31/03/2008

O último voo do tucano




Ela estava grávida, em meio de gestação. Faltavam dois meses para ela se proceder a fonte. O que fazia, nessa demora? Deitava-se de ventre para baixo e ficava ali, imóvel, quase se arriscando a coisa. Que fazia ela assim, barriga na barriga do mundo?
- “Ensino o futuro menino a ser da terra, estou-lhe a dar pés de longe”.
Ela queria a viagem para seu filho. O pai sorria, por desculpa aos deuses. E ficava a coar o tempo, fazendo promessas logo-logo arrependidas: “Amanhã ou quem sabe depois?” Desentretanto, nada acontecia.
Aconteceu sim, foi numa noite farinhada de estrelas. O pai estava sentado sob a palmeira, a ver o mundo perder peso. Saboreava a carícia da preguiça dominical. Domingo não é um dia. É uma ausência de dia.
A mulher se chegou, em gesto fingido de segurar barriga. Sempre ela tivera os rins ruins. Assim, de encontro ao poente, a mulher parecia dobra de cobra, flor à espera de vaso.
- “Mando, você conhece a maneira dos tucanos ninharem?
- “Conheço, com certeza.
- “Porque não fazemos igual como eles?”
O homem quase caiu das costas. Mas não reagiu, concordado com o silêncio. Não é só a barriga: cabeça dela também inchou, pensou. Mas segurou a palavra e com ela se acordou.
- “Começamos quando?”
Nessa noite, ele contou as estrelas. A angústia lhe enxotava o sono. Fazer como os tucanos? Somos aves, agora? Como recusar, porém, sem chamar desgraças? Assim, no dia seguinte, ele deu início à loucura. Começou a fechar a casa com paus, matopes, água e areias. A casa foi ficando com mais paredes que lados. Tapadas foram as portas, fechadas as janelas. Deixou só uma pequena abertura e voltou a juntar-se à esposa.
A mulher se sentou no banquinho de mafurreira e deixou que o homem lhe cortasse os cabelos e rapasse todos pêlos do corpo. Imitavam a tucana que se depena para construir o ninho.
Depois ela se despiu, libertou-se das vestes e atirou as roupas no obscuro da casa. E se despediram, fosse tudo aquilo nem vivido, simples fantasia. A mulher entrou na escura casa e ficou de costas. O marido maticou a abertura, enconchando a casa. Mas não tapou tudo: ficou um buraco onde mal metia o braço.
Fechada a obra, ele recuou uns breves passos para contemplar a casa. Aquilo, agora, mais se parecia um imbondeiro. A grávida estava aprisionada, na inteira dependência dele. Morresse o homem e ela definharia, desnutrida, desbebida. Os seus destinos se igualavam ao dos tucanos em momento de ninhação.
Nos tempos que seguiram, o homem cumpriu seu mandato: matutinava para trazer comeres e beberes. Duas vezes ao dia ele chegava e assobiava em jeito de pássaro. Ela acenava, apenas a mão dela se arriscava à luz.
- “Não tem medo que eu fique por lás, nunca mais voltado?
- “Você, marido, sempre há-de voltar. Você tem doença da água: mesmo da nuvem sempre regressa”.
E assim se sucederam meses. Até que, uma vez, ela lhe disse: “não venha mais!” Ele sabia que ela estava anunciar o parto.
- “Você quer que eu fique perto?
- “Não, espere longe”.
Ele longe não foi. Ficou atento, próximo, caso a necessidade. Esperou um dia, dois, muitos. Nada, nem um choro a confirmar o nascimento. Até que se determinou fazer valer sua dúvida. Chamou por ela, quase a medo. Tivessem morrido mãe e filho, ao desumbigarem-se. Já ele se decidia a arrombar o esconderijo quando de dentro do escuro se vislumbrou o aceno de um pano. A mulher estava viva. Logo, acorreu ele ansioso:
- “A criança?
- “A criança, o quê?”
Ele não soube juntar mais pergunta. Quem mais se engasga é quem não come. A mulher, simples, disse que o menino estava que até Deus se haveria de espantar. Que ela precisava ficar ainda uns tempos assim, no choco, na quenteação do ninho para dar despacho ao crescer da vida.
Nessa primeira semana, ele ficou no quintal, em estado de nervos. É que não escutava nem chorinho, assobio de fome do menino. E se passavam semanas, lentas e oleosas.
- “lhe peço, mulher. Me deixe ao menos ver o menino nosso”.
Ela então fez sair as mãos em concha pelo pequeno buraco. Só se via o enxovalhado enxoval.
- “Segure aqui, mando. Cuidado”.
Ele, embevecido, aceitou o embrulho das roupas.
- “Posso espreitar, ao menos?
- “Não, ainda não se pode ver”.
E recolheu a dádiva, se deleitando com esse consolo. Ficou experimentando a ausência de peso daquele volume. Tão leve era o objecto que não havia força que o suportasse. O embrulho lhe tombou das mãos e se espalmilhou na areia. Foi quando, de dentro dos panos, se soltou um pássaro, muito verdadeiro. Levantou voo, desajeitoso, aos encontrões com nada.
O homem ficou a ver as asas se longeando, voadeiras. Depois, ergueu-se e se arremessou contra a parede da casa. Tombaram paus, desabaram matopes, despertaram poeiras. Agachada num canto estava a mulher, de ventre liso. Junto dela a capulana ainda guardava sangues. Areias revolvidas mostravam que ela já escavara o chão, encerrando a cerimónia. Ele se ajoelhou e acariciou a terra.


Mia Couto, Contos do nascer da Terra



Morgado



À ceia, o patrão, com cara de poucos amigos, recusara-lhe as festas desta maneira:
- Deixa-te lá de brincadeiras e enche-me esse bandulho, que amanhã de madrugada, nem que chovam picaretas...
Tal e qual. Meteu a viola no saco, claro, e atirou-se ao penso como pôde. Mas não sentia vontade. Tinha ainda no estômago os tojos que despontara à tarde no monte, e andava, sem saber porquê, de coração apertado. Além disso, aqueles modos do dono até parece que endureciam o feno. A gente também vive de boas palavras. E, verdade se diga, gostava do sujeito. Desde que ele, há seis anos, na feira dos vinte e três, o distinguira no meio dum regimento de azémolas e lhe dera uma palmada rija na anca, simpatizara com a sua figura atarracada, vermelha, a respirar saúde e bonomia.
- Quanto custa o jerico?
- Vinte libras.
- Não é estampa para tanto dinheiro. Ai o alma do diabo a desfazer!
- Vinte libras, nem menos um real.
- Deixe o garrano por dezasseis, e já é caro como fogo...
O cigano! Mas logo que o viu contar as dezassete moedas e pegar-lhe à arreata, cantou aleluias. Estava farto das bebedeiras do Preguiças. Cheio até às orelhas de subir a malvada ladeira da Queda a ouvir-lhe as asneiras de bebedolas. Mas era um macho!
Aguentava no lombo quinze alqueires de pão como se fossem quinze alqueires de penas. Estribado nisso, o moleiro, com cardina ou sem ela, nas feiras, punha o preço em vinte libras. Resultado: ninguém o levava.
- Você quer que lho carreguem de oiro!
- É pegar ou largar.
E tinha de regressar à loja, à maldita loja encostada ao moinho, ao lado da roda, sempre molhada e toldada de barulheira, e no dia seguinte trepar novamente a encosta, ao som da ladainha do costume.
Zumba na barra da saia, ó Zé...
Comida - carqueja, palha cevada estreme, e só lá de tempos a tempos uma pitada de grão. Vida negra! Por isso, quando viu o contrato fechado, sentiu-se redimido. E, apenas o novo dono se lhe escanchou em cima e seguiram pela estrada de Peitais, parecia-lhe que tinha asas, de tão feliz. À chegada, logo uma manta a resguardá-lo dum resfriado, e milhão branco e graúdo na manjedoura. Um céu aberto! Evidentemente que não havia só rosas naquela casa. Longe disso! O macho dum almocreve, sabe Deus... Mas, bem comido e bebido, um homem trabalha com alegria. De mais a mais se o patrão, às tantas, diz o seu dito engraçado, a animar:
- Ah! Morgado, que me borras a pintura!
Nem respondia. E assim que o arrocho dava o último apertão à cilha, largava à frente da recua, de pendão erguido.
Desta vez, infelizmente, o caso era mais complicado. A ceia correra mal, iam sozinhos, e os bons dias foram este consolo, pouco mais ou menos:
- Vamos lá! Vamos lá, que são seis léguas de serra...
Não gostava de semelhantes modos. Arrenegava de viagens mal principiadas. De maneira que recebeu a carga aperreado, e meteu-se ao caminho a malucar no pior.
Tinham passado a última povoação do concelho e seguiam agora pela estrada velha de Arca, sumidos na escuridão, varados de lado a lado por uma chuvinha gelada e teimosa. Mas o inverno corria daquela maneira: ou nevões de caiar a alma de tristeza, ou então um tempo assim, frio, húmido, cortado por lufadas ásperas de ventania. O patrão pegava-lhe à arreata. Ambos calados. Só os passos no saibro duro os revelavam ao ouvido atento das penedias, que escutavam das trevas.
Não se lembrava de ter feito em toda a vida jornada que se parecesse. Nunca lhe acontecera, como hoje, ir com os cinco sentidos num alarme constante. Que raio de madrugada mais tenebrosa! Em vez de encher a alma de esperança, cobria-a de agoiro! E, sem querer, Morgado começou a sentir o corpo arrepiado e a desejar com desespero a luz da manha.
Ah, mas sabe Deus onde viria ainda o dia! Seis léguas de serra, se entendera bem. Pelos vistos, era tirada até ao vale de Vila Pouca. Daí a necessidade de aproveitarem as horas mortas da noite. E todo o pêlo se lhe crispava, à ideia de que faltava muito ainda para que o sol alumiasse a terra e tirasse à caminhada o ar de pesadelo que a tornava infindável. E certo que a presença do dono o sossegava um pouco. Embora o não visse, por causa do comprimento da rabeira e da negrura cerrada, sabia que caminhava à frente, pronto para o que desse e viesse. E que raio poderia acontecer? Tropeçar? Não aguentar a carga? Se fosse apenas isso! Embora pessimamente dormido e com a barriga vazia, nem as pernas lhe quebravam às primeiras, nem três sacos de centeio lhe faziam mossa. Os aborrecimentos que temia eram doutra natureza... Qualquer encontro desagradável, por exemplo...
Nem de propósito! Ele a pensar no mal, e a ponta dum uivo tenebroso a furar-lhe os ouvidos.
Um arrepio fundo percorreu-lhe o corpo. E a seguir, todo ele ficou hirto, frio, pregado ao chão, num pânico mortal. Obra de um segundo, apenas. O justo tempo de a arreata ficar esticada entre a mão que a segurava e o argolão do cabresto. É que reagiu logo. Que diabo! Ia ali quem o defendesse... Não havia razão para um terror assim!
Mas o dono, enigmaticamente, recuava. Aos poucos, encurtava os passos e chegava-se ao seu bafo. Mau!...
Novo uivo, quase sobre eles, fendeu a noite. E ambos, agora como se fossem um só, de tão cingidos, se puseram a pisar o chão ao de leve, encolhidos no bioco da noite, com a respiração suspensa.
Tolice pura, porque de nada lhes valia o disfarce. Morgado sabia-o bem. O instinto já o avisara de que tinham à perna alcateia esfaimada, capaz de farejar a presa a cem léguas de distância. De resto, os uivos eram de tal modo cerrados à volta, que só mesmo um milagre.
Ah, sim, o coração não lhe vaticinava coisa boa do passeio. Há dias que trazia dentro do peito um pressentimento negro. Depois, a repugnância da ceia, o acordar sobressaltado, as horas soturnas do caminho, e, a coroar tudo, o silêncio enigmático e desacostumado do dono...
Mas, precisamente, o dono erguia a voz do poço onde a sepultara:
- Estamos perdidos, Morgado! Raios partam a minha pouca sorte!
Não sabia que razão levava o almocreve a proceder daquela maneira. A que propósito dizia coisas à toa, berrava, batia com força as botas grossas no chão, como se quisesse sozinho fazer barulho por trinta? Talvez tentasse amedrontar as feras, dando a entender que seguia ali um regimento de recoveiros com a respectiva caterva de bestas. Pois sim! Se pensava isso, enganava-se redondamente. Mais por adivinhar que por distinguir, Morgado antevira já uns olhos incendiados de fome a espreitá-los do coração da noite. E o patrão decerto os notara também, porque agora pusera-se a petiscar lume num seixo com a folha de aço da navalha. Como se os lobos tivessem medo das pobres faíscas que lhe saíam das mãos trémulas e garanhas! Se apenas dispunha desse recurso, se não trazia no bolso um daqueles pistolos com que nas feiras, quando havia zaragata, os homens se matavam uns aos outros, estavam liquidados. Ali só mesmo um dos tais estoiras medonhos que pareciam trovões e desfaziam os ajuntamentos num suspiro. Ou isso, ou nada. Eram já três vultos que vislumbrava na escuridão, calados, mas resolutos.
Ora, em vez de sacar do tal instrumento que, a trinta ou quarenta passos de distância mandava um cristão desta para melhor, o dono, depois do ridículo arraial de pirilampos, chegou-se a ele e, sem mesmo o fazer parar, cortou dum golpe as cordas que seguravam a carga. Os sacos de centeio caíram espapaçados no lajedo.
Que raio de manobra era aquela? Pretenderia o patrão tentar a fuga? Quereria trepar-lhe ao lombo e abrir caminho pela serra fora? Nem mais. Mas uma triste ideia, aliás. Ele, Morgado, já não tinha as pernas da mocidade. Muito embora se considerasse ainda um animal capaz de cumprir o seu dever, não lhe pedissem semelhante bonito, depois de três horas de jornada, mal dormido e mal comido, e, ainda por cima, num caminho de pedras e com uma alcateia à ilharga. Tudo tem os seus limites. Além de que um macho não é bicho de correrias. Isso é lá com pilecas de ciganos.
- É o único recurso...
Seria. Mas punha-lhe dúvidas... Em todo o caso, não pensasse o amo que se negava. Não. Galopava à sobreposse, e assim havia de continuar até rebentar os peitos. Se discordava da resolução tomada, é porque realmente estava convencido de que nada se resolvia com panos quentes.
- Anda, Morgado, que eles vêm aí!
Que novidade! Outra coisa é que seria para admirar.
Depois de o aliviar da carga, o dono saltara-lhe para cima, dera-lhe meia volta e metera-o a toda a brida a caminho de casa. Infelizmente, a alcateia fizera o mesmo. E ali iam à destilada também, quase ao lado, cinco lobos medonhos. Ah, o patrão não ter um trabuco dos tais! Assim, era a perdição.
E a manhã sem romper! Levava os cascos em ferida, sentia o suor cair-lhe em fonte pelas virilhas, todo o corpo dizia bonda ao desatino de semelhante desfilada, e nem ao menos um sinal de alvorecer!
Quanto mais corria, mais o vento lhe soprava nos ouvidos. Assobiava de tal modo, que parecia fazer troça daquela fuga desordenada.
- Aguenta, Morgado! Não esmoreças, pelo amor de quem lá tens!
Pois sim. O ponto era poder. Muito embora quisesse valer à aflição do dono, e à sua também, as pernas negavam-se. Por isso, pouco a pouco, foi abrandando o passo, a fazer sabe Deus que sacrifício para não cair redondo no chão.
- Grande ladrão, que me atraiçoas!
A paga que recebia! Não bastavam as chicotadas secas e contínuas que, com a soga da rabeira, lhe dava na cabeça, nas ancas e onde calhava, ainda um insulto daqueles! Mas chegara ao limite das forças. Batesse, espetasse mesmo a ponta da navalha, à laia de espora, fizesse o que entendesse... Fora até onde podia. Agora...
- Excomungado! Desgraças-nos a ambos! Paciência. Quem dá o que tem...
Um lobo saltara já do barranco para a estrada.
- Minhas ricas dezassete libras...
Não percebeu. Parara exausto, com o corpo em fogo e a cabeça tonta da nortada e das vergastadas que recebera. E não abrangeu logo o sentido verdadeiro de semelhantes palavras numa hora assim.
- A estas digo-lhes adeus...
Mas apenas o almocreve desmontou, e num relâmpago lhe tirou os aparelhos, acabou por compreender que o ia abandonar ali, esfalfado, coberto de suor, indefeso, à fome do inimigo. Salvava a vida com a vida dele... E lamentava as suas dezassete libras!
E, afinal, a manhã vinha a romper!... Só quando viu o dono a caminhar pela serra fora de albarda às costas - não se envergonhar! - e sentiu os dentes do primeiro lobo cravados no pescoço, é que reparou que a luz do dia começara a desenhar as coisas e a dar significação a tudo.

Miguel Torga, Os Bichos


30/03/2008

Luísa filha de Nica

O mar batia com ímpeto contra as rochas do ilhéu dos Pássaros e escorria meloso pelas escarpas.


"Bocês tem mania de esconder nome de doenças. Anton veio de Santo Antão tão doente, tão magro, tão amarelo e toda a gente só sabe dizer ele tem pedras no fígado. Três dias estendido naquela cadeira de lona aí do corredor com espasmos e sem forças para falar, e bocês a es¬conder, a esconder."
Luísa brigava com a mãe. Parecia transtornada. Brigou, brigou.
"Esta mania tua, mamã. Meteste o Anton cá em casa e ainda nós tude vamos ficar tuberculosos cá dentro dês casa."
Nica mãe de Luísa, não conseguia dizer duas seguidas. A filha não a deixava. Nica não era Ni ca. Era um autómato atrás da filha a tentar explicar-lhe, mas Luísa não a deixava falar.
"Credo, Luísa", conseguiu articular, a língua entaramelada. Parecia uma terceira pessoa em cena. "Estas falas de gente tuberculosa e estas falas de pedras no fígado. Credo, Luísa!"
"Bocês tem mania de esconder doenças, mamã. Anton está tuberculoso, já disse. Ba espiai, anda! Ba espiai sê boca sempre aberta ta solve ar." E apontava para a porta do corredor.
Esta conversa passava-se no quintal.
"Ah, mamã, Deus livre se Anton ouvisse esta conversa." Luísa descaiu numa mansidão sem explicação. "Coitado, mesmo se ele estivesse a morrer, a gente tinha de lhe dizer de outro modo, não é? Ia melhorar ia passar, não é, mamã?"
Luísa abriu a cancela e entrou no corredor. A meio do corredor parou junto da cadeira de lona. "Amanhã levo-te ao hospital, levo-te ao Dr. Augusto, ouviste, Anton?"
Do quintal a voz da mãe chegou até ela. "Luísa, nha fidje, cala com esta conversa. Pelo amor de Deus, cala com esta conversa."
Saíram de casa cedo ainda, pá mode sol na cabeça. Andavam um bocadinho, logo paravam para descansar. Andavam outro bocadinho, tornavam a parar. Anton gemia e punha a mão sobre o lugar do fígado. Era ali a dor. "Sossega Anton, não há-de ser nada."
Nica ficara à porta a ver a filha a ir por ali adiante. Alguém vira-a a puxar a Luísa para casa. Por fim largou-a. Começou daí a esfregar a cara com as duas mãos. Esfregou, esfregou, bô dzê ela queria tirar a pele do rosto de tanto esfregar.
Quando dobrava a esquina para a Rua dos Descobrimentos pararam outra vez, Luísa viu Muna debruçada à janela.
Ah gente, tinha-me esquecido do baile para logo à noite. Minha cabeça, minha cabeça, eu fiquei de ir pedir um fato de Carnaval para ela. E de arranjar umas meias brancas para mim. E Anton agora.
"Vamos mais depressa, sim? Chegamos ao hospital e já não apanhamos consulta."
Luísa levantou os olhos e alongou a vista até à janela da Nuna. Já lá não estava. Tinha puxado e trancado as persianas.
Anton começou a andar mais depressa mas teve de parar. "Desculpa, Luísa, eu não posso andar. A dor não me dá sossego. Vou estar por pouco."
"Tontice, Anton. Anda, experimenta e vais ver."
Oh, senhores. Nem uma ajuda há nesta terra para um desgraçado. Nem um carro, nem uma maca, nem duas tábuas para levar uma criatura ao hospital. Ele pode morrer pelo caminho, es¬tou a ver.
Anton suava. A camisa pegada ao corpo, a testa húmida, a cara sumida.
Ao passar pela janela da Nuna, Luísa esprei¬tou por entre as tabuinhas das persianas verde escuras. A vidraça também estava fechada e na¬da pôde descortinar para além da penumbra envolvente do quarto.
"Trouxeste o teu boné, Anton? O sol vai aquentar, tens de cobrir a cabeça."
Anton tirou o boné do bolso do casaco de caqui.
"Está um tempo abafado! Vai chover."
Pôs o boné e parou. "Vai chover." Olhou à volta. "Vai chover."
"Qual chover, Anton. Tu não conheces o ca¬lor de Soncente. Este calor é do suão. Há-de surdir um vento quente lá para a tarde. Vai-nos queimar e gretar a boca se não pusermos vaselina de roda da boca. E de noitinha o vento sopra¬rá mais forte. E hás-de ver a terra a entrar pelas gretas das janelas, as roupas, papéis e monturo hão-de fugir dos quintais e o vento vai indo enrodilhado neles a fugir por essas ruas, como meninos no jogo da reianata. Não é assim no Paul, Anton?"
"Não, no Paul quando faz muito calor e vira assim um tempinho esquisito, certo vamos ter chuva."
Luísa deu um suspiro. "Já sei onde vou pedir umas meias brancas. Nair vai-me emprestar as suas meias de casamento. Vou-me mascarar de arlequim mercano. Chapéu alto, casaca de cetim preto sem mangas, short aos quadrados preto e branco, peitilho plissado de organdi branco, meias brancas, sapatos rasos pretos, uma bengala. E luvas brancas. Não, vou dar outro nome ao meu disfarce. Ah, já sei. Vai ser, preto quando tem vintém."
"Vamos, Anton, temos de nos despachar."
Ele respirava com dificuldade, (ou não respirava?) de uma maneira estramontada.
"Estou tão cansado, Luísa. Mão tenho forças. Ainda é muito longe?"
"Apoia-te no meu braço. Vamos andando na calma, sem pressa. Estás a ver aquela mulher li assim sentada na porta de D. Angélica? Quando passarmos por ela não digas nada. Nem bom dia, nem boas horas nem nada. Ela é um bocadinho deslocada da cabeça, mas é mansa."
Luisa contava os passos. Sete, oito, ainda tenho de coser os quadrados de cetim branco sobre o short. E comprar borato para espalhar na sala do baile.
O braço de Anton pesava sobre o dela.
"Aquela mulher está atravessada no passeio, Luísa. Não vamos passar por cima dela, não?"
Uma frieza tornou-lhe conta do corpo. Fraco, sem forças, como poderia descer o passeio para se desviar da mulher?
A mesma frialdade sente-a Luísa dentro de si.
"Não tem importância. A gente passa e passa mesmo."
Arrastam os sapatos pelas pedras num caminhar de quem não sabe andar.
Luísa parou junto da mulher. Esta levantou-se e abriu os braços. Luísa decidiu-se, estendeu as mãos e afastou-a.
"Com licença, nha Ninha. Rua é para a gente passar nela."
"Quem disse outra coisa? Rua é para andar, porta é para passar, casa é para morar. E eu vou casar e vou levar uma coroa de urtigas."
"Está bem, nha Ninha. Com licença."
Antes de prosseguir Luísa franziu o nariz e torceu a boca. "Bocê anda com um cheirinho morrinhento, nha Ninha. É de andar por aí a roçar pelo chão. Bocê é gente-grande, bem podia ter mais juízo. E se bocê fosse mudar de roupa de baixo?"
Nha Ninha encostou-se na porta e sacudiu a saia com a mão, depois a saia de baixo, esfregou os pés um sobre o outro.
Anton começou a tossir. Segurava o peito com as duas mãos.
Luísa estava arrependida de o ter trazido sem ajuda de alguém, sem avisar o Dr. Augusto.
Ele não aguenta. Mesmo assim, com mais de meio caminho para andar não vou desistir. Adê, Deus livre. Andar para trás! Nem flaça! Andar para trás é andar para trás. Nem fôche. "Anton, vamos. É só mais um bocadinho."
Ele estava sem cor. A cara tornara-se acinzentada. Fez menção de se vergar.
Vai sentar-se senhores. E agora?
Luísa olhou para os dois extremos da rua. Encostou-se à parede da casa do Sr. Inácio, e segurou o braço de Anton metido no dela.
As casas de traça pombalina, todas tinham as persianas fechadas. No primeiro andar em frente podia-se ver Nha Joaninha sentada à va¬randa numa cadeira de verga. Estava a tomar o fresco de palmanhã. Nha Joaninha endireitou-se na cadeira, pôs o queixo sobre o peitoril da varanda e espreitou a rua. Depois deixou-se estar como estive-ra até aí, mãos sobre o regaço, olhos parados, espírito descansado.
Nhã Ninha sentara-se na useira da porta. Saia descaída entre as pernas um pouco afastadas por via do calor, uma mão no queixo, olhou assim de baixo para a Luísa.
"Ocê está encostada na parede de uma ma¬neira. Parece como menina-de-vida."
A mão de Anton tornou-se leve no seu braço. Luísa sentiu-se livre para apontar com o dedo para a velha. "Eles dzê que bocê é deslocada da cabeça. Que bocê é escloca. Mas quando quer insultar gente-home ou gente-mulher já não é es¬cloca, n'é devera?"
Nhã Ninha deu um risinho baixo como um sininho. "Inton, sou leve de cabeça, n'é? Inton, se uma criatura de Deus encosta sozinha como ocê, assim na parede, é ou não menina-de-vida? Logo pela manhã encostada na parede, ah gen¬te, ou ocê é frouxinha de cabeça ou então é menina-de-vida. Ou não?"
Luísa sentiu um calor pelo corpo todo. O sangue subiu-lhe à cabeça.
"Sozinha? Bocê não tem olhos na cara, Nha Ninha?"
"Sozinha, sim senhor. Não quer ser menina-de-vida, mas é como se fosse. E depois?"
O sininho do seu riso tocou e tremelicou outra vez.
Nhã Ninha é doida varrida. Não é de dar trela a esta conversa descosida.
Apesar do fogo pelo corpo todo como onda de sangue a querer saltar-lhe pela boca, Luísa tinha de resolver a sua vida e a de Anton.
Ele havia soltado o braço do dela.
"Anda, Anton, vamos. Nha Ninha é doida e dar-lhe troco é perder tempo e paciência."
Voltou a cara para ele.
Oh coisa estranha. "Adê Anton, para onde foste? "Não pode ser. Anton nunca podia ter saído daqui. Ele nem consegue dar dois passos seguidos. Nem aguentava andar até ao fim da rua. Ainda são umas bem boas jardas. Não pode ser.
Luísa deu uma corrida até à esquina. Perscrutou a Rua de Lisboa. Credo, esta coisa é obra de feitiçaria. Nem cabe na minha cabeça. Ou estou avariada?
Apertou o passo até perto do Palácio. Anton não poderia ter passado do largo do Palácio. Deu-lhe vontade de começar a gritar, a berrar, até juntar povo. O seu coração era um tambor. Rangeu os dentes e retornou rua abaixo. Ia devagar, os olhos à toa. Entrou no pelourinho, subiu as escadas e ficou em frente ao talho.
"Oh gente, oh gente, isto é obra de feitiçaria!"
Apenas um som. As palavras nem saíam da boca seca e sem cor. Desceu as escadas do pelourinho aos dois degraus de cada vez.
Tanta mosca no pelourinho. Tanta mosca so¬bre as bananas, goiabas, mangas. Moscas a cirandarem nos sacos abertos de batata-doce, nos montinhos de mandioca ou nas pontas dos pedaços de cana.
Ao chegar à rua já não sabia para onde se voltar. Atrás dela ficou o conversar alto das mulheres, a zoada preguiçosa do pelourinho onde menino-pequenino furtava laranjas e pedia um tostão para um docinho de coco.
Andou, andou. Cortou por vielas e caminhos. Já não era Mindelo a sua terra. Já não eram as ruas da morada, de menininhas a saracotearem com samatá de pele de cobra da Guiné e vesti¬dos de cetim da casa dos indianos. Donde mocinhos a venderem contrabando, cigarros de Gold Flake, bandejas de alumínio, chocolates de bordo de vapor, margarina da Argentina, carne do Norte tão sabe e também colchões furtados a bordo dum noruega, dum sueca. Donde latas de jam e queijos da Holanda? Que terra é esta donde só se vê grama e uns pedrona e ela escorrega por um funil tão estreitinho, nem uma lagarta de feijão poderia lá passar?
Um vento empurra-a para fora do seu chão, para um espaço de ventona, de calhaus, de vulcões mortos, de poeira redemoinhada. Tapou o nariz com as duas mãos e caminhou de cabeça inclinada, corpo em arco, contra a tempestade sem chuva, sem trovões ou relâmpagos. E este desfragar de rochas desfeitas em pedregulhos sempre atrás dela. E ela sempre a fugir e as pe¬dras aos saltos, em passadas certas e fragoro-sas. São passos de canelinha. Canelinha é tão leve e tão corpo uno de pernas braços, cabelos, um todo canelinha, tíbia ou peróneo, tanto faz, é sempre canelinha.
Luísa dava passadas no ar, as pernas afastadas por treino olímpico tocavam cor-rectamente o chão. Podia competir com canelinha. Cada passada tinha o tamanho de um dia.
A ventona aqueceu, era um bafo de caldei¬rão, bafo de óleo de purgueira. Apertou o nariz de novo. Uma espuma de óleo esparramou-se à sua frente. Começou a catar sementes de pur¬gueira. Saltavam saltos de canelinha e ela agarrava-as e ia-as enfiando num espeto. Depois largava-as ao longo do caminho e chegava-lhes um fósforo. Repetiu esta operação um cento de vezes, ou sejam cem canelinhas de vezes. Cada canelinha seria da medida de uma fita cor de ferrugem.
Ia iluminando a superfície e escorregava em bicos de pés. Ensaiou um bailado e gargalhou. Andou, escorregou, deslizou de gatas. Atravessando colinas de espuma, sem-pre em bicos de pés no cocuruto de cada ciminho, trepou ondas de óleo de purgueira pastosas e mornas, agarrando-se a ramos de calabaceira como aranhas cinzentas entre a coisificação da vida sem vida.
Nunca mais chegava ao termo da jornada e nem já tinha conta do tempo. Ouviu longe, lá do outro lado, o eco do gargalhar de quando en¬saiou o bailado, este bailado de canelinha, do gargalhar viajeiro no tempo e a procurá-la outra vez.
O bom filho à casa torna, pensou. Ouves Luísa? Eu-Luísa, tu-Luísa, deixa as gargalhadas pródigas e despacha-te. Despacho-me Eu-tu-Luísa vamos. Vai e entra. Luísa correu, correu. Ouviu a trombeta e correu mais. Voou. Chegar a tempo antes dos portões se fecharem. A trombeta soava mais perto, os portões, ei-los. Ao morrer o último som da trombeta, os portões cerrar-se-iam para sempre. Reparem bem, para sempre. Voava, Luísa de cabelos soltos, seios virgens expostos, para amamentar quantos mil filhos viessem.
A trombeta soltou o último arpejo em agonia. Os portões fecharam-se sem pressa. Luísa gritou (uivou?) e foi de encontro aos batentes onde socou cem vezes com os punhos em força. Escorregou, as mãos desceram pela superfície do portão e deixou-se então embalar no mar de espuma de purgueira quente.
O mar batia com ímpeto contra as rochas do ilhéu dos Pássaros e escorria meloso pelas escarpas.
A mãe levantou-a do chão, hirta, lábios roxos, baba seca nos cantos feridos.
Nunca mais acordava. Chamou-a pelo nome, sacudiu-a. Luísa, Luísa, Luísa.
Arrastou-a pelo quintal até à porta do corredor. Deu um suspiro de alívio. Feliz-mente ninguém dera pela Luísa caída à porta de casa. Ainda bem. Na Soncente gostam de inventar coisas, logo haveriam de começar os murmúrios sobre nada, coisas de namorados, abertos, chicanas em barda e o nome de uma menina-nova sujado sem mais nem um.
Nica não sabe a conta das noites em branco à cabeceira da filha. E ela sem acordar. Dez, vinte anos, cem anos? Nica perdeu-lhes a conta.
Tatóia desconfiou do silêncio da casa de Ni¬ca e foi lá bater-lhe à janela. Nica abriu uma greta. Trazia um pano dobrado na testa, atado atrás da cabeça.
"Tenho uma dor de cabeça, Tatóia. Nem con¬sigo abrir os olhos."
Os olhos de Nica pareciam dois papos de pregas.
"Ah, Nica, Nha irmom, essa coisa é aranha que te mijou na capela dos olhos. Deixa-me ver. Abre esta capela, fecha. Agora estoutra. Abre. Fecha. Foi aranha, foi. Não tens água fluídica? Se não tens eu trago-te uma garrafinha. Esta se¬mana mandei fluidifi-car quase cinco litros de água."
Nica descansava a cabeça na persiana meio aberta e escutava de olhos fechados. Tatóia falava, ah como ela falava!
"Gosto mais de água fluidificada por nhô Henrique. Ele é um bom médium e só atrai bons elementos. Nos dias de sessões de limpeza psíquica levo sempre água para fluidificar. Apois, vou trazer-te água fluidica para pores uns pachos sobre a capela dos olhos. Vão ficar desinchados num rufo."
Nica tossiu.
"Inton, Nica, não tenho visto a Luísa. Ela não está?"
Nica entrou em pânico. Tremia sem parar.
"Nica, Nha irmom, tu estás apoquentada." Tatóia começou a magicar. Essas menininhas de agora começam a namorar, começam a ir para o escuro, depois são os abortos ou então menino novo nos braços. "Inton, Nica, nada de apoquen-tação."
"Entra, Tatóia, entra. Vou abrir-te a porta."
Nica cerrou as persianas, trancou as vidra¬ças e foi levantar o trinco da porta. "Anda, vem ver a Luísa. Deu-lhe uma coisa agoturdia pela manhã e até hoje ainda não acordou." Fechou a porta e foi andando assim ao lado de Tatóia. "Deixa-me benzer mesmo. Padre, Filho, Espírito Santo. Passe de largo coisas de intentação."
Tatóia estava perplexa e não exagerava nadinha. Seria aborto ou não? Ou teria sido seduzi¬da?
Nica levou-a ao quarto de Luísa. A cama encostada à parede, Luísa toda coberta, a cabeça tapada com uma colcha de algodão. Num dos cantos uma máquina de costura de manivela sobre uma mesa. Uma janela dava para um quintal sem serventia.
"Está assim há quantos dias! Não come, geme todo o tempo. Tenho-lhe metido umas colheres de caldo pela goela abaixo mas ela cospe tudo, trinca a colher com os dentes, esbraceja, um inferno."
"Não chamaste o doutor, Nica?"
Sentada numa cadeira, as mãos de dedos entrelaçados, os polegares rodando um atrás do outro. Tatóia na sua frente, segue com muita atenção tudo quanto a amiga vinha contando.
"Com esta dor de cabeça, nem tenho tido tino para nada. É uma coisa diferente, não é doença pá doutor. Quando ela apareceu caída na porta de entrada, dias-há vinha dizendo umas conversas estranhas. Às duas por três eu também já estava enrodilhada na conversa. Eu sabia ser tudo invenção, mas ia na conversa."
"Que espécie de conversa?"
Ah minha ansiedade de saber. Tatóia tem calma, tem paciência. Não estejas assim a levantar e a descer o teu peito raso. Esta é uma conversa de espíritos, é uma conversa de morto-vivo, de avassalamento, de coisas de intentação. Nada de perguntas. Despa-cha-te, Tatóia, vai para casa, este lugar deve estar avassalado, não aqueças esta cadeira de palhinha onde estás sentada. Ainda os espíritos podem cangar em ti.
Nica começou a soluçar. "Ah gente, ela só falava de Anton. Anton pra cima, Anton 'para bai¬o, e quando eu adiantava para dizer qualquer coisa, sim, porque eu tinha de dizer alguma coisa, ela cortava logologo a conversa. Brigava comigo, Tatóia. Ia fazer assim, ia fazer assado. Foram mais de quantos dias de afronta. Mas eu sabia, Tatóia, e tu também sabes, Anton, nosso primo de Santo Antão, lá da Ribeira de Paul, morreu dias-há no mundo, nem Luísa ainda tinha nascido."
"Credo, Nica, credo. Esta casa está avassalada. Vou já, Nica, vou já mandar um recado pâ senhor Henrique. Tens de fazer limpeza psíquica senão bocês tudo li dentro vão ficar doidas varridas. E ela, Nica, precisa de uma boa surra de cavalo-marinho, Nica."
O quarto escureceu. Ou és tu, Tatóia, cega sem mais nem quê? Bolinhas de terra atiradas contra a parede, desfaziam-se espalhando-se pelo chão. A colcha estava toda pintalgada. Pareciam espirros de lama. Nica agarrou a filha e sacudiu-a. Luísa era toda convulsões e ranger de dentes.
Tatóia fugiu pelo corredor, a bater no peito e a chamar-se Tatóia, Tatóia, Tatóia!
Bolinhas de lama choviam-lhe em cima. "Senhores, credo! Passe de largo os maus elementos." As mãos batem com vigor no peito, "Tatóia, Tatóia, Tatóia!" (não fossem os espíritos cangar nela também), a voz acompanha esta histeria.

Carnaval de 77

Orlanda Amarílis, Ilhéu dos Pássaros

29/03/2008

O Homem do Sam-lun-ché



O menino apareceu certa manhã húmida de Março à porta do convento. Era de idade à volta dos seis meses, feições mistas de chinês e europeu, pele clara. Uma criança perfeita, embrulhada em flanelas encarnadas e um amuleto de osso no pulso.

Naturalmente que as rezas se atrasaram no coro, essa manhã. Necessário alimentar o menino, que chorava alto chupando no dedo, trocar-lhe as roupas frias por panos aquecidos. Um alvoroço entre as monjas mais novas. Preocupação e dó no rosto severo da abadessa.

Não era a primeira vez que na portaria do convento apareciam crianças abandonadas. Sempre, porém, meninas recém-nascidas. Por vezes as próprias mães iam lá oferecê-las. Os pais não as queriam. Tinham de desfazer-se delas de qualquer jeito. As madres tentavam uma conciliação, prometiam a farinha, o enxoval, acabando por receber as pobrezinhas e enviá-las para a creche, donde, na devida altura, passavam ao asilo das órfãs.

Algumas dessas enjeitadas tornavam-se mais tarde irmãs conversas; outras ficavam empregadas da casa, bordadeiras. Havia um rumo a dar-lhes quando atingissem a idade adulta. Eram chamadas filhas-da-caridade.

Rapaz, contudo, parecia muito mais complicado. Onde o poriam depois da creche? Decerto que a mãe estava mesmo desesperada para assim abandonar um filho varão.

As criadas bisbilhotavam: «Mãe desnaturada! Filho macho, a maior felicidade de qualquer mulher! Bailarina, com certeza, rapariga de vida fácil, alma sem sentimentos, sem dignidade.»

A gorda irmã porteira, que fora a primeira a ver o menino, impunha silêncio. Quem poderia dizer o que levara a mãe a repudiar o filho? Na realidade, ela o aguentara até àquela idade... Quem sabia do drama de tal separação? Rezar por ela, sim, a única coisa que valia a pena.

Claro que a madre superiora não recorreu às autoridades nem tentou investigações, porque tudo seria infrutífero. Impossível descobrir a família do exposto num tão confuso mundo: refugiados dos mais diversos pontos da China, dia a dia, em levas de dezenas, usavam nomes falsos, desconheciam-se entre si, falavam dialectos diferentes, atropelavam-se e odiavam-se uns aos outros -e isto sob o mais trágico destino que pode pesar sobre as criaturas: a falta de um pedaço de terra.

A solução não seria adoptar o enjeitado, baptizá-lo, confiá-lo à Providência? Deram-lhe o nome de Francisco, em memória do santo falecido ali em frente, na ilha de Sanchoão, há quinhentos anos. Madrinha, a criada mais antiga do convento. Padrinho, o santo.

Mas, no dia seguinte àquele em que o menino apareceu na portaria do convento, alguém pediu uma entrevista particular à madre abadessa. Era o homem do sam-lun-ché esse que, à hora das meninas saírem do colégio, gritava na praça a sua oferta de transporte. Vinha rogar o favor de o menino lhe ser confiado logo que a creche não o pudesse ter. Era velho, pobre, só. Seu desejo, no entanto, dedicar-se a alguém. Possuía no porto interior a sua sampana, onde podiam caber ambos. Os cinquenta avos de cada corrida davam-lhe ao fim do dia o bastante para dois.

A madre aceitou, agradecida, com a condição de ele frequentar a igreja católica, a catequese, de o convento velar pela sua educação espiritual.

Tinha rezado toda a noite a s. Francisco Xavier, a madre superiora, pedindo um lar para a criança desprezada. A resposta do santo viera pronta. Milagre. O velho do sam-Iun-ché era chinês sério, de confiança do convento. Criar-se-ia o rapazinho com o seu povo. Cristão baptizado, educado na Igreja. Quem sabe se não chegaria a ser exemplo de muitos, a conversão do próprio protector?

Francisco Cheong - do nome do seu adoptante -fez-se um gentil menino de coro que ajudava à missa todas as manhãs na capela do convento, apresentando ao padre, na bênção da tarde, o turíbulo oloroso de incenso.

O velho Cheong deixava o triciclo à esquina para ir ver o pequeno nos actos do culto. Por vezes as lágrimas subiam-lhe aos olhos. O menino mais parecia um anjo do que gente. Passos silenciosos de um lado para outro do altar, uma vénia agora, as mãos erguidas depois, a língua estranha que ele falava, a batina encarnada a atrapalhar-lhe os pés, o roquete de rendas farfalhando. Um orgulho, um filho assim, de feições mistas de chinês e europeu, esguio e branco, que o destino lhe confiara, a ele, pobre velho sem família.

E daí passava pelo pagode a agradecer aos deuses a graça do filho adoptivo. Francisco era inteligente. Ia bem nos estudos. Desenhava a primoros caracteres sínicos. Respeitava e amava o velho a quem chamava pai.

Ao fim da tarde o homem do sam-Iun-ché parava à porta da escola masculina. Ali não precisava de gritar o seu pregão. Ia buscar Francisco, que, livros na mão, se sentava na cadeirinha, depois de saudar o pai. O homem pedalava, estrada fora, e ambos, contentes, rumo ao barco no lodaçal do rio.

De manhã, era o caminho para a igreja. O velho comovendo-se, ao fundo da nave, com o porte do filho.

Mas lá veio o dia em que a alma piedosa insinuou a Francisco o dever de trazer o pai para o seio de Cristo. Ele, cristão baptizado, menino de coro, comungante, e o pai a frequentar o pagode, a bater com a testa no chão diante do Buda, a consultar o bonzo. Não ficava bem. Como podia um filho católico crescer feliz junto do pai adorador de ídolos?

Na consciência de Francisco jamais tal problema acordara, e não foi sem relutância que, instado, prometeu falar nele ao pai. Achava conversa difícil, algo desrespeitosa até. Tão gozoso o velho de ir ao pagode nas festas solenes, de oferecer comida e queimar perfumes no altar dos deuses! Lera nos livros antigos que quinhentos anos de Cristo já na China se ensinava a Bondade e a Beleza. Não descortinava dentro de si, católico, virtudes maiores do que as do velho budista.

Era na viagem de regresso a casa. Anoitecia. O rapaz via o busto curvado do pai pedalando à frente. Não sabia por onde começar. Nunca o velho criticara a religião dele, Francisco; antes pelo contrário, achava bonito, tinha orgulho em vê-lo na capela do convento a ajudar o padre, a acender as velas, a comungar o senhor. Por que ia ele agora menosprezar o seu deus, dizer que era falso. Que de nada lhe valiam as oferendas a Buda. as orações?

Chegaram a casa sem palavra.

O velho Cheong perguntava a si mesmo porque razão se mostrava o moço tão pensativo aquela noite.

O jantar decorreu também em desusado silêncio. Ouviam-se os fachis de bambu tinir na borda das tigelas. O velho ofereceu mais arroz. Francisco acenou que não. Ficaram ambos, calados, a olhar a noite e as águas escuras. Depois Francisco abriu a boca para citar uma frase do Evangelho. O pai ergueu-se. O barco vacilou. À luz da candeia, a sombra do velho alongava-se em ponte até ao cais.

Por fim, já deitados, lado a lado, nas tábuas carcomidas do bote, o rapaz, encorajado pelas trevas, entrou a falar de religião.

O velho escutava, atento. Gostava de ouvir o filho. Como sabia tanto o menino! Claro que não entendia tudo que ele dizia. Falar de Deus, todavia, parecia-lhe matéria excelente.

Francisco contava dos mistérios da sua fé, referia-se à Bíblia, a passos da vida de Jesus.

O sono pesava nas pálpebras cansadas do condutor do sam-lun-ché um sono bom, todo embalado nas palavras do filho, palavras ressoantes de doçura, de perdão, de amor.

A hora avançava, dando lugar à Lua. Uma lua cheia, leitosa, que o moço contemplava enquanto discorria, e que lhe trazia à ideia a lembrança de uma deidade – Nossa Senhora?, alguma santa?, o Génio da Noite?

- ...Paz na Terra aos homens de boa vontade -murmurou.

E comparava a paz divina à Lua redonda. Sentia mesmo essa paz como nunca antes a havia sentido. E não disse mais nada.

Todo vestido de luar, olhos fechados, mudo, a seu lado, o pai era como se estivesse morto. Tão puro, tão bom! Desejou afagar-Ihe as mãos ao de leve. A alma dele devia assemelhar-se ao rosto da Lua. Religião, Deus, oração, não seriam afinal o velho de alma branca como a Lua e a serenidade que de ambos irradiava?

Essa doutrina, no entanto, nunca ninguém lhe ensinara. Não a aprendera na catequese nem na escola. Talvez que professores e catequistas não tivessem reparado na Lua e no homem do sam-lun-ché. Ele, porém, sabia agora que era assim. Uma revelação, aquela noite. Nem cristãos, nem budistas, nem tauistas, nem confucionistas... Deus, só. Um deus de todos.

A custo o velho reabriu os olhos, vencendo o sono. O filho estava calado, meditabundo, com certeza findara já a sua bela história. E Cheong balbuciou:

-Tão novo e sabendo coisas que um velho mal entende! Por isso vou ao pagode depois de te deixar na capela das freiras. Quanto devo agradecer aos deuses um filho assim!


Maria Ondina Braga, A Rosa-de-Jericó




O último amor do principe Genghi



Quando Genghi, o resplandecente, o maior sedutor que jamais surpreendeu a Asia, atingiu os cinquenta anos, deu-se conta de que tinha de começar a morrer. A sua segunda mulher, Murasaki, a princesa Violeta, que ele tanto amara através de tantas infidelidades contraditórias, precedera-o num desses Paraísos aonde vão os mortos que conquistaram algum mérito durante esta vida inconstante e difícil, e Genghi atormentava-se por não conseguir recordar exactamente o seu sorriso ou o esgar que esboçava antes de chorar. A sua terceira esposa, a Princesa do Palácio do Poente, enganara-o com o genro, tal como ele enganara o pai nos seus tempos de juventude com uma imperatriz adolescente. Representava-se a mesma peça no palco do mundo, mas desta vez sabia que lhe estava apenas reservado o papel de velho, e a semelhante personagem preferia a de fantasma. Por isso mesmo distribuiu os seus bens, reformou os seus servos e preparou-se para acabar os seus dias num eremitério que tivera o cuidado de mandar construir na encosta da montanha. Atravessou pela última vez a cidade, seguido apenas por dois ou três companheiros dedicados que não se resignavam a despedir-se, nele, da sua própria juventude. Não obstante a hora matinal, havia mulheres com o rosto encostado às delgadas ripas das persianas. Murmuravam em voz alta que Genghi era ainda muito belo, o que provou uma vez mais ao príncipe que chegara a hora de partir.

Levaram três dias a alcançar o eremitério, situado em pleno campo silvestre. A casita erguia-se à sombra de um bordo centenário; como era Outono, as folhas daquela bela árvore revestiam-Ihe o telhado de colmo com uma coberta de oiro. A vida nesta solidão revelou-se ainda mais simples e mais dura do que nos longos exílios que na sua turbulenta juventude Genghi suportara no estrangeiro, e aquele homem requintado pôde finalmente saborear à saciedade o luxo supremo que consiste em abdicar de tudo. Breve se anunciaram os primeiros frios; as encostas da montanha cobriram-se de neve como amplas pregas das vestes acolchoadas que se usam no Inverno, e o nevoeiro abafou o sol. Da aurora ao crepúsculo, à parca luz de um braseiro avaro, Genghi lia as Escrituras e achava naqueles austeros versículos certo sabor de que eram doravante falhos os mais patéticos versos de amor.

Mas breve se deu conta de que estava a perder a vista, como se todas as lágrimas que vertera sobre as suas frágeis amantes lhe houvessem queimado os olhos, e teve de reconhecer que, para ele, as trevas começariam antes da morte. De quando em vez, um correio transido chegava da capital, arrastando os pés inchados de cansaço e de frieiras, e apresentava-Ihe respeitosamente mensagens de parentes ou amigos que desejavam visitá-Io uma derradeira vez neste mundo, antes dos encontros infinitos e incertos da outra vida. Mas Genghi receava inspirar aos seus hóspedes mera compaixão ou respeito, dois sentimentos a que tinha horror e aos quais preferia o esquecimento. Sacudia tristemente a cabeça, e aquele príncipe outrora famoso pelo seu talento de poeta e calígrafo mandava o carteiro de volta com uma folha em branco. Pouco a pouco, os contactos com a capital abrandaram; o ciclo das festas sazonais continuava a girar longe do príncipe, que em tempos as dirigia com um aceno do leque, e Genghi, abandonado sem pejo às tristezas da solidão, agravava sem cessar o mal que lhe afligia os olhos, pois já não se envergonhava de chorar.

Duas ou três das suas antigas amantes haviam-lhe proposto virem partilhar o seu isolamento cheio de recordações. Chegavam-lhe as mais ternas cartas da Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem: era uma antiga concubina de casta meã e de beleza medíocre; servira fielmente Genghi e durante dezoito anos amara o príncipe sem nunca se cansar de sofrer. Ele fazia-lhe de vez em quando umas visitas nocturnas, e esses encontros, embora raros como estrelas em noite de chuva, haviam sido o bastante para alumiar a pobre vida da Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem. Pois que não alimentava ilusões acerca da sua beleza, nem do seu espírito, nem do seu nascimento, a Dama, única entre tantas amantes, tributava a Genghi uma terna gratidão, porquanto não achava nada natural que ele a tivesse amado.

Como as suas cartas continuavam sem r
esposta, alugou uma modesta carruagem e fez-se conduzir à cabana do príncipe solitário. Empurrou timidamente a porta feita de ramos entrançados; ajoelhou-se com um risinho humilde, para se desculpar de estar ali; Foi na época em que Genghi reconhecia ainda o rosto dos que o visitavam, quando se aproximavam de muito perto.
Uma raiva amarga o tomou frente àquela mulher que despertava nele as mais dolorosas recordações dos dias mortos, não tanto pelo efeito da sua própria presença, mas porque as suas mangas continuavam impregnadas do perfume que usavam as suas defuntas mulheres.

Suplicou-lhe tristemente que a retivesse pelo menos como criada. Implacável pela primeira vez, expulsou-a; mas ela guardara amigos entre os poucos velhotes que asseguravam o serviço do príncipe, e estes davam-lhe notícias de quando em quando. Cruel também pela primeira vez na vida, ela vigiava de longe a progressão da cegueira de Genghi, como uma mulher impaciente de juntar-se ao amante espera que a noite caia por completo.

Quando o soube quase totalmente cego, despiu a sua indumentária da cidade e cobriu-se com um vestido curto e grosseiro, como os que usam as jovens camponesas; entrançou os cabelos à maneira das raparigas do campo; e armou-se de um fardo de tecidos e de louças, como os que se vendem nas feiras de província. Assim enfarpelada, deixou-se conduzir ao sítio em que o exilado voluntário vivia na companhia dos corços e dos pavões da floresta; percorreu a pé a última parte do percurso, para que a lama e o cansaço a ajudassem a desempenhar o seu papel. A chuva miúda da Primavera caía do céu sobre a terra mole, afogando os derradeiros lampejos do crepúsculo: era a hora em que Genghi, envolto no rigor das suas vestes de monge, passeava lentamente pelo carreiro donde os seus velhos servos haviam cuidadosamente afastado o menor seixo, não fosse ele tropeçar. O seu rosto ausente, esvaziado, embaciado pela cegueira e as investidas da idade parecia um espelho plúmbeo que em tempos reflectira beleza, e a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem não precisou de fingir para começar a chorar.

Aquele som de soluços femininos Genghi sobressaltou-se e dirigiu-se lentamente para o lado donde vinham as lágrimas.

-Quem és tu, mulher ? -perguntou inquieto.

- Sou Ukifune, a filha do rendeiro So-Hei -disse a Dama, sem se esquecer de adoptar a pronúncia da aldeia. - Fui à cidade com minha mãe, para comprar tecidos e tachos, porque me casam para a próxima lua. E eis que me perdi nos caminhos da montanha, e choro porque tenho medo dos javalis, dos demónios, do desejo dos homens e dos fantasmas dos mortos.

-Estás encharcada, menina -disse o príncipe pousando-lhe a mão no ombro.

Estava realmente ensopada até aos ossos.

O contacto daquela mão que tão bem conhecia fê-la estremecer da ponta dos cabelos aos dedos dos pés descalços, mas Genghi pensou porventura que ela tremia de frio.

-Vem para a minha cabana -retomou o príncipe com voz calorosa. - Poderás aquecer-te à minha lareira, muito embora tenha menos brasas do que cinzas.

A Dama seguiu-o, tendo o cuidado de imitar o andar simplório de uma camponesa. Acocoraram-se os dois junto ao lume quase morto. Genghi estendia as mãos para o calor, mas a Dama escondia os dedos, demasiado delicados para uma rapariga do campo.

-Estou cego -suspirou Genghi ao cabo de um instante. -Podes despir sem pejo a tua roupa molhada, menina, e aquecer-te nua junto à lareira.

A Dama despiu docilmente o seu vestido de camponesa. O lume rosava-lhe o corpo esguio, que parecia talhado no mais pálido âmbar. De repente, Genghi murmurou:

-Enganei-te, menina, pois não estou ainda completamente cego. Adivinho-te através de uma névoa que talvez mais não seja do que o halo da tua própria beleza. Deixa-me pousar a mão no teu braço ainda tremuroso.

Foi assim que a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem voltou a ser a amante do príncipe Genghi, que humildemente amara durante mais de dezoito anos.

E não se esqueceu de imitar as lágrimas e as hesitações de uma rapariga no seu primeiro amor. O seu corpo mantivera-se surpreendentemente jovem, e a vista do príncipe era demasiado fraca para distinguir os seus parcos cabelos grisalhos.

Chegados ao fim das carícias, a Dama ajoelhou-se aos pés do príncipe e disse-lhe:

-Enganei-te, príncipe. Sou realmente Ukifune, a filha do rendeiro So-Hei, mas não me perdi na montanha. A glória do príncipe Genghi espalhou-se até à aldeia e vim por minha vontade, para descobrir o amor nos teus braços.

Genghi levantou-se cambaleante, como um pinheiro vacila ao embate do Inverno e do vento. Com voz sibilante, gritou:

-Maldita sejas, que acabas de trazer-me a lembrança do meu pior inimigo, o belo príncipe de olhar aceso cuja imagem me traz desperto todas as noites... Vai-te daqui...

E a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem afastou-se, lamentando o erro que acabava de cometer.

Durante as semanas que se seguiram, Genghi ficou só. Verificava com desalento que continuava enleado nos enganos deste mundo e bem pouco afeito ao despojamento e à .renovação da outra vida. A visita da filha do rendeiro So-Hei despertara nele o gosto pelas criaturas de pulso esguio, de longos peitos cónicos, de riso patético e dócil. Depois que começara a cegar, o sentido do tacto era o seu único meio de captar a beleza do mundo, e as paisagens onde fora refugiar-se já não dispensavam qualquer consolo, pois o barulho de um regato é mais monótono que a voz de uma mulher e as curvas das colinas ou as madeixas das nuvens são feitas para quem as vê e pairam demasiado longe para se deixarem afagar.

Decorridos dois meses, a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem fez segunda tentativa. Desta feita vestiu-se e perfumou-se com esmero, mas teve o cuidado de dar ao corte dos tecidos qualquer coisa de acanhado e tímido em toda a sua elegância, e de deixar que o perfume discreto, mas banal, sugerisse a falta de imaginação de uma mulher jovem saída de um honrado clã da província e que nunca viu a corte.

Desta vez, alugou carregadores e uma liteira imponente, mas à qual faltavam os últimos aperfeiçoamentos da cidade. E arranjou maneira de alcançar as proximidades da cabana de Genghi já de noite cerrada.

O Verão chegara à montanha antes dela. Sentado ao pé do bordo, Genghi ouvia os grilos cantar. Ela aproximou-se, escondendo um pouco o rosto por detrás de um leque, e murmurou embaraçada:

-Eu sou Chujo, a mulher de Sukazu, fidalgo de sétima ordem da província de Yamato. Vou em peregrinação ao templo de Isê, mas um dos meus carregadores acaba de torcer um pé e não posso prosseguir caminho antes da aurora. Indica-me uma cabana onde possa hospedar-me sem receio de calúnias e dar descanso aos meus criados.

-Onde estará uma mulher nova mais abrigada das calúnias do que na casa de um velho cego? -disse o príncipe amargamente.

- A minha cabana é demasiado pequena para os teus servos, que poderão instalar-se debaixo desta árvore, mas ceder-te-ei o único colchão do meu retiro.

Levantou-se tacteando para lhe ensinar o caminho.

Nem uma única vez ergueu os olhos para ela, que por este sinal reconheceu que ele estava completamente cego.

Depois que ela se estendeu no colchão de folhas secas, Genghi retomou o seu lugar melancólico à entrada da cabana. Estava triste, e nem sequer sabia se aquela mulher jovem era bela.

A noite estava quente e luminosa. A lua despejava u
m clarão no rosto erguido do cego, que parecia esculpido em jade branco. Ao cabo de um longo momento, a Dama deixou o seu leito campestre e foi também sentar-se à entrada. E disse com um suspiro:
-Está uma noite bonita e não tenho sono. Deixa-me cantar uma das canções de que trago o peito cheio.

E sem esperar pela resposta entoou uma romança de que o príncipe gostava muito, pois muitas vezes a ouvira, em tempos, nos lábios da sua mulher preferida, a princesa Violeta. Perturbado, Genghi aproximou-se insensivelmente da desconhecida:

-Tu donde vens, jovem mulher que sabes canções que tanto afeiçoávamos na minha juventude? Harpa onde se dedilham árias de antigamente, deixa-me passar as mãos nas tuas cordas.

E acariciou-lhe os cabelos. Ao fim de um instante, perguntou-lhe:

- Ai de mim! Pois não é o teu esposo mais belo e mais jovem do que eu, jovem mulher do país de Yamato?

- O meu esposo é menos belo e parece menos jovem -respondeu simplesmente a Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem.

Assim se tornou a Dama, sob novo disfarce, a amante do príncipe Genghi, a quem em tempos pertencera. De manhãzinha, ajudou-o a preparar umas papas quentes e o príncipe Genghi disse-lhe:

- És terna e hábil, jovem mulher, e creio que nem o príncipe Genghi, que tão feliz foi no amor, jamais teve amante mais doce do que tu.

- Nunca ouvi falar do príncipe Genghi -disse a Dama sacudindo a cabeça.

- Quê? -exclamou Genghi amarga mente. -Pois tão depressa o esqueceram?

E todo o dia se manteve sombrio. A Dama compreendeu então que se enganara pela segunda vez, mas Genghi não falava em mandá-la embora e parecia feliz de ouvir o sussurro do seu vestido de seda na erva.

O Outono chegou, mudando as árvores da montanha noutras tantas fadas vestidas de ouro e púrpura, mas destinadas a morrerem com os primeiros frios.

A Dama descrevia a Genghi aqueles castanhos-cinza, aqueles castanhos-dou
rados, aqueles castanhos-malva, tendo o cuidado de os referir só por acaso, e evitando sempre dar mostras de ir ostensivamente em seu auxílio. E a toda a hora encantava Genghi com a invenção de engenhosos colares de flores, de pratos requintados de tão simples, de letras novas adaptadas a velhas modas ternas e dolentes. Já no seu pavilhão de quinta concubina, onde Genghi a visitara em tempos, fizera valer aqueles mesmos encantos; distraído, porém, por outros amores não dera conta deles. Pelo fim do Outono, as febres subiram dos pântanos. Os insectos pululavam no ar empestado, e cada respiração era como um gole de água sorvido numa fonte envenenada, Genghi caiu doente e deitou-se na sua enxerga de folhas mortas, sabendo que não voltaria alevantar-se. Envergonhava-se da sua fraqueza e dos cuidados humilhantes a que a doença o obrigava frente à Dama, mas àquele homem, que toda a sua vida procurara em cada experiência aquilo que ela tinha simultaneamente de mais único e de mais dilacerante, apenas restava provar o que aquela intimidade nova e miserável entre dois seres acrescentava às estreitas doçuras do amor.
Certa manhã em que a Dama lhe massajava as pernas, Genghi ergue-se apoiado nos cotovelos, procurou as mãos da Dama, tacteando e murmurou:

- Jovem mulher que cuidas deste que vai morrer, enganei-te. Eu sou o príncipe Genghi.

- Quando vim ao teu encontro, não passava de uma provinciana ignorante -disse a Dama -, e não
sabia quem era o príncipe Genghi. Sei agora que foi o mais belo e o mais desejado de entre os homens, mas não precisas de ser o príncipe Genghi para seres amado.
Genghi agradeceu-lhe com um sorriso. Desde que se lhe haviam emudecido os olhos, dir-se-ia que o seu olhar lhe palpitava nos lábios.

- Vou morrer -disse a custo. - Não me queixo de uma sorte que partilho com as flo
res, com os insectos, com os astros. Num universo onde tudo passa como um sonho, seria censurável durar sempre. Não me queixo de que as coisas, os seres, os corações sejam perecíveis, porquanto parte da sua beleza é feita desse infortúnio. O que me aflige é que sejam únicos. Antigamente, a certeza de obter em cada instante da minha vida uma revelação que não mais se repetiria constituía o que havia de mais luminoso nos meus prazeres secretos: agora, morro envergonhado como um privilegiado que tivesse assistido sozinho a uma festa sublime que apenas terá lugar uma vez. Queridos objectos, apenas tendes por testemunha um cego à beira da morte. Outras mulheres hão-de florescer, tão sorridentes como as que amei, mas o seu sorriso será diferente, e aquele sinal que me apaixonava na sua face de âmbar ter-se-á deslocado a espessura de um átomo. Outros corações hão-de ceder ao peso de um amor insuportável, mas não serão nossas as suas lágrimas. Mãos húmidas de desejo continuarão a enlear-se sob as amendoeiras em flor, mas nunca a mesma chuva de pétalas se desfolha duas vezes sobre à mesma felicidade humana. Ah! Sinto-me como um homem levado pela cheia, que quisera encontrar ao menos um quinhão de terra seca para aí deixar algumas cartas amarelecidas e alguns leques de cores já desbotadas...Que será de ti quando já aqui não estiver para me enternecer contigo, Recordação da Princesa Azul, minha primeira mulher, em cujo amor apenas acreditei no dia seguinte ao da sua morte? E Dor de ti também, desolada Recordação da Dama-do-Pavilhão-das-Volúveis, que morreu nos meus braços porque uma noiva ciumenta teimara em ser a única a amar-me? E de vós, insidiosas Recordações da minha demasiado bela madrasta e da minha demasiado jovem esposa, que se encarregaram de me ensinar à vez quanto se sofre ao ser-se o cúmplice ou a vítima de que uma infidelidade? E de ti, subtil Recordação da Dama-Cigarra-do-Jardim, que por pudor se esquivou, de tal modo que tive de consolar-me junto do fim seu jovem irmão, cujo rosto infantil reflectia alguns traços daquele tímido novo sorriso de mulher? E de ti, cara Recordação da Dama-da-Longa-Noite, que tão doce foi e consentiu em ser tão-só a terceira em minha casa e no meu coração? E de ti, pobre e breve Recordação pastoral da filha do rendeiro So-Hei, que em mim apenas no meu passado amava? E sobretudo de ti, de ti, deliciosa Recordação da pequenina Chujo que neste momento me massaja os pés e nem tempo terá de ser recordação? Chujo, que gostaria de ter encontrado mais cedo na minha vida; mas também é justo haver frutos reservados para o Outono mais tardio...
Ébrio de tristeza, deixou tombar a cabeça no travesseiro duro.
A Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem inclinou-se para ele e murmurou tremurosa:

-Não havia acaso em teu palácio outra mulher, cujo nome não pronunciaste? Uma mulher meiga? Uma mulher chamada Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem? Ai, recorda-te...

Mas já os traços do príncipe Genghi haviam conquistado aquela serenidade que só aos mortos é reservada. O termo de toda a dor apagara do seu rosto o menor vestígio de saciedade ou de amargura e parecia tê-lo convencido a ele próprio que tinha ainda dezoito anos. A Dama-da-aldeia-das-flores-que-caem deitou-se ao chão, gritando para além de toda a medida; as lágrimas salgadas devastavam-lhe as faces como a chuva da tempestade e os cabelos
que arrancava às mancheias voavam como penugem. O único nome que Genghi esquecera era precisamente o dela.


Marguerite Yourcenar, in Contos Orientais






Havia Sol na Praça



E era assim todas as manhãs. Eu subia a rua para a repartição ele descia-a para a vadiagem. Vinha com as suas grandes barbas numa caranguejola a quatro rodas, puxada por um jerico. Era velho o jerico, devia ser da idade dele, com placas lazarentas a surrarem-lhe o pêlo. E a caranguejola era uma espécie de jangada com várias pranchas pregadas umas às outras. Mas como era aí que ele vivia, em cima dela cabia tudo: manta para dormir, vários trastes de cozinha e às vezes roupa, como galhardetes de um navio, suspensa de um fio a secar. A proa, sentado no traseiro, viajava um cão a gozar a paisagem. E sentado no meio a tocar realejo, viajava ele. Na cidade e redondezas toda a gente o estimava muito. E como resolvera em quatro pranchas o problema da habitação e transportes, também toda a gente o admirava. Os garotos faziam-lhe uma festa quando ele aparecia com a viatura a tocar realejo:

- Eh, Fadista!

Fadista propriamente era o nome do cão. Mas como constituíam uma família e a vida do homem podia cantar-se no fado, o nome de Fadista ficou para ele. A garotada seguia-lhe a caranguejola a bater palmas, mas o homem nem ouvia. Só a polícia embirrava com ele porque, além de perturbar o trânsito, tinha a mania de parar às vezes em certo sítio da praça para catar o piolho. Podia catá-lo noutro lado. Não catava - era ali. Chegava mesmo a despir a camisa para uma pesquisa mais conscienciosa, menos sujeita à contingência da simples apalpação. E, certo dia, levado no entusiasmo da busca, acabou por desapertar outras peças de roupa que já não eram de desapertar. As senhoras que ~ passavam, passavam de olhos no chão ou bastante no ar para não olharem para ele depois de terem olhado. E como ele não sabia que as partes do corpo que se podem mostrar não eram todas as que ele mostrava, a polícia deitou-lhe a mão e levou-o ao posto para o esclarecer.

Teve-o lá um dia e uma noite. Mas o cão fazia um alarido infernal, e havia ainda o burro, De modo que, passada a noite e o dia, soltaram-no outra vez. E um dia que eu subia a rua para a repartição, descia-a ele outra vez para a vadiagem. Até que, depois de fazer a sua ronda por longe, voltou de novo a estabelecer-se na praça. Gostava de certo sítio onde batia o sol, sobretudo no tempo frio, parava o burro e estava ali. Como a caça ao piolho o levara à cadeia, já não caçava. Gostava era daquele sítio batido do sol e de ver a gente a passar. As vezes, quando chegava, atravancando quase toda a rua, os carros buzinavam à volta dele com uma fúria de canzoada, mas ele nem ouvia. Travava o burro, o cão à proa sentado no traseiro, ficavam os três ali, parados ao sol. De modo que as forças vivas da cidade, para clarearem um pouco o aspecto da praça e praticarem a justiça social, meteram-no no as!!? A caranguejola ficou encostada ao alto, no pátio, talvez para ser queimada por altura de mais frio, o cão andava aos ossos pela cozinha e o burro ajudava as carroças que por lá havia. Fadista estava outro, lavado à agulheta, tosquiado, metido numa farda grande de asilado. De uma vez que passei ao pé, lá o vi ao alto no muro, sentado ao sol com os colegas. Tinha um capote castanho com uma gola que lhe subia até ao queixo e um barrete de pala na cabeça.

- Eh, Fadista!

Ele rodou a cabeça devagar, fez-me um gesto brusco com o queixo como a mandar-me aonde não devia. Depois, como havia sempre outras coisas para lembrar, acabei por esquecê-lo. Até que um dia, subia eu a rua para a repartição, descia-a ele outra vez na caranguejola.

Foi o director do asilo que nos contou. Certa madrugada, apanhou o burro e o cão, endireitou a jangada e partiu. Foi passado ainda um mandado de busca ou de captura. Mas como o não encontraram e havia sempre outras coisas para buscar, também o esqueceram. Quando tempo depois voltou a aparecer, na praça, como havia muita coisa burocrática a pôr em andamento, largaram-no de mão. Assim Fadista se estabeleceu de novo na ordem da vida e voltou à praça outra vez. Os motoristas buzinavam à volta dele, diziam-lhe à passagem muitas ordinarices, ele nem ouvia. De modo que, muito tempo antes de ele tirar a camisa, já toda a gente voltava a escandalizar-se. E foi assim que, para aclarar a limpeza da praça e pôr em acção a justiça social, empalmaram-no outra vez e meteram-no outra vez no asilo. Um dia que eu passava cá em baixo do muro, lá o vi ao alto, sentado com uma farda nova entre os colegas. Por um impulso irresistível de solidariedade humana e porque já me fazia falta a sua passagem na rua, parei e disse-lhe lá para cima:

- Eh, Fadista!

Ele rodou o pescoço, olhou-me algum tempo cá em baixo e fez-me um gesto brusco com o queixo como a mandar-me aonde não achei bem que mandasse. Mas desta vez, como nos explicou no café o director do asilo, escavacaram-lhe a caranguejola e desfizeram-se para longe do burro e do cão para ele se não tentar outra vez. A cidade acabara por se interessar pelo vagabundo. Mas escavacado o seu meio de locomoção e havendo sempre coisas novas para lembrar, acabou outra vez por esquecê-lo. Eu, como tinha também sempre coisas novas a lembrar, acabei também outra vez por esquecê-lo.

Até que alguns meses depois, subia eu a rua para a repartição, descia-a ele de novo para a vadiagem. Vinha já de barbas numa caranguejola nova a quatro rodas, puxada por um jerico. Era um jerico muito velho, já com certa relutância em puxar, cheio de placas lazarentas no lombo surrado. A um impulso irresistível de simpatia humana, saudei-o com entusiasmo:

- Eh, Fadista!

Ele sentava-se no meio da jangada cheia de trastes velhos de cozinha tocando gaita-de-beiços, com roupa como galhardetes suspensa de um fio a secar. E postado à proa, sentado no traseiro, viajava um cão a gozar a paisagem. E pouco tempo depois estava outra vez na praça. Estava frio e havia lá um sítio onde batia o sol. Os motoristas deram urros quando o viram, porque a caranguejola era larga e atravancava o trânsito. Guinavam bruscamente com o volante para se desviarem dele e à passagem diziam-lhe tudo. Mas ele nem ouvia entretido a caçar o piolho. Chegou mesmo a abrir a camisa para uma busca mais meticulosa, e certa vez, largado no entusiasmo, foi descendo na procura até a sítios onde já não devia procurar. As forças progressivas da cidade puseram-se outra vez em andamento, mas teve de se esperar algum tempo para acertar a burocracia. Até que tudo se acertou, e um dia que ele passava na praça e nem sequer ficara ao sol, a polícia deitou-lhe a mão e todo o progresso da cidade rejubilou. Certa vez que eu passava cá em baixo do muro, lá o vi outra vez, sentado no parapeito, já metido no capote do fardamento, ao pé dos outros colegas. Por um impulso expansivo de calor humano gritei-lhe cá de baixo:

- Eh, Fadista!

Mas ele, dessa vez, nem me olhou. Tinha o queixo enterrado na gola do capote e assim ficou. Um pouco vexado de me não ligar importância, ao menos para me mandar aonde tinha o mau hábito de me mandar, voltei a berrar-lhe com mais força:

- Eh, Fadista!

As pessoas que passavam olhavam acima e abaixo a medirem-nos aos dois, sorriam e desandavam. E os colegas, desejosos de colaborar, olhavam-me também e tocavam-lhe com o cotovelo. Mas ele, embezerrado, não se mexeu. E um dia que eu voltei a passar ao muro, não o vi lá. Olhei de novo, não o vi lá. E outro dia que voltei a passar, também o não vi. E como a vida tem sempre coisas novas para pensarmos, deixei de pensar nele.

Até que um dia o director do asilo se veio sentar de novo à nossa mesa de café. Era um tipo muito alto e muito progressivo. Acomodou-se à mesa e, como o clube da terra tinha perdido, falou de futebol. Depois, como era muito progressivo e tinha um convívio diário com a justiça social, falou de justiça social. E então bruscamente lembrei-me do Fadista. Que era feito dele? Quando é que ele voltava a aparecer com a caranguejola? O homem, que era muito abonado em ironia, disse-me que de caranguejola? O Fadista? Só se fosse no Paraíso.

- Morreu - clamei eu, iluminado de evidência.

- Mas diga-me o meu amigo o que é que a gente havia de fazer. Nós a querer fazer-lhe bem, ele a teimar. A gente a lavá-lo, ele a encher-se de bicharia. A gente a querer a limpeza da cidade, ele a dizer que não. Foi assim.

- E morreu.

- A gente a querer o bem dele, ele a estragar.

- E matou-se. Enforcou-se.

- A gente a querer corrigir as injustiças sociais, ele a tramar-nos a vida. E desculpem que tenho agora uma reunião.

- E enforcou-se.

- Tenho agora uma reunião.

Levantou-se, tinha agora uma reunião. Estava um dia bonito. Havia sol na praça.


Vergílio Ferreira, in Contos,