28/06/2009

Ana e a galinha pedrês

Esta história passou-se na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. A comida era escassa. As pessoas, sobretudo as crianças, alimentavam-se mal e andavam sempre esfomeadas.



Todas as semanas, Ana ia ao campo à procura de alimentos. Levava a bicicleta, mas estava demasiado cansada para pedalar. Caminhava devagar, empurrando-a. Mas até isso fazia com que o seu coração batesse depressa. Ultimamente, sentia-se sempre cansada.
E também desanimada. Nem aos agricultores restava qualquer legume. À excepção de algumas beterrabas que um homem lhe tinha dado, mais ninguém lhe dera ou vendera o que quer que fosse.
Naquele instante, Ana apercebeu-se de que não podia continuar. Tinha de parar e de descansar. Tombou a bicicleta, assegurando-se primeiro de que as beterrabas não caíam do cesto. Depois estendeu-se na relva fresca.
Sonhou com comida. Parecia que, nos últimos tempos, todos os seus sonhos tinham a ver com comida. Desta vez, sonhou com cenouras douradas, cozidas a vapor, com natas e manteiga. Mesmo no sonho, Ana sabia que isso era uma loucura, porque não conseguia recordar-se de alguma vez ter comido manteiga ou natas. Mas a mãe tinha-lhe falado sobre isso e, no seu sonho, quase podia provar aquela delícia.
Sonhou, em seguida, com tomates, vermelhos e sumarentos. Havia um monte deles e Ana preparava-se para comer um, quando tudo desapareceu. Acordou de repente e sentou-se. Na sua frente estava uma galinha pedrês. Olharam uma para a outra.
De repente, Ana apercebeu-se de que a galinha estava a falar. Pelo menos, estava a cacarejar e a falar da maneira que as galinhas falam.
— Porque é que estás a olhar para mim, sua tonta? — perguntou Ana. — Fazes tanto barulho que me acordaste.
— Cu-u-u-t… cu-u-u-t… — disse a galinha, e recuou, assustada com a voz zangada de Ana.
Foi então que Ana viu o ovo! Pegou nele cuidadosamente. Ainda estava quente.
— Oh, minha linda, linda galinha! — exclamou. — Desculpa ter sido dura contigo. Obrigada por este ovo maravilhoso!
A galinha pedrês afastou-se e Ana ficou sozinha com o ovo. Agora que descansara, sentia-se melhor.
Tinha de ir depressa para casa, dar o ovo à mãe. Talvez pudessem comer uma omeleta pequenina!
Ana tirou o lenço que usava na cabeça. Com cuidado, embrulhou o ovo e pô-lo delicadamente no cesto, juntamente com as beterrabas. Montou na bicicleta e começou a subir a estrada. Mas um pensamento triste tomou conta dela. Na verdade, o ovo não lhe pertencia. Pertencia ao dono da galinha pedrês. Ana começou a pedalar cada vez mais devagar.
“Não”, disse energicamente para si mesma, “o ovo é meu. A galinha pô-lo mesmo ao meu lado enquanto eu dormia.” Continuou a subir a estrada. “De qualquer forma, não sei de quem é a galinha. E mesmo que soubesse, ninguém ia adivinhar que eu tenho o ovo.”
Havia uma casinha branca perto da estrada. “Não conseguem ver nada”, disse Ana para consigo.
“Tenho o ovo todo coberto.” Começou a pedalar mais depressa.
Mas parecia que a bicicleta ia cada vez mais devagar. E, quando chegou perto da casa branca, as pernas já não conseguiam pedalar. Muito lentamente, desceu da bicicleta e dirigiu-se à casa.
— Sim? — perguntou a jovem mulher que veio à porta.
Com muita relutância e o sonho da pequena omeleta a desvanecer-se rapidamente, Ana indagou: — Tem… tem… uma… uma galinha pedrês?
— Sim, temos — respondeu a mulher. Lenta e cuidadosamente, Ana tirou o ovo do lenço e entregou-o à mulher.
— Então, isto também lhe pertence — disse numa voz quase inaudível.
— Oh, muito obrigada. Aquela galinha anda sempre a vaguear e a deixar os ovos nos sítios mais improváveis. É a única que nos resta, e precisamos dos ovos dela para o nosso menino. É que ele está muito doente.
Ana preparava-se para ir embora. A jovem mulher parecia perturbada.
— Foste tão amorosa — disse. — Gostaria de te dar algo para pores no cesto. Mas não temos quase nada. Eu… eu não tenho nada para te dar.
— Não faz mal — disse Ana. E montou outra vez na bicicleta. Ansiava por sair de perto daquela casa, da galinha pedrês e do ovo maravilhoso.
Quando chegou a casa, Ana contou à mãe o que se tinha passado. Teve medo de que a mãe lhe ralhasse por chegar tarde e por só trazer algumas beterrabas. Quem sabe se até se zangaria por Ana não ter ficado com o ovo…
Mas a mãe apenas acariciou o cabelo de Ana e olhou-a durante muito tempo, sorrindo.
— Então não ficou zangada comigo, mãe? Não lhe parece que sou nova demais para ir ao campo tentar arranjar legumes?
— Não, Ana. — disse a mãe. — Estou aqui a pensar na filha maravilhosa que tenho. Quando se anda sempre com tanta fome, só um verdadeiro adulto poderia ter tomado uma decisão tão difícil.


Ruth Hunt Gefvert
M. Clark; E. Briggs; C. Passmore
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC,2001

20/06/2009

Girassol



Não sabiam já quanto tempo havia que ambos caminhavam calados, no descampado imenso e sob o castigo imerecido de um céu abrasador. A terra, na sua queimada secura, dir-se-ia o rescaldo de um grande incêndio. Arrastavam-se num passo de fadiga e abandono, as cabeças pendidas sobre o peito, como se aquela estrada os levasse a um destino que de todo lhes era indiferente, sem por isso deixar de ser amargo e sofrido. Durante a maior parte do percurso, nem sequer haviam encontrado a sombra de um ramo seco, e o mundo parecia-lhes um grande ermo, um lugar de injusta maldição. Tudo o sol abrasava, e a estrada – infindável rio de alcatrão – negra e quente, corria através dos campos desertos, até se perder na linha distante e incendiada do horizonte. A terra exalava um hálito de inferno e por toda a superfície estendia-se uma irradiação trémula, em que se reflectiam, como numa inquieta miragem, os recortes longínquos das coisas.
A respiração fazia-se a custo, penosamente, e o ar queimava na boca como se fosse o próprio fogo. No entanto, eles caminhavam sempre, apesar do andar cada vez mais arrastado, da atitude de profundo e inconsolável desânimo, tão caídos e exaustos se mostravam.
Eram ambos velhos, alquebrados, e tudo, pelo aspecto desprezível, nos falava da história destas criaturas a quem a vida maltratou e acaba por abandonar. Um trazia o corpo magro coberto de andrajos e por entre os rasgões da roupa suja viam-se-lhe as carnes secas, mirradas por mil mortificações sofridas. A barba e o cabelo já ruços faziam em torno da cabeça um volume desconforme e hirsuta, que lembrava a rama emaranhada das vassouras velhas. Amparava-se a um cajadito alto, semelhente ao bordão dos peregrinos, e enfiado no braço trazia à dependura do ombro uma espécie de alforge imundo, onde por certo arrecadava os seus tesouros, quanto na vida possuía. As mãos eram finas, de dedos longos, mãos de quem nunca houvesse trabalhado. O outro, o companheiro, tinha as ancas surradas, o pêlo ralo, baço, crivado de chagas e crostas, como o Lázaro de todas as histórias sagradas. Para sumo martírio claudicava de uma das patas traseiras, que a custo e de leve pousava no chão, para logo a encolher num movimento repentino, de dor súbita, tal como se fosse de espinhos a terra que pisava. E assim, aquelas duas criaturas, irmanadas na mesma desventura, levadas pela mesma miséria, iam estrada em fora, à torreira ardente do Sol, sem talvez se darem verdadeiramente conta da grandeza de tanta mortificação. Caminhavam como sonâmbulos, um amparando-se ao cajado, o outro a tropeçar a cada passo na própria infelicidade, como se a todo o instante ameaçasse cair de gasto e consumido.
Umas vezes era o cão que se adiantava um tudo nada no caminho, para logo parar, resfolegando, de língua caída para fora da boca, à espera do dono; outras o homem que inesperadamente lhe tomava a dianteira, e o bicho, com a perna encolhida e bamba, via-se forçado a apressar o passo para alcançar o companheiro, numa corrida desajeitada e grotesca. Só nisto se sentia neles uma leve diferença de condição. No resto eram iguais, solidários e irmãos, apodrecidos pelas mesmas chagas e associados na mesma miséria. Estavam perfeitamente um para o outro, como duas coisas que se igualam e completam. Apenas em sociedade existem diferenças e preconceitos absurdos, que ignoram os que vivem à margem dos códigos e do mundo. Já a fábula consagrou algumas destas histórias.
Se alguém, abruptamente, lhes perguntasse para onde iam, que fito os levava por aquele caminho, a perturbação seria enorme. Não encontrariam com facilidade razões nem palavras para responder.
Ao sabor de um puro acaso, haviam tomado aquela estrada, aquela senda de inferno, sem que isso representasse qualquer decisão pensada. Vagabundos por natureza, o seu fadário era andar, correr mundo. Apetecera-lhes, sem motivo determinado, seguir aquela rota, e era tudo. De seu, na vida, só tinham as estradas para palmilhar. Fora sempre assim: se topavam com uma encruzilhada, ou o dono, sem pensar, seguia pela estrada que o cão escolhesse, ou o cão aceitava de boamente a direcção por onde o dono metesse pés ao caminho. Tudo era o mesmo, pois qualquer destino lhes servia. Às vezes, porém, ficavam os dois pasmados, sem saberem por onde aventurar os passos – ao que no mundo se resumia, no final de contas, todo o seu trabalho, toda a responsabilidade. Eram, então, momentos inexplicavelmente difíceis, em que se apossava deles uma leve angústia, e se sentiam incapazes de qualquer resolução, em que lhes apetecia desistir e esperar para ali que chegasse a derradeira hora. Sentavam-se um ao pé do outro, um encostado ao outro, inquietos, assustados, com a sensação de que os ameaçava um perigo desconhecido, e, por fim, como os marinheiros, resolviam aguardar melhor maré.
Haviam metido por aquela estrada como poderia ter sido por outra... Tudo ou quase tudo lhes era indiferente, e o próprio cão já ganhara também o jeito de encolher os ombros à vida e à desventura. Que querem?!... Agora, por exemplo, não ambicionavam mais do que uma poça de água, onde refrescar a goela escaldada e amaciar as duas côdeas de pão ressequido que guardavam na sacola – que até aí chegara a previdência. Desejavam também uma nesga de sombra para estender e repousar as carcassas doridas, sem lhes importar como nem onde. Se por milagre a noite caísse de repente, também isso seria de grande apaziguamento, naquela hora de verdadeiro inferno. Mas para quê confiar em milagres?! ... Não tinham toda a vida a atestar que era isso impossível! O resto nada valia. Nascidos para a liberdade, só conheciam a prisão da natureza: a fome, a sede e o cansaço, o frio e o calor, o que não há desprezo nem ânimo que seja capaz de esquecer.
Mas, pela charneca fora, o rio negro da estrada continuava a estender-se até para além de onde a vista alcançava, sem se lobrigar a toda a volta, já não digo vivalma, mas a copa verde de uma árvore, a cor alva de um muro ou de uma casa. O que lhes importava, pois, era não pensar, não atender ao desespero que os chamava, e caminhar, caminhar sempre, até que ao longe luzisse a esperança dalguma miragem. Sede e fome, isso era o prato de cada dia – um dos duros ossos daquele ofício. Resignação e paciência, que o caminho por onde seguiam havia de ter um fim, acabar em algum sítio.
O cão, porém, a certa altura estacou. Como se em vez de uma tivesse as duas patas doentes, deixou-se tombar sobre os quartos traseiros, descaiu mais a cabeça, depois de um suspiro de profundo desânimo. Uma luz de súplica brilhou-lhe nos olhos doces, e ficou amargamente a contemplar o dono. Este ainda se lhe adiantou um pedaço no caminho, mas depois parou. Parou e ficou a olhá-lo também, com uma vaga desconfiança, assim como admirado. Sobre eles, o sol parecia uma brasa.
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– Girassol!
Mas o bicho já não o podia ouvir.
Num instante, o velho compreendeu que tudo acabara. As moscas precipitaram-se com voracidade, como um enxame de demónios. Furioso, com gestos de louco, o vagabundo sacudiu-as, mas elas tornavam, numa teima desesperante. Cobriu então o corpo inanimado com um trapo que tirou do alforge, e por muito tempo ficou ainda a afagar o focinho do bicho, sem se dar conta da violência cada vez mais terrível do sol, como já não dava conta da dor aguda que o trespassava.
No céu fosforescente pareceu-lhe que voava um milhafre. O tempo dir-se-ia haver parado e por um instante sofreu a sensação da infindável eternidade que o esperava. O coração dizia-lhe que alguma coisa para sempre se acabara, sem reparação possível. Levantou-se a custo, atravessou o bordão nos braços e sobre ele depôs o corpo inerte do cão. Com os olhos embaciados de lágrimas, pareceu-lhe que a estrada acabava já ali, a dois palmos da morte do amigo. Não seria grande a distância que tinha a percorrer. Ergueu a cabeça com altivez e firmeza, a encarar o que o destino quisesse dele. Não lhe voltaria o rosto. A dor tem destes arranques de orgulho... Hesitou ainda um momento, apertando cada vez mais o bicho contra o peito, e depois caminhou sem arrastar os passos, na certeza de que já não seria longa a jornada.

Manuel Mendes, Estrada

18/06/2009

Mandioca de Feitiço


Para Miguel Torga


FAUSTINO E FIRMO, personagens saídos dos «Contos da Montanha», foram por artes mágicas parar a Angola, na década de quarenta. Por artes de magia ou da literatura, o que vai dar tudo no mesmo, pois se sabe que a palavra leva consigo muitos feitiços.
Quanto a Firmo, andarilho compulsivo, não seria de admirar, embora o seu terreno de eleição fosse o Brasil, a Argentina e outras vizinhanças da América hispânica. Todos sabiam, sobretudo na sua aldeia de Vilarinho, que ele desconseguia de ficar parado muito tempo e o mundo o atraia como música de sereia. Por uma única vez trocou de lado no Atlântico e foi encalhar em Luanda. Anos depois de se ter deliciado com a terra e as gentes, reconheceu o patrício Faustino, acabadinho de chegar de Abaças, uma aldeia vizinha nas fragas de Trás-os-Montes. A principio manteve certas reservas, pois sobre Faustino corriam estórias não muito abonatórias de furtos menores praticados nas redondezas das suas aldeias. Já quanto a Faustino, poderia causar alguma estranheza tão comprido percurso para fugir ao destino. Mas nem tanto assim, se pensarmos na miséria em que vivia na montanha, condenado a roubar ninhos de passarinhos, pois pouco mais havia de que suas mãos ávidas e ágeis se pudessem locupletar. A decisão de Faustino veio depois da terrível aventura de, numa noite de tempestade, ter assaltado a desvalida capela da Senhora da Saúde, de onde só retirou uma broncopneumonia que o ia levando desta para melhor. Disse para a mulher quando estava mais recomposto, aqui não fico, é uma vergonha termos uma capela onde nada há para nosso orgulho, apenas uma caixa de esmolas permanentemente vazia e nem um cruci-fixo de prata ou um cálice, nada de jeito, assim também é demais, vou masé roubar para outras freguesias. Um parente afastado mandou-lhe uma providencial carta de chamada e lá embarcou para Luanda na terceira classe do paquete «S. Tomé».
Firmo e Faustino costumavam se encontrar na Pensão Flaviense, para beber um copo e matar saudades da terra. Sobretudo para compararem Vilarinho e Abaças, chegando sempre ao consenso de que se igualavam na miséria e na falta de perspectivas. No entanto, Firmo já morria de saudades e mostrava muita inquietação com a sua permanência parada em Luanda, embora tivesse um bom emprego, do qual ia amealhando uma razoável maquia. Na altura em que Faustino lhe confidenciou que tinha finalmente arranjado trabalho numa roça de café no Uíje, onde certamente ia enriquecer pois o café era o futuro, Firmo revelou que comprara passagem num barco zarpando daí a dias, voltando à terra por tempo incerto mas o suficiente para fazer mais um filho na mulher. Deixava em Luanda os dois mulatitos que entretanto gerara na Rosa, sua lavadeira. Estes dois filhos de Firmo cresceriam nas ruas, um pouco ao abandono, embora tivessem todo o carinho da mãe, que os criou sozinha e sem nunca mais rever o transmontano. Cresceram revoltados contra a sua condição de filhos de pai incógnito, como era de esperar, e foram um dia engrossar o exército que libertaria o pais.
Quanto a Faustino, a estória foi outra.
Partiu para o Uíje, terra de montanhas também, mas sendo as urzes substituídas por densas florestas, onde, na sombra das grandes árvores, crescia o arbusto do café, riqueza para uns poucos colonos, maldição escrava para muitos. Começou como capataz na roça, mas em breve ficou uma espécie de gerente, pois o anterior foi evacuado para Luanda por causa de um paludismo fulminante e o patrão não tinha mais ninguém em quem confiar. Confiar no Faustino? O problema foi mesmo esse. O homem não podia ver dinheiro à sua frente. Aprendeu rapidamente o que tinha a fazer e era suficientemente activo para contentar o patrão, também ele um pouco desleixado, mais preocupado emir jogar às cartas na cidade do que em permanecer na roça para controlar as coisas. E o Faustino acabou por ter acesso ao dinheiro das compras de comida para os trabalhadores ou para material urgente. E foi desviando umas migalhas. Temos de compreender, era demais para quem tinha sempre convivido com a fome mais absoluta e sem saber o que lhe iria acontecer no dia seguinte. Foi escondendo aqueles trocados na mala de folha que tinha trazido da Metrópole, era o seu seguro de vida, a sua pensão reforma.
Faustino ainda não tinha aprendido com os outros colonos que em Portugal se habituavam a só ter gente acima deles e, de repente, caídos em África, descobriam ter muita gente abaixo deles afinal. E exerciam até à exaustão sobre esses deserdados da vida o pequenino poder com que de repente se maravilhavam. Faustino só tivera tempo de aprender as tarefas exigidas no serviço e a guardar de lado alguma pequena fortuna para o que desse e viesse. Por isso ainda tratava os trabalhadores da roça como seres humanos. E arranjou uma relação mais chegada, senão amizade, com o ajudante do cozinheiro da casa grande, um jovem esperto que se chamava Ndozi.
Estava a sua vida correndo pelo melhor, apesar do calor a que não estava habituado e dos mosquitos que lhe furavam a pele. Mas num repente lhe desabou o mundo em cima da cabeça. Falta de habilidade nas contas, demasiada confiança, não sabemos ao certo qual o erro, mas o facto é que o patrão foi alertado pelo Costa, seu ajudante na contabilidade e secretaria, da provável existência de algum desvio nos dinheiros destinados à comida dos trabalhadores. Investigaram os dois, no segredo que deve envolver essas coisas, até chegarem ao Faustino. E daí até à mala de folha, onde estava uma quantia que ultrapassava os salários entretanto recebidos pelo capataz-quase-gerente. Patrão e Costa a revistarem a mala e o Ndozi a avisar o Faustino, é melhor fugir, ouvi tudo, o patrão vai chamar a polícia da cidade.
Faustino nem teve muito tempo para pensar, ainda por cima com Ndozi a pressionar, é melhor fugir, é melhor fugir. De facto, nunca se tinha confrontado com a polícia. Os peque-nos delitos em Portugal foram resolvidos entre as suas mãos e a sua consciência, com a excepção da tentativa na capela da Senhora da Saúde, que dessa vez se resolveu entre o seu corpo e os poderes da santa, que lhe pregaram aquela valente broncopneumonia para não mais esquecer. Mas tinha sempre ficado longe da polícia. Por isso o terror de Ndozi, que esse apesar da juventude sabia bem como era brutal a polícia colonial, encontrou terreno fértil no seu temor. E também devemos referir que Faustino tinha uma ponta de vergonha em relação ao patrão, que nele confiara. Mas fugir para onde? Para o mato, claro, onde havia de ser, lhe explicou Ndozi, todo nervoso, como se de liberdade própria se tratasse. Faustino se viu naquele mato do Uíje, florestas atrás de florestas, refúgio de todas as cobras, desde a terrível surucucu à pequena mas fulminante buta, cuja picada matava num minuto. Os trabalhadores do café já lhe tinham mostrado cotos decepados, pois quando na colheita a buta, escondida entre as folhas e parecendo um raminho seco vulgar, mordia a mão que procurava os bagos da fortuna, o homem só tinha tempo de cortar o braço com a catana mais próxima, antes que o veneno começasse a circular no sangue e paralisasse o coração. Hesitava no seu medo e Ndozi teve de o empurrar para o mato, o esconder numa casota abandonada ainda dentro dos limites da roça, fique aqui por um tempo, que eu vou à casa grande falar com o patrão, arranjar uma desculpa para ficar uns dias fora, depois levo-o para algum lado. Faustino nem teve acesso ao seu quarto, ficou assim sem o dinheiro, a mala e toda a roupa.
Horas depois veio Ndozi explicar que o patrão lhe tinha concedido três dias para visitar os parentes. Para isso lhe contou que acabava de receber a notícia da morte de um tio e tinha de ir assistir ao óbito. Relatou ainda Ndozi que a polícia tinha chegado à roça para constatar o roubo mas sobretudo o desaparecimento do Faustino, prova mais do que suficiente da sua culpabilidade. Teria pois de ir para outra província, que certa¬mente as buscas se limitariam à cidade, não chegariam ao Kuanza-Norte ou ao Zaire, províncias vizinhas. Leva-me então até lá, não importa qual, olha, a que ficar mais perto de Luanda, a qual era o Kuanza-Norte mas Ndozi não o levaria até lá, apenas até uma estrada onde ele pudesse apanhar uma boleia de algum camião.
Assim combinados, meteram pelo mato e se afastaram da roça, evitando os caminhos e sobretudo as picadas. Levavam apenas uma cabaça cheia de água, que o rapaz trouxera da roça. Segundo este, bastaria dormirem uma noite na caminhada, pois no dia seguinte já Faustino poderia apanhar alguma boleia, quem ia negar levar um branco em estado de necessidade? E como mandava a tradição, até teria direito a ir na cabina, que a carroçaria e a poeira eram destinadas aos negros. Ndozi voltaria logo para a roça, que não lhe convinha ter três dias descontados no ordenado, se o pudesse evitar.
À tarde a fome apertava, porém. Tinham saído cedo da roça, só com algum café tomado. E Faustino não parava de se lamentar, agora que comia três refeições por dia, uma delas sempre de carne, do que nos seus tempos de Portugal nem o cheiro lhe chegava, é que tinha tido o azar de ser apanhado com a massa na mala. Gomo podia o desgraçado do Costa ter descoberto tudo, eram quantias insignificantes de cada vez, mas todos os dias, ou quase todos, é certo, esse Gosta era um coca-bichinhos, umas míseras diferenças lhe chamaram a atenção, estupor. E antes que fosse ele o acusado, tratou de o acusar, só podia ser isso. O Ndozi tinha razão, o patrão ia deixar o caso por ali, nem se ia queixar para Luanda, e ele podia ir viver para outra terra. O problema seria arranjar um emprego tão bom e num sitio tão bonito como é uma montanha de café, com os nevoeiros matinais que são afastados pelo Sol nascente, espalhando luz pelos verdes de todas as cores.
Andaram pelo mato até ao fim da tarde e nessa altura meteram por um caminho que os conduziu a umas lavras de mandioca. Havia aldeia por perto. Ndozi não queria arriscar, pois o branco ia embora, mas ele ficava. Podia acontecer por um azar que algum dos habitantes da aldeia mais tarde soubesse do desaparecimento do Faustino e ligasse os factos. Se fosse contar ao patrão que Ndozi servira de guia, ainda acabava por ser acusado de cúmplice, quando só fazia isto por pena de alguém que sempre o tratara bem, caso raro com os brancos. Tinha pois de evitar ser visto com Faustino. E só havia uma alternativa, dormir com fome.
Mas o outro reconheceu as lavras de mandioca e a barriga roncou mais alto.
— Essa mandioca é da que se come?
De facto era a qualidade que não tem veneno e por isso não precisa de ficar em água durante uns dias. Podia ser imediata¬mente consumida e assim Ndozi explicou. Mas logo a seguir apontou para os fiapos de pano vermelho que estavam amarrados nalgumas hastes.
— Tem feitiço. Quem come morre.
E afastou Faustino da lavra, avançando de novo para o mato. Parou pouco depois para des-cansar.
— É melhor dormirmos aqui. De manhã lhe levo até à estrada, já não fica longe.
E sentou no chão, encostado a um tronco de árvore, descansando. Faustino, apesar de muito fatigado, permaneceu de pé, olhando para o caminho que tinham abandonado. Não conseguia despegar a vista dos troncos finos mas convidativos das mandioqueiras jovens. E a barriga roncava, roncava, mal habituada já àquelas fomes que noutros tempos eram a normalidade. Num repente pegou no facão que levava à cintura e investiu contra a lavra.
— Não faz isso, só Faustino, não faz isso.
Inútil gritar, inútil correr atrás dele, inútil demovê-lo. O português foi mesmo ao primeiro pé de mandioca, com o facão removeu o chão e desenterrou um tubérculo grosso como um braço. Desenterrou outro e voltou para onde estava Ndozi.
— Tens a certeza que esta mandioca não tem veneno?
— Não tem. Mas tem feitiço. E pior.
— Deixa-te disso.
— Esses panos vermelhos que se amarram em cima é para avisar. Essa lavra foi enfeitiçada. Só os donos podem tirar.
— Essas crenças são pagãs, nem devias dizer isso. É pecado.
Ndozi recusou o tubérculo que Faustino lhe estendeu. Este começou a descascar o seu, sentado agora junto de outra árvore.
— Não és católico, ó Ndozi? Não costumas ir à missa?
— Às vezes.
— Então como acreditas nestes feitiços? Disparate.
E meteu à boca um pedaço cortado da mandioca. Doce, suculento, uma delícia para a sua fome.
— Hum, maravilha.
Derrotou o tubérculo inteiro e descascou o outro. Ndozi só olhava, enquanto escurecia à volta deles. Para se entreter, o angolano juntou paus secos que havia à profusão ali perto e fez uma fogueira. Não estava frio, mas era mais aconchegante. E afastava os bichos. Faustino entretanto tinha comido a outra mandioca e bebido água da que Ndozi trouxera da casa grande. A fome tinha passado, se deitou perto da fogueira o mais comodamente que pôde.
A meio da noite, Ndozi foi acordado pelos gemidos do companheiro. Porra, porra, que dores. Faustino se agarrava à barriga, porra, que dores. Tinha vómitos, mas só ar saia. Bem que se torcia, e vomitava, nem saia nada, nem a dor passava.
— Faz alguma coisa, porra, pá.
— Fazer o quê? — disse Ndozi. — Não há nada a fazer. É o feitiço.
— Só a Senhora da Saúde me pode valer, ela é muito mais forte que qualquer feitiço — ainda disse Faustino no meio dos gemi¬dos. — Ai valei-me, Senhora da Saúde.
Não lhe valeu. Ndozi ficou ao lado dele, assistindo impotente e pesaroso à agonia. De manhã, usou o facão de Faustino para cavar uma sepultura no meio do mato. E lá ficou para sempre o ladrão de Abaças. No mais completo segredo.


Fevereiro de 2001
(in «Para Miguel Torga»,
Câmara Municipal de Sintra, 2001)

15/06/2009

A cor dos olhos

Naquele tempo, que não era como o tempo de hoje, os leões já tinham quatro patas mas, tal como os elefantes, não podiam meter-se por dois caminhos ao mesmo tempo!
Naquele tempo naquela aldeia havia Fati e Issa.
Fati dormia deitada numa esteira, sempre de barriga para baixo. Durante esse tempo, Issa sonhava deitado de costas, na cabana da mãe.
Uma manhã, Issa convidou Fati para ir com ele à pesca, no grande riacho.
― Fati, vens ou não pescar?
― Vou, mas… e se o peixe não morde?
― Ficamos à espera.
Partiram com ele à frente, como sempre.
Fati, que era cega, seguia-lhe os passos.
A mãe dela, como todas as mães da aldeia, sabia fazer um bom molho com sementes e também uma mistura saborosa de inhame. O pai conhecia os remédios contra as serpentes e os génios malfazejos, e contra os anões ruins do mato que só fazem mal!
Mas nem o pai nem a mãe sabiam transformar os olhos que não vêem em olhos que vêem!
Fati e Issa caminhavam num estreito carreiro vermelho.
Issa viu pássaros tecelões dar reviravoltas perto das folhas de um embondeiro.
Fati ouviu-os chilrear.
Tinha posto na cabeça um lenço para se proteger um pouco. Tal como Issa, sentia o sol a queimar-lhe os ombros como se fosse uma fogueira no mato.
Não sabia nada da forma zombeteira das sombras, sempre um pouco maiores, mas conseguia adivinhar a grande boca do sol que sugava o céu com gulodice.
Chegaram ao riacho.
― A água está bem desperta ― gritou Issa.
Fati mergulhou o dedo e exclamou:
― Esta água está toda molhada!
Issa preparou uma linha para Fati e outra para ele.
Deitaram-nas à água. Passou algum tempo.
Issa inclinou-se para Fati e murmurou-lhe, quase a morder-lhe a orelha:
― Não te mexas, vou andar alguns passos.
― Porquê?
― O sol está muito forte. Talvez encontre uma jujubeira que nos dê sombra.
Afastou-se, apressado, para fazer algo que ninguém poderia ter feito por ele!
Nada acontece sem se fazer anunciar…
Fati, com a linha entre os dedos, estava tão imóvel como uma velha termiteira, quando sentiu um abanão na mão. Quando sentiu o segundo abanão, foi como se estivesse à espera dele, precisamente naquele momento. Puxou com um gesto seco e, quando ouviu a água a salpicar, não teve dúvidas: era mesmo um peixe que tinha mordido o isco e que ela estava a pescar. Com cuidado, para não assustar nada nem ninguém, levantou-se, puxando sempre a linha com a mão.
Agarrou o pequeno peixe que dançava agarrado ao isco.
Disse em voz alta, para si própria: “É de certeza uma carpa, uma carpa pequena e linda.”
― Uma carpa que preferiria voltar para a água em vez de assar ao sol — respondeu-lhe uma voz.
― És tu, Issa?
― Não é o Issa, sou eu ― respondeu-lhe a carpa.
― Mas quem está a falar? ― perguntou Fati.
Não obteve resposta. Pensou que tinha sonhado.
Com cuidado, tirou o peixe do isco.
― Ufa, obrigado. Assim está melhor ― ouviu.
― Mas de quem é esta voz que não conheço?
― É minha. Sou a carpa que acabas de pescar, não vês?
― Não. Tenho olhos mas não vejo.
A carpa, que era menos medrosa do que uma tartaruga e mais faladora do que um quimbanda lisonjeador, continuou a falar.
― Será que me podes dizer o teu nome, tu que me pescaste?
― Fati.
― Fati, se voltares a pôr-me na água do riacho, posso dar-te o mais belo dos presentes.
― O que é o mais belo dos presentes?
― É o que quiseres… exactamente o que quiseres.
― Não existe o mais belo dos presentes.
― Existe, sim!
Fati pôs-se a rir e disse à carpa:
― Pequeno peixe, podes ofender o génio da água com as tuas mentiras.
― Não estou a mentir.
― Então faz-me ver o mundo com os meus dois olhos.
― O mundo inteiro?
― O mundo inteiro.
Sem pensar duas vezes, o pequeno peixe disse a Fati:
― Pega em duas das minhas escamas, e põe uma em cada olho.
― Depois…
― Depois, nada. É tudo. Verás o que quiseres ver.
Fati pegou em duas escamas e fez o que a carpa lhe tinha dito. Então, começou a ver de verdade, e os seus dois olhos tocaram o mundo.
― Agora, podes ver quase tudo ― disse-lhe a carpa.
― Porquê “quase”?
― Podes ver tudo, excepto os teus olhos. Com os próprios olhos, ninguém pode ver os seus próprios olhos.
Fati pôs o pequeno peixe no riacho e ele continuou a viver como um peixe na água.
Issa chegou. Tinha-se aliviado em algum lado.
Fati, que nunca o tinha visto, viu-o aproximar-se.
― Issa, estou a reconhecer-te.
― É lógico, porque me conheces.
― Reconheço-te com os meus olhos, não apenas com os ouvidos!
Issa tinha parado a dois passos de Fati. Olhava-a bem de perto, e assim podia ver-lhe os olhos. Exclamou:
― Mas o que é que se passa? Lavaste os olhos no céu?
― E por que dizes isso?
― Fati, os teus olhos estão azuis como o céu. Continuas negra mas tens os olhos cor do céu!
Fati contou-lhe tudo.
Quando chegaram à aldeia, Fati ficou espantada por ver um só mundo com os dois olhos.
No dia seguinte, de manhã, ouviram a aldeia a murmurar.
Issa, que continuava a dar-lhe a mão, escutou as vozes ao mesmo tempo que ela.
Viram chegar as três co-esposas do pai de Fati, e outras mulheres, e alguns homens. Tinham a boca cheia de maldades e gritavam. A seguir, chegaram os da aldeia. Eram piores do que animais loucos do mato. Gritavam:
― Bruxa!
― Fati, vai-te embora!
― Não passas de uma bastarda do céu!
― Bruxa azul! Deixa-nos, vai-te embora para sempre, tu e os teus olhos azuis!
― Excremento de abutre!
Puseram-se a atirar-lhe pedras e Fati não encontrou outra solução senão fugir. Issa, que tentara defendê-la, teve de fazer o mesmo.
Depois de uma longa corrida, chegaram ao fundo, ao fim do fim, um pouco mais longe do que o horizonte.
― Fati, eu gosto de ti.
― Não tens medo dos meus olhos?
― Fati, eu gosto de ti.
Tinham-se sentado frente a frente, à sombra de uma jujubeira.
Fati perguntou:
― Será que fechando os olhos, acabamos com a maldade?
― Não… não se acaba com nada. Se fechares os olhos, nem sequer acabas com as cóleras do mato.
Calaram-se. Issa tomou as mãos de Fati nas suas. Fati tinha dois olhos para ver e chorar. Murmurou-lhe:
― Eles têm medo. Estão cativos do medo que têm, e o medo faz esquecer o coração…
Nesse dia, nesse tempo, que se parecia muito com o tempo de hoje, Fati e Issa tinham o coração ferido como uma velha cabaça.
Levantaram-se e afastaram-se ainda mais da aldeia, talvez para encontrar a fonte dos quatro ventos do céu, aqueles que fazem as mesmas cócegas em todas as cores do mundo.
Muitas estações das chuvas deram lugar a muitas estações secas.
E ontem, na aldeia, um grande pássaro negro pousou na bela árvore vermelha florida. Era um calau.
Um calau negro de olhos azuis. Sim, negro de olhos azuis! Todos o acharam belo.
Este calau era um sinal. Logo que parou na grande árvore da aldeia, Fati e Issa chegaram.
Fati sorria tal como Issa. Foi ela quem disse:
― Bom dia, estávamos tão longe há tanto tempo… eis-nos aqui, os dois.
― Bom dia!
― Bom dia…
Foram muitos os que lhes ofereceram a água das boas-vindas.
No dia seguinte, Issa começou a construir a cabana deles.
Tal como acontecera com os pais deles, foi na sua aldeia que tiveram os filhos.
E foi assim.
Foi o quimbanda quem mo disse.


Yves Pinguilly, Florence Koenig
La couleur des yeux
Autrement Jeunesse, 2001




14/06/2009

O Senhor Brecht


O desempregado com filhos
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.

O homem mal-educado
O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.
Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.
No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.
Todos aguardavam.
A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.
O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça.
Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado. Mas não conseguiram.
Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.

Avaria
Por um curto-circuito eléctrico incompreensível o electrocutado foi o funcionário que baixou a alavanca e não o criminoso que se encontrava sentado na cadeira.
Como não se conseguiu resolver a avaria, nas vezes seguintes o funcionário do governo sentava-se na cadeira eléctrica e era o criminoso que ficava encarregue de baixar a alavanca mortal.

O labirinto
A cidade investiu tudo na construção de uma imponente catedral. Ouro, pedras trabalhadas, tectos pintados pelos grandes pintores do século.
Para a valorizar ainda mais decidiu-se dificultar o acesso. O que se atinge com facilidade deixa de ter valor, filosofava com esforço um determinado político.
Construiu-se então um labirinto que era o único meio de chegar à catedral. O labirinto foi tão bem feito que nunca ninguém conseguiu encontrar a passagem para a catedral.
O labirinto transformou-se na grande atracção da cidade.

O mestre
O mestre mais importante da cidade queria desenhar uma circunferência, mas errou e acabou por desenhar um quadrado.
Pediu aos alunos para copiarem o seu desenho.
Eles copiaram, mas por erro, desenharam uma circunferência.

Os sábios
Uma galinha, finalmente, descobriu a maneira de resolver os principais problemas da cidade dos homens. Apresentou a sua teoria aos maiores sábios e não havia dúvidas: ela tinha descoberto o segredo para todas as pessoas poderem viver tranquilamente e bem.
Depois de a ouvirem com atenção, os sete sábios da cidade pediram uma hora para reflectir sobre as consequências da descoberta da galinha, enquanto esta esperava numa sala à parte, ansiosa por ouvir a opinião destes homens ilustres.
Na reunião, os sete sábios por unanimidade, e antes que fosse tarde demais, decidiram comer a galinha.

Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Brecht




08/06/2009

O Caixão do Molhado



SÔ BELARMINO MOREIRA nasceu na cidade do Porto, cidade que ele nunca nomeava pela designação oficial, mas pela carinhosa de «Invicta». O feliz acontecimento que o trouxe ao mundo aconteceu em 1918, num dia que culminava uma semana inteira de chuva ininterrupta na Península Ibérica e arredores. Por isso o rio ameaçava galgar todos os muros e obstáculos que ao longo da Ribeira as pessoas tinham acumulado à força de braços e também dos músculos dos mulos, para evitar a inundação. Trabalho insano e praticamente inútil, pois no momento em que a mãe o empurrou para a vida ao ar livre, Belarmino escapou às mãos cansadas da parteira e mergulhou pela primeira vez na água do Douro, que por essa altura já subia a vinte centímetros no chão da casa. Por isso o seu primeiro nome não foi Belarmino, como o conheceremos mais tarde, mas «Molhado», como lhe chamaram sempre na cidade natal. O pai, vagamente adepto da Maçonaria e declaradamente anticlerical, arranjou no facto pretexto para não permitir que fosse baptizado, já lhe chegava de águas, coitadinho, que mal saiu do calorzinho aconchegante do ventre materno logo mergulhou no Douro castanho e gelado.
Muito mais tarde falaria sempre a brincar do seu primeiro nome de Molhado. Mas descrevia com supersticiosa reserva, já muito a sério, a primeira visão que teve de uma outra cheia do Douro, aos quatro anos de idade. A visão que para sempre o marcou foi a do cadáver de um homem a passar no rio que corria, inchado, à frente da sua casa. Sempre associou as cheias do Douro a esse instante de mudo terror. E registou, com notável precisão, o infortúnio desmedido de se passar silenciosamente à frente de uma cidade, sem um caixão que resguardasse a face morta e pálida dos curiosos olhares dos outros.
Quando o Molhado tinha cinco anos, o pai partiu para Angola, tentar a sorte. E quatro depois, seguiu a família, ele, a mãe, e três irmãos. Para trás ficou definitivamente o Douro e suas cheias. E quando lhe perguntavam na escola de Luanda de onde tinha vindo ele respondia sempre da Invicta, pois claro. Viveu no alto da Boavista, num sítio onde havia poucas casas e piores estradas, sobretudo quando chovia. Deste sítio do outro lado do mundo também via água ao sair de casa. Só que esta era do mar e contida numa calma e belíssima baía azul com coqueiros e palmeiras à volta. Se apaixonou pela diferença de cores e nunca mais quis mudar de sítio. E, por morar na Boavista de Luanda, se tornou adepto ferrenho do clube de futebol Boavista, do mesmo nome mas do Porto.
Casou, teve filhos, duas meninas, e um bom negócio de vendas diversificadas, desde chouriço e roupa a materiais de construção. Ficou viúvo, casou as filhas, começou a preparar a retirada dos negócios. Mas veio a Independência e os genros pegaram nas famílias e abalaram para a África do Sul, os olhos cheios de estranhos medos provocados por vagos remorsos. Ele nada tinha a temer e gostava da vista da baía, por isso ficou. No entanto, nunca mais pensou em reforma, pois deixara de ter quem lhe continuasse os negócios. Só fechou a loja no dia da independência, não por medo mas porque era dia demasiado importante para não ser comemorado de alguma maneira. Aliás, tudo na cidade estava fechado, excepto os hospitais, que recebiam os feridos da guerra que troava ameaçadoramente ao lado. Mas no dia seguinte à independência abriu as portas da loja às oito horas, como durante trinta anos fizera.
Algum tempo depois da independência, atingiu os sessenta anos de idade. Era altura de pensar na vida. Ou melhor, na morte e suas inconveniências. Ouviu uma conversa na loja que o deixou a matutar. Se falava da dificuldade cada vez maior de arranjar madeira para qualquer coisa que fosse, sobretudo para as obras. Os clientes aliás se referiam a construções, pois vinham procurar os materiais no «Canto do Belarmino». Era assunto muito falado na época o facto de a indústria ter enorme dificuldade em providenciar os caixões para os funerais. Se chegou mesmo a um ponto de só certos privilegiados irem a enterrar dentro de caixões seus, pois a maior parte ia embrulhada em lençóis e alguns em caixões alugados, que em seguida eram desenterrados para servirem outros clientes. E foi isso que o preocupou mais. Entrava numa idade em que um acidente do coração acontece a qualquer momento. Ou se não for o coração é outra coisa qualquer. E se vivo já seria difícil arranjar, muito mais complicado seria procurar caixão depois de morto. Porque o aterrorizava a ideia de atravessar a cidade até ao cemitério de cara descoberta, escancarada a privacidade de defunto, como aquele afogado do Douro que para sempre o tinha marcado. Foi ali mesmo e naquele momento, ao ouvir as lamúrias dos clientes, que resolveu providenciar imediatamente o seu próprio caixão, para evitar futuras complicações.
Entrou em contacto com um conhecido de Cabinda que lhe enviou a madeira suficiente. E desencantou pano preto num canto do armazém. Pregos não foram problema, felizmente tinha havido uma importação recente e ainda lhe sobravam muitos na loja. Com todo o material necessário, encomendou um modesto caixão num marceneiro. Este lamentou que ele quisesse um tão simples e não um mais sofisticado, como tinham tempo poderia arranjar uns ornamentos e até uns baixos relevos que ficam sempre bem. Só Belarmino não queria luxos, nada disso, homem, o simples é sempre o melhor, se não vivi com luxos não será na morte que os vou levar. Pronto o caixão, carregou-o para casa. E ai se pôs o problema de onde o guardar. Resolveu rapidamente a questão. O mais prático era colocá-lo em baixo da cama. Se morresse na cama, seria mais fácil para quem se encarregasse de o enfiar dentro da urna, estaria mesmo ali à mão. Se não morresse na cama, de qualquer modo nela o deitariam para o velar. E portanto depois do velório despachariam facilmente o assunto, com o caixão prontinho para ser usado.
Durante duas noites, é preciso reconhecer, teve dificuldades em adormecer, sabendo o caixão em baixo dele. Mas depois se habituou à ideia e até o esqueceu. Quem não podia esquecer era D. Maria, a empregada que lhe limpava o quarto e que de vez em quando tinha de varrer em baixo da cama, para isso sendo obrigada a afastar o caixão. Supersticiosa como todos os vizinhos do bairro Sambizanga, se benzia sempre que tinha de fazer a operação para ela considerada macabra. E nunca ganhou hábito. Muitas vezes comentava com os familiares em casa, o raio do meu patrão não regula bem, essa mania de dormir em cima do caixão é de maluco. Provocava sempre discussão, pois o marido defendia a ideia de Só Belarmino, esse branco tem masé muito juízo, assim não dá trabalho a ninguém quando bater as botas. E vamos aproveitar depois o caixão para outros óbitos. O que provocava a revolta da esposa, isso é que eu não vou deixar, antes de enterrar vou partir o caixão dele, assim ninguém que lhe pode mais usar, coitado do meu patrão, lhe tiram a cama e lhe atiram no buraco só à toa para aproveitarem o caixão?, não vou deixar, não, ele tem essa ideia maluca mas é bom branco. A cunhada Deolinda defendia o irmão, aproveitamos sim o caixão, pelo menos a madeira que está cara, enquanto o filho mais velho apoiava a mãe, não se faz isso a Só Belarmino, ele sempre nos ajuda quando pode e a discussão generalizava naquela família do Sambizanga, conhecido centro de conspirações e murmúrios.
Os anos passaram e acabou tudo por entrar no cinzento dos hábitos. D. Maria ainda resmungava com essa ideia maluca quando limpava em baixo da cama, mas já nem comentava em casa. E só Belarmino acabou por esquecer mesmo o caixão, que ele nunca via, pois também já nem o penico usava, último pretexto que poderia levá-lo a martirizar a coluna para espreitar o sítio e deparar com o objecto.
Na vizinhança morreu entretanto o Armindo e tempos depois a viúva Mariana aligeirou o luto. Amigos antigos, só Belarmino apoiou muito a família do falecido, quer no funeral e correspondente komba, quer no que se seguiu. E um dia olhou para Mariana a entrar na sua loja e a viu não como a esposa de Armindo ou como a viúva recente de Armindo. A viu apenas como a mulher que era, uma senhora mulata de meia idade, farta de carnes e com um sorriso aberto, se queixando muitas vezes de dores nos peitos generosos. E ele pela primeira vez pensou com malícia que a dor no peito não era devida a qualquer doença mas sim a que os seios ficavam demasiado apertados nas blusas e soutiens que ela era forçada a usar e que os peitos deviam constituir um verdadeiro espectáculo quando se soltavam triunfantes de tantos espartilhos. A garganta do portuense até ficou seca e não atinou com a prateleira onde tinha o pano que ela desejava comprar.
Aquela secura na garganta foi coisa que não mais perdeu quando lembrava Mariana. E já perto dos setenta começou a fazer contas à vida. Sobretudo a achar que a solidão era o pior dos males e que nenhum homem tem o direito de se comprazer nela. O problema era como fazer para realizar o desejo tão cuidadosamente escondido. Um homem de setenta anos não faz a corte a uma viúva como um miúdo o faz a uma colega de escola. E como será afinal? Tinha muitos amigos ali no bairro, mas a vergonha era demais para abrir o coração e apontar as dúvidas a alguém, pedindo conselho. Nem nas noites de muitos copos e jogos de cartas, quando o último amigo ficava para beberem juntos a : cerveja da porta, hora própria para todas as confidências.
O que tinha de suceder acabou por acontecer da maneira mais natural. Mariana a entrar na loja e a brincar com ele, dizendo que estava cada vez mais jovem, mais rijo. E ele a replicar que ainda estava rijo, sim, mas já não como nos tempos passados em que parecia uma goiabeira, nem tinha muita razão para resistir ao tempo, pois se sentia cada vez mais sozinho, ao que ela respondeu isso é que está errado, o compadre tem de arranjar uma companhia, mulheres é o que não falta nesta terra despovoada de homens pela guerra e ele dizendo que também não era assim, difícil seria encontrar alguém que quisesse um velho caquéctico, mas caquéctico coisa nenhuma, compadre, está aí ainda para muitas curvas, o que era apenas bondade dela e na brincadeira, pois se ele lhe propusesse agora a sério que juntasse os bancos dela às cadeiras dele, aí é que a porca torcia o rabo e lhe dava uma valente berrida que ele até ia parar ao porto de Luanda, mas não deu berrida nenhuma, sorriu antes com os dentes todos e o farto peito inchou que parecia ia explodir, mas está a falar a sério, compadre, isso é mesmo uma proposta, que nunca tinha falado tão a sério, há muito tinha pensado nisso porém não arranjava coragem de lho dizer, provocando nela um imediato movimento de pura alegria. Assim foi dito, feita a proposta e imediatamente aceite, sem falsos pudores ou aiués que ainda tenho de pensar. Como eram gente de muita consideração e respeitadores dos bons costumes, decidiram no entanto que só juntariam os trapos a sério depois de casados. Primeiro tinham de avisar as respectivas famílias, as quais não deviam se importar muito aliás, sendo eles viúvos e com idade suficiente para decidirem sozinhos sobre como queimar os poucos anos de vida que lhes restavam.
O casamento foi preparado com todo o cuidado. Por essa altura já a Boavista estava cheia de casas e de barracos, juntando muitos refugiados de guerra e outra população expulsa das pequenas cidades. Só Belarmino era muito conhecido e D. Mariana também, moradores antigos da zona, de muito antes de ali aparecer um mercado mundialmente conhecido chamado Roque Santeiro, considerado, com razão ou sem ela, o maior de África a céu aberto. Isto para dizer que duas figuras destas não podiam casar quase clandestinamente, sem uma festa que juntasse centenas de pessoas comendo e bebendo do melhor, mesmo com todas as carências que a cidade vivia. Por isso os preparativos demoraram mais que o desejado. Fosse da excitação pelo dia se aproximando, fosse do muito trabalho que teve nos aviamentos, o certo é que Mariana se queixava todos os dias de forte dor no peito inchado. E só Belarmino, passada a timidez inicial, lhe segredava ao ouvido, vais ver que essas dores passam logo na noite de núpcias, vou desenterrar sabedorias antigas e quase esquecidas. E mais malandramente ainda, para a fazer ruborizar, finalizava, esses peitos doem porque estão a pedir para serem chupados, o que não acontece há muito tempo. Ai filho, que ordinário, se desfazia ela toda em melados requebros e não menos malandros olhares de promessas.
Ficou célebre na história da Boavista o casamento de Belarmino, alto e seco, de cor branca mas enferrujada pelo muito sol apanhado na pele, com a esplendorosa Mariana, mulata alegre e prazenteira que gostava de andar descalça na rua. Se comeu e bebeu o dia inteiro e toda a noite, num terreiro preparado nas traseiras da loja. E os noivos fugiram a meio da noite para casa dele, onde passariam a residir, ficando a casa dela para os filhos já casados e sempre com falta de espaço, pois não paravam de provocar barrigas a inchar.
Com a sua gentileza habitual, Belarmino deixou o quarto para a noiva se preparar e deitar, ficando ele na varanda a fumar o último cigarro e ouvindo os rumores da festa que acontecia ali perto. Se preparava para entrar no quarto e enfrentar os deveres da noite de núpcias quando um grito lancinante feriu a noite. Correu para saber o que sucedia e encontrou a noiva deitada no chão do quarto, um braço por cima do caixão que aparecia debaixo da cama. Aparentemente, ela deu com a existência da coisa e puxou um pouco para fora para saber de que se tratava. O susto pela descoberta macabra acabou com o seu coração enfraquecido. Quando Belarmino chegou até ela, já a vida se tinha irremediavelmente esfumado pelos olhos abertos.
Mariana foi a enterrar no caixão que o desconsolado marido encomendara dez anos antes para si próprio.
Vale a pena acrescentar que, depois de enterrar duas esposas, e uma delas com menos de um dia de casamento, só Belarmino ultrapassou definitivamente o trauma de criança e disse para si próprio, que se lixe se passar pela cidade de cara descoberta mas outro caixão é que não arranjo, pois tanta previdência pode não ser prudência.


(in «Porto. Ficção», Edições Asa, Porto, 2001)


07/06/2009

O nome gordo de Isidorangela


Isidorangela era o nome da obesa moça. Nome gordo, ao travar da pena. Na rua, na escola, ela era motivo de riso. E havia razão para chacotear: a miúda sobravade si mesma, pernas rasas arrastando-se em passitos redondos e estofados. Para mais, um sorriso tolo lhe circunflectia o rosto. Ela e o planeta: dois círculos concêntricos. O “Monumento”, assim lhe chamávamos, nós os rapazes, era homenagem ao seu tamanho vasto e demorado.
Como pedra no charco, Isidorangela fazia espraiar uma onda de zombaria. Mas rir declarado e aberto ninguém podia, a moça era filha do presidente da câmara, Dr. Osório Caldas. Como meu pai dizia, o homem era a autoridade. “O nosso chefe”, assim era mencionado lá em casa. Meu pai reverenciava o presidente Osório como se dele dependessem os destinos do mundo. A minha mãe muito se apoquentava com tanta deferência, o presidente Osório isto, o chefe Osório aquilo.
- Poça, homem, até parece devoção estranha, coisa de amores homosensuais...
- Tenho pena dele, Marta. Pobre homem, deve sofrer com aquela filha.
Todo o fim do mês, o presidente levava Isidorangela ao baile do Ferroviário, mas ninguém nunca a convidara para dançar. Os outros bailavam, rodopiavam corpos, entonteciam corações. As moças passavam de mão em mão, todas bailadas, estontecidas. Só Isidorangela ficava sentada, chupando um interminável algodão-doce. Ela mesma parecia um algodão-de-açúcar, com seu vasto vestido de roda, toda em pregas rosáceas.
À medida do tempo, meu pai crescia em seus submissos modos, todo manteigoso e sempre arquitectando cumprimentos e favores. Minha mãe perdia paciência:
- Um dia ainda se casa com esse seu presidente!
E rematava: nunca pensei ter ciúme de um homem! Meu velhote devolvia sempre a mesma resposta. Nós, sendo mulatos, tínhamos sorte em receber as simpatias do chefe. Até uma promoção lhe havia sido prometida. Os pequenos esperam olhando para cima. Nem eu sonhava a quanto levaria meu pai esse desejo de agradar ao chefe.
Naquela tarde, de inesperado, ele me deu ordem que me penteasse, podendo até usar a sua brilhantina.
- Mas vou aonde, pai?
Não obtive esclarecimento. Meteu-me em roupa de estreia, escovou-me o casaco e me conduziu por entre as magras ruelas de nossa pequena cidade. À porta da residência - os pobres têm casa, os ricos têm residência, explicou-me meu pai - ele me mandou descalçar os sapatos.
- Vou entrar descalço, pai?
- Qual descalço? Vai é calçar estes.
Numa bolsa, ele trazia uns sapatos novos, sem vestígio de poeira. Nem eu nunca havia calçado sapatinhos tão pretos. Mal os coloquei me queixei, sofrido, que apertavam.
- Pois encolha os pés, você tem muita mania de se esticar- advertiu meu pai.
No seguimento, tocou à campainha com respeitos tais que seu dedo mal roçou o botão.
- Não chegou a tocar, pai - avisei.
Tocara, sim, eu é que não ouvira. E explicou, pronunciando um português que eu nunca escutara: aqui, nas residências finas, todo o mínimo é logo um barulho. E que eu nunca ruidasse enquanto em visita aos Caldas. E puxasse lustro ao meu melhor lusitano idioma.
Esperámos um infinito. Meu pai recusava-se a insistir. Os sapatos apuravam apertos sobre meus dedos. Eis que, enfim, uma cortina se move lá dentro e Dona Angelina espreita à porta. Entrámos, cheios de vénias, meu pai falando tão baixo que ninguém o conseguia entender. Angelina, a distinta esposa, nos fez entrar pelos salões recheados de mobílias e bugigangas. Instalado numa poltrona, o presidente pouco nos anfitriou. Um displicente aceno para meu pai e, de novo, o olhar recaiu sobre um jornal. A dona de casa explicou: o Dr. Osório estava acabando umas palavras cruzadas, havia que terminar antes que a energia eléctrica fosse. Sim, daí a pouco a tarde se adensaria e a luzinha fosca do petromax não seria suficiente para terminar o passatempo favorito do presidente. E que havia o excelentíssimo encalhado em original palavra: “cabala”. Com seis letras, exactamente.
- Cabala?! - perguntou meu pai, todo atrapalhaço. E dirigindo-se para mim: - Ainda ontem não vimos essa palavra na revisão dos seus trabalhos?
E eu, de mim para ninguém: com certeza, a fêmea do cavalo. Reando que meu pai não me forçasse a dar o explicado do vocábulo.
- Passemos ao salão para aproveitar o tempo - disse Dona Angelina.
No salão estava o “Monumento”: Isidorangela, envolta em seu vestido rosa. O que mais me surpreendeu: em sua mão continuava, hasteado, o pauzinho envolto em açúcar em rama. Aquilo me deu uma volta: algodão açucarado era a minha perdição. Come conseguia Isidorangela ter aquela guloseima em sua casa? Não era coisa exclusiva das feiras e quermesses;
- Então, lã vou animando a música - anunciou a esposa do presidente.
Uma espécie de valsa preencheu o vasto silêncio da sala.
- Vá, convide Isirodangela para voltear.
A palavra soou-me como obscena: voltear? A minha cara devia ser o lastimoso retrato da parvoíce brilhantina escorrendo sobre a testa, sobrolho denunciando o aperto nos pés e uma constrição do lábio superior em cobiça do algodãozinho. Um ma disfarçado empurrão de meu velho me colocou no caminho da gorducha. Nos braços do “Monumento a melhor dizer. Então era isso, meu pai queria passar uma graxa no chefe e me usava nesses psiquiátricos desígnios de descomplexar a gordona?
Me deu uma raiva tal que, quando enlacei Isidorangela, ela até vacilou, em desequilíbrio. Quase caiu sobre mim e o pauzinho de algodão ficou como bandeira arriada entre os nossos rostos. A tentação contrastava com as minhas penas e dei por mim dizendo:
- Vou-lhe dar uma dentada.
- A mim? - a gorducha aflautou um riso nervoso.
A gula venceu-me e, língua em riste, desmanchei aquele castelo de doçura enquanto arrastava a volumosa criatura pelo soalho encerado. Acreditando que a queria a ela, Isadorangela fechou os olhos e se inclinou disposta e disponível. Meu pavor era ela escorregar e desabar, em desamparo, sobre mim. Fui rodando pelo salão, entre a agonia dos pés e o deleite dos açúcares desfazendo-se-me na boca.
Num desses passos, reparei com surpresa que meu velhote e Angelina também dançavam. No cadeirão afastado, o presidente cabeceava ensonado. E, de repente, o que descobri? Coração apertando-me mais que os sapatos, vi as mãos de Angelina se entrelaçarem, em ternura esquiva, nos dedos de meu pai. O disco girando no gramofone, as luminações desmaiadas do petromax, a rodopiação da gorda, tudo isso me embalou em tontura. E já não havia algodão-doce a não ser no rosto de Isidorangela. Um impulso irresistível me fez linguar aquela réstia de doce. A moça entendeu mal a lambidela. E eu senti nela, estranhamente, um odor suado que era, afinal, o meu próprio e natural perfume. Senti o cabelo dela, encarapinhado, por baixo da lisura aparente. E olhando, quase a medo, revi sob o seu redondo rosto a ruga de família, o sinal que eu acreditava ser obra exclusiva da minha genética.
Quis ofuscar-me do mundo, em desvalência. Mas já os dedos de Isidorangela entrançaram os meus, com igual volúpia com que sua mãe ia apertando meu velho pai. Num sofá obscurecido Osório Caldas ia descruzando palavra enquanto cabeceava, pesado, sobre um velho jornal.


Mia Couto, In O Fio das Missangas



04/06/2009

A gaivota que não queria ser



Era uma vez uma gaivota que gostava de ser pomba.
Dizia ela que as gaivotas não servem para nada, ao passo que as pombas sempre servem para alguma coisa.
— Levam cartas, mensagens, avisos de um lado para o outro — explicava ela às outras gaivotas. — São as pombas ou os pombos-correios.
— Também há quem as cozinhe com ervilhas — interrompeu-a uma gaivota trocista.
— Essa serventia a nós não nos interessa — arrepiaram-se as outras gaivotas, que voaram, alarmadas.
Ficou sozinha a gaivota que queria ser pomba. Servir de cozinhado também não estava nas suas ambições, mas à falta de outro préstimo… E pensou: “Gaivota estufada”, “Gaivota de cabidela”, “Gaivota guisada com batatas”…
Realmente, não lhe soava bem. E menos bem devia saber, porque nunca lhe constara que os humanos, de boca aberta para todos os gostos, tivessem incluído tais receitas nos seus livros de cozinha.
A gaivota que queria ser pomba ficou a olhar o mar. Ia abrir as suas asas para as lançar sobre as ondas, à cata de peixinho para o almoço, quando um estranho torpor lhe tomou o corpo. Deteve-se. Encolheu-se. Tapou a cabeça com uma asa. Aquilo havia de passar.
As outras gaivotas, que há pouco tinham debandado, regressavam à praia, apanhadas pelo mesmo entorpecimento que atingira a gaivota desta história.
Formaram um bando tiritante, rente ao mar. Umas, levantadas numa só pata, outras escondidas numa cova da areia, olhavam as águas esverdinhadas, espumosas, como turistas descontentes com a paisagem.
— Estão as gaivotas em terra — disse uma voz humana, abrindo uma janela, junto à praia. — Vai haver tempestade. Sendo assim, já não me arrisco a ir para o ar.
De facto, quando as gaivotas ficam em terra, os pescadores sabem que o tempo vai mudar. Elas é que dão o sinal. Elas é que sabem. Elas é que pressentem quando a tempestade se aproxima.
“Afinal, sempre tenho alguma utilidade”, pensou a gaivota que queria ser pomba, toda enrolada numa bola de penas, e, daí em diante, preferiu continuar a ser gaivota.


António Torrado



O nosso país é bué


QUANDO MIÚDO LITO irrompeu pela casa, feito bola de futebol a entrar na baliza do Primeiro d'Agosto, como ele gostava de ver no estádio da Cidadela, a mãe assustou, que passa, que passa? Eram tempos difíceis, qualquer notícia podia trazer uma tragédia, qualquer cor¬rida podia significar perigo, qualquer grito significar agonia.
— Esse país é bué, mãe, esse país é bué!
Dona Fefa bem conhecia os entusiasmos repentinos do filho pelo país, aprendidos nos livros da escola, embora contrariados constantemente na rua. Desta vez ele vinha daí mesmo, da rua, se espantava ainda mais ela por tanto patriotismo. Parou de mexer a colher de pau na panela do feijão com óleo de palma, limpou as mãos ao avental, disse com voz cansada, explica então como esse país é bué, que mentira mais te pregaram? Que não era mentira, não, ele tinha visto mesmo, mãe, petróleo a sair no chão, aí no quintal de Dona Isaura.
— Deixa de brincadeiras, não vês estou a trabalhar?
Miúdo Lito se encostou na parede mal rebocada da cozinha, onde se notavam, entre os bocados de barro seco, os troncos tortos de mandioqueira que seguravam a construção precária. Encolheu os ombros. Falou mais baixo, mas ainda entusiasmado:
—Vi o petróleo a sair assim do buraco que eles cavaram no chão, mãe. Afinal tinham tapado aquele bocado com esteiras, nem nos deixavam entrar lá no quintal. Era para esconder o buraco que andavam cavar. Mas hoje se distraíram e eu entrei com o Pedro. Vi o buraco. Dona Isaura estava a receber o balde em cima, o pai do Pedro estava lá dentro do buraco. Quando me viram berraram bué com o Pedro, que ninguém que podia entrar no quintal, se ele não sabia já... Depois me pediram muito não conta embora a ninguém.
— E já me estás a contar a mim, ralhou Dona Fefa, seu fofoqueiro.
— Mas a senhora é minha mãe, posso contar. Até porque também vamos cavar buraco no quintal. O Pedro me disse que depois vai vender em garrafas na rua, como os outros estão fazer. Esse petróleo que serve para os candeeiros que agora se anda a comprar no Roque Santeiro, afinal não vem da Sonangol, está vir mesmo do chão.
Dona Fefa estava estranhar. Lito não era mentiroso e se dizia que tinha visto é porque era verdade. De facto já ouvira falar, no mercado Roque Santeiro vendiam petróleo para candeeiro mais barato que o tabelado pelo governo. Mas então a amiga Isaura se metia em negócios desses e nem lhe dizia nada? Sim, o kandengue fez bem em contar. Julgava ela que conhecia os amigos... Quando cheirava a dinheiro no ar, logo entravam os esconde-esconde, para não se perder negócio. Então Dona Isaura, quase vizinha, que só escapou ser comadre porque a menina morreu à nascença, ia lhe convidar para ser madrinha do segundo filho, essa mesma Dona Isaura que conhecia desde que se instalaram no bairro na altura da Independência afinal agora esqueceu a amizade e guardou segredo de que havia petróleo no quintal dela, hum, hum, não se faz a uma amiga! De facto havia esse cheiro que aparecera de repente no bairro, parecia vir de todos os sítios ao mesmo tempo. Julgava que vinha da refinaria, às vezes eles faziam umas limpezas e deitavam os líquidos à toa, até para o mar. Afinal vinha dos quintais vizinhos e era a prova do que dizia Lito. Mas se no quintal de Dona Isaura há petróleo, não quer dizer que aqui também tem, era Dona Fefa a querer duvidar ainda de uma sorte demasiada...
— Mas tem sim, mãe, tem em todos estes quintais da zona. O pai do Pedro também soube pelos vizinhos e pelo cheiro que vinha do lado. Todos andam a cavar, só que estão a esconder, têm medo do governo.
A prudência da mãe desconfiou de tanta fartura, se têm medo do governo é porque estão a fazer coisa má, o que não era no entanto certo, argumentava o miúdo ainda entusiasmado, só têm medo porque a polícia vem e fecha os poços à toa, ou a polícia pede gasosa demais. Logo veio acima o nacionalismo de Miúdo Lito que repetiu este país é bué, aqui nem é preciso refinar. Isso estudei na escola, o petróleo tem de ser refinado ali na Petrangol, só depois pode ser utilizado nos candeeiros ou nos carros ou nos aviões. Mas aqui sai já directo do chão para o candeeiro, não sei se também dá prós carros. E bué mesmo, ninguém que aguenta esta terra.
Miúdo Lito saiu disparado para a rua, com o mujimbo a encher o peito. Dona Fefa ficou a pensar, então a vizinha Isaura vai mandar o Pedro vender petróleo na rua? É capaz de dar bom dinheiro. E que jeito lhe dava, também a ela. Viúva, obrigada a trabalhar de lavadeira para criar o filho, sem mais família na cidade e sem saber onde anda a que deixou no mato, perdida pelas guerras... uns garrafões de petróleo todos os dias podiam ajudar muito. Mas como cavar um buraco no quintal? Ela sozinha? O miúdo podia ajudar, mas não chegava. E para essas coisas não se pode contratar um roboteiro, aproveitam logo nas exigências e acaba por ficar muito caro. Nem dá pedir a um vizinho, não é mesmo coisa que se peça a um vizinho, por muita intimidade que haja. A latrina fora cavada há anos pelo marido e levou muito tempo, pois não é fácil cavar um buraco fundo. E Lito tinha dito que o pai do Pedro desaparecia no buraco para encher o balde, imagine-se a altura do buraco. Abanou a cabeça. Era uma tentação aproveitar a riqueza que jazia em baixo do quintal, lá isso era. E não estava a roubar ninguém, o petróleo estava na terra, era de quem apanhasse. Ou não?
Esperou que o feijão apurasse e foi falar à vizinha Isaura, saber mesmo das coisas, o coração dela estava a doer e mais doía se não tirasse a coisa alimpo. Avizinha que lhe desculpasse o atrevimento, mas o miúdo contou, sabe como são os miúdos, não podem guardar segredo, e o assunto é tão importante que merece mesmo o risco de criar incómodo entre amigos. A vizinha Isaura compreendeu, ficou muito embaraçada no princípio, até estava mesmo para contar à Dona Fefa, só que o meu marido disse, espera ainda mais um pouco para ver se sai alguma coisa, muitas vezes as promessas não se cumprem, mas era verdade mesmo, tinha saído petróleo, a amiga podia vir no quintal ver e cheirar, cheira mesmo a petróleo, logo mais vamos vender na rua e Dona Fefa também devia cavar um buraco, se tornar proprietária de um poço de petróleo, ainda vamos ser uns nababos a andar de Mercedes e fumar charuto, vizinha. Uma gargalhada de Isaura fugiu para as ralas nuvens no céu azul. Dona Fefa tinha dúvidas, e se a polícia sabe? Esse de facto era o problema, os vizinhos que tinham poços clandestinos andavam a discutir muito isso, disse Dona Isaura, porque para uns garimpo de petróleo é proibido, os angolanos não podem ter poços, só os estrangeiros, o que é evidentemente uma injustiça os donos da terra serem afastados dessas riquezas, outros no entanto diziam não, agora já há garimpo livre, não só de diamante mas de tudo, não há mais partido único, nem garimpo único, é a democracia petrolífera. E o que está no subsolo não tem dono. Ainda preciso de pensar bem, rematou Dona Fefa, sozinha como vou cavar, mesmo com o Lito a ajudar? E voltou às suas enegrecidas panelas.
Não teve tempo de tomar uma decisão. Miúdo Lito e os outros miúdos da zona se pássaram o mujimbo e não aguentaram o peso de o reterem, eram tão patriotas que tiveram de o transmitir a vizinhos mais longe, para estes também se congratularem com o país que tinham, de modo que a notícia chegou a uma rádio, depois a outra, a cidade ficou a saber, o país e o mundo. Depois a polícia também soube e veio no bairro proteger a empresa encarregada de tapar os buracos à força, dizendo que afinal andava a morrer gente com explosões e incêndios provocados por esse petróleo que não era petróleo bruto e não saía da terra só assim, afinal antes tinha passado pela refinaria e depois se infiltrado pelo chão vermelho por algum tubo gasto, formando um lençol subterrâneo. Então não ouviram falar de Só Afonso, aquele fazedor de tijolos já velho mas sempre rijo, que morreu numa explosão a acender o candeeiro? Era desse líquido aí, mistura de gasolina com outro produto, um perigo para todos, sobretudo as crianças. Os supostos donos dos poços ainda tentaram resistir aos homens da empresa e aos polícias, até porque agora somos proprietários e não podemos ser tratados como deslocados de guerra sem voz, têm de nos ouvir, a nós, os micrempresários, agentes económicos. Mas as autoridades disseram, esse produto tem dono, saiu da refinaria ou de tubos da refinaria ou de outro sítio qualquer, além disso é perigoso, já morreu gente, portanto, senhores micrempresários, se insistem, chamamos os ninjas, eles sabem dar cabo rapidamente de qualquer resistência à autoridade. Foi o ponto final no garimpo de petróleo, que de facto era gasolina adulterada pela muita ferrugem dos canos. Mais tarde veio a explicação nos órgãos de comunicação social, a refinaria era velha e há muito tempo não tinha manutenção a sério, daí as fugas de líquido.
Miúdo Lito ficou desiludido. Não por ter desaproveitado a riqueza que dormia no seu quintal. Mas porque afinal o país não era assim tão bué como imaginara.


1999 (escrito para a Revista da Sonangol)



03/06/2009

Histórias da Meia Noite

– ... Serra negra, que onde não é pedra é urze e tojo... Tem pouca roupa como os pobres... E no Verão vêm os sóis queimar-lhe as costas, no Inverno, as pedras, que são os ossos, estalam do gelo e o vento canta a moliana a quem não se ativer a uma gabela de lanhiço. Hoje está branca dum camadão de geada, que dá gosto a gente chegar-se aqui à fogueira que ferve o caldo. Os lobos lá andam, a esta hora, batedores de ladeiras, até se desenganarem e descerem aos povoados onde agucem o dente... Está a fazer seis anos, dormi eu na toca dum castanheiro...
– O menino quer freiras? – interrompia a criada velha, farta daquelas bazófias.
Pedro, o filho dos patrões, com os seus catorze anos, tinha já uns modos de homenzinho e dava pouca confiança a velhas tontas. Para não interromper a treta do João Meco, só abanou com a cabeça, que sim. E a velhota, com um punhado de milho na mão, limpou da cinza o granito quente e atirou para a pedra requeimada os grãos que iam abrir em flor branca.
João Meco não perdeu o fi o ao discurso e voltou à história:
– O patrão disse-me assim: amanhã vais ao pinhal da Sancha e marcas o desbaste. Ainda a madrugada não apontava nas tralhiscas, saltei da cama, peguei da roçadoira e ala, fajardo!
– Lá estás tu a rasgar baeta!... – disse o moço dos bois, a entrar na cozinha.
– Não estou, não. Há quem seja mais gabarola do que eu...
– Essa não é pra mim. E olha que trago que contar: vi agora um fantasma. O rapaz da Ilda não podia ser, que o namoro acabou...
A rapariga olhou-o com desprezo e baixou-se para apanhar dois grãos de milho que tinham estoirado. Mas a velha comentou:
– Não venhas já com invenções de tolo...
– Eu?... (E acrescentou com ironia:) Não há fantasmas e almas do outro mundo? Então a mão cortada do Januário?
– Pois sim... Mete-te com a tua vida.
– Nega que contou?
– Nego-te é a ti, diabo negro.
João Meco, interrompido em sua prosa, cortou a discussão:
– Vocês não me dão licença que fale?
– Espera aí, que não abafas.
E voltando-se para a velha, o moço dos bois, com o mesmo sorriso de troça, intimou:
– E a alma do Elias Gordo?
– Nem magro...
– Eu lhes conto... O Januário era um criado cá de casa, antes de vocês. Ora uma certa noite houve mister de ir ao moinho e ali a ti Leonor desafiou uma mocita que também cá estava, para irem as duas com ele ao passeio. Estava uma noite negra, que não se via um palmo à frente do nariz. Iam passadas. Mas não queriam dar parte de fracas. E o Januário começa a moê-las com histórias da meia-noite... A candeia não dava luz, e elas abraçadas uma à outra, de cambulhada, e a rirem pra fingir... A lanterna, negra do fumo, alumiava cegos e só mexia sombras... E ele a dizer que se tinha trazido a luz não era para ver o caminho, que o passava de olhos fechados, mas para os lobisomens verem que era ele e fugirem a tempo. Neste comenos iam a chegar ao moinho e começam a ouvir um grande gemido, que elas as duas ficaram com o sangue coalhado. O Januário sabia o que era, mas fez-se lãzudo. – «Há-de ser o eixo da mó... Torceu com o peso da água... Ou não será?...»
Nem bulia ponta de aragem e quando ele abre a porta do moinho vem lá de dentro um sopro e apaga o raio da lanterna...
– Foi mesmo verdade.
– Ah! santinha! Quem diz que não? Eu estou a rir porque me rio só do que não deve ser... Diz vossemecê.
– E digo.
– Então deixe rir… Pois apaga-se a lanterna e ali a ti Leonor dá um grito e vai para se abraçar à Gracinda. A gente não pode pensar que era o Januário que se queria abraçar a alguma delas... O caso é que a tal Gracinda tinha desaparecido e não podia ter caído ao rio, que havia ali um muro. O Januário viu o caso mal parado e entrou no moinho para encher a taleiga. Nisto, a nossa ti Leonor sente uma coisa a mexer-lhe nas pernas e desalvora aos gritos. Valeu o Januário segurá-la, que ele segurava bem as raparigas, e explicar que era o cão, o Piloto...
que nem ali estava...
– Pois não estava, não. Ri-te, que também há-de haver quem se ria de ti.
– Pois há-de... Mas deixe contar, ah, santinha!... E ele lá traz a ti Leonor pró moinho, mais morta que viva. Mas mal ela entra, sente um puxão na saia. E o Januário a explicar que tinha sido entalada na mó...
– E também não foi verdade que ele saiu de lá com a mão cortada cerce, que toda a gente disse que só podia ter sido com um machado? E ao outro dia alguém viu na mó sinal de sangue? Cala-te lá! Deixa estar a verdade quieta onde ela está.
Valha-te o poder de Nosso Senhor Jesus Cristo...
– Aí está que foram fantasmas ou almas do outro mundo. É esta a sua verdade?... Pois onde as houver, dessas almas, vou eu lá e trago um saco delas. Ah, tiazinha ! Temer é dos vivos, cantés dos mortos!...
João Meco interrompeu, com seu ar de filósofo:
– Eu não acredito em fantasmas... Mas há.
– Não acreditas, mas há? Como isso?
– Há coisas que a gente pode não acreditar, e havê-las...
– Está boa, essa!
– Horas do Diabo, isso há... Então em certas noites, por essas serras, é preciso um homem ser afoito.
– Quando se leva medo é que elas acontecem.
– É certo. Quem anda de noite topa lobo... A quem o dizes. O fantasma da Catraia do Maneta, já eu o vi e não fugi. Lá torcer caminho por fantasmas, nunca fui desses. Nem mais nem menos, oiçam bem esta: – Andava eu de boas conversas com uma rapariga de Eirigo, quando, certa noite, o céu caiu desfeito em água, com um estrebuchar de vento que um homem bàlhava o vira-virou. Mas estava com a tineta de ir e ia mesmo. Pancada feita vai abaixo. Daqui, são duas horas de serra acima, por caminhos onde Cristo nunca passou. Mas fui. Era uma rosa duma cachopa, que até nem tinha perdão se não fosse.
«Ora eu, quando saio aos gambozinos, pego do marmeleiro, que a árvore bem plantada quer a estaca à ilharga. No bolso a sevilhana, e ala, que quem vier encontra firme. Estava uma noite de breu, mais negra que a dos infernos. De bacamarte não era o perigo, que quem mo quisesse apontar tinha de mo chegar ao nariz a cheirar. Quando, ao descer prò rio, pelo meio do pinhal, sinto de repente, por cima da cabeça, o desabar duma carrada de mato. Até me agachei prò chão.
Eh! valente!... E ao mesmo tempo olho pra cima e vejo uma coisa branca a passar-me ao chapéu. Nem pensei no que fazia, já o varapau ia no ar, e sinto uma pancada nas mãos, que o porrete voou-me das unhas. Logo outra na cabeça, que fico espojado no chão. Neste comenos, lá o que era torna a desabar pela rama dos pinheiros abaixo. Aí vem ele. Só podia ser o fantasma do Maneta. O mesmo alvejar do que fosse, até me fez vento à cara. E percebo que era outro corujão que nem um carneiro. Sabem o que fiz? Deixei-me ficar sentado, a rir de mim, que ainda é o melhor que a gente pode fazer em certas ocasiões.
«Está de ver que o pau saltou-me das mãos porque arreei com ele num pinheiro, onde logo marrei com a testa, que foi o murro que me tombou. Agora juntem-lhe uma voz a chamar e a gemer na outra encosta, que era um borrego que o Lambicas tinha perdido no monte, e aí têm como elas se inventam. Se juro que era coruja, juro e torno a jurar. Não que visse o passarolo bem visto. Mas era.
E dizem que as corujas dão azar! A mim, aquela, deu-me sorte... Ou que fosse fantasma... Tanto monta.
– Bazófia é que tu és, João Meco!
– Pois sou... Mas não te conto outra, porque então não tinhas nome pra me chamar.
Na mão de cortiça, a velha oferecia as flores de neve, os grãos de milho abertos na pedra quente.
Pedro começou a trincá-los sem desviar a atenção fita nas palavras do narrador.
– E histórias de franceses?... Sabes alguma?
– Essas são como as das almas penadas. Conta-se sempre mais uma... O menino há-de ir comigo mas é ao rio, ao Poço de Alça-Perna, para me ajudar a apanhar a caldeirinha de oiro, da moira encantada que está lá no fundo.
Pedro, mudo de espanto, abanava com a cabeça, que sim. Mas a velha cortou o sonho:
– Não faça caso, menino.
Nem a ouviu. E João Meco, em sua alta fantasia, voava já fora de tiro.
– Há-de estar numa caverna... O rio, ali, faz um poço que não tem fundo.
Há quem o tenha sondado com cinco cordas de carro, sem lhe chegar ao fim. Já lá desci duas vezes, amarrado com uma pedra ao cinto. Comecei a descer com os olhos abertos, e primeiro só via as raízes das árvores, como cobras negras, e uns peixes pretos que andavam à volta de mim. Depois, a água, mais pra baixo, começou a ser verde e luminosa, com muitas luzes de cor de azul, amarelo, cor de laranja, cor de violeta. E então começaram a sair dos buracos uns peixes grandes, uns brancos, outros encarnados, com olhos que deitavam lume ou seriam de diamantes. As paredes do rio, aí, já eram de pedra negra, com rosas de prata, e a mim parecia-me que, em vez de ir a descer, ia a subir uma montanha de rochedo, com o sol a nascer lá detrás, pois via-se uma grande claridade. E fui dar a uma gruta que tinha na entrada uns degraus que só podiam ser de oiro, e a gruta por dentro era toda de vidro e tinha estrelas a brilharem. Ia eu a entrar e estavam uns lindos cabelos a ondear na água, e uma mão a penteá-los com um pente de oiro fi no. Mas veio uma grande cobra que se me envoltou ao de roda do pescoço, e então dei um puxão na corda, para içarem pra cima. Quando me tiraram da água, já não dava acordo, e tiveram-me morto, estendido na erva...
– Está visto que tu nem com uma pedra ao pescoço...
– Mas enquanto andava lá por baixo, andava bem, como se respirasse o ar...
E ainda lá voltei duma outra vez. Então levei uma faca. Mas não vi nada. O menino pode acreditar que nessa hora é que eu tive medo. (E baixou a voz, como quem confessa um segredo:) Era um escuro como se a água se tivesse tornado em tinta, e um frio, que sentia os ossos a estalarem... Há-de ser este Verão, quando as águas estiverem mais finas, que hei-de lá voltar...
– E eu é que te hei-de amarrar a pedra ao pescoço... – prometeu o moço dos bois.
– Ao cinto – emendou Pedro com ingenuidade.
– Ó menino, pra ele é melhor ao pescoço. E uma mó do moinho.
– Vocês acreditam em almas do outro mundo e não acreditam em moiros, que foi um povo que já houve antigamente? Aí está como é o vosso juízo.
– Tanto sei que há moiras e moiras, que sei que tu és um, e não te deitam a cabeça num cepo prà cortarem e porem-te lá outra melhor...
– Mas tenho palavreado pra te vender numa feira...
– Lá isso és capaz: de enganar alguém... – resmungou a velha.
– A si já não, ti Leonor.
– Brinca com as da tua idade.
– Brincar? Não que elas querem-me logo a sério. Quanto lhe devo do conselho?
– Tenho mais pra te dar. Pagas no fim. E toca a andar, que são horas. Quero deixar a fogueira apagada. Estás a desafiar uma criança pra ir prò rio com cordas, à procura das caldeirinhas de oiro, e não queres que te chamem, ao menos, maluco?
– Eu quero... Se fosse igual aos outros, sem pensar em fantasias, é que era um triste desgraçado. Hei-de desencantar a moira e entrar por aquela porta com ela na minha frente, pra vocês verem o que é uma rainha com o manto de seda e a coroa de lumes... E eu com a
caldeirinha de oiro cheia duma água de onde você bebe um golo e fica logo uma rapariga de dezoito anos, capaz de um fantasma me cortar a mão como ao Januário... E o menino, se descobrir alguma moira encantada, conte-me tudo, que eu acredito. Não acredito é em quem só vê as coisas que toda a gente pode ver... e não arrisca nem um dedo à chuva... Boa noite!...
Veio uma rabanada de vento, quando se abriu a porta da rua. E João Meco saiu para o escuro, a assobiar, feliz e aventuroso, como se, desaparecendo nas trevas da noite estrelada, entrasse, com o seu passo natural, no encantado mundo das grandes maravilhas.


Branquinho da Fonseca, Bandeira Preta