30/06/2008

O Gigante Egoísta


Todas as tardes, quando vinham da escola, as crianças iam brincar para o jardim do Gigante. Era um jardim grande magnífico, coberto de relva macia e verde. Aqui e ali despontavam flores lindas como estrelas e havia doze pessegueiros que, com a chegada da Primavera, floresciam em tons de cor-de-rosa e pérola e, no Outono, ficavam carregados de esplêndidos frutos. As aves pousavam nas árvores e cantavam tão suavemente que as crianças interrompiam os seus jogos para as ouvir.

- Que bem que se está aqui! -diziam umas às outras.

Um dia, o Gigante regressou. Tinha ido visitar o seu amigo, o Ogre [1] da Cornualha, e demorara-se por lá sete anos. Ao fim de sete anos, tinha dito tudo o que havia para dizer, porque a sua conversa era limitada, e decidiu voltar ao castelo. Quando chegou, viu as crianças a brincar no jardim.

- Que fazeis aqui? -gritou ele, com voz severa.

E as crianças fugiram.

-Este jardim é muito meu – sentenciou[2] o Gigante.

-Que todos o fiquem sabendo. Não consinto que ninguém venha para aqui divertir-se a não ser eu próprio.

Ergueu então um muro muito alto a toda a volta do jardim e afixou nele o seguinte aviso:

É proibida a entrada Os transgressores serão castigados.

Era muito egoísta este Gigante. Agora as pobres crianças não tinham onde brincar. Tentaram brincar na estrada, mas havia muita poeira e pedras grossas, o que não lhes agradou. Depois das aulas, vagueavam à roda do muro, conversando sobre o belo jardim que existia do outro lado.

- Como éramos felizes lá dentro! -comentavam entre si.

Chegou então a Primavera e por todo o lado havia flores e chilreavam avezinhas. Só no jardim do Gigante continuava o Inverno. As aves não lhes apetecia ir lá cantar porque não havia crianças e as árvores esqueceram-se de florir. Um dia, uma linda flor ergueu a cabeça acima da relva, mas, quando viu o aviso, teve tanta pena das crianças que se sumiu de novo na terra e adormeceu. Os únicos seres satisfeitos eram a Neve e a Geada.

- A Primavera esqueceu-se deste jardim! -exclamavam elas. - Por isso, podemos ficar aqui todo o ano.

A Neve cobriu a relva com o seu imenso manto branco e a Geada pintou de prata todas as árvores. Convidaram depois para viver com elas o Vento Norte que aceitou o convite. Estava envolto em peles e rugia todo o dia pelo jardim, derrubando as chaminés.

- Que lugar admirável! -disse ele. -Temos de convidar também o Granizo.

E, assim, veio o Granizo. Diariamente, durante três horas, rufava[3] nos telhados até partir a maior parte das ardósias[4] e corria, depois, pelo jardim, o mais depressa que lhe era possível. Vestia de cinzento e tinha um hálito frio como gelo.

- Não percebo porque é que a Primavera tarda tanto -pensava o Gigante Egoísta sentado à janela a olhar para o seu jardim branco de neve.

-Espero que o tempo melhore.

Mas a Primavera nunca veio e nunca veio o Verão. Com o Outono, chegavam frutos maduros a todos os jardins, menos ao do Gigante.

- O Outono é muito egoísta, -considerava o Gigante, enquanto o Inverno reinava no seu jardim e o Vento Norte, a Geada, o Granizo e a Neve dançavam por entre as árvores.

Uma bela manhã, estava o Gigante ainda deitado, mas já desperto, quando ouviu uma música encantadora. Soava tão docemente aos seus ouvidos que supôs serem os músicos do rei que passavam. Na realidade, era apenas um pintarroxo que lhe cantava à janela; mas havia já tanto tempo que não ouvia o canto dos pássaros no seu jardim que aquilo lhe pareceu a música mais bela do mundo. Então o Granizo deixou de rufar-lhe nos telhados, o Vento Norte deixou de rugir e chegou-lhe, pela janela aberta, um perfume delicioso.

- Parece que a Primavera chegou, finalmente! -exclamou o Gigante, saltando da cama e olhando para o jardim. E que viu ele? Viu um espectáculo deslumbrante. Por um buraco pequeno no muro, as crianças tinham passado para o jardim e estavam empoleiradas nos ramos das árvores. Havia uma criança em cada árvore. E as árvores ficaram tão contentes com o regresso da pequenada que de novo se cobriram de flores e agitavam suavemente os ramos sobre as suas cabecitas. As aves esvoaçavam e chilreavam alegremente, as flores, por entre a relva, espreitavam e riam. Era um espectáculo encantador e só num recanto do jardim permanecia ainda o Inverno. Ali estava um miúdo tão pequeno que não conseguia trepar à árvore e andava de um lado para o outro, chorando amargamente. A pobre árvore continuava cheia de neve e geada; por cima dela ainda soprava e rugia o Vento Norte.

- Sobe, meu menino -disse a árvore, inclinando os ramos o mais que podia, mas a criança era pequenina demais. O coração do Gigante enterneceu-se, ao olhar lá para fora.

-Tenho sido tão egoísta! -reconheceu ele. - Agora percebo a razão por que a Primavera não aparecia. Vou pôr o rapazinho em cima da árvore e depois vou derrubar o muro. O meu jardim será, para sempre o lugar de recreio das crianças.

Estava realmente arrependido do que tinha feito. Desceu então a escada, abriu a porta devagarinho e chegou ao jardim. Mas as crianças, ao vê-lo, fugiram aterradas, e o Inverno voltou ao jardim. Só o rapazinho não fugiu, porque tinha os olhos cheios de lágrimas e não se apercebeu da chegada do Gigante. O Gigante, aproximando-se cautelosamente, pegou-lhe com todo o carinho e pô-lo em cima da árvore. Logo a árvore se encheu de flores, vieram pássaros cantar e o rapazinho, estendendo os braços para o Gigante, abraçou-o e beijou-o. As outras crianças, quando viram que o Gigante já não era mau, voltaram a correr; e com elas voltou a Primavera.

- Agora, este jardim é vosso, meus meninos! -declarou o Gigante.

Pegou então numa picareta enorme e derrubou o muro. E, ao meio-dia, as pessoas que iam para o mercado viram o Gigante a brincar com as crianças no mais belo jardim que jamais tinham contemplado. Brincaram todo o santo dia e, quando a noite chegou, foram despedir-se do Gigante.

- Onde está o vosso companheiro? -perguntou ele. -Aquele que eu pus em cima da árvore. O Gigante gostava muito dele porque o tinha beijado.

- Não sabemos nada dele -responderam as crianças. -Foi-se, embora.

- Se o virem, digam-lhe que não falte amanhã. As crianças responderam que não sabiam onde ele morava e que antes nunca o tinham visto; e o Gigante ficou muito triste.

Todas as tardes, ao saírem da escola, as crianças vinham brincar com o Gigante. Mas o rapazinho de quem o Gigante mais gostava não voltou a ser visto. O Gigante era muito bondoso para todas as crianças, mas suspirava pelo seu primeiro amiguinho e falava dele muitas vezes. Gostava tanto de o tornar a ver! -repetia ele. Passaram os anos e o Gigante envelheceu e enfraqueceu muito. Como já não podia brincar, sentava-se numa poltrona enorme a ver brincar as crianças e a admirar o seu jardim.

- Tenho muitas flores bonitas -dizia - , mas as crianças são as mais bonitas de todas.

Certa manhã de Inverno, enquanto se vestia, olhou pela janela. Agora já não odiava o Inverno porque sabia que era apenas a Primavera adormecida e que as flores repousavam. De repente, esfregou os olhos de espanto, olhou e tornou a olhar. Era, sem dúvida, um espectáculo maravilhoso. No recanto mais afastado do jardim, estava uma árvore completamente revestida de flores alvacentas[5]. Eram áureos os ramos e argênteos[6] os frutos que dela pendiam. E debaixo da árvore estava o rapazinho de quem ele tanto gostava. Cheio de alegria, o Gigante desceu apressadamente a escada para chegar ao jardim. Atravessou rapidamente a relva e aproximou-se do pequenino; mas, ao vê-lo, ficou vermelho de cólera.

- Quem se atreveu a magoar-te? -perguntou, vendo feridas de pregos nas palmas das mãos e nos pés do pequenito.

- Quem se atreveu a magoar-te? -gritou o Gigante. -Diz-me sem demora e vou já matá-lo com a minha espada.

- Não -respondeu a criança -, estas são as feridas do Amor.

- Então quem és tu? -quis saber o Gigante, sentindo-se invadido por um estranho sentimento e ajoelhando-se diante da criança.

Esta sorriu e respondeu:

- Um dia, deixaste-me brincar no teu jardim. Hoje, virás comigo para o meu, que é o Paraíso. E, nessa tarde, quando as crianças correram para o jardim, encontraram o Gigante morto, debaixo da árvore, e todo coberto de flores alvacentas.

Oscar Wilde



[1] Gigante que se alimentava de carne humana.
[2] Fazer uma afirmação com segurança.
[3] Produzir sons semelhantes aos de viola ou tambor.
[4] Telha fabricada a partir de rocha argilosa de cor cinzenta.
[5] Esbranquiçado.
[6] Brilhante como a prata.



29/06/2008

As Três Palavras Divinas

I

Um sapateiro morava com a mulher e filhos num quarto alugado de um camponês. Não possuía casa nem terra e mal ganhava para o sustento da família, com o seu ofício de sapateiro. O pão era caro e o trabalho mal pago; comia tudo quanto ganhava. Tinha, para si e sua família, somente uma única peliça, e esta já estava muito rota. Há dois anos que ele se esforçava por comprar algumas peles de carneiro, para fazer nova peliça. Pelo outono possuía já algumas economias; no cofre da mulher estavam guardados três rublos em papel. Uns camponeses da vila deviam-lhe cinco rublos e vinte copeques. Certa manhã, o sapateiro resolveu ir ao vilarejo comprar a peliça. Vestiu a jaqueta de ganga acolchoada, que pertencia à mulher, pôs em cima um cafetã de pano e, colocando os três rublos no bolso, pegou o bastão e, depois do almoço partiu.

"Cobrarei os cinco rublos dos camponeses. Com eles e os três rublos que possuo, terei o suficiente para adquirir as peles e fazer a peliça" — pensava ele.

Chegando à vila, dirigiu-se à casa de um camponês. Ele não estava. A mulher, porém, prometeu-lhe mandar o dinheiro na próxima semana, nada lhe dando no momento. Em casa de outro, juraram nada dever e somente lhe deram vinte copeques por um remendo. O sapateiro pensou em comprar as peles a crédito, mas o vendedor recusou, dizendo-lhe:

Traze-me o dinheiro e então escolherás a mercadoria que quiseres; nós sabemos o quanto é difícil nos pagarem.

O sapateiro não fez negócio algum, além dos vinte copeques do remendo, somente recebeu um velho par de botas para consertar.

Aborrecido, foi a uma taverna, bebeu os vinte copeques e pôs-se a caminho, sem as peles de carneiro. Pela manhã sentira frio na estrada, mas na volta, como tinha bebido, sentia-se mais quente, embora sem peliça. Andou alegremente, batendo com o bastão no chão gelado. Fazendo piruetas, ele dizia a si mesmo:

— "Estou quente mesmo sem peliça; bebi um trago; a aguardente corre nas minhas veias. Para que preciso eu de peliça? Vou-me embora e esqueço a miséria. Assim sou eu! Que me importa isso? Posso viver muito bem sem peliça; passarei sem ela a vida inteira. Minha mulher, porém, é que não ficará contente! Para dizer a verdade, tem razão para isso. Trabalha-se para eles e eles nos afugentam... Espera um pouco; tu não me dás dinheiro... tirarei meu chapéu... Juro-te que o farei... Isto são maneiras, pagar-me vinte copeques!... Que se pode fazer com vinte copeques? Bebê-los na taverna, eis o que se pode fazer!..."

E sempre falando consigo mesmo:

— "A miséria! A miséria!... E a minha então?! Tu tens casa, gado, e tudo o mais, e eu tenho somente a mim. Comes o pão que vem do teu próprio campo, e eu preciso comprá-lo; somente para o pão preciso ganhar três rublos por semana. Quando chegar em casa já comeram o pão e ainda devo gastar um rublo e meio. Paga-me, pois, o que me deves!"

E assim chega o sapateiro perto da capela, na curva da estrada. Por detrás dela percebe uma coisa branca. Já era crepúsculo; ele enxergava mal.

— "Que será aquilo? Aqui não havia nenhuma pedra branca. Será uma vaca? Não! não parece vaca. Do lado da cabeça parece um homem. Mas por que será ele branco? E por que estará aqui?"

Aproxima-se e distingue melhor. Que milagre! É mesmo um homem!

Vivo ou morto? Está sentado, completamente nu, encostado na parede da capela. Não se mexe. O sapateiro, com medo, pensa:

"Alguém o matou, despojando-o e abandonando-o ali. Se me aproximar, vou arranjar uma série de contratempos."

Ele passa, contorna a igrejinha, perdendo o homem de vista. Depois de alguns minutos, vira-se e vê que o homem se desencostou da parede, está-se mexendo, parece olhá-lo fixamente. Mais amedrontado ainda, o sapateiro pensa:

"Devo voltar ou fugir? Se for para junto dele, pode me acontecer alguma coisa desagradável. Que homem será esse? Sua presença aqui me parece suspeita. Pode pular na minha garganta e talvez eu não escape. Supondo-se que ele não me estrangule, farei bem em levá-lo comigo? Que farei de um homem nu? Não posso despir-me, para vesti-lo, dando-lhe minha única roupa. Que Deus me ajude a sair disto!"

Já passara a capela, mas sua consciência começa a atormentá-lo. Pára no meio do caminho:

"Que fazes, Simão, que fazes?" diz ele. "Um homem morre sem socorro e tu te amedrontas e foges? És acaso algum ricaço para temeres ser despojado dos teus tesouros? Ah! Simão, isto não está direito!" Simão volta e se aproxima do homem.

II

Simão se aproxima, olha e vê um homem moço e robusto, cujo corpo não tem indícios de violência nem de pancadas, mas está transido de frio e visivelmente amedrontado. Sentado de encontro à parede, não olhava para Simão. Tinha o ar esgotado e não podia levantar as pálpebras.

Simão chegou mais perto, curvou-se para o homem que subitamente se reanimou, virando a cabeça e abrindo os olhos, fixando-o. Desde que Simão viu esse olhar, começou a amar o homem. Deixando cair as botas, desabotoou o cinto, jogando sobre elas, tirando, então, o cafetã.

— Nada de palavras inúteis — disse ele; — toma e veste, depressa.

Simão segurou o homem pelos braços, pondo-o de pé; viu seu corpo esguio, delicado, limpo; braços e pernas perfeitos; fisionomia doce. Pôs-lhe o cafetã sobre os seus ombros, mas o homem não podia vestir as mangas. Simão vestiu-as, fechou o cafetã, apertando o cinturão. Quis tirar o seu gorro rasgado para cobri-lo, mas sentindo frio na cabeça, reflectiu:

"Sou completamente calvo e ele possui longos cabelos cacheados."

Deixou-se ficar com o gorro.

"Será melhor calçar-lhe as botas", pensou. Ajoelhando diante do homem, calçou-lhe as botas, dizendo:

— Bem, irmão! Vejamos, mexe-te um pouco e vê se te aqueces. Nada mais temos a fazer aqui. Podes andar?

O homem continuava de pé, sem falar, olhando para Simão com doçura.

— Então, não falas? Não podemos passar o inverno aqui. É preciso voltar para casa. Toma o meu bastão; apoia-te nele, se não tiveres força e adiante!

O homem andou, mesmo com facilidade, acompanhando perfeitamente o passo de Simão.

Vão lado a lado, e este lhe pergunta:

— Donde és?

— Não sou daqui.

— Conheço a gente desta zona. Como aconteceu estares lá atrás da capela?

— Não te posso dizer.

Fizeram-te algum mal?

— Não. Ninguém me fez mal. Deus me castigou.

— Sem dúvida, tudo depende de Deus... Enfim, sempre se vai para algum lugar. Para onde vais tu?

— Para qualquer lugar.

Simão se admira. Este homem não tem cara dum gracejador de mau gosto; sua voz é doce mas não conta nada de si. Simão acha tudo isso muito estranho, mas lhe diz:

— Então! Vem para a minha casa; lá te aquecerás um pouco.

Simão se aproxima do seu quintal; o companheiro ainda a seu lado. O vento começa a soprar e atravessa-lhe a camisa. Vai desaparecendo o efeito do álcool e ele se sente transido; funga, aperta a jaqueta no corpo e pensa:

"Eis uma tribulação! Saio para comprar uma peliça e volto sem o cafetã e ainda trazendo um homem nu. Matriona não ficará muito alegre."

Pensando nela Simão se entristece. Mas vendo o homem, lembra-se do olhar que ele lhe dirigiu atrás da capela, e seu coração transborda de alegria.

III

A mulher de Simão terminou cedo o serviço. Rachou lenha, trouxe a água, cuidou dos filhos e, depois de ter ceado, pôs-se a sonhar. Pensa no pão: "Será preciso prepará-lo hoje ou amanhã? Ainda há uma micha na arca. Simão jantou na vila", pensa ela. "Se ele não cear, esta noite, sobrará bastante pão para amanhã." Olha o pão, revirando-o nas mãos: "Não cozinharei hoje: só tenho farinha para uma vez. Prolongaremos isto até sexta-feira..."

Matriona guarda o pão, sentando-se perto da mesa, para remendar a camisa do marido. Cose e pensa no seu homem, que foi comprar peles de carneiro para fazer uma peliça.

"Queira Deus que o vendedor não o tenha enganado; ele é tão ingénuo, o meu marido! Jamais enganaria alguém e uma criança poderia enganá-lo... Oito rublos já é uma boa quantia; pode-se comprar uma boa peliça. Simples, é verdade, mas ainda assim uma boa peliça. O último inverno foi tão rigoroso! Sem a peliça era impossível ir ao rio ou a qualquer outro lugar. Ele saiu com todos os agasalhos no corpo e eu não tenho o que vestir... Como ele demora! Já devia estar de volta... Será que parou na taverna?"

Mal Matriona pensa isto, os degraus da escada estalam e alguém entra. Ela deixa o trabalho e vai para o vestíbulo. Vê dois homens: Simão e, com ele, outro homem, sem chapéu e de botas de feltro. Pelo seu hálito, percebe logo que Simão bebeu.

— Eu tinha a certeza — diz ela. — Ele bebeu.

Vendo-o sem cafetã, com as mãos vazias, silencioso e embaraçado, sente faltar-lhe a respiração. "Bebeu todo o dinheiro, foi à taverna com este rapazelho e agora o traz para cá."

Matriona deixou-os penetrar na choupana, seguindo-os em silêncio. Viu o estranho: moço, magro, vestido com o cafetã do marido. Uma vez dentro de casa Simão permaneceu imóvel, olhos baixos. Matriona pensou: "É mesmo um patife. Está com medo."

Com o sobrecenho fechado, vai para a lareira, esperando os acontecimentos.

Simão tirou o chapéu, sentando no banco, com ar tranqüilo.

— Então, Matriona, não nos darás de comer? diz ele.

Matriona resmunga entre-dentes. Pára perto do fogão, ficando imóvel, a olhar ora para um, ora para outro, balançando a cabeça. Simão, vendo sua mulher zangada — que poderia ele fazer? — toma um ar indiferente e segurando a mão do estranho diz:

— Senta-te, irmão, e ceiemos. O outro toma assento no banco.

— Então, não cozinhaste hoje?

A cólera se apossa de Matriona.

— Cozinhei, mas não para você. Bebeste até perder o senso. Partiste para comprar uma peliça e voltas sem o cafetã, trazendo ainda um vagabundo. Não tenho comida para bêbedos como vocês...

— Basta, Matriona! Não tenhas trabalho em dizer asneiras. Farias melhor perguntando primeiro quem é este homem.

— Comece por dizer o que fizeste do dinheiro! — retrucou a mulher.

Simão pôs a mão no bolso e tirou os três rublos.

— Eis o dinheiro. Trifonov não pagou; prometeu pagar amanhã.

A raiva de Matriona aumenta. Sem a peliça, o único cafetã nas costas de um vagabundo nu que, por cúmulo, ele trouxe para casa. Toma o dinheiro e vai guardá-lo, dizendo:

— Não tenho comida, não se pode alimentar todos os bêbedos nus!

— Espera, Matriona. Cala-te e escuta!

— Eu? Escutar as tolices de um imbecil bêbedo? Ah! Como tinha razão em não querer casar-me contigo, beberrão. Minha mãe deu-me um enxoval, e tu o bebeste; vais comprar uma peliça e também a bebes!

Simão tenta inutilmente explicar que gastou somente vinte copeques na taverna; quer dizer à mulher como encontrou aquele homem, mas Matriona não o deixa explicar-se e, falando ininterruptamente lança-lhe em rosto coisas que se passaram há dez anos. Ela fala, fala e, tomando Simão pelo braço:

— Dá-me a jaqueta! Eu só tenho essa; tu ma tomaste e a vestiste, cachorro. Vá para o diabo que te carregue!

Simão quer tirar a jaqueta, mas Matriona puxa e as costuras se rasgam. Finalmente Matriona tem a sua jaqueta. Colocando-a na cabeça, dirige-se para a porta. Queria ir embora, porém, de repente pára, cheia de raiva. Quer descarregar sua cólera sobre alguém e, ao mesmo tempo, quer saber quem é esse homem.

IV

De pé, na soleira da porta, Matriona diz:

— Se fosse um homem honesto, não estaria nu. Olha, ele não tem nem camisa. Se tu tivesses feito alguma coisa de bom, ter-me-ias dito donde trouxeste este elegante...

— Mas eu te conto, mulher. Passava perto da capela, quando vi este rapaz, completamente nu, quase gelado. Não estamos mais no verão... Foi Deus quem me guiou até ele, se não teria morrido esta noite. Que fazer? Há coisas que acontecem. Levantei-o, vesti-o, e trouxe-o comigo. Acalma o teu coração; isto é um pecado. Nós morreremos um dia.

Matriona queria replicar, mas, olhando para o estrangeiro, calou-se. Ele estava imóvel, sentado no banco, as mãos cruzadas sobre os joelhos, a cabeça caída sobre o peito; arquejava como se algo o sufocasse. Matriona calou-se e Simão disse:

— Matriona, Deus não está mais no teu coração?

A essas palavras ela fixou de novo o estrangeiro, e seu coração se apiedou. Saindo da soleira da porta, dirigiu-se para o fogão, com o fito de preparar a ceia. Pôs a escudela sobre a mesa, derramou o "kwass", trouxe o último pão, uma faca e colheres.

— Vamos! comam — disse ela. Simão levou o rapaz até a mesa:

— Aproxima-te, rapaz.

Cortou o pão, embebeu-o no caldo e puseram-se ambos a comer. Matriona sentou-se a um canto da mesa, apoiando o queixo nas mãos enquanto olhava para o estranho. Então começou a sentir compaixão dele e começou a amá-lo. Logo o rapaz se tornou mais alegre e, levantando a cabeça, sorriu para Matriona. Terminada a ceia, ela arrumou a louça e, depois, perguntou-lhe:

— Donde vens?

— Não sou daqui.

— Como te achavas lá?

— Não o posso dizer.

— Quem te despojou?

— Deus me puniu.

— Era por isso que estavas nu?

— Sim, estava nu e me enregelava. Simão me viu, teve pena de mim, vestiu-me com o seu cafetã e me disse para segui-lo. Tu tiveste compaixão da minha miséria e me deste de comer e de beber. Deus vos salve!

Matriona levantou-se, tirou da janela uma velha camisa de Simão que ela remendara, dando-a ao estrangeiro, juntamente como um velho par de calções.

— Toma — disse ela — vejo que não tens nem camisa. Veste e deita-te onde quiseres; no banco ou perto da lareira.

O rapaz tirou o cafetã, pôs a camisa e as calças, estendendo-se sobre o banco. Matriona apagou o lampião e, apanhando o cafetã, foi-se acomodar perto da lareira com o marido. Deitou-se, cobrindo-se com uma ponta do agasalho. Mas não podia dormir; o rapaz a preocupava. Lembrou-se de que se tinha comido o resto do pão, que faltaria para o dia seguinte, e de que dera ao hóspede a camisa e os calções de Simão. Ficou apreensiva, mas ao se recordar do sorriso do estranho, alegrou-se de novo.

Durante muito tempo permaneceu acordada. Simão também não conseguiu dormir.

— Simão!

— Que é?

— Comemos todo o pão e hoje eu não cozinhei; que farei amanhã? Devo pedir emprestado a Marta?

— Se vivermos, teremos o que comer.

Calaram-se por um momento.

— Esse homem tem boa fisionomia. Por que será que nada diz sobre a sua pessoa?

— Com certeza não pode.

— Simão!...

— Que é?

— Se nós damos aos outros, por que será que ninguém não nos dá nada?

Simão não soube o que responder.

— Já falamos bastante — disse ele, virando-se.

E adormeceu.

V

Simão acordou cedo. As crianças ainda dormiam e sua mulher saíra para pedir pão à vizinha. O estrangeiro da véspera, com a camisa velha e os calções, estava sentado no banco, com os olhos absortos. Seu rosto estava mais sereno.

— Bem, amigo — diz-lhe Simão. — O estômago pede pão e o corpo roupa. Precisamos agir para os alimentarmos. Sabes trabalhar?

— Eu nada sei.

Simão arregalou os olhos, retrucando:

— Tudo os homens te ensinarão, se tiveres boa vontade.

— Todos trabalham e o mesmo farei eu.

— Como te chamas?

— Miguel.

— Bem, Miguel, nada queres dizer de ti; isso é lá contigo. Mas precisas comer. Faze o que digo e te alimentarei.

— Que Deus te abençoe! Ensina-me, mostra-me o que devo fazer.

Simão pegou um fio e começou a preparar a ponta.

— Não é difícil, olhe!

Miguel olha, toma o fio, prepara-o e logo Simão lhe ensina a encerar o fio e torcê-lo. Miguel aprende rapidamente. Em seguida o patrão lhe ensina a coser e Miguel também aprende com facilidade. A partir do terceiro dia todo o trabalho que lhe ensinavam, Miguel compreendia. Trabalhava tão bem que se poderia crer que ele fizera botas toda a vida. Não perdia um minuto e pouco se alimentava. Terminado o trabalho, permanecia no seu canto, com os olhos absortos, sem nada dizer. Jamais saía, nunca gracejava ou ria. Somente viram-no sorrir uma vez; quando, na primeira noite, Matriona lhe deu de comer.

VI

Dia a dia, semana a semana, um ano se passou. Miguel continuava a morar e trabalhar com Simão. O sapateiro ficou célebre; ninguém fazia botas tão bem cuidadas, tão sólidas quanto Miguel, aprendiz de Simão. Vinha gente de todos os lugares das vizinhanças para encomendar botas em casa de Simão e este começou a viver mais folgadamente.

Num dia de inverno, Simão e Miguel trabalhavam juntos, quando ouviram o barulho de uma carruagem com três cavalos e guizos. Espiaram pela janela. A carruagem parou diante da choupana e um senhor saltou, dirigindo-se à casa de Simão. Matriona abriu-lhe a porta. O senhor, abaixando-se, entrou na choupana e depois se endireitou. Sua cabeça quase tocava o teto e ele sozinho, enchia um canto da sala. Simão levantou-se, cumprimentando-o, admirado. Jamais vira homem semelhante. Simão era gorducho. Miguel magro e Matriona parecia uma velha acha de lenha seca. Este homem dava a impressão de vir de um outro mundo. Com o rosto grande e avermelhado, seu pescoço taurino parecia feito de bronze.

Depois de expirar fortemente, tirou as peles e, sentando-se no banco, falou:

— Qual de vós é o mestre sapateiro? Simão se adiantou.

— Sou eu, senhoria.

O senhor chamou o criado.

— Fedka! Traze-me o couro.

O criado aproximou-se com um pacote e o senhor, pegando-o, colocou-o sobre a mesa.

— Abra o embrulho — disse ele.

O outro obedeceu.

O senhor, mostrando o couro a Simão, assim lhe falou:

— Ouça, sapateiro: vês bem este couro?

— Sim, senhor.

— Percebes que espécie de mercadoria é essa?

Simão apalpou o couro, retrucando:

— A mercadoria é muito boa.

— Sim, ela é boa, imbecil; nunca viste coisa semelhante. É couro da Alemanha e vale vinte rublos.

Simão, intimidado, responde:

— Onde poderíamos nós ver uma coisa destas?

— Tens razão. Podes fazer-me um par de botas deste couro?

— Certamente, senhor. O homem então exclamou:

— Certamente! Compreendes bem para quem vais trabalhar e que mercadoria vais usar? Faze-me botas que possam durar um ano, que eu possa usar um ano sem que elas percam a forma nem se rompam. Se tu o podes fazer, toma o couro e corta-o. Se não podes, recusa-o. Eu te previno: se as botas se rasgarem antes de um ano, ponho-te na cadeia. Se me durarem esse tempo, terás dez rublos.

Simão, amedrontado, hesita e não sabe o que responder. Olha para Miguel, bate-lhe com o cotovelo e cochicha:

— Achas que devo aceitar?

— Pega o serviço — aconselha Miguel.

Simão toma o alvitre de Miguel, aceita e se compromete a fazer as botas que não perderiam a forma nem se rasgariam durante um ano.

O senhor chama o criado, manda-lhe descalçar o seu pé esquerdo e, estendendo-o a Simão, diz:

— Bem, tome então as medidas.

Simão tomou uma folha de papel, dobrou-a em tiras e ajoelhando-se, depois de ter limpado as mãos no avental para não sujar as meias do senhor, começou a tirar as medidas. Tomou as dimensões da sola, do tornozelo e pôs-se a medir a barriga da perna. Mas o papel não dava a volta; a perna era grossa como uma viga.

— Cuidado, não a faças apertada na barriga da perna.

Simão junta outro papel. O homem, sentado, mexe os dedos do pé dentro da meia e olha as pessoas que o rodeiam.

Agora percebeu a presença de Miguel.

— Quem é este? — pergunta.

— É o meu aprendiz, o que fará as botas — responde Simão.

— Cuidado! — diz o senhor, dirigindo-se a Miguel. — Elas precisam durar um ano.

Simão olha para Miguel e percebe que este não está olhando para o senhor, e sim para cima e por trás dele, como se estivesse vendo alguém. Continua a olhar e, subitamente, sorri, com serenidade.

— Por que ris, idiota? Cuide antes que as botas estejam prontas a tempo.

Miguel responde:

— Vossas botas estarão prontas na hora exata.

— Está bem.

O senhor calçou-se novamente, vestiu a peliça, dirigindo-se para a saída, mas, esquecendo-se de abaixar, bateu com a cabeça contra a trave da porta. Pôs-se a praguejar, esfregando a testa. Depois subiu para a carruagem e partiu.

Tendo o homem partido, disse Simão:

— Eis um homem forte como um rochedo, arrebenta a trave da porta e ainda zomba.

Matriona acrescentou:

— Com a vida que ele leva, como não ser um belo homem? Fundido em bronze, assim como ele é, a morte tão cedo não o surpreenderá.

VII

Simão, dirigiu-se a Miguel:

— Aceitamos esta encomenda; espero que ela não nos cause aborrecimento. O couro é caro e o senhor violento. A não ser que nos enganemos! Tu tens olhos melhores, mão mais firme. Toma as medidas e corta o couro para mim. Eu farei as costuras.

Miguel obedeceu. Pegou o couro, desenrolando-o sobre a mesa e dobrando-o em dois tomou seu cortador e pôs-se a trabalhar.

Matriona aproximou-se, viu o trabalho de Miguel e ficou espantada com o que ele estava fazendo. Habituada ao ofício, percebe que Miguel não está cortando botas, e sim sandálias. Quis falar, mas pensou: "Com certeza não entendi que espécie de calçado é preciso para aquele senhor. Miguel sabe melhor do que eu o que está fazendo. Não me vou intrometer."

Uma vez talhado o calçado, Miguel toma os pedaços e começa a cosê-los, não dos dois lados, mas de um só, como para sandálias. Matriona de novo se espanta, mas não quer intrometer-se e Miguel continua a costura. Chega a hora da refeição. Simão deixa seu trabalho e percebe que Miguel fez do couro sandálias em lugar de botas.

"Como?! Miguel, que durante um ano inteiro jamais se enganou!... Que desgraça acaba de fazer! A mercadoria está perdida; que direi ao senhor? Onde encontrar outro couro igual?"

E diz a Miguel:

— Que fizeste, amigo? Tu me perdeste. O senhor encomendou botas, e tu, que fizeste?

Nesse mesmo instante, alguém bate, com força. Espia-se pela janela e vê-se alguém amarrar o cavalo na aldrava da porta. Abre-se; entra o criado do senhor.

— Boa tarde, mestre.

— Boa tarde. Que quereis de nós?

— A senhora me mandou por causa das botas.

— As botas? O quê?

— Sim, o senhor não precisa mais de botas. Ele morreu.

— Como?!

— Nem chegou à sua casa vivo; morreu no carro. Quando chegamos, abri a portinhola e o vi caído no assento, já duro. Só com muito trabalho conseguimos tirá-lo de lá. A senhora mandou-me aqui, dizendo: "Vá dizer ao sapateiro que faça sandálias para um defunto em lugar de botas que teu senhor encomendou. Pede-lhe que se apresse; espera que estejam prontas e traz-mas. Eis por que estou aqui."

Miguel tomou as sandálias e as sobras do couro e enrolando tudo cuidadosamente, entregou o pacote ao empregado, que esperava.

— Boa tarde para todos. Que passem muito bem!

VIII

Um ano, dois anos se passam e agora, já faz seis anos que Miguel mora com Simão. E sempre a mesma coisa; nunca sai, raramente fala. Durante todo esse tempo, somente sorriu duas vezes; a primeira, quando Matriona lhe deu de comer, e a segunda, durante a visita do senhor.

Simão vive sempre encantado com o seu aprendiz, não lhe pergunta mais donde veio e só teme que ele se vá embora.

Um dia, todos estavam reunidos em casa. Matriona punha a panela no fogo, as crianças trepadas no banco olhavam pela janela. Perto de uma janela, Simão trabalhava com a sovela; perto da outra, Miguel concluía um salto.

Uma das crianças veio apoiar-se no seu ombro e, espiando pela janela, disse:

— Veja, tio Miguel, uma senhora com duas meninas. Parece que vêm para este lado. Uma das meninas é manca.

A essas palavras, Miguel abandona o trabalho, vira-se e olha para fora. Simão se admira. Miguel jamais olhou para fora, e ei-lo agora, colado à vidraça, examinando alguma coisa. Simão, por sua vez, também espia. Vê, realmente, uma mulher bem trajada, conduzindo duas meninas vestidas de peliça e chapeuzinhos de lã, que se dirigem para sua casa. As crianças são tão parecidas, que seria impossível distingui-las. Uma delas, porém, claudicava da perna esquerda.

A senhora pára na porta, levanta o trinco e entra na choupana, levando, à sua frente, as duas meninas.

— Bom dia para todos.

— Sede bem-vinda! Que desejais?

A mulher senta-se perto da mesa e as meninas se achegam timidamente a ela; manifestam receio dos homens.

— Preciso de sapatos para as pequenas, para a primavera.

— Ah! É fácil. Nunca fizemos sapatinhos tão pequenos, mas tentaremos. A senhora os quer debruados ou reforçados com pano? Miguel, meu aprendiz, é muito hábil.

Simão vira-se e percebe que Miguel fixa os olhos atônitos nas crianças. Simão surpreende-se. Evidentemente as meninas são bonitas, com os seus olhos negros e as suas faces rechonchudas. As peliças e os chapéus que trazem são graciosos. Mas não pode compreender por que Miguel as examina com tanto interesse, como se já as conhecesse. Simão, cada vez mais surpreso, fala com a senhora, faz o preço e toma as medidas.

A senhora põe a aleijadinha no colo e diz:

— Tome duas medidas para esta; farás um sapato para o pé doente e três para o outro. Os pés de ambas são iguais: elas são gêmeas.

Terminadas as medidas, Simão pergunta, apontando para a aleijadinha:

— Por que ficou ela assim? Uma menina tão linda! Nasceu desse jeito?!...

— Foi sua mãe, que a aleijou.

Matriona entra na conversa e, curiosa de saber quem é aquela senhora e aquelas crianças, diz:

— Então, não és a mãe delas?

Nem mãe, nem mesmo parente, minha boa mulher. Elas são minhas filhas adotivas.

— Não são do teu sangue e tu as mimas assim?!

— Como não as mimar? Amamentei a ambas. Tive um filho, que Deus me tirou. Não o acariciava tanto quanto a elas.

— De quem são elas?

IX

A senhora, tornando-se loquaz, começou a contar:

Há seis anos que são órfãs. O pai morreu numa quarta-feira e a mãe numa sexta. Órfãs de pai antes de nascerem, a mãe não sobreviveu ao seu nascimento. Neste tempo eu morava na vila, com meu marido. Éramos vizinhos, parede-e-meia. Num dia em que trabalhava sozinho no bosque, o pai foi esmagado por uma árvore. Ficou tão mal, que, chegando em casa, faleceu. Três dias depois sua mulher deu à luz estas duas meninas. Pobre e sozinha ninguém a assistiu, nem parteira, nem mesmo uma simples empregada. Deu à luz sozinha e sozinha morreu.

Pela manhã fui vê-la; entro e a encontro — a desgraçada — já fria. No momento da morte, caíra sobre a filhinha e a aleijara. Reuniram-se os conhecidos; levaram a morta, amortalharam-na, puseram-na num caixão e a enterraram. Todos os vizinhos eram boas pessoas. As menininhas ficaram sós. Que fazer delas? Nessa época eu era a única mulher na vila que estava amamentando. Aleitava o meu primogênito há oito semanas. Enquanto se esperava uma decisão, levei-as comigo.

Os camponeses reuniram-se, discutiram o que fariam delas e depois me disseram:

— Maria, cuida das crianças e alimenta-as, enquanto nós decidimos o assunto.

Já havia dado o seio a uma, mas ainda não o dera à outra, à aleijada. Não pensava que ela pudesse viver.

Depois me arrependi; ela choramingava de fazer pena. Por que deve sofrer este anjinho? Fi-la mamar e aleitei as três crianças; o meu e as duas orfãzinhas. Era jovem, forte, alimentava-me bem e tive muito leite. Deus me ajudava. Enquanto as duas crianças mamavam, a terceira esperava. Quando uma das duas estava satisfeita, pegava na terceira. Deus me deu a graça de criá-las. O meu morreu dois anos depois e Deus não me concedeu mais filhos. Com o tempo melhoramos de vida e agora vivemos no moinho, em casa de um negociante. Temos bons ordenados, a vida é fácil, mas não tenho filhos. Que faria eu, sozinha, se não tivesse estas meninas? Como não amá-las, não mimá-las? Elas são a alegria da minha vida.

A senhora apertou as crianças contra o peito, beijou a aleijadinha, enxugando os olhos cheios de lágrimas. Matriona suspirou e disse:

— Vive-se sem pai e sem mãe. Só não se vive sem Deus.

Conversava-se assim, quando a choupana, de repente. se iluminou, como por um relâmpago, que tivesse vindo do lugar onde Miguel estava sentado. Todos viraram para esse lado e viram Miguel, sentado, com as mãos cruzadas sobre os joelhos, olhando para o alto: ele sorria.

X

A senhora partiu com as crianças, Miguel levantou-se do banco, deixando o trabalho sobre a mesa, o avental e, saudando os patrões, disse-lhes:

— Perdoai-me, patrões: Deus me perdoou; perdoai-me também.

Os patrões vêem que uma luz se dimana de Miguel. Simão levanta-se e, saudando-o, diz:

— Vejo, Miguel, que não és um homem como os outros, por isso não posso pedir para ficares, nem interrogar-te. Diz-me somente, por que estavas tão sombrio e temeroso quando te encontrei e trouxe para minha casa? Por que te tranqüilizaste quando minha mulher te deu de comer? Sorriste e ficaste mais confiante. Depois, quando veio aquele senhor encomendar as botas, sorriste de novo e ficaste mais sereno; e hoje, quando esta moça trouxe as meninas, sorriste uma terceira vez e cintilaste de luz. Diz-me, Miguel, por que esta luz se irradia de ti e por que sorriste três vezes?

Miguel respondeu:

— Deus me punira por uma desobediência. Eu era um anjo, no céu, e desobedeci. Era um anjo do céu e o Senhor me mandou à terra para procurar uma alma, a alma de uma mulher. Desci à terra e vi uma mulher deitada, doente, que acabara de dar à luz duas meninas. As crianças choramingavam perto da mãe, fraca demais para amamentá-las. Quando ela me viu, compreendeu que Deus chamava a sua alma. Chorou e suplicou:

"Anjo de Deus, meu marido foi morto há três dias pela queda de uma árvore; não tenho irmã, tia, nem mãe. Minhas orfãzinhas têm somente a mim! Não leves a minha pobre alma! Deixe-me cuidar de meus filhos até que possam andar; as crianças não podem viver sem pai nem mãe. "

Ouvi a mulher, pus uma criança no seu seio e a outra nos seus braços. Subi ao céu, fui à presença de Deus e lhe disse:

"Não pude trazer a alma da parturiente. O pai foi morto por uma árvore; ela teve duas gêmeas e me suplicou que não lhe levasse a alma, que a deixasse."

O Senhor me respondeu:

— "Volta e traze-me a alma dessa mãe. Um dia conhecerás três palavras divinas e aprenderás o que há nos homens, o que não é dado aos homens e o que faz viver os homens. Quando tiveres aprendido isto, voltarás ao céu".

Voltei à terra e levei a alma da pobre mãe. As crianças deixaram o seio materno, e o cadáver caiu, esmagando o pé de uma das meninas.

Enquanto me elevava no céu da vila, para levar a alma a Deus, um turbilhão me arrastou, minhas asas tornaram-se pesadas e caíram; a alma subiu sozinha para o Senhor, e eu fiquei caído na terra, à beira da estrada.

XI

Simão e Matriona compreenderam então a quem tinham eles vestido e alimentado; quem vivera sob o seu teto. Choraram de temor e alegria. O anjo ainda lhes disse:

— Estava só no caminho; só e nu. Até então não conhecera ainda as misérias humanas; nem o frio nem a fome. Tornei-me um homem. Senti frio e tive fome e não soube o que fazer. Vi uma capela consagrada ao Senhor; quis refugiar-me nela, mas a porta estava fechada a cadeado e não se podia entrar. Sentei-me então na soleira da porta, para me abrigar do vento. Chegou a noite; sentia fome e frio; sofria. Subitamente ouvi passos na estrada. Aproximava-se um homem, trazendo umas botas e falando sozinho. Pela primeira vez, vi a face mortal de um homem, depois de ter eu mesmo me transformado em homem. Tive medo dessa face e me virei. Ouvi o homem perguntar a si mesmo:

"Como alimentar minha mulher e meus filhos? Como me proteger contra o frio no inverno?"

Eu pensei:

— "Morro de fome e frio e eis que passa um homem pensando somente em vestir a si e aos seus com peliças e em providenciar pelo pão. Ele não me saberia, portanto, alimentar."

O homem me viu, fechou o sobrecenho, ficou ainda mais terrível e passou... Estava desesperado. De súbito, eu o vi voltar. Olhei-o e não o reconheci; a morte que estava estampada na sua face desaparecera. Ele se tornara vivo e vi a imagem de Deus no sou rosto. Aproximou-se de mim, vestiu-me, tomou-me pela mão e levou-me para sua casa. Chegados à sua morada, uma mulher veio ao nosso encontro, e falou. Ela era ainda mais terrível do que o homem e o hálito da morte saía de sua boca; o sopro mortal de suas palavras cortou-me a respiração. Senti-me desfalecer. Ela queria mandar-me embora, no frio, e eu sabia que ela mesma morreria, se me escorraçasse.

Mas o seu marido lhe falou de Deus. Logo ela se transformou. Enquanto nos servia a comida e me olhava, eu também a fixava: a morta se tornara viva e reconheci a Deus no seu rosto. Lembrei-me então, da primeira palavra de Deus: Tu conhecerás o que há nos homens. Assim aprendi o que há nos homens: amor. Na minha alegria de ter a revelação de uma das palavras divinas, sorri pela primeira vez. Tudo, porém, não me foi revelado a um tempo; ainda não sabia o que não é dado ao homem, e o que faz viver os homens.

Vivi um ano convosco. Veio o homem encomendar as botas, botas que deviam durar um ano, sem se deformar nem rasgar. Olhei-o e vi perto dele um dos meus companheiros — o anjo da morte. Ninguém o viu além de mim. Conhecia-o e sabia que antes do pôr do sol a alma do ricaço seria levada. Então pensei: o homem prevê com antecipação por um ano e não sabe que deve morrer antes desta noite. Lembrei-me da segunda palavra de Deus: Conhecerás o que não é dado aos homens. Já sabia o que há nos homens, e acabara de aprender o que não é dado aos homens. Não é dado aos homens conhecer as necessidades do seu corpo. Pela segunda vez sorri. Sentia-me feliz por ter visto o anjo, meu companheiro, e por Deus ter-me revelado a segunda palavra. Ignorava, contudo, o que faz viver os homens. Assim vivi esperando a revelação da última palavra divina. No sexto ano, a moça trouxe as gêmeas; reconheci-as e, compreendendo tudo, pensei:

"A mãe implorava pelos filhos; imaginei então que, sem pai nem mãe, as crianças perecessem e eis que uma mulher estranha as recolheu e as alimentou!"

Quando vi a moça chorar de emoção ao falar dessas pequenas estranhas de quem ela se compadecia, vi nela a imagem de Deus e compreendi o que faz viver os homens. Percebi que Deus me revelara a terceira palavra e me perdoara e, pela terceira vez sorri.

XII

A roupa desapareceu do corpo do anjo e ele se iluminou duma luz tão resplandecente, que os olhos humanos não a poderiam suportar. Sua voz, que parecia vir, não dele, mas do céu, elevou-se e disse:

— E compreendi que o homem não vive de suas necessidades, mas pelo amor. Não foi permitido à mãe saber o que faria viver a seus filhos; não foi permitido ao ricaço saber o que lhe era preciso; não é dado a homem algum saber se à tarde lhe serão necessárias botas de vivos ou sandálias de mortos. Transformado em homem, vivi, não porque soubesse satisfazer minhas necessidades humanas, mas porque houve um caminhante e sua mulher, cheios de amor, que tiveram pena de mim e me amaram. As órfãs viveram, não porque se preocupassem com elas, mas porque uma mulher estranha tinha amor no seu coração, se compadeceu de sua sorte e as amou. Todos os que vivem, não vivem por bastarem a si próprios, mas pelo amor que há no homem. Sabia, outrora, que Deus dera vida aos homens e quis que eles vivessem. Agora compreendo outra coisa. Compreendo que Deus não quer que os homens vivam isoladamente. Por isso não revela a ninguém o que lhe é necessário. Quer que cada um viva para os outros. Por esta razão revela a cada um o que é útil não somente a ele, mas também aos outros. Vejo agora que os homens que pensam viver unicamente das suas próprias inquietações, vivem, em verdade, somente do amor. O que vive do amor, vive em Deus, e Deus vive nele, porque Deus é o amor.

O anjo cantou louvores ao Senhor.

Sua voz fez tremer a choupana; o teto se abriu. Uma coluna de fogo subiu da terra para o céu. Simão, a mulher e os filhos se prosternaram no chão. O anjo abriu suas grandes asas e subiu aos céus.

Quando Simão voltou a si, a choupana já havia retomado o seu aspecto habitual e ele estava sozinho com os seus.