31/12/2008

A Parábola dos Talentos

Havia um homem muito rico, possuidor de vastas propriedades, que era apaixonado por jardins. Os jardins ocupavam o seu pensamento o tempo todo e ele repetia sem cessar: O mundo inteiro ainda deverá transformar-se num jardim. O mundo inteiro deverá ser belo, perfumado e pacífico. O mundo inteiro ainda se transformará num lugar de felicidade.
As suas terras eram uma sucessão sem fim de jardins, jardins japoneses, ingleses, italianos, jardins de ervas, franceses. Dava muito trabalho cuidar de todos os jardins. Mas valia a pena pela alegria. O verde das folhas, o colorido das flores, as variadas simetrias das plantas, os pássaros, as borboletas, os insectos, as fontes, as frutas, o perfume… Sozinho ele não daria conta Por isso anunciou que precisava de jardineiros. Muitos se apresentaram e foram empregados.
Aconteceu que ele precisou de fazer uma longa viagem. Iria a uma terra longínqua comprar mais terras para plantar mais jardins. Assim, chamou três dos jardineiros que contratara, e disse-lhes: Vou viajar. Ficarei muito tempo longe. E quero que vocês cuidem de três dos meus jardins. Os outros, já providenciei quem cuide deles. A você, Paulo, eu entrego o cuidado do jardim japonês. Cuide bem das cerejeiras, veja que as carpas estejam sempre bem alimentadas… A você, Hermógenes, entrego o cuidado do jardim inglês, com toda a sua exuberância de flores espalhadas pelas rochas… E a você, Boanerges, entrego o cuidado do jardim mineiro, com romãs, hortelãs e jasmins.
Ditas essas palavras, partiu. Paulo ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim japonês. Hermógenes ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim inglês. Mas Boanerges não era jardineiro. Mentira ao oferecer-se para o emprego. Quando ele viu o jardim mineiro disse: Cuidar de jardins não é comigo. É demasiado trabalho…
Trancou então o jardim com um cadeado e abandonou-o. Passados muitos dias voltou o Senhor, ansioso por ver os seus jardins. Paulo, feliz, mostrou-lhe o jardim japonês, que estava muito mais bonito do que quando o recebera. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Hermógenes mostrou-lhe o jardim inglês, exuberante de flores e cores. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu.
E foi a vez de Boanerges… E não havia forma de enganar: Ah! Senhor! Preciso de confessar: não sou jardineiro. Os jardins dão-me medo. Tenho medo das plantas, dos espinhos, das lagartas, das aranhas. As minhas mãos são delicadas. Não são próprias para mexer na terra, essa coisa suja…
Mas o que me assusta mesmo é o facto das plantas estarem sempre a transformar-se: crescem, florescem, perdem as folhas. Cuidar delas é uma trabalheira sem fim.
Se estivesse em meu poder, todas as plantas e flores seriam de plástico. E a terra estaria coberta com cimento, pedras e cerâmica, para evitar a sujeira. As pedras dão-me tranquilidade. Elas não se mexem. Ficam onde são colocadas. Como é fácil lavá-las com esguichos e vassoura! Assim, eu não cuidei do jardim. Mas tranquei-o com um cadeado, para que os traficantes e os vagabundos não o invadissem.
E com estas palavras entregou ao Senhor dos Jardins a chave do cadeado. O Senhor dos Jardins ficou muito triste e disse: Este jardim está perdido. Deverá ser todo refeito. Paulo, Hermógenes: vocês vão ficar encarregados de cuidar deste jardim. Quem já tinha jardins ficará com mais jardins.
E, quanto a você, Boanerges, respeito o seu desejo. Não gosta de jardins. Vai ficar sem jardins. Gosta de pedras. Pois, de hoje em diante, irá partir pedras na minha pedreira…


Rubem Alves
Gaiolas ou Asas

30/12/2008

O Senhor Palha

Conto japonês

Era uma vez, há muitos e muitos anos, é claro, porque as melhores histórias passam-se sempre há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha. Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos. Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo. Ora o Senhor Palha não tinha sorte. Era tão pobre que mal tinha para comer e era magrinho como um fiapo de palha. Era por esse motivo que as pessoas lhe chamavam Senhor Palha.
Todos os dias o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna que melhorasse a sua sorte, mas nada acontecia. Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar:
— A primeira coisa em que tocares quando saíres do templo há- de trazer-te uma grande fortuna.
O Senhor Palha apanhou um susto. Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado e que o templo estava vazio. Mesmo assim, saiu a pensar: “Terei sonhado ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?” Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte. Mas, na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando aos trambolhões até o final da escada, onde caiu por terra. Ao levantar-se, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão. Era um fio de palha.
“Bom”, pensou ele, “uma palha não vale nada, mas, se a Deusa da Fortuna quis que eu o apanhasse, é melhor guardá-lo.”
E lá foi ele, com a palha na mão.
Pouco depois, apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele. Tentou afastá-la, mas não adiantou. A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele. “Muito bem”, pensou ele. “Se não queres ir embora, fica comigo.” Apanhou a libélula e amarrou-lhe o fio de palha à cauda. Ficou a parecer um pequeno papagaio (de papel), e ele continuou a descer a rua com a libélula presa à palha. Encontrou a seguir uma florista, que ia a caminho do mercado com o filho pequenino, para vender as suas flores. Vinham de muito longe. O menino estava cansado, coberto de suor, e a poeira fazia-o chorar. Mas quando viu a libélula a zumbir amarrada ao fio de palha, o seu pequeno rosto animou-se.
— Mãe, dás-me uma libélula? — pediu. — Por favor!
“Bem”, pensou o Senhor Palha, “a Deusa da Fortuna disse-me que a palha traria sorte. Mas este garotinho está tão cansado, tão suado, que ficará certamente mais feliz com um pequeno presente.” E deu ao menino a libélula presa à palha.
— É muita bondade sua — disse a florista. — Não tenho nada para lhe dar em troca além de uma rosa. Aceita?
O Senhor Palha agradeceu e continuou o seu caminho, levando a rosa. Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num tronco de árvore, segurando a cabeça entre as mãos. Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que tinha acontecido.
— Hoje à noite, vou pedir a minha namorada em casamento — queixou-se o rapaz. — Mas sou tão pobre que não tenho nada para lhe oferecer.
— Bem, eu também sou pobre — disse o Senhor Palha. — Não tenho nada de valor mas, se quiser dar-lhe esta rosa ela é sua.
O rosto do rapaz abriu-se num sorriso ao ver a esplêndida rosa.
— Fique com estas três laranjas, por favor — disse o jovem. — É só o que posso dar-lhe em troca.
O Senhor Palha continuou a andar, levando três suculentas laranjas. Em seguida, encontrou um vendedor ambulante a puxar uma pequena carroça.
— Pode ajudar-me? — disse o vendedor ambulante, exausto. — Tenho puxado esta carroça durante todo o dia e estou com tanta sede que acho que vou desmaiar. Preciso de um gole de água.
— Acho que não há nenhum poço por aqui — disse o Senhor Palha. — Mas, se quiser, pode chupar estas três laranjas.
O vendedor ambulante ficou tão grato que pegou num rolo da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo:
— O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca.
E, uma vez mais, o Senhor Palha continuou o seu caminho, com o rolo de seda debaixo do braço.
Não tinha dado dez passos quando viu passar uma princesa numa carruagem. Tinha um olhar preocupado, mas a sua expressão alegrou-se ao ver o Senhor Palha.
— Onde arranjou essa seda? — gritou ela. — É justamente aquilo de que estou à procura. Hoje é o aniversário de meu pai e quero dar-lhe um quimono real.
— Bem, já que é aniversário dele, tenho prazer em oferecer-lhe a seda — disse o Senhor Palha.
A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte.
— O senhor é muito generoso — disse sorrindo. — Por favor, aceite esta jóia em troca.
A carruagem afastou-se, deixando o Senhor Palha com uma jóia de inestimável valor refulgindo à luz do sol.
“Muito bem”, pensou ele, “comecei com um fio de palha que não valia nada e agora tenho uma jóia. Sinto-me contente.”
Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz. Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz. Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico.
Mas a riqueza não o modificou. Oferecia sempre arroz aos que tinham fome e ajudava todos os que o procuravam. Diziam que a sua sorte tinha começado com um fio de palha, mas quem sabe se não terá sido com a sua generosidade?


William J. Bennett
O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral


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A menina e o pássaro encantado


Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

* * *

Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…


As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003


27/12/2008

A marcha nupcial

Há muitos anos, ia celebrar-se um rico casamento na comuna de Svarstjo, na Vermlândia. A bênção nupcial seria na igreja, e a festa duraria três dias inteiros, e, enquanto durasse a festa, devia dançar-se desde o anoitecer até de manhãzinha.
E, pois que se devia dançar tanto, era muito importante achar um músico consumado, e a Nils Elofson, o rico camponês que casava a filha, atormentava mais este problema do que o resto dos preparativos. Quanto ao músico que habitava em Svarstjo, não o queria ele por preço algum. Chamava-se João Oster, e o nosso camponês sabia bem que tinha grande nomeada, mas era tão pobre, que às vezes se apresentava nas festas descalço e de colete rasgado. Não é um maltrapilho assim que a gente gosta de ver à frente de um cortejo nupcial.
Decidiu-se enfim a mandar perguntar a certo Martim, chamado o Tocador, de Josseherad, cantão vizinho, se estava disposto a vir tocar no casamento de Svarstjo.
Sem um instante de hesitação, respondeu Martim, o Tocador, que nunca tocaria em Svarstjo, enquanto houvesse naquela comuna o melhor músico de toda a Vermlândia. Visto que tinham aquele, não havia necessidade de mandar chamar outro.
Recebendo esta resposta, esperou Nils Elofson alguns dias para reflectir, depois mandou perguntar a Olle de Saby, que morava na comuna de Stora Kil, se podia vir tocar no casamento de sua filha.
Mas Olle de Saby deu a mesma resposta que Martim. Mandou dizer a Nils Elofson que, enquanto houvesse em Svarstjo um músico como João Oster, ele lá não iria tocar.
Nils Elofson não achava graça à pretensão dos músicos de lhe imporem quem ele não queria. Parecia-lhe até que era agora um ponto de honra achar outro músico que não fosse João Oster.
Alguns dias depois de receber a resposta de Olle de Saby, enviou o criado a Lars Larsson, o violinista de Engsgardet, na comuna de Ulerud.
Lars Larsson era homem abastado, proprietário de uma próspera granja; era prudente e reflectido, não uma cabeça esquentada como os outros músicos.
Mas esse, como os outros, pensou logo em João Oster, perguntando por que não se tinham dirigido a ele para o que queriam. Por malícia, respondeu o criado de Nils que, como João Oster morava em Svarstjo, havia ocasião de ouvi-lo todos os dias, e, visto que Nils Slofson promovia uma festa extraordinária, desejava oferecer aos seus convidados alguma coisa melhor, mais rara.
– Duvido que ele ache melhor.
– Sem dúvida, vai dar a mesma resposta que Martim o Tocador, e Olle de Saby – disse o criado, contando-lhe o acolhimento que aqueles tinham feito ao convite do seu senhor.
Atento, ouviu Lars Larsson a narração do criado. Guardou silêncio um momento, reflectindo, e deu resposta afirmativa.
- Dize a teu amo que agradeço o convite e que irei à hora marcada.
No domingo seguinte, lá foi Lars Larsson à igreja de Svarstjo. Viram-no chegar à ladeira que conduz à igreja, justamente quando começava a formar-se o cortejo nupcial para se pôr a caminho.
Viera no seu próprio carrinho, puxado por um cavalo de preço; vestia um belo trajo negro e tirou o instrumento de uma esplêndida caixa. Recebeu-o Nils Elofson com todos os respeitos devidos à sua categoria: aquele, sim, era um músico de quem a gente se podia orgulhar.
Pouco depois da chegada de Lars Larsson, viram aproximar-se João Oster, com o violino debaixo do braço. Foi direito ao cortejo que cercava a noiva, como se tivesse sido convidado para tocar na festa.
Vinha com o seu velho colete de burel cinzento, que vestia há longos anos, mas, como se tratava de casamento tão rico, a mulher fizera alguns consertos, pondo nos cotovelos grandes remendos de pano verde. Era um belo homem, de alta estatura, e faria grande figura à frente do cortejo nupcial, se não estivesse tão miseravelmente vestido, e se a luta incessante contra a miséria lhe não houvesse marcado o rosto de rugas.
Vendo chegar João Oster, pareceu Lars Larsson contrariado.
– Convidou-o também? – perguntou a meia voz a Nils Elofson. – Não são demais com efeito, dois músicos para tão magnífico casamento.
– Mas não o convidei – protestou Nils Elofson. – Não compreendo por que veio. Espera um pouco, que lhe farei saber que nada tem a fazer aqui.
– Foi então algum trocista que o convidou. Mas, se quer o meu parecer, façamos de conta que de nada desconfiamos e vá dar-lhe as boas-vindas. Tenho ouvido dizer que ele é arrebatado de génio, e não podemos ter a certeza de que não vá fazer escândalo, se lhe disser que não foi convidado.
Aceitou Nils sem hesitação este conselho. Seria inoportuno procurar aborrecimentos no momento em que o cortejo se formava na praça da igreja. Aproximou-se, pois, de João Oster e cumprimentou-o.
Feito isto, colocaram-se ambos os músicos à frente. Atrás deles,
o par, sob o pálio, seguido dos pajens e donzelas de honor, dois a dois; vinham depois os pais dos noivos, e os diversos membros de ambas as famílias, de modo que o acompanhamento tinha na verdade um aspecto imponente.
Quando tudo estava pronto, um rapaz, dirigindo-se aos músicos, pediu-lhes que iniciassem a marcha nupcial.
Fizeram ambos os músicos simultaneamente o mesmo gesto de apoiar o violino ao queixo. Nisto pararam ambos, rígidos, à espera, porque, em Svarstjo, um velho costume exigia que fosse o músico mais hábil a iniciar a marcha nupcial.
Olhou o rapaz para Lars Larsson como a indicar que este começasse, mas Lars Larsson olhou para João Oster, dizendo:
– É João Oster quem deve começar!
Não pensava, porém, João Oster que o outro, vestido tão ricamente como um senhor, lhe pudesse ser inferior, a ele que, envergando um velho colete de burel, vinha de uma pobre cabana onde não havia mais do que trabalho e miséria.
– Oh, mas de modo nenhum – disse ele, confuso. – Oh! Não, de modo nenhum!
Viu que o noivo tocava no cotovelo de Lars Larsson, dizendo:
– Lars Larsson deve começar!
Ouvindo estas palavras, João Oster retirou o violino do queixo e deu um passo para o lado.
Lars Larsson não se moveu; ficou no seu lugar, parecendo tranquilo e contente de si. Contudo, também não levantou o arco.
– É João Oster quem deve começar – repetiu, acentuando as palavras, como homem habituado a fazer o que quer.
Houve não pouca agitação no cortejo, por causa da demora. Veio o pai do noivo pedir a Lars Larsson que começasse. À porta da igreja apareceu o porteiro, fazendo-lhe sinal para que se apressassem; o pastor já estava diante do altar. Era pouco delicado fazê-lo esperar.
– Não têm mais do que pedir a João Oster que comece – respondeu Lars Larsson. – Nós, músicos, sabemos que é o mais hábil de todos.
– Pode ser que assim seja – replicou o camponês – mas nós, camponeses, achamos que és tu, Lars Larsson, o mais hábil.
Cercavam-nos todos os convidados.
– Mas começai – diziam – o pastor está à espera. Vamos servir de risota a toda a gente.
Lars Larsson, porém, permaneceu ali, tenaz e desdenhoso como nunca.
– Não compreendo por que a gente daqui se opõe com tanto ardor a que o seu próprio músico tenha o primeiro lugar – disse ele.
Mas Nils Elofson enfurecera-se perante a obstinação de todos em quererem impor-lhe João Oster. Aproximou-se de Lars Larsson e disse-lhe ao ouvido:
– Compreendo que foste tu quem chamou João Oster, para o honrar diante de todos. Mas agora trata de começar, senão vou enxotar da praça este esfarrapado, que só levará daqui vergonha e confusão.
Sem mostrar cólera, olhou-o Lars Larsson nos olhos e fez com a cabeça um sinal afirmativo.
– Sim, tem razão, é preciso acabar com isto.
Fez sinal a João Oster para retomar o seu lugar à frente. Depois, adiantou-se alguns passos para que todos o pudessem ver. E, com um gesto rápido, lançou longe o arco, tirou a faca do bolso e cortou de um golpe as quatro cordas, que se partiram, produzindo um som agudo.
– Ninguém dirá que me considero acima de João Oster! – gritou ele.
Ora, é o caso que há três anos ruminava João Oster uma ária que sentia palpitar em si, mas que era incapaz de fazer sair das cordas do violino, porque, lá em casa, estava constantemente curvado sob o pesado fardo de cuidados pequeninos e miseráveis, e nunca lhe sucedera nada que o pudesse elevar acima da tarefa quotidiana. Quando ouviu rebentarem as cordas do violino de Lars Larsson, atirou para trás a cabeça e aspirou violentamente o ar nos pulmões. Tinha os traços do rosto tensos, como se escutasse alguma coisa que lhe vinha de muito, muito longe, e de repente, pôs-se a tocar. Porque a ária que procurara em vão durante três anos, lhe aparece de improviso com maravilhosa limpidez, e, fazendo ressoar as notas claras, pôs-se a caminhar altivamente para a igreja. E jamais a gente do cortejo ouvira ária tão triunfal. Arrastou-os a todos com tão irresistível ímpeto que o próprio Nils Elofson não se pôde manter quieto. E estavam todos tão contentes, não só de João Oster, mas também de Lars Larsson, que o acompanhamento inteiro tinha os olhos rasos de lágrimas ao entrar na igreja.


Selma Lagerlöf, Histórias Inesquecíveis para Crianças,
Ilse Losa (org.)


24/12/2008

Conto de Natal



Um aldeão russo, muito cristão, constantemente pedia em suas orações que Jesus viesse visitá-lo em sua humilde choupana.
Na véspera do Natal sonhou que o Senhor iria aparecer-lhe. Teve tanta certeza da visita que, mal acordou, levantou-se imediatamente e começou a pôr a casa em ordem para receber o hóspede tão esperado.
Uma violenta tempestade de granizo e neve acontecia lá fora e o aldeão continuava com os afazeres domésticos, cuidando também da sopa de repolho, que era o seu prato predileto.

De vez em quando ele observava a estrada, sempre à espera. Decorrido algum tempo, o aldeão viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade em meio a borrasca de neve. Era um pobre vendedor ambulante, que conduzia às costas um fardo bastante pesado. Compadecido, saiu de casa e foi ao encontro do vendedor. Levou-o para a choupana, pôs sua roupa a secar ao calor da lareira e repartiu com ele a sopa de repolho. Só o deixou ir embora depois de ver que ele já tinha forças para continuar a jornada.
Olhando de novo através da vidraça, avistou uma mulher na estrada coberta de neve. Foi buscá-la, e abrigou-a na choupana. Fez com que sentasse próximo à lareira, deu-lhe de comer, embrulhou-a em sua própria capa... Não a deixou partir enquanto não readquiriu forças suficientes para a caminhada.
A noite começava a cair... E nada de Jesus!
Já quase sem esperanças, o aldeão novamente foi até a janela e examinou a estrada coberta de neve. Distinguiu uma criança e percebeu que ela se encontrava perdida e quase congelada pelo frio... Saiu mais uma vez, pegou a criança e levou-a para a cabana. Deu-lhe de comer, e não demorou muito para que a visse adormecida ao calor da lareira.
Cansado e desolado, o aldeão sentou-se e acabou por adormecer junto ao fogo.
Mas, de repente, uma luz radiosa, que não provinha da lareira, iluminou tudo! Diante do pobre aldeão, surgiu risonho o Senhor, envolto em uma túnica branca!
- Ah! Senhor! Esperei-O o dia todo e não aparecestes, lamentou-se o aldeão...
E Jesus lhe respondeu:
- Já por três vezes, hoje, visitei tua choupana: o vendedor ambulante que socorrestes, aquecestes e deste de comer...era Eu! A pobre mulher, a quem deste a capa...era Eu! E essa criança que salvaste da tempestade, também era Eu... O Bem que a cada um deles fizeste, a mim mesmo o fizeste!

Leon Tolstoi


Conto de Natal



Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.
— Que é?
O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:
— Porcaria...
Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.
— Péra aí...
Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.
— Vamos ver aqui...
Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.
Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.
Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!
— Mulher!
Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.
— Péra aí...
Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.
O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.
De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.
— Não...
Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.
— Eh, mulher...
Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.
— Oh, graças a Deus...
Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.
— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.
O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.
— Eu acho que o jeito...
O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.
No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.
Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.
— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!
— Natal?
Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.
— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...
Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:
— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!
A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:
— Eh, pai, vem vê...
— Uai! Péra aí...
O menino Jesus Cristo estava morto.



Texto extraído do livro "Nós e o Natal",
Artes Gráficas Gomes de Souza
Rio de Janeiro, 1964, pág. 39.

A árvore de Natal na casa de Cristo




Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.

Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.
Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar - de verdade - e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Aqui, pelo menos", refletiu ele, "não me acharão: está muito escuro."
Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos", pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"
- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.
Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.
- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça... - Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.
- Isto... é a árvore de Natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...
E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...
E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.


Dostoiévski



23/12/2008

Bom Natal, Pai Natal

Santa in Chimney Art Print by Susan Comish

Não é nada fácil a vida de um Pai Natal. Se não acreditam, prestem atenção àquilo que vos vou contar. As peripécias são muitas e os azares ainda mais. É por isso que as minhas barbas estão cada vez mais brancas. Brancas da neve, que, em flocos, nelas vai pousando, mas também das preocupações que não me dão sossego.
Querem saber como é que se chega a Pai Natal? Então eu vou explicar-vos. Pode ser-se Pai Natal de muitas maneiras. Eu, por exemplo, não escolhi esta profissão. Foi ela que me escolheu, sim porque os ofícios também podem escolher as pessoas e não o contrário.
Durante muitos anos eu fui carteiro numa pequena cidade do Norte, onde a invernia durava mais de seis meses e onde a luz do sol era caprichosa e fazia muitas caretas antes de aparecer.
Toda a gente me conhecia e eu conhecia toda a gente. Nessa altura não me chamava Pai Natal e sim Thor, um nome comum nos países do norte da Europa, que tratam por tu o gelo, o frio e a solidão dos grandes espaços brancos onde só há renas e bonecos de neve com narizes feitos com cenouras geladas como estalactites.
As pessoas costumam gostar dos carteiros, sobretudo nas terras pequenas, porque eles, mesmo quando trazem más notícias, também são capazes de deixar uma palavra amiga e um abraço de consolo.
Vi nascer famílias inteiras. Vi desaparecer os mais velhos. Vi as crianças tornarem-se homens e mulheres e partirem para as cidades grandes em busca de trabalho. Vi coisas boas e más, alegres e tristes e, muito antes de ser Pai Natal, também vi o mal que as guerras podem fazer a quem quer viver em paz.
Como qualquer carteiro que gosta do seu ofício, eu acompanhava a vida das notícias que levava e que trazia. Uma lágrima de tristeza no rosto de quem as recebia dizia-me que podiam ser bem melhores do que eram. Um sorriso largo mostrava-me que elas tinham trazido felicidade a alguém. E eu estava sempre ao lado de quem sofria ou de quem ficava contente, sim porque os amigos são isso mesmo. São aqueles com quem se pode contar tanto nas horas boas como nas más.
— Thor, vê lá que notícias nos trazes hoje! — diziam-me, à passagem, as pessoas que moravam na pequena cidade de província, com casas de madeira, usando um tom que era de brincadeira, mas também de ameaça. Elas sabiam que eu não lia nem podia ler as cartas que lhes entregava, mas, no fundo, acreditavam que eu podia fazer alguma coisa para tornar mais agradáveis as notícias tristes e ainda mais alegres as notícias boas. Acho que é assim que os carteiros são vistos um pouco por toda a parte e eu não me importava que isso acontecesse comigo, até porque me dava a sensação de ter um poder que realmente não tinha. Acreditem que era uma sensação agradável, principalmente para um modesto carteiro cujo único poder era o de ler os endereços nos envelopes e de os entregar às pessoas certas sem demora.
Com a idade, comecei a sentir dores nas pernas e nas costas e o exercício matinal de andar vários quilómetros ao frio deixou de ser agradável e estimulante. Passei a caminhar mais lentamente e algumas pessoas começaram a protestar porque a entrega da correspondência se fazia cada vez mais tarde.
— Desculpem, mas melhor do que isto já não consigo fazer — lamentava-me eu, com pena de que o meu serviço estivesse a perder qualidade.
Houve mesmo pessoas que não eram da cidade, mas que para lá foram entretanto viver, que pediram ao chefe da estação de correios para me substituir, mas ele, que era meu amigo e que sabia como eu era estimado, sorriu e limitou-se a responder:
— Enquanto ele puder andar e quiser continuar a ser carteiro, o lugar é dele. Portanto, a sua substituição está fora de questão.
Fiquei-lhe agradecido por aquele gesto de amizade e de confiança, mas devo confessar que, a partir dessa altura, comecei a pensar em retirar-me para ter um fim de vida mais descansado. Mas retirar-me para fazer o quê? Para essa pergunta eu não encontrava resposta, mas ela acabou por surgir.

*

Ao longo da minha vida como carteiro conheci muita gente. Uma dessas pessoas era um simpático sapateiro chamado Andersen, que tinha ideias arejadas apesar de o seu ofício ser modesto. Era casado com uma senhora mais velha e recordo-me bem da alegria que o casal teve quando, num dia do princípio de Abril, lhes nasceu o único filho. Era uma criança pequena e muito metida consigo mesma. Quando ele nasceu, levei cartas para várias cidades e aldeias a dar a notícia da sua vinda ao mundo. Os pais, de tão felizes que estavam, queriam que familiares e amigos partilhassem a sua alegria. Ao menino foi dado o nome de Hans Christian e quando cresceu passei a contá-lo entre os meus amigos. Eu contava-lhe histórias e ele retribuía com outras que a mãe e o pai lhe contavam, e longe estava eu de imaginar que muitas dessas histórias, uma vez postas em livro, viriam depois a torná-lo famoso em todo o mundo.
— Não chores que ele qualquer dia volta — foram as únicas palavras que consegui dizer-lhe no dia em que o seu pai partiu para muito longe, para participar como soldado nas campanhas de Napoleão Bonaparte, um imperador francês que ele muito admirava.
O pai de Hans Christian nunca mais voltou, nem as histórias que ele contava ao filho ao adormecer. Durante muito tempo ele deixou de querer saber se chegavam ou não cartas de longe com notícias frescas e boas. Ninguém mais lhe poderia dar a notícia pela qual ele ansiava: a do regresso de seu pai. Um dia vi Hans Christian de malas feitas para partir e perguntei-lhe:
— Para onde vais, rapaz? Se tu partires, a quem vou eu contar as minhas histórias de carteiro velho?
— Vou para Copenhaga. Quero ser cantor, bailarino, actor, talvez mesmo escritor. Tu qualquer dia também vais fazer grandes viagens, como as personagens das histórias de que ambos gostamos tanto.
— Mas eu não passo de um pobre carteiro à beira da reforma — respondi-lhe eu.
— Mas nada te obriga a teres este ofício até ao fim dos teus dias. Qualquer dia tens uma grande surpresa — disse-me Hans Christian, enquanto subia para a carruagem que o levaria até à capital, para ser famoso e rico.
Fiquei a pensar na surpresa de que ele me falou com um sorriso matreiro no rosto magro e pálido, mas, mesmo puxando pela imaginação, não consegui descobrir qual poderia ser.
Nas semanas que se seguiram senti saudades de Hans Christian e das histórias que, fora das horas do meu serviço, contávamos um ao outro, dando asas aos sonhos que fazem voar as histórias e as lendas por cima das fronteiras que separam os países e os homens. Ele fez-me muita falta, porque, sem a sua presença, eu sentia-me mais velho, mais cansado e menos capaz de cumprir a minha função de carteiro. As ruas eram agora mais compridas, havia mais casas, rostos novos e eu já não era capaz de conhecer toda a gente, como nos velhos tempos da juventude. Entristecia um pouco mais todos os dias, ansioso por que chegasse a reforma e, ao mesmo tempo, com a esperança de que ela tardasse o mais possível. Afastado do meu trabalho, eu iria sentir-me inútil e abandonado.
Às vezes as crianças, ao verem-me passar, diziam-me:
— Em vez de cartas cheias de gatafunhos, bem podias trazer-nos um presente bonito, mesmo que não seja Natal.
Foi nessa altura que comecei a receber cartas de muito longe. Primeiro de Itália, depois de Espanha e de Portugal. Era Hans Christian quem as mandava e em todas elas me dava conta dos seus êxitos literários. Os seus livros eram agora lidos em muitos países e as suas histórias contadas a crianças de todo o mundo. Nem podia imaginar a alegria que o seu triunfo me dava. Numa dessas dessas cartas ele fazia-me um anúncio estranho e ao mesmo tempo agradável: “Prepara-te, Thor, porque dentro de pouco tempo vais receber a visita de uma grande amiga minha que te levará boas notícias”.
Todos os dias eu ficava à espera dessa visita que tardava a chegar. Mas, como sabia que Hans Christian não era pessoa para mentir, não desisti de a ver chegar à porta da minha pequena casa de madeira, onde as crianças da cidade me vinham pedir que lhes contasse histórias e saber se eu tinha presentes para lhes entregar.
Os grandes frios de Inverno deixavam-me cada vez mais abatido e com menos vontade de distribuir correspondência de rua em rua, de casa em casa. Um dia adoeci com gravidade e os meus amigos disseram-me:
— É tempo de parares. A partir de agora alguém mais jovem se ocupará da tua tarefa. Tens direito a descansar e a passear pelas ruas e pelas praças sem a obrigação de entregares cartas e encomendas. As pessoas vão sentir saudades tuas, mas podem vir visitar-te a casa.
Deitando contas à minha pobre vida, que assim se aproximava do fim, nem me apercebi da presença, junto à minha cabeceira de doente, de uma rapariga de vestido branco e olhos verdes, que parecia ter luz própria, como uma estrela ou uma fogueira nocturna. Quis saber quem era e o que fazia ali.
— Diz-me o teu nome e o que fazes aqui?
— Não te assustes, porque são boas as razões que me trazem à tua casa. Suponho que Hans Christian, nosso amigo comum, te terá falado em mim.
— Ah, então és tu a surpresa de que ele me falava com tanto mistério — exclamei, satisfeito e intrigado.
— Não sei se sou ou não uma surpresa, mas sou, pelo menos, uma amiga que te vem ajudar — disse ela.
— E posso ao menos saber o teu nome, ou será que não o podes dizer a um pobre carteiro que deixou de entregar cartas e que vê a sua vida a aproximar-se do fim?
— Claro que podes saber o meu nome. Eu sou a Fada do Inverno e venho propor-te um outro ofício que, sendo parecido com o que tiveste durante tantos anos, acaba, afinal, por ser muito diferente.
— E será que posso saber qual é esse ofício que agora me propões? — quis eu saber, já cansado de tanto mistério.
— Venho propor-te que te tornes Pai Natal — esclareceu a fada — e, por aquilo que sei de ti e pelo que sei que as crianças sentem a teu respeito, acho que vais gostar muito do teu novo trabalho.
— Mas eu — respondi, balbuciando com a comoção — não sei o que é preciso fazer para se ser Pai Natal e, para além disso, estou com muito poucas forças e a saúde muito fraca. Acho mesmo que estou velho de mais para aquilo que me propões.
— Não deves preocupar-te com nada disso — explicou ela — porque, a partir de hoje, vais ter uma saúde de ferro e a idade vai deixar de contar para ti. Em vez de contares os dias, vais contar os natais e ficarás sempre com a mesma idade, porque um Pai Natal não pode ser mais novo nem mais velho do que tu. Tem que ter sempre a mesma idade e o mesmo aspecto.
Confesso que a ideia me agradou bastante, mas não me atrevi a acreditar que nada daquilo fosse verdade. Eu devia estar a delirar com a febre e a Fada do Inverno não devia passar de uma alucinação.
Foi então que a fada, pegando-me na mão, me levantou da cama e me levou até à janela para ver, cá fora, na rua, a parte mais importante da surpresa.
— Vais fechar os olhos — disse-me — e, quando eu acabar de contar até dez, vais abri-los e ver o que está parado à tua porta.
Fiz exactamente como ela disse e, ao abrir os olhos, deparei com um lindo trenó, puxado por quatro parelhas de renas.
— Gostas? — perguntou ela.
— Claro que gosto — exclamei — mas não acredito que seja para mim e que vá ser eu a viajar nele.
— Pois podes acreditar no que vês. A partir de agora serás tu a conduzir aquele trenó e a levar, em Dezembro, presentes a crianças de muitos países. Claro que vais receber muitas cartas e ter que as ler para saber o que querem, de onde são e em que medida podes ou não satisfazer os seus pedidos. Mas é mesmo essa a função de um Pai Natal, e não é muito diferente daquilo que fazias quando eras carteiro. Apenas terás que viajar mais e não te poderás limitar a entregar encomendas.
Ouvi atentamente todas as palavras da fada e comecei logo a fazer projectos quanto à forma de realizar da melhor maneira o meu novo trabalho.
Dividido entre o sonho e a realidade, senti que ela me tocava na testa com a varinha de condão e que, ao fazê-lo, se desfazia num clarão, desaparecendo do meu quarto sem sequer me dizer adeus. Eu era agora um Pai Natal a sério, com roupa de macia flanela vermelha, gorro da mesma cor com uma borla branca na ponta e com barbas ainda mais compridas do que as que habitualmente usava. Nesse instante deixei também de sentir dores nas pernas e nas costas e a fraqueza que me levara à cama transformara-se num vigor e num bem-estar imensos. Eu nunca me sentira tão bem na minha vida. Tornara-me Pai Natal e não ia ter mãos a medir. Quis agradecer ao meu amigo Hans Christian, mas não sabia a sua morada, nem o seu paradeiro, já que ele andava agora por todo o mundo a visitar cidades, escritores seus amigos e a ver os seus livros traduzidos noutras línguas nas montras das maiores livrarias.
Falando com os meus botões, prometi: “No próximo Natal vou deixar-lhe um presente na chaminé”. Alguém havia de me dar a sua morada.
No começo tudo foi agradável e entusiasmante, até por ser novidade. Eu gostava muito daquilo que fazia e não havia pedido que não satisfizesse, mesmo que não fosse fácil de atender. E muitos não eram.
Ao longo do ano chegavam-me cartas e postais de todo o mundo. Alguns até traziam desenhos bonitos, feitos a várias cores. Outros vinham escritos com uma letra miudinha e cheia de hesitações. Às vezes eu levava horas a tentar decifrar os pedidos que as crianças me faziam. Tive que aprender várias línguas e arranjar óculos com lentes mais fortes. Senti a tentação de satisfazer primeiro os pedidos das crianças da minha cidade, mas não caí nela. Os pedidos eram satisfeitos pela ordem de chegada e primeiro estavam sempre os meninos e as meninas que, ao longo do ano, pouco ou nada tinham recebido. Era uma questão de justiça e eu, se já tinha sido justo como carteiro, agora tinha de o ser ainda mais como Pai Natal.
Vi, cá de cima, o mundo a transformar-se: as cidades a crescerem, as populações a aumentarem e a movimentarem-se de uns países e de uns continentes para os outros, as fábricas a aparecerem e a encherem os céus de fumo espesso e escuro, as pessoas a andarem cada vez mais depressa.
— Isto nunca esteve tão mal — lamentavam-se os velhos.
— Eu gosto de ser criança e tenho vontade de ser feliz — diziam-me os mais pequenos.
Tive que perguntar aos gnomos que me ajudavam e que estavam mais atentos às pequenas e às grandes coisas da terra os nomes de estranhos objectos metálicos que eu observava cá em baixo em movimento, e eles responderam-me: “São os automóveis, os autocarros e os comboios, os aviões e os navios”. Eu nunca percebi verdadeiramente para que servia tudo aquilo, porque os meus problemas de deslocação resolviam-se com um simples e rápido trenó. Mas eu sou um Pai Natal e as pessoas como eu não devem andar de carro ou de comboio, ou, pelo menos, ninguém espera que andem, para que não se estrague a magia das histórias que ajudam a sonhar.
Os meus maiores problemas foram sempre com os objectos voadores, primeiro com os aviões e mais recentemente com as naves espaciais. Já estive em vias de chocar com alguns e só por milagre isso não aconteceu. Há uns anos, depois de ter evitado à justa a colisão com um avião gigantesco que voava para a Austrália, para a terra dos meus amigos cangurus, ainda ouvi um insulto (digo que era um insulto pelo tom e não porque saiba o significado da palavra) que ainda hoje me dá que pensar:
— “Desaparece da minha frente, ovni de uma figa”! — gritou o comandante furibundo, com os olhos a faiscarem de raiva. E eu, como era Natal, nem lhe pude responder, senão ainda lhe teria dito:
— Ovni és tu, meu azelha dos céus. Vai mas é arrumar essa banheira de lata pintada na garagem da tua avó. Ovni é a tua prima!
Mas achei de bom tom ficar calado e seguir viagem. É isso que se espera de um Pai Natal, e foi precisamente isso que eu fiz. Era só o que faltava: eu envolvido numa discussão de trânsito!
O que mais me tem custado em todos estes anos que levo de ofício e que já não têm conta, porque eu, depois da minha conversa com a Fada do Inverno, também perdi a conta aos anos que tenho de idade, é ver os estragos que as guerras provocam às pessoas e às casas. Até me arrepio quando falo nisto, mesmo não vos contando as coisas terríveis que já vi. Um Pai Natal não pode contar tudo aquilo que vê.
Não me chegam os dedos das mãos para contar os natais em que fiquei sem entregar presentes. Levei o meu trenó o mais longe que pude, até perto das casas dos meninos que me tinham escrito cartas e postais, mas, na maior parte das vezes, não os encontrei. Tinham deixado de morar ali, tinham sido levados para campos longínquos onde as pessoas são tratadas como bichos e alguns nunca mais puderam regressar às suas casas. Guardei os seus presentes no meu sótão iluminado, sempre à espera de dias melhores e mais pacíficos. Mas esses dias, quando finalmente chegaram, já estavam fora de tempo. Muitas vezes chorei sobre as cidades destruídas e incendiadas pela guerra e ouvi as minhas renas a perguntarem-me:
— Porque choras, Pai Natal?
— Por nada, é do nevoeiro e do fumo que sai das chaminés das fábricas — respondi eu com pouca convicção, mas elas perceberam que eu não estava a falar verdade.
Ninguém tem tanta sensibilidade como os animais para perceber se estamos ou não a sofrer. As renas conhecem-me há tantos, tantos anos que, mal eu começo a fungar, sabem logo que é uma grande tristeza a tomar conta de mim.
— Quando ele está assim triste, o melhor é deixá-lo ficar em paz com os seus pensamentos — costuma ser este o comentário das renas.
Mas eu não lhes menti inteiramente quando falei no fumo das fábricas. É mesmo verdade. Cada vez mais andam no ar fumos esquisitos e irritantes, dos que fazem chorar, dos que fazem espirrar e dos que nos deixam cheios de comichões na pele. Para dizer a verdade, eu acho que as pessoas cada vez têm menos respeito umas pelas outras, e, quando o respeito falta, tudo se torna possível. Por isso, os meus ouvidos andam cansados de ouvir tantas queixas, das crianças, dos pássaros, dos peixes, das árvores e dos rios. Há meses até recebi uma carta de um colibri a pedir-me uma máscara contra os fumos de uma grande fábrica que construíram perto do seu ninho. Claro que não pude satisfazer o pedido, primeiro porque não costumo dar máscaras anti-poluição e depois porque não existem nenhumas feitas à medida dos pássaros, sobretudo quando são pequeninos como os colibris.
Mas os pedidos estranhos não se ficam por aqui. Antigamente pediam-me ursos de peluche, carros de bombeiros feitos de lata, marionetas e bonecas de pano. Agora pedem-me coisas muito diferentes: jogos de computador, carros telecomandados, leitores de CDs.
Confesso que tenho feito um grande esforço para me manter actualizado. Leio livros, jornais, folhetos explicativos e muita outra papelada. Por aí vejo as voltas que o mundo deu.
No tempo em que eu contava histórias a Hans Christian e ele mas contava a mim, nada disto existia. Era tudo mais simples e menos confuso. Não quero dizer que fosse melhor nem pior.
Acho apenas que era diferente, muito diferente. Eu sei que o mundo não pára e que tudo se transforma. Mas também sei, mesmo sem querer armar-me em filósofo de trazer por casa, que há coisas que as pessoas não podem nunca perder: o gosto de conversar, de estar com as outras pessoas, de ouvir e de contar histórias, de olhar para o céu e para o mar, nem que seja para contar estrelas ou ondas.
Aqui, o velho Thor às vezes interroga-se: “Será que os presentes que eu entreguei ao longo da minha vida fizeram bem aos meninos e às meninas que os receberam? Será que não ficaram mais mesquinhos e gananciosos por terem presentes a mais?”
Ainda não consegui e se calhar nunca conseguirei encontrar respostas para estas perguntas, mas não faz mal. Às vezes, as perguntas são muito mais importantes que as respostas, porque nos fazem pensar e nos ajudam a fazer pensar os outros. Ainda há pouco abri uma carta vinda não sei bem de onde e, lendo o segundo parágrafo, vi que uma menina chamada Bárbara me pedia um telemóvel para poder falar a qualquer hora do dia com os primos que estão emigrados no Canadá. Vou ver se não me esqueço de satisfazer o pedido da Bárbara, porque é para isso que um Pai Natal existe, mas, sinceramente, preferia que ela me tivesse pedido um livro de lendas ou uma boneca. Se calhar, são manias que eu tenho.
— Pai Natal, este ano tens que me trazer uma televisão gigante para eu ver o que se passa no mundo. Quando o ecrã é grande até as guerras são um espectáculo! — disse-me na semana passada, à passagem por uma aldeia de montanha, um miúdo de cabelos negros e olhos muito vivos, e eu respondi-lhe:
— Em vez da televisão, este ano vou oferecer-te um livro muito bonito. Não leves a mal, mas presentes desse tamanho já não cabem no meu trenó.

Eu sei que, às vezes, me torno um desmancha-prazeres, mas prefiro dizer o que penso e o que sinto. Quanto a dar televisões de presente, prefiro fazer outras escolhas. Não tenho nada contra a televisão, mas, como sou do tempo em que ela ainda não tinha sido inventada, tenho saudades das noites e dos dias em que havia paciência para sonhar e para inventar histórias. Pode ser que eu esteja a ver mal as coisas, mas, se aqui estivesse o meu amigo Hans Christian, era bem capaz de me dar razão.

*

Embora todos ou quase todos sonhem com o Pai Natal quando são pequenos, eu gostava de vos dizer que o Pai Natal também tem sonhos e gosta muito de sonhar. De resto, eu não sei mesmo o que seria a vida de um Pai Natal se não fossem os sonhos que o acompanham por toda a parte.
Ainda esta noite tive um sonho. Sonhei que recebia a minha própria visita. Eu estava a dormir, ainda menino, na minha terra fria do Norte, e de repente bateram à porta e era eu que vinha entregar um presente a mim mesmo.
Como vocês sabem, nos sonhos tudo, ou quase tudo, é possível, até sonharmos que recebemos a nossa própria visita. Olhei para aquela cara e confesso que ela não me pareceu nada estranha. Era eu menino a olhar para mim já velho e a sentir simpatia por aquele homem de barbas compridas e brancas que me trazia um presente de muito longe e de um sítio secreto no fundo da noite. Sentei-me na cama e tentei tocar-lhe nas barbas, mas, como sempre acontece nos sonhos, senti que tinha os movimentos presos, que não conseguia sequer mexer um músculo, que estava mais rígido que um pedaço de granito numa montanha. Sentei-me na cama e perguntei-lhe:
— Que presente me trazes?
— Trago-te um trenó pequenino para tu poderes viajar nele quando tiveres a minha idade — respondeu-me o Pai Natal.
— Mas quem foi que te disse que eu ia querer um trenó para usar quando tiver a tua idade? — perguntei eu, em tom de menino esperto e inquiridor.
— Ninguém me disse, fui eu que adivinhei. Eu sei que quando tiveres a minha idade, barbas tão compridas como as minhas e este ar cansado e errante com que hoje me vês, vais precisar de um trenó como aquele que agora te ofereço, só que muito maior e com renas verdadeiras.
— Mas como podes tu saber a meu respeito coisas que eu nem sou capaz de imaginar?
— Se calhar é a vantagem de ser Pai Natal. Mas eu vou tentar satisfazer a tua curiosidade. Esta madrugada, antes de vir bater à tua porta, eu passei pela casa de um outro menino chamado Hans Christian, que me pediu para não me esquecer de ti nesta noite de todos os presentes e de todos os afectos. E foi isso que eu fiz. Vim até à tua casa para te oferecer este pequeno trenó. Sempre que olhares para ele, hás-de lembrar-te de mim e hás-de lembrar-te daquilo que irás ser quando tiveres a minha idade.
Olhei, em sonhos, ainda com a idade de ser um menino, para aquele Pai Natal que era eu com os anos que hoje tenho, e senti uma grande ternura. Não por mim, mas por todos aqueles a quem consigo dar um pouco de alegria com o recheio mágico do meu saco iluminado.
E pronto, tinha chegado o momento de acabar o sonho. Eu ia fechar os olhos, mergulhar numa escuridão profunda e preparar-me para ser apenas aquilo que sou nesta história que hoje vos conto na primeira pessoa: um Pai Natal vindo das terras geladas e brancas do Norte, cheio de coisas para contar e de presentes para entregar.
Agora eu pergunto: será que é real o que vos estou a contar nesta história? Será que há histórias verdadeiras? Será que um Pai Natal, mesmo quando conta a sua própria história, não é sempre uma figura mágica, nascida da imaginação de quem já foi menino e de quem, sendo menino, recebeu, na altura certa, os presentes da alegria e da saudade de ser menino? Podem ter a certeza que não vou dar resposta a nenhuma destas perguntas. Porque não quero e porque não sei. Um Pai Natal é muito mais interessante quando pergunta do que quando responde. E eu gosto muito de ser perguntador. Gosto de perguntar qual é o melhor caminho para chegar mais perto daqueles de quem gosto. Gosto de perguntar qual é a morada das estrelas que me iluminam o caminho. Gosto de perguntar onde começa e acaba o sonho dos meninos que me inventam em cada noite de Consoada.
Agora estou acordado outra vez, e ainda tenho muito para viajar e outro tanto para contar. Sigo o fio de luz deixado por um cometa que atravessa a noite em direcção a lado nenhum. É seguindo estes rastos que eu encontro sempre o caminho que me leva até ao fim das histórias e até à casa de cada um de vós. Porque vocês me inventam e porque eu, ao saber-me inventado, também me sei amado como só os pais, os avós e os grandes amigos podem ser. E, dito isto, só não vos entrego já o presente que trouxe para vos dar, porque isso só pode acontecer no fim da história, e eu ainda tenho um longo caminho a percorrer até lá chegar. Endireito as costas no assento do meu velho trenó e parto para um outro capítulo.
— Vamos fazer-nos outra vez ao caminho, Pai Natal. Estávamos a ver que nunca mais acordavas! — desabafou uma das renas.

*

— Atchim! Atchim! — desculpem lá o mau jeito, mas agora passo os dias a espirrar. Nunca sei se é Verão ou se é Inverno, se é Primavera ou se é Outono. As estações do ano andam todas trocadas. Visto o meu casacão de flanela e faz um calor abrasador. Fico em mangas de camisa e sinto um frio de rachar. Vá lá um Pai Natal orientar-se no meio destas mudanças de temperatura!
A constipação que agora me anda a incomodar apanhei-a há dias quando me saltou um esqui do trenó e passei ao relento mais de duas horas a repará-lo. Quando cheguei a casa os gnomos que me ajudam notaram que eu tinha o nariz a pingar e os olhos muito vermelhos.
— O Pai Natal vai ficar de cama e não pode entregar os presentes — disse-me Adónio, o mais esperto e espevitado de todos eles.
Mas eu não me deixei assustar com a perspectiva de ficar de cama. Fui ao armário dos segredos antigos buscar um xarope feito a partir de uma receita da minha avó e hoje já estou bastante melhor. Não tenho medo de morrer com uma constipação, o que não quero é faltar ao encontro com os meus amigos de todo o mundo na noite de Natal.
O que me está a preocupar é o mau estado em que tenho o trenó. Os esquis estão desengonçados e as renas, coitadas, cada vez têm que fazer mais esforço para o puxar através das longas e sempre engarrafadas avenidas do céu. Eu bem apito, bem sacudo os guizos e os chocalhos, mas ninguém se afasta para me deixar passar. Estão todos muito ocupados a pensar nas suas vidinhas.
Um grupo de amigos meus do País dos Sonhos Azuis decidiu escrever uma longa carta aos governos de vários países, pedindo para me ser dado um trenó novo. Mas as respostas que receberam eram quase todas iguais: “O orçamento deste ano não prevê despesas supérfluas”; “as nossas disponibilidades financeiras estão esgotadas com a compra de dois novos porta-aviões”; “lamentamos informar que a resposta será negativa, mas a verdade é que temos outras prioridades para respeitar”; “porque não tentam uma fundação ou uma empresa de brinquedos? A nossa função não é dar subsídios ao Pai Natal”.
Tudo isto é bem capaz de ser verdade, mas também é verdade que quem escreveu estas cartas de resposta gostou sempre, quando era pequeno, de receber as minhas visitas na noite da Consoada. Ai, meus amigos, quem manda às vezes tem a memória curta e esquece-se de que um dia já foi pequeno.
Por isso eu vos disse, no começo desta minha história, que tenho passado por muitas peripécias e também por muitos azares. O maior de todos os azares aconteceu-me há dias. Ia eu todo satisfeito a sacudir as rédeas do meu trenó, quando senti que o tapete fofo das nuvens me fugia debaixo dos pés. Senti que me afundava e que, a cair daquela maneira, talvez não tivesse salvação. Foi então que, pela primeira vez em tantos anos, pedi a ajuda da Fada do Inverno que não tardou em vir em meu auxílio. Vi-a chegar em voo picado, de varinha de condão em riste, no meio de um enorme clarão, e achei-a tão bonita e tão luminosa como na primeira luz em que nos encontrámos, quando eu dava os primeiros passos no meu novo ofício.
— Pronto — gritou-me ela — ainda não é desta que vais deixar de ser Pai Natal!
— Obrigado, Fada do Inverno, pela tua ajuda, mas será que posso saber o que me aconteceu? — perguntei eu, cheio de curiosidade de saber como tudo aquilo tinha acontecido.
— Meu querido Pai Natal — esclareceu-me ela com a sua voz doce e bonita — o que aconteceu foi que caíste no buraco do ozono, que é uma das últimas maldades que os homens conseguiram fazer a este pobre planeta.
— Mas o que é o buraco do ozono? — quis eu saber, de tão desnorteado que estava com a prolongada queda.
— É o resultado de todos os males que os homens têm feito à atmosfera, usando e abusando de “sprays” e de outros produtos químicos que poluem e estragam. Quanto mais o buraco do ozono se alargar, piores serão os efeitos do sol sobre a pele dos seres humanos, sobre as culturas e no próprio clima.
Esclarecido, mas preocupado, ajeitei a minha amarrotada fatiota e fiquei a saber que existe mais um problema que todos vamos ter que resolver: o do buraco do ozono. Era só o que nos faltava!
Está a aproximar-se a grande noite da distribuição dos presentes e eu, como sempre acontece, encarrego-me pessoalmente de verificar se tudo está em ordem: os endereços, os laços nos embrulhos e as mensagens nos cartões que acompanham cada pacote. Nunca deixei essa tarefa em mãos alheias, porque um Pai Natal tem que ser cuidadoso com todas as etapas por que passa o seu trabalho.
Batem-me à porta e vou abrir. Quem me procura é um senhor de idade, muito pálido e magro, vestindo roupas escuras de um século anterior àquele em que eu nasci. Traz um velho cavalo preso pela rédea e parece estar muito cansado.
— Eu sou aquele que nunca teve Natal — diz-me — e venho aqui pedir-vos um grande favor.
— Faça favor de dizer — respondo-lhe, surpreendido com tão inesperada visita.
— Quero pedir-lhe que, neste Natal, junte a cada um dos presentes que entregar um saquinho de sonhos e de mistérios. É que os homens esqueceram-se de como se sonha e isso tornou-os muito mais tristonhos e carrancudos, tal como eu.
— Com certeza que vou satisfazer o seu pedido, embora não saiba onde posso encontrar esses saquinhos de sonho e mistério.
— Essa é a parte mais fácil de tudo isto — respondeu o homem — porque eu trago nos alforges do meu cavalo centenas de sacos desses. Têm dentro um pó luminoso de magia e algumas sílabas encantadas que só se usam nas palavras das fadas e dos adivinhos.
— Venham os saquinhos — propus eu — e logo me encarregarei de os distribuir.
— Nunca pensei que um homem que nunca tem Natal desse com a minha morada — comentei.
— Não foi difícil, Senhor Pai Natal, porque nós agora pertencemos ao mesmo mundo, que é o do sonho e da fantasia. Dar com a sua casa foi tão simples como sonhar. Fechei os olhos, pensei que tinha esse desejo e, quando os abri, estava aqui a bater à porta. Nada mais simples.
Ainda quis convidá-lo para beber um chazinho de tília, mas ele já estava de partida com a sua montada, a caminho de qualquer lugar que eu nunca serei capaz de encontrar no mapa.
Fechei os olhos e adormeci, exausto de tantas peripécias e visitas inesperadas. Logo à noite vou mais uma vez distribuir presentes de Natal às crianças de todo o mundo, no meu velho e esvoaçante trenó. E só espero que a protecção da Fada do Inverno, a quem devo o ofício que hoje tenho, me impeça de cair de novo no buraco do ozono.
O velho cavaleiro que nunca teve Natal já deve estar muito, muito longe. As minhas renas começam a ficar impacientes com a proximidade da grande viagem através dos céus da noite. “Calma, meninas, que vai ser só mais uma viagem para entregar presentes. Não fiquem nervosas. Vão ter uma boa recompensa de erva fresca, cenouras e açúcar e muito tempo para descansar”, digo-lhes num tom calmo e afectuoso. Toca o telefone e eu atendo. Do outro lado está Hans Christian, que me diz:
— Quero desejar-te um bom Natal e pedir-te que nunca te esqueças desta noite. Ainda vou precisar de ti para entrares em muitas das minhas histórias.
— Obrigado, Hans Christian — respondo. — Desejo que tenhas também uma boa noite de Natal. Quanto às histórias, podes contar comigo. Logo à noite passarei pela tua casa para te deixar uma lembrança. Quando ouvires os guizos das renas, já sabes que sou eu que estou a chegar.


José Jorge Letria
Porto, Edinter, 1996


21/12/2008

Natal Chinês


A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada. Costumava vê-la logo de manhã, com a irmã jardineira, no pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de loiça. Via-a casualmente a contemplar, embevecida, o presépio do convento. Encontrava-a por fim à mesa.
A senhora Tung viajava todos os anos da Formosa para Macau, na época do Natal, a fim de festejar o nascimento de Cristo na companhia da sua primogénita, a irmã Chen-Mou.
Nesses dias, com as meninas em férias, o refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos sentávamos à mesa comprida das professoras. Daí a presença da senhora Tung, que noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de cimento e plantas verdes), se tornar nessa altura notável.
Baixa, seca de carnes, de olhos atenciosos, pensativos, a senhora Tung sorria constantemente, falava inglês, gostava de comer, de fumar, de jogar ma-jong. As criadas cortejavam-na nos corredores, preparavam-lhe pratos especiais, levavam-lhe chá ao quarto. Além de ser mãe da subdirectora, tinha fama de rica e distribuía moedas de prata a todo o pessoal na noite de festa.
Nessa noite assistiam três freiras ao nosso jantar (a regra não lhes permitia comer connosco): a directora, a subdirectora e a mestra dos estudos. E muito empertigada, segurando com ambas as mãos um tabuleiro de laca coberto com um pano de seda, a senhora Tung recebia-as à porta do refeitório, entregando cerimoniosamente o presente à filha, que por sua vez o oferecia à directora. Eram bolos de farinha fina de arroz amassada com óleo de sésamo. Toda de vermelho, de sapatos bordados e ganchos de jade no cabelo, a senhora Tung, quando a superiora colocava o tabuleiro dos bolos na mesa, dobrava-se quase até ao chão. Rezava-se, depois. Para lá dos pátios, à porta da cozinha, as criadas espreitavam, curiosas.
Nem no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro Natal que passei em Macau, a senhora Tung era cristã, mas todos os anos se nomeava catecúmena. A seguir ao jantar falava-se nisso. A directora, uma francesa de mãos engelhadas que noutros tempos frequentara a Universidade de Pequim, perguntava em chinês formal quando era o baptizado. Inclinando a cabeça para o peito, a senhora Tung balbuciava, indicando a irmã Chen-Mou. A filha... a filha sabia. Talvez se pudesse chamar cristã pelo espírito, mas o coração atraiçoava-a. O coração continuava apegado a antigas devoções... Todavia, vestira-se de gala para a festividade da meia-noite, tinha no quarto o Menino Jesus cercado de flores, e a alma transbordava-lhe de alegria como se cristã verdadeiramente fosse.
Com um sorriso meio complacente meio contrariado, a irmã Chen-Mou desconversava, passando a bandeja dos bolos à superiora, que separava uns tantos para o convento. Os restantes comê-los-iamos nós, ao fim da Missa do Galo, com chocolate quente.
O chocolate era a esperada surpresa da directora. A senhora Tung chamava-lhe, em ar de gracejo, «chá de Paris». No fim das três missas vinham outra vez as três freiras ao refeitório do colégio para trocarem connosco o beijo da paz e nos oferecerem a tigela fumegante do chocolate. Vinham e partiam logo (tarde de mais para se demorarem), e Miss Lu, fanática terceira-franciscana, sempre atenta aos passos das monjas, sorvia à pressa o líquido escaldante, como quem cumprisse um dever, e saía atrás delas.
Ficávamos, assim, a senhora Tung e eu, uma em frente da outra. À luz das velas olorosas do centro de mesa, os seus olhos eram dois riscos tremulantes. Sorríamos. Finalmente, o reposteiro ao fundo da sala apartava-se. Uma das criadas entrava, silenciosa. Servia-se vinho de arroz.
Creio que o vinho de arroz figurava entre as bebidas proibidas no colégio e que chegava ali por portas travessas. O certo, contudo, é que ambas o bebíamos, a acompanhar os bolos de sésamo, no grande e deserto refeitório, na noite de Natal.
O vinho de arroz queimava-me a garganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos. Quanto à senhora Tung, saboreava-o devagar, molhando nele o bolo, e, como mal provara o «chá de Paris», bebia dois cálices.
Entretanto, Aldegundes, a criada macaense mais antiga do colégio, aparecia com as especialidades da terra: aluares, fartes e coscorões, dizendo que aluá era o colchão do Minino Jesus, farte almofada, coscorão lençol. E eu traduzia em inglês para a senhora Tung, que achava isto enternecedor e gratificava a velha generosamente.
Quando por fim atravessávamos a cerca a caminho de casa, sob uma lua branca, espantada, anunciadora do Inverno para a madrugada, a senhora Tung abria-se em confidências.
A menina sabia... ― a «menina» era a irmã Chen-Mou, a subdirectora do colégio ―, sabia que ela continuava a venerar a Deusa da Fecundidade. Tratava-se de uma pequena divindade, toda nua e toda de oiro. Fora ela quem lhe dera filhos. Estéril durante sete anos, a senhora Tung recorrera à sua intercessão divina quando o marido já se preparava para receber nova esposa. Não podia portanto deixar de a amar. Toda a felicidade lhe provinha daí, dessa afortunada hora em que a deusa a escutara.
Parava a meio do largo átrio enluarado, de olhar meditabundo, mãos cruzadas no colo. E as palavras saíam-lhe lentas e soltas, como se falasse sozinha.
... E aquele mistério da virgindade de Nossa Senhora! Virgem e mãe ao mesmo tempo... Não se lia no Génesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher e os dois serão uma só carne?» Não era essa a lei do Senhor? Porquê então a Mãe de Cristo diferente das outras, num mundo de homens e de mulheres onde o Filho havia de vir pregar o amor? A Deusa da Fecundidade, patrona dos lares, operava milagres, sim, mas racionalmente, atraindo a vontade do homem à da sua companheira e exaltando essa atracção. Como o Céu alagando a Terra na estação própria.
Retomávamos a marcha em direcção aos nossos aposentos. Difícil para mim responder às dúvidas da senhora Tung, nem ela parecia esperar resposta. Mudava, rápida, de assunto, aludindo ao tempo, à viagem de regresso, às saborosas guloseimas da criada macaísta.
Já em casa, convidava-me a ir ver o seu presépio. O quarto cheirava fortemente a incenso. Em cima da cómoda, entre flores, lá estava o Menino Jesus, de cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto, feições chinesas.
Depois, timidamente, a senhora Tung abria a gaveta... e surgia a deusa.
O Menino Jesus era de marfim. A Deusa da Fecundidade era de oiro. O Menino, de pé, de um palmo de altura, trajando ricamente. A deusa, sentada, pequenina, nua.
Os olhos da senhora Tung atentavam nos meus, como se à procura de compreensão, mas as suas palavras prontas (a deter as minhas?) eram de autocensura. Não, não devia fazer aquilo. A filha asseverara que o Menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. E quem sabia mais do que a filha ?
Eu já sentia frio, apesar da aguardente de arroz. O Inverno, ali, chegava de repente. A senhora Tung, no entanto, tinha as mãos quentes e as faces afogueadas.
Despedíamo-nos. Eu sempre me apetecia dizer-lhe que estivesse sossegada, que de certeza o Menino Jesus não havia de se entristecer, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. Mas nunca lho disse nos três anos que passei o Natal com ela. Palpitava-me que a senhora Tung se enervava com o assunto. E que, de qualquer jeito, não me acreditaria.


Maria Ondina Braga, A China Fica ao Lado


Let Your Little Light Shine Art Print by Linda Lane



O Conto das Artes Diabólicas


Era uma vez um padre que tinha um afilhado.
De maneira que pediu ao compadre que lhe deixasse ir o afilhado lá pra casa, que o queria educar muito bem-educado.
O compadre disse-lhe que sim, que levasse o afilhado.
Foi o rapaz pra casa do padrinho, e o padrinho pô-lo à escola, e o rapaz aprendeu a ler na ponta da língua.
Quando o rapaz já ia sendo crescido, começou ele a ver fazer artes ao padrinho, que o padrinho fazia artes diabólicas.
Fazia artes diabólicas o padrinho, e o rapaz tudo era querer aprender, e fartava-se de espreitar o
que fazia o padre!
Até que uma vez encontrou um livro e pôs-se a ler – e viu que dali estudava o padrinho as artes
que fazia.
Começou o rapaz a praticar, e já ia fazendo algumas coisas. O padrinho, como deu notícia que o rapaz ia já fazendo algumas coisas, mandou-o embora para casa do pai.
O pai era pobre, e não tinha sequer que lhe dar de comer; mas vendo-o o filho tão apaixonado e adivinhando logo a razão por que era, diz-lhe o rapaz:
– Pai, não tenha fezes! que amanhã saímos, e verá que arranjamos muito dinheiro!
No outro dia prepararam os dois um burrinho que tinham, e foram-se para o campo.
Depois de chegarem ao campo, diz o filho:
– Pai, eu agora faço-me num cão e vou à caça, e as lebres que vir apanho-as todas!
De maneira que o rapaz fez-se num cão, e começou logo a andar caçando. Todas as lebres que apareciam, todas apanhava!
Carregaram o burro de lebres, e vieram-se embora a vendê-las à terra, e passaram à rua do rei.
Vendo o velho com tanta lebre a carregarem o burro, todos se admiravam!
– Oh! Tanta lebre que leva aquele velho!
Diz-lhe o rei:
– Ó velho! Como apanhaste tu tanta lebre?!
– Isto, senhor, foi o meu cão!
Diz-lhe o rei:
– Hás-de-me vender o teu cão.
– O meu cão não vendo eu, não senhor, que o meu cão é o meu governo!
De maneira que o velho foi-se embora a vender as lebres.
No outro dia voltaram à caça, e o burro tornou a vir outra vez carregado de lebres!
Diz o rapaz:
– Pai, olhe que o rei há-de-lhe dizer para me vender; mas vossemecê peça muito dinheiro, de
modo a nunca vender senão as lebres.
Passa o velho pela porta do rei, e vão dizer logo a Sua Majestade:
– Ali vai o velho outra vez! E outra vez com o burro carregado!
Diz-lhe Sua Majestade:
– Ó velho, não passas sem me vender o teu cão.
– O meu cão não vendo, não senhor, que o meu cão é o meu governo!
– Pede o dinheiro que quiseres, que eu to dou pelo teu cão.
Pediu uma quantia que a ele lhe pareceu, e o velho levou o dinheiro e o rei ficou com o cão.
Um dia determinou o rei sair à caça, e levou com ele todos os companheiros, para verem o cão apanhar as lebres.
Assim que chegaram ao campo, começou logo o cão a andar à busca.
Levantou-se uma não tardou nada, e ele mete-se a correr atrás dela – e dali a pouco já o não avistavam.
Assim que percebeu que já o não avistavam, o cão fez-se num homem, e deixou-se ficar muito
bem parado.
Correram todos a uma altura para avistarem o cão, e como vissem um homem perguntaram-lhe:
– Você viu pra aí algum cão atrás duma lebre?
Diz ele:
– Vi! Lá vai ele a correr, lá baixo! Lá vai ele já muito longe!
Ora até agora eles correm, a ver se descobrem o cão!
De maneira que trataram mas foi de se ir pra o palácio – e o rapaz para casa do pai.
Chegou:
– Então, pai, já temos que comer?!
– Isso sim! O que me deu o rei, ladrões o levaram. Roubaram-mo!
– Deixe! Logo se arranja mais!
Torna o filho a dizer ao pai:
– Pai, vai vossemecê ver como se arranja mais! Agora faço-me num cavalo, e vossemecê vai à feira a vender-me; mas quando me vender, tire-me o freio.
De maneira que o velho marchou para a feira, com um cavalo que era uma lindeza!
Quem havia de ele encontrar?
O compadre!
Viu logo que tinha o afilhado diante dele, feito num cavalo.
Diz:
– Ó compadre! Quer-me você vender o cavalo?
Diz:
– Vendo! Mas vai-lhe custar muito dinheiro!
O padre deu-lhe todo o dinheiro que ele lhe pediu, porque a sua vontade era apanhar o cavalo
pra em seguida dar cabo dele.
O pai recebeu o dinheiro e entregou o cavalo – mas não se lembrou de lhe tirar o freio!
Apanha o padrinho o cavalo e monta-se nele – e agora verás quem há-de fugir – e da corrida ia-o
rebentando!
Até que se apeou à entrada de um povo.
Prendeu o cavalo a uma árvore, e antes de ir onde tinha de ir disse para o animal:
– Quieto ai! Com outra corrida hei-de-te arrebentar! Ali perto havia um poço, onde as mulheres iam à água. Passaram duas que iam para lá, e o cavalinho, assim que as viu, tudo era querer ir também direito ao poço.
Diz uma:
– Aquele cavalinho tem muita sede. Vamos-lhe levar uma caldeira de água, a ver se ele bebe.
Levaram-lha e ele não podia beber.
Dizem as mulheres:
– Tira-se-lhe o freio.
Foram elas, tiraram-lhe o freio.
Mas apanha-se o cavalinho sem freio – e agora verás quem há-de fugir!
Vem o padrinho e faz-se noutro cavalo mais forte, e mete atrás dele.
Quando viu que o padrinho já o agarrava, faz-se numa lebre.
O padrinho fez-se num galgo, e ele aí vai atrás da lebre!
Tanto que viu que o padrinho já a agarrava, faz-se numa pomba e larga a voar. O padrinho faz-se numa águia, e mete logo atrás da pomba.
Tanto que viu que o padrinho o agarrava, fez-se num anel – e caiu!
Onde havia de cair o anel? Na varanda do palácio do rei!
Foi a princesa até à varanda, e achou o anel, que era muito bonito; – e o padrinho, esse nunca soube para onde foi o rapaz, porque não viu onde caiu o anel.
A princesa quando o viu:
– Olá! Um anel tão bonito aqui na varanda?!
Apanhou-o e meteu-o no dedo.
A noite, quando a princesa se foi deitar, não quis tirar o anel e deitou-se com ele.
O anel fez-se-lhe num homem deitado com ela – que mal o vê começa a gritar.
Corre o pai ao quarto da filha, a ver o que era: – mas ele torna outra vez a fazer-se em anel e meteu-se logo no dedo da princesa.
Diz-lhe o pai:
– Tu que tens?!
Diz:
– Ó meu pai! que tenho um homem dentro da cama!
O pai buscou e não viu nada, e disse para a filha muito alterado.
– Isso são loucuras! Vê lá agora se ainda tornas!
E foi-se para o quarto e meteu-se na cama.
Mas estaria o rei a pegar no sono, o anel que torna outra vez a fazer-se num homem, deitado ao
pé da princesa!
Ela, com medo do pai, já não gritou; e quando foi de manhã ao levantar, o homem fez-se outra vez no anel, e a princesa meteu-o no dedo.
...Começou a andar muito soado um anel que tinha a princesa!
O padrinho, que ouve falar tanto no anel, desconfia, e diz:
– Oh! Aquilo é o meu afilhado!...
E foi e disse à princesa se lhe vendia o anel.
Ela disse-lhe que não – que lho não vendia.
Foi-se embora o padre pelo mesmo caminho, e o anel diz à princesa:
– Aquele homem que veio aí pra tu me venderes é o meu padrinho. Ele anda pra ver se dá cabo de mim, e ainda cá há-de voltar pra que me vendas, e tu vende-me – mas quando me passares para a mão dele, deixa-me cair no chão.
Outra vez foi o padre onde à princesa:
– A Senhora Princesa há-de-me vender o seu anel. Vende?
Vendo, não vendo... – sempre lhe disse:
– Vá lá! Vendo!
Trataram o preço, e ele deu o dinheiro.
Mas ela a desenfiar o anel – e a deixá-lo cair no meio do chão!
Cai o anel no meio do chão – e faz-se logo numa romã, toda esbugalhada!
Faz-se o padrinho numa galinha, com muitos pintos, e deitam-se todos a comer nos bagos.
Escapou um bago que os pintos não viram!
Era ele – que se fez numa raposa e comeu a galinha, e os pintos matou-os todos!
Ali acabou o padrinho com a existência, e ele ficou feito anel no dedo da princesa.
...Com que não sei se o anel ainda existe ou se já levou fim – porque eu vim-me de lá embora e
nunca mais o vi.


Trindade Coelho, Os meus amores

20/12/2008

Conto de Natal



Todos os anos, pelo Natal, eu ia a Belém. A viagem começava em Dezembro, no princípio das férias. Primeiro pela colheita do musgo, nos recantos mais húmidos do jardim. Cortava-se como um bolo, era bom sentir as grandes fatias despegarem-se da areia, dos muros ou dos troncos das árvores velhas, principalmente da ameixieira. Enchia-se a canastra devagar, enquanto a avó ia montando o que se chamaria hoje as estruturas, ou mesmo infraestruturas, junto da parede da sala de jantar que dava para o jardim. Eram caixotes, caixas de chapéus e de sapatos viradas do avesso, tábuas, que pouco a pouco ela ia cobrindo de musgo, ao mesmo tempo que fazia carreiros e caminhos com areia e areão. Mais tarde os rios e os lagos, com bocados de espelhos antigos, de vidros ou mesmo de travessas cheias de água. Até que todos os caixotes, caixas e tábuas desapareciam. Ficavam montanhas, planícies, rios, lagos. Era uma nova criação do mundo. Aqui e ali uma casinha ou um pastor com suas cabras. E todos os caminhos iam para Belém.
Não era como o presépio da Igreja que estava sempre todo pronto, mesmo antes de o Menino nascer. A cabana, a vaca, o burro, os três reis do Oriente. Maria, José, Jesus deitado nas palhinhas. Via-se logo que era a fingir. Não o da avó, que era mais do que um presépio, era uma peregrinação, uma jornada mágica ou, se quiserem, um milagre. Nós estávamos ali e não estávamos ali. De repente era a Judeia, passeávamos nas margens do Tiberíades, andávamos pelo Velho Testamento, João Baptista baptizava nas águas do Jordão e aquele monte, ao longe, podia ser o Sinai ou talvez o último lugar de onde Moisés, sem lá entrar, viu finalmente a terra onde corria o leite e o mel. Mas agora era o Novo Testamento. A avó ia buscar as figuras ao sótão, eram bonecos de barro comprados nas feiras, alguns mais antigos, de porcelana inglesa, como aquele caçador que a avó colocava à frente dizendo: Este é o pai. Seguia-se a mãe, de vestido comprido, dir-se-ia que ia para o baile, mas não, saía de cima de uma mesinha da sala de visitas e agora estava ao lado do pai, olhando levemente para trás onde, entretanto, a avó já tinha colocado figuras mais toscas, eu, a minha irmã, os primos, alguns amigos, todos a caminho de Belém.
- E a avó?, perguntava eu.
- Eu já estou velha para essas andanças.
De dia para dia mudávamos de lugar. E todas as manhãs deparávamos com novas casas, mais rebanhos, pastores, gente que descia das serras, atravessava os rios e os lagos. Os caminhos ficavam cada vez mais cheios. E todos iam para Belém. À noite tremulavam luzes. Acendiam e apagavam. Mas ainda não se via a cabana, nem Maria, nem José.
Então uma noite, entre as estrelas do céu, aparecia uma que brilhava mais que todas.
- Esta é a estrela, dizia a avó.
E era uma estrela que nos guiava. Na manhã seguinte lá estavam eles, os três reis do Oriente, Magos, explicava o pai, que também não dizia Pai Natal, dizia S. Nicolau, talvez por influência de uma misse de origem russa que em pequeno lhe falava de renas e trenós e de S. Nicolau atravessando as estepes.
Cheirava a musgo na sala de jantar. Cheirava a musgo e a lenha molhada que secava em frente do fogão. E os Magos lá vinham, a pé, de burro, de camelo. Traziam o oiro, o incenso, a mirra. Às vezes nós, os mais pequenos, juntávamo-nos e cantávamos: “Os três reis do Oriente / Já chegaram a Belém.”
- Não chegaram nada, atalhava a avó, ainda não.
Estávamos cada vez mais perto. E também nervosos. Confesso que às vezes fazia batota. Empurrava-nos um pouco mais para a frente, para mais perto de Belém e do lugar onde eu sabia que mais tarde ou mais cedo a avó ia pôr a cabana. Mas ela descobria.
- Não lucras nada com isso, podes apressar toda a gente, não podes apressar o tempo.
Cada vez havia mais luzes na Judeia. Por vezes surgiam novos lagos, eram mistérios da minha avó. E a estrela lá estava, a grande estrela de prata que brilhava mais do que todas as outras, às vezes eu ia à janela e via a projecção daquela estrela, ficava confuso, já não sabia se era a estrela da sala ou uma estrela do céu, era uma estrela nova, uma estrela de prata, era uma estrela que nos guiava. No céu, na sala, na Judeia, talvez dentro de nós.
Até que chegava o primeiro dos grandes momentos solenes. A avó chamava-nos ao sótão ( nós dizíamos forro ), abria uma velha arca e desempacotava a cabana. Depois, muito comovida, quase sempre com lágrimas nos olhos, as figuras de Maria e José.
- Não há nada tão antigo nesta casa, já eram dos avós dos meus avós.
Impressionava-me sobretudo o manto muito azul de Maria e o rosto magro, quase assustado, de José. A avó limpava-os com muito cuidado e mandava-nos sair. Nunca nos deixou ver o resto.
À noite, quando regressávamos da missa do galo, a que a avó não ia, chegávamos a casa e finalmente estávamos em Belém. A estrela brilhava intensamente sobre a cabana, Maria e José debruçavam-se sobre o berço, onde Jesus, todo rosado, deitado nas palhinhas, agitava os braços e as pernas, envolvido pelo bafo quente dos animais, enquanto os três reis do Oriente, agora sim, chegavam a Belém para depositar aos pés do Menino o oiro, o incenso, a mirra. E vinham os pastores, e vinha o pai, de caçador, a mãe, de vestido de baile, e vínhamos nós, eu, a minha irmã, os primos, não éramos de porcelana nem de barro, estávamos ali em carne e osso, era noite de Natal, uma estrela nos guiava, brilhava sobre a Judeia e sobre o presépio, brilhava cá fora entre as estrelas, brilhava dentro de nós. Naquela noite, naquele momento, nós não estávamos na sala de jantar em frente do presépio, tínhamos chegado finalmente a Belém para adorar o Menino ao lado de Maria e José e dos três reis do Oriente, Magos, não conseguia deixar de corrigir o meu pai. Mas mágica, verdadeiramente mágica era a avó. Era ela que fazia o milagre da transfiguração, trazia o Natal para dentro de casa e levava-nos a todos até Belém. O cheiro a musgo e a lenha. Os montes, os vales, os rios, os lagos. Caminhos e caminhos que iam para Belém. E a estrela de prata, a estrela que nos guiava. Era uma estrela no céu, dentro de casa, dentro de nós. Pela mão da avó ela brilhava. Pela sua magia Belém estava dentro de casa. E a casa também ia até Belém.
Mais tarde, muito mais tarde, eu estava no exílio. Na noite de Natal os revolucionários ficavam tristes e nostálgicos. Talvez recordassem outras avós, outros presépios, outros lugares. Reuniam-se em casa deste ou daquele, improvisava-se uma árvore de Natal, trocavam-se presentes. Mas ninguém, nem mesmo os mais duros, os que faziam gala em dizer que o Natal para eles não significava nada, nem mesmo esses conseguiam disfarçar uma sombra no olhar. Saudade, dir-se-á. Mas talvez fosse mais do que saudade e solidão e o pior de todos os exílios que é o de se sentir estrangeiro no mundo. Talvez fosse a consciência de que, para lá de todas as crenças ou não crenças, havia um irremediável sentimento de perda. Muitas vezes me perguntei o que seria. Mas não conseguia responder. Sentia o mesmo aperto, o mesmo buraco por dentro, o mesmo sentimento de algo para sempre perdido.
Uma noite de Natal, em Paris, eu estava sozinho. Comprei uma garrafa de vinho do Porto, mas não fui capaz de bebê-la assim, completamente só, num quarto de criada de um sexto andar numa velha rua do Quartier Latin. Peguei na garrafa e fui até aos Halles. Procurei o bistrot onde costumava comer uma omelete de fiambre. Felizmente estava aberto. Pedi a omelete e abri a garrafa. Havia mais três solitários no bistrot, um velho de grandes barbas, um tipo com cara de eslavo, um africano. Convidei-os para partilharem comigo a garrafa de Porto, que não resistiu muito tempo. Encomendámos outras bebidas.
- Conta uma história de Natal do teu país, pediu o velho.
- Só se for a do presépio da minha avó.
- Então conta.
Eu contei. Era já muito tarde e o patrão disse-nos que queria fechar. Chegados à rua o africano apontou o céu e disse-me: Olha.
E eu vi. Uma estrela que brilhava mais que as outras estrelas. Era uma estrela de prata. A estrela da avó. Brilhava no céu, brilhava outra vez dentro de mim, quase posso jurar que brilhava dentro dos outros três.
Então eu perguntei ao africano como se chamava. E ele respondeu:
- Baltazar.
Perguntei ao velho e ele disse:
- Melchior.
E sem que sequer eu lhe perguntasse o eslavo disse:
- O meu nome é Gaspar.
Era noite de Natal e talvez ainda por magia da avó eu estava na rua, em Les Halles, com os três reis do Oriente, Magos, diria o meu pai.
- E agora? perguntei a Baltazar.
- Agora, respondeu o africano apontando a estrela, agora vamos para Belém.


Manuel Alegre