31/03/2009

Uma simples flor nos teus cabelos claros



«Mas a meio caminho voltou para trás, direita ao mar. Paulo ficou de pé no areal, a vê-la correr: primeiro chapinhando na escuma rasa e depois contra as ondas, às arrancadas, saltando e sacu­dindo os braços, como se o corpo, toda ela, risse.
Uma vaga mais forte desfez-se ao correr da praia, cobriu na areia os sinais das aves marinhas, arrastou alforrecas abandonadas pela maré. Eram muitas, tantas como Paulo não vira até então, espapaçadas e sem vida ao longo do areal. O vento áspero curtira-lhes os corpos, passara sobre elas, carregado de areia e de salitre, varrendo a costa contra as dunas, sem deixar por ali vestígios de pegada ou restos de alga seca que lhe resistissem.»
«Marcaste o despertador»
«Hã?»
«O despertador, Quim. Para que horas o puseste?»
«...E tudo à volta era névoa, fumo do mar rolando ao lume das águas e depois invadindo mansamente a costa deserta. Havia esse sudário fresco, quase matinal, embora, cravado no céu verde-ácido, despontasse já o brilho frio da primeira estrela do anoitecer...»
«Desculpa, mas não estou descansada. Importas-te de me passar o despertador?»
«O despertador?»
«Sim, o despertador. Com certeza que não queres que eu me levante para o ir buscar. És de força, caramba.»
«Pronto. Estás satisfeita?»
«Obrigada. Agora lê à vontade, que não te torno a incomodar. Eu não dizia? Afinal não lhe tinhas dado corda... Que horas são no teu relógio? Deixa, não faz mal. Eu regulo-o pelo meu.»
«- Mais um mergulho - pedia a rapariga.
A dois passos dele sorria-lhe e puxava-o pelo braço;
- Só mais um, Paulo. Não imaginas como a água está estupenda. Palavra, amor. Estupenda, estupenda, estupenda.
Uma alegria tranquila iluminava-lhe o corpo. A neblina bailava em torno dela, mas era como se a não tocasse. Bem ao contrário: era como se, com a sua frescura velada, apenas despertasse a morna suavidade que se libertava da pele da rapariga.
- Não, agora já começa a arrefecer - disse Paulo. - Vamo-nos vestir?
Estavam de mãos dadas, vizinhos do mar e, na verdade, quase sem o verem. Havia a memória das águas na pele cintilante da jovem ou no eco discreto das ondas através da névoa; ou ainda no rastro de uma vaga mais forte que se prolongava, terra adentro, e vinha morrer aos pés deles num distante fio de espuma. E isso era o mar, todo o oceano. Mar só presença. Traço de água a brilhar por instantes num rasgão do nevoeiro.
Paulo apertou mansamente a mão da companheira;
- Embora?
- Embora - respondeu ela.
E os dois, numa arrancada, correram pelo areal, saltando poças de água, alforrecas mortas e tudo o mais, até tombarem de cansaço.»
«Quim... »
«Outra vez?»
«Desculpa, era só para baixares o candeeiro. Que maçada, estou a ver que tenho de tomar outro comprimido.»
«Lê um bocado, experimenta.»
«Não vale de nada, filho. Tenho a impressão de que estes comprimidos já não fazem efeito. Talvez mudando de droga... É isso, preciso de mudar de droga.»
«- Tão bom, Paulo. Não está tão bom?
- Está óptimo. Está um tempo espantoso.
Maria continuava sentada na areia. Com os braços envolvendo as pernas e apertando as faces contra os joelhos, fitava o nada, a brancura que havia entre ela e o mar, e os olhos iam-se-lhe carregando de brilho.
- Tão bom - repetia.
- Sim, mas temos que ir.
Com o cair da tarde a névoa desmanchava-se pouco a pouco. Ficava unicamente a cobrir o mar, a separá-lo de terra como uma muralha apagada, e, de surpresa, as dunas e o pinhal da costa surgiam numa claridade humilde e entristecida. Já de pé, Paulo avistava ao longe a janela iluminada do restaurante.
- O homem deve estar à nossa espera - disse ele. - Ainda não tens apetite?
- E tu, tens?
- Uma fome de tubarão.
- Então também eu tenho, Paulo.
- Ora essa?
- Tenho, pois. Hoje sinto tudo o que tu sentes. Palavra.
«Se isto tem algum jeito. Qualquer dia já não há comprimidos que me cheguem, meu Deus.»
«Faço ideia, com essa mania de emagrecer... »
«Não, filho. O emagrecer não é para aqui chamado. Se não consigo dormir, é por outras razões. Olha, talvez seja por andar para aqui sozinha a moer arrelias, sem ter com quem desabafar. Isso, agora viras-me as costas. Nem calculas a inveja que me fazes.»
«Pois.»
«Mas sim, fazes-me uma inveja danada. Contigo não há complicações que te toquem. Voltas as costas e ficas positivamente nas calmas. Invejo-te, Quim. Não calculas como eu te invejo. Não acreditas?»
«Acredito, que remédio tenho eu?»
«Que remédio tenho eu... É espantoso. No fim de contas ainda ficas por mártir. E eu? Qual é o meu remédio, já pensaste? Envelhecer estupidamente. Aí tens o meu remédio.»
«Partiram às gargalhadas. À medida que se afastavam do mar, a areia, sempre mais seca e solta, retardava-lhes o passo e, é curioso, sentiam as noite abater-se sobre eles. Sentiam-na vir, muito rápida, e entretanto distinguiam cada vez melhor, as piteiras encravadas nas dunas, a princípio pequenas como galhos secos e logo depois maiores do que lhes tinham parecido à chegada. E ainda as manchas esfarrapadas dos chorões rastejando pelas ribas arenosas, o restaurante ermo, as traves; de madeira roídas pela maresia e, cá fora, as cadeiras de verga, que o vento tombara, soterradas na areia.
- O mar nunca aqui chega - tinha dito o dono da casa. - Quando é das águas vivas, berra lá fora como um danado. Mas aqui, não senhor. Aqui não tem ele licença de chegar.»
«A verdade é que são quase duas horas e amanhã não sei como vai ser para me levantar. Escuta...»
«Que é?»
«Não estás a ouvir passos?»
«Passos?»
«Sim. Parecia mesmo gente lá dentro, na sala. Se soubesses os sustos que apanho quando estou com insónias. A Nanda lá nisso é que tem razão. Noite em que não adormeça veste-se e vai dar uma volta com o marido, a qualquer lado. Acho um exagero, eu nunca seria capaz de te acordar... mas, enfim, ela lá sabe. O que é certo é que se entendem à maravilha um com o outro. E isso, Quim, apesar de ser a tal tipa, que tu dizes. Também, ainda estou para ter uma amiga que na tua boca não seja uma tipa ou uma galinha.»


José Cardoso Pires, Jogos de Azar


Campaniça



Valgato é terra ruim.
Fica no fundo de um córrego, cercada de carrascais e sobreiros descarnados. O mais é terra amarela, nua até perder de vista. Não há searas em volta. Há a charneca sem fim, que se alarga para todo o resto do mundo. E, no meio do descampado, no fundo do vale tolhido de solidão, fica a aldeia de Valgato debaixo de um céu parado.
Valgato é uma terra triste.
Saem os homens para o trabalho ainda a manhã vem do outro lado do mundo. Levam enxadas e foices e conhecem todos os trilhos, entre o mato, com estevas que são mais altas que duas vezes o tamanho do mais alto dos homens de Valgato. Tanto conhecem os caminhos que vão, sem desvio nem engano, até às herdades que ficam a léguas de distância, ainda com o sono e o escuro da noite fechando‑lhes os olhos.
Não é de admirar. Zé Tarrinha tem uma mula que caiu num barranco de piteiras e vazou os dois olhos.
Pois a mula nunca erra a casa e vai sozinha à fonte. Não é de admirar que os homens saiam ainda com o escuro da noite, e com o sono, e vão sem desvio ou engano até às herdades.
O Venta Larga, quando se fala que alguém se perdeu no caminho, diz sempre:
– A gente não precisa senão de saber onde põe os pés. O mais é cá disto… – funga com ruído e, alargando as narinas, aponta o nariz – … o mais é cá do cheiro.
Por isso lhe chamam o Venta Larga.
Aí está que não é difícil um homem perder‑se na charneca. É tão igual e monótona, rasa para todos os lados e para todos os lados deserta, que só o tino e, como diz o Venta Larga, o cheiro, são capazes de orientar.
Para que serve ver? Anos e anos a olhar o descampado, os olhos cansaram‑se de ver sempre o mesmo.
A vista dos homens de Valgato é um sentido embotado.
Há uma névoa cobrindo‑a,mesmo de dia com o céu esbranquiçado e o lume do Sol tremendo no ar. E sem ver, ainda a manhã vem no outro lado do mundo, os homens, certinhos como a mula do Zé Tarrinha, andam léguas e léguas e vão dar às herdades. E de noite, sempre de noite, tornam para a aldeia, certos e direitos, com os olhos cegos do sono que volta. Certos e direitos que um homem não precisa mais que saber onde põe os pés.
Todos os dias assim: sair de noite, voltar de noite. Que a aldeia de Valgato é terra ruim cercada de carrascais.
E fica no fundo de um córrego magoado de solidão.
Valgato é uma terra triste.
Maria Campaniça, quando era solteira, pensava todos os dias fugir da aldeia. Era nova e tinha o rosto corado e um lenço de barra amarela. Subia a quebrada, sentava‑se no cabeço mais alto à sombra de um chaparro e punha‑se a pensar para que lado partiria. Mas o descampado, correndo sem fim por vales e outeiros, bravio, agressivo de cardos e tojos, metia‑lhe medo.
Maria Campaniça juntava os porcos e voltava à aldeia, à hora do entardecer.
Depois apareceu o Baleizão com conversas, à noite, na soleira da porta. E o mesmo desejo continuou: fugir de Valgato. Comprariam os dois uma bácora e um bácoro e ao fim de algum tempo haviam de ter uma vara de porcos. Iriam vendê‑los à feira de Cerromaior e aí ficariam a viver. Aí ou noutra terra, contanto que não fosse em Valgato.
Agora Maria Campaniça há muito tempo que vive com o seu homem. Quando quer saber os anos ao certo, conta o número de filhos. Tem cinco e o mais novo poucos meses. Portanto, vai para sete anos que está com o Baleizão.
Uma noite, Maria Campaniça sonhou que era velha e morria sem sair de Valgato. Foi e contou à mãe.
O rosto encarquilhado da velha franziu‑se ainda mais na sombra do lenço:
– Que parvidade, moça! Então onde haverás de morrer?
Quando era nova tinha o rosto corado e gostava de ouvir falar do Zé Gaio. Agora já ninguém sabia dele.
Fora‑se numa noite de estrelas, quando os homens cantavam uma toada tão lenta e desgarrada que até metia medo.
O Venta Larga, quando se fala no Gaio, explica o caso nestas palavras:
– O Zé Gaio perdeu o cheiro da casa.
Mas Maria Campaniça sabe que não foi assim.
E recorda a história do Gaio… Quando os homens recolhiam a Valgato, acontecia às vezes ficarem de conversa no terreiro. Depois, porque a terra era sem fim para todos os lados e os homens se sentiam presos naquele vale do fim do mundo, libertavam‑se cantando.
Zé Gaio ouvia com o rosto imóvel e o olhar distante. Em dada altura, o peito cheio de uma ansiedade que nem ele sabia, erguia‑se e, sem uma fala a ninguém,partia por trilhos e carreiros de cabras até o cansaço o vencer. Ao voltar à aldeia era dia e trazia o rosto vincado de tristeza.
Uma tarde, já sem sol, quando os homens vindos da faina desciam das cristas dos cabeços, notaram que havia qualquer coisa de estranho em Valgato. Estugaram o passo. E perto olharam inquietos, poisando de leve as enxadas no chão.
Era uma forma de mulher com um vestido azul, colado, desenhando‑lhe a carne. E tinha a boca vermelha e os olhos azuis e os cabelos loiros. Sorria. E andando oscilava as ancas torneadas, vivas, no vestido azul. E os seios tremiam a cada passo e levava os olhos de todos os homens de Valgato presos nos cabelos loiros, nas ancas e nos seios.
Depois, viera um senhor, dono das terras do vale, e a mulher partiu com ele, num carro, pelo melhor dos caminhos que sai de Valgato e a léguas dali entra na estrada real.
Os homens continuaram indecisos, com os olhos voltados para o cabeço por onde a mulher desaparecera.
Só acordaram com as palavras da velha Carrasquinha.
A velha dizia que aquilo fora uma aparição…
–…
Foi uma santa!
Entrou em casa, tirou do fundo da arca uma estampa e voltou.
– Olhem se foi ou não foi!
Todos olharam. Era uma Nossa Senhora vestida de azul, com os cabelos loiros abertos ao meio.
Os homens ficaram mais tristes que nunca. E, nessa noite, cantaram tão desgraçados como os presos às grades de uma cadeia.
Só um deles não acreditara nas palavras da velha. Tinha a certeza de que vira uma mulher. E quando a noite ia em meio – ainda os homens cantavam – jogou a manta para o ombro e partiu. Partiu e nunca mais voltou.
Por isso o Venta Larga dizia:
– O Zé Gaio perdeu o cheiro da casa.
Maria Campaniça sente ainda mais fundo o peso dos filhos e da solidão que enche o vale. Ela também quisera partir quando era solteira e mesmo depois de viver com
o seu homem. Quisera partir… Agora sonhou aquele sonho: morrer de velha em Valgato. As palavras da mãe aí estavam:
– Que parvidade, moça! Então onde haveras de morrer?
Aí estavam as sombras da noite chegando, estirando‑se pelas encostas dos outeiros, cada vez mais compridas, mais tristes. E os casebres da aldeia, abatidos,mergulhando na noite. Uma maré cheia de solidão crescendo,afogando.
Um rebanho badalava chocalhos… Maria Campaniça quando era nova também ia para o montado com uma vara de porcos. Olhava, dos cabeços, a planura sem fim. Depois viera o Baleizão com conversas, à noite, na soleira da porta. Vieram os filhos e Maria Campaniça sonhara que morria sem sair de Valgato.
Zé Gaio andava ao acaso por terras melhores, senhor da sua vida. Estava em todas as feiras gozando todas as horas como melhor lhe apetecesse. E iria para aqui ou para além segundo a vontade. Vida boa… Maria Campaniça quando era nova tinha o rosto corado e um desejo enorme de abalar. Agora tem um filho nos braços chupando‑lhe o seio e, perto, dormem os outros na enxerga…
Lá fora a noite fechou‑se.
Valgato fica mais longe do mundo, mais longe do mundo. E o medo de que o sol nunca mais volte aperta o peito dos homens. Noite, noite.
Maria Campaniça tem os olhos presos nas cinzas da lareira. Entra pela casa dentro a voz desgraçada dos homens cantando. É uma toada igual, arrastada como a planície áspera de tojos e cardos. Os olhos de Maria Campaniça estão cheios de água. Veio‑lhe
a certeza de que não sairá da aldeia, e que, um dia, quando for velha, hão‑de cobri‑la de terra e pôr‑lhe uma cruz em cima.
Duas lágrimas caem sobre a criança que lhe chupa o seio. No terreiro, os homens cantam a desolação que vem de noite e lhes aperta o peito. Vozes arrastadas como o
vento gemendo num pinhal. Choro, mágoa, raiva. Que a aldeia de Valgato é uma terra triste. Cercada de carrascais e sobreiros descarnados, não tem searas em volta.
Só a planície sem fim que se alarga para todo o resto do mundo. E, no meio do descampado, no fundo do vale tolhido de solidão, fica a aldeia de Valgato debaixo de um céu parado.
Valgato é terra ruim.

Manuel da Fonseca in Aldeia Nova


26/03/2009

O ódio das vilas


Na frente do velho, todo curvado, e da rapariga, alta, vestida de trajos garridos, António Vargas refreava o ímpeto do alazão e impunha-lhe aquele passo miúdo e sacudido de modo a não se distanciar. O animal, ora ladeando ora repetindo pequenos golpes de garupa, parecia brincar uma dança estouvada. Bem colado na sela, o homem enrolava um cigarro.
A tarde era cheia de sol. Para lá do montado, depois da vereda estreita entre piteiras, esticava-se a fita branca da estrada. Mais para lá, corriam cabeços nus, ondeando a perder de vista.
Certo aos movimentos do cavalo, atento ao caminho e aos longes do horizonte, o homem pensava na sua luta.
Breve, mal entrasse nas ruas de Cerromaior, começaria a fase decisiva. Se vencesse, leal-mente, debaixo daquela luz crua do Sol, todos os dias que somavam anos de incerteza e de tédio seriam um passado longínquo e rasgaria na sua frente um destino largo para os seus passos, até que enfim cheios de sentido. Não mais a monotonia das horas à toa como se boiasse num marasmo para o qual não havia remédio nem defesa. Não. Agora sentia bem o sol calar-lhe na pele, sentia e media a distância dos caminhos e a resistência agressiva da gente rica de Cerromaior. Era uma sensação física e nítida, como de espinhos por onde roçasse o corpo. Mesmo longe da vila, tudo nele reagia e se concentrava para aquela luta em que punha a vida inteira. Os sobrolhos erguiam-se-lhe como asas e o queixo largo vincava-se, imóvel, como de pedra.
Maria Jacinta, era bem o norte que faltava aos seus passos. Ela chegara quando já desesperava da vida. Fora, meses atrás, naquela manhã, entre a seara. Trazia os cabelos negros envoltos num lenço e palavras simples de admiração para o seu desânimo. Tudo nela era natural. Por detrás do riso e no fundo dos olhos, brilhava uma certeza comunicativa.
Pelo atalho estreito, murado de piteiras e silvas, o cavalo afiava as orelhas inquietas, numa atenção constante a todas as formas que lhe apareciam à esquerda e à direita. Só a alegria enérgica dos movimentos
— mãos que se enrolavam, logo atiradas airosamente para longe e os membros anteriores batendo um compasso mais lento — continuava. Jogado fora o cigarro, António Vargas deixou o animal adiantar o passo. Saiu o valado, cortando caminho, e saltou a vala estreita da estrada. Aí, refreado, o cavalo estacou. O vento levou-lhe as clinas para a frente.
Voltando-se na sela, o homem olhou para o lado. O velho lá vinha no mesmo jeito de todo o caminho: cabeça tombada, passo inseguro. A rapariga olhava, sorrindo como naquela manhã entre a seara. Assim vieram e, torneando o carreiro, entraram na estrada.
Por algum tempo, ficaram silenciosos. A rapariga sentia um mal-estar que nunca julgara possível ao pensar na separação. Para a mãe fora uma despedida tão desapaixonada, apesar das lágrimas da velha... Antes, parecia-lhe mais simples dizer adeus ao pai.
Impaciente, o cavalo recuou. Os metais do freio tiniram na boca cheia de espuma.
Então, o velho endireitou-se e ergueu a cabeça para o cavaleiro. Tinha um olho todo branco, gelatinoso. Segurou as abas coçadas da jaqueta e disse:
— Patrão António Vargas, o senhor já sabe o meu parecer acerca deste assunto. Nós nada temos no mundo senão trabalho e miséria. Todos o sabem.
Respirou fundo, esticando a jaqueta nas mãos fechadas com força:
— O senhor é novo e rico. Mais que isso: é homem nascido noutro meio!... A mãe dela lá ficou lavada em lágrimas. Nada de bom poderá sair deste casamento. E ela é a nossa única filha e nós estamos no último quartel da vida! Patrão António Vargas...
Não pôde continuar. O rosto, duro, contraiu-se-lhe. Largou as pontas da jaqueta, tomou alento olhando para a filha:
— Ouve, malfadada. Suceda o que suceder, à casa de teus pais vai dar sempre o mesmo caminho!
Ainda voltou os olhos para António Vargas, como se esquecesse qualquer coisa. Mas, brusco, sem um gesto de despedida, o velho saiu da estrada, retomou o atalho. Daí a pouco, desapareceu-lhe a cabeça por detrás das piteiras.
Foi a rapariga que rompeu o silêncio:
— Meu pai sempre teve estes modos. Não se agaste.
António Vargas, que seguira o velho com a vista, mirou-a muito sério:
— Não, Maria Jacinta. Teu pai é de verdade um homem.
Pareceu ficar triste, de olhos postos na rapariga. Ela baixou as pálpebras, envergonhada, assim, pela primeira vez sozinha com ele, naquelas terras desertas, longe de casa.
António Vargas curvou-se. O chapéu de aba direita fazia-lhe sombra na cara morena.
— Antes do sol-posto, temos de chegar a Cerromaior.
Segurou-lhe as mãos, puxou-a para cima do cavalo, que já batia as patas no macadame duro, e logo partiu num trote cadenciado.
Maria Jacinta ajeitou-se, passando o braço em volta da cintura de António Vargas. De cabeça tombada um pouco para o lado, não desfitava o chão. As saias colo¬ridas, ondeadas de rendas e folhos, pareciam um gran¬de ramalhete, do meio do qual lhe saíam os sapatos negros, brilhantes.
Esquecida do pai e das suas palavras, a rapariga sentia o peito contra as largas costas de António Vargas. Insensivelmente, aquele sentimento de vergonha desapareceu-lhe. Uma comoção muito suave tomava-a. Os seus lábios carnudos entreabriam-se, as narinas arfavam levemente. Abandonou-se um pouco ao galope do cavalo, numa ansiedade doce, como nos sonhos, quando se vai caindo, caindo. A respiração entrecortada roçava-lhe os lábios frios. Nem via a estrada, correndo branca de pó e, de onde em onde, escurecida pelas sombras muito desenhadas das árvores. Assim ia, quando António Vargas disse, refreando o cavalo:
— Ergue a cabeça e olha de frente quem olhar para nós.
Notou pela primeira vez aquela voz de mando dura. Abriu os olhos, muito grandes, aguados. Viu confusamente que entravam em Cerromaior.
A passo batido, o alazão ladeava. Passaram o largo, cheio, na tarde de domingo, e subiram a rua maior da vila.
Todos olhavam admirados, ora para António Vargas, hirto na sela, ora para a rapariga, afogueada, de olhos negros, luzindo.
À porta do café veio gente. E, no primeiro andar do prédio grande, duas senhoras ergueram a cortina. Logo a boca se lhes abriu de espanto e a cortina caiu.
Ouvindo o murmúrio das falas dos homens da porta do café, António Vargas obrigou o cavalo a voltar atrás. Olhou-os de vagar. Uma ruga funda unia-lhe as sobrancelhas, de boca cerrada, os olhos iam lentamente de rosto em rosto:
— Meus senhores, boa tarde.
Nunca Maria Jacinta ouvira uma voz tão agressiva. Um momento pareceu-lhe que ia haver uma grande desordem. Mas os senhores da porta do café levaram, com frieza, as mãos aos chapéus:
— Boa tarde, António Vargas.
Quando o cavalo desapareceu ao cimo da rua, os homens voltaram a sentar-se. Todos se olhavam como se, só nesse instante, dessem conta da própria cobardia.
De pé, o Dr. Anselmo ia de um lado a outro, nervoso. Francisco Salgado, muito gordo, esbugalhando os olhos em volta, suspendeu as mãos sobre os joelhos:
— Que traste, hem!
O Dr. Anselmo, àquelas palavras, parou agitando os braços:
— Desafiar-me!... Os senhores notaram? Desafiar uma criatura da minha posição social! Notaram? De dedos muito abertos, espalmou as mãos:
— Ah! se não fosse o receio do escândalo, eu bem sei o que respondia àquele atrevido!
O rapaz que se sentara ao canto apaziguou:
— Doutor, nós também sabemos. O desafio foi para todos. Mas eu penso e sempre hei-de pensar que as acções ficam com quem as pratica. Por isso desprezo desordeiros.
O Dr. Anselmo deu dois passos em frente:
— Mas, Sertório Pires, você é um homem novo. A bem dizer um rapaz. Está bem que pense assim. Até lhe fica bem pensar desse modo. Mas olhe para a minha idade, olhe para a minha posição social! Que diabo, exijo que me respeitem!...
Francisco Salgado limpou o suor da testa. Atirando o chapéu para a nuca, repetiu, num assomo de decisão:
— Que traste!
Atrás do balcão com a cabeça aparecendo entre as latas de bolacha, o rapazinho do café ouvia interessa¬do, mordiscando a ponta do lápis.
A conversa generalizara-se. André Silva, até aí silencioso, já por duas vezes intentara falar de modo que todos o ouvissem. Mas o Dr. Anselmo discutia com Sertório Pires, prendendo, num momento, a atenção geral. André Silva limitou-se a murmurar para Francisco Salgado, levando dois dedos ao polpo da orelha:
— Mas que pedaço!...
O Dr. Anselmo expunha a única forma como enca¬rava um caso daqueles: um enxovalho lançado por um garotão a um homem de passado limpo. Sertório Pires insistia que não, que António Vargas era um desequilibrado, um doido. Portanto, devia ser encarado como tal. Não lhe morrera a avó materna depois de longos anos de loucura? E os pais? Uns sos que nem acabaram de criar o filho. Morreram quando ele ia nos cinco anos, se tanto. Mas vá lá seis...
— Veja o doutor: desde os seis anos sem família e com uma ascendência dessas, que poderia sair daquele homem? Claro que um doido.
O Dr. Anselmo ia serenando. O insulto parecia ter passado para segundo plano.
Entre as caixas de bolacha, o rapazinho esquecera o lápis nos dentes abertos.
Foi então que André Silva, aproveitando a ocasião, mordeu o lábio inferior, fez um sinal de inteligência com a cabeça:
— Mas que pedaço de mulher! Desculpem mudar de assunto. Vocês viram bem? Que palminho de cara, meus amigos! E os olhos?... Ó Sertório, você sabe que idade tem a rapariga?
Sertório Pires sabia. Sabia a história toda. A rapariga tinha dezassete anos e era filha do Jacinto Oudelinha. O Jacinto Oudelinha de Vale Barrancos. Estava farto de contar e ninguém acreditara. Que não podia ser um rapaz fino e rico casar com uma moça do monte. Que, embora fosse criada pelas tias como menina rica, no Cercal, não deixava de ser uma moça do monte.
André Silva não se conteve:
— Mas que moça! E que cinturinha, meus caros!
Parando no seu passeio, o Dr. Anselmo insinuou:
— Talvez não casassem...
Sertório sorriu. Um sorriso azedo. Então ninguém conhecia o velho Oudelinha? Mesmo assim velho ainda era homem para pregar um tiro no primeiro que se atrevesse com a filha.
— Não, doutor. Casaram no Cercal. Foi o Tavares, do Registo, que me informou, quando o Vargas foi pedir as certidões.
O Dr. Anselmo voltou ao passeio. Diante de tais provas disse acreditar. O Tavares, do Registo, decerto sabia desse assunto. Até aí estava bem. Isto é: bem não estava, mas vá... Agora entrar na vila, num domingo, com a rapariga à garupa do cavalo, isso é que era um escândalo, um desafio às pessoas honestas. Ou então...
E o doutor calou-se. Quem quisesse que continuas¬se o seu pensamento.
Foi Sertório Pires que o pôs em palavras:
— Claro, claro. Esta entrada do Vargas foi para mostrar publicamente o desprezo que tem pela filha do Dr. Inácio Reis. Aí está.
Francisco Salgado circundou a vista em redor. O pescoço, gordo, enrugou-se-lhe:
— Era precisamente o que estava a pensar. Que traste! Depois de um namoro de anos, depois do pedido de casamento! Só de pulha. Pobre Luisinha Reis. E logo com uma moça do monte...
A porta do prédio em frente abriu-se, e as senhoras que, há pouco, haviam erguido a cortina saíram rua abaixo.
Sertório Pires foi à porta do café espreitar. Viu-as voltarem à esquina do Chico Cardoso. Era certo o que pensara.
— Lá vão as irmãs do Dr. Reis confirmar à sobrinha o que ela não acreditava. Pobre Luisinha!...
Ao sentar-se ficou admirado do tom de sinceridade que dera às últimas palavras. Veio-lhe de novo à ideia o despeito por que passara, três anos antes, quando Luisinha Reis respondera com um não à sua carta tão apaixonada. Pouco depois começara ela o namoro com o Vargas. Como sofrera com tudo isso... Mas aí estava vingado — e por quem! Parecia-lhe maior humilhação o gesto de António Vargas. Porque seria aquele abandono? Luisinha tão bonita e o pai tão rico!... Talvez agora Luísa Reis o ouvisse...
— Ó homem, adeus. Você parece que está na Lua. Adeus.
Sertório, como se acordasse, estendeu atrapalhadamente a mão ao Dr. Anselmo. Depois ao Francisco Salgado. André Silva bateu-lhe nas costas umas palmadinhas repetidas:
— Grande pedaço, grande pedaço de mulher!...
Iam todos jantar. Já devia passar do sol-posto, porque a penumbra invadia o café. Sozinho, Sertório Pires voltou aos seus pensamentos. Apoiou os cotovelos na pedra da mesa, encostando a cabeça nas mãos. Luisinha Reis... Diante dos seus olhos, os cabelos dela, em grandes ondas, loiros, cor de oiro... Talvez em toda a vila não houvesse fortuna maior que a do Dr. Inácio Reis... E os cabelos loiros alastravam, tapavam Luisinha por inteiro.
Assim estava, quando um rapaz de chapéu desabado entrou no café. Ao reparar em Sertório, ainda fez menção de retroceder. Mas, cumprimentando, sentou-se.
Sertório Pires ficou a encará-lo como se fosse descoberto nos seus pensamentos. Lentamente ia-se recompondo, procurando uma frase qualquer que quebrasse o silêncio que se fizera após a saudação.
O rapaz do chapéu desabado abriu a cigarreira, tirou lentamente um cigarro, olhando um ponto vago para lá da porta. Ao acender o isqueiro, como quem emenda um esquecimento, estendeu a cigarreira:
— Vai?
Sertório Pires ergueu-se, veio até ele, pôs-lhe a mão no ombro. Acentuou gravidade na voz, falou pausadamente:
— Obrigado, Jorge Reis. Ouve, amigo... Mas calou-se. O amigo fitou-o:
— Também viste?
Sertório sentou-se na cadeira ao lado, sem retirar a mão do ombro de Jorge Reis:
— Vi. Até falei. Disse o que penso, o que pensa um homem às direitas. E mais que isso: disse o que pensa um homem que é teu amigo de infância.
Jorge Reis pareceu ficar mais taciturno. Jogou fora o cigarro mal principiado. Levantou-se.
— Obrigado.
Saiu porta fora. Enterrou as mãos nos bolsos das calças, foi andando ao acaso.
Não sabia que pensar. Tentava ordenar os factos, mas era-lhe impossível. Todos pareciam mais interessados que ele, mais ofendidos. Viera o escândalo e já o Sertório dissera tudo aquilo. E ele, irmão de Luísa, sem reacção nenhuma, andando ao acaso...
O mal-estar acelerava-lhe os passos. Pouco a pouco, muito nítido, insistente, veio-lhe o desejo de de¬fender António Vargas contra todos. Contra a própria irmã.
Era tão longe da vida da irmã, a sua vida! Dela só sabia as horas gastas ao espelho, estudando atitudes, o ar distante com que recebia, o jeito senhoril e frio dos seus passos.
Desde pequena sempre aquele egoísmo seco, já nas brincadeiras, já nas birras que fazia a propósito de nada. De nenhuma das suas partidas de rapaz guardara segredo. Corria logo a contar à mamã a coisa mais insignificante. E tudo isto crescera com ela, encoberto na distinção das maneiras, nos gestos estudados.
A António Vargas conhecia melhor que ninguém. Era o amigo de infância e sempre sentira pena daquela vida tão abandonada, nem afeições nem família, e em tudo tão leal. E recordava cenas de rapazes, lutas, correrias, o jogo da bola na Courela da Feira. Assim haviam crescido e, um ao outro, contado os segredos, as ambições. Ele, Jorge Reis, queria ser oficial do exército, vestir uma farda, mandar batalhões, caracolando num cavalo, com mulheres a olhá-lo das janelas. Mas todos os seus planos se perderam, molemente, pelos cafés e clubes de Lisboa. Vargas sempre desejara o mesmo: ter família. E via-o, mal enfiara as primeiras calças compridas, numa tarde em que os dois passeavam em volta do castelo, muito direito, compondo a gravata e com um grande sorriso no rosto corado. Ouvia-lhe, de novo, aquelas palavras tão repetidas:
— Quando chegar à maioridade e o padrinho me entregar a herança, caso-me, Jorge!
Todo ele parecia compenetrado dessa certeza. Só quando um dia lhe perguntou se já lhera noiva o viu perplexo, numa surpresa. Sem mais palavras desandou. E Jorge, depois daquela atitude, deixava-o falar no seu projecto tão querido sem o interromper.
Mas, António Vargas parecia mais violento nas brincadeiras. Todos os rapazes o temiam. Crescera muito, ossudo, de ombros largos. Já fumava como um homem. Vinham uns dias em que parecia outro. Então passeava com Jorge numa conversa animada. Fazia-lhe perguntas sobre a mãe. Como o tratava ela? Ia de noite ao quarto vê-lo dormir? Tapava-o, compunha-lhe a roupa quando era de Inverno? E Jorge, que pensava perceber o motivo daquelas perguntas, mentia-lhe: Que não, que a mãe pouco se interessava por ele; acontecia até que só raramente lhe dava um beijo. Mas bem via que António Vargas não acreditava. Vinha-lhe aos olhos o brilho agressivo e partia para não aparecer por muitos dias.
Jorge Reis recordara as férias grandes do último ano em que andara nos estudos. Viera encontrar o amigo já um homem. António Vargas, de posse da herança, levara-o para uma vida de noitadas e mulheres. Um dia, chegaram a uma praia do Sul. António Vargas, insaciável, parecia sorver a vida como se a morte o esperasse cada manhã seguinte. Mas breve, o casino, os namoros, as festas contínuas, o encheram de tédio. E vieram as taças cheias de vinho, mulheres de acaso.
Depois começou uma grande bebedeira. Um dia, surpreenderam-se correndo estradas, o automóvel guinando numa vertigem, gemendo nas curvas. Passavam vilas, árvores, e o vento puxava-lhes os cabelos para trás. Mas tudo, árvores, vento e os muros caiados e as curvas escondidas de traição, tudo era impotente para suster aquele desejo ansiado de vida. António Vargas tinha os olhos jogados para a frente, o maxilar cerrado, o pulso firme. Vinham mulheres às portas com as mãos apertadas sobre o peito, no lugar do coração, porque os seus meninos brincavam na estrada; espantavam-se os animais, recuando os carros contra taludes e troncos; fez a polícia sinal de paragem; em vão: António Vargas corria como um destino.
Só de noite, um rio largo lhe moderou a marcha. E, atracado o barco na outra margem, entraram numa grande cidade. Aí, durante um mês, foi sempre noite para eles. Noite de asfalto luzidio das primeiras chuvas de Outono, com o jorro das montras e dos candeeiros espelhando-se. Noite de clubes, com mulheres de cabe¬los de todas as cores caídos em cachos sobre os ombros nus. Noites de beijos mordidos e de lutas até de madrugada. Então, numa outra cama de lençóis muito frios, um sono pesado de inércia até à noite. E mais vinho para excitar. Uma mulher ruiva. Agora uma menina quase, os cabelos claros, a pele branca, como se fosse virgem. E tabaco, cigarros acesos uns nos outros, vinho, sempre vinho! Esta noite, aquela rapariga alta, de boca rasgada e os olhos oblíquos, o cabelo negro! Hoje, a loira, a do sorriso terno e gestos brandos de embalar meninos.
Mas tudo aquilo cansava, enchia de torpor. Na última noite, foi só vinho. Vinho e desânimo. Alta madrugada, para ali estavam os dois em frente um do outro, vazios, sem um gesto, sem um interesse. As mãos sustendo as cabeças, os cigarros ardendo. E ninguém mais àquela hora, no clube sem música nem mulheres. Parecia o mundo deserto e eles sozinhos, amparando as cabeças nas conchas das mãos, sobre um abismo. António Vargas olhava um ponto vago, os olhos enublados, o cigarro evaporando-se em fumo, névoa. E depois, veio a voz arrastada, num murmúrio medroso, de despertar gritos. Gritos estrídulos de aflição que bem se viam no brilho lucilante que estava por detrás da névoa dos olhos de António Vargas. Veio a voz suada de angústia, e ciciada, e vagarosa, e sumida:
— Não pode ser, não pode ser... Há, decerto, alguém. Isto é gelo que está caindo, é gelo que passa...
Nesse momento, Jorge Reis não encontrara pala¬vras para responder, sequer um gesto para confortar. Em toda a viagem, de volta, quase não trocaram uma frase. Depois, durante meses, António Vargas desapareceu. Tivera notícias dele unicamente por intermédio do feitor. E por uma tarde, já na Primavera, agradável surpresa o esperava, ao dobrar uma esquina: António Vargas estava, num grupo, à porta do café. Mas aos seus modos de alegria, António respondeu com simplicidade, como se o acabasse de ver na véspera.
Começara pouco depois o namoro com sua irmã. A princípio andou indeciso, sem saber que motivos haviam levado o amigo a apaixonar-se por Luísa. Eram tão diferentes um do outro nos gestos, nas ambições. Luísa só pensava em festas, vestidos, guiar automóveis e sentir em sua volta, admirações, homenagens. Mas breve se desinteressou, entretido na roda dos amigos. E, só agora se arrependia de não ter falado na altura própria. Não ter tentado convencê-lo que Luísa não lhe servia. Que, mais tarde ou mais cedo, havia de fatalmente aparecer uma palavra, uma atitude a separá-los. Agora era tarde.
Que sabia Sertório Pires para falar daquele modo? E os outros? Todos iriam arquitectar enredos, aventar hipóteses, enfim; o escândalo correria a vila de ponta a ponta.
Em casa, que fariam, que pensariam os seus? Calculava. Choros, recriminações, palavras azedas. E nisso tudo, como irmão e filho, ele se via obrigado a tomar parte, embora apaga-damente.
Sem saber por onde passara, Jorge Reis estava em frente de casa. Que fazer? Entrar ou voltar pelas ruas, ao acaso? Decidiu-se. Meteu a chave à porta, subiu a escada.
Havia um silêncio pouco habitual. Só se deteve na casa de jantar. Sentou-se e esperou. O silêncio continuava, anunciando más coisas. Quando ouviu passos compôs um ar aborrecido. Mas quem entrou foi a criada com a terrina fumegando.
Depois, com grande surpresa sua, vieram, uma por uma, todas as pessoas de família. Muito graves, sem uma palavra, começaram a comer. Só Luísa se não servia: os pratos e os talheres inúteis, na sua frente. Olhou-a e viu-lhe os olhos muito brilhantes de choro. Mas assim um choro como os de birra, tão habituais nela.
Sem desmanchar o aspecto compungido, Jorge Reis sentia-se intimamente aliviado. Decerto a tempestade passara e nada mais havia a dizer uns aos outros.
Quando uma frase da mãe quebrou o silêncio, Jorge mal entendeu as palavras, tão pouco naturais lhe pareceram. No entanto, a mãe insistia; voltada para Luísa:
— Iremos ao cinema. Se não fôssemos, todos di¬riam que minha filha sofria, humilhada por um traste. Talvez até inventassem sei lá o quê!... Não. A melhor resposta a esse canalha é ir ao cinema tal qual como sempre fazemos.
A frase ficou no ar sem objecções. Parecia mesmo uma combinação já determinada e aquelas palavras apenas um aviso para ele, Jorge, que todos os domin¬gos comprava os bilhetes.
Ainda pensou fazer uma pergunta clara ao pai, que mastigava, carrancudo, de olhos no pra-to. Mas teve receio de quebrar o silêncio e trair pela voz o desinteresse em que estava. Bebido o café, ergueu-se:
— Compro ou não compro os bilhetes? A mãe fitou-o, de nariz afilado, e o tom das palavras parecia de repreensão, seco:
— Já o devias ter feito. Se não o fizeste, vai e espera-nos como de costume.
Na rua, Jorge acendeu um cigarro e caminhou pensando que tudo aquilo estava mal. Nada de correcto naquela ida ao cinema. Mas assim faziam todos para mostrarem desprezo, para fingirem serenidade, quando a impotência lhes vedava outras atitudes. Ainda se o pai ou ele mandassem alguma coisa em casa, tudo se passaria de outro modo. Jorge, no entanto, sabia de há muito que só a mãe governava e só a ela se obedecia. Até Luísa, tão cheia de caprichos, se dobrava à sua vontade.
Nestes pensamentos comprava os bilhetes, certos em todos os espectáculos, e ia reparando o jeito dos cumprimentos das pessoas conhecidas. Havia em todas, ao encará-lo, um movimento de surpresa, logo desmentido num «boa-noite» muito delicado.
Quando entrou na sala, atrás da família, notou que a admiração era geral. Todos cochicha-vam, disfarçan¬do. Muito serena, Luísa parecia entretida, ora a ler o programa ora a corres-ponder, com acenos de cabeça, aos cumprimentos das amigas.
As quatro únicas filas do balcão daquele cinema de província encheram-se com os frequen-tadores habituais. Só na segunda fila, quase ao meio, havia dois lugares vagos.
Sertório Pires, muito concentrado, parecia debater-se com um problema difícil. De vez em quando, olhava para Luísa demoradamente. André Silva fumava, discutindo com o sujeito do lado, afectando um grande interesse. Lentamente, a admiração que se traduzira por um silêncio, só perturbado pelo rumor de vozes que subia da plateia, foi desaparecendo. O Dr. Anselmo já tomara o seu lugar, o que significava, para os frequentadores do balcão, que a sessão ia principiar.
Apagavam-se as primeiras lâmpadas do tecto, quando António Vargas, vestindo de claro, entrou na sala dando o braço à filha do velho Jacinto de Vale Barrancos.
A rapariga caminhava sem jeito, amedrontada de tantas caras desconhecidas. António Vargas guiava-a através da segunda fila. Sentaram-se nas duas cadeiras até ali vazias.
Fizera-se de todo escuro na sala. Da cabina vinha o ruído contínuo da máquina desenrolando o filme. Na tela, começaram a agitar-se cenas. Gente. Uma estrada sombria de arvoredo. Depois, paisagens largas. Depois, uns bonecos faziam coisas impossíveis.
Mas até ao primeiro intervalo, todos olhavam ora para a tela ora para o lado de António Vargas. Quase ninguém reparou no filme de actualidades, nem no outro, de desenhos animados. Quando as imagens começaram a tremer anunciando o fim, prepararam-se para varrer a dúvida. A tela escureceu um momento, logo iluminada pela luz caindo do tecto da sala. E, piscando os olhos à claridade, voltaram-se todos os rostos.
Maria Jacinta, muito séria no seu vestido simples, tinha o mesmo aspecto de admiração com que entrara. Os cabelos pretos, abertos ao meio, erguiam-se nas fontes para trás das ore-lhas. A boca, de lábios grossos, era um traço vermelho no rosto afogueado. Os olhos, negros, brilhavam.
Ao lado, António Vargas, de rosto duro, olhava de frente todas as caras. Ia obrigando, um por um, a desviar a vista. O peito abaulado parecia comprimir uma grande força prestes a soltar-se.
No meio do silêncio frio que enchia o balcão, o Dr. Anselmo levantou-se e saiu para o corre-dor. Andava no seu passo nervoso de exaltado. Não. Aquilo não podia ficar assim! Era uma ofensa. Mais: um desafio. Uma camponesa entre gente de posição e um atrevido provocando com o olhar, como se fosse espancar o primeiro que lhe desse pretexto para isso!... Ah! Não! Para enxovalho chegava a cena do café.
Dirigiu-se ao pequeno escritório do fundo do corredor. Aí expôs as suas razões.
O Sr. Mota atendeu-o com amabilidade. Mas, ao saber a causa que tanto enfurecia o Dr. Anselmo, mudou, apreensivo. E o Dr. Anselmo insistia: que fosse avisar o Vargas, que ele não podia continuar ali, com uma mulher daquelas.
— Isto é um insulto a todos nós! É uma vergonha para as nossas famílias! Se aquele homem não sair imediatamente, não voltarei aqui. E outros farão o mesmo: ninguém voltará aqui. Nunca se viu uma coisa destas, Sr. Mota!
O Sr. Mota concordava. «Tinha razão o Dr. Anselmo, todos tinham razão. Até era proibido a certa gente o ingresso no balcão. Isso era. Mas o Sr. Vargas trazia a mulher. Era a mulher dele, logo, portanto...»
— Tem a certeza disso?
«A certeza não tinha, claro, não ia jurar. Era o que se dizia. O Dr. Anselmo devia compreender. Era um assunto melindroso.»
Mas o Dr. Anselmo não desistia:
— Então chame esse homem e pergunte-lhe se é casado. O balcão é para gente honrada, Sr. Mota!
Por fim, o Mota cedeu. «Que diabo, era só chamá-lo de parte e, ali no escritório, fazer-lhe a pergunta muito delicadamente. Dizer-lhe mesmo que era contra vontade que se metia num caso daqueles.»
Empurrado pelo Dr. Anselmo, o dono do cinema entrou no balcão.
Caminhou até ao princípio da segunda fila, mas aí parou indeciso. António Vargas varava-o com aquele olhar parado, fixo.
Perante a atenção geral, o homem voltou-se, a desistir. O Dr. Anselmo, já sentado no seu lugar, quase se ergueu. Mas ainda o Mota não dera um passo, quando a voz cortante de António Vargas se ouviu:
— Há alguma novidade?
O dono do cinema voltou a cabeça com um sorriso forçado.
— Não, senhor, está tudo muito bem...
António Vargas, então, pareceu falar para todos:
— Creio que não há ninguém, aqui dentro, que tenha uma opinião diferente da sua!
O corpo do Dr. Anselmo abateu pesadamente na cadeira. Sertório Pires pareceu mais interessado que nunca na resolução do seu problema. O lencinho que Luísa Reis mordia esgarçou-se-lhe nos dentes. Ao lado, a mãe tinha a testa suada e os cantos da boca tremiam-lhe. Jorge sentia as orelhas rubras de vergonha. Mas, em todas as filas, nem um gesto, nem uma palavra. Todos faziam por ter um ar composto, natural.
Quando saíram do cinema, a noite estava muito serena, cheia de estrelas. Maria Jacinta estranhou a noite e as estrelas. Mal se dava conta das ruas negras da vila por onde ia pas-sando. Parecia-lhe apenas cami¬nhar através da noite e das estrelas.
Depois de fechar a porta de casa, António Vargas disse à rapariga:
— Aborreceu-me tudo aquilo. Desejava ver-me só contigo, de vez. Mas era necessário ir lá, era necessário.
Maria Jacinta deixou-se levar através do corredor.
A meio, o homem abriu uma porta e deu volta ao comutador. O candeeiro grande, suspenso do tecto, iluminou a quadra. Era uma sala enorme, atapetada. Quadros de diversos tama-nhos pendiam das paredes. Nem os passos se ouviam, sumidos no pêlo fofo da carpeta.
— Vês esses retratos, Maria? São da minha família. Nenhum é vivo. Este é meu pai, aquela é minha mãe. O resto são avós, nem eu sei ao certo.
A rapariga, interessada, corria a vista pelas paredes. Depois, quedou-se, apreensiva, perante aquelas senhoras e aqueles senhores, hirtos e de olhar parado.
Tudo lhe parecia um sonho. Não conseguia dominar-se e pensar nitidamente os factos desse dia. Eram como coisas de sonho. O pai à beira da estrada; a corrida a cavalo e o sol inundando tudo; o desmaio que quase lhe dera, encostada a António Vargas; a entrada em Cerromaior; as cenas da porta do café e do cinema... Agora, aquelas caras paradas, de olhar fixo.
Havia qualquer coisa de muito estranho em todo aque¬le dia.
Como podia ser noite sem ela andar na casa, de chão batido, a pôr a comida à lareira? Onde ficava aquela sala com caras que nunca tinha visto? E as ca¬beças suspensas da parede, muito sérias, a olhá-la? Parecia-lhe um túmulo.
O pai ainda estaria na estrada, de cabeça erguida? E o Sol?
Olhou para o lado, sobressaltada. António Vargas desaparecera. Julgou-se sozinha, sozinha num jazigo! Voltou-se. Ao canto da sala, de pé, António Vargas fitava-a. Pareceu-lhe assim como um retrato preso na parede. Teve medo, gritou:
— António!
António caminhou sorrindo. As feições carregadas haviam-se esbatido e um ar ingénuo e jovem brilhava-Ihe no rosto. Parou junto dela, passou-lhe o braço em volta da cintura, levou-a para o corredor:
— Agora és tu a minha família. Nunca mais voltaremos àquela sala. Hoje enterrei uma porção de mortos. Vem!...
E entraram no quarto, fechando a porta.


Manuel da Fonseca in Aldeia Nova


20/03/2009

O adiado avô



Nossa irmã Glória pariu e foi motivo de contentamentos familiares. Todos festejaram, excepto o nosso velho, Zedmundo Constantino Constante, que recusou ir aohospital ver a criança. No isolamento de seu quarto hospitalar, Glória chorou babas e aranhas. Todo o dia seus olhos patrulharam a porta do quarto. A presença de nosso pai seria a bênção, tão esperada quanto o seu próprio recém-nascido.
- Ele hã-de vir, há-de vir.
Não veio. Foi preciso trazerem o miúdo a nossa casa para que o avô lhe passasse os olhos. Mas foi como um olhar para nada. Ali no berço não estava ninguém. Glória reincidiu no choro. Para ela, era como sofrer as dores de um aborto póstumo. Suplicou a sua mãe Dona Amadalena. Ela que falasse com o pai para que este não mais a castigasse. Falasse era fraqueza de expressão: a mãe era muda, a sua voz esquecera de nascer.
O menino disse as primeiras palavras e, logo, o nosso pai Zedmundo desvalorizou:
- Bahh!
Contrariava a alegria geral. À mana Glória já não restava sombra de glória. Suspirou, na santa impaciência. Suspiro tão audível, que o velho se obrigou a destrocar:
- Aprender a falar é fácil. Com o devido respeito de vossa mãe. Que não é muda. Só que a voz lhe está adormecida.
Nossa mãe - agora, a tão assumida avó Amada-lena - sacudiu a cabeça. O homem sempre acinzentava a nuvem. Mas Zedmundo, no capítulo das falas, tinha a sua razão: nós, pobres, devíamos alargar a garganta não para falar, mas para melhor engolir sapos.
- E é o que repito: falar é fácil. Custa é aprender a calar.
E repetia a infinita e inacabada lembrança, esse episódio que já conhecíamos de salteado. Mas escutamos, em nosso respeitoso dever. Que uma certa vez, o patrão português, perante os restantes operários, lhe intimou:
- Você, fulano, o que é que pensa?
Ainda lhe veio à cabeça responder: preto não pensa, patrão. Mas preferiu ficar calado.
- Não fala? Tem que falar, meu cabrão.
Curioso: um regime inteiro para não deixar nunca o povo falar e a ele o ameaçavam para que não ficasse calado. E aquilo lhe dava um tal sabor de poder que ele se amarrou no silêncio. E foram insultos. Foram pancadas. E foi prisão. Ele entre os muitos cativos por falarem de mais: o único que pagava por não abrir a boca.
- Eu tão calado que parecia a vossa mãe, Dona Amadalena, com o devido respeito...
Meu velho acabou a história e só minha mãe arfou a mostrar saturação. Dona Amadalena sempre falara suspiros. Porém, em tons tão precisos que aquilo se convertera em língua. Amadalena suspirava direito por silêncios tortos.
Os dias passaram mais lestos que as lembranças. Mais breves que as lágrimas de nossa irmã Glória. O neto cumpriu o primeiro aniversário. Nesse mesmo dia, deu os primeiros passos. Houve palmas, risos, copos erguidos. Todos poliram júbilo menos Zedmundo, encostado em seu próprio corpo.
- Não quero aqui essa gatinhagem, ainda me parte qualquer coisa. Levem-no, levem-no...
Meu pai não terminou a intimação. Amadalena suspendeu-lhe a palavra com esbracejos, somados ao seu cantar de cegonha. O marido, surpreso:
- Que é isto, mulher? Já a formiga tem guitarra?
A mulher puxou-o para o quarto. Ali, no côncavo de suas intimidades, o velho Zedmundo se explicou. Afinal, ele sempre dissera: não queria netos. Os filhos não despejassem ali os frutos do seu sangue.
- Não quero cã disso. Eu não sou avô, eu sou eu, Zedmundo Constante.
Agora, ele queria gozar o merecido direito: ser velho. A gente morre ainda com tanta vida!
- Você não entende, mulher, mas os netos foram inventados para, mais uma vez, nos roubarem a regalia de sermos nós.
E ainda mais se explicou: primeiro, não fomos nós porque éramos filhos. Depois, adiámos o ser porque fomos pais. Agora, querem-nos substituir pelo sermos avós.
A avó ameaçou, estava farta, cansada. Desta vez, dada a quentura do assunto, Amadalena preferiu escrevinhar num papel. Em letra gorda, ela decretou: ou o marido se abrandava ou tudo terminava entre eles. Ele que saísse, procurasse outro lugar. Ou era ela mesma que se retirava. O velho Zed-mundo Constante respondeu, sereno:
- Amadalena, teu nome cabe na palma do meu coração. Mas eu não vou mudar. Se o meu tempo é pouco, então vou gastá-lo com proveito.
Não saiu ele, nem ela. Quem se mudou foi Glória. Ela e o marido emigrados na cidade. E com eles o menino que era o consolo de nossa mãe. Ela mais emudeceu, em seu já silencioso canto.
Não passaram semanas, nos chegou a notícia - o genro falecera na capital. Nossa irmã, nossa Glorinha perdera o juízo com a viuvez. Internaram-na, desvalida como mulher, desqualificada como mãe. E o menino, mais neto agora, chegava no primeiro machimbombo.
O menino entrou e meu pai saiu. Enquanto se retirava, já meio oculto no escuro ainda disse:
- Tudo o que você não falou, esta certo, Amadalena, mas eu não aguento.
O nosso pai saiu para onde? Ainda nos oferecemos para o procurar. Mas a mãe negou que fôssemos. O velho Zedmundo nunca tivera nem rumo certo nem destino duradouro.
O homem era mais falso que um tecto. Voltou dias depois, dizendo-se agredido por bicho feio, quem sabe hiena, quem sabe um bicho subnatural? Surgiu na porta, ficou especado. Ali naquela moldura feita só de luz se confirmava: porta fez-se é para homem sair e mulher estreitar o tempo da espera. Meu velho emagrecera abaixo do tutano, e em seus olhos rebrilhavam as mais gordas lágrimas. Amadalena se assustou: Zedmundo estreava-se em choro. Seu marido perdera realmente o fio de aprumo, sua alma se havia assim tanto desossado?

Depois, toda ela se adoçou, maternalmente. E se aproximou do marido, acatando-o no peito. E sentiu que já não era apenas o espreitar da lágrima. O seu homem se desatava num pranto. Vendo-o assim, babado, e minguado, minha mãe entendia que o velho, seu velho homem, queria, afinal, ser sua única atenção.
Conduzindo-o pela mão, minha mãe o fez entrar e lhe mostrou o neto já dormindo. Pela primeira vez, meu pai contemplou o menino como se ele acabasse de nascer. Ou como se ambos fossem recém-nascidos. Com desajeitadas mãos, o velho Zedmundo levantou o bebé e o beijou longamente. Assim demorou como se saboreasse o seu cheiro.
Minha mãe corrigiu aquele excesso e fez com que o miúdo voltasse ao quente do colchão. Depois o meu pai se enroscou no desbotado sofá e minha mãe colocou-se por detrás dele a jeito de o embalar em seus braços até que ele adormecesse.
Na manhã seguinte, ainda cedo, encontrei os dois ainda dormidos: meu velho no sofá e, a seu lado, o adiado neto. Minha mãe já tinha saído. Dela restara um bilhete rabiscado por sua mão. Não resisti e espreitei o papel. Era um recado para meu pai. Assim:
“Meu Zedmundo: durma comprido. E trate desse menino, enquanto eu vou à cidade.”
Entre rabiscos, emendas e gatafunhos, o bilhete era mais de ser adivinhado que lido. Dizia que meu pai ainda estava em tempo de ser filho. Culpa era dela, que ela já se tinha esquecido: afinal, meu pai nunca antes fora filho de ninguém. Por isso, não sabia ser avô. Mas agora, ele podia, sem medo, voltar a ser seu filho.
“Seja meu filho, Zedmundo, me deixe ser sua mãe. E vai ver que esse nosso neto nos vai fazer sermos nós, menos sós, mais avós.”

Dobrei o bilhete e o deixei no tampo da mesa. Esperei na varanda que minha mãe chegasse. Eu sabia que ela tinha ido buscar minha irmã Glória. Antes, eu jurara contar esta história a minha irmã. Mas agora, lembro as palavras de meu pai sobre o aprender a calar. E decido que nunca, mas nunca, contarei isto a ninguém. Minha mãe, que é muda, que conte.


Mia Couto, O Fio das Missangas

Milagre


Nesse Inverno, de tanto chover, as estradas ficaram esbeiçadas. O rio levou pelo pé as vinhas dos nateiros. Das serras, tombaram sobre os vales enormes fragas, redondas como jogas de brincar do tempo dos gigantes. Inverno pegado.
Pelo Abril dentro, já as árvores se desfaziam em pétalas brancas e em farrapos de cor, e as abelhas não saíam dos cortiços, nem uma borboleta preava nos cálices
alagados. Magoava a alma ver afogado em água sombria o sussurro claro do tempo das flores. Tristeza igual só a da cara dos lavradores meanhos quando iam às courelas esburgadas avaloar os estragos do temporal desfeito. Tragédia assim só se podia ler na máscara do cavador crucificado na umbreira dos cardenhos. A Páscoa estava connosco e o céu não se reconciliava com os pobres, nem rogado pelo canto aflitivo das aves. Era só chover, como se Nosso Senhor não tivesse arquitectado o firmamento com mais alegres desígnios. Parecia um sinal.
Como Deus não bota os males todos a um canto, podia-se descontar um bem nesta desgraça. Debaixo dos escombros, que davam à paisagem o aspecto de bulida, aqui e além, por escava-terra vinda das profundas, nem um corpo humano ficara sepultado. Tanto a sábios como a pobres de espírito dava isto que cismar. Inverno amaldiçoado, e ninguém perecera fora de sua casa. Podiam-se dar louvores a quem manda.
Muito de admirar era também que certas casas arruinadas, solares antigos, paredes salitrosas de conventos, rebotalhos de barbacãs da guerra dos afonsinhos, permanecessem de pé, inabaláveis como velhinhos recurvos e cobertos de musgo, cuja resistência a todas as doenças causa o espanto dos médicos e a mal rebuçada arrelia dos herdeiros.
Em Covelas, havia um pardieiro naquelas condições. Chamavam-lhe a Casa das Mónicas, pedreira que vira expirar quatro senhoras decrépitas na alba do nosso século.
Casa tão velha, tinha numa padieira quebrada a certidão de idade: 1665.
Todavia, mais que a padieira, rezavam da sua vetustez barrigas e cotovelos dos seus panos cobertos de heradeiras, assim como as órbitas vazadas de varandins e janelas, apenas guarnecidas de gonzos ferrugentos. Sem vislumbre de esquadraria, parecia avantesma no acto de levantar voo ou horsa desconjuntada com tropeção nos jarretes. E não caía... Os mendigos, acossados dos vendavais, era ali que se refugiavam sem susto. As crianças das escolas era ali que brincavam. Por chuva e por neve, o seu coito era aquele. De Verão, trepavam às cornijas aluídas e expulsavam dos buracos os zilros, fazendo competência de gritaria com eles.
Nestes perigosos brincos, não se magoou nunca rapaz ou rapariga – que as raparigas, nas escaladas do casarão esburacado, eram mais atrevidas que os rapazes.
Naquele Inverno, esperava-se que tombasse, que se afundasse de vez a nau desmantelada das Mónicas. As almas piedosas preveniam os mendigos: Ó tio homem, vossemecê não se meta em semelhante lora, que morre lá assapado! As mães proibiam os filhos de se aproximarem daquela ratoeira, armada pelo demo para os castigar, à falsa fé, das suas travessuras.
– Olhaide! Se vos vejo lá, ponho-vos esse rabo mais negro que esta saia... Bem se importavam os pobres e as crianças! Os pobres continuavam, com grande freima, a coçar as costas, roça que roça, nas esquinas de granito. As crianças não tinham outro recreio senão a Casa das Mónicas. Havia de ser o que Deus quisesse.
Tempos antes, andara de povo em povo um maluquinho triste, cuja atitude era toda de protecção a imaginários seres em perigo. Olhos receosos, mãos enconchadas como se estivessem a acariciar a penugem de oiro de crânios infantis, era, por uma pena, a figura alada que vela crianças dormidas à beira de precipícios.
Uma tal Leopoldina, muito esperteleja para pôr alcunhas, quando o viu em Covelas a primeira vez, baptizou-o logo. É o Anjo da Guarda!
O apodo pegou de raiz. Frondejou em mil aldeias. Até gentes eclesiásticas,em todo o Cima-Douro, ao avistá-lo, soltavam esta graça: o Anjo da Guarda está connosco.
Naquele Inverno rigoroso, não se sabia o sumiço que levara o maluquinho. Estaria por lá entre os potes da cozinha de casa rica ou teria morrido. Se tivesse morrido, bem regalado devia estar, à banda de cima das nuvens, com sol do melhor e bons manjares celestes, enquanto os terreanos, de molhados, começavam a criar barbatanas de robalo.
Ia esquecido o Anjo da Guarda. O mais certo era ter-se lembrado Nosso Senhor de o recolher, porquanto o desgraçadinho andava cá em baixo só para penar.
No sábado de Ramos desse Inverno assinalado, à chuva juntou-se o trovão e o vento. Parecia o fi m do mundo, o dia de juízo. Bem carregados podiam ser os carros no Verão seguinte, já que tão molhados se levavam a benzer os ramos. Que, lá diz o rifão: Ramos molhados, carros carregados.
Ás três horas da tarde negra – não há memória de negrume igual – esbugalharam-se os olhos dos aldeões, as queixadas dos aldeões descaíram de súbito. Ouvira-se um fragor medonho. As mulheres foram as primeiras que se puseram de alevante. Com os cabelos colados às costas, aderentes as saias às pernas musculosas, convergiram ao sítio donde partira o formidável estrondo.
A Casa das Mónicas estava por terra.
– Que é da canalha? O meu Zé? Ah! Fernandes! Filho da minha alma! Ah! Marques! Ah! meu ruço, que te não torno a ver!
Ficaram calvas algumas de tanto se arrepelarem. Outras fi caram roucas, outras fi caram gagas. Depois, atiraram-se às pedras que supunham ser as lajes da sepultura dos fi lhos, e aí se desunharam e se ensanguentaram, enquanto os homens, hirtos e pávidos, eram como bois no açougue, com a choupa espetada, antes de ajoelhar.
Cristo! Daí a pouco, não houve quelho donde não saísse canalha. Ele apareceu o Zé, o Fernandes, o Marques, o Henriques, o Fulgêncio, o Tobias, o Álvaro, quantos rebentos graciosos havia daquelas arrepeladas mães.
Contaram-se e recontaram-se. Estavam todos. Nem se quer faltava a Mecias, engano da Natureza, que a fizera menina, devendo sair rapaz. Gritou-se ao milagre, que se podia ouvir no Porto ou em Salamanca. Desorientada, a Zefa Maniaca pôs catadura feroz, fechou os punhos, levou-os à cara do gentio, e disse:
– Calaide-vos! O Anjo da Guarda está sempre debaixo das sapadas.
Tresmalhou-se o rebanho. Os rapazes saltavam como cabritos. A Mecias, cabra de chocalho, ia ao chinquelimpé diante do soco materno alçado.
Do maluquinho triste ninguém se lembrava. O tempo desanuviou-se, assim como as caras dos aldeões se desanuviaram. Brilhou o sol à sua vontade, amadurecendo os poucos frutos vingados. Veio o Junho. Ceifou-se de noite por via do calor. Nas varandas de pau, abriram os cravos e as cravelinas – que rico cheiro! Estávamos no pino do Verão – uma beleza. As vinhas começavam a ruçar. Apanhavam-se à mão pássaros estonteados do calor.
A Casa das Mónicas era um grande moroiço onde se empoleiravam à noite, em mangas de camisa, os trabalhadores suados. Aí se punham a cantar, sem tom nem som, cada um para seu lado, modas nossas e modas raianas, aprendidas nas segadas da Terra Quente. Ainda foi bem cair a Casa das Mónicas para os cantadores terem poleiro!
Um dia – foi num domingo – apareceu em Covelas, vindo do Brasil, um sobrinho das Mónicas, dono e senhor daquelas ruínas. Era um chincharravelho – nem há homem pequeno e magro com quem se compare. Escuro como o chocolate, olhos ígneos como os brilhantes que trazia ao peito, falas poucas e muito sossegadas, aí se põe a sondar, a medir amorosamente as pedras que tinham visto expirar as tias.
– Quero levantar esta casa. Se houvesse aí um mestre-de-obras que conhecesse a casa como ela era e ma reconstituísse, dava-lhe muito dinheiro.
Mestre-de-obras não havia outro em Covelas e seus arredores senão o Mestre José Pais. Está por nascer o que lhe há-de levar as lampas em obra de cantaria e de alvenaria. Chamado pelo brasileiro, justa a obra por tuta-e-meia, pois o Mestre
José Pais, artista incomparável, nascera para perder e não para ganhar.
– Vamos a isso quando Vossa Senhoria quiser – foram as suas palavras.
Começou a remoção do entulho. Num vão, ajeitado em forma de carneiro rico, estava de pé, encostado a uma parede, o corpo do maluquinho triste. Parecia vivo, e dizem que cheirava bem. Daí a pouco, ficou nuzinho em pêlo. Da vestimenta de cotim e do cordovão dos sapatos fizeram-se relíquias...


João de Araújo Correia, In Contos Bárbaros



19/03/2009

O Pio dos Mochos

Ao camarada Duarte

Há um ano que ansiava por aquele momento (fazia um ano e dois dias que fora suspenso, por mau porte na prisão) – e agora, que Alexandre lhe entrara pelo quar­to dentro, sentia-se incapaz de repetir uma palavra se­quer da conversa que tantas vezes planeara. Alexandre não aludiu ao passado, nem mostrava ressentimento. E isso aumentava a sua ansiedade.
Houve um silêncio breve. Depois, aquele que fora o seu melhor amigo expôs-lhe o caso em poucas palavras. «Que os camponeses da sua terra natal não se deixaram contratar na praça de jornas, onde se troca a força dos braços por salários de fome: paralisaram as ceifas. E que a aldeia, por represália, ficara isolada no meio de um cordão sanitário de polícias, como se de epidemia se tra­tasse.» E Alexandre concluiu:
– Em toda a região, há olhos postos nos campone­ses em greve. É preciso ajudá-los, antes que esmoreçam. Queres ir?
–Vou.
Naquele momento, diria a tudo que sim. A presença inesperada do amigo fazia-o retroceder ao tempo em que merecia a confiança dos camaradas, e lutava. Tam­bém ele, por castigo, fora isolado como um leproso...
– Amanhã é dia de finados - explicou o amigo.
– Deixas este saco no cemitério, dentro do jazigo...
– No cemitério?!
A exclamação saiu-lhe dos lábios, sem que pudesse reprimi-la. Corou. Alexandre incidia sobre ele os olhos coruscantes, que pareciam devassar-lhe todos os pensa­mentos.
– Tens medo? - perguntou secamente.
– Não. Irei, nem que seja ao cabo do mundo. Que­ro «limpar-me» de vez.
O amigo esboçou um sorriso imperceptível; tirou do bolso um revólver.
– Toma. Pode ser-te necessário – disse ele. – Os panfletos devem ficar pouco visíveis sobre as campas. Adeus. Saúde e bom êxito.
No patamar, voltou-se ainda. – A Lua rompe à meia-noite. Percebes?
Tomé ficou a remirar o revólver entre as mãos. «Po­de ser-te necessário, dissera o amigo. Era uma alusão àsua fraqueza na prisão?.. Ah! mas ia mostrar-lhe que era um homem!»
Em plena estrada, depois, Tomé fixou os ponteiros luminosos do relógio. «É cedo, ainda. Posso descansar algum tempo.» Havia meia hora que caminhava e o saco começava a pesar-lhe nas costas, embora apoiado no bordão com que retocara a sua indumentária de maltês. Várias vezes olhara para trás – o seu lado vulnerável. Em redor, a noite era cortina cetinosa e Inegra, a enco­brir perfídias e punhais. Mas deixava antever silhuetas de quintas próximas que emprestavam confiança ao ca­minhante. Se gritasse, ladrariam cães, vultos assomariam às janelas...
Continuou a andar. Ao longe, onde uma estrela pa­recia indicar a meta do infinito, recortava-se o olival, mais escuro do que a noite, misterioso, cerrado! Tomé procurou esquecer-se deste pormenor.
«Que conteria o saco? Pelo cheiro e volume, adivi­nhava latas de conserva, açúcar, chocolates... Umas mi­galhas para uma aldeia de famintos. Mas era um elo da solidariedade que liga o Partido às massas.» (Isto di­ziam os panfletos que escondera entre a barriga das per­nas e as ceroulas.) Animado, Tomé pôs-se a rememorar o documento. «O Partido Comunista está convosco, ir­mãos camponeses! A vossa luta é a nossa luta.» Pela ma­nhã, após terem deposto flores singelas na campa dos parentes, as mulheres achariam conforto em tais pala­vras, mais do que nos mantimentos. E não regressariam pesarosas ao lar vazio, nem propensas a levarem os ho­mens à renúncia da greve. «Era um grande dirigente, aquele Alexandre!»
Pisou com mais firmeza o pavimento da estrada. Apetecia-lhe quebrar o encantamento das coisas ador­mecidas: assobiar. «Alguém agitava a cortina da noite, as ramarias? Não, era o vento. Olhar para trás? Ora. Porquê? Agora era oficial de ligação com um exército proletário em luta aberta, invencível!» Antevia o cemité­rio da sua aldeia, muito branco de cal, juncado de flores como o adro da igreja em manhã de romaria. Mulheres comiam chocolates, acenavam com os panfletos... Sau­davam-no. E surgiam camponeses trigueiros, em filas cerradas, de punhos cerrados...
Partiu-se o fio dos pensamentos. Um mocho piara.
E Tomé sacou do revólver; quedou-se ante o olival, a que chegara sem reparar. «Que agoirento pio!» Ali, ti­nha de meter-se no labirinto dos trilhos que esquartejavam o campo e onde um estranho se perdia. – Foi só por isso que me escolheram – lamentou-se o jovem.
Mas logo se lembrou que prometera ir, até mesmo ao cabo do mundo.
Curvado, pretendendo passar despercebido entre as sombras vigilantes, penetrou no olival. Em volta, silên­cio e trevas. Deliu-se a ténue claridade da lua, apenas pressentida; somente as estrelas bruxuleavam como círios. Na estrada, resguardado por sebes e muros, ele vigiava-se em duas direcções: atrás e à frente. Agora o perigo vinha-lhe de todos os lados. Tipos zoóides destacavam-se dos troncos nodosos, pareciam dormitar sob a copa das oliveiras. «Seriam mesmo oliveiras?.. Ah! que se o mocho não piasse mais!...» Mas o mocho piou e outro mocho respondeu. Pios estridentes, entrecortados, como os gritos duma criança afogada. Acorda­ram lobisomens e duendes que Tomé julgou ver em mo­vimento, resolutos e pachorrentos, certos da presa. Barravam-lhe o caminho, estreitavam-lhe o cerco, tal qual nos sonhos maus da sua infância. E o mocho pia­va... E outro mocho respondia... «Porque não viera con­sigo o Alexandre?! Porquê?.. Porquê?!»
Deitara a correr através do olivedo, agitando a arma inútil, tropeçando. Um suor frio escorria-lhe pela cara imberbe; faltava-lhe o fôlego; o saco pesava-lhe nas cos­tas arrepiadas. Não via o caminho, nem gritava por so­corro. Corria, apenas. E quanto mais corria, mais as sombras rodavam em volta, numa dança macabra. O oli­vedo parecia não ter fim! E os mochos piavam, pia­vam...
Quando chegou à orla do olival, deixou-se cair no chão, exausto. Ao longe, nascia a lua. Da terra, evolava­-se o perfume das ervas orvalhadas; corria a brisa nos trigos por ceifar. Campo aberto, silente, a tomá-lo no seio, como outrora a velha ama, nos braços protectores.
Com lágrimas nos olhos espantados, Tomé reagiu en­tão. «Se Alexandre o tivesse visto correr... Que vergo­nha! Mas era assim; não tinha culpa disso. Acaso sabiam eles, os camaradas, porque se denunciara na prisão? Não foi pela dor das pancadas; mas pelo medo da soli­dão e do escuro, naquela cela fria que lhe lembrava o quarto interior onde o seu avô o encerrava por castigo. Estava nisso a sua culpa e a sua defesa.»
Para as bandas da vala que contornava a aldeia, lati­ram cães. «Diabo. A vala podia ser trincheira de polí­cias.» Mas polícias ou cães, embora ferozes, eram bichos que ele sabia classificar. Pior era o perigo dos seres en­feitiçados, intangíveis. Bem pior, o cemitério. Estreme­ceu só de lembrar-se que ainda lhe faltava esse obstáculo final. – Posso atirar o saco por cima do muro – reflec­tia ele, enquanto rastejava pelo campo fora. «E se a po­lícia o apanhasse? Quebrava-se o elo que liga o Partido às massas. Mas então também eu sou um elo do Parti­do.» – Pois sou – repetiu ele, e alegrou-se. «Pois en­trarei no cemitério! O materialismo dialéctico ensina que o espírito não existe fora da matéria organizada. As sombras do olivedo... eram oliveiras, afinal.»
Assim pensando, criou um novo alento. Transpôs a vala deserta (os polícias estacionavam nos caminhos da aldeia, com certeza); subiu até à copa duma velha árvo­re, rente ao muro do cemitério; ficou-se a olhar. Lá den­tro imperava o silêncio tumular, arrepiante como o gelo. Campas rasas, marcadas por tufos de verdura e cruzes toscas e coroas fingidas, semelhavam canteiros de mo­desto jardim, diziam dos míseros aldeões vencidos pela morte, após luta porfiada com a vida. Apenas ao fundo da rua central, limpa das ervas daninhas, havia um jazi­go de cantaria, entre ciprestes. Tomé fingiu que não o via. Era o túmulo dos seus avós, daquele velho iracundo que batia nos servos e o assustava a si, quando menino. Um déspota!
De novo ouviu latidos. A lua, ao alto, começava a banhar de claridades lustrais o campo funerário. «É tem­po de saltar – decidiu-se Tomé. Alivio-me do saco, de­pressa, e espalho os panfletos pelas campas. Depois... ninguém me agarra.»
Sentiu nas mãos a frieza do muro... Saltou. E de sú­bito, por entre o fuste dos ciprestes, pareceu-lhe distin­guir um vulto imóvel à porta do jazigo. Parou estarreci­do. A mão direita tacteou o revólver no bolso, mas o cérebro recusou-se a comandar o gesto. Um calafrio ar­repanhou-lhe as costas; ouviu bater o próprio coração. Ali, no domínio dos mortos, tornavam-se inúteis as ar­mas. E aquele vulto era a alma penada do seu avô que vinha opor-se ao sacrilégio. Sim, era ele! Via-se avançar; pressentia o toque mortal das suas mãos geladas... «Por­que escolhera Alexandre o cemitério? Porquê?! Sempre os fins a justificarem os meios! Meu Deus...»
Caíra de joelhos, com o rosto escondido entre as mãos. Como num eco, escutou uma voz que lhe dizia:
– Estás fatigado, camarada? Deixa ver o saco.
Admirado e trémulo, o jovem levantou a fronte.
– Mas és tu... Alexandre?!
– Pensei que precisarias do meu auxílio... – E nou­tro tom: – Vamos. Espalha os panfletos e safa-te. Os cães farejam-nos.
Tomé soergueu-se. – E tu?
– Eu fico no jazigo. Tentarei falar com algumas mu­lheres.
Minutos depois, rastejando sobre as ervas orvalha­das, no regresso, o jovem repetia para si: «É um grande dirigente, aquele Alexandre! E um bom amigo.»
No olival enluarado, um mocho piou e outro mocho respondeu. Tomé sorriu. «Que engraçado é o pio dos mochos!»


Soeiro Pereira Gomes,
Primavera de 1945





16/03/2009

O arquipélago dos picapaus

Noctium phantasmata ne polluantur corpora.

Estou casado há meses, na Ilha (conta John Derosa, súbdito norte-americano), com um corpo feminino que se compõe da maré cheia, das nuvens algodoadas, dos bicos dos penedos, e desta aragem carregada de sal que me visita no torreão da Ponta Negra e faz tremer as folhinhas amargas e verdoengas dos salgueiros. É Minha Mulher a Solidão.
Procuro em vão, no fundo do meu saco de aventuras, farrapos de experiência que se assemelhem a isto. Nem Kate, cujos ombros olímpicos me levantavam meia jarda inglesa acima da dobra do lençol. Este ser de nada é mais bravo. Vera, a italiana, dava-me beijos preparados com uma pastilha de fruta que me deixavam sem forças e de meninges a latejar. Mas de manhã, quando abro a porta para o caminho, o mar envia-me um pique mais doce e bravio. E desisto de comparações simplesmente idiotas.
Isto deve ser uma pontinha de febre enxertada num certo esgotamento dos meus trinta anos excessivos, e já me lembrei que, tomando brometos, talvez esta espécie de mulher marinha se safe, como se eu fosse um corpo aberto. O Prof. Sousa Júnior, aqui retirado há anos, e que além de médico eminente é um coração de ouro e grande cavaqueador, falou-me de sífi lis hereditária e deu-me calomelanos. Melhorei um pouco, mas não... Isto não vai com drogas. Asseguro que estou casado com uma mulher de sal e que vai dar-se aqui uma coisa tremenda que fará gemer os prelos!
Trata-se, pelo menos, de uma ilusão singular. Esta noite sonhei que a Solidão deixava de ter aquele corpo quimérico e feito de linhas de limite, para tomar as formas aproximadas de Nanette. E acordei a chorar como uma criança:
– Minha Mulher a Solidão é Nanette!
E, ainda, por uma pegaça de ritmo:
– Nanette é Minha Mulher a Solidão!
Como foi? Não sei bem. Parece que eu deixara Nanette num país esquisito e inabordável: o Arquipélago dos Picapaus. O nome era devido à configuração dos habitantes dessas ilhas: tipos ferozes, gargaludos, providos de narigueiras que farejam tudo de alto a baixo.
Nanette, que eu levara ali à falsa fé, sob um pretexto de regata, não queria desembarcar no único ancoradoiro da Picapau Grande, cortado entre falésias mosqueadas de líquenes cor de fogo. Eu, verde de perfídia, disse-lhe:
– É só por um dia, meu amor! E ficas muitíssimo bem entregue... Vá, minha filha! Ponha aqui o seu pezinho no primeiro degrau do cais...
O chefe dos Picapaus dissera-me ao ouvido que no arquipélago se desenhava uma tendência evolutiva nos caracteres antropológicos da escassa população. Os narizes pencudos, de alto faro, tinham provocado afinal uma epidemia terrível que dizimava em massa as tabas: a rinite picapaual.
Além disso, um vento misterioso, soprado dos seios do Pacifi co (o Arquipélago dos Picapaus está mais ou menos na latitude do Golfo da Califórnia, entre 25° e 30° de latitude Norte), apanhara a população de surpresa nas suas tarefas habituais – a picagem do pau de rolo – e cortara cerce os pescoços de mil e quinhentos cidadãos. Se eu quisesse, mediante um cheque de cem mil dólares, ele, führer natural do Arquipélago, receberia Nanette em depósito durante dois ou três anos e fá-la-ia conceber de um ou dois picapaus mais decentes.
Animado pelo secreto desejo de enriquecer e encobrindo a própria vileza com reservas mentais de eugenésia, fechei a transacção. Fomos ao Banco de meu primo James Derosa e recebi metade do estipulado. Preferi o esterlino.
A outra metade ser-me-ia entregue quando me restituissem Nanette com um quinto dos picapauzinhos humanizados que ela houvesse, a bordo de um navio do contrabando do álcool tripulado por marujos da confi ança de Al Capone.
Consegui enfim vencer as últimas resistências de Nanette. Ela era romanesca, de uma docilidade de cadelinha, e confiava em mim como as pombas palonças que, na Praça de S. Marcos, em Veneza e antes de Tito estar às portas de Trieste, vinham comer milho americano disposto grão a grão nos meus ombros enchumaçados, sob a forma patriótica por que se agrupam as estrelas na bandeira dos Estados Unidos.
Comecei por dizer-lhe que precisava estudar os costumes dos Picapaus para esclarecer um ponto controvertido da história do Canadá, minha especialidade.
E creio que lhe falei vagamente em hibridismo e nas ervilhas lisas e crespas das experiências de Mendel.
Ela, que copiava com tanto amor todos os meus verbetes, desembarcou carregada de tiras de papel de costaneira e com uma grande caneta de uma marca que oculto enquanto me não derem mil dólares para a revelar aqui. Eu ia dar um bordejo a outra ilha e dali a seis horas voltava. Escusado é dizer que não voltei...
Não posso precisar todos os pormenores do sonho, mas foi horrível! Os Picapaus hospedaram Nanette numa casa abjecta, onde mulheres de baixa esfera a cobriram de chufas horrendas e a untaram de um creme afrodisíaco.
Nanette ainda tentou resistir às megeras a pulso – aquele seu pulso fino e endurecido a transportar os nossos móveis, a pegar nos filhos alheios e a – encerar o meu escritório. Não pôde. De cabeça baixa, a testa afogada na mecha de cabelo que às vezes desfazia e descompunha para me dar a impressão da Mãe no Manicómio (filme que me aterrou), chorava em fio e tinha o queixo marcado pelas unhadas dos picapaus. Algumas lágrimas me caíam também, feitas pedras de gelo; outras iluminavam o chão do cais do regresso, como carvões espalhados de uma braseira honesta. Quando acudia à pobre Nanette, acordei. Eram cinco horas da madrugada. Agora, na Ponta Negra, amanhece mais cedo; entra na minha alcova
uma luz mortiça e creme e o coro dos melros pretos de bico amarelo dos faiais.
Como a casa onde moro é escaiolada a vermelho, parecia-me estar numa das falésias do ancoradoiro da Picapau Grande, toda mosqueada a fogo e tinida dos dólares do resgate.
Esfreguei os olhos e atirei com a dobra do lençol. Cá fora o mar desenrolava-se azul, sem uma ruga. A luz do farolim da Ponta do Cavalo ainda pulsava a distância. Cantava um galo: respondia outro – e mais nenhum.
Eu sei que há uma ligação secreta entre a fauna torpe e absurda que nos povoa os sonhos e o fundo inconfessável que levamos connosco até à cova. Talvez eu deixasse Nanette nalguma casa suspeita! Talvez eu esteja casado com Minha Mulher a Solidão...


Vitorino Nemésio, O Mistério do Paço do Milhafre





14/03/2009

A Evasão


O gigantesco desenho da ponte se lhe debuxava agora à esquerda, com o seu arco imenso meio afogado no nevoeiro, que adensara. O vento caíra. E como o crescente da lua se desvanecia no céu brumaceiro, de luar não havia senão uma frialdade semiluminosa, muito vaga, esparsa. Na grande mancha negra, lodosa, que era agora o Douro, retorciam-se como longos parafusos em brasa as luzes de Vila Nova de Gaia. Reflectiam outras luzes espalhadas aqui, ali, além, pequeninas, ao mesmo tempo esfumadas e nimbadas pela névoa. Junto ao cais, quase aos pés de Lèlito, mais se adivinhava do que distinguia na facha tenebrosa uma
complicação de vultos de barcos. Mas havia aí lume, vozes abafadas, ele vez em quando um gorgolejo ou chape-chape de água.
Depois das vielas por onde se encafuara, já tudo isto daria a Lèlito uma quase favorável impressão de largueza, companhia, (pois não havia gente nesses barcos? não era o que ainda o reanimava, sentir a proximidade humana de vez em quando?) se a dupla inquietação de se achar afastado do centro da cidade, e sem ver onde poderia esperar a manhã, o não enchesse de cruéis incertezas. Como se encaminhara, sequer, tão naturalmente, para estes lugares pouco tranquilizadores?
Não poderia ter ido parar às vias mais concorridas? Decerto haveria aí algum café aberto, qualquer lugar onde ficasse. Dir-se-ia que um obscuro desígnio do destino (ou uma impulsão secreta) não só aqui o atraíra, a tais paragens, mas até nelas o retinha; e que, não obstante os seus terrores, uma curiosidade ansiosa, doentia, e um desespero e um desleixo de todo o ser – o guiavam nesta inútil e inesperada peregrinação. Lèlito suspeitou que se lhe revelava o gosto das aventuras perigosas, e que era uma expectativa delas que o dirigia...
Ao cabo de uns momentos verifi cara não ser o único vadiando à margem do rio. Um ou outro pequeno grupo se demorava, ainda, nas sombras daquelas portas escondidas sob antigos arcos; umas abaixo do empedrado negro, ao fundo de quaisquer degraus, outras rasgadas numa espécie de muralha sobre que se erguiam prédios estreitos como torres, com varandas de velhas madeiras, ou casarões imundos e sólidos. Não obstante a amplidão do horizonte em frente, um cheiro igualmente nauseabundo envolvia todas essas portas, penetrara para sempre essas pedras; mas aqui cheirava ainda a frutas podres (que iam ficando do mercado diário), pó de carvão, águas chocas e comidas azedas. Eram, decerto, moradores ou frequentadores retardatários destes antros, os raros vultos que ainda por ali.
Demoravam.
Ora enquanto, perante estas misérias que pela primeira vez se lhe revelavam tão completamente, sentia um acre gosto de humilhação atraí-lo aos seus semelhantes mais infelizes, (aliás nem a sua infelicidade se lhe revelara ainda, ele é que a estava imaginando) muito bem sentia Lèlito que uma particularidade qualquer nos seus modos, no seu andar, no seu ar – qualquer coisa que, tanto por temor como por solidariedade com a miséria, procurava agora esconder – irremediavelmente o apontaria à desconfiança, à hostilidade, ao sarcasmo desses miseráveis.
Com efeito, um vulto que de repente apareceu a seu lado deu-lhe um encontrão. Era um homem gordo, com olhos agudos que procuraram os seus de perto, como a perguntarem-lhe o efeito de tal familiaridade. Parecia ter surgido de qualquer alçapão.
– Desculpe! – disse com uma espécie de insolência na voz rouca.
– Não faz mal... – balbuciou Lèlito involuntariamente.
E logo o outro, estendendo a mão para o seu braço:
– Escute lá...
Mas Lèlito desandara; acabara por desatar a correr como uma criança apavorada e perseguida. Quando parou, reconheceu que não pensara em escolher caminho. De novo metera por uma dessas ruas infaustas que bem quisera evitar. Com um alvoroço, lembrou-se de levar a mão ao bolso em que tinha toda a sua fortuna.
«Meu Deus!» apelou do fundo de si. Mas a sua fortuna lá estava: duas notas miúdas, alguns trocos. «Obrigado!» bradou em pensamento. Nestas situações, (posto nunca Lèlito se houvesse achado em nenhuma idêntica) logo entre ele e o seu Deus mais familiar se estabelecia uma rápida comunicação: pedidos, agradecimentos, queixas, acusações... Era ridículo, com as suas dúvidas e as suas pretensões filosóficas! Era ridículo! era ridículo.
Embora semelhante às outras na desoladora aparência das casas, no empedrado primitivo, a rua em que se achava tinha a vantagem de ser um pouco mais larga; também a de ser uma ladeira. Lèlito sabia que, subindo, se aproximaria do centro da cidade. Chegou a um terreiro com aspecto arcaico e a fachada, ao fundo, de uma igreja em ruínas. À primeira vista, era um pequeno largo sem saída. Julgando que seria obrigado a retroceder, Lèlito sobressaltou-se. Avançou, porém, em direcção à igreja, cuja fachada se erguia na penumbra como um cenário fantástico; tanto mais que, propriamente, ela quase não tinha senão fachada. Descobriu ao lado quaisquer escadinhas estreitas que subiam.
Uma figura de mulher, embrulhada num xale, se despegou, então, direita a ele, da parede da igreja. Tinha qualquer coisa de espectral ou fatal, como se ali o estivera esperando há anos! há séculos; ou, então, como se pertencera àquelas mesmas pedras, ou delas nascera. Galgando as escadinhas íngremes, Lèlito ainda pôde perceber que o fantasma o chamava...
Era tempo! era tempo de chegar a qualquer ponto mais ou menos conhecido.
Os seus nervos começavam a desafinar; a sua imaginação a trabalhar em excesso; de modo que já nele se manifestava com uma intensidade premente, ameaçadora, aquele senso do estranho que torna medonhas e secretas as próprias coisas mais triviais. Qualquer ser, ou até um simples objecto, uma árvore, um pormenor de paisagem, – poderiam nesses momentos apavorar Lèlito, revelando o seu segredo.
Isto é: revelando-se, fulgurantemente, misteriosos. Então, as pessoas tomavam a seus olhos um doairo de aparições (seria real, por exemplo, a mulher que se despegara da igreja arruinada?) e, o que não era menos perturbante, as próprias coisas manifestavam fragmentos de seres vivos e desconhecidos, como se nelas ofegassem pequenos monstros forcejando por se libertarem...
Bem era tempo de chegar a qualquer ponto mais ou menos conhecido!
Felizmente, Lèlito acabava de reconhecer a velha Sé naquela grande massa pesada, escura, diante de que viera ter. Para lá do muro, lá em baixo, muito vagamente nascia do nevoeiro e da noite um baralhado casario da cidade salpicado de halos luminosos. Lèlito não ignorava que, descendo pelo lado oposto ao que o trouxera, se aproximaria das ruas mais concorridas, mais modernas... Assim se valia agora de algumas deambulações empreendidas quando faltava às aulas, enganando a vigilância do senhor Bento Adalberto. Mas, ao cabo de ter hesitado uns passos, aflitivamente se agarrou à primeira haste de candeeiro. É que tivera a impressão de que o chão desatara a correr, e se despenhava sob os seus pés.
Sentiu, então, uma infinita moleza nas pernas, e um arripio que lhe corria o corpo, e recomeçava, se multiplicava em pequenas arripios consequentes como breves, repetidas ondulações...
Fora sua intenção chegar à larga praça onde estava o homem de bronze, a cavalo, (não lhe lembrava agora o nome, – um nome tão conhecido!) e que lhe era o centro mais familiar do Porto. Aí descansaria um pouco, e poderia tomar uma decisão. Talvez ainda encontrasse qualquer café aberto, ou lhe valesse a pena procurar uma pensão, um hotel... Até já pensara em alugar um automóvel (mas encontrar automóveis, a esta hora?!) que o levasse a Azurara. Afinal, em breve poderia estar diante de casa. Bateria, acordaria os que há muito dormiam no profundo aconchego dos velhos quartos familiares; e deixar-se-ia cair de joelhos no pátio de entrada, (oh, o que ele tinha era vontade de se deixar cair!) quando o pai, alarmado, viesse descendo as escadas de pedra... O pai não havia de o pôr fora; – e sem dúvida pagaria ao motorista. De momento, é que nem forças tinha para chegar à praça da estátua equestre, que aliás nem sabia se era longe.
E ali estava amparado àquele candeeiro, como um bêbedo, e outra vez gritando aflitivamente do fundo de si: «Meu Deus! meu Deus!» Em razão, talvez, não tanto do seu estado como da inquietação que lhe ele inspirava, tinha um vazio pesado na cabeça, uma dor ao fundo da órbita direita, enquanto o angustiava a sensação agónica de ir vomitar a cada instante. Sobretudo o aterrava a perspectiva de ali cair, nessa rua deserta, onde só o pudesse encontrar um polícia, um vadio nocturno, ou um desses desgraçados que andam varrendo ruas a desoras...
Fechara os olhos por segundos, a testa contra o candeeiro. Foi quando ouviu a seu lado:
– Boa noite, amorzinho.
Vagamente reconheceu aqueles olhos vidrados, grandes, como de quem tem febre, naquela face muito chupada e vermelha de tintas. Era a mulher do vestido claro, que já o saudara com a mesma fórmula.
Relanceou, então, à roda, pela rua deserta, pelos velhos prédios, os olhos enevoados. Compreendeu que já passara naquela rua; diria ele que há muitas horas! Mas essa mulher de vestido claro, leve, numa noite assim fria, lá continuava no seu passeio profissional: Ainda não seduzira ninguém; ou já seduzira, e recomeçara a tentar a sorte. A complexa impressão que da primeira vez lhe produzira – receio do desconhecido, pudor da virgindade tentada, repulsa física por tal género de mulheres, curiosidade e atracção precursoras do desejo – a complexa impressão que da primeira vez lhe produzira, e de que nem ele chegara bem a dar conta, é que já lha não podia produzir: Agora, Lèlito estava simplesmente esgotado; exausto! Precisava de uma cama e do socorro, ao menos da companhia, de qualquer ser humano; até daquele.
– Bebeste... – disse a mulher, inclinando-se um pouco a examiná-lo. Como ele nada dizia, limitando-se a olhá-la com os mesmos olhos enevoados e tristes, acrescentou:
– Sei de um quarto aqui perto, muito em conta...
– ...Perto? muito em conta...? – repetiu Lèlito inconscientemente, como num eco.
– São dois passos – respondeu ela, animando-se imediatamente. E logo lhe pousou a mão no braço, apertando-lho de leve, num movimento quase natural de carinho. A esperança de ganhar a noite vibrara na sua voz um pouco rouca.
Decerto ainda não seduzira ninguém.
Com um esforço para se desencostar do candeeiro, Lèlito murmurou, à laia de desculpa:
– Senti-me mal... estou doente...
– Ora! – fez ela - sei o que isso é: bebeste.
Depois de hesitar um segundo, perguntou:
– Tens dinheiro?
– Algum... – balbuciou ele baixando ainda a voz, de modo que mal se ouvia; e dir-se-ia que, na verdade, receava ser ouvido. – Mas tenho de seguir para Azurara.
Preciso de guardar para o comboio... o comboio parte cedo... de madrugada...
– Bem! o comboio pouco é. E há necessidade de ires assim tão cedo? Simpatizo contigo, palavrinha. Gosto de um rapazinho novo como tu. Quem te mandou beber de mais? Não deves estar muito habituado... Que idade tens? Mas vais ver que sei tratar de ti! Sou boa rapariga, acredita; não julgues lá que por andar nisto...
Isto é um modo de a gente viver!
Agarrara-se-lhe ao braço, era ela quem o ia levando. Lèlito deixava-se levar. E era-lhe agradável não só descansar o corpo sobre o dela, mas também sentir-lhe na voz um pouco rouca e áspera, de tísica, inflexões quase maternais.


José Régio, Uma Gota de Sangue





12/03/2009

Ressurreição


Tinha sido em Paris. Uma noite, casualmente, encontrara-se num pequeno teatro vermelho para Montmartre, bocejando o seu tédio. Mas de súbito, entre as intérpretes da revista idiota, os seus olhos fixaram-se numa dançarina meia nua – esplêndida, duma beleza enclavinhada: corpo agreste, musculoso, seios oscilantes, pequenos e esguios – lábios roxos, grandes olhos admirados, cabelos negros, - e a carne, a carne luminosa, mordorada a trigueiro, para se cobrir de esmeraldas. Nocturnamente, seria bem aquele talvez – excelsior! o corpo triunfal
da Salomé...
E no enlevo granate da maravilha, contemplando-a suspenso, o seu cérebro imaginoso logo se lembrou de construir um romance sobre ela – ai, agora, bem barato romance...
Voltara-lhe de súbito a nostalgia da gentileza – desses brandos episódios loiros que, em todo o caso, nos desenastram a alma e agitam véus cor-de-rosa em cerca à nossa vida.
Sim, pelas mesas dos cafés, quantas vezes invejara aqueles que esperavam uma companheira gentil que aparecia modesta, ligeira, afável – ao passo que ele se detinha solitário sempre, endurecido... Todo de incoerências – embora as suas repugnâncias, não lograra ainda renunciar definitivamente àquilo que os outros possuíam, e devia ser em verdade de tão meigas cores...
A sua primeira amante não a buscara ele; ela própria viera ao seu encontro – nem a possuíra ele; ela só o possuíra... As outras tinham sido tão raras, tão distantes...
Eis pelo que em face do corpo aureoral, recordando-lhe estas invejas, estes desgostos – o romancista começara, em inferioridade, a arquitectar um enredo...
Hoje corava de si mesmo se lhe lembrava a pobre história – nem podia acreditar que a tivesse vivido...
Ela fora assim:
No dia seguinte pegara num exemplar luxuoso da sua última obra e enviara-o pelo correio à bailarina, acompanhado duma carta escrita premeditadamente, em romantismo, do Pavilhão d’Armenonville – uma carta tola onde justificava o seu envio desta maneira: a dançarina dera-lhe uma sensação tão grande de beleza – ah! de beleza apenas, não o fosse julgar apaixonado – que, ele, o Artista, o divino que só procurava por toda a parte as emoções gloriosas, não resistira, em primeiro lugar, a agradecer-lhe a visão estética sublime que o seu corpo lhe proporcionara e, depois, a ansiar viver um pouco em torno à maravilha – de qualquer forma referindo-se a ela.
Assim lhe mandava esse volume – que de resto a encantadora nem saberia ler, escrito numa língua estrangeira – para que ao menos os seus dedos esguios, maquilhados, perturbantes, uma vez tacteassem alguma coisa dele (o seu nome, as suas palavras) – e essa carta, para que um dia, mais tarde, longos anos volvidos, as suas mãos secas a achassem, quem sabe, entre velhos papéis... E então, longinquamente o recordaria – isto é: fosse como fosse, ele volvera-se uma personagem da sua existência...
Mas havia mais, pois – suave glória! – a partir da tarde em que lhe escrevera, ele, o desconhecido, ao admirá-la nos teatros onde dançaria nua – saberia em verdade alguma coisa do seu passado: que ela uma vez recebera uma carta sua, um livro seu, estrangeiro...
Enfim, o certo era que, sem nunca se terem encontrado, milagrosamente iam deixar de ser dois estranhos – uma pequenina coisa de ora avante os ligaria: existiriam com efeito em relação um ao outro...
A rapariguinha – romanesca talvez, ou apenas interesseira – breve lhe respondera numa pobre carta sem ortografia, acusando a recepção do livro, afirmando que tinha gostado muito da carta, pedindo que lhe escrevesse mais.
E havia nas suas frases toscas um tal desejo de corresponder ao pensamento delicado, de ser graciosa – que uma onda de ternura quebrantou Inácio...
Logo essa tarde, num entusiasmo, correu a um grande florista da rua Scribe e enviou cinquenta francos de cravos à bailadeira – com um simples cartão de visita prometendo nova carta.
Só lha escreveu no outro dia. Então, insidiosamente, ele dispunha o curso ido enredo – cantando em audácia o esplendor da sua carne ébria, dando-lhe a entender que não era rico, mas tinha vinte anos – para prevenir uma desilusão...
Terminava a lastimar-se, sempre em ardil, que era muito belo o seu papel misterioso de «desconhecido» mas que ignorava se teria coragem para o desempenhar até ao fim...
Na volta do correio, recebeu a resposta. E logo de novo se enterneceu, ondeadamente. A caligrafia era melhor – mais cuidadosas a ortografia e a gramática... Um desejo evidente de agradar... E, com uma simplicidade adorável, a rapariguinha perguntava porque se não haviam de conhecer. Ela gostaria tanto...
Um júbilo infinito, esplêndido, lhe correu na alma. Beijou a carta repetidas vezes...
– Enfim! um pouco de sol chegava à sua vida... Ah! que triunfo admirável passear nas ruas de Paris com essa mulher dourada, e possuí-la – estiraçar-se imperialmente sobre a sua carne de aurora, entregar-se-lhe todo em amor e anseio fluido!... Havia de a morder, de a ferir – sim, de a ferir! – com os seus beijos, arroxeadamente...
... E ela parecia-lhe tão humilde, tão pobrezinha, tão pouca coisa... Pois bem! ele a levaria aos maiores restaurantes, às casas de chá mais luxuosas... Era-lhe impossível vesti-la de jóias, mas ensinar-lhe-ia que os grandes perfumistas são Delettrez, Houbigant, Lanthéric – que os mais esquisitos bombons saem das lojas do Boissier, do Marquis...
Como ia ser venturoso, como ia ser belo... Na manhã seguinte esperava três mil francos de Lisboa!
Saiu. Após o almoço entrou na Napolitano para lhe escrever uma carta em que marcaria o primeiro rendez-vous para dali a dois dias. Pediu café, papel, sobrescritos... E, de súbito, encontrou-se a pensar:
«– Afinal para quê... para quê... Aonde vou?... Sim, de que me vale prolongar tudo isto?... Conhecê-la-ei... beijá-la-ei, pode ser... e depois?... Que haverá de comum entre mim e ela?... Pobre criaturinha fútil, banalizada, insensível...
Possuí-la? – oh!... possuí-la... Demais sei o que me espera!... E seguir-se-ão mil pequenas contrariedades... mil pequenos desenganos... encontros a certas horas... mil complicações inúteis... Para que? para quê?... Não... Decididamente não vale a pena... de modo algum…»
E, numa resolução momentânea, limitou-se a escrever-lhe um rápido bilhete onde lhe dizia que era na realidade tão encantadora, tão cendrada, aquela aventura longínqua – que o melhor seria pôr-lhe termo, ser subtil até ao fim: não prosseguir para não quebrar o encanto... Saiu. Estampilhou o bilhete no bureau próximo do Boulevard dos Italianos – deitou-o na caixa... sem uma saudade; sem mágoa nem arrependimento...
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Ainda alguns dias pensou, é claro, no triste episódio – mas sempre levemente, embora com ternura.
A rapariguinha não lhe tornou a escrever – e ele lembrava-se da cruel desilusão que fora talvez para ela a sua última carta... Via-a também sonhando amor, como ele, a certas horas – e a caminhar radiante para uma aventura literalizada em pacotilha, mas quem sabe se ideal aos seus pobres olhos...
E chegava-lhe assim uma piedade esvaída pela bailadeira nua, perversamente: só porque ela sofrera talvez dele, muito, um dia...
As suas cartas, guardara-as num grande sobrescrito – preciosas, pois iam-lhe servir para fixar palpavelmente alguns instantes dessa época da sua vida, alguns instantes do Paris dos seus vinte e três anos...
Aliás notava hoje bem como tivera razão em pôr um termo à aventura. Lançado nela, coisa alguma o deteria – e embalde, pois o certo era que nem mesmo por mais que beijasse esse corpo esplêndido, alcançaria nele aquilo por que uma noite o ambicionara. Com efeito o artista só poderia saciar os seus desejos – não estrebuchando esse corpo nu, magnífico; mas sim se ao mesmo tempo vencesse possuir os passos da bailarina sobre aquele pequeno tablado dum teatro vermelho para Montmartre... e os seus gestos, os seus sorrisos, o carmim dos seus lábios, os seus véus, as suas lantejoulas, as suas jóias falsas, as luzes que a iluminavam – todos os ritmos de cor e som que soçobravam rodopiando em volta da sua carne, a subtilizarem-lhe, a aureolarem-lhe o corpo indistinto em vertigens e apoteoses!...

Mário de Sá-Carneiro, Céu em Fogo