28/02/2009

Uma Boneca de Trapos




Era uma vez uma boneca de trapos. Feita pelas mãos pequenas de uma Menina.
Feita de trapos azuis, vermelhos, verdes, amarelos, rosas, violetas, cor-de-laranja.
Feita de trapos, de espanto à maneira que nascia.
E de flores. Eram flores aquelas cores do arco-íris.
E dois olhos bordados a retrós, com duas contas negras de vidro a servirem de meninas. As meninas negras dos olhos.
Dois olhos sempre abertos que nunca adormeciam. Sempre à espera de ver nascer o Sol.
E a Menina, que fizera a boneca por suas mãos, embalava-a.
Para a adormecer.
E sabia que aqueles olhos negros não se fechariam nunca, nunca.
Como se fecham os olhos das bonecas ricas que têm pálpebras delicadas e pestanas de seda. Subindo e baixando.
E a Menina cantava para a adormecer. Com uma voz fininha feita de luz e ternura.
E a boneca ─ porque era de trapo ─ aconchegava-se nos braços pequenos da Menina.
E dormia de olhos abertos. Dormia a ver o Sol.
Toda ela espanto e flores. As meninas negras dos olhos — contas a brilhar.
E a Menina que fizera a boneca, que a cosera de muitos trapos ─ com agulhas de Chuva, dedais de Sol, linhas de Lua ─ dizia, parando de cantar:
─ Ela adormeceu…
E ficava muito quietinha, também, a olhar o Sol. Com a boneca aconchegada ao peito. Ambas de olhos abertos.


Matilde Rosa Araújo
O Sol e o Menino dos Pés Frios


O Rapaz não gostava das mãos

Talhado em angústia mansa, o rapaz entrou na taberna, pediu uma garrafa cheia de vinho e regressou à porta, levando o olhar fosco para além das casas, como se tivesse deixado atrás de si qualquer coisa fundamental ou viesse acossado
por um bicho fero. Parecia temeroso ou atormentado. Agarrava-se nas mãos a dor que não cabia dentro de si.
Altarrão e enxuto, vergava um pouco pelos rins, onde a camisa fraldiqueira e suja lhe saltava das calças derreadas. Tinha cara de menino assustado.
– Ah vida! – disse para a rua quase num grito.
Devia julgar-se sozinho com a vida para lhe atirar aquela acusação irada.
Quando reparou que também nós andávamos na mesma liça, quis perceber para quem falava, olhou à volta e atirou para o monte a sua pergunta:
Para que quer um homem a vida?...
Depois encolheu os ombros com resignação e desdém, indo sentar-se à ponta do banco encostado à parede. Pegou na garrafa, mirou-a à luz que vinha da porta e voltou a pousá-la no marmorite do balcão.
Abanava as mãos longas. Pensava que se as não tivesse não estaria ali tão longe. Pudera vir ao mundo lázaro das duas e andaria agora pela sua terra, batendo feiras na ganhuça de mendigo.
Era por isso que remirava as mãos com desprezo.
Atirou com o chapéu salgadiço de suor para a nuca, arrancou o lenço do pescoço e limpou a testa. Fez aquilo para não ficar quieto.
Quando pegou de novo na garrafa teve uma cortesia:
– São servidos?...
Uma escala de vozes respondeu-lhe obrigado!
Então o rapaz limpou a boca com a manga da camisa e começou a beber. Todos voltámos a cabeça para vê-lo beber. Ele percebeu-o, sentiu que reparavam nele, coisa que não lhe acontecia há muito tempo. Cheio de brio, mamou a garrafa até ao fim. Voltou a limpar a boca, estendeu a garrafa ao taberneiro e mandou-a encher.
– Já agora preparo a cama... Dorme-se melhor em cima de vinho do que numa esteira...
Largou o chasco e não sorriu. A verdade é que também não lhe achámos graça.
– Ontem o gajo do automóvel pôs-me umas suíças, o filho da mãe. Só hoje vi. Cheguei à noite a Bucelas com uns camaradas... Viemos todos prà vindima do patrão Soisa, o Tóino de Soisa. E o fi lho da mãe do chófer andou c’a gente às voltas e vai ao fim pede cinquenta malréis. Por uma légua cinquenta malréis. Se calhar ao Soisa leva dez... Povo a roubar povo, não há coisa mais feia nem coisa mais certa...
Num repente calou-se assustado. Fez agulha à conversa:
– A gente bebe vinho, mas não bebe juízo... O fi lho da mãe do chófer há-de gastar o dinheiro que roubou à nossa desgraça com remédios de botica... Não lhe quero outro mal... O meu mal é outro...
Meteu a garrafa à boca sem a gala de se limpar. Levou-a de um trago até meio.
– Andar quase dois dias de camineta, a butes e de comboio para arranjar serviço... E viva! Na minha terra um homem quer matar o corpo e não encontra.
Não percebo porquê, encarou comigo. Vi que os olhos baços de tristeza se iluminavam de raiva.
– Terra pobre há-de dizer o senhor... Qual nada, qual quê! Há lá lavradores com terras que nem condados. Metem-lhe dentro três ou quatro feiras-atadeiras e aquilo é um bafo. A gente, os homens, acarretam lenha como as mulheres. Vão jornas a dezoito malréis. E é para quem quer... Quem não quer é madraço. Pra quem não quer há lazeira ou cadeia...
Voltou a sentar-se.
– Trabalho de mulheres prà gente – repetiu duas vezes com escárnio. – Pois que fiquem lá as mulheres; talvez elas um dia sejam tantas que acabem por capá-los.
Se a minha mão tivesse capado o meu pai não tinha eu vindo ao mundo...
Não gostou da ideia e pô-la mais ao jeito:
– Mais valia que a minha mãe me tivesse desfeito a cabeça numa parede quando me viu nascer...
Na madorra do pranto seco, suspirou: – Ah vida!...
– Vossemecês não gostam da gente... A gente vem de tão longe tirar o trabalho aos que cá moram. Está certo!...
O vinho começava a trocar-lhe as voltas. Enrolavam-se-lhe as palavras e as ideias.
– Está certo, não! Porque não há coisa mais desgraçada do que andar longe da nossa terra a padecer... Os padecimentos na nossa terra doem menos; saram mais depressa. Na minha terra não havia nenhum chófer que me levasse cinquenta malréis por meia légua. É o mesmo que roubar um cego...
Voltou a abanar as mãos.
– Vossemecê gosta das suas mãos?!... Diga lá, homem!
– As mãos nunca me fizeram mal...
– E bem?!
– Faziam-me falta...
– Pois a mim, não. Se não tivesse mãos, nunca abalava da minha terra.
Deixava-me morrer de fome, mas não abalava. Nunca abalava da minha terra...
Pedia esmola. Os lavradores sempre me davam alguma coisa. Não me mandavam apanhar lenha... Vossemecê já viu um homem a apanhar lenha?... É pior que ser mulher magana em terra de soldados.
E cuspiu no chão da taberna com raiva de provocar um terramoto.


Alves Redol, Histórias Afluentes, 1963



27/02/2009

Viagem através do sol



Uma criança sentou-se na tarde agreste e pintou o sol. A sala onde a criança estava ficou iluminada e fresca. Depois, a criança misturou as tintas, a água, o sonho e, num grande cartão, lentamente, foi erguendo prados, lezírias, florestas, aves, flores inesperadas. Então, chamou a irmã que a um canto assistia à criação deste mundo original e disse: «Vamos fazer uma viagem!»
E entraram os dois com seus olhos e sua imaginação pela tela dentro, alheios ao espanto de quem os contemplava nesse itinerário súbito da tarde de frio.
Misteriosamente, trocavam palavras de silêncio, encontravam-se com anões, gigantes e animais estranhíssimos, metade homens, metade bichos que, ora os assustavam, ora os desvaneciam.
A certa altura a menina disse:
— Vamos chamar a mamã?
E o menino respondeu:
— Não podemos. É muito alta. Não cabe nestes caminhos: ia pisar tudo e estes bichinhos ficavam tristes. Muito tristes.
A mãe, imóvel numa cadeira, ali mesmo à entrada desse lugar impenetrável e inacessível, ouvia o diálogo e tentava fazer-se pequenina para ir com eles. Mas não conseguia. Esforçava-se imenso e não conseguia. Tinha uma grande vontade de chorar por estar ali sozinha à beira daquele milagre mas as lágrimas não lhe adiantavam. Entretanto, os meninos, sempre a caminhar, tinham chegado ao mar. Era um mar sem abismos, sem ondas, sem temporais. Um mar susceptível de ser atravessado pelos pés levíssimos de quem o descobria.
— Vamos ao fundo deste mar! — disse a menina.
— Cá em cima é mais fresco. Lá em baixo há peixes grandes e escuros. Mordem, os peixes.
— E a mamã? — insistia a menina, já perturbada pela lonjura a que devia estar de casa, perturbada pelo bibe molhado, aflita com as algas verdes que se lhe colavam ao rosto.
— Levamos-lhe uma flor do mar. Ela fica contente se tem uma flor.
— Vamos já embora? — tornava a menina.
— Não. Só quando formos muiiiiiiito velhos.
A menina calou-se. Estava séria. Estendeu-se ao lado do irmão na areia branca daquela praia tranquila e distante.
Sentia-se muito cansada e adormeceu.
Então, amorosamente, o irmão tapou-a de folhas e flores imaginárias e ficou ali a velar-lhe o sorriso.
Quando reparou na mãe, estremeceu ligeiramente. Tinha os olhos brilhantes e, dos cabelos, escorria-lhe um perfume a sol e azul.
Sobre a tela, encostada a um armário, a noite começava a diluir em sombra toda a floresta, e o dorso dos animais marinhos erguia-se também numa respiração tranquila.


Maria Rosa Colaço
Não Quero Ser grande


21/02/2009

Tentação



«O comboio pôs-se em marcha e ficámos sós. Só então, por estranho que pareça, atentei bem nela. A sensação que tive, não lha posso descrever. Eu nunca tinha visto e nunca mais voltei a ver ninguém a quem melhor pudesse servir a expressão «anjo do Senhor». Nem as virgens dos primitivos nem as dos italianos, nem mesmo as dos místicos espanhóis, em que, apesar de tudo, a carne se revela, por melhores que sejam os disfarces, para atestar a sua origem humana. Mas nela não. Ela, era a imagem da pureza absoluta, como a dum ser que tivesse
sido gerado antes do pecado inicial. E não julgue que a sua figura era destas que podem ser concebidas pela imaginação de um asceta. Não; não havia nela nada de esquálido, ou de anguloso, nem esses lábios finos nem esse olhar mortiço que teoricamente são os atributos da castidade perfeita. Não; era uma mulher de olhar luminoso, de lábios cheios e formas harmoniosas que se moldavam nitidamente sob a severidade do hábito. O que havia nela de integralmente puro, posso mesmo dizer, de divino, era qualquer coisa que vinha de dentro e que, revelando-se através da doçura do olhar e da suavidade da voz, envolvia a sua configuração humana num halo imponderável e intangível de beleza etérea. Senti-me enleado e qualquer outro se sentiria no meu lugar; mas não havia no meu enleio, pode crer, outra coisa que não fosse uma espécie de arroubo místico, uma vontade de ajoelhar e de rezar como se Deus me tivesse concedido uma graça imerecida e inesperada...
«De repente, senhor, tudo se transformou, e ainda hoje estremeço de horror e de remorso, ao lembrar-me dessa transformação.
«A Irmã Maria Filipe – era esse o seu nome monástico – começara a falar da sua vocação religiosa. Desde criança que se sentira votada a Deus. Ninguém a induzira a professar e a família, de começo, opusera-se mesmo a isso. Mas ela vencera todas as resistências e tinham acabado por ceder. Começara por ser freira hospitalar, e conquanto o sofrimento dos homens a comovesse, o seu contacto desgostava-a. Por isso pedira – suplicara até – aos superiores que a deixassem ingressar numa ordem mais severa e mais isolada do mundo. E, pela graça de Deus, a autorização tinha chegado. Ia agora para Pau, encerrar-se numa espécie de túmulo, onde não chegavam nem a luz do sol nem as vozes dos homens.
E agora, na solidão e no silêncio, podia entregar-se inteiramente à oração e às alegrias supremas que ela proporcionava. Ia satisfazer o seu mais ardente desejo:
aproximar-se cada vez mais do seu divino Esposo e esperar ansiosamente pelo momento em que Ele a julgasse merecedora e a chamasse para Si.
«Eu começara a ouvi-la encantado. A doçura da sua voz e o entusiasmo místico das suas palavras tinham-me provocado uma espécie de anestesia do pensamento e da vontade que me enleavam completamente... Mas, de súbito, percebi que entre mim e aquela mulher não havia nada de comum. As palavras que dizia não eram para mim, mas para ela mesma. Compreendi então que, para ela, eu não tinha realidade nem física, nem espiritual, que eu, para ela, não existia.
«Ora foi na altura em que tomei consciência disso, nesse preciso momento, que se deu em mim a transformação em que lhe falei. Foi a princípio uma revolta surda, como que a irritação do homem novo em face da mulher jovem que sabe que nunca poderá vir a pertencer-lhe. Mas isso, que tinha ainda qualquer coisa de humano e justificado, durou apenas um instante, para ser substituído por um ódio absurdo e violento que já não dizia respeito nem ao meu instinto nem à minha consciência. Sim, meu caro senhor, era um ódio fora de mim, um ódio que vinha do fundo do Tempo, de tão longe, de tão longe, que ultrapassava os próprios limites da Criação. E aquele ódio não se dirigia contra ela, mas contra Aquele a quem ela se queria entregar: contra o meu Inimigo eterno e natural... Era a tentação – a tentação dominadora e invencível. E naquele momento eu não era outra coisa senão o próprio Satanás. «Julgas – pensei – que Ela vai ser tua? Julgas que vais tirar-ma? Enganas-Te. Porque Tu também Te enganas. Primeiro há-de ser minha, só minha.» Eu não sabia a quem dirigia aquele desafio; o que sei é que era veemente e sincero. E não pense que o que eu sentia era o desejo humano e natural que qualquer homem pode sentir por qualquer mulher. Não; era outra coisa muito diferente: a determinação diabólica e invencível de conspurcar aquela pureza, de aviltar aquele sonho, de aniquilar, para sempre, a tranquilidade espiritual daquela alma... Não sei que transformação se operou na minha fisionomia, o que sei é que ela tomou repentinamente consciência da minha presença e estremecendo murmurou: «Estou a enfadá-lo, irmão?...» «Não, não está a enfadar-me, irmã...», respondi hipocritamente respeitoso.
«Ia sentado no banco em frente dela, e, com o ar mais natural, levantei-me, e fechei a porta do compartimento. Depois, com a mesma naturalidade, puxei as cortinas, baixei a luz, e fui sentar-me ao pé dela.
«Vem frio do corredor, e esta luz é muito forte», disse para justificar os meus actos. Mas a justificação era desnecessária. Naquela alma pura, não havia qualquer desconfiança e muito menos a desconfiança do que se passava dentro de mim. Entretanto eu sabia que íamos sós, quer no compartimento, quer na própria carruagem, e sabia também, por ter ocasionalmente reparado nisso, que a carruagem estava desligada do resto da composição do comboio. Não havia pois o risco de entrar qualquer revisor, e o comboio, que era rápido, só viria a parar em Miranda del Ebro, daí a hora e meia. Não tinha ainda nenhuma intenção formada – ou melhor, não sabia que a tinha – mas o facto de ela estar, quer pela sua inocência, quer pelas circunstâncias, à minha mercê, enchia-me de uma alegria monstruosa.
«A irmã já pensou... – comecei com uma voz convincente, cujo timbre ao mesmo tempo untuoso e metálico eu próprio desconhecia – a irmã já pensou que o acto que vai praticar é um acto de puro egoísmo? Já pensou na injustiça que representa abandonar os seus doentes, os que viam nos seus cuidados a misericórdia e providência de Deus, pelo que pensa serem os exclusivos interesses da sua alma?»
«A Irmã Maria Filipe estremeceu e arriscou timidamente:
«Mas eles têm muito quem cuide deles. Eu não lhes era precisa...»
«Isso é o que a Irmã supõe... Para quantos, não seria a Irmã a única pessoa capaz de lhes mitigar as suas dores? E o que são eles agora? Pobres seres abandonados, por via de uma ambição, que nem por lhe parecer legítima e sagrada deixa de ser egoísta e cruel... Eu sei que a Irmã – porque nunca viveu e porque nunca sofreu – pensa que só há um caminho para a bem-aventurança. E pensa que é o que escolheu. Mas isso não é verdade. As almas não têm caminho certo para chegar a Deus. E o verdadeiro é, por vezes, o mais tortuoso e acidentado, aquele em que a gente pode cair e levantar-se, isto é, pecar e arrepender-se... Veja Nosso Senhor Jesus Cristo – e aqui não hesitei em invocar sacrilegamente o seu sagrado nome –, como Ele desceu à Terra e veio viver a vida dos homens para os poder entender o redimir. E é isso que faz a sua grandeza... Esposa de Cristo, como é que a Irmã quer que Ele a receba em seu divino seio sem ter corrido os mesmos riscos que Ele? Como é que quer subir ao Céu sem o ter merecido?»
«Pálida, a Irmã Maria Filipe olhava para mim com os olhos fixos, como que hipnotizada...
«Perdoe-me, Irmã – murmurei com fingida humildade. – Perdoe-me, mas, quando soube que ia isolar-se do Mundo, eu próprio me senti abandonado... «É que eu, Irmã, conheço como ninguém o abandono e as misérias dos homens. Sou órfão. Nunca conheci pai nem mãe, ou antes, eles nunca me quiseram conhecer, porque me abandonaram... Sou filho do Pecado inconfessável, aquele que só a bondade dos seres votados a Deus pode redimir...»
«Era uma ignominiosa mentira, mas estava disposto a tudo para a enternecer. Na alma das mulheres, mesma a alma das mais puras e indiferentes, há sempre uma porta capaz de se abrir. Pode ser a da Vaidade, a da Ambição, a do Desejo, mas pode ser também a da Bondade. A questão está em descobri-la e saber bater a ela...
«Toda a minha existência – prossegui com voz afectadamente comovida – tem sido uma luta contra esta vergonha oculta e contra o desprezo e a indiferença dos outros. E no fundo, Irmã, apesar da minha aparente vitória sobre a vida – eu que nunca consegui amar, nem ser amado – continuo o mesmo homem perdido…»
«À maneira que ia falando ia espreitando nos seus olhos uma sombra de comoção, o momento crucial que me permitisse avançar mais um passo no caminho tenebroso que estava a trilhar, mas os seus olhos continuavam fixos e imóveis como os duma estátua... «Quando há pouco a vi entrar, Irmã, senti-me salvo... Não sei dizer porquê, mas senti que só a Irmã poderia impedir que eu me precipitasse no abismo que se abre aos meus pés... E agora, que sei o que vai fazer, sinto-me outra vez abandonado e perdido...»
«A minha voz assumira uma inflexão dolorosa e apaixonada e, pela primeira vez, a senti estremecer. A minha eloquência era vil e descabida, mas as palavras, o mais das vezes, não valem pelo que significam mas pelo momento e pela forma como são ditas... Intimamente rejubilei. Ofegante o comboio continuava infatigável o seu caminho através do planalto, e eu senti que era chegado o momento.
«Num gesto enérgico tomei-lhe as mãos, que se abandonaram inertes nas minhas.
«Olhe, Irmã – continuei num tom imperativo e doce – a doutrina de Sto. Agostinho já foi abandonada há muito pela Igreja e só os herejes, como Lutero e Calvino, a perfilharam. Não há predestinação para a santidade, e quem quiser atingi-la tem que a merecer. Para isso, porém, é preciso lutar e sofrer. Mais: é preciso pecar e sofrer o castigo do pecado. Repare bem, Irmã: S. Pedro negou o nome de Cristo três vezes antes de o galo cantar; S. Paulo só o reconheceu na estrada de Damasco; e Santa Maria Egipcíaca pagou com o corpo a passagem para a Terra Santa. Todos eles pecaram e amaram e todos eles alcançaram o Céu.
Acredite, Irmã, Cristo continua crucificado no sofrimento dos homens. E quem quiser sarar as suas chagas tem que se aproximar deles; tem que consolá-los e amá-los... O amor humano é o único caminho para chegar a Deus. Sim, o amor humano...»
«Aproximei a minha cara da sua e num gesto brusco passei-lhe o braço pela cintura. Ela não se defendeu, mas não posso descrever-lhe o pavor que se reflectiu nos olhos... Só sei que esse medo sideral, em vez de me comover, me encheu de um júbilo satânico... «Se és tão poderoso - pensei, num desafio sacrílego – porque não paralisas os meus braços, porque não fazes descarrilar o comboio?...»
«Tinha-a nas minhas mãos, mas tinha-a como uma ave presa nas garras de um gavião: trémula e apavorada. E não era isso que eu queria. O que queria era fazê-la trair o seu sonho, fazê-la pecar também, se não em actos, pelo menos em pensamento. Doutra forma – sentia-o confusamente – o meu acto não passaria de um acto inútil e torpe, e a minha vitória não seria completa. Não; nem sequer seria uma vitória. Aproximei mais a minha cara da sua, e vi-a retrair-se como se o meu hálito a queimasse. Depois, deliberadamente, apertei-a contra o meu peito e poisei os meus lábios sobre os seus. Primeiro com doçura, e depois com violência e apaixonado frensim. Sob o escapulário, sentia-lhe os seios duros e virgens e o coração bater descompassado, e as minhas mãos iam percorrendo sabiamente o seu corpo, procurando acordar, sob aquela camada etérea e divina de pureza, o seu instinto adormecido. Não sei que tempo durou essa abominação; sei apenas que só parei com esse criminoso manejo quando os seus lábios se entreabriram num suspiro e me pareceu – e digo pareceu-me porque penso hoje para minha tranquilidade que me iludi – que ela correspondia aos meus beijos. Continuei ainda com as minhas mãos apertadas nas suas, mas o que havia então em mim, mais do que alegria, era um cansaço terrível, como se viesse a caminhar, desde o fundo do tempo, através dos séculos infindáveis, para regressar a mim mesmo.
«Ela cerrara os olhos, e eu, sem saber como, adormeci. Quando acordei, em Irun, na fronteira, despertado pelo revisor, estava sozinho na carruagem.
«Desci à gare e procurei-a por toda a parte inutilmente. Mas não havia em mim ainda nem angústia nem remorso. Verdade seja que não me recordava dos actos abomináveis que praticara, mas apenas que prometera à Madre, em Burgos, encaminhar-lhe os passos. Foi só em Hendaia, já depois de ter ido à Polícia e à Alfândega, que voltei a vê-la. Estava de pé, encostada a um pilar da estação, com a saquinha aos pés, e um ar absorto. Chamei então por ela: «Irmã Maria Filipe.» Ela encarou comigo sem me reconhecer. Repeti o chamamento: «Irmã Maria Filipe.» Foi como se acordasse de súbito. Olhou-me fixamente, e nas suas feições pintou-se um tal pavor e uma tão desvairada repugnância que retomei imediatamente a consciência do que tinha feito... «Irmã... – murmurei com um desespero sem limites. – Irmã, perdoe-me...» Mas ela não me ouvia: continuava com os olhos fixos em mim e com as feições descompostas. Não sei o tempo que isso durou, só sei que, de repente, ela soltou um gemido e persignou-se. Depois, voltou-se e sempre com a saquinha apertada entre as mãos desatou a fugir pela plataforma como se fosse perseguida pelo Demónio. Ainda quis correr atrás dela mas fiquei paralisado e limitei-me a segui-la com os olhos até a ver perder-se entre a multidão...»
O homem calou-se bruscamente e eu vi o crucifixo tremer entre as suas mãos.
A cabeça descaíra-lhe sobre o peito e ele parecia-me agora um boneco de trapos ou um saco vazio. Eu pela minha parte – tal era o acento de verdade da sua narrativa – sentia-me, ao mesmo tempo, indignado e comovido. Aquele homem causava-me, contraditoriamente, horror e pena. Senti que devia respeitar o seu silêncio mas não me contive:
– E depois?
– Depois... – respondeu com dolorosa humildade – nunca mais a vi, e por mais que o tentasse, directa e indirectamente, nunca mais soube dela. Não sei se é viva se é morta. Mas é como se soubesse. Estou a vê-la, dia por dia, hora por hora, segundo por segundo... Estou a vê-la, senhor, ajoelhada aos pés do confessor, a confessar o meu pecado como se fosse o seu... Estou a vê-la, a sofrer as insónias e os remorsos do meu crime, e a penitenciar-se por ele. Sinto a sua carne rasgada pelos cilícios e a sua alma lacerada pela angústia, e – ai de mim! – não posso fazer mais nada senão arrepender-me. A única ideia que me consola é que eu, com o meu monstruoso crime, talvez tenha concorrido para ela alcançar o céu, e que, no fundo, não sou responsável por ele. Não acha, senhor?


Domingos Monteiro, Histórias Castelhanas




13/02/2009

Inundação


Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança.
A casa, aquela casa nossa, era morada mais da noite que do dia. Estranho, dirão. Noite e dia não são metades, folha e verso? Como podiam o claro e o escuro repartir-se em desigual? Explico. Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre.
Certa vez, porém, de nossa mãe escutámos o pranto. Era um choro delgadinho, um fio de água, um chilrear de morcego. Mão em mão, ficámos à porta do quarto dela. Nossos olhos boquiabertos. Ela só suspirou:
- Vosso pai jã não é meu.
Apontou o armário e pediu que o abríssemos. A nossos olhos, bem para além do espanto, se revelaram os vestidos envelhecidos que meu pai há muito lhe ofertara. Bastou, porém, a brisa da porta se abrindo para que os vestidos se desfizessem em pó e, como cinzas, se enevoassem pelo chão. Apenas os cabides balançavam, esqueletos sem corpo.
- E agora - disse a mãe -, olhem para estas cartas.
Eram apaixonados bilhetes, antigos, que minha màe conservava numa caixa. Mas agora os papéis estavam brancos, toda a tinta se desbotara.
- Ele foi. Tudo foi.
Desde então, a mãe se recusou a deitar no leito. Dormia no chão. A ver se o rio do tempo a levava, numa dessas invisíveis enxurradas. Assim dizia, queixosa. Em poucos dias, se aparentou às sombras, desleixando todo seu volume.
- Quero perder todas as forças. Assim não tenho mais esperas.
- Durma na cama, mãe.
- Não quero. Que a cama é engolidora de saudade.
E ela queria guardar aquela saudade. Como se aquela ausência fosse o único trofeu de sua vida.
Não tinham passado nem semanas desde que meu pai se volatilizara quando, numa certa noite, não me desceu o sono. Eu estava pressentimental, incapaz de me guardar no leito. Fui ao quarto dos meus pais. Minha mãe lá estava, envolta no lençol até à cabeça. Acordei-a. O seu rosto assomou à penumbra doce que pairava. Estava sorridente.
- Não faça barulho, meu filho. Não acorde seu pai.
- Meu pai?
- Seu pai esta aqui, muito comigo.
Levantou-se com cuidado de não desalinhar o lençol. Como se ocultasse algo debaixo do pano. Foi à cozinha e serviu-se de água. Sentei-me com ela, na mesa onde se acumulavam as panelas do jantar.
- Como eu o chamei, quer saber?
Tinha sido o seu cantar. Que eu não tinha notado, porque o fizera em surdina. Mas ela cantara, sem parar, desde que ele saíra. E agora, olhando o chão da cozinha, ela dizia:
- Talvez uma minha voz seja um pano; sim, um pano que limpa o tempo.
No dia seguinte, a mãe cumpria a vontade de domingo, comparecida na igreja, seu magro joelho cumprimentando a terra. Sabendo que ela iria demorar eu voltei ao seu quarto e ali me deixei por um instante. A porta do armário escancarada deixava entrever as entranhas da sombra. Me aproximei. A surpresa me abalou: de novo se enfunavam os vestidos, cheios de formas e cores. De imediato, me virei a espreitar a caixa onde se guardavam as lembranças de namoro de meus pais. A tinta regressara ao papel, as cartas de meu velho pai se haviam recomposto? Mas não abri. Tive medo. Porque eu, secretamente, sabia a resposta.
Saí no bico do pé, quando senti minha mãe entrando. E me esgueirei pelo quintal, deitando passo na estrada de areia. Ali me retive a contemplar a casa como que irrealizada em pintura. Entendi que por muita que fosse a estrada eu nunca ficaria longe daquele lugar. Nesse instante, escutei o canto doce de minha mãe. Foi quando eu vi a casa esmorecer, engolida por um rio que tudo inundava.


Mia Couto, O Fio das Missangas

07/02/2009

Tempo Irrecuperável

Hoje, em que tudo desapareceu da sua vida, e se vê aleijada, e não pode ter a mínima confiança em si própria, nem sequer nos outros, ainda se acha capaz de sorrir, que é o que está fazendo, às loucuras da sua incipiente imaginação.
A imaginação a consumiu e a perdeu, tem disso a certeza, a desencaminhou, talvez.
No entanto, ela sabe que escrevendo isto se contradiz interiormente. Que pensa o contrário em muitas outras ocasiões.
Mas que somos nós mais que uma contradição permanente?
A verdade espreita-nos, ora do seu avesso, ora do seu direito. A verdade, ai, ai...
Enfim, a imaginação ora nos socorre, ora nos desequilibra.
O doce fantasma de Maria Antónia, que tanto a excitava, também lhe tornaria patente, e amarga decerto, a inferioridade da sua posição.
Era filha de pais incógnitos, a velha lho dava a entender sempre que podia; não tinha direitos; os seus antigos direitos aquelas estranhas lhos tinham usurpado. A dona Felismina, que podia fazer a dona Felismina, tão acabadinha e sem vontade própria? Ela não tinha nada, já, nem ninguém.
* * *
Ia-se abeirando o Entrudo.
O Entrudo do campo, como ela o conheceu, enfadonho e estúpido. Andavam os cães com latas atadas ao rabo, cainhando, e os gaiatos atrás deles a fazer uma grande matinada. Os homens, esses punham-se dos altos a lançar pulhas, de mão – na boca para reforçar a voz:
– Lá vai mais esta... e é que vai e torna a ir...
Para remate saía uma achincalhada qualquer, dirigida especialmente às mulheres.
O Cocó perdia as suas noites nas brincadeiras, armadas num lugar e noutro.
Era trigueiro, de olhos pretos, grandes, ramalhudos. Parece que prendia as saloias mais ariscas.
Nestas brincadeiras, mesmo no pino do Inverno se morria de calar. As mulheres levavam os filhos com elas, até os de mama, e os homens não largavam o varapau, em que tão de uso ensarilhavam a perna. O Cocó, sobre duas ripas altas, que lhe armavam a um canto, tocava a fio. A dança, quando se armava, num círculo cada vez mais apertado, toda aos encontrões, era bem suada e pisada. Mas quem deixaria de correr léguas e léguas só para apanhar uma brincadeira?
A Delmira não as perdia. Nos dias que se lhes seguiam a velha escutava-a. Até a um bailarico da vila a rapariga desta vez foi. E lá calhou encontrar o filho de uns seus antigos patrões.
Que conversas teriam eles tido? E que peitas se seguiriam depois entre a velha, a Delmira e ele? O certo é que o rapaz, pouco tempo passado, se aventurou de bicicleta até à quinta para a ver, a ela...
– É para a menina, não no entende? – bichanava-lhe a Delmira. Eu sei, eu sei.
A mesma Delmira lhe meteu nas mãos uma carta dele, dias decorridos.
* * *
Este era o primeiro homem que ela via andar para cima e para baixo à sua
espreita; desmontar-se da bicicleta e levá-la docemente à mão...
Já fizera os catorze anos havia dois meses. E ele tinha vinte e um.
Um homem, quanto a ela, que por isso a amedrontava. O Antoninho da Varosa, em sua mente, é que estava numa idade juvenil e luminosa, ideal, uma idade que os acompanhara sempre, desde a mais tenra infância, e os identificava.
Aquele não passava de um homem; até usava uma capa de estudante, sem o ser.
Também tinha o cabelo encaracolado e quase loiro: defeitos, insuficiências... para ela, decepções. A cor morena é que era a bonita!
Bagatelas... mas só vistas à distância de uma vida, como agora.
Mas para que as há-de escamotear, anular, se lhe ocorrem? Não faz um romance, entretém-se. E hoje, afinal, que lhe interessa, que procura ela? Entender, melhor que há perto de cinquenta anos, talvez, a importância de tais bagatelas, das coisas mínimas. Arrimando-se à memória, à insuficiente, infiel memória. De que se tiram farrapos de coisas, tão cheia de luzeiros como de trevas... Que sacará ela da incrível poeirada que poisou sobre a sua recuada infância e adolescência? Oh! nada afinal que se compare com o claro, vivo miado do seu actual gato; esse, sim, que é incisivo, verdadeiro. O bicho mia-lhe à porta e ela sabe que lha há-de abrir.
Porém, antes de dar os precisos passos para a porta já o está vendo, perfeito.
Ou perfeitamente.
Quanto às outras coisas...
* * *
Têm-lhe dito que o seu gato é arraçado de gineto. E será.
De facto, ele mostra-se bravio, brincando arranha e os seus belos olhos deitam por vezes chispas ferinas. Mas de tão presente que é, de tão integrado na sua vida actual, ela entende-o, desconfunde-o até de qualquer outro pelo simples miado.
É certo que o amor que lhe tem e a graça que lhe acha se tornam especialmente actuantes, lho afirmam.
Afirmam! Palavra própria ou imprópria?
As palavras, ai, as palavras... e dá-lhe vontade de esfregar as mãos, como a dona Mariquinhas, ou de dar uma volta com a direita no ar... as palavras são o que nós queremos que elas sejam, falam à nossa moda, à moda de cada um de nós; a gramática delas é sempre muitíssimo pessoal.
Aquela dona Mariquinhas, dos seus vinte anos, ser encantador! Bom, bom, vê que já está misturando alhos com bugalhos... Que se desmanda, que se precipita.
E poisa a pena. Retoma-a enfim, para assentar:
Aquela idade perdida, aquela gente, aquele tempo à força de os querer fazer reviver mata-os, matá-los-á, sem dúvida. Não há lá palavras para eles, nem gramática válida. Perderam-se.
A capa, a cor do cabelo de um homem, que é, que são? e como lembrá-los? dar-lhes o tom?
* * *
Júlio Brás era o nome do seu namorado. Feio nome.
Ela não engraçava com o nome, nem nunca gostou dele. Das suas feições mal se lembra. Aliás não são as feições em conjunto nem em separado o que melhor assinala uma criatura. É o jeito do cabelo, o olhar, qualquer coisa da boca, o riso, a seriedade, o andar e até o som da voz.
Mas dele que lhe ficou, em suma? Quase só uma espécie de repugnância. Não física, em especial, mas total. Hoje morta...
Lembra-se de correr pela quinta fora até o mirante da estrada, quando o ouvia passar de bicicleta. A velha ou a Delmira a preveniam, ou ela mesmo o sentia.
Chegava ao tal poiso e sentava-se no murinho, de lado; ele parava na estrada, em baixo. E nada tinham que se dizer... Ela dava-lhe então, atirava-lhe uma rosinha de toucar ou um martírio do caramanchão.
Tão estranhos se sentiam um ao outro que ainda hoje pensa que a pura imaginação é que alimenta o amor dos adolescentes, e que o pobre Júlio não tinha o poder de lhe despertar a sua.
De outras vezes falavam-se por entre as grades de um portão do meio da quinta. Ele beijava-a na boca e ela permitia-o, sem o mínimo interesse nem efusão. Cerebralmente considerava aquilo próprio do amor. Todos os romances dos caixotes de Esperancinha descreviam o beijo como a mais fina substância do amor.
Mas quando o namorado, um dia, sob a larga capa, lhe segurou a mão e a puxou ao seu corpo, ela teve uma sensação inqualificável. Nunca, nunca a revelou a ninguém. Pensa que são coisas que toda a vida se guardam, se reservam. Foi uma sensação aflitiva, afrontada, de ofensa e de repugnância. O amor, aquele que lhe andava na cabeça, pelo menos, era de uma outra natureza.
* * *
Entretanto o pai, desconfiado ou prevenido, tentava surpreendê-los. E uma bela tarde, destas do começo da Primavera em que já se estava (encontravam-se ambos ao portão fechado), mostra-se-lhes o velho, de cima. Não explodiu imediatamente, mas a ela o seu aspecto aterrou-a e deu-lhe asas.
O portão de dois batentes, a que se encostavam, abrangia e terminava, entre altos muros, uma bela rua que atravessava a quinta quase a pique e a dividia em dois largos lençóis de vinha.
Correr por aquela rua acima como uma lebre, foi o que fez.
O pai, com a verdasca atrás das costas – o seu braço torcido o demonstrava – seguia-a andando. Mas não a apanhou nem capaz foi de dar com o seu esconderijo: uma arvorezinha nova ou anã, de ramos a rojar pelo chão, sob que se agachou. Ali passou o resto do dia e parte da noite. Não tinha medo.
Deu-lhe a ternura, a excitação aplacada, para pensar na árvore, que havia de amar toda a vida...
Tanto pensou nela, ou nela se incorporou com a sua paixão romanesca, própria da idade, ou do temperamento, que a arvorezinha lhe ficou gravada em mente. A árvore e o sítio. Julga que se à quinta tornasse os identificaria.
Tola! A árvore estará velha, como ela... De uma outra velhice, é certo.
O sítio era o das cerejeiras, que apenas ali havia. Por entre carreiros pouco pisados partia-se de lá para um canavial basto, um canavial que falava. Que gemia e tinha outros dons do seu conhecimento, suspeitos ou reais. Mais adiante, nos braços de uma árvore terrivelmente esgalhada, de folha dura, uma árvore sem trato e até hostil, bem podia o pobre Absalão ter sido colhido pelos cabelos. Sempre que os passos a levavam para aqueles lados assim pensava. A fatal fuga do Absalão, tão formoso! A má árvore...
* * *
Procuraram-na. Andava a dona Adélia, acompanhada pelo Luís das Canas com uma laterna acesa, a espreitar por entre as cepas, já enfolhadinhas de novo, as moitas e os esconsos dos muros. Ela saiu do seu esconderijo, mas a velha atemorizou-a:
– Cala-te, cala-te... Foi lá um dia de juízo... Se não fosse a dona Esperancinha!
Ela é que deitou água naquela fervura toda...
Entraram as duas pela porta da cozinha, e pé ante pé seguiram pelo corredor, virando a uma escada, que a meio dele se abria e dava para o sótão, grande e dividido como um casa.
– Tu agora dormes aqui, mas não podes fazer bulha, vê lá! A Delmira cá te vem com a comida.
* * *
Naquele sótão, tão seu conhecido, se guardava a fruta, os antigos caixões largos e fundos, carunchosos, de grandes fechos arrombados, dados ao desprezo, os baús encoirados e pregueados, recheados de velharias, e até uma dobadoira nunca servida desde que ela se entendia! Uma dobadoira cuja derradeira serventia era a de encorpar ou materializar histórias muito antigas, vagamente poéticas, que lhe contavam umas senhoras pobres de Vila Franca. Duas irmãs acanhadas, destas visitas que se perpetuam nas casas, toleradas pelas famílias de certa abastança; artistas de mãos, especiosas, acomodatícias.
Aquelas histórias, as figuras unidas das duas irmãs, uma mais alta e outra mais baixa, de fato escuro e de cara macilenta, – bem como uma espécie de flor, uma dália, que elas faziam e desfaziam de um lenço, como os prestidigitadores, – na hora presente, assomadas assim de súbito à sua memória, só lhe parece surdirem dela como um graça, uma partida, um gracejo furtivo do tempo morto. Enfim, uma negaça do tempo irrecuperável.

Irene Lisboa, Voltar Atrás para Quê?





06/02/2009

A Coisa


Minha querida Nora,

Sabe quem encontrei há pouco tempo? A Diana, você se lembra dela? Diana, a que viveu conosco no colégio das freiras francesas. Diana, a filha única daquele homenzarrão rústico, proprietário de terras em Maremma. Diana que nunca chegou a conhecer a mãe, morta ao dar à luz. Diana de quem dizíamos que, tão fria, branca, educada, saudável, com os cabelos louros e os olhos azuis e o corpo com formas de estátua, que se tornaria uma dessas mulheres insensíveis e frígidas, que talvez ponham no mundo uma ninhada de filhos, mas que não chegam jamais a conhecer o amor.


A recordação de Diana encontra‑se curiosamente ligada ao início da nossa relação; e esta, por sua vez, a uma famosa poesia de Baudelaire que “descobrimos” juntas nos nossos tempos de colégio e acerca da qual, hoje como então, nos encontramos em desacordo quanto ao sentido a atribuir‑lhe. A poesia é “Mulheres Condenadas”. Lembra? Em vez de nos apaixonarmos pelos versos humanitários de Victor Hugo que as irmãzinhas nos aconselhavam, líamos às escondidas Les Fleurs du Mal, com essa curiosidade ardente própria da primeira adolescência (tínhamos ambas treze anos), sempre em busca de alguma coisa que não se sabe ainda o que seja e que, todavia, se pressente como predestinada ao conhecimento.

Éramos amigas, muito amigas, talvez já algo mais do que amigas, embora por certo ainda não amantes, e assim, quase fatalmente (há uma fatalidade também para as leituras), entre tantas poesias de Baudelaire, fomos cair na que tem por título “Mulheres Condenadas”. Lembra? Fui eu, para dizer a verdade, quem descobriu essa poesia fui eu a lê-la em voz alta e explicar a você o seu sentido, apoiando‑me prontamente nos pontos, por assim dizer, essenciais.

Estes eram, sobretudo, dois. O primeiro, na estrofe: “Os meus beijos são leves como as borboletas / que afloram à tarde sobre os grandes lagos transparentes, / os do teu amante cavar‑te‑iam rugas / como trilhos de carro ou cascos de cavalo”; o segundo, na estrofe: “Maldito seja para sempre o sonhador inútil / que primeiro quis, na sua estupidez / vangloriando‑se de uma questão insolúvel e estéril, / misturar as coisas do amor e da moral”. Aqui, como se pode ver na primeira estrofe, surge privilegiado o amor homossexual, tão delicado e afetuoso em contraste com o amor heterossexual brutal e grosseiro; e na segunda, deixa‑se o terreno limpo dos escrúpulos morais, que nada têm a ver com as coisas do amor.

Claro que eu própria, que te explicava o sentido da poesia, captava muito imperfeitamente o alcance das duas estrofes; mas compreendia, apesar de tudo, o bastante para escolhê-las entre todas as outras, como as mais suscetíveis de favorecerem a minha paixão por ti. Para dizer a verdade, esta paixão, hoje tão exclusiva e tão consciente de si própria, teve um começo confuso.

Foi, de fato, para Diana que, num primeiro momento, orientei as minhas atenções.

Como talvez você recorde quando havia exames da parte da manhã, as alunas externas passavam, também elas, a noite anterior no colégio. Diana, que habitualmente passava a noite em casa, ficou, numa dessas ocasiões, dormindo no colégio e o acaso quis que a sua cama ficasse ao lado da minha.

Não hesitei mais, se bem que fosse a primeira vez; exigiam‑no os meus sentidos e obedeci. Assim, depois de uma longa espera ansiosa, levantei‑me da cama e, num pulo, alcancei a cama da Diana, levantei‑lhe os cobertores e insinuei‑me por debaixo dos lençóis, aproximando-me mediatamente dela, num abraço lento e irresistível, tal como uma serpente que, sem pressa, envolve nos seus anéis os ramos de uma bela árvore.

Diana certamente despertou, mas, um pouco pelo seu caráter entorpecido e passivo e um pouco, talvez, por curiosidade, fingiu continuar adormecida e deixou‑me avançar. Digo‑te sinceramente, mal me dei conta de que Diana parecia permitir, experimentei o mesmo impulso voraz de uma faminta frente à presa: tinha vontade de a devorar com beijos e carícias. Mas, logo a seguir, impus‑me uma espécie de ordem e comecei a percorrer arrastadamente o seu corpo, deitado de costas e inerte, de cima a baixo:.

Da boca que toquei com os meus lábios (o meu desejo, para quê negá‑lo?, era pela outra “boca”) ao seio que destapei e beijei compenetrada; dos seios ao ventre, onde a minha língua, lesma apaixonada, deixou um lento traço úmido; do ventre para baixo, até ao sexo, alvo supremo e último daquela minha deambulação, o sexo que pus à minha mercê, agarrando os joelhos de Diana com as duas mãos e abrindo‑lhe as pernas. Ela continuou fingindo que estava dormindo e eu lancei‑me com maior avidez sobre o meu alimento de amor, sem abrandar senão quando as coxas dela se apertaram convulsivamente no meu rosto, como a mordedura de uma ratoeira de fresca e musculosa carne jovem.

O meu ardor, porém, deparou com os limites da minha inexperiência. Hoje, depois de ter suscitado o orgasmo de uma amante, voltaria a fazer o caminho inverso; do sexo ao ventre, do ventre aos seios, dos seios à boca e abandonar‑me‑ia, após tanto furor, à doçura de um abraço meigo.

Mas eu era ainda inexperiente, não sabia ainda amar e, depois temia ser surpreendida por alguma freira que estivesse de vigia ou de alguma aluna insone. Assim, saí de junto de Diana pelos pés da cama e, sempre às escuras, voltei para a minha. Estava arquejante, tinha a boca cheia de suaves humores de sexo, sentia‑me feliz. Mas, no dia seguinte, esperava‑me uma surpresa que, no fundo, teria podido prever.

Após o obstinado sono fingido da primeira amante da minha vida: quando me viu Diana comportou‑se como se nada, entre nós, tivesse acontecido; fria e serena como de costume, manteve durante todo o dia uma atitude não hostil nem perturbada, apenas completa e perfeitamente indiferente.

Chegou a noite e ficamos de novo as duas em camas ao lado uma da outra; a uma hora já tardia, deixo a minha cama para entrar na da Diana. Mas a moça robusta e atlética, está acordada. Quando tento insinuar‑me entre os seus lençóis, um chute violento me repele e me faz cair por terra. Nesse momento, tive como que uma espécie de iluminação. A tua cama ficava também junto da de Diana, mas do outro lado.

Pensei comigo, de repente, que você não poderia ter deixado de ouvir, na noite anterior, o tumulto do meu ruidoso amor e que, assim, estaria agora “à minha espera”. Foi com a segurança de quem se dirige para um encontro prometido que me arrastei até à tua cabeceira. Como previra, você não me repeliu. Foi assim que começou o nosso amor.

Voltemos então a Baudelaire. Nos tornamos amantes, mas com certas precauções, a que chamarei rituais, por tua vontade, porque continuavas um pouco hesitante e amedrontada.

Você pediu e então eu, para te agradar, aceitei que fizéssemos amor somente em duas ocasiões precisamente definidas: no colégio, de noite, todas as raras vezes que lá dormíamos, ou em minha casa, quando a sua mãe, uma viúva bonita e mundana, saía de Roma no fim de semana, na companhia do amante, e te permitia então que você viesse dormir na minha companhia.

Salvo estas duas ocasiões, as nossas relações deveriam ser castas. Assim, embora aceitando‑o, não compreendia tão singular situação; depois, com o passar do tempo, compreendi.

Estavas obcecada por aquela moral de que fala Baudelaire e, para adormecer o seu sentimento de culpa, queria que entre nós duas acontecesse tudo como em um sonho sonhado entre dois sonos, em minha casa ou no colégio. Mas, do mesmo modo, nunca você se habituou completamente à nossa relação, nunca a aceitou no fundo como um modo de vida estável e definitivo.

E aqui quero citar uma vez mais Baudelaire, que, numa outra estrofe, fornece uma perfeita descrição da sua atitude em relação à mim. Eis a estrofe: “As indolentes lágrimas dos olhos fatigados / o ar alquebrado, o transe, a volúpia baça / os braços vencidos abandonados como armas vãs / tudo contribuía para o fascínio da sua beleza frágil. / Estendida a seus pés, calma e cheia de alegria, / Delfina chocava‑a com olhos ardentes, / como um animal forte que vigia a presa / depois de a ter marcado com os seus dentes”.

A teu ver, eu seria Delfina, a tirana, a calma e cheia de alegria”, e tu Hipólita, a pobre criatura devastada pelo meu desejo, a presa “marcada” pelos meus dentes. Esta idéia bizarra inspirava à você um medo invencível que, uma vez mais, Baudelaire descreveu na perfeição: “Sinto abaterem‑se sobre mim pesados terrores / e destacamentos obscuros de fantasmas confusos / querendo arrastar‑me por caminhos de erros / rodeados por toda a parte de horizontes sangrentos”. Tudo isto, realmente, é dito de uma maneira romântica, segundo o gosto da época, mas espelha muito bem a aspiração à chamada “normalidade” que te obcecava, dois anos depois do começo do nosso amor.

Curiosamente, essa aspiração assumiu em você um sentimento violento de insatisfação perante a virgindade. Eu era virgem, como ainda hoje sou, graças a Deus, e não sentia a menor insatisfação por causa dessa condição natural, que não me impedia de modo nenhum de ser uma pessoa e uma mulher completa. Você, pelo contrário, lembras? Parecia a todo momento convencida de que havia qualquer coisa a lhe empedir de viver livre e completamente. E, essa qualquer coisa identificava com a virgindade, da qual dizia que, se a nossa relação continuasse, nunca chegarias a libertar-se. Recordo a este propósito uma frase sua, para mim ofensiva: “Vou envelhecer a teu lado e transformar‑me nessa triste figura que é a solteirona virgem que se arranja com outras mulheres.

Um dia, Diana, de quem continuávamos amigas após o fim dos estudos no colégio, convidou‑nos para passar o fim de semana com ela, na sua casa de Maremma. Fomos de trem até Grossetto. Na estação, estavam à nossa espera, com o automóvel, Diana e o pai.

O pai da Diana, alto, corpulento, barbudo, estava vestido de pastor, com um capote de casentino vermelho, calças de veludo e botas altas de pele crua. Diana, menos rusticamente, envergava uma camisola branca e calças de montar verdes, enfiadas num par de botas altas e negras.

Viajamos cerca de uma hora por uma paisagem de colinas despidas, banhadas por um sol brilhante, mas que não aquecia. Era inverno, um dia de tramontana. Chegamos por uma estrada enlameada ao topo de um pequeno monte, a uma espécie de celeiro ou curral extremamente tosco.

De maneira nenhuma,era a vila senhorial que tínhamos esperado. A volta do edifício, não havia jardim, mas um terreiro cheio de lama e sujo, o chão de um cercado de cavalos. Os cavalos, que, com os cascos, tinham posto o terreno naquele estado, estavam nessa altura a pastar nos prados que ficavam um pouco abaixo da casa. Contei‑os e pareceram‑me seis. Mas assim que Diana e o pai apareceram, começaram a subir ao encontro deles, como se fossem mais cães do que propriamente cavalos. Diana e o pai fizeram algumas festas aos animais, depois convidaram‑nos a entrar e a esperá‑los dentro de casa. Tinham que ir a cavalo encontrar‑se com certos foreiros seus.

Saíram, montaram e afastaram‑se. Nós nos sentamos na sala, diante de um fogo ateado no interior de uma grande lareira. Lembra? Disse-me, após um longo silêncio.

“Viu a Diana? Fresca, branca e rosada, limpa, a imagem viva da saúde física e moral”. Senti‑me imediatamente ofendida pela reprovação implícita nas tuas palavras: “O que é que quer dizer? Que eu te impeço de ser como Diana, física e moralmente sã”. “Não, não é isso. Só estou dizendo que gostaria de ser como ela e que, de certo modo, a invejo.”

Entretanto, Diana e o pai voltaram. Comemos bifes grelhados à florentina, cozinhados diretamente no fogo da lareira. Depois do café, o pai voltou a sair e nós fomos as três descansar no quarto do segundo piso.

Mas não descansamos, começamos a tagarelar as três, deitadas numa imensa cama de casal. Não quero me reter nos temas preliminares. Recordo apenas que, em certo momento, você começou a falar do problema que então te obcecava: o da virgindade.

Depois disso, aconteceu algo extraordinário. Com sua voz límpida e tranqüila, a Diana informou‑nos de que já arranjara maneira de resolver esse problema, pelo que, com efeito, havia já alguns meses que deixara de ser virgem.

Você perguntou a ela com uma inveja mal disfarçada como fizera isso, e quem foi que lhe pretara tal serviço. Ela respondeu, com toda a candura: “Quem? Um cavalo.” Surpres, você exclamou “Mas, desculpa, um cavalo não é grande demais?”

Diana começou a rir, depois explicou que o cavalo era apenas a causa indireta do desvirginamento. Na realidade, acontecera que, com a sua fúria de cavalgadas, num daqueles dias, sentira como um beliscão sutil e doloroso nas virilhas. Em seguida, regressada a casa, descobrira manchas de sangue na calça. Em resumo, o desvirginamento sucedera sem que ela quase se desse conta, por causa de passar tanto tempo montada, com as pernas abertas.

Após esta excursão a Maremma, as coisas entre nós duas mudaram muito rapidamente. Separava‑nos uma espécie de crescente impasse. Você começou a sair com um homem, um advogado, um bonito homem com cerca de quarenta anos; e eu deixei de ver você, a não ser de relance, até porque o colégio acabara e a sua mãe, tendo se separado do amante, passava agora os fins de semana em casa, com você. Decorrido um ano, anunciou-me o seu casamento com o advogado. Três anos mais tarde, apenas com vinte anos, separou-se do seu marido por “incompatibilidade de gênios”

Pelo menos, foi assim que a sua mãe me pôs a questão por telefone. Você voltou para perto dela. Eu por minha vez, voltei à sua vida e recomeçamos a fazer amor, embora sempre às escondidas e com imensas precauções. Finalmente, ao fim de dois anos de amor clandestino, arrancamos, como é costume dizer‑se, a máscara e começamos a viver juntas, felizes e livremente, na casa que ainda hoje habitamos.

Agora, você deve estar interessada em saber por que misturei à nossa história Baudelaire e Diana.

Digo já, porque, no fundo, você continua a identificar-se com Hipólita e persiste em me ver como Delfina ‑ a primeira, vítima e a segunda, tirana implacável. Ou seja, continua a nos ver não sem certa complacência masoquista da sua parte, como duas “mulheres condenadas”.

Mas a realidade não é essa. Não somos, nem de longe, duas mulheres condenadas, somos duas mulheres corajosas que se salvaram da condenação. Perguntará, que condenação? E eu te respondo, a da escravidão perante o membro viril. Isto é, nos salvamos de uma ilusão de normalidade que, após a sua desgraçada experiência matrimonial, sabe agora muito bem não passar de um fruto da sua imaginação.

Voltemos, porém, à Diana. O meu encontro com ela, depois de dois anos sem a ver, forneceu‑me ocasião de deparar exatamente com esse gênero de mulheres a que se aplica o epípeto baudelairiano de “condenadas”. Com efeito, deve saber que Diana já não está sozinha há muito tempo. Uniu‑se, numa ligação aparentemente semelhante à nossa, a uma tal Margherita, que eu nunca vira, mas que você, ao que parece, conhece, porque uma vez, já não sei quando, me falou dela e a definiu como “horrenda”.

Dirá, pois sim, é uma mulher horrenda, mas você mesma disse que se encontra unida à Diana por uma ligação semelhante à nossa. Onde está, nesse caso, a condenação?

Eu vou responder mas devagar, o que eu disse foi “aparentemente” semelhante à nossa. Na realidade, descobri que Diana e a amiga continuam mais do que adoradoras do membro viril, além disso, de uma maneira, por assim dizer, potenciada. Mas não quero antecipar a minha história. Basta que saiba que a sua servidão se alargou muito para lá do humano, até uma zona obscura que nada tem a ver com a humanidade, mas se caracteriza apenas pela cegueira e brutalidade próprias da agressão masculina.

As coisas são como vou contar. Depois da sua partida para os Estados Unidos, chegou‑me um dia uma carta com o carimbo de uma terra próxima de Roma. Olhei para a carta e reconheci, no final, a assinatura de Diana. Li depois o seu conteúdo. Era breve, nos seguintes termos.

“Querida, muito querida Ludovica, você sempre foi boa para mim e é tão séria e inteligente que, encontrando‑me agora numa situação difícil, pensei logo em ti. Sim, és a única que poderá me compreender. A única que poderá me salvar. Peço, suplico, ajuda‑me, sem você, sinto que não conseguirei, que ficarei condenada para sempre. Vivo no campo, a pouca distância de Roma. Arranja um pretexto qualquer, por exemplo, o fato de termos sido colegas no colégio, e vem fazer‑me uma visita. Mas vem . Até já, portanto, como espero. A que não te esqueceu nunca ao longo destes anos, sua, Diana.”

Devo dizer que a carta me produziu uma estranha impressão. Continuava a ter presente na memória a poesia de Baudelaire que tanto nos fizera discutir acerca da condenação; e eis que também Diana, na sua carta, usava, por sua vez, a palavra “condenada”, reforçando‑a ainda por cima com um “para sempre” de desespero. A palavra era forte, muito mais forte do que na poesia de Baudelaire, afinal de contas escrita noutra época. E, era não só forte, mas até desproporcionada tratando‑se de uma relação de amor, ainda que infeliz. Sem dúvida, podia ser também que Diana escrevesse condenada” por não conseguir desfazer a sua ligação com a “horrenda” Margherita. Mas naquela palavra havia algo mais do que a impaciência pela libertação de uma submissão sentimental insuportável, qualquer coisa de obscuro e de indecifrável.

Por isso, telefonei imediatamente à Diana, para o campo, para o número que ela me indicara na carta. Fingi, como me fora aconselhado que fizesse, que pretendia “matar saudades” de antigos tempos de colégio. Desse modo, consegui ser prontamente convidada para almoçar no dia seguinte.

De manhã, saí de automóvel e dirigi‑me para a vila de Diana. Cheguei pouco antes da hora de almoço. O meu automóvel entrou por um portão escancarado, percorreu uma aléia de loureiros, desembocando em um largo jardim à italiana, bem tratado, com canteiros verdes e passagens ensaibradas entre eles, onde se erguia uma casa de bela aparência, com dois pisos.

Dirigi‑me à porta. Não tive tempo de tocar, porque Diana abriu e apareceu no mesmo instante, como se estivesse à espera da minha chegada no átrio da entrada. Usava apenas a parte de baixo de um biquini, com os seis nus, por causa do calor do verão, mas com a seguinte particularidade, em vez de sandálias, calçava botas altas, vermelhas, da mesma cor do biquini. Quando lhe dirigi um segundo olhar, digo sinceramente, tive como que um sobressalto de pasmo ao ver como a Diana mudara e de que maneira.

No instante em que a olhei, procedi a uma espécie de inventário instantâneo de tudo o que houvera outrora na sua pessoa e agora lhe faltava. Desaparecera a sua formosura rija e vivaz.

Em lugar dos seios altivos, duas maminhas que mal se destacavam do corpo; em lugar do ventre redondo e cheio, uma depressão achatada e esticada entre os dois ossos salientes da bacia; em vez das belas pernas bem torneadas, dois paus esgalgados. Mas a transformação maior era a do rosto; branco e macilento, encovavam‑se nele os olhos azuis que a magreza tornara enormes e que dois vincos de fadiga sexual faziam ainda mais carregados. E a boca, outrora de um rosa natural e nunca retocado, surgia agora desgraçadamente aumentada por um borrão de batom vermelho‑gerânio.

De toda a sua pessoa emanava, assim, um estranho ar de liquefação, como de uma vela consumida pela chama. Dir‑se‑ia que emagrecera menos do que se dissolvera. Ouvi‑a exclamar em tom alegre: “Até que enfim, Ludovica! Espero você desde o nascer do sol!”. E então, nem a sua voz reconheci. Lembrava‑me dela clara e argêntea, agora soava baixa e rouca. Tossiu e reparei que, entre dois longos dedos esqueléticos, segurava um cigarro aceso.

Nos abraçamos, e depois, ela me disse com um ar casual que me pareceu contrastar com o tom desesperado e urgente da sua carta.

“Margherita foi dar uma volta pelo campo, volta daqui a pouco. Entretanto, vem cá, vou mostrar a casa a você. Vamos começar pelas cavalariças. Os cavalos são realmente estupendos. Você gosta de cavalos, não gosta?”

E dizendo isto, sem esperar resposta, precedeu‑me, atravessando o jardim, de uma aléia para a outra, na direção de um edifício baixo e comprido que eu, de início, não notara.

A fieira de janelas em boca de lobo fez‑me adivinhar que era ali a cavalariça. Diana caminhava lentamente, de cabeça baixa, levando de vez em quando à boca o cigarro aceso, como se estivesse a refletir sobre algum problema particular. Por fim, todavia, o resultado da meditação foi escasso. Ela anunciou: “Há aqui seis cavalos e um pônei. Os cavalos são puros‑sangues, não têm nada a ver com os do meu pai. O pônei, esse, é simplesmente uma maravilha”.

Chegamos à porta da cocheira e entramos. Vi um comprido e estreito recinto rectangular com cinco baias de um lado e cinco do outro. Os cavalos gabados por Diana ocupavam seis dos compartimentos e, embora tais animais não sejam a minha especialidade, reparei imediatamente que eram exemplares magníficos, dois brancos, um malhado e três castanhos.

Lustrosos e esbeltos, nas suas baias enceradas e revestidas de um vidrado claro no chão, sugeriam uma impressão de luxo. Diana deteve‑se diante de cada um dos cavalos, chamando‑os pelo nome um a um, fazendo‑me observar os seus dotes e acariciando‑os; mas tudo isso, de uma maneira algo abstrata.

Depois, aproximou‑se do pônei, que, pela sua pequena envergadura, eu não notara ainda, e disse, num tom desprendido e ligeiro: “Mas este é o meu preferido. Venha vê‑lo.”

E com estas palavras, entrou na baia. Segui‑a com curiosidade. O pônei, castanho claro como um veado, com a cauda e a crina louras, estava imóvel, como se meditasse, sob o dilúvio dos pelos longos e claros do pescoço.

Diana começou a gabar‑me a sua beleza e, enquanto falava, acariciava o animal no flanco. Tive a estranha sensação de que a Diana falava no vazio, apenas por falar, e que eu, em vez de a ouvir, devia antes olhá‑la, uma vez que aquilo que ela estava fazendo era mais importante do que aquilo que me dizia.

Muito naturalmente, os meus olhos fixaram‑se na sua longa mão, magra e branca, com dedos hábeis e unhas escarlates afiadas, que passava e voltava a passar pelo flanco fremente do animal. E assim, não me escapou que, a cada festa, a mão descia um pouco mais, em direção ao ventre do pônei.

Entretanto, com uma estranha pressa quase histérica, ela continuava a falar, mas longe de ouvi-la eu já nem dava pela sua voz. Em vez disso, isolada como que por uma estranha surdez, olhava a mão, lenta e incerta e todavia animada de não se sabia que intenção, mas que se aproximava agora de muito perto do sexo do pônei, fechado na sua bolsa de pêlo castanho.

Houve mais duas ou três festas da Diana, depois a mão teve um impulso quase mecânico e sobrepôs‑se declaradamente no membro do animal, fechando‑o, após um momento de hesitação, entre os seus dedos.

Então, como se me tivesse libertado de uma só vez daquela espécie de surdez passageira, ouvi bruscamente Diana dizer‑me: “É o meu preferido, não te escondo, mas tenho que acrescentar mais alguma coisa que não sei como dizer. Digamos que é o meu preferido porque, com ele, acontece a “coisa”. Por causa dessa “coisa”, estou eu aqui, por causa dessa “coisa” te escrevi a carta.

Diana estava agora completamente apertada contra o pônei e não se conseguia ver o que fazia; depois, vi claramente que o braço dela, estendido por baixo da barriga do animal, ia e vinha, para a frente e para trás, e compreendi, logicamente, embora não sem incredulidade, que Diana estava masturbando o animal.

Entretanto, falava, falava, como se acompanhasse com a voz o ritmo das carícias. Aquilo a que eu chamo a “coisa”, não é tanto ele, mas o que Margherita e eu com ele fazemos. Por isso, dele posso dizer como certas mulheres: o meu rapaz, o meu homem. Até porque, a Margherita não pára de me repetir, entre ele e um homem não há a mínima diferença, a mínima… Sim, tem a cabeça, o corpo e as pernas diferentes das de um homem; mas ali é exatamente igual a um homem, exceto talvez no tamanho, o que, segundo a Margherita, não é um defeito, mas, pelo contrário, em certas ocasiões, uma vantagem.

Não tenha vergonha, olha e me diz se não é uma autêntica beleza, diz se não é verdade que é lindo?”

De repente, o pônei empinou‑se, agitou as patas dianteiras no ar e imobilizou‑se soltando um longo relincho sonoro. Diana apressou‑se em amansá‑lo, acalmando‑o com a voz e novas carícias. Por mim, saí de dentro da baia. Devia ter no rosto uma expressão eloqüente porque a Diana interrompeu o fluxo do seu discurso contínuo e murmurou em voz baixa, como se falasse com o pônei: “Vamos lá, não te excites, não sejas porco”.

Depois, num tom diferente, inesperadamente suplicante, chamou por mim: “Ludovica!”. Eu ia me afastando, mas, colhida pela entoação da sua voz, me detive.

“Ludovica, escrevi porque caí numa ratoeira, numa autêntica ratoeira, numa ratoeira infame, e só você pode me salvar”.

Comovida, balbuciei: “Farei o que puder”. “Não, Ludovica, não é o que pudere, mas uma só coisa precisa: me levar daqui embora, depressa e hoje mesmo”. “Se você quiser, pode vir comigo”.

Mas você vai ter que insistir, Ludovica, porque eu sou vil, muito covarde e, no último momento, sou capaz de querer recuar.”

Um pouco aborrecida, respondi então: “Pois bem, eu insisto”. Ela continuou, como se falasse consigo mesma: “Vamos almoçar, depois despeço‑me da Margherita e você me levas embora”. Eu não disse mais nada e precedi‑a com alguma pressa, na saída da cocheira.

No jardim, Diana alcançou‑me, agarrou‑me com força o braço, e recomeçou a falar. Mas eu não a ouvia. Lembrava‑me daquela sua incrível e, no entanto, lógica afirmação de que “o pônei era o homem dela”, e não podia impedir‑me de pensar para comigo que a submissão de tantas mulheres ao membro viril encontrava em Diana uma confirmação caricatural, transformando a chamada “normalidade”, a que em certa altura também você aspirava, em algo de ridículo e monstruoso.

Sim, Diana e a amiga tinham‑se juntado já não para se amarem, como nós, mas para adorarem no pônei o eterno falo, símbolo de degradação e de escravidão. Depois, recordei as nossas polémicas sobre a poesia de Baudelaire e disse para comigo que Diana e Margherita, elas sim, eram as “mulheres condenadas” de que falava o poeta, e não nós, como você, em momentos de mau humor e dúvida, se obstina, às vezes, em pensar.

Voltou‑me à mente o final da poesia: “descei, descei, lamentáveis vítimas, e tive a certeza de que dizia respeito, não a nós duas, em nada vítimas, mas à miserável Diana e à sua “horrenda” Margherita. Na realidade, eram vítimas de si próprias, porque não podiam deixar de prosternar‑se perante o macho e porque, sobretudo, fingiam amar‑se para melhor esconderem a sua perversão, profanando com essa indigna comédia o amor afetuoso e puro que as poderia ter feito felizes.

Entretanto, Diana dizia: “Irei ficar provisoriamente com você. Assim, Margherita pensará que nos amamos e me deixará em paz.” Eu respondi quase com furor: “Ficar comigo, não; nem pensar nisso. E, por favor, tira essa mão do meu braço”.

Ela queixou‑se: “Porque é que são todos tão cruéis comigo? Até você, agora…”

“Não consigo esquecer que ainda há pouco, com essa mão, estava mexendo naquela “coisa”. Mas, como é capaz de fazer aquilo?”

“Foi Margherita. Foi‑me persuadindo gradualmente. Depois, um dia, pôs‑me um ultimato”.

“Que ultimato?”

“Ou você faz “a coisa” ou nos separamos”.

“E então? Tinha sido uma bela ocasião para você ir embora.”

“Parecia impossível deixá‑la. Queria bem à ela; pensei que seria só uma vez, uma coisa assim: um capricho.”

“Mas onde está ela, a Margherita?”

“Olha ela, ali.”

Levantei os olhos e vi então a Margherita. Pensei logo no seu adjetivo tão decidido: “horrenda”. Depois, fitei‑a demoradamente, como que para descobrir nela a confirmação do teu juízo. Sim, a Margherita era realmente “horrenda”. Estava por baixo do pórtico da vila; de pé, com as pernas afastadas e as mãos nas ancas. Alta, corpulenta, com uma camisa quadriculada, um cinto com uma fivela enorme, calças de pólo brancas, botas altas negras.

E, não sei porquê, talvez por causa da sua atitude arrogante, lembrava‑me o pai da Diana, tal como o víramos daquela vez no campo, no seu velho casarão. Olhei‑a no rosto. Por baixo da massa redonda dos cabelos escuros e crespos, a testa, insolitamente baixa, traçava como que um elmo por cima dos olhos, encovados e penetrantes. O minúsculo nariz adunco, a boca proeminente, mas de lábios delgados, faziam pensar no focinho de alguns grandes símios. Em suma, era uma giganta, uma atleta de luta livre feminina, como essas que vemos, na televisão, puxarem‑se os cabelos, pontapearem‑se na boca, saltarem sobre o estômago da adversária.

Ela deixou‑nos avançar e depois exclamou, com uma cordialidade que me pareceu fingida e premeditada: “Tu és a Ludovica, não és? Bem-vinda a nossa casa, acho que vamos ser amigas. Pensei mal te você, bem-vinda, bem-vinda”. A voz era semelhante à pessoa, aparentemente jovial, mas, por baixo, fria e imperiosa. A voz de uma diretora de colégio, de uma madre abadessa ou de uma enfermeira‑chefe.

Naturalmente, nos cumprimentamos com um beijo; e então, para minha surpresa, dei‑me conta de que a Margherita procurava transformar o beijo de hospitalidade num beijo de amor. Os seus lábios salientes deslizaram, úmidos e tenazes, das minhas faces na direção da minha boca. Desviei‑me o melhor que pude, mas ela apertava‑me com força entre os braços poderosos e não consegui evitar que a ponta da sua língua penetrasse por um segundo no canto da minha boca. Descarada, satisfeita, recuou então e perguntou: “Pode se saber onde estiveram? Na cavalariça, é claro! Diana mostrou‑lhe a paixão dela, aquele pônei louro? Lindo, não é? Mas entrem, está tudo pronto, tudo pronto”.

Entramos na casa. Era uma sala de estar convencionalmente rústica, com barrotes negros à vista no teto, paredes caiadas, chaminé de pedra em lage, móveis maciços e escuros, mas não antigos. Uma dessas mesas compridas e estreitas ditas de “refeitório, mostrava‑se de um dos lados, com os talheres postos para três pessoas. Em resumo, você pode imaginar bem o quadro.

Não vou alargar‑me com as nossas conversas durante o almoço; na realidade, foi só a Margherita quem falou, dirigindo‑se especialmente a mim, excluindo Diana da conversa. De que falava ela? Como costuma dizer‑se, de tudo e de nada ou seja, de coisas insignificantes; mas não deixava por um momento de fazer‑me compreender os sentimentos, verdadeiramente espantosos pela sua imprevisibilidade e natureza súbita, que havia alguns minutos parecia alimentar por mim.

Fixava‑me com aqueles seus olhos encovados, brilhantes e inflamados por não sei que bestial concupiscência; por baixo da mesa, as barrigas das suas pernas, enormes, apertavam as minhas como se mordessem; chegou ao ponto de estender a mão engordurada e, com a desculpa de ver o amuleto que trago ao pescoço, me acariciar os seios, exclamando: “Como é bonita a nossa Ludovica, não é, Diana?” Esta última não respondeu; torceu os lábios grandes como num esgar de dolorosa perplexidade; tirou os olhos de mim e voltou‑os para a lareira. ” Margherita, então, disse‑Lhe brutalmente: “Diz qualquer coisa; falei com você, porque não responde?” “Não tenho nada a dizer”. “Puta, você tem que dizer que é linda”.

Diana olhou‑me e repetiu mecanicamente: “Sim, é linda”. Entretanto, durante esta cena embaraçosa, eu procurava libertar a minha perna das de Margherita, mas inutilmente. Era como ter o pé preso numa ratoeira; essa mesma ratoeira “infame” de que a Diana me falara na cocheira.

Tínhamos almoçado um excelente melão com presunto, bifes na grelha, sobremesa. Depois deste último, a Margherita fez o que costumam fazer os oradores no fim dos banquetes: bateu três vezes com o garfo na mesa. Olhavamos para ela, surpreendidas. Ela então disse: “Tenho que te anunciar uma coisa importante. Digo isso agora porque está aqui a Ludovica e ela poderá testemunhar que falei a sério. Portanto, a partir de hoje, esta casa está à venda”.

Em vez de olhar para a Margherita, virei os olhos para Diana, à qual se dirigia claramente esta comunicação. Tinha a boca mais franzida do que nunca; depois perguntou: “O que é que disse ‑ vai vender a casa?”

“Encarreguei disso uma agência. Amanhã aparece um grande anúncio num dos jornais de Roma. Vou vender toda a propriedade, incluindo os terrenos que rodeiam a casa. Mas não vendo os cavalos, esses não.”

A Diana perguntou então, um tanto mecanicamente: “Vai levá‑los para outra casa?”

Magherita calou‑se por um instante, para sublinhar a importância do que iria responder a seguir; depois, explicou: A minha próxima casa vai ser um andar em Milão: por muito grande que seja, não vejo como poderei lá meter sete cavalos. Por outro lado, gosto demasiado deles e não consigo imaginá‑los nas mãos de outros. A alternativa seria pô‑los em liberdade, devolvê‑los ao estado selvagem, mas não me parece possível. Por isso, vou matá‑los. Afinal de contas, são propriedade minha; posso fazer deles o que quiser”.

“Como é que vai matar os cavalos?”

“O mais humanamente possível: a tiro de pistola.”

Houve um silêncio prolongadíssimo. Aproveito esse silêncio, minha muito querida, para te dizer o que pensei, no mesmo instante, daquelas declarações da Margherita. Pensei que eram falsas e sem fundamento, no sentido de constituírem uma espécie de jogo entre ela e Diana. Margherita não tinha a mínima intenção de vender a casa e ainda menos de matar os cavalos; do seu canto, Diana também não acreditava que a amiga estivesse falando sério. Mas Margherita, por qualquer motivo, sentia necessidade de ameaçar Diana; e Diana, pelo mesmo motivo, tinha necessidade de mostrar que acreditava nas ameaças.

Assim, não fiquei excessivamente espantada quando Margherita prosseguiu: “Ontem de manhã, Diana me fez saber que tencionava voltar para junto do pai. Foi por isso que decidi vender a casa e matar os cavalos. Mas se Diana mudar de idéia, é muito provável que nada disso aconteça.”

Era um convite explícito a que a Diana se decidisse. Olhei para ela, devo confessar, com alguma ansiedade: embora fosse claro para mim, como já disse, que tudo aquilo era um jogo, não podia deixar de esperar que Diana conseguisse força suficiente para se libertar de Margherita.

Infelizmente, tal esperança em breve se dissipou. Vi Diana baixar os olhos; depois articulou: “Mas eu não quero que os cavalos morram.”

“Não quer, hein?” ‑ Margherita parecia estar agora a divertir‑se: “não quer, mas, na realidade, se decidir ir embora, é o que quer mesmo.”

Não sei porquê, talvez por estupidez, quis intervir neste jogo entre elas: “Desculpa Margherita, mas não é certo: tudo depende não de Diana, mas de você. Pelo menos no que diz respeito aos cavalos.”

Curiosamente, Margherita não pareceu ofender‑se. Tomou as minhas palavras como a aceitação pelo meu lado de um outro jogo, o jogo que ela tentava travar comigo. Por isso, disse ambigüamente: “Digamos, nesse caso, querida Ludovica, que tudo depende de você.”

“De mim?”

“Se estiver disposta, mesmo que provisoriamente, a tomar o lugar de Diana, não vendo a casa e não mato os cavalos. Mas ter que me dizer já. Se aceitar, poderá ir hoje mesmo à Roma buscar as suas roupas, e Diana aproveita para se ir embora daqui.”

Devo ter feito uma cara de espanto, porque Margherita se corrigiu quase no mesmo instante: “Me entendam: estou brincando. Mas o meu convite continua valendo. Acho você simpática e gostaria que ficasse aqui com Diana ou sem Diana. Portanto, Diana, você ainda não me respondeu e… “

Neste ponto, devo dizer que, enquanto Diana não parecia ter dado crédito à ameaça de matar os cavalos, a ameaça de ser substituída por mim parecia exercer sobre ela um efeito indubitável. Olhava‑me com os seus grandes olhos azuis, dilatados não se sabia por que brusca suspeita. Depois, disse com decisão: “Para os cavalos não morrerem, estou disposta a fazer todas as coisas”.

“Não são todas as coisas. É a “coisa”!

Pois bem, minha querida, nesta altura, eu deveria intervir com energia para arrancar Diana das garras da “horrenda” Margherita. Mas, apesar de minha promessa, não o fiz. E isto por dois motivos: antes de tudo, porque, após o convite, em nada jocoso, de Margherita, temia, intervindo, não poder salvar Diana senão ao preço excessivo de aceitar substituí‑la; em segundo lugar, porque, naquele momento, odiava mais a Diana do que a própria Margherita. Sim, a Margherita era um monstro irremediável e definitivo; mas Diana era pior precisamente por ser melhor: uma pessoa incerta, fresca, fechada, covarde.

Você dirá que neste meu juízo talvez influa a minha infeliz experiência de colegial. Talvez. Mas o ódio é um sentimento complicado, tecido de elementos heterogêneos; nunca odiamos por um motivo só.

Assim, não me intrometi. Vi Diana fitar Margherita com uma expressão tímida e subjugada; depois, respondeu num sopro: “Está bem.”

“O que é que está bem?

Farei o que você quiser”

“Hoje mesmo?”

“Sim.”

” Já?”

Diana protestou com uma má vontade cúmplice: “Você deixa pelo menos eu digerir o almoço.”

“De acordo, vamos as três descansar um pouco.

Você, Diana, vai para o quarto; já lá falar com você. Entretanto, primeiro tenho que levar Ludovica ao quarto dela.”

“Eu posso levá-la. Afinal de contas, fui eu quem a convidou.”

“A dona da casa sou eu, sou eu que vou com ela.”

“Mas eu queria falar com Ludovica.”

“Falem mais tarde.”

Esta discussão acabou da maneira previsível: Diana, abatida e perplexa, saíu da sala por uma porta que daria provavelmente para a parte inferior da casa;

Margherita e eu saímos, pelo contrárío, em direção ao piso superior. Ela precedeu‑me ao longo de um corredor, abriu uma porta, entrámos as duas em um quarto de mansarda, com teto inclinado e uma única janela. Sentia‑me já pouco à vontade por causa da insistência de Margherita em querer me mostrar o quarto. O constrangimento aumentou quando a vi dar uma volta à chave na porta. Objetei no mesmo instante: “O que é isso? Que é que está fazendo?”

Margherita não se embaraçou: “É porque aquela puta é bem capaz de aparecer aqui de repente e sem bater.”

Eu não disse nada. Margherita aproximou‑se, e com um gesto ligeiro e desenvolto, passou‑me um braço à volta da cintura. Ali estávamos as duas, quase embaraçadas, de pé, por baixo do teco inclinado do sótão. Margherita continuou: “Ela é ciumenta, mas, “desta vez, tem motivo para isso. Falou‑me tanto de você. Contou‑me tudo: o colégio e que você ia até a cama dela à noite, enquanto ela fingia dormir… Fiz uma certa idéia de você, naturalmente favorável. Mas você é cem vezes melhor do que eu supunha. E, sobretudo, cem vezes melhor do que aquela puta da Diana.”

Tentando interromper aquela pesada declaração de amor, objetei: Mas porque lhe chama de puta? Há um tempo atrás lá na mesa chamou-a assim.”

Porque é o que ela é. Faz birras, mostra‑se desdenhosa e depois acaba sempre por dizer que sim. E não se deixe enganar por aqueles sentimentalismos: não pensa senão numa coisa, sabel qual, e tudo o mais, nada conta para ela. Por exemplo, os cavalos. Julga que realmente, se eu amanhã os matasse, ela experimentaria o grande desgosto que diz? Nada disso. Mas como você estava presente, quis mostrar que tem uma alma sensível. Puta, é o que ela é. Mas estou farta dela! Então, que decide?

Senti‑me sinceramente surpreendida: “Mas o que você quer dizer?” “Aceita vir morar comigo, digamos por uns dois meses, isto para começar?”

Objetei, tentando ganhar tempo: “Mas há Diana”. ” Quanto a Diana, faremos as coisas de maneira a nos livrarmos dela. Você toma o lugar dela”.

Ficou calada um instante, depois acrescentou: “Há um bocado falei em matar os cavalos. Para fazê-la ir embora, basta matar o pônei.”

Eu exclamei: “Agora há pouco, você ameaçou matar o pônei para impedir Diana de ir embora. Agora ameaça matar o pônei para fazê-la ir embora.”

“É que agora há pouco eu não queria que Diana partisse e sabia que a ameaça bastava para fazê-la ficar. Mas para fazê-la ir embora, é necessária não a ameaça, mas a sua execução. Se eu matar o pônei, ela vai embora.”

Estava encostada em mim, inclinou‑se, beijou‑me o pescoço e depois os ombros. Tentei libertar‑me do abraço dela, mas sem êxito; por fim, disse contra a minha própria vontade: “o que você quer de mim afinal?”

“Aquilo que Diana não pode me dar, nem nunca me dará: um verdadeiro amor.”

Garanto que, naquele momento, Margherita quase me fez medo. Uma coisa é ouvir certas coisas ditas por você, e outra são as mesmas coisas ditas por uma giganta com olhos de porco e focinho de macaco. Objetei debilmente: “eu já gosto de outra pessoa.”

“O que é tem? Sei tudo a seu respeito. Ela se chama Nora, não é? Traga-a para cá também; venham as duas viver comigo.”

Entretanto, empurrava‑me para a cama e, com uma das mãos, levantava‑me desajeitadamente a saia.

Ora, você sabes que muitas vezes, e especialmente no verão, não visto nada por baixo da saia. E então que ela sobe a mão entre as minhas pernas, me agarra os pelos do púbis com os dedos e puxa com força, exatamente como faria um homem libidinoso e brutal. Soltei um grito de dor e libertei‑me com um empurrão.

No mesmo instante, bateram à porta. Com os olhos cintilantes de excitação, Margherita me fez violentamente sinal com a mão, ordenando‑me que não a abrisse. Como resposta, chegueaté a porta e abri.

Diana estava na entrada e olhou‑nos em silêncio a ambas, antes de dizer fosse o que fosse. Depois falou: “Marguerita, estou pronta.”

Margherita por um momento, não achou o que responder; ofegava, ainda mostrava‑se alterada. Finalmente, articulou com esforço: “então você não foi dormir?”

Diana sacudiu a cabeça: “estive aqui o tempo todo.”

Eu perguntei com surpresa: “aqui, onde?”

Ela respondeu em voz baixa, sem olhar para mim: “Aqui no corredor, sentada no chão, à espera que vocês acabassem.”

Senti, confesso, quase ódio por ela, tão vil e tão volúvel: à minha chegada, suplicara‑me que a levasse dali; agora acocorava‑se atrás da porta, como um cão, à espera que “acabássemos”. Margherita disse impulsivamente: “Está bem, vamos” E depois, virando‑se para mim: “Então estamos combinadas! Até já.”

Saíram e eu atirei‑me para cima da cama, para repousar por fim um pouco, após tantas emoções. Mas ao cabo de alguns minutos, levantei‑me de um salto e fui à janela: tinha a certeza de que havia qualquer coisa ali destinada a ser vista por mim, mas não sabia exactamente o quê.

Esperei um bocado. Da janela, via‑se o prado que se estendia atrás da vila. Ao fundo do prado, destacava‑se uma grande piscina de água azul, circundada por uma alta sebe de buxo aparado. O recinto traçado pela sebe de buxo abria‑se a meio e revelava, em perspectiva, para lá da piscina, uma construção alongada e baixa, sem dúvida as cabines dos vestiários e o bar para os aperitivos .

Olhava a piscina e dizia comigo mesma que não passava duma espécie de cenário de teatro: em breve, aconteceria alguma coisa mais. E, com efeito, pouco tempo depois, desembocava ali uma pequena procissão, vinda do lado da cocheira e atravessando o prado.

A frente, vinha Diana, com a sela e as botas de cano alto vermelhas; trazia o pônei pelo cabresto. Este seguia docilmente, devagar, com o focinho tapado pela pelagem comprida das crinas caídas para diante e com a aparência de quem está em meditação. Trazia uma coroa de flores vermelhas à volta do pescoço; as flores pareceram‑me ser rosas, da variedade mais simples, com uma única fieira de pétalas na corola. Atrás do ponei, segurando‑lhe a longa cauda loura com ambas as mãos, com a solenidade de quem segura o manto de um soberano, vinha Margherita.

Vi as três figuras seguirem até à pastagem aberta entre as duas sebes altas de buxo. Desapareceram e, depois, voltaram a aparecer por trás da sebe, do lado direito, mas sendo agora apenas visíveis as cabeças das duas mulheres. O pônei, demasiado baixo, não era, com efeito, visível.

Então, uma seqüencia alternada de ações e contemplações começou a desenrolar‑se. Primeiro, Diana fez menção de se inclinar na direção onde devia estar o pônei; a sua cabeça desapareceu, a cabeça de Margherita, pelo contrário, continuou visível: podia-se dizer que olhava para qualquer coisa que estava para acontecer atrás da sebe, por baixo dos seus olhos.

Passou talvez um minuto; então, inopinadamente, o pônei, como já fizera na cavalariça, empinou‑se mostrando bruscamente acima da sebe as patas dianteiras e a cabeça. Voltou a desaparecer logo a seguir; decorreram mais alguns intermináveis minutos, e a cabeça de Diana reapareceu acima da sebe; foi então a vez de desaparecer a cabeça de Margherita.

Era a Diana agora quem contemplava qualquer coisa que se passava atrás da sebe, por debaixo dos seus olhos; o pônei não voltou a empinar‑se. A seguir, Margherita emergiu por seu turno; agora as cabeças das duas mulheres eram simultaneamente visíveis, uma frente à outra.

Talvez Margherita tenha falado, dando certa ordem à outra. Vi claramente Diana sacudir a cabeça, num sinal de recusa. Margherita estendeu um braço e segurou com a mão a cabeça de Diana, como às vezes alguém faz no mar com outra pessoa para a obrigar, brincando, que mergulhe. Mas Diana não cedeu. Houve um momento de imobilidade, depois Margherita, só com uma das mãos, esbofeteou duas vezes Diana, uma bofetada em cada face. Vi então a cabeça de Diana começar a descer lentamente e desaparecer de novo. Nessa altura, saí da janela.

Sem me apressar, uma vez que sabia que ambas se encontravam agora consagradas à “coisa”, saí do quarto, desci ao térreo, cheguei ao jardim. Voltei, cheia de alegria, ao ver o meu automóvel estacionado diante da porta de casa. Entrei, peguei o volante e, no minuto seguinte, já corria pela estrada a fora em direção à Roma.

Você vai me perguntar porque é que, afinal de contas, te contei toda esta história bastante sinistra. E respondo: por arrependimento. Confesso que, no momento em que Margherita se encostou em mim no quarto, tive quase a tentação de ceder. Teria feito isso precisamente por ela me repugnar, precisamente por achá-la, como você diz, “horrenda”, precisamente por ela me implorar que tomasse o lugar de Diana. Mas, por minha sorte, a sua lembrança não me abandonou. Quando Diana bateu à porta, tudo já havia acabado, eu vencera a tentação e só pensava em você e em tudo o que de bom e de belo você representa na minha vida.

Escreve‑me depressa.

Sua Ludovica.


Alberto Morávia
(tradução brasileira)


Invergonhas de um pai mandrião


Caía a tarde, célere sobre o róseo infinito da paisagem quando vi uma lágrima desangustiada desprendendo-se lavrada dum rosto enrugado e aparentemente grelhado pela chuva do sol que ardeu o relento daquela cidade morta, recheada de insalubridade em cada esquina de sôfregos amotinados em raças.
Pendeu-me o destino instantaneamente desarvorado, revolvi a memória longínqua retraída a distancia onde passeara longe daquela imaginação obstrutiva de júbilos, e suspirei num jeito mórbido de subornar a alma para não esfiar a lágrima como aquela mãe desajeitada que não suportou o seu próprio vício.
Uma mãe com um grito delido roçando-lhe as costas pelos vistos seu filho preso num fio de seda que já foi capulana e pendurado como se fosse uma mochila num colo decapitado dos ombros já murchos e a cair devagar num fogo demolidor de aços com fumos de maledicência.
Aproximei-me devagar sentindo ao longe o tremor da terra escancarando a boca e devorando-lhe viva desde os pés enterrados descalços até a alma mais recôndita no subterfúgio naquele escasso universo insidiado; e o hálito da morte desbravando os sentidos em cada gesto improfícuo simulado na perceptível fuga inadiável para desafogar a imaginação.
Desarrumei o soalho vulgarizado pela natureza onde o homem não ousou enterrar a pedra e sosseguei o corpo desfalcado sem fogo para não ondear o medo sobre a dúvida e cristalizei-me.
Entre nós só deduzia-se um sigilo intransigível mesmo pelo vento que nos grudava. Sussurrei-lhe bem alto para não rotular o silêncio.
- Boa noite senhora
Desmanchou por completo os lábios, olhou-me impávida como se fosse uma ignóbil formiga que se atreve a morte inevitável por debaixo dum pé ambulante desprotegida.
Descativou uma lágrima e agravou as valas macias do rosto quando o caudal subiu-lhe, alagou-se, mergulhando-se depois naquele caqui pegajoso não de lágrimas e adormeceu.
Insinuei-a já com novos agasalhos de palavras emotivas e abrandantes para uma mãe que já sentiu na dor um grito sangrento entre o delírio e a morte.
- Boa noite mamã. Levantou-se e retorquiu
- Mamã eu? Só tenho um filho, este sem pa...
Não tardou o dilúvio nos olhos, já imaginava tudo que tinha por dizer mesmo sem aqueles mares para libertar toda aquela angústia que sufocava o peito daquela mãe improvidente que não via a claridade do seu suor em descalabro. Aqui também divulguei a incontinência da emoção mesmo com as asas na mente a desbravarem o silêncio, solucei.

Verdes,
Verdes são as árvores
desbravadas em silêncio
que tombam a chiar
e tombam entre as matas
densas de vegetação
esquartejadas em raças.

E prontos, o silêncio não era o alvo almejado enquanto cativarmos as palavras, nem a importunação pelo revertimento sequioso da angústia por um pai invergonhado, trabalhador a ganhar um filho mundano.
Mesmo assim reverdecemos estendendo o dialogo na monção de suspiros eu aí feito um zarelho pertinaz a mendigar o pouco da desgraça.
- Mamã que aconteceu?
Regurgitou uma lágrima perene, último manjar disponível para desmotivar a fome e replicou:
- Pai dele filho, pai dele... que nem gostaria que o simulasse por engano ou ignorância num gesto igual ao dele se não evapora daqui e prontos. Evacuou-nos pior doque estamos com este filho dele, o filho que ele mesmo gerou e o nega agora porque ganha trezentos contos que não pode dividir com o seu próprio sangue, para dar a quem? È filho dele, definhado, carcomido e sugado pelas lágrimas da vida na alvura negando-lhe a paternidade. Será que fugir é solução?
Suspirou profundamente desterrando arduamente o ódio e engoliu uma coisa bem palpável desta vez aliviando a fome lá no fundo do vácuo.
E a noite ia içando por um lado a sua brumosa espuma sobre o universo enquanto o luar subia invisivelmente entre o fulvo da textura horrenda crucificado no azul do céu, assim juntos cobertos do mesmo lençol da vida.
- Mamã o que faz para viver?
- Viver? delido assim! Sobreviver filho, como servo dos mundanos, empregada da esquina, uma pobre sorrateira para ganhar porrada.
- Porrada?
- Sim, porrada! Senão aceito alargar esta família porrada meu filho, sem onde queixar é só cumprir, aliás quem sou eu aqui? Logo nesta casa infame dos malfadados e desempregados...
Suplicou penosamente o cataplasma enquanto uma lágrima contínua e desagradável na indignação do seu casamento escorria as valas que o tempo insano sulcou naquela mulher desalentada para drenar a sua esperança.

É fértil a lágrima sobre os olhos
florindo verde o silêncio
no desespero duma mãe incorpórea
favos de ossos decompondo-se
sobre a lama fértil da solidão
com um bebé gordo
coladinho na boca
sugando-lhe as gengivas para sobreviver.

E o filho sereno, espertinou os olhos articulando os vigamentos da ponta à ponta e bradou como se uma lágrima da mãe coçasse-lhe dolorosamente.
Encostou-lhe do lado esquerdo do peito e com a mão entre os favos vazios de alvéolos que já foram mamas engoliu-lhe a chucha presa entre os dedos que pelo seu desuso suplantava a involução.
Chupou, chupou, chupou e adormeceu enquanto ela também coligia sonhos para empandeirar profundamente as lembranças dos dias lúgubres e indeléveis como estes e tantos. E não desatremar nem manchar a esperança adiada para amanha.
- Chau, visite-nos mais e sempre que poder... despediu-se ela e retirou-se ciente que algo tomara a sua plenitude desvigorando a marcha dos nossos consolos e imergiu-se naqueles andrajos do corpo que ao mesmo tempo cobre quando dorme fingindo que não sente nada e sucumbiu no vento, a necrópole das desgraças.
Já não podia mais perpetuar a estadia ali enquanto rubra a esperança de renovar a presença dia seguinte.
Devastei avenidas sem fim, errante à busca dum conhecido meu que tolerasse um sôfrego a desoras onde o vulgo taxi não rastejava o asfalto àquela hora, rogando-lhe um abrigo por uma noite esfalfante e inolvidável como aquela.
Terminada a marcha, esgotos de água arrebentados, tais modernos rios dos nossos ratos assim como farrapos e recados velhos como abrigos incônditos das nossas crias despistavam-me sem êxito o acesso àquela porta já matizada.
- Boa noite João
- Oooh! Faz favor, entre; a quanto tempo!... entre, não aconteceu alguma coisa pois não, ahhh... você não mudou, sente-se, então...
E prontos, foi o reacender das boas lembranças num reencontro intempestivo onde pressagiara que velhos amigos não se esqueceriam em dias como aqueles. Descabiam-me manjares àquela hora, aliás quem suportaria tantas paciências? Faz favor!
E mesmo inconfortável a dessuetude da esteira numa fétida e módica sala escura apertando-me até a própria alma servida com hombridade por quem não podia dar mais que aquilo adormeci mesmo sem aqueles sonhos habituais.
E ao despertar não esperei o café da manhã, retornando e seguindo as pegadas que me levaram àquele sono a fim de retomar a amarga conversa suspensa para mais um lote de esquecimentos.
Lá estava ela despertada e serena como quem planeia mais uma labuta e quando se apercebeu da minha presença desprendeu os lábios e sorriu.
- Bom dia mãe, aqui estou de novo, ainda se lembra de mim?
- Como não filho, afaste alguma coisa aí e sente-se. Replicou desfiando a carapinha desgrenhada e afastando intrusos grãos de arreia despregadas que importunavam a visão limpa quando retornassem ao solo.
- Mãe, não vai acordar o filho, parece que já faz sol aí e ainda mais há pessoas que querem...
- O quê? Acordar? Deixe-o filho, estatelado nesta rua dos malfadados e desesperados. Chi, afinal elas não sabem? Deixe-o, vogar sobre o leito que merece e se a morte planea-lo deixo-o vale a pena onde o sobreviver é o alento do dia, oque acha que será dele?
- Pode vir a trabalhar e quem sabe até vir a ser um homem...
- Não filho, ontófago. Talvez um homem esbanjado pelas moscas nas lixeiras à busca duma fatia que o pai farto trincou, mastigou, cuspiu e atirou aos pedacinhos fora só porque não quer que seja seu filho em casa aquele que ele mesmo gerou e não quis educar. Retorquiu com um dedo em riste espumando o olho esmagado pelo ódio.
E num jeito de quem apercebera-se de tudo despertou de olhos embaciados sem o fulgor das outras manhás, desordenando os lábios como quem chupa o orvalho do universo esparso sem o catecismo dos outros meninos quando sentem fome.
- Não quer comer o bebé?
- Que bebé? Este que até sabe afunilar a língua e sorver pingos de desespero para sobreviver já que do leite não vem sortindo a tempo, onde está o sangue num cataplasma filho? Ainda mais quem lhe opinou deste alimento? Que continue filho de desafectos, de buscas , à sorte porque eu...
Desflorei um silêncio coagido pensando no esplendor que raiava nos olhos futuros daquele menino entregue à sorte e prontos.
- E agora não vai fazer nada já que a catadura do seu filho...
- Afogar-me na arreia com um filho nas costas e dois sacos de milho na cabeça. Sacos dum sacana de patrão que não paga se não uma fatia de pão que os cães dele chutam para dar este cãozinho igual e ainda mais zombada com indizíveis palavras pungente e dolorosas para um ambulante e o pai dele invergonhado numa boa.
- E ele nunca vos procurou assim... nem nada?
- Oquê? procurar? Só cruzamo-nos as vezes e vê seu filho despiciendo na moina e apontando-lhe por um dedo amputado por um punhal de vergonhas.
- Acha que ele não sente vexame nenhum perante esta situação?
- Que vexame! Uma vergonha imputada a uma urgência descabida da vida, e nós? Onde está o crisol de pai? Será que haverá purgatório das inóspitas heresias modernas, corações sujos como estes, invenção mordaz das palavras cruéis? Onde está o atrito da vida para parar o cinismo? E o que é moral palavra que todos usamos se quem a diz no momento não se atreve a dizer onde morra?
- Está bem mãe, parece que o tempo...
Concluía exânime olhando para o relógio requestando-me as horas para mais um dia de tráfego.
- Não, não se preocupe filho, um dia quando este sobreviver e crescer, cruzarão as almas e gestos no mesmo asfalto disfarçados, seus olhos catracegos derramando a angústia e o ódio, sobre as mentes nas réstias de susto e desespero. Tristes revertendo gritos e lamúrias das vozes já desencaminhadas pelo tempo e alguém atento e ciente sobre o viço, levantando-se para dizer:
"aquele é o pai dele", para todos o verem.


Noé Filimão Massango (Moçambique)






05/02/2009

O cesto


Pela milésima vez me preparo para ir visitar meu marido ao hospital. Passo uma água pela cara, penteio-me com os dedos, endireito o eterno vestido. Há muito que não me detenho no espelho. Sei que, se me olhar, não reconhecerei os olhos que me olham. Tanta vez já fui em visita hospitalar, que eu mesma adoeci. Não foi doença cardíaca, que coração, esse já não o tenho. Nem mal de cabeça porque há muito que embaciei o juízo. Vivo num rio sem fundo, meus pés de noite se levantam da cama e vagueiam para fora do meu corpo. Como se, afinal, o meu marido continuasse dormindo a meu lado e eu, como sempre fiz, me retirasse para outro quarto no meio da noite. Tínhamos não camas separadas, mas sonos apartados.
Hoje será como todos os dias: lhe falarei, junto ao leito, mas ele não me escutará. Não será essa a diferença. Ele nunca me escutou. Diferença está na marmita que adormecerá, sem préstimo, na sua cabeceira. Antes, ele devorava os meus preparados. A comida era onde eu não me via recusada.

Olho em redor: não mais a mesa posta o aguarda, pontual e perfumosa. Antes, eu não tinha hora. Agora perdi o tempo. Qualquer momento é de meu debicar, encostada a um canto, sem toalha nem talheres. Onde eu vivo não é na sombra. É por detrás do sol, onde toda a luz há muito se pôs. Só tenho um caminho: a rua do hospital.
Vivo só para um tempo: a visita. Minha única ocupação é o quotidiano cesto onde embalo os presentes para o meu adoecido esposo.
A meu homem deram transfusão de sangue. Para mim, o que eu queria era transfusão de vida, o riso me entrando na veia até me engolir, cobra de sangue me conduzindo à loucura.
Desde o mês passado que evito falar. Prefiro o silêncio, que condiz melhor com a minha alma. Mas o não haver conversa nos deu outro laço entre nós. O silêncio abriu um correio entre mim e o moribundo. Agora, pelo menos, já não sou mais corrigida. Já não recebo enxovalho, ordem de calar, de abafar o riso.
Já me ocorreu trocar fala por escrita. No lugar desse monólogo, eu lhe escreveria cartas. Assim, eu descontaria no sofrer. Nas cartas, o meu homem ganharia distância. Mais que distância: ausência. No papel, eu me permitiria dizer tudo o que nunca ousei.
E renovo promessa: sim, eu lhe escreveria uma carta, feita só de desabotoada gargalhada, decote descaído, feita de tudo o que ele nunca me autorizou. E nessa carta, ganharia coragem e proclamaria:
- Você, marido, enquanto vivo me impediu de viver. Não me vai fazer gastar mais vida, fazendo demorar, infinita, a despedida.

Regresso a mim, ajeito no fatídico cesto o farnel do dia, nesse fazer de conta que ele me irá receber, de riso aberto, apetite devorador. Estou de saída, para a minha rotina de visitadora quando, de passagem pelo corredor, reparo que o pano que cobria o espelho havia tombado. Sem querer, noto o meu reflexo. Recuo dois passos e me contemplo como nunca antes o fizera. E descubro a curva do corpo, o meu busto ainda hasteado. Toco o rosto, beijo os dedos, fosse eu outra, antiga e súbita amante de mim. O cesto cai-me da mão, como se tivesse ganhado alma.
Uma força me aproxima do armário. Dele retiro o vestido preto que, faz vinte e cinco anos, meu marido me ofereceu. Vou ao espelho e me cubro, requebrando-me em imóvel dança. As palavras desprendem-se de mim, claras e nítidas:
- Só peço um oxalá: que eu fique viúva o quanto antes!
O pedido me surpreende, como se fosse outra que falasse. Poderia eu proferir tão terrível desejo? E, de novo, a minha voz se afirma, certeira:
- Estou ansiosa que você morra, marido, para estrear este vestido preto.
O espelho devolve a minha antiquíssima vaidade de mulher, essa que nasceu antes de mim e a que eu nunca pude dar brilho. Nunca antes eu tinha sido bela. No instante, confirmo: o luto me vai bem com meus olhos escuros. Agora, reparo: afinal, nem envelheci. Envelhecer é ser tomado pelo tempo, um modo de ser dono do corpo. E eu nunca amei o suficiente. Como a pedra, que não tem espera nem é esperada, fiquei sem idade.
E experimento, em vertigem, pose e lágrima. No funeral, o choro será assim, queixo erguido para demorar a lágrima, nariz empinado para não fungar. Dessa feita, marido, não será você, mas serei eu o centro. A sua vida me apagou. A sua morte me fará nascer. Oxalá você morra, sim, e quanto antes.
Deponho o vestido na mesa da sala, bato porta e saio rumo ao hospital. Ainda hesito perante o cesto. Nunca antes eu o vira assim, desvalido. Vitória é eu dar costas a esse inutensílio. Pela primeira vez, há céu sobre a minha casa. Na berma do passeio, sinto o aroma dos franjipanis. Só agora reparo que nunca cheirei meu homem. Nem sequer meu nariz não amou nunca. Hoje descubro a rua, feminina. A rua, pela primeira vez, minha irmã.
Na entrada da enfermaria, o milesimamente mesmo enfermeiro me aguarda. Uma sombra lhe espessa o rosto.
- Seu marido morreu. Foi esta noite.
Eu estava tão preparada, aquilo já tanto acontecera, que nem procurei amparo. Depois de tanta espera, eu já queria que sucedesse. Mais ainda depois de descobrir no espelho essa luz que, toda a vida, se sepultara em mim.
Saio do hospital à espera de ser tomada por essa nova mulher que em mim se anunciava. Ao contrário de um alívio, porém, me acontece o desabar do relâmpago sem chão onde tombar. Em lugar do queixo altivo, do passo estudado, eu me desalinho em pranto. Regresso a casa, passo desgrenhado, em solitário cortejo pela rua fúnebre. Sobre a minha casa de novo se tinha posto o céu, mais vivo que eu.
Na sala, corrijo o espelho, tapando-o com lençóis, enquanto vou decepando às tiras o vestido escuro. Amanhã, tenho que me lembrar para não preparar o cesto da visita.


Mia Couto, O Fio das Missangas