28/01/2008

O Pastor Gabriel


Nunca houve em toda a montanha pastor como o Gabriel.

- Merecias outras ovelhas, homem! - disse-lhe um dia o Prior, desanimado da anarquia dos seus paroquianos, quando viu o rebanho do rapaz atravessar a estrema dum centeio sem tirar uma dentada.

- Deus me livre! já me vejo maluco com estas...

Mentira. O padre tinha razão. Era uma pena ver tanta autoridade, tanta vocação, tanto jeito natural, ao serviço de animais. Nem se pode fazer ideia! O carneiro mais teimoso, mais lorpa, mais churro, chegava às mãos do Gabriel e mudava de condição. Só não ficava a falar.

- Que fazes tu ao gado, criatura? Parece que o enfeitiças!

- Nada. Dou-lhe monte, como a outra gente. Sorria. E lá continuava a educar os malatos com gestos e palavras que ninguém sabia fazer nem dizer. Nunca batia numa rés. O castigo era um simples olhar reprovativo, um assobio impaciente, uma interjeição mal humorada. Mas bastava. Ao fim de algum tempo, cada cabeça como que porfiava em não desagradar ao dono, em viver sintonizada com aquele governo sem cajado. E dava gosto ver a disciplina com que o rebanho deixava o redil e atravessava o povo.

- Não há dúvida! Nem o mestre na escola! Continuava a rir-se por dentro. Espantavam-se com pouco. Com a pequenina amostra do muito que estava por detrás...

Na verdade, toda aquela disciplina tinha um fim, e era muito mais apertada do que parecia. Como os pastos no verão escasseavam, só havia uma solução: aceivar os nabais de noite, pela calada. Ora, para Áfricas dessas, o Gabriel necessitava de gado mudo e lesto, cegamente obediente ao comando. Por isso, sem dizer porquê nem por que não, exigia sistematicamente dos patrões que vendessem os carneiros mancos ou rebeldes, e ninguém ouvia o balido de nenhum.

- O teu gado não berra?

- Pergunta-lhe. É o berras! Ou não se chamasse ele Gabriel e não capitaneasse um bando de salteadores.

No meio da escuridão, abria a porta do curral e punha-se a andar. O rebanho atrás, como um cão rafeiro. À entrada da melhor sementeira, parava, perscrutava os horizontes e arrombava o tapume. Depois, em silêncio., deixava entrar os famintos e esperava que cada boca se fartasse em silêncio.

Se por acaso ouvia vozes ou passos de gente que se aproximava, subia acima da parede, descalçava os socos, batia com um no outro e largava a fugir com quantas pernas tinha. Não era preciso mais: quando chegava ao redil, já o rebanho lá estava.

- Não, tu hás-de ter qualquer segredo, qualquer mistério... - insinuava o Languna, a sondar.

- Palavra de honra que não. E realmente não tinha. A coisa vinha-lhe espontaneamente, duma maneira directa, rápida, infalível, de entender e de se fazer entender por todos os seres vivos. Via um coelho na cama, falava-lhe e punha-lhe a mão em cima. Acalmava um cão açulado-a sorrir-lhe.

Mas esta comunhão instintiva com a natureza dos bichos não tentava o Gabriel alargá-la à natureza dos homens. Desses arredava-se discretamente., sem querer passar, nas relações com eles, do plano amorfo da neutralidade. Alugava o suor. Enjeitado, sem vintém, servia este e aquele. A indústria de Ferrede era comprar gado magro, engordá-lo e vendê-lo. Portanto, quem tinha dinheiro tinha o poder, e não valia a pena discutir. Que lhe interessava a ele perder tempo com palavreado ou mendigar intimidades que sabia impossíveis de antemão? O que os donos de cada rebanho queriam já o sabia: era que lho entoirisse de qualquer maneira. Recebia, pois, o farnel pela manhã, e ala que se faz tarde. Cada qual para o que nasce.

No verão em que fez vinte e dois anos, não pôde, contudo, ficar indiferente a um apelo que, muito embora fosse de cordeira no cio, vinha duma criatura cristã, com quem, de resto, acabou por casar.

Foi assim: como a serra inteira ardia na fornalha do Agosto, certo dia, no pino do sol, resolveu assestar o gado na loja. Servia então o Silvano, o maior proprietário da terra. E enquanto o rebanho, sonolento, ruminava, estendeu-se também no catre, igualmente sonolento e a ruminar. Era a hora do jantar, e lá em cima os patrões comiam e bebiam à tripa-forra. Ele, coitado, teria uma malga de caldo no fim do banquete, e viva o velho!

Nisto, sente passos pela escada abaixo, abre-se a porta, e a filha da casa, bonitota, mas de pêlo na venta, que nunca dera conta que o olhasse como homem e nunca lhe consentira que a olhasse como mulher, aparece de cântara na mão, ao vinho.

Em silêncio e sem se mexer, deixou-a passar para a adega, que era ao fundo, numa loja contígua Mas apenas sentiu desandar a torneira da pipa e a espuma do tinto a ferver dentro do barro lhe fez cócegas na garganta, pediu humildemente:

- Minha ama, dê-me uma pinga! - Dou. Anda cá bebê-la... Ergueu-se num pronto, saltou por cima do gado, entrou no armazém, recebeu a pichorra, levou-a à boca e começou a consolar a alma. De repente, sem mais nem para quê, a moça, calada, dá-lhe um empurrão à vasilha com a ponta do dedo. De respiração afogada e ainda engasgado, a tossir, relanceou-a toda. Ao machio, a senhora morgada!

E nada mais simples: pousou a caneca e dobrou a rapariga sobre uma facha de palha.


Miguel Torga, Novos Contos da Montanha



27/01/2008

Horácio Sparkins


- Com efeito, meu querido, ele deu muita atenção a Teresa no último sarau – disse a Sra. Malderton dirigindo-se ao marido, o qual, após as canseiras do dia na City, sentado com um lenço de seda na cabeça, os pés sobre o guarda-fogo, bebia seu vinho. – Muita atenção, realmente; e repito que se deve dar-lhe todo e qualquer estímulo. Não há dúvida que ele deve ser convidado para jantar aqui.
- Quem? – perguntou o sr. Madelton.
- Bem, você sabe, meu querido, a quem estou me referindo: àquele moço de suíças pretas e gravata branca que há pouco veio ao nosso clube e de quem todas as moças falavam. É o jovem... meu Deus! como se chama mesmo?... Mariana, lembra-me o nome dele, - disse a Sra. Malderton
- Sr. Horácio Sparkins, mamãe – respondeu Mariana com um suspiro.
- Isso mesmo! Horácio Sparkins – disse a Sra. Malderton.
- Decididamente é o jovem mais elegante que já vi na minha vida. No casaco tão elegante que ele usava a noite passada, parecia-se com... com...
- Com o príncipe Leopoldo, mamãe... tão nobre, tão cheio de sentimento! – sugeriu Mariana, entusiasmada.
- Você não deve esquecer, meu querido – resumiu a Sra. Malderton -, que Teresa tem agora 28 anos. É da maior importância que se faça alguma coisa.
A Srta. Teresa Malderton era uma jovem muito pequena, gorducha, de faces avermelhadas, mas de bom humor e ainda sem compromisso, embora – para fazer-lhe justiça – tal desgraça não decorresse absolutamente de sua falta de perseverança. Em vão tinha namorado durante 10 anos. Em vão o Sr. e a Sra. Malderton mantinham assiduamente relações com grande número de rapazes solteiros e elegíveis de Camberwell, e até de Wandsworth e Brixon, sem falar daqueles que ocasionalmente “caíam” na cidade. A Sra. Malderton estava tão conhecida como o leão do topo de Northumberland House e tinha a mesma probabilidade de “sair”.
- Estou certa de que você gostará dele – continuou a Sra. Malderton. – Ele é tão galante!
- E tão hábil – acrescentou Mariana.
- E tão eloquente – observou Teresa.
- Tem muito respeito a você, meu querido – disse a Sra. Malderton ao esposo.
Ele tossiu e olhou para o fogo.
- Sim, estou certo de que ele tem o maior interesse em conhecer papai – declarou Mariana.
- Sem a menor dúvida – ecoou Teresa.
- É verdade, ele me disse confidencialmente – voltou a Sra. Malderton.
- Está bem – replicou o Sr. Malderton, algo lisonjeado. – Se o encontrar amanhã no clube, talvez o convide. Naturalmente ele sabe que moramos em Oak Lodge, não, minha querida?
- Naturalmente. Sabe também que você tem uma carruagem de um cavalo.
- Vou ver isso – disse o sr. Malderton, dispondo-se a uma soneca.
O sr. Malderton era um homem cujo campo de idéias estava limitado ao Lloyd’s, à Bolsa, à Indianideias e as da sua família foram-se exaltando em extremo, ao passo que lhe crescia a fortuna; todos afectavam elegância, bom-gosto, e outras tolices, imitando seus superiores, e tinham um horror muito decidido e característico a tudo quanto pudesse eventualmente ser considerado baixo. Era hospitaleiro por ostentação, liberal por ignorância, e cheio de preconceitos por presunção. O egoísmo e o amor à exibição faziam-no manter mesa excelente; a conveniência e o amor às coisas boas da vida asseguravam-lhe grande número de convivas. Gostava de ter à mesa homens hábeis ou que considerava tais, pois eram grande tema para conversação, mas nunca pôde suportar aqueles a quem chamava “camaradas espertos”. Provavelmente conseguiu comunicar este sentimento a seus dois filhos, que nesse ponto não causavam nenhuma inquietação ao responsável progenitor. A família tinha a ambição de travar conhecimentos e relações em qualquer esfera social superior à sua, e uma das consequências de tal desejo, facilitada pela extrema ignorância em que estavam de tudo quanto ficava além de seu estreito círculo, era que toda pessoa pretendia conhecer gente da alta sociedade tinha seguro passaporte para a mesa de Oak Lodge.
O aparecimento do sr. Horácio Sparkins no clube provocou, entre os frequentadores assíduos, extraordinária surpresa e curiosidade. Quem podia ser? Ele era evidentemente reservado e visivelmente melancólico. Um eclesiástico? Mas dançava bem demais. Um advogado? Mas dizia que ainda não fora chamado a praticar. Empregava palavras muito finas e era grande conversador. Seria algum estrangeiro distinto vindo à Inglaterra que frequentava jantares e bailes públicos a fim de conhecer a alta-roda, a etiqueta, o requinte inglês? Mas não tinha sotaque. Era um cirurgião, um colaborador de revistas, um autor de romances, um artista? Não: a cada uma dessas suposições, como ao conjunto delas, havia alguma objecção válida. “De qualquer maneira – concordavam todos -, ele deve ser alguém.: - “Deve ser, com certeza – dizia com seus botões o sr. Malderton -, uma vez que percebe a nossa superioridade e nos dá tamanha atenção.”
A noite seguinte a conversa que acabamos de relatar era noite de reunião. A carruagem recebeu ordem de estar à porta de Oak Lodge às nove horas em ponto. As srtas Malderton estavam vestidas de azul-celeste ornado de flores artificiais, e a Sra. Malderton (que era baixa e gorda), idem, idem, parecendo sua filha mais velha multiplicada por dois. O sr. Frederico Malderton, o filho mais velho, em traje de rigor, representava o beau ideal de um garçom elegante, e o sr. Tomas Malderton, o mais jovem, de gravata branca de gala, paletó azul, botões brilhantes e fita de relógio vermelha, de perto se parecia com Jorge Barnewll. Todos do grupo estavam interessados em cultivar a amizade do sr. Horácio Sparkins. A Srta. Teresa preparava-se para mostrar amável e interessante como em geral o são as moças de 28 anos à procura de um marido. A Sra. Malderton ia ser toda sorrisos e graças. A Srta. Mariana lhe pediria o favor de escrever alguns versos em seu álbum. O sr. Malderton tomaria sob sua proteção, o grande desconhecido, convidando-o a jantar em sua casa. Tom dispunha-se a averiguar a extensão de seus conhecimentos em matéria de rapé e charutos. O próprio Sr. Frederico Malderton, a autoridade da família em tudo o que dizia respeito à elegância do traje e das maneiras, e ao bom gosto; que possuía seu apartamento próprio na cidade; que tinha ingresso livre no teatro CoventGarden; que se vestia sempre com formalidade com a moda do mês; que ia às águas duas vezes por semana, durante a estação; que tinha um amigo íntimo que outrora conhecera um cavalheiro que tinha vivido no Albany – ele mesmo declarou que o sr. Horácio devia ser um sujeito famoso e que lhe daria a honra de desafiá-lo para uma partida de bilhar.
O primeiro objecto que feriu os olhos ansiosos da expedita família, ao entrarem no salão, foi o interessante Horácio, com os cabelos atirados sobre a fronte e os olhos fixos no chão, recostado numa das cadeiras em atitude contemplativa.
- Ei-lo, meu querido, - cochichou ao marido a Sra. Malderton.
- Como se parece com Lord Byron – murmurou Teresa.
- Ou com Montgomery – segredou a Srta. Mariana.
- Ou com os retratos do capitão Cook! – sugeriu Tom.
- Tom, não seja burro! – disse o pai, que o morigerava a cada passo, provavelmente com o intuito de o impedir de se tornar “esperto”, coisa totalmente desnecessária.
O elegante Sparkins continuava em sua atitude afectada, de admirável efeito, até que a família cruzou a sala. Então se levantou precipite, com o ar mais natural de surpresa e enlevo, aproximou-se da Sra. Malderton com a maior cordialidade, cumprimentou as moças de modo encantador, inclinou-se perante o sr. Malderton, cuja mão apertou com respeito que raiava a veneração, e retribuiu a saudação dos dois rapazes com um jeito meio agradecido, meio protetor, que acabou convencendo-os que ele devia ser uma personagem importante mas condescendente ao mesmo tempo.
- Srta. Malderton – disse Horácio após os cumprimentos de praxe e inclinando-se profundamente – é-me lícito conceber a esperança de que me permitirá ter o prazer de...
- Não sei se já estou comprometida – disse a Srta. Teresa com terrível afectação de indiferença -, mas realmente... assim... tão...
Horácio ostentou uma expressão primorosamente lastimável.
- Terei muito prazer – externou por fim a interessante Teresa. O rosto de Horácio brilhou de repente como um velho chapéu sob a chuva.
- É realmente um moço muito distinto – declarou o sr. Malderton, quando o obsequioso Sparkins
- Ele tem, de fato, boas maneiras – observou o sr. Frederico.
- Sim, é um rapaz notável – interveio Tom, que não deixava passar oportunidade de meter os pés pelas mãos. – ele fala que só um leiloeiro.
- Tom, disse o pai com solenidade, suponho já lhe ter pedido que não seja tolo.
Tom ficou tão contente como um galo em manhã escura.
- Como é delicioso – dizia à sua dama o interessante Horácio – enquanto passeavam pela sala depois da contra dança -, como é delicioso, repousante, abrigar-nos das tempestades nebulosas das vicissitudes, dos dissabores da vida, embora apenas por alguns instantes fugazes, e passar esses instantes por mais efémeros e rápidos que sejam, no delicioso, no abençoado convívio de um ser – cujo franzir de sobrancelhas seria a morte, cuja frieza seria a loucura, cuja falsidade seria a ruína, cuja constância seria a ventura, e cuja afeição seria a recompensa mais brilhante e elevada que os Céus pudessem outorgar a um homem!
- Quanto ardor! Quanto sentimento!”- pensava a Srta. Teresa, apoiando-se com força no braço de seu cavalheiro.
- Mas basta, basta! – resumiu o elegante Sparkins com ar teatral. – Que foi que eu disse? Que tenho eu... que ver... com sentimentos como este? Srta. Malderton – aqui ele parou de repente -, posso esperar o consentimento para oferecer-lhe o humilde tributo de...
- Na verdade, Sr. Sparkins – retrucou a enlevada Teresa, corando na mais deliciosa confusão – tem que falar com papai. Eu nunca poderia sem o consentimento dele atrever-me a ...
- Decerto ele não fará objeção alguma...
- Ora, o Sr não o conhece ainda! – interrompeu-o a Srta. Teresa, bem sabendo que não havia nada a temer, mas desejosa de transformar a cena em um romance romântico.
- Ele não poderá fazer objecção alguma a que eu lhe ofereça um copo de sangria – volveu o adorável Sparkins com certa surpresa.
- “Era apenas isso? – pensou Teresa desiludida – Quanto barulho por nada!”
- Terei o maior prazer, senhor, em vê-lo a jantar em Oak Lodge, Camberwell, domingo próximo, às cinco horas, se não tiver compromisso melhor, - disse o sr. Malderton no fim da reunião, quando ele e os filhos conversavam com o sr. Horácio Sparkins.
Este curvou-se agradecendo e aceitando o convite.
- Devo-lhe confessar – continuou o pai, oferecendo rapé ao novo conhecido – que gosto muito menos destas reuniões que do conforto, ia quase a dizer do luxo, de Oak Lodge. Elas não têm grandes encantos para um homem de certa idade.
- Aliás, senhor, que é afinal o homem? – perguntou o metafísico Sparkins. – que é o homem? Digo eu.
- Ah, isso mesmo – disse o sr. Malderton -, isso mesmo.
- Sabemos que vivemos e respiramos – continuou Horácio – que temos aspirações e desejos, anelos e apetites...
- Sem dúvida – replicou o sr. Frederico Malderton com ar profundo.
- Sabemos que existimos, digo eu – repetiu Horácio, levantando a voz -, mas aí nos detemos; ai está o fim do nosso conhecimento, o limite do nosso alcance, o termo de nossos fitos. Que mais sabemos?
- Nada – respondeu o sr. Frederico.
E realmente ninguém tinha mais direito que ele de fazer tão afirmativa. Tom ia arriscar um reparo, mas, a bem de sua reputação, percebeu o olhar zangado do pai e escapuliu-se como um cão apanhado em flagrante de furto.
- Palavra de honra – disse o sr. Malderton pai quando a família voltava para casa na carruagem -, este sr. Sparkins é admirável. Quantos conhecimentos! Que amplidão de informações! Que maneira esplêndida de se exprimir!
- Para mim ele deve ser alguém disfarçado – declarou a Srta. Mariana. – Que encantadoramente
Tom arriscou:
- Ele fala forte e muito bem. Apenas não entendo exatamente o que ele quer dizer.
- Quase começo a desesperar de você entender qualquer coisa, Tom -, disse o pai, o qual, naturalmente, ficara edificadíssimo com a palestra do sr. Horácio Sparkins.
- Tenho a impressão, Tom – disse a Srta. Teresa -, de que você foi bastante ridículo esta noite.
- Sem a menor dúvida! - gritaram todos.
E o pobre Tom procurou reduzir-se ao menor volume possível. Naquela noite o sr. e a Sra. Malderton conversaram longamente sobre as perspectivas e o futuro de sua filha. A Srta. Teresa foi deitar-se perguntando a si mesma se, caso desposasse um aristocrata, devia incentivar as visitas de suas conhecidas actuais, e sonhou a noite inteira com gentis-homens disfarçados, grandes recepções, plumas de avestruz, presentes nupciais e Horácio Sparkins.
Na manhã do domingo se aventaram diversas conjecturas acerca da condução que o ansiosamente esperado Horácio iria adotar. Ia tomar um cabriolé? Montaria a cavalo? Preferiria a diligência? Tais e outras mais hipóteses de igual importância absorveram a atenção da Sra. Malderton e de suas filhas durante toda a manhã, depois do ofício divino.
- palavra de honra, minha querida, aborrece-me que o simplório do seu irmão tenha convidado a si mesmo para jantar aqui hoje – disse o sr. Malderton à mulher. – Por causa da visita do sr. Sparkins eu me abstive, de propósito, de convidar fosse quem fosse, além de Flamwell. E agora pensar que seu irmão... um lojista... não, é insuportável. Não gostaria que fizesse qualquer referência à loja diante do nosso convidado... não, nem por mil libras! Preferiria que tivesse o bom senso de esconder a desgraça que ele representa para a família, porém ele gosta tanto do seu horrível negócio que não deixará de falar a respeito.
O sr. José Barton, a pessoa em apreço, era dono de um grande armazém, homem vulgar e tão despido de sensibilidade que não tinha o menor escrúpulo em confessar que não estava acima do seu negócio; juntara seu dinheiro graças a ele, e não fazia questão de encobri-lo.
- Ah, Flamwell, meu caro amigo, como vai? – perguntou o sr. Malderton ao ver um homenzinho azafamado, de óculos verdes, entrar na sala. – Recebeu o meu bilhete?
- Recebi sim, e estou aqui às suas ordens.
- Não conhecerá de nome, por acaso, esse Sr. Sparkins? Você conhece todo o mundo.
Era o r. Flamwell um desses cavalheiros de relações extremamente vastas que a gente encontra de quando em quando na sociedade, os quais pretendem conhecer a todos mas na verdade não conhecem ninguém. Em casa dos Maldertons, onde qualquer história sobre gente distinta era acolhida com ouvidos gulosos, estimavam-no especialmente. Vendo com que espécie de pessoas tratava, levou ao extremo a paixão de exibir as suas relações. Tinha um modo peculiar de contar as suas maiores mentiras num parêntese, com ar de quem se desmente a si mesmo, como se estivesse receando parecer egoísta.
- Bem, não o conheço por esse nome -, replicou em voz baixa e com um jeito de imensa importância. – No entanto, devo conhecê-lo, sem a menor dúvida. É alto?
- É de estatura mediana – disse a Srta. Teresa.
- Cabelos pretos? – perguntou Flamwell, arriscando uma suposição arrojada.
- Sim – respondeu a Srta. Teresa ansiosamente.
- De nariz bastante arrebitado?
- Não – replicou Teresa com desaponto. – tem um nariz romano.
- Pois não foi o que eu disse, um nariz romano? – disse Flamwell. – Não é um moço elegante?
- É.
- De maneira excessivamente simpáticas?
- Sim – exclamou a família toda. – Naturalmente você o conhece.
- Foi o que pensei: naturalmente você o conhece, se ele é “alguém”, - triunfou o Sr. Malderton. – Quem pode ser ele?
- Bem, pela descrição de vocês – disse Flamwell ruminando e baixando a voz até o cochicho -, ele se parece de modo estranho com o nobre Augustus Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne. É um rapaz de muito talento e bastante excêntrico. É muitíssimo provável que tenha mudado de nome por algum motivo especial.
O coração de Teresa batia forte. Seria mesmo o nobre Augustus Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne? Que nome para ser gravado elegantemente em dois cartões acetinados, atados com uma fita de cetim branco! A nobre senhora Augustus Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne! Só o pensar nisso dava um êxtase!
- Faltam cinco para as cinco – disse o Sr. Malderton consultando o relógio. – Espero que ele não nos desiluda.
- Ei-lo! – exclamou a Srta. Teresa ao ouvir duas fortes pancadas à porta.
Todos procuraram assumir o ar de quem nem suspeitava a chegada de quem quer que fosse, como costumam fazer as pessoas que esperam ansiosas uma visita.
A porta da sala abriu-se.
- O Sr. Barton – anunciou a criada.
- Raios o partam! – murmurou Malderton – Ah, meu querido, como vai você? Que há de novo?
- De novo mesmo – retrucou o comerciante na sua habitual maneira rude – não há nada. Nada que eu saiba. Como vamos, meninas e rapazes? Sr. Flamwell, prazer em vê-lo!
- Eis o Sr. Sparkins – disse Tom, que estava olhando pela janela -, num formidável cavalo preto!
La vinha Horácio, bem seguro, montando um grande cavalo preto que curveteava e cabriolava como um surpanumerário de bufar, de empinar-se, de escoicear, o animal consentiu parar a umas cem jardas da porta. O sr. Sparkins apeou-se e o confiou aos cuidados do cavalariço do sr. Malderton. A cerimônia de introdução realizou-se com as devidas formalidade. O sr. Flamwell
- É o nobre Sr. Augustus como-se-chama-mesmo? – perguntou baixinho o sr. Malderton a Flamwell, que o escoltava para a sala de jantar.
- Bem, não é ele... pelo menos não precisamente – volveu a grande autoridade -, não precisamente.
- Quem é, então?
- Psiu! – disse Flamwell abanando a cabeça com gravidade como para mostrar que o sabia bem, mas se achava impedido por alguma grave razão de revelar o notável segredo.
Podia ser um ministro que procurava inteirar-se das opiniões do povo.
- Sr. Sparkins – disse a encantadora Sra. Malderton -, queira dividir as senhoras. João, ponha uma cadeira para o cavalheiro entre as senhoritas.
Estas palavras foram dirigidas a um homem que, em condições normais, acumulava as funções de criado e jardineiro mas, como era necessário impressionar o sr. Sparkins, fora forçado a calçar sapatos e pôr um lenço branco no pescoço, e havia sido retocado e escovado até assemelhar-se a um segundo lacaio.
O jantar era excelente. Horácio dava a maior atenção à Srta. Teresa e todos estavam de bom humor, excepto o sr. Malderton, o qual, conhecendo as propensoes de seu cunhado, sofreu a espécie de agonia que, segundo as informações dos jornais, experimenta a vizinhança quando um servente de taverna se enforca num depósito de feno, agonia “mais fácil de ser imaginada que descrita”.
- Flamwell, tem visto ultimamente o seu amigo sir Thomas Noland? – perguntou o Sr. Malderton, lançando a Horácio um olhar oblíquo para ver o efeito que sobre ele exercia o nome de tamanho homem.
- Bem, não muito... quer dizer, não ultimamente. Mas vi Lorde Gubbleton há três dias.
- Ah espero que S. Excia esteja passando bem – disse Malderton num tom de profundo interesse.
Desnecessário declarar que, até aquele momento, ignorava de todo a existência da personalidade em apreço.
- bem, estava passando bem... muito bem até. É um ótimo camarada. Encontrei-o na City, e tivemos uma longa prosa. Damo-nos muito. Mas não pude conversar com ele todo o tempo que queria, porque ele ia à casa de um banqueiro, um homem rico e membro do Parlamento, com o qual também me dou bastante... poderia até dizer – intimamente.
- Sei a quem você está se referindo – retrucou o hospedeiro, que o sabia tão pouco, na realidade, quanto o próprio Flamwell. – Ele tem um negócio formidável.
Era tocar em assunto perigoso.
- Por falar em negócios – interveio o sr. Barton, do centro da mesa – um cavalheiro que você conhecia muito bem, Malderton, antes de você ter dado aquele primeiro golpe feliz, passou outro dia na nossa loja e...
- Barton, permite-me que lhe peça uma batata? – interrompeu o infeliz dono da casa, na esperança de cortar a história pela raiz.
- Pois não! – respondeu o comerciante, insensível de todo ao objetivo de seu cunhado – E ele me disse sem rodeios...
- Mais farinhenta, por favor, - interrompeu Malderton outra vez, temendo o fim da anedota e a repetição da palavra loja.
- Ele me disse assim – continuou o culpado depois de passar a batata: - “Como vão os negócios?” Entoa eu lhe disse brincando – você conhece a minha maneira -, sim, eu lhe disse: “Eu nunca estou acima dos meus negócios, e espero que eles também nunca estejam acima de mim” Ah! Ah!
- Sr. Sparkins – disse o dono da casa, debalde procurando disfarçar a sua consternação - , um copo de vinho?
- Com o maior prazer, meu senhor.
- O prazer é todo meu.
- Obrigado.
- Uma dessas noites – resumiu o hospedeiro dirigindo-se a Horácio, em parte com a intenção de ostentar os dotes de conversador de seu novo conhecido, em parte com a esperança de abafar as histórias do cunhado -, uma destas noites conversamos sobre a natureza do homem. Sua argumentação me impressionou muito fortemente.
- E a mim também – disse o sr. Frederico.
Horácio inclinou a cabeça graciosamente.
- Por favor, sr. Sparkins, qual a sua opinião a respeito da mulher? – indagou a Sra. Malderton.
As moças sorriam tolamente.
- O homem – respondeu Horácio -, o homem, quer quando erra nos campos luminosos, alegres e floridos de um segundo Éden, quer quando percorre as regiões estéreis, áridas e, por assim dizer, vulgares a que somos forçados a nos habituar em tempos como estes; o homem, em qualquer circunstância ou em qualquer lugar, vergado sob as mortíferas rajadas da zona frígida ou comburido pelos raios de um sol vertical -, o homem sem a mulher, estaria sozinho.
- Estou muito contente de verificar que o senhor tem opiniões tão respeitáveis – declarou a Sra. Malderton.
- Eu também – acrescentou a Srta. Teresa.
Horácio fitou-a com olhar encantado, e a jovem corou.
- Pois bem, na minha opinião... – disse o sr. Barton.
- Eu sei o que é que você quer dizer – interveio Malderton, determinado a não dar oportunidade a seu parente -, e discordo de você.
- Como? – perguntou o comerciante, espantado.
- Sinto não estar de acordo com você, Barton – lançou o hospedeiro de modo tão positivo como quem deveras contradiz uma asserção feita por seu interlocutor -, mas não posso aprovar o que eu considero uma afirmação monstruosa.
- Mas eu queria dizer...
- Você nunca poderá me convencer – afirmou o sr. Malderton com obstinada determinação – Nunca.
- Pois eu – disse o sr. Frederico, a auxiliar o ataque de seu pai – não posso subscrever integralmente a argumentação do sr. Sparkins.
- Como! – exclamou Horácio, que se tornara mais metafísico e argumentador ao ver a parte feminina da família ouvi-lo com enlevada atenção. – Como! É o efeito conseqüência da causa? É a causa precursora do efeito?
- Aí está – disse Flamwell.
- Sem dúvida – concordou o sr. Malderton.
- Porque se o efeito é a conseqüência da causa e se a causa precede o efeito, parece que o senhor se engana – prosseguiu Horácio.
- Sem sombra de dúvida – acudiu o sicofanta Flamwell.
- Pelo menos esta deducao me parece lógica e justa.
- Sem dúvida alguma – repercutiu Flamwell – Com isso a questão está liquidada.
- Talvez esteja – disse o sr. Frederico. – Não o percebi logo.
- Eu nem agora o percebo – opinou o comerciante -, mas suponho que tudo esteja certo.
- Que inteligência maravilhosa! – segredou a Sra. Malderton às filhas quando se retiraram para o salão.
- É um amor! – disseram juntas as duas moças. – fala como um oráculo. Ele deve ter visto coisas.
Ficando a sós os cavalheiros, produziu-se uma pausa, durante a qual todos olharam com suma gravidade, como se exaustos com a profundidade da discussão. Flamwell, que resolvera elucidar quem era e o que era o sr. Horácio Sparkins, foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Desculpe-me, senhor – disse aquela distinta personalidade -, suponho que estudou para advogado, não? Eu mesmo já tive o desejo de adotar essa profissão... pois estou em relações bastante íntimas com algumas das glórias do nosso foro.
- N... não... – respondeu Horácio depois de hesitar um pouco. – Precisamente, não.
- Mas, ou muito me engano, ou o senhor tem tido contato com as becas de seda, - disse Flamwell com deferência.
- Quase toda a minha vida – replicou Sparkins.
Assim, a questão estava resolvida no espírito do sr. Flamwell. Tratava-se de um moço que entraria a advogar dentro em pouco.
- Eu não gostaria de ser advogado – disse Tom, falando pela primeira vez e olhando para todos a ver se alguém lhe prestava atenção.
Ninguém respondeu.
- Não gostaria de usar cabeleira postiça – insistiu o rapaz.
- Tom, peço que não se torne ridículo, - observou-lhe o pai. – Peço-lhe que preste atenção ao que está ouvindo, para aproveitá-lo, sem fazer a cada momento essas declarações absurdas.
- Está certo, papai, - respondeu o infeliz Tom, que não pronunciara nem uma palavra sequer depois que pedira outro bife, às cinco e um quarto; agora já eram oito.
- Bem, Tom – disse o tio bondoso -, não se aflija. Eu estou de acordo com você. Não gostaria de usar cabeleira postiça; prefiro um avental.
O sr. Malderton tossiu com violência. O sr. Barton quis concluir:
- Pois se um homem está acima dos seus negócios...
A tosse voltou com decuplicada violência, e não cessou antes que o seu infeliz motivo, de tão alarmado, houvesse de todo esquecido o que pretendia dizer.
- Sr. Sparkins – interrogou Flamwell, voltando a carga -, conheceu por acaso o Sr. Delafontaine, de Bedford Square?
- Trocamos os nossos cartões, e desde então já tive a oportunidade de servi-lo bastante, - replicou Horácio, corando um pouco, sem dúvida por haver sido forçado a fazer essa confissão.
- O senhor pode considerar-se feliz por haver tido ocasião de ser útil a esse grande homem – observou Flamwell com profundo respeito.
Depois, murmurou confidencialmente ao sr. Malderton, quando acompanhavam Horácio ao salão:
- Não sei quem é. Mas é certo que ele pertence à justiça e que é alguém de grande importância, com relações das mais altas.
- Não há dúvida.
O resto da noite decorreu de modo mais agradável. Aliviado de suas apreensões por haver o sr. Barton caído em sono profundo, o sr. Malderton ficou tão amável e gentil quanto possível.
A Srta. Teresa tocou A queda de Paris de maneira magistral, conforme declarou o sr. Sparkins, e ambos, assistidos pelo sr. Frederico, ensaiaram um sem número de canções e trios do começo ao fim, chegando à agradável evidência de que suas vozes se harmonizavam à perfeição. Por via das dúvidas, cantaram todos a primeira parte. Horácio, além da leve desvantagem de não ter ouvido, estava na mais perfeita ignorância de qualquer nota musical. Contudo, passaram o tempo deliciosamente. Era mais de meia-noite quando o sr. Sparkins pediu que lhe trouxessem o seu corcel com ar de cavalo de coche fúnebre, pedido esse que só foi satisfeito com a condição expressa de que ele repetiria a visita no domingo seguinte.
Quem sabe se o Sr. Sparkins não deseja fazer parte do nosso grupo amanhã de noite? – sugeriu a Sra. Malderton – O sr. Malderton quer levar as meninas a verem o pantomimo.
O sr. Sparkins inclinou-se e prometeu ir ter com elas no decorrer da noite, no camarote n. 48.
- Não o requisitamos para a parte da manhã – disse a Srta. Teresa num tom fascinante – porque mamãe nos leva a uma porção de lojas a fazer comprar. Sei que os cavalheiros têm horror a essa espécie de passatempo.
O sr. Sparkins inclinou-se outra vez e declarou que ficaria encantado, mas negócios de grande monta ocupavam-no durante a manhã. Flamwell olhou significativamente para o sr. Malderton.
- É dia de vencimento – sussurrou.
No dia seguinte a carruagem encontrava-se às 12 h à porta de Oak Lodge a fim de levar a Sra. Malderton e as filhas para a sua expedição. Deviam elas jantar e vestir-se para o espetáculo na casa de um amigo. Primeiro, carregadas de caixas de chapéus, tinham de fazer uma excursão à loja dos Srs. Jones, Spruggins and Smith, em Tottenham Court Road; depois, outra, à Casa Redmayne, em Bond Street; depois outras, a inumeráveis lugares de que nunca ninguém tinha ouvido falar. As meninas procuravam diminuir o tédio da viagem elogiando o sr. Horácio Sparkins, censurando a própria mãe por conduzi-las tão longe só para economizar um xelim, e perguntando se jamais chegariam a seu destino. Por fim o veículo parou em frente à loja de um fanqueiro, de aspecto sujo, com toda espécie de mercadoria e letreiros de todos os tamanhos na vitrina. Havia ali enormes setes com minúsculos “3 farthings ao lado, perfeitamente invisíveis a olho nu; cinqüenta mil e trezentos boás de senhoras, desde um xelim até um pêni e meio; sapatos franceses de legítima pele de cabrito, dois xelins e nove pence o par; sombrinhas verdes, a preço não menos módico; e “toda espécie de mercadorias cinqüenta por cento abaixo do custo”, como diziam os donos, que o deviam saber melhor do que ninguém.
- Por Deus, mamãe, a que lugar a senhora nos trouxe! – exclamou a Srta. Teresa. – Que diria o sr. Sparkins se nos visse?
- Com efeito, que diria! – concordou a Srta. Mariana, horrorizada com a idéia.
- Sentem-se, minhas senhoras. Qual é o primeiro artigo? – perguntou o obsequioso mestre de cerimônias do estabelecimento, o qual, com seu grande lenço branco no pescoço e sua gravata solene, parecia um mau “retrato de um cavalheiro” numa exposição de Somerset House.
- Gostaria de ver sedas – respondeu a Sra. Malderton.
- Pois não, minha senhora! Sr. Smith! Onde está o Sr. Smith?
- Estou aqui, senhor! – gritou uma voz do fundo da loja.
- Tenha a bondade de apressar-se, Sr. Smith, - disse o mestre-de-cerimônias. – O senhor nunca está onde a sua presença é necessária.
Convidado assim a desenvolver a maior rapidez possível, o Sr. Smith pulou o balcão com grande agilidade e plantou-se diante das freguesas. A Sra. Malderton deu um grito abafado. A Srta. Teresa, que se tinha curvado para falar à irmã, levou a cabeça e viu – Horácio Sparkins!
“Encobriremos com um véu”, como dizem os romancistas, a cena subsequente. O misterioso, filosófico, romântico e metafísico Sparkins – aquele que, aos olhos da interessante Teresa, parecia encarnar o ideal dos jovens duques e dos tafuis poéticos que vestiam chambre de seda azul e chinelos idem idem, os quais ela conhecia dos livros e com os quais sonhava, mas que nunca esperava ver -, transformara-se de repente no Sr. Samuel Smith, auxiliar de uma loja barata, o caixeiro mais moço de uma firma incerta, de 3 semanas de existência. O desaparecimento honroso do herói de Oak Lodge, em seguida a esse reconhecimento inesperado, não pôde senão ser comparado ao furtivo esgueirar-se de um cachorro com uma enorme chaleira presa ao rabo. Todas as esperanças dos Maldertons se derreteram de vez, como sorvetes de limão num banquete; Almacks era para eles mais distantes que o Pólo Norte.

voltando-se para a filha mais nova, que estava ocupada em fazer uma bolsa de tricô e olhar sentimentalmente. Houve e ao Banco. Algumas especulações bem sucedidas o levaram de uma situação de obscuridade e relativa pobreza a um estado de abastança. Como tantas vezes acontece em tais casos, suas e seu par se dirigiram para a quadrilha que se formava. romântico! fitou Horácio por trás de seus óculos verdes com ar misterioso e importante ao mesmo tempo, e o galante Horácio olhou para Teresa com uma expressão indizível.
Charles Dickens


26/01/2008

Arroz do Céu



Ao longo dos passeios de Nova York, por sobre as estações e galerias do subway, abrem-se grandes respiradouros gradeados por onde cai de tudo: o sol e a chuva, o luar e a neve, luvas, lunetas e botões, papelada. chewing gum, tacões de sapatos de mulheres que ficam entalados, e até dinheiro. Às vezes, lá no fundo, no lixo acumulado ou em poças de água estagnada, brilham moedas de níquel e mesmo de prata. Os garotos ajoelham de nariz colado às grades, tentando lobrigar tesouros na obscuridade donde sopra um hálito húmido e oleoso e o cheiro dos freios queimados. Fazem prodígios de habilidade e obstinação para pescar as moedas perdidas. Alguns têm êxito nisso, mas depois engalfinham-se em disputas tremendas sobre a posse e a partilha do tesouro: nunca se sabe quem foi que viu primeiro.

Outros, quando a colheita promete, chegam a arriscar nisso algum capital: juntam as posses, e entram dois, é quanto basta, no subway; uma vez lá dentro. trepam sub-repticiamente aos respiradouros, o que é uma difícil operação de acrobacia, para colher aquele dinheiro-de-ninguém, enquanto um ou mais camaradas vigilantes os vão guiando cá de fora. Também os há que entram sem pagar, por entre as pernas da freguesia e agachando-se por baixo dos torniquetes.

O limpa-vias trabalhava há muitos anos no subway, sempre de olhos no chão. Uma toupeira, um rato dos canos. Picava papéis na ponta de um pau com um prego, e metia-os no saco. Varria milhões de pontas de cigarros, na maioria quase intactos, de fumadores impacientes, raspava das plataformas o chewing gum odioso, limpava as latrinas, espalhava desinfectantes, ajudava a pôr graxa nas calhas, polvilhava as vias de um pó branco e misterioso, e todas as vezes que o camarada da lanterna soltava um apito estrídulo – lá vem o comboio! – ele encolhia-se contra a parede negra, onde escorriam águas de infiltração, na estreita passagem de serviço. Até já tinha ajudado a recolher pedaços de cadáveres, de gente que se atirava para debaixo dos trens, e a transportar os corpos exangues de velhos que de repente se lembravam de morrer de ataque cardíaco, nas horas de maior ajuntamento, uns e outros perturbando o horário e provocando a curiosidade casual e momentânea dos passageiros apressados. Sempre de olhos no chão, bisonho e calado, como quem nada espera do Alto, e não esperava. A vida dele vinha toda do chão imundo e viscoso. Nem sequer olhava a lívida claridade que resvala dos respiradouros para o negrume interior, onde tremeluzem lâmpadas eléctricas, entre as pilastras inumeráveis daquela floresta subterrânea metalizada: nunca lhos tinham mandado limpar. Eram provavelmente o domínio exclusivo de operários especializados, membros de outro sindicato, que ele não conhecia. Nem talvez soubesse que existiam os respiradouros. Era estrangeiro, imigrante, como tanta gente. não brincara nem vadiara na voragem empolgante das ruas da grande cidade, e vivia perfeitamente resignado à sua obscuridade. Devia aquele emprego a um camarada que era membro dum clube onde mandavam homens de peso, mas ele de política não entendia nada, nem fazia perguntas. Como tinha nascido na Lituânia, ou talvez na Estónia, só falava em monossílabos; e, debaixo da pátina oleosa e negra que o ar do subway nela imprimira com o tempo. a sua face era incolor e a raça indistinta. Antes disso tinha trabalhado em escavações, um «toupeira». Este emprego era muito melhor, embora também fosse subterrâneo. E não tinha que falar o inglês, que mal entendia.

Ora, à esquina de certa rua, no Uptown, há uma igreja, a de São João Baptista e do Santíssimo Sacramento, a todo o comprimento de cuja fachada barroca e cinzenta os respiradouros do subway formam uma longa plataforma de aço arrendado. Os casamentos são frequentes, ali, por ser chique a paróquia e imponente a igreja. O arroz chove às cabazadas em cima dos noivos, à saída da cerimónia, num grande estrago de alegria. Metade dele some-se logo pelas grelhas dos respiradouros, outra parte fica espalhada nas placas de cimento do passeio. Depois dos casamentos, o sacristão ou porteiro da igreja, de cigarro ao canto da boca, varre o arroz para dentro das grades, por comodidade. Provavelmente é irlandês, o arroz não lhe interessa, nem se ocupa de pombos: pombos é lá com os italianos, que, apesar de se dizerem católicos, são uma espécie de pagãos. O que se derramou no pavimento da rua, lá fica: é com os varredores municipais.

Volta e meia há casório, sobretudo no bom tempo, ou aos domingos. E um desperdício de arroz, não sei donde vem o costume: talvez seja um prenúncio votivo de abundância, ou um símbolo do «crescei e multiplicai-vos» (como arroz). A gente pára a olhar, e tem vontade de perguntar: «A como está hoje o arroz de primeira cá na freguesia?»

Aquela chuva de grãos atravessa as grades, resvala no plano inclinado do respiradouro, e, se mão adere à sujidade pegajosa ou ao chewing gum (o bairro é pouco dado a mastigar o chicle), ressalta para dentro do subterrâneo, numa estreita passagem de serviço vedada aos passageiros.

A primeira vez que viu aquele arroz derramado no chão, e sentiu os bagos a estalar-lhe debaixo das botifarras, o limpa-vias não fez caso; varreu-os com o resto do lixo para dentro do saco cilíndrico, com um aro na boca. Mas como ia agora por ali com mais frequência, notou que a coisa se repetia. O arroz limpo e polido brilhava como as pérolas de mil colares desfeitos no escuro da galeria. O homem matutou: donde é que viria tanto arroz? Intrigado, ergueu os olhos pela primeira vez para o Alto, e avistou a vaga luz de masmorra que escorria da parede. Mas o respiradouro, se bem me compreendem, obliquava como uma chaminé, e a grade, ela própria, ficava-lhe invisível do interior. Era dali, com certeza, que caía o arroz, como as moedas, a poeira, a água da chuva e o resto. O limpa-vias encolheu os ombros, sem entender. Desconhecia os ritos e as elegâncias. No casamento dele não tinha havido arroz de qualidade nenhuma, nem cru, nem doce, nem de galinha.

Até que um dia, depois de olhar em roda, não andasse alguém a espiá-lo, abaixou-se, ajuntou os bagos com a mão, num montículo, e encheu com eles um bolso do macaco. Chegado a casa, a mulher cruzou as mãos de assombro: alvo, carolino, de primeira! Dias depois, sempre sozinho, varreu o arroz para dentro de um cartucho que apanhara abandonado num cesto de lixo da estação, e levou-o para casa. Pobres, aquela fartura de arroz enchia-lhes a barriga, a ele, à patroa e aos seis ou sete filhos. Ela habituou-se, e às vezes dizia-lhe: «Vê lá se hoje há arroz, acabou-se-nos o que tínhamos em casa.» Confiada naquele remedeio de vida!

O limpa-vias nunca perguntou donde é que chovia tanto grão, sobretudo no bom tempo, pelo Verão, e aos domingos, que até parecia uma colheita regular. Embrulhava-o num jornal ou metia-o num cartucho, e assim o levava à família. Ignorando que lá em cima era a Igreja de São João Baptista e do Santíssimo Sacramento, e como tal de bom-tom, não sabia a que atribuir o fenómeno. Pelo lado da raiz, no subway, os palácios, os casebres e os templos não se distinguem.

E foi assim que aquela chuva benéfica, de arroz polido, carolino, de primeira, acabou por lhe dar a noção concreta de uma Providência. O arroz vinha do Céu, como a chuva, a neve, o sol e o raio. Deus, no Alto, pensava no limpa-vias, tão pobre e calado, e mandava-lhe aquele maná para encher a barriga aos filhos. Sem ele ter pedido nada. Guardou segredo – é mau contar os prodígios com que a graça divina nos favorece. Resignou-se a ser o objecto da vontade misericordiosa do Senhor. E começou a rezar-lhe fervorosamente, à noite, o que nunca fizera: ao lado da mulher. Arroz do Céu...

O Céu do limpa-vias é a rua que os outros pisam.



José Rodrigues Miguéis, in Gente da Terceira Classe




24/01/2008

Thonon-les-Bains


Espraiar o olhar até o ilhéu dos Pássaros isolado a pouco mais de umas centenas de metros da praia.


Ficou feliz. A carta trazia tudo explicadinho tintim por tintim. Pela-manhã sentira um baque no coração e encostada na ombreira da porta da rua esperara até acalmar aquele coração doido doido, a bater tão descompassadamente. Antoninho Coxinno encontrara-a ainda sem cor e animara-a. Eh, nh'Ana, bocê está com uma cara puxada. Bocê ponha-se contente, eu trago uma carta de França pá bocê. Bocê oiá, esse selo é francês, é selo de estrangeiro.
Nh'Ana ficou atarantada. Oh Nhor Deus, descobri agora porque o meu coração saltava como um cavalo espantado desde pela-manhã. "Dá-me essa carta Antoninho. Estás a virá-la de um lado para o outro, bó dezide nunca viste um selo estrangeiro. Tanta carta de Merca, tanta carta de estrangeiro, pá quê esta cara só pá m ode uma carta?"
"Não nh'Ana, cartas de Merca nunca tem selo assim tão bonito. Mercano não é capaz de desenhar selo tão bonito assim."
N h'Ana fechou a porta e foi direita para o seu quarto. Trouxe uma cadeira para junto da mesa de cabeceira, sentou-se, mirou a carta e procurou depois na gaveta uma raspadeira. Enquanto a abria com muito cuidado ia mirando o selo. Antoninho Coxinho tinha dito uma verdade. Mercanos não tinham gosto para nada. Quando mandavam encomendas eram umas roupas estapafúrdias uns trastes sem gosto. Mas tinham uma coisa boa: perfumes. Perfume de Merca não tinha comparação.
Acabou de abrir o envelope e tirou a carta com jeito. Abriu-a e começou a lê-la.
Bendito seja Deus. Apertou a carta contra o peito e os olhos procuraram a cantoneira do outro lado da cama. Uma imagem dentro de um nicho feito de uma caixa de sapatos com um friso de floritas de cera em volta, mostrava uma face descaída com dois vincos sobre os cantos dos lábios. De cada lado do nicho havia uma Santa Teresinha e uma Nossa Senhora do Rosário.
"Meu Sagrado Coração de Jesus, tu ouviste as minhas rezas e tu também Santa Teresinha e tu também Nossa Senhora do Rosário."
Benzeu-se e levantou-se, deu a volta à cama e foi beijar os folhos da cantoneira dos santos. "Maior é o poder de Deus."
Sentou-se para acabar de ler a carta. Tornou a lê-la. Ainda a releu mais uma vez.
Desse dia em diante foi um corropio naquela casa. Nh'Ana entrava e saia para fazer compras. Pano casca de ovo para roupas de baixo, uma corrida para tirar medidas para uns sapatos de polimento preto, comprar pó de arroz e água de cheiro para pôr no fundo da mala da filha. Tanto tempo à espera da noticia. Uma. eternidade à espera da carta de chamada. Gabriel não faltava à palavra. Gabriel enteado de nh'Ana prometera levar a sua meia-irmã para França e não se esquecera.
"Gabriel é como se fosse meu filho. Ele não se esquece de todas as minhas dificuldades para criar estes quatro filhos que o pai me deixou." Juntou as mãos e pôs os olhos em alvo. "Deus tenha a alma de Chico em paz." Deu um pequeno suspiro. "Este filho arranjado fora de casa tem sido o meu anjo da guarda. Manda-me dinheiro, manda-me umas encomendinhas, ó como se fosse meu filho na devera."
"Mas, comadre Ana, bocé não tem medo de mandar a sua filha assim sozinha para tão longe?"
"Como comadre, medo de quê? Medo de nada. Gabriel explicou tudo muito bem explicado. Piedade vai agora, depois, daqui a uns dois anos vai o Juquinha, depois Maria Antonieta e depois vou eu mais o Chiquinho."
"Ah, comadre Ana, Deus há-de acompanhar vocês todos."
Assim se despediram as duas comadres e da mesma maneira se encontraram dias depois, Piedade já iria além do ilhéu dos Pássaros que se a atravessar o canal. Nh'Ana, chorosa, nunca pensara vir a ter uma saudade assim da filha. "Sabe, comadre, a vida aqui já não podia continuar como era. Sete anos sem chuva é muito. Eu não tenho nem uma migalha de reforma de Deus-Haja. Nós vivemos da renda dos bocadinhos de terra e de mais alguma coisinha, encomendas dos nossos rendeiros, um cacho de banana de vez em quando, uns ovinhos, um balaio de mangas uma vez por outra, uma quarta de mongolom, umas duas quartas de milho e é tudo."
"Eu também não tenho nada, comadre Ana. Se não fossem as flores para as coroas dos mortos ou umas rendinhas para lençol, como eu me havia de governar, comadre?"
NIYAna concordava com a cabeça. "Sabe, comadre, se nha fidja me mandar algum dinheirinho, posso começar um negócio de comidas, as¬sim uma caldeira de catchupa com mandioca e toucinho para vender à boca-da-noite, um groguínho ou um pontche para emborcar em cima, e pronto."
"Ah, comadre Ana, eu tenho uma receita de pontche assim desta maneira. Num boião grande de boca larga de uns três litros pouco mais ou menos, está a ver comadre, faço um pontche sabe, sabe. Litro e meio de grogue, ou mesmo uns dois litros, três quartos de mel, rodas de dois limões e o resto é água para acabar de encher."
Nh'Ana não concordou. "Ah comadre, tanta água não. Uma pinguinha é a conta de desfazer o mel. Não comadre, água assim não. Nem é pontche nem é nada."
"Adê, que maneira então? Se comadre Ana quer ganhar alguma coisinha no pontche tem de lhe pôr água. Sabe a como é o litro de mel? E o limão, sabe o seu preço? Até porque limão agora é farelo dele."
Em sonhos enrodilhada, na esperança de abrir o seu botequim, nh'Ana ia desfiando os dias e recebendo notícias da filha. Ultimamente as cartas começaram a rarear. Gabriel veio a ex¬plicar então num post-scriptum de duas linhas. Piedade andava de namoro com um francês. Era um bocado mais velho mas estava certo, mãe Ana. Ela vai ficar bem arrumada.
Nh'Ana tanto ficou aliviada com as noticias como ficou desapontada. Esperava ainda por uns anos ter a companhia da Piedade para lhe dar uns conselhos encaminhá-la no casamento, fazerem as duas o enxoval, tudo num sossego do dia-a-dia. Assim não tinha graça, mas enfim.
A comadre não se sabe pá mó de quê, apareceu-lhe lá em casa, sabedora das novas de França. Nh’Ana um pouco contrariada desta tchefreza, fingiu satisfação ter de compartilhar com a sua comadre de tão boa noticia e a mo¬dos de uma grande amizade a foi levando para dentro de casa para estarem mais à vontade.
"Vamos tomar um cafezinho, comadre. Estou com um pouco de azia. Almoço não me assentou bem no estômago hoje."
"Ah, comadre Ana, uma chicrinha de café não sei negar, mas não tomo nada. Vim só dar--te parabéns. Veio carta de França, n'é devera?"
"Como, disseram-te alguma coisa? Eu ainda não falei com ninguém."
"Credo, comadre Ana, eu não sei nada. Só ouvi umas falas soltas sobre a Piedade e eu pensei logo. Vou a casa da minha comadre Ana. Vou lá não não é por nada. Vou lá só para a avisar sobre Teodoro."
Aqui nh’Ana teve um sobressalto. Ela bem sabia de abusos no correio. Abriam as cartas, liam-nas, tiravam os dólares dos patrícios, fechavam-nas outra vez e não aparecia ninguém para apresentar queixa destas e outras pouca-vergonhas. Mas ela ia queixar-se. Desconfiava de um tal Gilberto, filho de uns gente-branco qualquer não passara do quarto ano do liceu, meteram-no nos correios por favor e era ele de certeza quem andava a abrir carta de cada um. Era ele, tanto mais andava sempre no botequim do Herculano a beber cerveja todas as bocas da noite. Quando se viu empregado dos correios a beber cerveja assim desta maneira, todos os dias todos os dias? A mãe dele, viúva havia quase um ano, sem qualquer pensão de sobrevivência, deitara mão de receber alunos do liceu vindos de outras ilhas, com cama mesa e roupa lavada. Mas ela era atrevida, só queria receber filhos de gente-branco como ela. Quando os tios do Armando, aquele menino de voz doirada, cantava como um canário, quando lhe escreveram para receber o Armando, ela fez umas quantas desproposentezas, a revirar os olhos para um lado, a revirá-los para o outro lado, a esfregar a barbela, para no fim dizer que não tinha nem mais um quarto vago, só se o pusesse a dormir no corredor. Era tudo fita de cinema porque para o Arlindo do Dr. Felisberto foi logo, só faltou dar-lhe cama de trono. Esses gente-branco de Soncente; ela não recebera o Armando porque ele era filho de um carpinteiro, não era? Nh'Ana ainda a matutar, engoneada com essa coisa de tudo gente saber da vida de cada um, encheu as chávenas e sentou-se em frente da sua comadre. "Para quê esta conversa de Teodoro, an comadre?"
""Ah, comadre Ana, não é por nada mas Teodoro gostava muito de sua filha e parece tiveram namoro, não foi?"
"Desculpe-me, comadre, mas Piedade nunca namorou Teodoro."
"Com licença, comadre Ana, mas namorou sim senhora. Namorou tanto, até sê mãe foi deitar cartas para saber da vida e destino dele e da Piedade."
"Home, como?"
"É devera, ela deitou-lhe sorte e deu um rei de copas no meio de Piedade e de Teodoro. Depois, deu três de paus e quatro de paus e ainda dois de espadas. Quer dizer, dentro de três meses, por caminho de mar, numa noite que é o duque de espadas, ela havia de sair para longe desta terra. E foi assim, não foi?"
Nh'Ana estava de boca aberta quase a tremer e a comadre sentia-se feliz. Feliz por sujeitar Nh'Ana a uma evidência tão clara como a das sortes com cartas. Apenas não lhe contou sobre as cartas pretas à volta da Piedade de uma forma tão esquisita nem a ptadeira de cartas soubera explicar como e por que carga de água Piedade aparecia no meio de tantas cartas de espadas, sete de espadas, seis de espadas, três de espadas e, no fim, um quatro de espadas sobre a moça simbolizada em dama de ouros.
Nh'Ana acalmou-se e acabou por não se importar muito. A sua filha ia casar com um francês, assim iam ter os seus filhos de cabelo fino e olho azul ou verde. Teodoro, quem era Teodoro para pensar em casar com a sua fidja-fêmea? Soberba de fora, (batia palmadinhas de cada lado da cara) soberba de fora mas nha fidja-fêmea vai casar e bem.
Gabriel ia dando notícias sobre aquele frio de França em Thonon-les-Bains perto da fronteira com a Suíça.
França tem muito frio, mamãe, mas gente põe galochas forradas, luvas e capote. Mana fez-me um gorro e um cachecol vermelho. Anteontem foi domingo e, por acaso, encontrei Mochinho um moço badio de Ribeira da Barca. Ele apalpou o meu cachecol e experimentou o meu gorro e riu muito, mamãe. Disse eu estava rãscon, já podia conquistar menina-branca de Tho-non.
O seu trabalho no torno numa fábrica de esquis agradava-lhe sobremaneira. Descrevia em pormenor como apertava os parafusos, dava a volta aqueles paus informes, aparava-os, alindava-os à força de máquinas, desapertava os parafusos de novo e lá iam eles para outras mãos fortes para os polirem, depois para outras para lhes colocarem os ferros e assim por diante. A irmã estava no serviço de colar as etiquetas e dar uma limpeza final a cada esqui.
Não fiques apoquentada com esta conversa sobre o frio de Thonon, mamãe, porque mana também faz limpeza no hotel de manhãzinha muito cedo e o patrão deixa-nos dormir no caveau da escada no corredor onde tem um calorzinho sabe dia e noite.
Piedade procurava sossegar a mãe, estivesse descansada porque aqui na França não é preci¬so coser enxoval. A gente vai nos magasins e compra tudo roupa de casa, roupa-de-baixo, tudo-enquanto. Ela e Gabriel iam arranjar para morar junto duns amigos, patrícios de Santanton, tinham uma casa grande, ela ia ficar a morar aí quando casasse. Jean era um bocado ciumento, tinha quarenta e dois anos, era separado de uma outra mulher, mas era muito seu amigo. Trazia-lhe chocolates quando vinha namorar com ela, tudo à vista de Gabriel e dos seus amigos. Nunca ficava só com ele porque Gabriel não deixava, sempre a espiar, até os dois amigos eram capazes de lhe ir contar qualquer coisa mal feita ela viesse a fazer.
Nh'Ana descansou. A filha não esquecera ainda os bons ensinamentos de sua mãe. Esta, no entanto, evitava falar nas cartas à sua comadre. Era boa criatura, mas debaixo de suas boas intenções ainda era capaz de deitar algum quebranto na vida de sua filha. Quebranto podia apanhar qualquer pessoa em qualquer idade. Por isso gente põe os fios de conta, pretas e brancas, de volta das barrigas de menino-novo, por baixo do umbigo. Gente-grande não precisa de um fio de conta de quebranto, mas quando desconfia de quebranto vindo por via de um elogio quase sempre (inveja), de um olhar intenso (mau olhado), é fazer figas com a mão esquerda escondida por entre as saias, debaixo de uma prega ou mesmo com a mão atrás das costas. Figa canhota, bardolega, mar de Espanha. E assim a força malfazeja de olhar ou das palavras é afastada.
Ia guardando as cartas debaixo do pano bordado da cómoda ou então debaixo da caixa de jóias. Algumas vezes relia-as para saborear as coisas sabe-de-mundo de França, terra onde to¬dos os menininhos falavam francês desde pequeninos. Assim iam passando os dias, nh'Ana a pensar no seu botequim no seu negócio para depois do casamento da Piedade.
Todavia, ou por muitos afazeres ou por um pouco de preguiça, as cartas da filha iam rareando. Uma vez por outra quando dava notícias eram logo umas quantas folhas de papel de carta daquelas azuis ou cor-de-rosa com flores estampadas, coisas só mesmo de França. Não parecia muito entusiasmada com a perspectiva do casamento, mas continuava a dizer bem do noivo, era seu amigo dava-lhe muitos presentes, já a tinha levado duas vezes à Suíça, era muito perto de Thonon, só atravessar a fronteira e pronto. Gabriel abria-se mais com a madrasta. Mãe Ana, comprei anteontem uma televisão a cores. Sabe como é? As pessoas se estão vestidas de encarnado ou de azul, a gente vê tudo tal e qual de encarnado de azul ou verde. A minha televisão está em frente da minha cama e quando a quero apagar tenho uma maquininha onde carrego num botão e já está. É como uma pistola, mãe Ana. Aponto para a televisão e carrego no botão e ela apaga-se. Não é uma coisa bonita, mãe Ana?
Não era por acaso a falta de notícias da filha. Andara muito influída com a ideia do casamento mas ultimamente esmorecera. Jean era bom, era seu amigo, mas começou a pensar na sua idade e na dele, começou a pensar na seriedade do Jean, na sua maneira de tratar tudo tão a sério. Deitava contas à vida, calculava todos os francos para isto e para aquilo e ela começou a perder a paciência para aquelas conversas. Um bocado alevantada, esboada mesmo, queria brincar, rir, fumar o seu cigarrinho e ei-la agoniada com as conversas de gente-velha do Jean. E depois, aquele moço da Ribeira da Barca, badio de pé ratchado, vinha todas as tardes com o transistor e aí começavam a dançar os dois, a fazer partes, a cair para a frente e para trás, a dar voltas e a mornar. Jean ficava na ponta da cama, sorria. Não gostava de dançar, preferia ver as dengosices da Piedade e o Maninho a segurá-la em meias voltas inesperadas, parecia um vime tocado pela brisa.
Naquelas partes e requebros, Maninho ia-a apertando e dizia-lhe umas palavrinhas sussurradas, depois largava-a, ela caía para trás e fazia mais partes com floreios de tango e de rumba negra. Jean sorria, sorria sempre, baixava e levantava a cabeça a marcar o compasso.
No dia dos anos do Gabriel resolveram fazer uma festa em casa dos dois amigos, aqueles tchês de Santanton espavoneados com o gira-discos novo. Convidaram os amigos do Gabriel, veio uma cunhada de Mochinho casada de pouco tempo com um da Suíça, um moço de vinte e quatro anos trabalhador numa herdade e ainda duas sampadjudas empregadas também num bar na Suíça.
Piedade preparou cocktails com gin, vermute e gotas de bitter e ainda um outro com vodka, ginginha e refrigerante.
Não se sabe onde descobriram bananas verdes, mas houve caldo de peixe com batata-doce e banana verde reforçado com malagueta. Jean sentia-se desconfortado, nada habituado ao sabor forte a alho e cebola. Comeu o peixe como pôde, sorveu o caldo picante e deixou-se ficar com o prato na mão a ver o vaivém da namorada e das amigas a servirem este, a levarem o prato daquele.
Mochinho estava alegre como nunca e aproximou-se de Jean. "C'est bon, Jean?" Revirou-se para o meio da sala. "Ei, nhãs guente, nhôs arranjem outro prato de canja para este brother".
Com a boca a escaldar da malagueta, Jean levava amiúde o lenço ao nariz.
Mochinho empurrou a cama para a parede. Trouxe o pick-up e colocou-o sobre a mesa de cabeceira. "Vamos fazer uma picapada?"
Entremearam música americana com sambinhãs e coladeiras. Foi um rodopio sem parar. Quando deu para descansar o moço badio sentou-se na cama pôs um travesseiro entre as pernas e começou com as mãos em batidelas secas e ocas a fazer a toada da tchabeta.
Piedade, numa euforia nunca vista, agarrou uma toalha de rosto, atou-a abaixo da cintura e rebolou as ancas.
"Oi, povo, vamos dar com o torno", gemia ela. "Oh, nha guente, nó dá com cadeira!"
A folia entrou pela noite adiante. Mochinho não largava a Piedade. De uma garra-finha de grogue ia sorvendo goladas para se aquecer.
Não a largava e perdeu a compostura. "Oiá, Dadinha, larga este bedjera do Jean. Vais ser minha tchutchinha, menina. Não queres ser minha tchutchinha?"
Ela deixou-o no meio do quarto e foi sentar-se ao pé do noivo. "Estás chateado, Jean? Não gostas da festa?"
Ele levantou-se. "Je m'en vais." "Porquê, Jean? Olha, eu vou contigo." No fundo do corredor havia uma casa de banho. Sentiu o coração pesado e encostou-se a Jean. Ia casmurro, sem dar pio.
"Estás aborrecido, Jean? Estás zangado comigo?"
A saída ficava ao lado da casa de banho. Encostou-se mais a Jean e abraçou-o. "O que é que tu tens, Jean?"
Jean abraçou-a também, envolveu-a e foi levando-a assim de mansinho. Quando chegaram junto à porta, abraçando-a sempre pela cintura, puxou-a para dentro da casa de banho e com o pé fechou a porta e trancou-a. Piedade estava atónita. Ele nunca fora muito efusivo. Beijava-a muito na boca mas nunca fora além disso. Se calhar ela ia deixar de ser menina-nova ali mesmo no chão daquela casa de banho. De qualquer maneira iam-se casar. Ser agora ou no dia do casamento não tinha importância. Deixou-se escorregar sob o peso do homem e viu-se estendida na laje fria. A música vinha até eles e retornava ao pequeno quarto onde era a festa. Na escuridão nada se vislumbrava. Algo enregelou-a e ela pediu "Jean, Jean!"
Ele tinha qualquer coisa brilhante na mão, mas ela já não podia gritar pois ele tapara-lhe a boca com a outra mão. Na escuridão aquele brilho e os seus olhos esbugalhados a quererem ver. Sentiu uma frieza no pescoço e a seguir lume, lume.
Da casa de banho um grunhido fino ganhou intensidade e correu a casa toda. Os olhos de Piedade esbugalharam-se mais, o pescoço retesou-se, deixou cair os braços. O sangue correu por debaixo da porta para o corredor.
Jean levantou-se, fechou a navalha e abriu a janelita.
Do lado de fora começaram a bater com força na porta. Gabriel só dizia "abre a porta, mana, abre!"
O suíço deu vários encontrões na porta e conseguiu forçá-la. Nem assim puderam entrar porque o corpo de Piedade ocupava toda a casa de banho. Deram a volta à casa e viram a janelita escancarada. Quando conseguiram entrar e acender a luz, o espectáculo horrorizou-os. Piedade tinha sido degolada, degolada como se de um porco se tratasse.
Gabriel viu-se só no meio do seu desespero. Teve de enfrentar as idas à polícia, o enterro da irmã, a procura de um quarto onde se abrigar. Em Thonon ninguém queria alugar quarto nem a ele nem ao Maninho e aos outros dois de Santanton corridos da casa onde moravam, nem a qualquer outro patrício.
Um mês depois ele e os companheiros foram avisados para sairem de Thonon dentro de três dias. Se fossem apanhados noutra encrenca se¬riam expulsos do país. Gabriel aproveitou para fazer férias e ir até Cabo Verde consolar mãe Ana.
Nh'Ana, Chiquinho, Antonieta, tias, primas, toda a família foi ao cais receber o Gabriel. Traziam luto carregado. Na carta ele nem tivera coragem de contar como tinha sido aquela desgraça toda. O sangue ainda quente, com espuma, a correr em fio pelo corredor deixara-o enjoado dias e dias. Os olhos muito abertos da irmã, o pescoço corta-do com malvadez de lado a lado, toda descomposta, a imagem dessa noite perseguia-o, perseguia-o de tal forma que nem sabia como conseguiu aguentar tudo até ao fim.
Quando atravessaram a entrada de casa, Nh'Ana desabafou. Começou a chorar, a pran¬tear. As cadeiras estavam dispostas ao longo da parede em toda a roda da sala. Numa mesa en¬costada à parede havia um cruxifixo e uma lamparina acesa. Tinha passa-do o período do nojo, mas N h'Ana quisera esperar o Gabriel para depois desmanchar o altar. As tias e as primas prantearam também. Calaram-se e apenas um soluço ou outro subia no ar. Gabriel começou então a contar tudo.
"Mas porquê, Gabriel, porquê não'disseste na polícia que aquele home é que tinha esfaqueado a falecida? Mas porquê?", perguntava N h'Ana entre soluços.
Gabriel teve dificuldade em explicar-lhe. "Isso não adiantava nada. Eles sabiam mãe Ana, sabiam, isto é, desconfiavam, mas eu sou emi¬rante. Emigrante é lixo, mãe Ana, emigrante não é mais nada."
Não sabia mais que dizer sobre aqueles dias de pesadelo, nem ia contar como ele e os companheiros tinham sido enxovalhados na polícia.
Começou a falar do enterro. "Foi tudo muito bonito, mãe Ana. Gente foi alugar uma câmara ardente. Eu e Mochinho vimos umas quatro e escolhemos uma toda forrada de pano branco e dourado. Não tivemos trabalho nenhum, foi só falar na agência. Põem flores, põem música e tudo. Falecida esteve dois dias na câmara ardente. Gente pagou tudo, tudo, aquecimento, chá e bolos para os convidados, tudo, tudo. Foi tudo muito bonito. Tínhamos cadeiras estofadas para toda a gente e brandy para quem quisesse."
Mãe Ana ficou mais confortada. Ao menos sua filha tivera um funeral condigno. Mas não se conformava do Gabriel não ter denunciado aquele nome só por medo de ser expulso de França. Mesmo assim ele já não poderia trabalhar em Thonon. Quando vol-tasse era para começar a vida desde o principio outra vez. Procura de emprego, licença, carta de serviço, informações.
"Não te apoquentes, mãe Ana. Tenho um amigo que já me arranjou uma pessoa para me esperar na Suíça. Vou para Suíça, vou trabalhar num bar."
"E quem é essa pessoa?" Nh'Ana não se conteve e explodiu. "Toma cuidado com os ami¬gos, Gabriel! Os amigos é que fizeram a desgra¬ça da minha filha que Deus-Haja. Toma sentido!"
Chorava outra vez. Gabriel baixou a cabeça e esperou um pouco.
"Eu não sei quem ele é, mãe Ana. Eu não o conheço. Vamos combinar o dia da minha chegada. Ele vai esperar-me e fica no jardim em frente da estação do comboio. Leva um jornal debaixo do braço, mas ainda temos de combinar as palavras da senha."
Nh'Ana não deu mais conversa sobre o as¬sunto. As tias e as primas ocupavam as cadeiras e olhavam ora para o tecto da madeira pintada com tinta de óleo, ora para a mãe Ana.
Gabriel ficou a cismar na sua vida. Não dis¬sera tudo à mãe Ana. Ia para a Suíça para poder ficar perto de Thonon. Tinha um plano mas não o devia confiar a ninguém. Tinha de vingar a morte da irmã. Mesmo se tivesse de ir até ao in¬ferno atrás do Jean.
As duas primitas mais novas cochichavam. "Nosso primo Gabriel é um bonito rapaz, n'é devera, Luísa?"
"Eu gostava de namorar com ele e ir para a França, não gostavas?"
"Cala a boca, menina. Disparatenta..."
Na rua tocavam tambor. Era dia de Santa Cruz. Gabriel levantou-se e foi até à janela. Uma mole de gente seguia atrás de um homem enfiado num pequeno quadrado feito num navio de madeira. Segurava o barco pela cintura saltitava com pequenos passos, balançando o navio, todo enfeitado com bandeirinhas, para um lado, para o outro. Os paus repenicavam com alegria e o barco balançava-se todo.
Gabriel tinha os olhos rasos de água. Porquê agora, porquê isto? Limpou os olhos com as costas da mão e foi sentar-se outra vez ao pé da madrasta. Logo à tarde iria até ao Step. Dali avistaria o ilhéu, ia-se sentir mais calmo. Espraiar o olhar até ao ilhéu dos Pássaros, isolado a pouco mais de umas centenas de metros da praia, ia dar-lhe a tran-quilidade de espírito tão precisada agora.


Orlanda Amarílis, Ilhéu dos Pássaros



21/01/2008

Fronteira


Quando a noite desce e sepulta dentro do manto o perfil austero do castelo de Fuentes, Fronteira desperta.

Range primeiro a porta do Valentim, e sai por ela, magro, fechado numa roupa negra de bombazina, um vulto que se perde cinco ou seis passos depois.

A seguir, aponta à escuridão o nariz afilado do Sabino. Parece um rato a surgir do buraco. Fareja, fareja, hesita, bate as pestanas meia dúzia de vezes a acostumar-se às trevas, e corre docemente a fechadura do cortelho.

O Rala, de braço bambo da navalhada que o D. José, em Lovios, lhe mandou à traição, dá sempre uma resposta torta à mãe, quando já no quinteiro ela lhe recomenda não sei quê lá de dentro.

O Salta, que parece anão, esgueira-se pelos fundos da casa, chega ao cruzeiro, benze-se, e ninguém lhe põe mais a vista em cima.

A Isabel, sempre com aquele ar de quem vai lavar os cueiros de um filho, sai quando o relógio de Fuentes, longe e soturnamente, bate as onze. Aparece no patamar como se nada fosse, toma altura às estrelas, se as há, e some-se na negrura como os outros.

O Júlio Moinante, esse levanta o gravelho, abre, senta-se num degrau da casa, acomoda o coto da perna da melhor maneira que pode, e fica horas a fio a seguir na escuridão o destino de um que lhe dói. Era o rei de Fronteira. Morto o Faustino nas Pedras Ninhas, herdou-lhe o guião. Mas um dia o Penca agarrou-o com a boca na botija, e foi só uma perna varada e as tripas do macho à mostra. Quando, naquele estado, entraram ambos em Fronteira, ele e o animal, parecia que o mundo se ia acabar ali. Mas tinha o filho, o João. E agora, enquanto o rapaz, como os mais, se perde nos caminhos da noite, vai-lhe seguindo os passos da soleira da porta.

Saem outros, ainda. Devagar, pelas horas a cabo, os que parece terem-se esquecido, vão deslizando da toca. Só mesmo quando não existe mais corpo adulto e válido no povo é que Fronteira sossega.

Coisa estranha: esta rarefacção que se faz na aldeia, longe de a esvaziar, enche-a. A terra veste-se de um sentido novo, assim deserta, à espera. Pequenina, de casas iguais e rudimentares, escondida do mundo nas dobras angustiadas e ossudas de uma capucha de granito, as horas que medeiam entre o seu coração e Fuentes são tão fundas e carregadas que quase magoam. Quem regressará primeiro?

Noventa vezes em cada cem, é a Isabel. Aquilo são pés de veludo! Mas às vezes é o Sabino. Sempre de nariz no ar' a bater as pestanas contra a luz da candeia, entra em casa alagado em água e com um bafo tal a aguardente que tomba.

- Arruma! A mulher nem suspira. Pega no saco, mete-o debaixo da cama, e põe-se a lançar o caldo. Por fim, começa:

- O Valentim?

- Chumbo. já passou. - O Rala?

- Uma caixa de conhaque. Vem por Fomos. - O Salta?

- Foi a Tomeros. Volta amanhã. - A Isabel?

- Seda. Ao sair do Padilha parecia um bombo. E enquanto a maçã de Adão sobe e desce no pescoço comprido do Sabino, e a malga de caldo se esvazia, das respostas que dá e do mágico ventre da noite, diante do olhar angustiado da Joana e de Fronteira, vão surgindo os que faltam ainda: o João, o Félix e o Maximino.

Quando algum não regressa, e por lá fica varado pela bala de uma lei que Fronteira não pode compreender, o coração da aldeia estremece, mas não hesita. Desde que o mundo é mundo que toda a gente ali governa a vida na lavoura que a terra permite. E, com luto na alma ou no casaco, mal a noite escurece, continua a faina. A vida está acima das desgraças e dos códigos. De mais, diante da fatalidade a que a povoação está condenada, a própria guarda acaba por descrer da sua missão hirta e fria na escuridão das horas. E se por acaso se juntam na venda do Inácio uns e outros-guardas e contrabandistas -, fala-se honradamente da melhor maneira de ganhar o pão: se por conta do Estado a vigiar o ribeiro, se por conta da Vida a passar o ribeiro.

De longe em longe, porém, quando há transferências ou rendições, e aparecem caras e consciências novas, são precisos alguns dias para se chegar a essa perfeição de entendimento entre as duas forças. O que vem teima, o que está teima, e parece aço a bater em pederneira. Mas tudo acaba em paz.

Desses saltos no quotidiano de Fronteira, o pior foi o que se deu com a vinda do Robalo.

Já lá vão anos. O rapaz era do Minho., acostumado ao positivismo da sua terra: um lameiro, uma junta de bois, uma videira de enforcado., o Abade muito vermelho à varanda da residência, e o Senhor pela Páscoa. Além disso, novo no ofício - na guarda, para onde entrara em nome dessa mesma terrosa realidade: um ordenado certo e a reforma por inteiro. Daí que lhe parecesse o chão de Fronteira movediço sob os pés. Mal chegou e se foi apresentar ao posto, deu uma volta pelo povoado. E aquelas casas na extrema pureza de uma toca humana, e aqueles seres deitados ao sol como esquecidos da vida, transtornaram-lhe o entendimento.

- Esta gente que faz? - perguntou a um companheiro já maduro no oficio.

- Contrabando.

- Contrabando!? Todos! ? E as terras, a agricultura ?

- Terras! ? Estas penedias.

O Robalo, queria falar de qualquer veiga possível, de qualquer chá que não vira ainda, mas tinha forçosamente de existir, pois que na sua ideia um povo não podia viver senão de hortas e lameiros. Insistiu por isso na estranheza. Mas o outro lavou dali as mãos:

- Não. Aqui, a terra, ao todo, ao todo, produz a bica de água da fonte. O resto vão-no buscar a Fuentes.

Mas nem assim o Robalo entendeu Fronteira e o seu destino. No dia seguinte, pelo ribeiro fora, parecia um cão a guardar. Que o dever acima de tudo, que mais isto, que mais aquilo - sítio que rondasse era sítio excomungado. Até as ervas falavam quando qualquer as pisava de saco às costas. Mal a sua ladradela de mastim zeloso se ouvia., ou se parava logo ou nem Deus do céu valia a um cristão. Em quinze dias foram dois tiros no peito do Fagundes, um par de coronhadas no Albino, e ao Gaspar teve-o mesmo por um triz. Se não dá um torcegão no pé quando apontava, varava a cabeça do infeliz de lado a lado. A bala passou-lhe a menos de meio palmo das fontes.

Mas Fronteira tinha de vencer. Primeiro, porque o coração dos homens, por mais duro que seja, tem sempre um ponto fraco por onde lhe entra a ternura; segundo, porque o Diabo põe e Deus dispõe.

Foi assim: Apesar de inconvivente e mazombo, num domingo em que havia festa em Fronteira, o Robalo, que estava de folga, não resistiu: chegou-se aos bons. E quem havia de lhe entrar pelos olhos dentro ao natural, cobertinha da luz doirada do sol? A Isabel! A rapariga tirava a respiração a um mortal. Vinte e dois anos que nem vinte e dois dias de S. João. Cada braço, cada perna, cada seio, que era de a gente se lamber. Ora como ele andava também na mesma conta de primaveras, e não era de pedra, o lume. pegou-se à estopa. De tal sorte, que, quando o dia acabou, o Robalo, não parecia o mesmo. Evaporara-se-lhe o ar de salvador do mundo, e até já via Fronteira doutro jeito. Se não fosse aquele maldito instinto de castro-laboreiro... Tempos depois, apesar de os amores com a Isabel irem de vento em popa, cama e tudo, ainda o ladrão se lhe sai com esta:

- Gosto muito de ti, tudo o mais, mas se te encontro a passar carga e não paras, atiro como a outro qualquer.

A Isabel riu-se.

- Palavra?!

- Palavra. - A mim?!!!

- A minha mãe, que fosse... Desprenderam-se dos braços um do outro melancolicamente. E quando no dia seguinte o Robalo voltou ao ninho tinha a porta fechada.

Como a vida em Fronteira é de noite que se vive, e o Robalo, era todo senhor do seu nariz, puderam decorrer meses sem o rapaz pôr os olhos sequer na rapariga. Ela passava o ribeiro como podia, e ele guardava o ribeiro como podia.

Fronteira olhava. E até ao Natal a vida foi deslizando assim. Na noite de Consoada, porém., aconteceu o que já se esperava. Parte da guarnição tinha ido de licença. Todos se chegavam ao calor da lareira familiar, saudosos de paz e harmonia. Mas o Robalo ficara firme no seu posto.

Nevava. Um frio tal que o próprio bafo gelava mal saía da boca. Visto de dentro da capa de oleado, o mundo parecia uma coisa irreal, alva, inefável como um sonho. O céu estava ainda mais silencioso e mais alto que de costume. E qualquer parte do Robalo, sem ele querer, diluía-se na magia que enluarava tudo. No Minho, numa noite assim... Pena a Isabel ter-lhe saído contrabandista... Tê-la encontrado numa terra daquelas... Senão, mais tarde, quando tivesse a reforma... Até mesmo agora... Comovido, deixou-se perder por momentos na vaga mansidão da brancura.

Mas, como por detrás do homem o guarda continuava alerta, mal acabava de pisar aquele caminho sem pedras, já o seu ouvido de cão da noite lhe trazia à consciência um rumor de passos só pressentidos.

Acordou inteiro. Tchap, tchap, tchap... Pela neve fora, da outra banda, aproximava-se alguém.

Quem diabo seria? O Carrapito? O Carrapito, não. Olha o Carrapito meter-se a um nevão daqueles! O Samuel? O Samuel também não. Era mais atarracado. Só se fosse o Gregório... Sim, porque o Cristóvão, que tinha o mesmo corpo, estava em Vila Seca, no namoro. Vira-o passar...

A pessoa que vinha, caminhava sempre, direita como um fuso ao cano da carabina.

Tchap... Tchap... Todo gelado por fora, mas quente da emoção que lhe dava sempre qualquer alma em direcção ao ribeiro, o Robalo esperou. E, quando os passos se molharam no rego de água e chegaram à margem, a mola tensa estalou:

- Alto! Mas o gume da palavra de comando não conseguiu cortar sequer os flocos de neve. A sensação que teve ao gritar foi a de um baque amortecido. Uma espécie de tiro à queima roupa.

Repetiu:

- Alto. Uma voz cansada entrou-lhe no coração.

- Sou eu... -TUM

- Sou. Mas nem trago contrabando, nem me posso demorar.

TUM Eu mesmo. E já disse que não trago contrabando, nem me posso demorar.

Se ele não fosse o Robalo, cego e frio dentro da função, o que lhe apetecia era tomar nos braços aquele corpo amado e rebelde, enfarinhado de neve e não sabia de que outra secreta alvura. Mas era o Robalo guarda, a guardar. Por isso fez arrefecer nas veias a fogueira que o escaldava e estacou o primeiro passo do vulto com nova ordem:

- Alto, já disse! Docemente, numa carícia estranha para os seus ouvidos, quem passava falou:

- Não berres, que não vale a pena. Este volume todo - é gente. A intenção era boa, era... Mas de repente, em Fuentes, começam-me a apertar as dores... Se não me apego às pernas com quanta alma tinha, nascia-me o rapaz galego. Querias?

O coração do Robalo não aguentava tanto. Um filho! Um filho seu no ventre de uma contrabandista!

Regelou-se ainda mais.

- A mim não me enganas tu. Gente! No posto eu te direi se isso é gente, ou são cortes de seda. Vamos lá!

Pela neve fora a presença da rapariga era como um enigma sagrado diante dos olhos dele. Mas o guarda guardava.

- Ó homem de Deus, deixa-me ir enquanto posso! Olha que se as dores voltam como há bocado, é no sítio onde estiver...

O Robalo, porém, tinha de levar a cruz ao fim. já com a Isabel fechada na pobreza da tarimba, esperou ainda o milagre de a sua obstinação acabar em tecidos, em seco e peco contrabando posto a nu.

Fronteira, contudo, podia mais do que uma absurda obstinação. E, mal a parturiente atirou lá de dentro o primeiro grito a valer, o Robalo ruiu.

Desesperado, parecia um doido por toda a casa. De quando em quando, arrastado por uma força que não conseguia dominar, chegava-se à porta do quarto, humilde, rasgado de cima abaixo de ternura:

- Isabel... Um berro que estalava fino e súbito fazia-o recuar transido para o mais fundo da sala.

Até que a trovoada amainou e do pesado silêncio que se fez nasceu para os seus ouvidos maravilhados um choro doce, novo, muito puro, que lhe arrancou lágrimas dos olhos.

Chegou-se à porta outra vez:

- Isabel... A voz cansada da mulher mandou-o entrar. E, quando o dia rompeu, Fronteira tinha de todo ganho a partida. Demitido, o Robalo juntou-se com a rapariga. Ora como a lavoura de Fronteira não é outra, e a boca aperta, que remédio senão entrar na lei da terra! Contrabandista.

E aí começam ambos a trabalhar, ele em armas de fogo, que vai buscar a Vigo, e ela em cortes de seda, que esconde debaixo da camisa, enrolados à cinta, de tal maneira que já ninguém sabe ao certo quando atravessa o ribeiro, grávida a valer ou prenha de mercadoria.


Miguel Torga, Novos Contos da Montanha