi quis libertar-se daquelas mãos frias que o afagavam; mas, por medo, deixou-se embalar como criança de colo, fitando a Doida, de esguelha. Pelo decote da blusa, via-lhe o seio muito branco e uma nódoa negra no pescoço.
– Estás tão crescido, meu menino...
O sorriso dela era um esgar de amargura. Sagüi esboçou uma carícia que se perdeu no ar, e voltou mais a cara para o lado. Os olhos, porém, continuavam hipnotizados pela nesga do seio. Contra vontade, a mão prendeu-se também no decote, trémula e suplicante... A Doida beijou-o. E ele esqueceu-se que era menino ao colo de mãe...
No dia seguinte, Sagüi não vendeu fruta. Mas os companheiros andaram pelas portas, como de costume.
– Quer laranjas? Uma dúzia dez tostões.
– Se calhar são roubadas...
Gaitinhas corava sempre, enquanto que os companheiros protestavam:
– Nã sou ladrão. Fui comprá-las às Areias.
Guedelhas palmilhava três quilómetros de estrada, para vender a fruta toda noutra vila, de manhã. Depois, ia treinar-se com bolas de trapos, crente de que em breve lhe dariam admissão no clube desportivo. Os outros acompanhavam-no, ou então jogavam o chinquilho no Mirante.
Foi lá que Sagüi lhes falou, embaraçado, com olheiras profundas no rosto.
– Hoje nã vendi nada...
– Tás doente, pá?
– Não. Andaram uns gajos a ver a capela.
O bando assustou-se.
– Disseram-te alguma coisa?
– Perguntaram só se eu morava ali. O melhor é arrecadar as laranjas noutro sítio.
– Adonde?
– No telhal do Zé Vicente.
– Tás parvo. Qualquer dia vão pra lá arranjar o forno...
Gineto pôs termo à discussão. – Mudam-se logo à noite, pronto.
– É melhor de dia – contestou Sagüi. – Se os gajos desconfi aram, são capazes de lá aparecer logo, outra vez.
Gineto começou a duvidar das palavras atabalhoadas do pequeno companheiro.
«Outra história» – pensou.
Seguiu-lhe as passadas toda a tarde. Viu-o entrar na capela com embrulhos misteriosos, e depois correr as ruas como que à procura de alguém. Entusiasmado pela perseguição, escondeu-se atrás dumas pedras, entre ruínas, e, enquanto esperava, desejou ser polícia, mais do que ladrão de fruta. Um polícia assim como o «Rei dos Cow-Boys», que fazia justiça por
suas mãos, nas fitas de cinema.
Mas Sagüi apareceu com a Doida, que ria e gesticulava. Da boca do Gineto quase se desprendeu um assobio de pasmo, tão longe estava daquele desfecho.
«Ai o gajo!... Misturado com a Doida sem dizer nada aos amigos...». Riu-se.
«E a comer com ela as laranjas da quadrilha...».
Não sossegou enquanto não falou ao Sagüi.
– Atão tu, grande impostor, inganchas-te na Doida e vens pra cá enganar a gente.
– Eu?!
– Nã te faças de novas, que eu vi vocês dois, na capela.
Sagüi embatucou por momentos.
– Tive medo que tu lhe fizesses mal... A gaja até faz pena. Olha que às vezes nem parece que é maluca.
– Eu só quero é trincar também. Já sabes... – declarou Gineto, impaciente.
– Mas não digas aos outros...
– Digo nada.
Uma semana depois, todos os componentes da quadrilha gastavam os lucros do negócio em prendas para a Doida.

Soeiro Pereira Gomes, In Esteiros




03/09/2009

A árvore que falava



Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra.
Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África.
A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Como era a única árvore das redondezas, os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. Também as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, a conheciam. E os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta…
E assim a árvore conhecia todos os segredos dos pássaros, dos leões, das girafas, das zebras e de muitos outros animais. É que ela escutava com todas as suas folhas.
Até os homens vinham sentar-se debaixo da árvore no momento das grandes decisões, discutindo os assuntos sérios à sombra dos seus ramos.
A árvore sabia mais sobre o povo dos homens do que o mais velho dos anciãos e o mais sábio dos sábios. Porque ela sabia calar-se, enquanto eles gostavam de falar.
Mas a árvore não guardava para si o seu saber: àqueles que tinham os ouvidos atentos, ela murmurava, em confidência, a resposta a muitas questões.
Quando os seus filhotes estavam suficientemente grandes para voar, as andorinhas, as cotovias e os estorninhos tinham por hábito levá-los até à árvore. Ao cair da noite, a árvore enchia-se de chilreios. Passado algum tempo, com três bicadas, os pais faziam calar os mais palradores. E cada um escutava o murmúrio que subia da raiz mais profunda até ao raminho mais alto.
No dia seguinte, os jovens sabiam um pouco mais da arte de voar em ziguezague para enganar as aves de rapina que mergulham sobre as presas. E a águia ou o milhafre regressavam às montanhas de mãos a abanar, perguntando-se por que milagre todos os passarinhos daquele canto da savana se tinham tornado, de repente, tão espertos!
E cada girafinha que partia a mascar um punhado de folhas da árvore ficava a saber um pouco melhor como evitar a leoa que caçava. E, misteriosamente, cada leãozinho, depois da sesta ao pé da árvore, desconfiava um pouco mais do riso da hiena que rondava à procura de uma presa fácil.
Mas os homens, esses, partiam tão sisudos e estúpidos como tinham vindo, e a sua tagarelice nada lhes tinha ensinado porque não sabiam escutar.
Eram orgulhosos e arrogantes. Incendiavam a savana com os seus fogos e matavam mais animais do que aqueles que precisavam para se alimentar. Matavam-se até uns aos outros. E chamavam a isso «a guerra». A árvore falava-lhes, como a todos, mas os homens não a escutavam. Por causa deles, a árvore ficou triste. Pela primeira vez, sentiu-se velha e cansada. Se pudesse, ter-se-ia deitado para esquecer. Mas quando se é uma árvore, é preciso ficar de pé a recordar…
Foi então que as suas folhas amareleceram e secaram e, em breve, ficou nua no meio da savana.
Os pássaros começaram a desdenhar dos seus ramos e os leões e as girafas também, porque ela deixou de lhes falar.
E todos diziam que ela estava morta.

* * *

Por muito tempo a árvore seca ficou de pé. E parecia que nada viria alguma vez a mudar… O milhafre da montanha estava contente e as hienas riam-se. A leoa perdeu um leãozinho, a girafa, uma girafinha e a andorinha, três passarinhos que mal sabiam voar.
Mas, uma manhã, veio um pequeno homem com um ar decidido. Tinha o olhar de uma criança, e esse olhar não reflectia nem fogo nem sangue. As suas mãos não agarravam nem arco nem zagaia. Contudo, era um homem.
Parou ao pé da árvore seca, estendeu os braços e, com as pontas dos dedos, tocou no tronco, muito devagar, ao de leve, como se acordasse alguém que dorme. A corcha estremeceu. E a voz do pequeno homem subiu ao longo da árvore, terna como um cântico muito antigo. O homem falava à árvore, cheio de simplicidade. Depois, calou-se. E encostando a orelha ao tronco, escutou. O vento nos ramos parecia formar palavras e frases. E quanto mais a árvore falava, mais a expressão do homem se iluminava.
Quando a árvore terminou, o homem partiu. Quando voltou, trazia um machado aos ombros. Uma vez perto da árvore, levantou a cabeça em direcção aos ramos e murmurou algumas palavras em tom de desculpa. Depois, firme nas suas pernas, com o cabo do machado bem preso nas mãos, começou a cortar o tronco.
E a madeira ressoou na savana, até aos limites do deserto e das montanhas.
Cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore.
Em conjunto, acorreram para junto dela, mas apenas encontraram um cepo e algumas aparas espalhadas pelo solo.
É que o pequeno homem, ajudado por alguns da sua aldeia, tinha levado a árvore até casa. E, com medo dos homens, os animais não se atreveram a segui-lo.
Uma vez chegados à aldeia, o homem pôs-se a trabalhar. Tinha uma grande ideia: para que a voz de madeira da velha sábia percorresse de novo a savana, iria fazer um tantã.
Um tantã mais sonoro e maior do que qualquer outro. Suficientemente longo para que todos os homens da tribo pudessem tocar em conjunto.
Como o homem pegava de novo no machado para podar os ramos e deixar, assim, o tronco livre, aqueles que tinham carregado a árvore com ele fizeram-lhe sinal que parasse:
— Pequeno homem, nós ajudámos-te — disseram os homens fortes com as suas vozes grossas. — O nosso trabalho deve ser pago.
— Mas… com que é que vos vou pagar? Eu não tenho nada, bem sabem!
— Deixa-te disso! — insistiram os homens fortes. — Trouxemos a tua árvore, dá-nos a nossa parte.
— Não pode ser — protestou o homem. — É preciso que o tronco fique inteiro para este tantã.
Se não, como é que a tribo poderá tocar?
Os homens obstinavam-se a reclamar a sua parte da madeira e o assunto foi levado ao Conselho dos Anciãos.

* * *

Era uma assembleia de homens muito velhos e muito tagarelas. Sempre prontos a pronunciar uma sentença ou um julgamento, tanto a propósito do que conheciam como do que ignoravam. Nada lhes agradava mais do que reunirem-se quando lhes pediam um conselho, e também quando não lho pediam! Ora, o Conselho tinha por hábito reunir-se debaixo da grande árvore, e os velhos sentiam-se desamparados… pois a árvore tinha sido cortada! O mais velho dos Anciãos, um pequeno velhinho com a face enrugada como uma ameixa seca, agitou o cachimbo por cima da cabeça e tomou a palavra:
— O Conselho não se pode reunir por falta de um lugar adequado.
E expeliu uma baforada do seu cachimbo.
Os outros membros do Conselho, sentados em círculo, aprovaram com um movimento de cabeça, expeliram, cada um, uma baforada do seu cachimbo e guardaram silêncio.
Os homens fortes, que queriam a sua parte da árvore, e o pequeno homem, que nada queria, não sabiam o que fazer.
Impaciente por começar o trabalho, o homem avançou para dentro do círculo, curvou-se respeitosamente diante do mais velho dos Anciãos:
— Digam-me apenas se posso começar o meu trabalho, já que estais aqui reunidos.
— Ah, não! É verdade que estamos aqui — respondeu o Ancião. — Mas o Conselho não está reunido. Por isso, não pode dar a sua opinião.
Expeliu uma outra baforada e calou-se.
Os homens fortes, impacientes por levar a madeira que lhes cabia, inclinaram-se, por sua vez, diante dos Anciãos e disseram:
— Digam-nos apenas se podemos pegar na nossa parte.
O Ancião nem se deu ao trabalho de responder. Limitou-se a expelir uma baforada do cachimbo e permaneceu em silêncio.
Mas o mais forte, que também era o mais impaciente, deu um passo em frente.
De imediato, o velho homem largou o cachimbo e, com uma voz trémula, acrescentou precipitadamente:
— O Conselho vai reunir… para decidir onde terá lugar o próximo Conselho.
O discurso enfadonho que se seguiu poderia ter durado até ao final dos tempos, se o Conselho não tivesse acabado por decidir… que decidiria mais tarde!
De seguida, os velhos aconselharam o pequeno homem a dar aos homens fortes o que eles pediam. Depois, reclamaram, por sua vez, um pedaço da árvore como recompensa pelo sábio conselho. E o pequeno homem assim o fez porque era costume dar uma prenda aos Anciãos, como
agradecimento pelos seus conselhos.
E cada um se apressou a serrar, a rachar e a atar.
E o pedaço de árvore não tardou a transformar-se em achas, toros e feixes para queimar. Os homens acendiam fogueiras à volta da aldeia para manter afastados os animais selvagens. Ignoravam que os animais tinham ainda mais medo deles do que das suas fogueiras.

* * *

Um pouco desiludido, o pequeno homem reparou na diminuição do tronco, mas disse para si mesmo que, apesar de tudo, ainda chegava para fazer um bom tambor para a tribo.
Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. O machado, no entanto, não era muito adequado para o descortiçamento, por isso decidiu ir a casa de um vizinho pedir emprestado um podão, cuja lâmina curvada faria melhor o serviço. Como era hábito, o vizinho estava a fazer a sesta e o pequeno homem acordou-o para lhe fazer o pedido.
— Ah! És tu? — disse o vizinho, bocejando como um hipopótamo. — O que queres de mim?
— Se fazes favor, podias emprestar-me o teu podão? — perguntou muito educadamente o pequeno homem.
— Eh! — respondeu o vizinho, tão amável quanto um crocodilo a quem interromperam a digestão. — Não me deixas dormir com esse barulho todo… E ainda por cima queres que te empreste o meu podão! E se eu precisar dele?
— Mas… é só por um dia! Amanhã já terei acabado!
— O que me dás em troca?
— Sabes bem que não tenho nada de meu.
— Ah não? E essa árvore? É tua, não é?
— Sim, mas… — começou o pequeno homem.
— Pois bem, dá-me um pedaço para alimentar a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu podão.
Assim se fez, já que mais ninguém na aldeia tinha a ferramenta de que o pequeno homem precisava.
Um pouco desiludido, atentou no tronco, agora mais pequeno. No entanto, havia ainda madeira para fazer um tantã para a tribo.
Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. E o descortiçamento depressa terminou.
Mas, quando quis cavar o tronco, apercebeu-se de que não tinha cinzel para o fazer.
De certeza que o vizinho tinha um, mas será que lho emprestaria sem reclamar mais um pedaço da árvore?
Infelizmente, mais ninguém da aldeia tinha cinzel. E era preciso acordar novamente o hipopótamo, amável como um crocodilo.
— Tu, outra vez! — bocejou o vizinho. — O que queres?
— Desculpa — disse o pequeno homem com a sua voz gentil. — Vim devolver-te o podão… e
pedir-te, em troca, um cinzel, se fazes o favor.
— Em troca? — zombou o vizinho. — Não há troca nenhuma porque o podão é meu. Dá-me um pedaço de madeira para a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu cinzel.

* * *

Assim foi feito. E o pequeno homem, um pouco desiludido, atentou no tronco muito curto. Ainda podia fazer um bonito tantã, não para toda a tribo, mas, mesmo assim, um bonito tantã. Cheio de coragem, meteu mãos à obra e depressa cavou o tronco. Faltava apenas endurecê-lo ao lume, para que fosse mais sólido e para que o seu som chegasse mais longe. Mas o pequeno homem não tinha fogueira e já havia dado tanta madeira aos outros que não possuía o suficiente nem para atear uma fogueira. Claro que a fogueira do vizinho crepitava, um pouco mais longe, mas não ousava acordá-lo pela terceira vez.
Foi então pedir aos homens fortes, que faziam uma grande fogueira, a permissão de passar o seu tantã pelo fogo.
— De acordo, — disseram eles — mas com a condição de pores uma acha na nossa fogueira, como todos fazem.
— Mas… já não tenho madeira, já vos dei tudo! — respondeu.
— Ah sim? E isto, não é madeira? — perguntou o mais forte dos homens fortes, indicando o pequeno tantã.
Com a morte na alma, o pequeno homem teve de se resolver a cortar um pedaço do tantã antes mesmo de lhe ter ouvido a voz.
E quando pensou naquilo que lhe restava do imenso tronco que a árvore lhe tinha dado, esteve quase para se sentar a chorar e abandonar o seu belo projecto.
Mas caiu de novo em si e disse para si mesmo que, apesar de tudo, se não chegasse para um tantã, chegaria para fazer um grande tambor.
Cheio de coragem, meteu mãos à obra e o que restava do tantã foi rapidamente convertido em djembé. (Djembé é o nome que se dá a esta espécie de tambor, em África). Mas o pequeno homem apercebeu--se de que lhe faltava uma pele de cabra para o tambor.
Partiu então à procura do rebanho de cabras. A rapariga que as guardava era ainda quase uma criança, e o pequeno homem pensou que seria mais fácil falar com ela.
— Bom dia — disse à criança.
— Bom dia — respondeu ela. — És tu que dás madeira a toda a gente em troca de uma ferramenta ou de lume?
— Sim, quer dizer… — começou ele.
— O que queres de mim? — interrompeu a criança.
— Apenas uma pele de cabra, uma daquelas que tens por aí. Mas já não tenho madeira para te dar.
— É pena — disse a rapariga. — Justamente, também eu necessito de um pouco de madeira.
Para afastar os leões do meu rebanho não há nada melhor do que uma boa fogueira, disseram-me os Anciãos.
— Oh, por favor, dá-me uma pele. Bem vejo que não te fazem falta — suplicou o pequeno homem.
— Pelo contrário, as minhas peles, troco-as por madeira! — retorquiu a criança.
E, como mais ninguém na aldeia tinha peles de cabra, o homem foi obrigado, uma vez mais, a cortar um pedaço do tambor.

* * *

A pele de cabra era dura e seca, frágil como uma corcha. Antes de a colocar no tambor, era preciso macerá-la, fervê-la, esticá-la, batê-la, para a tornar mais suave e tão sólida como o couro.
Só faltava levá-la ao curtidor.
Aquele que curtia todas as peles da tribo morava sozinho fora da aldeia, perto do rio. O seu trabalho requeria muita água. E os outros não teriam querido que ele se instalasse perto, devido ao cheiro insuportável das peles molhadas.
Mas, por mais longe que o curtidor morasse, também ele tinha ouvido falar da árvore abatida. Por sua vez, reclamou uma parte, como prémio do seu trabalho.
— Mas já não há nenhuma árvore! — lamentou-se o pequeno homem. Ficou apenas um tambor!
— De acordo — concluiu o curtidor. — Contentar-me-ei com um bocado do tambor.
E o pequeno homem cortou e deu-lhe a madeira, e a pele foi curtida, seca e ficou pronta a ser colocada no djembé.
Quando quis esticá-la, deu-se conta de que lhe faltava uma corda para o fazer.
Foi então à procura daquele que na aldeia melhor sabia entrançar cordas. É que a corda que estica a pele de um djembé tem de ser sólida.
Tal como os outros, o entrançador de cordas pediu um pouco de madeira. Apesar dos seus protestos e lamentos, o pequeno homem nada conseguiu. E o tambor ficou ainda mais pequeno.
O pequeno homem regressou a casa perturbado, com a corda ao ombro. Ao ver o tambor tão pequeno, perguntou-se se teria valido a pena o trabalho.
Depois, recordou a árvore que se erguia no meio da savana. Lembrou-se da promessa que lhe tinha feito e a coragem voltou-lhe. Depressa a pele de cabra foi colocada no djembé, em arco, e muito esticada por uma rede de nós sólidos e complicados.
* * *
O homem olhou para o seu djembé, finalmente pronto! Claro que era um djembé muito pequenino, bem diferente daquele tantã que ele quereria ter talhado e no qual toda a tribo teria tocado em conjunto. No entanto, o homem não ficou decepcionado, porque era um belo djembé: esculpido, polido, suficientemente largo para as suas pequenas mãos, e suficientemente grande para lhe caber entre os joelhos. Então, o homem quis experimentá-lo. Com as palmas e os dedos pôs-se a tocar. E a voz que saía deste tambor, tão pequenino que mais parecia um tambor de criança, era ampla e vasta e
profunda como a floresta.
O homem sentiu-se arrebatado e as suas mãos continuaram a tocar… E a voz imponente do pequeno djembé estendeu-se a toda a aldeia e à savana inteira.
Um por um, todos os da tribo se aproximaram dele. Tinham vindo todos: desde o mais ancião dos Anciãos à pequena guardadora de cabras, do mais forte dos homens fortes ao vizinho crocodilo. Tinham deixado as suas fogueiras, as suas conversas enfadonhas e as suas sestas, para formar um círculo em redor do pequeno tambor. E faziam silêncio.
Do pequeno djembé elevavam-se palavras e frases que diziam toda a savana: o medo da zebra que foge à azagaia do caçador ávido, o sofrimento da erva que curva perante a chama acesa pelo homem, a doçura do vento que murmura nos ramos da árvore… E os homens escutavam. Eles, que só pensavam na caça, na guerra e nas fogueiras, faziam silêncio.
Assim, até aos limites da montanha e do deserto, cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore. E, graças às mãos do pequeno homem, todos partilharam de novo o seu saber, por muito tempo ainda. Porque, ao som do djembé, o cepo da antiga árvore germinou. Do jovem rebento brotou uma nova árvore.
E, sob a sua corcha de árvore, corria a seiva da sabedoria de África.
A seus pés, por entre as ervas altas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. E as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, e os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta.
Até os homens…



Do Spillers
L’arbre qui parle
Toulouse, Milan Poche, 1999






01/09/2009

Um presente de arromba


Foi cinco dias depois dos meus anos. Tinha dezassete anos e cinco dias. Era terça-feira, 25 de Novembro. Chovia. Apanhei o autocarro porque chovia muito quando saí da escola. Só havia um lugar vago. Sentei-me e tentei afastar a nuca da gola, que ficara encharcada enquanto esperava na paragem do autocarro, e parecia a mão gelada da morte. Sentei-me e senti-me culpado por ter apanhado o autocarro.
Culpado por ter apanhado o autocarro. Por apanhar o autocarro. Vejam: a coisa pior quando se é jovem é a banalidade.
A razão por que me sentia culpado por ter apanhado o autocarro é esta: tinham passado cinco dias desde os meus anos, não é verdade? Para o aniversário, o meu pai dera-me um presente. Um presente de arromba. Inacreditável. Deve tê-lo planeado e andado a poupar durante anos, literalmente, para o comprar.
O presente estava lá, à minha espera, quando cheguei das aulas. Estacionado em frente de casa, mas nem dei por isso. O meu pai passou o tempo a fazer alusões indirectas, mas não percebi. Por fim, teve de me levar até lá fora e mostrar-mo. Quando me deu as chaves, a sua cara crispou-se toda, como se lhe apetecesse chorar de orgulho e de alegria.
Era, é claro, um carro. Não vou dizer qual era a marca, porque penso que já nos rodeia demasiada publicidade. Era um carro novo. Com relógio, rádio, todo artilhado. Levou uma hora a mostrar-me todos os extras.
Eu aprendera a guiar e em Outubro tirara a carta de condução. Parecia-me útil, em caso de emergência, e podia fazer alguns recados à minha mãe e sair sozinho se quisesse. Ela tinha um carro, o meu pai tinha um carro e agora eu tinha um carro. Três pessoas, três carros. A única chatice é que eu não queria um carro.
Quanto terá custado a coisa? Não perguntei, mas deve ter sido, pelo menos, três mil dólares. O meu pai é contabilista e nós não temos quantias destas para coisas desnecessárias. Com aquele dinheiro, eu podia ter vivido um ano ou mais no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, se admitíssemos que conseguia uma bolsa de estudo. Foi o que imediatamente me passou pela cabeça, antes mesmo de ele abrir a porta reluzente. Podia ter colocado o dinheiro numa conta--poupança. É claro que eu podia vender o carro e não perderia muito dinheiro se o fizesse rapidamente. Pensava nisso enquanto ele me punha as chaves na mão e dizia: "É todo teu, filho!" E a cara dele tremia outra vez.
E eu sorri. Penso.
Fomos imediatamente dar uma volta no carro, é claro. Conduzi até ao parque, ele trouxe-o de volta, estava ansioso por pôr as mãos no volante e tudo correu bem. O problema só surgiu quando, na segunda--feira seguinte, descobriu que eu não fora de carro para o liceu. Porquê?
Não fui capaz de lhe explicar. Nem eu percebia bem. Se tivesse levado aquilo para o liceu e o tivesse arrumado lá no parque, desistia dele. Era meu. Pertencia-me. Era dono de um carro novo. Todo artilhado. A malta no liceu diria: “Eh, pá! Olha para aquilo! Porreiro! Topem o Griffiths-Acelera!”. Alguns deles gozariam, mas outros admirá-lo-iam verdadeiramente, e quem sabe se também a mim, por ter a sorte de o possuir. E isso é que eu não ia aguentar. Eu não sabia quem era, mas uma coisa é certa: não queria ser um acessório de um carro.


Ursula K. Le Guin
Tão longe de sítio nenhum
Lisboa, Ed. Fragmentos, s/d