25/02/2008

Destinos


Foram uns amores singulares, aqueles. No Junho, as cerdeiras punham por toda a veiga uma nota viva, fresca e sorridente. As praganas aloiravam, as cigarras zumbiam, as águas de regadio corriam docemente nas caleiras, e dos verdes maciços de folhas leves e ondulantes, emoldurados no céu, espreitavam a primavera, curiosos, milhares de olhos túmidos e vermelhos. Era domingo. E ele subira por desfastio à velha bical dos Louvados a matar saudades de menino.

- Não dás um ramo, ó Coiso? - perguntou do caminho a rapariga.

- Dou, dou! Anda cá buscá-lo. Pela voz, pareceu-lhe logo a Natália. Mas só depois de arredar a cabeça de uma pernada é que se confirmou.

- Não estás de caçoada? - Falo a sério!

Era bonita como só ela. Delgada, maneirinha, branca, e de olhos esverdeados, fazia um homem mudar de cor.

- Olha que aceito! - E eu que estimo... Tinha já no chapéu algumas cerejas colhidas, reluzentes, a dizer comei-me.

- Não teimes muito...

- Valha-me Deus!... A rapariga atravessou então o valado, entrou na leira e chegou-se, risonha,

- Segura lá na abada... Encandearam os olhos um no outro, ela de avental aberto, ele de rosto afogueado, deram sinal, e a dádiva desceu, generosa e doce.

Vista de cima, a Natália ainda cegava mais a gente. O queixo erguido dava-lhe um ar de criança grande; os seios, repuxados, pareciam outeiros de virgindade; e o resto do corpo, fino, limpo, tinha uma pureza de coisa inteira e guardada.

- Terão bicho?

- Têm agora bicho! Ia-te mesmo dar cerejas com bicho!

Sem querer,, a resposta saíra-lhe expressiva demais. O coração agitou-se um pouco, o instinto, acordado, estremeceu, e os olhos, culpados, fugiram-lhe do rosto da moça e fixaram-se sonhadoramente no céu.

- Bota cá mais meia dúzia. Já que comecei... À medida que se enfarruscava de sumo, a Natália ia-se tomando também num fruto que apetecia colher. Mas recusou-se a vê-la com pensamentos desejosos e atrevidos.

- Segura lá esta pinhoca... Era um lindo ramo que fora buscar à coroa quase inacessível da árvore. As cerejas, libertas da sombra protectora das folhas, tinham-se dado inteiramente ao sol, deixando-se amadurecer por igual, num abandono quente e ditoso.

- Que lindo! - É para que saibas... Concentraram a atenção um no outro, e de tal modo ficaram fascinados, que se ela não dá um grito de aviso, com a oferta vinha o doador também ao chão.

- Cautela!

- Não há perigo. No enlevo em que ficara, o desgraçado até se esqueceu do sítio onde estava.

- Queres mais? - Não, bem hajas... Pôs-se logo a descer, um pouco atarantado por lhe faltarem já as palavras que lhe havia de dizer cá na terra. Ela é que entretanto se escapulira. .- Adeus!...

O namoro, contudo, tinha começado. Sem nunca falarem daquela tarde, sabiam ambos que se amavam e que fora a velha cerdeira bical que lhes aproximara os corações. Pena elo ser o que era: uma natureza tímida, incapaz de um acto rasgado e levado ao fim.

Falavam ao cair da tarde, quando a fresca do anoitecer aligeirava o cansaço das cavas, sem que ninguém reparasse, pois a povoação aceitara já aquela união como um facto natural e acertado - e o rapaz ainda a meio do caminho, atarantado e reticente.

- Que diz vossemecê? - perguntava ele à mãe, à pobre Teodósia, que não via outra coisa na vida senão a felicidade do filho.

- A mim agrada-me... É boa rapariga, e limpa, é jeitosa... - Lá isso... Dizia, e ficava-se calado, indeciso entre o sonho e a realidade.

- Fala à gente! Era sempre a Natália a começar, como no dia das cerejas. Por mais que fizesse, nunca ele se atreveria a dar o primeiro passo. Só quando a rapariga quebrava a distância é que o coitado se abria num contentamento sem medida., tonto e novo como um cabrito. Mas nunca passava de coisas vagas e enternecidas. As palavras concretas magoavam-lhe a boca.

- Ainda não lhe falaste em nada? - Indagava a Teodósia, insárida.

- Não. Mas amanhã... - Ou quererás tu antes que eu lhe diga... ? - Melhor fora! Valha-a Deus! Isso até era uma vergonha!

Lá conhecer os pontos de honra de um homem, conhecia-os ele. A coragem é que não chegava à altura do entendimento.

Infelizmente, a vida não podia parar naquela lírica indecisão. Os meses passavam, as folhas caíam, e outros renovos vinham povoar a terra.

- O João Neca esperou-me ontem à entrada do povo... - começou a Natália, à saída da missa.

- Ah, sim? E depois? - perguntou ele, a sentir o sangue subir-lhe à cara.

- Pediu-me namoro... - deixou ela cair com melancolia.

Era justamente altura de lhe dizer tudo, que a não podia tirar do pensamento, que só quando a levasse ao altar teria paz, que não seria nada no mundo sem os seus olhos verdes ao lado. Mas ainda desta vez o ânimo lhe faltou.

- Bem, tu é que vês... Ele não é mau rapaz... Rasgava-lhe conscientemente o coração com semelhante aquiescência, porque tinha a certeza que desde a primeira hora o amava também. A coragem é que não era capaz doutra coisa.

- Eu queria lá um farçola daqueles! Estou muito bem assim...

Puras palavras de desespero. Tanto ela, que despeitada as dizia, como ele, que culpado as provocara, sabiam que eram o fruto de uma revolta impotente e destinada a morrer.

A pobre Teodósia é que lutava às claras. E dias depois já estava a picar o filho:

- Sabes o que me disseram hoje na fonte? - Que a Natália tem namoro com o João Neca... - respondeu, vencido.

- Nem mais. - Pois tem...

- Já sabias?! Então... e tu? Não a queres? Ou foi ela que te deixou ?

- Eu sei lá o que foi... Dali em diante parecia viver de alma viúva. E a alegria do rosto da rapariga cobriu-se também de um negro véu de desilusão. Passavam um pelo outro e comiam-se com os olhos. Mas nem ele lhe falava no seu amor, nem ela rasgava já a frágil teia de separação.

- Casam-se para a semana... - ia esclarecendo a Teodósia, como um remorso.

- Já sei. - O padre leu hoje os banhos... - Pois leu... Era uma resignação que quebrava a gente, e desarmava. E a velha não encontrava outro alivio senão chorar.

- Morria por ti! - disse-lhe numa manhã, que podia ser de felicidade para os três., e se transformara num pesadelo.

Os sinos tocavam festivamente, ia por toda a aldeia um alvoroço de noivado, e só naquela casa a tristeza se aninhava sombria e desamparada a um canto.

- Também eu gostava dela... Era outra vez Junho, as searas aloiravam já, e nas cerdeiras, polpudas, rijas, as cerejas tomavam uma cor avermelhada e levemente escarninha.


Miguel Torga, Novos Contos da Montanha




24/02/2008

O coração


Havia um coração (ou muitos) que pagava, que pagava sempre...

Era o coração de um rapaz. Estava ele na idade de amar e a luz dos seus olhos era uma linda rapariga, que também o amava.

Porém os pais dela opunham-se a este amor e o rapaz andava triste como a triste noite. Espreitava a namorada de todas as bandas e não comia nem bebia.

Um dia os pais dela pregam-lhe a partida de a leva­rem para muito longe. Para onde, ninguém o soube. E o moço, a chorar pêlos campos, entrou a invectivar a sua boa fortuna que assim o desamparava.

Andava ele nestes clamores quando vê vir pêlos ares uma ave estranha. Era tão grande que sombreava toda uma eira. Vinha descendo. O seu bico, igual a uma fateixa, parecia recurvo e enorme. Descia, sem o largar de vista. Com o pasmo, o moço nem arredava pé.

Levo-te! rouquejou a ave. Levo-te!

Para junto dela? murmurou inperceptivelmente o moço.

Levo-te! E poisou as pontas das enormes asas no chão. O moço cavalgou a ave sem hesitações. E num abrir e fechar de olhos se viu em terra nova, ao pé da namorada. Choraram ambos de felicidade.

Paga-me! rouquejou a ave.

Sim, sim, eu te pagarei, respondeu-lhe alegremente o moço. Mas antes disso não nos quererás levar daqui a ambos?

Seja! roquejou ela.

E os dois cavalgaram o avejão, indo ter tão longe que diferente do conhecido lhes pareceu o céu, a terra e todas as mais coisas.

Assim que saltaram da estranha montanha, passaram os braços pela cinta um do outro e tomaram por uma vereda rescendente. Só se viam borboletas e flores: era a Pri­mavera. Imediatamente o resto do mundo lhes esqueceu e até o monstro que ali os depusera.

Um dia, porém, quando mais tarde o moço sozinho torna a passar pela mesma vereda, já despojada de ver­dura e de flores, vê a terrível ave direita a ele.

Paga-me! rouquejou ela.

Pago-te, sim, mas como?

Abre-me o peito!

O moço regaça então a camisa e aparta os braços.

E a ave, com gula, enterra-lhe o bico no coração. Ele cambaleia, mas logo se compõe e volta pelo mesmo cami­nho. Tudo se lhe afigura pálido. Até a ideia de chegar à sua própria casa o aborrece. A mulher iria salteá-lo de perguntas: porque se demorara, por onde andara... Era enfadonha a vida!

E o tempo foi passando. Nasceu-lhe um filho, o pri­meiro. Voltou-lhe a alegraia ao coração. Andava sempre desejoso de se despachar. Tinha um entusiasmo novo. Não havia filho como o seu! Se ele pudesse... até o mundo, com todas as suas lindezas e bens lhe havia de pôr no berço.

A trabalhar e mesmo a dormir só tinha pensamen­tos de amor. Mas um dia a criança adoeceu gravemente.

O pai, a estalar de angústia, vai para o campo desabafar. Chora e arrepela-se. Nisto vê vir no ar, direita a ele, a estranha ave.

Só tu me podes valer! grita-lhe.

E ela rouqueja: vem.

Logo os dois fenderam os ares. Poisaram longe, entre medonhas fragas. O moço salta abaixo e o avejão grasna: colhe-as, colhe-as, colhe-as...

Eram as ervas da salvação.

Feita a colheita, o moço ouve: paga-me!

Não tenhas pressa, leva-me ao meu filho quanto antes.

Seja! — rouquejou o avejão.

Só muito mais tarde, quando o moço, já homem de barbas, esquecido de velhos pesares, andava lavrando, é que dá com umas asas enormes, ruças e estranhas, poisa­das na terra.

Paga-me! ouve ele logo rouquejar.

É verdade que te fiquei em dívida. E escancara o peito à terrível ave. Esta enterra-lhe o bico no coração e some--se nos ares.

O homem, porque a bela mocidade já se lhe fora, olha à roda de si atordoado. Aborrece-lhe a vida, mas não pensa em morte. Que é que lhe poderia ainda dar gosto? A sua junta de bois está velha, tem de a trocar ou vender. A terra também já lhe anda a pagar mal. E já é pai de uma caterva de filhos. Mas ainda há-de ser rico!

Esta ideia nunca mais o larga. Deixou de rir como an­tigamente, anda sempre aos brados. Dispara de umas fazendas para as outras sem descanso. É insofrido com os homens da jorna. Pelos caminhos pragueja e espanca muros e troncos com as verdascas que apanha. Não poder eu estar em toda a parte... grita. E tanto gritou de uma vez que o avejão lhe desceu à frente, rouquejando: levo--te.

Para toda a parte! implora-lhe ele.

E assim foi. A cavalo no seu monstro de asas ele está presente em todos os campos. Tornou-se extraordinaria­mente rico e temido. Mas teve de pagar os favores que recebeu. A derradeira bicada do avejão foi tal que o seu coração se desencantou de tudo... Nem mais gostos nem cobiças... E, por fim, até a morte o veio procurar. Achou-o na soleira da porta, à vista das primeiras árvores que ali pusera e de um rebanho de netos que cabriola­vam. A morte fechou-lhe os olhos sem ele soltar um ai.

No outro dia, quando o levaram para a cova, todos viram com espanto, no ar, um avejão, coisa extraordi­nária, que fazia grandes círculos sem nunca poisar.

Está farta! — diziam os do enterro.

Mas o pior é que a sorte dos vivos nunca viria a ser muito diferente da do morto. O coração tem sempre de pagar... Ou o vão matando aos poucos ou ele se gasta.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma





A menina, as aves e o sangue



Aconteceu, certa vez, uma menina a quem o coração batia só de quando em enquantos. A mãe sabia que o sangue estava parado pelo roxo dos lábios, palidez nas unhas. Se o coração estancava por demasia de tempo a menina começava a esfriar e se cansava muito. A mãe, então, se afligia: rola o dedo e deixava a unha intacta. Até que o peito da filha voltava a dar sinal:
- “Mãe, venha ouvir: está a bater!”
A mãe acorria, debruçando a orelha sobre o peito estreito que soletrava pulsação. E pareciam, as duas, presenciando pingo de água em pleno deserto. Depois, o sangue dela voltava a calar, resina empurrando a arrastosa vida.
Até que, certa noite, a mulher ganhou para o susto. Foi quando ela escutou os pássaros. Sentou na cama: não eram só piares, chilreinações. Eram rumores de asas, brancos drapejos de plumas. A mãe se ergueu, pé descalço pelo corredor. Foi ao quarto da menina e joelhou-se junto ao leito. Sentiu a transpiração, reconheceu o seu próprio cheiro. Quando lhe ia tocar na fronte a menina despertou:
- “Mãe, que bom, me acordou! Eu estava sonhar pássaros”.
A mãe sortiu-se de medo, aconchegou o lençol como se protegesse a filha de uma maldição. Ao tocar no lençol uma pena se desprendeu e subiu, levinha, volteando pelo ar. A menina suspirou e a pluma, algodão em asa, de novo se ergueu, rodopiando por alturas do tecto. A mãe tentou apanhar a errante plumagem. Em vão, a pena saiu voando pela janela. A senhora ficou espreitando a noite, na ilusão de escutar a voz de um pássaro. Depois, retirou-se, adentrando-se na solidão do seu quarto. Dos pássaros selou-se segredo, só entre as duas.
Mas o assunto do coração suspenso foi sendo divulgado e chegaram ao subúrbio curiosos da cidade. Vieram estudiosos a solicitar o caso daquele acaso. Até médicos questionavam a mãe:
- “Angina de peito ela teve?
- “Sim, doutor: sempre ela foi anjinha de peito”.
Precisar de ajuda? Que não, doutor, essa menina é feita assim mesmo, levinha como ar em pulmão de ave. Mas o médico insiste, promete mundos sem fundos. Que a fenomenosa miúda podia ficar em memória da ciência. Mas a senhora mãe deveria participar. Era preciso tudo controlar: batimentos, calores, suspiros. Tarefa para mãe a tempo inteiro, se pediam obséquios.
- “Se eu sei contar, doutor? Só os padre-nossos e aves que nos mandam rezar na confissão”.
Por uns dias ela ainda segurou o pulso frio da menina. Quase desejava que o peito não desse resposta. Afinal, quando o coração lhe pulsava a menina esquentava-se, a ponto de rubra febre. A filha resistia, com doçura: queria era sair, brincar.
- “Desde dois dias, mãe. Desde isso que não bate”.
A senhora desistiu das medições. Que a deixassem só, ela com ela. E, de noite, os pássaros enchendo o escuro. A mãe expulsou os exteriores mirones. Fossem todos, levassem seus títulos, promessas, indaguações.
Com o tempo, porém, cada vez menos o coração se fazia frequente. Quase deixou de dar sinais à vida. Até que essa imobilidade se prolongou por consecutivas demoras. A menina falecera? Não se vislumbravam sinais dessa derradeiragem. Pois ela seguia praticando vivências, brincando, sempre cansadinha, resfriorenta. Uma só diferença se contava. Já à noite a mãe não escutava os piares.
- “Agora não sonha, filha?
- “Ai mãe, está tão escuro no meu sonho!”
Só então a mãe arrepiou decisão e foi à cidade:
- “Doutor, lhe respeito a permissão: queria saber a saúde de minha única. É seu peito... nunca mais deu sinal”.
O médico corrigiu os óculos como se entendesse rectificar a própria visão. Clareou a voz, para melhor se autorizar. E disse:
- “Senhora, vou dizer. a sua menina já morreu.
- “Morta, a minha menina? Mas, assim...?
- “Esta é sua maneira de estar morta”.
A senhora escutou, mãos juntas, na educação do colo. Anuindo com o queixo, ia esbugolhando o médico. Todo seu corpo dizia sim, mas ela, dentro do seu centro, duvidava. Pode-se morrer assim com tanta leveza, que nem se nota a retirada da vida? E o médico, lhe amparando, já na porta:
- “Não se entristonhe, a morte é o fim sem finalidade”.
A mãe regressou a casa e encontrou a filha entoando danças, cantarolando canções que nem existem. Se chegou a ela, tocou-lhe como se a miúda inexistisse. A sua pele não desprendia calor.
- “Então, minha querida não escutou nada?”
Ela negou. A mãe percorreu o quarto, vasculhou recantos. Buscava uma pena, o sinal de um pássaro. Mas nada não encontrou. E assim, ficou sendo, então e adiante.
Cada vez mais fria, a moça brinca, se aquece na torreira do sol. Quando acorda, manhã alta, encontra flores que a mãe depositou ao pé da cama. Ao fim da tarde, as duas, mãe e filha, passeiam pela praça e os velhos descobrem a cabeça em sinal de respeito.
E o caso se vai seguindo, estória sem história. Uma única, silenciosa, sombra se instalou: de noite, a mãe deixou de dormir. Horas a fio sua cabeça anda em serviço de escutar, a ver se regressam as vozearias das aves.


Mia Couto, Contos do nascer da Terra

22/02/2008

Um coração desassossegado



Na tradição de Ruivães não havia exercício tão escandalcoso. Três homens na vida duma mulher, era como que uma espécie de aleijão moral, de que a própria terra se devia envergonhar. Mas a verdade é que a Marciana fizera essa avaria, e ali estava mais uma vez viúva, quase sem lágrimas, a despachar o Bernardino, o último marido, para o cemitério.
O cunhado, o Daniel, que tratava da mortalha, movia-se entre o dever e o desespero. Honrado e alustero, fora casado com uma irmã dela, a Isaura, que falecera há pouco. E aquele parentesco, que o obrigava a enterrar-lhe quantos mantilhões arranjasse, custava-lhe os olhos da cara.
- Uma pessoa está guardada para cada conveniência!
- Que hás-de tu fazer! É família...
- Pois aí é que me dói! Uma deslavada, sem vergonha nem propósitos, e eu depois que a ature...
Desde rapaz que lhe tinha uma antipatia obscura, feita de nadas, e cada dia mais azeda. Namorava-lhe a irmã, mas era ela sempre que aparecia primeiro, a pretexto de o avisar de qualquer conversa que ouvira a seu respeito, de saber se havia ou não comédias na festa de S. Gonçalo, de se queixar das bebedeiras do pai. O Daniel agradecia a prevenção, dava-lhe a informação pedida ou justificava da maneira que podia as fraquezas do futuro sogro., e cerrava os dentes, mortificado.
- Estás em ânsias! - insinuava ela, ironicamente.
- Estou à espera...
- Tem de lavar a louça, primeiro. E porque a não lavava ela, em vez de se pôr ali de espantalho ? O que vale é que era discreto e paciente. Continuava silencioso, até que a namorada surgia, também discreta e paciente, no cimo da escada, e a Marciana, com ar de troça, os deixava em sossego.
- Nem parece tua irmã. Coisa mais reles!
- Olha que não. Estás enganado. Mete-se realmente na vida dos outros quando não devia, e gosta de levar e de trazer... É pena. Mas, fora isso, é como o pão...
- Azedo!
- Também nem tanto!...
- Cá por mim não a trago nem com açúcar!
- Hás-de ver que vos dais bem.
- Não me cheira. Nunca gostei de gente entremetida.
- Dá tempo ao tempo... 
Infelizmente, o tempo só reforçou as razões do Daniel, como a própria Isaura teve de reconhecer.
Quando se receberam, o raio da rapariga parecia doida. Cantava e dançava como se fosse a dona da festa. E toda a gente se espantava com uma alegria tão despropositada.
- Ó mulher, tem juízo! Olha que quem se casa é a tua irmã!
Ficou pensativa e pálida por alguns momentos, como se a acordassem duma anestesia e a dor voltasse. Mas retomou o entusiasmo logo a seguir, e foi a última a deixar os noivos em paz no pobre tugúrio onde iam começar cinquenta anos de felicidade. Com os pretextos mais estapafúrdios, demorava a partida. Conversava, varria, compunha e descompunha a travesseira da cama, comia pires seguidos de arroz doce, e assim encurtava a noite que os dois desejavam - do tamanho da estrada de Santiago. Por fim, lá saiu. E o Daniel, enquanto trancava a porta, desabafou:
- Que cáustico! A Isaura, sabe Deus com que vontade, desculpou-a:
- Coitada, tem aquele feitio... Mas não é por mal.
- Pois olha que se é por bem, pode limpar as mãos à parede. A obrigação dela, de mais a mais sendo rapariga, era pôr-se a andar adiante dos outros.
- Nem pensou. 
- Pensei eu, que estava com vontade de a esganar. Se não fosse por serdes vós Senhor quem sois... Bem se diz lá, que por causa dos santos se adoram as pedras!
- Não regula bem, coitada. Ninguém se mandou fazer...
E tanto não regulava, que um mês depois, do pé para a mão, casava-se também. Ruivães à missa, na sua boa fé, e o padre a ler-lhe os banhos! Ficou tudo abismado. Sem ter havido namoro que se visse, ou suspeita de tal, ia ser mulher do Marcolino.
Zunzuns no povo, porque seria, porque não, mas a verdade é que daí a três semanas estava arrumada. Na boda, repetiu-se a cena do casamento da irmã. Apenas com a atenuante de que agora todos se conformavam com aquele entusiasmo desabrido. O festejo era dela, fizesse como entendesse. E lá que se despedia da vida de solteira como ninguém, honra lhe seja. Agarrava-se ao cunhado, que tinha de dançar com ela mais uma valsa, mais outra valsa, mais outra, que o desgraçado, ainda por cima com malhada no dia seguinte, parecia um mártir a ganhar o céu.
- Coisa mais disparatada, nunca vi! - queixava-se ele, a caminho de casa.
A Isaura, sempre conciliante, punha água na fervura.
- Entusiasma-se e perde-se da cabeça. Tanto monta a gente afligir-se, como não.
- O que vale é que isto é uma vez na vida! Na sua sensata e honrada ética de cavador, o Daniel plantava cada acto social, seu ou dos outros, com a fundura duma raiz. Não concebia a vida sem horas sacramentais, irreversíveis, solenes como uma sementeira ou uma missa.
Mal ele suspeitava que passados dois anos tinha de tratar do enterro do Marcolino, e, decorrido mais um, estava novamente nos braços da cunhada a dançar outras valsas, pois se casava em segundas núpcias com o Carvalheira.
- Eu benzo-me! Até a gente fica não sei como... Faço ideia do falatório que para aí vai!... - lamentava-se à mulher, ofendido no seu bom nome.
- Tem paciência. Que se lhe há-de fazer? Não penses nisso...
Não pensaria, não, se a vida fosse doutra maneira. O pior é que não demorou muito que o Carvalheira esticasse também o pernil, e a cunhada, Deus lhe desse juízo!, não tratasse de pôr o sentido no Bernardino.
- Eu endoideço com semelhante criatura! Parece que anda de caçoada, a querer rebaixar a gente!
- Deixa-a lá. Que se governei Não vamos ao casamento, e pronto.
O diabo é que a Marciana, quando lhe deram a entender que não iam à boda, nunca mais os largou. Vinha, chorava, pedia, contava, jurava, que não houve outro remédio.
E o bom do Daniel lá teve de aguentar aquilo, a fazer das tripas coração.
Felizmente que o Bernardino era rijo, e os anos iam esterroando as arestas da vida como uma grade niveladora. A brincar, a brincar, os invernos tinham passado. Ruça, a Marciana perdera o ar de mula sem rédea. Vergada ao peso dos molhos de lenha e dos cestos de estrume, que o Bernardino, não era para brincadeiras, metia dó. Parecia uma alma pecadora em expiação. Mas mesmo assim, se encontrava o cunhado, toda ela se arrebitava numa conversa sem fim, cheia de calor e de confidências.
- Que língua de saca-trapos! Agarrou-me na Silveirinha, que não me largou. A água da poça a perder-se-me, e ela porque assim, porque assado... Eu já nem a ouvia!
Velha e doente, a Isaura deixara há muito de defender a irmã. Quando o homem lhe aparecia esbaforido a queixar-se dela, calava-se e continuava a torcer o fuso e a cozer os seus males.
- Tomaste o remédio?
- Eu não. O meu remédio, agora, é outro...
- Deixa-te de palermices e trata mas é de comer, que o cemitério tem tempo...
Gostava dela com a mesma frescura dos verdes, anos. E mal tinha olhos para ver como ela definhava dia a dia.
Comida de dores, morreu logo a seguir, duas semanas antes do Bernardino, que uma pneumonia liquidou também. E o Daniel, depois de enterrar a mulher, não teve outro remédio senão fazer o mesmo ao terceiro cunhado que a Marciana lhe arranjara.
Com a alma carregada do seu luto íntimo, encomendou-lhe o caixão, chamou padres, assistiu à missa de corpo presente. Mas, quando a última pazada de terra arrasou a campa do defunto, deu largas à sua indignação recalcada:
- Bem escusavas disto, se fosses outra! A Marciana enxugou as lágrimas postiças e levantou a cabeça.
- Outra, como? Já que o não compreendia, ou se fazia de novas, não pagava a pena estar-se a incomodar. De mais a mais, podia finalmente dá-la ao desprezo.
Largou e foi tratar das leiras. Embora os bens agora lhe não dessem gosto, era preciso granjeá-los como até ali. Enquanto se anda neste mundo, não há remédio senão fazer pela vida. E, mesmo sem a presença querida da velha companheira, lá ia tesourando, podando e curando as videiras.
Foi numa tarde de Maio, morosa e melancólica, que a cunhada de repente lhe apareceu no Tapado.
- Andas contra o míldio?
- Tem de ser. Houve um silêncio curto. 
- As batatas estão bonitas!
- Assim, assim. Outra pausa.
- Merendaste?
- Merendei.
- Trazia-te aqui uma pinga... Desconfiado, fitou-a demoradamente. - Que estás a olhar?
- Nem sei...
- Olha, olha, a ver se descobres!... vão sendo horas...
Com a mão crispada na alavanca do pulverizador, o Daniel continuava a observá-la.
- Será possível?! - perguntou por fim. - E então? Era alguma coisa do outro mundo?
Desabrido, atirou-lhe o nojo à cara:
- Não estás farta, mulher?
- Não.
- Pois bates a má porta. Já te não posso valer. Duas lágrimas começaram a cair pela cara dela abaixo.
- Não é o que tu cuidas que me falta. Estou velha, também. O tempo dessas alegrias já passou.
- Então não te entendo... 
- É o meu coração que não se cala. É ele que sempre gostou de ti e te queria...

Miguel Torga, Contos da Montanha


21/02/2008

O Largo


Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido; o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.

O comboio matou o Largo. Sob o rodado de ferro morreram homens que eu supunha eternos. O senhor Palma Branco, alto, seco, rodeado de respeito; os três irmãos Montenegro, espadaúdos e graves; Badina, fraco e repontão; o Estroina, bêbado, trocando as pernas, de navalha em punho; o Má Raça, rangendo os dentes, sempre enraivecido contra tudo e todos. O lavrador de Alba Grande, plantado ao meio do Largo com a sua serena valentia; mestre Sobral, Ui Cotovio, rufião, de caracol sobre a testa. O Acácio, o bebedola do Acácio, tirando retratos, curvado debaixo do grande pano preto. E, lá ao cimo da rua, esgalgado, um homem que eu nunca soube quem era, e que aparecia subitamente à esquina olhando cheio de espanto para o Largo.

Nesse tempo, as faias agitavam-se, viçosas. Acenavam rudemente os braços e eram parte de todos os grandes acontecimentos. À sua sombra, os palhaços faziam habilidades e dançavam ursos selvagens. À sua sombra batiam-se os valentes: junto de um tronco de uma faia caiu morto António Valmorim, temido pelos homens e amado pelas mulheres.

Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à falta de notícias, era aí que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser a verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.

Quem lá dominasse, dominava toda a Vila. Os mais inteligentes e sabedores desciam ao Largo e daí instruíam a Vila. Os valentes erguiam-se no meio do Largo e desafiavam a Vila, dobravam-na à sua vontade. Os bêbados riam-se da Vila, cambaleando, estavam-se nas tintas para todo o mundo, quem quisesse que se ralasse, queriam lá saber - cambaleavam e caíam de borco. Caíam ansiados de tristeza no pó branco o Largo. Era o lugar onde os homens se sentiam grandes em tudo o que a vida dava, quer fosse a valentia ou a inteligência ou a tristeza.

Os senhores da Vila desciam ao Largo e falavam de igual para igual, com os mestres alvanéis, os mestres ferreiros. E até com os donos do comércio, com os camponeses, com os empregados da Câmara. Até, e igual para igual, com os malteses, os misteriosos e arrogantes vagabundos. Era aí o lugar dos homens, sem distinção de classes. Desses homens antigos que nunca se descobriam diante de ninguém e apenas tiravam o chapéu para deitar-se. Também era lá a melhor escola das crianças. Aí aprendiam a ser valentes, ou bêbados, ou vagabundos. Aprendiam qualquer coisa e tudo era vida. O Largo estava cheio de vida, de valentias, de tragédias. Estava cheio de grandes rasgos de inteligência. E era certo que a criança que aprendesse tudo isto vinha a ser poeta, e entristecia por não ficar sempre criança a aprender a vida - a grande e misteriosa vida do Largo.

A casa era para as mulheres.

No fundo das casas, escondidas da rua, elas penteavam as tranças, compridas como caudas de cavalos; trabalhavam na sombra dos quintais, sob as parreiras; faziam a comida e as camas -viviam apenas para os homens. E esperavam-nos, submissas.

Não podiam sair sozinhas à rua porque eram mulheres. Um homem da família acompanhava-as sempre. Iam visitar as amigas, e os homens deixavam-nas à porta e entravam numa loja que ficasse perto, à espera que saíssem para as levarem para casa. Iam à missa, e os homens não passavam do adro. Eles não entravam em casas onde fossem obrigados a tirar o chapéu. Eram homens que, de qualquer modo, dominavam o Largo.

Veio o comboio e mudou a Vila. As lojas encheram-se de utensílios, que, antes, apenas se vendiam nos ferreiros e nos carpinteiros. O comércio desenvolveu-se, construiu-se uma fábrica. As oficinas faliram; os mestres ferreiros desceram a operários, os alvanéis passaram a chamar-se pedreiros e também se transformaram em operários. Apareceu a Guarda, substituiu os pachorrentos cabos de paz, e prendeu os valentes. As mulheres cortaram os cabelos, pintaram a boca e saem sozinhas; os senhores tiram agora os chapéus uns ao outros, fazem grandes vénias e apertam-se as mãos a toda a hora. Vão à missa com as mulheres, passam as tardes no Clube, e já não descem ao Largo. Apenas os bêbados e os malteses se demoram por lá nas tardes de domingo.

Hoje, as notícias chegam no mesmo dia, vindas de todas as partes do mundo. Ouvem-se em todas as vendas e nos numerosos cafés que abriram na Vila. As telefonias gritam tudo o que acontece à superfície da terra e das águas, no fundo das minas e dos oceanos. O mundo está em toda a parte, tornou-se pequeno e íntimo para todos. Alguma coisa que aconteça em qualquer região todos a sabem imediatamente, e pensam sobre ela e tomam partido. Ninguém já desconhece o que vai pelo mundo. E alguma coisa está acontecendo na terra, alguma coisa de terrível e desejado está acontecendo em toda a parte. Ninguém fica de fora, todos estão interessados. A Vila dividiu-se. Cada café tem a sua clientela própria, segundo a condição de vida. O Largo que era de todos, e onde apenas se sabia aquilo que a alguns interessava que se soubesse, morreu. Os homens separaram-se de acordo com os interesses e as necessidades. Ouvem as telefonias, lêem os jornais e discutem. E, cada dia mais, sentem que alguma coisa está acontecendo.

Também as crianças se dividiram: brincam em comum apenas as da mesma condição: param às portas dos cafés que os pais ou irmãos mais velhos frequentam. O "Largo", agora, é todo o mundo. É lá que estão os homens, as mulheres e as crianças. No outro Largo, só os bêbados e os madraços dos malteses - e aqueles que não querem acreditar que tudo mudou. O certo é que ninguém já liga importância a esta gente e a este Largo.

As grandes faias ainda marginam o Largo como antigamente e, à sua sombra, João Gadunha ainda teima em continuar a tradição. Mas nada é já como era. Todos o troçam e se afastam.

João Gadunha, o bêbado, fala de Lisboa, onde nunca foi. Tudo nele, os gestos e o modo solene de falar, é uma imitação mal pronta dos homens que ouviu quando novo.

- Grande cidade, Lisboa! - diz ele. - Aquilo é gente e mais gente, ruas cheias de pessoal, como numa feira!

Gadunha supõe que em Lisboa ainda há largos e homens como ele conheceu, ali, naquele Largo marginado pelas velhas faias. A sua voz ressoa, animada:

- Querem vocês saber? Uma tarde, estava eu no Largo do Rossio...

- No Largo do Rossio?

- Sim, rapaz! - afirma Gadunha erguendo a cabeça cheio de importância. - Estava eu no Largo do Rossio a ver o movimento. Vá de passar o pessoal para baixo, famílias para cima, um mundo de gente, e eu a ver. Nisto, dou com um tipo a olhar-me de esguelha. Cá está um larápio, pensei eu. Ora se era!... Veio-se chegando, assim como quem não quer a coisa, e meteu-me a mão por debaixo da jaqueta. Mas eu já estava à espera!... Salto para o lado e, zás, atiro-lhe uma punhada nos queixos: o tipo foi de gangão, bateu com a cabeça num eucalipto, e caiu sem sentidos!

Uma gargalhada acolhe as últimas palavras do Gadunha.

- Um eucalipto?

Apenas por um pormenor, estragou uma tão bela história. Fosse antigamente, e todos ouviriam calados. Agora sabem tudo e riem-se. Mas Gadunha teima. Diz que sim, que já esteve no Largo do Rossio, lá em Lisboa.

- Vocês já viram um largo sem eucaliptos ou faias ou outra árvore qualquer? -pergunta ele, desnorteado.

Todos se afastam, rindo.

João Gadunha fica sozinho e triste. Os olhos arrasam-se-Ihe de água, a bebedeira dá-Ihe para chorar. Agarra-se às faias, abraça-as, e fala-lhes carinhosamente. Aperta-as contra o peito, como se tentasse abarcar o passado. E as suas lágrimas molham o tronco carunchoso das faias.

Vai morrendo assim o Largo. Aos domingos, é ainda maior a dor do Largo moribundo. Vão todos para os cafés, para o cinema ou para o campo. O Largo fica deserto sob a ramaria das faias silenciosas. É nesses dias, pelo fim da tarde, que o velho Ranito sai da venda rangendo os dentes. Outrora, foi mestre artífice; era importante e respeitado. Hoje, é tão pobre e sem préstimo que nem sabe ao certo o número dos filhos. Apenas sabe embebedar-se. Pequeno e fraco, o vinho transforma-o. Entesa-se, ergue o cacete e, sem dobrar os joelhos, apenas com um golpe de pés, pula para o ar e dá três cacetadas no pó do Largo antes de tocar de novo com os pés no chão. Ergue a cabeça e grita, estonteado:

-Se há aí algum valente, que salte para aqui!

Mas já não há nenhum valente no Largo, já não há ninguém no Largo. Ranito olha em volta com o olhar espantado.

A vista turva-se-lhe, range os dentes:

- Ah vida, vida!...

- Volteia o cacete sobre a cabeça, vai de roda, feroz, pelo Largo ermo da vida, atirando cacetadas contra o chão. Vai, de cinta solta rojando, ágil e ridículo, a desafiar homens que já morreram.

Até que se cansa naquela luta desigual. O cacete despega-se-lhe das mãos e ele fica lasso, desequilibrado. Aos tropeções, pende para a frente e cai, tem que cair, o Largo já morreu, ele não quer mas tem de cair. Pesado de bebedeira e de desgraça, cai vencido.

Uma nuvem de poeira ergue-se; depois, tomba vagarosa e triste. Tomba sobre o Ranito esfarrapado e tapa-o.

Ele já não pode ver que o Largo é o mundo fora daquele círculo de faias ressequidas. Esse vasto mundo onde qualquer coisa, terrível e desejada, está acontecendo.

Manuel da Fonseca, in O Fogo e as Cinzas (1953)



O Morgado de Fraião

Na comarca houve desinteligência, que derivou em arruaça, quanto ao prócer que devia representar em Cortes o Braço do Povo.
- Vamos a votos! - gritou um, menos sofredor. E os candidatos, que eram três, ao passo que diziam remeter-se ao juízo do sufrágio, cada um mais altaneiro que os outros, à socapa mandavam os parciais escorvar os trabucos.
&nbspOs quarenta maiores, recenseados em geral na ralé da terra, lavradores, pequenos tendeiros, marchantes, mesteirais, dois mestres-escola e até um ferrador, instados por caciques opostos, mal coçavam a nuca, que, para eles, mudar de compromisso era mais fácil que de sapatos. Ainda no dia da eleição, tendo abalado com as estrelas dos seus eidos, já porque os dias eram ainda pequenos e os caminhos pouco andamosos, alguns pareciam mais oscilantes que o burro de Buridan. E como não? Se o burro do bom dialecta devia com a fome logicamente hesitar entre as duas gamelas de cevada, estes tinham diante dos olhos três cartazes. Dispersos e em pequenos grupos, montados e a cavalo, começaram a chegar à vila já o sol ia alto naquela manhã fria de Primavera.
Com narizes de pingão, o cabelo churro do cachaço a engraxar a gola da jaqueta, mãos calosas, a tresandar ao fumo da lareira e à cebola, davam-se a matar pelo ar de caso, a barba feita de véspera e seu mal encartuchado no fato de ver a Deus e na camisa de linho, cóscora da goma. À porta do Nico, prendiam as bestas a uma talada da parede pelo nó do cabresto ou da brida e, onde lhes fosse a jeito, toca, de rópia, a tomar o arrebenta-diabos. Dentro da tasca, cada qual se chegava aos do seu pendão. E as vozes que se cruzavam, de malícia ou desfrute, obedeciam a estribilhos deste jeito: - A quem dás tu o voto, ó Zé das Quintas? Eu cá sou do Cabeça Ancha. - O quê, és do Barriga Ancha? E ainda lá cabes?
- Olha, falai no mau…
O Cabeça Ancha em pessoa atravessava no cone visual da porta, a caminho por certo dos Paços do Concelho, barrigana à frente, um largo sorriso no seu mascarão de chafariz, a matraquear para o séquito palavras ruidosas na dentuça amarela. Licenciado in utroque jure, advogado há vinte anos na comarca, a mais pendenciosa do Minho, à força de entesourar estava rico como porco. Além de herdeiro do vínculo de Feães, forte em terras de semeadura e pastagem, diziam as más-línguas que ganhara do bom a forjar, de gorra com o tabelião da vila, escrituras e títulos de dívida com tal primor e observância de quindins, que não lhes meteria dente o síndico mais mitrado. Embora para lá do equador da vida, tanto assim que lhe alcandorava a fronte um penacho grisalho, onde aparecia, mostrava-se buliçoso e entremetido. Davam-no como apaniguado do visconde de V. N. de Cerveira, quando o mais certo era pôr sempre as suas conveniências acima de Deus e do rei. Todavia, onde chegasse, não era peco em fazer campanha pelo altar e a monarquia absoluta do senhor D. Miguel, rei e arcanjo.
Mal ele tinha virado à esquina, ouviram-se repicar no largo as ferraduras dum cavalo, batendo trote largo. Tep, tep e estacou. Era o conde Piteira que chegava no tilbury. Um postilhão, impecavelmente hirto e de libré, tomava conta das rédeas. E, ainda o cavalo fogoso estava a morder o freio, já ele descia de um pulo lesto. O rancho dos quarenta maiores atropelou-se contra o vão da porta a admirar o graúdo. Cara deslavada, meio britânica, mão direita encavada na luva cor de canário, seguiu adiante, sem olhar sequer para a baiuca.
Aquele nascera num sino. Seu avô, Desidério Piteira, que passava por ter sido beleguim e alcaiote do Pombal, montara por favor do amo, quando veio a febre da renovação, um tear para picotilhos. O filho, Leandro Piteira, ampliara a indústria, que passou a produzir panos-crus e surrobecos. E sob o impulso do neto, Salvador Marinho Piteira, o actual conde Piteira, ainda antes de comprar com bons dobrões, batidos no balcão da Rota, o título de nobreza que lhe faltava para ser um verdadeiro homem-lige, a fábrica tomara notável incremento. Ao tempo, com os novos processos introduzidos, passava por ser das primeiras na zona fabril de Entre Douro e Minho. O Conde, além do património assim melhorado, realizara avultada fortuna mediante hipotecas sobre grandes casas decaídas e processadas com êxito, fornecimentos ao exército e empréstimos a S. A. o príncipe D. Miguel, por baixo de capa, mas com todos os gatos de ferro da segurança divina e humana. Os amigos de casca-grossa ou zoilos continuavam a chamar-lhe o senhor Piteira. Mas quem requeresse audiência, com mira a ser servido, chamasse-lhe o senhor Conde e, mais urbanamente ainda, o senhor Conde de Guilharil, portela donde seu avô descera de fundilhos novos nas calças velhas e alforge ao ombro a servir de abegão na Quinta de Oeiras.
O conde de Guilharil, aliás, conde Piteira, aliás, Salvador Marinho Piteira, possuía, depois de depurada a linhagem em três crisóis, as maneiras senhoris e veludosas dum camerlengo. Ouvi-lo discorrer em sua artificiosa fala era como ouvir rasgar seda, tecido que começava a urdir nos seus teares. Com efeito, era raro que tivesse palavra mais alta ou mais áspera para alguém. Era também hábito seu, filho da curialidade, supunham uns, manha, criam outros, nunca erguer, quando falava, os olhos para o interlocutor.
Reparando bem na sua estrutura, aparentemente sólida e maciça, só havia uma coisa que destoava nele: as plantas dos pés, pequeninas em demasia para suportarem a coluna avantajada do corpo. O boticário da vila, malhado a pedir forca, com alguma luz das Santas Escrituras, proclamava que eram os baixos da estátua de Nabucodonosor.
Na candidatura a deputado do Braço do Povo, prevalecia-se declaradamente do patrocínio de S. Ex.as Rev.as o arcebispo de Braga, o bispo de Lamego e o bispo do Porto, três mitras, e do coral polifónico do clero atento à batuta. E não se fala nos zéfiros da Corte, que, por virem de tão longe e balsamizados, é de crer que, se chegassem a sobrepujar a serra da Arga, bafejassem a vontade dos labreguíssimos quarenta maiores tanto como o Setestrelo.
Piteira era um realista calculador que, ao preconizar a restauração da Monarquia absoluta, nunca se esquecia de ajuntar as untuosas palavras rituais: a bem da felicidade dos Portugueses e glória de Deus. Nisto, apartava-se nitidamente do Cabeça Ancha que, esse, fechava as arengas com o inevitável arremate: queimem-se, esfolem-se, enforquem-se os chamorros para haver paz na nossa terra! Piteira era outra fazenda. Já no Porto, ao ferirem a calçada as ferraduras dos seus urcos, luzindo arreios de prata, cocheiro e trintanário de libré debruada a cor de laranja, a tirar para púrpura, voltavam-se de olhos arregalados os pelintras e vinham à porta a morder-se de inveja os conceituados comerciantes da praça, muitos dos quais acabavam de trocar os tamancos pelos botins de pelica. Ele, se eram conhecidos, não deixava de tocar com a ponta dos dedos a aba do chapéu num sóbrio cumprimento.
Os aduladores pregoavam, com tuba sonorosa aos quatro ventos, os actos de filantropia de que a Nação lhe era devedora. Ao bravo general Póvoas oferecera de seu bolsinho uma maca, vinte enxadas, vinte pás, e dois ferros de monte para que não voltasse a repetir-se o indecoroso e letal espectáculo da Cruz de Marriços. Com efeito, os cadáveres dos liberais que tinham caído na batalha, insepultos por os camponeses, açulados pelos padres, se terem recusado dar à terra seus ossos excomungados, de si infectos, acabaram por empestar o mundo. Geresceu-se a peste e muitas aldeias em redondo foram tão ceifadas que não escapou casa que não sofresse a nefanda provação. E o Conde invocava, para que à sua dádiva não correspondesse sombra de repulsa, os preceitos da higiene pública e as obras de misericórdia que mandam sepultar os mortos, em vez de os abandonar pelos cabeços a pábulo dos lobos e aves de rapina.
Todos os anos, também, a 26 de Outubro, feliz data do aniversário natalício de S. A. o Príncipe, mandava dar aos pobres um suculentíssimo bodo, a que vinha presidir em pessoa S. Rev.ª o prelado do Porto, ou o vigário-geral da diocese. Depois da missa de pontifical, proferiam-se discursos patrióticos e cristianíssimos, queimavam-se profusas girândolas de foguetes, adquiridas por derrama entre o pessoal da fábrica, e rematava a festa por um lauto banquete às sumidades do Concelho, na qual voltavam a fazer-se solenes afirmações de fé monárquica e religiosa, com muitas saúdes de vinhos velhos e generosos da garrafeira do Conde.
Demais disso, vestia pela Páscoa da Ressurreição 12 necessitados de picotilho novo, obrado nos seus teares, em memória dos trabalhos que Jesus Cristo padeceu a caminho do Calvário.
Podia perguntar-se, e não deixavam de fazê-lo os sequazes: Tais actos de benemerência não estavam mesmo a indigitá-lo ao terceiro Estado para seu representante às Cortes, convocadas para o próximo dia 28 de Junho?
Na taverna do Nico, ainda alguns quarenta maiores, com seus aderentes e familiares, não tinham acabado de ingerir o viático, entrou pela porta, a açoitar com a ponta do pingalim o calção de cavaleiro, Albano de Carvalhais, morgado de Fraião.
Vestido de jaleco curto, à castelhana, apeara dum famoso baio, "que fugia a uma bala". Mal lançou as rédeas ao arrieiro, o Tomás Ruivo, que antes dele pulara do cavalo morzelo, em que sempre acompanhava o amo, pistolas nos coldres, um côvado atrás sobre a esquerda, e já ele se desfazia num grande sorriso de saudação, que distribuía a quantos ali estavam como as pétalas dum ramo. Pegou, também de luva, no primeiro copo que lhe estendiam e fez menção de beber chegando o vinho aos lábios. À sua volta os partidários enxameavam, porque torna, porque deixa, efusivos e açambarcantes, e ele sem saber para qual se havia de voltar. Era um homem na força da vida, alto, sobre o louro, possuindo mais que letras gordas, porque desde menino tivera três frades a ensinar-lhe a gramática, depois o latim, e a reger-lhe a criação. Aliado pela mulher, D. Mécia Lima de Abarim, à Torre da Silva, nada mais que pelo vulto desta casa em foros, bens de renda, coutos, curas a apresentar, se podia avaliar da vasta clientela de rendeiros e traficantes que fervilhavam à sua sombra. Não poucos eram também os amigalhaços e parasitas a seguir-lhe o balsão. Albano de Carvalhais era um impenitente esbanjador, mais que mãos-rotas, posto lavrar já o descalabro, para não dizer ruína, na sua Casa, que não tivera segunda na comarca. Prodigalidades com a facção, jogo, mulheres, cavalos, agiotas açaimados mediante a onzena crescente, a bola de neve do desbarato viera rolando, engrossando, e ameaçava subverter-lhe o património. O velho padre capelão, que pegara de estaca na família, Fr. Aniceto da Luz Perpétua, cujos olhos de picanço devassavam todos os recessos, não viu melhor que induzi-lo a pleitear a eleição do Braço do Povo, no intuito de furtá-lo às más companhias e, na esperança de que, junto do rei poderoso e coração de pomba, encontrasse amparo contra a catástrofe iminente.
Bem certo que o bom beneditino conhecia a corte joanina através dos escritos de Frei Fortunato de S. Boaventura e por um autor não menos entusiasta de realeza, que lhe era anterior, José Daniel. Se tivesse lido ainda Alvito Buela, viria a reconhecer que soltar um perdulário em Lisboa equivalia a atirá-lo a um poço com uma pedra ao pescoço. Os franceses tinham deixado o mau exemplo de suas pessoas ímpias e viciosas para que desalmados portugueses, mais atentos ao vil interesse do que à salvação da alma, ousassem fundar botequins como o Nicola, de negregada fama, onde se zombava de Deus e do rei, e tavolagens em que se jogava o seu e o alheio, bem como alfurjas de vária ordem para gozos e deleites nunca até então sonhados na velha terra das Cinco Chagas. Saberia um provinciano bisonho evitar tais alçapões do Inferno? Fr. Aniceto da Luz Perpétua tinha as suas dúvidas, e propunha-se por isso mesmo acompanhar o incauto fidalgo, de que fora mestre e guia quando menino e seria agora anjo custódio, dado que recaísse nele a representação do Braço do Povo. Mas obtemperaram-lhe que, se já no Minho, não conseguia reter o morgado de tantos passos funestos, que mais e mais lhe escancaravam a voragem, que ia ele fazer à capital, trôpego, jarreta e ignorante das avenidas por onde a mão aliciadora da libertinagem conduz estroinas e meninos bonitos?
Para escarmento, vinha-lhe à memória a última topetada de que tentara inutilmente acautelá-lo com conselhos prudentes e lágrimas paternais, topetada essa que dera que falar e estava para dar, por mal dos seus pecados. Morava na vila de Melgaço, passada para ali da terra de Verim não se sabia em que barca, uma rapariga espanhola, Cármen Salvatierra, espelho de salero e donaire, que vivia com a mãe e o padrasto. Abrira este ali uma quitanda, onde cambiava dinheiro e, a meia porta, exercia o melhor contrabando daquela raia, levando para Espanha e trazendo para Portugal mercadoria a primor, com beneplácito manifesto dos carabineros. Dizia- -se à boca pequena que D. Jesus Martinez - que tal era o seu nome - era agente secreto ao serviço de Calomarde e dos Apostólicos. O certo, certo é que Carmencita era uma lasca de arregalar o olho, em torno da qual arrulhavam pombos mariolas de alto topete, entre os quais contavam o morgado de Gondim, um galo doido por mulheres, e o abade de Cerdal, este um peneireiro de alto lá com ele para toda a espécie de fêmea que mostrasse proa, bom peito e anca. A moça ria, que nem de cócegas, ante os devaneios dos galanteadores e recebia os cortejos de uns e de outros com grandes alardes de virtude e mesmo sobranceiros desdéns. Um dia, o morgado de Fraião viu-a e ficou a morrer por ela. Tinha mulher e filhos, embora, dava tudo, inclusive a salvação, ele que batia o dente quando o frade lhe pintava as profundas do Inferno, para cativar a beldade. Não foi a ponto de inventar uma héctica galopante para D. Mécia e prometer casamento à franduna após o funeral da ilustre dama, que louvores ao Senhor estava anafadinha e da melhor saúde? A moça, rindo muito, respondeu:
- Pues deje usted volar su mujer al cielo de los gorriones y que todo el mundo lo sepa.
Perante semelhante obstinação, que magicou Albano de Carvalhais? Preparou uma expedição a Melgaço com seis dos seus bravos, capitaneada pelo Tomás Ruivo, e raptaram a espanhola. Tinha-a agora como uma rainha, sege, aias, su madre, na casa de S. Pedro da Torre, com uma quantia tão alta à sua ordem no Banco del Espírito Santo de Vigo que bastaria para dotar meia dúzia de burguesinhas honradas. Assim calou a pombinha, garantidos fartamente os seus dias e de su madre e um novio para quando batesse asas. Mas a aventura deixou rescaldo. Uma noite que Albano de Carvalhais saía do seu alcácer de sultão sofreu a espera de quatro homens emboscados que lhe mataram o cavalo com uma zagalotada e deixaram por morto um dos homens da escolta. Quem foi, quem não foi, assentou-se que a cilada partira de Martinez, que jurara tirar-lhe a vida e continuava a mostrar-se relutante a qualquer concordata.
Porém, mediante inculcas daqui, indícios dalém, ficou estabelecido que o autor da tranquibémia tinha sido o abade do Cerdal, Joaquim da Cunha Silvano, que com as dores de cotovelo dera urros que se ouviram até no paço do arcebispo.
A tonteira custara a Carvalhais muito desassossego, sem falar no rombo incalafetável na fortuna combalida. Segundo Fr. Aniceto, a quinta de Agualonga ia-se à gaita, sendo milagre que chegasse para metade das dívidas. Também lhe roubara crédito entre a gente grada e de bons costumes, como os velhos eclesiásticos e fidalgos de cãs e de peso, e todos quanto tinham entrado para o convento das Três Virtudes na velhice. O morgado, em contrapartida das proezas de valdevinos, era um homem insinuante, com amigos em toda a parte, sem ser dos de mofo, capazes de dar a vida por ele. Albano de Carvalhais, além de flagelo sempre pronto a fustigar os cartistas, era um fanático do príncipe e do altar. Neste capítulo, apenas o Cabeça Ancha lhe levava a melhor em ter dado alguns malhados à forca. Caseiros, para quem era constante a lei da perdoança, e lhe não negariam mulher ou filhas se lhas requeresse ao desfastio, caloteiros de marca, dedicados filhos-família que corriam as feiras a cavalo num garrano pimpão, especuladores que andavam no seu séquito como corvos onde sentem que poderão vir a encher o papo, eram também os grandes sustentáculos da sua eleição. Nas quintas, com todo o desmantelamento, havia sempre gente homiziada, e não era por ter ouvido duas missas nos domingos, comentava com acidez reprobatória Fr. Aniceto. Estes, bem certo, que meteriam as mãos no fogo por ele.
Depois de sociarem no Nico, de a grande maioria dos quarenta maiores esgotarem um cântaro de vinho e duas almofias galegas atestadas de torresmos, que o estalajadeiro liberalizara sabendo que pagava a barba longa - Albano de Magalhães, com evidente bom humor e um leve e sardónico sorriso a arrepiar-lhe os lábios finos, deu sinal de partida:
- Vamos lá que Suas Senhorias, o Dr. Cabeça Ancha e o conde Piteira, estão fartos de esperar. E, meus amigos, só vos digo uma coisa: não levo a mal a quem quer que seja que não vote no meu nome. E já agora sempre vos digo outra: se me quiserdes para vosso deputado, eu perca o nome que tenho se voltar da Corte do nosso magnânimo monarca sem trazer uma lei. E é que, tirando-se uma linha de Viana para a Ponte e da Ponte para os Arcos, para a banda de cá as alçadas reais não terão mais direito de pôr a pata. Se puserem, responde-se-lhes a tiro. Correias às costas, portanto, os nossos filhos não deitam. Há gente de sobra nas cidades, em Trás-os-Montes... por esse Alentejo. Morram eles, e fiquem cá os Minhotos em paz com mulheres e filhos.

*

Os quarenta maiores, muito animados, a limpar às costas das mãos os beiços gordurosos com a comezaina no Nico, ocuparam os lugares que lhes estavam reservados na sala de audiências dos Paços do Concelho. Na mesa, à volta do pároco de S.to Estêvão, presidente da Colegiada e da Câmara, assentavam-se os grandes da comarca, Abel de Valadares, senhor de Cubalhão, D. Inigo Soares, da Casa de Tangil, Suetónio Peres Sândias, da Casa da Fumaça, Pedro Márulo, de Parada do Monte, etc. etc.
Ao Dr. Cabeça Ancha coube, primeiro que os demais, como mais velho, apresentar e defender a candidatura. Depois de ponderosas e várias considerações, em forma de sarapatel, quanto ao cariz das culturas, ao baixo preço do milho, ao estado deplorável das igrejas, inclusive o santo da sua particular devoção, S. Bento da Porta Aberta, ao malefício dos liberais naquela vila e termo, às cortes de Almacave e ao milagre de Ourique, atacou de peito o assunto como na luta greco-romana:
"Se me escolheis, a mim prestais-me um péssimo serviço; pelo contrário, a vós, ao príncipe, à Nação e a Deus, prestai-lo tão útil, tão descomunal, que não lhe avaliais a grandeza. E eu vos digo como e porquê. A representação, descontando a parte de encargos que haja de assumir o Tesouro, implica um dispêndio fabuloso. Indumentária, viagem, estadia em Lisboa, roubalheira das estalagens e de beleguins, só isso quanto não custa? Ponde lá agora o que deixarei de ganhar como causídico, e ainda o desconcerto que advém inevitavelmente a uma casa de lavoura com o senhor a dormir ou longe - amo fora, dia santo na loja - que vulto não atingem tais minerações? Por outro lado, quanto ao serviço que posso prestar com este desserviço particular, eu vos digo: prezo-me de conhecer as leis como poucos. António Ribeiro Saraiva foi meu colega de bancada nas aulas de Prima e muitas vezes estudámos juntos e lhe ensinei eu a interpretar as Pandectas. Acúrsio das Neves, o grande João das Regras da Monarquia absoluta, pode-se dizer que andei com ele ao colo. Eu e o conde de Basto somos tu cá, tu lá. E até o general Póvoas, sempre que por sorte eu estava presente, me pedia o parecer para os seus sapientíssimos planos de batalha. Ora eu tenho a certeza que, se me vêem na Corte, me hão-de chamar para o Conselho de Estado, ou ocupar-me na redacção das leis. Estas Cortes são mais que tudo um mostruário de narizes, quer dizer, uma competição de talentos e de carácter, e julgo que cá o velho Dr. Cabeça Ancha - dizendo isto, espalmava a mão no peito e suspendia-se, o rosto regado dum gordo sorriso, a boca aberta, como mascarão de chafariz que está a deitar bom jorro de água - há-de dar honra à sua terra. E eu vos prometo que não voltarei com as mãos escorridas. Pedirei que esta comarca, como pobre que é - e consenti que lhe chame pobre para levar a minha água ao moinho, embora tal não suceda, hem, embora tal não suceda, que eu sei muito bem que cada um de vós tem grão no sequeiro e meia dúzia de libras ao canto da arca para uma aflição e para o mais que for preciso, como pagar os honorários ao vosso advogado, que vos livrou da armadilha do vizinho, a côngrua do pároco, acudir a um amigo numa pressa - seja desonerada de pagar dízimos e gabelas e diminuídos os outros tributos. Demais disso, se me passarem a pena que lavra as leis, bem vai, se não, postar-me-ei atrás do legislador, como um cão, para que não haja piedade com hereges, maçónicos, pedreiros-livres e constitucionais. A Carta é um acto revoltante, pelo que significa em atropelo de princípios. É preciso demonstrar que todo o poder é do rei e vem do rei, nosso Senhor? A consciência diz-nos que a demonstração está feita. Melhor, entra pelos olhos dentro do entendimento. Ora, sendo Deus quem é, omnipotente, o monarca, seu ungido, devia ser engasgalhado entre varais como um cavalo, quer a mandar, quer a gerir? (Aplausos.) Quero Deus livre nos altares; quero livres, satisfeitos e considerados os ministros que o servem; prestigiada e mais rigorosa a justiça; limpos os caminhos de ladrões e os povos de malhados. Aqui está em breves termos o programa do vosso eleito se me derdes essa honra." (Rumores de vária ordem.)
Salvador Piteira falou na sua voz surda e regular, olhos fitos no tampo da mesa.
Também ele queria o altar prestigiado e o trono enaltecido. Eram estas as duas pedras em que repousavam os cunhais da grande casa que é um reino. Que o príncipe mande, legisle, disponha no domínio do material, e o padre no domínio do espírito. Também desejaria ver a Nação rica e próspera. Já que não valia a pena abrir estradas porque mais depressa vinha por elas para as aldeias o vício das cidades, tão-pouco que houvesse mais que um mestrinho em cada terra grande para ler os editais e alvarás, queria ver as igrejas limpas, os sinos intactos nas torres, água abundante nas fontes arcadas e, como o Dr. Cabeça Ancha, menos dízimos, menos tributos, menos alcavalas. Particularmente à sua parte, pediria mais três forcas, a distribuir, com a já existente, aos quatro cantos da comarca, magistrados íntegros e inflexíveis. Ouvia-se dizer que os juízes se dobravam à peita e ao capricho das camorras. Quem são eles? Onde estão? Ninguém dizia. Donde era lícito concluir que a justiça portuguesa honrava o Príncipe como o Príncipe honrava a justiça. Mas lá aparar as unhas aos escrivães e meirinhos, que as tinham aduncas, era obra meritória e indispensável. Ali estava em breves termos por que natureza de providências terçaria armas nas cortes do nosso grande e clementíssimo rei D. Miguel I. - E terminou, olhando pela primeira vez para o auditório: - Viva a Monarquia absoluta! Abaixo a ímpia Constituição! (Ovação.)
Finalmente usou da palavra o morgado de Fraião. Depois de desfolhar um sorriso ameno pelos quarenta maiores, rompeu:
"Meus amigos. Aconteceu-me no penúltimo Verão percorrer, na comitiva de Sua Mercê o senhor Visconde de Santarém, uma grande parte de França e Áustria, países de hereges, hoje limpos desse escorbuto. E eu vos digo o que vi e que gostaria de ver na nossa terra. De norte a sul há estradas, riscadas a cordel e a teodolito, de brita formando concreto com a terra à força de cilindrada. Por semelhantes estradas novas, a que dão o nome de reais, onde não empoça a água das chuvas e se não perde tempo em desvios e rodeios, passam magníficas seges e malas-postas. Nas aldeias há um mestre que ensina a ler gratuitamente quem queira e um maire que administra a Comuna com vara firme e segura. A água vem encanada das nascentes e cai por uma bica para tanques e lavadoiros. Fontes de chafurdo, não há. É falso que tenham posto fogo às igrejas e assado os padres nos espetos. Conversei com um e outro e, gordos e prósperos, louvam a Deus e aos paroquianos, e estes os respeitam e estipendiam. Outrossim vi belas casas a servir de Paços de Concelho, tribunais e outros edifícios de interesse público, cheios de imponência e da melhor ordem. Nada vos digo sobre os costumes, mas creio que neste capítulo nós ganhamos aos Franceses. Não que amemos a Deus melhor do que eles, mas em matéria de guardar o dia do Senhor, eles lá só não trabalham ao domingo e não observam mais nenhum dia santo, desdenhosos dos preceitos da Santa Madre Igreja. Trabalham como moiros, por isso estão ricos. É verdade! Mas como o trabalho não é recomendação perante o Senhor e, sim, a prece, eu quero que continuem a guardar-se no Reino todos os dias santos que marca a folhinha, e vêm a ser uns quarenta na roda do ano, permitindo deste modo que o bom povo ouça a missa e a homilia, sempre que se comemora um grande santo ou fasto religioso. Não vos falo na superioridade dos Portugueses sobre os Franceses em matéria de outros preceitos do Decálogo. Se não fosse o abuso que os frades mendicantes fazem das casas mal guardadas de homens, dir-vos-ia que a nossa terra é na cristandade um dos baluartes do sexto mandamento."
"Mas, fora do domínio espiritual, eu sou pelos caminhos limpos e rectos, onde possam passar reses, carros de lavoira e seges, e onde vacas e burras não enterrem o jarrete e partam o pernil. Sou pela água a cair duma bica em cada aldeia, embora ouça dizer que é mais saborosa e fresca essa que repousa nos limos da madre e entre merugens, e tirada por um cantarinho de mergulho. Pelo menos, a dos canos é mais limpa. Não entram para a fonte cobras nem lagartos, nem moscas que gostam no pino do Verão de se acolher à frescura que lhes oferece o sobrecéu de pedra das fontes cobertas com uma laja ou abobadadas. Sou por um mestre, já não digo em cada terra, que seria ciência supérflua e perigosa, porquanto os livros se propagam o bem também propagam o mal, mas ao menos uma escola em cada vila onde os senhores morgados, os fidalgos, e mesmo aqueles que dispõem de alguns teres, vão aprender a ler, escrever e a fazer as contas dos gastos e receitas de suas casas. Gostaria mais de ver malas-postas para cá e para lá, cruzando a nossa terra, carregando abades, fidalgos e senhoras, já que a boa gente pobre do povo não pode nem deve usar de tais luxos. E, como Sua Senhoria o Dr. Cabeça Ancha, entendo que hereges, franchutes, constitucionais devem ser banidos do Reino para as Pedras Negras e expropriados os seus bens em benefício de quem os der à dica e desmascarar. E, sobretudo, porque hão-de as alçadas reais vir cá tão longe fazer soldados para a guerra? (Vibrantes aplausos.) Não, três vezes não. Quero os nossos mancebos quites de deitar correias às costas. Têm muita soma de gente, de braços a abanar, lá pelo Sul, a quem custará menos depois a voltar para suas casas, porque estão perto. Deixem-nos, que nas nossas igrejas rezaremos pela paz do rei e a vitória das suas armas, e trabalharemos dobrado pelo engrandecimento da Nação."
"Agora, eu vos digo - e tenham-no em vista para que não sofram decepções - representar o Braço do Povo da nossa comarca não é legislar. Isso virá em seguida à assembleia magna da Coroação e Proposição do nosso dilecto monarca D. Miguel I, em que vos representarei, se me derdes a honra de me designar. Para essa conjuntura é que elaboro a lista das aspirações da comarca que irei levar à Secretaria do Reino a fim que sejam ponderadas e atendidas, na medida em que o nosso real amo assim o julgar e o favor que lhe merecer a minha instância, que vos prometo aturada e infatigável. Viva a Monarquia absoluta! Viva D. Miguel, rei e arcanjo!" (Grandes e nutridas salvas de palmas.)
Pediram a palavra muitos dos assistentes, uns para aplaudir, outros para discordar, pois que onde há dois portugueses há discrepância, e onde há três, há partido. Outros reclamavam providências urgentes, honra lhes seja, para seu proveito e regalia. Viu-se entretanto crescer na cadeira, a meio da sala, o Joaquim Guerrilhas, de Romarigães, homem dos seus cinquenta, focinho ensilvado de javali, atarracado. Olhando suspeitoso à direita e à esquerda, desatou a falar com grande mobilidade, como se espalhasse pelo auditório um bolso de pedras.
- Este é meu inimigo figadal - disse o morgado de Fraião para António Maciel, chefe político de Viana, que se sentara a seu lado e lhe patrocinava o mandato.
- Que lhe fez?
- Que me fez? É o homem de mais tricas que há no Alto Minho. Com ele, quando uma pessoa se descuida, está roubada. Tudo lhe serve para operar: caminhos, árvores de corte, águas, o diabo. O meu procurador a cada passo tem de lhe mandar o meirinho a chamá-lo à ordem...
- Vamos lá a ouvir o facínora. Realmente é um feio bicho.
- Está feito com o Barriga Ancha…
Dizia Joaquim Guerrilhas em voz tropeçante:
"Ouvimos com sete ouvidos as palavras dos três senhores, que se oferecem para nos ir representar na Coroação do grande e imperial senhor D. Miguel, que Deus guarde largos anos e bons. Todos três, pelo que disseram e prometem, se podem comparar a três patacos..."
- Salvo seja... - corrigiu o presidente.
"Salvo seja, repito eu, pois não quis desfazer em ninguém. Se comparei, e no meu fraco entender se podem comparar a três patacos os três senhores pretendentes, é que tilintam todos três pouco mais ou menos com o mesmo som. E já que assim é, aqui declaro em voz alta, o meu voto é para Sua Senhoria o morgado de Fraião, que viu mundo e sabe o que é um pobre mudar de camisa. O nosso Minho, senhores, precisa de mudar de camisa. Também eu gosto que a estrada passe à minha porta para ir mais depressa e não encharcar os pés. E quanto a fontes, embora muitas vezes veja os meninos com o sim-senhor virado para dentro do chafurdo a fazer as suas necessidades, as mães que lhes dêem a criação. Primeiro as igrejas, as estradas, mais tarde as bicas. O que cai nas fontes, vai ao fundo. À tona anda a água purinha." (Apartes. Vozes entrecruzam-se.)
"É assim mesmo, pois então! As fontes de mergulho lá estão funcionando com a graça de Deus. Quanto a correias às costas, bem pensado, senhor Morgado, bem pensado! Que as deitem os vadios das cidades, que não têm que fazer, e os arruaceiros, perdidos e achados em festanças e arraiais, Senhora dos Remédios, S. Torquato de Guimarães, S. Bento da Torreira, círios da Arruda e da Nazaré, onde vão para rachar a pinha do camarada e voltam, por tabela, com a sua rachada. Nós somos pacíficos e o nosso regalo é que nos deixem em paz... e às moscas."
"E sobretudo, eu quero a lei de Deus e dos homens mais respeitada; os templos varridos e caiados, e sinos nas torres. E estes sinos eu os quero a dobrar noite e dia à morte dos malhados. Tenho dito."
- Homem, você estava a mangar comigo. O homem é seu vassalo... - murmurou Maciel, na voz a transparecer um certo despeito através do sotaque de ironia.
- Hum, ele me apresentará a conta! Não é sujeitinho para dar ponto sem nó.
Sucedeu-lhe o abade do Cerdal. Era um belo pedaço de homem e apenas pelo escanhoado da cara e o casaco à secular se reconhecia que era um padre, e um padre mundano, pois que a tonsura, ao que a trunfa era de alta, não se lhe via.
"Senhores Quarenta Maiores, amigos e senhores: Vossas Mercês já sabem muito bem qual é o homem que lhes convém... Vossas Mercês já o escolheram para que vos represente em Cortes..."
Olhou em volta e viu todos suspensos das suas palavras.
- À missa deste masmarro é que eu nunca fui - proferiu Albano de Carvalhais em voz baixa para Maciel. - E então ele, à minha, nem que mandasse o bispo. Andamos há muito de candeias às avessas.
Depois daquela manha de pregador, afeito ao púlpito, tomou o abade do Cerdal:
"E eu já sabia quem nos convinha antes de ouvirmos aos três candidatos desfolhar as flores do seu programa. E digo mais, já o sabia antes mesmo de vir a esta assembleia: O homem que nos convém, que está ao corrente das nossas necessidades e dos nossos costumes, que está mais a carácter do pátrio Minho, que tem a vera acção do progresso..."
- Hem? Hem? - sussurrou o morgado de Fraião, perplexo.
"...adquirida por experiência e a ver mundo, é Sua Senhoria o senhor Albano de Carvalhais, última e lídima vergôntea da gloriosa Casa de Fraião."
- O amigo tem-se farto de mangar comigo! - pronunciou Maciel quase zangado.
- Olhe que não. Mas tem graça! Este padre ainda não há muito que pagou a uma roga de sicários para me matar...
- Essa é boa! Então recebeu ultimato do arcebispo...
- Pode ser, mas ponho-lhe muitas dúvidas.
Prosseguia o abade de Cerdal em voz bem timbrada e incisiva:
"A nossa comarca estaria também honrosamente representada tanto pelo ilustre Dr. Cabeça Ancha, luminar do foro e mestre em leis, como pelo conde Piteira, grande esmoler e prático na ciência dos números e com altas relações na Banca e na Corte. Mas, considero eu, e os senhores quarenta maiores dirão se o meu raciocínio é justo, entrementes que vão e vêm, que as Cortes reúnem e não reúnem, que os Três Estados deliberem e não deliberem, que se coroa o nosso grande rei e se vota o credo da nova Monarquia, quem havia de destrinçar as leis nas nossas comarcas, atalhar aos dissídios para que os litigantes se não matem em desespero de justiça? Quem havia de defender os bons das tramóias dos perversos, e os pobres dos ricos mal-intencionados, que em todas as classes os há, como só o nosso grande Dr. Cabeça Ancha sói fazê-lo paternalmente?! Por outro lado, quem havia de vestir os nus, dar de comer aos famintos, atar e desatar os altos negócios da Banca nas províncias do Norte, em conformidade com os interesses da indústria, da propriedade e de modo geral dos povos? Não, nós não podemos de modo algum dispensar as luzes e o bom conselho dos dois grandes homens aqui presentes! Deixá-los partir para tão longe, ainda que fossem apagar um incêndio que devorasse meia Lisboa, não e não. Ficava sem remédio a nossa inópia. O bom, o sábio, o equitativo Dr. Cabeça Ancha e o generoso e previdente conde Piteira não poderão desamarrar-se de nossos braços, que nem é bom falar de nossos corações, que nós não consentimos!"
- De todo aquele chorrilho de amenidades para os dois, não há uma só que não seja mais falsa que Judas. Não sei que bicho mordeu a este salafrário de reverendo! - segredou o morgado para o seu amigo, no fundo exultante.
- Mande-lhe um bom salmão... - gracejou Maciel.
- Não é o tempo deles.
- A menos do dedo do Altíssimo, aqui há gato...
- Gatarrão...!
"Convido - perorava o abade Silvano - aos dois ilustres proponentes a declinarem no ilustre morgado, homem lido, viajado, e sem compromissos, e aos digníssimos quarenta maiores a votarem no seu nome para a nobre missão de nos representar."
E assim foi sagrado, por grande maioria, deputado do Braço do Povo às Cortes o senhor de Fraião.

*

Chegaram os procuradores do Alto Minho à capital, sem novidade de maior, com as caravanas de outros que desciam de variadas terras da província a representar em Cortes os braços do povo e da nobreza. Em Carqueijo viera alcançá-los a comitiva de Vila Real, com Colmieiro de Morais, e mais adiante, na Venda do Cego, surpreenderam a do barão de Tavarede, com o coche esbandalhado e carpinteiros do lugar a atamancarem-lhe um eixo novo.
Aboletaram-se ao Corpo Santo em casa duma senhora espanhola, tida como pessoa de recato, muito cristã, e séria nas contas. Usava ainda capa de merino com vidrilhos e perfumava-se com alfazema. À noite, depois da ceia, vinha rezar com eles o terço. Mas Albano de Carvalhais entrou na cidade com pé esquerdo. Surgiram-lhe umas febres terçãs, tão elevadas que teve, a instâncias dos facultativos, de meter-se na cama e medicar-se. O barbeiro aplicou-lhe uma sangria que teve a propriedade de minorar-lhe as dores, mas deixou-o muito enfraquecido.
Chegou o dia 6 de Junho daquele fausto ano da graça de 1828, dia para sempre festivo na cartilha absolutista, do juramento de el-rei fidelíssimo, o senhor D. Miguel, com a augusta cerimónia de preito e menagem pelos Três Estados, e ele, sem embargo do voto que fizera a S. Bento da Porta Aberta de dar três voltas à ermida, no dia da festa, descalço e de mortalha, e da sua férrea vontade, não pôde segurar-se em pé.
Duas semanas andadas, quando do auto de abertura e proposição das Cortes, tão-pouco se achava melhor. Ao cair da noite, o capitão-mor de Barcelos entrou na estalagem a visitá-lo. Era um homenzarrão, que vendia saúde, peludo que nem um fauno, e só por isso Albano de Carvalhais o recebeu de mau olhado. Estava sentado na cama, mais branco que a camisa que vestia, lábios secos e arregoados pela febre, magro, esquálido, capelas dos olhos encovadas, a mão de dedos aduncos e muito afilados a esbagoar o rosário. Depois de trocarem as palavras consabidas de cumprimentos, disse-lhe o enfermo em voz flébil e entrecortada:
- Estou para aqui um canastrão. Acho-me muito mal, muito mal! Vejo-me mais em termos de me preparar a bem morrer do que ajudar o nosso príncipe a firmar o trono!
O capitão-mor não achou melhor que dar-lhe uma gargalhada, o que acendeu um luaceiro na face do senhor de Fraião. E soltou-lhe logo por cima, falsas mas estralejadas como bátegas de chuva que batem nas vidraças, estas palavras categóricas:
- Não diga asneiras, primo. Isso não é nada! Vai ver. Eu até o acho muito melhor.
- Não, não, custa-me a respirar. A minha arca do peito é um fole roto. - E ao cabo de uma pausa, de que o capitão-mor não soube como varrer o vazio mortuário, tornou, alçando olhos para os seus olhos:
- Então como correu a função?
O capitão-mor perfilou-se diante dele numa atitude de tribuno ou do mensageiro, glorioso consigo, que dá conta do recado. E proferiu de olhos a chispar, a boca, como dizia Frei Luís de Sousa dum personagem real, cheia de risos:
- Estupendo, estupendo! Foi hoje um dos maiores dias da minha vida...
O que havia de egoísta prosápia naquela postura não escapou ao enfermo que, antes de ele ir mais longe, lhe observou:
- Sim, eu calculava o que fosse! Para que fomos nós chamados? Mas conte lá, primo, conte lá... Que pena a minha não ter assistido!...
- Vai assistir à abertura das Cortes, que se anuncia para melhor. Daqui até lá, põe-se rijo como um pêro. Está marcada para o dia 11 de Julho...
Albano de Carvalhais torceu os lábios num esgar de dúvida, e sussurrou em voz que parecia, filtrada pela angústia ou pela glote entabuada, o grasnido dum pássaro a morrer:
- Deus é que manda. Deus é o Rei dos reis. Mas conte lá, primo, conte lá...
- Então eu lhe conto... Tinham fixado para as três da tarde a hora da solenidade. Mas já muito antes caíra em peso, na sala do trono, toda a fidalgaria de Portugal, alto clero e Braço do Povo. Só queria que visse, senhor primo, tanta gente, vestidos todos ao antigo estilo da corte, casaca e calção de seda preta, véstia e meias de seda branca, capa de seda preta com bandas brancas, volta, chapéu com uma das abas levantada e plumas brancas...
- Os alfaiates fartaram-se de ganhar dinheiro...
- Alfaiates e mercadores. Uma andaina destas custa os olhos da cara. Onde faz a sua? O melhor de todos é o Piranha, ali na Travessa dos Calafates. As rabonas que ele faz assentam como uma luva, mas é careiro. Careiro?! Ora, ora, quem paga é o negro.
- Vá contando. Foi então imponente...?
- Magnífico. Nem a corte do roi Soleil, dizia um tal pintalegrete que estivera em França. Os ministros traziam toga e os eclesiásticos vestidos talares. O patriarca de Lisboa, muito encarniçado, cabelo ruivo, parecia mesmo um andor. Passou por meio dos procuradores de mão erguida a abençoar, que nem de hissope no aspersório dos domingos terceiros. No topo da sala, ao lado de duas tribunas, destinadas às sereníssimas infantas, estava o trono...
- Viu as infantas. Que tal?
- Olhe, primo, eu já estou velhote para apreciar tais melápios, mas aqui para nós, que ninguém nos ouve, e salvo o respeito devido às pessoas reais, pareceram-me uns camafeus... Estavam a uns cinco ou seis côvados do meu banco, e eu podia muito bem catrapiscá-las que várias vezes me deitaram o olho...
- Ouvi dizer que o trono era de metais preciosos e pedras finas...
- Se não era, reluzia como se fosse. Mas nem um altar, primo, o altar-mor da Sé de Braga em dia de exposição do Santíssimo!
- Faço ideia... Diga lá como era, a ver se me engano...
- Imagine, primo, um estrado dos seus quatro côvados de frente por outros tantos de lado, ao qual formavam dois planos, ambos cobertos de alcatifas, para o qual estrado tinha de se subir por degraus com passadeira de carmesim a toda a largura. Ponha-lhe em cima um rico e largo cadeirão dourado, com almofadas do mesmo estilo, as armas reais no espaldar, debaixo dum dossel de oiro recamado de oiro, galões e franjas em cachos também de oiro. Faça de conta, agora, que está na feira de ano de Ponte de Lima, com todos os alaridos, tons e modilhos da grei portuguesa. De repente soaram as charamelas, trombetas e atabales tá-trá-tá, trá-tá, e tocata foi essa que se nos puseram os cabelos em pé e nos subiu o sangue nas veias. Calou-se tudo. Era o nosso rei que entrava na sala em traje imperial, carregado de oiro e brilhantes, belo como um arcanjo que é. Abriam marcha os arautos e passavantes, seguiam-se os reis de armas, vestidos a rigor com as suas cotas e uniformes, e os porteiros da cana com as suas maças de prata. Vinha depois o duque de Cadaval, condestável do Reino, de estoque empunhado às mãos ambas, rotundo e opado, um alma de cântaro que nos chama as mulas da província, e logo Sua Alteza, acaudatado pelo conde de Belmonte, camarista de semana, que servia de camareiro-mor. Seguiam-se o marquês de Belas, guarda-mor de Sua Alteza, o marquês de Torres Novas, mordomo-mor, com a cana, e o conde de Redondo, meirinho-mor, com a vara, e mais altos dignitários da Casa Real, todos muito tafuis e ufanos. Sua Alteza atravessou de chapéu na mão, mas firme e altivo, por entre as duas alas dos procuradores, e dirigiu-se ao trono. Que beleza de homem! Caramba, explico-me agora que as mulheres desmaiem de amor só de pôr-lhe os olhos em cima, sim, senhor! Quando se sentou, sentámo-nos todos consoante o lugar que estava destinado a cada um... No trono e degraus do trono tomaram assento os camaristas, o ministro e o secretário de Estado com a almofada dos selos à frente; à banda deles, o cardeal-patriarca e o duque de Lafões; depois, do lado direito, todos os prelados em sitial alcatifado de verde; do lado esquerdo, os marqueses em cadeiras rasas com almofadinhas de veludo carmesim; os condes em bancos cobertos de panos lavrados; os viscondes e barões na ponta. Finalmente, tinham disposto pela sala, em filas apertadas, bancos descobertos, dezanove de cada lado da coxia, para os procuradores, a começar pelos do Porto e Évora, e a acabar pelos de Goa e Eixo. Barcelos tinha assento no banco 14, ao lado de Panóias e de Ourém.
Albano de Carvalhais estava de olhos fitos, boca meio descerrada, a rever mentalmente o pitoresco panorama da abertura e proposição das Cortes e reflectia. Porque o castigava Deus tolhendo-o de representar o velho couto de Fraião? Uma lágrima comiserada borbulhava nos seus olhos vagos, fitos em abstracto, através da vidraça, no horizonte sem fundo, e tudo ele agora considerava punição divina. E, sentindo-se sob a garra duma fatalidade inexpiável, algemado ao catre da hospedaria, com a mágoa de não haver tomado parte no espectáculo esplêndido, essa lágrima furtiva intumesceu e rolou pela face até aos lábios, onde se evaporou ao contacto do seu brasido. Mas o capitão-mor não dera conta e prosseguia:
- Tocaram as charamelas com o fôlego todo, e o rei de armas de Portugal avançou para o banco dos tonsurados e dobrou-se num grande salamaleque diante do bispo de Viseu. Ergueu-se de lá este bispo, pimpante que nem o valete de oiros, Frei Fortunato de S. Boaventura. Apanhando as abas da capa como uma madama, trepou ao estrado real e, depois duma vénia a Sua Alteza, proferiu o discurso da proposição das Cortes que foi uma peça de estalo. Sim, senhor, chama-se um orador de cara! Tenho ainda nos ouvidos aquele rufo de tambor: "Uma voz unânime soa em todo o Reino: que Sua Alteza se apresse a subir ao trono de seus maiores... Não podia o Grande Príncipe desatender a voz da Nação... Os Três Estados aqui convocados que declarem se é conforme à letra e espírito das leis fundamentais que se aplique na pessoa de Sua Alteza o direito à sucessão do Trono da Monarquia Fidelíssima." Os Três Estados bradaram à uma, erguendo a mão: "Apoiado! Apoiado!"
- Também que haviam eles de dizer? - murmurou Carvalhais, novamente se utilizando da verdade crua como revindicta contra a má sorte. - Não tinham vindo para outra coisa... E acabou ali?
- Falou ainda o procurador por Lisboa, um tal José Acúrsio das Neves, que deve ser um melro de bico amarelo. Fala pelos cotovelos e bem, mas o alma do diabo obrigou-nos a ouvi-lo de pé.
- De pé, é boa!
- Sim, senhor. O rei de armas de Portugal, depois que ele se ergueu para falar e mal se havia inclinado diante de Sua Alteza, ordenou em voz alta: "Levantem-se todos!" Assim se fez e logo o figurão rompeu no rataplã: "Sereníssimo Senhor. Depois de tão longas peregrinações e por entre tantos perigos e trabalhos, a mão do Omnipotente conduziu a Vossa Alteza Real, desde as margens do Danúbio às do Tejo, para salvar o seu povo... Aquela hidra que há cinco anos Vossa Alteza Real esmagou tem sido a origem e causa de todas as nossas desgraças. Mas ela fez--se morta, levantou de novo o colo... Ora, vai fixar-se o trono na base da verdadeira legitimidade: reunir toda a grande família portuguesa debaixo de um governo justo e fraternal; tranquilizar os bons, desenganar os iludidos, e arrancar das mãos pérfidas e incorrigíveis o punhal que pretenderam cravar no coração da Pátria, para repartirem depois os seus ensanguentados despojos... A Europa tem os olhos fixos sobre Portugal e não pode deixar de aplaudir a sábia e magnânima resolução que Vossa Alteza Real tomou de firmar o ceptro português sobre as ruínas da Revolução..."
- Que pena eu tenho de lá não estar! - gemia Albano de Carvalhais, rico-homem, católico da velha guarda, azorrague dos pedreiros-livres no seu plácido couto de Fraião, em doce e lamuriada cegarrega. - Que pena tenho!
O capitão-mor esquecera o motivo de afecto e caridade com que começara a descrever a cerimónia. Miguelista dos quatro costados, tomara calor e, enfunado ao vento da própria retórica, largara o pano todo.
- Ah, reizinho duma cana, que desta vez acabam de morte-macaca os inimigos do trono e do altar! Acabam que lho digo eu, primo! O Acúrsio cantou-lhas ali tesas. Algumas passagens valem o padre José Agostinho. Ouça: "De todas as partes se ouve um clamor geral contra os rebeldes, formam-se batalhões de voluntários, pedem-se armas, e os povos se levantam em massa e fazem uma montaria geral não só contra os rebeldes armados, mas contra todos aqueles que suspeitam de aderentes aos princípios da Seita. Desgraçados deles se não achassem amparo em S. A. Real e nas autoridades, a quem Vossa Alteza Real tem encarregado de manter a ordem pública!" E que me diz da gaitada final: "Firme-se Vossa Alteza Real nesse trono excelso e faça feliz a Nação que o adora. Generoso Príncipe, sic itur ad astra!"
- Que maravilhosa memória que o primo tem! Até sabe latim...!
- Arranho, arranho. Algum proveito havia de tirar dos cascudos do padre-mestre.
- O primo, assim, chega a ministro...
- Não chego que me fazem guerra o Maciel de Viana e o visconde de Vila Nova de Cerveira.
- Deixe lá, atrás dos tempos, tempos vêm. Ah!... que altos lugares lhe não estão reservados!? E como rematou?...
- Como havia de rematar: Palmas e mais palmas, vítores por uma pá velha. "Viva o nosso Rei! Viva o absoluto! Viva o pai da Pátria! Viva o arcanjo S. Miguel!" Por outro lado, punhos no ar e urros: "Morram os constitucionais! Morram os cartistas! Morram os pedreiros-livres!"
- Quem os mata?! São como o escalracho - murmurou Albano de Carvalhais. - Quando abrem as Cortes?
- A abertura das Cortes está marcada para quarta-feira, 25 do mês.
- Não chego lá! - soluçou Albano de Carvalhais. - Não chego!
Estava meio reclinado sobre as almofadas, as mãos estendidas sobre os lençóis, pálpebras descidas. O capitão de Barcelos não sabia que lhe havia de dizer. Tornou a abrir os olhos, torceu os lábios exangues numa expressão de infinita mágoa, e ciciou umas frases que envolviam por certo todos os seus amores e desespero:
- E eu que tanto queria beijar a mão do nosso Príncipe!... Acabou-se! O meu Tomás, por alcunha o Trinca-malhados, e os tesos da Labruja podem rezar-me por alma... Carmencita!... Minha mulherzinha!... Meus filhos!... Sinos da minha igreja, dobrai a finados!

*

Constou na Corte, mediante a devassa que se abriu quanto ao lugar vago no 10.° banco, que estava a dar as últimas o deputado do Braço do Povo, Albano de Carvalhais, morgado de Fraião. Pelo quê, a seguir a um confessor, lhe mandaram do Paço o protomédico D. António Salgadinho de Mulafarta e Rodes, que se notabilizara no tratamento das almorreimas do senhor D. João VI.
Era um homem no pendor dos anos, gordinho, de suíças, e com peruca tão engenhosa que lhe escondia quase a calvície adiantada. Vestia com esmero camisa de bofes, debruada a ponto de Alençon, calção com rendas e meia esticada sabiamente sobre as panturrilhas, sapatos de fivelas esculpidas a primor. Ademanes, vestuário e ares majestosos denunciavam à légua o refinado cortesão.
Entrou D. António na hospedaria a cuspir, posto fosse das mais recomendadas da Ribeira, lenço com cheiros na mão esquerda e a fungar uma pitada, espremida nos dois dedos da direita, contra a fedorentina a amónio de gato e doutros bichos, que saturava a escada. Com acento categórico bateu à porta. Acudiu a abrir-lhe a própria D. Paca, que ficou estarrecida e deslumbrada em face do precioso visitante. E, adivinhando-lhe a alta estirpe, conduziu-o com toda a solicitude e humildade pelo corredor lôbrego ao quarto de Albano de Carvalhais, mais lôbrego ainda.
D. António Salgadinho, depois de correr os reposteiros com certa brusqueria, como quem se desforça de desatenções numa etiqueta preestabelecida, inclinou-se para o enfermo. E de ricto depreciativo nos lábios, que não escapou a Carvalhais, se quedou a estudá-lo. Depois de o fixar mudo e teso um bom espaço, com o dedo indicador, como quem dá ao gatilho, fez-lhe sinal para deitar a língua de fora. Viu-lha, tomou-lhe o pulso, e volvendo a fixá-lo com certa demora, emitiu depois dum breve questionário sintomatológico:
- O que Vossa Mercê tem é uma febre maligna. Ora diga-me cá: bebeu água impura em algum lugar?
- Sim... na jornada aconteceu-me beber muitas vezes nas fontes que topava à beira dos caminhos.
- Pois uma delas estava inquinada.
Como Albano de Carvalhais o fitasse de olhos muito abertos, o que ele interpretou como não tendo compreendido, explicou meio divertido:
- Água choca. Vossa Mercê mete-se a viajar sem borracha?
- Trazia duas de três canadas cada uma. Aliviaram-nos delas, à saída de Guimarães, uns pobretões que se tinham plantado a poucos passos de nós, a ver-nos merendar com olhos em brasa. Matámos-lhes a fome e deram-nos o pago. Bastou um momento de descuido e pilharam-nos os alforges!
- Pois teve uma febre maligna, mas, dê graças, está a passar. Vamos enxotá-la à fina força duma vez para sempre...
Pôs-se a receitar, estacando por vezes a redigir, de olhos abstractos para a janela, na operação manifesta de puxar pela memória. Ao fim, pronunciou:
- Mande aviar e mande aviar já. No Beco dos Remolares há um apoticário de confiança. Toma três vezes ao dia, no intervalo das refeições, uma colher de sopa...
Como Albano de Carvalhais erguesse de novo para ele olhos angustiados e inquiridores, permitiu-se acrescentar por entre dentes:
- É o medicamento mais selecto e eficaz que se tem inventado para esta espécie de morbos. Tive ocasião de receitá-lo a Sua Eminência Fr. Patrício, cardeal-patriarca de Lisboa, e numa só noite, depois de ensopar três ordens de lençóis, ficou curado. Não há melhor para descoagular os espíritos quando o sangue se deixa tomar pelos gérmenes pestilentes. É remédio caro, mas Vossa Mercê há-de ver que vale a pena. Eu volto amanhã.
Retirou-se, havendo readquirido a sua sobranceria e desdém de grande áulico, mal se despedindo daquele deputado às Cortes, que não se instalara num palácio à Junqueira com pajens e um mordomo de rabona a recebê-lo.
Quando D. Paca reapareceu, com estalidos da língua a comentar o entono do magnate, que trazia não apenas um rei, mas uma dinastia na barriga, disse, após se haver inteirado da receita que voejara pelo soalho com o pé-de-vento que entrara com ela:
- Eu dou um salto aos Remolares. Assim haja droga manipulada.
- Valerá a pena?! - murmurou Carvalhais. - O físico disse que o mal está a passar, mas eu já sinto a morte a tocar-me as fontes com as asas de morcego...
- Aí vem Vossa Mercê! Deus é que manda, senhor Morgado de Fraião! Não duvide da sua infinita misericórdia. Podia ter, que não tem, a morte nos gorgomilos, e, à voz dele, rodar para outra porta, e o senhor Morgado durar tantos anos que acabem por lhe aborrecer. Reze Vossa Mercê, reze, chame-se aos santos da sua devoção, enquanto vou eu própria aviar a receita que a negra é capaz de se perder pelo caminho ou beber a botijada.
Pegou Carvalhais do rosário e veio encontrá-lo o capitão-mor de Barcelos a engabelar padre-nossos e ave-marias, vorazmente, uns atrás de outros, na pressa de encher o bornal de santa mercadoria para a grande viagem.
- Acho-o melhor - disse-lhe o primo. - Já lhe reluz a menina do olho. Temos homem!
- Agora temos! Eu estava até com bem pressa de o ver para o tornar depositário das minhas derradeiras vontades...
O capitão-mor pôs-se a chalacear, sem grande convicção no que dizia. E foi-lhe prestando ouvido. Queria Albano de Carvalhais que o seu corpo fosse enterrado na capela do solar, ao lado dos morgados de Fraião, ali sepultos desde há nove centos de anos para cá. Como podia ser levarem seus restos mortais para tão longe?
- Não pense nisso. O primo há-de morrer à lareira da sua casa, daqui a muitos anos e bons.
- Vá tomando nota. A espanholita, sabe, a Carmencita, que fui desinquietar a Melgaço, que volte com a mãe para o padrasto. Está bem convidada e recompensada do atraso que lhe causei. Também não me trouxe nada por que tenha de me responsabilizar perante Deus...
O capitão-mor sorriu, mas não se permitiu a mínima observação em assunto tão reservado.
- À minha mulher, senhora D. Mécia, de joelhos peço perdão de tantas loucuras que me ditava o diabo da má cabeça, e que não veja nelas desconsideração ao amor que sempre lhe tive e ao respeito que devo ao nome ilustre que ligou ao meu. Minha esposa que crie e eduque os filhos na santa lei de Deus, na vénia e afecto do monarca absoluto, senhor D. Miguel I, nosso rei e arcanjo. Rogo-lhe também para suplicar a Fr. Aniceto, pela salvação da sua alma, que vele por minha casa e família como santo que é, que Deus lhe alongará a existência, e em tudo seja paternal e protector. E que me deite a sua bênção e se lembre sempre da minha alma nas suas orações.
Palavra puxa palavra, em despeito do compungimento suscitado, recaíram a praticar - sem grande enfado de Albano de Carvalhais, o que a certa altura surpreendeu o capitão-mor, e em contrário do amargor que lhe lia no íntimo - de coisas, e loisas, a política sempre insegura, os malhados que levantavam a grimpa, e que a repressão, batendo forte e dura, não tinha jeitos de arrasar. Albano de Carvalhais queixou-se de que os senhores da Governança e da Corte só tivessem dado fé tão tarde e a más horas de que faltava nos bancos da representação, e apenas naquele dia, depois de o deixarem andar por mãos de barbeiros, lhe mandassem aquele arganaz de físico. A voz do morgado era branda, todavia ressentida. E o capitão-mor ergueu-se a varrer a parte de remoque que lhe poderia ser dirigida:
- Então eu lhe conto, primo... Ontem, pela quinta vez, fiz saber na Secretaria do Reino o estado em que se encontrava o deputado às Cortes, Albano de Carvalhais, morgado de Fraião. Tinham-me respondido: Temos mais que fazer do que pensar na saúde dos fidalgotes que desabaram das falperras sobre a Corte com as maleitas ou a sarna no pêlo. Ele que chame um médico. Não tem por onde pague? Afinal tanto insisti que veio este, que passa por sabedor, mas é muito interesseiro, como se viesse mandado pela Câmara Real. Ele lhe apresentará a dolorosa...
- A mim de sorte a apresentará... Tudo o que aconteceu foi-me bem feito. Quem me mandou ser asno! Para que me meti eu em cavalarias altas!?
Estavam nisto, chegou D. Paca com a botijada. Era um cozimento denso, gorduroso, de aspecto nojento, sobre o verdonho. A boa mulher trazia já uma colher de sopa, que se pôs a encher, mas ele atalhou logo à primeira gota:
- Deixe-me provar...
Levou a mistela aos lábios, saboreou e, fazendo uma careta sinistra, cuspiu para o soalho.
- Homem, não lhe havia de tomar o gosto! - murmurou amicalmente o capitão-mor de Barcelos.
- É uma beberagem nauseabunda, para revessar a cama das tripas...
- O primo bem sabe que os remédios não são nenhum néctar. Deixe ver o récipe, D. Paca...
O capitão-mor pôs-se a soletrar em voz alta, omitindo as palavras e sinais que expressavam a dosagem da farmacopeia químico-galénica:
- Raízes de escorcionária; mi... mi... mitridato; diascórdio; água de cevada depurada; raspas de ponta de veado e de marfim; sumo de cherne... não, sumo de chermes e folhas de ouro...
- Uma burundanga! - murmurou Albano de Carvalhais em voz despiciente. - Para quê? Para abreviar a vida e nos despejar o bolsinho! Em quanto importou a potreia, D. Paca?
- Está lá escrito. O senhor Capitão-Mor leia...
- Libra e meia.
- Libra e meia - confirmou ela. - Disse o boticário que havia de achar puxado, mas era barato pelo efeito que ia produzir. As raspas de marfim e as folhas de ouro custam os olhos da cara. Isto é remédio só para ricos.
- Irra, irrório, senhor Gregório! Peguem dum bacamarte e vão roubar para uma encruzilhada! Veja, primo, libra e meia, o preço duma burra com o poldro... três a quatro pipas do vinho dos Arcos!...
- Carito! Carito!
D. Paca, com a colher na mão, o frasco noutra, dava o seu acordo por monossílabos e frases soltas "sim, sim, um pobre não pode cair doente, está tudo pela hora da morte", aguardando que o enfermo se dignasse ingerir a poção.
Nessa altura, a negra veio anunciar que estava um homem à porta que dizia vir de rota batida do Alto Minho para falar com Sua Mercê, o senhor Morgado…
- Ó D. Paca, vá ver quem é…
- Que é o Tomás… - tornou a negra.
- O Tomás… O Tomás Ruivo?... Temos história. Mande já entrar.
Pois era o seu fiel Ruivo, cara de urso a quem cortaram uma orelha, esbaforido, intonso, as rosetas a tilintar nas esporas ferrugentas a cada passo que dava no sobrado.
- Que há? Que há? - golfou o morgado, de boca torcida, soerguendo-se na cama.
Ruivo, num olhar, deu a entender que havia ali orelhas que talvez não devessem ouvir. Albano de Carvalhais pediu s D. Paca que o deixasse por um momentinho que já a chamava para lhe aplicar os sinapismos e que então tomaria o remédio. E voltando-se para o criado:
- Podes falar, Tomás. Aqui o senhor Capitão-Mor de Barcelos é mais que meu quarto primo por minha bisavó D. Escolástica da Abrunhosa; é como se fosse meu mano. Dize lá o que traz…
- O que me traz é bem mofino, meu senhor… Saberá que os malhados já estão senhores da praça…
- Essa agora! Como pôde isso ser?
- Vieram em força da banda dos Arcos e com outros de Monção abafaram as sentinelas. Depois, de roldão, invadiram a casa da guarda, desarmaram os soldados e lá estão. Agora são eles que mandam e dão leis.
- E os nossos?
- Os nossos acudiram tarde e ainda não passaram de meio caminho. Quando eu saí de casa, havia tiroteio com os de Viana lá para Ganfei, que é a linha avançada dos liberais.
- Nunca imaginei! Que fez esse Cabeça Ancha, que se gloriava de trazer Paredes atrás de si à primeira voz?
- O Barriga Ancha meteu-se em copas.
- Que lagartão! E a joldra da Labruja?
- Nas encolhas, também, meu senhor.
- E o Joaquim Guerrilhas, de Romarigães?
Tomás olhou por terra, torceu depois os lábios.
- Desembucha!?
- Saberá Vossa Mercê, meu amo, que o Guerrilhas é o melhor tratante que a rosa-do-sol alumia. Estava à espera que Vossa Mercê se viesse embora para lhe tirar com uma mina a água do Cerro Gordo. Tinha mineiro rogado e tudo. Não lhe deixou gotinha onde um pássaro refresque a goela! Eu quis levar as coisas pelas boas e fui-me ter com ele: Senhor Jaquim, vossemecê faz uma grande desfeita a meu amo se lhe tira a água. E não pode fazê-lo, que são vários os herdeiros da nascente, e vossemecê é um deles! - "Qual desfeita ou qual carapuço! - respondeu-me ele desabrido. - A água que anda por debaixo da terra é de quem a explora. Fui tirá-la no que é dele?" Mas o safado dos safados fez mais. Na quinta do Laboreiro deitou uma parede abaixo e fez caminho de carro por ela acima para a sua fazendória. Apresentei queixa e lá está a andar na Justiça. O alma de cão, vieram-me dizer, já forjou três testemunhas falsas que vão jurar sobre os santos Evangelhos em como o caminho foi sempre por ali.
- Que mariola! O mundo está perdido com mariolas. Já não temem o Inferno. Cristo, se não volta à terra, perde o seu reino.
- Mas ainda não disse tudo. O Guerrilhas, para cúmulo de desvergonhas, fez-se ou desconfia-se ter-se feito com os malhados. Um grupo dos nossos ia de volta por S. Martinho para tomar o inimigo de revés, pois o malvado saiu-lhes à frente com a matula e abriu fogo contra eles. Os nossos não tiveram outro remédio senão tornar para trás.
- Compreendo, compreendo agora porque é que o ladrão sustentou a minha candidatura!
- Deviam chamar a gente do visconde - interveio o capitão-mor. - Se não bastasse, apelavam para a milícia de Braga, que é testa.
- E o abade do Cerdal? Esse tinha às ordens, na freguesia, um punhado de lapuzes que metiam respeito. Também se virou?
O Ruivo voltara a embezerrar. O capitão-mor assistia, com meio sorriso irónico a esvoaçar nos lábios, ao desenrolar daquela cómica e desatinada conferência.
Albano de Carvalhais viu-se obrigado a dar ao mensageiro nova sacada de freio. Mas o servo fiel tinha um rolho na garganta que o tolhia de explicar-se.
- Tu falas ou queres que mande vir um sacatrapo para te meter pela boca abaixo? - e os olhos de Albano de Carvalhais fuzilavam, com o que se acentuou o parecer satisfeito do capitão-mor de Barcelos.
- O abade, meu senhor, é o seu pior inimigo. Eu até tenho vergonha de contar...
- Raios te partam, excomungado! Conta lá! Assim me julgas pele de galinha!
- A negra disse-me que Vossa Mercê estava no fim da vida e não se podia afligir...
- Desata lá o saco. O que a negra te disse não se escreve. Não, hoje já não dou contas a Deus, fica adiado para amanhã. Vá, desata, não me moas a paciência...
- Pois então saberá que o abade, o grande safardana, lá teve artes, por intermédio duma alcoviteira, de introduzir-se na amizade da espanholona...
- Da espanholona...?
- A mãe da Cármen. E esta induziu a filha a passar-lhe as palhetas. Tem-na o maldito padre para uma quinta abaixo de Monção. Já fizeram as pazes com o Martinez, o contrabandista... e todos os dias há grande rambóia entre eles.
Albano de Carvalhais ficou amarelo, como se houvesse perdido o sangue todo ou estivesse a exalar o último suspiro. Depois fez-se verde, verde como um pepino, e pouco a pouco foi recobrando as cores e voltando à humanal figura. Viram-no abrir os olhos, deitarem chispas, tornar a fechá-los, abri-los como se tivesse apagado o lume interior, e rompeu a gritar:
- E tu não tinhas um trabuco para matar esse malandro? Não tinhas, alma danada?... Que instruções te dei eu? Oh, mil raios me abrasassem e à comédia em que me meti! Não tenho amigos, não tenho nada. Até este cachorro me negou...
- Meu senhor, que havia eu de fazer?
- Que havias tu de fazer? Ainda me perguntas? Pois em vez de parlamentar com o Guerrilhas, deitava-lo abaixo com uma tranca. E ao abade... Diz lá, o masmarro não vai, pelo menos aos domingos, dizer missa na igreja do Cerdal? Pois esperava-lo por detrás da parede do adro e com um tiro mandava-lo de presente ao Diabo, que já espera por ele. Fiei-me em ti. Não és meu amigo... não és!
- Quis matar o abade, quis, sim senhor! Fr. Aniceto impediu-me: "Deixa lá, que o abade prestou-nos um grandessíssimo serviço. A espanholita era uma frieira e galdéria de alto lá com ela." Assim mesmo. Por modos a Cármen veio corrida de Redondela, onde esteve amigada com um homem casado, depois de ter porta aberta lá para o Lugo. Não tenha pena dela, meu senhor... que não o merece!
O morgado ficou um migalho de olhos fechados. Depois disse, e a voz era como se saísse duma cuba:
- Pois sim, mas seja ela lá a rês que for, a desfeita é a mesma. Ele, por um lado, e o Guerrilhas por outro têm de pagar-mas com língua de palmo. Ah, Tomás, Tomás, quanto eu te agradecia se me tivesses vingado! Depois davas às de vila-diogo e vinhas ter comigo. O meu pão era o teu pão, onde tu pateasses, pateava eu!
O morgado esmagou duas lágrimas teimosas, uma atrás da outra, com dedo frenético; o Ruivo chorava e soluçava.
- Escusavas de me trazer cá tais notícias. Morria, acabou-se! Assim nem a terra me come; assim não posso morrer!
- Acalme-se, primo, que lhe pode fazer mal - exorava o capitão-mor de Barcelos.
Aos gritos e lamentos acudiu D. Paca. Julgou, meio surda como era, que fosse a pedir a droga, e já ela trazia, numa mão o frasco com a colher, na outra as papas de linhaça. Carvalhais, quando a enxergou diante de si, fez-lhe sinal para que se aproximasse.
- Deixe ver, D. Paca...
Ela entregou-lhe a botija que ele com mão expedita despejou no bacio. Pediu-lhe a cataplasma e fez o mesmo. Depois exclamou:
- D. Paca, a minha roupa... Está ela limpa e escovada?... Dê-ma cá...
Deu-lhe ela a roupa, assombrada. Olhava para ele, não menos assombrado, o capitão-mor. Albano de Carvalhais começou a vestir-se, primeiro da cinta para cima. Depois, olhando para o chão, proferiu em voz febril:
- Não me trouxe as botas... as de montar... E olhe, faça-me um favor: mande a negra com este moço para que diga aos criados que se preparem. Quero cavalos, pistolas, alforges... tudo em ablativo de marcha. Se Deus quiser, partimos esta mesma tarde com a fresca. Até à noite, tenho muito tempo de pôr as coisas em ordem para a jornada.
- Então vai-se embora, primo? - exprimiu o capitão-mor em voz mista de espanto e reprovação.
- Vou, pois então! Quer que me deixe roubar? Não, de mim não zombam. O abade e o Guerrilhas vão ver uma fona...
- Mas estava ainda há pouco tão doente...
- Não sei. Agora sinto-me rijo. De resto só quero forças até chegar a Valença, e uma moratória de dias... mais dois ou três dias de vida... S. Bento da Porta Aberta, meu advogado nas aflições, há-de-me ouvir e interceder por mim junto do Altíssimo - e, dizendo isto, calçava, sentado na cama, as botas de cano alto, levantando a perna à altura da cabeça do capitão-mor, acaçapado no tamborete.
- E o nosso rei? Não há-de assistir à abertura das Cortes? - interrogou o capitão-mor de Barcelos com certa veemência e tom de acritude.
- Em primeiro lugar estou eu. O príncipe - sabe que mais, primo - que vá para o Diabo!


In RIBEIRO, Aquilino. Casa do escorpião: Novelas