30/11/2008

ABYSSUS ABYSSUM*


*Abismo dos Abismos



Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. Assim eles tivessem uma coisa boa! … Mas que tentação para ambos, o rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de ameaça, aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia que lhe apareceram em casa tarde e às más horas.
— Ouvistes? — ralhara-lhes a mãe. — Olhai se ouvistes! Se voltais ao rio, mato-vos com pancada! Andai lá…
Ih! Como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com a mão em gume sobre as suas cabecitas louras… Lembravam-se de haver tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob aquela ameaça terminante. E então, nesse dia, eles não tinham ido ao rio. Aos pássaros, sim… — lá estavam as calças rotas do Manuel a dizê-lo — … aos pássaros é que eles tinham ido. Ao rio era bom!, a mãe que o soubesse…



Ah, mas então não os deixassem dormir naquele quarto! Logo de manhã, mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos salgueiros. Lá estava a ponte velha, de onde os rapazes se atiravam despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do fidalgo — lindo barquinho! — sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse para passar à grande quinta que tinha na margem de lá.
De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo da praia e deixá-lo ir então para onde ele quisesse, contanto que fosse sempre para diante… Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao barco. Era o seu «adeus até amanhã!» àquele pequeno objecto que valia tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo…
Ah, tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada…
— Mais nada?
— Isso não… mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.


Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida — gente que passava para os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados, grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto se ouvia o retintim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do vinho. E àquela hora onde iria já a missa! A última beata, encapuchada e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua, dava com valentia num carro cujo eixo ardera na véspera, e que era urgente compor, pelos modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a loja e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta diária, enfim; os senhores sabem.
Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois pequenos.
— Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos na cama! — E, enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas. — Persignar e vestir, vamos! Calças… colete… os jaquetões… tomem!
E pôs-lhes tudo sobre a cama.
— Mãe, a bênção! — balbuciaram os dois, tontos de sono ainda.
— Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora, eu já volto! Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver!
Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito, que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego morno da cama, onde se estava tão bem, onde os sonhos eram tão lindos!…
Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo, o achou encantador, todo resplandecente de verduras.
— Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara.
Porque será?
O outro encolheu os ombros, não sabia; só se fosse por não haver nuvens…
Pela janela aberta, avistava-se o trecho de paisagem que a luz viva da manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.
Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio, que nessa manhã deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu imaculado.
— Ah!, ah!… — riu-se o Manuel, contemplando-o. — O rio! Que te parece?! Olha que é lindo, o rio! Ora é, ó António?!
— É, lá isso… Mas tamém de que vale? — tornou-lhe com desalento o irmão. — A gente não pode lá ir… Olha se a mãe o soubesse, hã? — E, mirando por sua vez a paisagem, perguntou: — Já reparaste no barco, ó Manuel?
— Tão bonito!
Os dois riram.
— Parece pintado de novo… E nem se mexe, repara!
— Pudera!… — explicou o Manuel — … amarrado com uma corda… — E depois, radiante, gesticulando para o irmão: — Mas eu era capaz de o desamarrar…
— Ai eras! — disse duvidoso o António, para o incitar.


Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era! Ambos dentro dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos por ir às azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O barco! Era tão bom andar de barco! E aquele então era lindo, como não tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido — olhem lá não esquecessem!
— aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do barquinho, ensinando-lhes como se remava.
O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela. Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando.
— Está um dia lindo, avia-te.
— Olha «avia-te»! para quê? — perguntou o António, torcendo e retorcendo o pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.
O Manuel sorriu-se, triste. Era verdade… Aviarem-se para quê? A mãe não os deixava ir ao rio… E senão, que fossem! — «Mato-vos com pancada se desceis a ladeira.» — Já se vê que depois disto… E os dois suspiravam, desgostosos. «Que pena serem pequenos!».
Nisto o António chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo! Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demónio de tentação! E para mais tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que apenas meio palmo acima do nível da água!
Tate, ó Manuel! E se nós fugíssemos?
— Ora! Se fugíssemos!… E depois? A gente tínhamos de voltar…
Ora aí está!, isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da mãe: «Se voltais ao rio…». Ai, ai, a triste sorte!
Recaíram no silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o Sol que rompia ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na largura muito ampla da paisagem.
— Mas palavra que o barco parece pintado de novo… — relembrou com alegria o Manuel.
— Mas é que está, palavra que está! Agora é que havia de ser bom andar dentro dele!…
Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no barquinho, assim pintado de novo. Diacho!, e porque não? Por isso, cobrando ânimo, o António disse resoluto:
— Olha agora o medo! Seguro que nos mata! — E puxando-o pela jaqueta: — Vamos lá, ó Manuel!?
O Manuel fez que não com a cabeça e espreitou se vinha a mãe. Como não vinha, disse baixo ao irmão:
— À tardinha, hem? Dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela nossa falta, ali à tardi-nha. A gente finge que vai para o adro. Levam-se os piões…
— Há-de ser mesmo assim!, à tardinha! — concordou o António. — Eh!, eh!, eu cá desatraco.
— E eu remo — disse logo o Manuel com gesto de quem remava.
— Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula — explicou.
— Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se queres assim…
— Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há-de ser!
E recapitulando, para melhor ficarem combinados:
— Ao pra baixo remo eu, ora remo?
— Remas.
— E tu regulas, ora regulas?
— Regulo.
— Ao pra cima é às avessas, ora é?
— É.
Muito bem, «basta palavra»! E ambos, ao mesmo tempo, um ao outro se impuseram segre-do…
— Psiu!…
— Psiu!…

***

A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens alvejavam, imóveis.
Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes franjavam-se de púrpura e ouro, na decoração mágica dos poentes. Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos, e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer a natureza para grande sono reparador de toda a noite.
… E a tarde ia descendo, cada vez mais límpida.
Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando, os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as coisas criem vulto e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as formas às coisas…
Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas e um fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o tranquilo sono em que iam adormecer.
E a tal hora e no meio de tal silêncio, o barquinho branco deslizava mansamente sobre a água tranquila do rio, onde as primeiras estrelas começavam de lampejar. Dentro dele, os dois irmãozitos silenciosos iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendas nas águas… Não!, era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma tão pode-rosa e viva alegria — alegria doida que lhes transvazava do peito, fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em sorrisos.
Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres de admoestações alheias, sozinhos, independentes. E esta feliz convicção de liberdade alcançada fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de alegria. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o seriam jamais?!… No entanto, a noite acentuava-se. Espertava nas margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. No céu alto e sereno cintilavam as estrelas em cardumes.
— Remas, António? — perguntava o do leme. — Olha se a vês… — E apontava para Vésper, a estrela que mais brilhava.
Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo brilho diamantino os fascinava. Tão linda!…
— Anda-me tu com o leme! — tornou-lhe com intimativa o Manuel.
— Ai a estrelinha! Deixa que ela faz-se fina, mas havemos de passar-lhe adiante, só por isso…
— Olha o milagre! Ela está queda! — fez o outro, convencido da facilidade da empresa.
— Está queda, está queda, mas sempre na frente de nós! Vai lá entendê-la. Olha como brilha, ó António!
— Mas rema, que eu cá vou; falta pouco. Ao direito daquela fraga é que ela está.
Não era difícil passar-lhe adiante, qual era? Em menos de meia hora era certo alcançá-la.
E, engastada no azul-escuro do céu, a estrela parecia brilhar mais, quanto mais a olhavam.
— De que são feitas as estrelas? — perguntou o mais novito.
— De prata. Pois está visto!
Então o outro, lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu, exclamou:
— Eh!, tanta prata!
— O Sol, esse é de ouro! — disse ainda o Manuel.
— Bem de ver! — volveu-lhe convencido o irmão. — Que eu, se me dessem à escolha, antes queria as estrelas! Olha que rebanho!
— Pois eu antes queria o Sol. Com licença do teu querer, sempre é mais grande!
E enquanto falavam, os dois não desfitavam os olhos da estrela feiticeira que perseguiam. Os remos, no entanto, iam abrindo fenda na água, com certo ruído muito doce… E, lá no alto céu, dir-se-ia que, de instante para instante, a feiticeira estrela mais brilhava, incitando-os.
— Vê-la a fazer assim? — e pôs-se a pestanejar, imitando a palpitação crebra e irregular da luz sideral.
— É que tem sono! — respondeu o outro a rir.
— Olha que não! Aquilo é a fazer-nos negaças, tamém to digo!
— Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo, bem se afoga… — E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir: — Eh, boieira!
Neste momento, uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul, sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram em tom de reza as palavras rituais:

Deus te guie bem guiada,
Que no céu foste criada.

— Vês? — disse o Manuel, que era dos dois o mais supersticioso. — Torna a apontar para elas… Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.
— A ti talharam-te o ar, ó Manuel!
Diz a mãe! À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água para cima do corpo! E a água que havia de estar fria — observou encolhendo os ombros. — Depois, viraram-me para as estrelas e disse então a mãe:

Ar vejo,
Lua vejo,
Estrelas vejo:

O mal do meu corpo
Pra trás das costas o despejo.

Riram muito. O Manuel despidinho, coiracho ao colo da mãe, havia de ser engraçado! E então todos de volta, a ver quando se talhava o ar!
— Mas talhou-se! Agora, em paga, uma vez por ano (ao menos uma vez por ano) tenho de olhar pelos ralos do lenço pràs cinco chagas, umas estrelas que além estão, e rezar uma ave-maria.
— Sempre, sempre?!
— Até que morra. Depois de morrer, diz que vou morar três dias com três noites dentro de uma.
— Ora! — tornou-lhe incrédulo o irmão. — Tu não cabias lá!
— Não sei! Assim é que anda nos livros!
… Mas os braços doíam já dos remos, doíam muito…
Devia já ser tarde, e eles sem darem fé, enlevados como iam no desejo louco de alcançar a estrela.
A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um silêncio contínuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a água da corrente ia espumando na quilha, com certo ruído cada vez mais doce.
… Mas os braços já doíam mais!…
Agora, no céu havia muitas estrelas brilhantes, muitas, mas nenhuma como aquela, ainda assim. Entretanto, os dois pequenos entraram de olhar menos para ela, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o peito e as pálpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.
… E os braços sempre a doerem!…
Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente, cortando-a com levíssimo ruído. Imobilizara-se também o cabo do leme, sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro.
… E os braços já não doíam, nem ao de leve sequer…
O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente, sem impulso algum estranho. Dentro dele, a música levíssima das respirações dos dois pequenos adormecidos…
Algum tempo assim. Senão quando, um ruído surdo, e logo um movimento brusco de balanço, fez acordar o do leme.
Na grande alucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou imediatamente:
— Manuel!, ó Manuel!
O remador acordou, sobressaltado.
— A estrela? Ainda lá está, olha! — disse, incoerente, estonteado pelo sono.
— Uma fraga de cada lado! Ouves o rio?! É já muito tarde! — continuou aflito o António.
— Então não lhe passamos adiante? — perguntou ingenuamente o Manuel, referindo-se ainda à estrela.
Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamá-lo à realidade, de novo lhe gritou, com lágrimas na voz:
— Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!
E, mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam num choro muito violento, agarrados um ao outro, feridos de um terrível susto que a hora e o lugar aumentavam angustiosamente. Parecia-lhes medonho aquele marulhar contínuo da corrente, afligia-os como se fosse o salmodiar monótono e rouco duma legião de espíritos maus, preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes que num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça.
E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem dali. Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém viesse acudir-lhes, alguém que ouvisse de longe os seus gritos de aflição!

Transe crudelíssimo!
E então os braços continuavam a doer; doía-lhes agora o corpo todo, ao mesmo tempo que uma tristeza cada vez mais pesada lhes oprimia o espírito, parece que embrutecendo-os.
— Mas a estrela sempre além… — notou ainda o Manuel, balbuciante de medo, como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença criminosa, no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela se haviam precipitado. — Se ela pudesse acudir-nos!


Até que por fim, prostrados da fadiga e das lágrimas, de novo se deixaram adormecer, era já alta noite.
Mas, na sua fúria constante, a corrente, que ali era muito forte, não cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que, após tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se contorciam em remoinho, e entrou de girar com ele, violentamente. Quando a água se precipitou para dentro, os dois pequenos, assim de súbito acordados, romperam em gritos lancinantes:
— Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale! Acudam! Acudam!
Tinha surgido a manhã, serena, tranquila, cheia de gorjeios e de azul. Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual, num repelão mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no último paro-xismo da sua enorme dor desesperada, os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também com ele!…


… Nesse mesmo instante… — e mais longe do que nunca — … a estrela feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!…

Trindade Coelho In Os meus amores

10. Uma escritora no Castelo

10



Por causa dos laços de confiança e ternura que as uniam, Inês e Teresa tornaram-se inseparáveis.
Decidida a cumprir o que prometera, Inês foi ter uma longa conversa com os pais da sua nova amiga que logo foram tomar as medidas necessárias para que a filha não voltasse a ser maltratada. Deste modo, Inês começou a ajudar Teresa a libertar-se de quem não sabia respeitá-la e que, por essa razão, a fazia ter medo — tanto medo que, ao pensar nessa pessoa, a menina imaginava um dragão e chegava a ficar agoniada, como quando se está doente.
Na verdade, os dragões que deitam labaredas pela boca e fumaça pelo nariz não existem (a não ser na imaginação que o medo faz surgir e então parecem mesmo reais). Há, no entanto, quem seja parecido com eles, precisamente por usar a vantagem de ter um corpo de pessoa crescida para fazer mal a quem é ainda pequeno em idade e tamanho.


Assim, Teresa passou a viver com alegria, indo quase todos os dias ao castelo, lugar que passou a escolher também para estudar e escrever as suas histórias — agora já sem um dragão a aprisionar meninas ou meninos.
E a menina foi crescendo, cada vez mais encantada com o mundo de histórias guardadas na sua alma, que ia escrevendo para que outros pudessem lê-las e passar umas horas na companhia daquelas personagens tão diferentes umas das outras: havia-as divertidas e sisudas; de espírito prático e sonhadoras; medrosas e aventureiras; terrestres e extraterrestres...

Um dia, quando Inês já era velhinha, chamou Teresa ao salão e disse-lhe muito calmamente:
— Sinto-me cansada. Sabes, já vivi muito tempo aqui... Talvez seja altura de pensar em mudar de casa...
— Vais deixar o castelo?! — inquietou-se a amiga. — Mas porquê?
— Porque há outro castelo à minha espera, no Céu... — respondeu Inês, com um sorriso daqueles que ela fazia quando estava completamente em paz.
Teresa ficou preocupada. Não se sentia preparada para ficar sem a companhia da sua amiga de sempre.
— E o que é que eu farei sem ti? — perguntou-lhe, muito triste.
— Ora! Sabes que, se quiseres, vais continuar a escrever, aqui no castelo. Tomarás conta da biblioteca para que nenhum livro se perca e mandarás restaurar os que se forem estragando. E, claro, poderás, de vez em quando, receber as crianças que quiserem vir ouvir uma história! Há tantas crianças que nunca ouviram uma história!
— Não sei contar histórias como tu...
— Mas é claro que sabes! — E Inês voltou a sorrir antes de acrescentar muito baixinho: — Estou a ficar ensonada. E este calor de Verão... Acho que vou adormecer aqui no salão. Abre um pouco a janela, que sempre gostei de adormecer a ouvir os pássaros...
Teresa fez o que a amiga lhe pedira.
Depois de abrir uma das janelas e de afastar a cortina, voltou para junto da amiga que, entretanto fechara os seus olhos verdes e doces como o canto dos pássaros do jardim.
Então, olhando para ela, percebeu que deveria estar a sonhar porque continuava a sorrir...

Na sua viagem rumo ao novo castelo que iria habitar, no Céu, Inês não foi sozinha. Um companheiro de asas grandes, que era certamente o seu anjo-da-guarda, veio ao seu encontro e trazia duas enormes folhas de papel em ambas as mãos. Numa delas estavam escritos os títulos de todos os livros que Inês lera desde a infância... Inês lembrou-se imediatamente das palavras que o velho marquês lhe dissera pouco antes de ir para o Céu: «Mesmo que vivas até aos cem anos, também não vais ter tempo de os ler todos...» O marquês tinha razão, mas ela acabou por conseguir ler muitos mais livros do que supunha. E que bem lhe tinham feito essas leituras! Sim, quase se sentia uma sábia!
— Que nomes são esses que aparecem na outra folha? — perguntou ela ao anjo, enquanto subiam pelo azul que se tornava cada vez mais clarinho à medida que subiam e se chegavam a uma fonte de luz muito branca.
— Não adivinhas? Estes são os nomes de todas as crianças que, ao longo da tua vida na Terra, ajudaste a crescer e a ser mais felizes... Foi essa missão que te tornou mais sábia. E isso agradou a Deus, que tudo vê e quer que todos sejam felizes!
Inês não entendeu logo as palavras do anjo. Lembrava-se dos rostos de algumas das crianças e dos jovens que tinham visitado o castelo para a ouvirem contar ou ler histórias que fala-vam de muitas coisas — umas alegres, outras nem tanto, mas todas muito interessantes. Porém, Inês não se tinha apercebido do quanto tinha sido útil a essas mesmas crianças cujos nomes já nem recordava, a não ser alguns, evidente¬mente: o da menina sardenta filha de um marinheiro, que só queria histórias de piratas; o do menino gorducho que não parava de fazer perguntas e falava com uma pronúncia engraçada; o nome da menina de pele da cor da canela que dissera que nunca haveria de gostar de ler e que, afinal, tinha passado a gostar de tal maneira que veio a ser professora de Literatura... E, como não podia deixar de ser, lá estava na lista, em letras maiores do que os outros, o nome de Teresa, a menina que um dia resolveu escrever para contar a sua história triste e que se transformou numa contadora de histórias alegre e sem medo de nada (bem, de quase nada).
Foi assim que Teresa passou a habitar o Castelo dos Livros, a maior biblioteca do mundo (pelo menos do mundo conhecido pelos humanos).
Tal como a amiga lhe sugerira, de vez em quando recebia crianças e jovens que vinham ouvir as suas histórias. E todos regressavam a casa com um sorriso e muitas imagens fantásticas a fervilharem na sua imaginação, transformada numa espécie de vulcão capaz de produzir excelentes ideias para grandes aventuras. Alguns tinham até perdido o receio de falar e de escrever sobre tudo o que imaginavam e sentiam!
Por outro lado, as quatro torres da biblioteca foram ficando cada vez mais recheadas de livros, alguns escritos pela nova habitante do castelo, que nunca mais parou de escrever.
E pronto, aqui tens a história que aprendi na minha visita ao Castelo dos Livros, contada por Teresa.


Agora, talvez possas tu também contá-la, sobretudo àqueles que ainda não sabem como é bom ler e ouvir uma história! Porque quem conta histórias, falando ou escrevendo, acaba por fazer amigos (se calhar, ainda não tinhas pensado nisto...)!


Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros

9. Amigas verdadeiras


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Era quase meia-noite. Inês não tinha ainda sono porque ficara a pensar na história que Teresa lhe trouxera. De resto, é isto que costuma acontecer quando ficamos preocupados com alguma coisa real¬mente importante, não é verdade?
Inês sabia que teria de tomar uma atitude, estava só a pensar em qual seria a mais certa, para poder realmente ajudar Teresa a resolver o seu problema, o problema que vinha contado, de certa maneira, no caderno onde a menina escrevia.
Na sua história, ainda por acabar, Teresa falava de uma menina que vivia como escrava de um dragão que não a deixava afastar-se dele e ao qual ela só podia escapar, por pouco tempo, quando ele caía em sono profundo, roncando estrondosamente como um motor. E a menina vivia infeliz, desejando libertar-se daquela vida sem, contudo, conseguir. Então, para escapar à tristeza, punha-se a inventar histórias com que acabava por adormecer o dragão...
Teresa e a sua história não saíam do pensamento de Inês. Provavelmente, jamais sairia...Então, encostada nos almofadões da cama, Inês continuou a lembrar-se da parte mais importante do seu dia, com Teresa. Depois de ter lido a história escrita no caderno, fixara o olhar da autora e perguntara-lhe se havia alguma coisa na vida dela que estava a correr mal.
Ao princípio, a menina ficou calada, desviando o olhar para o tapete. Depois, encheu-se de coragem e começou a contar uma história verdadeira: a sua. E era uma história tão triste como a da menina que vivia com o dragão. Na realidade, havia também na sua vida não um animal gigantesco e verde que deitava labaredas pela boca, mas um familiar que a maltratava desde que ela completara seis anos de idade, obrigando-a a fazer coisas que ela não queria e metendo-lhe medo para que ela não contasse nada fosse a quem fosse.
Ora, como ninguém sabia o que se passava, ninguém tinha podido acabar com aquilo, nem mesmo os pais, que não suspeitavam de nada. Na realidade, Teresa não se queixava e ninguém a via chorar, porque, em vez disso, a menina preferia ir sentar-se no seu quarto a imaginar histórias bonitas para afastar os maus pensamentos. Só que esses pensamentos tristes acabavam sempre por voltar...
Era, portanto, necessário agir depressa para que a vida de Teresa mudasse e ela fosse uma menina alegre, com uma vida bonita como todas as crianças merecem e devem ter.
— Para te ajudar preciso que me digas quem te tem maltratado — pediu Inês com muita suavidade, mais ainda do que quando contava histórias. E acrescentou: — Seja quem for, não vamos ter medo! Lembras-te da lenda que uma vez contei sobre São Jorge?
A menina sorriu, mas o seu olhar continuava triste quando respondeu:
— Lembro, mas São Jorge já morreu e eu não sei se alguém que morreu pode aparecer montado num cavalo com uma lança na mão para me salvar... — E Teresa deu um longo suspiro. Depois, confessou:
— O que eu queria mesmo era que... ele fosse morar para outra cidade e ficasse para sempre muito longe!
— Se me deixares, vou tentar ajudar-te — tornou Inês. — Diz-me só quem é essa pessoa, e eu prometo que farei tudo o que puder para que não volte a tratar-te mal. Acreditas em mim?
Teresa acreditava, sim. Tinha muito medo de que as coisas não corressem bem, mas confiava em Inês. Já que lhe tinha contado a sua história verdadeira, o melhor era deixá-la ajudar, porque ela era sua amiga, bem o sentia. Além disso, era uma pessoa crescida, podia fazer muitas coisas que ela ainda não podia.
Sim, podia dizer toda a verdade à amiga que vivia no castelo, e era isso que ia fazer. Agora, já tinha menos medo. O nó na garganta estava quase a soltar-se. Se conseguisse chorar, o nó soltar-se-ia e ela sentir-se-ia mais leve. Porém, chorar era algo que, de facto, só muito raramente lhe acontecia. Aliás, nem se lembrava já de quando tinha sido a última vez...
Compreendendo o que a menina estava a sentir, Inês levantou-se do sofá, foi ajoelhar-se junto da poltrona onde ela estava sentada, deu-lhe a mão e fez um convite:
— Vamos agora até ao jardim? Eu estou a sentir uma certa vontade de chorar, mas é de alegria, porque sei que vamos resolver o teu problema! Se não te importares de me ver chorar, podes vir comigo.
Teresa levantou-se como se uma mola a tivesse empurrado para fora da poltrona e, sem nada dizer, seguiu a amiga até ao jardim do castelo.
Lá fora, sob os últimos raios de sol da tarde, Teresa disse o nome de quem a maltratava já há muito tempo. Então, as duas choraram baixinho, passeando entre as árvores, em silêncio. Porque, às vezes, é preciso chorar para depois respirar melhor e voltar a sorrir. E as lágrimas choradas na companhia de um amigo têm o poder misterioso de lavar o nosso coração e de o deixar mais leve.
Assim, Teresa e Inês choraram sem pressas. E só os anjos e os esquilos as viram e ouviram, mas não fazia mal, porque os anjos são bons e os esquilos vivem lá no seu mundo de avelãs, saltando aqui e ali sem se importarem com o resto.



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Histórias com dragões

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O livro que falava do dragão lá estava devidamente arrumado numa estante da Torre Dourada.
Ao reler o livro, Teresa lembrou-se da lenda sobre Jorge, um jovem soldado do Império Romano que veio a ser chamado santo e que é o padroeiro de muitos países, entre eles Portugal e Inglaterra, precisamente por ser muito corajoso.
Diz a lenda que havia um dragão terrível que assustava os habitantes de uma cidade, saindo das profundezas de um lago e deitando grandes labaredas pelo nariz, como, de resto, os dragões costumavam fazer, o que, diga-se de passagem, não é uma atitude nada civilizada.
Aflitas e muito desgostosas, as famílias daquela terra iam perdendo raparigas que o dragão atacava.

Um dia, foi a vez de a filha do rei decidir ir entregar-se ao dragão para ver se, assim, ele pouparia a vida ao povo, para que mais ninguém fosse vítima daquela criatura tão má.
Então, subitamente, apareceu Jorge, montado num cavalo branco e vestido com um manto e uma armadura onde se via uma cruz de cor vermelha. Numa mão trazia uma lança e, indo enfrentar o dragão, derrotou-o em combate, salvando a jovem e valente princesa.
No fim, Jorge disse a toda a gente da cidade que tinha vindo em nome de Cristo e que gostaria muito que todos os que se sentiam aliviados e felizes por verem que o dragão tinha sido vencido fossem baptizados. A verdade é que, naquela altura, ainda havia pouca gente baptizada e não costumavam sê-lo senão já na idade adulta, provando que acreditavam em Jesus Cristo como Filho de Deus e vencedor de todo o mal do mundo.
Inês ficou a pensar na história de São Jorge e na que a pequena Teresa estava a escrever, da qual ela ainda nada sabia a não ser que também falava de um dragão, de uma menina, e não era uma história divertida...
Sentia que devia fazer qualquer coisa, mas ainda não descobrira o quê. Precisava de saber o que Teresa tinha para lhe contar.

Poucos dias depois, no fim de mais uma sessão de leitura para as crianças, Inês chamou Teresa e perguntou-lhe:
— Como vai a tua história? Tens escrito?
A menina fez que sim com um gesto de cabeça e contou:
— Não posso ainda terminar a minha história, porque quero que ela acabe bem...
Inês compreendeu finalmente que a menina andava a escrever sobre alguma coisa que deveria estar a acontecer na vida dela, alguma coisa que não era boa — talvez um problema difícil que ela não conseguia resolver sozinha. Porque é normal não conseguirmos resolver sozinhos certos problemas.
— Eu gostava de ler a tua história, mesmo sem estar ainda acabada — disse ela a Teresa. — Como conheço muitas histórias, talvez possa ter uma boa ideia para te dar uma ajuda, que dizes?
A menina voltou a dizer que sim com um gesto de cabeça e saiu a correr do castelo, animada com a possibilidade de vir a acabar depressa a sua história, como tanto queria.
Logo no dia seguinte, depois de sair da escola, Teresa dirigiu-se para o castelo, com a mochila às costas, como Inês tantas vezes fizera quando ainda era criança.
No meio dos seus livros escolares, a menina levava o caderno onde andava a escrever a sua história...
Como era bom poder contar no papel o que o seu pensamento lhe ditava! Nos primeiros anos de escola, jamais imaginara como escrever podia ser tão importante.
O coração de Teresa batia cada vez mais depressa. Nunca tinha falado da sua história a ninguém, mas sentia que chegara a altura certa, porque Inês merecia toda a confiança.
É tão raro alguém merecer toda a nossa confiança, não é?
Ao chegar ao castelo, antes de ir bater à porta, a menina foi sentar-se num dos bancos de pedra do jardim e pôs-se a pensar...
Por um lado, tinha muita vontade de mostrar a Inês o que escrevera, mas, por outro lado, tratava-se de uma história muito importante para ela, porque, apesar de ser imaginada, era, de certo modo, parecida com algo que se passava na sua vida real e que muito a entristecia e embaraçava.

E se Inês não percebesse a sua história?
Não, provavelmente perceberia, porque Inês já tinha lido muitos livros e sabia coisas incríveis acerca de pessoas um pouco estranhas, animais e lugares da Terra onde ninguém esteve, excepto alguns cientistas: picos de montanhas geladas, vulcões em actividade, abismos marinhos, grutas misteriosas...
Animada com estes pensamentos, Teresa resolveu levantar-se do banco e ir, então, bater à porta do castelo.
Estava um dia de Maio muito quente, e a menina tinha as bochechas coradas do calor e da vontade de mostrar à sua amiga mais velha o que tinha escrito.
Foi Rudolfo quem veio abrir-lhe a porta. Disse-lhe que Inês se encontrava na oficina, a acabar o trabalho de restauro de um dos livros mais antigos da Torre dos Arrepios, um romance de aventuras passadas no fundo do mar, entre lulas gigantes, baleias, tubarões e outras criaturas marinhas.
Inês tinha acabado por aprender com o marquês aquela arte de recuperar os livros que estavam estragados ou em risco de se estragarem e, por isso, a biblioteca do castelo continuava em perfeito estado de conservação. Isto fazia Inês sentir-se satisfeita, porque não queria que nenhum livro fosse destruído pelos ácaros ou pela humidade.
— Estou a acabar o meu trabalho de hoje, Teresa — disse-lhe Inês, enquanto acabava de colocar um livro já restaurado sobre um tabuleiro. Depois, sugeriu: — E se viesses comigo guardar estes livros na biblioteca?
Um pouco atrapalhada, Teresa mordeu o lábio inferior e contou:
— Hoje, trouxe a minha história... Está aqui dentro da mo¬chila...
Inês sorriu-lhe:
— Tiveste uma excelente ideia! Depois de arrumarmos os livros, vamos sentar-nos lá fora só nós as duas ou, se preferires, vamos para o salão.
— Prefiro o salão — disse a menina, enquanto acompanhava a nova dona do castelo até à Torre dos Arrepios. — E que lá fora está um bocado abafado e cá dentro do castelo está sempre fresco.
Quando acabaram de arrumar os romances de aventuras no lugar que lhes cabia, Inês disse:
— Vamos então sentar-nos no salão, já que preferes assim. Vai andando, enquanto vou preparar um refresco para ambas, queres?
A menina disse que sim com um gesto de cabeça e um sorriso, como fazia muitas vezes. Depois, seguiu para o salão e sentou-se numa das poltronas, com a mochila aos pés.
Retirou o caderno da mochila, colocou-o no colo e ficou à espera.
Aquele era, realmente, um dia importante para si! O dia em que ia mostrar a sua história a alguém em quem ela confiava.
Ainda que não soubesse exactamente porquê, parecia-lhe agora que todas as dúvidas já tinham desaparecido da sua cabeça: Inês iria com certeza compreender a sua história! Não havia razão para receios. Mas então por que seria que as suas mãos estavam a ficar húmidas e não conseguia manter as pernas quietas?...



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7. A contadora de histórias

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Como talvez já tenhas adivinhado, o marquês, que já estava muito velhinho e doente, partiu para o Céu. No dia da sua partida deste mundo, foi feliz, porque Inês aceitou ficar a morar no castelo, comprometendo-se a não deixar morrer o seu tesouro: os livros guardados nas suas quatro altas torres — a Torre dos Arrepios, a das Asas, a Torre do Céu e a Dourada, conforme deves lembrar-te.
Mais do que tudo, o marquês queria que os seus livros fossem lidos por muita gente e que, ao ficarem gastos ou danificados pelo uso ou por outra razão (como por exemplo a humidade ou o pó), continuassem a ser restaurados. Assim, poderiam manter-se por longo tempo ao serviço de pessoas de todas as idades. Foi isto que ficou combinado entre o velho dono do castelo e a sua herdeira, que merecia toda a sua confiança.
Na verdade, Inês rapidamente pôs em prática o seu plano com as crianças da cidade — não todas, claro, mas um grupo que aos poucos se foi formando até serem vinte os meninos e meninas que ali vinham todas as semanas.
Nos dias frios, reuniam-se no salão onde havia uma lareira. Nos dias de calor, sentavam-se no jardim do castelo à volta de Inês, que lia para eles ou lhes contava alguma das suas histórias favoritas, que faziam sonhar... que faziam crescer!
E a jovem tornou-se uma perita contadora de histórias. Na verdade, até alguns animais da montanha vinham ouvi-la, ficando meio escondidos atrás das árvores que havia à entrada do jardim. Mesmo as lebres, que costumavam fazer a sua vida a uma altitude mais baixa, subiam até à zona do castelo, atraídas pela voz magnética da contadora de histórias.
Então, muitos meninos que nunca tinham lido um livro começaram a descobrir as grandes e maravilhosas aventuras guardadas na Torre Dourada e passaram a gostar de ler! Na verdade, alguns deles, tornaram-se mesmo grandes leitores, como a própria Inês.
Uma das meninas que ia todas as semanas ao castelo tinha, porém, uma característica diferente dos outros meninos que ali iam. Ela gostava de inventar as suas histórias, sem dizer nada a ninguém! O nome dessa menina era... Teresa, essa mesma em que estás a pensar, a tal que me recebeu no castelo e me contou esta história toda...
Quando Teresa foi ao castelo pela primeira vez, nunca lera um livro. Tinha apenas seis anos e, portanto, ainda nem aprendera a ler. No entanto, Inês cedo percebeu que aquela menina de olhos castanhos, que raramente se ria, ficava longo tempo pensativa depois de ouvir uma história lida ou contada e não gostava muito de falar, embora, de vez em quando, fizesse perguntas curiosas...

Apesar de conversarem pouco, Inês e Teresa começaram a tornar-se amigas, porque descobriram que as histórias favoritas de uma eram também as da outra, como, por exemplo, a história que falava de um pequeno príncipe, vindo de um planeta distante, que estava apaixonado por uma rosa... Era um jovem muito curioso que viera à Terra para descobrir como se faz um amigo, tendo aprendido muitas coisas com uma raposa e ensinado muitas outras a um piloto aviador que estava meio perdido, num deserto.
E havia muitas outras histórias de que ambas gostavam, como aquela acerca de uma princesa que ficara pobre e sem abrigo e era tão incrivelmente sensível que, uma noite, não conseguira adormecer, incomodada por uma ervilha que ficara debaixo do colchão...
Um dia, quando já tinha dez anos, Teresa aproximou-se de Inês no fim de uma sessão de leitura e contou-lhe:
— Eu também ando a escrever...
— A escrever? — perguntou Inês.
— Sim, a escrever uma história — disse Teresa. E continuou: — Já tenho várias páginas e sei como quero que termine, apesar de ainda faltar muito para chegar ao fim...
— Essa novidade é muito interessante — animou-se Inês. — Não sabia que tinhas inventado uma história!
— Bem, para dizer a verdade, eu já inventei várias, mas esta é a primeira que eu decidi escrever.
— E posso saber de que trata a tua história? Não, não digas nada! Deixa-me adivinhar... Ora vejamos, de que é que tu gostas muito?... Já sei! Gostas muito de pensar e... gostas muito... deste castelo! E uma história sobre este castelo?
A menina sorriu, com o seu sorriso um pouco triste:
— Bem, é sobre um castelo, mas não este. E um que eu imaginei, onde vive um dragão e... uma menina de olhos castanhos, mais ou menos como eu.
— Ah... Uma história com um dragão... Parece-me muito empolgante e divertida a tua história.
— Mas não é, não — apressou-se Teresa a dizer, abrindo muito os seus olhos castanhos. Depois, ficou pensativa e afastou-se, porque não estava com vontade de continuar a conversa.
Inês não lhe fez mais perguntas naquele dia. Sabia que como todos nós, em certas ocasiões, Teresa gostava de ficar em silêncio. Talvez um dia ela lhe contasse mais sobre a sua história com um dragão que, provavelmente, era mau. Porque, como se sabe, até agora não se conhece nenhum dragão bom nem sequer simpático. Na realidade, alguns são até um bocado perigosos.
Naquele fim de tarde, Inês voltou para o castelo a pensar na menina que gostava de inventar histórias. O dragão de que ela falara, embora pouco, não lhe saía da cabeça.
Ora, como deves imaginar, pode ser muito desagradável ter um dragão na cabeça, de maneira que Inês resolveu ir à Torre Dourada procurar um livro que tinha lido quando era criança sobre um homem muito generoso e valente que tinha combatido contra um dragão e saíra vencedor desse terrível combate... Aliás, lembrava-se de já ter contado aquela mesma história às crianças, num dia de Inverno, junto da lareira do salão.



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6. Uma ideia brilhante

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A verdade é que Inês nunca mais deixou de visitar o castelo, onde ia ler quase diariamente.
O marquês, o mordomo, Rudolfo, e a cozinheira, Matilde, passaram a ser os seus melhores amigos, sem contar com os livros, claro, porque esses também contribuíam muito para que a sua vida fosse feliz. Livros que falavam de tudo quanto Deus criou; histórias sobre factos reais e outras sobre coisas imaginadas; aventuras de sereias cantoras, piratas de um só olho, príncipes encantados, princesas encantadoras...
E a menina foi crescendo, transformando-se numa rapariga que cada vez sabia mais sobre o mundo. A pouco e pouco, ia conseguindo compreender melhor as tais coisas que via e ouvia e de que não se falava na escola.
Ora, como ler também ensina a pensar, Inês foi-se tornando uma aluna brilhante, de tal maneira que os seus pais até ficavam admirados não só com os seus resultados escolares mas com os elogios que alguns professores faziam a seu respeito.
A família de Inês achava um pouco excessivo o tempo que ela passava no castelo, lendo e conversando sobre o que lia. Mas, aos poucos, todos foram compreendendo que ela sentia mais necessidade de aprender do que outros jovens da sua idade. O que ninguém ainda sabia, excepto o velho marquês, era que ela estava a tornar-se sábia...
Convém lembrar que um sábio não é apenas alguém que sabe muitas coisas, mas também alguém que consegue realizar algo importante para si e para os outros, de modo a que a vida fique mais bonita de viver!
No princípio da idade adulta, quando Inês já frequentava a universidade, teve uma ideia que lhe pareceu brilhante e, nesse mesmo dia, foi a correr ao castelo para a contar ao seu amigo marquês.
Ao abrir-lhe a porta, Rudolfo apareceu-lhe com olhos tristes.
— O que foi? — perguntou ela.
— O senhor marquês está muito doente. O médico já veio vê-lo e não quer que ele se canse — contou o mordomo, com ar preocupado.
Inês também ficou preocupada e correu ao quarto onde o marquês estava sentado numa cadeira de braços, com uma manta no colo.
— Ainda bem que vieste mais cedo — disse-lhe ele. — O médico aconselha-me a que fique em repouso, de preferência a dormir, mas o que eu quero é ouvir-te!
A rapariga sentou-se no tapete, junto do amigo que estava realmente muito velhinho, embora ela nunca pensasse na idade dele (noventa e nove anos), porque a idade não conta entre os amigos verdadeiros.
— Hum... Lembra-se de uma conversa que tivemos há muito tempo sobre a importância de ter a cabeça organizada, com as ideias mais importantes à frente e as outras atrás? — começou ela.
— Não, não me lembro, mas se estás a querer que eu obedeça ao médico, devo dizer-te que não posso, porque sinto que já não me resta muito tempo e não quero passá-lo a dormir!
Inês riu-se.
— Concordo consigo, desta vez...
— Isso é por eu estar muito velhote?
— Não, é porque eu tenho uma notícia muito importante para lhe dar e, se for dormir, não posso...
— E que notícia é essa? — interessou-se o marquês.
— Ontem à noite estive a pensar que é uma pena haver crianças que não sabem ler e a quem ninguém conta uma história. Por outro lado, também é lamentável que haja outras crianças que já andam na escola mas que ainda não descobriram que ler um livro pode ser muito divertido!
— E então tiveste uma ideia — atalhou o marquês, animado, apesar de se sentir fraco.
— Tive... Pensei que posso vir aqui uma ou duas tardes por semana contar histórias a crianças que queiram vir até ao castelo ter comigo e também ler para elas passagens de alguns dos livros de que mais gostei quando era pequena! Não quero que percam tantas aventuras fantásticas que estão escondidas nas quatro torres! Quando estiver frio, ficamos no salão, onde há lareira e podemos aquecer-nos. Nos dias quentes, ficaremos lá fora, no jardim, que é tão bonito!
— Parece-me uma grande ideia — aplaudiu o marquês. — E quando vais começar?
— Quando estiver melhor, porque não quero que as crianças venham aqui incomodá-lo com algum barulho que possam fazer.
— Nada disso, nada disso! Podes começar amanhã. Não te digo hoje, porque já é tarde e, provavelmente, ainda não falaste com os pais dessas crianças.
— Então quer dizer que posso realizar os meus planos?! — entusiasmou-se a jovem.
— Estás em tua casa, Inês — respondeu suavemente o marquês, saboreando os últimos raios de sol. — E agora, se não te importas, acho que vou seguir o conselho do médico e vou fazer uma sesta...
Inês ficou feliz. Então, ajeitou a manta que tapava o colo do velho amigo e saiu, encostando a porta atrás de si.
Lá fora, no jardim, Inês olhou os bancos de pedra e imaginou-se sentada num deles, rodeada de crianças a ouvirem contar uma história... E gostou muito do que ali viu com os seus olhos tão treina¬dos para imaginar.
Havia mesmo meninos na cidade a quem ninguém tinha tempo de contar histórias, por pequenas que fossem! Esses meninos não faziam ideia de como é bom ouvir uma história divertida e empolgante como as que Inês conhecia!
Mas também havia outras crianças que nunca tinham pegado num livro e não sabiam como um livro se pode tornar num amigo para toda a vida...
Tinha muito que fazer, pensou Inês. Era preciso falar com os pais das crianças para lhes explicar os seus planos. E era justamente disso que ia tratar sem demora!



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5. Um lugar de sonho


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No dia seguinte, mal saiu da escola, Inês encaminhou-se para o castelo, de mochila às costas. Estava desejosa de acabar de ler o livro que começara na véspera! O que iria acontecer à menina que sabia voar?, perguntava-se.
Que bom seria falar a língua dos pássaros e pedir a uma cegonha das que todos os anos faziam ninho na torre da igreja ou no telhado da câmara municipal que lhe emprestasse as asas ou lhe dissesse como arranjar umas que dessem para voar! Então, poderia viajar pelo céu fora e descobrir muitas coisas sobre as nuvens, a chuva, o arco-íris...
Havia tantas coisas para aprender e tantas aventuras para viver! Talvez os livros lhe ensinas-sem como arranjar essas asas que a fizessem voar ou lhe dessem pistas para desvendar muitos mistérios e compreender algumas coisas que via e ouvia e de que não se falava na escola.
Seria bom vir a ter uma vida longa para poder ler todos aqueles livros da biblioteca do castelo. Bem, todos talvez não, mas pelo menos aqueles que tinham as histórias mais interessantes e os que ensinavam exactamente o que queria saber!
Ao chegar ao castelo, bateu à porta e foi o mordomo quem veio abrir:
— Boa tarde, menina Inês! — cumprimentou-a. — O senhor marquês está à sua espera no salão. Queira seguir-me.
E Inês lá seguiu Rudolfo até ao salão, onde o marquês a aguarda' vá, tendo na mesa ao seu lado o livro que a menina começara a ler na véspera.
Mal viu o livro, Inês pegou nele e, entusiasmada, ia começar imediatamente a lê-lo, mas o mordomo fez um sinal para lhe lembrar que ainda não tinha saudado o dono do castelo.
Vendo que a menina estava desejosa de retomar a sua leitura, o marquês, muito satisfeito por ver nela uma futura leitora, cumprimentou-a com um aperto de mão e disse-lhe:
— Podes sentar-te naquela poltrona e fica à vontade. Eu vou para o meu escritório porque tenho uns trabalhos para fazer. Se precisares de alguma coisa, chama o Rudolfo ou vai à cozinha ter com a Matilde, que ela prepara-te um refresco.
Inês pousou a mochila no tapete, sentou-se imediatamente no lugar que o marquês lhe indicara e começou a ler o livro na página onde tinha ficado no dia anterior, a qual não estava marcada, mas ela lembrava-se exactamente de qual era.
Ao fim da tarde, o marquês veio ao salão.
A jovem visitante do castelo estava precisamente a acabar de ler o livro e era fácil perceber que nada a perturbaria. Toda a sua atenção estava posta na página que estava a ler e a sua expressão era a de quem estava noutro mundo, num lugar de sonho...
E que os livros têm este poder quase mágico de nos transportarem para outros lugares: sítios onde já estivemos e outros que nunca visitámos nem mesmo em sonhos!
Os livros são autênticos comboios a levarem-nos por montes e vales, aldeias e cidades. Outras vezes, são aviões que nos fazem chegar, num instante, a países longínquos. E podem também ser foguetões, que nos transportam para lá das nuvens e nos levam para o meio de cometas, estrelas e meteoritos, no espaço sideral!
Foi enorme a alegria do marquês ao ver aquela menina tão interessada na leitura. Na verdade, nunca tinha visto ninguém tão concentrado a ler senão... ele próprio! Inês fazia-o sentir que tinha valido a pena coleccionar, catalogar e restaurar tantos livros, ao longo da sua já longa vida.
E o rosto enrugado do marquês iluminou-se num sorriso de ternura, porque a menina ainda não dera pela sua presença, tal era a sua concentração!
Quando, finalmente, Inês acabou de ler o livro — e antes de o fechar — deu um longo suspiro de olhos fechados, saboreando as últimas palavras que lera.
Depois, ao ver que não estava só, a menina exclamou:
— Ler é extraordinário! Acho que nunca mais vou parar! Posso ir à biblioteca buscar outro livro?
— Primeiro, vamos colocar esse no lugar de onde saiu — disse o marquês. — Vem, que vou ensinar-te a fórmula mágica para descobrires o lugar exacto onde deves guardar um livro.
E o marquês lá se pôs a ensinar o que significava o código de letras e números que estava na etiqueta colada no livro que Inês tinha estado a ler. A menina compreendeu-o imediatamente e fez questão de ser ela mesma a ir colocar o livro no seu devido lugar, numa das estantes da torre número quatro.
— Como estás a ver — disse o marquês —, é muito importante que cada livro esteja correctamente marcado, porque uma biblioteca onde vivem muitos livros deve ser um lugar sempre organizado, assim como a nossa cabeça, onde vivem muitas ideias, deve estar organiza-da.
— Como? — quis saber Inês. — Como é que se organiza uma cabeça?
— Pois bem, é fácil: por ordem de importância. As coisas mais importantes, aquelas a que damos mais valor, devem estar sempre à frente, em primeiro lugar; as outras são arrumadas atrás. Por exemplo, aquilo que os teus pais te pedem que faças é mais importante do que...
— O que pede outra pessoa qualquer — apressou-se Inês a responder.
— Assim sendo — continuou o marquês —, o que eles pedem para tu fazeres tem de vir antes de todas as outras coisas que te são ditas pelas outras pessoas, para que te lembres bem desses pedidos.
— Estou a perceber — disse a menina, que costumava compreender tudo rapidamente. — Posso agora ir escolher outro livro?
— Claro que sim! Fico muito satisfeito por teres gostado de ler! Um dia, se quiseres, pode-mos falar da tua leitura. Mas vejamos agora o que queres ler a seguir... Se bem me lembro, disseste que gostavas de dançar...
— E de vulcões! E de trovões! E de relâmpagos!
— Hum... Ora bem, nesse caso, posso indicar-te um livro magnífico sobre fenómenos da Natureza, mas teremos de ir à torre número três. Acompanha-me.
E Inês lá seguiu o dono do castelo, ansiosa por ver que livro lhe iria, desta vez, parar às mãos. Certamente seria interessante, porque o marquês parecia saber muitas coisas importantes sobre vários assuntos! O marquês — dava para ver — era um sábio...



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4. O tesouro

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Estou novamente no exterior do castelo, num bonito jardim com uma vista magnífica para a cidade, lá em baixo no vale.
Sentei-me num dos bancos de pedra para aqui te contar o resto da história deste castelo, tal como Teresa ma contou. Bem, talvez não exactamente como ela contou, porque, quem conta um conto aumenta um ponto, mas vou tentar dizer-te toda a verdade.
Como eu calculava, a parte mais interessante da história estava mesmo para começar, no momento em que Teresa parou de falar...
Estava o marquês quase sozinho no castelo quando teve uma ideia para acabar com a sua solidão e a monotonia dos seus dias: e se mandasse um convite aos habitantes da cidade lá em baixo, para que viessem conhecer o seu tesouro? Sabia que nunca ninguém ali tinha entrado a não ser os seus familiares, amigos e empregados. Certamente, muitos seriam os curiosos a desejarem vir conhecer o castelo e, sobretudo, o que nele se encontrava.
Contente com a sua ideia, o marquês mandou o mordomo à cidade para que entregasse, no posto do correio, muitos convites para serem distribuídos pelas casas. Naquela altura, ainda não havia Internet, senão tudo teria sido mais rápido...
No primeiro sábado após a entrega dos convites, o castelo começou a receber visitantes logo de manhã. Eram pessoas de várias idades e profissões. Vinham cheias de curiosidade para descobrir o tal «tesouro» de que o convite falava. Provavelmente, tratar-se-ia de barras de ouro, já que o marquês tinha fama de ser um homem rico e o seu pai tinha sido o dono de muitas terras por aquelas bandas. Ou então talvez fossem encontrar jóias extravagantes, expostas em vitrinas: anéis, colares, pulseiras e até, porque não?, coroas enfeitadas com pedras preciosas — diamantes, rubis, safiras, esmeraldas... Além do mais, já que viviam ali tão perto, fazia sentido que fossem conhecer o monumento mais antigo e bonito daquela zona.
Naquele dia, Rudolfo não teve mãos a medir, passando a vida a ir receber os visitantes à porta do castelo e conduzindo-os aos lugares que o marquês queria que eles conhecessem.
Porém, ao serem abertas as portas das quatro torres que constituíam a fabulosa biblioteca, os visitantes mostravam-se decepcionados. Então era aquilo o «tesouro» que vinha anuncia-do no convite que tinham recebido?! Seria, afinal, para verem livros, apenas livros, que se tinham estafado a subir a Montanha Azul num dia de Sol?!
O marquês ficou triste ao perceber que ninguém estava a dar o devido valor à extraordinária biblioteca recheada de tantos livros e todos — sem excepção! — em excelente estado de conservação, graças ao seu interesse e trabalho. Ainda foi colocar-se no meio dos visitantes dizendo-lhes que, a partir daquele dia, poderiam vir ao castelo requisitar gratuitamente os livros que desejassem ler, desde que se comprometessem a devolvê-los. Na realidade, julgava que a sua oferta ia ser recebida com grande entusiasmo pelos habitantes da cidade, mas verificou que apenas três ou quatro esboçaram um sorriso para se mostrarem agradecidos.
— Bem vê, o castelo fica aqui no cimo da montanha, a subida é íngreme — desculpava-se o sapateiro, que coxeava da perna direita.
— E, no Verão, faz um calor dos diabos por aqui — comentava o alfaiate, limpando a testa com um lenço branco.
— Para não falar das vertigens — queixava-se uma senhora idosa. — Sim, que não nos podemos esquecer de que estamos a quase mil metros de altitude e, se uma pessoa olha para baixo, fica com vertigens!
— E há ainda o problema dos mosquitos e das meigas, lá em baixo ao pé do lago, a caminho daqui — lembrava uma senhora com voz de cana rachada.
— Eu cá fartei-me de espirrar enquanto subia a montanha. Deve ter sido alergia àquelas flores azuis! — queixou-se uma jovem, entre dois espirros.
— Por mim, até gostava de vir buscar um ou dois livros — atalhou um técnico que fazia reparações em televisores. — Mas acontece que não tenho tempo para ler...
O marquês estava profundamente desolado com o que ouvira. Calor?! Vertigens?! Meigas?! Mosquitos?! Espirros?! Que desculpas tão esfarrapadas... E como podia alguém não ter tempo para ler, que é uma das coisas mais bonitas e interessantes que há?!
Que pessoas eram, afinal, aquelas que moravam na cidade logo ali no vale, tão perto do castelo?
Seria que não havia ninguém que quisesse aventurar-se a descobrir o mundo tão grande e fantástico que a sua biblioteca guardava em silêncio?, perguntava-se o marquês.

Quando os visitantes saíram, o anfitrião, que foi despedir-se à porta do castelo, voltou para dentro cabisbaixo, perante o olhar igual¬mente desanimado do mordomo. Porém, ao levantar a cabeça, deparou-se-lhe uma visão que lhe iluminou as ideias e aqueceu o seu coração magoado: uma menina de uns oito anos de idade, de cabelo doirado, apanhado em rabo-de-cavalo, vestida com jardineiras e uma camisola cor-de-rosa estava sentada no segundo degrau da escadaria que dava acesso ao primeiro andar e tinha entre as mãos um livro... Tão entretida estava a ler, que nem se apercebeu da presença do marquês, tendo ele que tossir duas vezes para se fazer notar. Então, visivelmente contrariada por ter sido interrompida, ela ergueu o olhar para o dono do castelo que lhe perguntou:
— Tu gostas de ler, menina de olhos verdes?!
— Chamo-me Inês — apressou-se ela a informar. Depois, respondeu à pergunta do marquês: — Ainda não sei se gosto de ler, mas acho que sim... Este é o primeiro livro que estou a ler, quero dizer, sem contar com os da escola. Já ando no terceiro ano!
— Hum... No terceiro ano... E que livro escolheste tu da minha biblioteca?
— Este que tem uma capa bonita e um título de que gosto «A menina que voava». Sabe, eu tenho aulas de ballet e gosto de dançar, mas o que eu queria mesmo era saber voar... Mas agora, se não se importa, gostava de acabar de ler a história — pediu a menina.
O marquês estava encantado. Afinal, alguém se tinha interessado pela sua colecção de livros! E era uma menina que parecia saber bem o que queria!
— Eu vou deixar-te ler, sim — disse ele. — Mas não será melhor ires ter com os teus pais? Se vieram contigo, já se foram embora e devem estar preocupados. Toda a gente já se foi embora...
A menina de olhos verdes consultou então o seu relógio de pulso e compreendeu que era tarde.
— Posso voltar amanhã para acabar esta história? — perguntou ela, levantando-se com o livro na mão.
— É claro, é claro. Mas, se preferires, leva o livro contigo e devolves-mo quando já o tiveres lido — respondeu o marquês. A menina ficou a pensar uns instantes e, depois, concluiu:
— Acho que é melhor vir ler aqui para o castelo. Em minha casa há sempre coisas para fazer e, além disso, ouve-se sempre o barulho que vem da rua e da minha irmã a reclamar ou a pedir qualquer coisa... Ainda por cima, este lugar é tão bonito!...
O marquês ficou contente ao ouvir estas palavras e disse:
— O Rudolfo e eu teremos muito gosto em que venhas cá visitar--nos todos os dias, mas primeiro deverás falar com os teus pais. Se eles estiverem de acordo, passarás a vir quando desejares!
— E posso ler o que eu quiser?
— Evidentemente. Mas, se precisares de algum conselho sobre os livros, fala comigo!
— O senhor... já leu aqueles livros todos?!
O marquês riu-se:
— Para ler os livros todos da minha biblioteca precisaria de ter mais vidas do que os gatos, e diz-se que os gatos têm sete! Não, não li os livros todos, infelizmente, mas li muitos e sei de que tratam os que ainda não li, portanto poderei ajudar-te nas tuas escolhas, visto que tu, mesmo que vivas até aos cem anos, também não vais ter tempo de os ler todos...
— Não?! — entristeceu-se a menina.
— Não, mas o que importa é que vais ter ocasião de ler muitos e mergulhares nas suas aventuras extraordinárias que farão de ti uma pessoa muito mais sábia e melhor!
A menina ficou encantada. Iria ser sábia, que era o seu maior sonho desde que entrara para a escola!
— Eu acho que vou ser uma grande cientista — disse ela, entregando o livro ao mordomo. — Adoro relâmpagos, trovões e vulcões! Quero saber tudo o que há na terra, no mar e no céu! Há tantas perguntas que quero fazer, por exemplo: será que Deus ouve os trovões no lugar do Céu onde Ele vive?
O marquês sorriu.
— Agora, são horas de voltares para tua casa. Se te deixarem, regressarás amanhã, depois da escola.
E, muito feliz, o marquês foi despedir-se de Inês, a menina de olhos verdes, dizendo-lhe adeus da porta do castelo.


Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros

3. A história do Castelo

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Já no salão, confortavelmente instalada, começo a ouvir Teresa contar a história deste castelo que vim conhecer.
— Há muitos muitos anos...
— Todas as histórias que conheço começam assim! — reclamo.
— Muito bem, então recomeço de outra forma, mas devo avisar-te de que há uma condição para eu te contar a história...
— Que condição é essa? — pergunto.
— Não poderás interromper-me uma única vez!
— Prometo — apresso-me a dizer, para não perder tempo. E repito: — Prometo! — Mas será que vou mesmo conseguir não interromper? Eu tenho sempre tantas perguntas para fazer...
Depois de ajeitar a almofada do sofá de veludo cor de mel, Teresa recomeçou:
— Era uma vez um marquês... Sim, um marquês. Não era um príncipe, nem um duque, não era um conde nem um visconde... — Teresa olha para mim e percebe que estou a impacientar-me. Creio que está a pôr-me à prova, para ter a certeza de que não vou interrompê-la. Quanto a mim, neste momento, já não tenho tanta certeza...
— Era um marquês biblionário — continua ela, olhando para mim. — As vezes, os escritores inventam palavras, sabias? Esta fui eu que a inventei precisamente para descrever alguém muito rico em... livros! Alguém que possui milhares e milhares de livros. Tal como outros têm milhares e milhares de notas num banco, este marquês tinha milhares e milhares de livros guardados aqui mesmo, no seu castelo. Exactamente! Este castelo foi a casa do marquês durante toda a sua vida. Era um homem invulgar, o Marquês de Genciana. Começou a coleccionar livros ainda muito jovem, com apenas oito anos de idade. E o seu amor pelos livros cresceu depressa, de tal maneira que não podia ver nenhum maltratado, com a capa em mau estado, a lombada descolada ou com algumas páginas descosidas! Por esta razão, uma das primeiras coisas que aprendeu a fazer quando era jovem foi a restaurar livros, isto é, a voltar a pô-los como eles eram no momento em que acabaram de ser feitos. Assim, o jovem marquês mandou construir uma oficina aqui no castelo e foi lá que, até ser muito velhinho, se dedicou ao trabalho de restaurar os livros mais gastos e em mau estado. Sempre que descia a montanha para ir à cidade, ia visitar a livraria e procurava ver todas as novidades. Não trazia tudo, claro, apenas o que lhe parecia interessante, mas, mesmo assim, voltava sempre cheio de livros novos, ou melhor, quem carregava os livros era Rudolfo, o mordomo do castelo, que o acompanhava para todo o lado e, por ser um homem muito forte, conseguia transportar uma pilha de livros debaixo de cada braço! Chegados ao castelo, o marquês e o mordomo iam até à oficina e era lá que o marquês se dedicava à tarefa de catalogar os livros que tinha trazido. O que ele fazia era colar em cada um uma etiqueta com um código, para que o livro fosse correctamente colocado numa das estantes. Por exemplo, se se tratasse de um romance de aventuras, iria para a torre número um, conhecida como a «Torre dos Arrepios». Se fosse um livro de poesia, iria para uma das estantes da torre número dois, que recebeu o nome de «Torre das Asas». Um livro de viagens também deveria ser guardado na torre número dois, mas, claro está, já não nas estantes destinadas à poesia. A Bíblia, que foi o primeiro livro impresso no Mundo, bem como todos os livros sobre a vida de Jesus, dos santos e dos anjos iam para a torre número três, à qual o marquês deu o nome de «Torre do Céu» e, naturalmente, o código de cada um deles indicava que se tratava de livros religiosos. Naquela altura, não havia computadores, portanto este trabalho de catalogar os livros levava muito mais tempo. Também, nessa altura, os escritores escreviam à máquina ou mesmo à mão, portanto, como é fácil de ver, demorava muito mais tempo a ter um livro pronto para ir para as livrarias. Mas, voltando ao nosso marquês, a verdade é que, em cada ano que passava, a sua biblioteca ia ficando mais recheada com livros de todas as espécies e dos mais variados autores do mundo inteiro. E, mesmo já adulto, continuava a coleccionar livros de histórias para crianças, com belíssimas ilustrações, de que muito gostava. Estes eram sempre colocados na torre número quatro, onde ficaram até hoje, e devo dizer-te que nessa torre há apenas livros para crianças e para jovens, mas nem por isso são em número inferior ao das outras torres do castelo. Aliás, à torre número quatro, o marquês chamava a «Torre Dourada». Infelizmente, o único filho do marquês, Edmundo, não se interessava pelos livros nem pela escola. Gostava apenas das aulas de esgrima e tornou-se um atleta nessa modalidade, mas acabou por sofrer um acidente fatal. O marquês e sua mulher ficaram muito tristes, e ele só conseguia animar-se lendo ou relendo um dos seus livros favoritos. E que, como sabes, ler ajuda a afastar a tristeza! Assim foi vivendo até ficar muito velhinho e já lhe custar ler, porque, apesar de usar óculos, ficava cansado. Então, passou a pedir ao mordomo que lesse para ele. O mordomo lia o melhor que sabia, mas, na realidade, o marquês não gostava muito de o ouvir, só o fazendo porque não via alternativa. Não havia mais ninguém a não ser a cozinheira e essa, coitada, nem sabia ler. O castelo foi começando a ficar cada vez mais vazio de pessoas, porque uns tinham viajado para terras distantes e outros, mais velhos, tinham já partido para o Céu, como a mulher do marquês, a Marquesa de Genciana...
Teresa calou-se. Uma nuvem nublou-lhe os olhos. Talvez esteja um pouco cansada ainda por causa do livro que acabou hoje de escrever. Ou talvez se tivesse lembrado de alguém querido que também já tenha partido. Resolvi manter-me em silêncio, aliás, foi isso mesmo que prometi fazer.
Tenho o pressentimento de que a primeira parte da história deste castelo já foi contada. A parte mais interessante está a chegar, sinto-o e estou desejosa de fazer perguntas, mas... vou ouvir com atenção até ao fim e depois conto-te tudo, prometo!



Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros

2. Visita guiada

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— Que prazer receber uma visita! Já é raro, nos tempos que correm... Eu sou Teresa, a nova dona deste castelo. Mas senta-te, que vou já sentar-me ao teu lado. Suponho que queres saber a história deste lugar... Na verdade, são muitas as histórias que poderia contar acerca deste castelo, mas acho que vou escolher a que é para mim mais interessante. Espero que a subida da montanha não tenha sido demasiado cansativa, porque, antes de começar a contar a história, tenho de mostrar algo de que ninguém parece estar à espera... Podes seguir-me.
Lá vou atrás dela, parando na enorme portaria onde já estive. Confesso que fiquei um pouco decepcionada por não estar antes a seguir uma rainha, uma duquesa, uma marquesa, uma condessa, uma baronesa, enfim...
— Como vês — começou ela —, lá ao fundo, há uma escadaria. Do nosso lado direito, estão duas portas e, à esquerda, outras duas. Comecemos pela primeira porta da direita. Vem comigo.
Encaminhamo-nos para a porta indicada e, mal ela é aberta, depara-se-nos uma enorme escadaria em caracol, no meio de um espaço quadrangular.
Percebo que estamos dentro de uma das quatro torres do castelo... Mas o que é verdadeiramente extraordinário é que, acompanhando a escadaria mesmo até ao cimo, há estantes repletas de livros!
Provavelmente, muitas centenas de livros. Uns grossos, outros fininhos; alguns de cores escuras, outros de cores claras e outros ainda quase sem cor...
— Devem estar aqui mais de mil livros! — digo eu, sem conter a minha admiração.
A anfitriã sorriu.
— Oh, sim, muito mais de mil...
— Não sabia que era costume haver tantos livros num castelo. — E acrescento, sem parar de observar aquelas estantes que sobem do chão até ao cimo da altíssima torre cheia de livros: — Não fazia ideia de que poderia haver mais de mil livros numa só casa...
Teresa voltou a sorrir.
— Mas os que estamos a ver não são os únicos livros que há neste castelo!
— Não?!
Estou cada vez mais surpreendida.
Teresa explica-me:
— Em cada uma das três torres restantes, há um número idêntico de exemplares...
— Todos diferentes?!
— Sim, todos diferentes...
— Espantoso! Vamos agora ver as outras torres?
A actual dona do castelo concorda com um gesto de cabeça. Lá vamos então.
Conforme me foi dito, a segunda torre é semelhante em tudo à primeira, excepto, claro, nos livros, que são todos diferentes.
Não sabia que podia haver tantos livros juntos, quero dizer, fora de uma biblioteca daquelas que existem nas grandes cidades. Pelos vistos, estava enganada...
A terceira e a quarta torres têm o aspecto das anteriores e também estão a abarrotar de livros até ao cimo.
— Quem comprou estes livros todos? — pergunto, de cabeça voltada para o tecto.
— Ora isso já faz parte da história que quero contar-te — disse Teresa. E sugeriu: — Vamos agora regressar ao salão, porque é onde se encontram os sofás mais confortáveis.
— Estou a ver que a história é longa — ponho-me a adivinhar.
— Enfim, digamos que é uma história que requer que nos sentemos confortavelmente.
Por mim, acho óptimo! Gosto de me sentar confortavelmente num sofá bem fofo e macio, daqueles onde podemos afundar-nos e ficar a magicar ou... a ouvir uma história.
Estou desejosa de ouvir Teresa. Não é uma rainha, nem uma duquesa, nem sequer uma baronesa, mas certamente saberá contar histórias, porque é esse o seu trabalho, a forma como vive, aqui neste castelo a abarrotar de livros.


Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros

1
A Montanha Azul



Começo por te falar de uma montanha que ganha nova cor em cada Primavera, ao ficar magicamente coberta de flores pequenas e azuladas — gencianas e campainhas...
Chegou o mês de Maio. É Primavera! A montanha está azul como os olhos dos anjos.
Lá no cimo, há um castelo com um portão de madeira e ferro, e quatro torres que quase chegam ao céu. E o Castelo da Montanha Azul.
Quem o olhe aqui debaixo, do vale, apenas verá um castelo de pedra, parecido com outros. Porém, quem nele se atrever a entrar encontrará um mundo fantástico, cheio de mistérios, segredos, enigmas e muitas, muitas histórias para contar...
Acho que se pode ir bater ao portão do castelo e esperar que nos abram a porta... Sempre tive muita curiosidade em conhecer um castelo habitado, sim, porque os outros, aqueles em que já ninguém mora, interessam-me muito menos.
Já decidi: vou ao castelo. É isso mesmo que eu vou fazer. Tu podes seguir a minha trajectória, se quiseres fazer-me companhia nesta aventura...
Primeiro, é preciso escalar a montanha, o que não é tarefa fácil, mas tenho o pressentimento de que vai valer a pena.
Lá vou eu!
Olhando à direita e à esquerda vejo como são mesmo azuis as res que cobrem a terra! Acho que nunca tinha caminhado entre flores assim tão bonitas! Não é à toa que chamam a esta montanha a Montanha Azul!
Ah! Dá mesmo vontade de respirar fundo, que este ar é muito mais puro do que aquele que respiramos lá em baixo, na cidade. Nem se pode comparar!
E melhor continuar a subida, que a meta é mais acima.
Tão perto estou já do castelo que quase parece que vou chegar ao céu! Como é alta esta montanha! O melhor é não olhar para o lugar de onde vim, senão ainda posso ficar com tonturas...
Cheguei! Cá estou, finalmente, em frente do portão. E muito maior do que parecia lá debaixo!
Que estranho... está aberto!
Vamos entrar?
Também ouviste ranger, aí onde te encontras? Não te assustes. E só um portão muito velho, a precisar de um pouco de óleo nas dobradiças.
Vê só que portaria enorme! E como é bonito este chão de pedra, apesar de tão antigo e gasto! Está mesmo muito gasto! Quantos pés não devem ter já pisado este chão!...
Escuta!... Parece-me que ouço o ruído de dedos num teclado... Na primeira sala à direita está alguém... Vou aproximar-me! Ah-ha, já calculava: é uma escritora, sentada à escrivaninha, em frente de um computador. Deve ter acabado de escrever um livro, porque parece contente, embora um pouco cansada. E, certamente, a pessoa indicada para falar deste castelo, já que tudo leva a crer que mora aqui.
A escritora precisa de ir descansar antes de falar comigo. Compreendo perfeitamente. Pede-me delicadamente que espere no salão. Assim farei, enquanto ela vai repousar um pouco.
Escrever um livro deve ser muito interessante, mas também é capaz de cansar um bocado...



Maria Teresa Maia Gonzalez, in O Castelo dos Livros