27/09/2008

O Noivado Infeliz da Aurélia


Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jovem da bela cidade de San José.
Devo esclarecer que não conheço, em absoluto, a signatária do referido documento, que se assina simplesmente Aurélia-Maria - provavelmente um pseudónimo.
A pobre garota tem o coração transtornado pelos infortúnios que vem sofrendo. E sente-se tão perturbada pelos conselhos, uns diferentes dos outros, de amigos ignorantes e inimigos insidiosos, que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino, na qual parece encontrar-se presa para sempre.
Nervosa, recorre a mim, suplicando-me que lhe dirija os meus conselhos, falando-me com uma eloquência extraordinária, que tocaria o coração de uma estátua.
Ouçamos a sua triste história.
Aurélia tinha dezesseis anos - diz ela - quando encontrou e amou, com todo o ardor de uma alma apaixonada, um rapaz de New Jersey, chamado Wilhamson Brockinridge Caruthers, quase seis anos mais velho que ela.
Com o consentimento de seus pais, ficaram noivos, e durante um largo período tudo correu muito bem, como se os noivos estivessem imunizados contra os instantes de desgraça que sempre tocam à humanidade.
Um dia, entretanto, a face da realidade transformou-se. O jovem Caruthers caiu de cama com varíola, e da espécie mais virulenta e terrível. Quando ficou bom, tinho o rosto desfigurado, a pele marcada pelas bexigas. Já não era o mesmo, porque a sua beleza desaparecera para sempre.
Aurélia pensou logo em romper o seu compromisso, mas, por uma questão de piedade para com o infeliz, limitou-se a transferir o casamento para depois, como que dando uma oportunidade ao pobre rapaz.
Acontece que na véspera do casamento, Caruthers, quando acompanhava com os olhos um balão que subia aos céus, caiu, distraído, num poço, e quebrou uma perna. Tiveram de amputá-la acima do joelho.
Novamente Aurélia teve a intenção de acabar com o noivado e novamente o amor triunfou. O casamento foi transferido e ela deixou que o tempo corresse.
Outra infelicidade aguardava o noivo caipora. Caruthers perdeu um braço quando de uma descarga imprevista de um canhão, numa festa cívica. Ainda na convalescença. três me-ses depois, teve o outro esmagado numa prensa agrícola.
O coração da pobre Aurélia foi horrivelmente machucado por essas verdadeiras calamidades. Era enorme a sua aflição, por ver seu jovem noivo abandoná-la pedaço por pedaço e imaginar que, com esse sistema de progressiva redação, com pouco nada mais restaria do rapaz. E doía-lhe verificar que nada podia fazer por ele.
Em seu desespero, coitada, como um negociante que teima num negócio e tem prejuízo regularmente, todos os dias, Aurélia sentia um grande e profundo arrependimento por não haver casado logo de início com Caruthers. antes que ele sofresse tão alarmante depreciação. Mas, encarando a situação com ânimo firme, resolveu pôr à prova, ainda uma vez, as lamentáveis disposições do seu noivo.
Foi marcado o dia do casório e de novo turvou-se o céu com as nuvens da desilusão. É que Caruthers caiu doente com um acesso de erisipela e foi então que perdeu um dos olhos.
Os pais e os amigos da moça, tendo em vista que a sua generosa obstinação já excedia os limites normais, novamente intervieram e insistiram para que se considerasse nulo o seu noivado.
Aurélia chegou a hesitar, apesar da sua imensa bondade de sentimentos, porém pondeu a todos que, reflectindo direito sobre o assunto, verificara que não tinha nenhuma razão de queixa contra o noivo.
Foi transferida a data do casamento, e eis que Caruthers quebra a outra perna.
Para a pobre noiva foi bem triste o dia em que, no hospital. viu os cirurgiões mandarem arrastar para um canto o saco que continha mais uma parte do corpo do seu amado.
Aurélia sentiu uma emoção cruel, percebendo que mais um pedaço do homem que iria ser seu esposo ia desaparecer. Sentiu, sobretudo, que o campo de suas afeições mais puras diminuía a olhos vistos. Contudo, não atendeu aos rogos dos seus, quanto à anulação do seu compromisso, e só fez mesmo transferir o casamento.
Enfim, poucos dias antes da data fixada, aconteceu outra desgraça. Foi o seguinte: durante o ano, os índios de Owen River arrancaram o couro cabeludo de um só homem, e este homem foi Wilhiamson Brockiridge Caruthers, de New Jersey.
Ainda assim, o pobre-diabo fez-se transportar imediatamente para a casa de sua noiva, o coração transbordante de alegria, embora tivesse perdido os cabelos para sempre. Apesar de todo o seu desgosto, ainda deu graças a Deus por haver-se salvo, mesmo por esse preço exorbitante.
A esta altura, Aurélia está indecisa quanto à atitude que deve tomar. Ainda ama o noivo - é o que ela me escreve em sua carta. O noivo ou o pedaço de noivo que lhe resta. Ama-o de todo o coração, porém sua família se opõe terminantemente ao casamento.
Caruthers é pobre e não pode mais trabalhar. Por sua vez, Aurélia não temo necessário para que possam viver os dois juntos, com relativo conforto.
- Que devo fazer? - eis o que ela me pergunta, numa indecisão cruel.
Esta é, com efeito, uma questão delicada. Questão cuja resposta deve decidir sobre o destino de uma mulher e de um pedaço de homem.
Estou certo de que seria assumir uma grande responsabilidade responder indo além de uma simples sugestão.
Quanto custaria a reconstituição de um Caruthers completo? Se Aurélia tem algum recurso, deve comprar para o seu noivo mutilado umas pernas artificiais, um olho de vidro e uma cabeleira postiça, para torná-lo apresentável. Feito isto, seria conveniente que lhe desse um prazo improrrogável de noventa dias, ao fim do qual, se o rapaz não torcer o pescoço, poderá arriscar-se a casar com ele.
Não creio que assim procedendo Aurélia se aventure a grande risco, de qualquer maneira. Se Caruthers ainda uma vez cede à tentação estranha de quebrar alguma coisa sempre que se lhe apresenta a ocasião propícia, sua próxima experiência na certa será fatal, e então a pobre noiva poderá ficar tranquila, casada ou não. Casada, as pernas de pau e outros objectos, propriedade do defunto, ficarão como herança para a viúva, e assim Aurélia não perderá nada, a não ser, na realidade, o último pedaço vivo dum esposo honesto e infeliz, que durante a vida toda não fez outra coisa senão contentar os seus extraordinários instintos de autodestruição.
É tentar a sorte, portanto. Reflecti bastante sobre o assunto, e este me parece o melhor partido a tomar no caso.
Decerto, Caruthers teria agido com acerto se houvesse tentado quebrar o o pescoço logo da primeira vez, tratando de fazer coisa definitiva. Já que escolheu outro método, dispondo-se a prolongar o sacrifício o mais possível, não se pode criticá-lo, por haver feito o que lhe pareceu melhor. Deve-se é procurar tirar o melhor proveito das circunstâncias, sem o menor ressentimento.

Mark Twain


Idílio Rústico


A Fialho de Almeida


Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele, era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas. Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo companhia aos novilhos. De onde em onde, galos madrugadores entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma estúrdia, a desoras…
Mas, passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho em ziguezagues. Fulgiam no céu azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima do rumor brando dos choca-lhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando a marcha se de novo ele se punha a caminhar.
Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro, que o eco levou para longe.
– Não gastes pólvora, António! – recomendou o pastor. – Ouviste?
E logo a voz do guardador:
– Madrugas hoje, Gonçalo!
– Pra que saibas! Cá um homem não tem medo!
– Está bem. Adeus!
– Saudinha.
A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham atitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra... Neste assomo de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços. De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens secas, onde algum réptil passasse vagaroso.
– Busca, Turco! – fazia-lhe o Gonçalo, que tinha medo às cobras. – Busca, valente!

À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se, mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de paciência, – reflectia o pastor, a quem abor¬reciam de morte os intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado, o Gonçalo desabafou: – Uff! até que enfim! – E pensava aliviado: – Nada mais fácil do que terem-me saído os lobos!...
Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda acidentada de rochedos informes, blocos medonhos por entre os quais no inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num descuido involuntário – simples remadela pouco a tempo, manobra menos segura de leme, ou impulso errado de vara.
E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo limitada a paisagem.
A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e manso, e sem o mínimo ruído.
Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.
– Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada...
E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:
– Ora se será ela?...
Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.
– Ai, se fosse a Rosária!... – disse consigo.
E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.
«O rebanho parecia ser o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser outro que não a Rosária...» Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.
No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:
– Eh lá, Gonçalo, és?
O pastor desatou a rir.
– Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!
E logo a voz fresca da rapariga lembrou:
– Não te esqueceu a moda, rapaz!
– Isso esquece ela!... Ouviste, Rosária? – Se outra fosse que ma tivesse ensinado...
Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:
– Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?
– Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p’r’as ovelhas. Han?
– Basta!
E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a pouco entrava, mais o rebanho, pela velha ponte mourisca, toda severa de construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas bravas.
A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que era como um talismã precioso para livrar de maiores desgraças – naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles caminhos escabrosos que eram um perigo constante para homens e animais.
Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual seguida do seu rebanho.
– Ora viva a Rosária! – disse o pastor muito alegre, parando defronte da cachopa.
– Bons-dias, Gonçalo! Então que ventos?
Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da feira dos Caniços.
– Por sinal que nem rez se vendeu! – lembrou o Gonçalo.
– Por sinal! – disse com pena a Rosária.
Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que a encontrava. – «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de sonhar! Nanja ele...»
– Mas se eu estive tão doente! – volveu triste a Rosária.
E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:
– Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era mesmo lume, desde manhã até ao escurecer... Uma assim!
E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados, como agora tinha acontecido, – «tal e qual».
– Assim te Deus salve, ó Rosária! – atalhou rápido o pastor, a quem enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.
– Assim; pois que dúvida? – tornou-lhe confiada a Rosária.
– Não! – disse agastado o Gonçalo. – Não hás-de dizer assim... Dize certo, hás-de jurar direito.
– Pois assim me Deus salve…
– Como é verdade... Dize, tudo, Rosária! – suplicava o pastor.
– Sim – volveu-lhe paciente a companheira – como é verdade que sonhava que nos encontrávamos – concluiu por fim muito risonha.
E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também não a esquecera. – «Tanto é que tirava da frauta as cantigas todas que ela lhe tinha ensinado.»
– Lembras-te?
A Rosária fez que sim com a cabeça. E logo, batendo na frauta de sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:
– Saem daqui sem falhar uma! – E resoluto: Vá feito, Rosária, pede por boca!
A Rosária pediu então a Pastorinha.
– Eu é da que mais gosto – explicou. – É a mais linda.
E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a Pastorinha, enquanto a Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:
Onde vás, ó pastorinha,
Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé...
– Sabes essa! É mesmo assim! – disse-lhe a Rosária a rir-se.
– É como vês! – afirmou contente o Gonçalo.
Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois reba¬nhos, confundidos, andavam na pasta-gem.
– Olha as ovelhas juntas! – notou o Gonçalo.
– Também nós nos quedámos juntos, – volveu-lhe a pequena, sorrindo. – As pobres dão-se bem, são amigas... – continuou com júbilo.
– E nós também, ora também, Rosária?
– Também – respondeu afoita a pastora.
E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.

*

A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela de alva fenecera por fim, e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam despertar tudo: a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de asas – passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre renques verdejantes, gente em mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cada chó! que se ouvia na outra ladeira. Já nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a ave-marias. Nas quintas e casais fumegavam os tectos, dizendo horas de almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante, no céu imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores e continuavam conversa.
Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a Rosária...
– Mas o cabelo assim cortado... – disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça nua, e passando a mão pela dele – é que te não fica bem!
«Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças! Negras, de mais a mais, que era como ele gostava...»
– Promessa da mãe se eu melhorasse – explicou a Rosária. – Lembranças... A gente quando está aflita...
– Quando está aflita... – repetiu como um eco o pequeno. E depois, amuado: – Se te promete os olhos...
A rapariga fitou-o, espantada.
- ...é porque tos tirava! – concluiu convicto.
Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.
– Não falas, Rosária? – perguntou o pastor sem levantar os olhos para ela.
– Também tu... – começou com medo a pequena, – logo te zangas! Olhem a lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo! – E depois animando-se: – Já foste à Senhora dos Remédios?
O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.
– Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.
O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E para acabar com ela:
– Que enfim como melhoraste... – fez que concordava, pondo o bilro a girar. – Olha como dança... – E depois, mais pensativo, batendo com o bilro nos dentes:
– Que às vezes as promessas pouco valem... – E interrompendo: – Sabes quem fez este bilro?
– Foste tu, aposto!
Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho orgulhoso – «que visse os torneados». Depois continuou:
– Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os santos! – Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e bem promessas fez, mas ela foi-se.
E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.
– Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar... Pois era para Nossa Senhora, repara que é a melhor. – E deitando-se para trás: – Lá anda ela a pastar! – concluiu desalentado. – Mas tinha de ser – volveu-lhe triste a Rosaria, – que as promessas sempre fazem, lá isso...
E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia, firme na sua objecção:
– Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!

*

À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois conduzindo as ovelhas para os sítios mais ensombrados, para se livrarem da estiagem, que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais, depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que nada: os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.
– Olha lá não caiam! – tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo. – Se eles fossem tolos...
E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela então propôs que jogassem a pocinha.
– E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos domingos à tarde, bato-me com qualquer, sabias?
E generoso:
– Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta...
Como o tempo rendia, jogaram tudo – a pocinha, o fito, as necas, a bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia buscar o pauzinho, quando zenia para longe.
– Turco, traze cá.
No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim tão viva a areia branca das margens.
Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:
– Mas olha o que prometeste... Inda vais feita no que disseste?
«Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas
tinham andado juntas todo o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?» – E o mais, ó Rosária? – perguntou de novo com interesse.
A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar, respondeu:
– Também. – E sorriu-se. – Pois eu...
Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal de partida, assobiando aos cães.
Daí a pouco, estavam de marcha para o curral. Quando passavam a velha ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.
– É bonito! – fez notar o pastor.
A Rosária explicou logo:
– São as mouras a caçar com redes de oiro, sabias?
Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da chata que vogava serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista, enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia ensinando as manobras. Ao fundo, três vitelos passavam o rio a vau, muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro – «Boas-tardes! Boas- -tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos carregados, tilintando campainhas.
– Adeus, pequenos! – cumprimentou.
– Venha com Deus! – tornaram-lhe ambos.
E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas; confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música, fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada...
Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar:
– Vês além?... Neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?
A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:
– Então é ali?
– Ali mesmo – volveu-lhe já de marcha.
E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga, repetiu-lhe muito contente:
– É mesmo além.
Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.
– Falta pouco. A gente vai pelo atalho, que é só mau para quem passa a cavalo.
E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então saber:
– Estás triste, ó Rosária?
– Triste… não… Já agora... tem de ser – volveu-lhe cabisbaixa.
– Huum! Arrependeu-se... – volveu consigo o pastor.

*

Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para dentro e toca a merendar; o que era de um era de outro: ele ainda trazia azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem: estavam moídos da soalheira de todo o dia, e da caminhada agora.
Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de toda a noite, e formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul indefinido do céu.
– E os lobos? – perguntou a Rosária com medo.
– Não há perigo – tranquilizou-a o Gonçalo. – Isso é lá com os cães.

*

Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo, num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se deixaram adormecer – quando a história das mouras encantadas ia no seu melhor episódio...
E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas crianças...
Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu...
– Bonito dia, Gonçalo!
– Bonito dia, Rosária! Olha...
…na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando... voando...


Trindade Coelho, in Os meus amores


O Arquimortes


A tua boa acção diária... E respondo ao Justino Soares que se vá embora descansado, que estou quase a acabar a crónica sobre política internacional (uns pozinhos do Monde, outros do Nouvel Observateur, deste, daquele), mas puxando a coisa bem mais para a esquerda, por descargo de consciência, aliás inútil, dado que a censura se encarregará de tosquiar esse “para a esquerda”, um “para a esquerda” difícil, de resto: o conflito sino-soviético, como poderíamos imaginar possível, há vinte anos, um conflito assim entre irmãos – mas que mundo é este em que somos obrigados a julgar as coisas nas bases postas pelos outros e não por nós, a aceitar dilemas que talvez sejam simplesmente problemas mal postos? Pois, que não se preocupe, eu trato da necrologia. “Pá – tinha-me ele dito –, combinei um encontro com uma gaja bestial e já estou atrasado ... “ Sim, a minha boa acção diária para que no exame de consciência, que aliás não farei logo à noite (falta-me o tempo!) possa sentir-me de bem comigo próprio, possa dizer-me que não sou um puro egoísta – muito antes pelo contrário sou capaz de sacrifícios (quais?) pelos outros: adio, neste caso, por quinze minutos (e quinze minutos, a brincar a brincar, são um nonagésimo sexto do dia), a minha saída deste antro detestado – mas como aproveitaria eu esses quinze minutos se não tenho como tu, Justino Soares, uma gaja bestial à minha espera (que nem estará à tua espera, pois acabará certamente por chegar ainda mais atrasada do que tu)? E, ao mesmo tempo que nas paredes brancas das casas do outro lado da rua a luz do Sol me obriga a desviar os olhos da janela, pergunto-me se tu, mulher que vais chegar atrasada, saberás que ele te trata por gaja, pergunto-me como te falará ele, como falarás tu – se nesse encontro não porão vocês um pouco de sonho, de palavras grandiloquentemente romanescas, a ilusão de que estão a viver um momento único, jamais vivido sobre a Terra, inesquecível, um momento que irá prolongar-se por muitos anos, que fará do mundo, de todas as coisas, uma doçura verde de erva molhada (sim, uma doçura verde de erva molhada) ou se terão somente a lúcida consciência de colherem da vida o resíduo mais imediato e provisório – resíduo sem memória futura, tão identificado com o presente que até já passou. Ou então, se haverá realmente, Justino Soares, alguma mulher, a calma repousante dum rosto de mulher, duns compridos cabelos de azeviche (que é o azeviche?), dumas palavras que desejas ouvir e nunca ouviste, se não terás falado assim para te safares do jornal, do trabalho irrespirável, e para que eu te inveje, neste fim de tarde, ao pensar daqui a uma hora que enquanto bebo café e converso O arquimortes inutilmente com amigos sobre os boatos que já não há (aquelas velhas revoluções que estavam para rebentar no dia seguinte e que nunca rebentavam), tu, grande maroto!, te esfregas na cama com uma gaja bestial – mas, na realidade, ou porque ela não aparece ou porque nunca existiu, estarás, quem sabe?, a tomar uma cerveja, uma simples cerveja, na mais modesta das leitarias do teu bairro.
E se eu te armasse uma ratoeira? Se fosse à tua procura por todos os cafés de Lisboa e ao encontrar-te dissesse cruelmente: “Então essa gaja?” Que me responderias, conquistador imaginário? Mas se essa mulher não existe e tu procuras apenas um pouco de sonho, invocando-me como testemunha para dares mais realidade ao sonho, então porque lhe chamas gaja em vez de princesa das laranjas de oiro, mulher de branco, raio de sol, porque te apostas em sonhar tão baixo?
(Penso na Guilhermina, casada com o Eugénio, nas conversas que temos, nos encontros que evitamos, naquele nosso último diálogo em que elipticamente concluímos que nem sequer valia a pena tentarmos uma aventura fugaz, porque ela acabaria por um fracasso.) Sim, a China, a U. R. S. S., e terminei – a censura que faça o resto, ela decidirá o que o público deve ou não saber, decretará a verdade. Pego depois na lista dos mortos (a tarefa do Justino Soares, a boa acção que hoje me imponho), ouço-me dizer, lendo o primeiro nome (Manuela dos Santos Cruz): “Vamos lá matar esta cambada!”, como se todos aqueles mortos permanecessem vivos até o instante em que eu lhes baixasse os nomes ao papel, tornando público o que até aí fora privado e desconhecido, inexistente, portanto. Ouço-me dizer, falo verdade, porque a frase (“Vamos lá matar esta cambada!”) não a inventei eu, tem uma voz que não é a minha, vou buscá-la ao Arquimedes Meneses e Castro, que tinha a seu cargo a actualização necrológica dos ficheiros do jornal. Para mim, tarefa ao que eu pensava mais, complexa, reservara o registo complementar:
os novos heróis que iam nascendo para a glória. Nascendo para a glória! Que sensação estranha a minha, porque não confessá-lo?, quando introduzia um novo nome no ficheiro, um Prémio Nobel, por exemplo, um desses homens que tinham descoberto a dupla hélice, a estrutura última dos genes, que se entretinham a ler no ADN o romance das nossas vidas! E precisarei de acrescentar que, ao incluir no ficheiro esses recém-nascidos para a glória, me sentia igual a um deus criador, como se fosse eu a dar-lhes vida? E a dar-lhes vida já com mais de quarenta anos, aliviando-os assim da tortura sem nome de terem sido crianças e adolescentes, dos tormentosos anos de aprendizagem, do ABC, dos exames, da tabuada, do sarampo, nascidos homens feitos afinal – (e não foste tu, Guilhermina, que me falaste da tua juventude como de uma época terrível?). Mas esta sensação, penso agora, não a tive espontaneamente, autonomamente, ela imitava, até certo ponto, embora ao invés, os sentimentos profundos do Arquimedes.
Porque o Arquimedes, que poderia desempenhar a sua função discretamente, esfregava as mãos sempre que alguém morria, dava gritos de satisfação (Olá! Olá!), abria o ficheiro aparatosamente, e mal acabava de escrever com letra gótica as palavras fatais (falecido em tantos de tal de mil novecentos e qualquer coisa) relia-as em voz alta para que tão importante acontecimento a ninguém passasse despercebido. Baixinho, calvo, muito pálido, sessenta anos, era geralmente um homem triste, mas pouquíssimo cheguei a saber da vida dele para além destas simples aparências. Ao que parece e apesar do nome aristocrático, pertencia a uma família extremamente pobre, tirara um curso comercial com grandes sacrifícios e dizia-se que a mulher o enganava, mas provavelmente isto era falso, resultava da comparação do seu aspecto (um homem apagado) com a frescura dela, muito mais nova, mulher aparentemente com sangue na guelra, vistosa (vi-a uma única vez, e pelo braço do marido, a descer a Avenida da Liberdade num domingo de santos populares). Quanto aos interesses do Arquimedes, nunca consegui descobri-los, não discutia futebol, nunca lhe vi um jornal desportivo nas mãos, nem sequer um romance policial, nunca consegui imaginar como ocuparia o tempo em casa, se via televisão, se coleccionava selos, se faria palavras cruzadas ou se votara no general Humberto Delgado.
Alegria, alegria verdadeira, só me lembro de lha ver nos dias em que alguma sumidade, dessas que bem ou mal têm honras de arquivo, passava desta para melhor. “Vamos lá matar mais este gajo!”, anunciava-nos, esfregando as mãos, como se fossem àquelas mãos que estivessem presos os ténues fios da vida (aprecia a expressão, Guilhermina, os ténues fios da vida!). Olá! Olá! Alegria que talvez não se tivesse manifestado logo de início, talvez nem ele próprio conseguisse localizar o dia exacto (o morto exacto) em que descobrira a sua verdadeira missão neste mundo, o seu destino mais autêntico, o seu papel sobre a Terra. Eu próprio... Quase direi que nem dera pelo Arquimedes, apesar de trabalharmos juntos todos os dias, porque quando dou por ele, a primeira vez, em suma, que olho para ele com olhos de ver e não como se olha para um simples objecto igual a milhares de outros objectos (humanos?, não humanos? – o ordenado que recebo não dá margem para ver humanidade nos homens que tenho de dirigir), a primeira vez que dou por ele, dizia, que penso nele a sério durante alguns momentos, já o Arquimedes era o que depois vim a considerar ilusoriamente que sempre fora. Decerto, por detrás desse juízo definitivo estavam muitos meses de observação distraída em que ele não me aparecera ainda como um sujeito dotado de certos atributos, mas sob a forma simples dos próprios atributos: não um homem calvo, mas calvície, não um homem pálido, mas palidez, não um homem triste, mas tristeza – sim, essa tristeza, atributo sem sujeito (atributo ao qual eu não dera ainda sujeito) nesses dias em que os mortos, porque eram simples e puros mortais, em vez de imortais (um Picasso, um Stravinsky), não precisavam de ser mortos. Precisamente: dei-lhe um sujeito, descobri-o para além das aparências ao ver que num desses dias de homens mortos-mortais ele folheava desencantado o ficheiro com a esperança de que algum já lá estivesse, fosse afinal um grande homem (os outros, os homens vulgares, que ao morrer prescindiam dos serviços dele, desprezava-os, considerava-os mortos de nascença). E por vezes surpreendi-o a reler o jornal (a ler até a necrologia, que, toda a gente o sabe, é nos jornais a vala comum dos homens vulgares) na vã esperança de encontrar algum morto-imortal – e o êxito, apesar de tudo, certos dias alcançado, a satisfação com que gritava: “Apanhei-o! Ah, o maroto que se me ia escapando!” O maroto que assim quase se lhe escapara, e que por pouco ia conseguindo ficar vivo ad aeternum, era o Matisse, o Thomas Mann ou o Bertrand Russell, cuja morte, bem à portuguesa, vinha noticiada no mais obscuro lugar da mais obscura das páginas. Muito corado, esfregando as mãos, lia em voz alta a data do nascimento, fazia contas, e se por acaso o morto tinha ultrapassado os noventa anos não escondia a sua indignação. De caminho, invadido por uma suspeita, consultava as outras fichas para saber as idades de quantos se obstinavam em ficar vivos. “Nunca mais os matamos?”, perguntava, como se brincasse, mas a sério – e à espera que eu lhe abrisse a luz verde para a ambicionada hecatombe universal. “O gajo não nos terá escapado?”, insistia, a ficha do Picasso na mão, sofrendo com a ideia de que aquele (ou outro) continuasse clandestinamente vivo. Porque para o Arquimedes, e isto não é insinuar que conhecesse Platão (o Arquimedes
era um filósofo espontâneo, tenho de o dizer), o arquivo do Diário da Tarde transformara-se no mundo dos arquétipos, esse mundo longínquo do qual tudo o mais é sombra na caverna.
De facto, caso quiséssemos saber com rigor se um Thomas Mann era vivo ou morto, onde, senão no arquivo, poderíamos encontrar a resposta? Certo dia, sujeitou ao meu exame um cálculo perturbador: dez por cento dos mortais-imortais incluídos no ficheiro ainda estavam vivos, o que, explicou, era estatisticamente improvável num arquivo de personalidades que se
distribuíam por cerca de quarenta séculos desde Amenofis IV (não sei bem porquê o ficheiro começava com este adorador do Sol) até o último coronel que fez ontem (ou há-de fazer amanhã) mais uma revolução fascista já não me lembro (ou não sei ainda) em que desgraçado país. Objectei-lhe que o número parecia razoável se o comparássemos com o que sucedia em Lisboa: efectivamente, tanto quanto sei, a percentagem dos lisboetas vivos é bem mais elevada ainda, orçando pelos cem por cento.
O argumento perturbou-o e ele não se atreveu a dar-me resposta imediata, mas no dia seguinte contra-atacou, recorrendo sempre a demonstrações de ordem estatística: trinta por cento dos mortais-imortais vivos ainda e registados no ficheiro (no Arquétipo, como diziam os graciosos sem graça nenhuma lá do jornal) já deviam ter setenta e nove anos (média exacta). Recorria à minha comparação com Lisboa: “Acha crível que trinta por cento dos Lisboetas andem à roda dos setenta e nove anos, mais mês menos mês?” Objectei como pude (concedo que o argumento era de peso) e alguns dias depois o Arquimedes propôs-me que matássemos o Picasso, por ser pouco provável que ainda pudesse estar vivo. Limitei-me a uma dúvida: que data havíamos de escolher? (Se nos amamos, Guilhermina, se nos entendemos como tu não te entendes com o Eugénio, como eu não me entendo com a Helena, porque não tentamos a grande aventura? Porque a experiência nos ensinou que o amor passa, que dentro de um ano já não nos entenderemos assim e que portanto não vale a pena ensaiar o que está destinado ao fracasso e que seria somente a repetição de experiências que ambos já tivemos, tu com o Eugénio, eu com a Helena?)
Os brincalhões do Diário da Tarde, que já haviam inventado a história do Arquétipo, começaram então a chamar-lhe o Arquimortes (também, por vezes, e com a mesma falta de humor, o Arquimorto). Já então o dia que ele sempre recordava com saudade era uma certa segunda-feira em que nada menos de sete homens geniais haviam morrido. “Hoje vamos aqui matar uma porção deles”, dissera, mal me vira, e associando-me à sua própria alegria, pois falava na primeira pessoa do plural.
Felizmente sou um anónimo sem honras de arquivo, um desses homens que nem sequer são sombras na caverna, pois lhes falta o Arquétipo, um desses homens que não chegaram portanto a existir (e que recusam – recusamos, Guilhermina – a vida. Porque ninguém, nem mesmo nós, poderia roubar-nos os próximos meses da nossa aventura, futuro breve que ficaria indestrutivelmente conservado nas nossas memórias. Porque lhe fugimos, porque nos negamos um passado inviolável, nós a quem nada mais resta do que a morte próxima ou longínqua?). Sim, um anónimo sem honras de arquivo – de contrário ficaria horrorizado mal sentisse poisados sobre mim os olhos do Arquimedes. Para ele, a pouco e pouco fui-o percebendo, a vida era a inevitável concessão que um universo imperfeito se vira obrigado a admitir para que a morte, substância de todas as coisas, pudesse triunfar. Nisto nesta visão niilista, (e profunda!) do cosmos reencontrava-se ele, aliás, embora de forma mais genial e prática, com toda uma família de grandes espíritos que desde a aurora do mundo têm visto no homem um cadáver adiado um momento de negatividade na positividade do nada.
Certo dia encontrei-o-na rua, os olhos presos ao Teixeira (o Teixeira, o Álvaro Teixeira, o poeta que tanto admiro, jovem ainda com os seus noventa e dois anos!), e que nesse momento, apoiado na sua bengalinha, conversava já não sei com quem, contribuindo, só porque existia, para um acréscimo de imperfeição no universo. Observei de longe o Arquimedes, antes de me aproximar, e quase posso garantir que lhe vi uma foice, uma longa foice na mão. “Por aqui?”, disse-lhe depois, ainda aterrorizado No azul tranquilo, mas rico de imperfeição, da tarde que anoitecia, vi perfeitamente evolar-se a foice que ele segurava, deixando no céu um ténue rasto de fumo que se prolongou sobre Lisboa por muito tempo (falou-se dessa nebulosidade no boletim meteorológico da televisão). Alguns dias adiante tive de ir ao Arquétipo para lá introduzir um novo gigante acabado de entrar no tablado da fama (com trinta e cinco anos!) e, por acaso, saltou-me à vista o verbete do Teixeira – devidamente falecido, embora no ano seguinte. Um pressentimento levou-me a consultar as fichas do Picasso, do Stravinsky, do Casals, então ainda vivos (ou considerados vivos por toda a gente, incluindo os próprios – mas a opinião destes é evidentemente subjectiva e interessada, não dá quaisquer garantias de verdade). Se o Teixeira fora morto daí a um ano, o Stravinsky fora-o daí a dois, o Picasso daí a três, o Casals... Outro pressentimento forçou-me a procurar alguns nomes por mim recentemente ali introduzidos (o Luria, o Delbrück, etc.), esses novos vivos que as marés do talento iam substituindo aos mortos. O Arquimortes não os matara directamente, limitara-se a retirar-lhes as fichas, negando-lhes assim que tivessem chegado a existir.
Ainda perplexo, sem coragem de chamá-lo à ordem, ouvi-o dizer num dos seus raros dias de fraqueza confessional: “Conseguiremos alguma vez pôr unicamente mortos naquela gaveta?” Conseguiremos e não conseguirei, ó irmão!
Preciso agora de acrescentar-te, Guilhermina, que o Teixeira veio efectivamente a morrer no ano seguinte, que o Stravinsky morreu dois anos depois, que todos os dias abro o jornal com receio de que o Casals e o Picasso...? Precisarei de acrescentar-te que o proibi de continuar aquela tarefa?
Mas a partir de então a alegria varreu-se-lhe do rosto, nunca mais ninguém lhe ouviu dizer olá!, enquanto esfregava as mãos, tornou-se um homem triste (tornou- -se tristeza, atributo sem sujeito), um homem irrealizado, um homem que perdera o ser, alguém que já não podia introduzir no mundo imperfeito um pouco de perfeição, e despediu-se do Diário da Tarde com um argumento sem pés nem cabeça, abandonando assim uma empresa à qual estava ligado havia mais de trinta anos.
Leio o nome da Manuela dos Santos Cruz, mulher humilde (ao contrário do Arquimedes sou hoje um matador de gente humilde) e sinto que estou a adiar-lhe a morte, que não morrerá enquanto eu não lhe puser o nome no jornal, que posso até deixá-la em suspenso se não lhe puser o nome no jornal (mas amanhã quantas pessoas protestariam por tê-la salvo? Mesmo sem bens de raiz precisa de ser morta para que os vivos possam herdar-lhe a pobre mobília). Hesito... Poderei matar quem nunca chegou a existir no mundo das essências, no Arquétipo do Arquimortes, quem, portanto, nem sombra da caverna chegou a ser, quem nem sequer era sombra duma sombra? Decido-me, pura ilusão que és, mato-te friamente (vejo as minhas mãos ensanguentadas), agora estás definitiva-mente morta até para aqueles que, por nunca pensarem em ti, não tinham ainda posto outra cruz à frente do teu nome, Manuela dos Santos Cruz. E escrevo, tão pouco!, logo abaixo do título: “Faleceu a senhora D. Manuela dos Santos Cruz, de quarenta e quatro anos, natural da Azinheira, casada, residente na Rua Braga
de Melo, 17, 1.º, Esq. O funeral, a cargo da Agência Rebordão, realiza-se amanhã, pelas quinze horas, da sua residência para o cemitério de Benfica.” O nome seguinte... (não, não era o teu, não era o meu, Guilhermina, porque nós já morremos há muito tempo ao desistirmos um do outro), o nome seguinte é o de Arquimedes Meneses e Castro, casado, sessenta e dois anos, natural de Portunhos (costumava dizer que era de Lisboa, receava que o considerassem provinciano).
Não, Arquimedes Meneses e Castro, vou passar por cima do teu nome – a ti, até porque já ninguém te recorda e ninguém dará portanto pela tua falta, não serei eu a matar-te, vou deixar-te vivo para sempre, vou deixar-te vivo para a eternidade!


Augusto Abelaira


Os sapatos da irmã


O portão da cerca fecha cedo. Enquanto corre os pesados ferrolhos, o guarda do hospital diz à velha que passa o dia no passeio, acocorada atrás do cesto:
- Eh! Parece que pode fechar a porta por hoje...
- Sim -diz a velha. Já não dá mais nada.
Diz isto, tapa os amendoins, as cavacas, os pacotes de queijadas de Sintra, com uma toalha branca, agarra no cesto, no banco («boas noites»), e desaparece vagarosamente pela rua abaixo.
É a hora de maior sossego. As árvores ficam a ramalhar na sombra e no silêncio. O guarda senta-se à porta da sua casa de madeira, do lado de dentro do portão, com o boné de pala de oleado atirado para a nuca, enrolando cigarros muito finos e fumando-os. Pelos varões do gradeamento, vê-se a rua estreita, sem movimento nenhum a esta hora, e, em frente, o carvoeiro onde se pode beber um copo e petiscar qualquer coisa, quando aparecem caras conhecidas.
O guarda volta a cabeça a sondar a escuridão. No grande edifício, nesta e naquela janela, já luzem, frouxamente, as lâmpadas azuis que ficam acesas nas enfermarias durante toda a noite. Quem andará por ali depois de o portão fechar? Pois quem havia de ser?, pensa o guarda, ao reconhecer o filho do enfermeiro Serafim. Apesar da escuridão, vê o jeito tímido do garoto que se aproxima, de cabeça inclinada para o lado e de mãos apertadas.
- Olá, menino Fernando. Então que temos?
Fernando fica parado: a alguns passos, enrolando as mãos uma na outra.
-Senhor Albino, deixa vir a Angelina brincar um bocadinho?
-Diabo -diz o guarda com desagrado, como sempre. Vocês não sabem que não se pode fazer barulho a esta hora?
Fernando estremece. No meio da noite, a voz do velho parece ainda mais grossa e mais seca. Teme estes enormes bigodes, estas mãos de veias salientes, esta grande boca que nunca ri.
-A gente não fazia barulho, senhor Albino.
E, como vê Angelina aparecer à porta de casa, por detrás do pai, arranja coragem para repetir:
-A gente não fazia barulho...
O velho tosse. Olha para o lado. Dá um pouco de saliva no cigarro, que está em perigo de desenrolar-se. Acende um fósforo.
-A gente não fazia barulho, a gente não fazia barulho. Então que é que vossemecês faziam?
Angelina pousa a mão no ombro dele.
- A gente podia brincar sem fazer barulho, pai...
-Cale-se -diz o guarda, sem olhar para ela. Quem lhe pediu conselho? No meu tempo, os filhos, para falarem, pediam licença primeiro, sua bruta.
E depois dum pedaço:
-O seu pai sabe que o menino veio brincar?
-Sabe, sim senhor.
-Rum... -resmunga o guarda. Aí está uma coisa que custa a acreditar.
Fernando encolhe os ombros, resolvido a ir-se embora. Maldito velho! Começa a voltar-se lentamente. O melhor é ir-se embora. Mas ouve o homem dizer, ríspido, a Angelina:
-Eh! Não ouviu que o menino quer brincar?
Então Angelina salta da porta, passa pela frente do pai, agarra a mão de Fernando e desaparecem os dois a correr, nos bicos dos pés, por entre as árvores da cerca.
A esta hora, a cerca são vultos negros que esbracejam brandamente e raros pedaços de claridade que alastram frouxamente pelo chão. Mas Angelina conhece bem estas ruas, estas árvores, estas sombras. Anda por aqui como em casa. E Fernando também. Mas é bom sentir-se protegido pela mão dela. E, mesmo assim, estremece quando uma porta bate do lado do hospital ou uma folha cai. «És um cagarolas», disse-lhe um dia o Bitá. Protestou. Disse que não. Mas lá por dentro concordava: pois sou, tenho medo, não consigo dominar o medo.
-Menino Fernando, a que é que quer brincar?
Já não correm. Um vento suave sacode-lhes os cabelos e entra agradavelmente pelos calções de Fernando e pela saia enfunada de Angelina. Fernando encolhe os ombros:
-Tanto faz.
Mas ela insiste:
-O menino é que diz, a mim tanto se me dá. Então Fernando lembra-se de ver os rapazes do liceu jogarem ao eixo-ribaldeixo-caramelo-ao-pau-do-eixo e diz:
-Quero jogar ao eixo.
Angelina larga-lhe a mão, entusiasmada:
-Ao eixo? Valeu?
-Tu sabes?
-Então não havia de saber?
Mas Fernando emudece. Já não lhe interessa o eixo. Queria qualquer coisa que Angelina ignorasse, qualquer coisa em que pudesse orientar, mandar. Está farto de ser posto à margem no liceu, farto de ser um garoto que nunca sabe nada que os outros não saibam já um medroso, um menino. Aquele ar triunfante com que o Bitá aparece com uma nova brincadeira e a impõe aos outros, aquele ar des-preocupado com que os colegas desfecham na cara dum novo conhecido: «Não chegas para mim, pá, queres experimentar?», nunca ele o teve. Nunca. Fernando tem medo. Não consegue dominar o medo. O Bitá, então, tem a mania de o atirar para a frente dos outros: «Tens medo dele, pá?» Momento angustiante para Fernando. Cora e diz que não, de garganta seca, que não tem medo, não senhor. Mas os outros voltam-lhe as costas com desprezo: «Estás a cortá-las.» Por isso, Fernando espera sempre com ansiedade este pedaço de noite logo a seguir ao jantar. Nem com a Angelina sairá da mó de baixo? Nem com ela poderá tomar, por momentos, a sua desforra?
Caminham pela cerca, no meio das altas árvores, cujos ramos balouçam com um surdo restolhar de folhas.
-Então não vamos ao eixo?
Não. Fernando já não quer ouvir falar no eixo. Para quê procurar por suas mãos uma nova humilhação? Angelina é mais ágil do que ele. É capaz de saltar mais alto e mais longe. Além de que quer falar-lhe daquilo e há-de ser hoje mesmo que há-de falar-lhe daquilo. Estão junto ao muro que dá para a calçada, donde se abrange grande parte da cidade. Do lado de fora, o muro tem quatro ou cinco metros de alto. Mas, do lado de dentro, terá um metro, quando muito. Fernando senta-se e encolhe os ombros.
-Deixa, ficamos aqui a ver isto.
Angelina senta-se a seu lado e diz que está bem, que também ela gosta de ver aquilo. E ali ficam. Calados.
Fernando olha-a de viés. É mais velha do que ele. De dia para ri ia, o seu corpo avoluma sob o vestido curto e remendado. Ainda não há sinais de peito. Mas as ancas apontam airosas e as pernas morenas, embora rijas, são já bem diferentes das dele e dos outros rapazes. Este é o melhor bocado do dia para Fernando. Nesta altura, esquece Bitá, a sua timidez nas aulas, o pai e a irmã, a voz grossa e as mãos de veias salientes do guarda Albino, esquece até que é menos ágil do que a rapariga que tem ao lado, esquece, esquece. Cresce por dentro. E agora tem um segredo. Tem aquilo a dizer.
Olha os joelhos escalavrados de Angelina, sem saber como entrar no assunto. Nos joelhos de Angelina há uma grande ferida já com a crosta mesmo boa de arrancar. Fará um rodeio? Puxará a conversa disfarçadamente? É melhor assim, disfarçadamente, a pouco e pouco. Mas, com medo de se deixar dominar mais uma vez, pergunta precipitadamente:
-Angelina, és capaz de me fazer o que fizeste ao velho?
Angelina, apanhada de surpresa, foge com os olhos para longe. E, como é preciso uma resposta, faz-se desentendida, a ganhar tempo:
-Qual velho?
-O velho da carroça.
-Ah! -exclama Angelina, nada senhora de si. Como é que sabe?
Fernando respira fundo, feliz. Desta vez, apanhou-a. Ri-se da aflição em que a vê.
-Não interessa. Sei.
E aproveitando este momento de triunfo:
-Fazes ou não fazes?
Angelina não responde logo, hesita, com os olhos nas luzes mais distantes da cidade.
- Mas... para que queira o menino?...
Tem-na na mão. Pela primeira vez na vida, tem alguém na mão.
-Ora! -diz ele. Não gostaste?
-Não.
Espanto do rapaz:
-Não?! Então porque é que fizeste?
E agora é Angelina que ri da parvoíce do rapaz.
-Então não vê que foi por via do chocolate?
Fernando apoia-se nas mãos, arrasta o corpo pelo muro, aproxima-se. Está sentado muito perto dela. Diz-lhe quase no ouvido:
-Porque é que foges quando o vês?
A rapariga encolhe os ombros. Que perguntas!
-Tens medo que ele diga ao teu pai
Será possível que ela não saiba nada disto? Será possível que ela não perceba a razão por que o pai não deve saber que fez aquilo e recebeu o chocolate? Pega na mão de Angelina, coloca-a no seu joelho, um joelho de rapaz, magro e ossudo, que infelizmente não tem nenhuma ferida, nem mesmo um arranhão. Há qualquer coisa que pode ensinar-lhe, qualquer coisa em que poderá ser orientador, mandar. Para lá do muro, a cidade estende-se a seus pés, com milhões de pontos luminosos. Como brilham! Será possível que ela não saiba de nada? Fernando cresce e transfigura-se. Aperta a mão de Angelina.
-Escuta, eu vou-te ensinar.
Mas a rapariga tem um risinho trocista.
-Ensinar o quê? Na escola é que se aprende.
E estende o braço:
-Olhe.
Fernando olha as casas lá em baixo, do outro lado do muro. Há telhados enegrecidos pelas chuvas. Aqui e além, uma mancha menos escura de telhas novas. Janelas, janelas, janelas. E, no peitoril dum último andar, entre vasos e roupa estendida, uma mulher gorda com O braço por cima do pescoço dum homem.
-Sabe quem é aquela?
Fernando tenta ver, apesar da distância e da noite. Certifica-se.
-Sei, é a mulher do Cardoso.
-Pois é -diz Angelina, divertida. E ele, é o Cardoso?
-Não.
-Pois não, é o António da loja, que dorme com ela.
-Mentirosa. Quem te disse?
-Ouvi ao meu pai que tinham dito no carvoeiro.
Fernando morde os lábios.
-E onde está o Cardoso?
-Sei lá -diz ela, encolhendo os ombros. Só sei é que ele dorme com ela.
Os milhões de luzes da cidade perdem o brilho de repente. Fernando olha para a rua que fica ao fundo do muro, mesmo por baixo deles, onde um candeeiro aceso é coisa rara e os vultos passam sem se perceber quem são. Um bêbado sobe a calçada aos tombos, para grande satisfação de Angelina: «Ena pai, Que grande perua!»
Nas costas de Fernando, as árvores balouçam. Árvores soturnas. Árvores que fazem medo. Afinal, ela sabe. Nem isto poderá ensinar-lhe. Nem com ela poderá ter a alegria de ensinar qualquer coisa, mesmo que se trate da coisa mais proibida que até hoje conheceu. Todos sabem tudo. Todos podem tudo. Os colegas desprezam-no. O pai bate-lhe. A irmã mete-o a ridículo de manhã à noite. O guarda do portão intimida-o. Angelina é mais ágil do que ele, sabe mais do que ele, sabe tudo. Uma raiva surda, moinhenta, nasce, cresce, invade-o todo. Nesses momentos, falta-lhe apenas a coragem: fugiria para sempre. Angelina olha o bêbado que não consegue chegar ao topo da calçada.
-Que grande perua que o tipo leva.
E depois:
-Então, menino, quer ou não quer brincar?
Mas Fernando encolhe os ombros:
-Daqui a bocado a gente tem de se ir embora.
-Inda é cedo.
-Pois é...
-Que é? Está com cagaço do seu pai?
Silêncio..
-Está com cagaço, bem?
-Estou.
-Ah! -exclama Angelina. Que cagarola!
Então Fernando volta a cabeça bruscamente.
-Se me chamas isso, eu bato-te.
-O menino?!
Fernando olha-a de lado, enquanto ecoa dentro dele aquele espanto, aquela: ofensa, aquela verdadeira bofetada: «O menino?!» Aperta as mãos uma na outra, uma na outra, cheio de raiva por saber que, de facto, não teria força para lhe bater, nem sequer para experimentar. Cerra os dentes e diz-lhe no ouvido, com ódio e lágrimas na voz:
-Se me chamas cagarola, conto ao teu pai que fizeste aquilo ao velho da carroça.
Angelina arregala os olhos. É um golpe inesperado. Cede:
-Isso não, menino Fernando
-Vais ver.
-Isso não, menino Fernando.
É o seu momento. As luzes voltam a brilhar em toda a cidade. É o seu momento. É talvez o seu único momento. Batendo com os punhos no muro, repete, com maldade:
-Vais ver.
Neste momento é um Bitá. Com o ar dominador e inabalável dum Bitá, insiste na ameaça:
-Vais ver, vais ver.

Então Angelina morde os lábios, tem medo também, procura uma saída:
-Escute, menino Fernando...
E ele, batendo no muro:
-Vais ver, vais ver.
-Escute, menino Fernando, se me der uma tablette das de coroa...
Mas, de súbito, põem-se os dois em pé, a olhar um para o outro. É como se todas as luzes e casas da cidade desaparecessem e os ramos das altas árvores crescessem e se imobilizassem, prontas a cair sobre eles. Um grito perfura o silêncio da cerca: «Fernando!» Uma voz grossa, imperiosa, omnipotente: «Fernando!»
-É o senhor Serafim -murmura Angelina, aterrada, como se toda aquela conversa pudesse ter sido ouvida e ela receasse ainda mais o enfermeiro do que o próprio pai.
Pensa nos dois, perante o inimigo comum. Que irão fazer!
Mas, para Fernando, a Angelina já não existe. Já nada existe senão aquele grito. Baixa a cabeça e, sem dizer adeus, vai direito a casa, ouvindo estalar o saibro das áleas sob os sapatos, que lhe pesam como chumbo. Outra vez: «Fernando!» Quanto mais se demorar, pior. Sabe muito bem o que vai acontecer. Encontraram o caderno, com certeza. Não vê as árvores, as luzes azuis do hospital, a casa logo ali. Ah, se ele tivesse coragem, meu Deus, se ele tivesse a força e o desassombro dum Bitá, seria agora mesmo que desapareceria para sempre. Outra vez: «Fernando!»
Então corre e grita, julga que grita:
-Senhor!
Está à porta de casa. Barrando a entrada. com qualquer coisa na mão, o enfermeiro espera-o. O caderno, pensa Fernando. Sabe que é o caderno e sabe muito bem o que vai acontecer.
-Onde andas tu, malandro?
E, com uma bofetada de mão pesada e certeira, aquele vulto imenso e negro, recortado na luz que vem de dentro, fá-lo entrar em casa duma vez. No escuro, mordendo os dedos, Angelina ouve a porta fechar-se e um grito agudo que galga paredes e janelas e vem morrer no silêncio da cerca.
-Bem -disse Serafim, pousando o cinto em cima da mesa. Sabes agora o que fizeste?
Fernando fita o chão, as tábuas esfregadas de fresco, os muitos sinais de pregos em que nunca tinha reparado.
-Sabes agora o que fizeste?
Fernando deixou de perceber o que se passa. Tem dores por todo o corpo, as pálpebras pesam-lhe, a cabeça também. E, apesar disso, continua a fixar as tábuas esfregadas de fresco. Há três grupos de pregos numa tábua ligeiramente mais larga do que as outras. Três ilhas, um pequeno arquipélago. A seguir, dois pregos isolados. Mais adiante, outro grupo de pregos, outra ilha. Mas tábuas e pregos giram lentamente. Lentamente. Vai cair?
-Falas, ou não? -grita o pai, estendendo a mão para a mesa, onde está o cinto. Um dia rebento contigo, estás a ouvir?
A mão parou antes de tocar no cinto. Voltou atrás. Desistiu. Amélia anda em volta deles, colocando pratos no guarda-louça. Arruma os pratos, em cima, na primeira prateleira, e deseja que tudo acabe depressa. A última vez que o pai lhe bateu com o cinto, Fernando perdeu os sentidos e um médico do hospital disse-lhe que um dia podia matar o rapaz e ser chamado à responsabilidade. «Ora essa?», protestou o pai, mal-humorado, «eu ser chamado à responsabilidade?, por educar um filho?» Mas o médico limitou-se a olhá-lo nos olhos: «Sim, senhor, à responsabilidade.» Amélia nunca mais se esqueceu disso. Fecha a porta do armário e aproxima-se.
-Deixe-o, pai, deixe-o já.
-Deixá-lo? -grita o pai. Então quem é que manda aqui?
-Sim -diz Amélia -, está bem, mas lembre-se de que o pai depois é que pode sofrer. Deixe-o, deite-lhe a rédea em cima, lembre-se de que o pai é que ainda pode sofrer.
Então Serafim deixa-se cair numa cadeira, pega no cinto, volta a pô-lo na mesa, cruza os braços, vencido.
-Bonitos tempos estes. Um homem já não pode nem educar um filho.
O ramalhar das árvores da cerca. Os passos de Amélia na cozinha. Os olhos de Fernando desviam-se das tábuas do soalho, dos seus grupos de pregos, arquipélagos, ilhas, procuram, a medo, os do pai. Terá tudo acabado? Está com medo de rebentar comigo, pensa Fernando, quase feliz. Ele também tem medo... E ouve a voz do pai, contrariada:
-Eu a querer fazer dele um homem, eu a querer metê-lo na ordem, eu a gastar o meu dinheiro...
Ele também tem medo... Terá tudo acabado? Mas Serafim irrita-se de novo, a própria voz o excita, brande o caderno no ar.
-Há quantos dias fizeste este exercício?
-Há quinze.
-Há quinze quê?
-Há quinze dias.
-Há quinze dias quê?
-Há quinze dias, senhor.
Ainda levou poucas, pensa Serafim, enervado. Devia ter levado o dobro. Já um homem não pode educar um filho.
-Bem, hoje não te bato mais, mas isto não fica por aqui, estás a ouvir? Não fica por aqui, entendes?
Serafim está de novo em pé. De novo, grita:
-Quantos valores tiveste no exercício, meu velhaco?
Fernando volta a fixar os três grupos de pregos na tábua ligeiramente mais larga do que as outras, os dois pregos isolados a seguir, os outros grupos de pregos, ilhas, pequenos arquipélagos, mais adiante. Conhece bem o pai. Não tarda que a mão grossa e certeira se estenda de novo para o cinto.
-Não ouves? Mas tu não ouves?! Quantos valores tiveste?
-Quatro.
-Quatro quê?
-Quatro valores.
-Quatro valores quê?
-Quatro valores, senhor.
-Mana -diz Fernando humildemente, sentado na beira da cama, a calçar as peúgas. Mana, eu não posso levar estes sapatos.
Amélia abre e fecha as portas do guarda-fato, pendura o tapete à janela, não fala, não responde. O sol vem lá de fora, do mundo livre e imenso, desce por entre as altas árvores da cerca e estende-se por ali dentro até ao pé descalço de Fernando. Os sapatos de Amélia, de presilhas partidas e saltos cambados, uns sapatos que ela deixou de usar há muito tempo, estão mesmo no meio da doce faixa de luz.
-Eu não posso levar estes sapatos, mana. A mana não vê que eu não posso ir assim para o liceu?
Por fim, Amélia volta-se e diz sem o olhar:
-O pai não disse que os levasse para castigo? Então que quer? Quer que eu faça o contrário do que o pai diz que se faça?
-Ó mana! Mas não vê que é impossível? Não vê que não posso ir com estes sapatos?
E começa a chorar.
-São oito e meia - diz Amélia. Se falta à aula, já sabe o que lhe acontece.
Mas Fernando não pára de chorar e de dizer que não pode. Não pode ir com aqueles sapatos. Não pode e não há-de ir.
- Não há-de?...
Então Amélia abana-o todo, por um ombro, para acabar com aquilo depressa.
-Ai, ai, ai, ou vai a bem ou vai a mal.
E, sem perceber como, Fernando sente-se calçado e empurrado, ouve a porta bater, está já no meio da cerca, empoleirado nos sapatos e com a pasta na mão.
Que bela é a cerca àquela hora! Como as folhas são verdes! Das árvores escoa a frescura saborosa dum novo dia que começa. Cabeças de doentes, com gorros brancos, aparecem às janelas do hospital. Espreitam a vida, que continua para cá das vidraças, recordam, esperam. No outro lado da cerca, um homem que empurra uma maca vazia, cujas rodas chiam contra a areia do chão, diz duas palavras preguiçosas a uma mulher de bata azul e touca muito branca que sai duma porta de serviço com um balde.
Deve estar a fazer-se muito tarde. Fernando tenta equilibrar-se nos sapatos, tropeça, aperta a pasta de encontro ao peito. A primeira grande dificuldade está vencida: saiu o portão sem ser visto por ninguém. Desce toda a calçada sem levantar os olhos. Não ver, ao menos, se o vêem. Mas no fim da calçada, na esquina onde há a barraca do agulheiro dos eléctricos, aparece Angelina, que foi ao pão e ao vinho. Que irá ela pensar? Se Angelina o ajudasse, se ela pudesse protegê-lo! Mas a garota dá com os olhos nele e desata a rir como uma louca.
-Que reinadio que o menino vai...parece uma coruja!
-Angelina -diz Fernando com as lágrimas nos olhos -, não faças pouco...
-Foi de castigo?
-Foi, não faças pouco...
-E o menino vai assim para o liceu? -pergunta ela, sem conseguir conter o riso.
-Vou. E tu... vai para o diabo.
E põe-se a andar, tão depressa quanto pode. Desequilibra-se, pára, endireita o sapato, recomeça. Não se volta. Não lhe interessa nada, inteiramente nada, o que Angelina pense. O que lhe interessa é desaparecer depressa daquela rua, evitar as pessoas conhecidas, passar despercebido. Vê nos vidros das montras a sua figura grotesca, de cabelos caídos para os olhos, curvada ao peso da pasta, equilibrando-se com dificuldade: nos saltos dos sapatos. Mas continua. Leva os olhos no chão. Aqui o movimento é muito grande e ele, ninguém. Automóveis, eléctricos, outros pés, outros sapatos, gente livre. Abrem-se as primeiras lojas. Ao barulho das pessoas apressadas e dos carros junta-se o estardalhaço das portas onduladas que correm e o raspar das vassouras dos marçanos nos passeios. Fernando volta uma esquina. E outra. Ainda outra. E, ao atravessar uma ruazinha estreita, mais ou menos solitária, que conduz ao largo do liceu, sente uns dedos no braço.
-Bom dia, pá.
É o Gabriel, seu companheiro de carteira. Que irá acontecer? Mas Gabriel dá-lhe o braço e fala com amizade:
-Foi castigo do teu pai, pá?
Fernando faz que sim com a cabeça.
-Não há direito, pá, é indecente.
Caminham, lado a lado, silenciosos. Ao chegarem ao largo do liceu, Fernando pára, agarrado ao bra-ço do outro.
-Gabriel.
-Anda, pá, não te rales.
-Eles vão fazer troça, Gabriel.
Está lívido. É o momento mais infeliz da sua vida. Antes o pai tivesse continuado a bater-lhe. Antes lhe tivesse dado até matá-lo. Tudo era preferível a aparecer no liceu com sapatos de mulher.
-Vais ver que não - diz o outro, hesitante. Não tenhas medo. Talvez não.
Palavras novas para Fernando. Com que prazer as ouve! Nunca ninguém lhe falou assim. Talvez Gabriel esteja disposto a bater-se por ele. Talvez, juntos, possam fazer frente ao Bitá e aos outros. Os músculos das pernas doem-lhe muito. Afasta em vão os cabelos da testa. E entretanto, chegam. Atravessam a rua, com os olhos nos grupos de rapazes que, encostados ao gradeamento, debaixo das amoreiras e dos plátanos, conversam, riem. Têm sempre conversa. Riem sempre.
-Vais ver que não fazem nada -diz Gabriel.
Mas Bitá, aquele malvado do Bitá, já os viu. Sai do grupo em que estava, aproxima-se com o desembaraço do costume, os livros apertados numa correia, de blusa de malha de seda azul e belas calças à golf, que estão na moda. Pára a alguns metros, a olhar. Depois é o Carlos do terceiro ano que o vê. Depois o António. Depois o Raul. E, a pouco e pouco, todos se viram para Fernando, descobrem com espanto os velhos sapatos de Amélia e ficam-se a olhá-lo, silenciosos. Será possível? Será possível que eles compreendam tudo e não se metam comigo?
Mas é um momento só. Os olhos dos rapazes cruzam-se uns com os outros, indecisos ainda. Que história é aquela? Cotoveladas. Alguém diz: «Que giro que o puto vem.» E começam. Um riso manso, primeiro. Depois o riso sobe, alastra, levando tudo à sua frente. É já uma surriada monstruosa à porta do liceu. Gabriel quer fazê-los parar, levanta os braços. Mas ninguém lhe dá atenção, ninguém o vê, ele próprio sorri contra vontade e acaba por rir, às gargalhadas, do ar grotesco do companheiro de carteira.
Fernando queria fugir, desaparecer dali, voar. Mas, ao contrário, sem saber como, avança um passo. E isto é tão extraordinário que ele mesmo se espanta. Onde estará o Gabriel? Procura-o desespera-damente com os olhos. Gabriel. Gabriel. E, num relance, vê-o no meio dos outros, a rir também, a rir tanto como eles.
-Que bem gozado!
-Eh, maricas!
-Eh, coruja!
Fernando dá outro passo. Tem o Bitá diante de si, com a sua blusa de malha de seda e as suas cal-ças de golf, vermelho de tanto rir. Blusa de seda, pensa Fernando com desprezo. Todo ele é raiva, desespero, vontade de bater, de morder, de vingar-se. Ajeita a pasta na mão, toma balanço e atira-a à cabeça do primeiro. Mas erra o alvo e a pasta cai no chão, a pouca distância dele, levantando terra. A surriada aumenta. Bitá, excitadíssimo, põe-se a gritar:
-Ena, pá, o tipo está teso.
E outras vozes:
-Está, pá, a Fernandinha está com genica.
Fernando olha em volta, procurando. É uma pedra que ele quer, uma pedra pesada e bem esquinada. Abrir a cabeça ao Bitá. Ou, então, ao Gabriel. Àquele bandido do Gabriel. Mas das portas do liceu irrompe o som estridente duma campainha. Um som alegre e prolongado que domina tudo. Os rapazes desinteressam-se de Fernando, pegam nas pastas, enfiam pelas portas. E ele fica a vê-los desaparecer, a ouvir os passos dos últimos que atravessam o pátio. Até que a campainha cessa, se vê completamente só debaixo dos plátanos e resolve sentar-se na beira do passeio, de costas para o edifício, com a pasta nos joelhos.
-Não vens para a aula. Fernando?
A voz de Gabriel. Fernando continua sentado, com os olhos na faixa de rodagem. E como o outro insiste -«Não vens, pá? Olha que apanhas falta» -, responde, sem se voltar:
-Vá para o raio que o parta, seu maricas.
Agora sim, está completamente só. Nenhum ruído atrás dele. Lá dentro, o Dr. Silveira deve ver neste momento quem falta e vai escrever o seu número no livro do ponto. E o Bitá, o Gabriel, os outros todos, devem rir-se ainda dos seus malditos sapatos e da figura ridícula que fez. Que tenho eu a ver com eles? Fatos bonitos, na última moda, pastas novas. São fortes, saudáveis, entendem-se às mil maravilhas uns com os outros. Que tenho eu a ver com eles?
No passeio, a seu lado, estende-se uma sombra longa de mais para ser dum colega. É um contínuo, o Antunes. A sua voz é grave, compreensiva, paternal:
-Ande lá. Já sabe que não pode estar aqui durante as aulas. Venha para dentro.
Mas Fernando já tomou a sua resolução, diz que não vai à aula, que não quer saber da aula para nada.
-Ande lá, eu peço ao professor que lhe tire a falta.
Fernando não responde. Levanta-se, agarrado à sua pasta. Começa a andar.
-Venha cá - insiste o contínuo. Onde é que vai?
Fernando continua, não se volta, dobra a esquina do liceu, atravessa a rua. E outra. E outra. Até Angelina fez troça. E o Gabriel, que bandido!
Quantas ruas já atravessou? A que distância está do liceu? E de casa? Agora chega ao fim duma tra-vessa muito estreita, muito íngreme. E, logo a seguir, enorme e cheio de luz, tem o rio na sua frente. Entre ele e o rio, uma avenida larga. Camiões barulhentos seguem por ali fora, para um lado, para o outro, carregados de fardos, de ferros, de caixotes. Fernando espera que passe esta carroça sonolenta e atravessa também a avenida. Depois, a linha do comboio. Depois, duas ou três ruelas, entre longos barracões que cheiram a peixe e alcatrão. Ágora está mesmo na orla da muralha, junto ao rio. Barcaças ancoradas. Mastros. Velas. E um pensamento diverte-o. O pai é capaz de pôr-lhe o retrato no jornal: DESAPARECIDO -Desapareceu de casa de seu pai o menino Fernando... O nome e o retrato nos jornais. O Bitá há-de vê-lo, o Gabriel, os professores o guarda do hospital, a Angelina. E, ao lembrar-se do pai, vê na sua frente um homem de bata branca, aos gritos, zurzindo-o com o cinto. Ao pensar na irmã, vê aquela cara rancorosa: «Ai, ai, ai, ou vai a bem ou vai a mal.» Ao dizer Angelina, vê uma rapariguinha de expressão trocista: «Que cagarola!» Bitá, um inimigo. Gabriel, um traidor. Que tenho eu a ver com eles?
Rio enorme! Rio imenso e livre! Que profusão de luz! Que milhões de espelhos! Será já meio-dia? Onze e meia? Que lhe interessa? Encostado à muralha, há um grande barco de casco negro. E, na muralha, um guindaste gigante gira sobre si mesmo lentamente, carregando-o de caixotes do tama-nho de casas, com grandes letras negras. New-York. Havre. Liverpool. Outras terras, outra gente, encontrar um amigo, ir num desses caixotes, ir, ir, desaparecer. Entre o barco e o guindaste gigante, camiões rolam e roncam. Apitos. A sereia dum rebocador.
Fernando sente o cheiro da maresia, aspira-o profundamente, vê homens que passam em fila, carre-gando fardos, um guarda fiscal ao longe, vigiando. Só foi pena não ter agarrado a tempo uma pedra pesada e bem esquinada. A brisa afasta-lhe os cabelos da testa. É bom estar aqui, tão perto da água, ouvindo-a bater lá em baixo, contra a muralha, olhando, descobrindo. Um homem e um garoto da sua idade aproximam-se. O homem traz alparcatas. O garoto vem descalço, aos pulinhos para poder acompanhá-lo.
-Estás maluco. Não vês que para isso tínhamos também de comprar pão?
-Então porque não compra sardinhas, pai? Passam por ele sem o verem.
-Sardinhas também não, estão muito magras, não se podem comer sem azeite.
Fernando vê-os agora de costas e já não percebe o que dizem. Depressa os perde de vista, na con-fusão de carroças e camiões que atravancam o cais. Um pai e um filho.
Na pedra da muralha ficaram os sinais dos pés molhados do garoto, que o sol faz desaparecer em poucos minutos. Outro rapaz, também descalço, vem do lado contrário, com duas latas de gasolina na mão, assobiando. E deixa também na pedra as marcas dos pés molhados que o sol depressa apaga.
Fernando senta-se, então, e descalça os sapatos cambadas da irmã. Depois, as meias. Esconde a pasta cuidadosamente atrás duma barrica de cal e põe as meias e os sapatos sobre a pasta. Certifi-ca-se de que ninguém deu por isso e recomeça a andar pela muralha fora. Os pés estranham a dure-za da pedra quentíssima do sol. É bom sentir essa dureza, esse calor. Desapareceu de casa de seu pai...
Na sua frente, cada vez mais perto, cada vez maiores, estão outros barracões, outros cascos enor-mes, outros guindastes, outros garotos descalços. Uns tijolos dos barracões são mais vermelhos do que outros e o sol bate de chapa nas grandes vidraças partidas.


Mário Dionísio, in Dia Cinzento e Outros Contos


Um nosso semelhante



Leonel Badanas, o bombeiro, acaba de vestir a farda cheia de botões dourados. Está diante do espelho e põe de várias maneiras o rebrilhante capacete. Vira-se para um lado e para outro. Torna a mudar-lhe a posição sem se decidir por nenhuma. Mas, como não tem pressa, ainda teima em pôr de acordo aquele extraordinário chapéu com a alevantada e grave expressão do rosto. Por fim, já com os músculos da cara doridos, sai, muito embora não vá plenamente satisfeito.
Na rua, alarga um passo de ginasta e adianta o peito; a espinha flecte em arco, pondo em grande relevo as nádegas magras. Apesar disso, Leonel Badanas sacode os braços com arrogância. Tem assim como que uns longes de galo, de asas meio abertas, chispando raios de sol da luzidia crista.
De repente, ao voltar da esquina, tropeça numa súbita ideia, e tudo aquilo se desfaz. Equilibra-se a custo: fica uma farda amarrotada; lá dentro, um homenzinho mirrado com uma enorme campânula amarela na cabeça.
Desalentado, o bombeiro retrocede. Empurra a porta de casa e grita, levantando lentamente as mãos:
- Onde está a minha medalha ? Do quarto sai uma mulher de feição apagada e receosa:
- Estive a areá-la. ..Esqueci-me. ..
- Vai buscá-la, mulher! "Que irritação! Por um pouco, e entrava no jardim sem a medalha! No jardim, onde está toda a gente da vila, na grande festa a favor das Florinhas da Rua! ..." E, mesmo agora, enquanto a mulher lhe cose na farda a fitinha que segura a medalha, ele a descompõe. De instante a instante, repete:
- Olha se eu me esquecesse, hem! De novo na rua, volta ao passo largo e seco; peito arqueado, nádegas saídas. Dependurada da farda, a medalhinha branca agita-se em movimentos desordena- dos. E reluz ao Sol, num alegre desafio com o capacete.
Esta medalha ganhou-a ele no último Inverno. Os bombeiros formaram em parada diante da casa-esqueleto onde fazem exercícios ao domingo. O povo, rodeando as individualidades mais representativas, assistiu. E, após ter falado cerca de dez minutos, o comandante dos Voluntários parecia muito comovido; depois de condecorar o bom do Leonel, abraçou-o carinhosamente.
Em seguida, o presidente da Câmara desenrolou uma folha de papel, pôs as , lunetas, e começou a ler num estranho tom de voz, áspero e sacudido. Louvou o Badanas, comparou-o com os mais abnegados heróis da humanidade, enalteceu a corporação e o seu chefe. Espraiou-se sobre as belezas da paisagem em redor da vila, falou das riquezas agrícolas do concelho, elogiou de novo Badanas. E, com palavras ainda mais sacudidas e ásperas, disse que ia dar uma grande novidade: em breve, os Voluntários teriam, enfim, a sua autobomba!
Apesar de esta informação não constituir surpresa para ninguém, a assistência rejubilou. Enquanto as palmas reboavam, todos se voltaram enternecidos para o Leonel Badanas. Em sentido, rígido como uma estaca espetada no chão, debaixo do capacete amarelo, Badanas, de pálpebra caída, fitava modestamente os barrotes da casa-esqueleto.
Vai à mulher e empurra-a para dentro do casebre. Volta-se de braços erguidos:
- E eu? Que me deu você? Nem a ponta dum corno! Em que é que você é meu pai, diga lá?
O mendigo vai recuando. E, sem tirar a mão de entre as pernas, cauteloso pela descida que o atalho faz até à entrada, toma a direcção da vila. Atravessa-a sempre de olhar fixo. E desaparece ao longe, enrolado no vento e na noite que cresce sobre a planície.
Volta no outro dia, batendo de porta em porta -como não é sábado, nada lhe dão. Pelo meio-dia, escorrega rente à parede da venda do largo. Ajeita-se melhor, todo dobrado, a barba contra os joelhos.
Parecem de cego os olhos que a fome tornou baços; parados, nada vêem. Assim a mesma quietude por todo o corpo, como se a imobilidade da morte lhe houvesse tocado no coração.
Um camponês passa pelo Rana, olha-o atentamente, e entra na venda:
- Sabem quem é esse que está aí fora ?
Dois homens afastam-se até à porta. Devagar, examinam o mendigo coberto de farrapos.
- Ná -diz um deles. -Não o conheço.
O camponês está junto do balcão, de costas para a rua:
-É o Rana.
Vira-se, e repete:
- O Rana, um que, por último, trabalhava na herdade da Salgada.
-Tem razão -diz o dono da venda, encostando-se ao mostrador. - Vi-o andar por aqui, ontem, e não o reconheci. Olha quem me havia de dizer que o Rana, um homem de trabalho. ..
- É verdade -recomeça o camponês, sorrindo contrafeito. - Trabalhou sempre. E, agora, a pedir.
Baixa a cabeça; o rosto some-se-lhe sob a aba do chapéu:
- Encha-me aí um copo, mestre Zé. Endireita-se, e fita os dois homens:
-Vocês já pensaram que, quando a gente não prestar para nada. ..
Cala-se. No silêncio, ouve-se a torneira do barril ranger; depois, o vinho escorrendo para o copo.
Fora, pesadas nuvens negras escurecem o dia muito antes do Sol desaparecer, e a ventania gelada varre o largo deserto. Os camponeses saem da venda a caminho de casa. Apenas o Rana continua sentado junto da parede.
Súbito, atira a mão para a frente e ergue-se, trémulo. Deixa abandonados no chão os seus únicos bens: a vara e o saco vazio. E, de braços abertos, caminha, inseguro e desolado, como os ébrios. Perto do poço que há a um canto do largo a dor trava-lhe os pés. Cuidadosamente, ajeita o intestino entre as pernas; encosta-se ao bocal, com o braço livre puxa o corpo, e tomba para dentro.
A pancada na água ressoa no largo. Aparece gente, correndo.
Leonel Badanas é o primeiro a debruçar-se sobre o bocal; logo que os olhos se habituam ao escuro do poço, grita:
-Teve sorte, o raio do velho!
Todos vêem agora o Rana, ansiado, de boca aberta, como para vomitar. A água dá-lhe pelos ombros. Então, compreendem a frase do Badanas. O velho caiu no estrado de madeira que apanha metade do círculo do poço, um pouco abaixo do nível da água, e serve para os trabalhos de limpeza quando, no Verão, a nascente enfraquece.
Dirigindo o salvamento, Leonel Badanas dá ordens. Vem uma escada; descem-na até ao estrado, e o bombeiro prepara-se para saltar, quando lhe ocorre uma ideia. Para quê molhar-se com um frio daqueles? E, seguindo o curso do pensamento, ordena ao mendigo:
-Sobe, maroto !
A cabeça do Rana desaparece debaixo da água. Por momentos, cresce a expectativa em volta do bocal. Badana ainda sobe para a escada, mas de novo estaca. Nesse instante, a cabeça do mendigo. reaparece. A água escorre-lhe da boca e das barbas.
- Sobe, malandro! - grita Leonel, Badanas. - Senão vou lá abaixo!
Reanimado, o Rana volta a mergulhar. Quer morrer e, no entanto, já sob a água, no último momento, não consegue evitar aquele retesamento de músculos que lhe estica imperiosamente o corpo. Respira de novo o bom ar da vida, e o primeiro movimento é a mão que o faz, introduzindo-se entre as pernas, compondo a quebradura.
Badanas corre à venda e volta com uma comprida vara. Intima o mendigo a subir; como este se não resolve, aplica-lhe uma varada na cabeça.
-Sobes ou mato-te, patife!
As pancadas sucedem-se umas às outras. O velho mete a cabeça debaixo de água: vem a aflição da asfixia. Ergue-se: cá fora espera-o uma varada. Estonteado, por fim sobe a escada, de mão na virilha, gemendo.
-Malandro, que te mato! - grita o bombeiro, de vara no ar.
Levam-no até à Câmara Municipal. O presidente adianta-se e, com os modos carrancudos de sempre, começa a falar ao Badanas. Nos olhos do mendigo abre-se um luaceiro de esperança; decerto, iam castigar aquele maldito que o não deixara aquietar-se de vez. Mas tudo acaba de modo diferente. O presidente aperta a mão do bombeiro:
-Vai então ganhar a medalha, hem? Merece-a. Salvou um homem.
Assim veio a acontecer. Datava de há muito pouco a corporação dos Voluntários e de modo nenhum se deixaria passar aquela esplêndida oportunidade para lhe justificar os préstimos. O próprio comandante já ali estava a tomar nota do caso. E Leonel Badanas baixa os olhos, cheio da natural modéstia dos homens decididos.
Nesse momento, alguém ergue o Rana por debaixo dos sovacos. É o carcereiro. Pingando água, de mão entre as pernas, o mendigo é arrastado como um saco para dentro da cadeia.
Não assistiu à cerimónia junto da casa-esqueleto onde os bombeiros fazem exercícios aos domingos, nem teve notícia dos discursos em louvor do "salvamento de um nosso semelhante", pois foi posto na rua e enxotado para fora do concelho dois dias depois de preso. Antes disso, no entanto, ainda ficou por largo tempo olhando de longe para as grades da cadeia.
Tinham-lhe dado de comer enquanto lá estivera.


Manuel da Fonseca in O Fogo e as Cinzas




O vagabundo na esplanada




A surpresa, de mistura com um indefinido receio e o imediato desejo de mais acautelada perspectiva de observação, levava os transeuntes a afastarem-se de esguelha para os lados do passeio. Pela clareira que se abria, o vagabundo, de mãos nos bolsos das calças, vinha, despreocupadamente, avenida abaixo. Cerca de cinquenta anos, atarracado, magro, tudo nele era limpo, mas velho e cheio de remendos. Sobre a esburacada camisola interior, o casaco, puído nos cotovelos e demasiado grande, caía-lhe dos ombros em largas pregas, que ondulavam atrás das costas ao ritmo lento da: passada. Desfiadas nos joelhos, muito curtas, as calças deixavam à mostra as canelas, nuas, finas de osso e nervo, saídas como duas ripas dos sapatos cambados. Caído para a nuca, copa achatada, aba às ondas, o chapéu semelhava uma auréola alvacenta. Apesar de tudo isso, o rosto largo e anguloso do homem, de onde os olhos azuis-claros irradiavam como que um sorriso de luminosa ironia e compreensivo perdão, erguia-se, intacto e distante, numa serena dignidade. Era assim, ao que se via, o seu natural comportamento de caminhar pela cidade.

Alheado, mas condescendente, seguia pelo centro do passeio com a distraída segurança de um milionário que obviamente se está nas tintas para quem passa. Não só por educação mas também pelo simples motivo de ter mais e melhor em que pensar. O que não sucedia aos transeuntes. Os quais, incrédulos ao primeiro relance, se desviavam, oblíquos, da de ambulante causa do seu espanto. E à vista do que lhes parecia um homem livre de sujeições, senhor de si próprio em qualquer circunstância e lugar, logo, por contraste, lhes ocorriam todos os problemas, todos os compadrios, todas as obrigações que os enrodilhavam. E sempre submersos de prepotências, sempre humilhados e sempre a fingir que nada disso lhes acontecia. Num instante, embora se desconhecessem, aliava-os a unânime má vontade contra quem tão vincadamente os afrontava em plena rua. Pronta, a vingança surgia. Falavam dos sapatos cambados, do fato de remendos, do ridículo chapéu. Consolava-os imaginar os frios, as chuvas e as fomes que o homem havia de sofrer. No entanto, alguém disse:

- Devia ser proibido que indivíduos destes andassem pela cidade.

E assim, resmungando, se dispersavam, cada um às suas obrigações, aos seus problemas. Sem dar por tal, o homem seguia adiante. Junto dos Restauradores, a esplanada atraiu-lhe a atenção. De cabeça inclinada para trás, pálpebras baixas, catou pelos bolsos umas tantas moedas, que pôs na palma da mão. Com o dedo esticado, separou-as, contando-as conscienciosamente. Aguardou o sinal de passagem, e saiu da sombra dos prédios para o Sol da tarde quente de Verão. A meio da esplanada havia uma mesa livre. Com o à-vontade de um frequenta dor habitual, o homem sentou-se. Após acomodar-se o melhor que o feitio da cadeira de ferro consentia, tirou os pés dos sapatos, espalmou-os contra a frescura do empedrado, sob o toldo. As rugas abriram-lhe no rosto curtido pelas soalheiras um sorriso de bem-estar. Mas o fato e os modos da sua chegada haviam despertado nos ocupantes da esplanada, mulheres e homens, uma turbulência de expressões desaprovadoras. Ao desassossego de semelhante atrevimento sucedera a indignação. Ausente, o homem entregava-se ao prazer de refrescar os pés cansados, quando um inesperado golpe de vento ergueu do chão a folha inteira de um jornal, e enrolou-lha nas canelas. O homem apanhou-a, abriu-a. Estendeu as pernas, cruzou um pé sobre o outro. Céptico, mas curioso, pôs-se a ler. O facto, de si tão discreto, pareceu constituir a máxima ofensa para os presentes. Franzidos, empertigaram-se, circunvagando os olhos, como se gritassem: «Pois não há um empregado que venha expulsar daqui este tipo!» Nas caras, descompostas pelo desorbitado melindre, havia o que quer que fosse de recalcada, hedionda raiva contra o homem mal vestido e tranquilo, que lia o jornal na esplanada.

Um rapaz aproximou-se. Casaco branco, bandeja sob o braço, muito senhor do seu dever. Mas, ao reparar no rosto do homem, tartamudeou:

- Não pode...

E calou-se. O homem olhava-o com atenta benevolência.

- Disse?

- É reservado o direito de admissão - tornou o rapaz, hesitando.

- Está além escrito.

Depois de ler o dístico, o homem, com a placidez de quem, por mera distracção, se dispõe a aprender mais um dos confusos costumes da cidade, perguntou:

- Que direito vem a ser esse?

- Bem... -volveu o empregado. - A gerência não admite... Não podem vir aqui certas pessoas.

- E é a mim que vem dizer isso?

O homem estava deveras surpreendido. Encolhendo os ombros, como quem se presta a um sacrifício, deu uma mirada pelas caras dos circunstantes. O azul-claro dos olhos embaciou-se-lhe.

-Talvez que a gerência tenha razão -concluiu ele, em tom baixo e magoado. - Aqui para nós, também me não parecem lá grande coisa.

O empregado nem podia falar .

Conciliador, já a preparar-se para continuar a leitura do jornal, o homem colocou as moedas sobre a mesa, e pediu, delicadamente:

-Traga-me uma cerveja fresca, se faz favor. E diga à gerência que os deixe ficar. Por mim, não me importo.


Manuel da Fonseca in Tempo de Solidão. 1973


18/09/2008

Ramiro


Ewes and Their Newborn Lambs Photographic Print by Stephen Alvarez


- Deus nos dê muito bons dias!
Quem passava até mudava de cor. Fazia-se-lhe a alma pequena só de ouvir em tal ermo uma resposta assim. É que metia medo!
Felizmente que não se tratava de ladrão. Ramiro, depois daquela salvação dada por entre os dentes, deixava-se ficar quieto, bambo, apoiado na foice roçadoira, com os olhos baços parados sobre a brancura do rebanho. Ramiro era pastor.
Aos domingos, no adro da Igreja, o Manuel Pelinhas, que tinha o coração na boca, mais de uma vez lhe foi à mão.
- A modos que te custam dinheiro as palavras!...
Mas Ramiro, depois de cada remoque, continuava calado, e calado ouvia o padre João rezar missa. No fim, se havia ladainha, não respondia; se do altar vinha ordem para os homens cantarem no Tantum Ergo, não cantava.
A alma enchera-se-lhe de silêncio em vinte anos de Marão. Naquela grande aridez, só a vida que pulsava sem ruído conseguia triunfar. A chamiça, a carqueja, o tojo molar, as lagartixas, as cobras e os saltaricos cresciam no mesmo cauteloso mutismo. No Março, a torga floria. Mas não chegava esse alarido de cor para acordar as fragas. E a lição que Ramiro recebia diariamente era a de uma irremediável afonia cósmica, de vez em quando quebrada pelo balido monossilábico dum cordeiro que se ficava esquecido a olhar um seixo, ou pelos uivos do Rilha que, pressuroso, dava sinais de lobo. Por isso, em vez de fala, usava outra linguagem: um assobio seco, estridente, instantâneo, que atirava com a mesma violência à cara dos interlocutores e às reses tresmalhadas. O apito, saído dos beiços com o ímpeto dum arremesso, entrava nos ouvidos como um punhal. Quase que fazia sangrar os tímpanos.
- E queres tu, com esse chamadoiro, que a Rosa te venha ao redil!
Queria, realmente. Quando passava por ela, comia-a com os olhos. Desgraçadamente, não sabia formular doutra maneira o desejo que o roía. E, por mais que a Mãe lhe preparasse o terreno, continuava solteiro, à míngua de expressão.
Pela manhã, erguia-se antes do próprio laboreiro. Mas nem pedia a bênção à pobre tia Etelvina, que considerava aquele filho um castigo de Deus, nem dava bons dias ao rebanho. Um assobio apenas. E com ele avisava a velha e os cordeiros de que eram horas. A infeliz vinha entregar-lhe a merenda, e o gado punha-se de perna alerta. De aí a nada, a procissão estava em andamento a caminho do Marão - o deserto do som. E sozinho. De livre vontade, nunca emparceirava. A regra era ir sempre desacompanhado, mesmo que levasse o gado até aos confins da serra.
- Haverá pasto na Gralheira?
- Han...
Nada mais. Quem quisesse, fosse ver. Continuava distante, absorto, de beiços cosidos. Se acontecia encontrar-se com outros colegas na mesma encosta, e não conseguia arredar-se, ou lhe não convinha, deixava-se ficar sem abrir a boca, como se não desse sequer pela presença do intruso.
Assim sucedeu naquele dia. O Ruela apareceu, e os malatos que andava a engordar entraram de repelão pelo rebanho dele. Não tugiu nem mugiu. E nessa situação se manteve horas a fio, até que a desgraça se deu. Mesmo depois, no remate da tragédia, nada disse. À justificação do Ruela, respondeu com maior dureza no olhar. E, quando levantou a foice, foi também em silêncio, como se fosse cumprir um voto.
- À salvação, que não lhe quis acertar!
Mas Ramiro estava perdido. A Mimosa era a mais bela ovelha de Arca. E vê-la assim, estendida e morta, ia além das forças da sua compreensão.
- Acredita que o fiz sem querer!
O coitado do Ruela, ao tornar o gado, puxou demais à mão. O certo é que tal pedrada mandou à barriga da cordeira, que a desgraçada, prenha como uma vaca, abortou e morreu. Não foi logo na ocasião. Só passadas algumas horas é que se pôs a berrar, a berrar, num desespero que parecia de criatura. A berrar e a escoar-se em sangue.
Enquanto durou a agonia, Ramiro apertava o cabo da foice, numa raiva açaimada. A própria vermelhidão que lhe alastrava nos olhos mostrava esse esforço de contenção. Infelizmente, deu-se o pior... O coração da churra, às tantas, parou de bater. E não teve mão no génio.
- Pela alma de quem lá tens, Ramiro!
O apelo, de ilimitada angústia, saiu com o fervor de uma oração do peito opresso do condenado. Mas a lâmina vinha no ar como um destino. E o grito de terror não encontrou eco. Vogou incerto pela serra além, e perdeu-se a seguir numa quebrada. A eternidade de tal instante tinha de ser assim, para que Ramiro estivesse certo consigo. A sua alma era muda como um túmulo. No instante em que a foice ia cair em cheio na cabeça do Ruela, os próprios montes pareceram siderados de espanto. Simplesmente, mais do que nunca, agora, a boca de Ramiro estava fechada. Larga e fina, lembrava um longo golpe cicatrizado. No rosto maciço, falar, só os olhos abertos. Inteiramente em sangue, apenas eles exprimiam uma determinação sem remédio, feroz, onde não havia lugar para nenhum perdão.
E, sobre a morte inocente daquele homem, apenas se ouviu, num instante fugidio, um assobio seco, agudo, a chamar o rebanho para o curral.

Miguel Torga, Os Bichos


17/09/2008

À Lareira

A António de Albuquerque

Louvado seja Deus, aquela casa da Tia Maria Lorna era das mais remediadas lá da aldeia, e até das mais alegres. Tinha por fora uma varanda de pedra para onde se subia por degraus também de pedra; em baixo as lojas, onde os laregos e uma burra se arrumavam; a tulha; uma despensa; e ao lado, arrumada a ela, a grande curralada dos bois, enorme, atulhada de feno e de palha nas sobrelojas, com uma quadra muito espaçosa para as ovelhas, quando as ovelhas não pernoitavam pelas terras, farta manjedoura pràs vacas, e a um recanto, no chão, a cama onde ficava o moço. Na varanda, estava sempre o Caramujo, um demónio de cão pequeno muito assanhado, ruivo de cor, que levava os dias a ladrar muito enraivado, porque não havia ninguém que por aí passasse que não tivesse que contender com o Caramujo.
– Eh, mal-encarado! Eh, inimigo!
Lá por dentro, a casa da Tia Maria Lorna podia-se ver. Tudo arrumado, as coisas todas no seu lugar. A Comadre Aniceta chamava-lhe até «um oratório» e não se fartava de mirar tudo, de reparar com reverência naquele arranjo de todas as coisas, e se ia à despensa até se benzia:
– Nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo! Ora não há! Assim, até parece que faz gosto a gente viver, só pra se regalar de ver este asseio!
– Do meu corpo me sai, comadre! Do meu
corpo me sai! – dizia-lhe muito enlevada a velhota.
– Bem se lembra como a gente principiou: – pobrezinhos...
A Sr.ª Aniceta começava a limpar os olhos com o mandil.
– Para o meu José mercar aos irmãos as duas sortes que tinham nesta casa – continuava a Tia
Maria –, sabe Deus, sabe Deus! Trabalhou muito, chorámos ambos muita lágrima, prô ganhar...
Lacrimejava, a Sr.ª Aniceta.
– E depois compô-la, arranjá-la?
A comadre fazia que sim com a cabeça, de um modo que bem se via ponderar as dificuldades, as terríveis dificuldades da empresa...
– Começaram a vir os filhos... – Ó Ana, Ana! – chamava ela lá para cima – traz cá depressa o gato, que parece que vi um leirão no meio das talhas.
Confessava a Sr.ª Comadre que os ratos eram uns inimigos: –«só o que eles roubavam à nossa boca...»
– E depois feios?! – dizia a Sr.ª Aniceta cheia de nojo, tirando a tampa à sua caixinha redonda de lata, onde trazia muito moídas as pontas das cigarrilhas do seu José. – Uma pitada, minha comadrinha, sempre alivia as memórias – dizia ela oferecendo a caixa.
Mas começaram a vir os filhos: primeiro a Teresa, depois o José, logo pelo S. João do outro ano o Francisquinho que nos morreu, depois a Ana, e já se v& que não havia remédio senão ir aumentando o buraquinho...
– Ora viva a linda flor! – cumprimentou a rir a Sr.ª Aniceta, festejando a filha da sua comadre, que chegava com o gato dependurado.
– Mete-o ali, anda – dizia-lhe a mãe. – Ai não... entre essas duas talhas... mais adiante...
– Ó minha mãe! – replicou-lhe zangada a rapariga. – Vossemecê é melhor agarrar o leirão, e metê-lo aqui na boca do gato.
Ria a Sr.ª Aniceta enquanto a Ana desandava outra vez para o seu serviço, não olhando sequer para nenhuma delas. Embirrava com a Aniceta; – foi dizer à irmã que estava lá em baixo e enzoneira.
– Pois já se não vai sem levar maquia! – acudia logo a Teresa.
E para empontar a criatura pôs-se logo a chamar pela mãe:
– Ó minha mãe, minha mãe! Olhe que se vão fazendo horas de mandar o jantar ao pai.
– Vou-me lá, vou-me lá, minha comadrinha!
Demais a mais, trazemos obreiros, e inda não é tanto pelo meu José; mas o rapaz, se ouve tocar ao meio-dia, e não vê lá a cesta do jantar, à noite ninguém o atura!
– Pois vá, vá! – fazia logo a outra, despedindo-se. E respondendo à conversa em que estavam, ainda rogou outra praga aos invejosos.
– Pois olhe que os tivemos, comadrinha! Essa curralada aí fora, olhe que nos está num ror de dinheiro – concluiu, rodando a chave da despensa, a boa da Tia Maria Lorna.
Escondeu a Sr.ª Aniceta, debaixo do mandil, o pedaço do unto que já levava, embrulhado numa folha de couve, e lá se foi rogando bênçãos:
– Nosso Senhor lho aumente, minha comadrinha, mais aos seus filhos e ao seu homem!
– Adeus, comadre, adeus! – E ainda por cima desculpava-se: – É pouco, mas de boa mente.
Quando subiu, não olhou para as filhas, que também não olharam para ela. Tinham visto da janela sair com as mãos debaixo do avental a «comadrinha». Mas daí por um instante, quando o argadilho já rangia porque a Tia Maria se sentara a dobar, a Teresa, como mais velha das filhas, foi metendo logo o seu remoque:
– Assim vale a pena! São duas avenças! O homem faz a barba e ganha a sua, que não é ela tão pequena...
– Três alqueires medidos por mim –
confirmou a Ana – e que por sinal foram rasoirados da última vez...
– Demais a mais! – tornou logo a outra. – A «comadrinha» (e metia no diminutivo um acento irónico), essa porque será a avença?
Houve um silêncio; e porque a mãe não respondia, vinha logo a outra:
– Nosso Senhor me perdoe, mas o meu gosto, há bocado, era atirar-lhe com o gato mesmo à cara!
Só ela vale por seis leirões!
Exageravam. A Tia Maria Lorna bem sabia o que fazia, e o que dava bem sabia porque o dava. As filhas, se eram poupadas, com a mãe tinham aprendido. Deixou-as falar. Só quando se lhe acabou a meada, e se levantou para ir arrecadar o novelo, disse às filhas:
– Pois sim, sim! Mas eu sempre quero ver em me eu morrendo com quem se vossemecês encontram pra uma doença...
Era a velha resposta. As duas riram-se.
– Olhe, minha mãe, mal por mal antes com o homem, antes com o Ti José Bernardo. Esse ao menos, quando foi a doença do Francisquinho...
– Diz, diz, vai dizendo! – pediu agora a mãe.
E como as duas se calassem, comprometidas com a objecção, concluiu ela:
– Quando foi da doença do Francisquinho, levou ai três noites sem dormir, só para ajudar a morrer o anjinho; e quando morreu – vi-o chorar!
Quem sabe lá se outros se riram!
Calaram-se. Com a cesta à cabeça, abalou a Teresa a levar o jantar ao pai mais ao irmão, e ao voltar veio com este recado:
– Diz o pai que faça favor de mandar dizer ao Ti José Bernardo que se não esqueça de vir cá à noite.
– Ele, teu pai, está doente?! – perguntou assustada a Maria Lorna, porque o José Bernardo era o cirurgião do lavrador.
– Não senhora. Diz que é por amor de lhe ser testemunha numa coima, porque foi ele, píos modos, que enxotou uns porcos do nabal, não sei de quem eram.
– Uns porcos do nabal! – repetiu suspensa a Tia Maria.
Tinha sido o caso que, passando, pouco antes de chegar a Teresa com o jantar, um rapaz pela cortinha onde lavravam, dissera-lhe ele cá do caminho:
– Ó Sr. José! saberá que lhe andavam uns porcos no seu nabal, e lá lhos botou fora o Ti Zé Bernardo.
– Hã, rapaz! Tu que dizes?!
– Uns porcos no seu nabal.
– E de quem? – perguntou já zangado o José Lorna.
– Não sei – tornou-lhe o rapaz a gritar. – Eu ia a passar cá no caminho, e não sei.
– Sejam muito boas testemunhas! – vociferou o lavrador para os obreiros, atordoado com a má nova, como se se tratasse de um caso de morte.
– Mas testemunhas de quê, ó Sr. José? – perguntara um dos obreiros, que ia sendo uma vez preso por jurar verdade. – Testemunhas de quê?!
– Em como diz aquele rapaz que me andavam uns porcos no nabal!
– Ai, lá isso sim! – fizeram todos. – Isso ouvimos nós.
De modo que nem quase jantou, o José Lorna, como a Teresa disse à mãe, e estava todo enfrenesiado – jurando também o filho, o António...
– Ele que jurou, esse inimigo?! – perguntou a mãe muito assustada, pondo a mão na testa para se
benzer.
– ... que ainda havia de partir as pernas aos porcos, mais a quem os deixa andar a comer o que é dos outros, e ir dali para a cadeia, com umas algemas!
– Credo! Santo nome da Virgem! Nunca a gente há-de estar sossegada! – gritou a Tia Maria Lorna, andando e desandando no meio da casa, desvairada de ouvir a ameaça.
E chegando à janela chamou a comadre que morava defronte:
– Ele está lá, o seu homem, ó comadre?
– Não está, minha comadrinha, foi ver o morgado a Vila de Aia, que dizem que está com umas sezões e que deu uma queda da égua preta.
– Da égua preta?! Isso o morgado? Olha o pobre! Mas ele há-de vir hoje, e então faça o favor de lhe dizer que se não deite sem cá vir.
– Ai, não deita! Eu digo-lhe.
– Então faça favor. Até logo. Ora o pobre do morgado!...
E voltando a pegar na conversa:
– Mas, ó comadre, sabe se andavam alguns porcos no nosso nabal?
– Alguns porcos?! Não sei... – fez a outra muito estranha.
– E que diz que foi hoje; e que foi até o compadre José Bernardo que os botou fora, porque ia a passar não sei pra onde.
– Olhe! então havia de ser para a Vila de Ala!
Pois não sei! Mas eu à noite mando-o lá a casa tão depressa chegue.
– Pois sim, pois sim. Ouve? E a comadre venha com ele, e pode vir também o afilhado. Ouve? Traga a meia, porque faz cá o serão.
– Pois sim, minha comadrinha. Tanto iremos que enfadaremos.
E até já as raparigas ficaram mortas que chegasse a noite, para saberem do Ti José Bernardo como fora o trambolhão do morgado.
«Havia de ser preciso mandar o paquete a Vila de Ala, disse logo a velha; um dia não são dias, e as ovelhas podiam ficar na cortinha.» – É obrigação mandar saber do pobre rapaz.
– Sim, minha mãe – concordou logo a Ana. – O Sr. Morgado também mandou saber de mim quando estive doente.
Sorriu-se a Teresa, que andava, como de costume, na jurisdição da casa; e a Ana, que fazia ao pé da janela uma camisa para o irmão, picou-se na agulha sem querer. A Tia Maria Lorna, essa, acrescentou com muito carinho:
– Há-de-se-lhe mandar dizer que já prometi uma novena a Nossa Senhora, se melhorasse. E a Teresa, a sorrir, mirando a irmã cabisbaixa:
– E eu outra...
Pouco depois do anoitecer, por conseguinte quando já tinham tocado às Trindades, e a Tia Maria Lorna fora em pessoa contar e recolher as galinhas, seu desvelo muito particular, ouviu-se da rua a voz do filho do Lorna, do António, dizendo para a irmã que estava ao lume, a ajudar a Teresa a acabar a ceia:
– Ó Ana! Ana! Traz cá baixo a lanterna.
– Lá vai! lá vai! – acudiu a mãe. – Ana, avia-te, leva luz a teu irmão, e teu pai que venha pra cima. – Teresa, atiça bem esse lume, e chega as brasas cá pra fora.
Mas o velho Lorna vinha já então a entrar a porta:
– Boas noites! – disse ele com a sua voz de bordão. – Inda não veio o José Bernardo?
– Ora deixa-te agora de José Bernardo, deixas? Ele virá. Agora tira-me dos pés esses sapatos. – Olha como vêm esses sapatos! Toma lá os socos, homem de Deus – e chega-te ali prò pé do lume. Teresa, essas batatas já estão cozidas, aviar! – disse ela beliscando uma batata na panela de ferro. – Aviar!
– E o caldo? – perguntou o José Lorna, que passaria sem tudo menos sem caldo.
– Bem esverçadinho foi! – sossegou-o a Tia Maria. – Plas minhas mãos, e com a sua batatinha picada. Já a Teresa o esta a lançar. Teresa, avia-te! Esse caldo pra teu pai!
E para que não houvesse demoras, ela mesma foi à janela dizer aos de baixo que se aviassem também, a tempo que já a luz da lanterna, segura no ar pelo braço de Ana, alumiava na rua o grupo vivo, no meio das sombras que ondeavam: – as duas vacas; o António que as recolhia; e mais atrás, no meio das ovelhas silenciosas e dos cordeirinhos novos que as seguiam, aquele batoque do José Redondo, ainda embrulhado na manta.
– Olha o que vens de frio! – ralhou de cima a Tia Maria. –Depressa, António, que vai o caldo prà mesa. E só recolher as vacas, porque a manjedoura já está feita. – E para o José Redondo: – Olha tu lá, mandrião: as ovelhas ficam aí?!
– Ó minha mãe! – acudiu o António já agastado – mas o rapaz há-de primeiro aguardar que entrem as vacas! Vossemecê também, parece às vezes que não vê as coisas!
– Deixa-os! – avisou do lume o José Lorna. – Põe tu a mesa e deixa-os lá.
Baixou a tia Maria a mesa de escano, pôs-lhe em cima a toalha de linho, muito lavada, ao mesmo
tempo que a Ana, já de volta, tirava do secrinho e punha na mesa o pão centeio de sete arráteis.
Abancou o José Lorna, defronte da sua grande malga castelhana, e pôs-se a partir as fatias. Tinha já na mão a sua tigela, a Tia Maria; em frente do velho, sobre a mesa, fumegava a outra para o António; estava em cima do morilho a do José Redondo, com o respectivo carolo em cima; e junto do louceiro, muito desembaraçadas, as duas irmãs aviavam o resto: a Teresa debulhava as batatas, e a Ana repartia-as por três grandes pratos em que previamente fizera o molho.
Entretanto, chegava o António: logo atrás dele o José Redondo; e a ceia começava: o caldo desapareceu e a seguir ao caldo as batatas cozidas. Levantou-se o velho, e os outros também, e deram as graças:

Caminhamos e andamos,
Damos graças ao Senhor
Em seu bendito louvor.
Assim como nos deu pra agora,
Nos dê pra sempre a toda a hora
Que o quisermos comer.

E benzeram-se todos:
– Em nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo.
Os três filhos, mais o paquete, pediram a bênção aos velhos:
– «Deus os abençoe, Deus os abençoe» – e o serão principiou, ao menos prà Tia Maria Lorna, que enfiou a roca e se pôs a fiar.
Levantou a mesa a Ana; meteu a louça na caldeira que estava ao lume; e a Teresa, pegando-lhe pela asa e levando-a, pôs-se logo a lavar a louça, para fazer na água a vianda para os leitões, que já na loja, por baixo da cozinha, grunhiam como desesperados.
– Lá vai! já lá vai! – gritava-lhes de cima a Tia Maria.
– – É que os animais têm fome! –insinuou o José Lorna.
Como não pastam no que é dos mais...
– Então passaste plo nabal? – quis saber agora a Sr.ª Maria.
– Lá passei plo nabal! Por onde atravessaram, parece mesmo que foi uma foice! Aquilo não eram
dentes: era o diabo! Mas estou morto que venha o compadre; e se os porcos forem de quem eu penso, bem mas paga o José da Loja.
– Pois caros lhe ficam os porcos, ao homem!
– exclamou a Sr.ª Maria. – Só o compadre António Fagote já lhos encoimou umas poucas de vezes!
– Bem no merece, aquele judeu! Veio pra aí a pão pedir, e agora não fia a um pobre cinco réis. Lá
fez a sua casa nova, lá vai apanhando à roda aquilo que pode – hoje aumenta um palmo a uma parede, amanhã aumenta outro, e não há uma junta de paróquia, uma Câmara, um diabo, que ponha cobro à ladroeira!
– São todos assim! – confirmou baixo o António. – Daqui a pouco tiram-nos os olhos; depois levam-nos a camisa; e como vão medrando como os tortulhos, não há-de tardar que se não vejam aí senão judeus!
A um canto, o José Redondo tirava os ceifões. O velho interrogou-o:
– Houve alguma novidade, ó José?
– Não houve, meu amo. Estive até ao meio dia na cortinha de Milhares, e dali fui prò Marmoniz.
– E esses cordeiros medram?
– Não tem dúvida, meu amo, hoje fartaram-se bem. Vão uns rexelos de respeito!
– Pois então, voltas amanhã prò Marmoniz.
Levara a Teresa a vianda aos laregos; a Ana arrumara a cozinha; e já as duas vinham também para o lume a fazer serão: – uma a dobar meadas, e a outra, a mais nova, a fazer ao canhão as meias azuis.
Quando sentiram bater à porta...
– Há-de ser o compadre! – disse logo o José
Lorna. – Vai lá abrir, á Ana. Avia-te.
A rapariga foi à janela:
– Quem é?
– Minhas frieiras no teu pé! – respondeu da rua uma voz que não conheceu.
E como o António corresse à janela: – «Espera aí, á malandro! Espera aí, que eu te coço as frieiras!» – nem ele nem a irmã reconheceram o vulto que fugia, porque fazia escuro lá fora.
– E o caso é que já uma vez me vi comida plas frieiras, e inda hoje estou pra saber quem foi o almanicha que mas passou! – disse a velha muito fiadas a rir. – Isso o melhor, ó Ana, é escaldares os pés ao deitar da cama.
– Nada! – emendou de sorna o lavrador. – Pó-de-maio é que faz bem...
Mas não tardou muito que se não sentissem os passos pela escada acima, e logo, empurrando a porta, aquela voz do José Bernardo:
– Licença, Sr. Compadre?
– Entre! Homem! pensei que não vinha hoje!
Entraram. Adiante o José Bernardo, e a reboque do José Bernardo, com o xaile pela cabeça, a Sr.ª Aniceta de roca na mão.
– Licença pra dois, Srs. Compadres!
– Então o pequeno? – perguntou a Tia Maria Lorna.
– Ficou ali, já vem. André, avia-te! – chamou ela para a rua escura.
Foram os cumprimentos; entrou o André, que beijou a mão aos Srs. Padrinhos e às Sr.ª Madrinhas; e fechada a roda à volta do lume, ficando só à mesa o Tio José Lorna, e da outra banda, sentado também no escano, defronte dele, o seu compadre José Bernardo, rompeu a conversa, enquanto o José Redondo, que repartira o seu talho com o André, carregava de lenha seca o lume vivo.
– De quem eram os porcos, ó compadre? – desfechou logo o José Lorna.
– Não sei, futuro só – respondeu o barbeiro de velhaco.
– Homessa! – fez espantado o velho.
Ia a intervir a Sr.ª Aniceta, mas preveniu-a logo o José Bernardo de que mulheres – «com licença das comadrinhas» – não tinham que ver com aquelas coisas...
– Mas tenho eu! – impôs muito zangado o José Lorna.
– Tenho eu! De quem eram os porcos, ó compadre? O compadre, de quem eram os porcos?
O barbeiro ia propor com gestos uma conciliação...
– Já sei! Eram do patife do José da Loja! – aventou o lavrador.
– Eram, ó compadre? Diga lá se eram desse cão! – rogou agora o António Lorna.
– Já disse que não sabia, futuro só! – defendeu-se outra vez o barbeiro. – Amanhã é que hei-de saber, porque como ia de caminho pra Vila de Ala, e só agora é que cheguei, não tive tempo de botar inculcas.
O lavrador já bufava!
– Ó compadre! assim o Deus salve?! – intimou ele desconfiado. – De quem eram os porcos, ó compadre?
– E ele a dar-lhe! – formalizou-se todo o José Bernardo. – E ele a dar-lhe e a burra a fugir! O Sr.
Compadre, se não se quer acreditar em mim, o melhor é dizê-lo! Bem vê que nestas coisas não se
vai levantar um falso testemunho...
Admoestou a Tia Maria Lorna – «que o Sr. Compadre tinha razão».
– Qual razão, nem qual diabo! ele conheceu os porcos! – teimou na sua o José Lorna. – E na mesma toada de inda agora: – De quem eram os porcos, ó compadre?...
Ia já levantar-se o José Bernardo, para se ir embora, quando as três mulheres de casa, mais o António, intervieram todos nas mesmas pazes:
– Não senhor! Isso agora também é teima! – disseram todos para o José Lorna. – Deixa lá averiguar o compadre! – interveio a Tia Maria. – Amanhã já ele nos pode dizer de quem eram os
porcos.
E o José Lorna sempre na sua:
– Última vez, ó compadre! Não me diz de quem eram os porcos?!
– Pois se o meu pai não sabe! – acudiu agora lá do canto, quase a chorar, aquele rapazelho do André.
– Ora vês aí! – rematou a Tia Maria. – Da boca dos inocentes é que saem as verdades.
O José Lorna amainou então:
– Pois bem, compadre! Sempre estou pra ver se me não diz amanhã de quem eram os porcos!
– Hei-de fazer por isso – disse o barbeiro fisgando a mulher. – E agora deixe-me aqui! que nem eu sei como trago a cabeça!
– É verdade, o morgado...
– Pois é por via disso!
Ó compadre... – ia a dizer outra vez o José Lorna. Mas emendou: – Não! diga lá o que estava a dizer: o morgado...
– Que ficou como uma salada, o pobre rapaz!
– Ora! Ora! – exclamaram todos em coro.
– Se não é ter a sorte de cair prà esquerda, se cai prà direita em cima dum montão de pedras, matava-se! Pus-lhe umas bichas na maçadura. Mas que bichas! Primeiro que as malditas pegassem, roguei mais pragas que o diabo! Ainda lhe disse que quem tinha em casa bichas daquelas tinha obrigação de não dar quedas!
– Mas assim coisa séria? Costela partida ou coisa que o valha? – perguntou a Teresa com muito
interesse.
– Apalpei-o, hum! não me pareceu... – tranquilizou-as o barbeiro.
– E quem o trata? – quis também saber, mas arrependendo-se logo da pergunta, a Aninhas...
– Quem me trazia o vinagre e ensopava os parches era aquela Maria do Outeiro, que foi ama do padre Serafim, uma gorda...
– Olha que o José Redondo tem de ir amanhã a Vila de Ala – lembrou então a Tia Maria. – Mal
parece, devendo-lhe a gente tantos favores, que nunca aqui passa que não entre, não mandarmos saber dele.
– Pois sim – concordou o velho. E para o rapaz: – Abalas de manhãzinha, e que vais do nosso mando a saber se está melhor o Sr. Morgado, e se precisa de nós pra alguma coisa.
Bateram à porta. Desta vez foi o António à janela, e ouviu o que lhe diziam da rua. Depois respondeu:
– Não. Só temos uma. Havemos de comprar outra na feira. Teu pai que desculpe. – Era o filho do António do Cabeço, a ver se emprestávamos uma engrideira – explicou ele ao pai.
– Mas então compadre, que há de novo? – perguntou, já conciliado, o velho José Lama.
– Não sei nada. Que está o céu escavado...
– «Céu escavado aos três dias é molhado» – comentou o velho.
E puseram-se os dois a falar do tempo, e da sua provável acção nos trabalhos agrícolas, enquanto o António, que os ouvia, arranjava para o André uma esparrela.
Já no grupo das mulheres, as velhas de uma banda, e da outra as raparigas, se estabelecera inteira concórdia, ao menos por essa noite. A Sr.ª Aniceta, que no fundo era dedicada à família dos Lornas, e especialmente à sua comadre, tivera de segredar ao ouvido da Teresa, a propósito do morgado, certa coisa que a fez rir... A Aninhas desconfiou; e deixando passar um bocado, espevitou a candeia do velador, a cuja luz contava e tornava a contar as malhas da meia que ia fazendo, e perguntou à irmã, muito em segredo:
– A comadre disse-te alguma coisa?...
A Teresa riu-se; mas a Aniceta, que percebera, piscou-lhe o olho para que se calasse:
– Sempre quero ver agora se me diz os segredos. Ouviu, minha comadrinha?
A Aninhas baixou a cabeça para a não verem corada, e pôs-se outra vez a contar as malhas...
– Credo, rapariga! – disse-lhe a mãe. – Bem digo eu! Toma lá a roca e dá-me cá a meia! Tu esta
noite não fazes senão contar as malhas...
– Coitadinha! – desculpou-a a Sr.ª Aniceta. – É que talvez lhe falte a vista! – insinuou a rir...
Todos riram. A Sr.ª Aniceta insistiu «que talvez fossem belidas» – e pôs-se-lhe de lá a fazer cruzes:
Por aqui passou Santa Luzia, Três novelos na mão trazia...
– Ó comadre!... – rogou a Aninhas envergonhada.
Mas a outra, a um aceno da Teresa, continuou:
Com um urdia, com outro tapava.
Com outro as belidas desfazia.
Agora foi a Tia Maria Lorna que concluiu:
Em louvor de Santa Luzia,
Padre Nosso, Ave Maria.
Deu um guincho o André, porque o José Redondo, no serobico, bico, bico, beliscou-lhe com força uma das mãos.
– Ó judeu! – repreendeu-o o José Bernardo. E como todos olhassem para o José Redondo, e o 97
José Redondo olhasse para todos, o barbeiro mostrou a cara do rapaz:
– Olhem aquilo! Pra levar a cesta dos pregos nas endoenças! Tem mesmo cara de quem é capaz de deixar um cão sem ceia! Bem se vê que és zorro.
Era zorro, com efeito, o José Redondo. Tinha sido exposto da Santa Casa, medrara na roda, e quando chegara aos sete anos fora entregue ao José Lorna pela justiça.
– É bem boa rês, é! – concordou o velho Lama, que afinal gostava do rapaz por ser obediente. – Vai-te à cama, rapaz! Vossemecês regalam-se de estar ao borralho, mas depois vem o dia, e põem-se pra aí a dormir atrás de uma parede, e cá está quem paga as diferenças...
Ia a levantar-se o José Redondo; mas como ficasse triste o André, a Sr.ª Aniceta pediu que deixasse estar o rapaz mais um bocado – «porque uma noite não eram noites».
– Demais a mais – reforçou o José Bernardo – é preciso ver qual de vocês dois encarreira melhor essa perlenda!
Os rapazes começaram a rir:
– Sou eu!
– Sou eu!
– Mas isso agora é o que nós vamos a ver! – desafiou-os o compadre barbeiro. – Vá lá tu a das
Meninas de Vale da Sancha!
E os dois, ao mesmo tempo, atiraram-se logo à perlenda:

As meninas de Vai’ da Sancha,
Engancha, engancha!
Têm meias amarelas,
Andarelas,
Que lhas deram os pastores,
Andadores,
Por lh’ mudar as cancelas
Andelas.

Foi uma risada.
– Disse melhor o André! – preferiram as mulheres.
– Disse melhor o José Redondo! – contestou o grupo dos homens.
– Outra! Outra! – meteu-os logo à bulha o José Bernardo.
– Agora aquela de Roma!
E os rapazes atiraram-se logo, aqui caio além me levanto, ambos muito desembaraçados, à perlenda que lhes pediam:

No meio de Roma está uma rua
No meio da rua está uma casa,
No meio da casa está uma banca,
No meio da banca uma gaiola,
Na gaiola está um ninho,
Dentro do ninho um passarinho!

– Upa! rapazes! Agora, agora! – desafiaram todos. – Agora é que são elas!
E os rapazes atacaram o resto:

Passarinho ao ninho,
Ninho à gaiola,
Gaiola à mesa,
Mesa à casa,
Casa à rua,
Rua a Roma!

Tiveram uma ovação; e até o Caramujo, que sonhava detrás do morilho, levantou a cara para os ouvir.
Desta vez não foi preciso pedir-lhes:
– Lá vai outra!
E largaram ao desafio:

Na ponte do Val d’Armeiro
Vint’ cinco cegos vão,
Cada cego leva um moço,
Cada moço leva um cão,
Cada cão leva um gato,
Cada gato o seu rato,
Cada rato sua espiga,
Cada espiga tem seu grão.

Ladrou o Caramujo, como se entendesse, e gostasse também da brincadeira; mas de repente
calaram-se, escutando...
– Parece que estão a bater... – disseram eles todos.
– Entre quem é! – disse o José Lorna.
Ouviu-se à porta uma voz de mulher, muito dorida:

Esmola ao m ‘nino do fol’,
Que quer falar e não pode!

Era um gaguinho. Talvez a Maria da Eufrásia, que tinha um pequeno preso da fala...
– Ana – disse a Tia Maria Lorna –, leva-lhe lá um chouricinho.
Todos se calaram, muito doridos diante daquela desgraça. Ouvia-se a criança vagir abafada pelo xaile da madrinha. Tirou da estaca um chouriço, a Ana, e depois de o beijarem todos – pela fisga, sem olhar, passou-o a quem estava de fora, que era com efeito a comadre da Eufrásia.
– Também, foi bem infeliz, coitada! – reataram as mulheres. – Morre-lhe o primeiro afogado, e este depois vem-lhe assim, que parece mesmo que é parvinho!
– Eu assim o tenho! – abonou o barbeiro com autoridade.
– Mas isto do pequeno faz-nos lembrar agora o que talvez não saibam...
– O quê? o quê? – perguntaram todos muito curiosos.
– A história do Ti João Beitão... – sondou, a ver se sabiam, o José Bernardo.
Não sabiam. «O pobre do homem ninguém já ouvia falar nele. Parecia mesmo que tinha morrido!
Apanhou a filha bem casada; e como era surdo como uma porta, pediu-lhe uma cama para se deitar, um caldo para comer, e não quis saber de mais nada! Estava na cama havia uns poucos de anos! Nem falava nem ouvia falar! E como o caldinho lhe ia às horas, e o mais, comia e virava-se prà parede, até que chegasse o outro quartel.» – Era a vida dele! – dizia o barbeiro.
– Mas ele então nem se levanta? – quiseram saber as mulheres.
– Qual levanta! Isso sim! – confirmou o José Bernardo.
– Está são como um pêro, é o que está; mas não perdeu inda a balda, aquele almanicha! Está sempre a rabujar: co a filha, co as netas, co a moça quando lhe leva o caldo, co ele mesmo se não tem com quem! Uma ladainha pegada.
– Mas a história? Mas então? – quiseram saber todos.
– Ora que ainda não sabem a história! – exclamou o José Bernardo. – Pois foi outro dia, quando foi do Senhor-aos-enfermos. A poder de muitos pedidos, de muitos gritos por uma coisa que lá têm que parece uma cometa, e que o genro lhe mandou vir do Porto, a filha lá o resolveu a confessar-se...
– Olha o João Beitão a confessar-se! – riram-se todos como se fosse um disparate.
– Aquilo foi uma cerimónia, bem entendido! – atenuou o barbeiro. – Plos modos ele não ouviu palavra, e roncava a tudo que sim. Mas quando foi depois o Nosso-Pai, que o pálio parou à porta e o Sr. Prior entrou com os mais para a comunhão, isso então é que foram elas!
– «Meu pai!» gritava-lhe a filha. O João Beitão – moita... Vinha a neta, que é lá da sua paixão: – «Meu avô!» – «Que é!» (O barbeiro dizia estas coisas imitando as vozes). – «O Sr. Padre Joaquim.» – «Há?» – «Está aqui o Sr. Padre Joaquim!» – «Pois deixa-o estar!» – disse-lhe muito alto o João Beitão, sem se virar.
Aqui, foi já uma risota; os dois rapazes tudo era estarem aos pulos em cima do talho; suspendera
o trabalho do canivete o António Lorna; as mulheres haviam parado de trabalhar; e quanto ao velho lavrador, já os olhos se lhe queriam encher de lágrimas –de contente.
O barbeiro continuou:
– Mas esperem lá que não acaba aqui! Disse-lhe então a rapariga: – «Mas traz-lhe o Nosso-Pai!»
E o João Beitão: – «Pois que o leve!» – concluiu já a rebentar de riso o José Bernardo, no meio dos mais que arrebentavam de riso. – «Pois que o leve!»
– Pois que o leve! – repetiam todos às gargalhadas. – Pois que o leve!
Cuidaram de morrer a rir, e com a sua roca fora do cós, a Tia Maria mais que os outros – benzendo-se e tornando-se a benzer com o cabo do fuso:
– Credo, homem! que isso até é pecado!
Abrenúncio! Santo Breve da Marca!
Mas nisto, ouviu-se tocar às Almas; puseram-se todos de pé, e começaram a rezar, de mãos postas, baixinho. Os rapazes inda fungaram a sua risada; mas a um olhar severo do José Lorna contiveram-se cheios de medo.
– Nosso Senhor as tenha em descanso! – rogou no fim o velho, benzendo-se.
– E a nós quando deste mundo formos! – responderam em coro os demais.
E benzeram-se, tornando-se todos a sentar. De uma pilheira na parede, a Tia Maria Lorna sacou então do seu rosário de contas de pau, com sua cruz de osso no fim, e passou-o ao velho para que «contasse» a coroa. Logo os dois turnos se estremaram: faziam os homens o «bordão», e respondiam, em toada mais fina, as vozes das mulheres, cada uma no seu serviço, e, com as mulheres, os dois rapazes.
– Padre Nosso, que estais no Céu, santificado...
– O pão nosso de cada dia nos dai hoje...
– Ave Maria, chei’ sois de graça, Senhor é convosco.
– Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós...
Até ao fim, à Gloria Patri, depois da qual se benzeram todos, para começarem, por meia hora, as outras rezas de todas as noites, mas essas, agora, dirigidas pela Tia Maria: – «A Senhora Santa, Luzia, pra que nos dê vista e claridade na alma e no corpo, Ave, Maria.» E por aí fora a todos os santos, cada qual segundo o seu valimento e intercessão: a S. Jerónimo e a Santa Bárbara virgem, advogados das trovoadas; a S. Brás, que nos livre das dores de garganta; a S. Sebastião, contra a fome, a peste e a guerra; contra o mal nos laregos a outro santo; a outro contra o mal das galinhas; a um terceiro que protege as vacas; a outro que livra do bicho as árvores do campo; e assim, até esconjurarem todos os males. Acodem depois as necessidades espirituais dos que morreram: pais, irmãos, parentes e algum amigo; os votos para que Deus nos dê felicidade e nos preserve de todo o mal na alma e no corpo; pela Santa Igreja e pelo Vigário de Cristo na terra; plos nossos inimigos, aos quais perdoamos pra que Deus nos perdoe; pelos hereges e infiéis, que o Senhor os converta à sua divina graça; plos que andam nas águas do mar, pra que Deus os traga a porto salvo; plos que andam em pecado mortal, pra que eles se convertam; plas almas que estão nas penas do Purgatório, pra que Deus as chame à eterna glória para que foram criadas; pela alminha mais necessitada que houver nas penas do Purgatório, que não tenha quem por ela peça, que Nosso Senhor a remedeie com a sua divina graça e ela peça ao Senhor por nós; pelo primeiro que de nós faltar, que Nosso Senhor nos ache em estado de graça e nos tome as contas com piedade, seja tudo plo amor de Deus; por aqueles que nos encomendam nas suas orações, pra que os encomendemos nas nossas; plos que andam em erro pra que o Senhor os ilumine co a sua divina graça; por todos os santos e santas da corte do Céu, pra que eles peçam e roguem ao Senhor por nós; enfim, plas obrigações e penitências mal cumpridas, e pra que à hora da nossa morte o Santíssimo Sacramento nos visite. Amen, Jesus.
Foi então a vez de perguntar o José Lorna ao seu compadre se tinha trazido as cartas.
– Não trarei eu a cartilha! – acudiu logo o barbeiro sacando do estojo, e de dentro do estojo o baralho das cartas. – Mas cá sem o «ripanço» ninguém me apanha fora de casa.
– Por mal dos meus pecados! – comentou do lado a Sr.ª Aniceta, dando um suspiro...
– Mulheres! – exclamou o José Bernardo, encolhendo os ombros. – Como se a gente, por essas freguesias, não precisasse matar o tempo!
Baixara a Teresa a mesa do escano, dependurara no escano a candeia de ferro, e já o barbeiro baralhava. Cuspiu nas mãos, depostas as cartas com força, e voltou-se para o José Lorna:
– Parta lá, Sr. Compadre!
– Bom há-de ser à de três, vamos a isso! Mas veja lá como dá! Isso agora, mestre, faça de conta
que me não está a fazer a barba...
– Olhe, a barba que lhe eu faço é isto! – e cortou-lhe logo a primeira mão. – Repare vossemecê que trunfo é paus. Depois, não venha cá teimar que se esqueceu!
Agora, enquanto os dois jogavam, com o António a fazer de mirone, pegara por banda das mulheres o bocadinho da má-língua.
– Mas se eu logo a avisei! – dizia a Sr.ª Aniceta. – Quem vai agora entregar o fumeiro à Teresa das Patas! Só aquela desmazeladona da Antónia, que foi sempre uma desmazeladona! – continuava a mulher do barbeiro, batendo com a mão em cima do joelho. – Foi bem feito, e foi bem feito! e eu hei-de sempre dizer que foi bem feito! – insistia ela com acinte.
Pediram informações as raparigas: – «Mas então, como é que tinha ela estragado aquilo tudo?»
– Boldreguices! – resumiu a Tia Aniceta. – Boldreguices! Tinha-se lá por muito sabichona, e, além dos temperos de toda a gente, aí se põe a botar na massa, daqui uns alhos pisados, mais uns oregos dali, dacolá umas porcarias! Aquela burra!
– Ó comadre, mas vossemecê ainda lá andou uns poucos de dias? – perguntou a Teresa. – Pois não andou?
– Ó menina, deixe-me aqui! – exclamou arrependida a Sr.ª Aniceta. – Bem teimei, bem me ralei! Mas aquela canastra: «que não senhora; que se havia de fazer o que ela mandasse; que o fumeiro era ela que o fazia; e porque torna, e porque deixa!» Alvorei! – Fica-te, co os diabos, mais quem te atura! – Agora, dizia-me outro dia lá na igreja aquela seresma da Amónia, que aquilo é mesmo uma seresma: – «Ai, Sr.ª Aniceta, bem me dizia vossemecê!» – e porque assim e porque assado; e porque eram coisas que só a ela aconteciam; e já não houve nome feio que lhe não chamasse, nem praga que lhe não rogasse! Ai, agora é que abres os olhos? – Pois regalei-me!
– E diz que inda lhe atirou tudo ao redor dumas quatro moedas! – informou a Tia Maria Lorna.
– Sim, sim, coitada! Mas antes isso que dá-lo à botica! – adoçou a Aninhas.
– Algum deu também à botica, minha comadrinha, algum deu também à botica! – aumentou a mulher do barbeiro. – Diz que o homem que lhe foi às costas; e mais ele que não era capaz! Mas nunca as mãos lhe doam! E tantos anjos o acompanhem ao reino da glória, como bofetadas lhe pregou naquela cara! Muito bem feito!
E assim por ai fora, porque neste ponto, já se vê, entrou a conversa a ramificar-se.
– Ora melhor fora que ensinásseis a doutrina aos rapazes –dissera ainda o José Lorna, de uma
vez que dava cartas. – Trunfo é copas.
– Bem vejo. Deve três – lembrou o barbeiro lambendo os dedos.
– Dois! – contestou o José Lorna.
– Três! – teimou mais alto o José Bernardo. –
Não comece vossemecê, Sr. José, porque quem joga não guarda cabras!
– Mas se lhe digo eu que são dois! – insistiu por sua banda o lavrador.
– Ó meu pai – interveio o António acalmando-o –, com perdão de vossemecê, mas o Tio José Bernardo tem razão...
– Vê? – argumentou o barbeiro.
– É que vossemecê não conta o capote – esclareceu o António Lorna.
– Não conta! – disse a rir o José Bernardo. – Ele conta lá o capote! Lá lhe parece que por estarmos no Inverno os capotes não se contam... Mas cá vão três bolinhas de centeio, que é pra não tornar a haver mais enganos.
– Pois seja lá o que você quiser! – fechou zangado o lavrador. – Tenho esta! – E sem dever jogar atirou prà mesa uma carta que lhe saiu o sete de trunfo.
– E eu esta! – fez com rópia, pegando-lhe no erro e pregando-lhe em cima com o ás, o José Bernardo.
– Não vale! Foi engano! Largue! pensei que era um seis! –protestava muito alto o lavrador.
– Larga o quê?! Está jogada! Então isto é bisca de rapazes?! – defendia-se o mestre barbeiro.
– Leve lá agora esse terno! Jogue-lhe!
Perdeu também esse jogo o lavrador; e enquanto não começava a desforra, disse ao filho que fosse à despensa por uma pinga. Deu um estalo com a língua o José Bernardo; e como o António, já de pichel na mão, oferecesse o bico da candeia ao gamão que a irmã acendera, o barbeiro alvitrou por graça:
– Ó Sr. António, se vossemecê não quer, deixe que eu vou à cuba...
Riram-se os rapazes.
– Que estão vocês a rir? – perguntou, fingindo-se zangado, o José Bernardo. – Ora sempre quero saber qual de vocês, ouviram? qual de vocês dois há-de encontrar este ano, pla Páscoa, um ninho de perdiz.
– Aonde? – perguntou o André.
– Aonde? – estranhou o José Bernardo. – Quem sabe lá! No domingo de Páscoa, inda de noite, o primeiro que for à torre e tocar o sino encontra um ninho de perdiz.
– Ora! – disseram os dois sem acreditar.
– Não é «ora», é isto mesmo! – confirmou o José Bernardo.
O José Lorna pôs-se a rir. Contou que no seu tempo, devia ter os seus doze anos, fora ele que 09
tocara o sino...
– E achou o ninho, ó Sr. José? – perguntou logo o filho do barbeiro.
– Já se vê que sim! O caso é procurá-lo...
Os rapazes não perceberam...
E, como chegasse o pichel do vinho, atrás do pichel as duas canecas, e começassem as libações, a conversa entrou a animar-se, porque também, num covilhete, deitaram as duas velhas a sua pinguinha – pondo-a ao lume a quebrar da friura...
– Com um bocadinho de mel, ó comadre! – dissera delambido o José Lorna. – Está o mundo perdido!...
O José Bernardo, que empinava a segunda caneca, espirrou sem querer uma fungadela.
– «Está o mundo perdido!» – repetiu ele a rir.
– Lembrou-me agora por isto o padre José da Saldonha, ó compadre, que principiava assim todos os sermões: – «Está o mundo perdido!» Mas apostar que vossemecês inda não sabem a melhor do padre José?
– A sova que deu nos ciganos? – perguntou o António Lorna.
– Qual! Aquela da Santa-Unção... outro dia...
Não sabiam. – «Ora que não sabiam!»
– Pois esta inda é melhor que a do João Beitão!
– Conte lá, ó compadre, conte lá! – rogaram ao mesmo tempo a Maria Lorna mais as filhas.
– Ora imaginem vossemecês – começou o barbeiro molhando a palavra –, imaginem vossemecês, que outro dia deu lá um acidente a uma rapariga, à filha do António Chimeco, uma que é picada das sardas. Perdeu os sentidos a moça, e zumba! cai-te redonda no meio do chão! O pai despede-te logo não sei quem, a chamar à Saldonha o padre José: – «que viesse depressa com a Santa-Unção, que tinha a filha a morrer-lhe.» Abalou o padre por aqueles caminhos, a cavalo numa burra, com a saquinha dos santos óleos diante dele – picaque- pica, pica-que-pica, por ali fora, debaixo dum nevão de rachar!
– Olha o pobre do velho! – fez compadecida a Maria Lorna.
– Mas espere! que ao chegar onde começam as hortas, quem há-de o padre José encontrar! a filha do Chimeco, já muito lampeira!
– Ó compadre! – interrompeu incrédulo o José Lorna – essa agora é de sua casa!
– Não é, Sr. Compadre! assim me Deus salve como não é! Encontra o padre a rapariga, e fica-se
muito espantado: – «Então para quem é a Unção?!» – pergunta-lhe ele muito estranho.
Começaram todos a rir.
– Esperem lá! mas esperem lá! – atalhou o José Bernardo.
– «Era pra mim, Sr. Padre José... – Foi uma coisa que me deu, mas agora já estou boa.»
– E o padre? e o padre? – perguntaram todos muito curiosos.
– Desceu-se da burra com’um raio, e sem a largar, nem largar a saquita vermelha, filou por um
braço a rapariga: – «Ah, grande desavergonhada! Pois já que cá vim, não te escapas sem os azeites. Rode lá já diante de mim!»
Ia indo a casa abaixo, coas gargalhadas!
E aos pulos no meio da cozinha, o José Bernardo declarou às mulheres «que a rapariga tinha apanhado os azeites, pois então!»
– «Cá te ficam prà outra vez!» disse-lhe no fim o padre José, quando abalou na burra prà Saldonha.
O André foi lá fora, mais o José Redondo, e as mulheres puseram-se a limpar os olhos com os aventais, de tanto que haviam rido.
– Cale-se lá, ó compadre, cale-se lá! – rogava já afrontada a Tia Maria Lorna, enquanto o velho, inda aos murros em cima da mesa, jurava que coisa assim nunca tinha ouvido: – Ai que até me escacho! ai que até me escacho!
– Ó compadre, vá lá mais uma pinga! – disse o lavrador empinando-lhe na caneca o resto do pichel, até entornar por cima da mesa. – Quer você uma azeitona? Inda se bebe outro pichel! Vai lá por outro pichel, ó António! – Ai, que diabo de história! Ai, que diabo de história! – repetia às casquinadas o lavrador. – «Pois já que cá vim...», ele como é, ó compadre? «Pois já que cá vim.., não te escapas sem os azeites!» Ora aquele demónio do padre José, que há-de ser sempre o mesmo homem! O demónio do padre José!
– Vam’ lá à desforra, ó Sr. Compadre! – disse outra vez o barbeiro, porque enfim, sempre gostava de fazer jus ao novo pichel.
– Pronto! – anuiu o lavrador, inda a rir, limpando com as costas das mãos os olhos molhados. – Esta agora – continuou ele sempre aos frouxos –, esta agora há-de ser à de nove. Ora o demónio do padre José! Aquilo é o demónio, que não é homem!
Já os rapazes haviam regressado, adiante do António a rir-se...
– Não se envergonham, estes mariolas! – dizia ele para os denunciar. – Nem que trouxessem ainda cueiros, já não digo calças rachadas!
Fizeram-lhes uma assuada as mulheres: – «se não tinham vergonha naquela cara?» – Mas eles,
para disfarçar, pediram às mulheres que lhes contassem uma conta...
– Isso queriam vocês, seus marotos! – disse a fingir-se zangada a Tia Maria Lorna. – Não há cá histórias! – E lambicando o fio do linho, do segundo manelo já dessa noite, porque era muito desembaraçada a fiar, fechou pra lhes meter ferro:
– E mais, ainda ontem me lembrou uma que é bem bonita!
– Conte, ó minha madrinha, conte! – rogava o André com muito bons modos.
– Ó minha ama... – is a arriscar também o José Redondo.
– Não há cá histórias, já disse! – teimou a velha para os arreliar. – Não está hoje o forno para rosquilhas! E se vos não calais, olhai, olhai que vos mato! Andai lá!
E enquanto o José Lorna e o compadre prosseguiam na bisca, mas esta muito mais ralhada do que a anterior, a Tia Maria entrou a falar em coisas de casa a propósito das galinhas que trazia no choco, intervindo desta vez também o António, a quem o jogo fazia sono. Demais, diante do pai e da mãe, nem que soubesse o António pegaria nas cartas. Mas não sabia. No baralho só conhecia os valetes, de ter jogado com umas raparigas o mafarrico, numa noite de Natal, fazendo horas para a missa do galo.
Mas quando os rapazes menos o esperavam, em pausa que fez a conversa, a Tia Maria começou:
– «Era uma vez uma raposa e um lobo...»
Grande atenção por banda dos rapazes, que principiaram logo a esfregar as mãos! A Tia Maria
continuou, sem tirar os olhos da roca:
– «Foram-se uma noite a um galo, estava o pastor a dormir, e furtaram um carneiro.»
– Ó minha madrinha, mas os cães? – interrompeu o André muito interessado.
Ela fez que não ouviu; e sem despegar os olhos do manelo de estopa, e sem afrouxar no giro
o fuso vivo, continuou:
– «Furtaram um carneiro, e o lobo, por agradecido, disse logo para o repartirem. Mas como era mais manhosa, a raposa disse-lhe assim: – «Fica isso pra amanhã, ó compadre. Hoje tenho de ir a um baptizado, um raposinho que nasceu pra aí pra baixo, e então pode ficar isso pra amanhã.» – O lobo disse que sim: – «Pois sim, comadre, fica então isso pra amanhã.» – «Enterra-se o carneiro?» disse-lhe a raposa. O lobo respondeu que sim, e que se lhe deixava de fora a ponta do rabo, pra saberem onde o tinham enterrado.
«Assim fizeram, e o lobo e a raposa inda foram juntos o seu bocado, e depois separaram-se.»
– Oh! oh! – entraram a rir-se os dois rapazes, prevendo já judiaria grossa...
– Ó Ana, deita ai azeite nessa candeia, e atiça-a! – recomendou à filha a Maria Lorna. – Esse
morrão a espirrar é sinal de chuva.
– E depois, ó minha madrinha? Mas depois?
– E depois – continuou a velha – a raposa foi-se ao carneiro onde ele estava, e desenterrou-o e
comeu-lhe um bocado, mas deixou-lhe outra vez de fora a ponta do rabo.
– Ai a matreira! – exclamou o José Redondo muito interessado.
– No outro dia à noite – prosseguiu a Tia Maria – apareceu o lobo no mesmo sítio, e logo atrás do lobo a comadre raposa. «Adeus, compadre!» diz a raposa. – «Adeus, comadre!» disse-lhe o lobo. – «Vamos então a isto?» – A raposa fez uma cara de muita pena: – «que tinha de ficar prò outro dia, se lhe não custava, porque tinha ainda outro baptizado!»
Agora foi o André que interrompeu, de olhos muito esguichos:
– Ai a desavergonhada!
– Mas o lobo disse-lhe que sim – continuou a velha.
– Esse diabo então andava farto! – acudiu de lá o José Bernardo.
– Disse-lhe que sim o lobo – repetiu a Maria Lorna – e perguntou então à comadre raposa que
nome é que tinha posto ao raposinho.
– «Começoxe» – respondeu a raposa.
Os rapazes riram-se mas não entenderam. A Tia Maria explicou-lhes – Ó tontos! Começoxe, porque a raposa tinha começado a comer o carneiro! Vocês não entendem?!
Entenderam. Foi uma risota!
– Mas depois? Mas depois?
– Mas depois, a raposa voltou lá, e comeu o carneiro até ao meio!
– Ai a grande ladra! – disseram, arregalando muito os olhos, os dois rapazes.
– Torna o lobo às horas marcadas – prossegue a Tia Maria – e já te lá estava a raposa, mas desta vez muito mais chorosa que das outras duas! – «Pois que tem, ó comadre?!» perguntou-lhe o lobo sem atinar. – «Que hei-de eu ter, compadre?! Deixe-me aqui!» respondeu a raposa muito consumida. «Inda não podemos hoje comer o carneiro!» – «Outro baptizado, aposto?» perguntou
o lobo muito fiado. – «Sim, mas este agora de circunstância!» disse-lhe a raposa já a chorar. – «Pois não se aflija!» – tornou-lhe o lobo. «E o afilhado de hoje, que nome lhe pôs?» – «Meioxe», respondeu a raposa. – «Gosto mais.» – ainda lhe disse o lobo muito satisfeito.
– Era bem bruto esse diabo! – comentou a rir o José Lorna, que acabara de recolher a mão. E todos desataram a rir, enquanto a Tia Maria Lorna prosseguia, não despegando de dar no fuso!
– Vai essa tarde a raposa, e come do carneiro o que faltava...
– Menos as pontas, ó comadre! Essas achei-as eu! – disse num aparte o José Bernardo.
– ... Menos o rabo – continuou a rir a Tia Maria – porque esse tornou outra vez a deixá-lo de fora, que era para se saber onde ficava a cova.
Chega o lobo na terceira noite, e perguntou à raposa:
«E hoje, ó comadre?» – «Hoje é que sim!» disse-lhe a raposa muito lampeira. – «Valha-nos Deus, que não há amanhã outro baptizado!» tornou-lhe o lobo, já a delamber-se. «E o raposinho de hoje, como é que se chama?» quis ele saber.
– «A caboxe», respondeu a raposa. – «Mas vamos então a isto?» – disse o lobo. – «Vam’lá» – respondeu a comadre. «Puxe lá pio rabo, o Sr. Compadre!» – «Não! Há-de ser a minha comadre!» – ofereceu o lobo. – E cerimónia pra aqui, cerimónia pra ali... – continuou a Tia Maria.
– Cerimónia prà direita, cerimónia prà esquerda... – repetiu o José Bernardo. – Jogue, compadre! que este tamém acaboxe, comá conta do outro!
– Mais um cumprimento daqui, mais um cumprimento dali – continuou a velha, sempre foi o lobo, que está de ver que tinha mais fome, quem se resolveu a puxar plo rabo. Esgueirou-se logo a raposa, aos pulinhos, e foi-se a pôr em cima duma fraga, por trás dum sobreiro, e o bruto do lobo nem sequer deu fé.
– E depois? E depois? – perguntaram muito vivos os dois rapazes.
– E depois... E depois... morreram-se as vacas e ficaram os bois! – disse o José Bernardo, que pregara no José Lorna outro capote.
– Depois – rematou a velha –, como o lobo puxou com gana, deu pra trás uma grande queda, e ficou-lhe na boca só o rabo; e a raposa, lá de cima, tudo era rir como uma perdida, e afinal botou a
fugir!
Foi uma galhofa para os rapazes!
– Ai a matreira! Ai a matreira! – diziam eles a sapatear.
– Pronto, seu compadre, como a história da minha comadre!
Mas aqui foi vossemecê que fez de lobo, não é por o ofender! – disse o barbeiro, que tornara a ganhar. – Vamos à pinga! Vamos à pinga! – dizia ele esfregando as mãos – que esta bem ganha foi!
– Com muita súcia de trampolinice! – tornou-lhe o José Lorna. – Mas eu cá me hei-de vingar quando lhe medir a avença, deixe você estar!
Riram. E para que a conversa não esmorecesse, logo que empinou a primeira caneca diz o barbeiro para os rapazes:
– Queremos saber agora quantos pães é que fartam a barriga depois da barriga cheia?
Os rapazes não sabiam...
Sois uns brutos! E esta: que é? que é? preto por fora, amarelo por dentro; pendura-se na parede
e chama-se tacho?
– E um tacho! – fizeram os dois rapazes ao mesmo tempo.
– Olha o milagre! – riram-se todos.
– E de cobre e é redonda; tem um X no meio e é de dez réis. E esta? – tornou a perguntar o José
Bernardo.
– Ora! Essas não prestam! – disseram agastados os rapazes.
A Tia Maria, então, fez-lhes a vontade:
– Que é? Que é?
Uma dama bem toucada,
Dois leões a estão estripando,
Ao tocar da castanheta
As tripas lhe vão tirando.

Fartaram-se de disparatar os rapazes: cada um dizia sua coisa.
– Não é nada disso! Não é nada disso! – dizia, fazendo-se zangada, a Tia Maria Lorna. – O que é, está aqui ao pé de nós...
Tudo era porem-se os dois rapazes a esquadrinhar o que estava à roda, e os mais a rirem-se daquela faina.
– Nada, nada! Está mais perto! – ensinava o lavrador.
A Tia Aniceta, muito disfarçada, apontou então para a Tia Maria.
– E vossemecê! – disseram logo os dois rapazes.
Foi uma risota.
– Vocês parecem parvos! – exclamou a Teresa para lhes chamar a atenção. E num rápido movimento mostrou-lhes a roca onde também fiava.
– E uma roca! – disse logo o José Redondo.
– Ai é! – contestou o filho do barbeiro.
– É uma roca! sim senhor! acertou o José Redondo! – interveio a Aninhas. – «Uma dama bem toucada», a roca. «Dois leões a estão estripando», são os dedos, não vês?; «ao tocar da castanheta», porque os dedos, olha, parece que estão a tocar castanheta. «As tripas lhe estão tirando», porque o manelo vai-se fiando, e cá está no fuso a maçaroca.
O José Bernardo, que estava agarrado a uma «paciência», atirou esta sem despegar:

Tenho um brinco que brinca,
Que de brincar endoidece,
Quanto mais o brinco brinca
Mais a barriga lhe cresce.

Riram-se todos. Nem a Tia Maria Lorna, nem o José, nem as filhas, sabiam aquela. O rapaz do barbeiro coçava a cabeça a ver se se lembrava, porque o pai já lha tinha ensinado. A mãe fez-lhe um sinal...
– E um fuso! É um fuso! – gritou ele.
– Ai é! – disse agora o José Redondo.
E atiravam-se um ao outro, se não acode de lá o Tio José Lorna:
Alto cavaleiro
Abrem-se-lhe as bolsas,
Cai-lhe o dinheiro.

– Essa – disse a Teresa – também é assim:

Pinglo-pinglo, está pingando
Funglo-funglo, está fungando...

O Tio José Lorna interrompeu a filha, fazendo que não com a cabeça:
– Não senhora, não senhora...
– Sim, meu pai, com perdão de vossemecê:

Se o pinglo-pinglo não pingara
Funglo-funglo não fungara

– Não! – insistiu o pai. – Essa, é o porco debaixo do castanheiro: – funglo-funglo, pinglopinglo;
porque o porco faz fum, e os ouriços pingam as castanhas.
A Teresa concordou:
– Pois é, é, sim senhor! Perdoe vossemecê.
– Mas a do Sr. Compadre – interveio agora a Tia Aniceta – é só o castanheiro quando se lhe
abrem os ouriços.
– Ah! – fez a Teresa anuindo.
– Mas são verdes! – rematou o José Lorna, teimando na sua.
E foi então a vez do António:

– Que é? Que é?
Pucarinhos, pucaretes,
Ó que lindos ramilhetes!
Nem cozidos nem assados,
Nem mexidos com colher.
Não adivinhas este ano
Nem prò outro que vier,
Só se to eu disser.

– Essa agora é que há outra como ela! – explicou o José Lorna:
Tenho casa de alicerce...
– Não! Não vale! – rogou a Teresa. – Ó meu pai!
– Mas tanto monta! – insistiu o José Lorna. – Como são iguais, deixá-las ir ambas.
– Então vai também a minha, porque eu inda sei outra que é também romã – disse de lá a Tia
Maria.
– Ó minha mãe! vê?! Já disse o que era! – lastimou agora o António, no meio dos outros que
se riam. – A que a mãe queria dizer começava assim:
Rica e bela fui eu...
– Era assim, era! – disse-lhe a mãe inda às risadas. – Eu sempre sou muito tola!
– Não é, Sr.ª Comadre – fez de velhaco o barbeiro. – Às vezes descuida-se...
– Mas então – prosseguiu ele muito animado – lá vai também a minha! Mas esta agora há-se ser
ao ouvido da minha comadre! – E agarrando-se à velha, como quem a beija, disse-lhe ao ouvido uma adivinha, que todos ouviram...
Foi uma gargalhada geral!
– Ai este ladrão! Ai este ladrão! – dizia a velha a bater-lhe com o fuso. – Vá-se daqui! Vá-se vossemecê daqui! Olhem com o que ele se cá vem!
– Outra, Sr. Compadre! – clamou o barbeiro, agarrando-se logo ao lavrador. – Arreda! arreda! –
fazia o José Bernardo para os rapazes, que se queriam ambos intrometer no segredo. – Mas vossemecê é surdo, Sr. Compadre, o melhor é dizê-la de alto:

Pequeno como um tostão,
Abre e fecha sem cordão?

Cuidaram de estoirar de riso, com a nova adivinha do José Bernardo!
– Essas são boas, ó compadre! Essas são boas! – dizia, afogado de riso, o lavrador. – Ai o
diabo da lembrança!
Mas a Aninhas, purpureada, deitou água na fervura:
– Que é? que é?...
O barbeiro puxou-lhe na deixa... – que passa na água e não molha o pé?
– Um vitelinho na barriga da mãe! – adivinharam logo os dois rapazes. – Mas diga lá a sua, ó minha ama, diga lá a sua! – pediu, já confiado, o José Redondo.
Estava o José Bernardo agarrado outra vez ás cartas, e a Aninhas sempre conseguiu dizer a adivinha:

– Que é? que é?
Em Inglaterra fui feita,
Em Portugal fui vendida,
Se me prendem estou salva,
Se me soltam estou perdida.

– É que nem sei como a comadre velha não disse já que era uma agulha! – tornou muito ronceiro o José Bernardo, estendendo outra paciência.
A Aninhas zangou-se, quase chorou.
– Tem termos, homem, tem termos! –
admoestou-o a Sr.ª Aniceta. – Diga outra, ó minha comadrinha, diga outra, que os pequenos sabiam essa, não sabíeis?
– Sabíamos – disseram eles.
E para a prova de que sabiam, disseram outra igual, ambos em coro:

Anda de buraco em buraco
Sempre co as tripas de rasto.

A Teresa, para dar tempo a que a irmã se desgastasse, disse então esta:

É branca como a neve,
Preta como o pez,
Fala e não tem boca,
Anda e não tem pés?

– Ó compadre – disse o José Lorna para o barbeiro, depois de se lhe pôr a mirar a jaqueta com
que fora visitar o morgado, e que era a melhor da arca fateira. – Deixe que lhe não pintou nada mal a história de matar o lobo! – Deu-lhe a patente da Câmara para essa jaqueta... e pra que mais, ó compadre?
– Ora! que é uma moeda? – fez com desprezo o barbeiro.
– Que é uma moeda?! – repetiu, espantado com a pergunta, o lavrador.
– É uma libra com três tostões, bem sei – continuou o barbeiro. – São doze cruzados. Ponha lá que pra me dar pra esta jaqueta, pra uma saíta barata prà mulher e pra um fato prò rapaz, custou!
– Esse pouco! – admirou-se o José Lorna. – E bem melhor que rapar queixos, e andar por esse mundo a receitar mezinhas. E o filho da Trasga, é verdade, como vai o pequeno?
– Mal. Aquilo se assim vai, o rapaz vira!
– Pois é pena! – Pois é pena, que vinha a herdar uma boa casa!
– Mas eu é que não volto lá – declarou o barbeiro. – Foram-se aos Cortiços plo Doutor Albino, e agora que se arranjem...
Nesta altura, tinham os rapazes acertado com a adivinha, à custa de muitos sinais da Tia Maria:
– É uma carta!
– Pois já se vê – disse a velha. – Pois o que é que leva o João Correio, quando passa aí a cavalo
no macho?
– Leva sono! – tornou a meter-se o José Bernardo, que embirrava com o João Correio.
– Pois digo-lhe eu que era bem melhor matar lobos que rapar queixos! – insistiu o José Lorna, pondo-se outra vez a apalpar a fazenda.
– Mas se há mais bodes que lobos, ó Sr. José!? A gente que há-de fazer?! – E como se pusesse a teimar com o seu compadre, a ver se lhe entendia a «paciência», foi, enfim, para a linda Aninhas, a vez de propor a adivinha:

– Que é? que é?
Somos ambos dois irmãos
De diferente condição,
O meu irmão vai á missa,
Eu à missa não vou, não,
Para gostos e temperos
A mim me convidarão,
Para mesas e banquetes
Falem lá com meu irmão?

– É verdade! E essa? – perguntou aos rapazes a Tia Maria Lorna. – Era eu bem pequenina quando minha mãe ma ensinou; lembra-me bem que estávamos ao lume a assar castanhas – recordou ela. – Onde isso lá vai!
– Então não adivinhas? – perguntou a Ana já impaciente, com a agulha da meia encostada ao
lábio...
– É agulha! – aventou o José Redondo.
– É meia! – afirmou o André.
– Nem agulha nem meia! É...
– Não diga! Não diga, a ver se a gente
adivinhamos! – rogaram ambos juntos à Aninhas.
– Quem ensaiará este ano as loas prà festa, ó comadre? – perguntou a Tia Maria Lorna, que já se
aborrecia de tanta adivinha.
– Isso há-de ser lá a Sr.ª Infância, que pra essas coisas não há como ela. Só aqueles lindos versos do outro ano, que nunca me hão-de esquecer! Fala o anjo embaixador:

Já chegámos à igreja
Com prazer e alegria,
Vamos oferecer o ramo
À sempre Virgem Maria.
Por sorte me pertenceu,
Dentre as nobres jerarquias,
Ser eu participante
Das presentes alegrias.

– O último é que era bonito! – fez por se lembrar o António.
– Quando o anjo embaixador se ia embora, e deixava na capela as raparigas. Ele como é?
– Essa também me não lembra... – confessou com pena a mulher do barbeiro.
– Pois era assim! – recordou-se o filho do Lorna:

Tende, pois, enquanto eu volto,
As alâmpadas ardentes,
Porque há diferença nas virgens
Entre as loucas e as prudentes...

– Pois era assim, era! – confirmou arrebatada a Sr.ª Aniceta.
– E dizia muito bem as loas, e ia muito guapo, aquele filho do João Caseiro!
– Ele haverá entremez este ano? – perguntaram muito curiosos os dois rapazes, não se importando já com a adivinha.
– É vinho e vinagre! – ensinara-lhes por fim a Aninhas. – Não adivinharam! Surriada, que não adivinharam!
– Ai, é vinho e vinagre... – repetiram indiferentes os dois rapazes. – Mas ele este ano haverá entremez? – insistiram eles e também as mulheres.
– Ali o meu José é que há-de saber – disse a Tia Aniceta. –O José, sabes se sempre há entremez
na festa?
– Agora esta carta, já vê, muda-se pra ali... – prosseguia o barbeiro.
– Mas olhe o que lhe perguntam – avisou o José Lorna.
– Não sei! Eu sei lá se haverá entremez! Já ouvi dizer que só pauliteiros, e que vem também o Tio João Tambor, e dois gaiteiros de além do rio.
– Pois vamos lá, que já não é pouco!
– Qual não é pouco! Festa como a que mandou fazer o António Fagote, é que já aí não torna outra! – exclamou o José Bernardo. – Foi de ventas! Deixou a vara ensilveirada pra um par de anos, sou eu que o digo! Eh, caramba! só aquele sermão!
– E o macaco de fogo, ó Sr. José?! – lembrou o paquete muito admirado.
– O que disse daquele púlpito abaixo aquela alminha! – continuava abismado o barbeiro. – E depois, bom homem! por lhe fazer a coroa deu-me um pinto: – «Mestre, aí vai para as amêndoas.»
Aquilo sim! – Também eu – gabou-se o José Bernardo – fiz-lhe um favor! apresentei-lhe no púlpito uma limonada, que era de se lhe tirar o chapéu três vezes!
– O que ele disse a Nossa Senhora! – rememoravam ainda pasmadas as mulheres. – O que ele disse voltado pra aquela divina imagem!
– «Ó Virgem!...» – rompeu a declamar o barbeiro, imitando o pregador.
– Há-de perdoar, compadre, mas vamos lá às cartas! – interrompeu o José Lorna. – Com santos
não se brinca...
– Nem isto é brincar, Sr. Compadre! – observou com sinceridade o José Bernardo.
– Bem sei! – confirmou o lavrador. – Vossemecê não era capaz, mas os santos é que podem entender que é brincadeira. Nestas coisas, é bom acautelar. Vá lá: muda-se então pra ali esta carta... – E para o filho: – Dá-me daí com as tenazes nesse tição, e esperta-me esse lume.
Abriu a boca a Tia Maria, e perguntou, já por demais, arredando-se do lume esperto:
– E como estará do erisipelão a Maria Espanhola?
– Mal! Plos modos inda lá vai a benzedeira, mas aquilo está muito mal, coitada! E depois aquela carga de filhos! A Mónica sabe benzer, isso sabe. Mas vão lá saber se a mulher anda em graça de Deus...
– A mulher, qual mulher? – perguntou o barbeiro.
– Não é da tua conta! – respondeu-lhe a Aniceta. – Meta-se lá no que está a fazer, e deixe conversar os mais à sua vontade.
– Bem ouvi.., a Maria Espanhola... Essa está mas é na graça do grande diabo que a carregue! E outra que tal como aquele do Balsemão, que diz que tem uma cruz no céu da boca. Eu já uma noite, no arraial, lhe pedi que me mostrasse a cruz, mas ele não caiu nessa...
– Pudera! se é a sua «virtude»! – desculparam-no as mulheres.
– Ao menos os dentes! inda lhe eu disse.
Quero ver quantos anos tem!
– Ó Sr. José Bernardo... – repreendeu-o a Tia Maria Lorna.
– Ó minha comadre!... – retrucou-lhe o barbeiro no mesmo tom. – Se não houvesse tolos, não havia aldrabões!
– Ó António – interveio o velho Lorna –, vai lá ver que tal está a noite; e se estiver amanhã capaz, hás-de chegar ao Picão do Corvo, pra ver lá isso da alvaneira.
– Está a nevar – disse da janela o filho do Lorna.
– Melhor! – tornou o lavrador. – «Prò ano ser de pão, sete neves e um nevão.» Tu, olá, já sabes – continuou ele a dar as ordens. – De manhãzinha, rodas-me a saber do Sr. Morgado: que lhe mandamos todos muitos recados e saber se está melhor. Passas à vinda por Vale de Ferreiros, e
cortas uma carga de lenha, que há-de ser preciso alguma fornada.
– Ele inda aí há pão... – disse, mas condescendendo, a Tia Maria.
– Inda aí há, inda aí há, mas com tempo é que se aviam as coisas, e o rapaz aproveita caminho! –
teimou o Lorna pondo-se de pé.
– Está bem de ver – concordou o barbeiro já a abrir a boca.
– E nós vam’ lá com Deus, que isto já hão-de ser horas. André – gritou ele ao filho –, arriba! Estás a dormir, grande maroto? Olha que Lenha verde mal acende, Quem muito dorme pouco aprende.
– Basta que saia ao senhor seu pai! – disse, inda despeitada, a Aninhas, enrolando com o fio as agulhas da meia.
– Mau! ó minha comadrinha! Mas o que eu não quero é que fique zangada comigo! – rogou o José Bernardo pondo-se de pé, no meio dos outros todos já levantados. – Fica zangada, minha comadrinha?
– E era bem feito que ficasse! – repreendeu-o a Sr.ª Aniceta.
– E eu não lhe dançava na boda! – fez o barbeiro dando-se por pago, e acendendo na brasa o cigarro brejeiro.
– Olhem agora a grande desgraça! – tornou-lhe com desprezo a Aninhas. – Deixe estar que ninguém o convida! – concluiu ela já a sorrir.
Acendera a sua luz o velho José Lorna, e todos se davam já as boas-noites.
– Agora não se constipe, ó comadre! – recomendou a Maria Lorna. – Como está a nevar, ponha bem o xaile pla cabeça, e cautela com as escadas.
– Não tem dúvida, Sr.ª Comadre, muito boa noite; e muito boa noite, minhas comadrinhas!
Anda lá adiante, André! Esperta, olha não caias, André! Adeus, Sr. Compadre, com bem passem, e muito obrigado por este bocadinho.
– Adeus.
– Adeus.
– Não traga cá a luz, Sr. António, a gente já está avezada co as escaleiras. Muito boa noite, a todos, muito boa noite! Adeus.
– Adeus, adeus, embrulhem-se!
E como o José Lorna fosse também à janela para alumiar, ouviu-se-lhe a voz de bordão, dizendo para o outro que ia descendo:
– E olhe lá isso dos porcos, ó compadre!
Sempre quero saber de quem eram os porcos!
– Safa! que ele cai a valer, ó Sr. José! – exclamou, debaixo da nevada surda, o José Bernardo. – Cerre a janela, cerre a janela, que um catarral como quer se apanha! – recomendava ele já do meio da rua, que era à luz das candeias como um lençol.
– Mas olhe-me lá isso dos porcos, compadre! – teimava ainda o lavrador. – Eu quero saber de
quem eram os porcos!
Rangeu a porta do José Bernardo, quase fronteira; e já encafuado em casa, diz-lhe o barbeiro por uma frincha:
– Ó Sr. Compadre! Sr. Compadre!
Voltou atrás o lavrador.
– Que é?
– Ora sempre lhe quero dizer.., que eram meus os raios dos porcos!
– O quê?! Ó seu alma do diabo! Que diz você?! – atacou furioso o José Lorna, atirando os braços a um pau de lódão, enquanto as filhas o seguravam.
– Mas não tem dúvida – tornou-lhe de lá o barbeiro, atirando-lhe uma gargalhada:
– MATAM-SE!


Trindade Coelho, Os meus amores