27/07/2008

Os Devaneios do General

Abre-se uma clareira azul no escuro céu de inverno.
O sol inunda os telhados de Jacarecanga. Um galo salta para cima da cerca do quintal, sacode a crista vermelha que fulgura, estica o pescoço e solta um cocoricó alegre. Nos quintais vizinhos outros galos respondem.
O sol! As poças d’água que as últimas chuvas deixaram no chão se enchem de jóias coruscantes. Crianças saem de suas casas e vão brincar nos rios barrentos das sarjetas. Um vento frio afugenta as nuvens para as bandas do norte e dentro de alguns instantes o céu é todo um clarão de puro azul.
O General Chicuta resolve então sair da toca. A toca é o quarto. O quarto fica na casa da neta e é o seu último reduto. Aqui na sombra ele passa as horas sozinho, esperando a morte. Poucos móveis: a cama antiga, a cômoda com papeis velhos, medalhas, relíquias, uniformes, lembranças; a cadeira de balanço, o retrato do Senador; o busto do Patriarca; duas ou três cadeiras… E recordações… Recordações dum tempo bom que passou, — patifes! — dum mundo de homens diferentes dos de hoje. — Canalhas! — duma Jacarecanga passiva e ordeira, dócil e disciplinada, que não fazia nada sem primeiro ouvir o General Chicuta Campolargo.
O general aceita o convite do sol e vai sentar-se à janela que dá para a rua. Ali está ele com a cabeça atirada para trás, apoiada no respaldo da poltrona. Seus olhinhos sujos e diluídos se fecham ofuscados pela violência da luz. E ele arqueja, porque a caminhada do quarto até a janela foi penosa, cansativa. De seu peito sai um ronco que lembra o do estertor da morte.

O general passa a mão pelo rosto murcho: mão de cadáver passeando num rosto de cadáver. Sua barbicha branca e rala esvoaça ao vento. O velho deixa cair os braços e fica imóvel como um defunto.
Os galos tornam a cantar. As crianças gritam. Um preto de cara reluzente passa alegre na rua com um cesto de laranjas à cabeça.
Animado aos poucos pela ilusão de vida que a luz quente lhe dá, o general entreabre os olhos e devaneia…
Jacarecanga! Sim senhor! Quem diria? A gente não conhece mais a terra onde nasceu… Ares de cidade. Automóveis. Rádios. Modernismos. Negro quase igual a branco. Criado tão bom como patrão. Noutro tempo todos vinham pedir a benção ao General Chicuta, intendente municipal e chefe político… A oposição comia fogo com ele.
O general sorria a um pensamento travesso. Naquele dia toda a cidade ficou alvoroçada. Tinha aparecido na “Voz de Jacarecanga” um artigo desaforado… Não trazia assinatura. Dizia assim: “A hiena sanguinária que bebeu o sangue dos revolucionários de 93 agora tripudia sobre a nossa mísera cidade desgraçada”. Era com ele, sim, não havia dúvida. (Corria por todo o Estado a sua fama de degolador.) Era com ele! Por isso Jacarecanga tinha prendido fogo ao ler o artigo. Ele quase estourou de raiva. Tremeu, bufou, enxergou vermelho. Pegou o revólver. Largou. Resmungou “Patife! Canalha!” Depois ficou mais calmo. Botou a farda de general e dirigiu-se para a Intendência. Mandou chamar o Mendanha, diretor do jornal. O Mendanha veio. Estava pálido. Era atrevido mas covarde. Entrou de chapéu na mão, tremendo. Ficaram os dois sozinhos, frente a frente.
— Sente-se, canalha!
O Mendanha obedeceu. O general levantou-se. (Brilhavam os alamares dourados contra o pano negro do dólmã.) Tirou da gaveta da mesa a página do jornal que trazia o famoso artigo. Aproximou-se do adversário.
— Abra a boca! — ordenou.
Mendanha abriu, sem dizer palavra. O general picou a página em pedacinhos, amassou-os todos numa bola e atochou-a na boca do outro.
— Come! — gritou.
Os olhos de Mendanha estavam arregalados. O sangue lhe fugira do rosto.
— Coma! — sibilou o general.
Mendanha suplicava com o olhar. O general encostou-lhe no peito o cano do revolver e rosnou com raiva mal contida.
— Coma, pústula!
E o homem comeu.
Um avião passa roncando por cima da casa, cujas vidraças trepidam. O general tem um sobressalto desagradável. A sombra do grande pássaro se desenha lá em baixo, no chão do jardim. O general ergue o punho para o ar, numa ameaça.
— Patifes! Vagabundos, ordinários! Não têm mais o que fazer? Vão pegar no cabo duma enxada, seus canalhas. Isso não é serviço de homem macho.
Fica olhando, com olho hostil, o avião amarelo que passa voando rente aos telhados da cidade.
No seu tempo não havia daquelas engenhocas, daquelas malditas máquinas. Para que servem? Para matar gente. Para acordar quem dorme. Para gastar dinheiro. Para a guerra. Guerras covardes, as de hoje! Antigamente brigava-se em campo aberto, peito contra peito, homem contra homem. Hoje se metem os poltrões nesses “banheiros” que voam, e lá de cima se põem a atirar bombas em cima da infantaria. A guerra perdeu toda a sua dignidade.
O general remergulha no devaneio.
93… Foi lindo. O Rio Grande inteiro cheirava a sangue. Quando se aproximava a hora do combate, ele ficava assanhado. Tinha perto de cinqüenta anos mas não se trocava por nenhum rapaz de vinte.
Por um instante, o general se revê montado no seu tordilho, teso e glorioso, a espada chispando ao sol, o pala voando ao vento… Vejam só! Agora está aqui, um caco velho, sem força nem serventia, esperando a todo instante a visita da morte. Pode entrar. Sente-se. Cale a boca!
Morte… O general vê mentalmente uma garganta aberta sangrando. Fecha os olhos e pensa naquela noite… Naquela noite que ele nunca mais esqueceu. Naquela noite que é uma recordação que o há de acompanhar decerto até o outro mundo… se houver outro mundo.
Os seus vanguardeiros voltaram contando que a força revolucionária estava dormindo desprevenida, sem sentinelas… Se fizessem um ataque rápido, ela seria apanhada de surpresa. O general deu um pulo. Chamou os oficiais. Traçou o plano. Cercariam o acampamento inimigo. Marchariam no maior silêncio e, a um sinal, cairiam sobre os “maragatos”. Ia ser uma festa! Acrescentou com energia: “Inimigo não se poupa. Ferro neles!”
Sorriu um sorriso torto de canto de boca. (Como a gente se lembra dos mínimos detalhes…) Passou o indicador da mão direita pelo próprio pescoço, no simulacro duma operação familiar… Os oficiais sorriam, compreendendo. O ataque se fez. Foi uma tempestade. Não ficou nenhum prisioneiro vivo para contar dos outros. Quando a madrugada raiou, a luz do dia novo caiu sobre duzentos homens degolados. Corvos voavam sobre o acampamento de cadáveres. O general passou por entre os destroços. Encontrou conhecidos entre os mortos, antigos camaradas. Deu com a cabeça dum prisioneiro fincada no espeto que na tarde anterior servira aos maragatos para assar churrasco. Teve um leve estremecimento. Mas uma frase soou-lhe na mente: “Inimigo não se poupa”.
O general agora recorda… Remorso? Qual! Um homem é um homem e um gato é um bicho.
Lambe os lábios gretados. Sede. Procura gritar:
— Petronilho!
A voz que sai da garganta é tão remota e apagada que parece a voz de um moribundo, vinda do fundo do tempo, dum acampamento de 93.
— Petronilho! Negro safado! Petronilho!
Começa a bater forte no chão com a ponta da bengala, frenético. A neta aparece à porta. Traz nas mãos duas agulhas vermelhas de tricô e um novelo de lã verde.
— Que é, vovô?
— Morreu a gente desta casa? Ninguém me atende. Canalhas! Onde está o Petronilho?
— Está lá fora, vovô.
— Ele não ganha pra cuidar de mim? Então? Chame ele.
— Não precisa ficar brabo, vovô. Que é que o senhor quer?
— Quero um copo d’água. Estou com sede.
— Por que não toma suco de laranja?
— Água, eu disse.
A neta suspira e sai. O general entrega-se a pensamentos amargos. Deus negou-lhe filhos homens. Deu-lhe uma única filha mulher que morreu no dia em que dava à luz uma neta. Uma neta! Por que não um neto, um macho? Agora aí está a Juventina, metida o dia inteiro com tricôs e figurinos, casada com um bacharel que fala em socialismo, na extinção dos latifúndios, em igualdade. Há seis anos nasceu-lhe um filho. Homem, até que enfim! Mas está sendo mal educado. Ensinam-lhe boas maneiras. Dão-lhe mimos. Estão a transformá-lo num maricas. Parece uma menina. Tem a pele tão delicada, tão macia, tão corada… Chiquinho… Não tem nada que lembre os Campolargos. Os Campolargos que brilharam na guerra do Paraguai, na Revolução de 1893 e que ainda defenderam o governo em 1923…
Um dia ele perguntou ao menino:
— Chiquinho, você quer ser general como o vovô?
— Não. Eu quero ser doutor como o papai.
— Canalhinha! Patifinho!
Petronilho entra, trazendo um copo de suco de laranja.
— Eu disse água! — sibila o general.
O mulato sacode os ombros.
— Mas eu digo suco de laranja.
— Eu quero água. Vá buscar água, seu cachorro!
Petronilho responde sereno:
— Não vou, general de bobagem…
O general escabuja de raiva, esgrime a bengala, procurando inutilmente atingir o criado. Agita-se todo, num tremor desesperado.
— Canalha! — cicia arquejante — Vou te mandar dar umas chicotadas!
— Suco de laranja — cantarola o mulato.
— Água! Juventina! Negro patife! Cachorro!
Petronilho sorri:
— Suco de laranja, seu sargento!
Com um grito de fera o general arremessa a bengala na direção do criado. Num movimento ágil de gato, Petronilho quebra o corpo e esquiva-se do golpe.
O general se entrega. Atira a cabeça para trás e, de braços caídos, fica todo trêmulo, com a respiração ofegante e os olhos revirados, uma baba a escorrer-lhe pelos cantos da boca mole, parda e gretada.
Petronilho sorri. Já faz três anos que assiste com gozo a esta agonia. Veio oferecer-se de propósito para cuidar do general. Pediu apenas casa, comida e roupa. Não quis mais nada. Só tinha um desejo: ver os últimos dias da fera. Porque ele sabe que foi o general Chicuta Campolargo que mandou matar o seu pai. Uma bala na cabeça, os miolos escorrendo para o chão… Só porque o mulato velho na última eleição fora o melhor cabo eleitoral da oposição. O general chamou-o a intendência. Quis esbofeteá-lo. O mulato reagiu, disse-lhe desaforos, saiu altivo. No outro dia…
Petronilho compreendeu tudo. Muito menino, pensou na vingança mas, com o correr do tempo, esqueceu. Depois a situação política da cidade melhorou. O general aos poucos foi perdendo a autoridade. Hoje os jornais já falam na “hiena que bebeu em 93 o sangue dos degolados”. Ninguém mais dá importância ao velho. chegou aos ouvidos de Petronilho a notícia de que a fera agonizava. Então ele se apresentou como enfermeiro. Agora goza, provoca, desrespeita. E fica rindo… Pede a Deus que lhe permita ver o fim, que não deve tardar. É questão de meses, de semanas, talvez até de dias… O animal passou o inverno metido na toca, conversando com os seus defuntos, gritando, dizendo desaforos para os fantasmas, dando vozes de comando: “Romper fogo! Cessar Fogo! Acampar”.
E recitando coisas esquisitas. “V. Exa. precisa de ser reeleito para glória do nosso invencível Partido”. Outras vezes olhava para o busto e berrava: “Inimigo não se poupa. Ferro neles”.
Mais sereno agora, o general estende a mão pedindo. Petronilho dá-lhe o copo de suco de laranja. O velho bebe, tremulamente. Lambendo os beiços, como se acabasse de saborear o seu prato predileto, o mulato volta para a cozinha, a pensar em novas perversidades.
O general contempla os telhados de Jacarecanga. Tudo isto já lhe pertenceu… Aqui ele mandava e desmandava. Elegia sempre os seus candidatos; derrubava urnas, anulava eleições. Conforme a sua conveniência, condenava ou absolvia réus. Certa vez mandou dar uma sova num promotor público que não lhe obedeceu à ordem de ser brando na acusação. Doutra feita correu a relho da cidade um juiz que teve o caradurismo de assumir ares de integridade de opor resistência a uma ordem sua.
Fecha os olhos e recorda a glória antiga.
Um grito de criança. O general baixa os olhos. No jardim, o bisneto brinca com os pedregulhos do chão. Seus cabelos louros estão incendiados de sol. O general contempla-o com tristeza e se perde em divagações…
Que será o mundo de amanhã, quando Chiquinho for homem feito? Mais aviões cruzarão nos céus. E terá desaparecido o último “homem” da face da terra. Só restarão idiotas efeminados, criaturas que acreditam na igualdade social, que não têm o sentido da autoridade, fracalhões que não se hão de lembrar dos feitos dos seus antepassados, nem… Oh! Não vale a pena pensar no que será amanhã o mundo dos maricas, o mundo de Chiquinho, talvez o último dos Campolargos!
E, dispnéico, se entrega de novo ao devaneio, adormentado pela carícia do sol.
De repente, a criança entra de novo na sala, correndo, muito vermelho:
— Vovô! Vovô!
Traz a mão erguida e seus olhos brilham. Faz alto ao pé da poltrona do general.
— A lagartixa, vovozinho…
O general inclina a cabeça. Uma lagartixa verde se retorce na mãozinha delicada, manchada de sangue. O velho olha para o bisneto com ar interrogador. Alvorotado, o menino explica:
— Degolei a lagartixa, vovô!
No primeiro instante o general perde a voz, no choque da surpresa. Depois murmura, comovido:
— Seu patife! Seu canalha! Degolou a lagartixa? Muito bem. Inimigo não se poupa. Seu patife!
E afaga a cabeça do bisneto, com uma luz de esperança nos olhos de sáurio.

Érico Veríssimo

O Modelo Milionário

De que vale ser um jovem encantador se não tiver bastante dinheiro? O romance é privilégio dos ricos e não profissão de desempregados. O pobre deve ser prático e prosaico. Vale mais uma renda permanente do que o dom de fascinar. Eram essas as verdades da vida moderna que o jovem Hughie Erskine não conseguia compreender. Pobre Hughie! Apesar de não ser de grande valor intelectual, nunca, em toda sua vida, havia feito ou dito alguma coisa de realmente relevante ou verdadeiramente reprovável. Era, contudo, extremamente simpático com seus cabelos castanhos ondulados, seu perfil de nítidos contornos e seus olhos acinzentados. Era tão bem sucedido com os homens como o era com as mulheres, e possuía todas as habilidades, menos a de ganhar dinheiro. Seu pai deixara-lhe por herança, seu sabre de cavalaria e quinze volumes sobre a História da Guerra Peninsular. Hughie pendurou o sabre acima do seu espelho de quarto; encaixotou os livros numa estande entre o Ruff’s Guide e o Bailey Magazine e passou a viver com a renda de 200 libras, abonadas por uma velha tia. Tentou todos os meios de ganhar a vida. Durante 6 meses arriscou a sorte na bolsa; mas que podia fazer um louva-a-deus entre ursos e touros? Passou algum tempo vendendo chá aos atacadistas mas cansou-se logo do “pekoe” e do “souchong”. Em seguida tentou negociar “dry sherry”, mas desistiu logo pois o “sherry” era seco demais. Finalmente entregou-se à deliciosa arte de não fazer absolutamente nada e tornou-se um jovem encantador e inútil, com um perfil impecável e sem profissão alguma.
Para complicar as coisas, Hughie amava. Sua eleita era Laura Merton, filha de um coronel reformado que deixara na Índia seu bom-humor e seu bom estômago e nunca mais encontrara nem um nem outro. Laura amava loucamente o jovem Hughie e ele, por sua vez, teria sido capaz de beijar com paixão até os cordões dos seus sapatinhos. Laura e Hughie formavam um dos pares mais combinados de Londres e entre ambos não havia sequer um real. O coronel estimava muito o jovem Hughie mas opunha-se a qualquer compromisso de casamento.
- Meu caro jovem – dizia o velho – Volte quando tiver acumulado com seus próprios esforços umas dez mil libras. Então, poderemos conversar. – Quando ouvia essas palavras, o jovem Hughie, acabrunhado, buscava conforto nos braços da sua amada.
Certa manhã, quando se dirigia para Holland Park onde moravam os Mertons, Hughie resolveu visitar um grande amigo seu, chamado Alan Trevor, que era pintor. A arte de pintar tornou-se epidêmica em nossos dias. Mas além de pintor, Trevor era também um grande artista, e os grandes artistas são muito raros. Trevor era uma estranha criatura um tanto rude; tinha o rosto salpicado de sardas e usava uma barbicha ruiva, sempre emaranhada. Contudo, quando empunhava o pincel, tornava-se um autêntico mestre e todos os seus trabalhos eram muito requestados. Desde o princípio fora fortemente atraído pela sedutora personalidade de Hughie. “Os pintores só deviam conhecer criaturas obtusas e encantadoras. Criaturas que ao contemplar, nos proporcionem um real prazer artístico e ao conversar, um verdadeiro repouso intelectual. Os janotas e as coquetes governam o mundo, ou pelo menos deviam “governar”, dizia Trevor freqüentemente. Entretanto, depois de conhecer melhor Hughie, apreciou-o tanto pela sua jovialidade e bom caráter quanto pela sua natureza generosa e espontânea, permitindo-lhe livre acesso ao seu estúdio.
Hughie, ao entrar, encontrou Trevor dando os retoques finais num magnífico quadro que representava um mendigo em seu tamanho natural. O mendigo em pessoa posava sobre um estrado num dos ângulos do estúdio. Era um ancião encarquilhado com o rosto enrugado como um pergaminho e cuja fisionomia expressava infinita tristeza. Um velho manto rústico, rasgado e esfarrapado, recobria seus ombros e seus sapatos remendados estavam rotos em diversos lugares. Tinha uma das mãos apoiada num grosseiro bastão e a outra segurava um chapéu velho, estendido à caridade pública.
- Que extraordinário modelo! – exclamou Hughie, apertando a mão do amigo.
- Extraordinário – bradou Trevor – que dúvida! Um modelo como este não é encontrado todos os dias. Um achado, meu amigo, um verdadeiro achado. Um Velasquez em pessoa! Céus! Que água-forte teria Rembrant com um modelo como esse!
- Pobre velho – disse Hughie – parece tão miserável. Suponho que para vocês, pintores, uma fisionomia dessas vale uma fortuna.
- Meu caro Hughie, respondeu o pintor, como quer que um mendigo irradie felicidade?
Acomodando-se no sofá, Hughie perguntou:
- Quanto ganha um modelo para posar, Trevor?
- Um shilling por hora.
- E quanto ganha você com o quadro?
- Esse ai me dará uns dois mil.
- Libras?
- Não, guinéus. Pintores, poetas e doutores só recebem guinéus.
- Pois olhe, Alan, na minha opinião os modelos deveriam receber uma porcentagem. O trabalho deles é quase tão árduo quanto do artista.
- Tolices, Hughie! Veja só o trabalho que dá aplicar a tinta na tela e ficar o dia todo em pé, na frente do cavalete. Falar é fácil, mas pode estar certo que há momentos em que a arte atinge a dignidade de um trabalho braçal. Mas deixe de tagarelar. Estou trabalhando e preciso de sossego. Sente e fume.
Depois de algum tempo o criado entrou para avisar o pintor que o fabricante de molduras queria falar-lhe.
- Fique aí, Hughie. Voltarei em minutos – disse Trevor.
O velho mendigo aproveitou a ausência do pintor para descansar numa banqueta ao lado do estrado. Sua fisionomia era uma imagem de dor e tristeza e Hughie, comovido, procurou nos bolsos para ver se encontrava alguma moeda. Encontrou apenas uma libra e alguns pences. “Pobre velho”, pensou ele, “precisa mais desse dinheiro do que eu e não me custa nada ficar sem condução quinze dias”, e atravessando o estúdio depositou timidamente as moedas na mão do velhinho.
O velhinho assustou-se e, depois, um leve sorriso esboçou-se nos seus lábios murchos.
- Muito obrigado, senhor. Muito obrigado.
Trevor chegou e Hughie, enrubescendo um pouco pelo seu gesto, despediu-se e saiu. Passou o resto do dia em companhia de Laura, foi gentilmente censurado pela sua prodigalidade e voltou a pé para casa.
Naquela noite, eram mais ou menos onze horas, Hughie foi para o Pallete Clube e encontrou Trevor sozinho no salão, bebendo vinho branco com água de seltzer.
- Então, Alan, conseguiu terminar o quadro?
- Terminar e emoldurar, meu caro! – respondeu Trevor. – E a propósito sabe que você fez mais uma conquista? O velhinho que serviu de modelo falou muito de você. Fui obrigado a descrevê-lo na íntegra. Ele quis saber quem é você, onde mora, de que vive, quais são seus planos para o futuro...
- Meu caro Alan – exclamou Hughie – Com certeza quando chegou em casa vou encontrá-lo me esperando. Mas, escute, Trevor. Você parece que está brincando. Saiba que tive muita pena do pobre infeliz. queria poder fazer alguma coisa por ele. Deve ser horrível ser tão desgraçado. Tenho muitas roupas velhas lá em casa. Acha que ele as aceitaria? Estava tão esfarrapado!
- Seus farrapos são a sua magnificência – disse Trevor. – Por dinheiro algum pintá-lo-ia envergando um fraque. O que você chama de farrapos eu chamo de romance. O que para você representa miséria, para mim representa pitoresco. Todavia, falar-lhe-ei de sua oferta.
- Vocês pintores não têm coração – disse Hughie num tom de censura.
- O coração do artista é a sua cabeça – respondeu Trevor – Aliás, o objetivo do artista é compreender o mundo como ele o vê e não reformá-lo como o compreendemos. A chacun son métier. Bem, e agora, diga-me como está Laura. O velho modelo está vivamente interessado nela.
- Quer dizer que ela também foi assunto de conversa entre vocês? – exclamou Hughie.
- Sim. Contei-lhe toda a história do implacável coronel, da formosa Laura e das 10 mil libras.
- Você contou todas essas particularidades ao velho mendigo? – bradou Hughie, enrubescendo vivamente e bastante exaltado.
- Meu caro Hughie – disse Trevor sorrindo – Esse pobre homem que você classifica de mendigo é um dos mais ricos da Europa. Se quiser, pode comprar amanhã toda a Inglaterra sem desfalcar seu crédito bancário. Possui propriedades em todas as capitais, faz suas refeições em baixelas de ouro e pode, quando lhe aprouver, impedir a Rússia de entrar em guerra.
- Que baboseiras está contando, Alan?
- Baboseiras? O ancião que você encontrou hoje no meu estúdio é o barão Hausberg. Um dos meus grandes amigos e admiradores e um dos meus melhores clientes. Compra quase todos os meus quadros e outras coisas mais. Há mais ou menos um mês pediu-me para retratá-lo na caracterização de um mendigo. Que voulez-vous? La fantasie millionnaire! Não posso negar que fez bela figura nos seus farrapos – ou melhor, nos meus farrapos. Comprei-os na Espanha.
- O barão de Hausberg! – murmurou Hughie, perplexo. – Santo Deus! E eu lhe dei uma libra – tartamudeou ele, afundando numa cadeira com ar profundamente consternado!
- Você lhe deu uma libra? – perguntou Trevor rindo. – Nunca mais a verá, meu caro amigo. Son affaire c’est l’argent des autres.
- Devia ter-me avisado, Alan – disse Hughie visivelmente aborrecido. – Teria evitado o ridículo papel que fiz.
- Bem, para começar, Hughie – disse Trevor – nunca me passou pela cabeça que você pudesse distribuir esmolas de maneira tão insensata e tola. Compreendo que se beije um modelo bonito, mas quanto a dar uma libra a um modelo feio – poxa, isso não. Além disso, hoje tinha intenção de não receber ninguém e quando você entrou no estúdio não sabia se o barão Hausberg queria que mencionasse o seu nome. Você compreende, com aqueles trajes...
- Deve julgar-me um idiota.
- Ao contrário. Quando você saiu ficou muito jovial e murmurava baixinho esfregando as mãos enrugadas. Fiquei um pouco atônito quando o vi tão interessado em você. Agora compreendo. Com certeza vai aplicar a libra que você lhe deu, Hughie, pagando-lhe os juros de seis em seis meses e terá uma história interessante para contar depois do jantar.
- Sou mesmo um desastrado – murmurou Hughie. – Acho que a melhor coisa a fazer é ir para a cama e, por favor, Alan, não conte o que aconteceu a ninguém.
- Tolices Hughie. Esse seu gesto prova o seu elevado espírito filantrópico. Fique aí, não vá, fume um cigarrinho e vamos conversar um pouco sobre Laura.
Hughie, aborrecido, não quis ficar e foi para casa. Sentia-se acabrunhado e deixou Alan rindo a mais não poder.
Na manhã seguinte, quando estava se preparando para o primeiro almoço, o criado fez-lhe entrega de um cartão com os seguintes dizeres: “Mousieur Gustave Naudim, de la part de M. le Baron Hausberg”. Com certeza vai pedir uma satisfação, pensou Hughie, mandando o criado introduzir o visitante.
O homem já idoso, de cabelos grisalhos e óculos de armação dourada, entrou na sala e disse com ligeiro sotaque francês: “Tenho prazer de falar com Mr. Erskine?”
Hughie fez um sinal afirmativo com a cabeça.
- Venho da parte do barão Hausberg – disse ele.
- Peço apresentar minhas sinceras desculpas ao senhor barão – disse Hughie.
Sorrindo, o visitante prosseguiu:
- O senhor barão incumbiu-me de lhe entregar esta carta.
Hughie pegou o envelope e leu:
- A Hughie Erskine e Laura Merton, como presente de casamento de um velho mendigo”. Dentro do envelope havia um cheque de 10 mil libras.
Na ocasião do casamento o barão Hausberg pronunciou um bonito discurso em homenagem aos nubentes e Alan Trevor foi um dos padrinhos.
- Modelos milionários são muito raros – observou Alan – mas milionários modelos são mais raros ainda.

Oscar Wilde



20/07/2008

As Aventuras de Rosalina



Rosalina ia fazer um recadinho à mãe, pela praia fora. E a praia era muito comprida, nunca se lhe via o fim.

O mar estava cheiinho de gaivotas. A borda do mar de pés descalços, é que era gozar. Tudo luzia tanto!

Rosalina olhou para o sol, para o mar e para a areia. A areia estava coberta de malhas; ela estranhou aquilo e desatou a correr. As gaivotas pareciam-lhe umas tontas, para cá e para lá, de cabeça pendurada... Nunca sossegavam. Dormiriam debaixo de água? Rosalina suspeitava-o.

Fartinha de correr, cheia de vento e de sol, deixou-se cair sentada. Pôs-se a cantarolar e enterrou os braços na areia. Estava tão quente! até escaldava.

- Ai, que não tenho braços... coitadinha de mim... lamuriava Rosalina para se entreter. Mas de perto lhe res­ponde uma voz:

- Anda cá menina.

A pequena desenterrou os braços de repente. Tinha ouvido ou não tinha ouvido? e olhou para todos os lados.

- Anda cá, menina.

Tinha ouvido.

Olhou e tornou a olhar mas não viu ninguém.

A voz devia ter vindo das ervas, do lado da terra.

Rosalina encheu-se de ânimo e foi catar todas as moi­tas. Nada! Olhou para longe. Ninguém! Sempre a olhar para trás voltou para a borda do mar, desconfiada, e desa­tou a correr de novo. Correu tanto na areia molhada que até perdeu a respiração. Caiu outra vez sentada. Suspirou de alívio e tornou a cavar na areia com as duas mãos. Tirava pitadinhas dela, alisava-a, enterrava os dedos, os braços... até que achou duro e arrancou uma coisa para fora. Imagine-se! Um coraçãozinho de oiro. Rosalina ficou doida. Riu e pôs-se outra vez a cantar. Mas pare­ceu-lhe ouvir de novo a tal voz:

- Anda cá menina.

Virou-se instantaneamente. Estava em frente de uma moitinha de erva prata. Uma erva esbranquiçada e gorda, como há muita ao pé do mar. Dali é que vinha o som. Rosalina perdeu a coragem, levantou-se de um salto e deitou a fugir.

- Anda cá, menina; anda cá, menina.

Rosalina voava. - Não e não! — gritava ela sem nunca parar. Até que caiu sentada, já não podia mais. Pôs as duas mãos no peito, via tudo às rodelas e às cores. Olhou para a água e lá foi serenando. Até lhe parecia impossível ser aquilo o mar. Levantou-se por fim e foi caminhando, muito devagarinho, a olhar sempre para os pés. Enterrava conchas, rebentava bolhas de espuma... Descobriu uma argolinha brilhante, apanhou-a e enfiou-a num dedo. Mas voltou a ouvir:

- Anda cá, menina.

A voz agora vinha do mar, ela não estava enganada.

- Anda cá, menina; anda cá, menina.

E puxavam-na. Rosalina queria arrancar a argolinha do dedo e deitá-la fora, mas já não podia. Tapou urna das mãos com a outra, era sempre o mesmo.

- Anda cá, menina.

Rosalina toda desesperada, com o corpo muito teso, a recuar, só gritava que não e que não.

- Anda cá, menina.

E assim foi entrando pelo mar dentro, sentada numa concha. O mar só parecia de leite, sem uma onda. Não havia de que ter medo. Eram gaivotas que a puxavam. Rosalina entusiasmou-se e começou aos gritos. Que cor­rida! Os cabelos voavam-lhe com a aragem e com exci­tação.

- O sol que pare! — bradava a pequena. - Que espere! Espera aí por mim!

E o Sol que já se ia a pôr esperou por ela. Rosalina ia--se aproximando, já estava perto dele. A concha corria no mar como uma flecha.

- Sol! - Isto diz ela com os braços no ar. E arrebata-o. Mas como o sol ainda estava quente atira-o de repelão à água. Tudo se abrasa de súbito e depois escurece.

Rosalina atrapalhada voltou para trás e por aquela praia fora correu tanto, tanto que ia morrendo. Chegou a casa de noite fechada. Já a mãe andava à procura dela pelas vizinhas, muito aflita: tinha mandado a sua pequena a um recado ali tão perto...


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

19/07/2008

Vae Victoribus!


A Maria Lucília


Em Dezembro, às seis é noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a essa hora recolhia do monte o José Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima dele, o céu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa de tempestade que infunde pavor à gente, e da qual os próprios pássaros têm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora, agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar não sei que estranha elegia... A um relâmpago mais vivo, o José Gaio apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a Magnificat. O trovão chegou depois, lúgubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude do céu. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento, encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não ficava longe. Depois, a ladeira, – e no meio da ladeira a casa.
– Vamo’ lá com Deus! – fazia ele animando-se.
Um clarão súbito de relâmpago deslumbrou-o.
Diante dele surgiu de repente a paisagem, e de repente desapareceu, magicamente iluminada. Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão, que ele instintivamente parou e levou ao céu as mãos aflitas, num gesto de quem implora misericórdia. Naquela iminência de perigos as próprias árvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror, à beira do caminho. E através dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz implorativa da natureza, unindo-se à voz dele num longo coro de súplicas...

O José Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber de onde, alguém chamou por ele, lugubremente:
– Ó José Gaio!
O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braços da cruz negra, que era o sinal de ali terem matado o José Tendeiro, há anos, apertou o passo e tomou por um atalho, direito à ponte. Mas então a mesma voz tornou-lhe mais de perto:
– Ó José Gaio!
Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um relâmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com força, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma imobilidade de estátua prendia o camponês à terra. Foi então que veio de novo aquela voz, como um prolongamento do trovão:
– Ó José Gaio!
Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta, galgaria a ladeira num instante. Mas, involuntariamente, cedendo a uma força violentíssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da água que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monótono, infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão quando, estacou ouvindo a mesma voz:
– Ó José Gaio!
E logo atrás da voz, com um rastro, um intensíssimo relâmpago cor de sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a tempestade...
Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os olhos e cerrou violentamente as pálpebras. Mas em vão! que fora tão vivo o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cérebro, que num fundo cor de sangue, como num transparente de mágica, ele via nitidamente desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então deram-lhe ímpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o peito, impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar:
– Ó José Gaio!
Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais íntimo do seu ser. Um longo desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a última fibra de energia, como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe também o cérebro: não formava um só raciocínio nem elaborava sequer uma ideia, a mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo ele tremer, abalado como a própria terra. Depois, outro relâmpago fez reviver nele a vida do espírito; sentiu um grande pavor àquele aspecto súbito do campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda casais, surgiam de repente, nítidos nos seus contornos, definidos maravilhosamente nas suas atitudes. As grandes árvores despidas, sobretudo, tinham um ar fantástico, nessa pureza nítida de recorte que traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No meio deste cenário de mágica, a um tempo majestoso e tétrico, o triste camponês sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado à terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um só gesto implorativo, e nem uma só palavra de súplica lhe saía dos lábios crispados. Porque uma vez que tentara uma palavra, o mais formidável trovão cortara-lha na primeira sílaba. Depois, aquela voz não o largava, imperturbável e monótona:
– Ó José Gaio!
E ele, não respondendo nem falando, pensava esconjurá-la, exorcismá-la como se fosse a voz de um duende. E para esta evocação do sobrenatural muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da cruz negra, inabalável sob a asa agitada da procela.
Nisto veio a chuva, em grossas gotas a princípio, em cordas de água depois. Ela varejava-o inclemente, impelida agora por um vento sul furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer. Como todo ele ardia em febre, aquele dilúvio era quase um celeste beneficio para a sua cabeça num vulcão. Mas quando os relâmpagos vieram, aquela reverberação da luz nas cordas de água fez-lhe um deslumbramento mais forte. E caiu inerte sobre o caminho lamacento por onde a água escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume, sobrelevando o trovão, repetia ao lado da cruz:
– Ó José Gaio!
Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como caiu assim ficou: – de borco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quase tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relâmpago. Ela lá estava no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E pois que parara o dilúvio, dos seus braços abertos as gotas da chuva caíam, vermelhas à luz como grossas lágrimas de sangue...
Cobarde! Nenhuma comparação pode dar ideia do estado de prostração desse miserável, reduzido pelo terror a uma quase inacção de besta morta. Dir-se-ia um imundo trapo ali caído, abandonado ali na lama ignóbil de um caminho, à espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E enquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastelamento fantástico das grandes nuvens plúmbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com fúria o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso espírito pode conceber de mais grandioso e de mais sublime, épico e trágico a um tempo, – soberbo, majestoso, imponente.
Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões, aquela voz:
– Ó José Gaio!
Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio agravava-lhe o outro, o do medo. Parecia colado à lama, preso ao caminho como se fosse uma rocha. No entanto, a espaços, tinha a compreensão clara da sua posição e do seu estado. E então uma raiva súbita galvanizava-o: queria erguer-se, fugir, desaparecer – erguer-se como aquela cruz, fugir como aquele vento, desaparecer como esses relâmpagos, que nem deixam rastro na treva...
Tais rebates de coragem eram, porém, efémeros, impotentes para lhe provocarem um movimento. Aquele diabo tinha de morrer ali, miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as quatro pernas. E esta ideia, que o instinto de viver lhe sugeriu, apavorou-o ainda mais que a própria tempestade. Morrer ali! Mas que dúvida, se ninguém lhe vinha acudir, se não passava por ali vivalma, a tais desoras! Era horrível! No meio de um caminho, numa noite medonha de tempestade, ao pé daquela cruz negra de longos braços hirtos – morrer ali!... Eram então já por ele as lágrimas que essa cruz parecia chorar?!...
Estava nisto, quando num silêncio de acaso ouviu passos a distância. Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por ali, de tropeçar nele, talvez. Subitamente, sentiu--se reviver. Estava salvo. Em breve estaria de pé, – de pé como essa cruz que um relâmpago muito vivo acabava de lhe mostrar... No entanto, a voz é que se não importava:
– Ó José Gaio!

Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o calcassem, reuniu num supremo esforço as máximas energias, e rebolou-se para um lado, até ficar detrás de umas urzes. Coisa notável foi, senhores, que esse miserável em vez de gritar calou-se, e todo se recolheu numa absoluta quietação, com medo que o surpreendessem... E quem quer que era passou, cabeça nua, diante da cruz gotejante... Aos ouvidos do miserável chegou um como murmúrio de prece... Não ia só a rezar; ia também chorando, aquele homem...
... Quem seria?
Um clarão branco de relâmpago fez irromper da treva, lívido como um espectro, o filho do José Tendeiro...

O desgraçado ia a chorar pelo pai, ali assassinado havia anos, por uma noite como aquela...
Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquele cobarde não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quase arrumado à cruz.
E assim esteve horas e horas até que, noite velha, cessou a tempestade, perdida num murmúrio longínquo, lá na extrema fímbria do horizonte... Quando a lua rompeu, lívida num céu de anil, nem a grande sombra da cruz, incidindo sobre aquele corpo, como um beijo ou uma bênção, logrou reanimá-lo. Tinha morrido, o estafermo!
Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abade foi depois buscar o corpo. Os médicos nem lhe tinham mexido.
– Sangue pelos olhos, sangue pela boca, sangue pelo nariz, uma congestão muito linda – dissera um a rir.
– E muito mal empregada! – fizera o outro do lado, indiferente.
Mas quando os da maca disseram a um tempo – Upa! – esse bom velho do abade caiu de joelhos diante da cruz, numa convulsão agudíssima de choro. E elevando ao céu as mãos mirradas – ao céu que um divino azul fazia diáfano – ele exclamou, soluçando:
- Senhor! Senhor! A vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa misericórdia!
…Segredo de confissão... – mas o abade bem sabia quem tinha ali matado o José Tendeiro...


Trindade Coelho, Os meus amores

18/07/2008

O Celacanto

Eu não tinha o privilégio de saber o que era um celacanto nem vontade de confessar a Jacinta essa minha ignorância. Sentia-me muito ensonado e deixei-a falar, falar. Isto e a concentrar-me no fio telefónico anelado, suspenso da minha mão esquerda. Má invenção a dos fios espiralados, doidos de vida, que se enrodilham, mínimos e complicativos, ávidos de enovelar dedos incautos. Parece que praticaram em filmes de terror. O auscultador a rodopiar, e a chegar-me, sincopada, presente, ausente, presente, ausente, a voz célere de Jacinta. Perdi muitas das palavras dela, poupa-se-me o trabalho de as reproduzir. Interessava-me suster o auscultador no ponto exacto em que ele desataria a girar ao contrário e a ensarilhar o fio ao invés, para, brusco, lhe impor uma flexibilidade doméstica, honrada. Eram nove horas, Sábado, eu ainda estava na cama e não me ocorria pronunciar-me sobre celacantos, fosse isso o que fosse. Ligando palavras e retalhos de frase, num raciocínio pouco rápido e menos hábil, cheguei à suspeição enevoada de que ela havia perdido um celacanto e quando voltei a encostar o auscultador ao ouvido, tranquilizei: “deixa lá, depois compras outro”. Se fosse eu a perder um celacanto nunca mais sequer pensaria no assunto. O silêncio escuro que gelou o auscultador assinalou-me a reacção hostil, do lado de lá. Ainda balbuciei: “Jacinta! Jacinta”! Mas desliguei, depois de ouvir um convicto sinal contínuo.
A minha relação com Jacinta havia esmorecido há meses, lentamente, sem drama, em distraída delonga, como um anoitecer suave. Fomos deixando de nos ver, esquecendo isto e aquilo. Jacinta era possuída dum excesso de energia e de vontade que, não raro, se tornava fastidioso. Conferia minuciosamente as contas do restaurante, levantava-se pela alba, tagarelava com a porta do elevador entreaberta, discutia com a vizinhança, e administrava ao mesmo tempo quatro ou cinco actividades muito embrulhadas. Eu era a quinta ou sexta. Fui deixando de aparecer e Jacinta não deu mostras de reparar nisso. Passou a telefonar-me, de vez em quando, muito espaçadamente, só para comunicar assuntos rebarbativos, como se eu me tivesse tornado numa espécie de consultor para sensaborias. Desta vez era o tal celacanto. Fiquei arrependido de ter cometido alguma falta, embora sem saber bem qual fosse. Insustentado e moengo, havia um sentimentozinho de culpa a zunir-me em qualquer lado.
Mas, pouco tardou, vinha Jacinta de novo ao telefone, na altura em que eu já ia em meia cara barbeada. Pensei: “estou aqui, estou a encher o bocal de creme de barbear”. Meu dito, meu feito. Jacinta pôs-me ao corrente da situação, agora em voz pausada, muito tranquila,, com insistentes “percebes?” intercalares, para se assegurar de que eu me não distraía. Foi abstracta, vaga, mas autoritária. Daí a nada, estava eu a encontrar-me com ela, num café à Escola Politécnica. O telefone ficou coberto de espuma branca, fervilhante e gordurosa. Não é que isso tenha importância. Mas irrita-me sobremaneira.
Foi breve nos cumprimentos, como se nos tivéramos encontrado ainda ontem e entrou logo na matéria, começando pelo respectivo contexto. Era agora sócia duma galeria de arte, muito ampla, generosamente estipendiada, que expunha “instalações” de jovens escultores. Mais tarde eu teria ocasião de ver as “instalações”. Um enorme pássaro de bico esponjoso, oscilante, que se embebia de um líquido viscoso a rasar um bidão amolgado, de obras. Um espantalho vestido de fraque no chão exibia entre as palhas dos pulsos uma cartolina que dizia “Apressa-te”, em gótica. Um altifalante, entre risos de criança, debitava, cavernoso: “nem tanto, nem tanto”. E um tractor de brinquedo ia chocando com as paredes e os pés dos visitantes, até que se lhe acabassem as pilhas que um funcionário de camisola rolada substituía. Num canto, um enorme escorrega de madeira deslizava para uma roda ouriçada de lâminas, sempre a girar. Uma pantalha gigante mostrava uma cidade arreganhada de arranha-céus, com o Papa a sorrir, no canto inferior esquerdo. Som de passarada e uma vozinha, a espaços: “guarda-te em casa”! Das outras “instalações” não quero lembrar-me agora.
“Pronto, um celacanto, e depois?” Eis uma significativa colher que redemoinha na chávena de café de Jacinta até mais o aquecer pelo atrito, dingalingue, e já está em brasa outra vez. “Não digas mais nada! Não te atrevas! - Era Jacinta agora, de colher em riste, apontada ao meu sobrolho. Havia um inquietante resplendor de beleza, naqueles olhos pretos, matadores, e na boca franzida em fúria. O instante valia bem um celacanto. Mais do que a ouvir, eu deliciava-me a olhar para ela. Nunca tinha apreciado, em melhores horas, estes tentadores momentos de cólera. E o celacanto, bem entendido, o que era?
Um peixe. Existe na terra há mais de setenta milhões de anos, mas nunca demos por isso. Surgiu primeiro aos observadores em forma de fóssil, sumido e trabalhoso. Considerou-se extinto, lá para as funduras dos antedilúvios primordiais. Até que um dia se descobriram celacantos vivíssimos da costa a serem pescados no Canal de Moçambique. Iguaizinhos aos fósseis, mas com mais energia. São desconformes, largos, pardos, feios e sofrivelmente comestíveis. Jacinta leu uma reportagem em qualquer lado e teimou que precisava de um celacanto para honrar a exposição. Questão de dias, achar contacto em Moçambique e negociar uma transferência do celacanto, em bojo de avião, num tanque especial com a inscrição “xarroco tropical”. Foi um negócio caro e escuro. Ao que parece, o celacanto está planetariamente protegido. Mas o patrocinador da expedição, um construtor civil ligado ao futebol, e com interesses em África, achou graça à ideia. E assim, o “xarroco tropical” desembarcou no aeroporto de Lisboa, marchou num contentor até à Escola Politécnica e foi despejado num aquário com todos os requisitos. Passou a ser celacanto outra vez.
“ E estava de boa saúde, o bicho?” – perguntei eu. “É melhor vires ver!”, respondeu Jacinta. Eu protestei. Não queria ver peixes doentes. Jacinta derribou mais o sobrolho. “Anda daí”. Era como faíscas a chisparem do corpo dela e um tornado em redor. Ala rua afora e eu atrás, com medo de a irritar mais.
A porta da galeria era de ferro grosso forjado, com mais arrobas do que um primeiro arremesso de Jacinta poderia suportar. Meti corpo a ajudá-la, muito embaraçada com as chaves, e, no interior, a fui eu quem encontrou o interruptor da luz. A porta ficou aberta. Achei interessante aquele nervoso contacto de mãos e aquela cumplicidade de guerra. Mas Jacinta não estava, decididamente disposta a sentimentalices. Ainda as luzes fluorescentes se indecidiam, naquele irritante vai não vai que lhes é próprio, já Jacinta se precipitava, quase correndo entre as “instalações”. Vestida de preto, a figura sobressaía elegantemente entre a brancura de luzes e de painéis. “Anda, anda depressa”. Eu tinha ficado a olhar para um tanque de vidro esverdeado, cheio de águas, com tubos pretos a borbulhar e uma inscrição numa placa de madeira. “celacanto”. O aquário estava vazio, mas Jacinta nem lhe deitara um olhar. Parou em frente duma porta, encostou-se a ela, braços afastados como se a quisesse proteger e disse-me, alto: “estás preparado?”. Eu, cá por mim, estava por tudo. Mas ela não queria resguardar a porta. Era um arremesso de dramatização. Tanto que a abriu.
Clique de luz. Aquilo era um compartimento alto, interior, muito branco, com meia dúzia de caixotes encostados a parede. Um vazio reflectido que fazia mal à vista. Jacinta olhava para cima, à procura de qualquer coisa. Mas eu sobressaltei-me com uma sombra lenta que se ia contorcendo pelo chão. Só depois encontrei o olhar de Jacinta e me apercebi da origem da sombra. Lá no alto, logo abaixo da lâmpada fluorescente, sereno e majestoso, de barbatanas peitorais em riste, vogava um grande peixe, do tamanho dum atum, dos grandes. A cauda parecia ter sido cortada e substituída por um rendilhado de escamas. A bocarra transversa, medonha, mantinha-se felizmente, fechada. “Aí o tens!” e Jacinta atirou o pulso ao alto, com o ar triunfante de quod erat demonstrandum. Quando eu lhe observei timidamente que os peixes não voam, ela respondeu, irónica, que os moscardos também não podem. Tirando o moscardo, a única vez que vi um bicho a voar sem ter com quê, foi uma cobra num livro de Lídia Jorge. Mas isso era ficção, a mesma autora não o nega. Agora aquele celacanto, ainda por cima grosso, feio e mandibulado... Jacinta desapoquentou-me. Ele era sossegado, não fazia mal, não apreciava humanos. Nem sequer nos olhava. Com efeito, o animal sustinha-se lá em cima, numa trajectória lenta, circular, as barbatanas a ondular ao de leve, o olhos postos na luz.
“Que é que eu faço, diz-me”?, arrepelava-se Jacinta. “não sei, respondi eu, talvez se chamasses alguém...!”. “mas porque é que pensas que eu te telefonei?”. “Eu?” A meio do altercado porque tira e porque deixa que se seguiu, Jacinta levou, de repente as mãos à boca e faltou-lhe a voz. Eu aproximei-me, inquieto, apaziguador, mas ela pronunciou, num soluço: “a porta!”. Voltei-me e ainda distingui o rabo franjado do celacanto a sumir-se, rés ao canto superior direito da ombreira. Reagimos demasiado tarde e, presumo, se tivéssemos reagido cedo, o resultado seria o mesmo. O celacanto atravessara o salão em dois tempos e esgueirara-se pela porta de saída para o sol da Rua da Escola Politécnica. E aí planava ele agora, luzidio, a observar com curiosidade um letreiro duma agência imobiliária.
Aos transeuntes importava mais, porventura, o nosso aspecto de par desinquieto, aos saltinhos, ora a afastar-se, ora a unir-se, que aquela figura de peixe que se deslocava lentamente nas alturas dos primeiros andares. É mais sedutor observar pelo canto do olho um casal atabalhoado, do que prestar atenção a um bicho pairador que pode muito bem ser um truque publicitário. Houve um sujeito que fez pala com as mãos, em frente dos olhos, examinou o celacanto e, depois, prosseguindo marcha, nos informou, com ar de desdém: “é um xarroco gigante.” Jacinta teve esperança de que, agitando os braços, conseguiria convencer o animal a reentrar na galeria. Eu fiz de conta que não a conhecia, quando ela começou naquele preparo, e embebi o espírito numa montra de calçado. Pelo reflexo, notei que o celacanto ia deslizando, devagar, pelos ares, com um esforço mínimo para evitar fios e tabuletas. Jacinta estava de novo junto de mim, aflita: “e se ele desce e é atropelado por um autocarro?”. “Há celacanto para o jantar!” Mas o peixe já ia a virar para o Monte Olivete!”.
Chegámos esbaforidos ao cruzamento. O celacanto parecia à nossa espera, à altura de três ou quatro metros, do lado esquerdo da rua, cabeçorra encostada a uma janela. Não tinha uma figura elegante, mas apesar de pesadote e torto, balançava-se com uma lentura mansa, muito contida e aristocrática. Fiquei na esquina, em observação. Jacinta optou por descer a rua e desatar aos gritos, “Ei, ei!” E o celacanto, nada. Fui-me chegando, a olhar para cima, mas sempre fingindo que não conhecia Jacinta.
De súbito, podia esperar-se tudo menos isto: não é que as vidraças se abrem, repica delas um guarda chuva enorme, daqueles que se usam nos campos, fecha e abre e fecha e abre, como um molusco das profundas e envolve o celacanto, que mal se debate? Jacinta e eu vimos umas contorções lentas e umas sacudidelas inconvictas, entre o drapejar de panos do guarda chuva e depois foi uma recolha sugada, janela dentro e a vidraça fechada com estrondo. Interroguei Jacinta com o olhar, porque a fala não podia. E ela, plantada no passeio, com os punhos nas ancas, bramiu: “Isto não fica assim!”
Eu, por mim, dava a jornada por terminada e o celacanto por bem entregue, mas Jacinta arrastava-me pelo braço: queria apresentar participação na polícia. “Escuta, pára e ouve-me bem. Vais queixar-te de que um peixe entrou por uma janela, a voar...?” “Entrou? Qual entrou? Tu sempre a simplificar. Foi roubado. Eu bem vi o truque do guarda-chuva”. Enquanto, a largas pernadas, percorríamos a Escola Politécnica em direcção à Esquadra do Rato, eu procurava demover Jacinta de recorrer à autoridade. Não via ela que nem o polícia mais arguto e letrado de Lisboa estaria disposto a admitir um celacanto voador capturado nas alturas do Monte Olivete? “Eles dão-te um calmante, eles chamam a ambulância, eles internam-te, vais de camisa de forças!” “Eu sei o que faço”, respondia-me ela, e sempre a andar.
Furou pela esquadra dentro, não ligou ao agente de serviço, foi direita ao comissário. Eu já tinha preparado uma justificação na ponta da língua: “aqui a minha amiga anda muito nervosa, excesso de trabalho, dá-lhe para ver coisas, desculpem lá, ela precisa é de repousar, eu levo-a, eu levo-a”. Mas Jacinta, muito calma declarava, alto e bom som, que um jovem lhe tinha roubado por esticão um fio de ouro e depois se havia barricado num primeiro andar da Rua do Monte Olivete, insensível a protestos. E eu, que me encontrava ali por acaso, e tudo minuciosamente presenciara, podia ser arrolado como testemunha. Correram autos e pormenores. Mas, daí a pouco, derivávamos ambos no banco de trás dum carro de polícia, ziguezagueando, com a sirene ligada, a caminho do desconhecido. Sussurrei a medo, confiante em que a sirene me cobrisse as palavras: “sabes em que é que te meteste? Denuncia caluniosa! É sinistro, devastador” “Estou-me marimbando”, respondeu Jacinta, “estes é como se andassem a pisar ovos. Carregue-lhe no prego, ó senhor guarda!”. E fizeram-lhe a vontade.
Numas escadas melancólicas, acudiu à porta um velho magríssimo, em pijama, de ar amolecido, dobrado, chorincas. Pela fresta entreaberta, os polícias e nós podíamos distinguir uma velhota de xaile de lã e uma rapariga sombria, sentadas a uma mesa. A mobília era pobre, desconforme, gasta por muitos tempos. Um dos agentes perguntou onde é que estava o rapaz. O velho ficou-se, a olhar, sem atinar com o que dizer. Jacinta entrou de rompante, antes que o agente inquirisse, formalmente se estávamos autorizados.
Era desconsolador, invadirmos assim aquela sala pobre e sentir o desconforto e o pasmo dos inquilinos. Mas Jacinta não estava sensível a misérias. Reparou logo no desmesurado guarda-chuva, encostado a um dos lados do aparador. Apontou e fez-me um sorriso triunfal. E ainda o agente da autoridade indagava dos timoratos inquilinos se havia entrado ali um rapaz portador dum alheio fio de ouro, quando ela bradou: “Olha! O celacanto”. A cabeçorra achatada do peixe espreitava, acima da sanefa de veludo antigo, cor de burro quando foge. Ao grito de Jacinta estremeceram convulsos os panos, expeliram poeiras e, num impulso, o celacanto debateu-se e lá veio plantar-se preguiçosamente ao lado do candeeiro de pingentes. Foi com o guarda-chuva que, muito bélica, Jacinta o empurrou dali para fora e escada abaixo. E, desta vez, pela pressa com que escapava, o celacanto parecia assustado.
Mais assustado fiquei eu que, ali mesmo, tive de dar embrulhadas explicações à polícia e pedir desculpas aos moradores. A autoridade não estava muito interessada no peixe, mas achava tudo aquilo um tanto esquisito e, porventura, profanador da legalidade. Procurei tranquilizá-los. Expliquei que a minha amiga era veterinária e estava a fazer uma experiência científica, aliás confidencial. Ainda assim, fui identificado e convidado a passar pela esquadra no dia seguinte. Os polícias saíram desconfiados, deitando-me olhares de revés. Mas tive oportunidade de rosnar para o velho chorincas quando ele ia a fechar a porta: “Com que então a roubar celacantos, hem? Livrem-se.” Lá fora ululou a sirene da polícia e foi-se perdendo, por Lisboa.
Ainda alcancei Jacinta na Rua da Escola Politécnica, em galope suado, brandindo o guarda-chuva e pastoreando o celacanto que deslizava rápido, por sacões, aparentemente com medo da ponta do artefacto. “Só agora?”, disse-me Jacinta ofegante, “quando preciso de ti é que tu não apareces”, e seguia correndo e eu com ela. O celacanto, de barbatanas a dar e dar, rabo coleante pelos ares fora, e nós a animá-lo.
Mas o momento crítico, em que ele podia endireitar para o largo do Rato e obrigar a grandes rasgos de esforço e de imaginação, foi surpreendentemente superado. Apesar da provecta idade da espécie, muitas vezes pré-histórica, pareciam ter-se insinuado nestes peixes instintos semelhantes aos de certos animais domésticos, como os gatos, os cães, os cavalos, os pombos e as andorinhas que, pelo sim pelo não, acabam sempre por voltar a casa. E assim, o celacanto, ao chegar junto à galeria entrou, decidido, porta adentro, raspando desajeitadamente a ombreira, que ficou com brilho de escamas. Rugido triunfal de Jacinta que fechou as ferragens com estrondo. Depois, voltou-se para mim e atirou-me, entredentes: “Tu não me apareças mais, ouviste? Põe-te na alheta”. Ainda fiz uns trejeitos de protesto, mas, cá no fundo, estava mortinho por me ir embora, e fui, a remoer a injustiça do despedimento.
Ah, mas a curiosidade é defeito humano, traiçoeiro e molesto. Jacinta não me atendia os telefonemas e, dias depois, eu fui à exposição para saber novas dela e, calhando, do celacanto. A inauguração tinha sido na véspera, havia meia dúzia de passeantes distraídos e uma mãe com uma criança que reclamava um gelado. Eu ia escondendo a cara com um jornal, mas não valia a pena, porque Jacinta não estava. Lá vi o passarão gigante, o escorrega, outras “instalações” e, de súbito, reparo que uma das paredes tinha agora um vidro com caixilho. Fui espreitar. Era um cubículo vazio, muito iluminado. Adejando, de boca encostada a um dos tabiques, barbatanas dolentes a ondear, deslizava, lento e gordo, o celacanto. Não sei se me reconheceu, mas o facto é que, repentino, descreveu uma elipse festiva ao redor do recinto
Recuei e atentei na inscrição, em acrílico, que informava debaixo do caixilho: “Celacanto Livre - Instalação de Jacinta Dalila”. Seguiam-se notas biográficas.


Mário de Carvalho




Que todos ficassem bem...

Nos meus últimos dias de férias no arquipélago de Shandenoor vieram procurar-me dois sujeitos escuros, muito magros, bisonhos, que se diziam enviados do rei de Carvangel. Acontecia que ao príncipe lhe tinha dado para a melancolia e passava o tempo a fabricar papagaios de papel colorido, sem nenhum interesse pelas coisas da governação, o que deixava o velho e gotoso monarca preocupado quanto ao futuro do reino. Assim me foram descobrir naquelas ilhas e reclamar os meus cuidados, sem olhar a despesas.
Comecei por recusar polidamente e indicar-lhes um médico meu conhecido de Bombaim, o dr. Shantana Lagador, muito reputado em psiquiatria. Mas os homenzinhos não se convenceram. Queriam-me a mim. E durante todo esse dia seguiram-me os passos, como dois cães cabisbaixos.
Um deles, soube-o mais tarde, era o próprio primeiro ministro e o outro um dignitário importante, «portador da espada do rei», ou coisa que o valha. Não creio que no caso de inêxito lhes estivesse preparada uma recepção particularmente festiva, porque ambos ficavam muito sérios quando encaravam a hipótese - decerto remota, diziam - de regressarem ao país sem a minha companhia.
Fosse por que fosse - e a verdade é que nem sempre somos senhores das nossas decisões - acabei por tranquilizar os cavalheiros e garantir-lhes que estaria em Carvangel na próxima quinzena, podendo eles, desde já, seguir adiante e levar a nova ao reino.
Os homens ficaram jubilosos, agradeceram-me com grande alarde de reverência oriental e lá os levei à porta meio contrariado e confundido, quer pela resolução que acabava de tomar e de que já me tinha arrependido, quer pelas manifestações de reconhecimento subserviente que me incomodavam, com tanta vénia e beijares de mão.
Resolvi, pois, ficar mais uns dias em Shandenoor e aproveitar para bisbilhotar algumas ilhas que ainda não conhecia. E durante uma semana, a escalar cumeadas montanhosas cobertas de arvoredo, ou aos baldões, em paraus de aluguer por entre as cavas do mar, nem me lembrei do principezinho neurótico nem da estranha embaixada que me enviaram.
Ao cabo deste tempo, soube que tinha perdido a oportunidade de voar para Carvangel ainda nesse mês. As carreiras eram mensais e o último táxi aéreo havia descolado na véspera, aliás em condições de navegação precárias.
Indicaram-me o ferry-boat em que se transportavam, nesta época, os trabalhadores sazonais que iam a Carvangel trabalhar nas plantações de sisal, a largar por um desses dias, e recomendaram -me, no hotel, que falasse pessoalmente ao capitão se queria um tratamento mais cuidado.
Soube que ele era português, como eu, que se chamava Andrade e que poderia encontrá-lo à noite razoavelmente sóbrio, se comparecesse cedo, num bar do porto chamado O Néctar do Sétimo Pingo Luminoso da Lua Cheia.
Tratava-se de um botequim meio escondido, numa rua miserável, mal assinalado por uma lanterna de papel, imunda, que estremecia ao vento. O capitão Andrade sentava-se a uma mesa em que orientais apinhados, luzidos de transpiração, apostavam desvairadamente ao Fan-Tan.
O capitão não pareceu muito entusiasmado em levar-me, e foi de má catadura que me deu alguma atenção, por entre as exclamações ruidosas dos jogadores. Num falar lento, arrastado, mortiço, procurou dissuadir-me e remeter-me para o voo de avião do próximo mês.
Era um cinquentão pesado, meio calvo, de boca torcida por um eterno cigarro, que vestia um dólman, outrora branco, muito apertado, e se exprimia com uma forte pronúncia alentejana, num falar expressivo, em que, de quando em quando, se insinuavam palavras malaias ou chinesas.
O facto de sermos patrícios [ele tinha nascido em Sines, eu em Santiago] e de eu viajar por conta do reizete de Carvangel, mais este que o primeiro, por certo, lá o convenceram a alojar-me na sua cabina.
Despediu-me com um aceno mole e voltou ao seu jogo, de olhos a brilhar.
Antes, a rematar o ajuste comigo sobre transporte e alojamento, dissera-me mecanicamente, a propósito de nada, uma frase que eu ainda lhe havia de ouvir muitas vezes durante a viagem:
- Ora pois então. É preciso é que todos fiquem bem...
Quando no dia seguinte, muito cedo, cheguei ao porto, já o ferry-boat, alardeando a sua brancura por entre a massa pardocastanha dos milhares de sampanas e juncos que coalhavam as águas, pastosas, do rio, roncava o seu terceiro aviso.
Dentro, retirada logo a prancha do passadiço com os protestos de uma multidão de cúlies lazarentos que se apinhavam no embarcadouro, tive de me movimentar por entre um molho apertado de gente seminua, de turbante garrido, aglomerada em todo o espaço disponível.
Ao cimo das escadas que davam para a ponte, cobertas de pessoal alegre e palrador e suas trouxas, que mal deixavam espaço para subir pé ante pé, um sipaio de má catadura, de trabuco pesadíssimo a tiracolo, abriu-me uma cancela de ferro, com gestos lentos, cheios de autoridade.
Depois veio-me indicar, solene, o camarote do capitão, onde arrumei as minhas malas debaixo de um divã improvisado, junto a uma janela rectangular que se reflectia onduladamente no tecto de madeira.
Entre a minha precária cama e o beliche do capitão mediariam uns vinte centímetros e, para além de uma escrivaninha de cânfora, atafulhada de papéis de bordo, uma prateleira com escassos livros de mareação e um lavatório de louça colorida, pouco mais cabia na cabina. Por cima do beliche do capitão, uma gravura emoldurada em vidro fosco, muito trabalhado e colorido, continha N.ª S.ª dos Navegantes a observar serenamente tudo.
Ele, entretanto, encontrava-se na cabina do comando, dirigindo a manobra, decerto complicada pela densidade do tráfego indígena que obrigava a muito golpe de roda o piloto grego, e a um silvar quase constante do apito.
Ao fim de algumas horas passávamos, enfim, o farol do velho forte português de Shandenoor, que nos salvou com um tiro de peça, a que respondeu de bordo uma tremenda algazarra, em meio de grande agitar de panos coloridos.
O navio ia pouco boieiro, atochado de gente e de fardos. Os embornais quase rasavam a água, de ondas mansas e espessas do muito aluvião que arrastavam para o mar. O nosso reduto na ponte era relativamente tranquilo, isolado da turba multa que se comprimia no convés e nos porões, de que nos chegavam o alarido e o rumorejar constantes.
O percurso demorava uma semana, sem escala, pelo mar nu. Durante esse tempo, pelos primeiros três dias, o navio não fornecia alimentação e todos os emigrantes teriam de se haver como pudessem. Ao quarto dia, distribuía-se àquela gente uma sopa de ervas e arroz, em grandes latas. A água estava racionada a duas canadas por pessoa em toda a viagem.
Eu era tratado como membro graduado da tripulação.
O capitão e eu tomávamos as refeições na ponte superior, com o piloto grego, muito moreno, que só falava chinês, e o maquinista irlandês que sabia tocar canções melancólicas numa gaita-de-beiços.
O resto da tripulação, uns oito homens, ou eram sipaios indianos encarregados de manter a ordem, ou moços de convés, cúlies ágeis, diligentes e prestáveis.
Durante os primeiros tempos a viagem correu bonançosa, sem história. De dia, o capitão dava ordens na ponte, de barretina atirada para a nuca, um braço descaído sobre o pavês, molemente. Depois do jantar, os três oficiais jogavam um jogo chinês, o Mah Jong, de que logo me escusei, preferindo ler umas notas debaixo de um fanal, enquanto eles praguejavam na ponte em idiomas vários, entre os estalidos das peças de marrim na mesa desmontável.
No final de cada jogo eu ouvia a voz do comandante, por sobre o estralejar das peças recolhidas:
- Ora pois então. É preciso é que todos fiquem bem!
O capitão, de vez em quando, vinha falar comigo. Lamentava-se de que a viagem fosse monótona e desejava-me melhor sorte que este enfado. Sabia muito sobre aquelas paragens, costumes, gentes, tipos. Industriou-me com pormenor sobre os hábitos e protocolos da corte de Carvangel, não deixando nunca de insinuar, disfarçadamente, a sua estranheza por me ter prestado a visitar um reizete tão obscuro.
Uma vez por outra, eu decidia dar uma volta pelo navio. Aproveitava a altura em que o irlandês, já tocado de genebra, descia até às profundas da casa das máquinas e o sipaio lhe abria a porta muito respeitador e orgulhoso do bacamarte com que assegurava a ordem a bordo.
O capitão não aprovava estas minhas surtidas. No primeiro dia de viagem chegou a opor-se com energia a que eu descesse. Que era para não ver o que eles comiam - dizia-me -, para não ficar agoniado.
Depois houve um parto complicado, e o próprio capitão me veio chamar para dar assistência. Enquanto eu trabalha vã, com a ajuda de mulheres escuras e tristes, o capitão fumava, olhando os longes do mar.
- Em todas as viagens nasce pessoal a bordo. Às vezes sou eu próprio a assistir, imagine o doutor. Os indígenas têm confiança. Mas este era um caso arrevesado, e ainda bem que o doutor estava. Não sei aonde é que esta gente quer ir parar, com tanta ninhada. Olhe, é preciso é que todos fiquem bem.
E o capitão ajudava-me a subir à ponte, carregava-me a maleta, segurava a cancela para eu passar, e já depois, no camarote, expendia largas observações sobre aqueles modos de vida e ouvia deleitado as notícias que eu lhe ia dando do nosso país natal. Adormecia de repente, depois de um «ora pois então» suspirado.
Um dia vi-o muito tenso, de mãos crispadas na bitácula, a olhar o horizonte, sobrolho carregado. O grego piloto mascava melancolicamente o que quer que fosse e, de quando em quando, alteava um dos ombros, num tique que lhe não era habitual, tocando as malaguetas com impulsos bruscos.
Ao almoço, os três oficiais mantinham-se silenciosos, tratavam-se cerimoniosamente, interpunham grandes pausas entre as raras palavras.
Perguntei ao capitão o que ia no ar. Ele respondeu com um discorrer vago, queixando-se-me do irlandês que, a seu ver, tinha mau feitio quando bebia, não se fazia respeitar pelos dois cúlies que trabalhavam com ele, e deixava sempre a casa das máquinas coberta de uma camada pegajosa de óleo e poeira. Além disso, tinha mau perder ao jogo confidenciava-me, entre baforadas vivas de genebra.
Os outros, entretanto, esbugalhavam os olhos, tentando adivinhar uma ou outra palavra da nossa palestra, e quedavam-se muito graves, o grego aplainando vagamente com a faca as rugas da toalha, o irlandês assobiando para o lado, enquanto fazia rodar distraidamente um abacate mirrado na mão.
Percebi que o capitão, na sua perlenga, enquanto descascava a fruta com método, escolhia as expressões, ia buscar regionalismos, termos arrevesados, para evitar que os outros compreendessem alguma coisa do que dizíamos. E rematou o ararizel, quando o criado índio, respeitoso, trazia o chá, com um profundo:
- Olhe, doutor, sabe? Isto é preciso é que todos fiquem bem...
Mas algum tempo depois surpreendi-o sozinho, debruçado na amurada, a contemplar as águas. De novo insisti. O que é que realmente se passava?
O comandante riu-se das minhas apreensões. Disse-me que não havia tempestades [samatradas, como ele lhes chamava] nesta altura do ano. Quanto a investidas de piratas, que me foram sugeridas pelos enormes juncos, de tombadilho alteado, que nos cruzavam, eriçados de canhões de bronze, o capitão garantiu-me que depois do reforço da frota de Lah-Shong os piratas tinham desaparecido daquelas águas. De resto, observava, quem poderia estar interessado em abordar um ferry boat decrépito cheio de emigrantes mais pobres que Job? Ora os piratas queriam-se era para os ricos viajantes entre HongKong e Macau, para os visitantes milionários de Bali, capazes de proporcionarem carteiras recheadas e resgates pródigos. Agora ali, naquele ponto, ná! E cuspinhava desprezivamente para as ondas.
Assim me deixou, sem mais explicações, e foi reunir-se ao grego, na cabina do comando. Mas o nervosismo continuou durante o resto do dia. O maquinista gesticulou durante todo o jantar, entretendo uma complicada discussão em chinês com o grego, que alisava soturnamente o guardanapo, entre os remoques. O capitão fazia tamborilar os dedos por sobre a mesa, sonhador, o dólman suado entreaberto sobre o peito, até que deu por finda a discussão com um rugido de impaciência e um murro na mesa.
Nessa noite, porém, enquanto deitado na minha desconfortável cama de campanha tentava decifrar o sânscrito tosco de um manuscrito que me havia fornecido o Professor Telles Paula, residente em Lali-Shong, com a ajuda de uma multidão de dicionários e livros de notas alinhados sobre o lençol, ainda ouvi até tarde o palavreado áspero dos três homens.
Estranhamente, a bordo ia o silêncio. Durante todo o serão não se ouviu o fervilhar habitual da multidão, nem os gritos, nem os choros das crianças, nem as conversações dos velhos, nem as casquinadas das mulheres, nem a algazarra dos homens. Nada. O sipaio de turno passeava tranquilamente na ponte. Ouvia-lhe as botas compassadas no tabuado, por sobre um convés dorinente, tranquilo.
De manhã, acordei num repelão, sobressaltado. Sentado na cama, de coração aos saltos, olhei para cima, para a vigia. Um olho enonne, de íris dourada e raiada de finos veios de sangue, espreitava-me pelo vidro. Precipitei-me para fora do mosquiteiro que rasguei com a brusquidão.
O navio balouçava fortemente e lá fora soava um grande clamor uivado como se toda a gente gritasse, à uma. Vesti-me atabalhoadamente com os movimentos dificultados pelos baldões do barco e pela inquietação de ver que o tal olho descomunal não me desfitava, colado à vigia. O olho deslizou e vi escorrerem pelo vidro grossos fios de cabelo louro, solto, e, depois, fugaz, o lóbulo de uma orelha gigantesca.
Na ponte concentrava-se toda a tripulação, com excepção dos homens das máquinas. Tinham as mãos fixas no pavesame e o olhar fito ao longe. O capitão tomou-me pelo braço e, com uma sacudidela seca, intimou-me a que não me mexesse.
Por toda a extensão do mar, àvante do navio parado, espadanando nas águas quietas e escuras, passeava-se um deus, no seu carro.
Nesse momento deslocava-se, lento, descrevendo um grande arco na nossa frente, obra de cem braças afastado do navio. Estava em pé, conduzindo um carro dourado, de que as rodas, raiadas, levantavam cachões de água dum e doutro lado, e que era tirado por dois cavalos marinhos que faziam ondear graciosamente as suas retorcidas caudas de peixe. O corpo do deus, nu, resplandecia e os olhos brilhavam-lhe de um fulgor branco que por vezes se fazia vermelho e frio. Na mão livre alçava um tridente, com majestade. Os longos cabelos e barbas louras flutuavam à brisa.
Quando o carro do deus estacou na nossa frente e ali, parado, se manteve durante alguns instantes, caiu um grande silêncio, expectante, por sobre o navio. Mas logo o carro cresceu, num chispar de chamas rubras, e veio contra o barco. O deus, de tridente bem levantado, avantajou-se pela proa. O corpo agigantado excedia agora a altura da chaminé e, no meio de um vento zunidor e dos gritos aterrados da multidão, atravessou o navio e foi parar do lado da ré, já num tamanho de homem.
Instintivamente, todos na ponte nos baixámos, à passagem daquele vendaval luminoso. O capitão, de quépi tombado sobre a nuca, praguejava baixinho, despejando o repertório desbocado de todos os portos do mundo. No meio das intermináveis imprecações só consegui distinguir:
- Eu bem adivinhava, co'a breca, bem calculava que isto ia acontecer...
O irlandês tinha-se ficado de joelhos e rezava. O grego tossia baixinho, mão perto da boca, olhos de susto. Os marinheiros e sipaios indígenas espreitavam acocorados a monte, num pasmo.
O deus, entretanto, guiava o seu carro, ultrapassando-nos pela alheta de bombordo. Deu várias voltas em redor do navio, levantando espuma, sempre a fitar em nós os olhos resplandecentes de fria luz. Sensivelmente, este movimento foi-se fazendo cada vez mais rápido, até que se tomou num corropio luminescente, mal discemível entre borbotões de espuma. Lentamente, o navio entrou a rodopiar, primeiro de mansinho, depois num giro crescente que nos fez agarrar às amuras e levantou um grande alarido de pavor lá para baixo.
De novo o deus se ficou, parado, no meio do mar, os seus cavalos em movimentos vagarosos de sustentação à tona das águas. O grego e o irlandês, de volta da roda do leme, conseguiram com muito esforço dominar o navio, endireitando-o ao rumo que vinha seguindo. Por um instante, as máquinas reboaram a ajudar a manobra e o navio, a custo, voltou a imobilizar-se.
Agora de braços cruzados, tridente pousado ao lado, no carro, o deus, de olhos fulgurantes, parecia esperar o que quer que fosse.
- Bom, vamos a isto - resmungou o capitão, e fez um sinal ao irlandês para que o acompanhasse. Seguidos por sipaios, de arma engatilhada, os dois homens abriram a cancela e desceram da ponte, para o meio dos emigrantes. Do convés vieram rumores confusos, alguns gritos.
Interpelei o grego, que, meio dependurado da roda do leme, encolheu os ombros com displicência. E foi um dos cúlies, meio enfarruscado de óleos e enodoado de massas consistentes, que num português torto me deu uma explicação.
Quando naquela rota fazia bom tempo, e sensivelmente sempre nas mesmas coordenadas, aparecia uma divindade, como a que agora nos defrontava, que exigia um sacrifício para que a viagem pudesse prosseguir. Nem sempre, porém, isso acontecia, o que levava certos comandantes a afoitar-se, fiados em que que o mar, dessa vez, estivesse franco. Para azar nosso, ali nos víamos encrencados - e julgei discernir, por entre o grande fluxo de palavreado malaio, uma cerrada crítica ao governo do navio de permeio com maldições.
O comandante e a sua equipa abriam entretanto a cancela e traziam para a ponte um velho famélico, de longa barba branca, imunda, turbante esfarrapado, que, de olhos em alvo e mãos sobre o peito, desfiava uma interminável ladainha pelos lábios semicerrados, ao jeito dos visionários orientais.
Interceptei o capitão, à passagem, mas ele afastou-me para o lado, impaciente, e resmoneou:
- O amigo doutor agora não se mete nisto, entendido? E deixa-me conduzir as coisas porque aqui quem manda sou eu. Ora ponha-se manso, sim?
E, com os dois sipaios, escoltou o velho até junto da amurada, onde o empurraram e deixaram só, a engrolar as suas rezas, frente ao deus que, lá longe, aguardava.
O irlandês, nesse meio tempo, explicava-me laconicamente que o próprio velho se tinha oferecido para ser sacrificado com a anuência da família, pelo que o procedimento se fazia com o consenso de todos.
Mas o deus, pelos vistos, não aceitou o oferecimento e rejeitou o sacrifício daquele pobre diabo.
Num ímpeto, tomou e enristou o tridente que, de lá de onde ele estava, se veio alongando, alongando e crescendo, deixando uma sombra negra sobre o mar. Fomos todos sacudidos pelo embate do navio com o tridente e segurámo-nos onde pudemos. Depois ouvimos um ranger medonho, como se o navio estalasse por todas as juntas e sentimo-nos levantados no ar, a grande altura. A algazarra, a bordo, transforrnou-se num urro uníssono, de entremeio com gritos agudos, estalidos das madeiras, e o matraquear da hélice rodando em seco.
Alcandorados às alturas, víamos o deus muito pequeno, lá ao fundo, segurando o barco na ponta do tridente. Os olhos fulguravam-lhe dum vermelho vivo que feria o tom esmeraldaverde do mar.
Depois de algum tempo, foi baixando devagar o navio que após um embate pesado na água se ficou a balouçar. Na ponte, estávamos todos encharcados. O capitão tinha perdido o quépi. Afortunadamente, ninguém caiu à água.
Quando pudemos levantar-nos já o deus esperava de novo, a umas trinta braças.
O capitão, irritado, sacudiu o dólman molhado, chamou o irlandês, os sipaios e ordenou:
- Não haja dúvida! É preciso ir lá abaixo outra vez!
Aproveitei a abertura da cancela e passei com o comandante e os outros para a escada, apinhada de indígenas aterrorizados. Movimentávamo-nos com dificuldade ao longo daquele aglomerado, que os sipaios mal conseguiam romper à força de encontrões e coronhadas.
No percurso, ousei perguntar ao capitão:
- Mas o que é isto agora? Não me diga que vai mesmo fazer a vontade daquele bruxo chamuscado, capitão. Há que nos portarmos como gente civilizada, c'os diabos! Por quem é? Sacrifícios humanos é que não...
O capitão parou um instante e olhou para mim, iracundo. A boca tremia-lhe, no esforço para não romper a praguejar inconsideradam ente. Volveu-me, com um esgar maligno:
- Civilizado, hem, doutor? É facil falar, mas eu é que tenho a responsabilidade por esta passarada toda que aqui vai. Civilizado, se calhar, foi o checo Minnianic que mandou disparar um tiro de peça contra aquilo e teve o navio desfeito, trituradinho, moído em pedacinhos pequenos salpicados pelo mar. Era isto que o doutor queria? Ou civilizado como o chinês Tao Ling que se meteu a fazer um discurso pelo porta-voz, a propor negociações, e o navio se lhe abrasou todo em fogo e foi ao fundo feito em torresmos? Pois, se é preciso sacrificar uma criatura para salvar uma remessa delas sacrifique-se. Isto, sim, é que é justo. Pelo menos é cá a minha ideia de civilização...
E, dizendo isto, olhava para o irlandês, que, muito sério, sacudia a cabeça em aprovação, embora só tivesse podido adivinhar o sentido geral do discurso.
Estávamos agora no sujo convés, cheio de gente. De vez em quando, por uma fugaz brecha entre os corpos escuros, encadeava-me o resplendor do deus, faiscando como uma réstea instantânea de sol.
Passando o olhar em volta, o capitão media o círculo de gente que o olhava suspensa, agora em silêncio. Corpos vestes estavam ainda repassados de água, dos baldões do barco. Restos de espuma borbulhavam com um ruído cavo, pelos embornais, pontuando a expectativa tensa, apavorada.
A custo, o comandante deu uns passos. Aos seus movimentos, todos se comprimiam ainda mais uns contra os outros. De súbito, o capitão levantou o braço e apontou uma adolescente que, aninhada contra a mãe, nos fitava com grandes olhos de medo.
- Tragam-me aquela além - disse ele.
Os dois sipaios adiantaram-se e agarraram brutalmente a jovem por um braço. A mãe debateu-se e alguns nativos esquálidos gesticularam em volta com ar ameaçador. E foi de roldão, no meio de uma grande grita que todos subimos as escadas até à ponte. Os sipaios distribuíam coronhadas quase ao acaso, o capitão de mãos abertas, debatendo-se, forcejava contra a mole de gente. Eu defendia-me dos golpes que vinham de todos os lados e tentava, ao mesmo tempo, libertar a rapariga dos sipaios, o que dava um grande e confuso sarilhar de gestos.
Finalmente chegámos à cancela, onde o resto da tripulação, de armas em riste, nos ajudou a passar à ponte, à custa de alguns lenhos em corpos mais atrevidos. Estávamos todos ofegantes. Mal contida pelas armas aperradas e pelos sabres que os cúlies brandiam, uma turbamulta parda concentrava-se pelas escadas, insultando-nos, alçando gestos ameaçadores. Choveram restos de cordoalha, pedaços de pau, detritos. Entre nós, muito encolhida, a rapariguinha tremia de medo, a cara encardida corrida de lágrimas.
Aproveitei a breve pausa, enquanto todos nos entreolhávamos, para me dirigir ao capitão, que se me antecipou, limpando o suor com um grande lenço vermelho debruado a azul.
- Eu já tinha avisado o doutor para que não se metesse nisto. Ai tinha, tinha... Veja lá. Olhe que isto é preciso é que todos fiquem bem..
Neste momento, a figura do deus, gigantesca, cobria uma grande parte do céu pairando por sobre o navio. De semblante crispado, braços cruzados, parecia continuar à espera. O seu carro dourado, entretanto, caracoleava sozinho por entre as águas, conduzido pelos insólitos cavalos de tiro.
- Ouça capitão - insisti eu -, você quer, com um sacrifício humano, aplacar um deus, mas o que vai fazer, no fundo, é sacrificar-nos a todos através dessa rapariga. Compreenda a responsabilidade que tem, homem! Essa moça que você quer entregar àquele monstro iluminado está a representar-nos a nós todos. Com ela somos todos, percebe, todos, você, eu, os passageiros, todos, que pagamos o tributo. Todos ficamos sujeitos à vontade daquele figurão despótico, à mercê do que ele queira. Não o autorizo a entregar-me a mim, a entregar esta gente toda na figura daquela moça!
- Olhe, doutor - e o capitão falava muito depressa, alteando a voz. - Olhe, doutor, agora não tenho tempo para doutrinas. Eu cá sou um homem prático, ou não tinha chegado a esta idade. Isto aqui é como se fosse a raposa a roer a pata presa, entende? O que é preciso é que todos fiquem bem, ou pensa que é com gosto que dou a catraia?
E, empertigando-se, de sobrolho derribado:
- Ora arrede-se para lá, se faz favor, ou têmo-la armada...
Ainda tentei dar mais razões, argumentar, convencer, mas, a um gesto enérgico do comandante, os dois sipaios levaram a mocinha submissa para o ponto em que antes estivera o velho. A sua pequena silhueta escura, enfezada e encolhida, contrastava com o corpo resplandecente do deus, em fundo.
Então atirei-me para diante, aos gritos. Da balbúrdia que se seguiu, apenas recordo o grego, muito fleumático, pirisca ao canto da boca, a alçar uma bigota de ferro sobre mim, que desmaiei com a pancada.
Acordei na cabina com o capitão a meu lado, a humedecer-me a testa com um trapo molhado. Demorou algum tempo antes que a cara gorda, mal barbeada, me aparecesse nítida, focada. Ele sorria, prazenteiro:
- Então, já arribou? Olhe que tem os... bem... a pele dura, doutor. O gajo chegou-lhe forte, hem? Ele manda-lhe pedir muitas desculpas. E, bem vê, dadas as circunstâncias...
O navio singrava agora célere, a toda a força das máquinas, num ruído atroador. Soerguido na cama, com a cabeça a latejar, os acontecimentos de há pouco voltavam-me lentamente à memória.
Segurei bruscamente o capitão por um braço:
- Que se passou? Que é da rapariga?
- Calma, doutor - recomendou o capitão com brandura -, não se amofine que ficaram todos bem. A gaiata está rija e sã, lá em baixo, com os pais.
E, oferecendo-me um cigarro, contou-me que, na altura da zaragata, logo depois de o grego me ter batido, deu-se um grande estrondo nos ares e a aparição sumiu-se, de repente, sem deixar rasto. Eles ainda aguardaram um pouco, na ponte, não fosse a avantesma regressar, com as suas exigências. Mas nada mais se passou e tudo voltou à normalidade.
O mar estava desimpedido e a rota prosseguia, sem mais percalços, as máquinas muito lançadas para recuperar o tempo perdido.
- Caprichos lá dos céus, ou do que quer que seja - comentou o capitão encolhendo os ombros. - Vá-se lá saber..
Insisti para que me deixasse ver a moça com os meus
próprios olhos. Ele acedeu, cheio de paciência, e amparou-me até aos primeiros degraus da escada da ponte, de onde pude observar a rapariguita, que dormia tranquilamente enroscada no tabuado, junto a um magote de gente que falava baixo e fumava ervas equívocas.
A viagem durou ainda mais dois dias em que recuperei menos mal do hematoma que a pancada me causou na testa. À mesa dos oficiais pouco se falou nos acontecimentos de antes. Em todo o caso, pude apurar que o deus, que, com a minha formação clássica e jacobina, eu tinha identificado vagamente com Posídon, havia sido visto pelo capitão e pelo irlandês como uma espécie de S. Pedro, de túnica arregaçada, içando o navio na sua rede de pescador, pelos sipaios, como Káli, a deusa sangrenta, com sua multidão de braços, sorrindo hediondamente, pelos cúlies como um imenso dragão ondeante e espanador de águas e, provavelmente, por cada um dos passageiros, em conformidade com as suas reminiscências próprias.
Confesso que não cheguei, enfim, ao cais de Carvangel ostentando o porte digno e impoluto que esperariam de mim os pequenos dignitários maquilhados e vestidos de compridas túnicas coloridas que me esperavam em terra. Em vez do capacete de cortiça, muito decoroso, que decerto queriam ver os surpresos cortesãos, rodeava-me a cabeça uma compressa de linho, sofrivelmente limpa, mal amanhada pelo capitão.
Este veio despedir-se de mim, com um aperto de mão efusivo, dizendo-me:
- E desculpe se tem alguma razão de queixa. Aconselho-o, na volta, a esperar pelo avião de carreira. Já vê, doutor, sempre é mais cómodo, e, nestas coisas, é preciso é que todos fiquem bem... - E, hesitando: - Estive a pensar, sabe, e parece-me que o amigo, no meio disto tudo, se portou a preceito...
Recusei a cadeirinha que os do séquito me ofereciam e dirigi-me a pé para o palácio, acompanhado da minha vistosa escolta.


Mário de Carvalho, In Contos da Sétima Esfera



A Sombra


Foi exactamente durante o jantar anual da empresa que Valter teve a sensação de que era seguido. Na altura do discurso final. Falava o doutor Raimondi, quando a sombra passou veloz, recortando-se por instantes no fundo da sala. Valter sentiu um arrepio súbito, ergueu-se de repente e, sem esperar o fim do arrazoado e as palmas consequentes, saiu pela porta fora entre a estranheza dos colegas.
Na rua olhou em volta. Uma rua calma, iluminada, burguêsmente nocturna, sem tragédias à vista. Isso deu-lhe um certo alívio. Afinal fora apenas impressão sua, uma sombra que lhe parecera, talvez só a ele, ser mais do que uma sombra a segui-lo.
Foi andando devagar pelo passeio, acendeu um cigarro e olhou uma montra de artigos para caçador, admirando um magnífico tigre que, em posição de rosnido feroz, propagandeava uma marca de cartuchos para assassinar coelhos. E, de repente, aquela coisa empalhada olhou para ele e a sombra que os spots atiravam para o fundo da loja pareceu avançar.
Valter deu um passo atrás, em pânico, tropeçando numa jovem que lhe sorriu, agradável. Pediu uma desculpa entaramelada, quase engolindo o cigarro, engasgou-se, cuspiu e caminhou em frente, apressado.
Não podia ser. Aquilo não tinha lógica. Como diabo um tigre empalhado... Evidentemente, o que ele estava era cansado.
Abrandou o passo, aquecido, pelo neon dos Grandes Armazéns Bulora.
As pessoas passavam, normais, apressadas umas, outras escorregando lentamente até ao tempo de ir para casa, ora vermelhas, ora azuis, ora amarelas, mas todas confortàvelmente familiares, entrando e saindo do neon que escorria pelo passeio.
Atravessou a rua, um pouco incerto no caminho a seguir, quase caindo em frente de um carro que buzinou, furioso. Por momentos sentiu-se tapado por aquela sombra ensurdecedora. Saltou, num arranco, para o passeio do outro lado.
Ficou a olhar o carro que desaparecia na esquina e outros que iam passando num zumbido de escapes em liberdade nocturna, até se sentir mais calmo, mais capaz de saber onde estava. Na rua, claro, a caminho de casa.
Acendeu outro cigarro e continuou. Logo ali à frente o RODEO, um barzinho seu conhecido. Entrou, na ânsia de uma bebida e de um repouso temporário. Pediu um gin-tonic duplo com bastante gelo, a noite estava mesmo quente. Foi bebendo lentamente, à procura de qualquer justificação para aquilo. Ao olhar para a porta, viu-a passar, viu-a com nitidez, vibrante e rápida, deixando o ar a oscilar como se fosse água. Acabou o gin e pediu outro, que enguliu de seguida. Não, aquilo não era nada, só cansaço.
Pagou e saiu. Procurou um táxi. Um táxi não, era fechado, melhor ir a pé. Queria chegar a casa, queria descansar. Precisava de chegar a casa.
Começou a andar, cada vez mais depressa. E viu-a. Lá estava, naquele vão de escada. Apertou o passo, mas ela chegou primeiro à esquina.
Na esquina olhou, atento. Era a sua rua, o prédio ficava ali em baixo, acolhedor.
Ela continuava, uma sombra escondida na sombra, a olhá-lo do outro lado da rua.
Começou a correr. Da lado de lá via-a deslizar de porta em porta, de escuro em escuro, sempre a acompanhá-lo, silenciosa.
Ia começar a gritar quando reparou que estava à porta de casa. Entrou no edifício, esbaforido mas aliviado. Olhou em volta. Não a viu.
- Boas-noites, senhor Valter. Sente-se mal? - interessou-se o Josué porteiro de noite, com uma solicitude matreira.
- Boas noites, Josué. Não é nada. Apenas cansaço. Venho do jantar anual lá do emprego. Com patrões e tudo, sabe como é.
- Pois. Essas coisas cansam - concordou o Josué, julgando saber. Cansam mesmo, senhor Valter.
- Até amanhã, Josué.
- Até amanhã, senhor Valter.
Entrou no elevador com a sensação de se ter libertado de um acontecimento atroz.
Saiu no décimo andar. O corredor estava calmo, brilhante de luz e repouso. Abriu a porta do apartamento e entrou.
Foi até ao bar, preparou apressado um gin saudávelmente triplo sem tónica e, sentando-se confortável no sofá, saboreou-o com um prazer todo novo, com lentidão, com luxo. Um bom sono e amanhã tudo seria apenas um motivo para sorrir. E se não fosse?
Bocejou, sentindo-se realmente cansado. Acendeu um cigarro, bebeu o resto do gín num arrepio de gozo, pousou o copo e levantou-se.
Dirigiu-se para o quarto e abriu a porta.
A sombra ergueu-se da cama e avançou para ele, de braços abertos.
- Querido! Vieste cedo...



Mário-Henrique Leiria, in Contos do Gin-Tonic




A camponesa, a égua e o cavaleiro

Num mês de Agosto tão quente que até derretia os pássaros, com excepção dos mais espertos que se metiam nos galhos das árvores mais frondosas em busca de um pouco de frescura, saía da sua choupana uma bela camponesa para tratar do campo que lhe estava destinado. Mal saiu, logo a assaltou o calor, desfazendo-lhe o cabelo que se soltava sobre os ombros, e abrasando-lhe o ânimo de tal modo que, em vez de se dirigir à sua terra, desviou-se para a margem do rio que, naquele período, corria com calma, desafiando os mais incautos a um banho que os refrescasse. Vendo que não havia ninguém por perto, e posta a roupa de lado, meteu-se a camponesa na água e, em breve, nadava em grandes braçadas, procurando o meio do rio onde melhor podia dar largas ao seu desejo de exercício.
Ora, ao mesmo tempo que a camponesa tomava o seu banho, vinha um cavaleiro pela outra margem, puxando a sua égua pela arreata, com o que nem um nem outro se cansavam inutilmente, a égua liberta da sua carga, e o cavaleiro aproveitando o pouco de sombra que a companhia da égua lhe ia dando. Chegando ao lugar em que o rio mais se alargava, a mesma ideia que tivera a camponesa tomou conta dele; e se bem o pensou melhor o fez, despindo o gibão e metendo-se pela água dentro. Acontece porém que, ao contrário da camponesa, não sabia nadar o pobre do cavaleiro; e logo, perdendo o pé, viu chegar o fim dos seus dias, com o que começou a gritar à sua égua:

- Ouve, Rocina, não deixes que o teu senhor se afunde neste charco, com o que o mundo irá perder um cavaleiro sem igual, e tu o melhor dos donos que alguma vez tiveste!

Na sua margem, ouvindo isto, a égua viu chegada a sua oportunidade de melhor vida e, sem perder tempo, pôs-se às de vila Diogo, como é timbre das éguas nobres, esperando encontrar outro senhor que a esporeasse, levando-a para novas guerras. Na aflição de se afundar, entretanto, o senhor nem deu por nada, e ainda menos por que uns braços mais ágeis no domínio das fortes correntes o seguravam, já meio desfalecido, puxando-o para a margem oposta. Como certamente adivinharam, pertenciam à camponesa esses braços salvadores; e foi neles que acordou o cavaleiro que, vindo de outro país, não entendia a língua da moça, tanto que, sem se lembrar do motivo que o fazia acordar em tão aconchegado porto, pela muita água que bebera, lhe perguntou quem era; e ela, respondendo-lhe na sua língua, mais ainda lhe confundiu o pensamento, de tal modo que, olhando à sua volta, com arbustos e flores que ressaltavam do esplendor do estio, e vendo-se a si e à sua salvadora nos trajes naturais, entendeu que tinha passado de mundo e acedera ao próprio paraíso terrestre.

- Eva: aqui se cumpre, então, o destino mais alto a que um homem pode aspirar; e vejo que Deus me recompensou pelos muitos trabalhos que levei, oferecendo-me tão belo galardão em troco do muito que passei, com a minha Rocina, destroçando infiéis que o punham em causa, e erguendo templos para sua adoração!

A moça, que não percebeu uma palavra do que o cavaleiro dizia, no seu delírio místico, apenas deu conta que se tratava de um belo homem, apesar de uma magreza própria dos muitos trabalhos por que passara; mas, atenta ao seu pudor, correu para trás dos arbustos onde guardara a sua roupa e, sem perder tempo, vestiu-se e fugiu para o campo onde as companheiras de trabalho já esperavam e desesperavam pela sua ajuda, deixando o cavaleiro deitado, na ilusão de que ela regressaria.

Assim se passaram minutos, se passou uma hora, e como o cavaleiro não a visse voltar, resolveu ele tomar a iniciativa e avançar até ao lugar por onde a vira partir, e para lá do qual viu abrir-se uma tão bela paisagem, que o fez convencer-se mais ainda de que era no paraíso que se encontrava. E como, no paraíso, nem os anjos nem as almas andam vestidos, nem lhe passou pela cabeça que teria de se cobrir, avançando em feliz levitação pelo chão de erva, mas conduzido por uma providência que o encaminhou até onde as camponesas, reunidas, iam trabalhando os canteiros que esperavam a sementeira próxima. Entretidas neste trabalho, só quando ele chegou junto delas se aperceberam do estado em que vinha; e, gritando, todas se afastaram, mesmo a que o salvara e que, para não se denunciar, seguiu as amigas. Ele, no entanto, reconhecendo a sua Eva, chamou-a:

- Por que me foges, senhora Eva, levando atrás de ti os formosos anjos do Paraíso terreal? Não vês que te procuro neste oásis de verdura, para que ambos realizemos a vontade divina que manda ao homem que cresça e se reproduza?

Com efeito, manifestava já o adâmico candidato os atributos do seu voto, o que mais ainda fazia fugir as camponesas que, no entanto, vendo o ridículo da situação, se iam rindo por entre os intervalos da sua fuga. Mais ria, porém, a causadora de todo aquele equivoco, sobretudo porque se lembrava do seu discurso eloquente, ao sair da água, e da incoerência dele com a figura descomposta de quem o proferia; e tão alto riu que ele, atentando em si, as deixou afastarem-se, enquanto dizia:

- Que ouço? Não é de anjo nem de Eva este som; mais me lembra a minha Rocina que, também ela, em horas mais ternas, me produz estes sons. Por isso não entendo eu palavra do que ela me diz! Então foste tu, Deus, que à minha montada restituíste a forma humana, para que de modo mais estreito ainda possa eu prosseguir a minha caminhada pelo mundo com tão querida companhia! Agradeço-te, Senhor, e não irei perder mais tempo com tão inocentes distracções.

Se bem o pensou, melhor o fez, correndo com toda a força das suas pernas em direcção à camponesa que tomava pela sua Rocina; e, chegando junto dela, saltou às suas cavalitas, gritando:
- Eia, minha Rocina! Leva-me para longe deste enganador Paraíso, onde pensei chegada a minha hora derradeira, e voltemos ao rumo da aventura, onde muitos trabalhos nos esperam ainda!

Vendo o homem às suas costas, nem a moça queria acreditar no que lhe sucedia, nem as companheiras entendiam outra coisa que não fosse a pior das intenções por parte de tão atrevido fauno. Do riso passaram então ao grito espavorido, com que ao lugar acorreram outros camponeses, e moços de varapau, que rodearam o cavaleiro e a sua desorientada salvadora, que desta vez nada pôde fazer por ele enquanto os aldeãos, deitando-o por terra, o deixaram moído de tareia, e como morto, após o que todos regressaram a casa.

Acordou o cavaleiro do seu desmaio era já noite avançada. No ermo, onde não se ouvia vivalma, outro que não ele se teria assustado, muito embora o estado dolorido em que tinha regressado a este mundo nem lhe desse oportunidade de pensar em coisas do outro, não fosse o caso de ouvir um resfolegar brusco mesmo sobre o seu rosto. Refeito do susto, levou a mão à origem do ruído, dando com o focinho de Rocina que, cumprido um dia de louca correria em liberdade, que a fizera dar a volta à nascente do rio, acabou por voltar ao seu dono que, na escuridão, a confundiu com a sua Eva:

- Oh meu amor, sabia que não me irias deixar, depois deste assalto em que os infiéis me deixaram como vencido; e quero ir contigo a tirar a desforra do assalto!

No entanto, tacteando com mais vagar, no escuro, foi descobrindo com a mão que era focinho de equídeo e não feminino rosto o que sobre ele se debruçava; e mais deu por um corpo coberto de pêlo, e longas patas ferradas, em nada condizentes com a memória que Eva lhe deixara. Então, voltou a dirigir-se ao Ente supremo com desconsoladas palavras:
- Oh Senhor, por que voltaste a dar à minha Eva a forma de Rocina? Que pecado foi o meu, que me roubaste do paraíso e me voltaste a pôr no exílio terreno, onde terei de retomar os meus caminhos em demanda de provas e desafios, de que estou cansado, como se não tivesse já provado o meu valor com tantas vitórias sobre os mais ferozes inimigos?

Pôs-se então a pensar, enquanto andava, ainda combalido da pancada; e não andou muito que não chegasse novamente ao pé do rio, já a madrugada despontava. Ali, encontrou a solução para o seu problema.

- Ouve, Rocina: a única maneira de resolver isto, fazendo regressar o teu corpo de cavalo à figura angélica da minha Eva, é voltar a atirar-me à água para que, passado este Letes, tu me venhas salvar de novo!

E assim se voltou o cavaleiro a atirar ao fundão, de onde não mais saiu, sem que Rocina percebesse por que é que, pela segunda vez, ele a obrigava a dar a volta à nascente do rio, e mais ainda por que razão, desta vez, ninguém a esperava do outro lado.


Nuno Júdice