29/04/2008

O rouxinol e a rosa


— Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas — exclamou o Estudante — mas não vejo nenhuma rosa vermelha no jardim.

Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...

— Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! — repetiu o Estudante, com os lindos olhos cheios de lágrimas. — Ah! Como depende a felicidade de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.

E eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! — disse o Rouxinol. Gorjeei-o noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

— Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Se levar-lhe uma rosa vermelha, hei de tê-la nos braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará.

— Eis, na verdade, um apaixonado... — pensou o Rouxinol. — Do que eu canto, ele sofre. Aflige-o o que me alegra. Grande maravilha, na verdade, o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.

— Os músicos da galeria — prosseguiu o Estudante — tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... — e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.

— Por que está chorando? — perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.

— É mesmo! Por que será? — Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.

— Por que? — sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.

— Chora por causa de uma rosa vermelha, — informou o Rouxinol.

— Por causa de uma rosa vermelha? — exclamaram — Que coisa ridícula! E o lagarto, que era um tanto irónico, riu à vontade.

Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.

Subitamente, abriu as asas pardas e voou.

Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.

Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e pousou num galho.

— Dá-me uma rosa vermelha — pediu — e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!

— Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.

Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.

— Dá-me uma rosa vermelha — pediu — e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

— Minhas rosas são amarelas como a cabeleira dourada das sereias que repousam em tronos de âmbar, e mais amarelas que o asfódelo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez te possa ajudar.

O Rouxinol então, dirigiu o voo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.

— Dá-me uma rosa vermelha — pediu — e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

— Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.

— Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, — uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?

— Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.

— Dize. Não tenho medo.

— Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.

— A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha — exclamou o Rouxinol — e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola...O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?

Abriu as asas pardas para o voo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.

O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.

— Rejubila-te — gritou-lhe o Rouxinol — Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em consequência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia, embora sábia; mais poderoso que o poder, embora poderosa. Tens as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em teus braços e seu hálito lembra o incenso.

O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.

Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.

— Canta-me um derradeiro canto — segredou-lhe — sentir-me-ei tão só depois da tua partida.

Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.

Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.

— Tem classe, não se pode negar — disse consigo — atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual à maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa em cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!

Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.

Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais enterrou-se-lhe no peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...

Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.

Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. — Mais ainda, Rouxinol, — exigiu a Roseira, — senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.

O Rouxinol então jungiu-se mais ao espinho, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.

E ténue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.

Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco — pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa.

— Mais ainda, Rouxinol, — clamou a Roseira — raiar o dia antes que eu finalize a rosa.

E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o trespassou.

Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.

E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.

Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.

Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.

Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.

A rosa vermelha o ouviu, e trémula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.

— Olha! Olha! Exclamou a Roseira. — A rosa está pronta, agora.

Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.

— Que sorte! — disse — Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.

Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.

— Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, — lembrou-se o Estudante. — Aqui tens a rosa mais vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá quanto te amo.

Mas a moça franziu a testa.

— Talvez não combine bem com o meu vestido, disse. Ademais, o sobrinho do Camareiro mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...

— És muito ingrata! — exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.

— Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o sobrinho do camareiro... — e a moça levantou-se e entrou em casa.

— Que coisa imbecil, o Amor! — Resmungou o estudante, afastando-se. — Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.

Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...

Óscar Wilde

O Milagre

A mãe, com o seu instinto agudo de mulher, a chorar, até ao último momento lhe pediu:

- Não cases, filho. Pelo amor de Deus, não cases com ela... Acredita que não é por ser pobre: é por causa da casta... Adivinha-me o coração que vais ser muito infeliz.

O rapaz, porém, estava cego. Metera-se-lhe a Raquel no pensamento e não havia razão que o vencesse. Sabia que não era bonita, e via bem que nunca seria companheira para lhe jungir os bois e roçar um carro de mato. Mas gostava dela sem saber porquê, doida e teimosamente. Rapariga da sua criação, fora sempre adoentada e sorumbática. Apesar disso ganhara-lhe um tal amor que, não obstante as outras o picarem com ditos e darem a demonstrar que estariam pelos ajustes, acabou por lhe pedir namoro.

A rapariga atendeu-o sem grande entusiasmo e deu-lhe um sim que deixaria outro qualquer desiludido. Ele é que não precisou de mais.

Mal a notícia constou na terra, ninguém se resignou.

- Um rapaz daqueles merecia coisa melhor!

- protestavam todos.

Embora ninguém pudesse apontar à cachopa tanto como uma unha em matéria de honestidade e a pouca saúde não fosse propriamente um defeito, havia vários casos de loucura na família. E como o Pedro era uma espécie de príncipe da aldeia, são, alegre e lindo como um S. Vicente, tal união parecia-lhes um atentado contra a natureza.

- Homem, vê lá... Pensa bem no que vais fazer... - ponderou-lhe o prior. - A Raquel não é má pequena... Agora quanto ao resto... Tens de contar com a carga hereditária... Olha, eu não digo nada. Resolve tu...

Deu-lhe a mesma resposta que dava aos outros:

- Casamento e mortalha no céu se talha. A sorte quis assim, seja o que for.

E contra a vontade de todos - menos dos pais da rapariga, mortos por vê-la com dono -, casaram.

A princípio correu tudo pelo melhor. Embora não fosse a mulher de armas de que o rapaz necessitava no começo da vida, a Raquel lá ia dando conta do recado. Cozinhava, tratava dos vivos, chegava praticamente onde as mais chegavam. Só não engravidava. E a secura daquelas entranhas, que nos primeiros meses não admirou ninguém, ao cabo de três anos começou a causar engulhos ao povo e a inquietar seriamente o marido. Um rebanho de filhos, numa casa de lavoura, é uma riqueza com que o homem conta no bragal da mulher. E o Pedro, cansado de esperar secretamente e em vão o começo dessa colheita, não pôde reprimir a voz do instinto desiludido.

- Comprei hoje o lameiro à Margarida... - anunciou certo dia. - Vendi o vinho cá por uma certa conta... O pior é se nós andamos a trabalhar para o bispo...

A Raquel há muito já que empreendia, até aos limites do desespero, na sua infecundidade e fizera-se até benzer pela Ana Rosa. Por isso, ao ouvir a insinuação, abriu-se num pranto desfeito.

- Bem, não estejas a afligir-te... - consolou-a ele. - Ainda não é tarde... Quantas há que só ao fim de cinco e mais anos...

Desgraçadamente, a Raquel sabia que o seu ventre nunca se abriria para nenhum fruto. Desde nova que o negro pressentimento da esterilidade a atormentava. Só por essa razão não se atrevera a olhar para nenhum rapaz com olhos de terra em pousio, e aceitara o amor do Pedro sem dar mostras de contentamento. Na altura da declaração teve mesmo vontade de lhe confessar tudo. A natureza é que não se resignou a tanto. Talvez estivesse enganada... Infelizmente, o tempo encarregara-se de confirmar as suspeitas. E agora sofria duplamente, por se ver incapaz e traidora.

- Não. Nunca hei-de ter filhos... - respondeu entre dois soluços. - Tenho a certeza...

O homem olhou-a como se a visse pela primeira vez. Uma Raquel maninha não entrava no seu amor.

- Tu nem a brincar me digas isso! Começara reticente, benévolo, a interrogar e a compreender. Mas diante da negativa estreme, irremediável, passou a uma atitude de desilusão ofendida, revoltada e agreste.

Humilhada no que havia de mais profundo na sua condição de mulher, quanto mais o homem se recusava a encarar a verdade, mais ela, numa perversidade macerada, teimava em lhe varrer do espírito todas as esperanças.

- Digo, porque sei. - Como é que sabes?

- Sei. Estavam no quarto ano de casados e começou então o profetizado inferno dos dois.

- A Raquel não pode ter filhos... - confidenciou ele à mãe.

- Eu já calculava... Via-se logo pelo andamento! Futurei sempre que dali nunca te viria nada de bom... E se ainda se for aguentando assim com algum juízo, tens muita sorte...

Era a obsessão da pobre Filomena-a loucura da nora. Se iam ao mato juntas, se escolhiam batatas, se andavam sozinhas na despampa, olhava-a de soslaio de vez em quando, sempre à espera dum gesto, dum esgar, de qualquer manifestação do mal que a habitava. Conhecera-lhe um avô zaranza, ouvira falar de um antepassado também pouco católico da mioleira e à mãe, embora não fosse propriamente maluca, faltava-lhe uma aduela.

- Vossemecê para a consolação...

- Bem sei que te aflijo. Mas que queres? Agoura-me o pensamento que mais dia, menos dia, tens trabalhos... Oxalá que não...

E nem de propósito. Ou porque estava escrito, ou apressado pela conversa da véspera, o certo é que passado pouco tempo, depois de um período de exaltação em que as lágrimas e as gargalhadas se entremeavam numa volubilidade de folha de olmo, o temporal desabou. Vinha o Pedro de ganhar a jorna, por sinal carregado de canhotas para o lume, abriu a porta, e voou-lhe uma faca ao peito. Desviou-se e ficou transido. A desgraça de que todos o tinham prevenido estava à sua frente, absurda e terrível, na figura da mulher, sinistra, de olhos esbugalhados e a espumar.

- Ah, Satanaz, que te hei-de matar! - gritava ela, como se visse o próprio demónio.

E o infeliz, a estalar de angústia, desandou a chave e foi dormir a casa da mãe.

No dia seguinte não se falava na terra doutra coisa. Passavam a dolorosa notícia uns aos outros afanosamente, numa agridoce emoção de prescientes e não ouvidos conselheiros.

A crise durou três dias, repetiu-se pouco tempo depois, tornou a voltar, e alguns anos decorreram naquela triste vida. Em casa do Pedro nem havia paz, nem esperança, nem nenhuma das alegrias a que tem direito o mais humilde lar deste mundo. As horas decorriam à espera de novo acesso, as sementeiras e as colheitas andavam à mercê das luas da Raquel, tão depressa cordata como enfurecida.

Até que num inverno a escuridão veio e ficou. Passou uma semana, passou um mês, passaram dois, e a demente aos gritos, varrida, fechada no quarto como uma reca num cortelho.

- Sou eu, mulher! O Pedro! Não me conheces?

De nada valia. Atirava-se a ele, possessa, e eram precisas forças sobre-humanas para lhe desprender as garras traiçoeiras.

O médico há muito que o desenganara da cura. E o desgraçado, numa derradeira braçada de náufrago, resolveu levar a doente a Mondrões, a S. João Baptista. Tinha de ir só com ela, como expressamente recomendou a Ana Rosa, que bem ou mal fazia de bruxa do lugar. Espalhava sal em todas as encruzilhadas que encontrasse, rezava a seguir uma oração que ela lhe ensinou, e dava dez voltas ao adro da ermida com a endemoninhada.

Relutante a crendices, temente a Deus, o Pedro lutara até onde lhe fora possível dentro das regras do bom-senso e da farmácia. E como nada conseguira, dispôs-se a experimentar aquela mezinha sobrenatural.

Com a ajuda dos vizinhos, amarrou a mulher bem amarrada sobre o macho, e meteu-se a caminho. Saiu de madrugada, num dia de sincelo que embranquecia todas as esperanças. Cuidadosamente, mal chegava a qualquer cruzamento, atirava a mão-cheia de sal e rezava a prece. Depois, alheio aos olhares invisíveis e rancorosos dos espíritos maus, que a feiticeira lhe garantiu que o espreitavam, seguia.

Apanhou-os o alvorecer em plena serra, no

Alto Cabeço, um ermo de causar calafrios. A doida, cansada dos arrancos que dera, ia agora mais calma, a monologar tolices que ele nem queria ouvir.

O macho choutava sobre o codo, resignado. E o Pedro, à frente, de rabeira no braço e mãos nos bolsos, arrastava animosamente a sua cruz. Pelas alturas da Tamargueira, a Raquel teve nova fúria. Esticava as cordas, fazia oscilar o animal, dava gritos desmedidos e pavorosos, que as fragas devolviam num eco de arrepiar. Outro esconjuro e outra salgadela ao terreno lá fizeram amainar a tempestade, e a peregrinação pôde continuar.

Chegaram tarde à capela. E, depois das voltas do preceito e das rezas recomendadas, a doente não parecia a mesma.

- Estou boa, homem! Estou curada! Podes-me desamarrar...

Farto de desilusões, o Pedro fez ouvidos de mercador. Deu grão ao macho, estendeu à mulher um pedaço de frango do farnel, comeu e resolveu aguardar os acontecimentos, a ver se o milagre tinha solidez.

Entretanto, o tempo começara a enfarruscar-se e leves flocos de neve surgiram no espaço, a dançar. Mau! O programa não previa um regresso atormentado, de mais a mais depois dos resultados auspiciosos da romagem. E, para abreviar caminho, resolveram voltar por Justes. Havia o perigo da ponte, mas era mais perto.

Partiram como chegaram, ele à arreata e a mulher empoleirada na azémola. E quando, passada uma hora de serra, dobraram a lomba de Moira Morta e pensavam ter escapado ao temporal que os perseguia, acharam-se com espanto num mar de brancura.

- Éh! com Deus! Como isto se pôs! A besta enterrava-se até à barriga, o arrieiro via-se e desejava-se para dar uma passada, e a

Raquel ia como uma moleira, no seu trono.

- O pior é se nos anoitece aqui!

- Não te aflijas, homem. Lá para baixo há-de estar melhor. Mas desata-me, que não posso mais dos pés...

- Daqui a bocado... Vamos a ver se rompemos...

Guiados pelas mariolas de sinalização - marcas de pedra solta, que o rapazio do gado desfizera, aqui e ali, para confusão e pânico dos viandantes -, ao cabo de algum tempo de luta avistaram a garganta do Cabril. _ Se conseguirmos atravessar, estamos safos! - disse o condutor da caravana.

- Mas desata-me. Desata-me, que estou gelada...

Tudo quanto se avistava era branco e calmo. As penedias, majestosas no seu manto de arminho, pareciam deusas tutelares. O próprio fragor da torrente, que espraiada até ali se despenhava subitamente num desfiladeiro apertado e a pique, morria abafado nas paredes almofadadas da escarpa.

- Tu sentes-te mesmo boa, boa de todo? - perguntou ele, inseguro.

- Sinto, homem. Acredita! - É que passávamos melhor se descesses...

O pontão é estreito e o macho pode escorregar...

Estavam perto do passadiço, duas lajes desguarnecidas atravessadas sobre o precipício.

- Estou curada. Podes crer... Nunca, desde o primeiro dia da doença, a mulher lhe falara com tanta naturalidade e propósito. E, como isso acontecia depois da visita devota, o companheiro acreditou no bafejo divino.

- Então apeia-te.

Parou o animal, desatou a corda, e ofereceu os braços abertos à mulher.

A doida, então, saltou da albarda, sacudiu-se e caminhou calmamente até ao pontão. Mas antes que o homem pudesse sequer fazer um gesto, viu-a voar de saias abertas sobre o despenhadeiro.

- Satanaz! - ouviu ele, como um último adeus maldito.

- Satanaz... - repetiu o eco, escarninhamente.

O corpo perdeu-se no fundo do boqueirão, e o Pedro ficou em cima, especado, atónito, de boca aberta. O macho encolhia as orelhas à neve, que recomeçara a cair.

- Seja feita a vontade de Deus... - disse por fim o infeliz, como que a lavar as mãos da desgraça.

O seu desespero não cabia numa fórmula ritual, a que faltava verdadeira palpitação humana. A dor que sentia não achava lenitivo numa passiva aceitação da vontade do Criador. Mas submetia-se humildemente ao seu arbítrio. Jogara e perdera. Porquê? Não sabia, nem poderia talvez sabê-lo nunca. Era um pobre de Cristo a tropeçar no mundo. O destino servira-se do seu coração como dum castiçal, onde fizera arder até ao fim do pavio a vela da ilusão e da esperança. justa ou injustamente?

Como se quisesse ouvir a resposta da boca da própria morta, debruçou-se sobre o abismo.

- Raquel! - gemeu em carne viva, quando o silêncio se tornou cruciante.

- Raquel! Do fundo do poço, porém, só regressava o eco deformado do seu apelo.

Desvairado, tentou então descer o desfiladeiro, num cego impulso de fidelidade ao amor e ao dever. Mas aos primeiros passos ia-se precipitando também no túmulo maldito. A neve adoçara os acidentes e cada palmo de chão era uma armadilha disfarçada.

- Não lhe posso acudir de maneira nenhuma... - confessou, vencido. - É tudo contra!...

As palavras de desalento soaram como pedradas na muda serenidade que o rodeava. Anoitecera., e a serra, que no crepúsculo de há pouco perdera a brancura de cal e a quietude, à luz do luar nascente tornara-se lívida e petrificada.

- Não sei o que hei-de fazer... Abobalhado, sem poder reencontrar na irrealidade do que se passara a sua própria realidade, acabou por descobrir na presença viva do macho uma espécie de irmandade protectora. E num automatismo de sonâmbulo, cavalgou-o e deixou-se levar passivamente.

Só na Chá de Panóias o rasto de uma nova violência, marcado no fofo pergaminho da neve, o acordou.

- Lobo... - murmurou calmamente.

O muar estremeceu-lhe debaixo dos joelhos e uma massa viva, familiar, apareceu na vezeira ao fundo, abandonado.

- Que é aquilo? - perguntou alto, como se o pobre animal seu companheiro tivesse entendimento e fala.

A resposta entrou-lhe pelos olhos, apenas se aproximou: era uma vitela estendida e esquadrilhada entre duas urgueiras.

- Foi ele, o malvado! Agadanhou-a mesmo agora. Nem teve tempo de a acabar. Largou-a quando sentiu gente...

Sem se poder erguer, a rés jazia moribunda à beira do curral deserto, a que não chegara a tempo de o pastor a levar. Tinha uma grande ferida na cernelha, onde a fera ferrara os dentes quando lhe saltou ao lombo. A articulação das mãos estava desfeita, todo o corpo sangrava dos golpes abertos pelas garras agressoras, e a vida teimava em persistir ali, arquejante e sem esperança.

No pensamento atribulado do Pedro, a imagem repousada da mulher, liberta no fundo do abismo, sobrepôs-se subitamente à imagem crispada que o acompanhava. Humana e compreensivamente, viu a doida serena e feliz pela eternidade fora. Num relance, avivou-se-lhe na memória o íngreme calvário da companheira, subido entre noites negras de demência e dias claros de incerteza. Ao menos agora o corpo e o espírito da desgraçada estavam em paz. Uma paz conquistada a desespero, mas que força nenhuma podia mais perturbar.

Iluminado por esse clarão revelador, que lhe tornava inteligível o que até ali fora apenas no seu entendimento um desígnio oculto do destino, desceu então os olhos calmos e fraternos sobre o corpo mutilado e sofredor da toira, apeou-se do macho, tirou do bolso a navalha de ponta e mola e, piedosamente, sangrou aquela alma dorida.



Miguel Torga, Novos Contos da Montanha




22/04/2008

A Confissão

Sentia ainda o cinturão do sargento a cortar-lhe a carne. A mocidade de Fontela, amontoada no posto da guarda, em Freixeda, ia sendo interrogada assim.

- Outro! - ordenava a voz sinistra lá de dentro.

E enquanto o cabo Silvino atirava pela porta fora um desgraçado de camisa despedaçada e a escorrer sangue, recebia guia de marcha novo bombo para a festa.

- Tu.

- TU.

- Tu.

- E agora nós... Retesou a vontade. Já só faltava ele e a própria mudança no tom e nos termos da intimação dizia tudo.

Preso logo a seguir ao crime, negara redondamente que fosse o criminoso. E o inquiridor recorria ao seu processo habitual nos casos complicados: juntava os suspeitos e os insuspeitos no mesmo redil e levava-os a cito. A verdade acabava por sair do látego, ou confessada ou denunciada.

Entrou calmamente e tentou provar mais uma vez a sua inocência. Brigara, realmente, na noite de Reis com o Armindo, de quem, como toda a gente podia testemunhar, era amigo. Andavam na paródia, beberam muitos quartilhos e, às tantas, por dez réis de coisa nenhuma, pegaram-se. Dera, levara, mas em luta aberta e leal. No fim da zaragata, bem apalpados ambos, seguira cada qual o seu caminho e do fundo da rua é que ouvira gritar aqui del-rei.

- Confessa. Confessa, que é melhor... - Já lhe disse que não fui eu!

- Queres provar da marmelada, está visto. Pois seja feita a tua vontade.

Olhou fixamente o fatinário antes do primeiro golpe. Sabia que as aparências o comprometiam e que caíra nas mãos do Diabo. Todos, aberta ou encobertamente, o consideravam o autor do crime. A própria vítima o apontara à justiça.

- Ah! Bernardo, que me mataste! - gemera o Armindo, ao sentir-se trespassado pelas costas.

E a Júlia Garrido, que já estava na cama e ouvira a acusação, acrescentava que, sem pôr as mãos nos Evangelhos, ia jurar ter reconhecido o vulto dele a esgueirar-se pelo quelho, quando, alarmada, correu à janela.

Com provas de tal natureza, ninguém duvidava da sua culpa. E muito menos o sargento, que só por táctica armara aquela comédia. Até no simples facto de o guardar para remate do arraial mostrava claramente o jogo. Tentava atemorizá-lo pondo-lhe diante dos olhos o sudário prévio do que se ia passar. Mas um homem é um homem e quem não deve não teme. Altivamente estremou os campos.

- Faça como entender, na certeza de que está muito enganado se cuida que me obriga a ser o que não sou.

- Talvez mudes de opinião daqui a nada. Ora vamos lá...

O azorrague zuniu e nem se queria lembrar do tempo que durara aquele malhar sem tino. Os últimos golpes já quase os não sentira, de tal modo ardia todo numa dor viva. Por sinal que foi durante a pancadaria que teve o pressentimento do que se passara. De repente, como que iluminado por dentro, viu o Reinaldo apagado na escuridão a assistir à bulha, seguir o Armindo depois da refrega e aproveitar a ocasião para o esfaquear à falsa-fé quando o desgraçado virava a esquina da casa. Despeitado por se ver preterido por ele no coração da Silvana, vingava-se a coberto de qualquer perigo. Se tinha havido barulho antes da morte, nada mais natural do que pensar num desforço traiçoeiro do adversário de há pouco...

O vozeirão do sargento quebrou-lhe o fio à meada.

- Então? Chega ou queres mais? Arquejante, numa posta de sangue, ainda arranjara forças para recalcitrar.

- Nem que me corte aos bocados! Nego e torno a negar.

O carrasco abaixou o chicote e chamou o ajudante.

- Solta os outros e põe este de salmoura. Amanhã continuamos.

Estendido nas lajes da prisão, com a roupa colada ao corpo retalhado, malucou naquela miséria. Por todos os lados que a encarasse, ia dar sempre ao mesmo. Ninguém o acreditaria, dissesse o que dissesse. Infelizmente, a verdade, no seu caso, não tinha demonstração. Teimar em proclamá-la? De que valia? Surdo, o sargento não a podia ouvir. E o sargento era Freixeda e o resto do mundo. Lançar o nome do Reinaldo na fogueira? Talvez outros o fizessem. Ele é que nunca. Nem tinha a certeza, nem era denunciante. Portanto, só havia um recurso: fugir.

E fugira, realmente, nessa mesma noite, coisa que não passara sequer pela cabeça do da guarda. Tanto assim que nem sentinela mandara pôr à porta da velha cadeia concelhia onde agora o guardava sozinho. Embora a saber que escapulindo-se confirmava para o resto da vida a acusação que lhe faziam, às tantas da manhã, com a energia, a paciência e a arte de que apenas se é capaz nas horas apertadas, ala que se faz tarde.

Passou por casa, mudou de roupa, pediu dinheiro emprestado, e antes de o sol nascer atravessou a fronteira.

Voltava agora, decorrido meio século, velho, pobre, amargurado, com toda uma existência de exilado atrás de si e dorido ainda dos golpes injustos que recebera. A que vinha? Rever a terra da criação, rezar duas avé-marias na sepultura dos pais e calar uma ânsia obscura de resgate que os anos tornavam cada vez mais premente.

Não anunciara a chegada nem mesmo à única irmã que lhe restava. Vinha como um fantasma sorrateiro apropriar-se da realidade de que fora espoliado.

Passageiro anónimo da camioneta da carreira, apenas ela o alijou no largo, ficou-se pasmado a olhar o fontanário, o cruzeiro, o rego de água que atravessava a povoação e o casario que a tarde mortiça tornava sonolento. E apeteceu-lhe chorar.

O que ele fora e o que ele era agora! Naquela terra sonhara e confiara. E daquela terra o expulsara a maldade de alguém que, sem remorsos, ali pudera continuar no aconchego das coisas familiares. Cinquenta anos de vida errante, com o labéu dum assassinato a roê-lo. Aonde chegava, chegava a sombra do homicida que não era. Até nos olhos dos que não conheciam a história do crime lia sempre a negra acusação. O tempo acabara por lhe delir na própria lembrança a imagem vislumbrada do possível criminoso. Nítido na sua consciência e na do mundo, apenas um nome infamado: o seu. _ Oh! Bernardo! - gritou-lhe uma voz cavernosa atrás das costas.

Voltou-se. Era o padre Artur, seu companheiro de meninice, ainda seminarista na altura do crime. Sempre a pastorear freguesias longínquas, fora finalmente encarregado do rebanho nativo.

- Oh! Artur! - correspondeu num alvoroço, esquecido de distâncias e conveniências.

Caíram nos braços um do outro, num irresistível impulso fraterno.

- Ainda bem que voltaste! Ia-te escrever hoje. Até pedi a direcção a tua irmã. Tinhas-lhe dito que vinhas?

- Não valia a pena...

- Então vai ter com ela e amanhã falamos. É que o Reinaldo morreu esta manhã. Ouvi-o ontem de confissão... Eu sempre acreditei na tua inocência, rapaz!

Melancolicamente, pegou na mala e deu alguns passos em direcção à casa paterna. Mas logo adiante parou, depus o carrego e mudou de rumo.

No cimo da rua principal desandou à esquerda, atravessou vários quinteiros, subiu as escadas do Reinaldo e entrou.

O ambiente era lúgubre. Havia lágrimas e luto em todos os olhos.

Rompeu por entre a multidão que se acotovelava, sem ninguém o reconhecer.

- Quem é? - perguntavam. - Não sei.

O cadáver jazia ainda sobre a cama, já vestido, à espera do caixão.

A passos lentos aproximou-se e fitou durante alguns momentos a figura hirta e mirrada do defunto. De repente, num ímpeto, deitou-lhe as mãos às abas do casaco, ergueu-o e rouquejou, fora de si:

- Estás morto, é o que te vale. Mas mesmo assim não vais deste mundo sem duas bofetadas na cara, covarde!

E deu-lhas.


Miguel Torga, Novos Contos da Montanha



21/04/2008

A menina sem palavra



Little Girl with Pray Rock Art Print by Laura Monahan
(“segunda estória para a Rita”)


A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dialecto pessoal e intransmixível? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam percepção da menina. Quando lembrava as palavras ela esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava em língua que nem há nesta actual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entonação. E era tão tocante que havia sempre quem chorasse.
Seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implorou, certo que falava sozinho:
- “Fala comigo, filha!”
Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse:
- “Mar”...
O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. “Vês, tu falas, ela fala, ela fala!” Gritava para que se ouvisse. “Disse mar, ela disse mar”, repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.
O pai não se conformou. Pensou e repensou e elabolou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.
A menina chegou àquela azulação e seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.
- “Venha, minha filha!”
Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?
- “Vamos f lha! Caso senão as ondas nos vão engolir”.
O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Mas peso tão toneloso jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?
Desistido e cansado, se sentou ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas pareciam já se enrolar no peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:
Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
- “Pai!”
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.
Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e se calou. A história tinha perdido fio e meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os pés dele, as pernas de sua filha? E ele, em desespero:
- “Agora, é que nunca”.
A menina, nesse repente, se ergueu e avançou por dentro das ondas. O pai a seguiu, temedroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai se espantou com aquela inesperada fractura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos se escoariam?
- “Filha, venha para trás. Se atrase, filha, por favor”...
Ao invés de recuar a menina se adentrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida se fechou, instantânea. E o mar se refez, um. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e 0 conduziu de rumo a casa. No cimo, a lua se recompunha.
- “Viu, pai? Eu acabei a sua história!”
E os dois, iluaminados, se extinguiram no quarto de onde nunca haviam saído.


Mia Couto, Contos do nascer da Terra

O Celacanto

Eu não tinha o privilégio de saber o que era um celacanto nem vontade de confessar a Jacinta essa minha ignorância. Sentia-me muito ensonado e deixei-a falar, falar. Isto e a concentrar-me no fio telefónico anelado, suspenso da minha mão esquerda. Má invenção a dos fios espiralados, doidos de vida, que se enrodilham, mínimos e complicativos, ávidos de enovelar dedos incautos. Parece que praticaram em filmes de terror. O auscultador a rodopiar, e a chegar-me, sincopada, presente, ausente, presente, ausente, a voz célere de Jacinta. Perdi muitas das palavras dela, poupa-se-me o trabalho de as reproduzir. Interessava-me suster o auscultador no ponto exacto em que ele desataria a girar ao contrário e a ensarilhar o fio ao invés, para, brusco, lhe impor uma flexibilidade doméstica, honrada. Eram nove horas, Sábado, eu ainda estava na cama e não me ocorria pronunciar-me sobre celacantos, fosse isso o que fosse. Ligando palavras e retalhos de frase, num raciocínio pouco rápido e menos hábil, cheguei à suspeição enevoada de que ela havia perdido um celacanto e quando voltei a encostar o auscultador ao ouvido, tranquilizei: “deixa lá, depois compras outro”. Se fosse eu a perder um celacanto nunca mais sequer pensaria no assunto. O silêncio escuro que gelou o auscultador assinalou-me a reacção hostil, do lado de lá. Ainda balbuciei: “Jacinta! Jacinta”! Mas desliguei, depois de ouvir um convicto sinal contínuo.

A minha relação com Jacinta havia esmorecido há meses, lentamente, sem drama, em distraída delonga, como um anoitecer suave. Fomos deixando de nos ver, esquecendo isto e aquilo. Jacinta era possuída dum excesso de energia e de vontade que, não raro, se tornava fastidioso. Conferia minuciosamente as contas do restaurante, levantava-se pela alba, tagarelava com a porta do elevador entreaberta, discutia com a vizinhança, e administrava ao mesmo tempo quatro ou cinco actividades muito embrulhadas. Eu era a quinta ou sexta. Fui deixando de aparecer e Jacinta não deu mostras de reparar nisso. Passou a telefonar-me, de vez em quando, muito espaçadamente, só para comunicar assuntos rebarbativos, como se eu me tivesse tornado numa espécie de consultor para sensaborias. Desta vez era o tal celacanto. Fiquei arrependido de ter cometido alguma falta, embora sem saber bem qual fosse. Insustentado e moengo, havia um sentimentozinho de culpa a zunir-me em qualquer lado.
Mas, pouco tardou, vinha Jacinta de novo ao telefone, na altura em que eu já ia em meia cara barbeada. Pensei: “estou aqui, estou a encher o bocal de creme de barbear”. Meu dito, meu feito. Jacinta pôs-me ao corrente da situação, agora em voz pausada, muito tranquila, com insistentes “percebes?” intercalares, para se assegurar de que eu me não distraía. Foi abstracta, vaga, mas autoritária. Daí a nada, estava eu a encontrar-me com ela, num café à Escola Politécnica. O telefone ficou coberto de espuma branca, fervilhante e gordurosa. Não é que isso tenha importância. Mas irrita-me sobremaneira.
Foi breve nos cumprimentos, como se nos tivéramos encontrado ainda ontem e entrou logo na matéria, começando pelo respectivo contexto. Era agora sócia duma galeria de arte, muito ampla, generosamente estipendiada, que expunha “instalações” de jovens escultores. Mais tarde eu teria ocasião de ver as “instalações”. Um enorme pássaro de bico esponjoso, oscilante, que se embebia de um líquido viscoso a rasar um bidão amolgado, de obras. Um espantalho vestido de fraque no chão exibia entre as palhas dos pulsos uma cartolina que dizia “Apressa-te”, em gótica. Um altifalante, entre risos de criança, debitava, cavernoso: “nem tanto, nem tanto”. E um tractor de brinquedo ia chocando com as paredes e os pés dos visitantes, até que se lhe acabassem as pilhas que um funcionário de camisola rolada substituía. Num canto, um enorme escorrega de madeira deslizava para uma roda ouriçada de lâminas, sempre a girar. Uma pantalha gigante mostrava uma cidade arreganhada de arranha-céus, com o Papa a sorrir, no canto inferior esquerdo. Som de passarada e uma vozinha, a espaços: “guarda-te em casa”! Das outras “instalações” não quero lembrar-me agora.

“Pronto, um celacanto, e depois?” Eis uma significativa colher que redemoinha na chávena de café de Jacinta até mais o aquecer pelo atrito, dingalingue, e já está em brasa outra vez. “Não digas mais nada! Não te atrevas! - Era Jacinta agora, de colher em riste, apontada ao meu sobrolho. Havia um inquietante resplendor de beleza, naqueles olhos pretos, matadores, e na boca franzida em fúria. O instante valia bem um celacanto. Mais do que a ouvir, eu deliciava-me a olhar para ela. Nunca tinha apreciado, em melhores horas, estes tentadores momentos de cólera. E o celacanto, bem entendido, o que era?
Um peixe. Existe na terra há mais de setenta milhões de anos, mas nunca demos por isso. Surgiu primeiro aos observadores em forma de fóssil, sumido e trabalhoso. Considerou-se extinto, lá para as funduras dos antedilúvios primordiais. Até que um dia se descobriram celacantos vivíssimos da costa a serem pescados no Canal de Moçambique. Iguaizinhos aos fósseis, mas com mais energia. São desconformes, largos, pardos, feios e sofrivelmente comestíveis. Jacinta leu uma reportagem em qualquer lado e teimou que precisava de um celacanto para honrar a exposição. Questão de dias, achar contacto em Moçambique e negociar uma transferência do celacanto, em bojo de avião, num tanque especial com a inscrição “xarroco tropical”. Foi um negócio caro e escuro. Ao que parece, o celacanto está planetariamente protegido. Mas o patrocinador da expedição, um construtor civil ligado ao futebol, e com interesses em África, achou graça à ideia. E assim, o “xarroco tropical” desembarcou no aeroporto de Lisboa, marchou num contentor até à Escola Politécnica e foi despejado num aquário com todos os requisitos. Passou a ser celacanto outra vez.

“ E estava de boa saúde, o bicho?” – perguntei eu. “É melhor vires ver!”, respondeu Jacinta. Eu protestei. Não queria ver peixes doentes. Jacinta derribou mais o sobrolho. “Anda daí”. Era como faíscas a chisparem do corpo dela e um tornado em redor. Ala rua afora e eu atrás, com medo de a irritar mais.
A porta da galeria era de ferro grosso forjado, com mais arrobas do que um primeiro arremesso de Jacinta poderia suportar. Meti corpo a ajudá-la, muito embaraçada com as chaves, e, no interior, a fui eu quem encontrou o interruptor da luz. A porta ficou aberta. Achei interessante aquele nervoso contacto de mãos e aquela cumplicidade de guerra. Mas Jacinta não estava, decididamente disposta a sentimentalices. Ainda as luzes fluorescentes se indecidiam, naquele irritante vai não vai que lhes é próprio, já Jacinta se precipitava, quase correndo entre as “instalações”. Vestida de preto, a figura sobressaía elegantemente entre a brancura de luzes e de painéis. “Anda, anda depressa”. Eu tinha ficado a olhar para um tanque de vidro esverdeado, cheio de águas, com tubos pretos a borbulhar e uma inscrição numa placa de madeira. “celacanto”. O aquário estava vazio, mas Jacinta nem lhe deitara um olhar. Parou em frente duma porta, encostou-se a ela, braços afastados como se a quisesse proteger e disse-me, alto: “estás preparado?”. Eu, cá por mim, estava por tudo. Mas ela não queria resguardar a porta. Era um arremesso de dramatização. Tanto que a abriu.

Clique de luz. Aquilo era um compartimento alto, interior, muito branco, com meia dúzia de caixotes encostados a parede. Um vazio reflectido que fazia mal à vista. Jacinta olhava para cima, à procura de qualquer coisa. Mas eu sobressaltei-me com uma sombra lenta que se ia contorcendo pelo chão. Só depois encontrei o olhar de Jacinta e me apercebi da origem da sombra. Lá no alto, logo abaixo da lâmpada fluorescente, sereno e majestoso, de barbatanas peitorais em riste, vogava um grande peixe, do tamanho dum atum, dos grandes. A cauda parecia ter sido cortada e substituída por um rendilhado de escamas. A bocarra transversa, medonha, mantinha-se felizmente, fechada. “Aí o tens!” e Jacinta atirou o pulso ao alto, com o ar triunfante de quod erat demonstrandum. Quando eu lhe observei timidamente que os peixes não voam, ela respondeu, irónica, que os moscardos também não podem. Tirando o moscardo, a única vez que vi um bicho a voar sem ter com quê, foi uma cobra num livro de Lídia Jorge. Mas isso era ficção, a mesma autora não o nega. Agora aquele celacanto, ainda por cima grosso, feio e mandibulado... Jacinta desapoquentou-me. Ele era sossegado, não fazia mal, não apreciava humanos. Nem sequer nos olhava. Com efeito, o animal sustinha-se lá em cima, numa trajectória lenta, circular, as barbatanas a ondular ao de leve, o olhos postos na luz.

“Que é que eu faço, diz-me”?, arrepelava-se Jacinta. “não sei, respondi eu, talvez se chamasses alguém...!”. “mas porque é que pensas que eu te telefonei?”. “Eu?” A meio do altercado porque tira e porque deixa que se seguiu, Jacinta levou, de repente as mãos à boca e faltou-lhe a voz. Eu aproximei-me, inquieto, apaziguador, mas ela pronunciou, num soluço: “a porta!”. Voltei-me e ainda distingui o rabo franjado do celacanto a sumir-se, rés ao canto superior direito da ombreira. Reagimos demasiado tarde e, presumo, se tivéssemos reagido cedo, o resultado seria o mesmo. O celacanto atravessara o salão em dois tempos e esgueirara-se pela porta de saída para o sol da Rua da Escola Politécnica. E aí planava ele agora, luzidio, a observar com curiosidade um letreiro duma agência imobiliária.
Aos transeuntes importava mais, porventura, o nosso aspecto de par desinquieto, aos saltinhos, ora a afastar-se, ora a unir-se, que aquela figura de peixe que se deslocava lentamente nas alturas dos primeiros andares. É mais sedutor observar pelo canto do olho um casal atabalhoado, do que prestar atenção a um bicho pairador que pode muito bem ser um truque publicitário. Houve um sujeito que fez pala com as mãos, em frente dos olhos, examinou o celacanto e, depois, prosseguindo marcha, nos informou, com ar de desdém: “é um xarroco gigante.” Jacinta teve esperança de que, agitando os braços, conseguiria convencer o animal a reentrar na galeria. Eu fiz de conta que não a conhecia, quando ela começou naquele preparo, e embebi o espírito numa montra de calçado. Pelo reflexo, notei que o celacanto ia deslizando, devagar, pelos ares, com um esforço mínimo para evitar fios e tabuletas. Jacinta estava de novo junto de mim, aflita: “e se ele desce e é atropelado por um autocarro?”. “Há celacanto para o jantar!” Mas o peixe já ia a virar para o Monte Olivete!”.

Chegámos esbaforidos ao cruzamento. O celacanto parecia à nossa espera, à altura de três ou quatro metros, do lado esquerdo da rua, cabeçorra encostada a uma janela. Não tinha uma figura elegante, mas apesar de pesadote e torto, balançava-se com uma lentura mansa, muito contida e aristocrática. Fiquei na esquina, em observação. Jacinta optou por descer a rua e desatar aos gritos, “Ei, ei!” E o celacanto, nada. Fui-me chegando, a olhar para cima, mas sempre fingindo que não conhecia Jacinta.
De súbito, podia esperar-se tudo menos isto: não é que as vidraças se abrem, repica delas um guarda chuva enorme, daqueles que se usam nos campos, fecha e abre e fecha e abre, como um molusco das profundas e envolve o celacanto, que mal se debate? Jacinta e eu vimos umas contorções lentas e umas sacudidelas inconvictas, entre o drapejar de panos do guarda chuva e depois foi uma recolha sugada, janela dentro e a vidraça fechada com estrondo. Interroguei Jacinta com o olhar, porque a fala não podia. E ela, plantada no passeio, com os punhos nas ancas, bramiu: “Isto não fica assim!”
Eu, por mim, dava a jornada por terminada e o celacanto por bem entregue, mas Jacinta arrastava-me pelo braço: queria apresentar participação na polícia. “Escuta, pára e ouve-me bem. Vais queixar-te de que um peixe entrou por uma janela, a voar...?” “Entrou? Qual entrou? Tu sempre a simplificar. Foi roubado. Eu bem vi o truque do guarda-chuva”. Enquanto, a largas pernadas, percorríamos a Escola Politécnica em direcção à Esquadra do Rato, eu procurava demover Jacinta de recorrer à autoridade. Não via ela que nem o polícia mais arguto e letrado de Lisboa estaria disposto a admitir um celacanto voador capturado nas alturas do Monte Olivete? “Eles dão-te um calmante, eles chamam a ambulância, eles internam-te, vais de camisa de forças!” “Eu sei o que faço”, respondia-me ela, e sempre a andar.
Furou pela esquadra dentro, não ligou ao agente de serviço, foi direita ao comissário. Eu já tinha preparado uma justificação na ponta da língua: “aqui a minha amiga anda muito nervosa, excesso de trabalho, dá-lhe para ver coisas, desculpem lá, ela precisa é de repousar, eu levo-a, eu levo-a”. Mas Jacinta, muito calma declarava, alto e bom som, que um jovem lhe tinha roubado por esticão um fio de ouro e depois se havia barricado num primeiro andar da Rua do Monte Olivete, insensível a protestos. E eu, que me encontrava ali por acaso, e tudo minuciosamente presenciara, podia ser arrolado como testemunha. Correram autos e pormenores. Mas, daí a pouco, derivávamos ambos no banco de trás dum carro de polícia, ziguezagueando, com a sirene ligada, a caminho do desconhecido. Sussurrei a medo, confiante em que a sirene me cobrisse as palavras: “sabes em que é que te meteste? Denuncia caluniosa! É sinistro, devastador” “Estou-me marimbando”, respondeu Jacinta, “estes é como se andassem a pisar ovos. Carregue-lhe no prego, ó senhor guarda!”. E fizeram-lhe a vontade.

Numas escadas melancólicas, acudiu à porta um velho magríssimo, em pijama, de ar amolecido, dobrado, chorincas. Pela fresta entreaberta, os polícias e nós podíamos distinguir uma velhota de xaile de lã e uma rapariga sombria, sentadas a uma mesa. A mobília era pobre, desconforme, gasta por muitos tempos. Um dos agentes perguntou onde é que estava o rapaz. O velho ficou-se, a olhar, sem atinar com o que dizer. Jacinta entrou de rompante, antes que o agente inquirisse, formalmente se estávamos autorizados.
Era desconsolador, invadirmos assim aquela sala pobre e sentir o desconforto e o pasmo dos inquilinos. Mas Jacinta não estava sensível a misérias. Reparou logo no desmesurado guarda-chuva, encostado a um dos lados do aparador. Apontou e fez-me um sorriso triunfal. E ainda o agente da autoridade indagava dos timoratos inquilinos se havia entrado ali um rapaz portador dum alheio fio de ouro, quando ela bradou: “Olha! O celacanto”. A cabeçorra achatada do peixe espreitava, acima da sanefa de veludo antigo, cor de burro quando foge. Ao grito de Jacinta estremeceram convulsos os panos, expeliram poeiras e, num impulso, o celacanto debateu-se e lá veio plantar-se preguiçosamente ao lado do candeeiro de pingentes. Foi com o guarda-chuva que, muito bélica, Jacinta o empurrou dali para fora e escada abaixo. E, desta vez, pela pressa com que escapava, o celacanto parecia assustado.
Mais assustado fiquei eu que, ali mesmo, tive de dar embrulhadas explicações á polícia e pedir desculpas aos moradores. A autoridade não estava muito interessada no peixe, mas achava tudo aquilo um tanto esquisito e, porventura, profanador da legalidade. Procurei tranquilizá-los. Expliquei que a minha amiga era veterinária e estava a fazer uma experiência científica, aliás confidencial. Ainda assim, fui identificado e convidado a passar pela esquadra no dia seguinte. Os polícias saíram desconfiados, deitando-me olhares de revés. Mas tive oportunidade de rosnar para o velho chorincas quando ele ia a fechar a porta: “Com que então a roubar celacantos, hem? Livrem-se.” Lá fora ululou a sirene da polícia e foi-se perdendo, por Lisboa.

Ainda alcancei Jacinta na Rua da Escola Politécnica, em galope suado, brandindo o guarda-chuva e pastoreando o celacanto que deslizava rápido, por sacões, aparentemente com medo da ponta do artefacto. “Só agora?”, disse-me Jacinta ofegante, “quando preciso de ti é que tu não apareces”, e seguia correndo e eu com ela. O celacanto, de barbatanas a dar e dar, rabo coleante pelos ares fora, e nós a animá-lo.
Mas o momento crítico, em que ele podia endireitar para o largo do Rato e obrigar a grandes rasgos de esforço e de imaginação, foi surpreendentemente superado. Apesar da provecta idade da espécie, muitas vezes pré-histórica, pareciam ter-se insinuado nestes peixes instintos semelhantes aos de certos animais domésticos, como os gatos, os cães, os cavalos, os pombos e as andorinhas que, pelo sim pelo não, acabam sempre por voltar a casa. E assim, o celacanto, ao chegar junto à galeria entrou, decidido, porta adentro, raspando desajeitadamente a ombreira, que ficou com brilho de escamas. Rugido triunfal de Jacinta que fechou as ferragens com estrondo. Depois, voltou-se para mim e atirou-me, entredentes: “Tu não me apareças mais, ouviste? Põe-te na alheta”. Ainda fiz uns trejeitos de protesto, mas, cá no fundo, estava mortinho por me ir embora, e fui, a remoer a injustiça do despedimento.
Ah, mas a curiosidade é defeito humano, traiçoeiro e molesto. Jacinta não me atendia os telefonemas e, dias depois, eu fui à exposição para saber novas dela e, calhando, do celacanto. A inauguração tinha sido na véspera, havia meia dúzia de passeantes distraídos e uma mãe com uma criança que reclamava um gelado. Eu ia escondendo a cara com um jornal, mas não valia a pena, porque Jacinta não estava. Lá vi o passarão gigante, o escorrega, outras “instalações” e, de súbito, reparo que uma das paredes tinha agora um vidro com caixilho. Fui espreitar. Era um cubículo vazio, muito iluminado. Adejando, de boca encostada a um dos tabiques, barbatanas dolentes a ondear, deslizava, lento e gordo, o celacanto. Não sei se me reconheceu, mas o facto é que, repentino, descreveu uma elipse festiva ao redor do recinto.

Recuei e atentei na inscrição, em acrílico, que informava debaixo do caixilho: “Celacanto Livre - Instalação de Jacinta Dalila”. Seguiam-se notas biográficas.


Mário de Carvalho, In Ficções nº. 3