28/01/2009

Desportos de Inverno

Os largos vidros embaciados era como se transpirassem de frio. Exactamente: transpiravam de frio. Mas, lá dentro, as pequenas mesas, apesar de muito juntas para aproveitar o espaço exíguo, não ajudavam a intimidade dos clientes entre si. Somente os que se ajeitavam, num esforço, em cada uma delas, esses, tinham de falar em voz baixa para não serem ouvidos pelo vizinho. Conspiração de pastelaria, mais inofensiva decerto que a de café.
Mas ninguém conspirava de coisa nenhuma. Só que o português médio é discreto, não gosta de dar nas vistas nem que os outros saibam da sua vida.
Não havia sequer jovens casais entendidos, que já dispensam hoje a conversa de chá e bolos, o que se compreende. Média etária, como se usa dizer agora dos frequentadores da Smarta naquela tarde? Aí dos quarenta anos para cima, isto é, gente de idade, os mais velhos talvez ainda presos a hábitos, herdados ou adquiridos, dum certo tipo de conversa gratuita e nisso é que ela é diferente, ali, da de outros cafés ou pastelarias, seja a conversa idealista ou tumultuosa, quezilenta ou ressentida, frustrada ou desiludida.
Há uma dignidade sui generis na Smarta, com sua ambiguidade de freguesia ou função. Um certo burguesismo inofensivo na plataforma do «five o clock tea», senhoras serôdias, cansadas das compras nos saldos do bairro ou que, vindas da Baixa, esperam ali o fi m da hora de ponta para conseguirem um lugar no autocarro e lograrem uma espécie de comunicação humana nem que seja só nos olhos curiosos, muito atentos aos outros, e que lhes falta na exiguidade dos dois quartos assoalhados onde vão enclausurando seus dias sem cor. Lá em baixo, ao balcão, é diferente, e rapazes ou raparigas muito novos ainda, ou jovens empregados na área, que emborcam a qualquer hora, num bom intervalo fugidio, o seu «galão» nutritivo, que depois do trabalho virão ao encontro com o amigo exigente ou à matinée das seis e meia e acabam as mais das vezes por jantar apenas outro «galão», ou, em casa, a sopa de pacote. Na cave do restaurante, a maioria é composta de turistas médios, estrangeiros que até no Inverno nos cobiçam o sol, pessoas dotadas do bem inestimável de acharem graça a tudo, saborearem tudo.
A cave da Smarta, essa tem mais carácter, podia ter sido uma espécie de mini-Lipp lisboeta, com suas ceias nocturnas, depois do teatro ou do cinema, quando, à volta de 1960, ali se juntavam, noite fora, escritores ou artistas, uma certa boémia resignada a um certo conforto. Mas a ambição, modesta embora, acabou por ser vencida pelas exigências dos horários de trabalho do pessoal.
Muito apertadas, pois, as mesas, naquela espécie de palco sem cenário nem vedetas, figurantes apenas, e, junto da que eu escolhera, duas senhoras, acima dos meus cálculos, falavam pouco uma com a outra e iam olhando os circunstantes, para lá da pintura dos olhos, já cansada àquela hora. Noutra mesa, três sujeitos incaracterísticos: dois liam desinteressadamente os vespertinos, enquanto o terceiro olhava o frio através dos vidros e, silencioso, pedia de vez em quando um dos jornais para ver, distraído, os principais títulos. E logo o pousava de novo sobre a mesa ou o restituía ao vizinho, esvaziando o resto da garrafa de cerveja, esquecida. As duas senhoras da mesa contígua não se contentavam em conversar muito; ambas faziam grandes gestos ilustrativos, exibindo feias unhas demasiado vermelhas a rematarem fatigados dedos pré-gotosos. Um visco de fim de dia sem imaginação.
O meu amigo chegara, procurara mesa, divisara-me de longe, numa alegria: «Posso sentar-me aqui, contigo?» Podia, pois. Conhecemo-nos desde miúdos, andamos juntos, adolescência fora, mas a verdade é que não o encontro muitas vezes nos caminhos duma Lisboa tão dispersa e, por mim, também não faço muito por isso. As amizades que foram um erro do tempo são às vezes as mais perduráveis: não há hipótese de decepção ou atrito, por mais diferentes que sejam os gostos ou os caminhos da idade adulta. Sei vagamente que faz negócios, tem mulher e filhos, vive bem. São outros os seus interesses, nunca indaguei muito
deles, mas quando nos encontramos ou me vê ao longe na rua e corre para mim, para não me deixar fugir, é sempre, da parte dele, a mesma satisfação de íntimo feliz, o mesmo tuteamento a que correspondo desajeitado, as mesmas evocações dum passado que gosta de saber comum: «Lembras-te, pá, quando fomos uma noite beber para aquela tasca das Portas de Santo Antão? Apanhámos um pifo!»
(O meu amigo não tem só uma memória incómoda, esforça por manter-se jovem e aprendeu a terminologia dos filhos). Sentou-se, mandou vir uma cerveja, passou revista à sala, inquiridor, como se isso lhe fosse um ritual. E, realmente, era-o, pois logo me disse, sem mais nem menos, com experiência de conhecedor desiludido:
«Isto hoje está fraco. Mas naquela mesa lá em baixo, já viste...»
Não percebi. «Naquela mesa lá em baixo», desconcertava-me. Mas entendi pouco depois, era a assistência que estava «fraca», muitos homens, a maioria das senhoras acima da tal média dos quarenta anos. «Fraco.» Mas já ele insistia: «Repara bem, naquela mesa lá em baixo, à esquerda.» Reparei, fiz-lhe a vontade. Era efectivamente a única senhora ali, naquela tarde, que valia a pena olhar... Jovem ainda, esbelta, duma elegância simples, nem se tornaria notada, apesar da sua juventude, a quem fosse ali, ao contrário dele, apenas para fugir ao frio ou entreter o estômago até ao jantar. No entanto, eu conhecia-a de a ver na pastelaria, notara mesmo logo à primeira vez que os óculos escuros e a natural descrição lhe davam certo ar de
mistério e sobretudo reparara no carinho com que se entendiam, ela e o miúdo de nove ou dez anos, não mais, que a acompanhava sempre no rápido chá e bolos que iam ali tomar. O meu amigo pensou o mesmo porque nem me deixou dizer nada, tocou-me no braço, confidente: «Já me notou, não tira os olhos de mim, logo que me sentei dei por ela, é natural. Deve ser mãe e filho, ou então irmã mais velha, mas é bem que se farta!» (Eis um sintoma da idade que lhe escapou, pensei eu.
Estava à espera de que ele a achasse gira, muito gira. Foi mais ou menos na nossa juventude – ia reflectindo porque ele não me deixava falar – que se começou a dizer que uma mulher estava ou era «muito bem». E era agora a nossa juventude que, despaisados verbais, vinha agora ali, de repente, à superfície da conversa.
Felizmente ele não percebeu, tinha mais em que pensar.)
A partir de então foi a antiga manobra, nem sequer discreta, uma espécie de desporto fora de moda, e eu, entre envergonhado e aborrecido assistindo à cena. Abrira o jornal à frente dos olhos para disfarçar ou para, baixando-o de vez em quando, chamar a atenção da jovem para o manejo quase ingénuo, decerto ingénuo. No entanto, com alguma curiosidade, eu esperava o desfecho do episódio.
Dez, vinte minutos, correram na tarde mole, de anonimato e pastelaria. Os olhos do meu amigo iam inchando, gulosos, conseguira tudo o que pretendia: reduzir-me à condição obscura de espectador do seu êxito, da sua juventude, de como, afinal, o tempo nada tinha mudado, pelo contrário tudo lhe continuava fácil.
Insistia: «Não olhes para lá, não vá ela julgar que eu te chamei a atenção, mas quando puderes repara que não tira os olhos de mim...» Hesitou, foi diplomata:
«Ou pelo menos da mesa... Mas do lugar onde está não te vê, não é para ti que ela olha. É para mim, já percebi, até já mandou o pequeno ao balcão buscar qualquer coisa para fi car mais à vontade. Não a conheces?» – «Só de vista, daqui, vem cá muitas vezes.»

Luís Forjaz Trigueiros


A voz do mar



O Artur sentiu sobre a orelha uma coisa muito fria, com um som...
- O que é, mãe?
- Não ouves?
Sim, ouvia. Era um som pesado lá ao longe e que depois vinha, vinha e subia, e que depois se tornava mais brandinho, para logo voltar a vir de longe. Parecia música, mas não era bem música. E talvez fosse. Bom, não seria bem música.
- O que é, mãe? - voltou a perguntar. - Que barulho é este?
- É o mar... É a voz do mar...
- A voz do mar?!
- O mar fica longe, mas a voz meteu-se aí dentro. Isto é um búzio.
- E onde nascem os búzios?
- No mar.
-Então é por isso que se ouve...
- Pois é. As ondas fazem um barulho assim quando se ouvem ao longe. E a gente está longe. Não ouves a voz que lá vem?
- Oiço.
- E depois quebra-se assim como as ondas na areia.
- Então isto é o mar? O mar é o oceano. No mapa chamam-lhe oceano. Parece que há vários... . Eu já ouvi aos que andam no quarto ano: é o Oceano Atlântico, o Oceano Índico...
- Não achas que mar é mais bonito?
- Pois é, mar é muito mais bonito.
De repente, fechou os olhos e juntou as duas mãos sobre o búzio, apertando-o contra o ouvido.
- Agora deve ser um navio que lá vem. É mesmo, é, é um navio...
A mãe aproximou o ouvido, desviando o lenço.
- Não ouves?
Não, a mãe não ouvia. Mas o importante para ele era ter o mar apertado entre as mãos. Lá vinha uma onda... e outra.


Alves Redol, Histórias Afluentes



Histórias da Meia-Noite

– ... Serra negra, que onde não é pedra é urze e tojo... Tem pouca roupa como os pobres... E no Verão vêm os sóis queimar-lhe as costas, no Inverno, as pedras, que são os ossos, estalam do gelo e o vento canta a moliana a quem não se ativer a uma gabela de lanhiço. Hoje está branca dum camadão de geada, que dá gosto a gente chegar-se aqui à fogueira que ferve o caldo. Os lobos lá andam, a esta hora, batedores de ladeiras, até se desenganarem e descerem aos povoados onde agucem o dente... Está a fazer seis anos, dormi eu na toca dum castanheiro...
– O menino quer freiras? – interrompia a criada velha, farta daquelas bazófias.
Pedro, o filho dos patrões, com os seus catorze anos, tinha já uns modos de homenzinho e dava pouca confiança a velhas tontas. Para não interromper a treta do João Meco, só abanou com a cabeça, que sim. E a velhota, com um punhado de milho na mão, limpou da cinza o granito quente e atirou para a pedra requeimada os grãos que iam abrir em flor branca.
João Meco não perdeu o fio ao discurso e voltou à história:
– O patrão disse-me assim: amanhã vais ao pinhal da Sancha e marcas o desbaste. Ainda a madrugada não apontava nas tralhiscas, saltei da cama, peguei da roçadoira e ala, fajardo!
– Lá estás tu a rasgar baeta!... – disse o moço dos bois, a entrar na cozinha.
– Não estou, não. Há quem seja mais gabarola do que eu...
– Essa não é pra mim. E olha que trago que contar: vi agora um fantasma. O rapaz da Ilda não podia ser, que o namoro acabou...
A rapariga olhou-o com desprezo e baixou-se para apanhar dois grãos de milho que tinham estoirado. Mas a velha comentou:
– Não venhas já com invenções de tolo...
– Eu?... (E acrescentou com ironia:) Não há fantasmas e almas do outro mundo? Então a mão cortada do Januário?
– Pois sim... Mete-te com a tua vida.
– Nega que contou?
– Nego-te a ti, diabo negro.
João Meco, interrompido em sua prosa, cortou a discussão:
– Vocês não me dão licença que fale?
– Espera aí que não abafas.
E voltando-se para a velha, o moço dos bois, com o mesmo sorriso de troça, intimou:
– E a alma do Elias Gordo?
– Nem magro...
– Eu lhes conto... O Januário era um criado cá de casa, antes de vocês. Ora uma certa noite houve mister de ir ao moinho e ali a ti Leonor desafiou uma mocita que também cá estava, para irem as duas com ele ao passeio. Estava uma noite negra, que não se via um palmo à frente do nariz. Iam passadas. Mas não queriam dar parte de fracas. E o Januário começa a moê-las com histórias da meia-noite... A candeia não dava luz, e elas abraçadas uma à outra, de cambulhada, e a rirem pra fingir... A lanterna, negra do fumo, alumiava cegos e só mexia sombras... E ele a dizer que se tinha trazido a luz não era para ver o caminho, que o passava de olhos fechados, mas para os lobisomens verem que era ele e fugirem a tempo. Neste comenos iam a chegar ao moinho e começam a ouvir um grande gemido, que elas as duas ficaram com o sangue coalhado. O Januário sabia o que era, mas fez-se lãzudo. – «Há-de ser o eixo da mó... Torceu com o peso da água... Ou não será?...»
Nem bulia ponta de aragem e quando ele abre a porta do moinho vem de lá de dentro um sopro e apaga o raio da lanterna...
– Foi mesmo verdade.
– Ah! santinha! Quem diz que não? Eu estou a rir porque me rio só do que não deve ser... Diz vossemecê.
– E digo.
– Então deixe rir... Pois apaga-se a lanterna e ali a ti Leonor dá um grito e vai para se abraçar à Gracinda. A gente não pode pensar que era o Januário que se queria abraçar a alguma delas. O caso é que a tal Gracinda tinha desaparecido e não podia ter caído ao rio, que havia ali um muro. O Januário viu o caso mal parado e entrou no moinho para encher a taleiga. Nisto, a nossa ti Leonor sente uma coisa a mexer-lhe nas pernas e desalvora aos gritos. Valeu o Januário segurá-la, que ele segurava bem as raparigas, e explicar que era o cão, o Piloto...
que nem ali estava...
– Pois não estava, não. Ri-te, que também há-de haver quem se ria de ti.
– Pois há-de... Mas deixe contar, ah, santinha!... E ele lá traz a ti Leonor pró moinho, mais morta que viva. Mas mal ela entra, sente um puxão na saia. E o Januário a explicar que tinha sido entalada na mó...
– E também não foi verdade que ele saiu de lá com a mão cortada cerce, que toda a gente disse que só podia ter sido com um machado? E ao outro dia alguém viu na mó sinal de sangue? Cala-te lá! Deixa estar a verdade quieta onde ela está.
Valha-te o poder de Nosso Senhor Jesus Cristo...
– Aí está que foram fantasmas ou almas do outro mundo. É esta a sua verdade?... Pois onde as houver, dessas almas, vou eu lá e trago um saco delas. Ah, tiazinha! Temer é dos vivos, cantés dos mortos!...
João Meco interrompeu, com seu ar de filósofo:
– Eu não acredito em fantasmas... Mas há.
– Não acreditas, mas há? Como isso?
– Há coisas que a gente pode não acreditar, e havê-las...
– Está boa, essa!
– Horas do Diabo, isso há... Então em certas noites, por essas serras, é preciso um homem ser afoito.
– Quando se leva medo é que elas acontecem.
– É certo. Quem anda de noite topa lobo... A quem o dizes. O fantasma da Catraia do Maneta, já eu vi e não fugi. Lá torcer caminho por fantasmas, nunca fui desses. Nem mais nem menos, oiçam bem esta: – Andava eu de boas conversas com uma rapariga de Eirigo, quando, certa noite, o céu caiu desfeito em água, com um estrebuchar de vento que um homem bálhava o vira-virou. Mas estava com a tineta de ir e ia mesmo. Pancada feita vai abaixo. Daqui, são duas horas de serra acima, por caminhos onde Cristo nunca passou. Mas fui. Era uma rosa duma cachopa, que até nem tinha perdão se não fosse.
«Ora eu, quando saio aos gambozinos, pego no marmeleiro, que a árvore bem plantada quer a estaca à ilharga. No bolso a sevilhana, e ala, que quem vier encontra firme. Estava uma noite de breu, mais negra que a dos infernos. De bacamarte não era o perigo, que quem mo quisesse apontar tinha de mo chegar ao nariz a cheirar. Quando, ao descer pró rio, pelo meio do pinhal, sinto de repente, por cima da cabeça, o desabar duma carrada de mato. Até me agachei pró chão, Eh! valente!... E ao mesmo tempo olho para cima e vejo uma coisa branca a
passar-me ao chapéu. Nem pensei no que fazia, já o varapau ia no ar, e sinto uma pancada nas mãos, que o porrete voou-me das unhas. Logo outra na cabeça, que fico espojado no chão, lá o que era torna a desabar pela rama dos pinheiros abaixo.
Aí vem ele. Só podia ser o fantasma do Maneta. O mesmo alvejar do que fosse, até me fez vento à cara. E percebo que era outro corujão que nem um carneiro.
Sabem o que fiz? Deixei-me ficar sentado, a rir de mim, que ainda é o melhor que a gente pode fazer em certas ocasiões.
«Está de ver que o pau saltou-me das mãos porque arreei com ele num pinheiro, onde logo marrei com a testa, que foi o murro que me tombou. Agora juntem-lhe uma voz a chamar e a gemer na outra encosta, que era um borrego que o Lambicas tinha perdido no monte, e aí têm como elas se inventam. Se juro que era coruja, juro e torno a jurar. Não que visse o passarolo bem visto. Mas era.
E dizem que as corujas dão azar! A mim, aquela, deu-me sorte... Ou que fosse fantasma... Tanto monta.
– Bazófi a é que tu és, João Meco!
– Pois sou... Mas não te conto outra, porque então não tinhas nome pra me chamar.
Na mão de cortiça, a velha oferecia as flores de neve, os grãos de milho abertos na pedra quente.
Pedro começou a trincá-los sem desviar a atenção fita nas palavras do narrador.
– E histórias de franceses?... Sabes alguma?
– Essas são como as das almas penadas. Conta-se sempre mais uma... O menino há-de ir comigo mas é ao rio, ao Poço de Alça-Perna, para me ajudar a apanhar a caldeirinha de oiro, da moira encantada que está lá no fundo.
Pedro, mudo de espanto, abanava com a cabeça, que sim. Mas a velha cortou o sonho:
– Não faça caso, menino.
Nem a ouvia. E João Meco, em sua alta fantasia, voava já fora de tiro
– Há-de estar numa caverna... O rio, ali, faz um poço que não tem fundo.
Há quem o tenha sondado com cinco cordas de carro, sem lhe chegar ao fim. Já lá desci duas vezes amarrado com uma pedra ao cinto. Comecei a descer com os olhos abertos, e primeiro só via as raízes das árvores, como cobras negras, e uns peixes pretos que andavam à volta de mim. Depois, a água, mais pra baixo, começou a ser verde e luminosa, com muitas luzes de cor de azul, amarelo, cor de laranja, cor de violeta. E então começaram a sair dos buracos uns peixes grandes, uns brancos, outros encarnados, com uns olhos que deitavam lume ou seriam de diamantes. As paredes do rio, aí já eram de pedra negra, com rosas de prata, e a
mim parecia-me que, em vez de ir a descer, ia a subir uma montanha de rochedo, com o sol a nascer lá atrás, pois via-se uma grande claridade. E fui dar a uma gruta que tinha na entrada uns degraus que só podiam ser de oiro, e a gruta por dentro era toda de vidro e tinha estrelas a brilharem. Ia eu a entrar e estavam uns lindos cabelos a ondear na água, e uma mão a penteá-los com um pente de oiro fino.
Mas veio uma grande cobra que se me envolveu ao de roda do pescoço, e então dei um puxão na corda, para içarem para cima. Quando me tiraram da água, já não dava acordo, e tiveram-me morto, estendido na erva...
– Está visto que tu nem com uma pedra ao pescoço...
– Mas enquanto andava lá por baixo, andava bem, como se respirasse o ar... E ainda lá voltei duma outra vez. Então levei uma faca. Mas não vi nada. O menino pode acreditar que nessa hora é que eu tive medo. (E baixou a voz, como quem confessa um segredo:) Era um escuro como se a água se tivesse tornado em tinta, e um frio, que sentia os ossos a estalarem.... Há-de ser este Verão, quando as águas estiverem mais finas, que hei-de lá voltar...
– E eu é que te hei-de amarrar a pedra ao pescoço... – prometeu o moço dos bois.
– Ao cinto – emendou Pedro com ingenuidade.
– Ó menino, para ele é melhor ao pescoço. E uma mó do moinho.
– Vocês acreditam em almas do outro mundo e não acreditam em moiros, que foi um povo que já houve antigamente? Aí está como é o vosso juízo.
– Tanto sei que há moiras e moiros, que sei que tu és um, e não te deitam a cabeça num cepo prà cortarem e porem-te lá outra melhor...
– Mas tenho palavreado pra te vender numa feira...
– Lá isso és capaz: de enganar alguém... – resmunga a velha.
– A si já não, ti Leonor.
– Brinca com as da tua idade.
– Brincar? Não que elas querem-me logo a sério. Quanto lhe devo do conselho?
– Tenho mais pra te dar. Pagas no fim. E toca a andar, que são horas. Quero deixar a fogueira apagada. Estás a desafiar uma criança pra ir pró rio com cordas, à procura das caldeirinhas de oiro, e não queres que te chamem ao menos maluco?
– Eu quero... Se fosse igual aos outros, sem pensar em fantasias, é que era um triste desgraçado. Hei-de desencantar a moira e entrar por aquela porta com ela na minha frente, pra vocês verem o que é uma rainha com o manto de seda e a coroa de lumes... E eu com a caldeirinha de oiro cheia duma água de onde você bebe um golo e fica logo uma rapariga de dezoito anos, capaz de um fantasma me cortar a mão como ao Januário... E o menino, se descobrir alguma moira encantada, conte-me tudo, que eu acredito. Não acredito é em quem só vê as coisas que toda a gente pode ver... e não arrisca nem um dedo à chuva... Boa noite!
Veio uma rabanada de vento, quando se abriu a porta da rua. E João Meco saiupara o escuro, a assobiar, feliz e aventuroso, como se, desaparecendo nas trevas da noite estrelada, entrasse, com seu passo natural, no encantado mundo das grandes maravilhas.


Branquinho da Fonseca, Bandeira Preta, 1956





27/01/2009

A Famosa Rã Saltadora do Condado de Calavera

A pedido de um amigo que me escreveu do leste, procurei o velho tagarela Simon Wheeler, para me informar sobre alguém chamado Leônidas W. Smiley. Eis o resultado: concluí que o tal Leônidas W. Smiley não existia e que o meu amigo jamais havia conhecido tal pessoa. Ele apenas imaginou uma armadilha para que o velho Wheeler se lembrasse do nome do notável Jim Smiley, prevendo então que despencaria em cima de mim longas e entediantes histórias. Se foi sua intenção, acertou.
Encontrei Simon Wheeler cochilando junto ao aquecedor da velha taverna no decadente acampamento dos mineiros de Angel. Era gordo e careca, com um sorriso desenhado no semblante tranqüilo. Acordou me dando um bom dia. Então perguntei a ele sobre Leônidas W. Smiley, um reverendo e jovem ministro evangelista, que, segundo informações, havia residido no acampamento. Acrescentei ainda, ser muito importante para mim qualquer informação sobre ele.
Simon Wheeler arrastou uma cadeira para o lado da sua e me fez sentar. Iniciou então a sua monótona narrativa. Nenhuma vez sorriu ou franziu o cenho ou alterou a voz. Falou fluentemente, sempre gentil mas sem nenhum entusiasmo ou emoção. Durante toda a narrativa falou com franqueza e coração aberto, sem deixar vazar qualquer sentido de reprovação em qualquer das histórias sobre seus amigos, demonstrando claramente um grande respeito por eles, elevando-os à condição de gênios. Por mim, deixei que contasse toda a história sem interferir em nada.
“Reverendo Leônidas W. hum, reverendo Le… - bem, tinha um por aqui que atendia pelo nome de Jim Smiley no inverno de 49, talvez na primavera de 50, não me lembro bem, mas o que me fez pensar que era um ou outro é por me lembrar que o grande canal não estava ainda terminado quando ele chegou no acampamento; mas era um homem dos mais diferentes que já vi, sempre disposto a apostar em qualquer coisa, se conseguisse alguém para apostar contra; e se ninguém estivesse contra, ele ficava a favor. O que ele queria mesmo era apostar. E o incrível era sua sorte, porque mesmo assim ele quase sempre estava ganhando; sempre na espreita, esperando aparecer um motivo para jogar, e como lhe contei, não importava muito para que lado ele estava; nas corridas de cavalos, terminava sempre cheio do dinheiro ou completamente duro. Se tivesse uma briga de cachorros, lá ia ele; de gatos, apostava; de galinhas, também! Amigo, se tivesse dois passarinhos pousados na cerca, queria apostar qual voaria primeiro. Até às reuniões evangélicas ele ia pensando em apostar no pastor Walker, por ser ele o melhor pregador da região. Se visse uma lagarta indo para algum lugar, ia querer apostar com você quanto tempo ela levaria para chegar no seu destino, e se dispunha a seguir o bicho até o México, se fosse o caso, para saber o tempo que levou para chegar. Muitos aqui conheceram o Smiley e podem contar muitas coisas sobre ele. Amigo, não fazia diferença para ele - apostava em qualquer coisa o filho da puta. Quando a mulher do pastor Walker ficou doente, parecia que ia morrer, pois ficou assim muito tempo; numa manhã, dando com o pastor, o Smiley perguntou como ela estava e ele disse que ela estava melhorando - graças ao Senhor e sua infinita misericórdia - e com a benção divina, logo estará completamente sarada. E o Smiley, disse em seguida: ‘Bem, eu arrisco dois dólares e meio como ela não vai ficar’.”
“Esse tal Smiley tinha uma égua - que os meninos apelidaram de ‘justos 15 minutos’, mas era só uma gozação, porque, você sabe, ela corria mais do que isso, - e ele costumava ganhar dinheiro com ela; bem, ela era lenta mesmo, tinha asma, diarréia, tuberculose, sei lá o que mais. Todos costumavam levar uma vantagem e ficar na frente pelo caminho, mas sempre no final da corrida a égua ficava excitada, meio desesperada, e disparava dando saltos e coices para todos os lados, levantando mais poeira do que um vendaval, e acabava sempre por passar a linha de chegada pelo menos um nariz à frente dos outros.”
“Ele tinha, também, um buldogue, pequeno, pelo qual ninguém lhe daria um centavo, parecia um vira-lata que só servia para roubar a comida dos menos avisados. Mas era só ouvir o tinir das moedas e o Smiley colocá-lo na rinha, que ele se transformava e ia direto morder as patas traseiras dos adversários e ficava agarrado ali, não mastigava, se me entende, só ficava agarrado até o dono do outro cachorro jogar a toalha, mesmo que demorasse um ano. Smiley sempre ganhou dinheiro com o cachorrinho, até o dia em que encontraram um cachorro que não tinha as pernas traseiras, amputadas por uma serra circular, e quando a briga já estava adiantada e o dinheiro casado é que se viu onde eles tinham se metido; o outro cachorro tinha tudo ao seu gosto e o cachorrinho, assustado e sem poder agir, acabou sofrendo muito com as mordidas do outro cão, que não tinha as pernas de trás. Olhou para Smiley com tristeza como a recriminá-lo por colocá-lo para lutar com um cachorro que não tinha as patas traseiras, exatamente onde sempre se agarrava tenazmente, deitou e morreu. Era um bom cachorro, Andrew Jackson era o seu nome, e ficaria famoso se tivesse vivido mais tempo, porque era gênio. Nem é preciso reforçar essa idéia, porque as lutas que fizera anteriormente demonstrava o seu talento. Sempre fico triste quando penso na última luta e como terminou.”
“Bem, Smiley tinha uns cãezinhos da raça terrier para caçar ratos, galos de briga e gatos selvagens, e tantos outros animais que você não pode imaginar o que ele não tinha para competir numa aposta. Um dia ele arranjou uma rã, levou-a para casa, disse que iria treiná-la e não fez outra coisa senão ensinar aquela rã a saltar pelo seu jardim. E pode apostar que ele ensinou. Bastava dar um toque no traseiro dela e você via aquela rã rodando pelo ar, como uma panqueca, podia vê-la dar saltos mortais, girar, e cair com as quatro patas, como um gato. Também a treinou para pegar moscas, forçando que ela praticasse com tal exagero que pegava as moscas à distância, com a maior facilidade. Smiley insistia em dizer que se podia ensinar qualquer coisa para uma rã que ela aprenderia e eu acredito nisso. Meu amigo, eu vi ele colocar Daniel Webster no chão - Daniel Webster era o nome da rã - e atiçar: ‘Moscas, Daniel, moscas!’, e no mesmo instante, mal dava para ver, ela já tinha pulado para cima do balcão, engolido a mosca, e voltado para a sua posição, já coçando a cabeça com uma das patas traseiras, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo para uma rã fazer. Em lugar nenhum você podia encontrar uma rã tão simples e modesta, apesar do seu talento. Saltar num terreno plano, então, ia mais longe do que qualquer outro animal da sua espécie. Smiley apostaria todo seu dinheiro no salto da sua rã. Ele tinha muito orgulho da sua rã, e podia mesmo ter porque pessoas que haviam viajado pelo mundo estavam de acordo que jamais haviam visto outra igual.”
“Bem, Smiley deixava a rã numa pequena gaiola, onde, de quando em vez, levava à cidade para apostar. Certo dia, um sujeito - desconhecido no acampamento - viu Smiley levando a gaiola e perguntou:
“‘O que leva aí nessa gaiola?’”
“Smiley respondeu, fingindo indiferença: ‘Podia ser um periquito ou um canário, mas não é não… é uma rã’.”

“O estranho pegou a gaiola, examinou-a com cuidado de um lado ao outro e falou: ‘Está certo, parece que é. E para que serve?’”

“‘Bem’, disse Smiley, calmamente. ‘Ela é muito boa em saltos - salta mais alto do que qualquer outra rã no Condado de Calaveras’.”
“O estranho pegou a gaiola de novo e examinou a rã novamente, depois a devolveu para Smiley, com expressão de dúvida: ‘Pelo que vejo essa rã parece igual a todas as rãs’.”
“‘Talvez você não veja,’ disse Smiley. ‘Talvez você entenda de rã, talvez não; talvez até você seja um especialista, talvez um amador. De qualquer jeito eu tenho a minha opinião e estou disposto a bancar 40 dólares que ela é capaz de saltar mais alto do que qualquer outra rã no condado de Calaveras’.”
“O estranho pensou a respeito e disse, com tristeza: ‘Bem, não sou daqui e não tenho uma rã, senão eu apostava’.
“Então Smiley propôs: ‘Tudo bem, tudo bem, você segura minha gaiola que vou arranjar uma rã para você.’ Na hora o estranho casou os seus 40 dólares e ficou esperando por Smiley.”
“Sentado ali um bom tempo, o estranho começou a matutar consigo mesmo e resolveu aproveitar a chance que lhe era oferecida. Sacou a rã da gaiola apertando-a até que abrisse a boca, então recolheu à mão-cheia um punhado de chumbo de caça que enfiou pela boca adentro da rã. Em seguida colocou o animal no chão, que ali ficou estático. Enquanto isso Smiley procurava junto ao brejo uma rã, para que o estranho pudesse apostar. Finalmente conseguiu, levou-a ao estranho, dizendo: ‘Agora, se você está pronto, coloque a sua rã junto ao Daniel, com as patas alinhadas que eu vou dar o sinal. E disse: ‘Um… dois… e… já!’ Cada apostador deu o seu toque por trás da sua rã, mas, enquanto a rã do brejo dava um salto para valer, Daniel apenas levantou os ombros - assim como fazem os franceses - sem conseguir se mover. Ficou plantado como uma igreja; era como se estivesse ancorado. Isso deixou Smiley intrigado e aborrecido, mas não podia imaginar o que estava acontecendo, é claro.”
“O estranho pegou o dinheiro e foi embora feliz, fazendo um sinal de positivo com o polegar. Mais adiante se voltou: ‘Bem’ - repetiu ele. ‘Não vejo nada nessa rã que a faça melhor que as outras’.”
“Smiley coçou a cabeça, procurando uma explicação para o acontecido, olhando Daniel e resmungou: ‘Eu me pergunto o que fez esse animal desistir. Que será que deu nela? O certo é que ela realmente está com um aspecto diferente, parecendo um saco de batatas’. Quando levantou Daniel logo percebeu o excesso de peso: ‘Opa, ela deve estar pesando mais de 5 libras!’ - exclamou, enquanto virava a rã de cabeça para baixo, e viu ela arrotar espalhando um bom punhado de chumbo de caça. Entendendo o que havia acontecido, ele partiu atrás do estranho disposto a tudo, mas não conseguiu encontrá-lo…”
Nesse momento do relato, Simon Wheeler ouviu alguém chamar seu nome lá de fora e se levantou para ver do que se tratava. Afastou-se dizendo: “Oh, amigo, fique onde está que volto num segundo.”
Mas vocês me perdoem, porque achei que as histórias que Simon me contava desse Jim Smiley nada tinha a ver com o reverendo Leônidas W. Smiley, nem me traria informações sobre ele, por isso me levantei para sair.
Na porta, Wheeler, o falante, voltava e me segurou pelo casaco, querendo continuar a contar os casos:
“Bem, esse tal Smiley tinha uma vaca caolha e sem rabo… só um coto, como uma banana…”
Mas aleguei falta de tempo, para não dizer de vontade, e não esperei para ouvir a respeito da pobre vaca e fui embora.

Mark Twain





O Diabo e o Relojoeiro

Vivia na paróquia de S. Bennet Fynk, perto da Bolsa Real, uma viúva pobre e honesta, a qual, tendo perdido o marido, aceitou inquilinos em sua casa, isto é, alugou algumas peças desta a fim de reduzir a despesa do alugue. Entre outras, cedeu a água-furtada a um fabricante de maquinarias de relógio, ou que fazia peças do género, e, segundo o hábito da época, trabalhava para as relojoarias.
Certo dia, um homem e uma mulher subiram para falar com o relojoeiro sobre alguma coisa relacionada a sua profissão. Chegando perto da escada, e vendo a porta inteiramente aberta, conseguiram enxergar o pobre infeliz (o fazedor de relógios ou de seus mecanismos) enforcado numa viga que saía da parede, um pouco abaixo do tecto. Surpreendida com o espectáculo, a mulher parou e gritou para o homem que a seguia pela escada para que corresse e cortasse a corda do infeliz.
Naquele momento, de um canto do quarto, que da escada não era possível ver, corre outro homem, trazendo na mão um banco dobradiço, como quem vinha com muita pressa, e coloca-o no chão debaixo do pobre enforcado, e, apressado sempre, sobe ao banco, tira do bolso uma faca e, segurando a corda com uma das mãos, acena com a cabeça para o casal que se achava na porta, como para dizer-lhes que parassem, que não subissem, e mostra-lhes a faca na outra mão, como se estivesse a ponto de cortar a corda do enforcado.
Nisso a mulher estacou, mas o homem que estava no banco dobradiço continuava a remexer na corda com a mão e com a faca, como procurando o nó, mas sem dar o corte. Então a mulher gritou outra vez, e o homem que vinha atrás dela falou:
- Vamos subir – disse ele – supondo que havia algum obstáculo – e ajudar o homem que está no banco.
Mas o homem que estava no banco fez-lhe de novo sinais para ficarem quietos e não subirem, como a dizer: - Faço isso num instante. Deu dois cortes com a faca como se cortasse a corda e parou outra vez. Entretanto, o pobre continuava enforcado e, consequentemente, morrendo. Nisso a mulher pergunta:
- Que há? Por que não corta a corda duma vez?
E o homem que estava atrás dela, esgotada a paciência, empurrou-a para o lado e disse-lhe:
- Deixe que resolvo isso!
E sobe correndo e invade o quarto.
Mas, quando ali chegou, vejam, o mísero lá estava enforcado, porem não se via nenhum homem com faca, nem banco dobradiço, nem outra coisa qualquer. Tudo isso não passara de espectro e ilusão, destinados, sem dúvida, a deixar perecer e expirar o pobre infeliz que se tinha enforcado.
O homem ficou tão surpreso e aterrado que, não obstante a coragem de que dera mostra, caiu no chão como morto. E a mulher viu-se na obrigação de cortar a corda ao enforcado com uma tesoura, só o conseguindo com grande esforço.
Como não tenho motivo para duvidar da veracidade desta história, que soube por pessoas em cuja honestidade posso confiar, penso que não nos será nada difícil saber quem podia ser o homem do banco: era o Diabo, que lá se pusera a fim de acabar o assassínio do homem, a quem, na sua condição de Diabo, havia tentado e levado a ser o carrasco de si mesmo. O fato, aliás, corresponde tão bem a natureza do Diabo e ao seu ofício, o de assassino, que nunca o pus em dúvida. Nem me parece injustiça com o Diabo acusá-lo desse crime.

Daniel Defoe


25/01/2009

Alguns Quartos de Hotel em Itália


Estas são as minhas mãos. Dobro os dedos, num gesto de quem se comove. Memórias, ou as pétalas de rosa que lhes servem de leito, afastam-nas de outras mãos, aquelas que te pertencem. O ruído de passos na carpete do corredor foi mínimo, subtil, e o seu teor em angústia foi inaudito. A maçaneta da minha porta não roda sem esforço. A vista da minha janela honra a nulidade fluvial de Milão, como se a ausência de um rio possuísse ao mesmo tempo virilidade e bonomia mundana. Porquê assim, sem uma explicação, de maneira tão brusca? Porquê sem um grito, teu ou (breve e abafado) meu?
Faz-se tarde para ir esperar Agatão à estação. Ele vem acompanhado por uma amiga com quem simpatizo moderadamente. Conheço dois caminhos para ir da Stazione Centrale até ao Duomo, um descendo a Via Pisani, o outro seguindo pela Via Vitruvio e cortando à direita no Corso Buenos Aires. As ruas encontravam-se bloqueadas pelo exército de Napoleão que fazia a sua entrada na cidade, gravuras representando uma ingénua caricatura de pendor anti-austríaco vendiam-se aos milhares, e todo o povo confraternizava com aqueles soldados com menos de vinte e cinco anos, comandados por um general que não teria mais de vinte e sete. Bailes improvisados passaram a encher as noites milanesas.
Cruzei-me com um homem que mastigava e cuspia tempo. As minhas mãos têm mansas margens. Do hotel Villa Flori, de Como, respondeu-me uma voz de contralto, com ademanes de soprano.
Vorrei una camera singola con bagno. Con o senza bagno? Ho detto com bagno. Quando arriva lei? Domani, se ci sono i treni.
O Agatão queria passar por Cantù no caminho. Gabou-nos a basílica do século X, e a atmosfera. Mas eu preocupava-me apenas em saber se os reflexos nocturnos do luar na superfície do lago propiciavam o esquecimento, para além do seu estatuto de cenário idílico para as escapadelas de Gina, condessa de Pietranera, que assim vive uma segunda juventude.
Perguntei ao rapaz que lavava os carros dos hóspedes se dali se conseguia avistar Cernobbio, ou mesmo o monte Bisbino, mas ele limitou-se a desviar o olhar sem dizer nada, e trouxe-me um guarda--chuva, pois ameaçava chover. Na terra enlameada junto à margem vieram imprimir-se as pegadas de Fabrice Del Dongo, que esperava (sem o saber) um sinal para se juntar ao Imperador, nas planícies desoladas de Waterloo. Um fragmento de pé humano. Trata-se de uma batalha que determina o decurso do século XIX.
Porque não visitamos Nápoles, sugere a amiga de Agatão, à mesa do pequeno-almoço. Eu respondo com um encolher de ombros. Mais tarde, o sol rompe. É durante a nossa excursão de um dia a Lecco que lhes anuncio que um acontecimento capital exige novamente a nossa
presença em Milão. Trata-se da grande ou da pequena história, desta vez, pergunta Agatão. Lecco orgulha-se de um mercado bissemanal, na Piazza XX Settembre, que se realiza sem interrupções desde 49.
É também a cidade onde Manzoni passou a sua infância. O que te atrai em Milão, quis saber Agatão. Passeávamos pelo bairro de Brera, admiravelmente servido pela manhã húmida e muito fria. Recordações de infância e de juventude. A atmosfera. Metade de uma sala do museu Poldi Pezzoli. Os laços mais importantes são os laços humanos.
Um amigo meu, milanês de gema, frequentou o teatro Scala até ser capaz de se orientar nos seus corredores com os olhos vendados, e isto apesar de o espectáculo operático nada lhe dizer. Não esperava senão a ocasião para lançar o rumor de que, num certo camarote, se podiam saber notícias recentes de França e da Revolução. O rumor podia ou não ter sido julgado merecedor de crédito, mas foi precisamente o que sucedeu. Foi ao visitar este camarote que Gina foi apresentada ao conde Mosca, ministro da guerra do príncipe de Parma.
Gina esperava um pedante, mas em vez disso viu-se perante um homem cheio de espírito, e que falava com a maior das desenvolturas do seu cargo e do seu soberano. Com as mãos ocupadas por sacos de plástico da livraria Feltrinelli, entrámos no vestíbulo, a cuja vastidão
o lúgubre fim de tarde acrescentava uma finitude melancólica.
Foi com grande apreensão minha que…
(esta cidade mesquinha, espécie de Gomorra em pantufas)
… decidimos mudar de hotel, por causa do ruído do ar condicionado.
Na recepção perguntei ainda se alguma mensagem chegara para mim, proveniente ou não de alguém com o lábio inferior proeminente, e uma edição económica de Ungaretti espreitando para fora do bolso do casaco.

Può mostrarmi sulla carta…?
Dopo l’incrocio…
Giri a destra / a sinistra…
Sempre diritto…
Quanto costa il biglietto per…
Vorrei una andata e ritorno per…
Prima / seconda classe.
La prima colazione è compresa?
Vado via prossima domenica.
Sono arrivato lunedì scorso.

Foram ver, e disseram que não. Mas no coração / nenhuma cruz falta.
Na estação central de Milão, indicaram-nos a plataforma de onde partia o comboio para Parma. Na estação central de Parma, indicaram-nos o caminho para o balcão de informações turísticas. No balcão de informações turísticas, marcaram-nos quartos no hotel Astoria, de três estrelas. No hotel Astoria, forneceram-nos abundante literatura sobre monumentos e locais de atracção turística.
Nas traseiras do Palazzo della Pilota, construído durante a dinastia dos Farnese, que durou de 1545 a 1973, um cavalheiro bem vestido, calçando sapatos de pele verdadeira, com ar cansado e compleição de halterofilista, interveio mesmo a tempo de impedir que um carteirista abusasse da ingenuidade de um homem de negócios japonês.
Seguiram-se explicações confusas e agradecimentos copiosos.
Enquanto o Agatão tirava fotografias tipo passe num Photomaton, a amiga dele contou--me que estava a escrever um romance, que, se bem que ainda numa fase incipiente, possuía já estrutura e alguns episódios. Tudo se passa na Itália dos anos 50, ou talvez dos anos 60.
A personagem principal é um engenheiro, ainda jovem, que, depois de um estágio numa pequena cidade do Piemonte, é enviado para Siena, ou talvez Perugia, onde chega a um dia de semana, ao fim da tarde. Veste o melhor fato e gravata, como se esperasse encontrar alguém de importante a acolhê-lo. Nunca descera tão a sul da península itálica. Não conhece ninguém. Dirige-se à cantina da fábrica. A sala encontra-se quase deserta, e ele pergunta se já é tarde para comer.
“Spaghetti arranja-se sempre… E talvez se encontre ainda alguma carne guisada.” Ele senta-se, e serve-se de água, embora não sinta sede. Um dos empregados da cantina aproxima-se e mete conversa.
Os dias passam. Ele deixou a mulher em Turim, e escreve-lhe regularmente. A sua escrita é miúda e lenta. “Parma é sinistra, como se a história, em vez de se ficar pelas pontes e pelas fachadas, se amontoasse nas valetas. A minha cama range como um animal em agonia, e a colcha é áspera. Parto amanhã.” Agatão bem tentou dissuadi-la, mas a decisão estava tomada. O aperto de mão que eu e ela trocámos poderia ter sido um pouco menos seco. O quarto deixado livre por ela era contíguo ao meu. À falta de rangidos dilacerantes, foram as
recriminações de Mosca a Fabrice que não me deixaram dormir, na noite seguinte. De regresso da sua amada Grianta, Fabrice tinha-se exposto a um risco inútil, indo ao ponto de roubar um cavalo.
“Estamos rodeados de acontecimentos trágicos.” Gina, em lágrimas, suplicou a Mosca que não fosse mais longe. Faltou apenas a bolsa, com vinte escudos a menos, que Fabrice trazia. Essa bolsa fora-me confiada pelo homem dos sapatos de pele. Nos seus olhos aparecera uma centelha de cumplicidade. Perdi a bolsa num mercado ao ar livre. Dirigi-me ao Ufficio di Oggetti Smarriti, mas estava fechado por falta de pessoal. Queixei-me do ruído na recepção do hotel. O recepcionista encolheu os ombros, muito devagar, em sinal de impotência, e sorriu. Achei aquele sorriso extraordinariamente belo.
Entretanto, em Bologna, Fabrice envolvera-se com a actriz Fausta. Longe de Parma, dos seus inimigos poderosos, mas longe também da tutela daqueles que lhe queriam bem, Fabrice sentia-se mais livre para dar largas à sua impetuosidade, que apenas em parte se poderia imputar à juventude. A breve e intensa paixão pela jovem actriz foi acompanhada por bilhetes provocadores dirigidos ao seu amante, o conde M***, e por uma mais do que imprudente surtida a Parma.
Onde estás tu? Penso em ti noite e dia, mas sobretudo de noite. À mesa do pequeno-almoço (paupérrimo), Agatão mostrou-me o itinerário que escolhera para aquele dia. Agradou-me por fazer coincidir o longo passeio pelo Parco Ducale com a hora de maior luminosidade. Agatão comia com apetite e dava mostras de bom humor. O deplorável episódio da véspera parecia ultrapassado, e regozijei-me por isso. Momentos havia, porém, em que aquela boa disposição soava decididamente a falso. Eu estava atento a cada subtil inflexão de voz, a cada escolha de palavra. Asparagi, carciofi, fagiolini, lenticchie, melanzana, piselli, sedano, spinaci. Minuto, ora,giorno, settimana, mese, anno. Carta di credito, assegno.
E este, inverosímil e distante, continua a ser o meu corpo. Como descrevê-lo? Pensa em tristes arremedos de querer e latitude, dotados de moto próprio, imagina muitos destes largados numa praça pública, e admite que um deles é o meu. A sua temporalidade dá-lhe
um único direito, o de esperar por algo sob um pórtico sombrio.
Sangue, postura e unhas partilham inimigos; a fronte é branca como neve recente; a pele que cobre o esterno parece mais delgada do que é na verdade. A fadiga não conta, quando se visita uma cidade tão rica em património arquitectónico. Visitámos igrejas e palácios, torres e pátios, praças e parques. Estados de espírito confundiam--se com paredes, onde humidades alastravam em círculos magníficos; os meus dedos não chegavam para aquilo que gotejava. Agatão comparou desfavoravelmente a Parma de hoje à Parma de há quatro anos, data da sua última estadia. Assegurou-me que se notavam diferenças, ao nível do cosmopolitismo, do tráfego automóvel, da paisagem urbana, e até na delicadeza do homem da rua. O dono de
uma barraca de apostas mútuas pusera-o ao corrente (a ele, Agatão, estranho e estrangeiro) do desespero de Gina por causa da detenção de Fabrice. Tudo por culpa de um grosseiro erro de cálculo de Mosca. Nenhum súbdito do duque ignorava o afecto que Gina dedicava ao sobrinho. Perante o cepticismo de Agatão, o homem tinha-lhe dito para procurar no cesto do lixo da geladaria, do outro lado do Piazzale Santa Croce. Agatão encontrou um rascunho de
carta amarfanhado: “…Numa palavra, caro conde, acreditai que sereis sempre o meu amigo mais caro, mas jamais outra coisa. Não alimenteis, peço-vos, qualquer ideia de regresso, tudo está deveras acabado. Contai sempre com a minha amizade.” Agatão levara o rascunho para o quarto, e chegara a ficar inquieto com a possibilidade de a cameriera (que não lhe merecia confiança) o descobrir entre os seus papéis. Fiz ver a Agatão…
(a íris e os músculos da maxila são aliados, quando a dignidade é o que está em causa, e seja ou não o cenário a região da Emilia Romagna)
…que alguma coisa de positivo haveria a assinalar na arquitectura dos edifícios mais modernos, como por exemplo aqueles varandins estreitos mas com espaço para uma pessoa que se queira fazer ouvir do outro lado da rua cantando uma ária de ópera.
Ou mesmo comunicar através de um alfabeto especial, concebido por Clélia, a filha do governador da cidadela, escrito nas páginas de um breviário, com tinta improvisada à base de carvão e vinho. Ou por meio de sinais luminosos.
Eu gastava uma pequena fortuna em cartões de telefone. A posta restante de Parma era-me agora familiar. Todos me tratavam com lhaneza e cordialidade. As toalhas limpas que apareciam todos os dias em cima da minha cama cheiravam bem, a sândalo e a alfazema.
E contudo, contudo, não era possível que a população ignorasse aquilo que se preparava. A evasão de Fabrice e o assassinato do duque tinham sido planeados com minúcia e paixão, com a ajuda preciosa de Ferrante Palla, um poeta proscrito que adorava Gina. Passaram-se vários anos, muitos anos. Por fim, chegou o ano de 2003. Agatão declarou estar farto de Parma, e acompanhou este seu desabafo com uma mão-cheia de cascalho que arremessou ao leito do rio. O seu gesto continha mais resignação do que raiva. Fomos convidados para um baile de máscaras. Agatão é um homem cuja aparência sofisticada e mundana não chega a esconder um interior corroído pelo mal do século. Concordei que chegara o momento de partir. O antigo e familiar tema do lugar geográfico que cristaliza uma aversão, moldando a sua paisagem ao sabor de um modesto quinhão de miséria humana, instalava-se com tranquilidade e maneiras de soberano. Quem não confia em mim não formaria um coro, nem
uma centúria rubra de jactância, não passaria de um solista no seu pedestal descolorido pela intempérie; e foi por isso que me bastou entrar numa loja, comprar selos e envelopes, recolher alguma da confiança que tombava em pétalas pelas ruas, e enviar tudo para o endereço que para sempre saberei de cor. Partimos no próprio dia do casamento de Clélia. Por sorte, no hotel aceitaram guardar as nossas pesadas mochilas durante algumas horas. A cerimónia foi sumptuosa, condicente com o prestígio de que gozava o general Conti. Fabrice passara oito dias no silêncio mais absoluto, e mesmo o seu criado e aqueles que lhe estavam mais próximos tinham sido instruídos no sentido de não lhe dirigirem a palavra. Clélia estava dividida entre o afecto imenso e eterno que a unia a Fabrice e noções confusas mas robustas de pecado e dever. A presença de Fabrice na cerimónia encheu Clélia de um júbilo quase impossível de disfarçar.
Esse júbilo pediu dois versos de Petrarca, que Clélia repetiu para si mesma. Com a ajuda do leque aberto, murmurou o seu reconhecimento a Fabrice, e deixou-lhe um voto de amizade eterna. Despedi-me de Agatão na gare. Ele mencionara Nápoles, com medíocre convicção, mas eu convencera-o sem esforço de que Nápoles não era mais do que um algures por excelência, os bastidores das principais linhas narrativas, o mudo contrapeso às eloquentes intrigas palacianas do ducado de Parma. Lágrima no olho esquerdo de Agatão. O meu comboio partiu com um atraso de duas horas. Correntes de ar frias faziam voar folhas de jornal. O cansaço das noites mal dormidas derrotou o meu corpo. A minha saliva adquiriu um gosto ácido.
Um músico de rua falhou uma nota. O tempo disse não. O filho de Clélia e Fabrice morreu prematuramente. Gina cumpriu a sua promessa de nunca mais voltar a Parma. No seu palácio de Vignano, na margem esquerda do Pó, recebia a fina flor da sociedade. O conde estava imensamente rico. O novo duque era amado pelos seus súbditos. To the happy few.


in As Não-Metamorfoses, Lisboa: Errata, 2004


22/01/2009

Maria Altinha

Todos os anos, mulheres que vivem lá para o sul, ao pé do mar, atravessam as serras e espalham-se pela planície, para a monda e para o trabalho dos arrozais.
Trazem cantigas alegres e falas rumorosas, e o povo das vilas junta-se nos largos para as ver passar a caminho das herdades. E, nos primeiros dias da faina, à hora a que o manajeiro tem as palavras mais desejadas para os que andam curvados entre as espigas ou enterrados no lodo das várzeas, quando o sol desaparece e cigarras e ralos arrastam um traquinar que se perde pelos longes, as mulheres de ao pé do mar cantam coisas novas e coloridas.
Em volta do lume, malteses e ganhões calam as vozes pesadas e ficam-se a ouvi-las, com os olhos parados na noite, pensando nas terras da beira-mar, lá donde elas vieram. Que as cantigas das moças do sul têm o brilho das águas e a vivacidade das ondas. E as suas gargalhadas são naturais como um pincho de água trespassado de sol, saltando numa rocha. Elas trazem a frescura do mar para a charneca desolada.
Por isso o povo das vilas se junta nos largos para as ver passar, e malteses e ganhões ficam calados a ouvi-las, depois da faina, quando a noite se derrama de estrelas, pela terra.
Maria Altinha pela primeira vez saiu da aldeia e a longa viagem foi uma coisa nova para ela.
Ficaram para trás as serras e amendoeiras e caminhos murados e hortas de terra solta com árvores carregadas de frutos. E os laranjais e as casinhas brancas e as noras chiando pelas encostas. E o sussurro azul embalador do mar e o cheiro do mar que o vento trazia até à janela do seu quarto. E a mãe fazendo cestinhos de palma à porta da casa, e os irmãozinhos vendendo-os pelas vilas – tudo, tudo ficou para trás, lá para longe... Agora, era aquele descampado raso e poeirento, com grandes montados de onde em onde, e sempre raso, bravio e deserto.
Mas que importava? Depois voltaria para a aldeia com o dinheiro ganho no seu novo trabalho, e nem a mãe nem os irmãos passariam fome quando viessem os frios do Inverno.
... Logo que chegasse a casa, a mãe abraçá-la-ia chorando, e ela, com um sorriso rasgado, havia de mostrar o seu saquito de chita cheiinho de dinheiro. E pela calada da noite, com a chuva batendo na telha e o vento correndo lá por fora, em volta da lareira ouvi-la-iam contar as coisas daquelas terras; os irmãos fazendo perguntas e olhando-a de olhos brilhantes, admirados das respostas.
Depois, o mais novinho, vencido pelo sono, tombaria a cabecita para o seu colo e o outro logo a seguir também. Só o mais velho teimaria em ouvir até chegar aquele peso maior que as suas forças a puxar-lhe as pestanas e a fechar-lhe os olhos. Ela e a mãe iriam deitá-los e deitar-se. E a chuva e o vento não fariam medo porque, com um ou outro trabalho que aparecesse, as economias levadas da planície chegariam para todo o Inverno, sem que a fome entrasse em casa.
Por isso a sua voz clara transbordava de alegria quando cantava e os malteses quedavam-se a ouvi-la até o sono vir.
Valdanim, mal engolia o naco duro, arrastava-se para o pé da casa pegada ao celeiro onde dormiam as mulheres. Pràli fi cava, de. cigarro apagado, a olhar Maria Altinha e a sorrir-lhe; uns dentes enormes debaixo do bigode, os braços pousados sobre os joelhos.
Vinham as cantigas, os risos – as mulheres do sul venciam os homens da planície naqueles primeiros dias.
Mas, agora, tudo mudava a pouco e pouco. Já a malta arrastava um coro pesado pelas quebradas e a voz das mulheres esmorecia. Começavam a sentir na carne a faina dolorosa; desde a manhã à noite, debaixo de um sol abrasador. O ar escaldante da planície secara a frescura do mar. Só as cantigas dolentes soavam pela calada da noite.
E Valdanim tomava fôlego deitando a cabeça para trás, os olhos fitos em Maria Altinha como se .cantasse só para ela, embora a sua voz se perdesse na toada igual das outras vozes da malta. Embora; Valdanim cantava para ela e, já quando a via, não era só aquele sorriso parado, – uns dentes enormes debaixo do bigode – era também uma frase atrevida:
– Maria Altinha, uma noite destas hei-de falar-te a preceito...
Mas a moça não respondia e Valdanim enrolava-se na manta, pensando que um caso daqueles não queria conversa, mas sim uns braços bem fortes em volta da cintura de Maria Altinha... Um torpor tomava o corpo do homem, parecia afundar-se. Puxava a manta para a cabeça, os olhos voltados para o céu fechavam-se lentamente. Num momento era só Maria Altinha em todos os sentidos. E adormecia. Um sono toda a noite, sem pesadelos nem sonhos. Lá pela madrugada, aquele despertar doloroso, o corpo torcendo-se todo numa ânsia
revoltada. Mal acordado ainda, toca a andar com a malta a caminho da várzea.
Era a água fria do charco, subindo pelas pernas, que os acordava a todos de vez.
Pareciam condenados.
O céu baixo limitava, em volta, o horizonte escurecido. Outeiros e cabeços nus, onde em onde um sobreiro engelhado com os ramos torcidos, solitário. No meio da várzea, pernas enterradas até às coxas, cintura dobrada, em fila, as mulheres metiam os braços na água remexendo no fundo. Aqui e além um homem.
Dês que o sol vinha – desfazendo os véus húmidos da madrugada e depois queimando como lume – até que se ia embora, as mulheres, de saias repuxadas entre as pernas, mangas arregaçadas, chapinhavam no pântano mondando o arroz.
Mosquitos zumbindo riscavam a água barrenta, um fedor acre entupia as narinas e parecia entrar por todos os poros da pele. Com o meter das mãos para o fundo, pequeninas ondulações partiam, concêntricas, ao redor dos braços, e bolhas de ar vinham gorgolejando e rebentavam à superfície, avivando o fedor, mesmo por baixo do nariz. Porque o rosto das mulheres quase roçava no lodo quando davam um passo em frente, farrapos de madeixas caídas sobre a testa oscilavam pingando. E as mulheres acamavam os cabelos e coçavam as babas dos mosquitos com os dedos engelhados.
O capataz, na vala, olhava duro, mandando. Aqui e além, um homem. O sol de brasa pegado nas costas, o horizonte escurecido.
Pareciam condenados.
Por um anoitecer pesado de tristeza, campos fora só se ouvia o ralhar das cigarras e grilos. Maria Altinha sentiu as primeiras febres. Esteve dez dias sem ir à várzea. Dez dias sozinha, tremendo de frio e suores em cima da saca, tapada com a manta, a um canto da casa da arrumação. Vinha o carreiro da vila com a caixinha redonda cheia de hóstias e Maria Altinha sem ir à monda...
Um dia fez como os outros: meteu-se no arrozal amarelinha de sezões. Quando começavam a bater-lhe os dentes saía da água e deitava-se na terra, a tremer dos pés à cabeça. Era um quartel perdido; o capataz lá estava traçando o risco no papel.
Ao chegar sábado, aquela semana tivera só três dias para ela.
Valdanim, uma tarde, saiu da várzea muito antes do sol-posto. «Que não podia, que tinha uma dor.» O capataz consentiu à má cara, riscando o papel.
Valdanim, coxeando, tomou o caminho do «monte». Mas passada a encosta deixou de coxear e acelerou o passo.
Nuvens escuras de trovoada toldavam o céu. Um bafo morno tocava na pele da malta da monda, arrepiando-a de suores frios.
Valdanim corria para o «monte».
Para trás, cada vez mais para trás, ficavam homens e mulheres enterrados no arrozal, dobrados, com as mãos remexendo no fundo.
Pareciam condenados.
Deitada sobre a saca, Maria Altinha dir-se-ia adormecida.
Nesse dia nem se levantara para ir ao trabalho. Viera aquele tremor brusco e, sozinha no «monte», lutara tentando cerrar os dentes, crispando os dedos no fato. Um frio de morte tomava-lhe os membros e os dentes batiam acompanhados pelo gemido estrangulado que lhe vinha do peito. Em vão, numa luta dolorosa, o corpo retesado forçava por dominar os movimentos desordenados e contínuos. E sozinha: longe era a casa e longe era a mãe!... Depois o frio desapareceu lentamente e com ele o tremor. Ficou extenuada, o corpo quebrado, a cabeça latejante como se ardessem dentro labaredas de uma fornalha. E aquele calor foi descendo para o corpo. Ardia; o suor repassava, envolvia-a toda numa calda pegajosa. Pesadelos, um ruído colossal ia e vinha, ora intenso, insuportável, ora brando e caricioso, adormecedor. Falava gesticulando, chorava, ria. Os olhos escancarados tentavam ver, mas, no escuro, só passavam coisas disformes e rápidas, alucinantes. Lá vinha o ruído crescendo, crescendo até estalar como um trovão dentro do cérebro. E passava esvaído num sussurro longínquo. Também o calor se fora e os pesadelos terminavam. Ficaram aquelas
camarinhas de suor e o corpo sem forças para nada. Agora, Maria Altinha dir-se-ia adormecida.
E mal ouviu uns passos cautelosos que se aproximavam e uma voz que lhe soprava perto dos ouvidos. Mãos acariciavam-lhe os cabelos, o rosto e os seios.
Mãos enormes. Tudo vago, embalador como um sonho. Depois aquela dor aguda no ventre; uma punhalada rasgando-a!
Maria Altinha gritou, mas uns lábios grossos amachucaram-lhe a boca numa ânsia brutal.
Agora, o povo das vilas nem conhece as mulheres que voltam das searas e dos arrozais quando as vê passar, no largo, de jornada para o sul. Vão sequinhas e amarelas como se fossem velhas – sem uma fala, sem um sorriso – o rosto parado debaixo do lenço.
E aquela moça que tanto cantava e ria, pràli vai, murcha, calada como uma sombra. Só lá por dentro os pensamentos se enrodilham numa amargura sem fim...
«Virá o Inverno com chuvas e ventos e virá a fome para aquela casinha humilde da aldeia... E o irmãozito mais novo há-de tossir toda a noite e a mãe há-de chorar pelos cantos e nada, nada ela poderá fazer!...»
As outras mulheres parecem pensar o mesmo; tão caladas e sumidas nos lenços que mal se lhes vê a cara.
Por isso o povo das vilas sai dos largos desiludido e costuma dizer daquela gente que vem do sul, lá de ao pé do mar:
– É todos os anos o mesmo. Vêm cantando e voltam chorando...


Manuel da Fonseca, Aldeia Nova, 1942






18/01/2009

A Esfinge sem Segredo

Uma água forte

Achava-me numa tarde sentado no terraço do Café Paz, contemplando o fausto e a pobreza da vida parisiense, a meditar, enquanto bebericava o meu vermute, sobre o estranho panorama de orgulho e miséria que desfilava diante de mim, quando ouvi alguém pronunciar o meu nome. Voltei-me e dei com os olhos em Lord Murchison. Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivéramos juntos no colégio, havia isto uns dez anos, de modo que me encheu de satisfação aquele encontro e apertamos as mãos cordialmente. Tínhamos sido grandes amigos em Oxford. Gostaria dele imensamente. Era tão bonito, tão comunicativo, tão cavalheiresco. Costumávamos dizer dele que seria o melhor dos sujeitos, se não falasse sempre a verdade, mas acho que, na realidade, o admirávamos mais justamente por causa da sua franqueza. Encontrei-o muito mudado. Parecia inquieto, perturbado e em dúvida a respeito de alguma coisa. Senti que não podia ser o cepticismo moderno, pois Murchison era um dos conservadores mais inabaláveis e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza com que acreditava na Câmara dos Pares. De modo que conclui que havia alguma mulher naquilo e perguntei-lhe se ainda não se havia casado.
- Não compreendo as mulheres bastante bem - respondeu.
- Meu caro Geraldo - disse -, as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem compreendidas.
- Não posso amar sem ter confiança absoluta - replicou.
- Creio que há um mistério na sua vida, Geraldo - exclamei. - Conte-me isso.
- Vamos dar um passeio de carro - respondeu. - Há gente demais aqui. Esse carro amarelo, não. Um de qualquer outra cor... aquele ali, verde escuro serve.
Dentro de poucos minutos estávamos a descer a trote o bulevar na direção da Madalena.
- Para onde vamos? - perguntei.
- Oh! para onde você quiser! - respondeu. - Para o restaurante do Bosque. Jantaremos ali e contar-me-á tudo a respeito da sua vida.
- Primeiro quero que você me conte a sua. Revele-me o seu mistério.
Tirou do bolso uma pequena carteira de marroquim com fecho de prata e entregou-me. Abri-a. Dentro havia a fotografia de uma mulher. Era alta e esbelta e de aspecto singular com grandes olhos misteriosos e cabelos soltos. Parecia uma clairvoyante (1) e achava-se envolta em ricas peles.
- Qual é a sua opinião a respeito desse rosto - perguntou ele. - Inspira confiança?
Examinei o retrato atentamente. Parecia-me o rosto de alguém que guarda um segredo, mas o que não podia dizer era se o segredo fosse bom ou mau. Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos, uma beleza, de fato, mais psicológica do que plástica, e o ligeiro sorriso que lhe flutuava nos lábios era demasiado subtil para ter realmente encanto.
- Bem - exclamou ele, impaciente - que me diz?
- É a Gioconda em vestes de luto - respondi. - Conte-me tudo quanto a ela se refere.
- Agora não; depois do jantar - disse ele e começou a conversar a respeito de outras coisas.
Quando o empregado trouxe o nosso café e os cigarros, lembrei a Geraldo a sua promessa. Ele levantou-se da sua cadeira, caminhou duas ou três vezes acima e abaixo na sala e, deixando-se cair numa cadeira de braços, contou-me a seguinte história:
- Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu pela Rua Bond. Havia uma terrível aglomeração de veículos e o tráfego quase parado. Perto do passeio estava parado um carrinho fechado, amarelo, que, por esse ou aquele motivo, atraiu a minha atenção. Ao passar ao seu lado, vi surgir dele, a olhar para fora, o rosto que lhe mostrei ainda há pouco. Fascinou-me imediatamente. Fiquei a noite inteira a pensar nele e o dia seguinte também. Subi e desci várias vezes por entre aquela maldita confusão, lançando um olhar perscrutador para dentro de todo carro, à espera do carro fechado amarelo. Mas não pude descobrir ma belle inconnue (2) e afinal comecei a pensar que era ela apenas um sonho. Cerca de uma semana depois, estava a jantar com Madame de Rastail. O jantar estava marcado para as oito horas, mas às oito e meia ainda nos achávamos à espera na sala de visitas. Por fim o criado abriu a porta e anunciou Lady Alroy. Era a mulher que eu estivera a procurar. Entrou muito devagar, parecendo um raio de lua cercado de renda cinzenta, e, para intenso deleite meu, pediram-me que a conduzisse à sala de jantar. Depois de nos sentarmos, observei-lhe com a maior inocência:
«Creio que já a vi, há algum tempo, na Rua Bond, Lady Alroy».
Ela ficou muito pálida e disse-me, em voz baixa:
«Por favor, não fale tão alto. Podem ouvi-lo».
Senti-me desditosíssimo por ter começado tão mal e mergulhei cegamente numa dissertação sobre peças francesas. Ela falava pouquíssimo, sempre com a mesma voz baixa e musical, parecendo receosa de que alguém a estivesse escutando. Senti-me apaixonadamente, estupidamente enamorado e a indefinível atmosfera de mistério que a cercava excitava, a mais não poder, a minha curiosidade. Quando ela se retirou, logo após o jantar, perguntei-lhe se poderia visitá-la. Hesitou um momento, olhou em redor para ver se alguém estava perto de nós e depois disse:
«Sim; amanhã a um quarto para as cinco».
Roguei a Madame de Rastail que me desse informações a respeito dela; mas tudo quanto pude saber é que era uma viúva, morando numa bela casa em Park Lane e, como naquele momento um desses cientistas cacetes começasse uma dissertação a respeito de viúvas, para exemplificar a sobrevivência dos matrimonialmente mais ajustados, despedi-me e fui para casa.
No dia seguinte cheguei pontualmente a Park Lane, no momento exato, mas o mordomo disse-me que Lady Alroy tinha acabado de sair. Dirigi-me ao clube, bastante desiludido e confuso e, depois de muito refletir, escrevi-lhe uma carta, perguntando-lhe se me seria permitido tentar a sorte em alguma outra parte. Por vários dias não recebi resposta, mas afinal chegou-me às mãos um bilhetinho, dizendo-me que estaria ela em casa no domingo, às quatro e com este extraordinário pós-escrito: «Por obséquio não torne a escrever para mim aqui; explicar-lhe-ei, quando o vir». No domingo, recebeu-me e mostrou-se perfeitamente encantadora. Mas quando me despedia, pediu-me que, se alguma vez tivesse ocasião de escrever-lhe de novo, dirigisse a minha carta para «Sra. Knox, aos cuidados da Biblioteca Whittaker, Rua Verde». «Há motivos - disse ela - pelos quais não posso receber cartas em minha própria casa».
Durante toda a temporada via-a amiudadas vezes e a atmosfera de mistério sempre se manteve em torno dela. Às vezes pensava que se achava ela em poder de algum homem, mas parecia tão inabordável que não podia acreditar naquilo. Era realmente difícil para eu chegar a qualquer conclusão, pois ela era como um desses estranhos cristais que a gente vê em museus e que são, num momento, claros, e em outro, turvos. Por fim, decidi-me a pedi-la em casamento. Senti-me doente e cansado daquele incessante segredo que impunha a todas as minhas visitas e às poucas cartas que lhe enviei. Escrevi-lhe para a biblioteca, perguntando-lhe se podia ver-me na segunda-feira seguinte, às seis horas. Respondeu que sim e senti-me transportado ao sétimo céu. Estava apaixonado por ela, a despeito do mistério, pensava então... em conseqüência dele, vejo agora. Não; era a mulher mesma que eu amava. O mistério perturbava-me, enlouquecia-me. Porque o acaso fez-me descobrir a pista?
- Descobriu-a então? - exclamei.
- Receio que sim - respondeu. - Julgue você por si mesmo. Quando chegou a segunda-feira, fui almoçar com meu tio e cerca das quatro horas encontrava-me em Marylebone Road. Meu tio, como você sabe, mora em Regent's Park. Queria alcançar
Piccadilly e, para atalhar, meti-me por uma enfiada de becos miseráveis. De repente avistei à minha frente Lady Alroy, com um espesso véu e caminhando muito apressada. Ao chegar à derradeira casa da rua, subiu os degraus, tirou do bolso uma chave, abriu a porta e entrou. «Aqui está o mistério», disse a mim mesmo e apressei-me em examinar a casa. Parecia uma espécie de prédio de aluguer. No degrau da porta estava caído o lenço dela. Apanhei-o e meti-o no bolso. Depois comecei a refletir no que devia fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la. Tomei um carro e segui para o clube. Às seis horas fui visitá-la. Estava sentada num sofá, em traje de chá, um tecido prateado, preso por uns broches de certas estranhas pedras lunares que sempre usava. Era de uma beleza perfeita.
«Alegra-me tanto vê-lo - disse. - Não saí hoje durante o dia».
Olhei para ela, estupefato e tirando o lenço do meu bolso, entreguei-lhe.
«Deixou cair isto esta tarde, Lady Alroy, na Rua Cumnor» - disse eu, calmamente.
Ela olhou para mim, aterrorizada, mas não fez o menor gesto para pegar no lenço.
«Que estava a fazer ali?» - perguntei.
«Que direito tem o senhor de fazer-me perguntas?» - replicou.
«O direito de um homem que a ama» - respondi-lhe. - «Vim aqui para pedi-la em casamento».
Ocultou o rosto nas mãos e desfez-se em pranto.
«Tem de responder-me» - continuei.
Ela ergueu-se e, fitando-me o rosto, disse:
«Lorde Murchison, nada tenho a dizer-lhe».
«Foi encontrar alguém» - exclamei. - «É esse o seu mistério».
Ela ficou terrivelmente pálida e disse:
«Não fui encontrar ninguém».
«Não pode dizer a verdade?» - exclamei.
«Já a disse» - replicou ela.
Eu estava a enlouquecer, alucinado. Não sei o que disse, mas foram coisas terríveis. Por fim, saí à pressa da casa. Escreveu-me uma carta no dia seguinte. Devolvi-lhe, intacta
e parti para a Noruega, em companhia de Alan Colville. Um mês depois regressei e a primeira coisa que vi no Morning Post foi a notícia da morte de Lady Alroy. Apanhara um resfriado na Ópera e morrera, dentro de cinco dias, de congestão pulmonar. Fechei-me em casa e não quis ver ninguém. Tinha-a amado tanto, tinha-a amado tão loucamente! Meu Deus! Quanto amara eu aquela mulher!
- E você, foi àquela rua, àquela casa? - perguntei.
- Sim - respondeu.
- Um dia, fui à Rua Cumnor. Não podia deixar de fazê-lo. Vivia torturado pela dúvida. Bati à porta e uma mulher de aspecto respeitável abriu-a para mim. Perguntei-lhe se havia quartos para alugar.
«Bem, meu senhor - respondeu ela - as salas podem ser alugadas, mas há três meses que não tenho visto a senhora e como os alugueres estão-se a acumular, o senhor poderá alugá-las».
«É esta a senhora?» - perguntei, mostrando-lhe a fotografia.
«É ela, sim, com toda certeza» - exclamou a mulher. - «E quando estará de volta, meu senhor?»
«Morreu» - respondi.
«Oh! meu senhor, não diga!» - disse a mulher. - «Era a minha melhor inquilina. Pagava-me três guinéus por semana simplesmente para vir sentar-se nesta minha sala de vez em quando».
«Encontrava-se com alguém aqui?» - perguntei, mas a mulher garantiu-me que tal não ocorria, que ela sempre vinha sozinha e não via ninguém.
«Mas afinal que fazia ela aqui?» - exclamei.
«Ficava simplesmente sentada na sala, meu senhor, lendo livros e às vezes tomava chá» - respondeu a mulher.
Não sabia o que dizer, de modo que lhe dei um soberano e saí. Agora, que pensa que significava tudo aquilo? Não acredita que a mulher estivesse a dizer a verdade?
- Acredito.
- Então por que ia Lady Alroy ali?
- Meu caro Geraldo - respondi - Lady Alroy era simplesmente uma mulher com a mania do mistério. Alugava aqueles quartos somente pelo prazer de ir ali, de véu descido
e imaginando ser uma heroína. Tinha paixão pelo segredo, mas não passava de uma simples esfinge sem segredo.
- Estou convencido disto - repliquei.
Lorde Murchison tirou do bolso a carteira de marroquim, abriu-a e olhou a fotografia.
Quem sabe? - disse afinal.



Notas:
1 vidente
2 Minha bela desconhecida



17/01/2009

O Viajante Clandestino

Nesse ano – hoje tão distante no tempo e nos usos dos homens, que por vezes julgamos viver noutro mundo – o Dezembro correu muito menos frio do que habitualmente ao longo da costa do Atlântico: nevoento e chuvoso, e morno até, como se a corrente, vinda lá de baixo, do Golfo, antes de se alongar a caminho da Europa, tivesse querido acercar-se do litoral para o aquecer e abrigar melhor das águas gélidas que descem da Gronelândia.
O Natal estava à porta, e a neve sem chegar. Ora, um Natal sem neve nem frio não é festa nem é nada. Não rangem trenós nas encostas e caminhos, não se vêem homens de neve com um chapéu velho na cabeça e o cachimbo entre os dentes imaginários, não há batalhas de bolas de neve, e nos tanques e lagos, que não gelaram, não pode a gente patinar de mãos dadas, com as faces vermelhas, o cabelo solto, e o cachecol a esvoaçar ao vento; não há gritos de júbilo e susto no ar cristalino, nem o tinir das guizalhadas –
Jingle bells, Jingle bells,
Jingle all the way...
– que enche as noites estreladas dum eco de tempos lendários. Nos relvados, em frente das moradias, as árvores de Natal não espalham na alvura fofa do chão os reflexos silenciosos e multicores das suas luminárias, a sugerir calor, intimidade e hospitalidade. A natureza escura e molhada, a névoa e a chuva, os arvoredos hirtos e desnudadas, tudo amortece o resplendor das casas, e abafa os repiques dos campanários, que de outro modo encheriam a vítrea sonoridade da noite.
Através das janelas irrompem no escuro os doirados clarões da festa; lá dentro, há sempre o mesmo entusiasmo e a mesma gula pelos presentes do Santa Klaus, empilhados em torno da árvore fulgurante de luzes, nas suas embalagens de luxo e fantasia. E o viajante solitário e sem família que passa na estrada pode entrever com melancolia os pares que dançam, ou os rostos saciados e felizes em volta da mesa bem guarnecida, a que preside um gordo e tostado peru. O Natal fica doméstico e recolhido, e perde a alegria pagã que ecoa de risos e apelos
juvenis nos bosques e nos vales. Não, um Natal sem neve, um Natal que não seja «branco», não é festa nem é nada: parece um Thanksgiving que se atrasou no calendário.
Ora isto deu-se (ou melhor, começou) em Baltimore, que é uma cidade algo sombria, pacata e ordeira, embora muito menos triste do que a visionou o nosso Poeta – «cidade triste entre as cidades, ó Baltimore!» Ou talvez os seus sinos tenham esquecido a rima do sinistro Never more, never more, que ele julgou ouvi-los clamar, ecoando o Poe. É preciso sair do centro, e percorrer os subúrbios, para se encontrar a atmosfera própria da «estação festiva». Quanto aos cais, são soturnos, caóticos, confusos, e aqui e além ameaçam ruína os hangares e barracões grisalhos, como velhos pardieiros ou igrejas rústicas abandonadas. São tristes os
portos decadentes, sobretudo de noite e nas épocas de crise! Mas respira-se uma poesia sugestiva nestes molhes de estacaria luminosa e negra, onde as marés, cansadas e oleosas, vêm bater de manso o ritmo da sua canção de amor à terra. Há cidades que parecem viver na intimidade dos dramas e segredos do mar; onde este está sempre presente, em convívio com os homens. E nada fala tanto ao coração do errante solitário, como este apelo eterno do mar, junto aos cais.
Foi a um destes molhes meio esbarrondados que o navio atracou pela manhã de vinte e quatro de Dezembro, vindo do mar aberto e azul, da África e dos trópicos.
Era um velho cargueiro esgalgado, de alta chaminé enfarruscada, com grandes remendos no casco a desfazer-se em ferrugem, e a linha de flutuação muitos palmos acima das ondas: uma dessas ruínas obscuras que singram vagarosamente os sete mares do mundo, coxeando em busca de freguês, com roupas mal lavadas a enxugar pelos cordames, e alguns marujos esquálidos acotovelados às amuradas, a olhar a terra estranha. Um navio, em suma, que podia ter inspirado um conto triste a Joseph Conrad ou a Pierre Mac Orlan.
A sua carga era pobre e variada: óleo de palma, cocos, bananas verdes em começo de putrefacção, amendoim, duas dúzias de fardos de algodão, e um macaco mais ou menos domesticado, que adoecera em viagem e gemia numa cama de trapos, com febre, queixoso da invernia.
Também vinha a bordo um passageiro, um só, de que não rezavam os livros de navegação e que não pagara a passagem, entregue ao cuidado cúmplice de dois marinheiros: escondido nas entranhas gemebundas do calhambeque, num cubículo sem ar nem luz, junto das carvoeiras, na companhia das ratazanas. Quem era e donde vinha ele? Ah, mas são perguntas, essas, que se não fazem nunca a um destes homens magros, de rosto antes do tempo engelhado pelos trabalhos, as privações e os ventos forasteiros, com os olhos negros a luzir sombriamente de medo e desconfiança no fundo das órbitas encovadas. Viria de Marrocos, valhacouto de tantos desgraçados? das Ilhas Perfumadas? da Costa d’África?
Ninguém o diria, nem que o soubesse, e ele menos que ninguém. A ilegalidade tem as suas leis, a sua moral e as suas combines, e o silêncio é a regra de ouro dos pobres deste mundo. Quem o pusera a bordo? Quem o mantinha e sustentava ali, durante a noite, em segredo, com os restos miseráveis do rancho da tripulação meio andrajosa? – Mistério, mistério! A solidariedade é outra lei sagrada entre os homens que vivem à margem da vida.
Tinha embarcado pela calada da noite nalgum porto desolado das Áfricas ou dos Arquipélagos, e é tudo. Alguém o tinha guiado em silêncio no labirinto ressonante do cargueiro, e ali o deixara como um rato de porão. E ali, na sombra sufocante, tinha transposto as claridades sem limites do oceano tropical, para dar entrada no Inverno americano.
O «Maria Alberta» – chamemos-lhe assim, escondendo-lhe o nome verdadeiro e a matrícula – cumpridas as formalidades da lei, despejou no cais deserto e cinzento a escassa mercadoria. Os guindastes e cabrestantes rangeram, as roldanas guincharam nos cadernais, os botalós descreveram no ar baço a sua incerta acrobacia, e os fardos, caixotes e engradados deram entrada nos hangares varridos de ventania. A noite chegou cedo, e tudo recaiu no silêncio. Os guardas e funcionários do cais foram-se quase todos embora, e o «Maria Alberta» sumiu-se no esquecimento e na obscuridade, como um cavalo cansado e lazarento ao fundo duma estrebaria.
Era a véspera de Natal, e cada qual procurou o seu conchego, a família se a tinha, ou o recanto enfumarado dum bar de tectos baixos, com mulheres esgrouvinhadas e descoloridas sob a maquilhagem, a beberricar whisky de má raça e a meter moedas num juke-box trepidante de melodias quentes e ensolaradas, de Califórnias e coqueirais que só existem no sonho e no celulóide. Para os homens que rastejam à superfície do globo e da vida, de porto em porto como se pátria nenhuma os aceitasse, não há outro refúgio senão esse: e no fi m, uma cama de aluguer e uns braços de empréstimo.
O silêncio escorreu sobre os molhes e hangares, raras luzes brilhavam, poucas conseguiam vencer a espessura da névoa a desfazer-se em chuva. Os mastros dos cargueiros atracados em feixes perdiam-se no céu encarvoado. Mas a neblina cria sempre, em volta dos portos, um manto de abrigo e clandestinidade.
O capitão desembarcou à paisana, e foi à sua vida: tinha uns negócios quaisquer a tratar em Filadélfia. Atrás dele foi-se o imediato, depois alguns oficiais e pilotos, o enfermeiro, e até marinheiros. Alguns deles levavam uma garrafita duma aguardente intragável, a que chamavam brandy, com que esperavam lubrificar a boa vontade dos funcionários da Alfândega, de modo a passarem sem a apalpação da ordem nem a inspecção aos embrulhos.
Os funcionários, quase todos irlandeses, nutridos, bem pagos e agasalhados nos seus quentes e macios uniformes, olhavam com um misto de dó e espanto ou ironia aqueles pobres marítimos magrizelas e mal barbeados, que tiritavam dentro das farpelas de ganga ou cotim desbotado, com remendos, raros deles envergando um jaquetão razoavelmente coçado, e com a gorra de malha ou a boina basca na cabeça. Que diacho de candonga é que eles podiam transportar? Nenhum trazia com certeza ouro, diamantes ou coca.... Aceitavam a garrafita e deixavam-nos passar: «Merry Christmas!» Depois voltavam ao seu póquer, ao cachimbo e ao copo de bourbon. Os marujos sorriam, humildes, esfregavam as mãos enregeladas, e desapareciam no escuro, com as calças enrodilhadas nas canelas, convencidos de que tinham ludibriado a vigilância do Departamento do Tesouro. E que iam eles fazer na terra dos dólares, em noite de Natal, com as suas pobres roupas e os seus magros bolsos de embarcadiços?
O passageiro tinha subido, já noite fechada, das entranhas da carvoeira, para se esconder numa clarabóia do convés, sob a qual havia espaço para um homem se deitar, como num esquife. (Já ali tinham viajado outros, durante dias e até semanas, e um deles, por sinal, apanhado pela dura invernia do Norte – os cordames eram estendais de gelo! – com as roupinhas leves em que vinha do Brasil, ficara tolhido para o resto dos seus dias.) Não comia desde que, manhã cedo, lhe tinham levado o café amargoso e a bucha do pão; a fome roía-o, e depois do calor abafante das caldeiras, o frio húmido da noite inteiriçou-o. Ali encaixado,
ouviu vozes de comando, risos, passos de homens que desciam a prancha, os ecos de ferro do navio despejado. Esperou que, tudo sossegado, o viessem pôr em liberdade. Mas o tempo corria, naquela imobilidade, e a impaciência dele cresceu:
Que raio esperavam eles para o tirar da toca? Iriam esquecê-lo, deixá-lo a bordo sozinho, metido naquela urna a morrer de fome e de frio?... Haveria dificuldades imprevistas ao seu desembarque?... A noite avançava com um vagar exasperante, e ele tinha pressa. Apertava ao corpo, para se aquecer, o saco onde encerrara os parcos haveres.
Tinha entrevisto na noite, ao chegar ali, os perfis dos barracões do porto, mais longe fábricas, prédios, o clarão mortiço da cidade. Estava na América, a dois passos do trabalho e do pão, a um salto do seu destino. E o coração batia-lhe de anseio. Já tinha regularizado contas com os marujos que o tinham posto a bordo, escondido e alimentado. Se havia mais alguém por trás deles, isso não era da sua conta. Restavam-lhe algumas dolas no fundo de um bolso das calças. Junto delas, retinha na palma da mão suada um papel puído, com um endereço, esse ponto perdido na imensidade da América desconhecida: Patchogue ou coisa assim, para lá de Nova Iorque, em Long Island, a quantas léguas seria aquilo de Baltimore, e quanto teria ele que palmilhar às cegas, para alcançar o seu destino?! (Se lá chegasse...) E uma data de números, de portas e ruas, isso ele não entendia, não entendia nada, não sabia patavina de inglês, só sabia que estava ali à espera que dispusessem dele, para começar vida nova, ou então... Sozinho, diante do desconhecido. Não conhecia ninguém, nesta terra envolta em noite e humidade.
Inquietava-o pensar em tudo isso, ali imóvel, impotente, com o coração do tamanho dum feijão a zumbir-lhe no peito apertado. Sonhava com a América havia muitos anos. Vinha em busca dela como, quatrocentos anos antes, e mais, os seus antepassados (isto é um modo de falar) tinham andado em demanda da Terra Firme, do El Dorado e do Xipango. Esses porém eram felizes, não precisavam de passaporte, o mundo era então um mistério aberto à curiosidade e ambição de todos! Ele viajava escondido, embora não buscasse oiro nem prata nem pimenta. Tinha dois braços, sabia pegar numa enxada ou picareta, queria trabalhar. E se o oiro não andava agora aos pontapés, quem caminhasse de olhos no chão ainda podia topar aqui e ali com algum penny perdido – assim tinha ouvido dizer a um trangalhadanças dum alemão que da América voltara com dois patacos, e ele conhecera algures. A lenda do Novo
Mundo ainda não tinha morrido no coração, ou seria no estômago?, dos homens. Para alcançá-lo tomara pelo caminho mais curto, que é quase sempre o mais arriscado: a clandestinidade. Assim viera meter-se a bordo deste cargueiro de má-morte, um calhambeque a desfazer-se em ferrugem, asmático e claudicante.
O tempo correu e ele dormitou. De repente acordou sobressaltado, e enclavinhou as mãos no saco. Uma voz rouca segredava-lhe ao ouvido:
– Salte cá para fora, Seu Tomé!
A clarabóia estava levantada. Atirou com as pernas entanguidas para fora do esquife, mas quando se quis pôr em pé elas recusaram-se a aguentá-lo; doía-lhe a barriga, tinha a bexiga a arrebentar, e uma sede de morte.
– Não me posso mexer!
O marujo murmurou qualquer coisa que ele não ouviu bem, uma praga com certeza, e pôs-se a esfregar-lhe com vigor as costas, as pernas e os braços.
– Beba lá um gole de cachaça. Aqui é que vossemecê não pode ficar. Veja se se despacha, temos que aproveitar esta aberta, enquanto não anda nenhum guarda no cais.
Bebeu, sentiu um pouco de vida voltar-lhe aos membros, e pôde enfim andar. Foi verter águas junto dum turco dos salva-vidas. O outro fumava, impaciente, escondendo a brasa do cigarro na concha da mão morena.
– Pegue lá uma bucha prà viage. E agora tenha cautela, há?
Palpou o embrulho morno do farnel que o marujo lhe meteu na mão, e encaminhou-se atrás dele para o castelo da popa em trevas. Tinham retirado a prancha, mas nem que ela lá estivesse: mesmo àquela hora adiantada era perigoso desembarcar a descoberto. O que ele tinha a fazer era transpor a amurada e descer por um cabo da amarração, como uma ratazana.
Chegara o momento difícil. Mas uma vez no cais, olho atrás olho adiante, cosido com as sombras e as paredes, fazendo-se parte delas, era sumir-se no desconhecido, e estava livre.
– Meta o farnel no saco, homem. E pendure-o do pescoço, como é que você quer descer assim? Não tenha medo, agarre-se bem e ande prà frente.
Trocaram um aperto de mão. O clarão frouxo da cidade, a distância, enegrecia mais, por contraste, as vizinhanças. Ajeitou a trouxa ao pescoço, e sentiu-se pálido. A que altura estariam do cais? O marujo segurou-o, ajudou-o a transpor a amurada fria e molhada, e ele agarrou-se à corda com força. Ouviu em cima um murmúrio:
– Boa sorte! Vá com Deus.
Ficou sozinho, encangonchado no grosso cabo, áspero e encharcado. Alguns metros abaixo dele, invisível, era o cais, a terra firme, a liberdade, o pão amassado com o suor do seu rosto. Saberia alcançá-lo? Coragem! Sim, mas tinha o com licença que não lhe cabia nele uma agulha. Era como se estivesse entre mar e céu, com o Credo na boca por todo amparo. Devagar, com o saco pendurado ao pescoço a embaraçar-lhe os movimentos, e de pernas ensarilhadas, deixou-se escorregar. A palma das mãos ardia-lhe na aspereza do cabo. O peso do corpo puxava-o para o lado inferior, mas ele era magro e lá conseguiu resistir à gravidade
e manter-se equilibrado a cavalo na amarra.
Diante dos olhos só tinha agora o casco negro do navio, que não conseguia desfitar, como se a ele se quisesse prender pelo magnetismo da vista. A água clapotava contra a estacaria, que rangia brandamente. Aquela água era agora o seu terror, e talvez viesse a ser o seu túmulo. Se a olhasse podia-lhe dar uma vertigem, e então...
Pela posição e balanço mais amplo do cabo percebeu que ia a meio caminho. Mas nem podia olhar para trás, nem via um palmo adiante do nariz, além do negrume do casco. Deixou-se escorregar mais um pedaço, com dificuldade, porque o cabo se aproximava da horizontal, e, segurando-se com firmeza, saltou e agitou uma perna, à procura do contacto com a terra. Mas esta devia estar ainda fora do seu alcance. Descansou um migalho. O suor escorria-lhe na cara e no pescoço, encharcava-lhe as costas. Se agora caísse, era verdadeiramente um
homem ao mar: ninguém dava por isso, e que dessem – de bordo ninguém lhe acudia. Nem do cais deserto. No dia seguinte, ou só Deus sabe quando, o cadáver seria pescado, meio roído dos peixes e dos caranguejos, ou inchado e fedorento, a escorrer água e lodo. Se o fosse!, porque também podia ir pelo mar abaixo...
Seria mais um desaparecido, ou um cadáver anónimo, sem parentes, amigos nem conhecidos que o viessem identificar e reclamar. Longe, a família, à qual não escrevera em dois anos, continuaria por mais algum tempo à espera dele, ou de notícias: mas acabaria por esquecê-lo. De bordo ninguém dava por nada, ou calavam-se. Quanto aos destinatários, lá em cascos de rolha, que lhes importava?
Nem sequer o conheciam. O comentário indiferente – «Aquilo, se calhar o homem nem chegou a embarcar!» – seria todo o seu responso e epitáfio. Era como se nunca tivesse existido.
Impelido pelo súbito terror de não existir, escorregou mais, tornou a agitar a perna, em vão. Agora o corpo, na horizontal, e a oscilar com a amarra, não podia arrancar-se à gravidade nem recobrar a verticalidade. Ainda que o pé esbarrasse na beira do molhe, como é que ele ia soltar-se, dar uma reviravolta e um pulo, para cair em pé? Nem pensar em pendurar-se pelos braços: ficaria abaixo do nível do cais, e então é que não havia esperança. Não ousava desenvencilhar-se da espia que o prendia à terra e à vida, para se endireitar e dar um salto. Nem sequer podia virar a cabeça para avaliar a que altura estava. Mais alguns minutos, que tanto lhe durariam as forças, e a queda era fatal.
Teve a clara visão do seu estado – a boca negra da morte à espera dele, em baixo, como um tubarão insaciável – e intimamente amaldiçoou a hora em que lhe dera para se meter nestas andanças: se não era marujo, não sabia trepar uma corda nem sabia nadar! Suspenso entre dois nadas.
Encolheu-se todo e, com um esforço desesperado, conseguiu deslizar mais um pouco: o pé tocou por fim na beira do molhe, e um bafo de lume veio-lhe dele, subiu-lhe os membros, reanimou-o como um calor de ressurreição. O cais, molhado e escorregadiço, estava ao seu alcance! Mas por baixo era ainda o abismo de água. Encavalitado na amarra, crispado e dorido, desembaraçou a custo a outra perna, e agitou-as ambas, à procura de apoio. As solas delgadas patinavam na viscosidade do madeiramento gasto, ou no rebordo de aço. Se tentasse firmar-se nelas, podia escorregar, perder o suporte do cabo, e dar o mergulho definitivo. A suar em bica, trémulo do esforço, ficou com as pernas pendentes e imóveis. Voltar para cima, nem pensar nisso: já não tinha forças para marinhar, e que as tivesse, a bordo não o deixariam entrar nem ficar. Agora era respeitar o contrato, e escapulir-se ou morrer. Como uma mosca teimosa, que se agita para escapar à armadilha, tornou a fazer esforços para se apoiar no cais, e soltou uma praga em voz alta:
– Oh rais ta parta a minha sorte!
Nesse instante sentiu que alguma coisa de duro, mão ou tenaz, o agarrava com violência pelos rins, dando-lhe a sensação dum ferro em brasa, e teve este pensamento de renúncia «Estou catrafi lado!» Mas, é curioso, recobrou simultaneamente a calma e a esperança.
O que quer que fosse puxou por ele com força, e ele deixou-se levar passivamente, até que, com o cordão do saco a estrafegá-lo, conseguiu endireitar o corpo e firmar-se nas pernas bambas. Aquela mão de ferro, invisível, arrepanhava-lhe as roupas e as carnes, macerando-o e magoando-o. Depois, com um safanão supremo, quase o ergueu do chão e fê-lo dar uma reviravolta.
Levantou os olhos e viu diante de si um grande vulto negro, um capote de oleado reluzente de chuva, uma farda com botões de metal e uma chapa cor de prata. O agente da polícia inclinou para ele o rosto vermelho e robusto:
– Stowaway, eh? – e sacudiu-o com energia, como se o quisesse despertar do torpor. – Passageiro clandestino? – repetiu, e riu-se. – You speak English?
Que pode um homem dizer em tais circunstâncias? Tinham-lhe recomendado:
«Haja o que houver, não abra bico. Faça-se de trouxa.» Mas com aquela mão brutal não se brincava, e ele respondeu:
– Eu não espique inglish, eu não espique!
O agente largou uma risada de gozo e tornou a sacudi-lo:
– No eespeek! No eespeek!
Tinha um hálito quente, de tabaco e whisky. Na fria humidade de Dezembro, um homem precisa de alguma coisa que lhe aqueça as entranhas, para andar assim de ronda pelos cais desertos, entregue aos seus pensamentos. Depois, na noite de festa, de porta em porta ao longo das tabernas e saloons da borda-d’água – Merry Christmas, Mack! – há sempre quem tenha uma franqueza com a Autoridade, e a gente não é de pau, nem pode fazer uma desfeita, recusar... A verdade é que um trago ou dois dispõem muitas vezes um homem a ser mais tolerante com as fraquezas humanas.
Ficaram assim um pedaço, frente a frente, ele à espera, a contar os minutos de vida, e o agente talvez a dar balanço à situação, a macerar-lhe devagar o ombro magro na tenaz de ferro da manápula, e repetindo a meia-voz:
– No eespeek, no eespeek...
Pequeno como um murganho, a tremer de medo e frio na fatiota leve, à espera da sentença – quem sabe até se o guarda, enraivecido, não lhe ia dar um empurrão, atirá-lo à água? – o passageiro clandestino olhava fixamente os botões da farda, o cassetete comprido e polido.
O agente disse ainda qualquer coisa que ele não entendeu, e apertou-lhe os ombros com mais força, a tactear-lhe os ossos, talvez a ensaiar esmagar-lhos pelo simples prazer de exercer forças naquela fragilidade.
Depois, de repente, obrigou-o a dar meia volta, de cara à terra, apoiou-lhe a mão enorme e espalmada nas costas, e empurrou-o:
– Now run!
Não precisou de entender, e correu: correu sem saber aonde ia, nem se o guarda lhe ia dar um tiro pelas costas como a um ladrão das docas que desobedece à ordem de Alto!, ou se realmente o mandava embora, livre, sem o prender nem o forçar a regressar a bordo. Correu às cegas, a mastigar palavras sem tom nem som, a esbarrar em paredes, a trepar em caixotes, em fardos, em cordames, em máquinas, confuso e perdido, incapaz de encontrar a saída daquele labirinto.
Foi quando a voz do polícia lhe atirou à distância, pela rectaguarda:
– Hey! Merry Christmas!...
O clandestino estacou, compreendendo vagamente, e só nesse instante se lembrou que era Noite de Natal. Então com a garganta apertada, a rir e a chorar, transpôs umas calhas ferroviárias, pulou uma vedação de rede de arame, e deitou a correr em campo aberto, nas trevas.
De longe, o clarão agora mais vivo da cidade guiava-lhe os passos, como o reflexo de misteriosa estrela oculta, ou de lareira acesa, chamando-o à consoada.

Gente de Terceira Classe, 1962






16/01/2009

Silka


1º capítulo

«Numa viagem por terras bálticas apeei-me, certa tarde de calor, numa extensa praia de areia lisa. Descalcei-me e pus-me a caminhar ao longo do mar, calmo como os lagos das florestas. Tão grande era o silêncio em redor que me parecia ouvir as vibrações do ar e a agitação dos peixes na água.

Caminhando assim, a passo lento, sem hora marcada, deparei com um aglomerado de casinhas desabitadas, de pedras toscas enegrecidas pelo tempo, sem portas nem janelas. Resolvi entrar numa delas, mas mal pus o pé na soleira da porta o mar empinou-se em ondas ruidosas que se quebravam aos meus pés e alastravam pela areia, numa espuma hostil de tão fria. Era como se uma grande mão inimiga me tocasse.

Assustada, afastei-me em direcção ao monte do outro lado das dunas e das tristes casinhas vazias, o qual, visto assim de baixo, me parecia bastante calvo. Resolvi subir. Chegado ao cimo, vi que o mar voltara à sua calma, tal como o tinha encontrado ao chegar.

Nisto os meus olhos caíram sobre um grupo de quatro árvores que naquele lugar ermo, sem mais nenhuma vegetação, faziam o efeito de terem sido expulsas para o deserto. Entre um pinheiro e um cipreste, ambos de porte solene, havia um choupo de aspecto frágil, cujas folhas, verdes de um lado e prateadas do outro, tremiam sem cessar. Atrás elevava-se uma faia, majestosa no esplendor do seu tronco sem mácula e da sua volumosa copa de folhas cor de sangue. Dir-se-ia que os outros dois, o pinheiro e o cipreste, se aconchegavam na sua sombra como num quente abraço maternal.

“Como terão estas árvores vindo parar aqui, a este monte abandonado?”, perguntava de mim para mim, quando ouvi uma voz:

- Belas árvores, não são?

Ao meu lado estava um velho, de olhos amáveis por detrás das lentes grossas.

- São belas, sim – concordei. – Mas estranho vê-las aqui e serem cada uma da sua espécie.

O velho apontou para as casas desabitadas, em baixo, junto ao mar:

- E não estranha também aquelas casas, sem portas nem janelas?

Respondi que sim, que elas me surpreenderam, e que o mar se enfurecera quando eu quisera entrar numa delas.

- Não me admiro – disse ele. – O mar vigia-as com rancor, pois certo dia viu todos os habitantes fugirem delas, apavorados, para nunca mais voltares.

- Mas porque é que fugiram?

- Porque viram o mar tingir-se da cor do sangue, da mesma cor das folhas desta faia.

Mal ele tinha acabado de falar, as folhas – seria ilusão minha? – sussurraram por uns breves instantes como em confidência amigável.

- É uma história longa – continuou o velho –, mas se tiver tempo e paciência gostava de lha contar.

Eu tinha tempo, pois andava em viagem de recreio. E paciência para ouvir uma história, raras vezes me falta.

Ele convidou-me com um gesto a sentar-me junto de si, num rochedo perto das quatro árvores, e começou a contar a história mais extraordinária que eu jamais ouvira.


2º capítulo
O Visitante da Noite

«Numa daquelas casinhas, ali em baixo na praia, vivia Silka, com os pais e os dois irmãos. Era uma rapariga tão linda que pela manhã, quando saía de casa, o céu e o mar se douravam à janela para a verem, pois diz-se por estas bandas que “encher, pela manhã, os olhos de beleza, é começar o dia com uma festa”.

Os pais tinham grande vaidade na filha. Além de ser bonita, trabalhava com o afinco da formiga e cantava com a doçura do rouxinol. Diziam eles que só um príncipe ou um rapaz famoso da cidade seriam dignos dela, e que não consentiriam nunca que ela casasse com um dos pobretões da aldeia. Silka não ligava a tais conversas. Despreocupada, trabalhava, cantava melodias alegres, banhava-se na água do mar e estendia-se ao sol.

Ora, certa tarde de Verão, vinha ela de uma aldeia das proximidades carregando um cesto de fruta, sentiu-se atraída pela frescura do mar. Despiu-se por detrás de um rochedo, saltou para a água e chapinhou alegremente nas ondas, que vinham lentas e brandas como numa carícia de amor. Assim se deixou ficar um bocado, e só quando o Sol baixou no horizonte se tornou a vestir e regressou a casa.

Nessa mesma noite, no seu quarto, saltou-lhe da blusa um estranho bicho, meio cobra, meio peixe, dum azul transparente como o das pedras-marinhas. Assustada, correu para a porta, mas nisto ouviu uma voz quente a suplicar-lhe:

- Não fujas, bela Silka. Eu não te quero mal, acredita. Não vês que sou insignificante e indefeso?

Ainda desconfiada, Silka aproximou-se de novo e olhou de soslaio para tão exótica criatura do mar que então lhe pediu:

- Toca-me, Silka.

- Não, isso não! – exclamou a rapariga.

- Não sou frio nem escorregadio. Não tenhas receio – voltou aquela voz quente.

Um tanto por piedade, um tanto por curiosidade, ela passou-lhe rapidamente a mão sobre as escamas azuis e, para surpresa sua, sentiu-as cálidas e macias como a pele de um ser humano.

- Pobrezinho – disse -, como aconteceu perderes-te na minha blusa?

- Não me perdi – confessou ele, e ouviu-se-lhe um riso. – Estava perto de ti quando te banhaste no mar. Vi-te tão linda, mais linda do que o próprio mar, que senti desejo de ficar junto de ti. Saltei para terra e escondi-me na toalha que tinhas deixado com as tuas roupas ao pé do rochedo. Tu própria me trouxeste contigo.

Silka soltou uma gargalhada:

- Atrevido! Desavergonhado! Vais já voltar para onde vieste.

- Silka, bela Silka! Porque é que não me deixas ficar, por uma única noite, aqui no teu quarto? – perguntou o inesperado hóspede.

O timbre quente daquela voz enterneceu Silka.

- Mas onde queres tu ficar? Se a tua vida é na água do mar, como vais aguentar a noite aqui, num lugar seco?

- Bastava que enchesses de água o alguidar. Lá dentro ficarei perfeitamente bem. Estou a pedir muito?

- Enfim, parece-me razoável – respondeu ela, e encheu um alguidar com água, que colocou num canto perto da janela e o mais longe possível da cama.

- Silka, porque é que me queres tão longe de ti?

- Tens medo? – troçou ela então.

- Como posso ter medo nesta pequena quantidade de água desabitada se estou acostumado ao mar imenso e cheio de imprevistos? Não tenho medo, Silka. O que quero é estar junto de ti. Não achas justo, já que me deixas passar a noite no teu quarto?

Silka suspirou, mas fez-lhe a vontade e puxou o alguidar para junto da sua cama. Depois despiu-se, deitou-se e apagou a luz.

- Silka, bela Silka! – ouviu de novo a voz do hóspede – se eu pudesse viver para sempre ao teu lado seria a mais feliz de todas as criaturas debaixo do Sol.

- Cala-te! Perdes-te o juízo? Tu, que és do mar e eu que sou da terra, como é que imaginas tal coisa?

- Bastava que fosses comigo, viver no fundo do mar.

- Disparate! Eu no fundo do mar!

- Casa-te comigo! Vem viver em minha casa. Serás feliz, Silka, acredita.

- Agora basta de conversa! – respondeu-lhe Silka -. Estou cansada e tenho de me levantar cedo.

- Silka, bela Silka, por favor não digas que não! Promete que te vais casar comigo e não te incomodo mais.

Silka, um tanto arrebatada pelo timbre agradável daquela voz, um tanto por estar cheia de sono, prometeu:

- Está bem, vou casar-me contigo. Mas agora sossega e deixa-me dormir.

Pareceu-lhe ouvir um suspiro de alívio, mas não tinha bem a certeza, pois já fechara os olhos. E quando o hóspede murmurou: - Obrigado, Silka -, estava já ferrada no sono.

Pela madrugada, mal o Sol tingira de rubro a parte do céu oposta ao mar, Silka vestiu-se. Na concha das mãos transportou o visitante da noite para a praia, onde o atirou à água com estas palavras:

- Adeus, amigo! Foi bom conhecer-te!

Por uns momentos conseguiu ver os círculos que se desenharam, fugazes, no sítio onde o amigo marítimo desaparecera. Depois, uma onda impetuosa passou por cima, rolou lentamente para a areia e desfez-se em espuma branca.


3º capítulo
Os Casamenteiros

«Foi grande o espanto dos pais da Silka quando, na manhã seguinte, depararam, no limiar da casa, com quatro bichos do mar, meio serpentes, meio peixes, do azul transparente das pedras marinhas. Chamaram pelos dois filhos, irmãos de Silka, que olharam boquiabertos para aqueles visitantes matinais. Mas quando ouviram o mais alentado dizer em língua de gente: - Senhores, concedei-nos o favor de uns momentos de atenção. É que temos um recado de importância a transmitir-vos – faltou-lhes a voz para responderem.

Então, o peixe-serpente que além de mais alentado era também o mais velho do grupo dói directo ao assunto que os trouxera ali:

- Meus senhores – disse – somos da família dos peixe-azuis, mas o nosso nome não pode ser revelado. Garanto-vos, no entanto, que somos honrados e que gozamos da mais alta consideração entre os habitantes do mar. Uma missão tão importante como delicada trouxe-nos a esta casa. Viemos a pedido de um nosso parente, o mais belo e mais inteligente de todo o clã, que viu ontem, ao entardecer, a linda Silka, rapariga gabada por estas redondezas. E de tal maneira dela se enamorou que diz morrer de saudades se não a receber como mulher. Eis-nos, pois, para vos pedir que deixeis a vossa filha e irmã casar com ele, a quem estamos muito afeiçoados.

Os pais e os irmãos de Silka desataram numa gargalhada e exclamaram repetidas vezes:

- Esta é boa! Esta é boa!

- Não vos riais de nós, por favor! – suplicaram eles -. Não somos nem estúpidos nem ridículos, embora não nos apresentemos aqui altos e fortes como vós.

Então os irmãos de Silka, disfarçando o riso e fingindo falar a sério disseram:

- Pois bem, senhores Azuis-Sem-Nome, estamos comovidos com a honra que nos prestais pedindo em casamento para o vosso ilustre parente a nossa irmã Silka. Agrada-nos saber que o vosso clã é tão considerado pela fauna do mar. Somos gente simples e rude, mas a nossa ambição tem sido sempre ver a nossa irmã casada com uma personalidade inteligente e famosa.

- Obrigados, obrigados! – exclamaram os visitantes, e o mais velho ainda acrescentou: - Ela há-de ser feliz, acreditem. Podemos levá-la já connosco?

- Calma, calma, senhores! – disseram os irmãos de Silka. – Tanta pressa nem ficaria bem a vós nem a nós, não é verdade? De resto, a nossa irmã não se encontra em casa. Primeiro temos de conversar com ela. É muito nova e precisa dos nossos conselhos. Mas amanhã, pela madrugada, estará na praia à vossa espera e então podeis levá-la para a companhia do seu noivo.

- De acordo – disse o visitante mais velho. – Que ela nos espere junto ao rochedo onde ontem, ao entardecer, se banhou no mar.

Mas as estranhas criaturas tinham desaparecido, os pais e os irmãos de Silka riam a bandeiras despregadas. E depois tramaram pregar uma partida àqueles fervorosos embaixadores marítimos.

4º capítulo
Silka toma uma resolução

«Não é difícil imaginar que a família de Silka não estava de modo algum decidida a deixar casar a rapariga com uma criatura do mar, e que nem sequer tomara a sério o pedido dos visitantes matinais. E assim, pela madrugada do dia seguinte, os irmãos de Silka foram buscar uma galinha branca que enfeitaram com flores de laranjeira e levaram para junto do rochedo onde Silka se despira para tomar banho no mar. Em tom de escárnio despediram-se da ave:

- Adeus, noiva branca! Que sejas feliz com o teu esposo azul! E não te constipes, lá no fundo da água fria!

E foram para casa.

Daí a pouco assomaram do mar os três casamenteiros. Ao verem a galinha enfeitada de noiva enfureceram-se de tal maneira que se puseram vermelhos como sangue. Tornaram à casa de Silka. Àquela hora ela ainda estava no quarto, e com estranheza ouviu lá fora os irmãos aos gritos e insultos:

-Seus loucos sem vergonha! Seus insolentes! Ponham-se daqui para fora, se querem voltar vivos ao mar!

Olhou pela janela e viu os bichos meio cobras, meio peixes, de escamas azuis do azul das pedras marinhas, a fugirem apavorados. Lembrou-se então do estranho companheiro da noite, a quem prometera casamento, e perguntou aos irmãos o que foi que acontecera. Ao saber da brincadeira com a galinha enfeitada de noiva, à espera de ser levada ao noivo no fundo do mar, sentiu-se envergonhada pela indelicadeza dos irmãos. Era como se voltasse a ouvir a voz quente que lhe pedira: «Silka, bela Silka, por favor não digas que não! Promete que te vais casar comigo…». E não prometera ela que sim, que ia casar com ele, o estranho companheiro nocturno? Tinha-o feito para o sossegar, era verdade, mas no fim de contas uma promessa era uma promessa.

- Peço-vos que apareçam, amanhã cedo, no mesmo sítio, disse ela aos casamenteiros.

Pela madrugada vestiu-se de branco e, sem que ninguém a visse saiu de casa e foi sentar-se junto ao rochedo, à espera do que viesse a acontecer.

Mal o céu se tingiu, do lado oposto ao mar, do rubro das manhãs que nascem, emergiam da água os embaixadores azuis. Ao verem-na ali, mais linda do que nunca, subiram-lhe ao colo, aconchegaram-se-lhe nas mãos e agradeceram-lhe por ter vindo e por não os repelir.

- Sim, vou convosco – disse Silka. – Vou cumprir a minha promessa.

Nessa manhã a bela Silka desapareceu. Só alguns anos depois foi mais uma vez vista pelos habitantes da aldeia.

5º capítulo
“Os Magníficos”

«Quem eram, afinal, o estranho hóspede nocturno e os fervorosos embaixadores matinais? Isso só se ficou a saber, em circunstâncias dolorosas, quando Silka voltou a terra para ver a família e os amigos.

Pois essas criaturas, meio serpentes, meio peixes, da cor azul das pedras marinhas, uma vez no mar tomavam a forma de gente. O mais novo, que se escondera na blusa de Silka, chamava-se Reinaldo e era tão belo como a própria Silka.

No tempo em que os remotos antepassados daquela família oceânica viviam em terra, empenhavam-se, com palavras e com actos, em que os homens se tornassem capazes de viver sem se detestarem e fazerem maus juízos uns dos outros. Mas ninguém os compreendia nesses seus intentos uns dos outros. Mas ninguém os compreendia nesses seus intentos. Em vez de lhes darem ouvidos, apontavam-nos como desatinados, embora lhes invejassem a inteligência e o saber. E era sobretudo por isso, por os invejarem, que não conseguiam dedicar-lhes amizade e lhes amarguravam a vida. Chamavam-lhes “Os Magníficos”, para troçarem deles. Mas, bem vistas as coisas, a alcunha era prova de que, no íntimo, para além de os detestarem, também os admiravam.

Como “Os Magníficos” não cediam e não lhes vergavam, começaram a maltratá-los. Agrediam-nos sempre que os encontravam, de modo que eles, para se salvarem daquela fúria humana, punham-se em fuga. Mas os outros, em número muito maior, seguiam-nos sem piedade e não lhes davam descanso em parte alguma. Desesperados, “Os Magníficos” certa noite reuniram-se junto ao mar para deliberarem como encontrar uma saída para aquela vida insuportável. Sabiam que vivia refugiado, no fundo do mar, um velho justiceiro cego a quem desalmados tinham arrancado os olhos, apesar de ele ter procurado ajudá-los no seu infortúnio. Esperançados em que ele lhes desse ajuda, “Os Magníficos” começaram a chamar por ele, explicando quem eram e por que razão se queriam afastar. Os seus clamores, cântico dorido, assombraram a noite e o mar que, por uns momentos, contiveram a respiração para os escutarem. Mas, em seguida, o mar agitou-se e uma onda alta avançou sobre a areia, onde se dissipou num murmúrio semelhante a vozes humanas.

- Uma mensagem! – exclamaram “Os Magníficos”.

Acenderam as suas lanternas e, procurando na areia molhada algum sinal do velho justiceiro, viram uma anémona branca. Mal um deles a levantara ficou, no mesmo instante, reduzido a uma criatura meio serpente, meio peixe de cor azulada que faiscava à luz branda das lanternas. Os companheiros estremeceram, mas depressa compreenderam que o velho do mar lhes estava a oferecer auxílio. Então, um após outro, tomaram na mão a anémona para se metamorfosearem nas mais insólitas criaturas que alguma vez imaginaram. Por fim mergulharam no mar, e os seus perseguidores perderam-lhes, para sempre, o rasto.

Longos anos se tinham passado sobre a fuga dos “Magníficos” para o fundo do mar quando o jovem Reinaldo se apaixonou por Silka. E naquela , manhã em que os parentes casamenteiros a levaram junto dele, a rapariga não queria acreditar nos seus próprios olhos. Nunca antes vira homem mais perfeito.

- Foi o senhor quem dormiu no meu quarto? – perguntou, embaraçada.

- Parece-te isso tão extraordinário, Silka? – disse Reinaldo.

- Parece-me um sonho, senhor.

- Não me trates por senhor, Silka. Sou o homem com quem prometeste casar. Acaso estás arrependida?

- Estou feliz – disse Silka, e sorriu.


6º capítulo
As saudades de Silka

«Silka e Reinaldo tiveram três filhos, todos eles rapazes. À medida que o tempo ia passando, Silka começava a sentir saudades da praia, da areia macia que costumava pisar pelas manhãs frescas, do sol, do vento e da chuva, e também dos pais, dos irmãos e dos amigos da sua aldeia. Certo dia falou disso ao marido:

- Já se passaram alguns anos desde que deixei a minha aldeia, a casa dos meus pais e os meus amigos. Não achas que é tempo de eu ir lá, para matar saudades e para mostrar os nossos filhos?

Reinaldo bem sabia que os pais e os cunhados nunca lhe perdoariam o ele ter atraído Silka para o mar. Sabia que tinham ambicionado vê-la feliz e rica na cidade, admirada pelos aldeões a quem então teriam dito: “Ora vejam que sorte teve a nossa filha, a nossa irmã, a bela Silka!”. Possivelmente os cunhados nem tinham ainda perdido a esperança de se vingarem da desfeita que ele lhes fizera, a eles, famosos como pescadores hábeis e mergulhadores destemidos. Por tudo isso a ideia de que Silka iria visitá-los o afligia muito.

- Silka, meu amor, disse, acho que sim, que um dia deves subir à terra para voltares a ver os sítios que tanto apreciavas, e também os teus pais e irmãos. Mas nesta altura fazes-me muita falta. Desde a madrugada que sofro de uma forte dor nas costas e vejo-me obrigado a recolher à cama. Quem me há-de tratar e fazer companhia senão tu?

Silka ficou preocupada por saber o marido doente e durante algumas semanas não saiu do seu lado, sem se aperceber de que ele, com grande custo, simulava dores e sofrimento.

Quando já estava mais do que farto de tanto descansar, Reinaldo levantou-se e afirmou sentir-se, finalmente, melhor.

Poucos dias depois Silka voltou ao mesmo pedido:

- Reinaldo, achas bem que vá agora subir à terra, com os rapazes, para ver a minha aldeia e a minha gente?

- Silka, meu amor, respondeu ele, compreendo bem que seria uma grande alegria para ti e para os teus se lá fosses agora, mas vejo-me mais uma vez obrigado a pedir-te paciência. Não te deve ter escapado que não só no interior mas também na fachada da nossa casa se estão a desprender uma série de corais, conchas e pérolas danificadas e gastas pelo tempo. È uma grande necessidade fazermos obras e és-me indispensável para me aconselhares.

E mais uma vez Silka resolveu adiar o plano de subir à terra para tornar a ver tudo aquilo que fizera o seu encanto no tempo em que ainda não conhecia o marido. Ajudou Reinaldo a procurar os corais mais preciosos, as conchas mais perfeitas, as pérolas de mais subtis matizes. Mas mal as obras ficaram concluídas, voltou a insistir:

- Reinaldo, não achas que já é tempo de eu ir ver a minha terra e mostrar os nossos filhos à minha gente?

Reinaldo compreendeu que de nada lhe valia inventar mais pretextos para adiar a ida dela. Apreensivo disse:

- Se é assim tão forte o teu desejo, Silka, vai e leva contigo os três rapazes. Mas peço-te de todo o coração que nem tu nem eles revelem a ninguém o meu nome e o da minha família. Se algum de vós o fizer, nunca mais nos voltaremos a ver. Prometes guardar segredo e advertir os nossos filhos para o guardarem da mesma maneira?

- Prometo, Reinaldo. Nenhum de nós pronunciará o teu nome durante a nossa visita à terra.

Mas Reinaldo, continuando preocupado, insistiu:

- Silka, meu amor, ouve bem o que te digo: se apesar da tua promessa o meu nome for revelado, não voltem para aqui antes de verificarem a cor do mar. Se ela for como de costume, azul, verde ou acinzentada, não hesitem e venham sem demora, pois eu cá vos espero com a mesma impaciência com que te esperei no primeiro dia da tua chegada. Mas se a cor do mar for vermelha, ele se tingiu do meu sangue, e de nada valerá voltares aqui.

Silka, um tanto distraída com a ideia da viagem, riu-se:

- Que palavras tão lúgubres, Reinaldo. Dentro de pouco tempo já nos terás de novo aqui contigo e seremos felizes como até agora.

- Esperemos que assim seja, disse Reinaldo, e beijou a mulher e os três rapazes.


7ºcapítulo
Silka visita a família

«Naquele dia memorável em que os estranhos visitantes levaram Silka para o fundo do mar e para junto de Reinaldo, os pais e os irmãos esperaram desesperadamente por ela. E quando a noite desceu sobre a aldeia sem a rapariga dar sinal de si, puseram-se a caminho das aldeias em redor, perguntando a toda a gente:

- Não viram a nossa Silka?

Ninguém a tinha visto em todo o dia.

«Afogou-se no mar», concluíram, e romperam a chorar. E ficaram vários dias e várias noites junto ao mar à espera que ele arrojasse à terra o cadáver de Silka. As marés cheias e as marés baixas alternavam-se no seu ritmo regular e perpétuo, o Sol levantava-se no Oriente e punha-se no Ocidente dourando o céu e as ondas, as noites desciam lentamente, e nada mais se via do que a faixa branca reflectida da luz da lua, a deslizar sobre a água do mar.

- Quando ela vier vamos-lhe fazer um enterro bonito – disseram os pais e os irmãos de Silka.

Mas à medida que os dias foram passando perderam a esperança e compreenderam que não valia a pena esperarem mais tempo. Intrigados, perguntaram-se uns aos outros:

- Terá ela fugido? Mas porquê? E para onde?

Entre lamentações e pranto fizeram várias conjecturas, mas não lhes veio à ideia que o desaparecimento de Silka pudesse estar relacionado com a visita das insólitas criaturas do mar.

Os anos foram passando. A família de Silka lembrava-se frequentemente dela, e os irmãos diziam:

- Se alguma vez descobrirmos quem foi o malvado que nos roubou a rapariga, ele terá de se haver connosco.

Ora, quando num dia radiante de Primavera Silka lhes entrou em casa na companhia de três lindos rapazes, não queriam acreditar no que viam. Era verdade? Era sonho? Mas ouviram a voz dela:

- Cá estou, minha boa gente. E estes são os meus filhos.

Então apertaram-na nos braços, choraram lágrimas de alegria e gabaram-lhe a beleza e a dos filhos. A mãe correu para preparar um jantar com o que tinha de melhor em casa, o pai foi buscar o vinho, e os irmãos ofereceram um colar de conchinhas a Silka e búzios aos meninos para que escutassem a voz do mar. Na verdade, conchinhas e búzios os meninos conheciam-nos mais belos, mas não falaram disso e agradeceram as prendas com a mesma boa vontade com que lhes foram oferecidas.

Comeram e beberam alegremente. Por fim, o pai ergueu-se e, com solenidade e comoção, disse:

- É este o dia mais feliz da minha vida. Silka voltou para junto de nós e trouxe-nos os seus três filhos, lindos como ela. Nada lhes há-de faltar nesta casa, disso tomaremos conta. Estivemos longos anos à espera, mas sentimo-nos bem compensados.

Todos ergueram os copos para brindarem. E as lágrimas nos olhos de Silka, que eram de mágoa e aflição, os pais e os irmãos julgavam-nas de satisfação e alegria.

Silka torturava-se com a dúvida se devia dizer-lhes que não viera para ficar, mas vendo-os tão bem dispostos e confiados não teve coragem.

«Amanhã digo-lhes», pensou.

Por sua vez os pais e os irmãos estavam ansiosos por saber o que acontecera naquela manhã de Verão em que Silka tão misteriosamente desaparecera. Mas sempre que começavam a fazer-lhes alguma pergunta, Silka ria-se e desviava a conversa.


8º capítulo
O nome de Reinaldo é revelado

«Durante uma semana Silka deixou-se ficar em casa dos pais sem falar na partida. Procurou os lugares que lhe tinham sido queridos e visitou os velhos amigos da aldeia. Só então disse à família:

- Gostei muito de estar aqui e convosco, mas agora é tempo de partirmos, pois os meus filhos têm saudades do pai e eu do meu marido.

Estas palavras foram para os pais e para os irmãos como que uma terrível revelação. A mãe desatou num alto choro, o pai soltou um grito de cólera, e os irmãos ficaram de tal maneira enfurecidos que Silka pensou, aterrorizada: «Ai de nós! Nunca tivéssemos vindo!». E disse:

- Meus pais e meus irmãos, se é assim que nos agradecem a nossa vinda, então não voltaremos nunca mais.

Sem prestar atenção ao aviso dela, os irmãos sacudiram-na violentamente e perguntaram:

- Quem é esse teu marido a quem amas mais do que a nós? Onde mora e que nome tem?

- Não digo nem nunca direi qual o seu nome, nem onde mora -, respondeu ela com firmeza.

Os irmãos arrastaram-na para as dunas desertas da praia, espancaram-na e cobriram-na de palavras insultuosas.

- O nome!? O nome!? – quiseram saber.

Silka gemeu de dores, mas a sua boca não pronunciou o nome do marido.

Os irmãos, compreendendo que de nada lhes serviria insistir por mais tempo com ela, deixaram-na ficar ali entre as dunas, coberta de feridas e desesperada de tanto sofrer.

Foram buscar os três rapazes, levaram-nos para longe, mas em direcção oposta ao lugar onde tinham abandonado a mãe. Com fingida benevolência começaram a perguntar-lhes:

- Gostastes de estar connosco? Achais que vos tratamos com a mesma amizade e o mesmo carinho com que vos trata o vosso pai?

Responderam que sim, que tinham gostado de estar com os avós e os tios, e que os tinham tratado com amizade e carinho.

Os tios continuaram com modos brandos:

- Mas por que razão não quereis ficar connosco para sempre?

- Temos saudades da nossa casa, disse o mais velho.

- E do pai, disse o segundo.

- E dos outros tios, disse o mais novo.

- De acordo, de acordo – acederam os irmãos de Silka -, mas nós também somos vossos tios. Isso não conta nada?

- Pois claro que conta, porque é com o pai que temos vivido sempre e os outros tios conhecemo-los desde o primeiro dia da nossa vida.

- E não nos quereis dizer aos menos qual é o nome do vosso pai? Afinal é nosso cunhado. Temos o direito de o conhecer. Gostávamos mesmo de ir cumprimentá-lo.

Os rapazes bem sabiam que tinham de guardar o segredo. Sabiam também que os tios, ali em terra, eram os mais famosos mergulhadores em redor, e que iriam matar o pai se eles lhes revelassem o seu nome e onde morava. Por isso ficaram calados.

Os tios já não se contiveram por mais tempo e começaram a fazer com modos grosseiros:

- Teimosos! Obstinados! Se não nos disserdes o nome e o paradeiro do vosso pai sereis castigados.

Como os rapazes continuaram calados, esbofetearam-nos sem piedade. O mais velho e o segundo empalideceram, mas permaneceram calados. O mais novo, porém, começou a tremer e a soluçar. Os tios puxaram por um chicote e fustigaram-nos um após outro. Os dois mais velhos gemeram e choraram sem, no entanto, pronunciarem uma palavra. Mas o mais novo, depois da primeira chicotada, gritou:

- Tenham piedade! Não me magoem, não me magoem!

Os tios compreenderam que aquele era o mais fraco e, por isso, chicotearam-no quanto puderam. E ele, incapaz de aguentar tanta dor, acabou por dizer o nome do pai e o lugar onde morava.


9º capítulo
A metamorfose de Silka e dos seus filhos

«Á tardinha, quando o sol era brasa no céu, Silka conseguiu arrastar-se até às dunas onde se encontravam os rapazes, transidos de pavor por verem as ondas a galgar, espumando e bramando, e da cor do sangue.

Então Silka gritou o nome do marido. Gritou-o em dor, em demência. E toda a população da aldeia veio a correr, juntando, apavorada, o seu clamor ao de Silka.

O sol pôs-se no horizonte como se nada tivesse a ver com o que se estava a passar sobre a terra. Uma última luz vagamente esbranquiçada iluminou, por mais uns instantes, as ondas cor de sangue e toda aquela gente que ali se agitava na praia, alucinada. Depois a escuridão envolveu tudo e todos.

Pela manhã Silka e os filhos procuraram aconchegar-se aos amigos da aldeia, pedindo abrigo, mas ninguém os quis em casa. Todos se afastavam deles, erguiam os braços e exclamavam:

- Longe de nós! Malditos! Malditos!

Silka então compreendeu que para ela e para os filhos não havia mais amigos, nem na terra, nem no mar. Silenciosamente conduziu os rapazes pela praia fora, até este monte. Subiram e deitaram-se no chão, esperando que o Sol de novo se levantasse no Oriente. E quando isso se deu, Silka viu que o mar continuava vermelho de sangue e que os habitantes da aldeia tinham fugido, horrorizados.

- Meus filhos, disse, mataram o vosso pai. As ondas estão manchadas do seu sangue. Fiquemos aqui, de onde podemos olhar o mar que durante tanto tempo foi a nossa casa.

Beijou os filhos, a todos eles com a mesma ternura. Ou talvez beijasse o mais novo com ternura maior do que os outros, por saber que era ele quem mais necessitava do seu amor.

E depois soltou um grito tão agudo e de tanta mágoa que foi ouvido nas aldeias mais distantes. Pediu aos filhos que se colocassem diante dela, o mais novo no meio. Abriu os braços como se fossem asas e transformou-os aos três em árvores: o mais velho num cipreste, o mais novo num choupo e o outro num pinheiro. Em seguida colocou-se atrás deles e transformou-se, ela própria, na faia de folhas vermelhas, porque a faia é forte e resiste a todas as tempestades.

Foi assim que aconteceu aparecerem neste descampado as quatro árvores. Daqui olham para o mar e recordam Reinaldo. Recordam o belo solar de corais e pérolas, a vida harmoniosa e tranquila que lá levaram e todo o seu mundo perdido.


10º capítulo

«O velho calou-se. As quatro árvores atrás de nós sussurravam como se quisessem confirmar o que eu acabara de ouvir. O velho sorriu:

- Agora conhece a história.

- E o senhor, quem é? – perguntei.

- Oh, eu? Não passo de um velho pescador que já não serve para andar no alto mar, mas que tem tantas saudades dele como Silka e os seus filhos.

- E a história? Quando foi que se passou?

- Passou-se num tempo em que os velhos que a contavam eram ainda crianças. Contavam-na vezes sem fim. Diziam eles que no momento em que Silka soltou aquele grito agudo, antes de se transformar a si e aos seus filhos nestas árvores, as ondas enfurecidas se calaram de espanto e os homens das aldeias em redor pararam nos seus afazeres e murmuraram: «É grito de amor e de morte». E a história de Silka nunca mais lhes saiu da memória. «Meninos! Ouvia a história da bela Silka. Vinde e ouvi!», chamavam. E nós, os meninos, escutávamos, de todas as vezes como se fosse a primeira, com o mesmo espanto com que o mar parou de bramar e os homens pararam nos seus afazeres quando Silka soltou o seu grito de amor e de morte.

Virei-me para as árvores: a faia, majestosa como uma rainha, o cipreste e o pinheiro, solenes e tristonhos. E vi as folhas do choupo a tremerem como crianças assustadas. Num impulso cortei uma delas. Era verde de um lado e prateada do outro. Por uns momentos senti-a tremer na minha mão.

Despedi-me do velho, desci o monte e aproximei-me do mar, sereno como um lago. Desta vez não se agitou com a minha presença. Voltei-me e ergui os olhos para o monte. Lá estavam as quatro árvores, olhando o mar que fora a sua casa. E de repente julguei ouvir um grito, um grito tão agudo que encheu o silêncio. Estremeci. As casinhas vazias da aldeia continuavam caladas. Não havia ninguém em redor. Ninguém. Só o silêncio.