27/08/2008

Meio pão com recordações


O descampado corria de todos os lados e cercava o casebre solitário. Distantes, solevando-se como uma brusca aparição, cabeços e montados recortavam-se a negro contra o fundo cor de cinza. Áspera, a ventania desabava sobre os plainos, agitava matos e sobreirais, vinha e gemia contra as telhas, contra a empena desmantelada.
Sentados sobre os mochos, no fundo do casebre, Júlia e a velha Amanda Carrusca fitavam o chão. Sombras espessas faziam das paredes e dos recantos uma só mancha circular; apenas as cantarias da lareira se salientavam, aprumadas.
Lentamente, Júlia volveu a cabeça. Na sua voz fraca, rouca, havia um profundo tom de desalento:
- Faz-se umas sopas do resto do pão, não acha?
- Sim - respondeu a velha. - Ainda aí temos uns alhos.
Júlia ergueu-se. Abriu a gaveta da mesa de pinho, tirou metade de um pão escuro e chato e começou a cortá-lo para dentro da tigela. A velha foi ao armário e veio colocar sobre a mesa os restos duma cabeça de alhos. Levemente curvada, de olhos pequenos e vivos, seguia com avidez as fatias que tombavam do gume da faca.
Mal acabou de migar a metade do pão, Júlia desviou a tigela, e servindo-se da lâmina como de uma espátula, começou a esmagar os alhos. O rosto comprido e trigueiro adoçou-se-lhe, numa esperança:
- Se o Inácio matasse um coelho!... -mas, repentinamente, levantou a cabeça. - Foi o Bento que tossiu?
- Ná. É essa ventania a raspar contra as telhas.
- Ainda bem... -ciciou Júlia. -Era mesmo bom, o coelho... cozia-se. Ao menos, hoje, enchíamos a barriga.
Fora, uma lufada violenta desferiu um gemido assobiado da empena do monte, um gemido longo que envolveu o casebre. Contrafeitas, as mulheres alongaram o olhar através da porta. O vento desgarrava-se da espessura do sobreiral e o cerro sacudia-se todo numa confusão de estevas.
Júlia sentou-se, poisou a faca sobre as fatias que enchiam a tigela, e apoiou o queixo na palma da mão. Os olhos, salientes e ensombrados, desviavam-se num estrabismo que a tolhia numa atitude de alheamento para tudo que a cercava. Parecia apenas atenta ao que era distante e invisível.
-Será que vai haver trovoada, mãe?
-Não me parece. Isto são nuvens de água.
Agachada na lareira, Amanda acamava um feixinho de estevas sobre as achas; riscou o fósforo e pegou-lhe lume. Por mais que desviasse a cabeça, o fumo resinoso envolvia-a. Com os olhos marejados de lágrimas, pegou no abano e sacudiu numa toada rápida.
-Que sítio... -suspirou Júlia. - Até parece que me dá quebranto. Nem sei... mas, nestes dias, sinto-me aparvalhada, como se de repente fosse acontecer uma desgraça.
- Ora!... Mariquices tuas.
A velha sentara-se no mocho. Sem deixar de abanar, limpava os olhos a uma das pontas do lenço. A pele, repuxada sobre os malares descarnados e sobre o nariz agudo, avermelhou:
- Tu nunca mais te esqueces do Zambujal, mulher.
-Como quer a mãe que me esqueça?
Fora, o choro do vento esvaía-se, numa agonia.
Amanda Carrusca olhou para o lume tomada de súbita tristeza:
-O meu mal é que já não tem sítio onde mude... Estou que nem me posso mexer, com dores.
Rápida, Júlia voltou-se:
-Você só pensa em si! Se lhe digo que me sinto mal, a senhora está sempre pior! - nervosa, pegou na cafeteira, foi ao poial das bilhas, encheu-a de água, e veio pô-la sobre a trempe. -Sempre gostava de saber o que lhe dói!...
Amanda Carrusca ensimesmou-se. Depois de reconsiderar longamente, encolheu a cabeça entre os ombros aguçados:
-Eu sei lá... É assim uma dor -e as mãos descarnadas tactearam sobre o peito, sobre as ilhargas. -Nem eu sei ao certo...
-Ora aí está!...
Acocorada, Júlia separava as cavacas e metia-as no lume. Mas o gemido do vento trespassou de novo a telha-vã; largou as achas e levantou-se:
-Isso é do caruncho dos anos, senhora!
Os olhos miúdos de Amanda rebrilharam, límpidos e intensos:
-Estás enganada que não sou assim tão velha como tudo isso. O caruncho é de outra coisa.
Pegou no abano e esganiçou-se, espevitada:
-Olha! Dês que me conheço, que a minha vida foi sempre a lidar. Caruncho dos anos... Por último, já tinha netos, até ceifei!
Júlia estava agora mais calma. As palavras exaltadas de ambas haviam quebrado um pouco a fria solidão do casebre. O vento soava, mais brando, com um ruído estrangulado pelo cano da chaminé.
-Ceifar!... No meu tempo, era trabalho só para homens. Mas a vida deu uma grande volta...
Ajeitou os cabelos de um branco sujo sob o lenço puído. «Que a vida nunca foi boa, isso não», prosseguiu a velha, lentamente, como se falasse para ela própria:
-Mas vinha o Natal e os lavradores davam pedaços de toucinho. No Ano Novo, a gente ia por essas herdades cantar as Janeiras, e vinham chouriços, paios, bocados de lombo. E, em toda a roda do ano, sempre lhes sobravam umas pingas de azeite e uns saquitos de farinha. Agora, é tudo compra-do... Quem há aí, na classe dos lavradores, que dê sequer dois dedos de toucinho?
De rosto lasso, Amanda repetiu, olhando para o lume com suavidade:
-Toucinho...
O gato atravessara a porta, num salto, e viera silenciosamente até à lareira. Expôs ambos os lados do corpo ao calor, arqueou a espinha num movimento gracioso, patas esticadas, e abriu a boca num bocejo que fez tremer a grande sombra desenhada na parede.
-O raio do gato anda farto!... -exclamou a velha mudando bruscamente.
-Pudera -disse Júlia. -Tem andado aos ratos, lá pelo barranco.
Mas Amanda voltara a cabeça para o lume:
-Se eu gostava de toucinho...Quando era daquele alto, cozido com feijão, comia-o às garfadas. A minha pena foi nunca comer quanto a barriga me pedia.
-Eu também gostava muito de toucinho -murmurou Júlia, sentando-se a olhar para o chão. -Mas frito, em fatias delgadas. Lembra-me sempre lá no Zambujal... Pela manhã, no Inverno, punha-me a comê-las com pão, até a lavradora olhar para mim e dizer: «Oh, moça, olha que arrebentas!» Se ela era minha amiga...
Os olhos da velha reluziam por entre as sombras das chamas que lhe bailavam no rosto:
-Ó Júlia! E pedaços de lombo fritos na banha vermelha?
-Lá no Zambujal -continuava Júlia -havia sempre comida à farta, e eu servia-me de tudo que ia para a mesa dos patrões. Era a única criada a quem consentiam isso.
A voz das mulheres havia-se tornado lenta e cheia de uma ternura tensa.
-Nunca me enjoava de carne, fosse qual fosse -lembrava Amanda Carrusca. - De porco, então, isso nem se fala. Como eu gostava de sentir a gordura a escorrer-me pelo queixo a abaixo!...
Com a cabeça levemente inclinada, Júlia olhava para a faca. No rosto e nos olhos desviados, imobilizara-se a suave expressão de quem recorda. A pouco e pouco, os lábios enrugaram-se-lhe, num trejeito de desânimo. Ergueu a cabeça:
-A pena que me deu quando saí lá do Zambujal...
E ia dizer ainda qualquer coisa quando reparou nas magras e escuras fatias dentro da tigela. Meio pão. Apenas meio pão, nada mais que isso. Mexeu os lábios mas não conseguiu falar; ficou muda, de olhos pregados na tigela.
No silêncio do casebre, a ventania ressoou solta; introduziu-se entre as telhas que se tocaram num ruído tilintado; no cano da lareira, rumorejou, soturno, abafando a chiada rabugenta da água a ferver sobre a trempe.
Os dedos de Amanda Carrusca haviam penetrado pela abertura da blusa e procuravam entre a camisa e a pele. Tirou-os, esfregou sisudamente o polegar contra o indicador; abriu-os, e a pulga estalou dentro do lume.
Saciado, o gato abriu de novo a boca, bocejando. Ligeira, a velha levantou a tenaz; mas o gato furtou-se à pancada com um meneio delicado de corpo. Rodeou o lume, e foi deitar-se no outro canto.
-Oh, senhora? -gritou Júlia, subitamente irritada.- Que mal lhe fez o bicho?!
-Nenhum. Mas então que queres? Dá-me zanga o raio do gato.
Deixando cair a tenaz sobre a pedra da lareira, quase sem transição, Amanda recomeçou:
-Pois é verdade... Isto deu uma grande volta. Aquela raça dos lavradores antigos acabou-se. Os de hoje já não dão nada. Moram nas vilas, têm casas nas cidades, não dão um passo sem ser de auto-móvel, inventam festas, não há cinemas nem teatros a que faltem. E para um estadão desses é preciso dinheiro e mais dinheiro; nunca se fartam. Por isso é que eles nos açulam os feitores às canelas, que nem deixam o pessoal respirar. Agora é tudo à má-cara e de relógio na mão. Se até inventaram leis para um trabalhador ir abaixar-se atrás duma moita!
Amanda Carrusca desviou os olhos para o lume. Esteve assim por momentos, depois olhou para a filha:
-Uma coisa é certa: o mau passadio e as muitas canseiras é que foram o caruncho. Quem diz a verdade é o teu marido. Que já não valho as sopas que como, diz ele. E é assim mesmo.
-Mas quem lhe disse essa mentira, criatura? -Ninguém.
-Então como sabe?
-Ora! Calculo eu.
As mãos de Júlia espalmaram-se sobre as saias; alterada, movia a cabeça de um lado a outro:
-Você passa o tempo a magicar coisas só para me fazer danar! Acha que é pequeno o inferno em que vivo? Acha?
Amanda Carrusca entesou o busto; as pontas do lenço atadas debaixo do queixo adiantaram-se, tré-mulas:
-Oh, mulher! Se ele o dissesse, não era motivo para tanta espantação! Já dei o que tinha a dar e a culpa não é minha, pronto. Comecei por guardar porcos; agora cuido do teu filho.
-Vejam lá!... O que para aí tem dito só porque lhe chamei velha... Você é mesmo geniosa, senhora!
O estampido de um tiro estalou ao longe, passou pelo casebre, e prolongou-se, despegando ecos de barranco em barranco. As duas mulheres levantaram-se ao mesmo tempo e ficaram a olhar-se, ansiadas, até o som morrer, levado pelo vento.
-Teria ele matado o coelho? ...
-Decerto que matou! -e Amanda Carrusca, de olhos rebrilhantes, esfregava as mãos. -O teu homem nunca erra um tiro!
Júlia pegou na tigela cheia de pão migado:
-Que Deus a oiça!... Bem. Agora a mãe vá buscar o Bento. Veja se consegue trazê-lo que já está muito frio.
As duas mulheres mexeram-se, apressadas e leves, na penumbra da casa. Amanda suspendeu o abano do prego, foi à porta, e gritou com voz esganiçada:
-Anda cá, Bento!
Segurou o bico do lenço, cuja ponta negra lhe voejava sobre as costas como uma asa, e pôs a outra mão ao lado da boca:
-Pois tu não ouves, Bento?
Por cima das estevas, o penacho dos cabelos amarelos ia e vinha num baloiço certo. Amanda saiu ao terreiro. O vento pegou-lhe nas saias e subiu-lhe pelas pernas; um arrepio obrigou-a a aconchegar os antebraços sobre a cintura. Junto do monte de pedras quase tapadas pela terra, avançou cautelosamente.
-Vamos, Bento. Anda para casa.
Ao apelo respondeu um grunhido que se foi modulando ao compasso do incessante movimento de vaivém que Bento imprimia ao tronco.
-Vamos.
O grunhido foi-se calando com o ritmo cada vez mais vagaroso do baloiço. Com a cara de lado, Bento correu o olhar pelo corpo da avó, lentamente, desde os pés à cabeça, até ficar imóvel, de queixo levantado. As pálpebras roxas abriam-se-lhe desmesuradamente como se uma névoa lhe turvasse a vista. A cabeça torcida e o jeito dos braços soerguidos desenhavam-no na atitude de espanto e de alerta do animal que se apercebe da aproximação do inimigo.
A medo, Amanda adiantou a mão até tocar-lhe no ombro:
-Anda, Bento.
Mas retirou-a vivamente. O neto arremetera, e com os dentes apanhara-lhe o braço um pouco acima do pulso. Do choque, Amanda rolou pelo monte de pedras, safando o braço num esticão.
Já fora de perigo, meio acocorada, observou através do rasgão recém-aberto as duas manchas avermelhadas que afloravam sobre a pele. Olhou em redor pelo chão lamacento; apressada, curvou-se e tentou tirar uma pedra. Mas o pedregulho estava encravado na terra e não saiu. Os olhos da velha fixaram-se sobre o neto. Avançou, devagar, e atirou-lhe um pontapé ao joelho. Bento arremeteu outra vez. Arrastava-se, ajudando com as mãos.
As arrecuas, Amanda procurava agora o momento oportuno para novo pontapé. O vento enfunava-lhe as saias e a ponta do lenço, dobrada para o alto da cabeça, semelhava uma enorme crista negra.
De súbito, o temor fê-la correr para casa. Perto, voltou-se. O corpo franzino de Bento permanecia ainda na mesma atitude: os dentes arreganhados, o braço erguido e arqueado como uma pata pres-tes a desferir o golpe.
Esfregando sobre a palma da mão o pulso dorido, Amanda Carrusca cruzou a soleira. Sentou-se no mocho, poisou o olhar nas chamas, e disse com voz amarga:
-Vai tu buscá-lo que ele não quer vir .
-Eu? Deixe lá; espera-se que o pai chegue. De há um tempo para cá, até ando com medo dele.
-Raio de mulher, que tem medo de tudo!
Reanimada pelo calor brando do lume, Amanda aconchegou-se melhor. Abriu as pernas e puxou as saias ao meio das canelas:
-Pois olha, se tu quiseres, eu pego aí num pau e verás se o trago ou não para casa.
A cabeça adiantou-se-lhe quase toda fora do lenço:
-Queres?
-O moço é algum cão, senhora?
Escarninha e azeda, a cara de Amanda Carrusca reentrou no bioco do lenço:
-Pudera! Não há-de ele fazer o que quer!... Olha para isto; atirou-me ao chão, e ainda por cima me mordeu.
O rosto macilento de Júlia inclinou-se para o pulso que a velha lhe estendia:
-Que quer que lhe faça? Quer que mate o moço? Isso, também, nem ferida fez. O pior foi o rasgão.
-Pois, o pior foi o rasgão! -exclamou Amanda, erguendo as mãos e deixando-as cair abertas sobre os joelhos E eu, que me não posso mexer com dores, que seja mordida e derrubada!
Irritada, Júlia explodiu:
-Deixe-me, deixe-me!
Mas a velha levantou-se, afastou-a, e correu para a porta. Modificando a expressão por completo, Júlia seguiu-a.
-Lá vem o teu homem!... -disse Amanda Carrusca, semicerrando os olhos. -Vês alguma coisa? Ainda não alcanço bem daqui!... Tu vês, vês o coelho?...
Longe, na tarde tempestuosa, por momentos o perfil do Palma apareceu, negro, no alto duma colina, com a espingarda segura pela câmara. Logo se sumiu, entre estevas.
Especadas sobre a soleira, as duas mulheres aguardavam numa grande incerteza. O próprio casebre parecia compartilhar da mesma expectativa. Estava meio em ruínas. O sol, chuvadas e ventanias haviam comido a cal e aberto fendas nas paredes. O telhado abatera-se numa breve reentrância, como um quarto crescente com os bicos voltados para o céu. E os buracos mal desenhados das janelas sem vidros fitavam com espanto a agressiva desolação da planície.



Manuel da Fonseca

24/08/2008

A árvore que cantava





Era Janeiro, uma daquelas manhãs claras e secas que fazem lembrar velhos montanheses de bigodes gelados e olhos piscos do sol. Nevara. Grandes e densos flocos tinham caído durante toda a noite. Depois, com a chegada do dia, um forte sopro de vento norte limpou o céu.
A floresta, que começa atrás da casa e se estende pela montanha, estava completamente adormecida, envolta num grande silêncio gelado. Por entre as árvores estendiam-se sombras azuis. Os pinheiros vergavam sob a carga da neve, pois o vento da madrugada soprara apenas o suficiente para afastar as nuvens.
Isabel e Gerardo viviam ali, junto do bosque, em casa dos avós. Era uma casinha cinzenta de portadas verdes. Lá longe, na margem gelada da ribeira, ficava a aldeia, que mal se via naquela manhã, bem como o caminho que seguia ao longo dos campos e atravessava a pradaria.
Da janela, as duas crianças esforçavam-se por segui-lo com o olhar. Viam-no bem até à primeira curva, junto do grande ácer morto há dois anos, e que o avô ainda não tinha decidido cortar, mas, para lá dele, tudo se confundia.
Enquanto estavam assim, de nariz colado ao vidro, Isabel e Gerardo viram passar um pássaro, depois outro e depois um bando que se empoleirou na ramada fazendo cair montinhos de neve.
— Estão com frio — disse Isabel. — É preciso dar-lhes sementes ou pão para eles comerem.
Arranjou alguns grãos e Gerardo abriu a janela.
— Fecha depressa — gritou o avô — que o Inverno vai entrar-nos pela casa dentro!
As crianças puseram-se a rir. Como se o Inverno pudesse entrar numa casa!
Isabel atirou os grãos para a vereda que o avô tinha varrido para poder ir buscar lenha. A avó pôs-se a tossir e levantou as tampas redondas do fogão para lá meter um enorme cavaco. Depois de fechada a janela, dois pássaros desceram da latada. Os outros pareciam inquietos mas, ao verem que nada se mexia, voaram também, enquanto outros desciam do telhado, direitinhos, quase sem baterem as asas.
— A comida não vai chegar para todos — disse Isabel. — Estão a vir cada vez mais.
— Chega! Já chega! — gritou a avó. — Se lhes deres tudo, as minhas galinhas é que vão ficar sem nada!
— E se continuas, vais atrair todos os pássaros da floresta — disse o avô exagerando.
Isabel lá se conformou e voltou para a janela. Ficou bastante tempo ao lado do irmão, limpando o vidro embaciado quando deixava de conseguir ver. De repente, agarrou no braço do irmão e disse, apontando:
— Olha para o caminho!
Gerardo levantou os olhos. Ao fundo, para lá do ácer morto, um curioso animal avançava sobre a neve. Parecia o coelhinho de corda mecânico que o Pai Natal tinha trazido a Gerardo, alguns anos atrás. Saltitava, vacilava da direita para a esquerda e parava a todo o momento, exactamente como o brinquedo. Estava vestido de pêlo cinzento e tinha orelhas compridas, que se tocavam no cimo da cabeça, tal e qual o coelho.
Esta aparição era tão surpreendente que as crianças esqueceram as aves e ficaram de boca aberta a observar aquele estranho animal cujos olhos, por vezes, reflectiam luz.
Quando o coelho, que caminhava apenas com as patas de trás, chegou junto da sebe que circundava o jardim, as crianças só lhe viram a cabeça.
— Parece que vem para aqui! — murmurou Gerardo.
— É verdade! Está a contornar o jardim.
O coelho desapareceu e seguiu-se um longo silêncio angustiante. As crianças sustinham a respiração, à escuta. Em breve ouviram-se passos no degrau de pedra, e os pássaros voaram tão rápido que as crianças se assustaram.
— Não ouviram nada? — perguntou o avô.
Os dois pequenos abanaram a cabeça.
— O que poderá ser? — disse a avó. Àquela hora o carteiro ainda estava longe. Os avós não tinham visto nada da estranha figura e os pequenos não ousavam responder. Não podiam dizer: “É um coelho mecânico, grande como um homem, que vem sozinho e está a bater as botas na soleira da porta!”
Sentiu-se ainda um roçar na parede, depois ouviu-se bater à porta. Os avós olharam um para o outro e depois para a porta. Como voltaram a bater com mais força, o avô gritou por fim:
— Entre!
A porta abriu-se lentamente e uma baforada gelada entrou na cozinha. Desta vez era o coelho quem trazia o Inverno no pêlo cinzento. Porque era mesmo ele que se encontrava ali, de pé, na soleira da porta, surpreendido com o calor e o cheiro do lume onde se cozinhava carne de coelho verdadeiro.
A avó correu a fechar a porta. E não é que o coelho se põe a falar!…
— Bom dia, bom dia — disse ele. — Venho muito cedo, desculpem, mas…
Os pêlos cinzentos afastam-se à altura do rosto, aparecem uns grandes óculos, depois um nariz muito vermelho, depois uns bigodes espetados como uma vassoura de crinas de cavalo e a seguir uma cara de barba branca, parecida com a do avô.
— Mas, é o Vicente! — disse o avô, admirado. — É o Vicente!
E era verdade! Era mesmo o Vicente. E só quando tirou o boné de orelhas levantadas e despiu a peliça cuja gola lhe tapava os olhos é que as crianças tiveram a certeza de que o coelho mecânico era um homem. Nunca o tinham visto, mas o avô já lhes tinha falado muitas vezes daquele velho amigo.
O tio Vicente limpava os óculos, limpava as lágrimas que lhe corriam dos olhos e repetia:
— Quase nem vos vejo. O calor, depois do frio, faz-me sempre chorar. E os óculos ficam embaciados.
Não via, mas podia falar e ouvir. Rapidamente se sentou ao canto da lareira junto do avô e pôs-se a contar histórias do seu tempo de rapaz. O avô também contava as suas. Falavam ao mesmo tempo, não ouviam o que cada um dizia, mas ambos pareciam felizes.
As crianças tinham voltado para a janela. Já não havia grãos, mas algumas aves teimavam em procurá-los. Uma sombra passou sobre a neve, um pássaro grande, preto, baixou para ir pousar em cima da árvore morta. Gerardo voltou-se e disse:
— Avô, está uma águia em cima da árvore morta! Anda depressa! Anda ver depressa, avô!
O avô nem se mexeu, mas Vicente levantou-se e juntou-se às crianças. Com os óculos redondos, e agora já limpos, em cima do nariz, disse:
— Não é uma águia, é um corvo. E a árvore é um ácer, mas não está morta.
Do seu sofá, o avô gritou:
— Já está morta há dois anos. E, mal possa, vou arrancá-la.
— Asseguro-te que não está morta — afirmou Vicente. — As árvores nunca morrem…
— Não me digas uma coisa dessas! — disse o avô admirado. — Garanto-te que já passaram duas primaveras sem ela dar rebentos. Digo-te que está morta e pronta para ser queimada.
Vicente olhou-os a todos mas dir-se-ia que não estava a vê-los, que fixava outra coisa distante, para lá do fim da planície.
— Repito que as árvores nunca morrem — disse. — E vou provar-vos. Hei-de prová-lo, fazendo cantar o vosso velho ácer.
O avô pareceu não acreditar, mas calou-se. Vicente era seu amigo, por isso não queria contrariá-lo.
As crianças entreolharam-se. Será que tinham ouvido bem?
Vicente voltara a sentar-se no cadeirão e retomara já o fio das suas histórias. Vai ficar por ali até ao anoitecer e partilhar com eles a refeição do meio-dia.
Quando Vicente se vai embora, o avô acompanha-o até ao ácer. Andam em volta da árvore como se jogassem às escondidas, e parecem minúsculos à luz do crepúsculo que afasta tudo e confere à paisagem o aspecto de um postal de boas-festas.
Mal o avô regressa, as crianças correm para ele e perguntam:
— Então, o que é que ele disse?
— O Vicente teima que o ácer não está morto. E até me prometeu que ia fazê-lo cantar.
— Mas como, avô? Como é que ele irá fazer?
— Esse é o segredo dele. Mais tarde verão. Não posso dizer-vos nada porque ele nada me explicou. É preciso esperar.
As crianças bem insistem, mas o avô não diz mais.
O tempo passou. A neve derreteu e as chuvas da Primavera limparam as últimas marcas do Inverno no flanco da colina. As crianças nunca mais pensaram no tio Vicente. Porém uma tarde, ao regressarem da escola, aperceberam-se de que faltava qualquer coisa na paisagem. Era o ácer. No seu lugar havia apenas um cepo enorme, alguns ramitos, pedaços de casca e serradura semelhante a um montinho de neve que tivesse ficado ali esquecido pelo sol.
— Deve ter sido o avô que cortou a árvore — disse Gerardo. — Não devia ter feito isso. O senhor Vicente tinha prometido que ia fazê-la cantar.
— E tu acreditas nisso? — perguntou Isabel.
— Claro, porque foi o senhor Vicente que prometeu.
— Mas o avô acha que uma árvore morta só pode cantar no lume!
— Não quero que a queimem — disse o rapaz. — Anda, vem depressa!
Desataram a correr para casa. Pousaram as pastas ao fundo das escadas e escaparam-se para a casa da lenha, uma pequena cabana de madeira que o avô construíra ao fundo do quintal.
A porta estava escancarada e a carroça de mão parada diante da entrada. As crianças correram a toda a velocidade e chegaram coradas e ofegantes. O avô e Vicente saíam da casinha da lenha. Um troço do ácer ainda estava em cima da carroça. As crianças olharam para Vicente com ares de reprovação nos seus olhos claros, mas o velhote sorriu-lhes por baixo do bigode. Aproximou-se do carro e pôs-se a acariciar o tronco do ácer como se fosse um cão.

As mãos do senhor Vicente são grandes, com dedos compridos e grossos e unhas levantadas na ponta, com uma forma esquisita. Quando Vicente acaricia a madeira parece que está lixá-la, de tão ásperas que são as suas mãos. Quando cumprimenta, dir-se-ia que traz calçadas luvas de ferro, como as que usavam os cavaleiros na Idade Média.
Acariciou a madeira e piscou o olho, dizendo:
— Não se preocupem, ele cantará. Prometi e cumpro sempre as minhas promessas.
— Há-de cantar no fogão — resmungou o avô. — Como todas as árvores que morrem. Fazê-lo cantar assim é fácil.
O avô devia estar a brincar! Mas Vicente deu ares de se zangar.
— Cala-te! — gritou ele. — Tu não percebes nada. Eu cá digo-te que vai cantar melhor do que quando estava vivo, com os pés enterrados e a cabeça ao sol. Melhor do que nos dias em que estava carregado de pássaros e era sacudido pelo vento.
As crianças escutavam aquela linguagem curiosa. Como pareciam duvidar, Vicente agarrou cada uma pelo braço e apertou-as com as suas mãos duras. Apertava muito, quase magoava, mas aquela força dele dava muita segurança. Virou-se para a carroça e continuou a apalpar o grande tronco deitado em cima das tábuas.
Inclinava-se, batia com os nós dos dedos, escutava, levantava-se meneando a cabeça, exactamente como faz o médico quando estamos doentes na cama, com muita febre. Mas Vicente não parecia preocupado. Continuou a auscultar a árvore, repetindo de vez em quando:
— Está boa… está muito boa… Está saudável… Há-de cantar… Hão-de ver que é verdade o que lhes digo. Há-de cantar, melhor do que quando estava carregadinha de pássaros.
No dia seguinte, tinha desaparecido tudo. Na cabana já só restavam alguns ramos e um monte de serradura. As crianças puseram-se à procura e lá acabaram por encontrar o ácer no sótão. Mas, desta vez, ficaram muito decepcionadas. A árvore estava irreconhecível, toda transformada em grandes tábuas. Tinha mesmo o aspecto de uma árvore morta.
— O senhor Vicente estava a brincar connosco — disse Isabel. — Ele nunca vai fazer cantar esta árvore. Só se fosse feiticeiro. E o senhor Vicente não é nenhum feiticeiro.
— Sabes lá?
Isabel olhou para o irmão muito espantada.
— Achas que ele é feiticeiro!? — perguntou.
Gerardo deu-se ares de importante:
— Não seria impossível. Eu sei cá umas coisas… umas coisas.
De facto, gabava-se de que estava mais bem informado do que a irmã, mas o certo é que não sabia mais acerca do tio Vicente do que vocês e eu. Mas a Primavera está cheia de vida e as crianças depressa esqueceram a velha árvore. Antes da seiva começar a subir, o avô tinha ido à floresta e trouxera dois áceres pequenos que plantara à beira do caminho, de cada lado do velho cepo. Agora, aquelas árvores pequenas já tinham folhas e começavam a cantar com o vento que vinha do horizonte distante, empurrando enormes nuvens brancas no céu azul.
Passou a Primavera e depois, um dia, no mês de Julho, o avô tirou o carro de mão da casa da lenha e foi ao sótão buscar as tábuas maiores que tinha feito com o ácer.
— Vamos lá então à oficina do Vicente — disse.
Isabel trepou para a carroça. O avô puxava pelo timão, enquanto Gerardo empurrava atrás. Andaram mais de uma hora até chegarem à aldeia. Uma hora debaixo de um sol escaldante.
Vicente vivia mesmo no fim da aldeia, numa casa cujas janelas viam correr a água do ribeiro. Mal ouviu ranger as rodas de ferro na calçada do pátio, Vicente apareceu à soleira da porta. Levantou os braços num gesto cómico e exclamou.
— Diacho! Aqui estão clientes sérios! Há quanto tempo vos esperava!
Vestia uma camisa clara e um avental de lona azul que lhe chegava aos pés. As mangas arregaçadas deixavam ver os antebraços magros e por isso as mãos pareciam ainda mais gordas.
Ajudou o avô a transportar as tábuas até ao fundo de um grande barracão sombrio onde as crianças não se atreveram a entrar. Lá de dentro vinha um cheiro esquisito, por isso deixaram-se ficar ali de mãos dadas.
Contudo, Vicente mandou-as entrar para um outro compartimento mais claro. O sol, reflectido pela água do ribeiro, dançava no tecto.
— A madeira — dizia ele — é um material nobre.
O reflexo da água do ribeiro brincava por cima das suas cabeças, assemelhando-se a ondas agitadas.
— Dêem-me licença de que acabe o que estava a fazer — disse Vicente.
O avô aprovou e o velhote lançou-se ao trabalho. As suas mãos enormes, que pareciam tão desajeitadas, podiam manipular os objectos mais minúsculos e mais frágeis. Vicente explicou que estava a polir o mecanismo da fechadura de um cofre de segredo. Fazia tudo em madeira, até as fechaduras e as dobradiças.
Para ele, o metal estava ao serviço da madeira.
— A madeira — dizia — é um material nobre. Vivo? Sempre vivo. O metal é bom para fabricar os instrumentos que permitem trabalhar a madeira. Mas a madeira… a madeira…
Quando pronunciava esta palavra, os olhos nem pareciam os mesmos.
Vicente não era um homem como os outros: era um apaixonado pela madeira.
Falava dela como de um ser vivo, como de uma pessoa da sua família com quem vivesse há anos. Com a madeira podia fazer tudo. Caixinhas pequeninas incrustadas de marfim e de embutidos complicados. Pequenas mesinhas, cujos pés eram tão finos que as crianças até sustinham a respiração com receio de as fazer cair.
As paredes da sua oficina estavam guarnecidas de instrumentos colocados em prateleiras ou suspensos em ganchos. Havia plainas de todos os tamanhos e de todas as formas, serras, goivas, tesouras, galopas, caixas com formas, compassos e muitos outros instrumentos cujos nomes as crianças estavam a ouvir pela primeira vez. E depois, havia frascos de cola, garrafas de verniz, bolas de cera e madeira por todo o lado. Madeira de todas as qualidades, de todas as formas e de todas as cores.
Quando Isabel, que era muito curiosa, se dirigia para uma pequena porta e já tinha a mão pousada no puxador, Vicente correu até junto dela:
— Não, não — disse ele — não entres aí… É nesse quarto que está o meu segredo.
Isabel imaginou o quarto do Barba-Azul, mas riu-se. Há muito tempo que não acreditava nessas coisas.
— É o meu segredo — repetiu Vicente. — Hás-de conhecê-lo quando ouvires a tua árvore cantar.
O Verão passou demasiado depressa, com as férias e as maravilhosas correrias pelo campo e pela floresta. As duas árvores plantadas pelo avô cresciam bem. Os pássaros já lá pousavam. No início das aulas, as suas folhas começaram a ficar amarelas e os fortes ventos de Outono levaram-nas para longe. Os dois pequenos áceres pareciam mortos, mas Gerardo e Isabel sabiam que acabavam de adormecer para o Inverno. Por causa dos trabalhos de casa, sempre difíceis, e das lições a estudar, as duas crianças não pensaram mais nos áceres nem na promessa do tio Vicente.
Numa quinta-feira de manhã, uns dias antes do Natal, os pequenos aperceberam-se, ao acordar, de que a neve tinha chegado.
Havia um grande silêncio em volta da casa, e a luz filtrada pelas frinchas das persianas era mais branca do que a das outras manhãs. Levantaram-se muito depressa, apesar do frio.
— Os pássaros! — disse Isabel. — Temos de pensar nos pássaros!
Ia abrir a janela para deitar comida, quando avistou, a cambalear pela vereda branca, o coelho mecânico.
— Vicente, é o tio Vicente!
Era mesmo ele, vestido com a peliça cinzenta e o boné de orelhas, mas trazia debaixo do braço um grande volume, comprido, embrulhado num papel castanho. O velho homem aproximava-se lentamente, acertando com dificuldade no traçado do caminho. Passou pelos dois áceres que mal se viam no meio daquela brancura, o boné dançou por uns momentos acima da sebe e depois desapareceu.
— É ele! — repetiam. — É mesmo ele!
Não sabiam o que trazia o tio Vicente, mas o coração pôs-se-lhes a bater muito depressa. Mal os pés do velho bateram na soleira de pedra, Gerardo correu a abrir a porta.O ar que entrou ao mesmo tempo que Vicente vinha salpicado de flocos brancos. O fogo crepitou mais forte e depois fez-se silêncio. Estavam ali os quatro a olhar para o tio Vicente e para o seu embrulho muito bem atado.
Vicente pousou o embrulho em cima da mesa, tirou os óculos, limpou-os devagarinho, assoou-se, voltou a pôr os óculos e aproximou-se do fogo, a esfregar as mãos, que faziam um ruído como se fossem de lixa.
— Está-se melhor aqui do que lá fora — disse ele.
As crianças estavam impacientes. Uma de cada lado da mesa, miravam o embrulho sem ousarem tocar-lhe. O velho homem parecia que sentia prazer em fazê-las esperar. Observava-as pelo canto do olho e deitava uns sorrisos cúmplices aos avós.
Por fim, virou-se e disse:
— Então, por que esperam para o abrir? Não sou eu que vou desmanchar o embrulho!
Quatro mãozinhas voaram ao mesmo tempo. Eram muitos nós e estavam muito apertados.
— Avó, empresta-nos a tesoura…
— Não — disse Vicente. — É preciso aprender a paciência e a economia. Desfaçam os nós e não estraguem nada, quero recuperar o fio e o papel.
Foi preciso ter paciência, magoar as unhas, aborrecer-se um bocadinho. O tio Vicente ria-se.
Os avós, tão impacientes como as crianças, esperavam, seguindo com os olhos todos os seus gestos. Finalmente o papel foi retirado, e surgiu uma caixa comprida de madeira avermelhada e luzidia. Era mais larga num lado do que no outro. Vicente aproximou-se lentamente e abriu-a.
No interior, numa cama de veludo verde, dormia um violino.
— Aqui está, e tudo isto feito com a vossa árvore — disse o Vicente.
— Meu Deus — repetia a avó, que juntara as mãos em sinal de admiração. — Meu Deus, que lindo que é!
— Ora, uma destas!… com que então!… — gaguejava o avô. — Sabia que eras habilidoso, mas não tanto!
O velho artesão sorria. Passou várias vezes a mão pelo bigode antes de dizer:
— Percebem agora por que é que não queria deixar-vos entrar na estufa? É que veriam lá violinos, guitarras, bandolins e muitos outros instrumentos. E vocês teriam adivinhado tudo. É verdade! Sou luthier. Faço violinos… E o ácer, sabem, é a madeira que melhor canta.
A sua mão avançou lentamente para acariciar o instrumento, depois retirou-a a tremer.
— Então? — disse ele a Gerardo. — Não queres experimentar? Não queres fazer cantar a tua árvore? Anda lá, podes pegar nele. Olha que não morde, fica tranquilo.
O rapaz retirou o violino da caixa e pegou nele como via fazer aos músicos. Pousou o arco em cima das cordas e fez sair uma chiadeira horrorosa. A avó tapou os ouvidos, enquanto o gato, acordado em sobressalto, desaparecia debaixo do guarda-loiça. Todos se riram.
— Está bem! — disse o avô. — Se é a isto que chamas cantar!
— Tem de aprender — disse Vicente pegando no instrumento, que colocou debaixo do queixo.
E o velho luthier de mãos enormes pôs-se a tocar. Tocava e caminhava devagarinho em direcção à janela. Imóveis, as crianças olhavam e escutavam.
Era uma música muito suave, que parecia contar uma história semelhante às velhas lendas vindas do fundo do horizonte.
Vicente tocava, e era mesmo a alma da velha árvore que cantava naquele violino.


Bernard Clavel
L’arbre qui chante

A Galinha


Minha mãe e minha tia foram à feira. Minha mãe com o meu pai e minha tia com o meu tio. Mas todos juntos. Na camioneta da carreira. Na feira compraram muitas coisas e a certa altura minha mãe viu uma galinha e disse:

- Olha que galinha engraçada.

E comprou-a também. Estava agachada como se a pôr ovos ou a chocá-los. Era castanha nas asas, menos castanha para o pescoço, e a crista e o bico tinham a cor de um bico e de uma crista. Nas costas levara um corte a toda a volta para se formar uma tampa e meterem coisas dentro, porque era uma galinha de barro. Minha tia, que se tinha afastado, veio ver, estava a minha mãe a pagar depois de discutir. E perguntou quanto custava. A mulher disse que vinte mil réis, minha tia começou aos berros, que aquilo só se o fosse roubar, e a mulher vendeu-lhe uma outra igual por sete mil e quinhentos. Minha mãe aí não se conformou, porque tinha regateado mas só conseguira baixar para doze e duzentos. A mulher disse:

- Foi por ser a última, minha senhora.

Minha tia confrontou as duas galinhas, que eram iguais, achando que a de minha mãe era diferente.
- Só se foi por ser mais cara – disse minha mãe com a ironia que pôde.

Minha tia aqui voltou a erguer a voz. Não se via que era diferente? Não se via que tinha o bico mais perfeito? E o rabo?

- Isto é lá rabo que se compare?

E tais coisas disse e tantas, com gente já a chegar-se, que minha mãe pôs fim ao sermão, por não gostar de trovoadas :

- Mas se gostas mais desta, leva-a, mulher.

Foi o que ela quis ouvir. Trocou logo as galinhas, mas ainda disse:

- Mas sempre te digo que a minha é de mais dura, basta bater-lhe assim (bateu) para se ver que é mais forte.

- Então fica com ela outra vez – disse minha mãe.

- Não, não. Trafulhices, não. Está trocada, está trocada.

Meu tio estava a assistir mas não dizia nada, porque minha tia dizia tudo por ele e, se dissesse alguma coisa de sua invenção, minha tia engolia-o. Meu pai também estava a assistir, mas também não dizia nada, por entender que aquilo era assunto de mulheres. Acabadas as compras, minha mãe voltou logo com o meu pai na carroça do António Capador que tinha ido vender um porco. Mas a minha tia ficava ainda com o meu tio, porque precisavam de ir visitar a D. Aurélia, que era uma pessoa importante e merecia por isso uma visita para se ser também um pouco importante. E como ficavam e só voltavam na camioneta da carreira, a minha tia pediu a minha mãe que lhe trouxesse a galinha, para não andar com ela o dia inteiro num braçado, que até se podia partir. De modo que disse:

- Tu podias levar-me a galinha, para não andar com ela o dia inteiro num braçado, que até se pode partir.
Minha mãe trouxe, pois, as duas galinhas na carroça do António Capador, e a minha tia ficou. E quando à tarde ela voltou da feira, foi logo buscar a sua. Minha mãe já a tinha ali, embrulhada e tudo como minha tia a deixara, e deu-lha. Mas minha tia olhou a galinha de minha mãe, que já estava exposta no aparador, e, ao dar meia volta, quando se ia embora, não resistiu:

- Tu trocaste mas foi as galinhas.

Disse isto de costas, mas com firmeza, como quem se atira de cabeça. E minha mãe pasmou, de mãos erguidas ao céu:

- Louvado e adorado seja o Santíssimo Nome de Jesus! Então eu toquei lá na galinha! Então a galinha não está ainda conforme tu ma entregaste! Então tu não vês ainda o papel dobrado? Então não estarás a ver o nó do fio?

Estavam só as duas e puderam desabafar.

- Trocaste, trocaste. Mas fica lá com a galinha, que não fico mais pobre por isso.

Minha mãe, cheia de compreensão cristã e de horror às trovoadas, ainda pensou em destrocar tudo outra vez. Mas aquilo já ia tão para além do que Cristo previra, que bateu o pé:

- Pois fico com ela, não a quisesses trocar. Só tens gosto naquilo que é dos outros.

E daqui para a frente, disseram tudo. Minha tia saiu num vendaval, desceu as escadas ainda aos berros, de modo que minha mãe teve ainda de vir à janela dizer mais coisas. Minha tia foi indo pela rua adiante, sempre aos gritos, e de vez em quando parava, voltando-se para trás para dizer uma ou outra coisa em especial a minha mãe, que estava à janela e lhe ia também respondendo como podia. Até que a rua acabou e minha mãe fechou a janela. E aí começou o meu pai, quando lá longe minha tia lhe passou ao pé e meu pai lhe perguntou o que havia e ela lhe disse o que havia, chamando mentirosa a minha mãe. Meu pai então disse:

- Mentirosa é você.

E começou a apresentar-lhe os factos comprovativos do que afirmara e que já tinha decerto enaipados de outras ocasiões, porque não se engasgava:

- Mentirosa é você e sempre o foi. Já quando você contou a história do Corneta, andou a dizer que...

- Mentiroso é você, como sua mulher. Uma vez na padaria a sua mulher disse que:

E daí foram recuando no tempo à procura das mentiras um do outro. Estavam já chegando à infância, quando apareceu o meu tio. Minha tia passou-lhe a palavra e começou ele. Mas como a coisa agora era entre homens, meu tio cerrou os punhos e disse:

- Eu mato-o, eu mato-o.

Meu pai, que já devia estar cansado, ficou quieto, à espera que ele o matasse, e como ficou quieto, meu tio recuou uns passos, tapou os olhos com um braço e disse outra vez:

- Foge da minha vista que eu mato-te.

Entretanto olhou em volta à espera que o segurassem. E quando calculou que tudo estava a postos para o segurarem, ergueu outra vez os punhos e avançou para o meu pai. Finalmente seguraram-no, e meu tio estrebuchou a querer libertar-se para matar o meu pai. Mas lá o foram arrastando, enquanto o meu tio se voltava ainda para trás, escabujando de raiva e de ameaça.

E chegada a coisa a este ponto, era a altura de se formarem partidos, como sempre que há uma razão para se formarem partidos. Velhos ódios, invejas, ciúmes vieram ao de cima para um ajuste de contas. No domingo seguinte, já com o vinho a empurrar, houve mesmo facadas. O Corneta tinha com o Catrelha uma questão de águas de há séculos e aproveitou. Os partidos subdividiram-se assim em grupos pelo Catrelha e pelo Corneta. Foi quando o Bóia, que não gramava o Capador desde a história de um porco mal capado, adiantou na taberna que as galinhas possivelmente tinham sido trocadas por ele, que não gramava o meu tio desde uma histó- ria de mordomia do Mártir S. Sebastião. O Carapanta ouviu e foi dizer. Num outro domingo, e já entusiasmado de briol, o Capador pediu satisfações. Armou-se então um arraial cujo balanço deu três feridos com facadas, dois à paulada e um morto com um tiro de caçadeira. E desde então toda a aldeia ficou em pé de guerra. Metade da população foi metida na cadeia, mas depois de muitos interrogatórios não se passou daquilo que já se sabia e era quem tinha ficado ferido e quem tinha ficado morto. De modo que se reconstituiu a população com a libertação dos presos. E dado isso, recomeçou-se outra vez. No domingo seguinte, melhorou-se o saldo com dois mortos e vinte feridos. Veio a guarda e levou a outra metade da população com um ou outro ele- mento da primeira metade. Mas não se melhorando o resultado das investigações, uns dois ou três meses depois voltou tudo para casa, até porque a metade que ficara livre ia continuando o trabalho, com um saldo, aliás pouco brilhante, de cinco feridos e um moribundo. Trocadas as metades e recomeça- das as investigações sem resultado, houve quem propusesse meter tudo na cadeia. Mas havia o problema dos velhos e das crianças que precisavam dos outros e talvez estivessem inocentes, e veio tudo outra vez para a rua. Mas agora, aos domingos, a aldeia ficava coalhada de guardas. A princípio deu resultado, porque nas discussões não se passou de palavras. Até que certa vez uma pedrada anónima acertou em cheio na cabeça de um agente e logo se armou uma sarrabulhada enorme, com gritos, gente a fugir e tiroteio para o ar. E como a dada altura as pedradas recomeçaram, o tiroteio recomeçou também, mas mais baixo. O saldo dessa vez foi francamente positivo, com cinco mortos e vinte feridos. E como a luta continuou, alguns habitantes, que não podiam estar à espera de que acabasse, foram morrendo de morte natural. E como havia intervalos na luta com a autoridade, alguns habitantes aproveitavam para irem entre si acertando contas em atraso.

Verificada a certa altura a insuficiência da guarda, veio a tropa. Primeiro a infantaria, depois a cavalaria, esperando-se depois a artilharia. Reduzida a população a metade, também as habitações, talvez por serem desnecessárias, ficaram reduzidas a metade. E quando finalmente os combatentes rarearam ou sucumbiram a uma imprevista cobardia, a luta cessou. E acabada a luta, recomeçou a paz. No meu balanço pessoal verifiquei a morte de meu tio com três facadas a uma esquina e a morte natural de meu pai, que aliás, cumprida a sua missão no barulho, se reformara logo a seguir. E alguns anos depois de se fazerem as pazes, morreu minha mãe.

Como eu era o único herdeiro, dispus-me a tomar posse do que era meu. Mas por isso mesmo, a primeira coisa que entendi necessária foi arrumar a cacaria com que minha mãe fora adornando a casa. Antes de mais atirei-me aos santos de toda a hierarquia celeste, porque sou ateu. Havia-os em estampas, em louça, em metal. Dependurados em molduras, metidos em redomas, com ou sem lamparina. E em livros de missa, folha sim, folha não. E, escacada a santaria, dispus-me a atacar o resto. Irritavam-me sobretudo os vasinhos que se multiplicavam por todo o lado e umas andorinhas em louça pregadas na parede da sala de visitas. E estava eu nisto quando chegou a minha tia. Ela fora ao enterro de minha mãe, fora lá a casa dar os sentimentos, abraçando-se-me aos gritos antes de eu ter tempo de uma reacção apropriada. Entrada que foi agora, estava eu na tarefa da limpeza, sentou-se compungida e disse:

-Olha, filho, o que lá vai lá vai e só Deus sabe o que tenho chorado e rezado pela tua mãe.

Calou-se. Eu, como não tinha nada a objectar, também não disse nada. E minha tia, aproveitando o silêncio, disse:

- Ai!...

Eu continuei calado, por não haver razão para falar. Mas qualquer coisa em mim se fora preparando para o que viria, porque quando veio não me surpreendi. E o que veio foi:

-Olha, meu filho.

Minto. Antes disso, minha tia disse ainda:

- Ai!...

E só então, sim:

-Olha, meu filho, eu tinha uma coisa a pedir-te. Tu sabes, enfim, como foi o caso da galinha. A tua mãe, que Deus tenha. ..

Interrompi-a:

-Quer a galinha? Leve-a.

Ela teve ainda um clarão de cólera:

-Não a quero! Não quero o que é teu! Quero só, só o que é meu!

E amansou. Baixou o tom:

-Queria só que ma trocasses. Trago aqui esta.

E tirou-a de um cabaz, pondo-a ao pé da outra no aparador. Eu sorri:

-Leve as duas.

-Não quero o que é teu! -disse ela outra vez, alçando o tom.

Sorri outra vez também:

-Deixe então essa e leve a outra.

Ela agradeceu, já sossegada, de olhos baixos e virtuosos. Abri a tampa da galinha - estava cheia de estampas, carros de linha, agulhas, amostras de fazenda. E comecei a tirar. Minha tia, então, de súbito, deitou as mãos ao ventre, ergueu para mim uns olhos necesssitados.

-Ao fundo do corredor - disse eu. - Veja se há papel.

Ela foi, eu continuei o despejo. No fundo da galinha havia uma estampa de Santa Bárbara. Achei piada, deixei-a ficar. Especializada em trovoadas, a santa, tê-Ia-ia posto ali a minha mãe? Deixei-a ficar. Minha tia regressou, mais reconciliada com a vida. Fui dentro procurar papel para o embrulho, mas ela interrompeu-me:

-Não é preciso.

Mal eu virara costas, empalmara logo a galinha, metera-a no cesto. Abraçou-me e chorou. Não percebi porquê - chorou. Acompanhei-a à porta, regressei à sala. Então, com um ódio reforçado, fui-me à galinha de martelo no ar. Os cacos voaram para todo o lado. Já não havia mais galinha, mas eu continuava a martelar. Até que, enfim, parei. E só então é que vi: entre toda a cacaria que se espalhara em volta, mesmo no meio dos destroços, estava a estampa de Santa Bárbara.



Vergílio Ferreira, Contos


19/08/2008

A menina Vitória


Olhava para os colegas de soslaio, inseguro. Eles iriam troçar também dele, da sua bata modesta de brim, dos seus sapatos puídos, quase rotos? E não respondia quando a menina Vitória o chamava à lição, receando um despropósito que o identificasse com o Matoso. "Vêm para aqui neste estado e depois querem milagres!" — suspirava a professora. Era com certeza do método de ensino da Escola 8, ou da sua influência perniciosa. Mas tolerava-o lá no fundo da aula. E o Gigi diminuía-se ainda mais para não se tornar notado, esforçando-se num mimetismo impotente por imitar os gestos dos meninos da baixa. Tenho que ser como eles, reflectia no recreio, afastando-se dos alunos da 4.ª classe, que eram, na maioria, os seus companheiros de vadiação do Quinaxixe. Ficava então a jogar com os estames longos e curvos, que caíam das acácias, e reprimia a vontade de trepar ao cimo delas, para colher os botões compridos de estames longos e curvos, que venciam todos os outros. Bocejava enquanto brincava com o balanceio das anteras e via-as cair sem entusiasmo. Depois submergia de novo na turma e só um ou outro desatino o fazia surgir à tona.
"Muxixeiro(2) na redacção... que coisa é esta...!?" — alarmava--se a menina Vitória, con-siderando o neologismo inferior. E a meninada da baixa ria e surriava, porque na baixa não tinha muxixeiro. Gigi torcia a cara, engonhava com medo de explicar. Calava-se. Mas fixava prudentemente o reparo.
Nas suas redacções vagueava então tímido sobre as coisas, com medo de poisar nelas, decorava os nomes das árvores, das aves, dos jogos descritos no seu livro de leitura. Procurava esquecer o colorido vivo das penas dos pássaros, que ele perseguia na floresta e cujo canto escutava trémulo, o sabor ácido dos tamarindos(3) que colhia sedento, o suor e o cansaço das longas caminhadas pelas barrocas, a emoção dos seus jogos. Imitava passivamente a prosa certinha do gosto da menina Vitória. Esvaziava-a das pequeninas realidades insignificantes que ele vivia, das suas emocionantes experiências de menino livre, agora proibidas e imprestáveis.
Quando o Matoso lia submisso a sua redacção, onde pintassilgos gorjeavam e debicavam cerejas amarelas (o Matoso explicara-lhe num recreio que as cerejas eram as gajajas(4) do puto, intimamente o Gigi perguntava-se onde é que ele tinha descoberto tudo aquilo.
— Higino, a tua redacção?
O Gigi naquele dia estava contente com o seu trabalho. O tema era sobre uma figura importante de Governo e ele não esquecera os adjectivos mais expressivos que na véspera a professora tinha proferido. Isso dar-lhe-ia com certeza satisfação. Os meninos da baixa, mais libertos da coacção da professora, não tinham sido convincentes, limitando-se a referências distraídas, o que a tinha irritado.
Embora confiante, o Gigi estremeceu ao ouvir o seu nome. Que diria ela. pensava agitado, depois de lhe ter estendido timidamente o caderno. Enquanto a via ler, atreveu-se a tentar decifrar-lhe no rosto algum indício revelador, mas a menina Vitória parecia de pedra. Reparou-lhe então nos lábios pintados e nas linhas muito definidas dos seus contornos que pareciam emoldurar o baton. As sobrancelhas aparadas e finas afastavam-se das órbitas por um traço de carvão e isolavam uns olhos castanhos-barrentos como a água da lagoa do Quinaxixe. Mas subitamente eles abandonaram o caderno e voltaram-se para si, perplexos. Apanhado em flagrante, o Gigi baixou a cabeça. A menina Vitória olhava-o silenciosamente e os alunos da classe, pressentindo algo de estranho, apagaram as conversas. Esperavam. Gigi esperou também e as comissuras dos lábios entreabriram-se num sorriso de confiança.
— Com que então pretendes brincar comigo...? — ela falava-lhe friamente...
Gigi empalideceu. Alguma coisa tinha falhado. Mas o que é que poderia ter sido? Estavam lá todos os louvores pelas pontes e estradas que ele construíra. Ter-se-ia esquecido de algum facto importante? Olhou o caderno que ela lhe devolvera, aberto nas mãos, mas não distinguiu as letras subitamente misturadas. A acusação, porém, veio sem tardar, inexorável, imprevisível. Como é que ele se atrevera a tratá-lo por tu! Como é que ele tivera o arrojo de o nomear com um simples artigo definido?
— Ouve lá ... tu julgas que ele anda sujo e roto como tu, e conie funje(5) na sanzala (16)...?

Arnaldo Santos, Prosas




Notas:
l) brim — tecido grosseiro;
2) muxixeiro— arbusto com troncos robustos;
3) tamarindo_ fruto africano, cm forma de vagem;
4) gajaja — cereja (termo angolano);
5) funje — papas tio milho, de mandioca ou de arroz (alimento usado em Angola, o qual representa "o pão dos pobres");
6) sanzala — aldeia, quimho, conjunto de casas.



17/08/2008

O primeiro camarada que ficou no caminho

Já não acreditava no que dizia a minha avó.
Descia a rua e entrava na loja do Estróina sempre a olhar para a casa.
Os moços, se estavam a discutir, calavam-se quando eu passava. Muitos, ajoelhados a jogar o berlinde, esqueciam o jogo e levantavam a cabeça para mim. Depois falavam baixo. Nenhum me convidava. Só às vezes o Tóino dizia:
— Anda daí, Rui.
Eu não ia. Ele mesmo tinha um ar contrafeito e desandava logo.
Sempre a olhar para a casa, caminhava e ia voltando a cabeça.
O Estróina, assim que me via, deixava de cantarolar. Tomava um ar sério, dando mais atenção ao trabalho. A minha pergunta já ele a sabia: era a mesma todos os dias. Por fim, respondia sem me olhar sequer. Tirava os pregos da boca e, sempre batendo na sola, arranjava um tom de voz natural:
— Hoje está melhor.
Era o que dizia a avó. Eu não acreditava. Se o meu irmão estava melhor, porque me não deixavam vê-lo?
— Estróina, quem te disse que ele está melhor?...
Antes de me responder dava ordens ou ralhava aos aprendizes, tudo por motivos sem importância. Eu bem via que a minha pergunta o embaraçava. Acendia a ponta do cigarro que tirava detrás da orelha, soprava o fumo. Custava-lhe responder-me.
— Estróina, quem te disse? Tossia.
— Foi a criada.
Aquilo era mentira.
Dava-me uma grande vontade de chorar e pedir-lhe que me dissesse a verdade. Mas o Estróina, alheio aos meus olhos presos nele, voltava a encher a boca de pregos e com a sovela traçava em volta da sola o risco onde os havia de pregar.
Enchiam-se-me os olhos de água.
Sentava-me num mocho e fazia por não chorar, mordendo os lábios e puxando a presilha das botas até ficar só com os bicos das botas assentes no chão, todo curvado, de queixo estendido em direcção da rua.
Punha os olhos na casa e não os tirava de lá até que minha mãe aparecesse à janela.
Assim estava horas esquecidas.
As pancadas secas dos martelos sobre as solas iam-se tornando monótonas. Por fim, parecia-me ouvi¬das como muito ao longe.
Turvava-se-me a vista de olhar fixo para a janela do quarto de meu irmão. Assoava-me e limpava os olhos. O Estróina ia olhando para mim de soslaio. E quando eu queria interrogá-lo com o olhar, de frente, disfarçava, cuspindo ou passeando a vista pela rua. Fingia-se longe de tudo.
Assim que do outro lado se abria a porta e a criada saía a algum recado, talvez à farmácia, crescia-me uma ansiedade no peito. Descia num repelão os degraus da loja, ficava com um pé na rua, outro no último degrau. Queria gritar, mas a voz saía-me estrangulada:
— Maria, Maria, diz a minha mãe que chegue à janela.
Ela olhava-me com uma grande tristeza, eu bem via que era com uma grande tristeza.
— Eu digo quando voltar.
E subia a rua.
Tornava a sentar-me. Mordia as unhas, sentia os lábios tremerem. Abria muito os olhos: assim não chorava. Mas o olhar ficava cheio de névoa.
Então o Estróina atirava a obra para o chão, cuspia os pregos, dava pontapés nas formas que lhe ficassem no caminho e ia para a taberna.
Eu queria ir atrás dele, pedir-lhe que não bebesse, porque ele, quando bebia, batia na mulher e só o meu irmão o sossegava e o meu irmão estava doente!, mas não podia tirar os olhos da casa, não podia sair dali.
Agora o Estróina já não voltaria. Em começando a beber, só deixava a taberna quando não podia mais.
Só meu irmão tinha mão nele:
— Estróina, tu não tens vergonha? E o Estróina deixava o vinho e não batia na mulher.
Eram grandes amigos.
O meu irmão saía de casa e entrava na loja.
— Estróina, hoje vou fazer umas botas de montar.
— Não, faz antes uns sapatos que umas botas levam muita fazenda.
Dava-lhe um martelo e uma sola. Meu irmão punha uma das pedras, achatadas e luzidias, nos joelhos. Batia a sola e depois enchia-a de pregos. Quase sempre uma martelada em falso fazia-lhe uma nódoa negra num dedo. Largava o martelo e apertava o dedo com a outra mão.
O Estróina ria:
— Olha que belo oficial que eu arranjei!...
Meu irmão respondia-lhe com firmeza:
— Deixa lá que quando eu for homem ainda hás-de aprender muita coisa comigo. Dá-me outra sola, Estróina.
E o Estróina dava.
Muita vez minha mãe chegava à janela e dizia:
— Não o deixe estragar.
Mas o Estróina levantava-se, com as cerdas a tremerem-lhe aos cantos da boca:
— Ele não estraga nada.
Havia quase um ano, no dia em que meu irmão fez anos, o Estróina bateu à porta logo de manhã. A criada veio abrir, mas ele olhou para minha mãe, que chegara ao patamar da escada, e disse a gaguejar, muito envergonhado:
— Queria falar ao menino...
Minha mãe já sabia qual de nós dois devia chamar, mas eu vim também.
Então o Estróina tirou debaixo do avental de coiro umas botas pequeninas — umas botas de montar! — e estendeu-as na nossa direcção. Meu irmão correu pela escada abaixo e nem segurou as botas: saltou-lhe ao pescoço.
O Estróina chorou.
Foram os dois para a loja e meu irmão esteve lá até à hora do almoço, a calçar as botas e a dizer que logo que o avô chegasse havia de montar na égua.
— Eh, Estróina, tu vais ver-me passar aqui na Ruçai Há-de ser a todo o galope!
E vinha-lhe à ideia a velha rivalidade com o Tóino.
— Só queria apanhar hoje o Tóino na estrada! Coitadinho dele e do Malhado'.... Eu com as minhas botas em cima da Ruça, nem ele me vê! Logo te hão-de contar, Estróina.
Eram, assim, grandes amigos.
Agora o Estróina ia para a taberna e o meu irmão estava doente. Tóino andava no jogo da bola e eu ficava sozinho. Nem minha mãe aparecia à janela; a rua deserta, a casa fechada. Sozinho,
O Estróina quando voltasse seria à hora do sol-posto, rodeado de moços pelas ruas estreitas para os seus passos desequilibrados. Os homens haviam de vê-lo passar sem sorrirem nem falarem, porque, se tal acontecesse, o Estróina tiraria do bolso a navalha do oficio. Só os moços, em volta, a rir.
De uma vez, meu irmão copreu-os à pedrada e levou o Estróina para casa. Só eu e o Tóino os seguimos. Eu ia assustado e chamava meu irmão. O Estróina, de navalha no ar, cambaleava aos berros:
— Estraçalho um à navalhada! E o meu irmão, de bibe aberto pelo vento e no bico dos pés, a tirar-lhe a navalha das mãos.
— Anda para casa, Estróina.
Já com o Boche era o mesmo. Quem se aproximava do Boche! Era o cão mais temido da vila. Não conhecia ninguém, nem os donos. Um dia, um homem açulou o cão, com um cacete, entre as grades do portão do quintal. Veio o meu irmão e ameaçou o homem de abrir o portão. O homem, bêbedo, riu-se para os outros que vinham com ele, riu-se com uma grande confiança no cacete:
— Abre que eu arrebento-lhe a cascaria!
Depois foi o que se soube: levaram o homem para o hospital com as mãos e um ombro tão esfarrapa-dos como o fato.
Nenhum dos que vinham com ele se chegou para afastar o cão. Em toda a vila só uma pessoa era capaz de fazer isso: meu irmão. E foi ele que o puxou, à mão, pela coleira e o levou à chibatada com um junco. O Boche deixou-se levar, rosnando. Prendeu-o na corrente e foi, a fugir, ao hospital saber o estado do homem.
Eu arrepiava-me todo com estas coisas. Era um medo que não podia vencer, muito embora me chegas¬se sempre como se fosse para acudir-lhe. Não sei se era mais pela amizade se pela confiança, que eu me punha a seu lado naquelas ocasiões.
O Estróina dizia muita vez aos homens do largo:
— Aquele menino, quando for homem, dá porrada em vocês todos juntos!
Agora o meu irmão estava doente. O Estróina bebia na taberna e eu ficava para ali, sozinho, de olhos postos na casa, muito longe dos aprendizes que batiam as solas.
O Tóino andava jogando a bola na Courela da Feira, esquecido de mim. E nem minha mãe aparecia à janela.
Sozinho. Um mês, já passado, sem ver meu irmão. Um mês sem ver minha mãe senão umas três vezes, à janela. E isso porque pedi à Maria. Porque disse à Maria que não saía dali, não ia jantar sem que minha mãe viesse à janela.
Um mês. Há um mês que a minha casa se fechou para mim. Parece-me que nunca mais lá poderei entrar. Ainda se o Estróina aqui estivesse, talvez falasse de meu irmão como nos primeiros dias em que ele ficou de cama e me mandaram para casa do avô. Talvez dissesse:
— Aquilo não é nada.
Mas o Estróina não estava e se dissesse que aquilo não era nada eu não acreditava. Quando estive doente, o meu irmão vinha falar-me à porta do quarto todos os dias, mais que uma vez. E não-saiu de casa. Ao fim de uma semana já eu andava na rua sem febre nem tosse. Agora, o meu irmão já passava de um mês que adoecera e nunca mais me deixaram vê-lo. Nem sequer entrar em casa!
Como podia eu acreditar que não era nada?
Meu pai diz o mesmo que a avó e o mesmo que o avô:
— Ele está melhor.
Só a minha mãe não sai de casa para me dizer a verdade. Há um mês que minha mãe me não dá um beijo, há um mês que não vejo meu irmão.
Sentia-me só no mundo.
Em frente, a casa silenciosa e fechada para os meus olhos.
O avô partia de manhã para o campo e só voltava à noite. Minha avó andava atarefada na lida da casa, ralhando com as moças. O Tóino andava no jogo da bola. E nem minha mãe, nem minha mãe sequer aparecia à janela.
O Estróina já estaria bêbedo?
Esperava a volta de Maria cheio de tristeza. E mal lhe adivinhei os passos, na rua deserta, corri ao seu encontro.
— Maria, não te esqueças. Pede a minha mãe... É só vir à janela...
Maria entrou em casa. A porta fechou-se.
Fiquei ao meio da rua, parado, sem vida. A cabeça ergueu-se para a janela do quarto de meu irmão. As mãos estenderam-se para a frente... Eu estava na janela do quarto de meu irmão, eu estava no quarto de meu irmão. Mas não via nem ouvia nada. Como se fosse noite, noite numa casa deserta. A cabeça erguida, à escuta, nada ouvia, as mãos para a frente, para a frente: cego. Só minha mãe me podia dar vida!
Eu estava na rua, imóvel, quando a cortina se afas¬tou e o rosto de minha mãe apareceu atrás do vidro. Seus olhos ficaram presos nos meus. Tanto, tanto que chorou. As lágrimas desciam pelo rosto de minha mãe. Não tirava os olhos dos meus e chorava.
Foi como se mil fantasmas de sonho, dos meus sonhos de pesadelo, corressem atrás de mim. E eu quieto, ao meio da rua, sem poder fugir. Sem forças para jogar-me ao colo de minha mãe e fechar os olhos, abraçá-la.
Minha mãe chorando por detrás do vidro, sem um gesto, sem uma palavra, sem abrir-me os braços!
Ergui as mãos na direcção da janela como se os fantasmas me fossem levar para sempre.
— Mãe!
Gritei novamente como acordado:
— Mãe! Mãe!
Um braço estendeu-se sobre a minha cabeça. Olhei com os olhos muito abertos. O Dr. André estava a meu lado. Falava:
— Vai brincar... Teu irmão...
Olhei a janela. Minha mãe desaparecera.
— ... teu irmão está melhorzinho.
Maria abria a porta. Corri, empurrei-a. Subi os primeiros degraus da escada. Maria agarrou-me num braço, puxou-me. O Dr. André ajudou. Atiraram-me para a rua. Fecharam a porta. Gritei:
— Mãe! Mãe!
Todos me abandonavam.
Caiu-me a pedra da mão. Pobre Maria. Eu era «o seu menino». Ela dizia a toda a gente quando falava de mim: «O meu menino»... Novamente as lágrimas me saltaram dos olhos. Ia ficar sozinho. Chamei:
— Maria!... Maria!...
Esperei. Mas não voltei a ver-lhe a cabeça entre as piteiras. Iria longe ou não queria ver-me mais?
— Maria!... Maria!...
Uma voz veio do outro lado do vale. Uma voz clara, sacudida:
— ...iiia!... iiia!...
Assustei-me. Olhei em volta. Tudo se turvava na frente dos meus olhos. Estava só. Só no mundo. Estendi-me no chão, a chorar, com a cabeça entre os braços. Pobre Maria. O quarto"escuro. Meu irmão doente. Mãezinha chorando longe de mim. Pobre Maria. Uma pedrada num ombro. Fechado no quarto. Mãezinha chorando. O Estróina bêbedo a bater na mulher.
Surpreendi-me a falar, a repisar as palavras, a repeti-las cortadas de soluços:
— Hei-de contar ao meu avô!... Hei-de contar ao meu avô!...
Ergui a cabeça do chão e fiquei sentado a limpar a cara na aba do bibe.
A custo recompunha todos os factos desde a chegada de minha mãe à janela. O Dr. André a empurrar-me para a rua, Maria a arrastar-me, o Estróina de navalha no ar, tudo, tudo me parecia ter acontecido havia muito tempo. Depois a pedrada no ombro da Maria. Teria tudo aquilo acontecido? Não podia ser. Mas porque estava eu sozinho no pinhal, a chorar? Ah, de certo que fora tudo realidade. Havia de contar ao meu avô logo que ele chegasse. Havia de dizer-lhe que me queriam fechar no quarto porque eu desejava ver o meu irmão. Dali via a estrada por onde ele chegava todas as tardes. Era esperar e falar-lhe primeiro que alguém lhe falasse. Ninguém lhe poderia dizer a verdade senão eu. Também minha mãe sabia a minha verdade. Mas minha mãe não saía de casa e seria a última a falar-lhe.
Encolhi uma perna e comecei a dar um laço no atacador da bota que se desatara. Lentamente, uma ideia começou a prender-me a atenção: saltar o muro que separava o quintal de minha casa do quintal da casa de minha avó. Era uma ideia nítidas cheia de pormenores como se há muito andasse na minha cabeça. Saltar o muro e entrar no quarto de meu irmão sem que ninguém me visse... Ia pela Rua do Forno Velho e entrava no quintal. Era fácil: minha avó deixava a porta no trinco e só à noite a mandava fechar. Saltava o muro, escondia-me atrás do canteiro e espreitava uma ocasião propícia para atravessar o patamar que ia da porta da cozinha à porta que dava para o corredor, e depois... Só aqui havia um ponto escuro. Como entraria no quarto se minha mãe não saía de lá? Mas se minha mãe me visse entrar pelo quarto dentro não me empurrava como fez o Dr. André. Não, não faria isso!
Fosse como fosse, havia de ver naquela tarde meu irmão.
Levantei-me e desci o caminho do pinhal. Chegado ao largo não subi a rua: rodeei a vila pela estrada. Andando, veio-me à lembrança meu avô. Pensara esperar por ele, mas aquela ideia fora mais forte que tudo. Meu avô só chegava depois do sol-posto, talvez já noite fechada e eu tinha que ver o meu irmão naquela tarde. Um soluço fundo encheu-me o peito. Havia de ver meu irmão. Ninguém teria forças para segurar-me, ninguém!
Alguém disse o meu nome de uma porta. Voltei a cabeça. A velha Maria Mãezinha falava-me:
— O seu irmão está melhorzinho? Pus os olhos no chão.
— Não sei, não me deixam vê-lo.
Arrependi-me. Com aquelas palavras podia denunciar-me e Maria Mãezinha iria, a correr, avisar minha avó. Olhei o rosto da velha sumido no lenço, entre os umbrais da porta, e menti o mesmo que todos me mentiam:
— Está melhor. A avó diz que está melhor.
Voltei ao meu caminho. A velha ainda disse palavras que não compreendi. Tinha pressa, não queria que mais ninguém me falasse. Corri. Ao voltar a esquina da Rua do Forno Velho, espreitei para todos os lados, sem deixar de correr. Fiquei um momento à porta, escutando para dentro do quintal. Virei a aldraba e empurrei. Os gonzos, ferrugentos, gemeram. Entrei de lado pelo pequeno espaço livre. Nem fechei a porta. Corri a esconder-me, encolhido atrás da sardinheira, rente ao muro. Assim estive até me convencer de que nada tinham ouvido. Encostado à parte baixa do muro, estava um caixote, onde eu subia to¬das as manhãs a perguntar à Maria notícias de meu irmão. Subi o caixote, encavalitei-me no muro e deixei-me escorregar até ficar suspenso pelas mãos. Só então me lembrei de que daquele lado o muro era muito alto. Hesitei. Por fim, decidi-me: larguei as mãos. Caí na terra mole do canteiro com um gemido de dor. Arrastara um joelho pelo muro escalavrado de pedras salientes, e a ferida sangrava. Aproximei-me do canteiro e olhei o patamar. Ninguém. Ouvi a voz de minha mãe, depois a voz da Maria. Estavam na cozinha. Do outro lado, a porta do corredor aberta. Aberta! Atravessei o patamar com a respiração para¬da. No corredor, a passadeira abafava-me os passos. Empurrei a porta do quarto. Tremia todo. Ia abraçar meu irmão. Ia tornar a vê-lo! Tremia, tremia empurrando a porta. Depois dei comigo ajoelhado no chão, com os braços sobre o leito, abraçando meu irmão, dizendo-lhe o nome baixinho!...
— Carlos... Carlos...
Uma voz débil sussurrou-me aos ouvidos:
— Rui...
Levantei um pouco a cabeça e olhei-lhe o rosto através do nevoeiro das lágrimas. E fiquei a olhar sem compreender. Seria que os meus olhos baços de água deformavam aquele rosto? Seria que sonhava e via uma figura de pesadelo? Aquele rosto sem cabelos, inchado, cheio de borbulhas negras poderia ter sido o rosto risonho e sereno de meu irmão? E tinha os olhos fechados, e tinha os olhos fechados! E os caracóis que voavam ao vento quando corria? E o brilho dos olhos quando parava cansado? Eram os meus olhos cheios de água que deformavam tudo! Era eu que sonhava um pesadelo!
A cabeça tombou-me para o peito. Deixei de pensar. Voltei a mim ouvindo novamente o meu nome.
Parecia trazido por uma aragem que viesse de muito longe. Mal se percebia.
— Rui...
Não podia, não podia pensar. E mal tive forças para levantar a cabeça quando senti minha mãe ajoelhar a meu lado, chorando. Mal tive forças para significar com os olhos um .gesto de perdão por ter vindo. Minha mãe abraçou-nos. E novamente meu irmão murmurou a custo. Era um sopro ciciado, lento como as falas de sonho:
— Obrigado por teres deixado o Rui vir brincar comigo, mãezinha... Rui... Rui...
Olhei minha mãe de olhos escancarados. Via-a erguer a cabeça. Tinha a cara branca, branca. As feições vincaram-se, duras. E ouvi urna voz que nunca tinha ouvido a minha mãe, uma voz que não julgava existir na boca de ninguém, uma voz de prece e de raiva:
— Deus, tem dó de meu filho!
Estive dois dias sem ir à escola. Quando voltei, ia mais desatento que nunca. Acontecia com frequência ser apanhado alheio à lição. Era o pior que se podia fazer a Napoleão da Costa.
Estava a olhar para ele mas andava distante. Se¬guia-lhe as perguntas: só me soavam palavras soltas, sem sentido. Um aluno falhava, Napoleão espetava o dedo na minha direcção:
— Ora diga, senhor Rui.
Tremia na carteira. Interrogava para os lados com os olhos. Nestas ocasiões fazia-se um silêncio enorme na aula. Passava a mão pêlos cabelos.
Napoleão da Costa parou na minha frente. Levantei a cabeça. Vi os olhos do professor piscarem por detrás dos vidros límpidos das lunetas. Ia falar-me. Mas não. Só depois de olhar para a janela conseguiu dizer:
— Vá... limpa os olhos. Arruma as tuas coisas e vai para casa... Ergui-me:
— Senhor professor, eu nunca mais estou desatento...
Napoleão voltou-me as costas. Caminhou para a secretária:
— E que... E que te mandaram chamar...
Não percebi. Era a primeira vez, desde que andava na escola, que tal acontecia. Comecei a meter livros na mala. Que seria? Um pensamento confuso imobilizou-me. Aqui e acolá claro: era a primeira vez que tal acontecia, o outro lugar da minha carteira estava vago, meu irmão doente. Tóino estava de pé, a olhar para mim. Toda a classe a olhar para mim. O silêncio pesava. Devia correr para casa. Que seria? A mala desprendeu-se-me das mãos e escorregou pelo inclinado da carteira. Caiu com estrondo. O silêncio que enchia a escola tornou-se maior. Um silêncio magoado como se uma folha tombasse num dia sem sol.
Corri. Atravessei a aula, passei o corredor, estava fora da escola e corria pela Rua das Almas. Era o ca-minho mais perto. Eu nunca passava sozinho na Rua das Almas. Uma rua sempre deserta de muros brancos e casas de janelas fechadas. Ali não chegava nenhum ruído do mundo. Metia-me medo. E ainda mais depois que soubera que à noite andava por lá um avejão. Tal¬vez vindo do castelo, onde era o cemitério e de onde a rua vinha.
Pensava e corria pela Rua das Almas. Que seria, que seria? Um pensamento confuso. Meu irmão tam-bém passara por ali algumas vezes, a meu lado, incitando-me, de cabelos voando ao vento. Somente com ele eu tinha coragem. Agora ia, sozinho, correndo para ele. Um pensamento confuso. Que seria, que seria?
À esquina da Maria Mestra, parei a corrida e, encostado à parede, dobrei a esquina. À porta de minha casa estava gente. Vizinhas falavam, em grupos. Custava-me andar e queria correr, queria voltar para trás e fugir para o campo. Fugir. Esconder-me. Mal podia andar.
De rosto engelhado na sombra do lenço, a velha Maria Mãezinha pôs-me a mão na cabeça:
— Meu pobre menino, meu pobre menino... Outras mulheres murmuravam:
— Coitadinho...
Desprendi-me a custo dos braços de todas. Afastaram-se para eu entrar. A porta estava aberta. Aberta? Tudo confuso, nada tinha sentido. Subi a escada, atravessei o corredor. Ia cego pelo escuro que fazia na casa, de janelas fechadas.
Quando entrei no quarto pareceu-me ouvir um coro de soluços e um grito dominando tudo. Caminhei devagar para o leito de meu irmão. Tudo me andava à roda, ora mais rápido ora mais lento. Caras cheias de lágrimas, girando. Bocas torcidas, abertas, girando. Soluços, gemidos, vibrando em volta. E eu ia, pelo turbilhão de gestos e sons, muito devagar. No centro de tudo, imóvel na cama parada, imóvel, o rosto de meu irmão voltado para cima, de mãos cruzadas sobre o peito, abandonadas num sono sem fim.
Senti tonturas, a cabeça pesada como um mundo. Tudo girava em volta: gemidos e lágrimas. E eu ia cair, ia cair desamparado, quando os braços de minha mãe se abriram para os meus.


Manuel da Fonseca in Aldeia Nova


16/08/2008

A estrela





Um dia, à meia-noite, ele viu-a. Era a estrela mais gira do céu, muito viva, e a essa hora passava mesmo por cima da torre. Como é que a não tinham roubado? Ele próprio, Pedro, que era um miúdo, se a quisesse empalmar, era só deitar-lhe a mão. Na realidade, não sabia bem para quê. Era bonita, no céu preto, gostava de a ter. Talvez depois a pusesse no quarto, talvez a trouxesse ao peito. E daí, se calhar, talvez a viesse a dar à mãe para enfeitar o cabelo. Devia-lhe ficar bem, no cabelo.

De modo que, nessa noite, não aguentou. Meteu-se na cama como todos os dias, a mãe levou a luz, mas ele não dormiu. Foi difícil, porque o sono tinha muita força. Teve mesmo de se sentar na cama, sacudir a cabeça muitas vezes e dizer-lhe que não. E quando calculou que o pai e a mãe já dormiam, abriu a janela devagar e saltou para a rua. A janela era baixa. Mas mesmo que não fosse. Com sete anos, ele estava treinado a subir às oliveiras quando era o tempo dos ninhos, para ver os ovos ou aqueles bichos pelados, bem feios, com o bico enorme, muito aberto. E se não era o tempo dos ninhos, andava à solta pela serra, saltava os barrancos, jogava mesmo, quando preciso, à porrada como um homem. Assim que se viu na rua, desatou a correr pela aldeia fora até à torre, porque o medo vinha a correr também atrás dele. Mas como ia descalço, ele corria mais. A igreja ficava no cimo da aldeia e a aldeia ficava no cimo de um monte. De modo que era tudo a subir. Mas conse- guiu e agora estava ali. Olhou a estrela para ganhar coragem, ela brilhava, muito quieta, como se estivesse à sua espera. E de repente lembrou-se: se a porta estivesse se fechada? Levantou-se logo, foi ver. A torre era muito alta e tinha uma porta para a rua. Pedro empurrou-a um pouco e viu que estava aberta. Ficou muito admirado, mas depois nem por isso. Ninguém ia roubar os sinos, que mesmo eram muito pesados. E quanto às estrelas, se calhar ninguém se lembrava de que era fácil empalmá-las. E tão contente ficou de a porta estar aberta, que só depois se lembrou de a ter ouvido Tanger. E então assustou-se. Voltou a experimentar e rangeu outra vez. Rangia pouco, mas o silêncio era muito e parecia por isso que também a porta rangia muito. E teve medo. Reparou mesmo que estava a suar, e não devia ser da corrida, porque este suor era frio. A porta ficara já deslocada e agora era só encolher-se um pouco e passar. Mas sem tocar na porta, para não ranger. Meteu-se de lado e entrou. Havia um grande escuro lá dentro. Já calculava isso, mas as coisas são muito diferentes de quando só se calculam. E cheirava lá a ratos, a cera, às coisas velhas que apodrecem na sombra. Como estava escuro, pôs-se a andar às apalpadelas. Mas as pedras frias assustaram-no. Lembravam-lhe mortos ou coisas assim. Já com os pés não se assustava tanto, porque o frio que entrava por aí era só frio da falta de botas. Até que pisou o primeiro degrau e começou a subir. Cheirava mal que se fartava. Mas, à medida que ia subindo, vinha lá de cima um fresco que aclarava o cheiro. À última volta da escada em caracol, olhou ao alto o céu negro, muito liso. Via algumas estrelas, mas era tudo estrelas velhas e fora de mão. Até que chegou ao campanário e respirou fundo. Aproveitou mesmo para puxar as calças, que estavam a cair. Eram dois sinos e uma sineta. E de um dos lados havia só um buraco vazio sem sino nenhum. Agora tinha de subir por uma escadinha estreita que começava ao lado; e depois ainda por uma outra de ferro, ao ar livre, e com o adro lá em baixo. Mas quando chegou à de ferro, não olhou. Deu foi uma olhadela à estrela, que já se via muito bem. Todavia, quando a escada acabou, reparou que lhe não chegava ainda com a mão. Tinha pois de subir o resto de gatas, dobrando e desdobrando as pernas como uma rã. Mesmo no cimo da torre havia uma bola de pedra e enterrado na bola havia um ferro e ao cimo do ferro estava um galo com os quatro pontos cardeais. Pedro segurou-se ao varão e viu que tinha ainda de subir até se pôr mesmo em cima do galo. Subiu devagar, que aquilo tremia muito, e empoleirou-se por fim nos ferros cruzados dos quatro ventos. Enroscando as pernas no varão, tinha agora os braços livres. E então ergueu a mão devagar. Os ferros balançavam, mas ele nem olhava lá para baixo. Fez força ainda nas pernas, apoiou-se na mão esquerda, e com a outra, finalmente, despegou a estrela. Não estava muito pregada e saiu logo. Entalou-a então no cordel das calças, porque não tinha bolsos, e começou a descer. A chatice era se lhe caía e se partia lá em baixo. Mas não a levando entalada, só se a levasse nos dentes, o que podia dar em resultado parti-la à mesma. Porque precisava dos dentes para fazer força nos sítios mais difíceis. Em todo o caso, com jeito, lá conseguiu. E assim que pôs pé em terra, largou para casa, mas não muito depressa. Apetecia-lhe mesmo parar de vez em quando e olhar a estrela com uma atenção especial. Era formidável. Lembrava um pirilampo, mas muito maior. Oh, muito maior. E de outro feitio, já se vê. A certa altura, voltou-se para trás e olhou ao alto o sítio donde a despegara, como se para ver se realmente já lá não estava. E não. O que lá estava agora era um buraco escuro, por sinal bem feio. Lembrava-lhe a boca dele quando lhe caiu um dente, mas não sabia bem porquê. Quando por fim chegou a casa, trepou à janela, que deixara aberta, e meteu-se na cama. Esteve ainda algum tempo com a estrela na mão, mas não muito, porque já não podia mais, arrombado de sono. De modo que guardou a estrela numa caixa e adormeceu.



No dia seguinte acordou tarde. A mãe estranhou aquele sono demorado, mas não muito, porque quem passava os dias no retoiço era natural que uma vez por outra pegasse no sono com vontade. Mas a certa altura Pedro começou aos berros. Como tinha o berro forte, capaz de ir de monte a monte, a mãe ouviu logo. Veio então a correr muito aflita, sem fazer ideia do que fosse, e perguntou-lhe o que tinha. E ele, que estava fora de si, ou mesmo ainda com sono, disse assim:

-Roubaram-ma! Roubaram-ma! E a mãe, naturalmente, perguntou o que é que lhe tinham roubado. Mas ele aqui calou-se. A mãe cuidou que seriam restos de sonho e não ligou. Disse só:

-Vê é se tiras o cu do ninho, que já são horas.

Mas não tinha sido um sonho, não. O que aconteceu foi que, logo de manhã, assim que acordou, abriu a caixa para ver a estrela e a estrela não estava lá. Ou por outra, estava lá, mas não era a mesma, era assim como uma estrela de lata. E então pensou que lha tinham trocado, para pensar qualquer coisa, porque aquilo, realmente, não era coisa que se pensasse. É claro que brilhava um pouco. Mas toda a estrela de lata brilha. O que é, só de dia, quando lhe bate o sol. E mesmo assim, não muito. Que afinal, com sol todas as coisas brilham com o brilho que é do sol e não dessas coisas. E a estrela brilhava com um brilho só dela. Mas nada disse à mãe do que se passara, porque a mãe com certeza respondia-lhe com uma sova. E muito menos ao pai, que arreava ainda mais duro. De forma que se calou. Passou assim o dia muito quieto e portanto muito triste, porque quando se está alegre a gente mexe-se sempre bastante. A mãe punha-lhe o comer diante e ele mal lhe tocava. Então ela começou a preocupar-se e perguntou:

-Mas que é que tu tens, meu filho? Estarás doente?

Ele muito sério, disse que não, só com a cabeça. Já o pai tinha outras ideias. Como o rapaz fora sempre rijo que nem um cabrito, aquilo tinha era feito alguma malhoada que lhe não correra bem. E disse:

-Ou tramaste alguma ou estás para a tramar.

Pedro ficou muito corado, com o sinal à vista de que fizera uma das dele, e pôs-se a comer à pressa para parecer que não.

Mas à noite, quando a mãe o deitou e levou a luz, aconteceu uma coisa extraordinária. A mãe dissera-lhe que dormisse, mas ele não tinha sono. E como não tinha sono, cansado de dar voltas, pôs-se para ali de olhos abertos. Então reparou que debaixo da cama vinha uma luz que se estendia pelo soalho. A princípio assustou-se, mas antes de se assustar muito e de dar algum berro lembrou-se do que poderia ser. E, com efeito, quando puxou a caixa, que ficara com a tampa mal fechada, e a abriu, a estrela brilhava como quando a fora apanhar. Tirou-a devagar e todo o quarto ficou cheio da sua luz. Esteve assim algum tempo com ela nas mãos até que os olhos lhe começaram a arder com sono e a guardou outra vez na caixa. Mas no dia seguinte, assim que acordou, foi logo ver se ainda lá estava. Ela estava lá, realmente. Mas não deitava luz nenhuma. Apagada, mesmo com alguma ferrugem em certos sítios -para que queria ele aquilo? Mais bonita era até uma estrela do presépio ou uma estrela dos andores, ou uma feita da prata dos chocolates que às vezes achava na rua. Suara que se fartara, apanhara frio, tivera mesmo a sua ponta de cagaço para aquela porcaria. Que era mesmo uma porcaria. Vezes sem conta foi espreitar a estrela à caixa pelo dia adiante, a ver se ela se resolvia a parecer-se com o que devia ser. Mas nada. Cada vez mais miserável e ferrugenta. Até que à noite se deitou e a mãe veio buscar a luz. Então tirou a caixa debaixo da cama e qual não foi o seu espanto quando viu pelas taliscas uma luzinha a brilhar. Tirou a tampa e foi logo um luar aberto pelo quarto. Ficou muito contente, como é de ver. Mas logo depois ficou triste porque a estrela só tinha luz quando ele tinha sono.

Aconteceu então que no dia seguinte se levantou na aldeia um burburinho que nem quando dois homens discutem à facada. Foi o caso que um velho bastante velho, e que mal se podia já mexer, começou a berrar da varanda coisas que se não percebiam. As pessoas queriam entender, mas a voz do velho esganiçava-se ou saía muito enrodilhada de cuspo, ou às vezes, com a estafa, nem mesmo saía. Foi até preciso que o Cigarra, que era um tipo que tocava viola, subisse à varanda, encostasse o ouvido à boca do velho para perceber. E quando percebeu, largou ele também um berro que nem uma trovoada:

-Roubaram a estrela!

Que estrela? As pessoas que estavam em baixo ficaram parvas a olharem umas para as outras, a ver se alguém tinha entendido. Mas ninguém sabia de nada e o Cigarra também não explicava, muito encarnado, muito furioso, com os dois braços no ar.

-Bandidos! -dizia ele. -Ladrões! Há-de se saber quem foi o filho da mãe, que é para malhar ali com o coirão na cadeia!

Pedro, que também lá estava, ouviu a coisa e foi-se raspando. Quando de longe olhou para trás, o Cigarra ainda continuava a falar. Mas desandou, que aquilo estava a aquecer. Conhecia muito bem o velho, que gostava dele e o chamava às vezes da varanda quando o via passar, para o meter na conversa. Dava-lhe berlindes, aguçara-lhe mesmo ainda há poucos dias o bico do pião para escachar o do Rui que era seu vizinho e lhe rachara o dele de meio a meio. Mas do que o Pedro mais gostava era de histórias e o velho sabia muitas. A bem dizer, ele sabia apenas umas três ou quatro; mas Pedro gostava tanto, que se não aborrecia de as ouvir outra vez e era assim como se fossem muitas. Tinha olhos bons, o velho. Um pouco amachucados da velhice, mas bons. E Pedro gostava dele. Ninguém tinha dado conta I do roubo a não ser ele, porque as pessoas, como tinham de trabalhar, quando era a altura de as estrelas acordarem era também a altura de elas estarem a dormir. E mesmo que não estivessem ainda a dormir, não havia tempo de repararem nas estrelas, porque tinham de reparar noutras coisas. Mas o velho não podia já trabalhar e também não tinha sono. De maneira que, para ir passando a noite, que levava mais tempo a passar do que o dia, gostava às vezes de se pôr a olhar as estrelas. E foi assim que deu conta do roubo. É claro que ninguém gosta de que lhe limpem o que é seu. Mas, a bem dizer, a vida era tanta, que estrela a mais ou estrela a menos pouca diferença fazia. E o Sr. António Governo, que era muito importante lá na aldeia por ser muito rico, e gostava de ser popular até onde, evidentemente, a I coisa não metesse chatices, pôs-se logo ao lado da opinião de toda a gente e chegou mesmo a dizer:

- Olha eu agora a ralar-me por causa de uma estrela. O que mais falta são estrelas. Por mim podiam levá-las todas que não perdia o sono.

Mas aqui o Cigarra bateu o pé, que por sinal era bem grande:

- Isso é que não, senhor Governo. Agora uma estrela. Isso é que não. As estrelas enfeitam; toda a gente sabe que enfeitam. E roubarem logo a mais bonita. Podiam roubar outra, uma, digamos, de segunda, já mais gasta. Mas não senhor, logo a melhor. Isto não pode ficar assim.

E tais coisas disse o Cigarra, e tão arreliado, que muita gente, pouco a pouco, começou a pôr-se ao lado dele. Porque uma arrelia assim tinha de ter alguma razão. A mãe do Pedro, a bem dizer, tanto se lhe dava como se lhe deu que tivessem levado a estrela. À primeira, porque havia muitas e queixar-se alguém assim era como se se queixasse de lhe roubarem uma azeitona. À segunda, porque só as olhava no Verão, quando vinha para a porta a tomar um pouco de ar. Ou nem as olhava, já tinha visto, não era preciso ver outra vez. Quanto ao pai até se ria - estaria tudo maluco? Tinham roubado a mula ao Roda Vinte e Seis, tinham roubado a galinha ao Pingo de Cera que só tinha uma e andava sempre à coca a ver quando ela punha o ovo, tinham roubado um caldeiro de bosta de boi à Raque-Traque que a andara a apanhar pelas ruas uma semana inteira para estrumar as couves -e ninguém fizera assim um banzé. Mas como não gramava o Governo por ter muita proa e sobretudo razão para a ter, e como por outro lado devia favores ao velho, que até fora padrinho da mãe, lá ia perguntando também quem teria sido o sacana que empalmara a estrela. Como durante a ceia volta não volta as conversas iam dar sempre ao mesmo, o Pedro fazia que não ouvia, muito encavacado, comendo depressa para se raspar logo para a cama. Mas nem tocava na caixa, que se o pai ou a mãe descobrissem estava cosido. Até que o roubo foi esquecendo como tudo tem de esquecer para se lembrarem outras coisas. E quando isso aconteceu, voltou a abrir a caixa, mas só por um bocadinho, não fosse o diabo tecê-las.

Ora certa noite, e já depois de se ter deitado, a mãe lembrou-se de que se calhar não tinha deixado o lume bem acondicionado para não pegar fogo, Naturalmente, não o apagava de todo para não ter de ir pedi-lo à vizinha, a Pitapota, que fazia sempre um escarcéu medonho, como se lhe estivesse a pedir a alma. Eis senão quando, ao passar ao quarto do filho, viu por debaixo da porta uma risca de luz. Ficou arreliadíssima, como é de ver, com medo de que o filho deitasse fogo à casa. Mas nem tugiu. Queria era apanhá-lo com a boca na botija e mesmo descobrir como é que ele tinha feito lume. Abriu, pois, só uma talisca da porta e espreitou. E então ficou de boca aberta: sentado na cama, o filho tinha a estrela nas mãos. A cara estava toda iluminada, e as mãos era como se tivessem lume por dentro. A mãe nem queria acreditar. Mas depois de se ter admirado, foi-se a ele numa fúria e deitou-lhe a mão à estrela. Mas aqui deu um grito tão alto que o pai acordou. Veio a correr ao quarto do filho e quando chegou já estavam a chorar os dois. Pedro chorava não sabia porquê, nem sabia que não sabia, porque ninguém lhe tinha ainda perguntado. Mas a mãe sabia. A mãe tinha gritado porque ficara com a mão toda queimada. Atirara logo a estrela, ela caíra no chão. Mas não se partira e alumiava o quarto todo. A mãe continuava a gritar, talvez um pouco mais do que era preciso, segurando a mão queimada com a outra. Até que o pai deu um berro para acabar com aquele chinfrim, que podia acudir a vizinhança. E disse apenas:

- Põe-lhe vinagre. Ata a mão com sal. E quanto a nós, amanhã falamos. Mas no outro dia quem falou foi a freguesia inteira. E a primeira coisa que disse foi que era indecente quererem fazer pouco das pessoas. Porque toda a gente via que a estrela não era aquela. Chamou-se mesmo o latoeiro para dar uma opinião e ele também disse. Não era bem de lata mas de outra coisa esquisita que ele sabia.

Agora uma estrela, o que se chamasse uma estrela, toda a gente via que não. E brincar com o parceiro, só no Entrudo. E logo toda a gente que ainda não tinha 2 descoberto que brincar com um parceiro só no Entrudo começou também a dizer que brincar com um parceiro só no Entrudo. Então Pedro, já assustado e a choramingar, explicou:

-Só à noite é que é! Só à noite.

E só à noite é que foi. O Governo, que era homem de leituras, chegou mesmo a explicar com paciência àqueles brutos que as estrelas, evidentemente, só à noite é que era. Mesmo só à meia-noite é que se podia saber o sítio daquela. De modo que à meia-noite juntou-se a aldeia no adro. E como o António Governo gostava de dar bons exemplos, chamou o filho para ser um homem e ir ele próprio em pessoa pôr a estrela no seu lugar. E o filho chamou o Pananão, que lhe cultivava umas sortes, para ir buscar duas escadas à loja. Pedro tinha a estrela nas mãos, o Pananão foi buscar as escadas. Quando voltou com elas, uma em cada ombro, o filho do Governo, ou porque não acreditasse nessa história da queimadura, ou porque se esquecera já dessa história, porque estava com pressa de ser homem, deitou a mão à estrela. Mas logo largou um urro, enquanto largava também a estrela, porque aquilo queimava que nem o fogo do inferno. Pedro apanhou logo a estrela a ver se se tinha partido. Foi quando o pai dele se adiantou com um braço no ar para pedir silêncio a toda a gente. E toda a gente lhe deu o silêncio que ele pedia. Então ele disse:

-O meu filho é que tirou a estrela, o meu filho é que a deve ir lá pôr.

Toda a aldeia achou bem. Que aquilo é que era um pai. Que aquilo é que sim. Pedro ia ouvindo tudo sem ter opiniões, que também lhe não pediam. E muito calmo, com a estrela nas mãos, meteu pela porta da torre. As pessoas esperaram algum tempo que ele aparecesse lá no alto da torre. E ele apareceu finalmente, a estrela brilhando ainda mais entre os sinos, como se houvesse lá uma fogueira. As escadas do Governo estavam já encostadas no seu lugar para uma subida mais fácil. Mas Pedro, quando toda a gente supunha que ele ia meter por elas, desapareceu pela escadinha interior que ia dar à de ferro, que ficava de fora. O pai ainda lhe berrou cá de baixo:

- Agarra-te às escadas! Não vás por aí! Sobe pelas escadas!

Mas ele nem olhou e logo desapareceu. Em baixo, todos esperavam em silêncio. E ele voltou enfim a aparecer com a estrela entalada na cintura e que mesmo assim iluminava todo o largo. Muito ligeiro, subiu até ao varão de ferro. Mas faltava subir até ao galo e aos quatro pontos cardeais. O pai fazia força cá de baixo, toda a gente ia empurrando também, menos a mãe, que nem queria ver e tapava mesmo os olhos, lembrando apenas aos santos das suas relações que era a altura de fazerem alguma coisa. E eles fizeram. Pedro, com efeito, rapidamente trepava pelo varão de ferro até ao galo e encavalitava-se por cima do Norte-Sul-Este-Oeste. E, devagar, tirou a estrela do cinto. Era linda, brilhava no ar. E então, com jeito, segurando-a na mão, pô-la outra vez no seu lugar. Toda a gente estava a rebentar, sem poder dizer nada, De modo que, ao verem a estrela finalmente no seu sítio, largaram todos o "ah!" que competia mas que saiu como um urro, com a força toda que tinham entalada na garganta. Nem mesmo repararam que assim que foi posta no seu lugar a estrela começou logo a brilhar menos, embora brilhasse muito. E ou fosse porque o "ah!" teve força a mais e o assustou ou porque não fincou bem os pés no varão de ferro, Pedro escorregou por ele abaixo até à bola de pedra. E então desequilibrou-se, e, de braços abertos, veio pelo ar estampar-se cá em baixo contra as pedras do adro.

Toda a gente chorou a sua morte. E o Cigarra, que andou de luto um ano inteiro, fez mesmo uns versos sobre ele para os cantar depois à viola. Já passaram muitos anos e ainda hoje se cantam. A estrela ainda lá está. Toda a gente a conhece.


Vergílio Ferreira (1999). Contos



14/08/2008

Última Dádiva


A Júlio Monteiro Aillaud


Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme, belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças, fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis aí quanto ao pobre homem restava dos seus antigos haveres: – o horto, a um canto a nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas janelitas laterais, mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.
De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia toda se toucava de flores fazendo dossel à vivenda, aquele pequeno canto de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua simplicidade.
No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.
– Ó tio José! – gritavam-lhe do caminho. – Tio José! Ó regalado!
Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.
Ora na verdade!... Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua cultura – tão esmerada e tão completa, pois que demais a mais nem palmo de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável, verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as castas – desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas estações competentes – cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo.
Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as cultivar, e nos canteiros ainda devolutos tinha semeado repolhos, que por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas.
Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo que, sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a suportar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato. Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo gemido, e punha-se de novo a andar.
– Vens ou não vens?! – perguntava ele, evocando com dorido esforço a imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se fosse um relâmpago: apagava-se logo.
Nesta luta com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde, talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite, apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.
Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosme e viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto, onde a sombra era mais densa.
– Temos história... – resmungou consigo o rapaz.
E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali fazer das suas. Agachou-se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou duas, para o caso de não acertar a primeira.
– Cão do diabo! – exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a pedra. – Espera que eu te arranjo... – E já ia arremessá-la na direcção do canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao lugar onde o rapaz estava.
– Melhor! Mais a jeito ficas...
E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava, para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme. O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros por onde elas tinham andado.
Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente, deixou cair as pedras e perguntou:
– Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís... Vossemecê que tem?
O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:
– Dói-lhe alguma coisa, ó tio José?!
– Não dói, não! Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes. Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai!
O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse a pedrada.
No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário, ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo. Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos.
– Ó Tomás!...
– Senhor José! – respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de barqueiro.
O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.
– Como tinha de madrugar...
– Pois são horas de largar, senhor José; isto vai para as duas. Não tarda que comece a amanhecer. – E como estavam à porta de casa: – Será bom acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai. – Iam à vela se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.
Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar violentamente.
O barqueiro tentou animá-lo, constrangido:
– Então, senhor José?... O chorar é lá para as mulheres! Olhem agora que homem! – E tentava levantá-lo, pô-lo de pé. – Limpe lá essas lágrimas, que vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?
O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os olhos com a manga da camisa.
– Pois então levante-se lá. – E segurou-o com força por baixo dos braços. – Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique vossemecê a pensar que o não torna a ver!
Mas era isso mesmo o que ele pensava...
– Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno! – concluiu a chorar o José Cosme.
– Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu! Mais ano menos ano, aparece-lhe aí rico...
«Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico! O que desejava era que voltasse, e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar.»
«Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que se animasse para animar o pequeno» – recomendava o barqueiro.
– Sim... sim... – tartamudeava o Cosme. – Vamos lá com Deus! Com’assim...
E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar o pequeno. «Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser desgraçado até que o levassem para a cova...» Sobre a estreita e humilde cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto paterno... «O último sono! o último sono!»
– Ainda se o deixássemos acordar... – aventurou-se a dizer o triste.
Mas o Tomás, que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de pôr o barco a andar. O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração. Dormia... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse praticar um grande crime:
– Filho, olha que são horas, meu filho...
Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar.
– Adeus, pai!
– Adeus, filho!
Confrangido, o Tomás, que se deixara ficar à porta, avançou para desatar aquele abraço.
– Olhe que é tarde, senhor José! Perdoe, mas olhe que é tarde!
O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.
– A andorinha, filho?! – perguntou o José Cosme. – Deixa que eu hei-de olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver! Vai sossegado!
Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe tocou com as pontas dos dedos... – Adeus! – disse-lhe o pequeno afagando-a.
A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho ao colo seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda a bagagem do Joaquim.
Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou soluçando:
– Quando voltarás ao horto, meu filho?!
O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam de tudo o que adorava – a andorinha, depois da andorinha o horto, as árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim!
Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o sentiram murmurar, apertaram mais o braço, deram-se um longo beijo, húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava que o rio ficasse mais longe, muito longe, que fugisse diante deles, de modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava, divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação falavam alto.
– Pronto? – perguntou ainda de longe o Tomás.
Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.
Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de angústia, pelo deslizar monótono das águas... Aquilo confrangia o barqueiro, ele também era pai... Por isso, mal chegaram à beira do rio, apressou-se a dizer para o pequeno:
– Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e diz-lhe adeus.
Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar o filho:
– Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te veja ir. – E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora: ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a gente feliz...
– Não te esqueças dela, mais da alminha de tua mãe e de tua irmã!
Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai, beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra. Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava desvairado:
– Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia!
E o Joaquim, sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas mãos. Até que o Tomás teve de intervir: era preciso despegar dali por uma vez.
– Com’assim, senhor José, isto tem de ser... – E segurando o pequeno com força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José Cosme, que suplicava de mãos postas:
– Só um instante, só um quase nadinha, Tomás! – E o pobre pai caía de joelhos na areia, numa atitude de súplica.
Mas nesse momento o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando ao colo a criança.
– Rema! – intimou em voz rápida.
O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram – plhau! – sobre a água.
Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus – lá do barco. – Adeus, Joaquim, adeus!
– Adeus, pai!
– Adeus!
Mas, repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na direcção do barco:
– Tomás! ó Tomás! Por alma de teu pai faz lá alto um instante.
Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto, arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás, que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme, velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai, de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:
– É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho! Reza-lhe, sim?!
E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe chegasse o pequeno para o último beijo...
Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue em região misteriosa de lágrimas... E no silêncio agoureiro da noite, apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais longe – longe como se fora do Infinito! – a voz lacrimosa do pai – com o seu fúnebre adeus! que ele bem sabia ser eterno...

***

...Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância, diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas, fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar, tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo, na direcção do horto silencioso...



Trindade Coelho, Os meus amores