31/05/2009

Estranhos Pássaros de Asas Abertas




Introdução ao Canto V de Os Lusíadas

NAMUTU VIU OS GRANDES PÁSSAROS de asas abertas passarem o cabo que abrigava a baía. Como no sonho de Manikava, o sábio, que via o futuro nas labaredas do fogo e nos intestinos do cabrito.
E Manikava tinha contado, num sonho ele viu mesmo, iam chegar grandes pássaros de asas brancas e dentro deles saia gente estranha, como filhos-formigas brotando de ave morta. Contou no chefe, depois contou no povo reunido na praça da aldeia. O chefe perguntou, isso é um bom sinal dos antepassados? Manikava disse não sabia, mas o peito estava apertado, coração a bater com força. Talvez os antepassados estavam a mandar aviso, cuidado, muito cuidado. Foi na outra lua, Namutu recordou logo.
Agora via os pássaros passarem o cabo, voando por cima da água do mar, como no sonho acordado de Manikava. Pensou em Luimbi, seu único filho, ido com Samutu, o pai, apanhar mel. Correu para junto deles, mas já não estavam no sítio onde tinham ficado. A mulher não daria importância em tempo normal, mas deixara de ser tempo normal. Os pássaros voando em cima da água, tão monstruosos, não podiam ser aves como as que conheciam, podiam trazer perigo a Luimbi, seu único filho. E desconseguia ter outros filhos depois da doença, Manikava lhe dissera ao consultar os búzios. Procurou nas pequenas matas do mel, depois voltou à aldeia, saber se Samutu já tinha voltado com Luimbi.
O gigante suspirava na sua solidão, consumindo-se de amores por Tétis, a ninfa feita deusa na sua imaginação. Tétis a outro pertencia, se as ninfas podem ter dono. Sobretudo, gostava de perturbar os machos, fingindo interesse até os pôr fora de si, para depois se subtrair aos compromissos não assumidos mas subtilmente sugeridos. Quando via o colosso perto, penteava os compridos cabelos da cor das algas com pentes de coral brilhante, virando-lhe as costas nuas. Se o sentia mais próximo, rodava ligeiramente o corpo, de modo que o halo de um seio se pronunciasse em promessas. E o gigante suspirava, cada vez mais exangue.
A criança estava lá, chupando um favo. Disseram, o marido dela voltou nas matas de mel, pouco tinha encontrado antes, veio à aldeia só mesmo para trazer Luimbi, cansado. Tranquilizada, Namutu pegou no filho ao colo. Depois contou, chegaram os pássaros do sonho de Manikava, estão passar lá na baia. As mulheres espalharam a notícia, grande confusão se estabeleceu, todos querendo ir logo ver. Mas lembraram o aviso de Manikava, cuidado, muito cuidado.
Sem cuidado estava Samutu, todo entretido a retirar um bom favo de um pau já seco. Três seres estranhos se apoderaram dele, lhe agarraram pelos braços e lhe arrastaram para a praia. Um grande medo entrou no peito de Samutu, com o cheiro pestilento deles e o seu aspecto desgrenhado de bandidos. Tremia todo e falava, me deixem, me deixem, só podiam ser espíritos injustiçados vindo se vingar. Ele não tinha feito mal nenhum, homem pacífico, como vinham agora lhe punir? Mas os seres estranhos falavam entre si com gritos e puxavam por ele, os gritos eram numa língua desconhecida. E em breve outros gritos se juntavam aos deles e ele viu, na sua confusão, um barco na praia, como um dongo mas diferente, e os pássaros no meio da água, de asas brancas. Desorientado, não lembrou a profecia de Manikava, só sentia o seu medo batendo no peito e o mau cheiro dos espíritos lhe entrando no nariz. Os que o puxavam pararam junto de outros caras de cazumbi e lhe soltaram. Samutu ficou esfregando os braços, sem perceber o que lhe diziam, a cabeça já atordoada. Então, um de barbas lhe mostrou umas coisas que tinha na mão, pedras brilhando um pouco. E depois apresentou o que parecia pequenos frutos secos e depois pó bem cheiroso, que tapava o cheiro deles.
Parecia os espíritos não gostaram do seu silêncio, mostravam as coisas, pressionavam, olhos ávidos, queriam respostas, isso adivinhava Samutu, mas que respostas e a quê, se nem a língua deles conhecia? Depois eles mostraram uma coisa vermelha e lhe puseram na cabeça. Isso Samutu compreendia, era como um barrete, mas comprido e vermelho, bom para o frio húmido da noite e para o sol quente do dia. E lhe puseram na mão umas missangas coloridas, e ele sorriu, já mais calmo. Se os espíritos lhe davam coisas, então é porque não vinham para se vingar de faltas não expiadas. Eles também riram ao sorriso dele. E todos riam agora uns para os outros, batendo nos ombros deles e nos dele também, em gestos de amizade. A roda à volta de Samutu se abriu e ele compreendeu, os espíritos lhe deixavam partir.
Não hesitou, não olhou para trás. Com o barrete na cabeça e as missangas bem apertadas na mão, andou na direcção da aldeia, esquecido o medo, mas apressado pela vontade de estar entre os seus. Os quais vinham ao encontro, com grandes gestos e gritos de aflição. Estava o dia a declinar.
Se Samutu percebesse a língua dos espíritos, teria entendido o que o chefe de barbas e que lhe mostrava as pedras brilhantes queria, saber se aqueles metais preciosos, ouro, prata, existiam ali, e saber também se ele conhecia especiarias do Oriente. Mas não entendeu também a fala final, deixem-no ir, este não sabe qual é o caminho para a índia, nem se estamos perto ou longe de o achar. Vendo as coisas trazidas por Samutu, os outros queriam ir ter com os espíritos, mas a noite caía e a prudência aconselhava distância. Com o escuro da noite, os cazumbi se transformam, ganham ferocidade, e embora não lhe tivessem feito mal, podiam mudar de atitude, agitados pelos medos nocturnos. Voltaram para o kimbo, as mulheres querendo todas usar o barrete vermelho de Samutu e correndo umas atrás das outras, em grandes risadas. Foi uma noite alegre, pois muito raramente se é visitado por espíritos aparentemente benignos. Só Manikava se mantinha afastado do rebuliço, a fronte enrugada, cismando os seus mambos de adivinho. Tentaria Manikava descobrir quais as intenções de Nzambi, Suku, Kalunga, ou qualquer outro deus, ao lhes mandar seres tão estranhos como os descritos por Samutu?
No dia seguinte, ainda o sol começava a lamber as suaves curvas das colinas sem árvores, já um grupo numeroso tinha avançado para a baía, levando mel, carne seca e cerveja de massango. Ao chegarem perto da praia, viram os pássaros parados em cima da água. E logo os espíritos estranhos lançaram um dongo à água e vieram alguns para a praia. Espantoso, aqueles pássaros até dongos tinham dentro deles e muitos espíritos. Isso comentavam as pessoas na praia. Viram como vinham vestidos os cazumbis, morrendo de calor debaixo de grossas roupagens todas empapadas de suor. Estranhos mesmo esses cazumbi, como devem afinal ser os espíritos dos defuntos, que nunca tinham antes visto assim tão claramente. Não fugiram quando o batel acostou e os espíritos saíram lá de dentro, expondo na areia panos e barretes e missangas coloridas. Cada um dos da terra apanhou qualquer coisa, com grandes gargalhadas e gestos de alegria, as mulheres chegando mesmo a ensaiar passos de dança. Os espíritos recolheram o mel, a carne seca e a cerveja de massango, embora alguns se mostrassem desconfiados em relação à bebida. Os da terra fizeram o gesto de beber e esfregavam a barriga, sorrindo.
Os espíritos do mar mostraram de novo as pedras brilhantes e as especiarias, mas os da terra não reagiram a elas, não as conheciam. Os do mar falavam na sua língua de espíritos, os da terra falavam as suas línguas de pastores de bois, mas ninguém se entendia. Pouco importava, havia sorrisos em muitas faces. Entre as nuvens, o colosso Adamastor avistou Tétis esvoaçando por cima das águas da baía, sozinha, nua como deve voar uma ninfa que sabe ser desejada. Mergulhou para ela, se não o queria a bem seria a mal, uma ninfa não pode resistir eternamente a um colosso. Mas Neptuno viu, lá do fundo dos mares. E mandou ondas de três rebentações prevenirem Tétis. Ela percebeu o aviso e mergulhou mesmo a tempo de escapar às garras cegas de paixão que o colosso para ela estendia. As vagas de três arrebentações continuaram o seu percurso e provocaram uma calema. Kianda ficou com raiva, ali, naquelas águas só Kianda podia agitar as profundezas e criar calemas. Quem era esse Neptuno para vir ali, no seu reino, provocar o caos? Fez recurso a Nzambi, o senhor de todos os deuses, o que bocejou depois de criar o mundo e os homens. Nzambi não gostou da intromissão de deuses estrangeiros no seu sítio. E saiu da sua milenar letargia, por uma vez intervindo no mundo que criara e esquecera. Assoprou as ondas para o largo do oceano, bradando contra Neptuno, o usurpador. Este respondeu com nova tripla arrebentação e fez apelo a outros deuses do seu Olimpo. Veio Marte furioso e o rude Vulcano. E Vénus, mas esta tentando com sorrisos e meneios provocantes apaziguar os deuses em desavença.
Eram tais as turbulências na água, tal agitação sem causa aparente, com os pássaros de asas brancas a baloiçarem por cima de ondas que não chegavam à praia, voltando estranhamente para trás, que os da terra disseram entre si, Kianda está com fúria, regressemos para o kimbo. Se afastaram levando as ofertas dos espíritos do mar. E um destes, o mais sorridente, avançou também, enco rajado pelos da terra. Os outros espíritos chamaram o nome dele, Velôje, Velôje, mas não ligou, fez só um gesto para trás. Se afastavam da praia, os da terra todos satisfeitos, o espírito no meio deles, camarada, rindo e gritando sons só entendidos por ele.
Vénus viu o grupo se afastando da praia e voou para ele, por curiosidade ou malandrice, roçando inadvertidamente em Veloso um gesto de saudação. Mas um contacto de deusa, proibido aos homens, embora não percebido, tem sempre consequências imprevisíveis.
O espírito Velôje, de repente, mudou de atitude. Se abraçou à mulher que caminhava a seu lado, tentou abraçar a da frente. Os da terra riram, esse cazumbi é malandro, parece gosta de mulher. As mulheres fugiram, rindo, esse espírito cheira mal, mas não pode ser um espírito porque nos abraçou com um corpo igual ao vosso, só que tem muitos pelos, sua muito e cheira como os mortos. Ninguém se ofendeu com o abuso do Velôje, mas este continuou. E a marcha virou um pandemónio, com o espírito correndo para todas as mulheres e estas fugindo. Até que ele conseguiu derrubar uma e caiu por cima dela, e começou violentamente a afastar os panos de ráfia e ela gritou, já sem rir. O marido puxou pelo espírito e tirou-o rudemente de cima da mulher. O espírito não gostou e puxou por uma faca grande que tinha presa na cintura, uma faca grande, muito grande, olhos arregalados, demente. Os da terra compreenderam então, esse espírito tinha perdido a cabeça e era perigoso. Lhe rodearam, lhe mostraram os porrinhos que traziam e as azagaias, em ameaça. Então o espírito pareceu cair em si e correu para os seus, na praia. Os da terra, no entanto, açulados pelas mulheres agora indignadas, correram atrás dele.
Tétis escapou do gigante mas mandou recado, serei tua mais tarde. O colosso acalmou. Neptuno também reflectiu que pouco adiantava a guerra provocada por Tétis e o seu apaixonado e retirou para as profundezas, mandando Mane e Vulcano para os seus ares respectivos. Nzambi encolheu os ombros, essa acalmia era mesmo o que queria para poder desinteressar-se novamente do mundo.
Só que o seu mundo estava agora agitado pelo roçar da túnica de Vénus num espírito barbudo. Os da terra corriam atrás dele e os seus companheiros no batel e num outro que saiu de outro pássaro, apontaram às caras um paus que cuspiam fogo e dois da terra caíram feridos. Os companheiros pegaram neles e abandonaram os espíritos nos dongos, voltaram para o kimbo, onde Manikava talvez pudesse curar os feridos daquela inesperada doença trazida pelos paus que cuspiam fogo e faziam estrondo. Apesar dos esforços de Manikava, um dos feridos morreu no dia seguinte.
Eu bem dizia, cuidado, muito cuidado, ralhou Manikava. A estória podia ter tido outro fim, melhor ou pior, dizia a si própria Namutu, olhando melancolicamente as contas de vidro que obtivera dos espíritos. Faria uma pequena pulseira com elas. Mas valem mesmo o que brilham?
Outro fim poderia também ter tido Adamastor, que, finalmente vendo Tétis deitada na praia em entrega, ao convite gulosamente acedeu e a ela se abraçou. E ao perceber que num rochedo ela se transfigurava, nele próprio sentiu também as carnes e os ossos virarem pedra. E passarem atrevidamente ao largo dele, imparáveis, os barcos daqueles espíritos indómitos que tiveram o valor de vergar as vontades de deuses. Mas que outros deuses e valores irremediavelmente ofenderam.


Junho de 2oo3
(in «Lusíadas», edição do semanário Expresso, Lisboa)


28/05/2009

A Revelação


O MOLEQUE PAROU DE MASTIGAR. Ficou suspenso, a boca cheia da jinguba surripiada na panela que estalava sobre a fogueira. A voz da mãe repetiu o chamamento:
— Candimba, vem aqui.
O miúdo levantou-se, engolindo rapidamente a massa de jinguba e saliva. Aproximou-se em passo lento, mãos nos bolsos dos calções, cabeça baixa. Mamã me viu roubar na panela e vai castigar? O semblante da mulher aquietou-o. Não tinha os olhos que fazia quando descobria uma falta. Era então para um recado, só podia ser. E ele preferia estar descansado à sombra da mandioqueira, vigiando a mãe: à espera
de uma oportunidade para encher os bolsos coma jinguba.
— Candimba, vai na loja do Só Ferreira. Compra sal até encher isto mesmo.
E a mãe entregou-lhe uma caneca pequena, de mistura com algumas moedas que tirou da dobra do pano. O miúdo recebeu as moedas, enfiou-as nos bolsos dos calções. Com a caneca na mão, perguntou, aborrecido:
— Sal cabou, mamã?
— Se te mando! Mania só de fazer perguntas! Vai depressa, hein? E volta logo. Não te quero ver com esses vadio da rua que não trabaia nada. Se t'apanho a jogar à bola chapo-te mal. Toma conta!
— Posso tirar um bocadinho? Só pra provar. ..
E o menino olhava gulosamente para a jinguba descascada, repousando num tabuleiro de folha. Em seguida, a mãe deitaria os bagos na panela de açúcar em calda, mexendo com a colher. Depois de deixar secar, dividiria em pacotinhos de papel de seda que o miúdo venderia na cidade. Cinc'ostões cada um, gritaria Miúdo Candimba pelas ruas. Quando já está distribuída pelos pacotes não há possibilidades de petiscar. Tá tudo bem contado, mamã confere o dinheiro, topa logo se falta. Agora era a última ocasião de poder saborear a jinguba. Por isso os olhos luziram quando entendeu a resposta:
— Bom, tira uma mãozada. Mas anda depressa, tás ouvir?
Candimba encheu os bolsos precipitada¬mente, saiu a correr. Passou uma tangente na cerca de Dona Joana — essa gorda que só fala mal dos outros — meteu pela rua esburacada, insensível aos chamamentos dos companheiros. Parou à frente da loja. Queria despachar-se rapidamente, ansiando meter o dente naquela jinguba toda que o esperava no tabuleiro. S'inda tenho tempo...
À entrada ouviu a voz irada de Só Ferreira. Discutia com a Mariana, rapariga que casou no ano passado com o Chico da serração. Eué, manda zanga, pensou o miúdo. Meteu a cabeça na porta, os olhos muito grandes e redondos, espiando. O branco do balcão não reparou nele. Estava vermelho, gesticulava, tudo acompanhado de muitos berros. Miúdo Candimba achou ele não era como as outras pessoas, nele a voz é que acompanhava os gestos. Mariana chorava, de costas para a porta, tapando a boca com o antebraço. O moleque ouvia-a suplicar:
— Só Ferreira, meu marido vai saber. Filho sai mulato, Chico vê logo não é dele. Ele me mata, Só Ferreira...
— Quero lá saber! Que culpa tenho eu? Agora avia-te... Ora bolas! Que provas tens que o filho é meu? Ainda nem nasceu! Gomo é que podes saber?
— Sei, sim, juro com Deus. Senti mesmo!
Miúdo Candimba esqueceu a jinguba na boca aberta, os assustados olhos tudo perscrutando. Não percebia bem a conversa. Embora já falasse aos companheiros acerca dessas coisas proibidas, ainda era muito pequeno para compreender imediatamente. Mas sentia algo de terrível nas palavras trocadas.
— Ouve lá. Julgas que me levas assim? Como podes ter sentido? Como se eu fosse parvo... O filho é do teu marido, dormiste com ele muito mais vezes do que comigo.
— Mas eu sei. Eu sei! Juro vai sair mulato.
— E depois? E se fui eu que o fiz? És casada com o teu homem, não tenho nada com isso.
O moleque já percebera tudo. Fez-se mais pequenino, encostado à porta. A mão apertava nervosamente a caneca de lata. Viu Mariana erguer decididamente a cabeça, passar os dedos pela barriga inchada, falar com raiva:
— Só Ferreira prometeu. Te dou vestidos, vais mesmo na cidade, vais pra minha casa. Te tiro da sanzala, te dou comida boa, te dou pulseiras e brincos. Só Ferreira prometeu, jurou mesmo. Teu filho vai ser meu no papel, lhe dou educação. Não vai ser menino de sanzala, não. Agora já lhe dei tudo que queria, já se deitou comigo, m'abandona. Não quer saber mais de mim!
— Então? Prometi? Alguém ouviu? Só tu mesmo. Vai dizer no teu marido, vê lá se ele acredita. Digo-lhe que é mentira, que foste tu que me pediste, que vocês todas querem é dormir com os brancos. Vai na polícia, se eles acreditam em ti ou em mim.
Mariana abateu-se novamente sobre o balcão. Os soluços voltaram a sacudir-lhe o corpo. Miúdo Gandimba, perturbado, se chegou mais para dentro da loja. Embora a sua vontade fosse fugir como um mbambi.
— Vou dizer no meu marido, sim, vou mesmo. Me mata, mas depois lhe vem matar a você... Não é homem pra se ficar.
O comerciante riu, escarninho. Desferiu uma palmada no balcão para indicar que já se fartava da discussão. Falou com voz rancorosa:
— Que venha! Tenho uma espingarda à espera dele. Dou-lhe tantos tiros que fica como um Cristo!
Miúdo Gandimba sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha ao ouvir a ameaça. E voltou-se assustado quando, repentinamente, uma mão lhe pousou no ombro. Acalmou-se ao contemplar o sorriso bondoso de Dona Marcelina.
— Que tás fazer aqui na porta? Me deixa entrar...
O moleque sentiu os olhos do comerciante fixos nele. E Mariana disfarçando o choro.
Empurrou a velha Marcelina para o lado e desatou a fugir. Percorreu a rua, passou uma tangente na cerca de Dona Joana, entrou no quintal da sua casa. Aí susteve a corrida. Respirando dificilmente, escondeu-se entre as moitas que abrigavam a capoeira. Olhou por entre os ramos e viu a mãe acocorada sobre o tabuleiro, descascando a jinguba. O ar aborrecido indicava que estranhava a demora do filho.
Mas o menino não se preocupa com isso. Pensa, sim, no semblante derrotado de Mariana. E os berros misturam-se no seu cérebro, deixam-lhe uma sensação de angústia revoltada. Nota repentinamente o coelho branquinho à sua frente. Olhos vermelhos como os de Só Ferreira. Branco como ele. Coelho, me puseram o teu nome. Pruquê? Porque fazia assim como tu quando era pequeno, mexia o nariz, depressa, assim, assim, depressa, muito depressa, como tu faz. Me chamaram Candimba. Ai ficou meu nome. Mas não sou igual na ti, não tenho os olho vermelho, não tenho o pêlo branco. Estendeu a mão para o animal. Este pulou para trás e ficou espiando, assustado, espe¬rando o próximo gesto. O miúdo não se mexeu. Via a Mariana chorando, suplicando e chorando, a barriga inchada, as mãos a tremer. E o comerciante rindo o seu riso de gengivas desdentadas, vermelhas como os olhos do coelho. Jogou com raiva o punho fechado. Mas falhou o golpe e o animal escapuliu-se para perto das galinhas.
O despeito fez as lágrimas correrem, vagarosas, na face escura do moleque. E o coelho observando-o. Miúdo Gandimba, de repente, julgou-o penalizado com sua dor. Comoveu-se. Era apenas um pobre animal sem culpas, que o estimava, afinal. O coelho não fugiu à carícia da mão infantil. Deixou-se afagar e os olhos vermelhos adoçaram-se. Miúdo Candimba estendeu-se no chão de terra batida, insensível à humidade transpirada pelo solo. Ficou assim, perdida a noção do tempo, avista fixa na bola branca que se mexia. Arrepen-deu-se, em breve, do murro que lhe enviara. Pensou em pedir-lhe desculpa, justificar a acção com o estado de espírito provocado pela cena da loja. Decidiu-se, porém, a não o fazer.
Coelho não percebe palavras, percebe os gestos e as carícias, é como as crianças.
Ouviu a mãe chamá-lo em alta grita, inquirir por ele às vizinhas, sair de casa. Foi talvez à venda procurá-lo. Mas não voltou. Miúdo Candimba não se deu ao trabalho de responder, de se mostrar. Queria estar só, contemplando o novo amigo, aquele animalzinho branco que parecia tão meigo. Queria fugir às gentes com seus dramas e rancores, fechar-se na concha dos seus sonhos infantis. E sentia o íntimo cheio de paz e ternura, esquecido já da revolta que há pouco experimentara.
Miúdo Candimba voltou a ter consciência do mundo ao escutar grande gritaria ali perto. Levantou-se com uma última carícia ao animal, afastou as moitas e deitou uma olhada para o sítio onde a mãe preparava a jinguba. Deserto. Os gritos vinham da esquerda. O moleque atravessou a cerca, entrou na rua e na luz do Sol. Dirigiu-se à casa para que concorriam as mulheres e as crianças. A casa de Mariana. Lá chegado, percebeu imediatamente o que se passara, Mariana morrera.
— Se matou. Uma facada mesmo no coração.
— Aiué, se matou.
— Pruquê?... Pruquê?
Miúdo Candimba sentiu um frio invadi-lo. Depois um calor, quente, quente, era uma fogueira que nele se instalara. Novamente o frio. Começou a tremer. Deu uma espiada para o sítio da loja, viu Só Ferreira à porta, mirando, indiferente. Se matou! Pruquê? Eu sei, eu sei, foi por causa daquilo que eu vi na venda.
O menino abriu a boca, ia gritar a razão do suicídio. Mas ninguém reparou no gesto, as mulheres e as crianças empurravam-se para observar o corpo banhado em sangue. Ouviu a voz da mãe lamentando a tragédia, sentiu uma vontade doida de se atirar nos seus braços e lhe contar tudo. Mas havia uma multidão separando-o do colo materno, não encontrou coragem de a romper. Gritou o mais alto que podia:
— Eu sei pruquê ela se matou. Eu sei, juro com Deus que sei mesmo.
As mulheres nem voltaram os pescoços esticados. Não fecharam as bocas abertas de pasmo e tristeza. Os miúdos continuaram a tentar furar a multidão, não ligaram ao aviso do companheiro. Miúdo Gandimba apertou o braço de Teresinha, falou gravemente:
— Eu sei pruquê foi... Ela olhou-o, porém, sem interesse. Imediatamente redobrou os gritos lamentosos:
— Deixa ver, deixa ver...
Miúdo Candimba sentiu-se miseravelmente esquecido. Era o único que sabia, além de Só Ferreira, e ninguém o escutava, lhe prestava atenção. Saiu da multidão, afastando as crianças com os braços magrinhos, os lábios apertados para não chorar.
— Gome qu'ela stá? De boca aberta?
Não se dignou responder à pergunta de Jucá que se afadigava para ver alguma coisa. Poderia ser um bom ouvinte, mas Miúdo Candimba já não se importava de revelar a verdade. Olhou o vulto de Só Ferreira, parado à porta da loja. Adivinhou o riso escarninho na boca do comerciante. Se não era tão grande... Sim, se não fosse tão grande e tão forte, era ele, Miúdo Candimba, que lhe faria morrer o riso de escárnio na boca. Mas viu-se pequeno e fraco, uma criança em que ninguém sequer acreditava, a que ninguém sequer prestava atenção. Viu-se miserável e inútil, um bichinho pequeno que para nada serve. Um boneco talvez, um boneco sem valor nem preço.
Virou as costas aos curiosos observadores do espectáculo mórbido, foi caminhando para casa. Devagarinho, afogando o despeito e a revolta nas pedras da rua. Atravessou a cerca, aproximou-se do tabuleiro de jinguba. Hoje não iria vender a guloseima. Nunca mais gritaria pela cidade: cinc'ostões cada pacote. Mesmo que morressem de fome. Nem que a mãe xingasse, nem que a mãe lhe chapasse. Mexeu os bagos com a mão distraída, não se tentou a tirar nenhum. Viu as moitas que limitavam a capoeira, encaminhou-se para elas. Afastou os ramos com lentidão. O coelho branco fitou-o com seus olhos vermelhos. Iguais aos de Só Ferreira. O animal deixou--o aproximar, um pouco receoso. Mas não fugiu. Talvez esperasse mais uma carícia, lembrando da anterior cena de ternura.
Miúdo Candimba sentiu-se enganado. Uma vergonha vinha desde os olhos vermelhos, desde o pêlo branco, incrustava-se no seu cérebro de menino. M'enganaste, coelho. Mariana matou-se, espetou a faca mesmo no coração. Morreu num mar de sangue. As lágrimas caíam dos olhos do moleque. Me deram teu nome, Candimba mesmo, mas não sou igual na ti. Não tenho os olho vermelho, pelo branco. Não sou como tu. Pensei a gente ia ser amigo, te fiz festa. Mariana se matou! Meteu a mão no bolso dos calções, tirou o canivete. Abriu-o e a lâmina luziu. Agarrou no pescoço do animal com o braço esquerdo. O coelho não tentou escapulir. Então, lentamente, reflectidamente, Miúdo Candimba enterrou-lhe a lâmina no peito.
Ficou vendo o pequeno corpo estremecer, o sangue esvaindo-se, manchando de vermelho o pêlo branquinho. A mancha alastrando, alastrando, correndo para as patas, para o chão de terra batida. Depois um estremeção mais violento. E os olhos ficaram rígidos, enormemente abertos, fitando-o firmemente. Miúdo Candimba não encontrou uma acusação naquele eterno olhar. Pousou delicadamente o corpo no solo. Ajoelhou-se, uniu as mãos vermelhas de sangue, uma delas ainda segurando o canivete aberto, e rezou:
— Nosso Senhor, faz que eu acertei bem no coração.



Lisboa, 1962
(in «Poetas e Contistas Africanos»,
Brasiliense, São Paulo, 1963)



13/05/2009

O Bairro


(Senhor Calvino, Senhor Valéry, Senhor Brecht, Senhor Juarroz...)

Primeiro sonho de Calvino
Do alto de mais de trinta andares, alguém atira da janela abaixo os sapatos de Calvino e a sua gravata (quem?). Calvino não tem tempo para pensar, está atrasado, atira-se também da janela, como que em perseguição. Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessárias para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo
para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável.

Como ajudar os reformados
Por inadvertência a senhora de idade avançada – contava o senhor Calvino – reformada, já sem agilidade para recuar ou avançar mais rápido, ficou entalada no portão que se fechara devido a um automatismo que, esse sim, ainda funcionava como se estivesse em plena juventude. Ali se viu, pois, a velhota, instalada de maneira invulgarmente incómoda entre o exterior e o interior da propriedade.
Exactamente no meio.
E por que razão estava ela ali? – perguntou Calvino aos seus interlocutores.
– Simples – continuou Calvino – depois de vários anos sem qual quer contacto com esse seu vizinho, de modo imprevisto, a senhora fora convidada para um chá.
“Na altura, ficou contente – toda a gente aprecia que lhe dêem um pouco de atenção – mas agora, com o portão encravado mesmo entre as omoplatas, não poderia deixar de se sentir incomodada.
“Estranhou depois os dias passarem e o dono da casa não vir saber dela.
“E ninguém entrava ou saía da extensa propriedade e por isso o portão ali continuava, imóvel, pressionando o seu corpo contra o suporte de ferro que servia de base ao portão.
“Ao fim de uma semana começou a sentir uma dor na cabeça, mais propriamente na zona da nuca.
“O portão continuava a fazer pressão sobre os seus ossos, já um pouco enfraquecidos pela idade.
“Mas por que razão a convidaram se era notório que não sentiam a sua falta?”

A colher
Para treinar os músculos da paciência o senhor Calvino colocava uma colher de café, pequenina, ao lado de uma pá gigante, pá utilizada habitualmente em obras de engenharia. A seguir, impunha a si próprio um objectivo inegociável: um monte de terra (50 quilos de
mundo) para ser transportado do ponto A para o ponto B – pontos colocados a 5 metros de distância um do outro.
A enorme pá ficava sempre no chão, parada, mas visível. E Calvino utilizava a minúscula colher de café para executar a tarefa de transportar o monte de terra de um ponto para outro, segurando-a com todos os músculos disponíveis. Com a colher pequenina cada bocado mínimo de terra era como que acariciado pela curiosidade atenta do senhor Calvino.
Paciente, cumprindo a tarefa, sem desistir ou utilizar a pá, Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.

O sol
Calvino tinha nas mãos um livro cuja capa estava já por completo desbotada pelo sol. O que antes era uma cor verde escura estava agora transformada num verde tranquilíssimo, quase transparente.
Olhou para os outros livros na prateleira. Todos estavam a perder a sua cor original, como se a luz do sol mastigasse ou roesse – sim, aquilo parecia o trabalho de um roedor subtil – a capa dos livros.
Um livro, por exemplo, que fora colocado há menos de um mês nesse local da casa onde o sol, a dadas horas do dia, incidia directamente, apresentava um aspecto curioso: apenas uma linha da parte de cima perdera a cor, para baixo o resto da capa mantinha o vigor da coloração inicial. Não se sabe por que associação de ideias, mas Calvino lembrou-se das diferenças entre as zonas do corpo tapadas ou não tapadas, durante o verão, pelo fato de banho.
Olhou de novo para a prateleira e para as capas sem cor e subitamente como que percebeu tudo: a origem primeira do fenómeno, os verdadeiros motivos daquele acontecimento que alguém poderia classificar, apenas à superfície, como um acontecimento químico. Mas não era assim tão simples. Calvino não estava perante uma mera alteração de substâncias, havia ali uma vontade, uma vontade forte que se diria munida de músculos frágeis. E essa vontade
insuficiente vinha do sol: o sol queria abrir os livros, a sua luz concentrava-se, com toda a potência, na capa de um livro porque o queria abrir, queria entrar na primeira página, ler as narrativas, reflectir a partir das grandes frases, emocionar-se com os poemas. O sol queria simplesmente ler, ambicionava-o como a criança que está prestes a entrar na escola.
Calvino meditou. De facto, não se lembrava de ter visto uma única vez um livro aberto ao sol numa das suas páginas. Bem vulgar era que alguém, ao ar livre, pousasse um livro numa mesa ou num banco de jardim (ou mesmo no chão), mas sempre, percebia agora Calvino, sempre com as duras capas fechando o seu conteúdo, tapando o acesso às principais palavras.
Era tempo pois de alguém agir. Era tempo de alguém retribuir esse toque carinhoso que em certos dias a luz do sol projecta no rosto do homem, tranquilamente, mas como que o salvando de uma grande tragédia, do desespero, por vezes mesmo do suicídio.
Calvino olhou de novo para os livros da prateleira contemplada pelo sol. Rapidamente passou os olhos pelas lombadas. Estava a escolher um livro para alguém ler. Com atenção profunda escolhia o livro mais apropriado; não estava, repare-se, a escolher de acordo com o seu gosto, mas sim, de acordo com o gosto do outro. E finalmente tirou o livro. Eis um bom primeiro livro para um leitor!, exclamou Calvino para si próprio.
Abriu-o, a seguir, na primeira página, passada a ficha técnica (quem a quer ler?) e pousou o livro, assim, aberto, no início da narrativa, virado para o ponto por onde o sol costumava descer:
(“Alice começava a ficar mais que farta de estar para ali sentada ao lado da irmã, na margem do rio, sem nada para fazer.”)
Amanhã, voltaria de novo para virar a página. E nos dias seguintes faria o mesmo até ao final do volume. E se, depois disso, a luz do sol continuasse a forçar a entrada nos livros, Calvino respeitaria esse ímpeto avaliando-o como a ansiedade de um leitor que já começou e não quer parar, não consegue: quer ler mais.
Se fosse caso disso, Calvino escolheria outro livro – colocando algo de novo debaixo do sol – depois outro e outro, e voltaria todas as manhãs, sem falta, antes de nascer o dia, para virar a página.

Gonçalo M. Tavares in O Senhor Calvino


calvino3


Duplicidade




Julinha tem grafonola – e canta como um pássaro primaveril. Marta levanta dinheiro no banco. Celeste guia automóvel. Cantam em conjunto. Riem em coro.
Noémia impera.
Saem para toda a parte, passeio vai, passeio vem, a que horas poderei falar-lhes sossegadamente? Em casa dançam; dançam no campo. A alegria embriaga-as, excita-as, não param, não comem, desafiam todas as murmurações.
Displicente, atónito, vejo-as chegar, partir. Como proceder, como pensar? Cruzo por momentos os braços e observo-as inocentemente, como se voltasse ao princípio da minha vida. Nada sei. Que estranha filosofi a me trará o seu tumultuoso conviver? Que estará além do muro desta euforia auto-sufi ciente?
Persigo-lhes a sombra sem ser visto, analiso-lhes o rastro de olhos no chão. Sou caixeiro, praticamente da loja de Noémia, a quem dou contas, nada mais. Até quando a resistência do meu furor? Constato que as freguesas me entram pela porta dentro com mais assiduidade (este povo é muitíssimo curioso!) posto que as vendas tendam mesmo a estancar. Certamente por usar da crueldade de transmitir às atrasadas o recado revoltante de Maria Noémia: «Pagam, ou tribunal com elas!»
Ah, este advocacismo ! Expliquei a Noémia a crise duma povoação que não vive senão do ajoujar da agricultura: as lágrimas das mães, o contágio das crianças com a tuberculose voraz dos pais, o socorro urgente necessário, a orfandade, a cólera, sei lá!, quantas circunstâncias que são dor de alma e retalham todos os propósitos, – mas Noémia atalhou-me implacavelmente
– Isso não se cura com esmolas. Quem jamais se apiedou de nós? Esses que nos deviam, menino, são os mesmos que escarneceram de teu pai. São os mesmos que assaltaram a quinta, à sombra das ameaças dos credores. De resto, estava eu a secar-me do outro lado com trabalho, para vocês distribuírem fazendas aqui pelas aldeias! Como te pode caber uma dessas na cabeça?
Vestida de calças masculinas, traçou a perna, puxou, como por hábito, dum cigarro:
«Ouvira bem? Fiados, nem um real!»
O advocacismo tem argumentos, tem leis. No poder, ou na oposição, o advocacismo interpõe-se, agarra, esbulha. Vejam-no em arengas públicas: advoga um socialismo urgente, arroga-se o exclusivo de gritar, de candidatar-se, de vencer. Porém na vida prática, que faz? Esquecido de todas as necessidades do povo, sem planos, sem sacrifícios, ei-lo ao serviço do capitalismo mais sórdido, mais inumano, menos social. Justiça? E vê-la? Tudo retórica, até talvez as minhas próprias palavras! «Nada se remedeia com esmolas? E então?»
Por outro lado, como compreender Noémia, mesmo do ponto de vista religioso? O estado sentimental duma adolescente incomoda-a até às lágrimas; os lares de pai ou mãe inválidos, sem subsídio da lei, sem crime para ninguém, endurecem-na como cimentação. Quer dizer: há sensibilidades que só se derramam por compartimentos, como a água pelos tabuleiros de rega. A inclinação torna-se necessária.
Anoto, desorientado, uma série de futilidades elucidativas.
Marta, por medo dos ratos, dorme com Noémia.
– Medo,?! – intervenho – Que ideia!.
– Não é medo, é impressão... Bole-me com o nervoso. Na primeira noite, um rato enorme não me andava a lamber a chávena?
Celebrámos todos três a pilhéria deste «rato enorme».
Noémia admoesta-me
– Tu namoras a Laide. Vi-a ontem: é um amor de criança.
O meu pensamento riscou orgulhosamente:
«É um amor de mulher... »
– Para um leviano como tu!
Entupi. «Leviano?! Serei eu assim leviano como dizes?»
Estes pequenos episódios desenrolavam-se de dia para dia, de momento para momento, num crescendo de imprevisto que chegava a tolher-me os movimentos defensivos mais legítimos. Quantas vezes fi cara eu amesquinhado e de rosto receoso, contraído!
Marta, durante o chá, servindo-se uma vez desses pequenos bolos de espuma de ovo chamados familiarmente «suspiros», mal levou um à boca, atirou com ingénua malícia:
– Suspiro pela Julinha!
Levando outro:
– Suspiro pela Celeste!
Ao terceiro, inclinando-se para Noémia com meiguice extrema que lhe pôs nos olhos um brilho liquescente extraordinário, murmurou:
– Suspiro pela Senhora D. Noémia, – ao cubo!
Noémia escrevia em revistas femininas, eu presumia-o, tendo a seu cargo, numa delas, o «consultório sentimental». Certa vez, sem que seja meu hábito espreitar, surpreendi-a no corredor a ler um manuscrito a suas pupilas:
«– Aquela rapariga da Figueira, conforme noticiaram os jornais, foi uma vítima da sedução dos homens. É santa e mártir: porque diante da desonra preferiu morrer.»
Noémia tremia, horrorizada. Tornava a viver a tragédia, transmitiu-a a suas amigas. Percebia-se, lá donde emergiam as suas palavras, uma intenção muito firme e decidida.
Segura de que nenhum homem assistia à sua representação, infinitamente triste, acentuou:
«– Alerta, meninas católicas, não se deixem iludir pelo capuchinho vermelho de namoros aparentemente inocentes. Reparem que monstruosidades tamanhas são capazes de cometer os homens! Um noivo atrai a sua própria noiva a uma cilada vil. A infeliz cessa de lutar, quando tem caído extenuada. Pois nesse momento cobarde, (ó céus, que não desabastes sobre a terra negra!) o tirano conspurca-a, arrasta-a canibalescamente para o automóvel e proporciona-a como repasto aos seus amigos!»
O nervosismo de Júlia era excitante. Celeste compunha com o lencinho o borbulhar dos olhos. Desde aí, todas me olhariam com desconfiança, com desprezo, com náusea... Mas eu andava nessa hora com uma fleuma verdadeiramente britânica, pensei: «As minhas mulheres sublevam-se!»
Caminhei para elas despreocupado, desejaria encará-las frente a frente; entretanto o pano, sobre aquela encenação, ainda não caíra. O paroxismo atingiu Noémia, que já não deu por mim. Numa onda de revolta, ergueu repentinamente o busto magro, vestido de negro, e, rígida como eu nunca a vira, tombou nos braços solícitos de Marta. Júlia, Celeste acudiram-lhe, na minha presença, com as suas carícias desajeitadas. Tive também a tentação de desmaiar, mas não com aquela língua negra à dependura escorrendo baba...
Que horror!
Para gáudio e celebração, compram bombons e ponche. Gostam de ponche, que tenho eu com isso? Não as vejo bebê-lo, mas dizem-no diante de mim, à mesa:
– Ontem, quatro garrafas que entornámos! – Pequenas, não foi muito! – aplaudo.
E rejubilam:
– O sr. também gostava, ai não? Vejam lá!
Outro dia passava na rua um cão com o seu dono. Coisa banal... Um rafeiro e um rapaz. Brincavam, acariciavam-se mutuamente como irmãos. A preceptora blagueou para Marta:
– Há alguma diferença entre eles?
A discípula, embevecida:
– Não parece... – e mostrou o canino sobreposto.
Eu, que, repelindo a afronta ao sexo forte, me mostraria quixotesco ou trivial, satisfiz a douta expectativa:
– Há uma diferença: o cão é fiel.
E ambas me acharam uma graça infantil.
Provocava eu próprio as humilhações? a zombaria? Fui arrastado para o inverosímil: transferir-me eu mesmo voluntariamente para o campo mental em que elas se agitam e procuram viver. Aconselhar Noémia? Seria o mesmo que pedir à Lua que nunca se vestisse de quarto minguante. Noémia repudiaria em absoluto, ingratamente, a minha compaixão, o meu auxílio. Pelo contrário: era ela até quem me hostilizava com a insistência dos seus conselhos sobre casos meramente pessoais. Comecei a repontar-lhe. Porquê não olhava para ela? Surpreendida, quis imediatamente dominar-me:
– Eu desconheço-te, Eduardo! Terás tu descido ao nível desta gente? Terás esquecido?...
– Basta! – interrompo-a grosseiramente, batendo a mão na mesa.
Tínhamos acabado de jantar, Noémia levantara-se e preparava-se mais uma vez para despejar sobre mim um acumulado de impropérios, ao fim dos quais, sem dar tempo sequer de defender-me, arrastava Marta abraçadamente (pobre Marta!) e com ela deslizava corredor fora praticando as lamechices do costume.
Desta vez hostilizei-a:
– Em primeiro lugar, que entendes tu por «nível desta gente»?
Noémia pretendia esquivar-se, com determinada mímica ou o que quer que emitia entre-lábios para a discipulazinha.
– Decerto não falavas do nível higiénico, nem económico! – desafiava-a.
Mas Noémia continuava a arredar-se da minha decisão. Eu tinha de enervá-la, de prendê-la pelo insulto ou pela violência:
– Tomaras tu viver moralmente no mesmo nível!
– Olhem como ele está hoje bem educadinho! Querem ver? Mas porquê, ora porquê, menino, diga lá!
– Porque esta gente não tem uma... duplicidade de vida!
– Duplicidade de vida? Que me dizes tu?!
Um pouca intimidado, generalizei:
– Esta gente tem defeitos, tem sobretudo privações. Mas «nível» moral? A cidade está a perder o conceito de moralidade. As convenções sociais prostituíram tudo. Vós já não sabeis o que é nobreza de sentimentos, solidariedade humana, sacrifício pelo semelhante, nem sequer personalidade interior perpetuamente responsável.
– Palavras gastas e ocas e a cantiga do costume. Sabes o que é isso? A tua mania das leituras proibidas...
Protegi o rosto com as mãos à espera do insulto «...com o meu rico dinheirinho, ainda por cima!» Noémia, porém, susteve-se, e apenas lhe reapareceu nos lábios tensos a palavra «duplicidade!»
– Noémia – digo-lhe num apelo de conciliação – porque és assim um temperamento tão complicado?
– Complicado?! – surpreendeu-se. E, pensativa, revestiu-se de súbita modéstia:
– Não. Sou tão simples como qualquer outra.
Uma visível nuvem de tristeza e de silêncio cada vez mais profundo apoderou-se-lhe do pensamento. O círculo nocturno dos seus olhos aumentou. Pela primeira vez eu me senti vitorioso diante de Noémia. Cansadamente e suspirando, retirou-se derreada sobre Marta, e ambas se refugiaram no quarto, fechando-se, como tantas vezes, libertas duma acusação imanente.
«Quem sabe se ela quis apenas afastar a curiosidade? Se foi tudo defensiva simulação?» – ponderei.
Ouviam-se, entretanto, risinhos abafados. Sobre mim, sozinho, desceu imediatamente uma sensação de logro. Noémia, para me vencer, não precisou senão dum pouco de humildade, apesar de tudo disfarçada.
No entanto, o primeiro passo estava dado. Seguiam-se, é verdade, longas horas de abstracção, uma espécie de torpor que me tolhia toda a vontade e só as grandes dores eram sufi cientemente fortes para produzir. A este, outros estados de alma se sucediam. Acudia-me por vezes um desespero inaudito contra a pureza física de Marta, desperdiçada; contra o abandono da pequenina Júlia, ardente; contra Celeste, leitosa e sobranceira, que eu sempre julguei capaz duma traição.

José Marmelo e Silva, In Sedução

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12/05/2009

Mana Celulina, a esferográvida

Aconteceu no curral de nossa casa, num meio-dia de Verão. Respirava-se um ambiente de cortar à faca. Dado o lugar, se podia antes dizer: de cortar à vaca. De tal modo escorria o rosto de Ervaristo Quase que eu temia que ele perdesse formato, de tanto pingado no chão. O pobre homem, nosso vizinho congénito, cheirava mais que o próprio curral. Como avisava meu pai: ao final, nem todo o bicho é um animal.
Estávamos no estreito recinto há mais de uma hora, eu, meu pai e o vizinho Ervaristo Quase. Mais que todos estava este último, acusado de ter abusado de minha irmã Celulina. Meu velho, Salomão Pronto, convocara o encontro com broncas e circunstâncias. As vizinhanças conheciam a nossa família como exemplo de honra e respeito. Houvesse assunto e logo era chamado o velho Salomão. Até o governador o convocava em caso de sérias gravidares. Como sucedeu a semana antepassada na maka de um general da cidade que veio esgatanhar as terras dos camponeses. Foi o velho Salomão quem pronunciou sentença. E não podia ser de outro modo: não era ele um dos antigos donos da terra?
Sabendo de quanto gozava dos gerais respeitos, dava pena vê-lo, agora, sentado em curvatura derrotada. No seu corpo, não havia pele para o florir de tanto nervo. Para realce do seu estado de zanga meu pai soltava profundos suspiros:
- Só o porco é que é traído pelo farelo.
Eu, calado, não entendi. O vizinho acanhado ainda me sussurrou:
- Sou farelo, agora?
Falou baixinho. Mas o meu pai escutou e, logo, ripostou:
- Não é farelo, mas vai ser, não demora nada.
Enquanto proclamava ameaças, meu velho não tirava os olhos dos próprios pés. Já eu conhecia seus modos: em fúria, não ousava olhar para o mundo. Contemplava-se nas pernas, rectificava as unhas nos pés.
Descarregava-se assim, ele dizia. É como faísca que sai da terra e cai no chão.
- Sou eu o meu apara-raios- explicava.
Minha irmã Celulina, por fim, entrou. Sua silhueta no vão da porta atrapalhou a luz. Já se notava o arrendodado da sombra. A barriga dela era, afinal o assunto da briga. Salomão Pronto apontou a filha e perguntou:
- Estão ver?
Fez uma pausa e engoliu uma porção de ar antes de falar uma outra vez:
- Completamente gravida! Completamente.
Coração não tem gramática. Também eu, no momento, não tinha palavra. Menos ainda o desgraçadito do Ervaristo. Ficámos todos em silêncio, transidos, à espera que trovejasse a voz do dono terra.
- Tudo se resolve com as falas, tudo. Mas isto?
Salomão apontava a barriga da filha, o dedo murcho, a voz derrotada, enquanto repetia:
- Completamente, completamente gravida.
Foi então que disse: a menina até parecia uma esferográvida. Acenámos em concordância. Ervaristo ainda tentou, a medo
- Eu juro, vizinho Salomão Pronto, eu juro que não fui...
- Fale tudo menos isso. Qualquer uma coisa, menos isso.
Celulina só chorava. Ervaristo mexeu nos bolsos, certamente por instinto. Ou como sugestão que o diferendo se poderia resolver por via do dinheiro.
- Posso dizer uma pequena coisa, com o devido respeito?
- Humn-hum - meu pai grunhiu.
- Não é falar, vizinho. É só lembrar o ditado. Posso lembrar?
- Hum-hum.
- Lembra o que diziam os antigos? Diziam as sim: só podes ter a certeza que o rato entrou quando lhe vires a cauda.
- O rato entrou, Ervaristo. É você mesmo.
- O vizinho já me chamou de farelo. Agora sou rato?
- Você nem rato não é. Você é só a cauda do rato.
Estava dito. Faltava a sentença. Pelo olhar do velho Salomão desfilava o leque das possíveis e não imaginadas punições. Demorou o silêncio enquanto escorria o tempo como óleo espesso. O céu já escurecia quando Salomão levantou os olhos até então os nas suas magras pernas:
- Você vai ser castigado, Ervaristo. Ainda sei como, mas o sonho me vai visitar e vai revelai uma decisão.
- Esta certo, vizinho.
Dava-se por finda a sessão. Demos passagem ao velho Salomão Pronto. Hesitámos quem seria o seguinte a estreitar-se pela porta do curral. Minha irmã passou a mão pela redondura, acariciando o invisível ser que ali se enrolava. Ninguém notou o piscai de olhos que ela me dirigiu, em cúmplice ternura Desviei os olhos, o pulsar atrapalhando a pulsação. Ajudei o vizinho a escapar do escuro, meu braço apoiando o ombro dele, fosse para descarga de meu remorso.
E é assim, meus amigos. Escrevo o episódio, tiro a mão da consciência. Nem a culpa, agora, me pesa. É que a vida tem seus secretos correios: os olhos de minha amada, minha doce Celulina.


Mia Couto, In O Fio das Missangas



11/05/2009

A mulher da esfrega

Há um mistério na vida de Joana, e no entanto na sua alma lê-se como através dum vidro. Tudo nela será falso excepto a dor. Não sei, ninguém sabe o que tem.
Sinto que se obstina como se fosse de pedra e dentro houvesse outra Joana a dar com a cabeça pelas paredes. Não ouço o que diz, nem sei o que sofre – mas a desgraça sua naquele monólogo sem pés nem cabeça, a que não ligo sentido.
Debalde o sonho se encarniça. O sonho, que cabe no mundo, cabe entre as quatro paredes daquele caco e revolve-a. Fecha a boca como se tivesse medo de falar.
Não quer ver – e há-de por força ver. Persiste em manter de pé o resto da ilusão em que passou a vida, obstina-se o ciclone vivo em pô-la frente a frente à desgraça. É sonho contra sonho. O que ela não quer é ver, e só ela sabe o que não quer ver. Não pode com o peso desconforme que a torna grotesca, e de todo se assemelha agora à árvore do quintal: mais sonho – mais flor. Abre uma boca enorme, fecha-a sem emitir som. Mostra as mãos, aperta os gorgomilos e o sonho arranca-lhe farrapos.
Há-de acabar por lhe extorquir a dor...
Sua vida é um monólogo que eu não sei traduzir. Nossa vida é sempre um monólogo de interesse e de sonho. Sempre o mesmo monólogo interior, de dia, de noite, quando acende o lume ou quando põe em mim os olhos turvos. Talvez os bichos monologuem assim, muito baixinho, pra dentro, só dor, sem entenderem a vida nem explicarem a vida. A desgraça está ali ao pé, cada vez mais seca, e nem o sonho nem a desgraça conseguem arrancar-lhe aquilo de vez para fora. – A minha fi lha... – Mas isso não basta! não chega! Mais dor, mais sonho. Abre a boca cada vez maior e não tira outro som dos gorgomilos: só emite um ronco. A desgraça e o doirado tingem e entranham-se na água de lavar a louça. Há-de acabar por falar...
Até agora por mais que faça sai-me das mãos ridícula.
– E vai eu disse-lhe... – E estaca, esfarrapada e atónita. Sacode-a o sonho com desespero. – Hã... – E, como naquele caco espesso só há duas ou três ideias como traves-mestras, e ternura naquela alma obscurecida, não avança mais palavra. E a desgraça sua e tressua. Grotesco, grotesco, e desespero neste grotesco, e dor neste manequim desconjuntado, com um xale a esvoaçar e a boca espremida. Anda aqui um ser imenso que luta com um ser humilde e o amolga até à caricatura. Não pode mais – e ainda aperta a boca... O que tu lhe fizeste, sonho! O que tu lhe fizeste!...
Tornaste-a disforme como a sombra dum bonifrate projectada sobre um écran.
– Criou aquilo a bafo, trouxe-o sempre consigo debaixo do xale, com os olhos aguados e tal ar de aflição que parece tonta. – A minha filha... – e tu arrastas-lhe a dor como um trapo por todos os esgotos. Debalde se debate: tem de falar...
– A minha filha casou rica, a minha filha tem uma sala de visitas (é o que a Joana mais admira no mundo) como a das outras senhoras. A minha filha... não posso! não posso!...
E, para não avançar mais, a Joana ri-se de si própria. Quem a não soubesse capaz de exagerar, diria que exagera. Ajunta pormenores embaraçosos a essa história que se parece com a mulher da esfrega pelos empurrões e pelos trapos.
Repete-se, hesita, volta ao princípio, sem termos para se exprimir. E atrás das palavras sem ligação sente-se cada vez mais dor: o pano sujo da esfrega está embebido de lágrimas.
– Tenho uma tristeza metida em mim...
A narrativa desconjunta-se: ganha em dor e em grotesco. Enche a boca, perde em naturalidade, adquire em imponência. O tom carregado é de farsa com resíduos de lágrimas. A desgraça ri-se da desgraça. Aumenta as cores de exagero, carrega o traço, e a tinta engrossa:
– A sala de visitas! a sala de visitas!... – Representa com ademanes e mesuras grotescas a sua entrada numa sala em passo medido de procissão. Avança um passo, recua um passo. E aí surgem agora as visitas da filha, umas atrás das outras com espalhafato. A Joana prolonga demasiado a cena para as velhas se rirem – e tem os olhos arrasados de lágrimas. Insiste, pára-lhe na boca o riso desdentado como se tivesse um nó no gorgomilo. Teima, e desata a chorar. – E vai eu disse-lhe... – Reage e começa logo a rir. É um quadro estranho e sem realidade.
No fundo, a tintas que ressumam desespero, agitam-se figuras com penantes desconformes e sedas amarelas. Primeira dama, segunda dama – e os chapéus têm penachos doirados, os vestidos recortes de espanto. E as mesuras repetem-se num acesso. Terceira dama de cauda a rasto, outra dama, cumprimentando para a direita e para a esquerda, e já nos longes enfumados, sempre com exagero e grotesco, outras damas de espavento – da alta roda... E o ser esfarrapado mexe o crânio, para cima e para baixo, com um sorriso à sobreposse. Postiço sobre postiço. Representa – e todas estas figuras parecem sufocadas, todas estas figuras que ela cria ridículas, mal dão dois passos, estão mortas por desatar aos gritos – todas estas damas inverosímeis, de roxo, de amarelo e de verde, pariu-as o grotesco com dor. A Joana imita as contumélias, olha em roda, e recebe-as pé atrás pé adiante. E já o absurdo aumenta, a dor aumenta e transborda, quando outras damas de farsa, outros manequins forjados pelo sonho, se agitam de cá para lá na sala de visitas, engrandecida e transformada na sua boca num salão doirado. É o ponto em que as velhas gozam, sentadas à roda da Joana, em que a D. Felicidade
exclama: – Ai que eu não posso mais:! ai que eu até fico doente! Vem-me a sufeca!
– Estão ali todas. Está a D. Hermínia, e com a D. Hermínia um mundo de inveja paciente; a D. Penarícia, e com a D. Penarícia uma alma onde repousam exaustos, como num vasto dormitório, todos os despeitos duma existência inútil; a D. Fúfia com os cabelos arrepiados, e por trás da D. Fúfi a as ruínas devastadas de Cartago.
Está a mulher da esfrega trôpega, amachucada, com olhos aguados de cão. E com isto ridículo, e sobre esta tragédia ridículo.
Já a história entra noutra fase. Tantas vezes se tem perguntado porque é que a filha a deixa andar na esfrega, que a velha acrescenta pormenores embaraçosos.
A narrativa torna-se obscura, dolorosa, hesitante, como se fosse arrancada aos pedaços duma alma espezinhada. – E vai eu disse-lhe...
– Hoje é que ela está que até parece o Taborda!
Na realidade a Joana é insuportável. Repete sempre as mesmas coisas, depara-se por todos os cantos como um trambolho. De noite, quando se pilha na enxerga, cuido que mói ainda o mesmo sonho: – A esta, hora lá está ela... a esta hora... A esta hora a minha filha... – E os olhos cerraram-se-lhe de êxtase, de dor ou de espanto no sórdido buraco.
Todas as noites a velha, quando sai da esfrega, dá uma grande volta no negrume, ossuda, molhada até aos ossos. Ninguém sabe onde a conduzem os passos trôpegos, a falar só, a remoer o sonho que a sustenta e ampara. Por vezes palpa um pilar de granito, por vezes debate, com um ser misterioso, uma questão insolúvel. Sigo a sombra esgalgada, que gesticula e reza. Pára numa ruela, senta-se à porta dum casebre. Bate, não lhe respondem. Espera, e outra vez timidamente se atreve a chamar... – De dentro sacodem-na palavras bruscas, e a velha torna por o mesmo caminho, encharcada até aos ossos... Esta casa não é como as outras casas, esta sala não é como as outras salas, nem esta rua como as outras ruas.

Raul Brandão, Húmus






Xicandarinha na lenha do mundo

Primeiro foi a carapinha branca que despontou ali atrás do portão de zinco. Relâmpago de emoção nos nossos olhos. Corremos.
— Mamã! E o tio Dinasse! É o tio Dinasse, mamã.
A mamã, lá atrás da casa, certamente nem ouvia. Corpo curvado para duas pranchas de madeira, rebentava as mãos e o panarício na água e sabão, esfregando. Para brilhar, como ela sempre dizia, quando nos mandava repetir uma selha cheia de roupa e que só pelo tempo que demorávamos sabia se estava bem ou mal lavada.
— Tio Dinasse chegou, mamã! Tio Dinasse chegou! Agora, eu, Mário e Carlitos, os mais novos dos cinco, já cercávamos e baralhávamos o caminhar um tanto lento e cansado do tio Dinasse. Mamã apareceu na esquina da casa, sorriso feito e mãos gotejando sobre o vestido molhado.
— Hoyo Hoyo Makwêju (1) — virando-se depois para nós
— vão buscar uma cadeira para o tio, depressa!
Zaragata. Todos queríamos transportar a cadeira. Mamã ameaçou-nos lá de longe debaixo da sombra da abacateira para onde encaminhara o tio Dinasse. Mesmo ao lado, o barril de água dava mais frescura ao lugar.
Era manhã de Dezembro, sábado e estava quente. Tio Dinasse tirou um lenço branco, imaculado, limpou o rosto e sentou-se. Ao seu lado pusemos também a maleta e um grande embrulho envolto em papel de caqui que ajudáramos a carregar logo ele entrara. O embrulho era grande, só agora é que reparávamos bem no tamanho. Que seria?
À volta do tio e da mamã a curiosidade explodia-nos na boca. Porém, começara o cumprimento tradicional, bem à maneira de Salamanga.
O tio tinha chegado há uma semana das minas. A doença do peito estava a piorar. Tinha até baixado ao hospital uma vez lá no Transvaal. Ele agora já não tinha forças para continuar a trabalhar.
Também os brancos disseram que estava acabado e que era melhor ficar na terra. A machamba, perto do rio Maputo, dava bem, problemas só com cheias e às vezes gafanhotos. Os filhos estavam crescidos e o mais velho fora trabalhar para Durban. Rebeca, a mais nova, já estava uma mulher, ajudava a mãe em casa e no campo e qualquer dia ia casar.
— Está aí, mana! E vocês aqui como estão?
Agora era a vez de a mamã cumprimentar — contando a sua história.
O Silva, o papá, andava muito doente, mesmo nesta hora não estava ali porque fora ao hospital tirar análises. A vida estava difícil.
Cinco filhos e o mais velho só tinha doze anos. Mas tinha sorte, gostavam de estudar. O dinheiro da reforma do Silva é que era muito pouco e ainda por cima tinha de mandar uma parte para Portugal. O que valia era a banca de peixe e camarão no bazar da Baixa, que sempre dava alguma coisa. Começara também a vender ximatana (2) e xicalabiça (3). Era uma grande ajuda, mas o Silva andava muito preocupado com complicações que isso podia trazer com a polícia. Eram proibidas as nossas bebidas. Mas os fregueses bebiam lá atrás da casa, no quintal. O pior, mesmo, era o barulho que faziam, pois do outro lado do caniço era o muro da casa de D. Lucinda, muito bisbilhoteira e capaz de alertar a polícia. Mas o problema principal era realmente a doença do velho.
— Se ele morrer, que vai ser de mim e das crianças?
Irrequietos, não aguentávamos mais a curiosidade. Que é que o tio tinha trazido desta vez da África do Sul? No ano passado fora um corte de fazenda. Tínhamos feito calças para o Natal, e desta vez?
Mamã e o tio já dialogavam normalmente. Terminara o cumprimento. O tio dizia qualquer coisa sobre casar com brancos e ainda por cima velhos e a mamã argumentava: "Se tivesse sido lobolada por aquele Jorge que está preso, que seria de mim?"
Finalmente as mãos do tio Dinasse dirigiram-se para o grande embrulho forrado de caqui.
— Mana, desta vez trouxe uma lembrança para toda a família. Era a minha última viagem e quis comprar uma coisa para durar muito e que fosse bastante útil a vocês todos.
Primeiro começou a aparecer uma pega enorme de cor preta, baça. Como aquilo era grande! Que seria? Depois um corpo bojudo de metal brilhante começou a emergir daquele papel castanho.
— Mamã! É uma xicandari...iiinha! — gritou o Carlitos, o benjamim da casa e aquele que mais tinha assimilado o nosso luso-ronga suburbano.
Era de facto uma chaleira enorme, de alumínio pesado. Nunca tínhamos visto nada igual A mamã não se continha de contente.
— Para quê gastar tanto dinheiro, mano?!
O tio explicava que a chaleira era de mais de 10 litros. Agora não faltaria água quente para todos em casa. Até o papá que gostava de mergulhar os pés numa bacia nunca mais pediria para aquecer mais água. A chaleira era enorme, dava para tudo
— Esta xícandarinha não vou conseguir levantar, mamã! — dizia o Carilitos.
— Xícandarinha, não! Chaleira, meu burro! — ripostava a mamã que, falando com o tio Dinasse em ronga, só nos autorizava o diálogo em português e correcto!
IA sombra da abacateira já tinha mudado c o papá não vinha Tio Dinasse almoçou con-nosco tainha frita com arroz "fogado". Ele não bebia, só ucanhi, uma vez por ano, para patlhar (4) com a família a fertilidade da terra c as próximas colheitas.
A xicandarinha estava ali, grande, brilhante e convidativa. íamos inaugurar? O fogareiro a carvão era muito pequeno para ela. Melhor seria arrumar três tijolos para um fogão de lenha improvisado no chão. A lenha suja muito, mas que fazer?
A mamã concordou. O papá havia de perder aquele espectáculo do lume lambendo pela primeira vez o corpo da chaleira gigante.
Rápido, o fumo brotou forte e espesso antes da chama. Mamã tinha os olhos húmidos.
— Se calhar o Silva baixou, Dinasse!
O lume rompeu a fumarada. Gritámos de alegria. Neste momento, a Guida e o Eduardo, que tinham estado em casa da tia Cecília, chegaram. Mudos de emoção contemplavam, também o espectáculo. "É nossa?" "É nossa?" — suas vozes em simultâneo bebiam o bri-lho e as chamas.
— Não viram o pai? — era a mamã com fumo nos olhos.
'fio Dinasse alvitrou que era muito cedo. De qualquer maneira, se baixasse, havia de avisar. Ele, aliás, tinha de ir andando. Havia um gasolina para a Catembe às cinco e queria chegar a casa ainda naquele dia. O último machimbombo para Bela Vista, partia às 18 do Guachene.
Bocados de negro de fumo começaram a pincelar fortemente o corpo brilhante e gordo da xicandarinha. Havia certamente um pouco de madeira xilati (5) no meio da lenha para fazer aquele fumo danado.
— Fica para tomar chá, mano! A água vai ferver já, não enchemos a chaleira. Guida!! Vai pôr a mesa do chá. Tira as chávenas novas do armário da sala, ouviste?! Raul! Vai comprar bolos ali na pastelaria do Alto-Maé, depressa!
Tio Dinasse elogiou a nossa rapidez. Em pouco tempo chá e bolos estavam na mesa. Mas bonito, bonito de verdade, foi quando a água da xicandarinha começou a encher o bule. A mamã agarrava a chaleira com força. Parecia a água a sair da torneira da casa da D. Lucinda. O bule ficou cheio num instante. Água para toda a vida, não havia dúvida. Tomámos chá, orgulhosos e felizes. Tio Dinasse esquivava-se bondoso, aos nossos agradecimentos.
O papá chegou depois de o tio Dinasse já ter saído.
— Queriam que eu baixasse hoje. Neguei. Disseram para baixar na segunda-feira. Mas segunda é dia 22 e eu quero passar as festas convosco. Sempre passei o Natal e Ano Novo em casa com a família. Este ano vou passar também. O quê! Chaleira nova? Mas destas não há cá!
— Foi o tio Dinasse que trouxe, papá! Foi o tio Dinasse!
Nossa cortina espessa de vozes escondeu a angústia da mamã sacudida pelas palavras do velho. Uma xicandarinha imensa de dor fervia dentro dela.
— Que será de mim, se este homem me morre?!
De novo cheia, a xicandarinha prestava-se ao segundo baptismo de água e fogo.
Os olhos do papá e da mamã lacrimejavam por dentro o lume da vida.
— Puxa! Esta xicandarinha não fica limpa! Este fumo sujo pegou e não sai.
Era a semana do Mário na lavagem da louça. A mamã, que chegara há pouco do bazar, comandou:
— Tira cinza aí do fogareiro, junta com areia e esfrega! Quero ver essa chaleira limpa e brilhante como veio!
Mário mordeu um olhar cinzento sobre a mamã, já agarrada às panelas do almoço. Segunda-feira era um dia horrível! Sobretudo para o Mário, que entrava às 13 a ainda não tinha feito os deveres. A cinza à mistura com areia escorria pêlos seus dedos frenéticos.
Junto à escada de três lanços, seu lugar preferido, o grande Boby, fiel da casa há muitos anos, assistia bonacheirão ao fervilhar doméstico. Ultimamente o Boby andava triste à medida que a doença do papá piorava. Pressentia tudo e tinha um afecto especial pelo dono. Já uma vez salvara o velho de um ataque dos mabandido (6), não muito longe de casa.
Mário acabou de lavar. Na base é que o negro-de-fumo não cedia, nem mesmo esfregando com palha de coco. A xicandarinha do tio Dinasse era verdadeiramente espectacular. O problema era lavá-la todos os dias, que, aí, a mamã não transigia.
No Natal e Ano Novo ela não parou de trabalhar. Foram as festas mais felizes que tive-mos, estas de 53 para 54. O papá até parecia que tinha melhorado. Dera-nos mesmo dinheiro para comprarmos foguetes — ma'pachão — como nós dizíamos. À meia-noite foi o próprio velho que iniciou o foguetório, aliás como fazia todos os anos, rebentando a bomba de um escudo. Ribombava que nem um canhão. Mas, deste lado da cidade inflamável, para lá dos foguetes, eram sobretudo as latas e tambores que davam som à viragem do ano.
Cedo descobrimos que a pólvora tinha a mesma cor da cinza.
Naquela noite o papá brindou de uma maneira esquisita: "Tenham juízo, este é o último ano que estou convosco, não sei se chegarei a Fevereiro".
O rosto da mamã pareceu repentinamente golpeado. Lágrimas, a que o reflexo da luz na cortina vermelha dava cor de sangue, começaram a lavar sua face negra.
Papá aligeirou logo o ambiente contando uma anedota. Contudo, nos nossos peitos aflitos começaram a explodir corações de pólvora, cinza e areia.
(...)
Já era a segunda vez que enchíamos a xicandarínha para o chá. Umas cinquenta pessoas espalhavam-se pelo quintal. As mulheres em esteiras e os homens em bancos compridos arranjados à pressa com tijolos e enormes pranchas de madeira. Servíamos chá e bolachas. Conversava-se em voz baixa, lamentando a mamã e o nosso destino.
Era a cerimónia do sétimo dia do papá Tal como ele previa, não chegara a Fevereiro. No dia 30 de madrugada mergulhou na grande água do silêncio. Dois dias antes da morte ainda falou, mas zangado. D. Lucinda, a vizinha, entrara na enfermaria perguntando se ele queria um padre para se confessar. O velho maçónico pô-la aos berros fora da sala, para espanto de outros doentes.
Naquela madrugada de luto e quando os gritos lancinantes da mamã se transformavam cm dolorido lamento, o velho Boby, companheiro fiel, escavou um pequeno buraco junto à escada e deitou-se de um modo estranho. Quando ao meio da manhã queríamos sacudi-lo do lugar vimos, com espanto, que ele não se mexia. Estava morto.
Fumo nas mangas curtas das nossas camisas. Luto rigoroso para a mamã. Tal como a xicandarínha, fumo e fogo lambia-nos a vida.
Poucos, muito poucos ajudaram a mamã neste transe, nem mesmo seus parentes mais próximos e bem providos. Algumas honrosas excepções como sempre. Ana Barnabé, quase tísica e muito pobre, é que trouxe qualquer coisa para ajudar nas despesas dos primeiros dias. Tia Gumende, essa, foi inexcedível. Também viúva e com muitos filhos, não hesitou: "Vais com as tuas crianças para minha casa. Eu tenho de estar em Ressano Garcia e assim tomas também conta da minha família".
Estávamos acostumados à antiga casa.
— Mamã! É preciso irmos morar mais lá para baixo? Nós ajudamos a mamã a trabalhar para pagar a renda! — nossas vozes interrogavam ansiosas e inocentes.
Macerada mas vigorosa, mamã respondeu: "É lá onde vamos vencer a vida". Nada mais disse.
A mudança para Minkhokweni foi rápida. Júlia, a bonita Júlia, corpo para muitos amores à noite e de dia esforçada ajudante no pilão de milho e meixoeira para a xicalabiça, foi incansável no vaivém da mudança.
No último carregamento e sobre a enorme xidjumba (7) que Júlia transportava à cabeça lá ia a nossa xicandarinha a caminho do sul das nossas vidas. Erecta, asa e bico agressi-vos, qual pássaro metálico, a chaleira, já mais curtida pelo fogo e fumo, ia desafiar novas lenhas sem medo dos caçadores da vida.
Com mão de ferro, a mamã guiar-nos-ia serena e irredutivelmente contra os pântanos traiçoeiros de Minkhokweni.
(...)
Rodopio grande nas areias de Minkhokweni. Nós e a vida. Ladeira enorme coberta de pamas (8) e piteiras (9) onde, depois das chuvas de Novembro, também despontavam malmequeres. Rodopio nosso e da mamã. Madrugada nas bancas do bazar, em casa venda de xicalabiça e ximantana até altas horas.
Naquele dia dois dos mabandido mais famosos em todo o Minkhokweni bebiam. N'Wa-manarro e Julião. O primeiro, grande e musculoso, recém-saído do calabouço, ganhara a alcunha pêlos costumados e certeiros três socos que derrubavam qualquer gigante. O segundo, Julião de seu nome próprio, mais baixo e magro, era esguio e rapidíssimo no contra-ataque. Músculos de aço, cabeçada demoníaca.
Chuvisca. No arejado barracão construído ao fundo do quintal, os bebedores intrépidos provocam directa e indirectamente os dois inevitáveis contendores. O ceptro de maior brigão e a quem as mulheres temiam e se entregavam continuava nas mãos de NTWa-manarro.
Rodopiou um desejo de violência nas mãos nervosas dos dois mabandido. Mamã advertiu que não queria confusão dentro de casa. Pancadaria só lá fora. Em vão. O álcool não res-peita palavras. Entretanto, no meio do barracão, em lume brando, a xicandarinha. Agora, o seu corpo enorme e enegrecido, apesar da cinza e areia da lavagem quotidiana, ostenta já uma asa desengonçada pelo uso. Arquejante naquela madrugada fria de Junho, a xicandarinha ferve a sua água indiferente ao fogo humano mais forte que a circunda.
— Ha I Kine Júlio (10) — disse N'Wamanarro, quando Dindinde, viola querido em todo o bairro, desafiava uma marrabenta, ritmo recente e alucinante a dardejar caniços acesos de desejo nas ancas voluptuosas das mulheres.
Foi o pretexto para Julião, nervoso e espectante. Júlia era bonita. Seu corpo ainda jovem devia ser mais saboroso que massala (11) madura. Rodopiou um impulso irresistível no peito do Julião. "Quem dança com ela sou eu!". Com o seu braço de aço afasta a reboliça anca de Júlia que ondulava provocantemente em N'Wamanarro.
Violento, o grande combate começava.
A mamã, força e coragem memoráveis, antevê o perigo de uma morte violenta acontecida em casa. Empurra demolidora os dois brigões, exigindo aos berros que larguem os sinistros canivetes de ponta-e-mola. Consegue, ninguém sabe como.
Mas o combate a soco e cabeçada continua para durar. Duas joelhadas tremendas de Julião derrubam o gigante que cai estrepitosamente sobre a nossa xicandarinha. Mas água quente não queima corpo a ferver.
Gritámos e incitámos os nossos fregueses a ajudarem-nos a empurrar os dois belicosos para fora do quintal. Sacudidos pelo recente exemplo da mamã, xibalos e djimizanas (12) uniram-se no esforço para os tirar.
Quando a claridade começou a despontar por detrás dos eucaliptos do "compound" de magaízas "Mann Jorge" e já quase a 100 metros da nossa casa, N'Wamanarro caiu desfalecido junto a uma enorme pama. Julião, bem esmurrado mas feliz, olha vitorioso para a pequena multidão que o admira. A partir daquele momento os mabandido tinham outro chefe.
No quintal da nossa casa, no meio do barracão, a xicandarinha não ficou incólume desta noite de rodopio. Mais amolgada, tinha a asa solta. O funileiro ficava longe e era caro. Arames grossos, bem virados a alicate, recolocaram a asa partida. Muleta feia, mas funcional.
Ósculos de fogo em nós. Viajámos sonâmbulos entre o trabalho e os livros. Eduardo, o mais velho, aleijado de uma perna por uma injecção mal dada em criança, é atacado pela zona, nome estranho a rotular uma doença provocada por sono a menos e "stress" (13), conforme afirmavam alguns médicos da época. Pouco depois é a mamã que cai de cama com a mesma doença.
Agora são os nossos olhos que ardem mesmo sem o fumo subindo do fogão da xicandarinha. Coitada da nossa chaleira! Corpo marcado, sofrido, mas sempre imprescindível. Ah! Grande tio Dinasse, pouco durou para saborear de novo o chá da sua oferta.
Morávamos em nova casa. Desta vez nossa, nossa mesmo, construída em frente à da maravilhosa tia Gumende. Para a erguer, tivemos de abrir à catanada um terreno então impenetrável de piteiras e micaias. Piores foram as cobras, bem venenosas, a disputar o espaço. Uma até mordeu a mamã. Apavorados e estupefactos vimos a nossa velha apenas a espremer a mão mordida e ir lavá-la com sabão. Nada lhe aconteceu. Estava vacinada contra os ofídios. Poderosos e milenares antídotos, estas vacinas fabricadas pêlos nossos nhangas (14)!
Infalíveis contra cobras, doenças várias e até espíritos malignos da nossa ancestralidade ronga.
Depois da zona veio o tifo. Só a mamã é que apanhou e sobreviveu. Em casa a vida não parou neste intervalo de corpos doentes. Apenas uma vez abrandámos, remoídos de angústia. Tinham-nos roubado a xicandarinha!
Desengonçada, já velha mas sempre operacional, ela ainda causava inveja pelo seu tamanho e resistência. Quem nos roubara?
Metade de Minkhokweni conhecia a xicandarinha. O alerta foi geral. Fregueses habituais, vizinhos, prostitutas e mabandido prometeram averiguar. Nossos amigos das futeboladas de fím-de-tarde, desde o Babá, mulherengo mas sempre prestável, até aos Leong, filhos do cantineiro chinês do bairro, foram devidamente avisados.
Ao fim do terceiro dia a boa nova chegou. A xicandarinha fora finalmente descoberta. Júlia, a incansável Júlia, rosto já a enrugar prematuramente, boca queimada a álcool e mulala, descobriu a xicandarinha em casa de Ximatana. Assim chamado por preferir esta bebida mais reservada a mulheres, Ximatana era estivador-carregador nas horas vagas, pois em tempo inteiro ocupava-se especialmente da visita às "barras" (15), copo na mão, sempre sequioso, roubando amiúde para sustentar o vício.
O pessoal queria castigá-lo severamente. Não deixámos. Dois meses sem poder beber em nossa casa era um bom castigo. Castigo grande para Ximatana que deixaria de saborear uma bebida melhor fabricada e, sobretudo, a possibilidade de beber fiado quando na bolsa lhe escasseassem as quinhentas.
(...)
Tal como a xicandarinha, resistente mas envelhecida, a mamã buscava mais forças no próprio trabalho depois de cada internamento no hospital ou dos últimos recursos dos nossos nhangas.
A Guida começou a namorar às escondidas. Com um maguerre, como diziam os vizinhos, referindo-se ao operário branco rondando o quintal e procurando espaço para meter a mão na mulata jeitosa.
Certo dia mamã não esteve com contemplações. Avisada das investidas do intruso, mandou encher a xícandarinha. Retirando a tampa larga quando fervia e segurando firme a chaleira pelo gargalo e base com um saco de serapilheira sincronizou bem a passagem do conquistador. A água saltou e ouviu-se um grito surpreso e dolorido do outro lado do quintal. Alvo atingido. A xicandarinha mais uma vez funcionara em pleno. Também era uma arma, estava provado.
Mas de nada valeu esta guerra particular da mamã. A água quente da xicandarinha só fez ferver mais o coração apaixonado do operário que após dois anos de muitas peripécias acabou por casar com a mana mulata dos seus olhos.
Em casa as noites continuavam agitadas. Num sábado luarento a situação explodiu a ferro e fogo. O quintal estava apinhado de gente bebendo. Num canto xibalos entoavam canções e danças de Inhambane ao compasso de um bandilhado com dedos exímios por um velho tocador. Mais próximo do zinco da casa, um gira-discos a pilha lançava para o ar o som trepidante de um novo ritmo, a madjuba.
De repente uma patrulha a cavalo irrompe pela porta derrubando parte do quintal de caniço. Gera-se, confusão, susto e ódio entre aquela centena de farristas bêbados de sábado.
Nas mãos da policia montada brilham espadas. Tentam arregimentar as pessoas num canto para depois as prender. Já passava das nove horas. Começa uma luta encarniçada pela fuga. Homens e cavalos engalfinham-se furando o caniço à cabeçada e coice. Alguns polícias caem dos cavalos mas, temerários, aventuram-se a pé em perseguição dos fugi-tivos. Azar. Vários foram atirados de repente para o meio das piteiras.
Dentro do quintal a batalha continuava. Um dos cavalos, esporeado à toa por um polícia enraivecido, derruba a cozinha. Os cascos ferrados da besta rebentam panelas de barro, quebram tachos e amolgam a nossa xicandarinha.
Stefana, pequeno gigante empurra-zorras do C. F. M., escoiceado, sevícia o cavalo que o maltratou. O polícia estatela-se. Ouvem-se dois tiros. A batalha ganha sangue. Stefana escapa de uma morte certa por milagre, aliás, por nervosismo do polícia desvairado. Mas uma das balas ainda lhe furou de raspão um dos braços.
As pessoas, mesmo espadeiradas, não se queriam deixar prender. De cerca de uma cen-tena que eram, a polícia só conseguiu arrebanhar umas quinze. Foi com elas que fomos parar à esquadra.
A situação desta vez era grave. Houvera confronto, inadmissível para os polícias. Todavia, uma boa estrela brilhou bem na altura na esquadra da polícia montada. Já de madrugada e quando os processos estavam a crescer na mesa dos guardas de serviço, apareceu um velho comissário da polícia que era um antigo amigo do papá. Noutros tempos houve qualquer favor que o pai lhe fez aquando funcionário da Alfândega, recordou-se depois a mamã. O comissário lá nos safou de apuros em memória do velho. A nós e aos restantes presos. Afinal... Todos trabalhavam e não tinham sido presos na rua depois das nove...! Quando se quer, as leis moldam-se ao sabor dos chefes...
De regresso a casa, já manhã alta, o dia revelou cruamente os estragos. Quintal e cozi-nha derrubados, animais mortos na capoeira escangalhada. Quando erguemos as chapas derrubadas da cozinha os nossos olhos pararam. No meio dos tachos destruídos, a nossa escoiceada xicandarinha mostrava bem visíveis, ao meio do seu bojo enegrecido, dois furos de bala. Um grande silêncio cresceu em nós. Agora também as balas.
A xicandarinha só poderia ferver água com menos de metade da sua capacidade. Osculada por outro fogo que não o da lenha, não a quisemos contudo pôr fora de combate. Continuaria a funcionar. Era preciso moderar, mas não parar.
Há dois dias que as chuvas não paravam. Torrenciais, pareciam uma cortina de chumbo líquido caindo devastadoras. Chuvas de fome, estas de Dezembro a Janeiro, meses que em casa sempre pressagiaram doenças e morte.
As águas, em correntes impetuosas, juntavam-se na zona alta da Malanga e galgavam medonhas até Minkhokweni. Iniciámos um dique protector à volta da casa. Suor e sangue estavam ali naquelas paredes de madeira e zinco. Não deixaríamos que fossem engolidas de qualquer maneira!
No terceiro dia a situação agravou-se. A rádio anunciou que se tratava de uma depressão denominada "Claude". Um vazio opressivo pairava em toda a casa, agora silente de fre-gueses. Aliás, desde as últimas confusões, moderámos as vendas, ao mesmo tempo que adoptámos uma táctica de vigilância de modo a despovoarmos o quintal ao primeiro alerta, refreando assim o ímpeto policial. Mas a água caindo violenta sobre o telhado, que rangia aos golpes de vento, aumentava-nos a tensão pela impotência perante a natureza.
— Nhandayeyoooô...! (16) Nhandayeyoooô...! gritavam vozes pedindo socorro no meio da noite. Também cercados, nada podíamos fazer. Já sobre o caniço do nosso quintal e do outro lado das piteiras, as águas em fúria rasgavam a terra mole, abrindo gretas de vários metros de profundidade, arrastando toneladas de lodo e areia para lá da ladeira, cobrindo a Rua das Estâncias, saltando sobre o longo muro gradeado dos C.F.M., assoreando, inundando e inutilizando as linhas férreas.
A chuva continuava a cair sobre o nosso silêncio. A rádio falava já em grandes catástrofes no campo. Os gritos de "Nhandayeyô! Nhandayeyô!" tolhiam-nos de angústia.
Finalmente no quinto dia as chuvas amainaram. Investigando cautelosamente, respirámos de alívio ao ver a sapata de cimento da casa incólume, mas à beira do abismo cavado pelas águas. Igual sorte não teve o quintal e a enorme cozinha com despensa que tínhamos construído em substituição da outra. Desapareceram engolidas pela enchurrada na noite do último dia da depressão tropical. A desgraça tocou a todos. Vizinhos nossos tiveram pior sorte, perdendo tecto e haveres.
Os velhos do lugar, abanando as cabeças de carapinha alva, afirmavam condoídos que era uma grande desgraça, para logo a seguir pressagiar convictos:
— A natureza veio avisar que muito sangue e fogo vão correr na nossa terra, muita gente vai morrer!
Solidariedade foi enorme entre os pobres e remediados de Minkhokweni na reparação dos estragos. Porém, os tractores da Câmara Municipal apenas apareceram na Rua das Estâncias para desassorear a estrada. Para os nossos lados só surgiram meses depois, mas sob a pressão e mando dos abutres das negociatas com terrenos e prédios de ren-dimento, unhas afiadas para novos espaços.
— Mas onde ficou a xicandarinha? — perguntou o Carlitos, já a tentar abrir um caminho de travessia pela enorme vala pluvial.
Guardada num canto da nova cozinha acabou também por ser devorada pelas águas em convulsão. Ninguém mais a viu. Mesmo depois de os tractores terem terraplanado toda aquela zona, ela não apareceu.
As águas sepultaram definitivamente a nossa xicandarinha no chão revolto de Minkhok-weni.
Xicandarinha de fumo e fogo, xicandarinha de água e vida, xicandarinha pássaro e arma, xicandarinha de sangue e balas, a nossa xicandarinha libertou-se da lenha do mundo oxidando-se nas mesmas areias onde apodrecem os homens.
Olhámo-nos apreensivos. A mamã, meditativa, apenas nos disse o mesmo que meses depois nos lembraria quando um senhor de fato e gravata, título de propriedade numa mão e autorização camarária noutra, nos intimava a desmantelar a nossa casa do seu terreno.
— A xicandarinha não tinha braços nem cabeça para se defender e lutar. Nós temos, meus filhos. Coragem. Amanhã começaremos nova vida.

Calane da Silva, Xicandarinha na Lenha do Mundo



Glossário:
(1) Bem vindo, irmão!
(2) bebida fermentada, tipo cerveja, que é consumida principalmente por mulheres;
(3) bebida tradicional mais alcoólica do que ximatana;
(4) invocar os mortos, pedir a benção;
(5) árvore de grande porte, cuja ma¬deira arde com dificuldade;
(6) neologismo, baseado no português bandido e no prefixo ronga ma (que indica plural);
(7) trouxa;
(8)árvore de grande porte;
(9) variedade de cacto;
(10) vamos dançar, Júlia!
(11) Fruta saborosa e bastante aro¬mática, de casca grossa e rija, e que tem dentro sementes envolvidas por uma camada cremosa sumarenta;
(12) estivadores do cais;
(13) tensão;
(14) curandeiros;
(15) balcão ou estabelecimento de venda de bebidas;
(16)Socorro!


O Encontro


Após o jantar, andam de roda de Lisa: André, Lúcia, Celso e Dalila. Tentam persuadi-la a que os acompanhe ao cinema. – «Vão vocês. E tu, Lúcia deixa-me uma pastilha para dormir.» Mas chega o Fausto que aceita ir, já fazia tenção, dirige-se à Lisa – «Preciso muito de falar contigo» –, pelo que a Lisa cede. Dá conta de que se alinda, se pinta e se adorna com a mesma se não maior calma do que antes, como se nada se houvesse passado e nada se estivesse para passar.
Alegremente, seguem os quatro, à frente, o Fausto e a Lisa um nada distanciados, ouvem o André rabujar: cortaram-lhe o artigo todo, não falava de guerra de África, nem da greve, nem dos petardos, apenas uma referência ao negócio da droga onde a própria C. I. A. está envolvida. O Fausto ainda não disse nada. E o que tem para lhe dizer decerto se não refere ao emprego, por isso Lisa lho faz lembrar – «Preciso de arranjar trabalho. E um quarto.» – «Uma amiga da Marina, a Raquel, uma moça porreira, ofereceu-se para te enfiar no crediário. Como é amiga da chefe, começas já a vender e só depois, se te interessar, frequentas o curso de vendas a que obrigam toda a malta que entra de novo.» – «Para me dizeres isso escusavas de me arrastar ao cinema.» O Fausto pára, enfrenta-a, os olhos levemente esbugalhados, aperta-lhe o pulso. – «Façamos a experiência. Vem viver comigo. Se tens problemas, não dormimos juntos.» – «E eu resolvia a questão do quarto.» – «Preciso de ti. E tu de alguém que te ajude.» Recomeçam a andar.
O cubo luminoso, sobre a porta do cinema, com as arestas móveis mercê das lampadazinhas que se acendem e apagam umas atrás das outras faz rebentar uma grande e mais viva claridade sobre o passeio e sobre as pessoas. Sondam-se, a Lisa e o Fausto: – « Às duas por três passavas para a minha cama.» – «Acho que isso só podia acontecer se tu o quisesses.» – «E quando é que a gente faz só aquilo que quer? Diz lá como é isso da Marina. Que é que tenho a fazer, para já?» – «A Raquel e a Marina encontram-se, amanhã, no Toldo, às três horas. Aparecias também.» O azul e o vermelho dos anúncios vão colorindo os rostos, a seta piscapisca, direita à montra da salsicharia, recomenda frangos assados, e na montra amontoa-se a profusão de enchidos, queijos e frutas raras. As pessoas esbarram aqui e além, cruzam-se, mal se encaram, os moços cabeludos, de blusões, como o Hugo, as moças de mini-saia ou calças e as farripas escorridas ao longo das costas, como a Lisa; a montra de electrodomésticos, a da loja dos brinquedos, os carros que deslizam e adiante param em fila com os muitos pares de olhos vermelhos a luzir, o cenário quotidiano que enche o caminho para o cinema ou para o apartamento do André e da Lúcia. O André, de braço estendido para eles: – «Vocês aí! Vêm ou não?» Mais grupos de moças e moços cavaqueiam, os rapazes enfiando os polegares nos bolsos ou nos cós das calças, as raparigas alisando as melenas. Celso, que estava na bicha, acerca-se, levanta ao ar os bilhetes – «Já começou. Vamos.» Renques de bolos coloridos enchem a montra da pastelaria.
Entram. Pendem do tecto esferas facetadas que lançam reflexos débeis, Lisa mira-se ao espelho – bonita, bem vestida, bem realçados o busto e as pernas – e, triste e curvado, o Fausto mira-se também, alisa os cabelos. Sentam-se lado a lado. Enquanto correm as actualidades o Fausto leva o tempo todo a observá-la.
As primeiras imagens do filme começam, o genérico sobrepondo-se, e Lisa volta a cabeça, cicia: – «Vá, Fausto, dá atenção ao filme.» Das palavras e do olhar de Lisa desprende-se uma ternura que desagrada ao Fausto porque lhe parece completa ou demasiadamente maternal. As imagens incitam as pessoas a imaginar-se no princípio do século, um cais, os bares, o jovem que, vê-se logo, vai ser o herói, belo e forte, Lisa compara-o ao Hugo, depois ao Fausto, há muito percebe que é amada, seria tão fácil e cómodo mudar do apartamento para o quarto do Fausto, ser a moça do Fausto, mas chegar ao meio do mês sem dinheiro, pedi-lo emprestado ao André ou ao Celso, pagar, tornar a pedir, para tornar a pagar e tornar a pedir, isto indispõe os ânimos, predispõe ao duelo, às implicaçõezinhas domésticas.
Jeremias Johnson comprou o cavalo e a mula, sobe a montanha, grande, extensa como a vida, moço, belo e forte como o Hugo.
Hugo põe o disco. Começa a despi-la. Todas as luzes acesas.
Quando a tem nua despe-se também, colam-se um ao outro, embalam-se no ritmo lento da música, Hugo abre e fecha os olhos, Lisa mantém-nos abertos, concentrada nas sensações.
Passiva, feliz, primeiro, revolve-a de súbito o furor que lhe nasceu no útero, lhe liberta os músculos, e palpa o Hugo de alto a baixo, de alto a baixo o beija, o morde, o devora.
A cavalo, galgando passo a passo os penhascos, Jeremias Johnson ganha as alturas. Em grande plano o azul estriado das pupilas que perscrutam a vastidão dos horizontes, a montanha: branca, aqui e além manchada do escuro das rochas ou da vegetação. O ribeiro. O índio, figura feita de pedra, fixa em Jeremias o seu rosto agreste de hostilidade e Hugo roja-a sobre o sofá, morde-lhe o ombro, os seios. O disco chegou ao fim, range, pára de ranger. O tique-taque do relógio, Hugo a sorver-lhe a carne, cheio de fervor, Lisa a sorver-lhe a carne, cheia de fervor. Desfazem-se todos os ruídos, só o movimento de vaivém, o divórcio do mundo, a ausência do lugar, de si própria, o transe, o paroxismo da alegria, da ternura, do encantamento. Depois o grito como um salto sobre a vida. A paz feliz.
No gelo, o morto, sentado, de olhos fixos, espingarda assestada. Johnson arranca-lha. Lisa volta-se para o Fausto: integrou-se na história, absorto, ou pode ser que pense nela, a sonhar que a roja sobre o sofá, lhe sorve a carne impetuosamente. Johnson desvenda a montanha, vasta e densa de arvoredo, ou nua como um deserto. Na barraca do velho caçador, Johnson vê, aterrado, o urso a correr-lhe ao encontro. Ouve-se o rugido e de seguida o tiro. Johnson abateu a fera. Lisa descobre de repente que o moço belo e forte procura na montanha o que ela própria procura na vida: o encontro consigo própria na solidão.
A mamã acaba de lhe pôr o fato de banho. Lisa corre na direcção do pai. Ele espera-a de braços estendidos, toma-a e mergulha-a nas ondas. Lisa cospe a água, quase sufoca, mas ri, agarra-se muito ao pai, feliz porque o mar lhe parece medonho e hostil e sabe que o pai a defende do medo e do perigo.
Entreabrindo a porta do quarto, Lisa avança em passos leves, cheia de sobressalto. Sobressalta-a mais a postura da mãe, de angústia e ansiedade. Os braços do pai, hirtos, ao longo do corpo, os olhos abertos, fixos em Lisa, fazem-na recuar até à parede. Sem desfitar o cadáver, a mãe levanta-se, lança a mão como quem lança a bênção e cerra-lhe as pálpebras. Lisa compreende. Então o espanto e o medo amarram-na à parede.
Ficou uma estátua.
Hugo está a businar, Lisa já o viu, parou do outro lado do passeio, espera uma aberta, atravessa, senta-se, a expressão do Hugo (por certo a dela também) revela o júbilo do encontro inesperado. Dizem ambos ao mesmo tempo: – «Teve piada.»
E Hugo: «Vamos festejar!» – «Em casa?» – «Em casa.» Hugo põe o disco. Começa a despi-la.
Johnson destapa a índia, vê-se-lhe o princípio dos seios, Johnson diz «Oh! Meu Deus!», as luzes acendem-se, INTERVALO, o André, a Lúcia, a Dalila e o Celso levantam-se. – «Vocês vêm?» O Fausto: – «Nós ficamos.» Pergunta à Lisa se está a gostar. – «Sim. Engraçado: há pouco julguei-me identificada com ele. Quando afinal sou precisamente o oposto, incapaz de procurar o encontro com a vida.
Espero sempre que a vida venha ter comigo. Desde pequena, precisei sempre de muletas. O meu grande esteio foi o pai. Depois, a recordação dele. Depois, o Hugo ajudou. Agora, a recordação do pai aviva-se. Em cada um de vocês, não consigo ver mais do que a sombra do que essa recordação representa para mim.» De olhos tristes, levemente esbugalhados, o Fausto lamenta-se: – «Ainda me cheguei a convencer ou a esperançar-me que viria a significar para ti mais do que a sombra de um estímulo.» – «É justamente o estímulo que me falta. Encontrar algo que me prenda à vida sem que seja necessariamente o sentimento.» – «A nível ideológico?» – «Eu sei lá. Talvez. O marxismo começa a tomar o aspecto de receita. Tu, ao menos tens essa esperança. A vida, para ti, vale essa esperança.»
– «Estás errada, pá! Para muitos, a ansiedade política toma essa forma religiosa de realização pessoal, subjectiva. Ou objectiva. Para mim, não. O marxismo é qualquer coisa necessária, que é fundamental efectivar, e é a partir dessa efectivação que é legítimo que as pessoas busquem a realização pessoal.» As luzes apagam-se, regressam as imagens ao écran. Lisa fala baixo. – «Neste momento que é que te leva a gostar da vida?» – «Não sei se gosto da vida. Ou se gosto no sentido que lhe estás a dar. Estou pronto a renunciar a ela por qualquer coisa que constitua ou venha a constituir uma comparticipação útil para os outros.»
Alguém das filas de trás os manda calar. Lisa baixa mais a voz. – «Mas neste momento sentes-te preenchido por um desejo: o de que eu viva contigo. Isso é muito importante para ti. Falta-me essa qualquer coisa muito importante. Sinto-me fisicamente atraída para ti e é tudo.» – «Então porque te obstinas em não querer viver comigo?» – «Já te disse. Não me preenches coisa nenhuma. E a vida a dois é complicada. Principalmente quando economicamente as condições não chegam ao mínimo indispensável.» Mandam-na calar com mais veemência. Lisa cicia:
– «Sabes o que me aguenta? O instinto de conservação.» E ficam por fim calados a olhar para o ‘écran’. Johnson, a índia e o garoto arrastam grandes troncos de árvores, constroem a casa. Há momentos bons, trocam sorrisos afectuosos.
Brincam. Riem. E brincando e rindo, bulham. Com a armadilha para os peixes, a carabina para os búfalos, para as renas e para as aves, lutam, granjeiam a subsistência. Johnson encontra na montanha aquilo que porventura teria encontrado nos lugares donde fugiu: a amarra familiar. Que, volvidos dias, o massacre dos índios desfará para sempre: Johnson enterra a índia e o garoto e parte de novo.
Manhã cedo. Lisa, acordada, chora. Dia dos anos. Quando o pai era vivo, ia ele acordá-la. Arranja-se à pressa. Sai. Sensação, hoje mais acentuada, mais desencorajante: a multidão é o mundo hostil – e já não tem a mão do pai que a defenda. Há o padrasto, o ramo de flores, o beijo, «estás uma mulherzinha», a voz da mãe: – «Não agradeceste as flores, rapariga.»
Tão lesto e rápido como um lobo, Johnson salta, voa sobre cada índio, vibra-lhes golpes mortais: a destreza, a astúcia, o ardor e o prazer da vingança. A canção dolente do índio diz «O caminho que segues é o caminho que escolheste. Se parares, perdes.» Quem obrigou Lisa a escolher? Porque ela não escolheu. Quem lhe há-de dar a liberdade de não parar para não perder? O que é ganhar? Ou perde-se sempre? Terá de decidir entre estender a mão ao Fausto ou repudiando-o mergulhar na solidão onde não se encontra a si própria. A vida amarra-a a esta alternativa – e chama a isto liberdade. Johnson, perseguido e perseguindo, fixa-se na montanha. O rasto que deixa é a lenda: há na vida qualquer coisa a alcançar.
Hugo, Fausto, Lúcia, André, todos alimentam essa lenda e dela se alimentam.
A imagem de Johnson imobiliza-se no ‘écran’, a mão estendida a saudar cada um dos que acabam de ouvir a sua história. As pessoas levantam-se, regressam à sua própria realidade, aglomeram-se junto às portas de saída. No átrio, Hugo espera-os. Lisa conclui que se teriam encontrado no intervalo. Em defesa da qualidade do fi lme, o André dirige-se ao Celso – «Gostei, caramba!» – e o Celso desdoura-o – «Não traz nada de novo, pá.» – «E tu a dares-lhe com o novo!
Alguém diz alguma coisa de novo?». Interrompendo-os, Hugo dirige-se a todos, mais em particular à Dalila – «Sempre querem ir?» O Celso abeira-se – «Acho a ideia porreira» – e, trocando os olhares, o André e a Lúcia encolhem de leve os ombros e logo, num repente, o André puxa a si o Fausto e a Lisa, mantém-nos abraçados, um de cada lado, fita-os alternadamente – «Combinámos ir a uma ‘boîte’, venham daí!» Recusa de Lisa que pede a chave à Lúcia, precisa de dormir.
– «Distraías-te.» – «Distraiam-se vocês. E tu, Fausto, vai também.» Prefere não ir, o Fausto. Ninguém insiste, a Lúcia dá a chave à Lisa. O Celso: – «Tá descansada, não fazemos barulho quando entrarmos, deita-te na cama, ficas tu com a Dalila e durmo eu no colchão.» Entusiasma-os a espectativa de uma noite de farra, «Chau», ouve-se em coro – Ciao! Assim cabemos todos no bólide do Hugo!», grita o Celso já distanciado. E o Fausto e a Lisa tomam o caminho devagar:
«Certo como dois e dois quatro, ocorre a todos que, ambos sós (o Fausto e a Lisa) irão agora direitos ao apartamento fazer amor.» Talvez o Fausto tenha a mesma sensação ou pense talvez que o acaso os deixou sós para que se dêem um ao outro. E se ela se lhe entregasse? A voz do Fausto traduz a irrequietude dos que se julgam no ponto culminante, quando as palavras são decisivas para alcançar o fim em vista – «Compreende que é tudo simples e que complicas a coisa.
Sentes-te fisicamente atraída mas não te preencho coisa nenhuma. Escuta, não te preencho porque, como tu própria o disseste, a realização sentimental não representa a grande ou a única razão de viver. É apenas uma maneira de viver.»
– «Dispensável, acho eu.» – «Necessária.» – «Como experiência.» – «Como experiência, se assim quiseres.» Lisa encara-o, um tenuíssimo formigueiro sobe-lhe das coxas ao sexo, perturba-a. De perturbada que está, dobram-se-lhe os joelhos, o peito arfando, pára defronte da montra da casa de brinquedos. O Fausto tomou-lhe o braço. A mão ferve-lhe. Liberta do Hugo, liberta de qualquer preconceito, nada a impede de ceder aos impulsos. Apoia as costas ao peito do Fausto, volta para ele o rosto: Fausto compreendeu. De arregalados, os olhos parecem crescer. Cresce ele para Lisa e aperta-a no jeito de serena segurança de quem se apossa. Prosseguem o caminho. No elevador, Lisa ressente o que sentiu anos atrás quando subia para o apartamento do Hugo. Abre a porta, entra, espreita a expressão do Fausto, fitam-se olhos nos olhos, começa Lisa a despir-se. Nua, só a trusse lhe cobre o sexo e as nádegas. Ofegando, os seios sobem e descem, redondos e hirtos, coroados pelas duas rosetas muito vivas e os bicos eriçados.
Fausto esmaga-lhos com a boca avidamente. E avidamente, no desesperado delírio do prazer, se rojam um contra o outro. Num primeiro impulso de submissão. Lisa abandona-se. Mas revolve-a depois um furor que lhe nasce no útero, se expande pelo corpo, pelos peitos, pelos braços até às mãos, e afaga-lhe o sexo, palpa o Fausto de alto a baixo, de alto a baixo o beija, o morde, o devora. Inerte, prostrada, segundos após o orgasmo, pressente que lá, não se sabe onde, ou onde costumam tomar forma infernal os sentimentos infernais, dessa região profunda e indeterminável de si mesma, uma ideia envenenada começa a nascer: sem o amor cego da paixão, impelida apenas pelo desejo, veio para a cama com o Fausto. Os lábios do Fausto percorrem-lhe o pescoço, os seios, o ventre. Lisa acaricia-lhe os ombros, paralisam-se-lhe os dedos, e, cerrando muito as pálpebras: – «Apaga a luz de cima, fere-me a vista», entrega-se passiva às mãos que lhe apertam os seios, o ventre, o sexo; retrai-se. Fausto estuda-a. Acende o candeeiro da mesa de cabeceira, apaga a luz de cima, estuda-a. Lisa levanta-se, dirige-se ao ‘living’, regressa já vestida, e, enquanto o Fausto se vai vestindo vagarosamente, compõe a cama, alisa as fronhas, a colcha, pede-lhe que lhe dê um cigarro e dirige-se outra vez para o ‘living’, onde pouco depois o Fausto a encontra semi-estendida no sofá a fitá-lo, meio confusa. – «Em pequena, gostava de bonecas como de pessoas.»
Vê-o acender o cigarro, esbugalhar de leve os olhos como se tentasse desvendar-lhe os pensamentos: – «Eu passava a vida a desejar comboios eléctricos.» Lisa sorri: tem pena do Fausto. Que decerto compreendeu tudo porque está triste. – «O teu pai nunca te chegou a dar o comboio?» – «Nunca.» Lisa esmaga o cigarro.
– «E a tua infância, como foi? O desejar comboios?» – «Sim, Desejei sempre coisas que nunca obtive.» – «Odiavas os teus pais?» Baixa e levanta as pálpebras, enfrenta-a: – «Bem vês!: é difícil saber se o que imagino hoje que senti quando era criança corresponde ao que realmente sentia. Mas creio que fui sempre como sou hoje: não responsabilizo as pessoas, odeio os conceitos que levam as pessoas a maltratar-nos. O pai estava convencido que, educando-me na linha dura, faria de mim um homem à sua imagem e semelhança.» – «Bom. Dá-me um brandy e vai-te embora. Amanhã é dia de trabalho.» Fausto bebe o brandy, reenche o cálice e oferece-o a Lisa. Compõe a gola da blusa, abotoa o casaco, traça o cachecol. – «Chau, moça.» – «Chau.» Lisa sorri de novo, penalizada. Junto do elevador, fita-o:
– «Desculpa ter-te mandado embora, mas preciso de dormir.» – «Eu também. É tarde. Chau.» – «Chau.» Quando leva o dedo ao botão de comando, o suspende e a fita, Lisa teme que ele se deixe resvalar para o drama. Mas não. É só na íris escurecida que se espelha o que lhe vai dentro e o devasta. O bastante para a arrasar. O arranque do motor estrondeia o seu urro de máquina e o elevador desce.

Faure da Rosa, In Adágio