29/10/2008

Farrusco


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Dentro da poça do Lenteiro, há rãs. Naquela água coberta de agriões e de juncos moram centenas delas. Mas à volta, na sebe de marmeleiros, silva-macha e alecrim, vive Farrusco, o melro. Sabe-se isso desde que, em certo entardecer de Agosto, a Clara perguntou ao cuco que se pousara num pinheiro em frente:
- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
A rapariga era toda ela de se comer. E o cuco, maroto, olhou de lá, viu, e respondeu:
- Cucu... Cucu... Cucu...
Três anos! A moça ficou varada. O Rodrigo acabava a tropa de aí a dias, e prometera levá-la à igreja logo a seguir. Que significava, pois, semelhante demora? Aflita, chegou-se à Isaura, a alcoviteira, mouca como um soco, que a seu lado sachava milho, e gritou-lhe aos ouvidos, desesperada:
- Ora vê?! Que lhe dizia eu? A Isaura nem queria acreditar.
- Ouvirias mal!...
- Olhe lá que não ouvisse! Contei-os bem.
E foi então que Farrusco soltou a sua primeira gargalhada. Coisa bonita! Uma cascata de semicolcheias escaroladas, como se alguém rasgasse um pano cru, rijo e comprido, no silêncio da tarde serena, que o desânimo de Clara enchera subitamente de melancolia. Nada mais do que isso. Mas o bastante para mudar o sinal do desencanto. A força virgem daquele riso chamou a vida à consciência dos seus direitos. De parada, a natureza animou-se. Uma aragem muito branda e muito fresca atravessou o espaço. Tudo quanto era mundo vegetal ondulou levemente. A própria terra, sonolenta do calor do dia, acordou. £ de aí a segundos começou a maior sinfonia que se ouviu no Lenteiro.
Chamadas por aquela volatina, as rãs subiram à tona de água e puseram-se a dar força sonora às tímidas vozes ocultas e anónimas que se erguiam do limbo. Às rãs, juntaram-se logo, pressurosos, os ralos, as cegarregas, os grilos, e quanta arraia miúda tinha fala. A esta, a passarada. Até que não ficou bicho sensível e solidário alheio ao Tantum Ergo pagão. Um coro imenso, cósmico e fraterno, que enchia o mundo de confiança.
Clara, arrastada pela onda de harmonia, apelou da sentença:
- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
O que foste fazer! O malandro do pitoniso, se há pouco fora cruel, desta vez requintou.
- Cucu... Cucu... Cucu... Cucu...
Parecia uma ladainha! A lengalenga não parava mais. Ou de propósito, ou porque o mundo, naquele instante, era um orfeão aberto, o ladrão dava mais anos de solteira à rapariga do que estrelas tem o céu.
Desapontada, a cachopa regressou às ervas daninhas do lameiro. E, num amuo justificado, deixou correr as horas. A seu lado, comprometida, a Isaura, que tinha garantido o noivado a curto prazo, falava, falava, sem conseguir adoçar-lhe no espírito o fel da desilusão. E quando a noite se aproximou disposta a selar com negrura aquela tristeza humana, foi preciso que Farrusco, novamente solidário com os direitos da moça, saltasse da espessura da sebe para o cimo de um estacão, e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Discordância de tal maneira fresca, sadia, prometedora, que a rapariga ganhou ânimo. Pôs os olhos em si, na força criadora das margaridas abonadas, no ar de coisa sã que toda ela ressumava, e sorriu. Depois, confiante, juntou a sua alegria à alegria do melro. Soltou então também uma risada cristalina, que partiu da verdura do milhão, passou pelas penas luzidias de Farrusco, e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. A vida homenageava a vida. Depois continuou tudo a cantar.
- O estafermo do cuco, tia Isaura! Até um melro se riu!...
- Riem-se de tudo, esses diabos...
Mas o lusco-fusco começava a empoeirar o céu, e Farrusco ia fechando docemente os olhos, deitado na cama dura. A vida que lhe ensinara a mãe, simples, honesta, espartana, não lhe consentia luxos de noitadas. Pela manhã, ainda o sol vinha lá para Galegos, já ele tinha de estar de perna à vela, pronto para comer a bicharada da veiga, e rir de novo, se alguma tola de Vilar de Celas se fiasse outra vez no aldrabão do cuco.

Miguel Torga, Os Bichos


26/10/2008

Os parâmetros da vida

A linha da rotina diária necessária à sobrevivência instala-se, passando, por certos eixos e fortificações. Para uns essa linha parece longínqua, quase perdida no horizonte dum grande espaço cheio de liberdade e de caprichosos ricos, os saudáveis, os descuidados -outros sentem-se apertados dentro de muralhas asfixiantes. Sim, poderemos figurar esta questão como uma linha militar de defesas contra o inimigo - a morte. Uma Linha Maginot, que tão factual e foneticamente se revelou imaginária.
Sim, as nossas linhas de sobrevivência são, em boa parte, imaginárias. Deixando a imaginação -por agora, porque ela nunca nos deixa a nós e voltando ao tema que me propus, eu, velho contador de histórias e que disso fiz profissão, quero hoje contar-vos a história dum rapaz cuja linha de sobrevivência era estrita e rigorosa. Assim pensava ele e era, por isso, um rapaz triste. Ou vice-versa. Antes de me adiantar, esclareço ainda uma outra coisa: parecerá estranha, esta história, situada no presente, mas com um sabor antigo nos seus pormenores. Acontece que ela não se passou neste mundo, pelo menos tal como o conhecem, ela teve sua plena realidade e acontecer num mundo ligeiramente lateral àquele que conheceis: um mundo que faz com este, a que chamais vosso, um ângulo de alguns graus inflectido. Ele não está separado deste agora em que vos falo, muito pelo contrário. É um mundo onde uma certa -mas não total -coexistência de passado, presente e até futuro, é possível; um mundo que contém este, que considerais vosso, tão querido e tão absolutamente limitado.
Pois conheci esse rapaz num dia igual a muitos outros. Eu sentara-me na praça, junto à fonte. Era dia de mercado, muita gente passava, muita gente se atardava, bebendo água, refrescando-se no intervalo ou no fim das compras, planeando, contando o dinheiro. Eu estendera o pano preto à minha frente, como sempre faço, um rectângulo nem muito pequeno nem muito grande, que chame a atenção para não ser pisado, mas que não crie também a interrogação hostil dum espaço grande que obrigue ao desvio dos itinerários naturais. Sabedorias que aprendi, com os mestres e com a vida, com o olhar das pessoas. Estas julgam geralmente que o pano preto apenas se destina a recolher as moedas e assim fixam o seu olhar naquele rectângulo, julgando responder inteiramente ao seu apelo com essa esmola para a voz que ouvem com mais ou menos atenção.
Sim, o rectângulo destinava-se à recolha de moedas. Mas, mais do que isso, era um adereço. Tudo necessita duma infra-estrutura. O pano negro era o espaço que separava quem falava e quem escutava. Poderia ser branco, também; vazio intermédio, absorção de todos os possíveis. Para não ser demasiado pomposo direi que o pano rectangular era o necessário ritual.
Eu começara a contar a história dum salteador de estradas que um dia sofrera um grande desastre. Caiu do cavalo, dizia eu, quando uma noite fugia, perseguido por homens indignados. Mais do que indignados, desesperados: o ladrão roubara-os vezes sem conta, empestando os caminhos daquela região; perseguindo o ladrão, eles fugiam da miséria, por isso tinham superado o medo e estavam dispostos à morte, sua ou do ladrão. Este, que conhecia bem todos os caminhos e sítios desertos, embrenhou-se por um córrego na encosta dum fundo precipício. Em baixo corriam águas negras e apenas alguns penhascos e árvores raquíticas separavam o galope do cavalo daquelas águas furiosas. Qualquer coisa espantou o animal. Uma víbora, foi dito depois, mas ninguém viu tal víbora ou seu rasto. Há muitas causas misteriosas neste mundo e não vale a pena determo-nos sobre elas, a não ser quando elas nos chamam e se revelam. O cavalo empinou-se, o ladrão caíu e resvalou quase até ao fundo do precipício. Apenas o susteve um penhasco agudo. A queda salvou-o da morte. Os perseguidores perscrutaram as sombras dos fundos. Decidiram que era impossível procurar o ladrão naquela ravina quase a pique, decidiram que certamente ele tinha morrido; pelo menos não sairia dali com vida, por muito longa que fosse a agonia.
A queda quebrou a perna direita do ladrão, que conseguiu rastejar penosamente ao longo da ravina, alimentando-se de bagas, raízes e até de caules lenhosos, dias e dias, bebendo das águas furiosas do fundo. A perna soldou, torta, irremediavelmente coxa e dolorosa. O ladrão saiu do desfiladeiro, prisão improvisada, magro, sem cavalo, sem aptidão para saltear nas estradas. Caminhou para longe, coxeando.
Chegou a uma aldeia distante e as pessoas juntavam-se à sua volta, com gritos de boas-vindas e hossanas. Admirado, perguntou o que se passava. Reconhecemos-te, responderam-lhe; diz uma velha profecia que um dia chegarias. Pai dos arrependidos, ajudando todos os que querem fugir do mal, coxeando. Ainda perplexo, o ladrão coxo foi acolhido por um alfaiate, que o tornou seu ajudante, considerando uma honra albergar aquele que fora anunciado. O ladrão aceitou tudo isto, pensando nas vantagens imediatas: cama e comida garantidas. Mas com o andar do tempo foi acreditando no significado da sua própria presença ali, foi acreditando na profecia. Como poderia ele, sozinho, pretender desmentir o que fora predito e acontecera? Como várias outras pessoas de similar experiência, o coxo ladrão aceitou os acontecimentos, sua evidência, seu significado, desistindo de opiniões próprias, e foi feliz. Casou com a filha do alfaiate que era feia e dedicada. Teve filhos, herdou o negócio do sogro. Morreu, muitos anos depois, em paz. E antes de morrer, disse aos filhos: aceitem os vossos destinos. O que parece uma desgraça, pode não ser.
Algumas pessoas revoltavam-se com a história, sempre assim aconteceu com as minhas histórias. Achavam injusto que um ladrão morresse feliz e em paz. Outras comoviam-se e diziam que Deus é bom e tudo depende de nós aceitarmos as suas oportunidades. Foi então que se aproximou o rapaz triste. Com um sorriso amargo perguntou-me: achas então que o sofrimento torna as pessoas boas? E eu disse-lhe que não. Nada torna as pessoas boas a não ser elas próprias. A vida dum coxo não é igual à de quem tem duas pernas sãs. Não necessariamente pior, não necessariamente melhor.
Eu chamei-lhe velho idiota e afastei-me. Tinha nascido de pais que, não sendo ricos, viviam desafogadamente, era saudável, tive uma infância feliz. Ainda adolescente, os meus pais morreram. Fui viver com um tio, homem nem bom nem mau, apenas com sentido do dever. O meu tio insistia em contar-me quanto lhe custava alimentar-me, vestir-me, pagar-me alguns estudos. Não sou rico, dizia-me, e tenho dois filhos. Todo o dinheiro que vou conseguindo arranjar reparto entre vocês os três, igualmente. Nada mais acrescentava, e eu sentia aquilo que ele queria que eu sentisse: a injustiça daquela igualdade, à qual ele se sentia obrigado, prejudicando os próprios filhos; a necessidade de que tal injustiça fosse reparada por mim. Mas que poderia eu fazer? A minha existência era, só por si, causa de um desequilíbrio. Resolvi desaparecer, pois que parecia essa a única solução. Fiz planos, sem nada dizer a meu tio ou aos meus primos. Se falasse, eles sentir-se-iam na obrigação de me forçar a ficar. Achariam mesmo que O meu propósito não era ir-me embora, mas obrigá-los a insistir para que ficasse junto deles. A vida tem situações destas, em que as linhas se cruzam e dão situações invertidas, como os raios de luz se cruzam e invertem as imagens. A única solução era eu partir sem nada dizer e deixá-los a lamentar a minha ingratidão na minha ausência: estaria então cumprido o dever deles.
Fiz planos. Mas era muito novo, não tinha experiência de vida nem certeza quanto à forma de ganhar dinheiro. A minha ansiedade tornou-se muito grande e eu adoeci gravemente. O meu tio e os meus primos trataram-me o melhor possível, com grandes sacrifícios económicos. Eu pensava: talvez morra, e achava que seria uma boa solução. Uma forma de cumprir o meu desejo de desaparecer. Em médicos e remédios se gastaram todas as poucas economias do meu tio, e eu não morri. Mas fiquei com uma doença incurável: para sobreviver em condições satisfatórias teria que fazer uma dieta rigorosa e cara. Tenho poucas forças para trabalhar.
Mais algum tempo fiquei com o meu tio e os meus primos, assistindo aos seus óbvios sacrifícios. Sempre rectos, sempre falando dos esforços redobrados a que eram obrigados por minha causa. Até que um dia saí de casa. Deixei-lhes uma carta agradecendo tudo o que haviam feito por mim. Desde aí tenho andado à deriva. Poucos trabalhos sei fazer, poucos trabalhos posso fazer. Como o que calha, durmo onde calha: o meu mal agrava-se de dia para dia. Acho que em breve morrerei. Não sei se é isso que quero, mas também não vejo outra solução. Foi tudo isto o que eu não contei ao velho idiota que contava histórias sobre os benefícios da adversidade.
Fiquei muito impressionado. O medo, ou a infelicidade do rapaz era tal que ele nem se atrevia a dizer o nome da sua doença. Isto acontece com muita frequência entre as pessoas: julgam que, dizendo o nome da doença, esta se julgará chamada e avançará com mais rapidez; ignorando-a, julgam desencorajá-la.
Quando o rapaz se afastou, eu chamei-o, mas ele não me ouviu, ou fingiu que não. À noite encontrei-o na estalagem, e convidei-o para jantar comigo. Reparte comigo o produto das minhas histórias, que tanto te desagradaram, disse-lhe. O rapaz encolheu os ombros e disse que comia pouco, muito pouco. Talvez seja uma vantagem, respondi-lhe. Não é vantagem, é necessidade. Resumindo o nosso estranho diálogo, ele contou-me que comia pouco para que não se agravasse o mal que lhe atacava as entranhas. E que comendo pouco, ficava fraco, e não conseguia trabalhar para ganhar o suficiente para comer os alimentos de que realmente necessitava. Entre o comer pouco para sobreviver e não sobreviver por comer mal, o seu desejo de sobrevivência oscilava. O que quer você afinal? Perguntei-lhe.
Não interessa o que eu quero, mas o que eu posso, respondi-lhe. Aí é que tu te enganas, disse-me o velho, misteriosamente. Podemos sempre tornar pior a sorte, má ou boa, que temos. Sobretudo se insistirmos em nos sentirmos desgraçados. E a nossa conversa acabou aí.
Insisti para que nessa noite o rapaz comesse aquilo de que necessitava. Ele dizia-me não vale a pena, um dia, um jantar, não adianta, e eu insistia que a questão não era essa. Consegui que aceitasse o jantar adequado à sua dieta. No fim, agradeceu-me e eu respondi-lhe que não me devia agradecimentos, nem a mim nem a ninguém, porque as pessoas fazem o que querem. Ele disse que não valia a pena discutir comigo e despediu-se.
Vários meses se passaram sem que eu o visse. De novo eu estava na praça do mercado, desta vez contando a história da mulher que queimara as mãos ao tentar salvar das chamas uma vizinha maldosa que lançara fogo à própria casa --ao tentar fazer um bruxedo contra alguém, diziam; poderia ter sido outra espécie de desespero? A mulher má foi salva e continuou má, ficando mesmo com ódio especial em relação àquela que a salvara. Esta curou-se, ao fim de longo sofrimento: ficou com as mãos feias, mas úteis. Aparentemente tudo ficou na mesma, concluí eu, excepto pelo ódio e pelas mãos feias. Que história tão estúpida, disse uma mulher da assistência. O que quer dizer? Que as boas acções não dão bons resultados?
Quer dizer que os resultados das acções permanecem secretos, disse uma voz no meio da multidão. Era o rapaz, aproximou-se de mim. Eu soube que ele estava curado. Por isso pôde contar-me tudo o que lhe acontecera.
Recordei muitas vezes o que me disseste, e tive medo de piorar ainda a minha sorte. Passei um mau período, até que compreendi que o medo não ajuda a sorte de ninguém. Para fugir do medo comecei a contar histórias: a mim próprio, aos outros.
Contava, por exemplo, a história do menino infeliz, órfão e abandonado que um dia encontra uma benfeitora que o ama perdidamente, que é perdidamente generosa. E depois? Perguntava quem o escutava. Depois viveram felizes para sempre. Depois a benfeitora adoeceu e o rapaz tratou-a com desvelo incomparável. O jovem inventava vários finais para a história, justos e edificantes, mas os seus ouvintes maçavam-se. Percebeu que a reacção dos ouvintes eram o sinal da verdade da história -da falta de verdade; não encontrava final satisfatório. Contou então que o menino cresceu rico e descuidado. Tão descuidado que achava longínquo o perigo, longínqua a necessidade. Comprou um carro de corrida, desenfreadamente o guiava, e matou-se num desastre. Chegou a contar esta história em verso, com acompanhamento musical. As pessoas ficavam então junto dele discutindo o final, indignando-se. O que queres provar, diziam. Que a felicidade não dura, que a riqueza é um mal? Davam-lhe também dinheiro ou comida. Mas como ele comia frugalmente e ficava sentado, quieto e calado, tentando escutar as queixas ou alegrias do seu corpo, atento também às reacções dos outros, tomaram-no por um sábio. Ajustou-se mais ao seu corpo.
Colocava o rectângulo preto à sua frente porque isso lhe recordava o velho -agora grata memória -e lhe facilitava a concentração. Fitando o negro, as palavras surgiam.
Fui visitar meu tio, e beijei-o. Ele comoveu-se muito e chorou abraçado a mim. Entraram então meus primos, que ficaram igualmente contentes por me verem. Que grande alegria deste a nosso pai, diziam. E eu olhava aquelas três criaturas, a quem detestara por me contarem o que faziam por mim, e compreendia quanto eram tímidos e inseguros: apenas haviam temido que eu não os notasse, que eu não notasse a sua dedicação. Queixavam-se porque tinham medo. Medo de não cumprir o que consideravam um dever. Medo da vida. E eu não compreendia como fora possível a minha cegueira. Perdi o medo: se não cuidamos do nosso património de felicidade, certamente que o perderemos, repeti com alegria. A minha doença foi um aviso, e eu reinterpretei toda a minha história.
Resolvi então vir ter contigo. Estava curado: quero dizer, a minha doença já não é uma limitação terrível, é uma coisa que me obriga a uma rotina diária, nem mais nem menos penosa do que comer como todos fazem, ou tomar banho, ou lavar os dentes. Bem vistas as coisas, temos todos uma doença incurável: aproximamo-nos da morte todos os dias, e todos os dias temos de tentar prolongar um pouco mais o nosso trajecto.
O rapaz aprendeu a contar histórias. Tornou-se meu ajudante. Encontrou assim um trabalho de que gostava; naturalmente que esse trabalho estava também dentro das suas forças. Tal como a sua dieta, que lhe parecera tão terrível; tudo passou a ser condição natural da sua existência; as histórias também. Foi a partir daí que as pessoas passaram a acreditar que o rectângulo de pano preto não servia apenas para recolher esmolas, mas que tinha qualidades mágicas. Quando as pessoas tocavam esse rectângulo, deixando uma esmola, esperando um milagre, o rapaz sorria.
É possível que sim: que tenha havido uma cura, e miraculosa. Não é todo o crescimento uma miraculosa cura, do não ser ao ser? É neste mundo de onde vos falo que se situa a fonte dos milagres. Um mundo onde os narradores se misturam, onde todos os espaços, mesmo os mais subjectivos, podem ser visitados, onde o tempo não tem sentido único.
Esta é a minha própria história. Como eu me tornei um contador de histórias, depois de uma infância triste e de uma juventude doentia, juntando-me a um velho sonho.


Maria Isabel Barreno, In O Enviado

25/10/2008

Vicente





Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro, Vicente abriu as asas negras e partiu. Quarenta dias eram já decorridos desde que, integrado na leva dos escolhidos, dera entrada na Arca. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação. Em semelhante balbúrdia - lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino -, apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. Numa indignação silenciosa, perguntava: - a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente.
Quarenta dias, porém, a carne fraca o prendeu ali. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e, depois, na Arca, por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Mas pudera vencer-se. Conseguira, enfim, superar o instinto da própria conservação, e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar.
A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pasmados e deslumbrados, viram-no, temerário, de peito aberto, atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga, sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ninguém disse nada. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. A consciência em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados.
Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate, e já do alto, larga como um trovão, penetrante como um raio, terrível, a voz de Deus:
- Noé, onde está o meu servo Vicente?
Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados. Sobre o tombadilho varrido de ilusões, desceu, pesada, uma mortalha de silêncio.
Novamente o Senhor paralisara as consciências e o instinto, e reduzia a uma pura passividade vegetativa o resíduo da matéria palpitante.
Noé, porém, era homem. E, como tal, aprestou as armas de defesa.
- Deve andar por aí... Vicente! Vicente! Que é do Vicente?!... Nada.
- Vicente!... Ninguém o viu? Procurem-no!
Nem uma resposta. A criação inteira parecia muda.
- Vicente! Vicente!. Em que sítio é que ele se meteu?
Até que alguém, compadecido da mísera pequenez daquela natureza, pôs fim à comédia.
- Vicente fugiu...
- Fugiu?! Fugiu como?
- Fugiu... Voou...
Bagadas de suor frio alagaram as têmporas do desgraçado. De repente, bambearam-lhe as pernas e caiu redondo no chão.
Na luz pardacenta do céu houve um eclipse momentâneo. Pelas mãos invisíveis de quem comandava as fúrias, como que passou, rápido, um estremecimento de hesitação.
Mas a divina autoridade não podia continuar assim, indecisa, titubeante, à mercê da primeira subversão. O instante de perplexidade durou apenas um instante. Porque logo a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso, numa severidade tonitruante.
- Noé, onde está o meu servo Vicente?
Acordado do desmaio poltrão, trémulo e confuso, Noé tentou justificar-se.
- Senhor, o teu servo Vicente evadiu-se. A mim não me pesa a consciência de o ter ofendido, ou de lhe haver negado a ração devida. Ninguém o maltratou aqui. Foi a sua pura insubmissão que o levou... Mas perdoa-lhe, e perdoa-me também a mim... E salva-o, que, como tu mandaste, só o guardei a ele...
- Noé!... Noé!....
E a palavra de Deus, medonha, toou de novo pelo deserto infinito do firmamento. Depois, seguiu-se um silêncio mais terrível ainda. E, no vácuo em que tudo parecia mergulhado, ouvia-se, infantil, o choro desesperado do Patriarca, que tinha então seiscentos anos de idade.
Entretanto, suavemente, a Arca ia virando de rumo. E a seguir, como que guiada por um piloto encoberto, como que movida por uma força misteriosa, apressada e firme - ela que até ali vogara indecisa e morosa ao sabor das ondas -, dirigiu-se para o sítio onde quarenta dias antes eram os montes da Arménia.
Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião?
Horas e horas a Arca navegou assim, carregada de incertezas e terror. Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo, pura e simplesmente, para exemplo? Ou que iria fazer? E teria Vicente resistido à fúria do vendaval, à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E, se vencera tudo, a que paragens arribara? Em que sítio do universo havia ainda um retalho de esperança?
Ninguém dava resposta às próprias perguntas. Os olhos cravavam-se na distância, os corações apertavam-se num sentimento de revolta impotente, e o tempo passava.
Subitamente, um lince de visão mais penetrante viu terra. A palavra, gritada a medo, por parecer ou miragem ou blasfémia, correu a Arca de lês a lês como um perfume. E toda aquela fauna desiludida e humilhada subiu acima, ao convés, no alvoroço grato e alentador de haver ainda chão firme neste pobre universo.
Terra! Nem planaltos, nem veigas, nem desertos. Nem mesmo a macicez tranquilizadora dum monte. Apenas a crista de um cerro a emergir das vagas. Mas bastava. Para quantos o viam, o pequeno penhasco resumia a grandeza do mundo. Encarnava a própria realidade deles, até ali transfigurados em meros fantasmas flutuantes. Terra! Uma minúscula ilha de solidez no meio dum abismo movediço, e nada mais importava e tinha sentido.
Terra! Desgraçadamente, a doçura do nome trazia em si um travor. Terra... Sim, existia ainda o ventre quente da mãe. Mas o filho? Mas Vicente, o legítimo fruto daquele seio?
Vicente, porém, vivia. À medida que a barca se aproximava, foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia, recortada no horizonte, linha severa que limitava um corpo, e era ao mesmo tempo um perfil de vontade.
Chegara! Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada.
Simplesmente, as águas cresciam sempre, e o pequeno outeiro, de segundo a segundo, ia diminuindo.
Terra! Mas uma porção de tal modo exígua, que até os mais confiados a fixavam ansiosamente, como a defendê-la da voragem. A defendê-la e a defender Vicente, cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico destino.
Ah, mas estavam «rotas as fontes do grande abismo e abertas as cataratas do céu»! E homens e animais, começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto da existência activa. Não, ninguém podia lutar contra a determinação de Deus. Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos, comandados pela sua implacável tirania.
Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Palmo a palmo, o cabeço fora devorado. Restava dele apenas o topo, sobre o qual, negro, sereno, único representante do que era raiz plantada no seu justo meio, impávido, permanecia Vicente. Como um espectador impessoal, seguia a Arca que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade, e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Olhava a barca, sim, mas para encarar de frente a degradação que recusara.
Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema, apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao criador -, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.

Miguel Torga, Os Bichos



A Sombra

A um dia assim como o de hoje costumo chamar, no meu calão, de poeta em férias, dia «incoincidente».
O céu desde manhã que se conserva azul com gradações cruas de quadro mau; as árvores escorrem verde e chilreios de pássaros; as ruas riscam-se da rapidez das sombras. Uma serenidade tépida cinge toda esta paisagem de trapeiras e de ceroulas a secarem ao sol numa sinfonia natural de cores, pombas, luz e árvores com flores azuis no Largo do Rato.
Pois foi precisamente hoje – dia de sol, de andorinhas, de árvores azuis, etc. – que os homens resolveram não coincidir com a natureza. Foi precisamente hoje que todos vieram para a rua com tempestades por dentro, num estoirar de trovoada interior a rasar as almas de lés a lés, como relâmpagos negros nos olhos sorumbáticos e trovões no furor justo daquela mulher, de giga à cabeça, aos berros para uma senhorita encostada ao parapeito da janela do seu terceiro andar com os braços papudos de nada fazer:
– Se quiser, venha cá a baixo, sua gulosa!
Mal deitei o nariz fora da porta, logo pressenti o desconcerto do dia, bem visível nesta não-coincidência do azul do céu com as carantonhas de palmo e meio das pessoas que me acotovelavam na rua.
«A minha também deve estar de meter medo» – pensei. E disfarçadamente mirei-me no espelho lateral duma montra.
Mas não cheguei a qualquer conclusão. Limitei-me a verificar mais uma vez o espanto de trazer por fora um ser tão completamente diferente de mim e pus-me de novo a caminho. Agora, porém, já não ia só.
Colada ao meu silêncio, com pinchos de tonta, saltitava uma velhota de farripas e chinelos rotos, com uma criança de mama ao colo, enrolada num xaile com rendas de miséria. Não me conhecia, mas falava-me com esse à-vontade dos velhos que já não perdem tempo a fazer cerimónias com a vida:
– Veja o que a minha filhinha me deixou nos braços, nesta idade... Coitadinha! Está no hospital toda podre. Até cheira mal!... Tudo por causa da parteira que lhe carregou na barriga e...
Ah, não! Hoje não me comoves, velha dos diabos! Hoje faz sol, há céu azul, a alegria canta nas águas das mangueiras dos regadores das ruas e não quero passar todo o dia com o peso do teu menino ao colo dentro de mim. Tenho muita pena, minha rica, lastimo muito o teu pequenino drama (para ti, talvez, o desabar de mil universos num quarto sem janelas), mas basta.
Não consinto que venhas, pé ante pé, sub-repticiamente, esmagar-me o coração com essa mão encarquilhada de pobre velha que nunca teve céu azul. E tu vale-me também, Anjo da Fleuma. Salva-me! Pinta-me de frio; avulta mais os vincos desta bendita cara de pau que repele os homens, e tapa-me bem os ouvidos para não voltar a escutar mais confidências lastimosas nem carpires de dramas à guitarra.
Mas qual! O queixume persegue-me como um rasto... Até no eléctrico. Logo hoje, em que me apetecia apenas existir como uma coisa qualquer a vegetar ao sol, é que encontrei o 26. Quem é o 26? Sei lá!
– Sou o 26 da 4.ª B do Liceu de Camões... Não te lembras de mim, pá?
Lembro-me lá agora. Não me faltava mais nada senão gastar cérebro a recordar-me do passado, com um futuro tão perto. Mas ele em compensação conhece-me bem. Até sabe a minha alcunha desses bons tempos de calções, de jogo da barra e de azedumes no Parque Eduardo VII:
– Eras o «Cabeça», pá!... Pois eu sou o 26 da 4.a B. Não te lembras, pá?
Não me lembro, mas digo-lhe que sim para não o desiludir. E, abro, com esforço enorme, um sorriso que mal cobre o frio da caveira. Mas ele repara lá no sorriso! O que quer é falar, falar, falar... Desde que deixou o liceu, nada mais de importante (de aristocrático ia eu a escrever) lhe sucedeu na vida, para sempre amarrada àquele passado da 4.a B. Aliás nem chegou a acabar o curso. «O meu pai morreu e...»
(Lá vem história – pensei eu. Lá vem história!) E veio. Uma história análoga a milhões de histórias banais, sofridas por milhões de homens também banais, que não têm culpa de que a Dor na vida não possua a fantasia fidalga dos poetas.
– Fiquei com toda a família às costas: mãe e três irmãos. Não fazes ideia do que tenho passado, pá! Infelizmente, despediram-me do emprego e...
Tudo isso é muito bonito, ó 26, mas hoje não quero afligir-me, percebeste? Escusas de perder o teu latim de queixas comigo. Conta-me partidas do liceu, se quiseres, naquela cerca do passado tão cheia de gritaria, de sol e de joelhos feridos...
Mas lá nénias não. Não estragues o céu azul dos outros, 26. Adeus, ó 26! Tenho muito que fazer, ó 26! Desculpa, ó 26!
E saltei do eléctrico.
Em vão, porém. Hoje acordei com cara de muro das lamentações e não consegui intrujar o Destino.
Estava escrito que, durante todo o dia, amigos, inimigos e indiferentes me chorassem no seio amores não correspondidos, tentativas de suicídio, filhos com sarampelo, doenças nervosas, desgraças, carestia da vida, pieguices, «V. Ex.ª quer ter a bondade de me emprestar dez tostões para uma sopa?», destroços, cantochão... E, principalmente, a Lamúria, o lacrimejar, o faduncho da impotência que parece ter substituído de vez o protesto viril, o soco na mesa, o silêncio firme do desespero calcado no coração ou as gargalhadas heróicas daquele meu amigo que certo dia me confidenciou, a rejubilar com os olhos tristes:
– Estou contentíssimo. Imagina que me aconteceu um drama à Dostoievski...
Não tenho cheta, perdi o emprego e hoje o senhorio deu-me ordem de despejo. Enfim: o coro da choradeira tornou-se tão insistente, tão forte que – confesso – me contagiou também. Pouco a pouco, senti galgar-me o desejo chorincas de desafogar, com a primeira pessoa que encontrasse, a primeira amargura amarela que me viesse à boca.
Mas resisti. Alonguei ainda mais esta bendita cara de pau (não me abandones, Anjo da Fleuma!) e no meio da tarde, já febril, decidi regressar a penates, lívido de angústias alheias. Porém, ainda me restava atravessar a prova suprema.
Ao dobrar a esquina de certa rua deserta, quando seguia distraído o deslizar da minha sombra no chão, eis que me surgiu de súbito na frente uma mulher alta, gorda, de pele oleosa e formas abundantes mal contidas por um vestido preto a luzir de sebo.
Deitou-me um olhar rápido de análise e, de imprevisto, com agilidade de acrobata, agarrou-me nos pulsos, encostou-me à parede, entornou-se-me toda em cima do peito até me tirar a respiração e, apontando-me uma pistola, chorosa na voz implorativa, intimidou-me:
– A minha mãezinha está a morrer! preciso absolutamente de 20 escudos. Dê-mos!
Zaranza, esmagado por aquela inundação de formas, sufocado com o cheiro a suor da flibusteira, não tive forças para resistir e entreguei-lhe a tremura duma nota de 20 escudos.
Contente do êxito, tão fácil, a megera, lobrigando outras notas na carteira, resolveu voltar à carga.
Meteu mais alguns cartuchos de lágrimas na pistola, fincou-me outra vez as mãos aos pulsos, entornou de novo todas as suas abundâncias em cima de mim e intimou-me numa voz sem tergiversações:
– A minha mãezinha está moribunda. Preciso absolutamente de 42 escudos e 50 centavos para remédios. Dê-me mais 20 escudos.
Mas desta vez não me verguei. Cheio duma cólera negra de vergonha que vinha do frio dos ossos, sacudi-a aos urros: não, não e NÃO!
E fugi.
Fugi vexado, espezinhado, torvo, condoído de mim mesmo, e com vontade trémula de começar também a lamurinhar, em objurgatórias de raiva e cinza nos cabelos:
– Ai que desgraçado eu sou! Ai que triste vida a minha!
Calei-me porque me aconteceu então uma coisa extraordinária...
(O que vão ler, a seguir, é mentira evidentemente; mas façam de conta que acreditam, para esta reportagem poética fi car com um desfecho digno, sim?)
Como ia dizendo, calei-me porque me aconteceu qualquer coisa de extraordinário.
De repente, a minha sombra no chão levou um dedo à boca e impôs-me silêncio:
– Psiu! Caludinha! Se queres lamentar-te, vai para casa e fecha-te num quarto às escuras para não maçares os outros. Mas caludinha, ouviste?
E como ainda lhe parecesse ver nos meus olhos atónitos um lampejo de desobediência, a Sombra não esteve com meias medidas: ergueu-se e esbofeteou-me. E depois, tranquilamente, voltou a deitar-se ao sol no chão, a olhar para o céu azul...

O Mundo dos Outros, 1950






20/10/2008

A Choca

Ao Senhor Emídio Navarro

Aquela tarde, a Choca recolhera ao poleiro mais cedo do que o costume. Atrás dela, lembrando doze novelitos de ouro a mexerem-se como por milagre, os doze filhinhos tinham seguido a mãe, – e lá dentro, qual deles com mais dificuldade, um a um tinham-se encarrapitado no velho cesto de palha onde faziam a cama, aninhando-se, o melhor que puderam, debaixo da asa materna.
Eles mesmos tinham estranhado recolher tão cedo aquela tarde, os pequenitos; – mas, cá fora, o rancho das outras galinhas atribuía isso à doença da Choca, porque a pobre, com o gogo, metia dó com tamanho sofrer! Um pouco aterradas, tinham assistido havia três dias a essa operação que a Choca sofrera, e que certas delas, na grei, sabiam muito dolorosa. A pena que lhe espetara no pescoço a velha que cuidava delas, fora o mesmo que nada, – e se mal estava, pior ficara, a pobre! Ainda a trazia, essa pena, mas quase seca porque não purgava; e entretanto, sem bem lhe fazer, afligia-a como se fosse um estigma, – tanto ou mais que a própria doença...
Por isso recolhera cedo, a Choca; deixando fora, pelo terreiro, gozando ainda o seu resto de tarde, o rancho das companheiras.
Ai, eram bem felizes, essas! Pelo buraco do poleiro, sentia-as agora cacarejar, – e não tardaria que o milho do recolher, que a velha, todas as tardes, trazia para elas no seu mandil, alvoroçasse no prazer do costume, em que por via de um grão, às vezes, havia entre todas rixas alegres, o bando das companheiras...
Só ela, doente, quase já não sabia o que era comer; – e ainda essa tarde, morta de sede, invejara a gotinha de água que um ou outro dos seus pintainhos, beberricando na pia, deixava, depois de saciado, cair do biquinho como uma pérola.
Mas nem comer nem beber, ela, que era muita a gosma, e não podia! E pelo que tocava a cacarejar, nem o bastante para a ouvirem os filhos, para os admoestar, para os dirigir, – quanto mais para uma dessas tiradas que outrora lhe haviam feito, ao romper da manhã, a sua fama de cantadeira! Galos que ela apaixonara, ciúmes em que fizera arder tantas rivais, ralhos, intrigas, combates, – como tudo isso ia longe, agora! Nos bebedouros, ela mesma se namorara da sua figura esbelta, muitas vezes; – e que o não adivinhara na devoção dos galos, de tantos que a tinham amado, e que ao aclarar das manhãs, todos os dias, lhe declaravam o seu amor dos poleiros à roda,– adivinhara-o na inveja das outras, esse prestígio mágico da sua beleza...
Certo galo, sobretudo, agora já velho, – e, como ela, agora já também sem entusiasmos, dir-se-ia que o enfeitiçara; e agora mesmo, vendo-a recolher cedo com a ninhada, esse velho e trôpego apaixonado (mas belo, ainda assim, na sua justa decrepitude) não tardara a recolher-se também. Subtil, passara, sumira-se ao fundo na sombra densa; e erguendo um voo pesado, sentira-o aninhar-se onde passava as noites, numa trave a um canto do poleiro. Cansaço talvez da vida, talvez doença também, – quem lhe dizia a ela, entretanto, que ele se não recolhera por a ver recolher, por a ver doente, por um impulso de compaixão, que era agora, talvez, como a agonia do seu velho amor?!
Pelo que respeitava às companheiras, as da sua geração eram já poucas; e essas, como ela própria, mais saudosas da mocidade, do que lembradas; e quanto às novas, muitas criara-as ela, – e, sobretudo, não era já dela que tinham ciúmes...
De resto, ela mesmo era boa companheira; e tirante algum fogacho de génio por amor dos filhos, se tinha de os proteger ou se lhos ofendiam, até no comedouro era moderada e no bebedouro; – e muitos pintainhos doutras ninhadas queriam-lhe como se fosse avó, e os frangos, uma vez por outra, ela própria, de manhã, ensinava-os a cacarejar.
Ah, mas esse bom tempo ia passado! Já chocara a ninhada com pouca saúde; e surpreendendo-se, às vezes, sem paciência para aturar os filhos, ignorava se seria por isso, se por a verem talvez doente, que eles mesmos, coitadinhos, pareciam às vezes também doentes!
...Entretanto, eles tinham-se aninhado todos, o melhor que lhes fora possível, debaixo da asa materna; – e embora muito enferma, ela era feliz, ainda assim, por ter tão quentes os seus pequeninos, – e agora, por certo, todos a dormir e talvez sonhando..

*

À boca da noite, as galinhas todas haviam-se já recolhido; e alguém, de fora, tapara com uma pedra o buraco do poleiro. Esse alguém fora ainda vê-la um instante enquanto as outras comiam, mas retirara-se muito triste; e agora, na quase escuridão do poleiro, pouco a pouco se estabelecera o silêncio, e por fim já se não via nada.
Decorria o tempo, mas dormir não podia, a Choca; e, opressa da gosmeira tenaz, afligia-a, mais do que a doença, ora a imobilidade a que se votava por amor dos seus pequeninos, ora esses abalos irreprimíveis de todo o corpo, quando algum acesso mais forte a sacudia.
Estava então muito doente, a Choca, e ia talvez morrer! E todavia ela fora toda a sua vida muito prestante, para merecer à sorte um sofrimento daqueles: – e esse mesmo nome de Choca, muito parecido, afinal, com uma alcunha, vinha-lhe das muitas ninhadas que havia chocado, cada uma das quais – e não tinham conta! – lhe havia custado uma doença. Febre que era mesmo lume, nessas três semanas de choco, tantas vezes repetidas; e depois, nas convalescenças esses mil cuidados com os seus pequeninos, para os alimentar, para os guardar, para os ensinar...
Episódios, alguns tinha a sua biografia, e certos deles muito heróicos; e aflições então não tinham conta! Certo ovo de pata que ela chocara, deitara um monstro cá para fora; e aquela vez que o viu entrar numa ribeira, – tremendo por ele como por um filho, posto que lhe segredasse a natureza que o não era, a aflição ia-a matando, com a ideia de que se lhe afogava! Depois, quando o viu boiar, que alegria!

Outro se lhe afogara, de outra vez, mas esse era bem seu filho. Descuido, fora-se a beber à pia e lá ficara; e ela, entretida com os mais, quando deu pela falta e o procurou, e quando o procurou e o achou morto, ia endoidecendo com a aflição!
Querelas com as vizinhas eram a toda a hora, se concorriam ao que esgravatava, para ela e para os seus; – e agora, prestes talvez a expirar, pesava-lhe na memória uma grande culpa: essa bicada feroz com que matara um pintainho estranho, de uma vez que o pobrezinho, que tinha a mãe também doente, viera, humilde, debicar-lhe no peito à cata de um grão, ali guardado, como num celeiro, para os que eram dela! Disso pediria ela perdão a Deus; e isso mesmo, em verdade, não fora por querer, e remira-o, pela vida adiante, com muita obra de caridade.
De resto, cumprira na sua vida todos os seus deveres, e muitas vezes, muitas, deixara de comer, inclusivamente, para que os seus não tivessem fome. Se se lhe extraviavam, procurava-os, – e aquele que uma vez não apareceu, mais a enfrenesiara, para toda a vida, no ódio aos gatos, que tratara sempre, desde esse dia, como inimigos, – e disso não se arrependia.
Chuvadas que no campo havia apanhado, dir-se-ia até que lhe sabiam bem, com os seus filhinhos abrigados debaixo das asas; – e se eriçava as penas e arrastava as asas, à vista de certos cães, viera-lhe isso do que ouvira de alguns, que eram traiçoeiros e comilões, – mas vivera em paz com a maioria.
Em suma, para defender os seus filhinhos, nunca fugira, nem mesmo do homem, e a alguns se atirara com bico e unhas; – e pelo que tocava às raposas, muitas a haviam conhecido, mas de longe...

*

Mas o que não melhorava, coitada, era a sua gosma! Cansada já de sofrer, ainda por cima sentia-se pior, com o frio da noite! Não tardariam os galos a cantar, – e sentia que o rhom-rhom da gosma, e os acessos que tinha às vezes, e que pareciam tosse, não tinham deixado pregar olho, lá cima, ao companheiro... Má noite, também, para os seus pequeninos; mas os inocentes, cansados e mal comidos, ainda bem que iludiam a fome com o sono que era fadiga...
Entretanto, pela noite velha, entrou com ela um tremor de frio. A gosma sufocava--a; – e ela já sentia, um daqui, outro dali, mexerem-se inquietos os seus pequeninos. Ainda não luzia o buraco; mas lá fora, disseminados, ouviam-se já cantar os galos. – «Que é da sua força? que é da sua alegria, que já para ela não tinha encantos, essa alvorada?...» – Coitada, o frio apertava com ela; e uns debaixo de uma asa, e outros doutra, alguns já desabrigados, sentia os filhinhos tremerem com frio, muito inquietos, na escuridão ainda cerrada...
– Ah, se ao menos o dia nascesse!

Mas eis que certas intermitências dos sentidos sobrevinham à pobre da Choca! Não dormia, decerto, aquilo não era sono; mas a memória já se lhe apagava, esvaía-se-lhe a luz do instinto; e daí a pouco já não sentia nada. – Inerte instantes depois; e por fim (cantou agora o galo no seu poleiro!) veio-lhe um espasmo e caiu na morte...
A esse tempo aclarara a manhã; – e sobre o corpo tépido da mãe, que na própria morte ficara dócil, enovelavam-se agora, piando, os pobres dos pintainhos!


Trindade Coelho In Os meus amores

15/10/2008

Os Três Reinos


Era uma vez um rei – é claro, que tinha um reino: o reino do rei. Além disso, o rei tinha dois fi lhos gémeos. A mãe-rainha morrera para os dar à luz. Importa saber que esse era o reino do rei, e que os dois filhos do rei eram gémeos. Desde já, porém, convém acrescentar que o rei tinha ainda um filho adoptivo, ou coisa que o valha. Também a mãe deste morrera, já viúva, deixando fama de um pouco ligeira de costumes (não demais) e muito formosa. O marido fora um dos cortesãos favoritos do rei. Toda a gente, pois, achou bonito que o pequeno se criasse no palácio, brincando familiarmente com os príncipes, e recebendo educação quase igual à sua. Toda a gente, sim, achou bonito! quase toda a gente. Mas, associando vários factos, muito à boca pequena murmuravam os maledicentes que não era só bonito como compreensível, natural... Adiante se esclarecerá este caso. Evidentemente se torna que, dos dois príncipes gémeos, um havia de ser considerado mais velho, – coisa que pertencia aos físicos determinar – ou, como quer que fosse, com mais direitos. Claro que seria esse o herdeiro do trono da coroa, do ceptro, do título de Majestade.
O tempo foi passando, e os dois irmãos crescendo. Vieram os melhores sábios indígenas, e até estrangeiros, para os educar. Do mesmo passo educavam o filho adoptivo, que, como é natural, também ia crescendo.
Ao herdeiro do trono eram dispensados cuidados especiais, porque reinar não é coisa fácil; nem de fácil ensinamento ou aprendizagem. Felizmente, o jovem príncipe revelava aptidões de excepção. Todos os Mestres contavam ao rei a sua paixão pelos livros e a sofreguidão da sua curiosidade. Mesmo nas horas de recreio o príncipe se recreava folheando os cartapácios de pergaminho; e a sua cabeça loira dobrava sobre os alfarrábios – tão amorosamente como sobre um seio. Quando tal não sucedia, caía o príncipe numa espécie de alheamento, ou parecia mergulhar em abstracções, meditações, cogitações talvez não muito próprias dos seus verdes anos. Todos os Mestres? Mas não: O Mestre de esgrima, o de equitação e o de dança eram mais reservados nos seus louvores.
Por esse tempo, o velho rei decidiu firmar um tratado de amizade com o rei do reino vizinho. Longos anos se haviam guerreado. Agora, estavam ambos velhos. A proximidade da sepultura restringe as ambições e faz embotar os impulsos bélicos. Nesse tratado ficou assente que a princesa real do tal reino vizinho casaria com o sábio príncipe. Ora a princesa noiva era feia, triste, cega dum olho, e até já falara em se meter freira. Todos lamentaram a sorte do jovem príncipe – assim sacrificado a razões de Estado. O próprio pai algoz o lamentava. Por fim, todos sorriram maliciosamente. Na corte da noiva feia, triste, cega dum olho e mística, havia donzelas e donas muito belas, de que falavam com entusiasmo os embaixadores. Homem experimentado, El-Rei sorriu também e deixou de lamentar o filho.
Só o jovem príncipe parecia indiferente ao que se passava: Era como se nada daquilo houvesse de ser com ele. A sua cabeça loira pendia sobre os alfarrábios – tão amorosamente como sobre um seio. Quando se levantava dos alfarrábios, era para olhar não as estrelas da terra, mas as que cintilam demasiado longe.
Finalmente, deu em fechar-se na sua câmara. Dizia-se que andava a escrever um grande livro. E saía de lá com olhos de cego, um ar quase de estátua, um sorriso alheio, feliz, idiota.
A pedido do rei, um dos seus Mestres ousou, um dia, aconselhá-lo: Sua Alteza não devia abusar do seu grande amor pelos livros. Decerto muito ensinam os livros; mas o trato dos homens também; também as experiências pessoais e vivas.
Aliás, quase perigava a saúde de Sua Alteza nessa vida sem ar que Sua Alteza levava. Convinha que Sua Alteza se prendesse mais aos costumes da corte, aos jogos e folguedos próprios da sua idade, aos acontecimentos do reino que havia de governar. Nisso tomasse exemplo em seu irmão; até naquele que, não sendo seu irmão, mais ou menos fora educado como tal, e tão ladino se mostrava na curiosidade por tudo que à sua volta decorria... O moço príncipe ouvia-o como se o não ouvisse, fitando-o, sem o ver, com os seus esplêndidos olhos de cego.
Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, estava-se à mesa, era na rica sala de jantar. O Mestre caiu na imprudência de uma breve alusão ao que de manhã, dissera ao seu educando. Então, o príncipe herdeiro levantou-se e respondeu: «O meu reino não é deste mundo.» Lera isto, num livro que fora de sua mãe. Todos ficaram primeiro atónitos, depois constrangidos. O rei nem repetiu os seus pratos favoritos. Tentou-se falar doutras coisas. E, no dia seguinte, o jovem príncipe herdeiro apareceu morto. Envenenara-se com flores perigosas que havia na estufa.
Estava nu, morria virgem, e tinha sobre o peito o livro que terminara essa noite. Mais tarde se viu que era um grande livro. Claro que houve gritos, espantos, choros, exéquias magníficas, exposição de grandes veludos negros e galões de oiro. A noiva do morto sempre se meteu monja. «Era o que tinha a fazer!» comentou o seu ex-futuro cunhado «Com aquele
olho vesgo...» E começou ele, o irmão gémeo do morto, a ser preparado para o difícil ofício de reinar. Não, não empalidecia este sobre alfarrábios de pergaminho!
Aos catorze anos, já comprometera uma nobre donzela da corte. As formosas donas um pouco ligeiras de costumes (não demais), só as não comprometia por já estarem comprometidas: pelo menos, com os respectivos maridos; pelo menos.
Morrer virgem – não era com este. Como para a sua pessoa se haviam transferido, agora, aquelas particulares atenções que sempre se fixam sobre o herdeiro dum trono, até certos pormenores da sua infância eram agora recordados, repetidos com sorridente complacência: Que, por exemplo, fugia para os jardins nos dias de chuva; e lá davam com ele descalço, patinhando nas poças, ou estendido na relva, a apanhar a água do céu. Ou que se misturava com os rapazes da rua para ir aos ninhos, ou jogar à pedrada. Agora, perdia-se por caçadas. Bailava tão bem que nem parecia um príncipe. Conversava familiarmente com os pajens, os
criados, os vilões. Certas noites, escapulia-se disfarçado para ir correr aventuras.
Às vezes, fazia-se jardineiro: podava roseiras cantando canções da arraia miúda (nem sempre muito decentes) e até chegava a cavar com uma sachola! Dava esmola aos mendigos por sua própria mão. Duma vez, trouxera às costas um miserável que achara desfalecido no caminho. Era moreno, ágil, tinha bons músculos, um esplêndido apetite. E ninguém como ele para divertir as damas com histórias, anedotas, intrigas, mentiras, fantasias, e beliscões à socapa.
Os seus Mestres resolveram limá-lo, podá-lo como fazia ele às roseiras.
Compenetrado do seu papel de futuro rei, deixar-se-ia fazer um rei como se quer. Todos diziam: «Desta vez, temos homem!» Pelo contraste, um certo dó humilhante recaía sobre a memória do irmão suicida...
O príncipe começou a apurar a sua educação intelectual; e, felizmente, o novo herdeiro revelava também aptidões de excepção. Todos os Mestres contavam ao rei a sua paixão pelas coisas e a viveza dos seus pontos de vista. Todos os Mestres?
Mas não: O Mestre de línguas mortas, o de matemáticas e o de protocolo eram mais reservados nos seus louvores.
Por esse tempo, o velho rei decidiu fazer jurar seu filho herdeiro do trono. Estava cansado, e sentia que a vida se lhe ia apagando. Mas, durante as cerimónias, o príncipe herdeiro teve excentricidades, liberdades insólitas, saídas de humor que chegaram a provocar o riso na ilustre assembleia, – pouco dignas da solenidade do acto. De modo que, a pedido do rei, um dos seus Mestres se atreveu a aconselhá-lo: Sua Alteza não devia abusar da originalidade de seus espíritos.
Atitudes há do entendimento, como formas de conduta, porventura apreciáveis em um qualquer; mas nem sempre convenientes num príncipe real. Urgia que Sua Alteza renunciasse a dadas particularidades do seu temperamento, em atenção ao alto papel que fora Deus servido distribuir-lhe... O príncipe ouvia-o sem nada dizer. A expressão do seu rosto é que era ambígua, como respirando uma ironia que nenhum dos seus traços acusava. Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, estava-se à mesa, era na rica sala de jantar. O mesmo Mestre falava; embora subtil e indirectamente, continuava a morigerar seu ilustre aluno. Então, o príncipe real
ergueu-se e respondeu: «O meu reino é deste mundo». Não lera isto em parte alguma. Todos ficaram sem compreender, e pouco à vontade. Tratou-se de coisas várias, com uma naturalidade fingida. O rei ergueu-se pouco depois. E, no dia seguinte, o jovem príncipe herdeiro tinha desaparecido do palácio. Em vão se fizeram as mais diligentes e minuciosas inculcas por todo o reino. Correu mais tarde que fugira numa carroça de saltimbancos nómadas.
Claro que houve consternação geral. O rei caiu de cama; já todos temiam que não resistisse a este novo grande golpe. Ele que, durante tantos anos, habilissimamente retivera nas mãos a governação do seu reino tão policiado, tão submetido, tão dirigido, agora se via sem herdeiro natural que lhe sucedesse, e lhe continuasse a obra. Dois filhos legítimos tivera: gémeos e tão diferentes, senhores de extraordinários dons. Ambos como que o haviam renegado, renunciando à herança para que os preparara. E agora já no seu reino tão disciplinado fermentavam pequenos focos de anarquia, ainda pequenos mas que poderiam alastrar. Já as massas pressentiam a senilidade do pulso que tão energicamente as havia refreado.
Neste desconsolo, perdidos os seus dois filhos legítimos, ainda foi o tal adoptivo que principiou a fazer-lhe companhia. Já quase o não podia dispensar o rei. Também o moço parecia não se poder afastar do seu leito. Sempre que lhe era permitido falar, El-Rei conversava com ele. Coisa interessante!, – nessas práticas achava grande prazer. Como se disse, recebera o moço instrução idêntica à dos príncipes, tendo sido educados quase no mesmo pé. Em certos assuntos, porém, que muito eram da especialidade do rei, mostrava uma curiosidade que nenhum dos príncipes mostrara. Na história política do reino, por exemplo; na sua geografia humana; nas suas actuais relações com o estrangeiro; na discussão das suas Leis, etc. E a inteligência que no tratamento destas questões manifestava – áridas, como geralmente são, para jovens – por atrevimento que seja afirmá-lo, não ficava atrás da que noutras haviam manifestado os príncipes. Ora, desaparecidos os dois herdeiros naturais do trono, chegado El-Rei ao último quartel da vida, vários pretendentes ao mesmo disputavam entre si seus direitos. Já, no palácio, fervia a intriga na sombra. Já os pretendentes e partidários rivais se falavam com o sorriso amarelo nos lábios, o verdete do ódio nos corações.
Um ponto único havia, em que todos se entendiam: a malquerença àquele moço que tão visivelmente seduzia o velho rei. Pelos meios de que dispunha cada um, cada um procurava desacreditar no espírito do velho rei o seu jovem amigo. Decerto não passava isto despercebido do jovem. E o resultado foi não ser este, mas eles, que eram pessoas da família real, quem o rei afastou da sua câmara, até do seu paço. Por maquinações do jovem? Sustentavam os escorraçados que sim! e espumavam de raiva e juravam tremendas vinganças futuras, – atribuindo àquele moço uma tão diabólica intuição na intriga que suplantava toda e qualquer experiência.
A ser isto verdade, poderiam quaisquer manejos do moço passar incompreendidos do seu protector? O diabo sabe muito porque é velho; e a debilidade física do rei não se manifestava mentalmente. Dado o que depois se passou, poder-se-á admitir que «a velha raposa astuta» (como depois, lhe chamavam os seus parentes escorraçados) até apreciara o engenho com que o moço ia tentando exautorar, junto do seu real amigo, aqueles grandes senhores que, por seu turno, o procuravam desprestigiar a ele.
Ora o que depois se passou, foi o seguinte: Uma tarde, ao fim da tarde, estavam reunidos na câmara real os importantes da corte. O rei para aí os convocara, pois há algum tempo dava grandes sinais de melhoras. («Ainda não é desta!» lamentavam os seus parentes tornados seus inimigos). E diante de todos, que estavam sumamente intrigados, se dirigiu o rei ao seu jovem protegido, dizendo:
«Tive dois filhos legítimos, que um após outro sonhei me sucedessem. O reino dum não era deste mundo. O do outro era-o por demais. Tu, qual é o teu reino?»
Um silêncio pânico se fez, pois todos achavam estranhíssima esta cena. Talvez o moço hesitasse um momento; não mais que um momento. Logo respondeu: «Que reino pode ser o meu senão o vosso?» Então o rei chamou-o a si, apertou a sua cabeça contra o peito. Como já não podia fugir à sensibilidade dos velhos, teve de fazer um grande esforço para não soluçar. Mais tarde declarou que sempre esse fora, secretamente, o mais amado dos seus filhos, embora filho natural; que esse ia ser perfilhado, jurado herdeiro do trono; e que sem demora ele, rei, resignaria no filho o poder real, pois não só estava cansado, como temia ver-se constrangido a fazer por força o que desde já faria de vontade...
Isto disse ele sorrindo. Olhava complacentemente o filho. Impossível, porém destrinçar até que ponto no seu espírito de velha raposa astuta, esse conhecedor dos homens brincava ou não. E assim se disse, assim se fez. De nada valeram as conspirações dos pretendentes despeitados. Com a satisfação de ter um digno sucessor para o seu reino, o velho rei restabeleceu-se, e ainda pôde viver alguns anos. Morreu de muito avançada idade. Laus Deo.


Há mais Mundos, 1962





13/10/2008

A Senhora do Retrato


Os retratos a óleo fascinam-me. E ao mesmo tempo assustam-me. Sempre tive medo que as pessoas saíssem das molduras e começassem a passear pela casa. Para falar verdade, estou convencido que isso aconteceu algumas vezes. Em certas noites, quando eu era pequeno, ouvia passos abafados e tinha a sensação de que a casa ficava subitamente cheia de presenças. Ainda hoje não gosto de atravessar os longos corredores das velhas casas com grandes retratos pendurados nas paredes. Há olhos que nos seguem do alto e nunca se sabe o que de repente pode acontecer.

Havia na casa da tia Hermengarda um quadro deslumbrante. Ficava ao cimo das escadas, à entrada do corredor que dava para os quartos de dormir. Mesmo assim, rodeado de sombras, irradiava uma luz que só podia vir de dentro da dama do retrato. Não sei se da blusa muito branca, se dos olhos, às vezes verdes, às vezes cinzentos. Não sei se do sorriso, às vezes alegre, às vezes triste. Eu parava muitas vezes em frente do retrato. Era talvez o único que não me assustava. Creio até que dele se desprendia uma luz benfazeja, que de certo modo me protegia.

Mas havia um mistério. Ninguém me dizia quem era a senhora do retrato. Arminda, a criada velha, benzia-se quando passava diante do quadro. Às vezes fazia figas e estranhos sinais de esconjuração. A prima Luísa passava sem olhar.

- Essa pergunta não se faz - disse-me um dia em que lhe perguntei quem era aquela senhora.

Percebi que não gostava dela e que era um assunto proibido. Até a minha mãe me ralhou e me pediu para nunca mais fazer tal pergunta. Mas eu não resistia. Por vezes descaía-me e dava comigo a perguntar quem era a senhora dos olhos verdes, quase cinzentos, que me sorria de dentro do retrato.

Com a minha tia-avó, eu tinha uma relação especial. Ela lia-me histórias e poemas inquietantes. Creio que troçava das convenções, talvez das próprias pessoas. Por vezes era difícil saber quando estava a sério ou a brincar. Apesar de já ser muito velha, tinha um sentido agudo do ridículo. Foi a primeira pessoa verdadeiramente subversiva que conheci. Era óbvio que tinha um fraco por mim. Pelo menos era o único membro da família a quem ela tratava como um igual. Dormia no andar de baixo e nunca subia as escadas. Talvez por isso eu nunca lhe tinha perguntado quem era a senhora do retrato.

Um dia, farto já de tanto mistério e ralhete e, sobretudo, das gaifonas da Arminda e do ar empertigado da prima Luísa, não me contive e perguntei-lhe. A minha tia sorriu. Depois levantou-se, pegou no molho de chaves que trazia preso à cintura, abriu uma gaveta da escrevaninha e tirou um álbum muito antigo. Voltou a sentar-se e lentamente começou a mostrar-me as fotografias. Eram quase todas da senhora do retrato e do meu primo Bernardo, que há muito tinha partido para a África do Sul.

Apareciam juntos a cavalo e de bicicleta. E também de fato de banho, na praia da Costa Nova. Havia alguns em que o meu primo estava de smoking e ela de vestido de noite. Via-se também a tia Hermengarda, mais nova, por vezes os meus pais, gente que eu não conhecia. Até que chegámos à senhora do retrato já de branco vestida.

- Natacha - murmurou a minha tia, com uma névoa nos olhos.

E depois de um silêncio:

- Ela chama-se Natália, mas eu gosto mais de Natacha, sempre a tratei assim. É preciso dizer que a tia Hermengarda tinha vivido em Moscovo no início da carreira diplomática do marido e era uma apaixonada dos autores russos, Pushkine, Dostoievski, principalmente Tolstoi, que visitou algumas vezes em Isnaia Poliana. Identificava-se com as personagens de Guerra e Paz. Creio que amava secretamente o príncipe André e gostava de ter sido Natacha. Falava muito da alma russa. Era uma propensão do seu espírito.

- Tu também tens alma russa - dizia-me. E era como se me tivesse armado cavaleiro.

Manuel Alegre, O Homem do País Azul, 1989

A cerejeira da Lua




A Lua fita-nos quando a fitamos? Não. Nunca. Se a chamarmos, deste canto da Terra, a Dama Toda Branca embuça-se de mistério e faz de conta que é a Bela Adormecida. Presunçosa.
Como se toda a gente não soubesse que a Lua deixou de ser inacessível... Botas memoráveis pisaram-lhe a superfície desolada. Satélites zumbem à sua volta. Telescópios potentíssimos perscrutam-lhe todos os socalcos, rugas e verrugas.
A Lua é a nossa vizinha defronte. E, ao perto, nada bonita, por sinal.
Quem se atreve a dizer-lho? Não contem comigo.
Aliás, pouco importa. Ela que nos ignore. Que dirija a atenção para a distância azul da noite. Que recorde outros tempos, antigas glórias. Que sonhe. Deixem-na sonhar.
Entre muitas evocações mimosas a Lua sonha com o imperador Meng Uóng, que dela se enamorou. Onde isso vai.

Numa das varandas do palácio imperial, ornamentada de gaiolas de ouro, Meng Uóng, tocado pela tristeza do crepúsculo, dá de comer às cotovias.
O sábio Tien-o-Tzê segue-o em silêncio como uma sombra protectora. Foi seu aio, depois seu mestre.
Introduziu-o no segredo dos cultos, interpretou, um por um, para ilustração do jovem imperador, todos os conselhos do livro dos veneráveis e pacientemente guiou-lhe a mão inábil de menino sobre o desenho das primeiras letras gravadas em tabuinhas de sândalo.
Brilha o esmalte das colunas à luz dos archotes. Criados de sandálias sussurrantes varrem com leques de penas de pavão o fumo do ar, à roda do imperador. Um perfume adocicado de ervas preciosas evola-se dos turíbulos mansamente agitados pela brisa do princípio da noite.
Uma pena cinzenta de cotovia esvoaça e como que hesita entre a varanda e o escuro do jardim. Tocada por um raio do luar parece de prata.

Isto mesmo diz o imperador, pensativo, enquanto acompanha o devanear da pena que, depois, se perde por entre a ramagem dos sicómoros.
- Tudo à nossa volta aspira à perfeição - comenta o sábio Tien-o-Tzê.
O imperador suspira:
- Até uma pena de cotovia...
- Até uma pena de cotovia - repete o sábio.
- Não será um sinal, um aviso da Lua? - pergunta o imperador, subitamente ansioso. O sábio permite-se sorrir.
- Se Vossa Majestade assim o quer, será - diz, cofiando a barbicha branca e encerada que lhe escorrega até à cintura.
Descem da varanda ao jardim alumiado por grandes lanternas de pétalas roxas. Suspensas, rente ao chão, as lanternas tudo convertem à cor dos sonhos mais imprevisíveis. A relva, as ramagens baixas dos arbustos e os pés do imperador e do mestre ficam aureolados de roxo e lilás. Parece que caminham sobre nuvens.
Porque o sábio não desaproveita uma oportunidade sem retirar um ensinamento que sirva de alimento espiritual ao jovem imperador, logo acrescenta mais esta fala:
- Um vosso antepassado, o erudito e judicioso imperador La-long, escreveu na base de uma estatueta de jade, que representava um monge de pálpebras descidas, um luminoso pensamento: «O inatingível está à tua mercê. Queres que os teus desejos aconteçam? Fecha os olhos».
Proferidas estas palavras graves, o sábio Tien-o-Tzê, apoiado a um tronco nodoso de cerejeira que lhe serve de bordão, suspende os passos. Fecha os olhos.
Encara-o, surpreendido, o imperador.
- Estás a desejar alguma coisa? - pergunta. O sábio abre os olhos:
- Os meus desejos são os vossos, Majestade. Procurava apenas adivinhá-los.
- E descobriste-os?
Tien-o-Tzê, em resposta, ergue o bordão e aponta-o à Lua, redonda e enorme, que subia ao céu, logo por trás dos últimos sicómoros do jardim.
- Tens razão, genial amigo - exclama, entusiasmado, o imperador. - Quero ir à Lua.
- Pois irá - proclama o sábio. - Segure, Vossa Majestade, o arrocho de cerejeira a que me arrimo para as pequenas e grandes caminhadas da vida... Cerre os olhos.
O imperador, habituado a confiar no mestre, corresponde ao mandado.
- Este bordão, que ambos seguramos, há-de levar-nos à Lua - brada, num acesso de inespe-rada força, o sábio ou mago Tien-o-Tzê. - Não abra os olhos Majestade, que eu vou lançar o bordão ao céu.
O imperador Meng Uóng, de pálpebras apertadas, sente, num arrepio, que os pés, calçados com finas babuchas escarlates debruadas a pérolas, se soltam do solo e divagam no vazio como se os tivesse suspensos de um baloiço.
- Não abra os olhos, Majestade - torna a recomendar-lhe Tien-o-Tzê.
A voz dele ressoa em eco, repercutida por toda a abóbada celeste:
- Não abra... não abra... não abra os olhos, Majestade...
Vão longe? Vão perto? Por onde voga o bordão a que sábio e imperador se fincam como náufragos que rodopiassem no turbilhão de uma tempestade silenciosa? O imperador pergunta e não quer achar resposta.
Um vento ciclónico e cada vez mais frio encortiça-lhe o rosto crispado. É insuportável. Manter os olhos fechados, agora, não custa. Mais custaria abri-los.
O vento pacifica-se em aragem. O frio em amenidade.

Aos ouvidos do jovem imperador soam, primeiro indistintamente depois mais nítidos, os acordes de guitarras e vozes femininas, numa fresca melopeia de boas--vindas. De súbito, os pés encontram chão.
- Pode abrir os olhos, Majestade - comanda o sábio numa entoação de riso.
Ah! Eis a Lua! A seu lado, Tien-o-Tzê recupera só para ele a vara de cerejeira e enterra-a no musgo esbranquiçado do solo lunar, fofo e macio, que dá a cada passo uma cadência de dança.
Talvez por isso as jovens que acorrem a receber os visitantes, vestidas com túnicas de cores celestes, têm um andar precioso de dançarinas rituais. Agitam leques, cantam e riem como sinos de porcelana.
- Para onde nos levam? - pergunta, aturdido, o imperador, que pela primeira vez sente o peso da sua túnica de brocado azul onde fulgem dois dragões de oiro.
Elas rodeiam-nos e empurram-nos brandamente enquanto tangem alaúdes.
Levados pelo redemoinho da festa, o imperador e o sábio distanciam-se do lugar onde tinham poisado. Sobem agora uma escadaria de marfim onde, no alto, luminosa, os espera...
- Seong-Ngó, a castelã da Lua - exclama Tien-o-Tzê, reconhecendo-a ao primeiro relance.

O sábio não errara. Seong-Ngó reina sobre as selenitas. Ela, que se refugiara na Lua enquanto o seu esposo, Hau-Ngai, se exilara no palácio do Sol, ora toma a configuração de uma rã de três pernas ora se ostenta em toda a sua beleza de imortal.
Felizmente que, para receber as visitas, não apareceu sob a forma de batráquio, o que seria deselegante.
Sentada num trono de coral, rodeada de fadas dançarinas, Seong-Ngó não profere uma única palavra, mas eles percebem pelo brilho dos seus olhos maliciosos tudo o que ela tem para lhes contar.
Com um gesto insinuante, rodopiando o leque, Seong-Ngó aponta para o cimo de uma colina próxima onde o coelho de jade, diante do almofariz, prepara incansavelmente o remédio contra todos os males. E o elixir da imortalidade. A guardiã da Lua parece dizer: «Querem provar? Apressem-se».
Sábio e imperador descem, em corrida, a escadaria e precipitam-se para a colina. Esquecidos das regras de reverência nem agradeceram a generosidade do convite.
Antes de alcançarem o coelho, na sua oficina de alquimista, têm de passar por um desfiladeiro obscuro. Cessaram os cânticos de saudação. Sábio e imperador vão sós e estremecem quando lhes chega às narinas um odor áspero de animal feroz, no seu refúgio.
Logo em seguida um rugido e, após este, outro e outro ainda, todos assustadores. Um Tigre cinzento e branco assoma ao outro extremo do desfiladeiro. Revi rã os olhos rancorosos e vai saltar sobre os dois viajantes.
- Fujamos - grita, apavorado, o imperador Meng Uóng. - O teu bordão, onde o deixaste?
- Longe - responde-lhe o sábio, que já corre à frente do príncipe.
Tien-o-Tzê, pela primeira e única vez na vida, olvidou, naquele transe, as precedências da etiqueta e o comedimento a que a sua provecta idade obrigaria.
Os pés afundam-se no musgo como na neve, o que lhes prejudica o despacho da corrida. Sentem sobre as costas o hálito em fogo do tigre implacável...
- Feche os olhos, Majestade. O sonho mau vai passar.
À voz entrecortada do sábio responde o imperador, aflito:
- E aonde me agarro desta vez? O sábio, sem parar de correr, grita num assomo de impaciência:
- Agarre-se à minha mão - enquanto lha estende. -Acabo de descobrir a raiz de um raio de luar que nos levará até à Terra.
- Aguentará o nosso peso? - teme o imperador. O sábio repete, soluçando de cansaço, a máxima de La-long:
- «Queres... que os teus desejos... aconteçam? Fecha... os olhos». Acredite... acredite, Majestade! Mas o imperador duvida:
- E o tigre? O tigre não virá atrás de nós?
- O tigre não conhece a máxima e não fecha os olhos - exaspera-se Tien-o-Tzê. - O tigre tem medo de cair. Nós não!
De olhos fechados, escorregam pelo raio de luar que se arqueia e alarga até parecer uma estrada de descida suave.
Assim, sem sobressalto, chegam ao jardim imperial. A Lua escondeu-se. Os archotes da varanda ardem, inúteis, à luz da madrugada.

Desde essa noite inesquecível que o imperador Meng Uóng tange o alaúde, evocando as melodias que ouviu das selenitas. E entusiasmado pêlos bailados e cânticos das fadas lunares criou uma escola, num pavilhão, no meio de um pomar de pereiras. Aí, os jovens do palácio foram industriados na arte de dançar e cantar como os habitantes da Lua.
Assim é justificada a origem do teatro chinês e o nome de lei-un-tchi-tâl, «discípulos do pomar das pêras», como são designados os seus actores.
Quanto ao bordão de cerejeira que o sábio Tien-o-Tzê plantara na superfície musgosa da Lua, conta a lenda que ganhou ramos, folhas, flores...
Quem quiser ver a cerejeira que olhe para a Lua na noite que precede o décimo quinto dia do oitavo mês lunar, segundo o calendário chinês.
Se não conseguir ver, feche os olhos. No espelho da imaginação tudo acontece como nós queremos...



António Torrado

05/10/2008

Mau Agoiro

A Canada do Búzio era uma bocarra, um deserto. Não se via vivalma. Só as faias da terra e as do norte vingavam ali entre silvas... – suor de sangue! Escorralho do Rei dos Reis coroado por mangação! O lugarejo molhava as suas abas naquele mar podre e morto, a matutar como um tolo nos penedos da Ponta do Cavalo vigiada dos garajaus – ou então, bravo e alto, fora de suas estribeiras, atirando a espuma às poças.
Era daí que uns pinheiritos – poucos mas bons e baixos como uma quadrilha de ladrões – se atreviam a subir com os braços cheios de pinhas: uns, cornudos e torcidos; outros, esbracejando direitos no meio da lava e dos faiais. Pareciam talhados nos lombos verdes do mar e atirados vivos à costa. O vento carpinteiro levava-lhes a agulha e o cheiro delicado da resina. Vento excomungado, que parecia falar-lhes ao ouvido: «Abriguem-se vocês! Vá... Abaixem-se aí!»
A casa da Cacena ficava plantada neste inferno. A Canada do Búzio parecia uma goela aberta à noite. Vizinhança – nenhuma. Só de verão havia um pouco de alegria e de cor nalguma maçã madura. O mês de Abril começava a consolar quem no via carregado de flores brancas e de botões cor-de-rosa. O pêssego amadurecia tarde, corado duma banda só. A faia do Norte, de casca sardenta, cobria-se de bagas meladas que era um louvar a Deus! Em Setembro as uvas tingiam as pernas dos homens enterrados nos lagares e o vinho esguichava nas dornas, enquanto as cisternas vazias mostravam os fundos cor de telha, e o grilo, nas gretas, era um saudoso namorado. De noite, a lua subia a terraço. De dia, o sol era um rei em seu balcão...
Ah! Mas, dobrado o cabo de Todos-los-Santos e dos Fiéis Defuntos, a casa da Cacena era uma barca à flor do mar das vinhas. Turvava-se tudo. O cebolinho de ao pé do forno ficava de cabelo ceifado: Aqueles casebres mais pareciam fojos de bruxas do que tectos de gente baptizada. Se não fosse algum molho de palha que o Menino Jesus sempre acende, o Inverno era frio como a neve e negro como um tição.
Ora, seriam umas três da manhã (água, se Deus a dava!) quando João se ergueu do quente da enxerga e disse para a velha:
– São horas, minha Mãe! Aqueça-me uma pinga de leite...
A Cacena era uma triste mulher, sozinha neste mundo. O Rei, ou lá quem quer que é que bebe o sangue dos pobres, tirara-lhe o bordão da velhice mandando-lhe o filho às sortes e levando-o para o Castelo. De nada serviram os pedidos ao Doutor, a este e àquele: os cambos de ofertas; os presentes; uma ave ou duas debaixo do lenço, algravitadas, bravas nos corredores. Tempo perdido! O rapaz ficou apurado para caçanha. E então veio a recruta, com madrugadas, frios, muito poucas dispensas... As correias da mochila levaram-lhe uma tira do lombo; as botas do Casão fizeram-lhe um calo de sangue. Enfim, já praça pronta, houve a
peste numónica em Santa Bárbara e ele foi destacado lá para os quintos...
Entretanto a triste Necessidade (a feiticeira!) fazia o seu pé de alferes à porta da casa sem homem. Primeiro, a coivinha atempou; passante disso, morreu a leitoa empachada. E um belo dia, de manhã, um tição de lume queimou as faias da cozedura, o fogo passou-se à copeira, e, emmentes o diabo esfrega um olho (cruzes!), o forro do sótio ardia todo. Acudiu-lhe a vizinhança em peso (ninguém está livre de trabalhos!) e à força de água e de machado salvaram o resto da poisada – seja pelo santo amor-Deus!.
Quando João soube disto, no Castelo, chorou malaguetas curtidas e quase se pôs de joelhos:
– Só uns dias meu promeiro! Foi a casinha que me ardeu... A prove da minha mãe stá pràli sozinha, sem ter quem no ganhe...
Então o Capitão, com pena dele, fez «cantar à Ordem» aqueles três diazinhos «a benefício dos fundos do caldeiro», como se dizia na Peluda. João andou a tirar umas esmolas para ajuda da casa, com dois amigalhaços, como quem pede para toiros. Um deu vinte tábuas de forro; outro, uma mancheia de telha; outro, os barrotes, de amor-Deus. O Niquinha tirou dois dias de obras, e lá levantaram ambos a cozinha, com frechais e asnas novas.
– Que mais quer, minha Mãe? – disse ele, cobrindo a velhota de beijos. – Nem que vossemecê se tornasse agora a casar... Nã l’há-de chover pinga dentro, se Dês quiser!...
E, com efeito, não choveu. Mas vem o caim dum pé de vento, uma noite, e leva de guinda o postigo envidraçado para cima duma riça de silvas.
– Mais fizera a Nosso Senhor Jasu-Cristo! – cramou a Cacena resignada, de mãos postas. E pôs um rolho de trapos no buraco do seu postigo.
Mas desde esse dia reparou que, muito madrugada, mal luzia o buraco, vinha um biquinho esfregar-se melgueiramente no chumaço, e logo, pela calada, três unhinhas de nada riscavam. Aquilo era no batente – ora, se não! O certo era que se não ouvia mais nada senão dali a um pedaço: Umas asinhas miúdas vinham espenujar-se no trapo; uns pios de aflição pareciam picar-nos o juízo como pontinhas de alfinetes.
Era ao azular da hora de alva. No quarto da pobre Cacena, por cima da cama, a telha de vidro ia-se enchendo de flor de anil e azulão, a todo o comprimento; e, assim abaulada, cismava-se no caixão de um pagãozinho que um anjo levava para o céu.
Três dias e três noites a fio a Cacena malucou naquilo. Afinal... – labandeiras!
Eram as labandeiras! São passarinhos brandos de asa, de rabo de forquilha, que às vezes malucam nos caminhos em riba de burgalhaus, e que, ao ouvirem o passo mais à toa, tremem da passarinha, dão duas guinadas de espreita e põem-se ao fresco, todas repatanadas, até encontrarem solidão.
Desde menina que a Cacena com elas vivia e labutava, mas benzendo-se:
– não porque levem bruxedo, mas porque a triste sina se apega adonde elas apontam os biquinhos. A coderniz é pior. Quando Herodes mandou botar o bando e degolar os Inocentes, que José prantou a Senhora mai-lo Menino na burra e abalou para o Egipto, as codernizes, amassadas nos restolhos, davam fé daqueles santos pelingrinos e, voando baixo, toca a chocalheirar:
– «Cá vão eles! Cá vão eles!»
Mas as labandeiras vinham e, com a rabadilha em forquilha, lá iam apagando as passadas do santo carpinteiro e os sinais dos cascos da jumenta. Por isso o Senhor disse à paqueta da coderniz:
– Deixa tu estar, corsaira, que não hás-de pôr pé em ramo verde! E Nossa Senhora apartou as labandeiras para suas galinhas. Mas lá que têm pitafe, têm. Donde lhe vem, não sei. Têm-no co elas…
Agora, de mais a mais viúva e apartada do fi lho, à Cacena pareciam de propósito aquelas andadas dos bicos peneirando-se, salpicando o telhado com as asinhas de rasto, de ponta a ponta do cume.
Uma tarde, estando a cardar lã de ovelha, à porta, deu fé de que uma delas aporfiava na dança. Era um gorgulho de ave, de olho vivo. Bateu-lhe as palmas, de cá; pegou numa pedrinha, uma coisa de nada, e varejou-lha rente. Mas o bicho fez a modo um pouco caso e veio tombando duma asa até lha passar rente à boca.
– Jasus!
Disse isto e, em menos dum amén, o Trigueiro que passa da cidade:
– Boa noite, tia Cacena! O sê João lá deu baixa ò espital.
– Que me dizes?! Ai, s’o mê fi lho me morre!...
– Não se afl ija, serva de Deus! Aquilho não há-de ser nada... Veja mãis é se lhe manda coisa duma quarta de açucre.
Essa noite desceu como um fugido à justiça; as cancelas do céu fecharam-se de repente. A terra fi cou como uma furna negra, sem o mais leve clarão; a escuridão das canadas parecia tinta de escrever. Às vezes, dentro em casa, um vento parecia dançar de porta a porta, que batia, a moda do Pirolito que bate, que bate... Pirolito que já bateu...
Como se lhe tivessem dado com um barrote nos peitos, a Cacena meteu-se para dentro de casa e afundou no xailinho a sua triste cisma. A panela da ceia cantava com água choca e feijões. Em baixo, na pedra do lar, a cinza e a sombra do lume jogavam à Pata-Cega.
Passaram-se quase oito dias – e o Trigueiro sem trazer notícia de alívios do doente. Às vezes, para não ouvir a velha, furtava-lhe a volta e seguia pelo Rebalde até à Praia. A tia Cacena passava as manhãs no trabanaco, sentada a remendar; à tarde engaroupava-se no xailinho e esperava o carteiro à sua porta. Fazia para a ceia coives espernegadas. Daquela boca para baixo não lhe passava oitra coisa.
Enfim, o Natal chegou. Chega sempre. Umas vezes é frio, outras chuva...
Há anos sem uma coisa nem outra – e sempre pobreza! sempre desconsolos e lágrimas em casa de quem nas chora! Também há casas sem vagar nem água para vertê-las; outras são tão alegres ou tão tristes, que nem cara têm de coisíssima nenhuma!
É na maior parte dessas casas que o Menino Jesus reina entre trigos sem terra, e é aí que se come bolo-rei, figo passado, cabaço, canja de galinha...
– Dá Deus nozes a quem nã tem dentes! Ter uma pessoa a mão incarangada a pontos de le custar a apanhar a ponta do xaile se Pele cai, e havê-las senhoronas, que é só chomar a aia que as venha vestir e calçar! Mum grande é o mundo, graces a Deus! E maior ainda a Mezricórdia Devina!
«Quem fosse à Missa do Galo!... Galo? «Qu’é dele os esporães? Caldo de frango nunca fez mal a doente, nem a velha. Mãis o poleiro, deu-le o rato... foi-se toda a ninhada da pedrês. João, que é que tens? João, tu oives! A manta de fi ampua está ali na caixa; queres-ia-a? Nã te dou lençóis de linho, que os nã tenho, meu home! Mãis stá calado, fi lho! Stá caladinho, qu’a mãe vai ò mato e já vem, meu amor! Vamos cozer de tarde, pois... ! Nã te dou pão de milho azedo, discansa! O milho amarelo secou no tirante e na burra estes dois meses, filho! Faço-te um esfregalho... Faço-te um esfregalho...
«E, vai daí, há casas ricas e casas proves. Deus dá o frio cunforme a roipa. Nosso Senhor Jesu-Cristo nasceu em Belém para nos remir e salvar e, vai, Herodes Antipas manda botar o bando: «Que toda a criença nacida por li seja degolada imcuntinente»... Por isso José pegou no bordão, escanchou a Senhora na burra co anjo de Deus ò colo e se largou prò Egito. Dá-me dali o bordãozinho, não oives? João stá pior... Burra na na tenho, mãis tenho pernas. O Egito será no Castelo? Quem tem boca vai a Roma. Só eu incaranguei .
Na Canada do Búzio o Natal desse ano não podia ser mais festejado. As estrelas próprias dum céu limpo e frio brilharam por cima da casinha consertada depois do fogo. Um soldado magro como um cão e de barba de dias deitava a mãe velha e tonta na cama e aquecia-lhe o caldo da panela.


O Mistério do Paço do Milhafre, 1949




04/10/2008

Com que é que se parece um professor?


Ngunga tinha um princípio: se havia algum problema, ele preferia resolvê-lo logo. Deveria esperar que o Comandante o chamasse. Mas não esperou. Foi ele mesmo falar ao Comandante. Para quê ter medo?
O Comandante Mavinga estava divertido com a conversa. Falou:
— És um rapaz esperto e corajoso. Por isso deves estudar. Chegou agora um professor que vai montar uma escola aqui perto. Deves ir para lá, aprender a ler e a escrever. Não queres?
Ngunga ficou silencioso. Escola? Nunca vira. Ouvira falar, isso sim. Era um sítio onde tinha de se estar sempre sentado, a olhar para uns papéis escritos. Não devia ser bom.
— Prefiro ser guerrilheiro. Se não me querem aqui, então vou para outro sítio.
— Ngunga, tu és pequeno demais para ser guerrilheiro. Aqui já te disse que não podes ficar. Andar só, como fazes, não é bom. Um dia vai acontecer-te uma coisa má. E não estás a aprender nada.
— Como? Estou a ver novas terras, novos rios, novas pessoas. Oiço o que falam. Estou a aprender.
— Não é a mesma coisa. Numa escola aprendes mais. E assim vais conhecer o professor. Já viste um professor? Diz-me com que é que se parece um professor? Vais conhecer a escola. Eu parto amanhã e tu vais comigo.
Sem o saber, Mavinga encontrou o que podia convencer Ngunga. Com que é que se parecia um professor? Sim, precisava de conhecer o professor. Se não gostasse da esco-la, o seu saquito era fácil de arrumar. Vendo bem as coisas, não perdia nada em experi-mentar.
A escola era só uma cubata(1) de capim(2) para o professor e, numa sombra, alguns ban-cos de pau e uma mesa. Ngunga imaginara-a de outra maneira. Também o professor o surpreendeu. Julgava que ia encontrar um velho com cara séria. Afinal era um jovem, ainda mais novo que o Comandante, sorridente e falador. Esse aí sabia mesmo para ensinar aos outros?
Mavinga apresentou-o. Disse que ele não tinha família.
— Tem de ficar a viver aqui comigo! — disse o professor — Também já tenho o Chivuala, que veio comigo do Guando. Os outros alunos são externos, vivem nos quimbos(3) e vêm só receber aulas. Para estes dois, vai haver o problema da alimentação.
— Não há problema! — respondeu o Comandante — Vou falar com o povo. Quando derem comida para o camarada professor, acrescentam um pouco para os dois pioneiros. O Ngunga precisa de estudar, para não ser como nós. Se se portar mal avise-me. Estás a ouvir, Ngunga? Se não trabalhares bem, eu vou saber. E, se fugires da escola, eu encontrar-te-ei.
— Eu nunca fujo! — respondeu Ngunga — Quando quiser, digo que vou embora e vou mesmo. Não preciso de fugir como um porco-de-mato.
O professor riu.
— Espero então que não queiras ir embora. Vais ver como gostarás da escola.

Pepetela, As Aventuras de Ngunga


Notas:
(1) cubata — habitação tradicional africana;
(2) capim — planta gramínea que cresce espontaneamente nos campos;
(3) quimbo — aldeia (termo angolano).






02/10/2008

A Vindima

Ao cabo de quatro dias de vindima na Arrueda, o cheiro do mosto embebedava os sentidos. E à noite, na cardenha, o Vitorino, com a namorada ali quase à mão de semear, não parava sobre a palha centeia, o colchão de todos. Era um rolar sem tino para um lado e para o outro, que metia aflição.

- Tu que tens? - perguntava-lhe o Rasga, farto de conhecer a causa do formigueiro.
- Nada... - e continuava a mexer-se, cada vez mais insofrido.
Como troncos derrubados, os restantes homens da roga jaziam estendidos e adormecidos no chão. Apenas os dois amigos velavam, a vigiar-se mutuamente.
- Vou até lá fora - disse por fim o Vitorino, sem poder mais. - Não me apetece dormir...
E saiu.
Pé ante pé, o Rasga foi-lhe no encalço. E o que havia de ver?... Um noivado ao luar, com a terra empapada de doçura a servir de lençol.
Passou a mão pelo restolho da barba, numa melancolia de faminto sem pão, e deixou os felizardos na paz do Senhor. Quando de madrugada o outro voltou à cama, só lhe disse:
- Valha-te Deus, homem! E agora?
- Agora caso com ela, pois então! Isto nem tira nem põe. O que se há-de fazer ao tarde...
Pela manhã a vindima continuou. Orvalhados, os bardos de moscatel eram polipeiros de olhos irónicos e coniventes. E a Lúcia, sumida no entrançado de vides e de folhas, enquanto cegava aquelas pupilas abelhudas, parecia um rouxinol:

Eu já vi a Tiraninha 
A beber numa cabaça, 
Olha a raça da Tirana 
Que até no beber tem graça.

Ninguém lhe levava a palma. Desde a saída de Lamares que não se calara mais. À frente da estúrdia, de xaile à cabeça e cesta no braço, atirava com a voz bonita pelos montes a cabo, que nem o pai, no maio, a semear milhão.
O harmónio repenicava-se todo em redor dela. Os ferrinhos a dizerem que sim, que sim. E o bombo, apesar da tristeza a que a pele de cabra o condenava, a fazer quanto podia para dar também um ar da sua graça.
A lama de cinco meses de inverno, que a primavera apenas endurecera, era agora uma camada de poeira fofa pelo caminho além, a escaldar. O sol, depois de empassar as uvas, queria empassar a terra. Invulnerável, porém, o raio da rapariga rompia por ali adiante, com asas nos pés. E, mal o Doiro apareceu lá em baixo, ao fundo, como uma veia aberta a escoar-se morosamente do corpo ciclópico dos montes, atirou logo:

Foi no Pinhão... 
Ia a vindimar um cacho, 
Vindimei-te o coração.

Tinham findado de todo os horizontes largos do planalto, onde a alma corre de fraga em fraga, sempre à vista do céu. Encostas negras, em escada, cobertas de estevas ou eriçadas de zimbro, faziam tudo para entristecer quem lhes passava ao pé. À esquerda, um despenhadeiro de meter medo; à direita, uma penedia por ali acima, que só de vê-la faltava a respiração; ao longe, mortórios escalvados e desiludidos. Mas o grande rio doirado, que a luz da tarde transformara numa barra cintilante, chamava a si toda a atenção dos olhos, e a paisagem emergia do abismo engrandecida e transfigurada.
Ou porque trazia dentro o fogo da paixão a aquecê-la, ou inspirada pela beleza do cenário., a Lúcia punha o coração a voar:

A oliveira da serra
O vento leva a flor...

Só mesmo por alturas de S. Cristóvão é que esmoreceu. Ao passar diante do cemitério aproado como uma galera de morte no mar verde dos vinhedos, uma tristeza súbita calou-a. Obra dum suspiro, apenas. Daí a nada arrebitou outra vez, e, ao chegar à Arrueda, levava tudo adiante.

Rita, arredonda a saia, 
Rita, arredonda-a bem...

Nem a cara seca e vermelha do Sr. Berkeley, o patrão, lhe meteu medo. Enquanto os mais, num respeito de escravos, se descobriam ou cumprimentavam aquele símbolo do trabalho e dos ganhos na Ribeira, continuou a cantar como se nada fosse, e à noite, ao deitar, ainda trauteava uma moda.
Foi a Guilhermina, já enfastiada, que a mandou calar.
- Não estás farta, mulher?! Riu-se e continuou na dela. E agora, ao cabo de quatro dias de azáfama, tinha ainda a voz fresca como uma alface. E com segundas...

Eu hei-de te amar, Tirana, 
Eu hei-de te amar, eu hei... 
Eu hei-de te amar, Tirana, 
Duma maneira que eu sei...

Os dois rapazes riram-se, num mútuo entendimento da significação oculta da cantiga. Depois, maldoso, o Rasga comentou:
- O que vale é que a Tirana tem as costas largas...
Ergueu o vindimeiro, ajeitou-o na troika e foi juntar-se aos outros companheiros, enquanto o Vitorino ficou a olhar com ternura a rapariga, bem feita, desembaraçada, certamente fecundada já pelo seu amor.
Dispersa pela encosta, a roga mais parecia festejar um deus generoso e pagão do que trabalhar. Os geios eram degraus do Olimpo, onde crescia e se colhia o espirito celeste. Cada canção - um hino de louvor. E os cestos acogulados, que desciam a escadaria de xisto aos ombros dos fiéis devotos, numa fila indiana, sonora e ritual - a dádiva desse amantíssimo Senhor, que só pedia contentamento em troca dos seus frutos.
Dir-se-ia que tudo naquele paraíso suspenso se movimentava lúdica e religiosamente. Nenhuma mágoa, nenhum ódio, nenhuma desconfiança do futuro. Alegre, a alma de cada romeiro entregava-se pressurosamente ao esquecimento colectivo que alijara do mundo as misérias e os desenganos. O tear mágico urdia desumanização. E só quando um dos fios da meada emperrava, e havia - um solavanco no ritmo do cerimonial, é que se via que uma vontade prática subjazia ali, vigilante e profana. Ainda o Vitorino não acabara de sair da sua contemplação, já o Seara, o feitor, lhe berrava aos ouvidos:
- Tu andas parvo ou quê? Mexe-te! Ergue e espera-me no armazém, que tens que preparar uma vasilha.

Chora videira, ó videirinha; 
Chora videira, ó vida minha...

Cantavam todos. E o bombo, com a sua voz pesada, como que dava forma à incorpórea harmonia que, descuidada, descia em cascata pelos socalcos.

Chora videira, ó videirão; 
Chora videira, ó meu coração.

Não havia tristeza que entrasse naquelas almas. Principalmente na de Lúcia, cada vez mais agradecida ao céu pela sua redenção terrena.
Entretanto, porque o deus da abundância não se cansava de multiplicar o mosto no lagar, para arranjar onde o meter, o Vitorino deslizava submisso pela portinhola dum tonel, tal as vítimas dos sacrifícios antigos pela boca do dragão.
Lá fora continuava o coro. E o Seara, por causa daquele barulho e do ouvido duro do Sr. Berkeley, quando daí a bocado chegou congestionado à vinha e deu a notícia do desastre, quase teve de berrar.
Foi então que a voz da Lúcia estacou de vez.
Garroteada como a do namorado, a garganta fechou-se-lhe num espasmo de perpétua agonia.
Transida e comandada por tão grave silêncio, a roga emudeceu também.
Só a Casimira velha, desgarrada numa valeira solitária, que não ouvira nada da morte do Vitorino, asfixiado dentro do bojo da cuba, continuou a agoirar a tarde com o seu lamento fanhoso:

A mulher é desgraçada
Até no despir da saia; 
Não há desgraça na vida 
Que aos pés da mulher não caia...

Miguel Torga, Contos da Montanha