30/07/2009

O presente da costureira de colchas



Era uma vez uma costureira de colchas que vivia numa casa no cimo das montanhas de bruma azulada. Até o mais idoso dos tetravôs não se lembrava de um tempo em que ela não estivesse lá em cima a coser, dia após dia.
Aqui e ali, e onde quer que o sol aquecesse a terra, dizia-se que ela fazia as colchas mais belas que alguma vez se tinha visto.
Os azuis pareciam vir do mais profundo do oceano; os brancos, das neves mais boreais; os verdes e os púrpuras, das abundantes flores silvestres; os vermelhos, os cor-de-rosa e os cor-de-laranja, do mais maravilhoso dos pores-do-sol.
Algumas pessoas diziam que os seus dedos eram mágicos. Outras murmuravam que as suas agulhas e tecidos eram dádivas do povo das fadas. E outras diziam ainda que as colchas tinham caído de anjos que por ali passavam.
Muita gente subia a montanha, com os bolsos a abarrotar de oiro, na esperança de comprar uma daquelas maravilhosas colchas. Mas a costureira não as vendia.
– Dou as minhas colchas aos que são pobres ou não têm casa – dizia a todos os que lhe batiam à porta. – Não são para os ricos.
Nas noites mais frias e escuras, a costureira descia até à cidade, no sopé da montanha. Percorria as ruas calcetadas até encontrar alguém a dormir ao relento. Então, tirava do saco uma manta acabada de fazer, enrolava-a nos ombros dos que tremiam de frio, aconchegava-os bem, e afastava-se depois em bicos de pés.
No dia seguinte, depois de beber uma chávena fumegante de chá de amoras, começava uma nova manta.
Por esta altura, vivia também um rei, senhor de muito poder e ambição, que, mais do que tudo, gostava de receber prendas.
Os milhares e milhares de lindíssimos presentes que recebia pelo Natal e pelo seu aniversário nunca lhe chegavam. Proclamou, então, uma lei que dizia que o rei passaria a festejar o seu dia de aniversário duas vezes por ano.
Quando isto também deixou de o satisfazer, deu ordens aos seus soldados para procurarem pelo reino as poucas pessoas que ainda não lhe tinham dado prenda alguma.
No decurso dos anos, o rei foi ficando com quase todas as coisas mais bonitas do mundo. Os seus inúmeros bens estavam empilhados um pouco por todo o castelo. Em gavetas ou prateleiras, em caixas e arcas, em armários e sacos.
Coisas que brilhavam, cintilavam e tremeluziam.
Coisas extravagantes e práticas.
Coisas misteriosas e mágicas.
Eram tantas, que o rei tinha uma lista de tudo o que possuía.
Mas, apesar de ser dono de todos estes tesouros maravilhosos de desfrutar, o rei não sorria. Não era nada feliz.
– Deve haver, algures, algo de bonito que me faça, finalmente, sorrir – ouvia-se o rei dizer muitas vezes. – E hei-de tê-lo.
Um dia, um soldado entrou precipitadamente no castelo com a notícia de uma mágica costureira de colchas que vivia nas montanhas.
O rei bateu com o pé no chão.
– E por que razão essa pessoa nunca me deu nenhuma das suas colchas de presente? – perguntou ele.
– Ela só as faz para os pobres, Vossa Majestade – respondeu o soldado. – E não as vende por dinheiro algum.
– Isso é o que vamos ver! – bradou o rei. – Tragam-me um cavalo e mil soldados.
E partiram à procura da costureira de colchas.
Quando chegaram a casa dela, esta limitou-se a rir.
– As minhas colchas são para os pobres e necessitados e vê-se facilmente que não és nem uma coisa nem outra.
– Eu quero uma dessas colchas – exigiu o rei. – Talvez seja o que finalmente me fará feliz.
A mulher pensou por um momento.
– Oferece tudo o que tens – disse – e então far-te-ei uma manta. Por cada prenda que deres, acrescento um quadrado à manta. Quando tiveres dado todas as tuas coisas, a tua manta estará terminada.
– Dar todos os meus maravilhosos tesouros? – gritou o rei. – Eu não dou, eu recebo!
E, dito isto, deu ordem aos soldados para se apoderarem da linda manta de estrelas da costureira.
Mas, quando se precipitaram sobre ela, a mulher lançou a manta pela janela e uma forte rajada de vento levou-a.
O rei ficou muito zangado. Levou a costureira montanha abaixo, atravessou a cidade e subiu outra montanha, onde os seus ferreiros reais fizeram uma grossa pulseira de ferro. Acorrentaram-na a uma rocha na gruta de um urso que estava a dormir.
O rei pediu-lhe novamente uma manta, e uma vez mais ela recusou.
– Muito bem, então – respondeu o rei. – Vou deixar-te aqui. Quando o urso acordar, tenho a certeza de que vai fazer de ti um óptimo pequeno-almoço.
Quando, algum tempo mais tarde, o urso abriu os olhos e viu a costureira na gruta, equilibrou-se nas fortes pernas traseiras e soltou um rugido que sacudiu os ossos da mulher. A costureira ergueu os olhos para o urso e abanou tristemente a cabeça.
– Não admira que sejas tão resmungão – disse. – Para além de rochas, não tens nada onde possas à noite descansar a cabeça. Arranja--me um braçado de agulhas de pinheiro e, com o meu xaile, far-te-ei uma almofada grande e fofa.
E foi isso que fez. Nunca ninguém fora antes tão amável para com o urso, que partiu a pulseira de ferro da mulher e lhe pediu que lhe fizesse companhia durante a noite.
Mas, embora o rei desempenhasse bem o papel de homem ambicioso, desempenhava mal o papel de homem malvado. Durante toda a noite não conseguiu dormir a pensar na pobre mulher, na gruta.
– Oh, meu Deus, o que é que eu fui fazer? – lamentava-se.
Acordou os soldados e lá marcharam todos em pijama até à gruta para a salvarem. Mas, quando chegaram, o rei encontrou a costureira e o urso a tomarem um pequeno-almoço de frutos silvestres e mel.
Então, o rei esqueceu por completo a pena que sentira e voltou a ficar zangado. Ordenou aos construtores reais de ilhas que construíssem uma ilha tão pequena que a costureira só lá pudesse ficar em bicos de pés.
Novamente o rei lhe pediu uma manta e novamente ela recusou.
– Muito bem – respondeu o rei. – Esta noite, quando estiveres demasiado cansada para te manteres em pé e quiseres deitar-te para dormir, afogar-te-ás.
E o rei deixou-a só na minúscula ilhota.
Pouco depois de ele partir, a costureira viu um pardal atravessar o grande lago. Soprava um vento forte e violento e o pobre pássaro não parecia capaz de chegar a terra. A costureira chamou-o e ele poisou no ombro dela para descansar. Como o pobre e cansado pardal estava a tremer, a senhora fez-lhe uma capa de um pedaço de tecido do seu colete púrpura. Quando a ave se sentiu mais quente e o vento parou de soprar, levantou voo de novo, grato pelo que a costureira lhe tinha feito.
Dali a pouco, o céu escureceu devido a uma enorme nuvem de pardais. Com as asas sempre a bater, milhares deles desceram, pegaram na mulher com os seus pequeninos bicos e levaram-na em segurança para terra.
Novamente nessa noite, o rei não conseguia dormir a pensar na senhora, sozinha na ilha.
– Oh, meu Deus, o que é que eu fui fazer? – lamentava-se.
Voltou a acordar os soldados que estavam a dormir, e lá marcharam em pijama até ao lago, para libertarem a costureira. Mas, quando chegaram, ela estava sentada no ramo de uma árvore a coser minúsculas capas cor de púrpura para todos os pardais.
– Desisto! – gritou o rei. – O que tenho de fazer para me dares uma manta?
– Como já te disse – respondeu ela – oferece tudo o que tens e eu faço-te uma manta. E, por cada prenda que dês, acrescento mais um quadrado à tua manta.
– Não consigo fazer isso! – gritou o rei. – Eu adoro todas as minhas lindas e maravilhosas coisas.
– Mas, se elas não te fazem feliz – retorquiu a costureira – para que servem?
– Lá isso é verdade – suspirou rei.
E pensou muito, muito no que ela dissera. Pensou durante tanto tempo, que as semanas se sucederam umas às outras.
– Pronto, está bem – disse entredentes. – Se tenho de me libertar dos meus tesouros, então que seja!
O rei regressou ao castelo e procurou, de uma ponta a outra, qualquer coisa da qual conseguisse abdicar.
De sobrolho franzido, lá acabou por encontrar um simples berlinde. Só que o rapazinho que o recebeu retribuiu-lhe o gesto com um sorriso tão radiante, que o rei regressou ao castelo para ir buscar mais coisas.
Por fim, pegou num amontoado de casacos aveludados e foi distribuí-los pelas pessoas vestidas de trapos. Ficaram todas tão contentes, que se cidade.
Mas, ainda assim, o rei não sorria.
Em seguida, foi buscar uma centena de gatos siameses azuis, que dançavam valsas, e uma dezena de peixes transparentes como vidro. Depois, deu ordem para que trouxessem para fora o carrocel com os cavalos
verdadeiros. As crianças gritaram de entusiasmo e puseram-se a dançar em redor dele.
O rei olhou à sua volta e viu as danças, a felicidade e a alegria que os seus presentes tinham trazido. Uma criança pegou-lhe na mão e puxou-o para dançar. O rei agora sorria e até soltava gargalhadas.
– Como é isto possível? – exclamou. – Como é possível eu sentir-me tão feliz por dar as minhas coisas? Tirem tudo cá para fora! Tirem tudo imediatamente!
Entretanto, a costureira manteve a sua palavra e começou a fazer uma manta especial para o rei. Por cada presente que ele dava, ela acrescentava outro quadrado à manta.
O rei continuou a dar e a dar. Quando, por fim, não havia mais ninguém que não tivesse recebido alguma coisa, o rei decidiu ir pelo mundo e procurar outras pessoas que precisassem das suas prendas.
Antes de partir, o rei prometeu à costureira que lhe enviaria um pardal de todas as vezes que desse alguma coisa.
De manhã, à tarde e à noite, as carroças partiam da cidade, cada uma delas carregada até cima com todos os objectos maravilhosos do rei. E durante anos e anos, os pardais mensageiros foram voando até ao peitoril da janela da costureira, à medida que ele ia esvaziando lentamente os seus carros por onde quer que passasse e trocava os seus tesouros por sorrisos.
A costureira trabalhava sem parar e, pedaço a pedaço, a manta do rei foi crescendo, cada vez maior e mais bonita.
Por fim, certo dia, um pardal cansado entrou-lhe pela janela e poisou na agulha. A costureira compreendeu imediatamente que este era o último mensageiro. Deu o último ponto na manta e desceu a montanha em busca do rei.
Após uma longa busca, encontrou-o finalmente. As suas vestes reais estavam agora em farrapos e os dedos dos pés espreitavam-lhe das botas. Os olhos brilhavam de alegria e o riso era maravilhoso e sonoro. A costureira retirou do saco a manta e desdobrou-a. Era de tal
forma bela, que borboletas e colibris esvoaçavam à sua volta. Ergueu-se em bicos de pés e pô-la à volta do rei.
– O que é isto? – exclamou ele.
– Prometi-te há muito tempo – disse ela – que quando fosses pobre, te daria uma manta.
O riso radiante do rei fez cair maçãs e levou as flores a voltarem-se para ele.
– Mas eu não sou pobre – disse. – Posso parecer pobre mas, na verdade o meu coração está cheio a mais não poder, com as recordações de toda a alegria que dei e recebi. Agora sou o homem mais rico.
– Mesmo assim, fiz esta manta só para ti – disse a costureira.
– Obrigado – respondeu o rei. – Mas só fico com ela se aceitares uma prenda minha. Há um último tesouro que ainda não dei. Guardei-o todos estes anos só para ti.
O rei retirou o seu trono do carro velho e frágil.
– É mesmo muito confortável – disse o rei. – E o ideal para quem passa longos dias a coser.
A partir desse dia, o rei voltou muitas vezes à casa da costureira de colchas, que ficava bem lá em cima, perto das nuvens.
Durante o dia, a costureira fazia lindas colchas que não vendia e, à noite, o rei levava-as para a cidade. Procurava, então, os pobres e infelizes, pois nunca se sentia tão feliz como quando dava alguma coisa a alguém.


Jeff Brumbeau
The quiltmaker’s gift
New York, Orchard Books, 2000


29/07/2009

A Vovó Lobo

Eu tinha um amigo. Chamava-se Artur. Ainda se chama Artur, mas já não é meu amigo.
Desde o início das aulas que eu pensava como é que havia de fazer para o Artur ser meu amigo. O Artur é muito bonito. Gosto muito dos seus olhos castanhos e delicados por detrás dos óculos azuis. O cabelo, cortado à escovinha, faz lembrar erva preta. Tem orelhas peque-nas, anda muito bem vestido mas tem tendência para pensar que os outros não valem “um tostão furado”, como diria a minha avó. A propósito da minha avó, eu disse ao Artur na hora do recreio:
— Artur, queres que te conte um segredo?
— Que segredo?
— Uma coisa muito importante. Não vais dizer nada a ninguém?
— Claro que não, achas que sou o quê?
Então disse-lhe ao ouvido:
— A minha avó é bruxa.
Ele até deu um salto.
— Já não há bruxas, isso era antigamente!
No momento em que eu ia dizer: “Mas a minha avó é uma bruxa boa”, Íris, a magricela, aterrou entre nós como se tivesse caído do céu. Olhava para o Artur com ar provocador, com aqueles olhos grandes. A Íris era nova na escola, tinha chegado há dez dias, mas eu não falava muito com ela porque só queria ter o Artur como amigo.
Ela tinha ouvido a conversa. Falava muito depressa e gesticulava.
— Ah, então achas que já não há bruxas, Artur? Nunca ouviste falar da senhora da loja dos animais?
— Não.
— Aquela dos animais, no centro comercial, que dantes era uma loja de brinquedos, não estás a ver?
— Não, e o que é que isso tem a ver com bruxas?
— Vou dizer-te uma coisa, meu menino. A senhora da loja dos animais transformou todos os animais de pelúcia em animais verdadeiros. Não sabias? Todos os cães, os gatos e até a piton do seu terrarium. E, pode voltar a desfazer tudo quando quiser. Portanto, vê lá, nunca te esqueças do teu ursinho na loja dela, meu menino! Até se diz que ela transformou bonecos em bebés verdadeiros e que ela os…
O Artur estava vermelho, e julguei mesmo que ele ia atirar-se à Íris e começar a bater-lhe, mas não.
— Em primeiro lugar, não gosto que me tratem por “meu menino”, — gritou em altos ber-ros, batendo com força o pé no chão – e depois essa história dos brinquedos é ridícula e, quanto às bruxas, elas não existem!
— Existem sim, Artur, existem — disse-lhe eu — porque a minha avó também é!
— E o que é que ela faz para ser bruxa?
— Faz truques extraordinários, tem poderes…
— Que poderes?
— Basta começar a contar uma história e pronto, transforma-se! Pode transformar-se em tudo: em príncipe, em anão das montanhas, em abelha, ou simplesmente em bruxa.
O Artur encolheu os ombros, e a Íris, apontando-lhe o dedo ao nariz, disse-lhe, num ar muito sério:
— Artur, é melhor para ti que nunca te encontres com essa avó.
— Ah! ah! ah! E porquê?
A Íris levou-nos para longe dos outros, para o fundo do pátio, para ninguém nos ouvir.
— Eu conheço bem as bruxas — explicou-nos — e sei que elas existem. Na outra escola eu era especialista nesse assunto. As bruxas, agora, não usam chapéus em bico, não têm verru-gas no queixo, podem trabalhar nos correios, na televisão, até as há que são professoras! As bruxas tornaram-se comuns!
Eu e o Artur ouvíamos o discurso da Íris, de olhos esbugalhados.
— Comuns?
— Sim, e sei que há uma coisa que elas detestam acima de tudo.
— Que coisa é essa? — perguntou o Artur.
— Detestam, acima de tudo, os malandros que não acreditam nelas.
O Artur encolheu os ombros.
— Pfff! Que grande palermice!
— Não te julgues assim tão forte, meu menino! — murmurou a Íris. — Eu cá também tenho os meus poderes!
— Não me trates por “meu menino”, que isso irrita-me.
— Ah, estás a ver!
— A ver o quê?
— Estás a ver, eu tenho o poder de te irritar, ah! ah! ah!
E foi-se embora a saltitar nas suas grandes pernas.
O Artur estava furioso.
— Que palerma, aquela rapariga!
— Mas diz-me cá, Artur — perguntei-lhe eu — acreditas ou não que a minha avó é bruxa?
— Não, não acredito nisso.
— Mas juro-te, Artur, que ela é uma bruxa a sério!
— Isso é o que tu dizes!
— Até o meu primo, que tem catorze anos, a trata por “vovó-Lobo”, estás a ver! Só tens de vir comigo, se tiveres coragem, e ficas a saber.
Na quarta-feira seguinte fomos a casa da minha avó. Antes de entrarmos, preveni o Artur:
— Durante a história, é preciso estar com os olhos fechados.
— Porquê?
— Se abrires os olhos enquanto ela está transformada em lobo, em papão ou em monstro, ela pode devorar-te!
O Artur levantou os olhos para o céu:
— Tretas!
Eu insisti:
— Vais abrir os olhos?
Ele respondeu:
— Claro, o que é que julgas?
Apertei-lhe o braço com todas as minhas forças:
— Por favor, Artur, não abras os olhos ou vai ser horroroso!
E depois a vovó abriu a porta.
Sentámo-nos no canapé. A vovó disse:
— Que história quereis que vos conte?
Com tanto azar que foi o Artur a pedir:
— A história do Capuchinho Vermelho.
Então, como de costume, ao sentar-se no sofá, a avó disse:
— Clic! Clac! Fechem os olhos para entrarem no conto e sairem dele sem qualquer dificuldade. Clac! Clic!
Depois começou a contar o passeio do Capuchinho Vermelho na floresta.
Não tinha pressa nenhuma, a menina de vermelho, e dizia com a sua voz ingénua:
— Oh! Que linda floriiinha!
E a flor respondia, a voar dali para fora:
— Não sou uma flor, sou uma borboleta! Colhe-me, se fores capaz.
O Capuchinho Vermelho cantarolava, lalalalalala, e de repente exclamou:
— Olha! Um morango silvestre!
E o morango respondia:
— Não sou um morango, sou uma joaninha!
E o Artur ria porque a borboleta e a joaninha tinham voz grossa. Eu pensava: “O Capuchinho Vermelho devia mas era usar óculos!”
De repente, o Capuchinho Vermelho parou de cantarolar e de saltitar. Alguém saiu de trás de um silvado. Ouviu-se o estalido das folhas. Senti que a vovó se transformava.
— Boas taRdes, encantadoRa menina!
Era mesmo o sotaque do lobo que arrastava os “R”. A voz passava-lhe por entre os dentes aguçados. Ouvia-se Flat! Flat! Eu disse baixinho ao Artur:
— Estás a ouvir a cauda do lobo a bater no chão?
Ele respondeu-me:
— Sim, estou a ouvir.
Eu murmurei:
— É assim que os lobos batem com a cauda, quando sabem que vão regalar-se a comer.
— Boa tarde, meu senhor! — disse delicadamente o Capuchinho Vermelho na sua voz fina.
Francamente, acho estranho que uma rapariga diga “bom dia, meu senhor”a um lobo.
— Onde vais, gRaciosa menina? — disse o lobo.
A vovó tentava adocicar a voz do lobo mas entre duas palavras ouviam-se fortes clac! clac! junto dos nossos ouvidos.
— Ouves as mandíbulas a bater?
Artur não respondeu. Certamente, começava a ficar com medo.
— Enquanto tiveres os olhos fechados, não tens de ter medo de nada — disse-lhe eu.
Apetece-me dizer a cada instante ao Capuchinho Vermelho: “Não respondas ao lobo! Vai-te embora! Corre depressa, ou trepa a uma árvore.” Mas tenho medo de que o lobo, irritado e cheio de fome, se vire contra mim. Então deixo aquela pateta do Capuchinho Vermelho res-ponder.
— Vou a casa da minha avó que vive na floresta.
Se fosse eu, respondia antes: “Vou a casa do meu tio que joga boxe!”
Senti que o Artur também estava nervoso. Peguei-lhe na mão e disse:
— Chiu! É muito ingénua esta rapariga mas não se pode fazer nada para a ajudar.
— E onde é a casa da tua queRida avozinha? É longe daqui? — perguntou o lobo a dar aos dentes cada vez com mais força.
E aquela palerma a dar-lhe as informações todas:
— É fácil, depois do pinheiro grande, vire à direita e depois à esquerda, na quarta nogueira. É uma casinha com sardinheiras à janela.
Evidentemente, o lobo foi a correr para casa da avó. Não devia estar muito treinado na cor-rida porque arfava de uma forma esquisita.
Affu! Affu! Affu!
Chegou diante da casinha.
— Boas taRdes, avozinha, sou eu!
— Tu, que-quem?
— O Capuchinho VeRmelho!
— En-entra, minha meniina, en-entra.
A avó do Capuchinho Vermelho não é tão robusta como a minha e tem uma voz tremelican-te.
E depois deve ser surda para confundir daquela maneira a voz da neta com a do lobo. Disse-lhe:
— Boom diaa, minha menina, coomo és simpááticaaa…
E o lobo cortou-lhe a palavra e o pescoço. Clac!
O lobo tem horror de comer avós, e por isso resmungava:
— Ugh! Esta carne é dura, insossa e fibrosa!
Eu acho que não era lá muito agradável para a vovó, mas o Artur riu-se daquilo.
— E o que é isto? Ah, Os óculos! Quase os engolia! Vamos antes pousá-los em cima da mesa-de-cabeceira.
E ouvimos o pac! ao pousá-los. Quando a velhinha, entre ruídos medonhos, foi engolida, o lobo arrotou. O Artur deu um salto e exclamou:
— Oh!
De seguida, o lobo tentou enfiar o pijama da avó, mas fazia tudo ao contrário: meteu a cabeça numa manga, e gritava, já quase sem ar:
— Eu MoRRo asfixiado! Eu sufoco! SocoRRo!
E o Artur tinha um riso contraído, mas não era capaz de se conter.
Por fim o lobo pôs a touca de banho da avó para esconder as grandes orelhas, uma touca de plástico com flores cor-de-rosa.
Eu tinha muita vontade de ver como é que ele ficava assim vestido, e até me apetecia espreitar pelo canto do olho, mas receava que o Artur abrisse logo os dois, porque ele é muito curioso.
O lobo ralhou com a sua voz grossa:
— O primeiRo que olhaR paRa mim, devoRo-o!
Cerrámos as pálpebras com toda a força.
O Capuchinho Vermelho chegou. Não estranhou que a avó lhe dissesse com voz grossa:
— AbRe a poRta, meu tesouRo!
Debruçou-se sobre o lobo para lhe dar um beijo. Ficou um bocadinho admirada quando viu os olhos grandes e a orelha peluda a sair da touca de banho, mas só quando o lobo abriu a boca é que ela disse:
— Avó, que grandes dentes tu tens! Tens uma dentadura nova?
O lobo respondeu:
— É paRa melhoR te comeR, minha menina!
Gostava que o Artur tivesse gritado: ” Capuchinho Vermelho! Pega num pau e bate no lobo, depressa. Faz-lhe frente, nós estamos contigo!” Eu teria gritado juntamente com ele. Mas ele não dizia nada.
O canapé estremecia. Era o Artur que estava a tremer.
Como sempre, sustive a respiração e esperei que a menina do Capuchinho Vermelho fosse comida.
Aquilo demorava muito tempo.
O lobo saboreava-a e fazia muitos ruídos feios com a boca. E eu sentia que o Artur estava a ficar enervado. De certeza que estava farto daquele lobo.
E se ele lhe mandasse um murro na cara, como fez à Amélia, daquela vez que ela o tratou por ouriço-cacheiro por causa do cabelo curto!? De repente senti que ele ia abrir os olhos como tinha dito que faria.
O lobo iria comê-lo! Depois de uma avó desenxabida, os lobos ainda podem comer um Capuchinho Vermelho delicioso, um Artur com óculos e até uma menina rechonchuda como eu…
Então gritei.
— ARTUR! NÃO! — e atirei-me a ele para impedir que abrisse os olhos. O Artur deu um salto como se tivesse sido mordido por uma serpente.
Então eu abri os olhos.
Ainda bem que a vovó teve tempo de voltar a transformar-se em avó.
O Artur estava com a cabeça escondida debaixo de uma almofada e gritava:
— Nãããão! Nãããão!
A Vovó não parecia admirada e disse num tom de voz muito meigo:
— Clac! Clic! Acabou-se o perigo. Podem abrir os olhos. Clic! Clac!
Então, o Artur correu disparado para o corredor. Queria ir embora, tremia todo e devia estar a ver tudo desfocado porque os óculos tinham voado.
A vovó foi encontrá-los junto do telefone. Quando quis aproximar-se dele, o Artur gritou:
— NÃO!
— Artur, não podes ir assim para a rua sem óculos, é perigoso — disse-lhe ela. — Espera, vou endireitar-tos, estão todos torcidos.
Depois daquilo, ele bem deve ter visto que a minha avó era uma bruxa boa porque ela devolveu-lhe os óculos arranjados, dentro duma caixa com bombons.
Mas ele fazia um sorriso forçado. Ainda não estava calmo. Nem pegou num único bombom! Encostado contra a porta, só queria ir embora.
No dia seguinte disse-me, na escola:
— A tua avó é perigosa!
Aquilo fez-me rir.
— Dizes isso porque tiveste medo, Artur.
— Não, eu não tive medo, mas a tua avó é completamente maluca.
— Se voltas a dizer isso, Artur, deixamos de ser amigos.
— A tua avó é maluca, idiota, doida varrida.
— Acabou, Artur, deixamos de ser amigos.
Eu tinha vontade de chorar.
Fui para o fundo do recreio e eis que Íris, a magricela, apareceu.
Anda quase sempre sozinha porque é nova, e quem fala com ela diz que é estranha. É ver-dade que às vezes usa palavras esquisitas que fazem rir o sr. Monjol, o nosso professor.
O ar triste da Íris transformou-se imediatamente num sorriso, e correu para mim.
— Magali (que sou eu), queria pedir-te uma coisa.
— Diz lá.
Ela hesitava, parecia que, de repente tinha ficado tímida! Depois lá se decidiu:
— Será que um dia podias fazer-me o obséquio de me apresentares à tua avó?
— Fazer-te o obséquio?
Eu estava tão admirada que não sabia o que responder. Ela julgou que eu recusava. Estava com um ar mesmo desiludido.
— Por favor, mostra-me a tua avó, nem que seja só de longe. Anseio por ver a tua avó Lobo! Gostava tanto de ver uma bruxa a sério! Sabes, é que sou uma especialista no assunto, mas nunca vi nenhuma autêntica e o maroto do Artur tem razão. Não vale a pena termos ilusões, a senhora da loja dos animais não tem nada de bruxa e os porcos da Índia que lá tem são animais verdadeiros. É evidente! Vais mostrar-me a tua vovó Lobo?

Janine Teisson, Mamy-Loup
Arles, Actes Sud Junior, 2003




23/07/2009

Leïla

Leïla tem dez anos. Nasceu no grande deserto, onde os Beduínos viajam em camelos, no infinito das dunas movediças. Leïla é viva e veloz como um pássaro. Na tribo, chamam-lhe Leïla – a indomável. O pai, o xeque Tarik, é justo. Por isso é respeitado em todos os acampamentos do deserto. Mas Tarik não sabe como acalmar a natureza selvagem da filha.
Leïla tem seis irmãos. Slimane é o mais velho. É o filho preferido do xeque Tarik. Só ele sabe como acalmar Leïla quando ela se irrita, quando se exalta. Só ele a faz rir quando está sombria e triste. Todos os dias, Leïla acompanha Slimane através do oásis.
Certa manhã, quando as últimas estrelas se extinguiram, Slimane deixou o acampamento. Montou o cavalo do xeque Tarik e atravessou o deserto, procurando novas pastagens. Lá do alto de uma duna, Leïla e o pai acenam a Slimane que se afasta.
Os dias passam e Slimane não regressa.
Tarik parte à procura do filho. Avança de duna em duna, de oásis em oásis. Leïla acompanha-o.
Os pastores dizem-lhes que viram o cavalo branco, no horizonte, mas que este não levava cavaleiro algum.
Os mercadores, com os seus camelos carregados de mercadoria, falam dos grandes espaços que atravessaram. Dizem a Tarik:
— Só Alá sabe onde se encontra o seu filho.
Então, Tarik compreende que o filho foi engolido pelas areias, como já acontecera a tantos Beduínos.
Tarik diz a Leïla que não voltará a ver Slimane. Leïla chora e grita. Ninguém pode levar-lhe o seu irmão, nem mesmo Alá! Por fim, Tarik consegue acalmá-la. Regressam, vagarosamente, ao acampamento. Tarik fica em silêncio. Durante vários dias, permanece sentado na entrada da tenda, não tocando sequer nas deliciosas refeições que lhe oferecem os seus servidores.
Leïla vagueia pelo oásis, como cega.
Ao fim de sete dias, Tarik sai da tenda. Junta o seu povo e diz-lhe:
— A partir de hoje, qualquer um de vós que pronuncie o nome de Slimane, será severamente punido. Quero esquecer.
O seu olhar era duro e frio. Todos os Beduínos baixaram a cabeça. Sentiam-se mal, mas ninguém ousou falar.
Leïla também ouviu a decisão de Tarik. Mas, apesar disso, todos os dias algo lhe fala de Slimane. Quando vê as crianças a brincar, lembra-se dos jogos que Slimane lhe ensinava. Quando passa pelas mulheres, recorda as histórias que lhes contava Slimane. Ao encontrar os pastores guardando os seus rebanhos, pensa no pequeno cabritinho negro que o irmão adorava.
Em cada recordação, Leïla quer gritar o nome de Slimane.
Mas cala-se. Cada vez se torna mais selvagem e mais violenta. Os Beduínos afastam-se quando ela passa. Sente-se mais só do que nunca.
Um dia, Leïla vê os irmãos fazerem um jogo que Slimane lhes ensinara. Então, sem pensar, diz-lhes:
— Slimane não jogava assim.
Os irmãos detiveram-se de imediato, olhando-a com um ar assustado. Ela tinha rompido o silêncio.
Leïla vai visitar as mulheres à tenda e começa a contar-lhes uma história – uma daquelas que Slimane contava. A mãe de Leïla protestou, angustiada:
— Pára, Leïla, se o teu pai ouve…
Pouco a pouco, as mulheres foram-se calando para ouvir, sorrindo e de ar sonhador, a história de Leïla. Mas esta apercebe-se do ar inquieto da mãe. Queria fazer-lhe compreender… Mas só conseguiu gritar:
— Tenho de falar dele, tenho!
E sai, correndo.
Leïla vai juntar-se aos pastores da montanha que, ao ouvirem o nome interdito, fogem. Mas Leïla vai atrás deles.
Conta-lhes o amor que o irmão sentia pelo pequeno cabrito negro. Pouco a pouco, os pastores aproximam-se dela. Quanto mais Leïla fala de Slimane, mais ele lhe parece próximo e presente. Agora sente-se em paz. Em breve todos a ouvem, sorrindo. Era como se Slimane vivesse de novo entre eles.
Certa noite, um dos pastores mais jovens aproxima-se da tenda de Leïla. Chama-a:
— Anda, vem ver como o cabrito de Slimane cresceu.
Abre-se o pano da tenda e é Tarik que aparece. O seu olhar é mais gelado do que a aurora do deserto. As suas palavras ferem como o sabre cruel.
— Pastor, proibi que pronunciassem o nome do meu filho. Mas desobedeceste. Expulso-te deste oásis. Não voltes mais.
O pastor afasta-se, chorando. Os Beduínos baixam os olhos em silêncio. Estão infelizes. Têm medo. Afastam-se de Leïla, deitando-lhe um olhar de reprovação.
Leïla queria gritar: “Slimane!”, mas guarda para si as palavras que lhe afloram aos lábios. Sente que a raiva aumenta. Sufoca. A sua paz é destruída. Parece que Slimane se voltou a afastar.
Na manhã seguinte, muito cedo, Leïla decide falar com o pai. Tarik está sentado na tenda, pensativo. Leïla aparece bruscamente à sua frente. Fala em voz baixa e reprimida:
— Não irá roubar-me o meu irmão. Não deixarei que o faça…
Tarik lança-lhe um olhar ameaçador e Leila não lhe dá tempo para falar, continua:
— Consegue ver o rosto de Slimane? Ouve a sua voz?
Tarik fica petrificado de espanto. Diz, tremendo:
— Não, não consigo. Apesar disso, fico horas e horas no deserto.
Os olhos de Tarik enchem-se de lágrimas. Leïla diz-lhe docemente:
— Sei de uma maneira, pai, ouça…
Então Leïla começa a falar de Slimane. Como ele passeava com ela e o que falava; como brincava e o que contava. Como a acalmava ou a fazia rir quando ela se irritava. Fala-lhe de alegria, de ternura e de vida… Quando acaba, diz:
— Pai, já consegue ver-lhe o rosto? Ouve agora a sua voz?
Tarik baixa a cabeça e, pela primeira vez desde há algum tempo, sorri.
— Está a ver — murmura Leïla — Slimane pode ainda viver entre nós.
Tarik fica sonhador, por algum tempo. Depois, volta-se para Leïla:
— Diz ao meu povo que venha juntar-se aqui.
Quando os Beduínos se reúnem em volta de Tarik, este declara:
— A minha filha Leïla soube trazer-me de volta o meu filho Slimane. Por isso, daqui em diante, chamar-lhe-eis Leïla — a mais sábia. Quero que o seu nome e o de Slimane sejam honrados em todos os acampamentos do deserto.
Dias mais tarde, o jovem pastor regressou ao oásis.
E Slimane viveu de novo no coração de todos aqueles que dele se recordavam.


Sue Alexander
Leïla
Porto, Edinter, 1989




A história da árvore do Paraíso

No início do mundo, o Grande Criador plantou um jardim.
Inúmeras plantas formosas cresciam em cada um dos seus diferentes campos.
Havia jardins de florestas, completamente cobertos de musgo verde e campainhas ondulantes, que acenavam timidamente ao vento. Pequenos seres povoavam estes jardins, farejando e sussurrando a toda a hora.
Havia jardins de pradarias cheios de ervas oscilantes, que os animais percorriam com passadas graciosas.
Havia também jardins subaquáticos, para os seres do mar profundo. Tinham folhas roçagantes, arrastadas pelas correntes, e misteriosas flores de pétalas trémulas.
Os mais belos de todos eram os jardins de árvores. Eram tão altas que tocavam o céu. Nessas árvores, os pássaros todos faziam os seus ninhos. Os ramos, cheios de folhas, enchiam-se de trilos e chilreios, de gorjeios e assobios, de melodias trinadas, que caíam em sonora cascata para deleite do mundo.
O Grande Criador pediu aos homens que tomassem conta do mundo e construíssem para si próprios casas simples e seguras, num dos jardins de que gostassem.
Mas o tempo foi passando e as pessoas tornaram-se cada vez mais ambiciosas…
— Vamos construir CASAS MAIORES! — disseram.
— Há materiais de construção em abundância para usarmos como quisermos.
Em breve começaram a construir palácios.
Cada novo edifício era mais alto do que o anterior e os palácios eram feitos cada vez com mais magnificência.
As suas salas às centenas estavam cheias de todo o tipo de luxos… mas a ambição das pessoas não conhecia limites.
Os jardins do mundo foram caindo em ruínas, cada um deles imagem da mais desoladora devastação.
Todas as árvores tinham sido abatidas.
Os pássaros agitavam-se tristemente no chão frio, tentando, com desespero, construir novos ninhos.
As suas canções foram silenciadas.
Então, do alto do seu palácio, uma criança olhou para o mundo devastado e chorou.
— Desce à terra — sussurrou-lhe, por entre o vento, a voz do Criador. — Lá encontrarás uma semente, que deves semear num local onde possa crescer em segurança.
A correr, a criança desceu as escadas em caracol da torre do palácio.
Pousada na terra, estava uma semente castanha, enrugada, feia.
A criança pegou na semente com delicadeza.
— Onde poderei semeá-la em segurança? — perguntou-se.
Foi caminhando, caminhando, até que chegou a uma vala na qual uma lama escura corria lentamente e alguns juncos baloiçavam no vento frio.
— Coloca-a aqui, onde nunca ninguém vem! — parecia sussurrar o vento.
E foi ali que a menina enterrou a semente.
Devagar, em silêncio e completamente invisível, a semente começou a germinar.
Cresceu e fez-se uma árvore forte. Sob os seus ramos, outros jardins começaram a florescer. Em breve, as criaturas reuniram-se à sua volta.
A árvore cresceu mais alto do que todos os palácios. Os pássaros voavam por entre os seus ramos e aí construíam os ninhos.
Cresceu tanto, que chegou ao Paraíso. E quem assim o desejasse, poderia subir pelos seus ramos até ao Jardim do Paraíso do Grande Criador.


Mary Joslin
The tale of the heaven tree
Oxford, Lion Publishing, 2001


22/07/2009

Angústias do Mundo




Só eu ficara abandonado o tempo todo, naquele lugar do Minho que era o único que estava perto da minha pele. Arranjei cama de camarinhas junto à raiz duma árvore, à espera do meu fim. E ainda não sei se chegou...
Sei que a Lua, certa noite, tomou um bruto pifão. Surgiu lá das bandas do mar inchadíssima e encarnada. Custou mesmo a despegar-se da água e deixou-a, por um tempo, cheia de malhas de sangue. Depois, andou aos tombos pelo ar e minguou. Encarrapitou-se nas nuvens, jogou com elas às escondidas e, finda a correria, caiu de cansada nas galhas dum espinheiro.
Teria ficado aí, lindíssima, se não fosse aquela moleza de queijo que a enlanguescia. Assim, foi-se desfazendo numa pasta empalidecida e, devagar, entornou-se sobre mim. Sei lá desde quando eu dormia ali, a cabeça no tufo das camarinhas, embotados os sentidos por aquele cheiro da erva fresca e da areia humedecida! Sei que com o banho da Lua fiquei translúcido e molhado, bêbado e imponderável. Sei que me pegou o vento e me entremeou nos ramos das roseiras, me fez dansar na copa das árvores, rebolar nos telhados mais íngremes, descer como uma avalanche a encosta das colinas e estatelar-me nas planícies, encher-me de pólen por causa do apetite das flores. Sei que andei como uma bola de roleta no côncavo esférico do céu. Sei finalmente que, ao bater numa estrela, me incendiei como um fogo de artifício.
Foi delicioso e saborosíssimo aquele crepitar de meus ossos que se haviam tornado invisíveis, aquele estalejar das bolinhas da gordura, salpicando tudo, aquele perfume de cabelos queimados como nas estrebarias onde foi o ferrador, aquela festa de S. João na estratosfera!
Só por causa de ter batido numa estrela!
A estrela era bonita e tinha os olhos saídos como os das moscas, olhos míopes e inúteis na escuridão do céu.
Vieram-me então à memória todas as angústias do mundo – as inundações e as guerras, o medo dos fantasmas e a maldade dos homens, aquele cheiro de arroto de certas bocas que só comem o suor dos miseráveis, aquela tristeza de flor quebrada que apodreceu num monturo, aquele pst das prostitutas, aquele sorriso dos clérigos, aquele olhar para o único vestido que se rompeu, o frio e o ciúme, o tédio e a malária ao recolher das áfricas, os hospitais, as cadeias, aquele somar números abstractos toda a vida no emprego mal pago, aquele adormecer nos portais, aquele agradecer o favor indispensável, aquele ser coveiro e polícia,
os leprosos, as feias, os marrecas, os generais, a morte... Ao fim fiquei como uma nuvem de cinzas.
Caí então de novo sobre a Terra. Caí como uma chuva suave. Confundiram-me com o luar quando me espalhei no descampado alucinando os gatos, pintando as casas, murchando as flores e apodrecendo o peixe... Por mim sei, no entanto, que são humanos este gosto das surpresas e esta permanente tentação de dilúvio. Sei que viverei eternamente embora não tenha nem intestinos nem fígado.

António Pedro, In Apenas Uma Narrativa






21/07/2009

O tesouro da Clara

A Clara vive no Brasil.
Não tem quase nada. Tem uma pele de âmbar e cabelos pretos. Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.
A Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato. Tem de limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.
À quinta-feira, é o dia de descanso da Clara. É então que sai…
A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam-se de antemão. São os seus amigos: a Lúcia, o Ângelo e a Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.
A Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. As mãos e os pés mexem-se constantemente e ela está sempre a rir.
O Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos. Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço. Caminha sem problemas sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.
A Ana é a mais bem comportada. Não fala muito. Tem doze anos, tal como a Clara, que conheceu há muitos anos, naquele sítio, diante do banco.
Por vezes, a Lúcia, o Ângelo e a Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxar as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.
O Ângelo, a Lúcia e a Ana têm muitos amigos na rua. Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.
Quando a Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam Pescadores dos três mares e comem o pão que os turistas lhes dão. A Lúcia, o Ângelo e a Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.
Eles têm a Clara. A Clara é a mercadora de sonhos. Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.
A Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas com barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade. Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte, que te adormece e te acorda cem anos mais tarde. Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizzarias e de arranha-céus espelhados.
E a Clara fala-lhes de um Rio sem adultos, onde só há crianças, gentis e alegres, que têm os dentes todos. Saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons. Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos como comerciantes. E a Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.
A Clara conta os seus sonhos durante horas. Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.
Agora, é tarde. A Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, de boca aberta. Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira. Para eles, não há cola.
Eles têm a Clara.
E muitos sonhos bons para viver ainda…


Beatrice Alemagna
Le trésor de Clara
Paris, Autrement Jeunesse, 2000




O fio e as missangas

Encontro JMC sentado num banco de jardim. Está recatado, em solene solidão, como se só ali, em assento público, encontrasse devida privacidade. Ou como se aquele fosse seu recinto de toda a vida morar. Em volta, o tempo intacto, só com horas certas.
Nunca soube o seu nome por extenso. Creio que ninguém sabe, nem mesmo ele. As pessoas chamam-no assim, soletrando as iniciais: jota eme cê.
Saúdo-o, em inclinação respeitosa. Ele ergue os olhos com se a luz fosse excessiva. Um subtil agitar de dedos: ele quer que eu me sente e o salve da solidão.
- Lembra que sentámos neste mesmo lugar há uns anos atrás?
- Recordo, sim senhor. Parece que foi ontem.
- O ontem é muito longe para mim. Minha lembrança só chega às coisas antigas.
- Ora, o senhor ainda é novo.
Não sou velho, é verdade. Mas fui ganhando velhices.

E deixámo-nos, calados. Vou lembrando os tempos em que este homem magro e alto desembocava neste mesmo jardim. Acontecia todo o final de tarde. Recordo as suas confidências. Que ele, sendo devidamente casado, se enamorava de paixão ardente por infinitas mulheres. Não há dedos para as contar, todinhas, dizia.
- A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas...
Sempre que fazia amor com uma delas não regressava directamente a casa. Ia, sim, para casa de sua velha mãe. A ela lhe contava as intimidades de cada novo caso, as diferentes doçuras de cada uma das amantes. De olhos fechados, a velha escutava e fingia até adormecer no cansado sofá de sua sala. No final, tomava nas suas as mãos do filho e ordenava que ele tomasse banho ali mesmo.
- Não vã a sua mulher cheirar a presença de uma outra - dizia.
E JMC se enfiava na banheira enquanto a velha mãe o esfregava com uma esponja cheirosa. Acabado o banho, ela o enxugava, devagarosa como se o tempo passasse por suas mãos e ela o retivesse nas dobras da toalha.
- Continue, meu filho, vã distribuindo esse coração seu que é tão grande. Nunca pare de visitar as mulheres. Nunca pare de as amar...
- E o pai, o pai sempre lhe foi fiel?
- Seu pai, mesmo leal, nunca poderia ser fiel-
- E porquê?
- Seu pai nunca soube amar ninguém... Agora, tantos anos passados, quase não reconheço o mulherengo homem alto e magro.
- Desculpe perguntar, JMC. Mas o senhor da continua visitando mulheres?
Ele não responde. Está absorvido, confrontando unhas com os respectivos dedos. Ter-me-á ouvido? Por recato, não repito a pergunta. Após um tempo, confessa num murmúrio:
- Nunca mais. Nunca mais visitei nenhuma mulher.
Uma tristeza lhe escava a voz. Me confessava, afinal, uma espécie de viuvez. Foi ele quem quebrou a pausa:
- É que sabe? Minha mãe morreu...
Meu coração sapateia, desentendido. Pudesse haver silêncio feito da gente estar calada. Mas esse silêncio não há. E nesse vazio permanecemos ambos até que, por entre o cinzentear da tarde, surge Dona Graciosa, esposa de JMC. Está irreconhecível, parece deslocada de um baile de máscaras. Vem de brilhos e flores, mais decote que blusa, mais perna que vestido. Me soergo para lhe dar o lugar no banco. Mas ela se dirige ao marido, suave e doce:
- Me acompanha, JMC?
- E você quem é, minha flor?
- O meu nome você me hã-de chamar, mas só depois.
- Depois? Depois de quê?
- Ora, só depois...
De braços dados, os dois se afastam. A noite me envolve, com seu abraço de cacimbo. E não dou conta de que estou só.

Mia Couto, In O Fio das Missangas





19/07/2009

O Senhor Milhões

O Senhor Milhões herdara seu nome e seus milhões de outro Senhor Milhões, filho de um Senhor Milhões, neto de outro Milhões.
Tinha dinheiro como milho. Cofres de moedas de ouro, baús de moedas de prata, caixotes de moedas de cobre.
Os seus lençóis eram feitos de notas de conto, muito bem cosidas umas às outras; seus guardanapos eram notas de quinhentos; e em vez de papel da retrete usava notas de cem.
Redondo como uma moeda, o Senhor Milhões tinha umas perninhas curtas, que nunca andaram mais do que o espaço que ia da cama ao salão, da casa de jantar à entrada do jardim. Tinha uns bracitos delgados, que nunca haviam pegado em nada mais pesado do que um talher de prata.
A casa era forrada de espelhos. Neles se via, belo, reluzente, de careca muito polida como uma bola envernizada, óculos de aros de ouro, dentes de ouro, alfinete de ouro na gravata, botões de punho de ouro e moedas de libras de cavalinho a fazer de botões. Da algibeira pendia-lhe um relógio de ouro, a que nunca dava corda, pois as horas para si eram todas iguais, e na ponta de uma corrente enorme tilintava um molho imenso de chaves de todos os tamanhos e formatos.
Possuía o Senhor Milhões um exército de criados: porteiros, motoristas, engraxadores, cozinheiros, limpadores de pó, enxotadores de moscas, jardineiros, carregadores, alfaiates, cultivadores do campo. Não faltavam sequer os capatazes, de chicote na mão, para os obrigar a trabalhar.
Em redor das suas terras, cercando as suas gentes, erguiam-se muros enormes, que ninguém podia transpor.
Mas certo dia, velho de centenas de anos, um dos portões enferrujou de todo. Foi preciso tirá-lo para o substituir.
Então os homens de fora espreitaram as imensas quintas, as searas curvadas ao peso do trigo, os trabalhadores curvados ao peso do trabalho desmedido. Viram as flores vermelhas e as caras pálidas de abatimento. O palácio de mármore e as cabanas de palha. O Senhor Milhões, à janela, coberto de ouro e os seus homens esfarrapados e descalços.
Também os criados do grande ricaço se espantavam com o mundo que lhes foi dado a ver: as casas com seus quintais, as caras com seus sorrisos, as lojas com suas compras e o dinheiro nas mãos daqueles que trabalhavam.
De repente, como se uma força os puxasse, os criados do Senhor Milhões começaram a sair para a rua. Primeiro, a medo, um a um, hesitantes; depois, aos pares, aos grupos, aos bandos, em aluviões. Largavam enxadas, mata-moscas, tesouras, martelos; abandonavam rebanhos, manadas de touros, coelheiras e capoeiras.
Cantavam e riam.
Habituado ao silêncio que nenhuma voz podia cortar, o Senhor Milhões surgiu à varanda. Atarantado, dava ordens e contra-ordens. Ninguém o ouvia.
Mandava chicotear, ordenava que prendessem.
Ninguém o ouvia.
Quando a noite desceu, estava sozinho com seus caixotes de moedas de cobre, baús de moedas de prata, cofres de moedas de ouro. Sentou-se à mesa - ninguém o serviu. Deitou-se - ninguém lhe apagou a luz.
Enrolou-se nos lençóis de notas de mil, assoou-se a uma nota de cinquenta e toda a noite esperou que os criados voltassem.
Mas quando o dia raiou, nem um passo rangia nas salas, nem um vulto ao longe se vislumbrava.
Então o Senhor Milhões, redondo, redondo como uma moeda, luzente, luzente como o seu ouro, sentou-se na poltrona dourada, cobriu-se de notas e deixou-se morrer de fome.


Luísa Ducla Soares, in O Meio Galo



18/07/2009

Pé na lua – pé na rua

— Ana!
O nome dela era Luana, mas a avó só lhe chamava Ana.
— O que é, vovó?
— Vai tomar banho para depois jantares.
— O que é o jantar?
— Pastéis de carne, arroz, feijão e salada.
— Só quero os pastéis, vovó.
— Não senhora, também precisas de comer salada. Faz bem à pele.
Luana saiu, a pensar que aquilo era conversa. Olhou-se ao espelho do quarto, aproximou a cara e achou que a sua pele estava mais do que bem. Tirou a camisola, a blusa, e depois foi para o banho.
Abriu a torneira e a água quente escorreu-lhe pelo rosto. Molhou o cabelo e começou a ensaboar-se. Que cheiro bom… a mamã usava o mesmo sabonete. Pensou nisso enquanto deixava a água quentinha cair em cima dela. Ficou um pouco triste, meio abatida. Lembrou-se do que o pai tinha dito, os olhos ficaram cheios de lágrimas. Estava com saudades dele também. Lá em São Paulo a trabalhar, enquanto ela ficara uns tempos com os avós no interior. Fechou a torneira, puxou a toalha e saiu da banheira. Ihh… que frio! Enxugou os pés e as pernas. Olhou para o espelho embaciado e, com o dedo, desenhou nele uma casinha. Depois saiu, embrulhada na toalha.
— Já tomaste banho, Anita? Ih! O teu cabelo está a pingar. Vem cá para eu o secar.
A avó Inês sentou-se na cama e pôs a menina no colo, pegou na toalha e começou a esfregá-la, enquanto cantava baixinho. Luana sentiu-se mais triste e um choro começou a sair devagarinho de dentro dela. A avó apertou-a nos braços e Luana sentiu que cada vez gostava mais dela: assim, bem apertadinha nos seus braços, como um passarinho no ninho. Depois, vestiu as calças e a blusa, as meias e as sapatilhas, e foi jantar.
Mas nem os pastéis nem a gargalhada do avô, com cheiro a vinho tinto e cachimbo no bigode branco, deixaram Luana contente.
Depois do jantar, chamou o Bizoca, o cãozinho preto que tinha desde pequenina. Deu-lhe um pedaço de bolo de banana e um beijo sem ninguém ver, porque toda a gente dizia que fazia mal beijar os cães. Bizoca riu contente e pulou à volta dela.
Deitou-se cedo e, no dia seguinte, saltou da cama atrasada para ir para a escola: a carrinha buzinou e a merenda ainda não estava pronta. Tanto melhor, recebeu dinheiro para comprar sandes no bar do colégio.
Na carrinha, sentou-se à beira de Pedro que apesar de ser ra-
paz, era o seu melhor amigo.
— Hoje é o aniversário da Vera, sabes? — perguntou o menino.
Luana olhou para trás e viu a amiga, que estava mesmo com cara de aniversário.
O dia na escola foi de festa. Pintaram pedaços de cartolina, o Beto fez um barco de papel azul. Luana fez um quadrinho com papéis de bombons e desenhou uma estrela na ponta, para Vera fazer um pedido. Pedro, que fazia os desenhos mais bonitos da turma, pintou um relógio no pulso de Vera. Coloridíssimo.
Luana chegou a casa com os olhos a brilhar.
— Vovó, tivemos uma festa tão bonita… foi o aniversário da Vera, sabes? Olha, vovó, quando for o meu, também queria dar uma festa na escola.
— Está bem, Ana. Só que o teu aniversário é em Outubro e nós estamos em Junho. Tens um signo bonito. Balança.
— O que é isso?
— Um signo? Ele fala das estrelas e dos planetas que estavam no céu no dia em que nasceste.
— Estrelas como as que vemos no telescópio do vovô, de noite?
— Sim.
— Aqueles mapazinhos que a mamã fazia?
— Sim, Ana. Eram cartas astrológicas, feitas por aqueles que estudam estrelas, e que falam da maneira de ser das pessoas, das coisas que aparecem nas estrelas e que têm a ver com a vida delas.
— Sim, eu sei. Mas onde está o vovô? Hoje, ele ia continuar a história da Alice.
— Está no quarto. Vai lá.
Luana subiu as escadas a correr, entrou no quarto de arrumos do avô, onde estavam as coisas dele: o seu telescópio, a papelada da loja e os livros.
— Vovô, está na hora da Alice! Ó avô, vais ler-me a história?
— Primeiro vem cá, Luanita. Dá-me um beijo de noite de lua cheia.
O avô pôs os óculos e continuou a contar uma história bonita, a partir do ponto em que tinha ficado.
Alice correu como o vento, a tempo de ouvir o Coelho Branco dizer, ao virar uma esquina: — Pelas minhas orelhas e pelos meus bigodes! Está a ficar tarde demais!
E assim estiveram Luana e o avô, por mais de uma hora. E quando ele parou de ler, a menina sentiu-se contente, pensando que, se não tinha um coelho, tinha o Bizoca. Um pouco receosa, pensou como Alice se havia precipitado por um buraco dentro e saído num outro mundo muito estranho… Talvez Alice fosse tão distraída como ela… “Talvez Alice tenha também o pé na lua, como o vovô e eu…”
Luana adorava histórias. Até agora, ainda não tinha aprendido a ler sozinha, mas já sabia escrever o seu nome, e na escola a professora já tinha ensinado as letras, as sílabas e algumas palavrinhas e frases simples.
— Vovô, quanto tempo falta até eu ser capaz de ler sozinha?
— Acho que só um bocadinho. Mas agora vamos dormir, que amanhã eu tenho a loja e tu a escola.
Luana gostava de ir com o avô até à loja de produtos agrícolas que ele tinha. Aqueles sacos todos cheios de sementes! E, depois, também havia os envelopes de papel com sementinhas de flores e frutas, com fotografias por fora. Dente-de-Leão, Flocos, Prímula, Cravina, Gerânio. E cada nome de flor e de planta tinha um outro nome complicado mas um som muito bonito quando o avô lho lia. Geranium, primula officinalis, dianthus plumarius… Palavras mágicas…
Um dia, Luana viu um envelope lindo que tinha umas flores muito coloridas, com uma cor no centro e outra na extremidade das pétalas. “Um trevo colorido”, pensou ela, “deve dar sorte.”
O avô disse que era um amor-perfeito. Viola tricolor. E deu-lhe um envelope com sementes para ela plantar.
Por baixo da janela do seu quarto, onde batia muito sol, Luana limpou a terra das
ervas, revolveu tudo e depois espalhou as sementes.
Quando nasceu a primeira flor, Luana teve pena de a colher para a pôr no jarro com água. Era roxa com o centro amarelo e parecia-se com os desenhos de uma blusa que a sua mãe tinha.
Só que ela não voltaria a ver a mãe com aquela blusa. Porque a mãe tinha morrido. E isto queria dizer que, agora, só iria vê-la como via a Alice na história do livro: por dentro, quando fechasse os olhos e pensasse nela. Por fora, de olhos abertos, a mãe tinha desaparecido.
Por isso é que Luana ficava assim, um dia contente, um dia triste, com saudades. E o tempo ia passando, às vezes muito rápido, às vezes lento.
A avó fazendo-lhe um cachecol comprido, para o qual ela escolhia as cores de que gostava mais. O avô na loja. A escola. As férias. As pequenas frases que ia aprendendo. As visitas do pai ao fim de semana. Regar o amor-perfeito e vacinar o Bizoca. A feira de sábado com a avó. A assadeira quente e o cheirinho do bolo.
Numa noite de frio e de muita chuva lá fora, estavam todos a ver televisão. Luana, aborrecida com um filme sem graça nenhuma, pegou numa revista. E, de repente… um estalido, como se uma fogueira tivesse iluminado tudo! Reconheceu pela primeira vez todas as frases que estavam fora das páginas dos seus cadernos e da
lousa da escola.
— Magias especiais de retorno! — leu Luana. — Não é isto, vovó? — gritou.
— Não é que este pedacinho de gente está a ler, Inês?
Naquela noite, Luana sonhou que a mãe estava com ela e que nada de mal tinha acontecido. Estavam na praia, sentadas na areia quente. De repente, começaram a voar. Um vento forte parecia arrastar tudo, e Luana ficou com medo, mas a mãe estava lá e deu-lhe a mão.
De manhã, Luana acordou triste. Não quis o café com leite e disse que não ia para a escola.
— A que propósito não vais, menina? Vais, sim! — disse a avó.
— Hoje não vou de maneira nenhuma, pronto! — gritou.
E saiu a correr e subiu directamente para o quarto de arrumos do avô. Abriu a porta, ficou lá no escuro meio assustada, com raiva de tudo o que tinha acontecido, com vontade de
ter mãe. Ficou lá a chorar algum tempo, sentado no chão, junto da estante.
Foi então que percebeu que estava com a cara encostada a um livro colorido.
Puxou a manga da blusa e passou-a na cara para enxugar as lágrimas. Abriu o livro. Virou a primeira página. Mais uma. Aproximou-se da janela e leu: Uma vez, depois de dar comida aos peixinhos, Lúcia sentiu os olhos pesados de sono. Deitou-se na relva com a boneca no braço e ficou a seguir as nuvens que passeavam pelo céu, formando, ora castelos, ora camelos. E já estava a adormecer, embalada pelo murmurar das águas, quando sentiu cócegas no rosto. Arregalou os olhos: um peixinho vestido de gente estava de pé na ponta do seu nariz.
Então, pouco a pouco, a magia aconteceu. Como se aquela história fosse uma isca de anzol e Luana, o peixinho vestido de gente. E ela foi lendo, lendo, lendo, e apercebeu-se de que também iria gostar de inventar histórias, de imaginar coisas e de as escrever no papel…
Ouviu lá fora os risos de Ciça e de Tereca, que brincavam, tentando equilibrar-se em cima do portão da frente da casa. Luana deu também uma gargalhada, achando interessante fazer coisas que fazia todos os dias e que às vezes pareciam tão maçadoras… Desceu as escadas a correr, abriu a porta da casa e saiu para a rua, gritando que também ela iria ser capaz de se equilibrar.


Sílvia Oberg
Pé na lua – pé na rua
Paulus, 1997




17/07/2009

Os Conquistadores

Era uma vez um vasto país governado por um General.
Os habitantes acreditavam que o seu modo de vida era o melhor.
Tinham um exército muito forte e dispunham de canhões.
De tempos a tempos, o General reunia o exército e atacava um país vizinho.
“É para o bem deles,”dizia. “Para que possam ser como nós.”
Os outros países resistiam, mas acabavam sempre por ser conquistados.
Com o tempo, o General acabou por dominar todos os países. Todos, excepto um…
Tratava-se de um país tão pequeno que o General nunca se tinha dado ao incómodo de o invadir. Só que agora era o único que restava. Assim, o General e o seu exército puseram-se a caminho.
O pequeno país surpreendeu o General.
Não tinha exército nem ofereceu resistência.
As pessoas saudaram os soldados invasores como se fossem convidados bem-vindos.
O General instalou-se na casa mais confortável do país e os soldados ficaram em casa dos habitantes.
Todas as manhãs, o General levava os soldados para a parada e, depois, escrevia cartas à mulher e ao filho.
Os soldados falavam com as pessoas, jogavam com elas, escutavam as suas histórias, cantavam as suas canções e riam-se das suas piadas.
A comida era diferente da deles.
Viam-na a ser preparada e depois comiam-na. Era deliciosa.
Como não tinham mais nada que fazer, ajudavam as pessoas no seu trabalho.
Quando o General se apercebeu do que se estava a passar, ficou furioso.
Mandou os soldados para casa e substituiu-os por outros.
Mas os novos soldados comportaram-se como os outros o tinham feito.
O General percebeu que não precisava de um grande exército.
Decidiu regressar a casa e deixar apenas alguns soldados a ocupar o país.
Logo que o General partiu, os soldados penduraram os uniformes e juntaram-se à população nas tarefas do quotidiano.
O General regressou triunfante a casa, com os soldados a cantarem, como era hábito:
Somos os conquistadores.
Somos os conquistadores.
O General estava contente por ter regressado, embora sentisse que algo mudara.
Os cozinhados cheiravam aos cozinhados do pequeno país.
As pessoas jogavam os jogos do pequeno país.
Até algumas roupas eram iguais às roupas do pequeno país.
Sorriu e pensou: “Ah! Os despojos da guerra.”
Nessa noite, quando foi deitar o filho, o menino pediu-lhe que cantasse para ele.
O General cantou-lhe as únicas canções de que se lembrava.
Eram as canções do pequeno país.
O pequeno país que ele conquistara.


David McKee
The Conquerors
London, Anderson Press, 2004





16/07/2009

O Perfume do Sonho, na Tarde


O perfume do sonho envolvia-a, debaixo do docel de folhas da árvore, que emborralhava já a sonolência, ronronante, do bichano – seu companheiro – e que só com ela se aventurava a sair do aconchego da casa.
Que bom! Não havia aulas, nem deveres, naquela tarde de sábado! Podia gastar o tempo à vontade… Boa altura para um pincho no sonho. Como se lhe adivinhasse o desejo, e mais lesto do que parecia natural num ronronar, preguiçoso, já o gato ia a cavalo numa vassoura de bruxa, sem o consentimento dela!
― Sape, daí já!
Bruxas não eram da sua predilecção. Convinha pensar um pouco, antes de se meterem, às cegas, em aventuras… E se tirasse, da arca encantada, os seus vestidos mágicos? Mas qual? O de princesa de diadema, à espera de um noivo, que lhe decifrasse o enigma do amor? O de pastora, adormecida, de romeirinha e de coração esperançoso, a sonhar que um príncipe perdido numa caçada a encontraria?
O de menina-malmequer, pronta também a florir e a partilhar o merendeiro com um beijo de boas-tardes? Qual escolher?
E o de Xerazade [1]? Esse, esse. Nada lhe agradava mais do que ser a que, diligentemente, emudecia com o surgir da manhã e, depois de mil e uma noites de encantamento, havia de conseguir conquistar o amor, graças ao feitiço da sua palavra. O de Xerazade servia-lhe, como uma luva. E, então, perante o bichano-companheiro, que assistia atento e segurava as fitas do sonho, envergou as suas calças tufadas, de gomos de seda colorida às pintas, vestiu o seu corpete que encaixava só as laranjinhas, adolescentes, dos seios e lhe deixava a descoberto o pescoço e a ondulação do corpo até à cintura. Com todo o cuidado colocou o seu turbante com pena de pavão e só deixou de fora da sua farta cabeleira dois caracóis, que lhe emolduravam a luz, maliciosa, dos olhos. O que faltava? Ah! as suas pulseiras a serpentear pelo braço, o leque de plumas para esconder o sorriso, trocista, de quem se sabe de antemão vencedora. E ainda o anel que o seu senhor lhe tinha oferecido, para florir o alado dos gestos, enquanto contava as suas histórias. Tudo a postos. Na sua imaginação a noite, que tão benéfica lhe era como indicava o seu nome, que significava filha da Lua, não tardaria a descer sobre os minaretes do palácio. Do jardim, já subiam os perfumes que o morrer da tarde acentuava e a envolviam. E gozava, de antemão, a surpresa do marido, quando lhe começasse a contar do califa Haroun al-Raschid [2], que gostava de percorrer Bagdad incógnito e era capaz de aprender a justiça com as crianças, ou as sete viagens de Sindbad, o marinheiro [3] e o muito que a sua imaginação ainda sabia e era capaz de desembaraçar, sem perder o fio à meada. Estava certa não apenas de se fazer amar, mas até de ajudá-lo na governação do reino e mostrar-lhe que uma mulher, mesmo quando escrava como Morgiana [4], pode ser de grande ajuda e não apenas e só uma flor de prazer. Confiante, sentia-se desejosa de mais uma noite a vir. E assim a deixou a rapariga, desejosa também ela doutras paragens, doutras aventuras e doutros sonhos. Nem precisou de tapete mágico, como Aladino [5].
― A mim, meus cavalos de vento e pensamento!
Ali estavam, às ordens para partir para os longes – até onde?
Até ao palácio da Rainha das Neves [6], que tanto a tinha fascinado, quando tinha lido a história. Mas o palácio ficava para lá dos vales brancos de neve da Finlândia, no grande Norte. Tinha de se preparar. Precisava de luvas, cachecol e também para o pobre bichano. Já estava pronta ela e o companheiro, quando se achou, mesmo assim, pouco preparada para gelos tão eternos. Podiam constipar-se, não convinha arriscar. Resolveu trocar os sapatos por umas botas, vestir um casacão debruado a pele, aconchegante, providenciar um regalo, um gorro que não lhe deixasse gelar as tranças e um cachecol de lã, mais quente, para o seu companheiro. Agora, sim. Bem preparados, podiam partir e até tinham uma chave-coração para abrir as portas do sonho desejado.
― A caminho!
E à medida que avançava no meio da neve e do gelo, começou a pensar como é que Gerda [7] tinha sido capaz de caminhar com os pés nus sobre aquela frialdade, glaciar, só aquecida pelo desejo de ter de volta o seu companheirinho de brincadeiras, e livrá-lo do esquecimento em que o tinha mergulhado a Rainha das Neves. Ah! a amizade verdadeira era um grande mistério!
Brr… que frio! Tinham, finalmente, chegado. Ali estava o palácio com as paredes feitas de poeiras de neve, de portas e vidros de ventos agrestes, salas vazias e cintilantes, iluminadas por auroras boreais e no meio de um lago, gelado, o trono da Rainha das Neves, onde ela se sentava, quando não viajava no seu trenó. Sentia as suas trancinhas inteiriçadas, como pingentes de sincelo, debaixo do gorro de pele.
― Vamos regressar! Vamos regressar!
E, em menos de um ai, ela e o bichano, montados num cavalo de pensamento, muito mais rápido do que os cavalos de vento, estavam a salvo, outra vez debaixo da sombra, protectora e quente, da árvore.
Aquilo de ser sempre rapariga também a aborrecia um pouco. Em sonhos, estava ao seu alcance ser rapaz. Por que não? Robin dos bosques, já que gostava tanto de subir às árvores?
Gnomo, para poder descer às profundezas da terra e das águas e ajudar princesas, aflitas e desmioladas, que tinham perdido anéis? Não se sentia muito tentada… E pirata? Ah! pirata era melhor forma para o seu pé, aventureiro, e trazia-lhe o bom cheiro da maresia, sempre colado à sua pele, de tal maneira o mar era grato ao seu coração. Estava decidido. Seria pirata, escorreito, sem perna de pau e com uma pala para tapar, a fingir, não o olho cego, mas o olhinho, guincho e esperto, de sondar os longes.
Com um pulo, ágil, logo o bichano se enredou no cordame de mais aquele sonho, para não perder, ele também, mais aquela aventura. E ambos se atracaram ao pirata de “Era uma vez…” Justamente na tarde em que, feliz, ele tinha descoberto que os verdadeiros tesouros, pelos quais tinha espadeirado e combatido, em abordagens perigosas, estavam afinal, ali, sem sangue, nem combates, ao alcance da mão e do olhar. Onde? Onde? Na natureza. Quem podia duvidar? Que ouro mais valioso do que o das estrelas? Ou de mais puro quilate do que o do sol, quando incendiava a manhã, nascente? Que jóias mais lucilantes do que as miríades de brilhos espelhados no mar? Que rubis mais maduros do que os do coração das romãs? Que verdes de esmeralda podiam competir com os das folhinhas, lavadas pela chuva? Que diamantes mais cheios de luz do que os das gotas do orvalho, na renda, preciosa, das teias de aranha? Tudo ali ao alcance da mão e do olhar. Agora que tudo se tinha aclarado no seu espírito estava disposto a desistir da pirataria. O seu trabalho seria outro. O de procurar alguém que como ele gostasse de nadar e com quem pudesse partilhar aquela verdade: os verdadeiros tesouros estavam ali ao alcance da mão, na água cristalina da nascente, onde matava a sede, nos frutos da terra e na imensidão do mar – que servia de espelho ao sol, à lua e às estrelas. E pôs-se a sonhar com uma nadadora de touca nenúfar-pompom com antenas para repartir com ela o seu coração e aquela verdade.
A história do pirata estava já encaminhada para um final feliz e a rapariga, como quem salta poldras de um regato, estava pronta para outra aventura. Mas o mar ainda a chamava. Ah! o mar, que difícil livrar-se do seu apelo! E decidiu tornar-se sereia. Sim, seria a que se tinha apaixonado pelo príncipe, que salvara da morte, durante a tempestade [8]. Era o que mais lhe agradava. E logo começou a sentir o seu corpo axadrezar-se de escamas, verdes-cinza e azuis, que iam do claro transparente ao quase negro das profundezas dos jardins do mar, onde tinha o seu, ao pé do das suas irmãs. Ai dela! Vinha, agora, cada vez mais à superfície das águas, com o seu toucado de algas e enfeitada numa das faces, que as raparigas da terra tinham coradas, com uma estrela vermelha. Tentava vê-lo, aproximava-se o mais possível do palácio, mas ele não sabia que fora ela a salvá-lo, nem podia apaixonar-se por uma sereia. Tinha de arranjar duas pernas. Pela história, tão amada, sabia que ela estava disposta a dar à feiticeira do mar o que de mais precioso tinha – a sua voz e o seu canto, que enfeitiçavam, em troca de duas pernas. Queria aproximar-se dele, dançar para ele, mesmo sabendo que seria como caminhar sobre espadas cortantes. Mas o que era uma dor física em relação ao apelo do amor? Um mistério ainda mais exigente do que a amizade, era isso… E foi quando uns miados, rabiosos e insistentes, lhe interromperam o sonho. Claro, era o bichano que não gostava das profundezas do mar.
― Bichaninho! Bichaninho! — e passava-lhe a mão pelo pêlo a sossegá-lo. ― Nada de aflições!
Estava disposta a providenciar um escafandro, se necessário, para que ele pudesse passear com ela pelos jardins submersos. Mas ele, pelos vistos, não se deixava convencer pelas suas festas, miava desesperadamente. O que teria?! Só então reparou que o sol ia morrendo e a sombra arrefecia. Tinha-se esquecido do seu lanche e do leitinho dele. Era isso. O bichano reclamava, com fome, o seu pratinho de leite. Pronto, pronto. Teria de fechar, à pressa, o seu baú de sonhos e de lá meter, rápido, rápido, os fatos que não tinha chegado a usar. Que pena! Tão apropriados para um baile de máscaras!
O de menina-alforreca,
o de menina-balão,
o de arlequim,
o de toucado-coração-de-lira, para arpoar um coração gémeo
e o dos anos-vinte com bolsinha e todo franjado, como os antigos candeeiros de vidrilhos. Tão próprio para dançar o charlston! Para outra vez seria…
O bichano já ia longe, numa corrida de afoiteza, acelerada, que a fome é negra. Teve de se resignar. E também ela correu para casa.



Luísa Dacosta
O Perfume do Sonho, na Tarde
Porto, Ed. Asa, 2004




Notas:

[1] A contadora de todas as histórias de As Mil e Uma Noites.
[2] Personagem principal de algumas das histórias de As Mil e Uma Noites.
[3] Personagem principal das sete viagens referidas.
[4] Uma das personagens femininas de uma das histórias: Ali-Babá e os Quarenta Ladrões.
[5] Personagem principal de Aladino e a lâmpada maravilhosa.
[6] A Rainha das Neves – título de um conto do escritor dinamarquês H. C. Andersen.
[7] Principal personagem feminina de A Rainha das Neves.
[8] A Sereiazinha – conto de H. C. Andersen.

O dragão azul e o dragão amarelo


No país do sol nascente, pelo vigésimo aniversário da sua coroação, o imperador resolveu decorar a sala do trono do palácio com o mais belo biombo que alguma vez se vira.
Convocou o pintor mais célebre do império que vivia numa gruta longe da cidade.
O artista dirigiu-se imediatamente à corte e o imperador deu-lhe a conhecer o seu propósito: no biombo da sala do trono deviam figurar dois dragões, um azul e outro amarelo, para simbolizarem o poder do Império e a paz que tinha caracterizado o seu tempo de reinado. O pintor fez uma vénia e respondeu que pintaria dois dragões em seda preta, mas com uma condição: para o biombo ser tão belo como era vontade do imperador, precisava de um tecido de seda, mas a seda teria de ser mais fina do que todas as sedas alguma vez tecidas.
— Vou retirar-me para a minha gruta — acrescentou o pintor — até que a seda seja tecida; assim terei tempo de me preparar para fazer a pintura dos dragões.
Em seguida, o pintor abandonou a corte e regressou à sua gruta, começando logo a trabalhar.
O imperador ordenou que começassem imediatamente a fabricar a mais fina das sedas que alguma se vira.
Mas o fabrico foi muito mais difícil do que o imperador imaginara.
Primeiro, foi preciso escolher meticulosamente os bichos-da-seda, porque os que até então tinham sido criados não podiam secretar uma seda assim tão fina como a que o pintor pedira.
Os bichos-da-seda, tão cuidadosamente escolhidos, exigiam uma alimentação particularmente delicada, e as folhas da amoreira com que eram alimentados deviam ser seleccionadas com o máximo cuidado.
Apesar de todas as precauções, apenas alguns dos casulos sobreviveram.
Muito tempo decorreu até se conseguir um número suficiente de casulos para obter a quantidade de seda necessária para o biombo do imperador.
Mas, naquele momento, surgiu uma nova dificuldade: a seda era tão fina, que muito poucos tecelões se mostravam capazes de a tecer. Foi preciso apelar aos melhores artesãos do império.
Por fim, ultrapassou-se esta dificuldade e a seda destinada ao biombo acabou por ser tecida. Não havia memória de uma seda tão fina. O imperador ordenou que fosse pregada numa moldura de marfim.
Concluído o trabalho, o imperador enviou um mensageiro avisar o pintor de que a seda estava tecida e de que devia sem demora pintar os dragões.
O pintor pediu ao mensageiro que dissesse ao imperador que ainda não tinha acabado de preparar o seu trabalho e pedia-lhe que esperasse.
O imperador, que já tinha esperado muito tempo até ser tecida a seda, não escondeu a sua decepção, mas lá acabou por compreender que o pintor queria preparar uma obra-prima, e esperou. Contudo, sempre que passava diante do biombo, perdia a paciência.
Um dia, não aguentando mais, enviou um mensageiro para lembrar ao pintor a sua promessa. Este mandou dizer que, para aceder ao pedido do imperador, ainda não seria capaz de pintar dragões dignos do mais belo biombo algum dia visto. Precisava, dizia ele, de continuar com os seus ensaios e pediu um novo prazo.
O imperador, apesar da impaciência, não teve outro remédio senão esperar. Mas o tempo ia passando e o pintor não dava sinais de vida. E, sempre que o imperador passava diante do biombo inacabado, sentia crescer a sua irritação.
Um dia, no limite da paciência, enviou um mensageiro, ordenando-lhe que trouxesse o pintor à corte, a bem ou a mal.
O pintor aceitou finalmente acompanhar o mensageiro.
Quando chegou diante do imperador, disse-lhe que já se sentia capaz de pintar os dragões. O imperador manifestou a sua alegria.
O artista mandou que lhe trouxessem tinta amarela, tinta azul e dois grandes pincéis, e aproximou-se do biombo.
De uma pincelada, fez um traço amarelo; depois, outra pincelada, e fez um traço azul.
Em seguida, pousou os pincéis e declarou que o trabalho estava concluído.
Mal soube da notícia, o imperador, feliz por pensar que o mais belo biombo alguma vez visto iria finalmente ornamentar a sala do trono, precipitou-se para admirar a obra de tão célebre pintor.
Quando chegou diante do biombo, nem acreditava no que os seus olhos viam: apenas dois traços grossos, um azul e outro amarelo.
Convencido de que o pintor tinha querido troçar dele, ficou furioso. Com toda a calma e um ar muito sério, o pintor disse que aqueles dois traços eram fruto de longos estudos levados a cabo durante anos e anos.
Em seguida, fez uma vénia e quis retirar-se. Mas o imperador, fora de si e sempre convicto de que o pintor fizera uma brincadeira de mau gosto, que tinha estragado irremediavelmente a maravilhosa seda cujo fabrico levara tanto tempo e tinha exigido tanto cuidado, mandou prendê-lo.
O imperador estava de tal modo encolerizado, que não pregou olho naquela noite. Na escuridão, os dois traços, o azul e o amarelo, passavam e voltavam a passar diante dos seus olhos. Quando fechava as pálpebras, iam e vinham e pareciam ganhar dimensão e mover-se. Para seu grande espanto, aqueles dois traços transformavam-se em dragões a lutar. E os dragões eram rápidos e possantes. O que mais o surpreendeu, é que pareciam ter vida e mover-se, eram leves e fortes ao mesmo tempo, e aquela força, aquele poder e aquela grandeza e leveza estavam resumidas nos dois traços que o pintor tinha traçado na maravilhosa seda.
Depois de uma noite em branco e de ter admirado os dois dragões que o pintor simbolizara, o imperador decidiu ir descobrir o segredo do artista que tinha conseguido uma tal obra-prima.
De madrugada, mandou selar o cavalo e, acompanhado pela sua guarda de honra, partiu em direcção à gruta onde o pintor trabalhara muitos anos antes de pintar os dois dragões no biombo.
A tempestade dificultou-lhes o caminho; a neve, o vento e o nevoeiro obrigaram-nos a voltar atrás. Mesmo assim, o imperador ordenou que se fizessem de novo ao caminho. Ao fim de vários dias e noites de viagem, chegaram à gruta do pintor. Acenderam as tochas. Ao entrar, o imperador viu dois dragões pintados nas paredes: um era azul e o outro amarelo.
Estavam desenhados com a maior exactidão, distinguia-se cada escama, cada dente, e as narinas lançavam fogo. Cada pormenor era azul e amarelo.
Por baixo da pintura estava uma data: a do dia em que o imperador tinha pedido ao pintor para começar a pintar o mais belo biombo alguma vez visto.
Ao lado desta pintura, uma outra, a de dois dragões, um azul e outro amarelo. Ao lado desta segunda pintura, uma terceira, depois uma quarta, uma quinta, uma sexta…
Todas as paredes da gruta estavam cobertas de pinturas que representavam dois dragões, um azul, outro amarelo. Todas as imagens estavam datadas, ano após ano.
À luz das tochas, o imperador não conseguia despregar os olhos do trabalho árduo do pintor.
As imagens sucediam-se às imagens, os esboços aos esboços.
Mês após mês, o pintor ia simplificando a pintura dos dois dragões, um azul e outro amarelo. Depois de uma longa sequência de dragões, o pintor traçara finalmente nas paredes da gruta os dois traços, um azul, outro amarelo, que pintara no biombo.
Naquelas duas últimas imagens estava resumida toda a potência dos inúmeros dragões que o pintor desenhara durante muitos anos nas paredes da gruta.
O imperador reconheceu os dois dragões do biombo e deu-se conta de que as duas últimas imagens não podiam de modo nenhum comparar-se às que as precediam.
Ao olhar para as pinturas, o imperador começou por ficar admirado, depois foi ficando cada vez mais alegre, até sentir, no final, um imenso júbilo.
Depois de ter observado por uma última vez os dois traços azul e amarelo, deu ordem imediata de selar os cavalos, pois queria regressar à capital. Tinha pressa de mandar libertar o pintor para o honrar e lhe agradecer, porque este lhe tinha permitido compreender o poder e o significado dos dois traços, um azul, outro amarelo, que simbolizavam os dois dragões.
O pintor foi posto em liberdade e o imperador mandou colocar o biombo dos dois dragões na sala do trono.


Ré e Philippe Soupault
Dragon bleu — Dragon jaune
Paris, Père Castor Flamarion, 1995





13/07/2009

O Monte Liungo




Ao longo da baixa do planalto makonde, para quem vai a actual aldeia Lutete, precisamente na povoação de Uavi, fica o monte Liungo. No passado muito distante, Liungo foi um lugar sagrado e procurado pelos aldeões do planalto, aventureiros swahilis e makondes de Tanzania, parentes dos makondes de Moçambique, para a realização de preces para, espantar maus espiritos, curar enfermidades, obter sorte na caça e nas viagens, alcançar a prosperidade, em fim, preces para diversos domínios da vida humana. Homens e mulheres vinham de todos cantos e subiam até ao cume da montanha, onde suplicavam e deixavam oferendas, como: pólvora, tecidos, espingardas, dinheiro, estátuas de pau-preto, máscaras feitas de madeira preciosa, ouro, pedras preciosas e diversos objectos de adorno. Todos pedidos feitos na montanha era realizados e quem prometesse algo em forma de oferta e no fim ficasse sem cumprir morria ou desaparecia simplesmente, podendo, às vezes, ser avistado deambulando pela vegetação que cobre o monte Liungo. Contudo, Liungo tinha também outras funções sociais: No fim de Outubro, por exemplo, o cimo da montanha cantava ú,ú,ú... sendo de tempo em tempo acompanhado de um vúúú..., vúúú..., vúúú...; Estes sons eram emitidos dia e noite anunciando à chegada da época da abertura de machambas e da consequente queima de mani. Assim, nos dias subsequentes era frequente avistar aldeões de várias povoações empunhando enxadas e catanas e dirigindo-se no coração da floresta. Quando o canto da montanha cessava, logo a chuva caia e a felicidade erradiava os corações dos camponeses. Este fenómeno repetiu-se gerações e gerações.

Mais tarde, com o passar dos tempos, no sopé da montanha foi construida uma povoação pequena de forma circular e habitada maioritariamente por makondes da linhagem vanamuegùa que se dedicava essencialmente a agricultura, caça, colecta de mel e artesanato. Para além destas ocupações, alguns aldeões dedicavam-se a actividade de guia levando forasteiros ao cume da montanha para a realização de preces ou entrega de oferendas aos espiritos do monte.

Reza a lenda que, uma certa noite de verão e de céu salpicado de estrelas chegou na povoação um bando de oito aventureiros swahilis carregando fardos enormes contendo panos, sal, álcool, tabaco, pólvora, espingardas e cachimbos para a venda. O bando pernoitou na povoação, onde foi tratado com civilidade e durante a conversa com os aldeões ficou a saber da existência de preciosidades na montanha. Nisto, três dias depois os aventureiros venderam as mercadorias e atarde foram despedir-se ao nkulungwa da aldeia visivelmente emocionado.

- Deus queira que a sua sábia chefia se prolongue por mais anos da sua vida e que os jovem da sua linhagem venham seguir os teus ensinamentos. – Disse de viva voz um dos aventureiros assim que entraram no quintal do nkulungwa.

- Que os corações dos jovens makondes te ouçam e que assim queiram os espiritos dos antepassados.

- Que assim seja! – Disse alguém dentre os visitantes.

O ancião serviu aos visitantes duas camas de lutandove e depois sentou-se numa cama posta no beiral da casa principal enquanto os outros emitavam-lhe o gesto.

- Muito bem. – Disse o nkulungwa com voz trémula de extrema velhice. - Em que vos posso ser útil, meus jovens?

- Vinhamos despedir. – Respondeu um dos visitantes e de seguida acrescentou. – Cumprimos integralmente as nossas intenções e para finalizar gostariamos de chegar ao monte para suplicar aos espiritos a proporcionar-nos uma viagem sem perturbações.

- Isso é muito simples. - Balbuciou o nkulungwa. – O Kwavango, um dos guias da povoaçao levar-vos-á ao monte.

- Uma vez mais agradecemos a sua bondade.

- Não têm que agradecer. – Sorriu. – Nós somos assim... hospitaleiros, mansos, bondosos, tolerantes, mas maus quando alguém provoca-nos.

Todos riram perdidamente e no fim, o nkulungwa chamou o guia; Apresentou-o aos forasteiros e depois, disse:

- Idem em paz e que os espiritos dos ancestrais venham proteger-vos.

O ancião fez uma pausa. Apoiou-se ao braço de um dos netos, fixou os pés no solo e quando certificou-se de ter pisado seguramente o solo, ergueu-se lamentando uma dor infernal na coluna vertebral. Fez uma cara feia, pegou na sua bengala e advertiu:

- Idem em paz e não deixem que a cobiça vos cegue...

Deu costa os visitantes com muita dificuldade e lentamente caminhou parando em cada três passos para repousar. Ele era muito velho. Tinha a face tatuada e cheia de rugas. A boca era desdentada e chupada.Tinha um corpo magro e curvado.

Quando o nkulungwa entrou numa das palhotas, os visitantes deixaram o quintal rumando à montanha guiados pelo Kwavango. Andaram muito tempo num caminho estreito ladeado de capim alto e mais tarde iniciaram a subida da montanha esquivando pedras soltas postas ao longo do caminho.

Entretanto, subiram seguindo um atalho alcantilado que circundava o monte numa subida quase infindável. Já no meio do monte começaram a sentir o ar fresco e a visualizar a enorme floresta que se estendia de todos lados até ao horizonte. Pararam por alguns instantes para descansar. Era já atarde. O sol luminoso de Junho derramava os raios sobre o planalto. No entanto, prosseguiram a marcha caminhando lentamente ao lado da ravina que circundava o monte. Após algumas horas os visitantes alcançaram com muita dificuldade o cume da montanha. Deixaram as trouxas no chão, descansaram algum momento e de seguida, prepararam-se para entrar no local sagrado..

O local era uma gruta com um enorme alta natural, onde podia-se vislumbrar diversos objectos preciosos ofertados por gente de todos cantos. Todas aquelas relíquias eram protegidas pelos espiritos, sendo impossível a sua retirada da caverna, pese embora o seu valor cultural e comercial.

Nisto, os visitantes entrar no interior da gruta e quando lá se encontraram ficaram estupefactos com a presença de objectos valiosos naquele lugar. Um dos visitantes aproximou-se a um punhal de ouro puro, olhou-o com manifesto interesse e no fim, fez movimento para tocar. Nesse momento o guia gritou:

- Não! Não toques no objecto. Ele é sagrado e quem tocar será amaldiçoado.

O visitante hesitou, mas depois encorajado pela cobiça tomou o objecto e começou a troçar o guia em swahil. Kwavango afastou-se da gruta todo medroso e fugiu a sete pés, tendo em seguida escorregado e caido na ravina. No entanto, na gruta os visitantes pilharam os objectos sagrados e sairam para iniciar a descida da montanha. Próximo a gruta prepararam pequenos fardos, carregaram nas costas e desceram o monte. Enquanto desciam, o céu ficou vermelho e nuvens coloridas aproximaram o monte cautelosamente. Um bando de aves cruzaram o céu piando deseperadamente e de súbito, uma trovoada ensurdecedora rasgou o céu quatro vezes e os homens que desciam o monte desapareceram misteriosamente. A aldeia ficou apavorada. No monte uma nuvem vermelha cobriu o cume durante algum momento.

Dias depois, no monte passaram a acontecer coisas estranhas e de arrepiar os cabelos. Ao anoitecer ouvia-se gritos fortes de homens clamando deseperadamente por um socorro. Ouvia-se também sons de correntes metálicas e chicotadas. Meses depois, seres estranhos e acorrentados nos pés e braços desciam da montanha no meio das noites enluaradas e faziam passeatas na povoação semeando terror e mal estar nos aldeões.

Após um trabalho árduo de expulsão de espiritos perversos e protecção da povoação por meio da magia negra, a vida voltou à normalidade.

No entanto, passadas duas gerações fenómenos estranhos voltaram a manifestar-se na montanha. Nas manhãs no cume do monte eram avistadas roupas brancas lavadas recentemente e estendidas nos ramais dos arbustos próximos à gruta. Quando chovesse as roupas estendidas desapareciam misteriosamente voltando a se avistar assim que precipitação cessasse. Nas noites o cume era iluminado por enorme linguas de fogo que se estinguiam ao alvorecer. Entretanto, o local foi proibido e os fenómenos estranhos e arrepiantes continuaram até os dias que correm.


Allman Ndyoko (Moçambique)


Glossário
Lutandove – Cama composta de base de estacas e atravessada com cordas tecidas compalha;
Nkulungwa –Chefe da povoação;
Swahil – Lingua falada na Tanzania;
Mani – Ramais de árvores abatidos na abertura de machambas;
Vanamuengùa –Linhagem Namuengùa.


A fábula dos dois escorpiões

O escorpião negro procurou, procurou e não desistiu de procurar… Como era activo e astuto, já tinha encontrado cem diamantes, seiscentas esmeraldas, trezentas safiras e um número sem-conta de rubis. A meio do caminho, por causa da fadiga, assaltou-o um mau pensamento:
“Tanto trabalho! E para receber o quê? Um simples diamantezito, um quarto de unha de rubi, uma magra esmeralda, uma safira de nada? Mas, se eu guardar as pedras melhores para mim, serei o animal mais rico e poderoso da Terra! E talvez Deus passe a olhar- -nos, a nós, escorpiões, com tanto respeito como aos homens.”
E com o aguilhão, enterrou profundamente na areia, num esconderijo ultra-secreto, as pedras preciosas mais belas.
Entretanto, o escorpião amarelo arrastava entre as patas o seu magro tesouro: três rubis, cinco diamantes, sete safiras, um pouco de ouro raspado de uma pedra. A colheita era escassa porque ele tinha passado muito tempo a bronzear-se ao sol e, principalmente, a conversar com a raposa do deserto e com todos os habitantes do deserto que por lá encontrou, para enganar a solidão.
Chegada a hora de prestar contas, Deus chamou à sua presença os dois escorpiões. O escorpião negro só entregou seis pedras. Eram pequeninas, insignificantes e imperfeitas.
– Não encontrei mais nada, meu Senhor – mentiu o escorpião negro. – O meu irmão amarelo andou demasiado depressa! Apanhou tudo antes de mim!
Ao dizer aquilo, os olhos ficaram vermelhos e flamejantes como rubis, sinal de mentira e de hipocrisia.
Deus respondeu-lhe calmamente:
– Mentes! Guardaste todo o tesouro para ti! O que fizeste está mal. Primeiro, porque mentiste. Depois, e acima de tudo, porque roubaste a riqueza dos homens. E por isso serás amaldiçoado! Quando vires um homem ou um animal, terás uma irresistível vontade de o picar com o teu aguilhão e, se o fizeres, matá-lo-ás.
Deus virou-se em seguida para o escorpião amarelo:
– Quanto a ti, foste preguiçoso, passaste o tempo a enganar a solidão. É preciso ter-se coragem e saber-se suportar a fadiga e o isolamento, para se encontrar tesouros. O teu aguilhão também picará, mas só provocará febre durante três dias e três noites.
A partir daquele dia, quando as pessoas vêem um escorpião negro, esmagam-no por causa do medo que lhes inspira. Mas, quando vêem um escorpião amarelo, sabem que este não faz mal, e não o incomodam. Afastam-se dele, mas deixam-no em paz.

Sophie Carquain
Petites histoires pour devenir grand
Paris, Ed. Albin Michel, 2003


O príncipe que guardava ovelhas

Esta é uma história verdadeira, pois muitas vezes o vi, da minha janela, com estes olhos que a terra e as raízes hão-de beber.
Trazia as duas ovelhas para o retalho de campo, ainda sem casas, liberto de muros. Nenhum cão o acompanhava. O seu amor e o seu cuidado bastavam a tão pequeno rebanho. Malhada e Ladina vinham na dianteira e o príncipe seguia-as rodando um arquinho, que uma gancheta de arame tocava, manso e fácil. Mal eram chegados, deitava-as a pastar, tirava a gancheta de arame ao arquinho e com ele armava uma coroa, que lhe cingia a testa e a palha, loira, dos cabelos. Depois sentava-se numa pedra, alta, seu trono. E reinava sobre urzes, cardos, giestas, borboletas, gafanhotos, lagartixas e seixinhos do campo verde. As ovelhas davam volta ao reino como a um redondel de circo, baliam, faziam tilintar os chocalhos, cabriolavam, tosavam erva e tojo.
O príncipe vigiava-as cumprindo as recomendações de sua mãe, pois a mandado dela ali vinha. Mas a grande preocupação do seu coraçãozinho era quebrar-lhes o encanto. Qual seria a princesa? Malhada ou Ladina? Sim, porque uma delas princesa seria por força. Mas qual? Em vão se interrogava, escutava o ramalhar do vento, o canto dum pássaro, o silêncio das flores da urze, do tojo ou da giesta, o pulsar quente e húmido da terra, esperando qualquer socorro que o ajudasse a desvendar o segredo. Malhada era tão meiga! Vinha lambê-lo. Parecia querer falar. Dizer: – «Sou eu, sou eu». Mas seria? E Ladina tão arisca e desdenhosa? Era com certeza ela, castigada, a pobrezinha! E abraçava-a. Impossível decidir. Para consolar e esquecer aquela tortura construía, com pedras miúdas, estradas sinuosas, sem fim, que se perdiam nos tufos rumorejantes. Procurava joaninhas de vestido às pintas, que lhe passeavam as costas da mão e depois recolhia na palma, antes de, com o vento do seu sopro, lhes desfraldar as asas e as lançar no espaço, verde, do campo. Jogava ao berlinde com bichinhos de conta que se enrolavam, de propósito, para brincar com ele. E às vezes cortava uma palhinha de giesta para apanhar um grilo, que se deixava colher e, breve, voltava à liberdade das
suas asas, pois todos eram livres no reino verde. Era tão bom ouvir o risinho do cri-cri guizalhar na tarde! Nada, porém, o fazia esquecer das ovelhas. Chamava-as:
–– Malhada! Ladina!
E tirava a coroazinha da cabeça para a experimentar nas suas amigas, que se impacientavam e lha atiravam ao chão.
Recusavam-no? Temia o príncipe. Não e não. O que não podiam era dar-lhe indícios, revelar-lhe como havia de lhes quebrar o encanto, era o que era. Sozinho teria de o fazer.
Mas como? Mas quando? O sol começava a rasar a copa das árvores da estrada. As lagartixas, fartas de soalheiro, sumiam-se. E um ventinho vindo do mar, desprendia as borboletas pousadas no tojo ou na giesta levando-as na dianteira, como pétalas soltas. Eram horas de partir, de abandonar o reino verde, bichos, flores e pedras.
Então o principezinho, para que ninguém fizesse troça ao vê-lo atravessar a cidade com duas ovelhas, tirava a coroazinha da cabeça e enfiava-a na gancheta de arame.
E seguindo o arco tocava Malhada e Ladina, antes que se acendessem as candeias, pequeninas, das estrelas.


Luísa Dacosta
Obras completas de Luísa Dacosta para a infância
Porto, Edições Asa, 2002

O Avô Lop

No fundo da floresta dos sonhos há um grande arbusto. Os ramos entrelaçam-se por cima, formando um guarda-chuva verde e viçoso que protege dos aguaceiros de cristal do início de Abril e de Maio todos os seres que ali vivem. A chuva cai durante uma ou duas horas, e depois os raios dourados do sol, como surgidos do país das fadas, escorrem pelas folhas até chegarem ao chão.
Foi aí que, durante toda a vida, brincaram e viveram os coelhos da floresta. Havia coelhos com grandes rabos fofinhos e coelhos quase sem rabo – pequenos, gordos, magros, peludos, e um coelho muito velho chamado avô Lop.
O avô Lop era tão velho que há já muito tempo que o pêlo embranquecera. Usava um cachecol à volta do pescoço e andava sempre com um pau torcido que lhe servia de bengala.
Todas as tardes, por volta das duas ou três horas, o avô Lop sentava-se no seu tronco preferido a desfrutar do calor do sol. Sentava-se em silêncio até que – sem se aperceber – todos os coelhinhos pequenos se juntavam aos seus pés. Eles bem tentavam ficar calados mas era tão difícil que alguns até tinham de meter as orelhas na boca para não se rir.
O avô Lop recostava-se no tronco, olhava à sua volta e começava, numa voz muito suave e baixa:
– Em tempos que já lá vão, no país da névoa e das coisas mágicas, havia uma floresta encantada…
À medida que ia contando a história, muito devagar, algo de estranho e maravilhoso acontecia. O avô Lop começava a endireitar-se cada vez mais. A luz do sol brilhava nos seus olhos castanhos e cintilava pela floresta, e o seu pêlo reluzia.
Os coelhinhos ficavam completamente encantados à medida que ele contava a sua história, porque, de um momento para o outro, o velho avô Lop se transformava no mágico da floresta. Os coelhinhos, tão fascinados pela história, nem davam conta quando ela chegava ao fim. O avô tinha de dizer:
– Agora é tempo de irem, coelhinhos.
E lá voltavam eles aos saltinhos para a moita da floresta.
Mas os coelhos mais velhos foram ficando cada vez mais preocupados com os pequeninos. Certo dia, depois deles terem desaparecido, como era costume, os coelhos mais velhos reuniram-se.
– Onde é que eles irão? – perguntavam uns aos outros.
– Desaparecem todos os dias à mesma hora.
– Aposto que saem para ir ver aquele inútil do avô Lop – disse um deles. – Só sei que não andam a fazer coisa boa!
Conversaram algum tempo e decidiram que iam descobrir exactamente o que estava a acontecer, mal os coelhinhos voltassem nessa tarde.
À hora do costume, os coelhinhos regressaram e, como combinado, os coelhos mais velhos perguntaram-lhes onde tinham estado.
– Bem – disse um – fomos à floresta ver o avô Lop e ele contou-nos uma maravilhosa história mágica da floresta. E quando a contava, aconteceu uma coisa ainda mais mágica e maravilhosa: o avô Lop transformou-se no mago do bosque!
– Eu já sabia! – disse, encolerizado, um dos coelhos mais velhos. – Aquele coelho velho só anda a contar mentiras aos miúdos.
– Mas é verdade! – disseram os coelhinhos em coro. – Quando ele nos conta histórias, aparecem sempre estrelas e faíscas. É magia!
Os coelhos mais velhos saltaram para o lado e falaram em surdina uns com os outros, olhando de vez em quando por cima do ombro. Finalmente, dirigiram-se às crianças e falaram-lhes severamente.
– Achamos que vocês estão a mentir porque não existe magia. Por isso vão já para a cama sem jantar e daqui para a frente estão proibidos de tornar a ver esse avô Lop!
Com as lágrimas a correrem dos olhos, os coelhinhos arrastaram-se até às suas camas. Tinham o coração pesado e o estômago muito vazio.
No dia seguinte, como de costume, o avô Lop sentou-se no seu tronco preferido a apanhar sol e à espera que os coelhinhos aparecessem. Esperou, esperou e deve ter caído no sono porque acordou com um sobressalto quando o sol estava a pôr-se. Para seu espanto, não havia nem coelhinhos nem o que quer que fosse à sua volta.
Se calhar esqueceram-se – pensou – mas de certeza que amanhã se vão lembrar – e com isto partiu a coxear em direcção à sua toca na floresta.
No dia seguinte, e no outro a seguir, foi um avô Lop entris tecido que esperou e esperou pelas crianças, que nunca mais vinham. Por fim, já desesperado, resolveu ir à grande moita do bosque à procura de algum sinal dos coelhinhos.
Ao descer, coxeando, pelo caminho abaixo, encostando-se pesadamente à sua bengala, encontrou um dos coelhos mais velhos.
– Bom dia! – disse, curvando-se entorpecido em sinal de respeito. – Ando à procura dos coelhinhos do bosque. Costumava contar-lhes histórias, sabe, mas eles deixaram de vir.
– Pois ainda bem! – roncou o coelho grande. – Tudo o que aqueles coelhinhos aprenderam consigo foi a mentir e a contar histórias.
O avô Lop ficou chocado.
– Mas eu nunca lhes ensinei a mentir – disse. – Só lhes contei as maravilhosas e mágicas histórias do bosque!
– Pois já não vai contar mais nenhuma – disse, irritado, o coelho antes de regressar para a moita.
Foi um avô Lop muito triste e envelhecido, com uma lágrima a descer-lhe pelas bochechas, que regressou à sua toca na floresta.
Sem nada com que ocupar agora os dias, avô Lop vagueava sem destino pela floresta. Ainda chegou a ir uma ou duas vezes à grande moita da floresta mas, assim que aparecia, os coelhos mais velhos mandavam os coelhinhos pequenos para o outro lado.
– Vai embora! – gritavam-lhe então. – Não queremos coelhos velhos na nossa moita.
E com isto todos os coelhos fugiam precipitadamente para as suas tocas.
Completamente sozinho, o avô Lop deixou a moita aos saltinhos e voltou para o seu recanto do bosque.
Os coelhinhos bebés fizeram como lhes tinha sido ordenado, mas nunca conseguiram esquecer a magia do mago do bosque. Às vezes, quando estavam todos sozinhos, costumavam segredar o quanto tinha sido divertido, mas a maior parte das vezes arrastavam-se pela moita, levantando a poeira e sentindo-se muito tristes.
Os coelhos mais velhos tentavam animá-los, e às vezes até lhes contavam uma história ou
outra, mas não era a mesma coisa.
As coisas foram piorando tanto que os coelhinhos começaram a discutir entre eles. Tudo começava com um coelho a bater noutro, mas acabava-se sempre num emaranhado de braços, pernas e orelhas a debater-se no chão.
A certa altura, como alguns dos coelhos mais velhos já não aguentavam mais, reuniram os coelhinhos todos.
– Isto tem de acabar – disseram. – Com estas caretas e disputas já não se consegue fazer mais nada. Já não se vai apanhar comida, já não se constroem novas tocas e o Inverno está a chegar.
– Se pudéssemos ouvir as histórias mágicas do avô Lop – disse um dos coelhinhos – já não arranjávamos mais problemas.
– Mas a magia não existe! – disseram zangados os coelhos mais velhos. – Vocês mentiram.
– Nós não mentimos! Nós dissemos a verdade e se tivessem vindo connosco, teríamos mostrado como a magia existe mesmo.
Os coelhos mais velhos pensaram por uns instantes.
– Nós vamos com vocês ao vosso mago do bosque – decidiram – só para vos provar que a magia não existe.
E lá seguiram todos aos saltinhos para a floresta, pelo longo e sinuoso carreiro abaixo, até chegarem ao tronco onde o avô Lop, esperava. Estava, como sempre, ao sol, a contemplar suavemente o céu. Os coelhinhos sentaram-se rapidamente aos seus pés, enquanto os coelhos mais velhos se sentaram, cépticos, num cepo velho e apodrecido.
O avô Lop reclinou-se para trás e, com um brilho nos olhos, começou, numa voz suave e baixa:
– Há muito tempo, numa terra de névoa e magia, havia uma floresta encantada…
Os coelhos mais velhos arregalaram os olhos com espanto ao verem o avô Lop ficar cada vez mais direito. À medida que ia contando a história, a luz do sol começou a brilhar dos seus olhos castanhos claros, e bolinhas de magia começaram a cintilar pela floresta. À medida que ia contando, o pêlo passou de branco a prateado e ele transformou-se no verdadeiro mago do bosque.
Quando a história chegou a um bonito fim, todos os coelhos, novos e velhos, estavam completamente encantados. O momento era tão belo, que alguns dos coelhos mais velhos tinham até lágrimas nos olhos.
Ninguém disse uma palavra, tal era o medo de quebrar aquele encanto mágico, mas, um a um, todos se aproximaram do avô Lop para o abraçarem com todo o amor que tinham no coração.
Os coelhos mais velhos nunca pediram desculpa pelo mal que tinham cometido em relação aos coelhinhos e ao avô Lop, porque todos sabiam que, às vezes, até os coelhos mais velhos cometem erros. Mas agora, todos os dias, sempre à mesma hora, todos os coelhos saltam da moita e correm para ir ouvir o avô Lop e vê-lo transformar-se no mago do bosque.
Escutem, dos mais velhos,
As suas histórias douradas
E lembrem-se do avô Lop
E da magia revelada.


Stephen Cosgrove
Grampa-Lop
Los Angeles, Sloan Publishers, Inc., 1981