28/04/2009

Na tal noite


Vinte e cinco , Natal. O quissimusse, como se diz aqui. Mariazinha, à porta, espera a anual visita de Sidónio Vidas, o episódico esposo. Ei-lo agora, em aparatosa aparição, santificado seja ele e mais a sua vaidosa viatura. Ele nunca tanto chegara. Fazia como a chuva procede com as fontes secas: inundava após ausência.
Mariazinha parece viúva, alinhada com seus dois filhos, na entrada da porta. Ela contempla o volumoso Sidónio, parecendo uma gelatina a ser descolada do fundo da taça. Mariazinha, atrapalhada, segreda aos miúdos:
- Já sabem, ao sinal combinado, vocês desaparecem das vistas!
Os filhos rabeiam o olho na mãe, irreconhecendo-a: vestido cheiroso, penteado de cabeleireiro, unhas de manicure. E receiam que, uma vez mais, seja mais desencontro que encontro. Havia sido assim desde o princípio: a noite sem núpcias, o esposo cadente, com juramento sem prazo de viabilidade.
Os miúdos já sabiam: o pai trabalhava longe em país muitíssimo estrangeiro, a distância que só lhe dava conveniência visitar a família na noite de vinte cinco. Cada ano, o pai chegava com seus carros sempre novos. O remoto controlo accionado, num blip-blip mágico e, da bagageira, como em atrelado de trenó, saltavam os presentes, alegria aos molhos.
Neste Natal, mais uma vez, muda o carro e toca mesmo. O pai faz abrir a mala do automóvel e de lá espreitam embrulhos e celofanes. São mais os enfeites que os conteúdos, mas não é assim mesmo a festa: feita de ilusão e brilhos maiores que as substâncias? Os miúdos, algazurrando, precipitam-se sobre os presentes. E ali ficam, no quintal, entretidos com as lembranças.
Sidónio dá entrada na sala em pose de governante. A esposa segue-o, diminuta, protocolar. O homem engrossa as vistas pela sala. Sobre o armário um improvisado presépio. Só as palhinhas do menino nascente são genuínas. O resto é invenção desenrascada, tampinha de coca-cola, arames e restos de lixos.
O marido senta-se à mesa, refastelado, dono. Vai desapertando a fivela do cinto para, em prevenção, se valer por dois. Mariazinha assoma à porta da rua e, com um estalar de dedos, reafirma a ordem: os filhos que se mantenham longe. Aquele momento era exclusivo dos dois, a noite de todas as noites.
- Fritei um peixe, aquele que você morre pela boca.
Sidónio estala os dentes na língua e faz passar as espinhas pelos beiços. A esposa comendo em pé, prato no apoio da mão, vai olhando o marido. Resplandecendo no pescoço, o fio de ouro, ambos cada vez mais gordos. O ouro parece autêntico. Falsificado é o portador, sem marca de origem, nem garantia de proveniência. Sempre que vem, ele exibe acrescidos fios e anéis, ornamentos douradoiros. Para que Mariazinha não pense que ele foi cavalo e regressa burro.
- Cuidado marido, cuidado a espinha na goela.
- Goela tem o pobre - emenda Sidónio.
- Gente como eu tem garganta, esta perceber?
Sidónio Vidas arrota a marcar parágrafo na refeição. Mais calado que um deus, distante, confiante. Toca o telemóvel, altissonoro, ele grunhe sílabas de nenhum idioma. E desliga como se desligasse não o aparelho, mas o interlocutor.
- Há sobremesa. Um docinho?
- Estava com falta de açúcar, mas o vizinho, o Alves...
- Pois é, açúcar com gentil cortesia do vizinho Alves.
O tom é irónico, magoado, suspeitoso. O vizinho Alves estava-se avizinhando de mais?
- Mariazinha, você me está ser fiel?
- Eu? Sidónio, eu...
Ela, desencontrada das palavras, derrama-se, chorosa. Podia ele, de humano direito, duvidar?
- Cale-se, mulher. Não diga nada.
Que aquela comoção lhe aflige a digestão. Sidónio vê-se obedecido. Passa a mão pela barriga, com a mesma ternura com que as grávidas acariciam o vindouro.
- Não quero esse doce.
- Mas, Sidónio, fiz para si, com tanto carinho...
- Não me apetece, pronto.
Mariazinha recolhe o prato, junto com a lágrima. Na cozinha assoa-se, olhando pelo quebrado vidro da janela a luxuosa viatura do marido. Quem vai à guerra dá e leva, se diz. Mas ela tinha ido à paz e só tinha levado. Ali estava, o Mercedes, cheio de auto--suficiência.
Em vez de inveja, porém, lhe vem um alegre preenchimento. Como se o automóvel fosse propriedade sua e ela, alguma vez, viesse a espampanar suas larguezas nos estofos.
Regressa à sala e mantém-se encostada ao armário. O móvel abana e tombam os bonequinhos. Cristo desaba do berço. Sidónio, pela primeira vez, concede olhar a esposa. E confirma o ditado: que o homem é tão velho quanto a sua idade e a mulher é tão velha quanto parece. Olha as mãos dela, nota o verniz. Mariazinha se esgateia, às pressas recolhendo aquela vaidade.
- Pintei hoje de manhã, pedi ã vizinha uma tintinha emprestada.
- Sou capaz de ter que rever essa mesada.
- Ah, a mesada, já há dez meses que você não...
- Tenho prioridades, Mariazinha.
Finda a refeição, descalçados os sapatos, Sidónio escomprida-se na cadeira e fecha os olhos, todo atento aos seus próprios interiores. Sucede, então, o imprevisto. A mulher, subitamente dengosa, se debruça sobre ele, aumentando a visão das suas carnes.
- Me está a apetecer dançar. Não quer ligari essa musiquinha, marido?
- Qual música?
- Essa do seu telemóvel.
Sidónio levanta-se, arrastado. Os olhos dela ainda rebrilham, esperançosos. Mas não é para ela que ele se ergue. São horas, está de abalada. À porta, ela ainda requer, em sussurro:
- Para o ano, você volta?
- Não sei, mulher, não sei, você sabe, a coisa não está fácil...
- Mas você pode trazer os seus outros... os irmãos dos seus filhos. E pode trazer a... ela, também. Eu não me importo, Sidónio.
Mas o homem já não está na conversa. Chama os filhos para a despedida e ruma para o carro. Enquanto ele se espreme para entrar na viatura, Mariazinha comenta para os miúdos:
- Aquele é um homem bom que ainda há nesse mundo.
E o mais novo, apertando a mão da mãe:
- O pai é aquele que chamam de Pai Natal?
Riso triste vai esvanecendo no rosto da mãe, enquanto Sidónio desaparece no fundo escuro da estrada. Mãe e filhos ficam contemplando a noite, como que esquecidos que havia casa onde reentrar. De súbito, o mais velho sacode a saia da mãe e aponta:
- Veja, mãe, está chegar o vizinho, o senhor Alves.
Mariazinha, apressadamente, compõe vestido e sorriso, e murmura:
- Já sabem, meninos, ao sinal combinado, vocês desaparecem das vistas!


Mia Couto, O Fio das Missangas



20/04/2009

As mãos de prata


Desde a minha mudança para esta zona convizinha de ciganos e barracas de madeira, que aquele ser pertence à minha «colecção dos remorsos» – museu vivo de pessoas infelizes que trago sempre na memória para, de vez em quando, me lembrar da desgraça do mundo (não sei bem. para quê). Mas a verdade é que, para viver alegre e feliz, sinto necessidade desta obrigação de untar de fel cada sorriso que me vem à boca.
Estou neste momento a referir-me ao mocito de perfil ranhoso e dois tubos ferrugentos a servirem de pernas que, às corridinhas descalças, não largava as saias da mãe, uma mulher debruada de porcaria que, todas as manhãs, antes de chegar a carroça do lixo, remexia nos caixotes já muito esgaravatados pelos cães nocturnos.
Nesse garoto, que a imundície tornava, por assim dizer, mais inocente, impressionavam-me sobretudo as mãos que me estendia a pedir esmola.
Duas mãos belas, estreitas, de longos dedos de prata transparente, colados a uns bracitos peludamente sujos de animal condenado ao trabalho do suor sem gozo. Mãos aristocráticas, em suma.
– De fidalgo! – como lhe berrava a mãe furiosa contra ninguém. – Eu dou-te a fidalguia, meu malandro!
– Porque não o manda para a escola? – ouvi eu um dia alguém perguntar-lhe, de passagem (como sabem, só conheço a desgraça e a miséria de raspão. De ouvido).
– Escola? O que ele precisa é de fossar! De um ofício! – respondia a mãe com teima quezilenta. – Não sustento calões!
E, como pude verificar pela vida fora, não desistiu desse intento porque, durante anos e anos de espionagem, acompanhei o itinerário do garoto aos tombos de ofício em ofício. Que me lembre, vendeu castanhas, carregou cestos de marçano e até o lobriguei, de bata encardida de aprendiz, muito perfilado na barbearia do bairro, a estudar com indiferença atenta os manejos da navalha vaidosa de um mestre-escama (por pouco tempo, creio-o bem). Mas sempre canhestro e desajeitado, as mãos cada vez mais esguias, de leveza longa, a contrastarem com o corpo grosseiro; cabeçorra de cabelos hirtos de tanta sujidade, testa curta, olhos estúpidos, nariz de bicanca...
Bem. Não esperem agora que vá ficar para aqui a relatar miudamente a vida desse rapaz (em grande parte apenas adivinhada ou deduzida), que lá foi vegetando aos baldões indecisos enquanto a mãe irada teve forças para o arrastar, a tabefe, de ofício em oficio. Sapateiro, marceneiro, ajudante de trolha, alfaiate, assentador de fundos de cadeiras, sei lá! Tudo em vão. O pobre moço nascera com destino de operário de última escala (nunca poderia ser outra coisa na vida!), mas, por qualquer fatalidade nervosa de inibição trágica, as mãos recusavam-se a «ter jeito» e a ajudá-lo a seguir o rumo social que lhe pertencia por injustiça de nascer.
Até que, em certa tardinha desamparada, o encontrei sozinho no meio da rua, com uma braçadeira de luto. (Morreu-lhe a mãe – pensei, estremecido de horror. – Que vai ser dele?)
Mas não levei mais de dois minutos a esquecer-me da tragédia. (Estava bem arranjado se sofresse tanto como devia!) E, durante meses e meses, não tornei a pôr-lhe os olhos em cima. Provavelmente, expulsaram-no da barraca de lata onde vivia com a mãe, mudou de bairro e agora anda por aí – coitado! – ao deus-nãodará!
Isso sim! Respirava mais perto de mim do que eu supunha. Porque antes de ontem voltou a entrar na minha vida. Ou, com mais precisão: em minha casa – enviado por uma oficina a que recorri para me colocarem um espelho no quarto de banho. E ele ali estava agora no corredor, às minhas ordens. Com um sorriso pingão e a caixa de lata do ofício a tiracolo.
Bons dias. Venho da parte de... «Sim, senhor. Entre.» Olhei-lhe para as mãos. Iguais. Mantinham a mesma delicadeza monstruosa de nascença. Mãos de prata macia.
Fingimos que não nos conhecíamos, para tudo começar naturalmente, e conduzi-o ao quarto de banho.
O espelho é este e aqui tem as buchas. Modernas. De plástico. Etc. Etc.
E com o coração esfriado de angústia voltei a sentar-me à mesa de trabalho, a ouvir na rádio uma sinfonia de Mahler (o estranho compositor do «banal encantado»), enquanto o instalador do espelho se punha a martelar, a princípio com certo à-vontade que me estarreceu. Mas em breve tudo degenerou numa salada de ruídos insólitos quase angustiosos, de mistura metálica com sons de escopro e aflição de pedras e estuques escaqueirados, ao som da marcha fúnebre da sinfonia de Mahler (a Titã) cada vez mais funesta e terrível.
Santo Deus! Que se passava lá dentro? E se eu fosse espreitar? Mas consegui resistir à tentação enquanto não me chegou aos ouvidos o estardalhaço violento de um espécie de apoteose tilintada de mil voos de vidro. A que se seguiu um silêncio, por assim dizer, opaco.
Corri então, alucinado, escancarei a porta e o triste infeliz ali estava, pálido, os olhos a escorregarem-lhe da cara para a catástrofe do espelho estilhaçado no solo – as mãos caídas ao longo do corpo, belas, sangrentas, inúteis, implorantes, vazias...
Mal me viu, sentou-se na borda da banheira e desatou a chorar.


José Gomes Ferreira, O Irreal Quotidiano




12/04/2009

Tinha Chegado o Circo



“Tereza! Tereza!”
Tereza rebolou para fora do abraço das pernas e ferrou os dentes na mão que se esticava, depois deu um encontrão ao rapaz e desatou a correr, cuspindo pele. Estacou e arrancou dos pés as chinelas, para não tropeçar o corpo na vontade, moldada ao ângulo da fuga.
Seguiu em pânico alvoraçado até ao Carreiro da Bruxa, contornando a mina luzidia, e avistou a mãe ao fundo, contra a luz dura do sol, os braços fincados nas ancas, um pé à frente como escora.
Saía-lhe a voz à força, cortando à volta o ar.
“Tereza! Não te disse catentasses no menino, caiu-me aqui frente à porta, tá farto de berrar por ti.”
Bem queria passar ao largo, mas a mulher não se mexia, postada a meio do caminho, recolhendo agora as mãos ao avental para as puxar acima mal a gaiata atravessou a soleira, despedindo um safanão certeiro que lhe trouxe ladainha miúda aos lábios secos. A um canto, o Luís chorava, fungão.
“Meu menino!” E chegaram-lhe as lágrimas aos olhos, no sufoco do abalo e do regresso, a mão da mãe ardendo na orelha, repetida espora. Maldita, maldita cantou mais alto a voz da surpresa contra ela, contra si por assim quebrar vendo o castigo descer sem rancor, sabendo.
“Masuqué que tu andastes a fazer, rapariga? Trazes-me a saia toda amarrotada, vai já passar isso, não te veja o teu pai. E o menino rasgou-me os calções, tem dircos castanhos!”
Tereza esgueirou-se pelo corredor, largando uma careta ao irmão.
Maldita, respirou fundo pela boca, apoiada contra a mesa da cozinha, e tirou a saia com cuidado, sem pisar a bainha. Botou o amor e suas guerras para fora da cabeça e sorriu: tinha chegado o circo.
Estava feira em Castendo e iam todos. Havia jaulas, carroças em roda, mais um cartaz com o nome: Grande Circo Irmãos Lopez, em letras faceiras por cima das nuvens, cá em baixo, o riscadinho da tenda abria uma porta e viam-se fileiras de cabeças alumiadas, ouvia-se a música que saía do papel.
A chamar à frente estava um palhaço, tão alto que chegava às bandeiras em debrum da tenda. Chamava de boca escancarada, vestido de farrapos, pareciam restos dos panos da costura, caídos aos pés da mãe. Levantava os braços, chamando todos, senhoras e cavalheiros, minhas meninas e meus meninos! Em vez de mãos tinha luvas brancas e a bocarra escancarada.
Deixou-se estar assim, a sentir a madeira gasta da mesa. O raio do palhaço que não lhe deixava a ideia, crescendo no escuro do quarto à noite, aos pinotes nos sonhos. Queria era ver leões, bailarinas nos cavalos, cobertas de escamas brilhantes… Sentindo os passos da mãe alisou a saia sobre o tampo polido, afastou as trempes e escolheu os carvões da lareira para o ferro.
“Olha-me pra ti aqui nesta figura, rapariga… so teu pai entra em casa e te vê assim nestes preparos!”
Tereza deixou o braço seguir os movimentos ensaiados, enquanto a mãe cobria os carvões de cinza, varria a pedra com giesta.
Ouviu-se então um estrondo, vidro partido, e o Luisinho voltou ao berreiro.
“Ai, que vida a minha! Tu leva-me o menino lá pra fora e vê se tomas conta dele, ouvistes?”
“Sim, senhora.”
“Tenho que fazer, avia-te. Mal empregadinha a jarra! Sai-me da frente, rapariga, tu sai-me da frente.”
Tereza pegou desajeitadamente no irmão ao colo e saiu. No terreiro estavam a Maria e o António, vinham lá ao fundo a Julieta e os primos.
“A pitinha põe o ovo e o menino… pápo todo!”, com o dedo mexendo nos papos da mãozita coceguenta, “A pitinha põe o ovo”, repenicando beijos nos olhos marejados de espanto que a miravam, até a boca lhe trepar num sorriso.
“Atão? Já sei candastes à pancada co Toino!”
Tereza encolheu os ombros e pôs o menino no chão.
“Sabes muito.”
“Olhó Luisinho! Tás de beicinho?”
“Patiu jaa… pum!”
“Tá dizer que partiu uma jarra, não é Luisinho, meu malandro?”, agachou-se para compor as golas do irmão.
“Olhi porqué ca gente não jogamos às escondidas?”
“Eu não ficápanhar!”
“Há coito?”
“Contas até quantos?”
“Prontos, oitenta. Partida, lagarta, fugida! Um, dois, três, quatro, cinco…”
Espalharam-se todos numa correria: a Maria foi para trás do muro do quintal do Zé, como era costume; o António subiu a uma árvore ramalhuda no fim do carreiro; a Julieta juntou-se à Tereza e ao Luís, que se deixava para trás, a choramingar.
Tereza baixou-se e agarrou no irmão pelos sovacos, avançando aos tropeções. A Julieta já ia em frente. Quase se desequilibrou e o Luisinho não deixava a lamúria. A Julieta já se agachava atrás dum arbusto.
“Sessenta e dois, sessenta e…”
“Ó, Luisinho, ficas aqui sentado ca Treza já vem, tá bem? Não saias daqui, ouvistes?”
E pô-lo à sombra de uma macieira baixa, sobre a erva rala. Tirou uma maçã mirrada de um galho e deu-a ao irmão.
“Toma, Luís, é pra ti, toma lá! Agora ficas aqui, vá.”
“Setenta e três, setenta e…”
Abriu a boca e começou a correr.
“Setenta e nove, oitenta. Cá vou eu.”
João largou a árvore a que se encostara e esfregou os olhos. O terreiro vazio faiscava. Quase lhe pareceu ver alguém a esconder-se lá ao fundo, mas não ia largar o coito sem mais nem menos. Deu quatro passadas largas e virou as costas, como quem está distraído a ver. A Maria saltou de trás do muro e avançou aos ziguezagues a tentar escapar-lhe. Ele já conhecia o truque e estendeu-lhe a mão, parecia uma sardinha a cachopa, escorregadia.
“Não mapanhas!”, gritou a Tereza lá do fundo.
“Tá boa”, resmungou entre dentes e raspou o ombro da Maria, que ficou parada como pedra.
O António lançou-se da árvore e passou por eles a correr. E João corria, não ia deixar o coito sem guarda. Vinha lá a Julieta, mais o Manel e a Tereza. João corria.
“Já tinha tocado no tronco”, soluçou o António.
“Só se foi doutrárvore.”
Cortou o caminho à Julieta e também ela se deixou ficar, braços pendidos. Fintou o Manel e apanhou-o.
“Quedo!”
Tereza corria a bom correr e o João quase lhe tocava. Mas a cachopa não se deixava agarrar, às voltas.
“Vê se salvas a gente, Tereza”, gritou a Julieta feita estátua.
“Força, Treza.”
E Tereza corria, com João ao seu encalço.
Luís cheirou a maçã e pestanejou, as sombras brincavam abrindo e fechando o sol. À frente, brilhava uma erva boa. Limpou o nariz à manga e pôs-se de pé. Tereza corre ao longe, os braços espetados.
“Teza!”
Tereza tão depressa ao longe era um pássaro. Gritavam todos no terreiro, Luís fechou a mão sobre a maçã e caminhou. À beira da erva seguia o voo dos insectos contra a luz. O chão estava molhado, prendia-se nas botas novas. Soltou o pé, estendeu a perna e caiu.
João já deitava os bofes pela goela e a cachopa corria que nem o diabo. Parou, engolindo o ar à boca cheia. Tereza foi ao coito e partiu de novo aos gritos.
“João, João, João paspalhão! Salva todos, salva todos”, dizia tocando nos amigos um a um. E eles ganhavam raízes, ganhavam pernas, saíam aos pulos terreiro afora.
“Vivá Tereza!”
“Ganda Treza!”
“A Tereza é tesa, a Treza é tesa.”
As gargalhadas da Tereza enchiam o terreiro.
“Ó, João, não corras não!”, jogou um dos rapazes.
Apareciam cabeças às portas, chamando nomes. Era chegada a hora do circo, e essa certeza tornava mais ruidosos ainda os gaiatos.
“Valha-me Deus, vens encharcado! Vê lá se me apanhas por aí alguma”, diziam as mães à vez, chegando-se aos seus.
Tereza crescia de contente: iam ver os trapezistas, ouvir a banda, comer cavacas. Foi buscar o irmão, cuidando não atrasar a mãe.
Subiu o carreiro aos pinotes, uma perna depois outra, cantarolando uma modinha.
“Ó, Luisinho, a mana táqui, não tenhas medo!”
Os ramos da macieira enegrecida estendiam o seu desenho pelo chão, do menino nem sombra. Tereza olhou à volta, o coração preso.
Do outro lado, viu os calções do Luís, estava deitado de borco.
“Ó, Luís, levanta-te que te sujas todo.”
Entrando pela erva adentro viu, voltou a conhecer como nunca esquecera, que era água. Aqueles farripinhos verdes fechando-se em torno dos pés ao caminhar. Ficou por momentos de braços perdidos, olhando o irmão quieto.
Luís, acorda!, mas as palavras não lhe vieram à fala.
Baixou-se para apanhar uma maçã que flutuava junto às socas.
E de cócoras espreitou a cabeça escura do irmão, rodeada de pontos verdes movediços, tão lindos. Chamou a si os braços e virou-o. Viu, então, que no lugar da cara estava a máscara do palhaço no cartaz: boca entreaberta, olhos fundos, sobre o branco da cara pintada.
Depois, a voz da mãe.
“Tereza! Tereza!”


Diana Almeida In Onde a Terra Acaba


A despedideira


Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.
Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.
Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeirissímo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comercia palavra, em negoceio de sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra e me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada
Lembro desse encontro, dessa primogénita primeira vez. Como se aquele momento fosse, afinal toda minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por a parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida.
No entanto, algo nele aparentava distância. O último escapava entre os seus dedos. Não levava o cigarro à boca. Em seu parado gesto, o tabaco aí mesmo se consumia.
Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sob o corpo dele Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas.
Nesse mesmo pátio em que se estreava me coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara. Sem mais nada, nem outra mulher havendo Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. Eu insisti, louca de tristeza. Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar. Ele se chegou me beijou a testa. Como se faz a um filho, um beijo longe da boca. Meu peito era um rio lavado, escoado no estuário do choro.
Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.
Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.
Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.
Pedi-lhe que viesse uma vez mais. Para que, de novo, se despeça de mim. E passados os anos, tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida. Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu amor.
Assim, ele virá para renovar despedidas. Quando a lágrima escorrer no meu rosto eu a sorverei, como quem bebe o tempo. Essa água é, agora, meu único alimento. Meu último alento. Já não tenho mais desse amor que a sua própria conclusão. Como quem tem um corpo apenas pela ferida de o perder. Por isso, refaço a despedida. Seja esse o modo de o meu amor se fazer eternamente nosso.
Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada, Ninguém no plural.
Ninguéns.

Mia Couto, In O Fio das Missangas




08/04/2009

Meia culpa, meia própria culpa


Nunca quis. Nem muito, nem parte. Nunca fui eu, nem dona, nem senhora. Sempre fiquei entre o meio e a metade. Nunca passei de meios caminhos, meios desejos, meia saudade. Daí o meu nome: Maria Metade.
Fosse eu invocada por voz de macho. Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semimacho. Para ambos sermos casal, necessitaríamos, enfim, de sermos quatro.
A meu esposo chamavam de Seis. Desde nascença ele nunca ascendeu a pessoa. Em vez de nome lhe puseram um número. O algarismo dizia toda a sua vida: despegava às seis, retornava às seis. Seis irmãos, todos falecidos. Seis empregos, todos perdidos. E acrescento um segredo: seis amantes, todas actuais.

Das poucas vezes que me falou, nunca para mim olhou. Estou ainda por sentir seus olhos pousarem em mim. Nem quando lhe pedi, em momento de amor: que me desaguasse uma atenção. Ao que retorquiu:
- Tenho mais onde gastar meu tempo.
Engravidei, certa vez. Mas foi semiprenhez. Desconcebi, em meio tempo, meio sonho, meia esperança. O que eu era: um gasto, um extravio de coisa nenhuma. Depois do aborto, reduzida a ninguém, meu sofrer foi ainda maior. Sendo metade, sofria pelo dobro.
Pede-me o senhor que relate o sucedido. Quer saber o motivo de estar nesta cadeia, desejando ser condenada para o resto deste nada que é a minha vida? O senhor que é escritor não se ponha já a compor. Escreva conforme, no respeito do que confesso. E tal e qual.
Pois, conforme lhe antedisse: a verdade não confio a ninguém. Verdade é luxo de rico. A nós, menores de existência, resta-nos a mentira. Sovi pequena, a minha força vem da mentira. A minha força é uma mentira. Não é verdade, senhor escritor?
Por isso, lhe deitei o aviso: eu minto até a Deus. Sim, Lhe minto, a Ele. Afinal, Deus me trata como meu marido: um nunca me olha, o Outro nunca me vê. Nem um nem outro me ascenderam a essa luz que felicita outras mulheres. Sequer um filho eu tive. Que ter-se filhos não é coisa que se faça por metade. E metade eu sou. Maria Metade. Agora, o que aspiro é ficar em sombra perpétua. Condenada por crime maior: apunhalar meu marido, esse a quem prestei juramento de eternidade. É por causa desse crime que o senhor está aqui, não é assim?
Pois lhe confesso: aqui, penumbreada nesta prisão, não sofro tanto quanto sofria antes. É que aqui, sabe, acabo saindo mais que lá em minha casa natal. Vou onde?
Saio pelo pé de meu pensamento. Por via de lembrança eu retorno ao Cine Olympia, em minha cidade de outro tempo. Sim, porque depois de matar o Seis reganhei acesso a minhas lembranças. É assim que, cada noite, volto à matiné das quatro de minha meninice. Não entrava no cinema que me estava interdito. Eu tinha a raça errada, a idade errada, a vida errada. Mas ficava no outro lado do passeio, a assistir ao riso dos alheios. Ali passavam as moças belas, brancas, mulatas algumas. Era lá que eu sonhava. Não sonhava ser feliz, que isso era demasiado em mim. Sonhava para me sentir longínqua, distante até do meu cheiro. Ali, frente ao Cinema Olympia, sonhei tanto até o sonho me sujar.
Regressava a horas, entrava em casa pelas traseiras para não chorar ante os olhos sofridos de minha mãe. Minha fatia de tristeza era uma ofensa perante as verdadeiras e inteiras mágoas dela. Regressava depois do quarto, olhos recompostos, fingindo uma alegriazita. Minha mãe se apercebia do meu estado, desembrulho sem prenda. E me dava conselho:
- Sonhe com cuidado, Mariazita. Não esqueça, você é pobre. E um pobre não sonha tudo, nem sonha depressa.
Vantagem da prisão é que todo o dia é domingo, toda a hora é de matiné das quatro. É só meu sonho dar um passo e eu já vou sentando minha privada tristeza no passeio público. Volto onde eu não amei, mas sonhei ser amada. É só um passo e eu atravesso o passeio público. E não mais precisarei de invejar o sorvete, o riso, a risca no penteado.
Pouco restou da minha cidadezinha. Onde era terra sem gente ficou gente sem terra. Onde havia um rosto, hoje há poeira. O trilho das goiabas se asfixiou no asfalto. Nem a chuva tem onde repousar. A cidade se foi assemelhando a todas as outras. Nessa parecença, o meu lugar foi falecendo. Nessa morte foi levada minha lembrança de mim. A única memória que me resta: a migalha de um tempo, o único tempo que me deu sonhos. Sob vigilância de minha velha mãe, eu cuidava de não sonhar tudo, nem depressa. Ainda que fossem metades de sonhos, esses pedaços ainda me adoçam o sono, deitada no frio da cela.
O senhor não está aqui por mim. Mas por minha história. Isso eu sei e lhe concedo. Quer saber como sucedeu? Foi em tarde de cinza, o céu descido abaixo das nuvens.
Eu pretendia era revirar página de um despedaçado livro. Descosturar-me desse Seis, meu marido. Eu queria me ver separada dele para sempre, desunidos até a morte nos perder de vista. Até não ser possível morrermos mais.
Naquela vez, já a decisão me havia tomado. Fui recebê-lo na porta, a roupa abotoada por metade, o punhal escondido em minha mão. Chovia, de lavar céu. Eu mesma me aguei aos olhos de Seis. Brinquei, provoquei, mostrei o cinto distraído, desapertado. Provoquei com perfume que minha vizinha me emprestou.
- Você quer-me molhada pela chuva.
- Quero-lhe é mais molhada que chuva.
Então, quase derrapei em minha decisão. Estava-se emendando fatalidade? É que, por primeira vez, meu marido me olhou. Seu rosto se emoldurou, único retrato que comigo guardo. Para disfarçar, revirei a chuinga entre os lábios, fiz adivinhar o veludo da carícia. Mas o gesto já estava fadado em minha mão e, num abrir sem fechar de olhos, o meu Seis, que Deus tenha, o meu Seis estava todo pronunciado no chão. Decorado com sangue, aos ímpetos, mapeando o soalho.
Relatei o sucedido, tudo de minha autoria. Mas não confesso crime, senhor. Não. Afinal, não fui eu que lhe tirei vida. A vida, a bem dizer, já não estava nele. O que sucedeu, sim, foi ele tombar sobre o punhal, tropeçado em sua bebedeira. O Seis, meu Seis, se convertera em meia dúzia. A condizer com a minha metade de destino.
Não o matei. E disso tenho pena. Porque esse assassinato me faria sentir inteira. Por agora, prossigo metade, meio culpada, meio desculpada.
Por isso lhe peço, doutor escritor. Me ajude numa mentira que me dê autoria da culpa. Uma inteira culpa, uma inteira razão de ser condenada. Por maior que seja a pena, não haverá castigo maior que a vida que já cumpri. E agora, por amor dessa mentirosa lembrança, o senhor me abra a porta do Cine Olympia. Isso, faça-me esse obséquio, lhe estou agradecendo. Para eu, finalmente, espreitar essa luz que vem de trás, da máquina de projectar, mas que nos surge sempre pela frente. E sente-se comigo, aqui ao meu lado, a assistirmos a esse filme que está correndo. Já vê, lá na tela, o meu homem, esse que chamam de Seis? Vê como ele, agora, no escurinho da sala está olhando para mim? Só para mim, só para mim, só.


Mia Couto, O Fio das Missangas


05/04/2009

Uma história de borboletas


I

Era uma vez um caçador de borboletas.
O caçador de borboletas usava uns calções muito largos, uma camisa cheia de ramagens, toda às flores e um boné ridículo, com um botão no alto e uma pala comprida, por causa do sol.
Usava também uma rede, pendurada num cabo de madeira, que era uma espécie de espingarda, embora não fizesse pum!, porque não dava tiros. Com essa rede, que a mãe lhe dera quando fizera anos, há muito tempo, é que ele corria atrás das borboletas.
Ia para o bosque, via uma borboleta e desatava a correr:
― Olha uma borboleta, que asas tão lindas, vou apanhá-la para a minha colecção.
Tropeçava nas pedras, enrolava-se nas sebes, esfolava os joelhos, mas a borboleta poisava e ele acabava por conseguir apanhá-la.
Quando isso acontecia, o caçador de borboletas, que já tinha feito 50 anos mas continuava solteiro, entrava em casa a gritar:
― Mamã, mamã, apanhei uma borboleta para a minha colecção. Viva! Viva! Eu sou um grande caçador…
E a mamã, que já tinha feito 70 anos, dizia, toda contente:
― O meu filho apanhou uma borboleta muito bonita. Viva ele, que é um grande caçador…
E, então, o caçador de borboletas, que como todos os outros caçadores já tinha morto a caça, pegava na borboleta e metia-a dentro de um livro, para ela ficar muito sequinha. Depois ia pô-la em exposição numa caixa de vidro que tinha na parede, onde já estavam muitas borboletas mortas que tinha caçado em vezes anteriores.
Quando os amigos iam lá a casa, mostrava-lhes a colecção. Tinha só um problema: as borboletas não voavam. Toda a gente sabe que as borboletas só são bonitas quando estão vivas, a voar, com asas todas coloridas.
E um dia (quando um amigo disse: ― As tuas borboletas não parecem borboletas. Nem voam nem nada) o caçador de borboletas ficou muito zangado. E disse:
― Mamã, vou pôr o António na rua, ele é um mal-educado e não percebe nada de borboletas…

II

Ora noutro país vivia um pintor de borboletas.
O pintor de borboletas vestia uma camisa vulgar, azul-claro, e umas calças de ganga, a que se costuma chamar jeans.

Não tinha boné, nem uma rede pendurada num cabo de madeira, mas ia, também, para o bos­que. Chegava, sentava-se e ficava a ver as borboletas que poisavam nas sebes e nas flores. Então, em vez de procurar apanhá-las, parava a desenhá-las num papel branco que levava, com lápis de cera de muitas e garridas cores.
Este desenhador de borboletas era muito novo: tinha só 15 anos. Quando chegava a casa dizia à mãe, que era uma senhora jovem e bonita:
― Olha, pintei mais uma borboleta.
E a mãe dizia:
― Que bonita! ― e ficavam os dois muito contentes. E as borboletas continuavam a voar no bos­que, não tinham morrido nem iam secar as asas para dentro de livros tão velhos e tão estranhos que já ninguém era capaz de os ler.
Quando os amigos iam lá a casa, diziam:
― Que desenhos tão bonitos tu fazes. Que lindas borboletas.
E ele dizia:
― Mãe, dá mais refresco ao João.
E não punha ninguém na rua.


III

Ora um dia o caçador de borboletas chegou a casa muito aborrecido: não tinha caçado nenhuma borboleta.
― Mamã, hoje não cacei nada ― disse ele.
Mas a mamã não respondia e o caçador resolveu passar a ser jogador de cartas. Mas não teve sorte, porque ninguém queria jogar com ele.


IV

No mesmo dia em que o caçador de borboletas chegou pela primeira vez a casa sem ter caçado nenhuma borboleta, o pintor de borboletas voltou do bosque cheio de desenhos.
― Olha, mãe, tantas borboletas bonitas ― disse ele.
Tempos mais tarde, já mais crescido, o pintor de borboletas ganhou um prémio numa exposição, com um quadro cheio de borboletas belas e raras.
Só teve pena de não conseguir vendê-lo, mas quando ia entregar a pintura ao comprador o qua­dro desfez-se e as borboletas desataram todas a voar.



Mário Contumélias
Uma Mão Cheia de Histórias (adaptado)


03/04/2009

Pouca sorte com barbeiros




Ao tempo em que eu chupava o meu primeiro cigarro clandestino, a Campo de Ourique, namorando uma loirinha da mansarda em frente, e a barba começava a dar-me a aparência dum fruto peco, descobri à rua Ferreira Borges o maior de quantos barbeiros jamais me assentaram a mão nas faces: o Rego. Dessa vez tive barbeiro para um ror de anos, uns bons dez. Entretanto fiz namoro tão platónico como eterno a várias meninas, todas igualmente louras e distantemente amansardadas (o que as tornava irremediavelmente platónicas, muito contra a minha vontade), e a barba tornou-se-me decente, se bem que dura e suína como o cabelo. Fui passando conforme pude do Liceu da Lapa, com alguns chumbos, para o Instituto Comercial, onde a custo acabei por esgalhar o diploma de comercialista. Nesse tempo espremia as espinhas da cara, fazia sonetos de contar pelos dedos, errados como contas de cabeça, e contraí (por causa do platonismo) a minha primeira doença secreta. Mas sempre fiel ao Rego-barbeiro, que conhecia a crónica toda das minhas aprovações arrancadas à força do copianço, dos meus amores inconsequentes (ou de más consequências), da terapêutica drástica a que me sujeitava aquele enfermeiro do Hospital da Marinha, «que sabia muito mais desta coisa do que os médicos», do meu deficit perpétuo – todo o quadro, enfim, da alegre mocidade lisboeta, – e reciprocava, confidenciando-me os seus próprios dramas familiares.
Tinha o Rego uma filha casadoira, bem comportadinha, coitada, um modelo de virtudes a Campo de Ourique. Com uns arzinhos de sonsa, quem te vê não quebras um prato, deu-lhe para se apaixonar perdidamente por um vizinho, homem casado e, ao que parece, muito sério (todos somos sérios até à primeira), com laboratório de análises químico-farmacêuticas à referida rua Ferreira Borges; e um belo dia, à hora em que as fábricas do bairro apitavam e ela devia levar o almoço ao pai, num cabaz, fugiu com o homem das pipetas. Uma menina tão bem comportada. Nesse dia o Rego-barbeiro jejuou, coitado, e nunca foi possível averiguar que destino levou o cabaz com o almoço: os dois ternos amantes foram talvez comê-lo, em mavioso piquenique, para o Parque Silva Porto ou as furnas de Monsanto.
O caso provocou muita emoção. O Rego chorava, metaforicamente falando, ao meu pescoço, que me roía e danava interiormente de não ter eu aproveitado a garota. Mas ao mesmo tempo, tais são os contrastes da sorte, a barbearia ganhou uma enorme clientela: a história tinha corrido, e agora os fregueses eram assim, vinham de longes bairros, como corvos ao cheiro da carnagem. A esposa do analista, senhora bastante nutrida e pouco bonita, mas inteligente e simpática, aparecia regularmente pela loja do Rego, a exprobrá-lo por ter «vendido» a menina, dezassete anos em flor, ao sátiro do marido. Tudo isto se passava com
calma, a meia voz, sem escândalos. Mas era uma acusação sem base, porque passados meses a pequena regressou uma noite a casa, lavada em lágrimas, talvez química e bacteriologicamente menos pura, concedo, e o químico-analista nunca reclamou reembolso algum: prova, a meu ver irrecusável, da honradez e boa-fé do mestre-escama.
O analista regressou também aos almofarizes matrimoniais, e a paz reinou de novo a Campo de Ourique. A pequena, essa, é que nunca mais, que eu saiba, arranjou namoro para bons fins, porque lá diz a trova: «Depois da cidra partida, cidra remédio não tem.» Somos intransigentes em questões de moral, e dividimos o sexo frágil em duas categorias: as virtuosas que nos cosem as meias, e as perdidas que nos dão o ponto.
O Rego-barbeiro, coitado, nunca se refez do abalo: ainda durou coisa de dois anos, mas tinha empalidecido até ao cume da calva, e nunca mais pôde engolir bem o almoço, que a pequena, calada e humilde, continuava a trazer-lhe num cabaz, todos os dias à Hora do Apito. As mãos dele eram tão hipnóticas como sempre, mas o pobre arrastava os pés, tinha as faces cavadas, a pele cerosa, e a fatiota pendia-lhe tão bamba em volta do ventre, dantes proeminente, que dois Regos podiam coexistir agora, harmoniosamente, no mesmo par de calças.
Lentamente afundou-se. Cuspia muito, sempre engasgado. Dava dó vê-lo. Tinha qualquer coisa no inzófago, e os médicos prometiam operá-lo, hoje-amanhã, hoje-amanhã, mas nunca se resolveram, e uma tarde o Rego morreu serenamente, sem dor, de inanição, como ainda hoje se morre a Campo de Ourique. Nunca chegou a saber do que morria. Poucos dias antes de se acabar confessou-me: «A desgraça desta filha cavou-me a sepultura, seu Artur!» O tubo digestivo era nele o órgão de expressão das dores morais. Psicossomático, em suma, avant la lettre!
Foi uma grande perda para mim; mas como o cabelo não parou de me crescer, comecei logo a procurar outro barbeiro, não com uma lanterna, mas com a cabeça, o que nem o próprio Diógenes teria ousado. As mãos do Rego tinham-me estragado com mimo, e muitos anos passaram sem que eu achasse uma tesoura digna da sua memória. Tornei a fazer muita experiência desagradável. No meu desespero, cheguei a cair um dia no antro duma escola de barbeiros: saí de lá com a cabeça do feitio dum poliedro de museu escolar. Quantas vezes, louvado seja Deus, amaldiçoei a honrada classe dos coiffeurs! Atravessávamos então uma
época agitada, de descompressões, e rebentavam bombas por todos os lados, incluindo às portas das barbearias. (Devo dizer que não meti para aí prego nem estopa: a minha coragem nunca deu para tanto).
Por volta dos trinta, e já com algumas desilusões, um pedagogo meu amigo indicou-me um bom barbeiro à rua do Mundo, antiga de São Roque, e hoje da Misericórdia. Aquele homem não era barbeiro, era um escultor, um mestre de caracterização! Devia estar nos Caetanos, na Arte de Representar, e estava ali, simplesmente, na rua do Mundo, digo, da Misericórdia. Capaz de ombrear com o Rego de eterna memória. A minha cabeça reassumiu a aparência de coisa humana, e durante alguns meses fui o mais feliz dos fregueses de barbeiro de que rezam crónicas.
Ora uma tarde, quando eu já supunha ter barbeiro tão perpétuo como o secretário duma Academia, fui dar com um grande ajuntamento à porta da loja: um homem era levado em braços para dentro dum táxi, que bateu logo para a Misericórdia. Os curiosos em volta abanavam cabeças consternadas.
– Que é que houve? – indaguei alarmado, pensando no fígaro da Graça.
O meu barbeiro tinha acabado de almoçar um tacho de bacalhau com batatas, quando lhe ocorreu a ideia letal de lavar o cabelo: virou para o lado, redondo. Os camaradas confessaram-se muito impressionados com o espectáculo do sangue rubro a escorrer duma ferida através da espuma branca do shampoo.
– Até parecia um merengue arrebentado! – disse um deles com génio metafórico, fazendo uma careta.
Pressenti vagamente a mão da fatalidade. E nunca mais, em Portugal, tive sorte com barbeiros.


José Rodrigues Miguéis, Léah e Outras Histórias