22/08/2009

A casa que o amor construiu


Esta história é verdadeira. Passou-se em França depois da Primeira Guerra Mundial, durante a qual uma aldeia inteira foi destruída pelos combates.


Marie acordou sobressaltada na escuridão cerrada e sentiu o cheiro familiar da sujidade. O seu pequeno corpo estremeceu com o frio húmido. Enquanto se levantava para arranjar a cama feita de trapos e de serapilheira no chão sujo, o pesadelo que lhe tinha abalado o sono pairava sobre ela como uma nuvem negra. Era todas as noites o mesmo pesadelo.
Começava sempre com um sonho agradável. Via a sua aldeia francesa muito amada. Depois via-se a sair da casa velha e aconchegante com a Mãe e a Avó e a passar pela rua estreita. Debaixo de quase todas as janelas, havia floreiras garridas cujas flores abanavam ao vento. O Sol resplandecia no campanário da igreja. Mas havia uma reverberação assustadora que vinha na direcção da aldeia: a reverberação das armas.
Marie estremeceu de novo, à medida que sentia que o sonho feliz se tornava um terrível pesadelo. Vinham-lhe à cabeça recordações assustadoras. Aterrorizadas, a Mãe e a Avó tinham-na arrastado para as árvores. Aí, deitaram-se por terra. Soldados de uniforme azul passavam em colunas. Armas! Lutas! Explosões e gritos! Fogo! Quando tudo acabou, a aldeia deixara de existir.
À medida que a guerra se afastava, Marie, a Mãe e a Avó vasculharam, em lágrimas, o cascalho em que a sua casa se transformara. A pequena família mudou-se para uma antiga cave. “Como toupeiras nos buracos do chão”, pensara Marie, com tristeza.
Enfiou-se nos trapos e voltou a cair num sono irregular. Os soldados continuavam a marchar na sua cabeça. Depois dos soldados franceses em uniformes azuis, tinham vindo os soldados alemães em uniformes verdes. Para alívio de todos, depressa se foram embora. Depois vieram os uniformes caqui dos americanos. Os americanos riam-se e entregavam moedas francesas aos miúdos ávidos. Mas, quando partiram, a aldeia continuou em ruínas.
Quando Marie acordou de novo, o Sol brilhava através das fendas nas tábuas velhas que serviam de tecto. Ao ouvir sons estranhos, sentou-se num ápice. Algo de diferente estava a passar-se naquela manhã. Perguntava-se que sons seriam aqueles.
— Mãe, será que os soldados voltaram? — perguntou ansiosamente.
— Não, minha querida. Vai lá acima ver quem chegou.
A Mãe parecia estranhamente contente. Marie atirou com os trapos e subiu os degraus periclitantes da cave. Viu de imediato que outros homens de uniforme cinzento tinham vindo para a aldeia.
— Oh, Mãe! — gritou excitada depois de os observar por algum tempo. — Os soldados trazem serras e martelos, em vez de armas. Estão a construir casas.
Marie pensou que eram soldados porque traziam uniformes. Mas não eram soldados. Eram trabalhadores britânicos e americanos.
Marie teve uma ideia súbita. Desceu os velhos degraus a correr e pegou numa meia velha onde estavam seis cêntimos franceses que os soldados americanos lhe tinham dado. Era o único dinheiro que a sua família tinha. Enquanto voltava a subir as escadas, um misto de esperança e ansiedade fazia-a tremer a cada degrau. Correu para o chefe dos homens vestidos de cinzento.
Timidamente, estendeu a meia e mostrou-lhe os seis cêntimos.
— O senhor pode construir-me uma casa por seis cêntimos?
O homem pareceu surpreendido e pediu-lhe para repetir a pergunta. Quando finalmente compreendeu, não se riu nem sorriu, mas respondeu muito seriamente:
— Bem, Menina, veremos o que se pode fazer.
Não disse “Sim”, mas também não disse “Não”. Marie montou guarda todos os dias para ver o que aconteceria. Uma por uma, foram--se construindo casas pequenas para outras pessoas. As casas eram pequenas e simples mas, para Marie, eram bonitas. Como ansiava por um chão de madeira limpo para varrer e um belo telhado de telhas vermelhas para impedir a chuva de entrar!
Será que se iriam embora sem construir uma casa para a família dela? Enquanto esperava e observava, a cave parecia-lhe mais escura e húmida do que nunca. Quando estava quase a desistir de esperar, Marie obteve a sua resposta. A resposta era “Sim”. A casa de Marie, tal como as outras, foi construída em apenas três dias. Para Marie, era a casa mais bela do mundo.
No dia em que acabaram de a construir, o chefe dos homens de cinzento entregou a chave da porta de entrada a Marie com muita cerimónia, dizendo: — Menina, a sua chave.
Marie pegou nela e abriu oficialmente a porta, enquanto a Mãe, a Avó e toda a aldeia a observavam.
Parou de repente, como se se recordasse de algo. Prometera-lhes os seis cêntimos pela casa, por isso, esta ainda não era propriedade sua.
Voltou rapidamente a descer os velhos degraus da cave e, quando voltou, dirigiu-se ao chefe dos homens de cinzento. Agora que estava acabada, a casa parecia grande e os seis cêntimos pareciam pouco. Mas era tudo o que ela tinha, e foi-os contando à medida que os colocava na mão do chefe.
Será que chegava? Quase nem se atrevia a olhar para o homem. Este sorriu-lhe e disse solenemente (em francês, claro):
— Obrigado, Menina, mas quatro cêntimos são suficientes.
E deu-lhe de volta dois cêntimos.


William W. Price
M. Clark; E. Briggs; C. Passmore
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC,2001

18/08/2009

Sonho de Artista

António era um pequenino doente que estava sempre deitado na sua cama, ou sentado, de olhos tristes, na sua cadeirinha verde.
Sabia que no mundo existiam muitas outras crianças que podiam brincar, correr pelos campos, jogar o eixo, saltar a corda; e quando lhe diziam que um desses meninos se aborrecia de estudar as lições ou chorava por qualquer insignificância, dizia, sorrindo, em voz baixa:
— Se eu pudesse andar livremente, correr e saltar como eles, estaria sempre feliz!
E a pobre mãe apoquentava-se por ver aquela pálida carita consumida e aqueles olhos expressivos sempre molhados de lágrimas.
E todos os dias pensava num divertimento, num brinquedo que ajudasse a passar as horas amargas ao seu adorado filho. Certa manhã, ocorreu-lhe comprar uma caixa de tintas.
António recebeu o presente com alegria e em seguida pôs-se a pintar.
Depois voltou-se para a mãe e disse:
— Gostava de pintar as pétalas de uma flor!
— Não é possível, meu filho, as flores têm já as suas cores naturais.
— Mas eu quero pintar uma flor!
E tanto pediu, tanto insistiu, que a mãe foi ao jardim e perguntou timidamente, se haveria alguma flor que quisesse renunciar à sua cor, mudar de tonalidade ou de expressão e compadecer-se do seu pequeno doente.
As rosas nem responderam, na sua altivez serena, tão absurda lhes pareceu aquela doida proposta.
Os lírios, erguidos na sua elegância frágil, declararam que a sua pureza tinha de ser intangível.
E as glicínias, e os cravos, e as tulipas, disseram, diplomaticamente que não era possível imitar o tom caprichoso e belo das suas variadas corolas.
A pobre mãe, ia voltar a casa, desiludida e mais triste, quando ouviu uma voz débil dizer-lhe quase em surdina:
— As minhas flores não são belas mas, se o teu filho se contenta, leva-as contigo, não hesites…
A planta que assim falava tinha grandes folhas verdes e pequeninas floritas de um branco doentio amarelado…
A mãe colheu então um ramo dessas flores e levou-as ao seu filho. Imediatamente, começou a colorir as suas petalazinhas. Era na verdade, um artista.
As tonalidades mais finas mais delicadas e subtis, um cor-de-rosa esmaecido, um azul diáfano, suave, um amarelo vibrante, e e muitos outros tons de novidade que nenhuma flor possuía, ele os dava, com singular simplicidade.
Quando acabou, chamou a mãe para lhe pedir que levasse de novo as flores ao jardim
A mãe obedeceu.
Na manhã seguinte, acordou e disse:
— Minha mãe, quero ver se o orvalho da noite manchou aquelas florinhas.
O sol faiscava nos arvoredos e nas plantas. Apenas chegou encheu-se de contentamento, os largos molhos de hortênsias estavam cobertos de formosíssimos tons rosados, roxos, vermelhos, amarelos e azuis.
E por entre aqueles ramalhetes cintilantes de vida, António passou alguns momentos de felicidade, porque só ele instintivamente criara essa beleza renovada, eterna e frágil, discreta e decorativa.



António Botto
O Livro das Crianças
Trofa, Sólivros de Portugal, 1989
adaptação

13/08/2009

Lágrimas de crocodilo



O Senhor Godinho era um homem de bem. Gostava das coisas simples, transparentes, puras. Gostava dos meninos e das flores, do sol e da água, do vento. Gostava que todos gostassem uns dos outros.
Por isso andava desiludido. Deixou de comprar os jornais, recheados de notícias de guerras, roubos, mentiras e ódios. Deixou de ter gosto pela sua cidade imensa, onde as pessoas passam indiferentes umas pelas outras e a riqueza de uns não serve para matar a fome daqueles a quem falta uma côdea de pão.
Despediu-se da família, fez as malas e embarcou para a selva.
Embrenhou-se pelo mato, evitando aldeias e povoados. Dormia ao relento, comia bananas, amendoins e entretinha-se a observar a vida dos animais. Também esta não era aquilo com que sonhara, pois até ali imperava a lei do mais forte. Os leões, os leopardos e os chacais espalhavam o terror pelas redondezas, os macacos rasgavam o silêncio com suas brigas e zaragatas, as enormes jibóias, disfarçadas de troncos de árvores, esperavam o bicharoco distraído que viesse encher-lhes a barriga.
Não existiriam amor e piedade em parte alguma do mundo?
Estava o Senhor Godinho mergulhado neste doloroso pensamento quando... que viu ele?
Trincando um rato com as enormes dentuças, um pequeno crocodilo verde chorava.
- Ao menos este tem compaixão! - murmurou o bom homem. - Mata porque a isso é obrigado, mas como as lágrimas lhe correm pelo focinho, coitado...
Apanhou-o a custo, comprou-lhe uma jaula e, farto da vida na selva, resolveu regressar a casa. Mal por mal, antes viver no aconchego do lar, com sofás de veludo, cama de molas e torradinhas com chá ao pequeno-almoço.
Mandou construir no quintal um lago de cimento, rodeado de areia fina, para o crocodilo. Logo à chegada Ihe encomendou um tenro lombo de vaca. Qual não foi o seu espanto quando, ao dar a primeira dentada, o crocodilo, de novo, começou a chorar.
- Coitadinho! Até da vaca tem pena e sofre por ter de a comer…
No dia seguinte, comprou-lhe frangos. Mas a cena repetiu-se. Mal as dentuças tocaram nas asas dos galináceos, quatro grossas lágrimas começaram a pingar dos olhos compadecidos.
Experimentou dar-lhe coelho - o choro continuava. Costeletas de burro - mais lacrimejava ainda.
Cobaias, perdizes, gatos vadios, cabritos e passarada - tudo provou o delicado crocodilo e de cada vez parecia que a sua dor arrasava o mundo.
A tristeza, no entanto, não lhe tirava o apetite nem o impedia de crescer e fortalecer. Transformara-se num crocodilo de meter respeito.
A choradeira, no entanto, aumentava mais e mais. O Senhor Godinho passara a gastar uma boa mesada em lenços de papel para o seu bichano predilecto limpar as lágrimas.
Até que a certa altura resolveu deixar de dar carne ao crocodilo. Passou a arranjar-lhe salada de alface, sopinhas de leite, fatias de pão de forma com manteiga. Foi remédio santo: o crocodilo deixou de chorar... e de comer, naturalmente. Foi-se pondo mais elegante, magro, magricela, esquelético por fim. Mas um riso angélico aflorava-Ihe aos "lábios".
Chamou, então, o Senhor Godinho um veterinário e contou-lhe a história do crocodilo de coração de ouro que sempre que comia chorava.
- Ó meu amigo, então você não sabe o que são lágrimas de crocodilo? Sempre que um crocodilo come seus olhos produzem lágrimas, ao mesmo tempo que a boca segrega saliva! Chora de gulodice, que por tristeza não verte ele uma lágrima. Você deixou de lhe dar boas bifanas e está a matar o bicho à fome. Veja! Mal se aguenta nas patas, mal consegue abrir a bocarra.
- Pobre crocodilo! - suspirou o dono. E, num gesto de amizade, abraçou-se-lhe ao pescoço.
O crocodilo pareceu compreender. Dois fios de lágrimas escorreram dos seus olhos infinitamente tristes e zás!, o Senhor Godinho começou a ser engolido. Valeu-lhe o veterinário que, num abrir e fechar de olhos, deu cabo do monstro esfaimado. Com esta trágica cena o Senhor Godinho voltou a ficar desiludido. Mas como nem tudo são males neste mundo e até as desgraças podem trazer os seus benefícios, aproveitou para mandar fazer uma carteira, um porta-moedas, um cinto e uma pasta da pele do crocodilo.


Luísa Ducla Soares, In O Meio Galo



10/08/2009

L

Há dois dias e duas noites o meu pai, bem, deixou de abrir os olhos e fechá-los e piscar só um com um sorriso assim estranho como se estivesse a partilhar comigo uma coisa qualquer engraçada que não precisava de palavras, por exemplo se passava uma mulher muito gorda lá fora ou se o vento vinha e entortava os guarda-chuvas dos homens de fato e gravata, e deixou de fumar e de calçar e descalçar as botas grossas e deixou também de se levantar da cama e ir pôr-se de pé parado junto à janela a olhar com olhos claros, nunca percebi se azuis se verdes, a estrada, os automóveis, as pessoas, o lixo que voa, bem, deixou de fazer muitas coisas, quase tudo pra dizer a verdade, passou a ficar só deitado no quarto dele, virado para o tecto mas de pálpebras cerradas, um pai magro e nu sobre a colcha já um bocado para o velhota, a fazer só assim um silêncio e um cheiro a intestinos e suor ou não bem isto mas não muito diferente disto.
Fiquei, claro, meio sem saber como reagir a esta mudança, mas na minha confusão lá consegui decidir que passados dois dias e duas noites às nove da manhã sairia, acontecesse o que acontecesse sairia.
São nove da manhã, por isso saio. Tenho um relógio que marca bem as horas, foi o meu pai que me deu, não sei como é que o arranjou, um dia apareceu e trazia aquilo. Andou com ele no pulso durante dois anos, depois fartou-se e deu-mo. É um relógio digital, com números rectos. O zero é um rectângulo de pé, o nove um quadrado com uma perna só. Foi feito em Taiwan.
A nossa casa, minha e do meu pai, é uma casa pequena, em ruínas mas com um telhado apesar de tudo, e uma cor muito característica que não conheço de outros lugares. Não exactamente uma cor mas mais um tom, um castanho-acinzentado com manchas de humidade e sujo. Está assim no meio de nada, num terreno vago que quando chove fica lama, onde estacionam os piores automóveis das pessoas que trabalham nos prédios, os automóveis melhores e maiores entram nos prédios. É uma casa assim que só tem prédios altos à volta e uma estrada tipo via-rápida que passa relativamente perto. Tudo, os prédios, a estrada, um centro comercial até, tudo é relativamente perto da casa, mas não mesmo em cima dela, porque à volta dela de facto há só o tal terreno vago que não é propriamente nada, daí eu dizer que é uma casa assim no meio de nada.
Sigo pela berma da estrada para a avenida grande dos prédios altos. Queria ver se encontrava alguma coisa de comer ou de beber mas só vejo folhas de revista com fotografias de pessoas famosas.
Não estou assim tão desesperado. Tenho a impressão de ter no estômago uma broca que se torce e vai torcendo, mas quando me mexo, quando ando, é melhor, como se o lento movimento da broca na barriga fosse contrariado pelo meu movimento geral. Quando ando preocupo-me em mexer-me todo. Não só as pernas e um braço balançando de cada vez, não, não gosto disso, isso é feio, não, sempre que ando, é tão raro, aproveito cada centímetro e mexo-me completamente. Um tipo de andar que começa na bacia e se espalha, para cima e para baixo, como uma espécie de dança ou quase, não sei bem qual será o efeito disto ao longe, como é que alguém que passa do outro lado da rua me vê, haverá um efeito estético de dança ou nem tanto, nem tanto? Mas o importante é que isto me ajuda de alguma forma, é uma forma de me deslocar mas também de desanuviar, de fazer exercício, embora isso não me interesse assim por aí além, e uma forma de não ter de pensar no meu corpo. Isso é que é o mais importante. Agora paro.
No alto de um poste uma confusão de coisas eléctricas. Cabos e reviravoltas várias, com um ar de sinal de alguma coisa. Atrás, no alto, o céu muito azul e aquilo assim tão verdadeiro, cheio de brilhos e complicações de máquina, complicações humanas, objectos misturados uns com os outros sem lógica aparente, objectos que não sei como se chamam mas podiam chamar-se turbinas, pólos, fios, quadros, como uma coisa que vale por si, como um sinal. Olho para aquilo durante catorze minutos, cronometro no meu relógio, e depois continuo. Dói-me a barriga. A ver se assim andando fico um bocado melhor.
Passam automóveis de cores quase sempre as mesmas, branco, preto, ou azul-escuro, e vermelho, e fazem barulho mas é um barulho que não me prejudica de qualquer maneira pois já estou super habituado a ele, super habituado, acho que ficava mal disposto e com dores de cabeça era se ele desaparecesse, um barulho que é como uma espécie de silêncio ruidoso, uma coisa lá muito ao fundo que faz vrrrum sem parar, continuamente, sem parar. E os prédios têm gente que sai e entra neles, e são altos até ao céu, e há umas imagens neles, por exemplo outros prédios ou céu com nuvens ou brilhos como sóis pequeninos.
No passeio as pessoas olham-me quando estão longe, mas depois desviam os olhos e quando se aproximam fingem que nem me vêem, fingem que eu nem estou ali, mas o modo como olham para o chão ou para o outro lado não deixa dúvidas sobre a sua mentira.
Eu tento com força olhá-las, mas não dá. Tento olhá-las só por jogo, porque de resto não me serve de nada. Aliás, devo dizer que não sei o que vou fazer ou o que devo fazer. Em parte foi por isso que esperei em casa dois dias e duas noites antes de sair. O meu pai é que saía de casa e ia arranjar coisas para nós comermos ou então coisas que dessem pra trocar ou até dinheiro, o que era bastante inusitado, até quase completamente impossível, aconteceu talvez uma vez, se tantas. Uma ou duas, não mais, seguramente. Mas, portanto, não sei como é que ele fazia. Se calhar andava por aí só à espera de um momento certo, de sorte, não sei.
Tenho uma camisa branca e um casaco roxo tipo daqueles com ombros grandes, exagerados. A camisa já está, claro, meio para o suja, com umas manchas assim de terra ou lá o que é, e o casaco fica-me enorme e tem duas nódoas nas costas, já tinha quando o meu pai mo trouxe, mas fora isso é um conjunto engraçado e que não é por nada mas até me fica bastante bem. Nas calças é que tenho um problema. As bainhas estão descosidas e então às vezes piso-as e desequilibro-me um pouco.
Isto para dizer que me espalhei ao comprido na rua. E qual não é a minha surpresa quando ao levantar-me vejo a Marlena.
A Marlena é uma mulher bonita, um bocadinho gorda e com poucos dentes já, mas bonita, com um cabelo pintado de loiro e umas saias sempre curtas e justas. Conheço-a porque um dia, quando fiz vinte anos, o meu pai apareceu com ela lá em casa e disse para irmos os dois para o quarto dele. Na cama onde agora ele está deitado a fazer assim um silêncio e um cheiro esquisito ela ensinou-me a tirar a roupa toda e a pô-la outra vez. Quando estou sozinho nunca tiro a roupa toda, porque fico com frio. Nem no verão tiro.
“Londres, o que é que fazes aqui?” pergunta-me. Ela chama-me assim, Londres.
“Bem, estava a andar e… bem… bem…”
“Malhaste,” diz ela, e sorri um sorriso desdentado com os olhos muito abertos de repente, e as sobrancelhas um só risco desenhando-lhe um arco na testa, e isso como que me embaraça um coche.
“Sim… hã.”
“O teu pai, que tal é que está? Já não o vejo há…”
“Está deitado.”
“Muito bem. Não tens dinheiro por acaso? Não queres vir comigo, passear um bocado, dar uma volta, hã?”
“Não tenho dinheiro,” digo. “Não tenho dinheiro, mas agradaria… agradar-me… agradar-me-ia… sim, agradar-me-ia muito dar uma volta consigo, Marlena.”
“Ah, afinal não posso, esqueci-me que tenho de ir ali ao centro comercial, desculpa.”
“Não, não faz mal, Marlena. Adeus.”
Fico a olhá-la enquanto ela se vai afastando, as pernas fortes mas com tornozelos fininhos, finíssimos, o rabo gordo dentro da saia bem apertada, e depois ganho coragem e viro-me outra vez para o meu caminho. Ao vê-la assim caminhar ao longe a minha cara tornou-se subitamente mais mole e mais comprida, sinto as bochechas meio lassas por dentro, como que sobrando, carne solta, e isso, isto, seja lá o que for, espalha-se de seguida pelos braços, chega aos ombros e atira-se daí a descer e quando chega às mãos fá-las pesadas, com um peso de sangue, cheias de sangue, cheias de vontade de sangue vermelho por baixo da pele e das unhas, e ao mesmo tempo há uma espécie de demoradíssima explosão no meu peito, oh! no buraco do meu peito, e o meu corpo inteiro é um corpo quebrado, desmultiplicado, qualquer coisa assim.
Entre prédios e casas baixas, ando não sei quantos quilómetros durante uma hora e três minutos, cronometro no meu relógio. O três é um E virado para a esquerda. As fachadas estão com aquela luz boa de quando o dia está a terminar mas isso muda para sombra e escuro e olho para cima e há nuvens escuras a avançar. Nuvens grandes e muito escuras, muito juntas umas das outras tapando a cor azul.
Um velho de barba mal feita olha-me, à porta de um prédio alto coberto de andaimes. Olha-me mesmo quando me aproximo, ao contrário dos outros todos. Quando passo mesmo junto a ele, no passeio, grita-me “Ei! Ei! Não és o filho do Lopes?”
“Hã?…” Algumas pessoas chamam Lopes ao meu pai. “…Sim, sim, de facto.”
“Como?” pergunta o velho.
“Sim, sou filho.”
“Ah! bem me parecia, bem me queria parecer!…. Sabes que eu sou um grande amigo do teu pai. Um grande amigo. Quer dizer, juntamo-nos às vezes pra jogar cartas ali no parque, lá pra cima, estás a ver?…”
“Sim.”
“Pois é, e ele um dia mostrou-me uma fotografia tua. Sabias disso? Sim, sim… Uma fotografia tipo photomatom, sabes? Daquelas tipo photomatom, sabes? Tu já não és desse tempo, se calhar não sabes, hã? Mas estás igualzinho, é incrível, igualzinho ao diabo da fotografia. Essas fotografias, sabes umas que há? tipo photomatom, é assim que se diz: photomatom, essas fotografias normalmente estragam completamente as caras das pessoas, ou pelo menos, não sei, transformam-nas, as pessoas ali quase nunca parecem o que são na realidade, compreendes? mas tu não, posso dizer isso de ti, caramba, tu não, tu, olha, estás igualzinho, estás tal e qual. Então, vê lá, o teu pai mostrou-me essa fotografia, uma tipo photomatom, não sei se sabes quais são, se calhar não, que agora elas quase que deixaram de existir, já há novas técnicas e tal, mas, portanto, estava a dizer, o teu pai mostrou-me essa tua fotografia há… ora, deixa cá ver… há… portanto, hoje é quarta-feira… costumamos encontrar-nos às segundas… mas na última não… na outra também não… olha, há mais de quinze dias… seguramente há mais de quinze dias… talvez mais… e, estás a ver? ainda te reconheci, hã?”
“Pois é,” digo.
“Reconheci ou não reconheci?”
“Pois foi.”
“Reconheci ou não reconheci? Hã?”
“Sim.”
“Pois foi,” diz o velho, e cala-se olhando para a minha cara.
Na direcção da minha cara mas através dela, parece. Durante um momento ninguém fala. É um bocado embaraçoso estar assim na rua com aquele velho a olhar-me a cara sem falar.
“Uma coincidência…” digo.
Ele como que acorda, “E o teu pai, que tal é que está?”
“Está… deitado.”
“Óptimo, óptimo,” diz, ainda meio ausente, como que separado das palavras, como se através de mim tivesse visto algo terrível ou importante, e vira-se para dentro do prédio. Olho-o a afastar-se e a fechar atrás dele a porta de vidro negro. Penso: não sabia que o meu pai tinha uma fotografia minha, e: gostava de me ver numa fotografia tipo photomatom.
Mais à frente, estou a atravessar uma grande praça deserta, o que é um enorme azar, quando desata a chover chuva mesmo batida, enrolada, puxadinha, chuva, chuva. Vejo um quiosque com um telhadito que talvez ajude se eu me encostar bem, mas não corro. Um homem tem um certo orgulho. Não. Sigo no meu andar típico, sem pensar, um movimento estético que parte da bacia pra baixo e pra cima, etc.
Não sei como me julgará alguém que me olhe ao longe, mas é este o meu modo de locomoção e não há mais a dizer sobre isto.
Agora abrigado da chuva, sob o tal telhadito, olhando a praça muito branca por causa da água que cai e também por ser assim grande e deserta ao mesmo tempo, tudo ao mesmo tempo, sofro sentimentos contraditórios. Estou contente por ter escapado à chuva malvada mas também imagino a Marlena e penso em estar com ela pra ela me ensinar de novo a tirar a roupa toda e a pô-la outra vez e então tenho desejos de sair em pêlo pela praça fora, a andar calmamente, do meu jeito, para sofrer as consequências debaixo da chuva que, bem, digamos que não pára e faz pás, pás, pás no chão de pedra, nas casas, nas coisas todas que há, chuva dura e pesada, enroladinha, chuva, chuva, repito.
Mas, por outro lado, é óbvio que não vou fazer isso.
Dói-me a broca que é como se no meu estômago se torcesse e fosse torcendo e portanto ponho-me a andar para ver se alivio essa espécie de imagem. Penso em coisas que não têm nada a ver. E vou caminhando rente aos prédios, debaixo das varandas, das palas das entradas, dos toldos das lojas para enganar a chuva. Achava que gostava muito de chuva, mas isso era quando estava dentro de casa e tinha a janela, o vidro da janela, a separar-me da água propriamente dita. Gostava de ver os risquinhos quase invisíveis que às vezes só se percebem se fecharmos os olhos à japonês, só com um nico assim aberto, a ver, ou então contra cores escuras, coisas escuras, gostava de vê-los inclinarem-se e desinclinarem-se com o vento e gostava das pessoas de guarda-chuvas, gosto super imenso de guarda-chuvas, não sei porquê, acho-os felizes e loucos-cómicos, então quando vem uma rabanada de ar e se entortam todos para o lado do avesso nem se fala, isso é mesmo, como é que se diz? de rir a perder, rir até cair, de morrer a rir. O meu pai é que quando confrontado com uma coisa dessas, do género dessas, guarda-chuvas tortos ou cães olhando para os dois lados antes de atravessar a estrada ou mulheres gordas de andar pimpão, piscava um olho e sorria assim um tudo-nada inclinado e olhava-me como quem diz “olha, já viste aquilo?” mas sem dizer palavra.
Silêncio.
De repente faz-se noite e eu estou parado, o estômago todo torcido a arder, no último toldo antes do terreno vago. Olho para o céu da cor preta e vejo uma luz caindo. Uma estrela cadente? Um avião? Não dou importância à coisa em si mesma, por assim dizer, mas antes ao que ela pode, por assim dizer, representar, enquanto concretização, conclusão, fechamento, daquilo que, fosse o que fosse, tinha sido aberto, lançado, etc, pelo facto do imbróglio eléctrico no cimo do poste contra o céu azul para o qual olhei durante catorze minutos cronometrados me ter surgido como uma qualquer espécie de sinal, por assim dizer.
Um sinal, penso, e ponho-me a correr, agora sim, mexendo-me já não daquele modo solto e, mais que solto, incrivelmente livre, mas correndo, certinho, como deve ser, como os atletas de alta competição, com a cabeça um pouco para baixo e o tronco atirando-me inteiro para a frente, cada vez mais para a frente, sim, corro o mais que posso, as pernas parece que vazias por dentro, sprintando entre a chuva, corro e corro e não há nada pra comer, penso, desisto de comer, penso, e não paro até passar a porta de casa.
No quarto o meu pai nu, com uma tonalidade já meio diferente, já não tão característica, manchas de humidade e um sujo que vem de dentro, deitado na cama sobre a colcha. O cheiro não é muito bom. Ainda mais original e difícil de explicar do que de manhã.
Ponho-me a mexer nas tralhas dele, caídas a um canto, roupas, objectos, bocados de objectos, um panamá impecável. Num bolso encontro: a photomatom. Olho a fotografia e primeiro não gosto, depois sim. Meto-a na janela, encostada ao vidro, a olhar para fora, para a chuva que cai na noite. Do lado de cá é só um rectângulo branco que tem escrito L.
Depois empurro o meu pai um coche mais para o lado na cama e deito-me com ele. Olho para o tecto e ouço os sons da rua e da minha cabeça e dos bichos que comem as madeiras e mais sei lá o quê e, dentro daquele cheiro ultra-denso que nunca foi, mas nunca nunca, o cheiro do meu pai, adormeço.
Amanhã faço exactamente o mesmo.


Jacinto Lucas Pires



Chico

Chico vive numa aldeia perdida num dos muitos países de África. Podia ser em Angola, no Senegal ou no Ruanda. Podia chamar-se Chico, Abuabar ou N’gouda. Há muitos Chicos em África. Chicos de olhos brilhantes e pés descalços, com a cabeça povoada de sonhos, com vontade de ter um futuro para viver.
Como quase todos os seus companheiros, Chico levanta-se bem cedinho pela manhã. Ajuda a mãe a tratar das duas cabrinhas, Flor e Kenchú, e só depois parte para a escola.
Chico gosta particularmente de Flor. Foi ele quem lhe pôs o nome, no mesmo dia em que ela chegou à palhota, apertada nos braços fortes do pai, ainda mal se segurando nas patinhas frágeis, e a berrar pela mãe. Fora um vizinho que lha dera, como forma de pagar a ajuda no arranjo da cabana.
Na primeira noite, Flor berrou todo o tempo a chamar pela mãe e nem deixava que Kenchú tentasse acalmá-la com lambedelas carinhosas.
Deitado na sua esteira, Chico não conseguia adormecer. Entendia tão bem a cabrinha! O pai dele arranjara trabalho longe, lá na cidade, e só podia vir a casa de quinze em quinze dias. Às vezes, para fazer mais algum dinheiro, ficava fora mais tempo. Quando chegava a hora de regressar à cidade, o pai dizia-lhe que se portasse como o chefe da casa e que devia obedecer à mãe. Como se fosse preciso dizer-lho! Ele bem sabia que a mãe, com o trabalho na fazenda do Sr. Macedo, com os gémeos de três anos e Linita, de oito, não podia fazer tudo e precisava da ajuda dele.
Sempre que o pai partia, Chico ficava triste o resto do dia, mas depois passava. Quando a saudade lhe enchia o peito até cima e parecia querer saltar-lhe pelos olhos, apertava com muita força na mão o seixo que o pai lhe dera naquela tarde em que Chico pescara o maior peixe da sua vida. O pai explicara-lhe que tinha arranjado na cidade um bom trabalho, mas que ia deixar de poder vê-los todos os dias. Depois, metera a mão na água e tirara dois seixos, os mais bonitos que Chico alguma vez vira, e colocou-lhe um na palma da mão.
— Quando tiveres muitas saudades minhas, apertas com força esta pedrinha. A tua saudade vai passar para a minha pedra e eu vou recebê-la e tu vais sentir-te acompanhado.
Em certas ocasiões, as saudades eram tantas que acabavam por conseguir irromper para fora e duas lágrimas teimosas, quentes e grossas, deslizavam suavemente pela face castanha-escura de Chico.
Ah, como ele compreendia a cabrinha malhada com a manchinha branca na testa! Esgueirou-se para fora da palhota sem acordar os pais e os irmãos que dormiam, saiu para a noite quente e húmida e entrou na cabana dos animais. Passou a noite inteira deitado ao lado de Flor, que se acalmou e acabou por adormecer com a cabeça poisada no peito de Chico. No dia seguinte, já aceitou de bom grado o leite que Kenchú lhe oferecia.
Os pais estranharam a mudança mas, durante algum tempo, a causa dessa transformação ficou um segredo entre Chico, Flor e Kenchú.
Só depois de ordenhadas as cabras e de lhes ter deitado de comer, é que Chico saía para a escola.
À saída da aldeia encontrava-se com Djimbu e Mkembé, os seus dois melhores amigos, e juntos faziam o caminho até à escola das Missões.
Ir à escola era do que Chico mais gostava. O seu maior sonho, já segredado para dentro das orelhas de Flor e contado ao pai, durante uma tarde de pesca, era, um dia, poder ensinar outros meninos como ele a ler e
a escrever. E haveria de trabalhar tanto, que iria até conseguir dinheiro para comprar uma bicicleta novinha para os irmãos, igual a uma que vira um dia. Bem, do que ele gostava mesmo, mesmo, era de um dia poder ter um carro como o do Sr. Macedo, o dono da fazenda onde a mãe às vezes ia trabalhar. Mas esse era o seu maior segredo e ainda não se atrevera a contar a ninguém, nem mesmo a Flor. Claro que, se o contasse a Djimbu ou a Mkembé, eles também iam querer, e deixava de ser um desejo só dele…
Sempre que o Sr. Macedo vinha à casa grande, somente de tempos a tempos, Chico ficava parado no caminho a observar o grande carro branco e brilhante, tão brilhante que, quando o sol cintilava nos vidros, até fazia doer os olhos, e assim ficava perdido no seu segredo.
Ao chegar à escola, Chico notou um alvoroço desacostumado. Alguns homens em manga de camisa transportavam caixas para dentro do edifício da escola. Pareciam todos muito bem dispostos, e até o Palhinhas, o cão acastanhado do professor, soltava latidos alegres e abanava a cauda, bem disposto.
Chico, Djimbu e Mkembé estugaram o passo. Que confusão!
Quando a velha furgoneta partiu, deixando a velha escola atafulhada de caixas, sentaram-se, de pernas cruzadas no chão, e o professor deu início à abertura das caixas.
Era uma encomenda vinda da Europa com uma oferta de material para a escola. Perante o olhar fascinado das crianças, o professor foi retirando, com largos gestos teatrais mas sinceros, folhas soltas, restos de cadernos, cadernos e blocos novos e usados. Chico nem queria acreditar! Aquele material podia não ser novo, mas para eles isso não tinha a menor importância e era-lhes muitíssimo útil. Quem o enviara parecia adivinhar exactamente aquilo de que estavam a precisar!
O professor continuou a retirar lápis, lápis novos e usados, restos de lápis, lápis de cor – que bonitas as cores! – canetas – eram tão poucas as que lhes chegavam à escola! – borrachas que apagavam o que o lápis escrevia. Mas o melhor de tudo vinha no último caixote…
Quando o professor o abriu, o rosto iluminou-se num sorriso. Muito lentamente, como um mágico que tira um coelho da cartola, o professor foi erguendo o braço. As crianças, mortas de curiosidade e com os olhos a brilhar, sustinham a respiração. O professor mostrou… Livros!! Livros com imagens cheias de cor! Chico sentiu o coração a bater mais rápido. Parecia-lhe que estava a viver um sonho e só tinha medo de que a mãe o acordasse naquele momento.
Livros! Chico era capaz de ficar horas a fio mergulhado e perdido nas páginas de um livro. Ainda não tinha lido muitos. Só três dos meros vinte que constituíam a magra biblioteca da escola. Podia ser muito reduzida, mas os meninos achavam-se importantes por os terem e manuseavam-nos carinhosamente e com muito cuidado. Chico tinha lido os três mesmo até ao fim, e tantas, tantas vezes, até saber as histórias de cor e poder contá-las à noite, em volta do lume, à mãe, ao pai e aos irmãozinhos, que o escutavam com os grandes olhos castanhos muito abertos de espanto e com a respiração suspensa. Se Chico pudesse, levaria um daqueles para casa para lhos ler. Ficariam certamente ainda mais orgulhosos dele. Se algum dia conseguisse ganhar dinheiro, haveria de poupar até conseguir juntar o suficiente para comprar um grande livro de histórias ou de aventuras para ler aos irmãos. O maior e o mais grosso que houvesse à venda.
Os pensamentos de Chico foram interrompidos pela passagem do professor. Já tinha partido os lápis em pedaços mais pequeninos, que distribuía naquele momento pelos alunos. Cada um ia encaixar o seu pedacinho de lápis numa caninha ou num pau para conseguir aproveitá-lo até ao fim. Tinham autorização para levar o material para casa, mas ninguém o levava com medo de perder as preciosas folhas de papel ou os lápis.
Chico pegou no seu, como quem recebe em mãos uma relíquia ou um tesouro. Não, hoje ia ter muito cuidado. Da última vez que preparara o lápis, no preciso momento em que estava a cortar a cana, o Sr. Macedo apareceu no seu carro brilhante, a apitar a uma gazela que se atravessara no caminho. Por momentos, Chico esqueceu tudo o que estava a fazer, imaginando-se sentado nos bancos macios, por trás do volante, com o vento a acariciar-lhe a face, e a apitar a impalas, zebras e macacos. Zás! Deixou cair o braço e cortou o bico do lápis, que, se já era pequeno, ainda mais reduzido ficou.
Que tristeza! Até deu pontapés no velho embondeiro que se erguia à saída da cabana, tão furioso ficou. Porque é que o Sr. Macedo tinha de aparecer precisamente naquele momento? Por causa daquele carro enfeitiçado, já não teve lápis para escrever ao pai – o encarregado da fábrica lia as cartas aos empregados – naquela altura em que ele esteve muito tempo sem vir a casa. Não, desta vez ia estar com mil olhos. Nem que passassem mesmo ao lado dele dois carros a apitar, ele ia ceder à tentação de olhar!
Ao regressar a casa, Chico apertava com força o seixinho do rio. Tinha tantas novidades para contar em casa! E tanta coisa para escrever ao pai! Queria dizer-lhe que, da próxima vez que viesse a casa, ele, Chico, iria ter novas histórias para contar à noite, junto ao fogo.


I. Birnbaum
M. Clark; E. Briggs; C. Passmore
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC,2001




06/08/2009

Prosa Imprevista



Chi! Macolorido no seu íntimo acolhimento, catadura de gingona. Dizia um dos meus vizinhos e convizinhos da formatura aparentemente agastado pela incontinência das palavras à guarda do mutismo sigiloso onde as ignóbeis criaturas normalmente não ligam.
E como observador exigente quis acreditar vendo.
Sorvei um gole de coragem para vigorar o espírito desvelado de sonhadores disfarçados, libertando a atenção às fofocas. Torci o olho à taxia dos factos e eis a pluralidade do esplendor que até trazia em claro as chamas do Minigolf fotografando as almas desvairadas agitando vigorosamente os corpos.
Eram assim aquelas cores reflectidas pelo sol naquele corpo suavemente ondeando no seu ofício de encantar até os Deuses que de forma galopante aproximava como se fosse uma flecha rubra e furiosa assestando os olhos indefesos. Mesmo assim, pertinaz, afastei o auspício da cegueira que perceptivelmente importunava a visão limpa e fitei-a de cima para baixo, da direita à esquerda e vice versa.
Vestido azul com chumaço solavancando os ombros; tetas descabidas no peito à moda actual de soutiens incompletas e abaixo ligeiramente descaídas.
Justo saínho furtivamente desalongado com brechas à moda deixa sofrer. Sapatos cor de rosa com zips luzentes e salto bem alto de tocar as nuvens sem esforço. E na cabeça a tecelagem rotulando o seu ofício à moda antiga do cabelo com cordas macias e brilhantes cor castanha da pele que os homens lúcidos presentes apelidaram de mechas.
Rosto franzino e mansinho de deslizar o cebo sem sequestros, com meigos olhos de cativar bargantes na sua falsa megalomania convidativa. E o golpe sensual emergindo daquelas unhas púrpuras aparentemente envernizadas e estateladas na boca daquela pastinha nova e levemente recheada; murchando lindamente o ombro e amealhando a atenção daqueles inúmeros olhos viajantes que em silêncio colectivo e instantâneo cruzaram serenamente os olhos naquela magia jamais surjira que ondulantemente invadia com uma dose de ímpeto e petulância degrau por degrau o acesso à intimidade daquela pobre gente aparentemente molestada.
E para desviar a intenção obstrutiva daquela toda desarrumação dentro, prontos:
- Abra espaço senhor, e deixe passar essa senhora aí...duas filas, um caminho aí... encoste senhor!
E prosseguia olhando para o fundo do meio donde a luz sorria
- Feche esse espaço senhor, encolhe a barriga senhora ou paga o dobro... ou então sai.
Cobrava a quem de direito devia se restituir o espaço alheio para mais um, dois... lugares licitamente habitados numa algazarra de protestos contra nhyma hy rheve.
E na estreita porta do ónibus em que seguia a minha aventura pousava o milagre suavemente no soalho em degraus oscilando até aquele pé lindamente embrulhado e suspendia a marcha do outro convergindo serenamente como quem entra no ceu pela primeira vez; estendendo a voz inefável das palavras raras "com a licença" na hábil vibração suave do som vaporoso e suspenso como ela, regra pura dos homens da boa fama. Só que a voz que torce os tímpanos à plebe não desassossega o vício indiferente dos homens impuros cheios de vigor.
Havia que dissitiar energicamente a módica passadeira entre ombros e costas de duas formaturas desarranjadas que um simples favor descabia naquele silêncio inconcusso. E prontos, desarranjando por completo o rosto mansinho matou o sorriso fingidor evocando enérgicas possessões em sigilo íntimo e impávida rasgou as rédeas da mente verticalizada, abrindo o espaço por alí desencontrado. Localizou provisoriamente entre vizinhos e convizinhos da fila o seu soalho acolhedor, fixou-se e seguiu de baixo do Homem vigiando-lhe o sossego.
Um Homem de cinco brechas cicatrizadas no rosto fitando-lhe as aparências e concluiu...
Encostou-lhe sossegadamente e disse:
- Pisaste-me!
Levantou o queixo e devagar olhou para ele e num gesto modesto de descartar despercebidamente aquele acto provocador replicou honestamente a vítima sem porfias.
- Desculpe-me
Murmurou o falso lesado num jeito enfadonho aparentemente amistoso desconcentrando a vítima e zás!
Ich!... bradou ela, majestosamente desapossada num acto espectacular em que só dez vizinhos sossegadamente assistiram.
- Com a licença senhor! prosseguiu coitada, toda ela desesperada.
Ao que virou a cara arrogantemente o másculo homem atroz e cuspiu-lhe a desgraça nos olhos recheados; aquele bárbaro cheio de desgraças dos outros desgraçados sorriu dispondo-lhe de duas das suas brechas profundas para que a malfadada depositasse suas desnecessárias lágrimas e esquecer a dor; ao que acedeu compulsivamente. Sugou-lhe até aos nervos com os seus lábios massudos dos sulcos os últimos pingos de desafecto de modo a despistar o grito indesejável dos vizinhos que por inércia romperiam o silêncio mantido.
Ciciou-lhe pela última vez num jeito sarcasticamente amistoso de quem avisa. Se gritas já sabes, deixe-me descer em paz ok! e ainda mais vá em paz estás limpa sortuda! E mais ninguém ouviu-se no ónibus naquela tarde além daquele ruído ensurdecedor sossegadamente caminhando e lentamente se perdendo singularmente naquele silêncio inabalável. Revertia o ronco a malfadada enquanto o ónibus convergia assobios nas suas efémeras estadias, estava localizado o despejo da vítima. Libertou-se vertiginosamente como se tivesse um trampolim de elásticos no corpo para lhe serem fiéis ao fugir de calorias dum gajo enérgico e furioso libertando esforço. E pousou peremptoriamente no asfalto fora por detrás do ónibus em descargas e com um pé lindo desembrulhado saboreou o prazer amargo de fabricar calos dolorosamente. Deu dois passos em direcção ao outro lado da via mordendo furiosamente as cordas esticadas no cabelo para acalmar o ânimo roedor da alma nos recônditos. Reclinou o pescoço com o terceiro passo já no inferno, este já proibido e absorta com a língua deslizando no hábito das palavras não tardou a inércia perante o esplendor: Com a licença! ante o salteador made in Transvaal, rubro e furioso de esbanjar duma só vez uma soneca desvivida nas noites findas em vigília e prontos lá se ouviu, êêêêêêêe.... Torci o pescoço para desafogar o rosto do espanto que me aflorara naquele instante e lá estava... O silêncio tomou as nossas vontades, o asfalto gélido e mais ninguém escapava a fervura do tremor, com as memórias todas apagadas.
Segundos depois levanta-se a vítima mesmo ali estatelada e suspirou em jeito de culpa; orou do outro lado de cá e para lá rogou acocorada na eutimia da paz forjada sem ginganços, com a licença! ouvia-se na porta larga doutro lado do mundo. para quê ninguém sabia, todos nós embalsamados para viver depois.

Noé Filimão Massango (Moçambique)








05/08/2009

Os olhos dos mortos

Estou tão feliz que nem rio. Deito-me com desleixo, bastando-me: eu e eu. O regressar de meu marido mediu, até hoje, todas as minhas esperas. O perdoar a meu homem foi medida do desespero. Durante tempos, só tive piedade de mim. Hoje não, eu me desmesuro, pronta a crianceiras e desatinos. Minha alegria, assim tanta, só pode ser errada.
Desculpe-me, Cristo: esplendoroso é o que sucede, não o que se espera. E eu, durante anos, tive vergonha da alegria. Estar-se contente, ainda vá. Que isso é passageiro. Mas ser-se alegre é excessivo como pecado mortalício.
É de noite e falta-me apenas um quase para estar sozinha no quarto. Ou, no rigor: o quarto está sozinho comigo. Nesta mesma cama sonhei tantas vezes que o meu amor vinha pela rua, eu escutava os seus Passos, cheia de ânsia. E antes que ele chegasse, corria a fechar a porta. Fosse esse gesto, o de trancar a fechadura, o meu fingido valimento. Eu fechava a porta para que, depois, o simples abrir dos olhos tivesse o brilho de um milagre. Para que ele, mais uma vez, casasse comigo. E o mundo se abrisse, casa, cama e sonho.
Durante anos, porém, os passos de meu marido ecoaram como a mais sombria ameaça. Eu queria fechar a porta, mas era por pânico. Meu homem chegava do bar, mais sequioso do que quando fora. Cumpria o fel de seu querer: me vergastava com socos e chutos. No final, quem chorava era ele para que eu sentisse pena de suas mágoas. Eu era culpada por suas culpas. Com o tempo, já não me custavam as dores. Somos feitos assim de espaçadas costelas, entremeados de vãos e entrâncias para que o coração seja exposto e ferível.
Venâncio estava na violência como quem não sai do seu idioma. Eu estava no pranto como quem sustenta a sua própria raiz. Chorando sem direito a soluço; rindo sem acesso a gargalhada. O cão se habitua a comer sobras. Como eu me habituei a restos de vida.
A semana passada foi quando o rasgão se deu. Venâncio ficou furioso quando descobriu, em estilhaços, a emoldurada fotografia na nossa sala. Era um retrato antigo, parecia estar ali mesmo antes de haver parede. Nele figurava Venâncio, ainda magro e moço, posando na nossa varanda. Pelo olhar se via que sempre fora dono e patrão. Surjo atrás, desfocada, esquecida. Sem pertença nem presença.
Ao ver a moldura quebrada e os vidros ainda espalhados pelo chão, Venâncio me golpeou com inusitada força, pontapés cruzaram o escuro do quarto entre gritos meus:
- Na barriga não, na barriga não!.
Depois, quando ele amainou, interrompi-lhe o choro e me soaram serenas e doces as palavras:
- Vê o sangue, Venâncio? Eu estava grávida...
- Grávida, você?! Com uma idade dessas!??
Arrumei vimas poucas roupas e fui, a pé, para o posto de socorro. Era manhã, fazia chuva e caía o sol. Algures, por um aí, deveria fantasiar um arco-íris. Mas eu estava cega para fantasias. Meu filho, esse primeiro que haveria de nascer, estava morto dentro de mim. As minhas mãos, ingénuas, ainda amparavam o ventre como se ele continuasse lá, enroscado grão de futuro. No passeio público, privadamente tombei. Antes que beijasse o chão já eu perdera as luzes e deixara de sentir a chuva no meu corpo.
Desmaiada, me espreitaram os dentros: gravidez não havia. Mais uma vez era falsa esperança. Esse vazio de mim, essa poeira de fonte seca, o não poder dar descendência a Venâncio, isso doía mais que perder um filho. Eu estava mais estilhaçada que o retrato da sala.
Quando despertei, me acreditei já morta, transferida para outro mundo. Morrer não me bastava: nesse depois ainda Venâncio me castigaria. Eu necessitava um outro jamais. Adivinhei as minhas fúnebres cerimónias. Venâncio e mais uns tantos, entre vizinhos e parentes. Se o meu homem me chorasse, nessa ida, seria para melhor me esquecer. A lágrima lava a sofrência. Os outros chamariam a isso de amor, saudade. Mas não era a viuvez que atormentaria Venâncio. Viúvo estava ele há muito. O que o podia atormentar era a feiura desta minha rnorte. Se de mim alguma vez se recordasse, seria Para melhor me ausentar, mais desfocada que o retrato da sala.
Venâncio não foi visitar-me ao hospital. O que eu fizera, ao dirigir-me por meu pé ao hospital, foi uma ofensa sem perdão. Até ali eu fechara as minhas feridas no escuro íntimo do lar. Que é onde a mulher deve cicatrizar. Mas, desta vez, eu ousara fazer de Cristo, exibir a cruz e a chaga pelas vistas alheias.
Ao regressar a casa, faço contas às dores. Por certo, Venâncio me espera para me fazer pagar. Por isso, me demoro na varanda como se esperasse um sinal para entrar. E ali permaneço, calada, como fazem as mulheres que, de encontro ao tempo, rezam para nunca envelhecerem.
Quando entro em casa, os estilhaços do retrato rebrilham no chão da sala. O fotografado olhar de Venâncio pousa sobre mim, assegurando os seus direitos de proprietário. Distraída, a minha mão recolhe um vidro. Na cama de casal, meu marido está enroscado, em fundo sono. Deito-me a seu lado e revejo a minha vida. Se errei, foi Deus que pecou em mim. Eu semeei, sim, mas para decepar. Se recolhi os grãos, foi para os deitar no moinho. Há quem chame isto de amor. Eu chamo a cruel dança do tempo. Nessa dança, quem bate o tambor é a mão da morte.
Lição que aprendi: a Vida é tão cheia de luz, que olhar é demasiado e ver é pouco. É por isso que fecham os olhos aos mortos. E é o que faço ao meu marido. Lhe fecho os olhos, agora que o seu sangue se espalha, avermelhando os lençóis.


Mia Couto, In O Fio das Missangas





Uma estrela subiu ao céu




Estava no chão do recreio, no meio da sujidade. No fim do intervalo grande, Regina pegou nela. Era uma bolacha de Natal em forma de estrela, escura e com uma espessa cobertura de açúcar.
Na sala, Regina pôs a estrela na secretária, em frente da professora, a D. Mariana.
— Encontrei-a no recreio — disse.
— Alguém a deitou fora — disse Carolina.
— Está suja e já ninguém pode comê-la. — disse Francisco.
— Se alguém tivesse fome de verdade, comia-a — assegurava Regina.
— Ugh! Eu nunca iria metê-la à boca — disse Francisco.
A D. Mariana, em silêncio, ouviu as crianças durante algum tempo.
— Qual de vocês já teve fome de verdade, uma fome a sério? — perguntou por fim.
Alguns dedos levantaram-se.
— Uma vez, eu tive de ir para a cama sem jantar.
— Num passeio, no Verão, esquecemo-nos do cesto do piquenique.
— Nós fomos visitar a nossa tia Emília, mas ela não nos ofereceu nada para comer.
— E a vossa fome era tão grande que seriam capazes de comer a estrela? — perguntou a professora.
— Não, não era assim tão grande — respondeu Sandra por todos. — Se se comer uma coisa dessas, fica-se doente.
Então, a D. Mariana contou a história do pequeno Sindra Singh, que vive na Índia longínqua e que tem aproximadamente a idade dos alunos da turma B da terceira classe. Todos os dias, Sindra recebe na Estação uma mão-cheia de arroz. São aproximadamente 300 grãos. Um dia Sindra contou-os. Come 150, assim que o senhor da estação lhos dá. Mete 100 grãos à boca quando o sol está alto e guarda o resto para a altura em que o sol se põe. Às vezes, faz batota e começa a comer quando o sol ainda está por cima das árvores.
— O que acham? — pergunta D. Mariana às crianças. — Acham que o Sindra Singh comeria esta estrelinha?
— Eu acho que sim — admitiu Regina.
— Mas, aqui, a bolacha estava caída no recreio, no meio da sujidade.
— O meu avô disse-me que não se deve deitar pão fora — contou Matilde. — Ele disse que aprendeu isso na Rússia, quando esteve preso depois da guerra.
— Em África, as pessoas também passam fome — disse Francisco.
— E no Brasil também. Lá, num certo sítio não choveu durante dois anos — contou Carolina.
— O meu tio escreveu da Anatólia — relatou Zeki. — Houve lá um terramoto e as pessoas já não têm quase nada para comer.
Até ali, Maria não tinha dito nada. Agora pedia para falar.
— Ontem à noite, na festa de Natal, cantámos e tocámos para os pais — disse. — Juntámos algum dinheiro. Com ele, podíamos fazer uma encomenda…
Maria hesitou e sentou-se novamente.
— Um embrulho de Natal! — exclamou Francisco.
— Depois de amanhã, parte da igreja um camião para o local do terramoto — disse Carolina. — De certeza que levava o embrulho!
As crianças estavam entusiasmadas. Escreveram no quadro tudo o que queriam meter no embrulho: chocolate e massapão, farinha, açúcar, biscoitos, conservas e, e, e…
Quando tocou para o intervalo, cada criança da turma sabia o que devia comprar nessa tarde, para se mandar a encomenda. Era o único trabalho de casa desse dia.
No fim, a D. Mariana ergueu a estrela.
— Estou enganada, meninos, ou ela está mesmo a brilhar um bocadinho? — As crianças também acharam que estava um pouco mais clara.
A professora voltou para casa relativamente cansada, mas satisfeita. À noite, o telefone tocou. Era o Sr. Mateus, o pai de Francisco, a queixar-se.
O dinheiro tinha sido reunido para a turma. O dinheiro estava pensado para papel e lápis de cor. O dinheiro era para proveito das crianças da classe B. O dinheiro não era para deitar pela janela.
A D. Mariana objectou que tinham sido as crianças a terem a ideia de, no Advento, fazerem algum bem com aquele dinheiro.
O Sr. Mateus disse que a escola não existia para isso.
— Mas, Sr. Mateus, então o Francisco não contou nada da estrela?
— Estrela? — perguntou o Sr. Mateus. — Mas que estrela?
— Bem — disse a D. Mariana um pouco desamparada — a bolacha de Natal. Quando as crianças tiveram a ideia do embrulho, de repente, ela começou a brilhar. Quero dizer…
— Quer é enfiar-me o barrete, não é? — resmungou o Sr. Mateus.
— Vou tomar outras medidas. O ministro…
— Pergunte ao Francisco sobre a estrela. Ele também viu! — podia ainda ter dito a D. Mariana, mas o pai de Francisco já tinha desligado.
Na manhã seguinte, a professora foi para a escola um pouco abatida. O marido tinha-a animado, e sugerido, caso fosse preciso, que pagasse ela própria as coisas para a encomenda, mas a D. Mariana achava que não era a mesma coisa.
No recreio, Francisco veio logo a correr ao seu encontro e entregou-lhe uma carta. A professora
abriu apressadamente o envelope e a nota de vinte euros que vinha lá dentro quase voava para o chão. O Sr. Mateus tinha escrito ainda algumas linhas.
Cara D. Mariana,
Falei com o meu filho Francisco. Ainda não sei se é correcto o que pensa fazer, mas tive a impressão de que ainda se via nos olhos do Francisco o brilho da estrela.
Desculpe, por favor, o meu telefonema de ontem. A minha mulher diz muitas vezes que eu sou uma pessoa impetuosa.
Alexandre Mateus
No dia seguinte, saiu o camião para a Anatólia com muitas encomendas. No embrulho da turma B, ia uma carta.
Feliz Natal! — estava escrito. Cada uma das vinte e seis crianças escrevera o seu nome por baixo.
— Algures, na Anatólia, uma estrela vai subir ao céu — disse a D. Mariana às crianças.


Willi Fährmann
Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV Junior, 1989

03/08/2009

O caminho para a verdade




A chuva que caía há dias, parou finalmente nessa tarde. Um suspiro de alívio percorreu a turma toda. Os rapazes sabiam agora que o jogo de futebol, há tanto ansiosamente esperado, poderia ter lugar e já não seria cancelado por causa do mau tempo.
— Bom, às três horas no campo de jogos, mas em ponto! — diz Matias para Ricardo, ao irem juntos para casa no fim das aulas.
Ricardo abana a cabeça e murmura alguma coisa incompreensível de cada vez que Matias dá pontapés nas pedras do caminho para ensaiar golos. Tenta acertar num tronco, noutra pedra, ou até numa determinada folha de um ramo. Ricardo já não suporta esta mania. É que Matias tem tudo menos boa pontaria.
As suas brincadeiras com as pedras já tinham causado aborrecimentos que chegassem. Matias achava que era precisamente por isso que devia treinar mais. Como se dar pontapés a pedras fosse de uma importância vital!
Ainda Ricardo não tinha acabado de pensar e já se ouvia o barulho de vidros partidos: a última pedra de Matias tinha voado direitinho à janela da entrada do Sr. Gilberto. Ricardo ficou a olhá-la petrificado.
— O melhor agora é fugir! — ouviu Matias sibilar. E, com um grande salto, o autor da asneira desapareceu a correr pela rua abaixo.
Ricardo ainda estava a olhá-lo, confuso, quando sentiu que alguém o agarrava pela gola e o puxava com força. À sua frente, furioso e ofegante, estava o senhor Gilberto.
— Até que enfim que te apanhei, rapazinho! Espera lá, que te vou entregar já ao teu pai, e vais ver o que te vai acontecer!
Às três horas em ponto, Matias apareceu no campo de jogos mas, por mais que procurasse Ricardo, não o encontrou.
“Afinal sempre o apanharam”, pensou Matias “e, ou assumiu ele a culpa, ou não o deixaram falar. Já é costume. O pai dele, às vezes, é muito severo.”
Matias ficou de pé, na tribuna, a olhar para o campo vazio, em baixo. Combinavam quase sempre encontrar-se uma hora antes, para arranjarem um bom lugar. Mas, de um momento para o outro, Matias perdeu o entusiasmo pelo jogo. Pensava no vidro da janela, em Ricardo, e a má consciência atormentava-o. Devagar e de cabeça baixa, abandonou o campo e encaminhou-se, hesitante, para a casa dos pais de Ricardo.
Foi o pai em pessoa que lhe abriu a porta. Irado como estava, nem sequer deixou Matias falar, dizendo-lhe asperamente:
— É inútil, rapaz! O Ricardo está fechado no quarto, de castigo a fazer os trabalhos de casa… Ele que te conte tudo na segunda-feira, na escola. Já só faltam dois dias e meio — e voltou para
dentro, fechando a porta com força.
Matias voltou a tocar à campainha insistentemente e, desesperado, acabou por bater à porta com os punhos. Não podia aceitar uma injustiça daquelas. Mas nada se mexeu dentro de casa.
Os pensamentos atropelavam-se-lhe na cabeça.
“Muito bem”, pensava ele, “então vou contar-lhe a verdade pelo telefone. E se ele também não me deixa falar pelo telefone?”
De repente, Matias tem uma ideia e volta a correr para casa. A mãe ainda não tinha regressado do trabalho. Procurou papel de carta e um envelope, escreveu a toda a pressa umas linhas no papel e levou a carta à estação dos correios mais próxima. Mostrou ao empregado o dinheiro que lhe sobrava da semanada e perguntou:
— Chega para mandar uma carta por correio-expresso para a cidade?
— Chega e sobra, rapaz.
— E a carta é entregue agora mesmo?
O empregado olhou-o sorrindo e respondeu:
— Há fogo? Não tenhas medo, que estás com sorte. A carta pode chegar ao destino em meia-hora. Ex-cepcio-nal-mente!
Matias entregou a carta, feliz.
Uma meia hora mais tarde, o pai de Ricardo abria uma carta, entregue por um estafeta motorizado. E, admirado, leu:
Caro Sr. Pinto,
Venho, por este meio, provar-lhe que a verdade afinal consegue entrar em sua casa. Fui eu que parti o vidro da janela e vou pagá-lo com a minha próxima semanada.
Espero pela resposta em frente à sua casa.
Com os meus cumprimentos
Matias
A resposta que o pai de Ricardo mandou a Matias pesava quase 40 kg e vinha a rir-se. O pai tinha mandado o Ricardo. Assim que viu o amigo sentado à espera na soleira da porta, disse:
— Matias, tu és o maior maluco do mundo! O que tu fizeste… bem, nunca hei-de esquecer.
— Ora — resmungou Matias — não fales tanto, se não ainda perdemos também a segunda parte do jogo.

Eva Rechlin
Jutta Modler (org)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987

Os nove mandriões

Era uma vez um varredor de ruas que de manhã à noite percorria a aldeia cantando a mesma velha canção:

Varre, varre, vassourinha,
põe esta rua asseada;
os outros sujam-me tudo,
limpo eu a lixarada.

Mas um dia, cansado de tanto varrer, encostou-se a um muro, limpou as mãos suadas ao fato-macaco e pôs-se a matutar:
"Ora, os outros é que sujam e eu é que hei-de limpar... Vai descansar, ó vassoura, que resolvi entrar em férias de uma vez para sempre!"
Não tinha dado dois passos quando ouviu uma voz que há muito conhecia:

Sou padeiro, faço pão,
passo a vida a amassar
A amassar e cozer pão
que os outros hão-de tragar.

- Cada um que trate de si! - disse-lhe o varredor. - Então estás a fazer pão para os outros comerem?
- Tens razão! Quem quiser que o faça! Espera aí, que vou contigo.
Seguiram rua fora. Logo na esquina, à janela do rés-do-chão, toparam com a Menina Rosa, airosa, de carinha cor-de-rosa, debruçada sobre a agulha:

Costureira, costureira,
estou farta de costurar,
De fazer lindos vestidos
que as outras irão usar.

- De tanto te dobrares, ficas velha antes de tempo. Coser para as janotas? Não sejas pateta, vem connosco passear!
Alindou a cabeleira, alisou a saia de pregas e, em menos de um minuto, ei-la no laró.
Não tinham passado um quarteirão quando ouviram uma rouca cega-rega:

Sapateiro remendão,
cá estou eu a remendar
Sentado, a arranjar sapatos
que outros pés irão calçar.

- Viemos desafiar-te para dar uma volta.
- Como, se tenho dez fregueses à minha espera?
- Trabalhar já não se usa. Quem não quiser marchar descalço que trate dos seus sapatos.
Largou o sapateiro a ferramenta e deitou pernas ao caminho.
Avançavam tão alegre e despreocupadamente que quase iam embatendo num aguadeiro que puxava um carrinho com duas enormes barricas. Raras eram as casas que tinham água e ele, de porta em porta, ia abastecendo a povoação:

Quem quer água bem fresquinha
para beber e refrescar?!
Os outros matam a sede,
eu mato-me a carregar.

- Os carregos são para os burros! Por que não vens divertir-te?
- Vou mesmo! Quem tiver a boca seca que vá encher bilhas à fonte.
Tinham tomado a estrada à beira-mar quando avistaram um pescador a desembarcar caixotes de sardinha:

Deito a linha junto à costa,
a rede no alto mar
Mas os outros é que fritam
o peixe que ando a pescar.

- Deixa o mar, que é traiçoeiro! Já passou o tempo de trabalhar para os outros.
- Pois claro! Quem quiser peixe que o vá pescar! - exclamou o pescador, pousando a carga no fundo do barco outra vez.
Formavam já animado grupo - o varredor, a costureira, o padeiro, o sapateiro, o aguadeiro e o pescador.
A manhã estava clara, o céu sem uma nuvem. Sempre em frente, campos fora, os prados eram verdes, as matas densas e abrigadas.
Junto a um ribeiro, zumba que zumba, esfregava uma lavadeira:

De tanto lavar a roupa
tenho as mãos todas esfoladas
Os outros sujam camisas,
eu apresento-as lavadas.

- Gostas assim tanto de lavar? - indagou o sapateiro.
- Eu não! Quem me dera poder passear como vocês. Mas tenho este monte de roupa...
- Quem a sujou que a lave! - exclamou a costureira. Ao ouvir estas palavras largou a lavadeira a trouxa na margem, passou as mãos ensaboadas por água e juntou-se ao grupo.
Logo adiante encontraram um pastor:

Eu sou pastor de carneiros,
cansado de caminhar
Comem-lhes outros a carne
e eu é que os ando a guardar.

- Por que não vens antes connosco? Quem quiser bifes que crie o gado.
Cajado, carneiros, cão - tudo o pastor ali deixou. Resplandecia agora o Sol a pique. Sabia bem a sombra dos pinheirais. E como a hora do almoço se aproximava, puseram-se a petiscar pinhões, abrunhos, amoras silvestres.
Até que ouviram um grito de alarme:

Ao fogo, ao fogo, bombeiro,
põe a mangueira a esguichar
Para apagar as labaredas
que outros foram atear.

- Que vem a ser isto? - indagou o padeiro.
- É fogo no matagal. Oferecem-se para dar uma ajuda? - perguntou o bombeiro, que avançava para as chamas.
- Nós? Nem pensar! - gritaram os oito em coro. - Quem ateou o lume que o apague!
- Terei sido eu, por acaso? Também não fui. Seguirei o vosso exemplo, pois já estou farto de fumaças e queimadelas.
Dizendo isto, atirou para longe capacete, machado, mangueira, arregaçou as mangas e lá partiu cantarolando.

Descobrimos o descanso
Nosso ofício é mandriar
Fiquem para trás as canseiras,
vamos todos passear.

Assim trauteavam os nove amigos. Tinham formado uma roda, enfeitado de flores os cabelos e, de mãos dadas, saltitavam na erva fofa.
Então começaram a ver os pássaros voar em todas as direcções: melros, pardais, milhafres e cotovias. Pulavam coelhos pela clareira, corriam esbaforidas perdizes, cobras e lagartos rastejavam pelo chão. Duas raposas e um lobo por eles se cruzaram, a galope, indiferentes aos pequenos bichos a que costumavam chamar um pitéu.
- Naturalmente vão todos de passeio, como nós… - lembrou o aguadeiro.
Enganava-se! Os animais da floresta não iam de passeio - fugiam de um inimigo comum que avançava com seus braços e pernas de fogo, crepitando, arrancando estalidos às árvores, contorcendo ramos, abafando a mata numa nuvem sufocante.
O incêndio que o bombeiro não acabara de apagar crescera assustadoramente.
- Ai!, que morremos queimados - choramingava a lavadeira.
- Salva-nos, bombeiro, mostra o que vales! - suplicava o sapateiro.
O bombeiro esquivava-se.
- Não fui eu quem acendeu o lume, não estou para me queimar.
Saltaram-lhe em cima os companheiros com ameaças, pancadas à mistura, mas ele, a esbracejar, a engolir fumo, lá conseguiu fugir a sete pés.
Esgueiraram-se uns atrás dos outros, em rebuliço, cai aqui, levanta acolá, berrando "ó da guarda!", chorando, suspirando.
Todo o dia correram, com o fogo a persegui-los, até que chegaram às dunas desertas. Aí tombaram na areia, rotos, chamuscados, alagados em suor.
Quando, na manhã seguinte, acordaram, resolveram voltar à aldeia. Pelo areal fora, à chapa do sol. Apertava-lhes a fome como um alicate, torturava-os a sede até lhes gretar os lábios.
Ao chegarem ao primeiro casebre, bateram à porta, suplicando um cântaro de água.
- É água que vocês pretendem? Nem pinga, pois o mariola do aguadeiro achou por bem entrar de folga! - replicou a dona da casa.
- Tem razão! - concordaram os amigos. - Mas ele já a vai buscar. Empreste-lhe uma bilha.
- Eu? Por que não vão vocês, se também lhes apetece beber? - refilou o homem.
Razão puxa razão, envolveram-se noutra barafunda.
- Comamos ao menos qualquer coisa - sugeriu a costureira.
Lá se arrastaram, mais mortos que vivos, até ao café da terreola. Finalmente encomendaram sardinha assada, carneiro guisado e pão com chouriço.
- Peixe é coisa que não há. Nem carne tão-pouco. Pão, desde ontem que o não vimos. Ah!, grandes malandros, agora reparo que aqui estão o pastor, o padeiro e o pescador. Por vossa causa perdi toda a freguesia! Já para a rua, mandriões!
Dizendo isto, o cozinheiro pegou no rolo da massa, escorraçando a tristíssima comitiva.
Mais uma vez só lhes restava seguir caminho. Tinham os sapatos cambados, rotos - era preciso mandar consertá-los.
- Vamos até à loja do sapateiro.
- Ora essa, o combinado não foi não trabalharmos? Consertem vocês o calçado!
Se os sapatos estavam rotos, os fatos não estavam em melhor estado. Rasgados pelas silvas, queimados pelo fogo. Resolveram, pois, dirigir-se a casa da modista.
- Pois não foram vocês que me convenceram a abandonar a costura? - Não contem comigo! - atalhou a Menina Rosa.
- Ao menos a lavadeira que nos lave estes trapos...
- Nem pensar! - apressou-se ela a responder. - Se vocês nasceram para o descanso, eu não nasci para me cansar.
Acabaram-se a paz e o sossego. Todos se criticavam, todos se injuriavam.
Avançavam, rezingando, entre o lixo espalhado pelas ruas, os caixotes tombados onde os rafeiros farejavam um osso, os gatos procuravam uma espinha.
- Que porcaria!
- Isto não são ruas, são estrumeiras!
- Pega na vassoura, que não podemos dar um passo - pediam ao almeida.
Mas ele, gingão, trocista, mal-humorado, por única resposta dava pontapés às latas e cascas de batata.
O povo assomara às portas, troçando dos mandriões que se viam exaustos, miseráveis, zangados entre si.
Então o padeiro suspirou e encaminhou-se para a padaria. A costureira, com a lágrima ao canto do olho, foi para a sua casita modesta e agarrou-se à costura. O pescador fez-se ao mar, a lavadeira deu meia volta, regressando ao rio. O aguadeiro curvou-se para o carrinho de mão, o pastor voltou para os campos à procura do rebanho, o bombeiro aprumou-se e, em passo de parada, dirigiu-se para o quartel. O varredor recomeçou a vassourar. Acompanhando o raspar da vassoura, a sua nova cantiga ressoava pelo ar:

Sem os outros nada somos
Eles sem nós nada são
Vale bem mais trabalhar
Do que ser-se mandrião.


Luísa Ducla Soares, In O Meio Galo

02/08/2009

Morangos


Os morangos bravos ainda não estão maduros. É cedo. Quem vai apanhar morangos em meados de Junho?
Mas ontem, no pátio, Vilius gabou-se:
— Amanhã vamos aos morangos. Na Grabchto (língua de areia na costa) há muitos! Hoje, enchemos a barriga. Deveríamos era ter levado um balde.
Na mão segurava um frasco com o fundo mal coberto de bagas rosadas.
Meteu-o debaixo do nariz de Romas e, depois, até deixou escorregar para a mão dele alguns morangos.
— Prova. Os vermelhos já os comi.
Romas cheirou-os, disse «obrigado» e pediu timidamente:
— Posso ir convosco?
— Depois logo se vê — respondeu Vilius, em tom trocista.
Em vez de comer os morangos, Romas ofereceu-os a Danute, que estava doente há dois dias. Tinha tosse. A mãe não a deixava andar na rua. E sem ela Romas aborrecia-se. Era uma boa amiga. Nada que se assemelhasse à Ruta.
Depois de provar os morangos, Danute disse:
— Que doces! Bem gostaria de comer mais!
— Agora não tenho mais, mas amanhã trago-te muitos. Vou apanhá-los com a rapaziada — prometeu Romas.
Isto foi ontem. Hoje... Romas encontrou Ignas e perguntou-lhe quando iam aos morangos. Este fugiu à resposta:
— Que morangos?!
— Vilius disse que íeis hoje...
— Vilius lá sabe o que diz. Deixa-me em paz!
— Mas eu prometi a Danute...
— E que tenho eu a ver com isso? Se prometeste, vai!
Ignas voltou-lhe as costas, enfiou as mãos nos bolsos e, bamboleando-se, atravessou o pátio. Chegado à cancela, virou-se para trás e gritou:
— Ó fedelho, não apanhes os morangos todos. Deixa alguns para a gente! — e soltou uma gargalhada.
Romas ficou a pensar no que devia fazer, mas não resolveu nada. «Sou um mentiroso! A garota está doente e eu falto à minha palavra!... Não tenho vergonha na cara!»
Em casa, depois de recuperar a calma e matar a sede, Romas decidiu-se a agir. Iria sozinho, pois sabia o caminho. Portanto, bem podia colher e trazer os morangos.
Se bem o disse, melhor o fez. Pegou no cesto e caminhou rapidamente ao longo da praia. Como os pés se lhe enterravam na areia seca, pôs-se a andar junto à água, onde a areia era mais dura. E tinha que andar muito...
Romas não sabia ainda que o gabarola do Vilius o enganara. O que os rapazes tinham encontrado era apenas um punhado de bagas meio maduras. E não na Grabchto, mas perto do velho aeródromo, no lugar soalheiro...
O Sol que acabava de sair de trás de uma nuvem começou a aquecer. O vento tépido encrespava ligeiramente a água do mar. Mas Romas caminhava sem se virar. Cansado, entrou até aos joelhos na água, molhou a cara, tomou fôlego e, sem parar mais, chegou à Grabchto.
Nesta língua de areia encravada no mar crescem amieiros e bétulas e as suas clareiras estão sempre cheias de morangos.
Depois de ter atravessado um amial, Romas espantou uma lebre que parecia estar a dormir. O bicho levantou-se de um salto e desatou a correr em ziguezagues ao longo da orla, deixando ver apenas a ponta branca do rabo.
— Não tenhas medo, lebre! — gritou-lhe Romas. — Eu só quero apanhar morangos!
A lebre, porém, não se deteve, ou porque não o ouviu ou porque, de tão assustada, nada compreendeu.
Na clareira por trás do amial os morangos ainda não estavam maduros. Alguns estavam rosados só do lado do sol. O resto das bagas estavam ainda duras e não tinham sabor. Eram tantas, mas todas verdes.
O que havia de fazer? Não podia voltar para casa de mãos a abanar! Entrou numa mata de bétulas e desembocou numa outra clareira. Uma cotovia cantava nas alturas. Romas levantou a cabeça para a escutar, mas quando olhou em frente o coração estremeceu-lhe de alegria: a clareira estava toda coberta de morangos maduros! E um forte e delicioso aroma pairava no ar. Romas colheu uma mão-cheia deles e levou-os à boca. Que doces! É de comer e chorar por mais! «Não, primeiro, vou encher o cesto para Danute» — disse para si mesmo.
Ajoelhou-se e foi assim, de rastos, que explorou a clareira... Quando encheu o cesto, cobriu os morangos com folhas para mantê-los frescos. Foi só então que se lembrou de si próprio: comeu até não ser capaz de levar mais um morango à boca. Estava farto.
Depois de descansar um pouco e lavar de novo a cara e as mãos, que os morangos tinham tornado pegajosas, dirigiu-se para casa.
Chegou a casa já o Sol ia baixo. A mãe estava inquieta e zangada. Para tranquilizá-la, o avô disse:
— Não te disse que nada aconteceria ao nosso Romas? Ele sabe o que faz. E quem sabe o que faz nunca se perde! Então, o que trazes aí?
— Morangos.
— Não pode ser! É ainda cedo.
— Sim, mas os da Grabchto já estão maduros!
— Deixa ver. Que lindos!
— São para Danute!
— Ora vejam! Prometeste-os a Danute? Vai lá alegrar a tua amiga.
— Mas não demores muito! — acrescentou a mãe.
— Vou num pé e venho noutro! — E virando-se para a mãe, disse: — Tenho tanta fome!
Danute, abraçada ao cesto, disse:
— Assim que comer isto, fico boa!
Entretanto, Ignas espreitou pela janela.
— É verdade que o Romas...? — Não acabou a frase, pois viu Danute tirando morangos do cesto.
No dia seguinte, Romas procurou em vão os rapazes mais velhos. Queria convidá-los para irem aos morangos na Grabchto, mas eles haviam desaparecido ao despontar do Sol, ninguém sabia onde se tinham metido. Voltaram à tarde. Estavam cansados, bisonhos, furiosos. Vilius ordenou a Ruta:
— Chama o Romas!
Mal Romas apareceu no pátio, Vilius atacou-o:
— Porque mentiste? Não há morangos maduros na Grabchto.
— Disse a verdade — ofendeu-se Romas. — Talvez não tivésseis procurado no sítio certo.
— Percorremos a Grabchto de ponta a ponta...
— Mas eu encontrei!
Vilius piscou o olho e resmungou:
— Não sei onde os encontraste, mas o certo é que não foi na Grabchto! Não me esquecerei desta tua mentira. Percebeste?
Teria mesmo mentido? Simplesmente encontrara uma clareira batida pelo sol…


Viktoras Miliünas
Voa, gaivota, voa
Edições Ráduga Moscovo, 1987