27/11/2007

Milagre do Natal


O BAIRRO DO ANDARAÍ é muito triste e muito úmido. As montanhas que enfeitam a nossa cidade, aí tomam maior altura e ainda conservam a densa vegetação que as devia adornar com mais força em tempos idos. O tom plúmbeo das árvores como que enegrece o horizonte e torna triste o arrabalde.
Nas vertentes dessas mesmas montanhas, quando dão para o mar, este quebra a monotonia dó quadro e o sol se espadana mais livremente, obtendo as cousas humanas, minúsculas e mesquinhas, uma garridice e uma alegria que não estão nelas, mas que sê percebem nelas. As tacanhas casas de Botafogo se nos afigura assim; as bombásticas “vilas” de Copacabana, também; mas, no Andaraí, tudo fica esmagado pela alta montanha e sua sombria vegetação.
Era numa rua desse bairro que morava Feliciano Campossolo Nunes, chefe de secção do Tesouro Nacional, ou antes e melhor: subdiretor. A casa era própria e tinha na cimalha este dístico pretensioso: “Vila Sebastiana”. O gosto da fachada, as proporções da casa não precisam ser descritas: todos conhecem um e as outras. Na frente, havia um jardinzinho que se estendia para a esquerda, oitenta centímetros a um metro, além da fachada. Era o vão que correspondia à varanda lateral, quase a correr todo o prédio. Campossolo era um homem grave, ventrudo, calvo, de mãos polpudas e dedos curtos. Não largava a pasta de marroquim em que trazia para a casa os papéis da repartição com o fito de não lê-los; e também o guarda-chuva de castão de ouro e forro de seda. Pesado e de pernas curtas, era com grande dificuldade que ele vencia os dous degraus dos “Minas Gerais” da Light, atrapalhado com semelhantes cangalhas: a pasta e o guarda chuva de ” ouro”. Usava chapéu de coco e cavanhaque.
Morava ali com sua mulher mais a filha solteira e única, a Mariazinha.
A mulher, Dona Sebastiana, que batizara a vila e com cujo dinheiro a fizeram, era mais alta do que ele e não tinha nenhum relevo de fisionomia, senão um artificial, um aposto. Consistia num pequeno pince-nez de aros de ouro, preso, por detrás da orelha, com trancelim de seda. Não nascera com ele, mas era como se tivesse nascido, pois jamais alguém havia visto Dona Sebastiana sem aquele adendo, acavalado no nariz. fosse de dia, fosse de noite. Ela, quando queria olhar alguém ou alguma cousa com jeito e perfeição, erguia bem a cabeça e toda Dona Sebastiana tomava um entono de magistrado severo.
Era baiana, como o marido, e a Única queixa que tinha do Rio cifrava-se em não haver aqui bons temperos para as moquecas, carurus e outras comidas da Bahia, que ela sabia preparar com perfeição, auxiliada pela preta Inácia, que, com eles. viera do Salvador, quando o marido foi transferido para São Sebastião. Se se oferecia portador, mandava-os buscar; e. quando, aqui chegavam e ela preparava uma boa moqueca, esquecia-se de tudo, até que estará muito longe da sua querida cidade de Tomé de Sousa.
Sua filha, a Mariazinha, não era assim e até se esquecera que por lá nascera: cariocara-se inteiramente. Era uma moça de vinte anos, fina de talhe, poucas carnes, mais alta que o pai, entestando com a mãe, bonita e vulgar. O seu traço de beleza eram os seus olhos de topázio com estilhas negras. Nela, não havia nem invento, nem novidade como - as outras.
Eram estes os habitantes da “Vila Sebastiana” , além de um molecote que nunca era o mesmo. De dous em dous meses, por isso ou por aquilo, era substituído por outro, mais claro ou mais escuro, conforme a sorte calhava.
Em certos domingos, o Senhor Campossolo convidava alguns dos seus subordinados a irem almoçar ou jantar com eles. Não era um qualquer. Ele os escolhia com acerto e sabedoria. Tinha uma filha solteira e não podia pôr dentro de casa um qualquer, mesmo que fosse empregado de fazenda.
Aos que mais constantemente convidava, eram os terceiros escriturários Fortunato Guaicuru e Simplício Fontes, os seus braços direitos na secção. Aquele era bacharel em Direito e espécie de seu secretário e consultor em assuntos difíceis; e o último chefe do protocolo da sua secção, cargo de extrema responsabilidade, para que não houvesse extravio de processos e se acoimasse a sua subdiretoria de relaxada e desidiosa. Eram eles dous os seus mais constantes comensais, nos seus bons domingos de efusões familiares. Demais, ele tinha uma filha a casar e era bom que…
Os senhores devem ter verificado que os pais sempre procuram casar as filhas na classe que pertencem: os negociantes com negociantes ou caixeiros; os militares com outros militares; os médicos com outros médicos e assim por diante. Não é de estranhar, portanto, que o chefe Campossolo quisesse casar sua filha com um funcionário público que fosse da sua repartição e até da sua própria secção.
Guaicuru era de Mato Grosso. Tinha um tipo acentuadamente índio. Malares salientes, face curta, mento largo e duro, bigodes de cerdas de javali, testa fugidia e as pernas um tanto arqueadas. Nomeado para a alfândega de Corumbá, transferira-se para a delegacia fiscal de Goiás. Aí, passou três ou quatro anos, formando-se, na respectiva faculdade de Direito, porque não há cidade do Brasil, capital ou não, em que não haja uma. Obtido o título, passou-se para a Casa da Moeda e, desta repartição, para o Tesouro. Nunca se esquecia de trazer o anel de rubi, à mostra. Era um rapaz forte, de ombros largos e direitos; ao contrário de Simplício que era franzino, peito pouco saliente, pálido, com uns doces e grandes olhos negros e de uma timidez de donzela.
Era carioca e obtivera o seu lugar direitinho, quase sem pistolão e sem nenhuma intromissão de políticos na sua nomeação.
Mais ilustrado, não direi; mas muito mais instruído que Guaicuru, a audácia deste o superava, não no coração de Mariazinha, mas no interesse que tinha a mãe desta no casamento da filha. Na mesa, todas as atenções tinha Dona Sebastiana pelo hipotético bacharel:
- Porque não advoga? perguntou Dona Sebastiana, rindo, com seu quádruplo olhar altaneiro, da filha ao caboclo que, na sua frente e a seu mando, se sentavam juntos.
- Minha senhora, não tenho tempo…
- Como não tem tempo? O Felicianinho consentiria - não é Felicianinho?
Campossolo fazia solenemente :
- Como não, estou sempre disposto a auxiliar a progressividade dos colegas.
Simplício, à esquerda de Dona Sebastiana, olhava distraído para a fruteira e nada dizia. Guaicuru, que não queria dizer que a verdadeira . razão estava em não ser a tal faculdade “reconhecida”, negaceava:
- Os colegas podiam reclamar.
Dona Sebastiana acudia com vivacidade :
- Qual o que . O senhor reclamava, Senhor Simplício?
Ao ouvir o seu nome, o pobre rapaz tirava os olhos da fruteira e perguntava com espanto:
- O que, Dona Sebastiana ?
- O senhor reclamaria se Felicianinho consentisse que o Guaicuru saísse, para ir advogar?
- Não.
E voltava a olhar a fruteira, encontrando-se rapidamente com os olhos de topázio de Mariazinha. Campossolo continuava a comer e Dona Sebastiana insistia:
- Eu, se fosse o senhor ia advogar.
- Não posso. Não é só a repartição que me toma o tempo. Trabalho em um livro de grandes proporções.

Todos se espantaram. Mariazinha olhou Guaicuru; Dona Sebastiana levantou mais a cabeça com pince-nez e tudo; Simplício que, agora, contemplava esse quadro célebre nas salas burguesas, representando uma ave, dependurada pelas pernas e faz pendant com a ceia do Senhor - Simplício, dizia, cravou resolutamente o olhar sobre o colega, e Campossolo perguntou:
- Sobre o que trata?
- Direito administrativo brasileiro.
Campossolo observou:
- Deve ser uma obra de peso.
- Espero.
Simplício continuava espantado, quase estúpido a olhar Guaicuru. Percebendo isto, o mato-grossense apressou-se:
- Você vai ver o plano. Quer ouvi-lo ?
Todos, menos Mariazinha, responderam, quase a um tempo só:
- Quero.
O bacharel de Goiás endireitou o busto curto na cadeira e começou:
- Vou entroncar o nosso Direito administrativo no antigo Direito administrativo português. Há muita gente que pensa que no antigo regímen não havia um Direito administrativo. Havia. Vou estudar o mecanismo do Estado nessa época, no que toca a Portugal. V ou ver as funções dos ministros e dos seus subordinados, por intermédio de letra-morta dos alvarás, portarias, cartas régias e mostrarei então como a engrenagem do Estado funcionava; depois, verei como esse curioso Direito público se transformou, ao influxo de concepções liberais; e, como ele transportado para aqui com Dom João VI, se adaptou ao nosso meio, modificando-se aqui ainda, sob o influxo das idéias da Revolução.
Simplício, ouvindo-o falar assim dizia com os seus botões: “Quem teria ensinado isto a ele?”
Guaicuru, porém, continuava:
- Não será uma seca enumeração de datas e de transcrição de alvarás, portarias, etc. Será uma cousa inédita. Será cousa viva.
Por aí, parou e Campossolo com toda a gravidade disse:
- V ai ser uma obra de peso.
- Já tenho editor!
- Quem é? perguntou o Simplício.
- É o Jacinto. Você sabe que vou lá todo o dia, procurar livros a respeito.
- Sei; é a livraria dos advogados, disse Simplício sem querer sorrir.
- Quando pretende publicar a sua obra, doutor? perguntou Dona Sebastiana.
- Queria publicar antes do Natal. porque as promoções serão feitas antes do Natal, mas…
- Então há mesmo promoções antes do Natal, Felicianinho ?
O marido respondeu:
- Creio que sim. O gabinete já pediu as propostas e eu já dei as minhas ao diretor.
- Devias ter-me dito, ralhou-lhe a mulher.
- Essas cousas não se dizem às nossas mulheres; são segredos de Estado, sentenciou Campossolo.
O jantar foi. acabando triste, com essa história de promoções para o Natal.
Dona Sebastiana quis ainda animar a conversa, dirigindo-se ao marido:
- Não queria que me dissesses os nomes, mas pode acontecer que seja o promovido o doutor Fortunato ou… O “Seu” Simplício, e eu estaria prevenida para a uma “festinha”.
Foi pior. A tristeza tornou-se mais densa e quase calados tomaram café.
Levantaram-se todos com o semblante anuviado, exceto a boa Mariazinha, que procurava dar corda à conversa. Na sala de visitas, Simplício ainda pôde olhar mais duas vezes furtivamente os olhos topazinos de Mariazinha, que tinha um sossegado sorriso a banhar-lhe a face toda; e se foi. O colega Fortunato ficou, mas tudo estava tão morno e triste que, em breve, se foi também Guaicuru.
No bonde, Simplício pensava unicamente em duas cousas: no Natal próximo e no “Direito” de Guaicuru. Quando pensava nesta .’ perguntava de si para si: “Quem lhe ensinou aquilo tudo? Guaicuru é absolutamente ignorante” Quando pensava naquilo, implorava: “Ah! Se Nosso Senhor Jesus Cristo quisesse…”
Vieram afinal as promoções. Simplício foi promovido porque era muito mais antigo na classe que Guaicuru. O Ministro não atendera a pistolões nem a títulos de Goiás.
Ninguém foi preterido; mas Guaicuru que tinha em gestação a obra de um outro, ficou furioso sem nada dizer.
Dona Sebastiana deu uma consoada à moda do Norte. Na hora da ceia, Guaicuru, como de hábito, ia sentar-se ao lado de Mariazinha, quando Dona Sebastiana, com pince-nez e cabeça, tudo muito bem erguido, chamou-o:
- Sente-se aqui a meu lado, doutor, aí vai sentar-se o “Seu” Simplício.
Casaram-se dentro de um ano; e, até hoje, depois de um lustro de casados ainda teimam.
Ele diz:
- Foi Nosso Senhor Jesus Cristo que nos casou.
Ela obtempera:
- Foi a promoção.

Fosse uma cousa ou outra, ou ambas, o certo é que se casaram. É um fato. A obra de Guaicuru, porém, é que até hoje não saiu…

Lima Barreto




25/11/2007

A rapariga de pedra

Chamo-me Aldemiro. Os nomes sempre interessam. De mais a mais o meu não é muito vulgar. Mas o que eu aqui vou pôr escrito ainda é menos vulgar. Aconteceu-me...

Vejamos. Começarei a escrever isto de outra maneira mais simples.

Eram férias e nós íamos para fora, como nos outros anos, mas desta vez para a serra! Para a serra, que eu não conhecia. E assim, ajudado por umas vistas de moinhos e de árvores do meu conhecimento passei uns dias com­pondo uma serra cá a meu jeito. Porém, quando verda­deiramente cheguei à serra, pela tardinha, já todas essas fantasias me tinham esquecido. E as pedras, os penhascos que me iam surdindo de um lado e de outro, faziam-me uma grande estranheza. Tão grandes, e de pé, como se se fossem despenhar pelas ribanceiras abaixo! E uns riozinhos estreitos, quase secos, nuns vales muito fundos e sombrios... Fugindo-me tudo da vista, mas repetindo--se... E pedras, por toda a parte aqueles enormes pedre­gulhos!

Isto foi de entrada e durante a viagem, porque depois foi-me passando a admiração e logo me habituei a tudo e a todos. E verdade que nos primeiros dias ainda estra­nhava ver correr a água de dia e de noite pelas quelhas da aldeia. Os seixos do caminho também me incomodavam os pés, naturalmente por eu andar calçado... lá, tudo andava descalço. As mulheres ralhavam muito, e ora avan­çavam umas para as outras, ora recuavam, como se dan­çassem... tinham graça! E diziam uns nomes: chucharas! farrombonas! que eu nunca entendi, nem precisava de entender.

Pelas quelhas também andavam à vontade os pitos e os bácoros.

Mas a minha tentação, a minha grande tentação era a serra, o campo, a liberdade.

Habituei-me a sair muito cedo, sozinho, quando o céu ainda parece branco.

Que lindos castanheiros e que paz, que grande paz sempre! Os muros dos soutos faziam a vista de uma renda. De pedra rala, já se sabe. Às vezes lá se ouvia a cantilena de um pastoreco... mas onde estaria ele? As cabritas sal­tavam às castinceiras e roíam-nas. Deixá-las roer!

Aos carrapitos da serra é que eu tinha a ambição de chegar, embora me avisassem de que por lá havia lobos.

Os dias entretanto iam passando, sempre a meu gosto. As noites empregava-as a ouvir histórias pelas portas de uns e de outros. Aquela gente era amiga de fazer serões. E contavam-me tudo: os milagres, as más sortes, os bru­xedos, os desastres, as desgraças dos invernos e até as ideias. A história da rapariga de pedra entrava no número dessas ideias. Era uma coisa que tinha acontecido, diziam os antigos, e de que ninguém se devia rir.

O que hoje ainda não sei é se eles acreditavam na his­tória! Ou que sim, ou que não, a mim só me maravilhava. Aquela extraordinária rapariga que tornava cegos ou gagos os que uma vez a surpreendiam! Era de uma beleza sem igual e andava fugida aos pais a cumprir o seu fadário. Viam-na sempre metida nas fontes ou sentada nas pedras, com a cabeça caída para a frente e a água a pingar-lhe nos cabelos... Por onde ela passava não havia campos secos. Por isso o povo lhe queria bem, embora a temesse.

Parece que quando ela tinha fugido aos pais (coitadinha, era a sua sina) estavam os soutos com o candeão, com a flor. Mas ninguém já sabia por que razão fugira ela. Andava em carrapato (quer dizer, nuazinha) como na hora em que abalou. Foram atrás dela os pais e os irmãos, para nada; jamais a alcançaram. Até que um dia, fartos e cansados de correr ali pararam, e ficaram. Era o que se dizia. Parece que o povo nascera deles e que toda aquela gente ainda era aparentada com a rapariga de pedra. Ninguém se envergonhava disso, pelo contrário, Ela, também, nunca se afastava muito daqueles sítios. Vê-la, havia quem a visse, de longe. Defrontá-la é que ninguém ousava. Era de pedra, mas de pedra viva (tinha aquela sina de viver sempre!) com uns cabelos de água que escorriam, escorriam... Tanto assim que por onde ela passasse não se conhecia a seca, mesmo no pino do Verão.

Que história! Juro que me encantava. Levei noites e dias a pensar e a sonhar com a rapariga de pedra. Gostava de acreditar nela e também gostaria de a surpreender. Ai, não tinha medo, não, de ficar cego ou gago.

Disfarçadamente fui começando a pedir informações: onde é que a tinham já visto? E de manhã ou de noite?

Eu perguntava, perguntava... mas nunca obtinha res­postas certas. Até havia quem me dissesse: para que é que o menino quer saber tanto? O melhor é não desafiar a sorte!

Eu ria e mudava então de conversa. Até que me fui quase esquecendo da história.

Num dia, ou por outra, em certa manhãzinha, saio de casa sem destino, como era o meu costume. Iria para onde as pernas me levassem.

No chafariz ainda não estava ninguém, nem um cân­taro sequer nos poiais. Até uns passaritos saltitavam nas pedras do chão sem nenhum receio. Todas as portas fe­chadas: com certeza que nenhuma caçoila ainda ao lume. Aquela gente, que tinha o ofício de fazer cestas, não era madrugadora.

E eu meti-me ao caminho, todo lépido.

Que alegria a de andar sozinho, de não ver ninguém e de nem saber para onde ir! As casas da aldeia, muito ruças e baixas, iam-me ficando cada vez mais para trás, cada vez mais para baixo. Os telhados, sem chaminés, não avultavam nada. Só campo e céu, só campo e céu. Os cabeços ainda pouco claros, envolvidos de uma nevoazinha incolor, pareciam-me monstros. Mas um ar e uma frescura! Do sol, nem sinal. De seres vivos lá descortinei um homem atrás de um burro. Eh lá — gritei-lhe eu, de longe. Mas ele nem me ouviu! E eu sempre a andar. Os carreiros chamados de pé posto, ora me parecia que subiam, ora que desciam. Cheguei por fim às bordas de uma ribeira e larguei os caminhitos. Parei um instante. É que eu gostei sempre muito da água, de me entreter com ela.

Os borbulhões daquela ribeira, que logo me saltaram à vista, afloravam, rompiam mesmo como flores brancas, debaixo das pedras, e depois corriam. Daqui vinha um fio e dali outro, mas logo empoçavam. Do fundo daque­las poças todas nasciam ramos verdes, que mal buliam.

Continuei a andar, mas já sem pressa. Gostava de ir vendo o que via... os seixinhos cobertos de água, uma coisa que brilhava, uma erva delicada... repentinamente a restolhada de um pássaro, que largava a voar...

A luz foi crescendo, entretanto, e as bulhas também. A própria água acordava, parecia-me a mim. O leito da ribeira empinava-se, enchia-se de pedregulhos. E ouvia--se uma arrulhada! Devia ser da água que caía de alto. Era como um vagido de criança ou de cabritinho a cha­mar pela mãe. O coração começou-me então a palpitar, mas eu nem pensei em voltar para trás. Pus-me aos sal­tos de pedra em pedra. Tinha vontade de descobrir fosse o que fosse, de ver e de ouvir mais, de avançar sempre. Bichos ofegantes passavam pelo meio das silvas, invisíveis, parecia-me a mim, e de todo o lado caía uma espécie de chuva de pedra miúda ou de terra. Até comecei a ouvir passos: pisavam os panascos secos das margens... Qual! Seria algum coelhito assustado.

A ribeira tornara-se funda. Que medonho sítio! Começava-me a parecer fora do mundo. Mas a água ia continuando a formar trancelins, que ora se divi­diam, ora se juntavam. E eu a avançar... Pela ribeira acima, os enormes pedregulhos que a obstruíam tinham de ser rodeados a custo. Porém, a seguir era sempre novo, uma coisa que eu não esperava... Parava um pouco. As lagartixas também me sobressal­tavam. Ouvia-se primeiro uma restolhada. Que seria? E só depois é que se viam correr. Largartixas grandes, quase como lagartos. Às vezes também me passavam borboletas à frente.

A certa altura dei com um pego maior e deixei-me ficar a olhá-lo. A água tem o poder de me fascinar, creio que já disse. Centos de bichinhos pretos, pernaltas, cor­riam nela vertiginosamente. Era um pego tranquilo e sombrio. Aqueles bichinhos pareciam doidos: paravam de repente, depois tornavam ao seu desatino; paravam de novo... Chamam-se alfaiates. Excitei-os com um pauzi­nho. Veio o sol dar-me nas mãos, só um leve raio de sol. Que bonito que tudo aquilo era! A chalrada da água, uma espécie de choro ou queixa que não tinha descanso, tornou-me a atrair.

A água chora! — pus-me eu a dizer de mim para mim. E é que chora!

Duas rolas gordinhas vieram beber à ribeira. Ia um bando delas lá por cima, lá tão em cima!

A água chora, continuava eu pensando, sentado com o tal pauzinho na mão, a excitar os alfaiates, que fugiam. Por fim desviei os olhos do pego e comecei a ver rodelas de luz. Pensei em continuar a subir, mas achei que não podia mais. Onde estaria eu? Onde teria já chegado?

Pus-me a escutar melhor: não era só o choro da água que eu ouvia, eram também gemidos. Ai! E levei a mão ao sítio do coração. Ai, que não é senão a rapariga de pedra! E eu ali sozinho... Tremeu-me a boca e senti as forças perdidas.

Era ela! Lá estava em cima de uma penha tão alta, tão alta... A cabeça para a frente e os cabelos caídos a correr água, a correr água... Mas de pedra ordinária não me pare­cia ela, parecia-me de cristal. E chorava, coitadinha. Cho­rava tanto! Nuazinha, com, os pés pendurados... A ribeira devia nascer ali mesmo.

Não chores mais! — queria-lhe eu dizer. E se o disse não sei. Escorreguei, estou perfeitamente lembrado, e deitei as mãos aos juncos. Quando tornei a olhar para cima já não vi mais nada. Mas eu não estava gago nem cego, felizmente. Esfreguei muito os olhos e disse uma porção de palavras sol­tas. Deu-me tanta vontade de chorar!

Tinha-a visto. Nunca ninguém disso me desimaginasse: tinha-a visto!


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

As Velhas são o Diabo



Ninguém case com mulher velha. As velhas, ainda que pareçam santas, são o demónio. Que o diga o Frederico. Tinha feito casa e perdeu-a por via da mulher, mais velha do que ele trinta anos.
Este disparate de idades pareceu acertado ao Frederico no dia em que se casou. Ele era um rapaz doente e pobre. Tinha-se estreado como cavador, mas não provara bem na enxada. Derreou-o a primeira cava para toda a vida. Era um pelém. Desistiu da vinha e fez-se comerciante. Melhor dizendo, fez-se feirão, porque a palavra, comerciante é fina de mais para se aplicar ao modo de vida do Frederico. Feirão, sim, porque o negócio do Frederico era vender na feira porcos de criação. Achou que fez bem, casando com uma velha, porque essa velha tinha alguma coisa de seu. Podia aumentar-lhe o negócio com o dote e dar-lhe respeito à casa com os cabelos brancos. Embora doente, o Frederico era activo e até ambicioso. Madrugava como um pássaro e só adormecia pela noite dentro, depois de ter feito de cabeça as contas do negócio.
Esta labuta, em vez de o enfraquecer, fazia-o homem. O ar livre, respirado de costas direitas e independente, por feiras e caminhos, abria-lhe o apetite. Não tinha cor, mas, de ano para ano,. ia-se tornando menos seco e mais robusto. Quando casou, já não era o rapazinho débil que a primeira cava derreara. As moças, quando o viram na igreja receber-se com uma velha, exclamaram: mal empregado!
Não há dúvida que o casório do Frederico foi interesseiro. A velha tinha de seu uma casa ampla, situada fora do povo, mas o quintal... era o melhor pedaço de chão da freguesia. De todas as vezes que o Frederico por ali passava a caminho das feiras, namorava a casa e namorava a cerca. Parecia-lhe que as lojas subjacentes ao prédio e aquele gordo torrão ali ao pé seriam boa cama e refeitório farto para o seu gado. Antes de casar com a proprietária, enamorou-se da propriedade.
Que, valha a verdade, a dona de tão bela regalia – casa e quintal – tinha também seu préstimo. Vivia sozinha e sozinha se desembaraçava de toda a sua lida, que não era pequena. Cavava a horta por suas mãos, fazia de comer, lavava os manachos, ia à lenha, ponteava as meias, remendava as saias e cuidava do vivo como ninguém.
O vivo é o porco ou porcos que habitam uma corte. É a biologia sagrada de uma vivenda. O vivo! Significa o ser vivo por excelência. Ora, em sete freguesias pegadas, ninguém cuidava melhor dos entes que grunhem e não vêem o céu do que aquela mulher. O Frederico mercava-lhe as criações a olhos fechados.
Da admiração da obra à admiração da autora mediou um passo. Mulher que tão asseados bichos criava em sua loja merecia que um homem olhasse para ela. Viva! A senhora Aninhas – chamava-se Aninhas – era mulher perfeita.
Destes cumprimentos, destas exclamações sinceras, até ao casamento foi outro passo. A casa, o quintal e a corte passaram por encanto à categoria de empório comercial do Frederico. A loja, povoada de buliçosos bácoros muito limpos, sempre a coinchar com saudades da mama ou fome de lavagem, parecia uma creche de criancinhas ruças. No meio deles, com uma vide na mão, a senhora Aninhas figurava como ama sem touca, mas, com uma habilidade, um dedo para aquilo, que espantava o negociante. Com dois ou três monossílabos e umas cócegas feitas com a vide no serro dos inocentes – assim os comandava.
Era manifesta a prosperidade do Frederico em bens comprados ao redor da casa – hoje uma leira, amanhã uma vinha, depois uma mata. Davam-lhe os vizinhos, em suas avaliações mentais um pouco invejosas, para cima de cem contos. Como o vissem assim, tão aumentado de teres, começaram a chamar-lhe Tio Frederico e até senhor Frederico. Tanto tens tanto vales.
É raro que o homem sofra mais do que uma paixão. A paixão do Frederico era o negócio. Amava a mulher como auxiliar da sua prosperidade. Punha-a, no que é consideração, acima do cavalo que o levava à feira. Extasiar-se, só se extasiava diante dos bácoros, que representavam dinheiro. Chamava-os – bicá, bicá – com ternura utilitária.
A mulher não era assim. Vivia para o marido. Solteira até aos cinquenta anos, delirou quando se viu casada... e casada com um rapaz novo! Cheia de lágrimas de júbilo na face arregoada pelos anos, arrumava a casa e fazia o jantar do marido. Por amor dele, tornou-se avarenta – sem deixar de ser limpa. Queria-lhe como filho e como esposo. Sabendo-o de compleição delicada, alimentava-o a preceito com ovinhos crus furados com uma navalhinha. Obrigava-o a bebê-los assim, que era, na opinião dela, como faziam melhor. À noite, como o sentisse exausto das jornadas, não se punha a maçá-lo com candonguices. Deixava-o adormecer a contemplá-lo como as mães contemplam os filhos adormecidos no colo.
O Frederico nunca se comovia com a ternura da esposa. Estimava-a como consorte, mas não lhe retribuía o dízimo do carinho. O fito da sua vida era o negócio. A esposa, a casa, o quintal, a corte, os bácoros, eram instrumentos do seu ganha-pão. Estava satisfeito, não arrependido de se ter casado. A senhora Aninhas, ainda que velha, era o seu braço direito na luta que travara contra a doença e contra a pobreza. Era sua sócia. Prezava-a como tal.
No dia em que a senhora Aninhas percebeu que não passava de sócia do marido, quis morrer. Lembrou-se do pai e da mãe – teve saudades da vida de solteira. Ter-se-ia arrependido de casar se a não cegasse o orgulho de ter casado com um rapaz novo. Toda desvanecida, evocava a cena do casamento, o nó dado na igreja.
Entretido com o negócio, o Frederico não pensava na mulher. Quando ia pelos caminhos fora, no passo travado do cavalicoque, à cata de porcos finos para criação, pensava em porcos. Nem nas feiras, no auge do barulho, a imagem da mulher lhe acudia. Era um feirão. Movia-o a ânsia de feirar.
Hoje uma vinha, amanhã um campo, depois uma tojeira ou um matareco, a pouco e pouco o Frederico ia juntando as peças de um casal formoso. Parecia-lhe, de cada vez que comprava uma propriedade, que aumentava a força física. O desaire sofrido na primeira cava ia vingando. Toda a energia do Frederico se aguçava no faro do dinheiro. Sabendo-o casado com uma velha, algumas raparigas novas, vestidas de seda vegetal, diziam-lhe de soslaio a sua graça quando o viam nas feiras. Sem lhes dizer vade-retro, sorriam-lhe de vontade, mas o sorriso dele era indulgente, não conivente com o intuito das moças.
A senhora Aninhas não acreditava na inocência do Frederico. Não compreendia que rapaz tão novo jejuasse tanto. Ela não acreditava. Sentia-se preterida por outra ou outras mais novas do que ela. Chamava nomes feios a estas rivais imaginárias.
Cheirava a roupa do homem, virava-lhe os bolsos do avesso e inspeccionava-os com minúcia para surpreender qualquer pequena prova de culpa marital. Um dia encontrou um pêlo preto aderente ao colete de pelúcio do marido. Pegou no pêlo, aproximou-o dos olhos do marido e exclamou:
– Está aqui, ladrão! Hei-de -lo num relicário até a dona aparecer. Quem ma dera pilhar! Este cabelo é de cigana. Gostas de ciganas, ham?
– Ó mulher, isso não é um cabelo. É uma clina do nosso Mulato, explicou, com vontade de rir, o Frederico.
«Olha, mulher, continuou. O Mulato está na manjadoira. Chega-te a ele e verás que lhe adita a clina
A senhora Aninhas, meio sorridente, meio confusa, chegou-se a uma janela e soprou o pêlo. Assim ela varresse para sempre os zelos. Que não varria. Debalde defumava a casa. Debalde mandava às bruxas a camisa do homem para análise. As bruxas davam amiga e que eram precisas rezas e esconjuros: terra de cemitério, sal derramado, sapo cozido, etc. Pobre Aninhas! Cumpria à risca a receita das bruxas.
Debalde! Debalde! O seu coração não se aquietava.
Moeu dinheiro a senhora Aninhas para conseguir o apego carnal do Frederico.
Embora... Foi contraproducente esse dispêndio. Ele, que a princípio lhe tolerava os ciúmes, a pouco e pouco os aborreceu. Tanto os aborreceu, que os repeliu certa noite com meia dúzia de socos vibrados no rosto velho da senhora Aninhas. Daí por diante, deixou de dormir com ela. Passou a dormir numa tarimba, na loja do Mulato, por cima da manjadoira.
A casa do Frederico ressentia-se desta desavença. Casa que fora limpa antes de a senhora Aninhas se casar e durante anos depois do casamento, deixou de ser casa para ser montureira. Na corte, os bácoros, deitados em más camas, emagreciam antes de ser vendidos, à míngua de refeições pontuais. Cortava o coração ouvi-los grunhir de fome.
O Frederico, homem que fora casto e trabalhador, amoleceu no negócio e deixou-se seduzir pelas moças que rondavam as feiras com o corpo metido em seda vegetal. Emagreceu como os bácoros. Perdeu o apetite.
A senhora Aninhas chorava do coração a magreza do marido. De noite, não dormia. Espreitava-o da janela do quarto para ver se ele saía da cavalariça ou se metia dentro alguma marafona. Os desvarios do Frederico eram perpetrados em Lamego, na Régua e em Vila Real, durante as feiras. Não tinha pacto com vizinha.
Em vão a senhora Aninhas espreitava o Frederico. Nunca o apanhou com a boca na botija, como ela dizia. Uma manhã porém, da janela do quarto, viu-o cavalgar e partir para uma feira. Responsou-o a Santo António como de costume.
Alongou os olhos no rasto do marido. Pôs-se a chorar. Depois olhou indiferente para umas mulheres que passavam debaixo da janela. Provavelmente, iam também à feira. Deixá-las ir... Lá marchava, a rabo delas, sozinho como sempre, o sapateiro da terra. Amigo de passear, ia à vila por cinco réis de nada. Às vezes ia comprar um novelo de fio. Outras vezes, ia comprar meio quilo de sola. Não tinha quem lho comprasse? Farto fosse ele de passear neste mundo e no outro. Atrás do sapateiro, caminhava uma mulher de idade, com o perico do cabelo erecto debaixo de uma mantilha rota. Era a Bártola alcoviteira. Ao lado da Bártola, a olhar para o chão, ia muito melada a Candidinha beata, rapariga linda e bem feita, mas triste como a noite. Que ia ela fazer ao lado de semelhante coira? Não a enojava a sombra de uma coruja? Qual enojava? Olhou a furto para a cavalariça do Mulato, coseu-se com a companheira e lá seguiram ambas por ali abaixo. Ter com quem? No peito da senhora Aninhas, deu-lhe salto o coração. Tate! A sonsa da Candidinha falava com o seu homem.
Ficou a cismar, sem comer nem beber, presa à janela todo o santo dia. Ali ficou até o escurecer. Viu chegar o marido, passar diante da porta do sapateiro, com um rolo de sola debaixo do braço, e, na cauda do cortejo que regressava à aldeia, a sonsa da Candidinha, pisando a sombra da desavergonhada Bártola. Como de manhã, a Candidinha relanceou os olhos à loja do Mulato.
Presa à janela sem comer nem beber, com o peito arfante contra os vidros, a Senhora Aninhas, ali especada, assim passou a noite.
Rompia a manhã quando saiu da janela. Tocou o sino às avé-marias, rezou pelas bentas almas. Deitou água num alguidar e lavou a cara. Depois saiu do quarto, entrou a uma pequena sala e abriu uma gaveta. Fechou-a outra vez e fugiu para a rua pelas traseiras da casa. Fez isto tão subtil, que nem o marido nem os porcos deram fé.
Caminhou para a aldeia. Entrou numa rua estreita, deu meia dúzia de passos e logo se esbarrou com a Candidinha, que ia para a missa. Nem bons dias, nem boas tardes. Levantou a mão direita, que levava escondida debaixo do avental.
À luz matutina, com um brilho azul, cintilou uma navalha na mão da senhora Aninhas. Foi um relâmpago. A Candidinha caiu redonda, dizendo Jesus e deitando um rio de sangue pelo lado esquerdo do peito. Sangrada, ficou branca como uma açucena.
Quando prenderam a senhora Aninhas, quando a levaram à presença do administrador, quando o carcereiro rodou sobre ela a chave da enxovia, ninguém lhe ouviu um lamento, ninguém lhe viu uma lágrima. Encarava as pessoas com expressão alegre. Voava-lhe ao vento a cabeleira branca como um pendão de vitória.
A senhora Aninhas foi condenada a pena maior. Ao ouvir ler a sentença, deu uma grande risada. Recolheu à cadeia, entre duas praças da Guarda, com a cabeleira branca esvoaçante como um pendão de vitória.
Com a justiça, o homem arruinou a casa, já desfalcada antes do crime por amor dos zelos da senhora Aninhas. No dia seguinte ao julgamento, o Frederico foi à cadeia visitara mulher. Mal que o viu, a velha atraiu-o às grades com palavras meigas. Ele aproximou-se confiado e comovido, mas a senhora Aninhas, em vez de lhe fazer festas, escarrou-lhe na cara e ainda por cima lhe chamou porco.
Chamou-lhe porco e riu-se como uma doida.
Quando o Frederico, de volta ao lar deserto, a pé, que vendera o cavalo, se queixou aos amigos de tanta desgraça junta, consolaram-no os amigos, dizendo:
– Olha, Frederico. As velhas são o Diabo!

Terra Ingrata, 1946

19/11/2007

Um roubo



Foi numa noite medonha, cheia de água e gelada, que o Faustino assaltou a Senhora da Saúde. Há tempos já que a ideia desse roubo o obcecava, mas a mulher e o demónio duma hesitação imbecil tinham-no afastado disso. Ainda bem que o destino acabara por dispor as coisas de maneira a que ele pudesse finalmente realizar o sonho. Punha-se a deitar contas à vida, às casas da povoação onde lhe fosse possível arranjar meia dúzia de vinténs para matar a fome naquela grande invernia, e nada, a não ser a Senhora da Saúde. Mas é que nada! Abaças era uma terra pobre. Dinheiro, do contado, só o Albertino. Infelizmente, ao Albertino, tudo menos mexer-lhe num gravelho. Forte e valente como um toiro, ainda por cima dormia de caçadeira encostada ao travesseiro. É claro que havia o recurso de alargar os olhos pelas aldeias vizinhas. Somente: além de o temporal tolher os passos ao mais honrado, como o ano ia de fome, todos viviam de olho aberto e de porta trancada. De resto, não se sentia já com forças para repetir a façanha de Freixoedo. Cinco costelas partidas são muitas costelas. Sem contar - e aqui é que a porca torcia o rabo - com o aviso solene do juiz:
- Dou-lhe apenas quatro meses, atendendo a que já foi bem convidado e que é esta a primeira vez que aqui me aparece. Mas não volte! De contrário, perca o amor à liberdade.
Ora, uma coisa é passar uns dias na cadeia de Alijó e outra ver-se um homem metido numa penitenciária a vida inteira.
Apertada por tal arrocho, a imaginação do Faustino sucumbia. Até que, ressuscitada por aquele buraco no estômago que nenhum aguaceiro enchia, começou de novo a namorar a Senhora da Saúde, rica e desamparada na serra.
Nem juiz, nem testemunhas, nem o delegado a berrar... Nada. Decididamente, o grande tiro era ali!
Naquela noite, depois dum caldo que nem a cães, e de todas as demais hipóteses arredadas, a miragem voltou, mas já sem a indecisão das tentações anteriores. Não havia que ver. O sítio não podia ser melhor; à porta, bastava-lhe um empurrão; o resto, quê? Acender uma vela das do altar, forçar a fechadura da caixa das esmolas, encher o bolso, e ala morena.
A mulher, sem migalha de pão na arca e sem pinga de azeite na almotolia, sabia bem que o remédio habitual daquelas penúrias era ir buscá-lo onde o houvesse. Mas quando o homem, a meia voz, começou a repisar a ideia, desaprovou mais uma vez o projecto sacrílego. A outro lado qualquer, estava de acordo. À Senhora da Saúde, não.
O Faustino nem a ouviu, ocupado como estava no labor de semear a boa semente na terra podre dos últimos escrúpulos. Debruçado sobre as pernas, com os dedos dos pés a espreitar das meias rotas, continuou a aquecer-se aos tições apagados, a chupar a pirisca do cigarro e a enumerar uma por uma as mil vantagens do negócio.
Coisa realmente fácil, sem nenhum perigo, e que trazia a solução do aperto em que estavam. Por ser capela?! Valha-nos Deus! O essencial é que na caixa houvesse algum... Ao menos cem mil reisinhos! Há?! Pois não teria sequer cem mil réis?!
Interpelava a companheira, que não colaborava já de nenhum modo naquela luta. Embrulhada no xaile puído, aninhara-se quase em cima do borralho e fechara os olhos. O Faustino teve de responder às suas próprias perguntas.
Cem mil reis, e a contar muito por baixo. Até era ofender a Santa, supô-la com menos capital na arca.
À medida que ia pondo na balança as justificações do seu desejo, o Faustino via oscilar o fiel da decisão e pender para o lado que lhe convinha o prato reluzente da fortuna. Não havia que ver. As coisas eram o que eram. A evidência metia-se pelos olhos dentro.
Por volta da meia noite as derradeiras amarras da consciência acabaram de ceder. Raios partissem as horas que gastara a pensar na morte da bezerra! Há certas alturas em que a gente, em vez de miolos, parece que tem aranhas no toutiço!
Ergueu-se. Do Faustino titubeante, quase a deixar fugir a sorte que tão generosamente lhe sorria, já não restavam sinais. Agora estava de pé um homem magro, baixo, de barba restolhuda e olhos de azougue, vivo, flexível, decidido como uma doninha.
A mulher nem dormia nem velava. Continuava engrunhada no seu canto, distante, como se o frio a tivesse entorpecido ou uma grande dor silenciosa e funda a roesse por dentro.
Ele também lhe não falou. Ladrão agora duplamente culpado diante da desaprovação dela, foi à loja buscar os precisos e desapareceu na escuridão do quinteiro, sombra muda a esgueirar-se na sombra.
O temporal bramia pela aldeia fora. Ouvia-se a nortada a pregar nos braços dos castanheiros e as bátegas a cair nas estrumeiras encharcadas. Um taró de repassar fragas.
Faustino, vencidos cautelosamente os cem metros da quelha em que morava, meteu-se à serra. Apesar de o vento galego o empurrar para trás, para o frio enxuto da casa, caminhava depressa. Uma vez que encontrara forças para tomar a única resolução acertada, era preciso não demorar.
Infelizmente, a Senhora da Saúde não ficava logo ali. Quase no termo de Valongueiras, distava de Abaças uma boa meia hora. Ainda por cima, caminhos maus. Ou lajes com relheiras que lembravam rugas em coiro de atanado, ou então saibro ensopado e atoladiço. Trilhos excomungados! Mas desembelinhava as canelas o melhor que podia, e meia hora, que afinal queria dizer meia légua, passa depressa. É questão de um homem ir deitando contas à vida enquanto as pernas passeiam.
Cem mil réis, na pior das hipóteses, estavam-lhe no papo. Só muito azar. Mas não.
A Senhora da Saúde governava-se... Nem havia outra tão agenciadeira nas redondezas...
Na carvalhada da Arcã os pensamentos mudaram-lhe de rumo. A tosca memória erguida pela morte do Joaquim Teodoro, assassinado naquele sítio, chamou-o a uma realidade mais dura. O Joaquim Teodoro, ao cabo, era ladrão .também. Não de caminhos nem de igrejas, é certo, mas de roleta, que dá mais e sem nenhum trabalho. Basta lume no olho e dedo. justamente o forte do Joaquim Teodoro... Que habilidade! Isso então na vermelhinha não havia segundo!
O mais pintado entregava-lhe ali o seu e o de quem calhasse. Artes do diabo! Mas o Videira, quando no dia da festa lhe passou para as mãos o último tostão, jurou-lhe que no ano que vinha não vigarizava ele mais ninguém. Dito e feito. E ali estava agora a alma do Joaquim Teodoro pintada a branco no granito, entre línguas de fogo, de mãos erguidas a pedir um padre-nosso!
E se ele, Faustino, tirasse o chapéu e atendesse a imploração ?
Um padre-nosso antes de roubar a Senhora da Saúde, tinha a sua graça!
Apesar de travado por estes pensamentos desconsolados, caminhava depressa. E, à medida que a carvalhada foi ficando para trás, a imagem do Joaquim Teodoro começou a desvanecer-se. Insensivelmente, todo ele ia aderindo à realidade erma e negra que o cercava. Também onde o raio da Santa viera fazer o pouso! Era mesmo desafiar um homem. O pior é se...
Mas não. A sorte dele havia de ser tão caipora, que encontrasse a caixa sem um vintém?
A esta íntima interrogação, os olhos responderam-lhe bruscamente que chegara. A dois palmos do nariz viam-se as paredes da ermida a reluzir.
Embora gatuno de profissão, pois que não se podia chamar cesteiro a quem só lá de tempos a tempos fazia um cesto por desfastio, Faustino, mal deu de chofre com a capela, teve um baque no coração. E parou. Nunca assaltara nenhum lugar sagrado. Sempre era roubar a Senhora da Saúde!
Mas a hesitação durou um minuto apenas. Molhado da cabeça aos pés, o próprio organismo é que o impeliu para a frente, para dentro de uma casa com telhado. Não havia tempo a perder de maneira nenhuma. Nem o corpo, nem o espírito lhe podiam consentir uma fraqueza em semelhante ocasião. Para diante é que era o caminho!
Num ímpeto, chegou-se à porta e meteu-lhe o ombro. Pois claro, como tinha previsto... Escancaradinha! Com a respiração suspensa e todo num formigueiro, entrou de rompante no poço de escuridão.
Dentro, o primeiro impulso do seu instinto foi fechar a porta de novo. Mas a razão, chamada a contas, discordou. Homem, pelo sim, pelo não, deixar o trânsito desimpedido!
Riscou um fósforo, de cabelos em pé. Até se desconhecia! Ninguém as calça que as não borre, bem se diz lá!...
Na luz incerta que se fez, pôs-se a olhar febrilmente para todos os lados e a ouvir ao mesmo tempo, de orelha fita, o silêncio pesado da capela. Felizmente, nada. Imóveis e espantados, os santos pareciam surpreendidos, mas não faziam um gesto para defender a moradia. Realmente, todos de pau! Que sossego! Chegava a parecer mentira que uma casa de Deus tivesse de noite um ar tão desgraçado. Nos palheiros, ao menos, havia ratos!
Deu alguns passos. Como o fósforo estava no fim e já lhe aquecia os dedos, riscou outro. Menos inseguro, subiu as escadas do altar de S, José, logo à entrada. E, quase serenamente, acendeu a vela dum castiçal.
A igreja clareou quanto a luz pôde. E, mais iluminada, tomou-se ainda mais simples, mais natural. As imagens já nem sequer o ar atónito de há pouco conservavam; e o resto, francamente, sem nenhum ar divino. Toalhas, bancos, jarras...
O trivial. Tanta mortificação inútil!
Voltou-se. A caixa das esmolas estava ao fundo, enterrada na parede que ligava o templo ao cabido. Era do lado de fora, pela fresta cavada na cantaria, que os devotos deixavam cair a boa massinha. Pinga que pinga... Uma mina!
Com passos de lã, chegou-se. Caramba, seria que não estivesse a abarrotar?! Pôs a luz no chão e meteu mãos à obra. Se calhar tinha que escaqueirar a tampa à martelada... Mas não é que a fechadura parecia de papelão e cedia ao cinzel sem resistência nenhuma?! Tudo às mil maravilhas... Um mês de tripa forra ninguém lho tirava.
Desgraçadamente, a caixa estava limpa. Ou fora roubada, ou a esvaziara o padre Bento na véspera ou então já não havia fé neste amaldiçoado mundo. Ah! mas ele, Faustino, não se deixava enganar assim. Não. Tivesse a Senhora da Saúde paciência. Lá pouco dele, isso vírgula! Vinha com boas intenções. Obrigavam-no, pronto: ia o que houvesse e passava tudo a patacos.
Pegou de repelão no castiçal e avançou indignado para o altar mor. Não acreditava que no sacrário a miséria fosse também assim.
Era. Os dois SS entrelaçados na portinhola queriam dizer apenas um buraco escuro, vazio, onde os seus dedos resolutos tactearam em vão.
Ladrões! Filhos duma grande... Nem ao menos o cálix! O que vale é que havia ainda a sacristia para revistar. E que não estivessem lá os apetrechos devidos! Ia a casa do abade, que lhe havia de pôr ali o que pertencia à santa...
O cálix, a cruz, o turíbulo, tudo. E a bagalhoça, claro. Pouca vergonha!
Investiu pela sacristia dentro. Queria ver quem levava a melhor.
Mas qual o quê! Estava mesmo roubado. Flores desbotadas de papel, tocos de círios, um crucifixo partido... Que cambada!
Desanimado, pegou na luz. Larápios! À medida que o desespero tomava conta dele, perdia o resto duma precaução que a prudência lhe aconselhara. Falava alto, rogava pragas, caminhava pela capela abaixo com a indignada razão de quem andava na sua própria casa a verificar os danos dum assalto de bandidos! Canalhas!
Até que chegou ao fim da nave. Olhou ainda os altares num relance. Os santos lá continuavam parados como há bocado e a olhá-lo agora a modos de caçoada. Sim senhor, uma linda figura de pedaço de asno que fizera diante deles!
Pôs o castiçal no chão, soprou à vela, puxou a porta e saiu.
O temporal redobrara de fúria. A atravessar o adro, com a desilusão a percorrer-lhe as veias, é que via bem como a escuridão era cerrada e como a chuva lhe trespassava o corpo. Porca de vida! Um homem a fazer por ela, a aguentar no lombo uma noitada daquelas, para ao cabo dar com o nariz no sedeiro!
Na carvalhada da Arcã já os ombros, de entanguidos, se lhe queriam meter pelo pescoço dentro. Filhadinho! A roupa ia-lhe tão colada ao corpo que parecia que era a pele. Cadela de sorte!
Na curva, lá estava outra vez a alma do Joaquim Teodoro a pedir o padre-nosso. Pata que lambesse o Joaquim Teodoro! Padre-nossos, padre-nossos, ia-se a ver e a caixa da Senhora da Saúde sem um vintém! Ah! mas o abade punha-lhe ali a massa e o resto com língua de palmo. Oh, se punha!
Às quatro da madrugada entrou em casa. Como um pitinho! A mulher lá estava ainda no mesmo sítio, calada, triste, longe da vida.
Não lhe falou. A escorrer água, gelado, foi direito à cama, despiu-se e meteu-se entre as mantas a bater os dentes. Pela manhã ardia em febre. E daí a seis dias, depois de um cáustico lhe abrir no peito urna bica de matéria e de o barbeiro de Parada o ter desenganado, foi preciso chamar o confessor, a ver se ao menos se lhe podia salvar a alma.
Veio então o padre Bento, manso, vermelho, tranquilizador. Mas o Faustino delirava. E mal o santo homem, de sobrepeliz, lhe entrou pelo quarto dentro, arregalou os olhos, inteiriçou-se no catre, apontou-o à mulher e aos circunstantes, e com a voz toldada da bronco-pneumonia, rouquejou:
- Ladrão! Prendam-no, que é ladrão!

Miguel Torga, Contos da Montanha



18/11/2007

O Caçador

Estava eu a costurar quando oiço aquele assobio. Era um assobio como ainda nunca tinha ouvido outro. Muito bem trinado, até dava gosto ouvir. Não é de pessoa daqui, penso eu de repente. Quem iria a passar? Não pude ir logo, logo ver; estava a acabar uns pon­tos. Mas de repente atiro com a costura para o lado. Quero cá saber! Não posso esperar mais, e chego à janela.

Pudera! Logo vi. Uma pessoa a assobiar daquela maneira nunca poderia ser daqui. Um caçador, mas vindo de onde? Vestia fato de bombazina castanha e trazia um chapéu de abas. Com dois cães ao lado, muito ladinos... De vez em quando falava com eles, ainda lhe ouvi algu­mas palavras.

Quem seria, e de onde viria ele? Passar assim pela nossa porta e não entrar... era estranho. De muito longe devia ser.

Onde ele já ia! E sempre a assobiar. Não se parecia com o Silvestre nem com os outros saloios. Tinha um aspecto muito diferente. Não seria rapaz do campo, natu­ralmente. Mas nem uma só vez olhou para trás, apre! Também esta janela fica tão escondida...

Eu gostaria de lhe ver a cara. E se ele me cumpri­mentasse? Tinha de o convidar para entrar, é como se faz. Podia estar cansado, podia mesmo ter sede... Havia de lhe dar água pelo meu copo de flores, aquele que tem uma silvinha doirada, que me deram de prenda de anos.

Os caçadores às vezes andam perdidos. Que pena ele não me ter visto à janela! A sua voz é que eu ouvi muito bem, uma voz forte mas alegre. Falava com amor aos cães, são sempre assim os bons caçadores. Se ele não é daqui, que não é! via-se perfeitamente, havia de saber conversar. Que pena!

Eu mandava-lhe abrir então a porta da sala e ele en­trava. Ia-me arranjar muito depressa e depois aparecia-lhe. Penteava-me, punha outro vestido, pó-de-arroz na cara... Oferecia-lhe de comer, e depois de ele comer convidava-o para o jardim. Também mandava tratar dos seus cães. No jardim havia de lhe apanhar algumas flores, porque não? Como estas tardes são uma beleza sentávamo-nos um bocado a conversar. E se o meu primo entretanto chegasse, mandava-o embora. As crianças in­comodam.

Mas, afinal, para onde iria ele? Ninguém lhe disse que nós aqui morávamos! E talvez o soubesse, mas como não viu ninguém à janela...

Esta mania de me porem à costura! Se não fosse por vergonha ainda o mandava chamar. Pois sim, mas com que pretexto? Que recado lhe haviam de ir levar? E tal­vez que o meu pai quando viesse não gostasse. Tenho pena. Estou tão farta de saloios! Aquele ao menos era um rapaz de longe e da minha criação. Via-se perfeitamente. Até aquela maneira de assobiar... era mesmo de quem sabia música.

Todo o meu mal é de estar sempre deste lado da casa, lá porque é mais fresco. Ninguém aqui me vê!

Mas nem uma só vez olhar para trás... pouca sorte... porque ele também ficaria contente. Entrava, descansava um pouco, conversávamos, sentia-se bem... e logo havia de ver que eu não sou nenhuma saloia. Agora? Adeus!

Mas talvez que ele volte. Há-de perguntar a alguém de quem é esta casa. E sabendo que é do meu pai, que toda a gente conhece, baterá à porta. É o que me parece. Há-de voltar. A minha vontade é de ir já pôr flores nas jarras. Não me apetece coser mais!

Andar assim por estes sítios um caçador e não entrar... até parece impossível. Passar e não entrar, vindo de tão longe...

Estou triste, estou aborrecida.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

16/11/2007

O Professor Intemerato e a Gaitinha do Capador


O senhor Professor Mário Delorme encontrava-se a descansar sob o tecto patrimonial e era a hora de sesta. Vilegiatura bem merecida, proclamara o Estafeta Democrático no artigo turiferante de boas-vindas ao egrégio luminar da cátedra e das letras, honra da sua terra. Na casa dos setenta, cabelos quase todos brancos, estadeava porém, privilégio raro nos espíritos superiores superlotados dos anos e de glória, apreciável robustez física e mental.
Nos meios universitários, ninguém contestava que era um dos ínclitos mentores da inteligência lusa, ouvido por gregos e troianos, requestado a cada passo do vário quadrante, embora fosse norma da sua modéstia cavidosa fugir a precipitar a hora da consagração. Um zoilo, prevalecendo-se do seu gosto pela medida e a cambiante, tinha-lhe arremessado um zarguncho venenoso, destes que ficam a vibrar presos ao alvo. E era que o seu renome rolava todo sobre esferas de conjunções adversativas: mas, todavia, no entanto, porém, contudo, quiçá. Este quiçá, metido em chacota como para ópera-bufa, vulnerara-o mais profundamente que um dos pregos caibrais que cravaram as mãos de Cristo. Lembrar-se, sequer, do comentário era como sentir a pua nazarena. Com efeito, o quiçá, como é próprio das naturezas abstractas que contraem fúteis mas viciosas costumeiras - o Mata-borrão com o fum, fum da venta asnal, o Romba com o bem, ora bem, etc. etc. - tornara-se o bordão da sua linguagem de lente e didacta. Fora com o inveterado tic que o crítico feroz rompera em chuchadeira, não se importando de entornar-lhe na alma bondadosa, propensa ao optimismo, o saco de lacraus da maldade humana.
Ali, em estado de meia modorra, a tão grande distância do espaço e da hora em que estas coisas haviam tido o epicentro, fora o bastante para o pungir e espertinar. É verdade que haviam contribuído para isso de algum modo as moscas transtaganas, que não são mais molestas que as moscas do resto do mundo, mas são mais densas, zumbindo, bailando a ribaldeira, descrevendo largos orbes e picando sobre a respeitável testa dum jubilado, apesar da penumbra da alcova.
Tinha-lhe chegado ao feijão branco, com chispe e salsichas, bem sazonado a pimenta e colorau; o vinho de Fuseta era trepador; e na calmaria de Setembro deixara-se tomar dum doce letargo, que nem balouçado em hamac sobre o rio Letes de virgiliana memória. Mas o danado subconsciente entrara a trabalhar e do seu borbulhão irreprimível surgira o peniculário maldito com o quiçá em riste como um espeto de carnaval saloio! Voltou-se e tornou a voltar-se na cama, mas já não pôde conciliar aquela gratíssima soneca que Homero celebrou como dos primeiros dons celestiais. Desceu as pálpebras, abriu um olho para calcular a sapatada na mosca que se lançara em raid ao seu nariz, tornou a fechá-lo, mas apenas conseguiu fazer noite artificial no firmamento ocular. A vontade não operara o acto necessário de desandar o comutador electrónico do pensamento. Incompreensível insubordinação esta, como do som contra o objecto sonador, do gato contra a casa que o alberga, da luz contra o sol, da água contra o defluente caudal. Ficou-se a contemplar na casa de jantar, através da porta entreaberta, o arquibanco humilde encostado à parede, e viu-se no princípio da carreira de estudante ali sentado, de pernas curtas a bimbalhar nas calças de cotim, batuca que batuca com os calcanhares, enquanto não chegava a carrinha do ti' Zé Aires, que havia de conduzi-lo ao Seminário de Portalegre. Como era um magrizela, anegralhado de tez, embora espertinho da massa fosfórica, os rapazes, na escola, troçavam dele.
Cresceu nesta psicose de menino mal achamboado, com o respectivo rancor embrionário por quem era bem-parecido. Por isso, talvez, aceitara de coração jubiloso que o pai se propusesse ordená-lo sacerdote. Bonito ou feio, como ministro do Altíssimo, que importância tinha?!
Recordando sempre, via-se chegar ao Seminário, longa construção torva, de panos brancos, flanqueados de janelas em granito com cimalhas pontiagudas e em redondo como palas. Recebera-os o vice-reitor, mal anunciaram ao que vinham. Entraram para a sala e um belo homem, ainda que embainhado na sotaina, pestanudo, rosadinho, não se fez esperar. E logo os seus sete olhos se pregaram nele, tão admirados como cativos, pois que na qualidade de vice-reitor ia ser o seu soberano por largo espaço de tempo.
- O menino como se chama?
- Chama-se Mário Delorme Dias...
- Mário Delorme?
- É um nome romântico, tirado das minhas leituras - respondeu seu pai, que tinha algumas letras, mal disfarçando o desvanecimento.
- Ah, bem!...
O vice-reitor quedara um momento silencioso a saborear o enigma daquela delícia onomástica, intrigado decerto, mas não querendo trair a perplexidade da sua ignorância. O pai não estava no seu real direito de extrair o seu nome de baptismo de Marion Delorme, pois não estava?
Ah! se era fusco de cor, sumido das faces, ar de cabrito esfolado, o lindo nome o resgatava de semelhantes geenas. Só ele lhe propiciara a simpatia dos condiscípulos e mestres. Um talismã que, mais tarde, completado o curso, exerceria o mesmo efeito magnético em fregueses e colegas. P.e Mário Delorme?!... O pai munira-o com uma varinha de condão, e todo o problema, pela vida fora, era saber usar dela.
Mercê da boa memória, meio pensionista, sempre a passo ginástico, mas sem entusiasmos, um dois, um dois, fez os preparatórios, depois a teologia até o subdiaconato. Nessa altura, porém, explodiu a Monarquia como abóbora madura no meio do milho, pisada pela pata duma vaca. Foi ao expirar das férias, e em vez de regressar ao Seminário, o que estava fixado para dali a dois dias, deixou-se empolgar pelo movimento que subvertera a paz canónica e real de tantos séculos.
Ofereceu a roupeta à mulher do maioral - que tivera com ele amáveis condescendências e fez uma saia para a semana das endoenças e os enterros chiques da vila - e safou as fivelas dos sapatos. E com o boticário, que era meio acrata, e dois caixeiros-viajantes, de passagem ocasional, rompeu a dar vivas à Cristina, que desta feita se chamava República. Daquele dia em diante botou discursata que hoje taxava de pepineira dos verdes anos.
O pai ainda o admoestara:
- Ó rapaz que te estampas! Olha que isto pode ser bruega de pouca dura...
- Pode. Alea jacta est. Também me ensinou o cartapácio de latim a ser audaz.
A cara, a má cara para santo, santo sulpiciano, está bem de ver, a delatar a leiva e o curtume, dificultava-lhe a ascensão. Havia que suprir o não ser moço bonito que, no edifício social, vale mais que uma escada rolante de andar para andar. Mas era afável com aquele ar de cão malhadiço, sempre a dar ao rabo, em que cristalizara o seu perfil de chibo esfolado, e sabia cuspir às unhas. Em particular, no silêncio do seu caritó, cuspia mesmo. Tal expressão do esforço, para si, significava melhor do que nenhuma outra agarrar-se ao verbo, e à desvergonha - no bom sentido - além de que convinha à sua fisionomia tão vincada de vilão do tempo das sesmarias. Et gratias agimus. Rijo das pernas, sólido dos braços, saltou no trapézio volante que se oferecia aos trânsfugas da clerezia, e ei-lo professor, catedrático, desobstruindo caminho a poder de ralé e do lindo nome. Um Mário Delorme tinha, nada mais que pela virtude da consonância esquisita, obrigação de ganhar crédito especial de cérebro bem formado, no género daqueles que saíam da Sorbonne e das universidades germânicas, de sílabas a tilintar sabedoria como Goettingen e Heidelberg. A via latina foi-lhe fecunda e coalhada de triunfos. Uma bem alcatroada rodovia de Damasco. Finalmente, a jubilação fora o coroamento da sua longa fama. De urbi et orbi acorreram os evoés e louros em pessoa, em carta, em telegrama, em veneras e tributos. E, uma vez de braços cruzados para as nobres tarefas do ensino, como não havia de entrar pelo templo de Minerva afoito e ousado como sempre, estando a porta às escâncaras? Não havia actividade mais imediata que as letras para quem as fora exercendo, ao acaso da cátedra, sob forma didascálica, na recta pronúncia de lentes. E rompeu a virar todos os torrões da gleba clássica, desde os épicos ensardinhados aos pregadores enxundiosos, que os livreiros lhe atiravam às mãos ambas como à sachola dum ganhão. Em realidade o traste de cana ou bauxite, que é o cálamo, a molhar no tinteiro ou de tinta permanente, ágil como instrumento de prestidigitador, ajeitava-se-lhe mal aos dedos. Bem o sentia, mas calava-se muito bem calado. A gadanha de camponês ou a colher de surrador haviam gerado no seu organismo uma predisposição ancestral, nefasta contra o escriba público. Mas o homem é produto da vontade. A vontade afeiçoa a electrónica dos centros nervosos ao que se pretende. Do burro pode tirar um decoroso intelectual, do cobarde um herói. E não havia de resultar do calejado mestre um escoliastes apreciável?
Mário Delorme divagava em devaneios altos e aéreos como os voos das moscas que via zebrando a atmosfera semilunar do quarto com velocidades de sputniks que entraram em órbita. Que queriam dizer com translações tão mirabolantes os infames dípteros? Zumbiam e julgava compreender: serem tais volatas epitalâmios à reprodução no dia quente de estio. E aqueles circuitos dumas tantas através da opacidade do ambiente deviam ser maratonas endiabradas que revelassem qual delas era a mais apta e com direito a amar. Agora lá fazerem alta na sua rica testa sapiente, tó ruça! E foi-as enxotando à vassourada dos dedos reboludos, que não haviam chegado à terra enxota-moscas de plástico que, em forma de raquette, manejados com certa destreza, as mandam infalivelmente a Ptah, que é o seu deus oficial desde os Faraós.
Sempre humanizando, levantou-se da sesta. Durara menos de três quartos de hora aquela meia sonolência, própria dos espíritos inquietos e dos velhos. Porventura se houvesse prolongado até a hora, a horinha benquista dos justos e dos filósofos, se não fora o quiçá e as moscas.

*

Depois de haver atravessado a cozinha deserta e climatizar os olhos à luz brava, que explodia nos velhos potes de cobre, de soslaio nos pendurais dos muros, e no bojo da grande talha da água, em grés, já do avô Dias, rachada há que mundos e que agora melava um lagrimejadoiro sem fim, desceu ao pátio. O sol da tarde, refinadamente canicular, rechinava as pedras. A tia Alexandrina devia ter ido lavar para o arroio. Viu as horas: era mais que tempo de terem chegado da estação as bolsas do correio. Compôs a gravata que, neste século de socialismo, é um emblema que ainda impõe ao respeito de rústicos e pés descalços um filho de boa mãe, fechou a porta e despediu. As galinhas, diante dele, ergueram-se no cisqueiro a cacarejar. E ele, que se ufanava de haver adquirido faculdades de observador arguto, ao estudar a fisionomia dos alunos para bem lhes medir a competência, estacou a contemplar, por vezo, a pita riça que não se movera e de dedos abertos em carda coçava o piolhinho. O piolhinho das aves, apterus ischnocera ou...
Neste momento os bácoros da recente ninhada, iludidos pelo seu vulto, alvoroçaram-se do chiqueiro e desataram na partitura: cué! cué!
O sustenido dos leitões acordou-lhe na memória a forma feminina do relativo. Qui, quae, quod. E gozou, grato à perdurante formação latina o sentido poético da onomatopeia. Quem poderá garantir que aquela voz elementar não tivesse sido copiada pelo avô troglodita na selva romana onde os cerdos tinham suas recolhas naturais e soltavam grunhidos espontâneos? E deixou o pátio meditando, como lhe era peculiar, em problema tão original e gracioso. A certa altura esgotou-se-lhe a corda da erudita fantasia e abriu o Século da véspera que arpoara na sala de jantar, para se não dizer que esperdiçava aquele espaço de tempo sem cumprir a nobre missão para que nascera fadado. E foi andando e lendo - atitude ambulatória que sabia ficar bem ao seu prestígio de letrado - com incerto passo, rua fora entre os casebres abrasidos e velhas mulheres, que lhe fosforejavam ao viés dos olhos e de quem não lhe interessava dar conta. Mas breve estramontou, de tope para um palmípede, que lhe cortava o caminho:
- Trago aqui os jornais, uma carta e o aviso dum registo para o senhor Professor...
Era o Cangalhas carteiro, de bolsa de coiro na barriga, com a petisca colada ao beiço e a barretina empinada para a nuca.
- Dá cá...
A letra não lhe era estranha. Com as duas unhas de polegar e indicador, conjugadas em guilhotina, amputou um dos cantos e, introduzindo o dedo, rasgou. Correu à assinatura: Luís Graziel.
Olha, que petroleiro! Seu antigo discípulo na Faculdade, tomara pelo caminho da Esquerda, mau caminho, semeado sempre de escolhos presuntivos, e que bastariam para lhe atrasar a carreira. Mas aquele era naturalmente rebelde, soberbo, iconoclasta, tornando-se tão insuportável, que até ele, o pai da paciência e cordura, acabara por assinar com outros colegas a medida que o excluía das escolas superiores do Continente. Tratava-se dum destes tipos de rapaz que se vão tornando comuns, bebido nas auras moscovitas, paradoxal de todo, estoirado do ânimo, doido, perfeitamente doido, zombador e sarcástico, posto que dotado porventura de uma incontrolável originalidade. Embora fosse uma das primeiras verdades do seu carácter não gostar de fazer sangue, não guardara remorso algum do entrechoque a que se seguira o aniquilamento do lapantim. Conjurava-se com este sentimento de mestre intemerato a circunstância de estar em crer que fora ele o autor do artigo pérfido em que se chamava a atenção para o lente do quiçá. Quanto ao mais, ter sido preso, porradeado, mantido em cárcere sem julgamento meses e meses, daí lavava as mãos.
A carta vinha assinada de Granja do Frade, povoação a uma légua dali, no cerne do concelho, onde aquele seu antigo discípulo, para apimentado do irrespeito, fora nado e o pai tinha duas courelas e um velho sobradinho. Afinal que lhe queria a peste do homem, que julgara de todo debelada para longe da circulação pelos antipútridos drásticos usados pelo Poder? Tornou a cavalgar no nariz os grandes e amedrontadores quevedos e leu:
Honorabilíssimo Senhor Professor e meu ilustre conterrâneo:
Parto do princípio que não se esqueceu totalmente ao antigo discípulo, posto tenham rolado dez anos, de estrondosos triunfos para V. Ex.a, de silêncio tumular para mim, e peço-lhe que parta também do princípio que voltei definitivamente a página sobre os sucessos, em que V. Ex.a tomou para protótipo Caifás, e eu, como réu de feios pecados de inteligência, apanhei, semelhante aos faquinos dos autos que se representavam no pátio das Fangas, um senhor pontapé na bunda.
"- Ah! ah! cá está ele, escarradinho no estilo arrevesado e pincha-no-crivo. Não se curou o bonifrate". Depois desta breve interrupção mental prosseguiu:
Mas não me confunda V. Ex.a com o Gil Barbosa, o Barbosão, que é também cá da província, também expulso como anjo revel, esse que lhe carreou materiais interessantes para a biografia de Jacinto Freire de Andrade. Lembra-se bem, pois não lembra! Foi ele que se botou a Chã de Tavares, lá no calcanhar de Judas, onde fotografando e medindo o presbitério, metendo o nariz nos potes de azeite da sacristia, palpando os paramentos, engarrafando os ares, por assim dizer, lhe trouxe uma preciosa cabazada de factos e noções. O autor da Vida de D. João de Castro só não ressurgiu porque o meu querido mestre professa um respeito imoderado pela intangibilidade dos mortos, mormente quando envoltos em bandas de incenso e mirra. Menos, de resto, por eles do que pelo justo receio de que cheirem mal e empestem o conspícuo sinédrio da Universidade. Não, eu sou o outro, o heresiarca, que escreveu uma dissertação profusa sobre o humanismo setecentista que V. Ex.a me deu a honra de disseminar, a justo titulo de lição sabatinada e censurada na aula, através da copiosa obra, de que é autor, sobre o Padre Bemardes. V. Ex.a deve estar lembrado que foi precisamente por eu ter comentado, em termos curialíssimos aliás, o hábito jucundo de mandar os alunos saltar à seara moabita apanhar as espigas caídas das mãos dos ceifeiros, e com elas erguer grossas medas panificáveis, que dei no goto do Conselho. Suas Excelências viram nisso um acinte, bem assim o meu querido mestre no que respeita a Jacinto, et pour cause. A partir dessa data o mestre de propedêutica literária passou a tomar de ponta ao conterrâneo e humilde servidor. Injustamente. "Aqui está como voltou a página o grande sacripanta! - pensou Mário Delorme. - Que descoco!" Prosseguindo: Um dos seus colegas inventou mesmo um jack engraçado com que passou a cobrir a manipulação da especiaria assim angariada: trata-se de uma sorte de escote, ou imposto alfandegário, que vertem os alunos à competência e discrime dos mestres. Chamavam-lhe outrora portagem da Ponte dos Asnos, porque aqueles os albardavam e tangiam e ensinavam a pensar e discorrer - ornear, dizia Petrus Ramus, o que eu omiti como irreverente. Pois que o costume se arraigou nas Faculdades e se prevalece de antecedentes consagrados pelo uso nas letras e artes, o broyage das tintas nas oficinas dos mestres, o aplainar das tábuas nos marceneiros, o aprendizado do barbeirinho novo na cara do tolo, ámen.
Voltando à vaca-fria. V. Ex.a não está a par de toda a minha odisseia, e é compreensível, dado que ao Olimpo as nuvens escondem os baixos da crosta terrestre. Saiba por isso V. Ex.a que, depois de ter sido banido da Universidade, tentei ensinar nos colégios particulares a cartilha do P.e Inácio. Mas aí me perseguiu o anátema, convidados, sob capa, os dignos directores a dispensar-me por subversor e incompetente. Incompetente permiti-me não me supor depois que o meu sapientíssimo mestre um dia, na aula, me deu roda de alta inteligência e poder de compreensão raro na filosofia e psicologia da literatura nacional, do que me não desempavonei ainda completamente. De modo que tive de ir acolher-me à casa paterna, tragando o amargoso pão de meu pai regado com o seu suor. Incapaz de secundá-lo na lida agrícola, tive tempo de sobejo para me entregar ao estudo e à poesia. Em matéria de crítica, estou a acabar de compor um estudo, que terei muito gosto em lhe mostrar logo que esteja suficientemente corrigido e rectificado nesta e naquela passagem. Para isso, leio, releio, volto do direito e do avesso os livros do autor versado ou seja o ínclito mestre Mário Delorme. Nele se apontarão as belas qualidades de V. Ex.a e o seu critério tão selecto de antepor o especioso ao trivialmente decorativo, a espada de folha toledana ao chifarote, o cortesão ao homem vulgar de Lineu, a glória épica à platitude dos nossos dias. Como eu compreendo que de gorra com o P.e Rodrigues tenha defendido a aristocratização dum Camões, meio Bergerac, meio dourado parasita da corte, colar de foles, chapéu de plumas, poeta pela arte, arrastando no palácio da Ribeira uma espada sem bocas, comendo cabritos sem cabras ter, e para maior exalçamento amante abstracto duma princesa. E que princesa!? Simultaneamente protectora das artes e a mulher mais rica da Europa, por morte legou tenças a leigo e frade, a ladrão e a escravo, a preto e mouro, e não se lembrou do seu louco e enamorado trovador! A propósito, senhor Professor, sempre chegou a averiguar de que olho é que o cantor da linda Inês era cego? Aceitar que o era do olho esquerdo é pelo menos presumir que fosse homem de voltar a cara, pois que o movimento de cobardia é rodar da esquerda para a direita, face ao adversário. Eu opinei e opino pelo direito, como, quanto às edições de Manuel Gonçalves, opino que a princeps é aquela em que o pelicano olha para a direita, pois que ostenta as gralhas que aparecem corrigidas na edição em que o pelicano olha para a esquerda. Mas isso que importa para a glória de Camões e a felicidade do povo português!?
Mas, vamos ao essencial, o que me traz, já que não tenho o direito de roubar à análise e apostila das nossas obras-primas o fugitivo e precioso tempo. Como disse, trago em mãos um livro de crítica e comento à obra do ilustre Mário Delorme, e completei um outro de versos. Com ele vou concorrer ao Prémio Royal Soconny Oil. Para este peço desde já ao conterrâneo e mestre, que durante algum tempo me concedeu a sua afeição espiritual, o patrocínio depois do abalizado parecer. Nesta nossa terra em que pululam os poetas, a fim, providencialmente dir-se--ia, que se não entredevorem como os memorados grilos do P.e Patagónia, essa louvável instituição dum milionário instituiu um prémio nada despiciendo à obra que obtenha o palmarés. Ouvi dizer, e tenho-o por confirmado nada mais que pela lógica imperiosa dos factos, que V. Ex.a faz parte do júri e é o seu presidente nato. Membros são os discípulos de V. Ex.a ou cérebros formados nos seus juízos, gosto, sentido que professa do fenómeno poético. Ora para que V. Ex.a me patrocine com a convicção requerida, mister se torna que conheça a mercadoria que concorre.
Estou certo de que nenhuma regra da deontologia proíbe tomar dela conhecimento antecipado. Não lhe oculto, também, que professo uma entranhada antecipação nesta sorte de certames contra os conspícuos membros do júri que têm por hábito, desde que se pronuncia o leader ou há que obedecer a santo-e-senha, assinar de cruz, por comodidade ou subserviência.
Mas eu não desejo mais, por agora, do que V. Ex.a aquilate dos meus versos. É proverbial que o meu querido Mestre pega num soneto petrarquiano, bocaciano, camoniano, bocagiano, acaciano e sabe pesá-lo e submetê-lo ao punção como um ourives a qualquer bugiganga de oiro. E é essa análise espectral a que aspiro. Eis as várias e muitas razões por que me permito enviar-lhe debaixo de registo a Gaitinha do Capador. O título é corriqueiro, tirado do lazareto do glossário, mas esclarece do que é a minha lavra poética em gama de toadilha. Com efeito, acontece-me muitas vezes ouvir pelas ruas da aldeia um homem de chapéu braguês, faixa vermelha de três voltas a deslaçar-se da cinta, suíças, jaleco sobre camisa de pescador, a tocar tal instrumento. Vira, vira-vi, castra leitões, especialmente, embora seja competente para fazê-lo a qualquer espécie de bichos, se na nossa capadócia fosse necessário. Aqui está onde fui colher o alamiré.
Se não leva a mal, um dia destes, quando a burra de meu pai, que anda manca, tiver sarado, irei beber dos lábios de V. Ex.a a pura linfa que mate a sede da minha ânsia.

Antigo aluno, grato e admirador de V. Ex.a

Luís Graziel.


Mas que grande mariola!

*

Certa manhã, que o ilustre professor havia terminado o petit déjeuner... Esta expressão dum hábito civilizado, irradiante como tanto pequeno nada que diz respeito à vida francesa, agastava-o no seu orgulho nacional. Mas ainda não topara substituto idóneo na língua que considerava, ele e os mestres filólogos, como a mais rica do Universo, salvo as hindus, intrincadas como a selva e a alma asiática. Pois certa manhã que já havia tomado o leitinho, no português portuguesíssimo da tia Alexandrina, e se preparava para singrar, de sonda na mão, no pélago coalhado de algas e nenúfares em flor do grande padre Vieira, deu fé que batiam à porta. A boa dona, que ele, nas horas de ternura poética, chamava a sua santa Catarina de Alexandria, dirigiu-se à porta, pois que a paqueta pusera-a dias antes na rua por malcriada e caqueira. O seu passinho era surdo e vagaroso devido às pernas anquilosadas e não menos às chinelas que calçava, a fugirem-lhe da ponta do pé. Não havia feito singradura que se visse naquele Amazonas da retórica, e já voltava a tia no seu andar opaco. Ostentava duas perdizes, presas pelo bico a uma vergontinha de giesta que lhe passava pelos opérculos nasais, e um gigo de ovos.
- Trazem-te aqui este presente...
- Duas perdizes?!... Faltam quatro para a clássica meia dúzia das peitas. Ovos, barata feira...
- Fazem cá bom jeito, sobrinho. As nossas pitas estão todas chocas.
- Deu o nome?
- Que era um teu antigo discípulo...
- Oh, com a breca! É o Graziel. A tia disse-lhe que eu estava?
- Olha, disse! Disse que o senhor Professor acabava, na mesma da hora, de se sentar à banca de estudo. Havia de despedi-lo? Se não se apresenta como teu discípulo...
- Está bem, mas eu não lhe ensinei, tia, que começa sempre por dizer: não sei, vou ver... O senhor Professor às vezes sai pela porta travessa... O homem ficou à espera?
- Está a prender o cavalo.
- Só eu estou guardado para estas buchas!... - exclamou bufando. - Nem aqui, a mais de cinquenta léguas de Lisboa, me deixam em paz! - Deu um murro na mesa, e aliviado, vendo conturbada a velha senhora, suspendeu-se de dar segundo... Mande lá entrar... Mande lá entrar o homem!...
Entrou o autor da Gaitinha do Capador, em que, só anunciado de antemão, podia reconhecer o seu antigo discípulo da Faculdade de Letras, indómito sacripanta e pintalegrete. Pareceu-lhe escalavrado do físico, mal vestido e pior calçado, em degradação manifesta. A cabeleira opulenta cortada à escovinha. Só o olhinho guardava o lume primevo, chispante e facecioso.
- Viva o meu amigo! - exclamou, avançando ao seu encontro, depois de poisar pressurosamente no livro aberto, a marcar a página, a régua de desenho.
- O senhor Professor são como um pêro? Nem os cabelos lhe distingiram mais. Óptimo! Óptimo! Estimo para maior glória da nossa terra...
- Não diga isso! Sinto-me velho, alquebrado... A memória está-me um cesto roto. É o desgaste natural de todo o extroverso, que ousou representar no teatro do mundo...
- Admirável conceito! Sim, extroverso... Extroverso, que derrama por fora: o leite ao lume que levanta com a fervura, o vinho mosto que salta pelo batoque, a schwartz bier que trasborda da caneca e o champagne bien sablé da taça, os neomalthusianos... Metaforicamente falando, os que se dão ao mundo, existem pelo mundo e no mundo, não é?
- Sim, pode ser isso e mais alguma coisa. Mas adiante. Para que se esteve a incomodar? Na vila também é fortuito arranjar perdizes...
- Para o senhor Professor até faisões. Que é o que V. Ex.a não é capaz de arranjar?! Estas cacei-as eu próprio na tarde de ontem. Costumo fazer melhor cinto, três, quatro, mesmo mais. Mas fazia um vento levantisco, ácido como diabo, e a esta altura, que já andam escarmentadas e bravias de asa, levantam longe. Quando se mete a espingarda à cara, estão fora de tiro a tanger os tintinábulos. Perdoará a pouquidade. Por isso minha mãe foi buscar os ovinhos frescos para o almoço de V. Ex.a, os clássicos ovos provinciais oferecidos do coração, que não os esgorjados da Mofina Mendes.
O senhor Professor deixava-o falar, um pouco ofuscado, outro pouco a ver reemergir daquele pseudo-campónio o petulantíssimo discípulo de Letras.
- Muito obrigado. Então o Sr. Graziel vem saber a minha opinião sobre o seu livro, não é ? A falar verdade, mal o pude folhear. Todo o meu tempo é pouco. A Editorial, para que trabalho, não deixa passar dia que me não pique para lhe fornecer material de composição a tempo e horas. Chega-se a perder o fôlego com empresas tão insaciáveis e já tive de lhe dizer: não há mais escoliastes na nossa terra?
O senhor Professor ia-se auto-regalando no seu estilo rigoroso de lente. Sem querer, deixava-o transparecer como certas cocotes que mostram as belas unhas pintadas.
- Isso há! mas nenhum tão completo como o meu antigo professor, exímio no jogo das ideias e soberano da sua concreta realidade individual...
- Ora, ora, há muitos e a lampar...
O ilustre Dr. Mário Delorme, isto dito, desatou a mexer na papelada com um intento bem objectivo, enquanto Graziel pronunciava em oitava baixa:
- Lampar... lampeiro, lampião, lampadário, lampanas, lampo, figo lampo... tudo, não é, senhor Professor, do velho lampo, as, are?
O Mestre sorriu, sem responder, àquela curiosidade ambígua que lhe conhecia, não se via bem se infantil, se desfrutadora, exumando da mesa babélica um cademo em papel de 25 linhas cosido com retrós vermelho.
- Aqui está o manuscrito...
- Estou a ver!
- Que quer o meu antigo discípulo que lhe diga?
- Quanto à versalhada, pouca coisa, pouca coisa. Tem ao menos algum interesse?
- Vamos por partes. O senhor não podia descobrir título mais... como hei-de eu expressar-me?... Mais, quer dizer, menos obnóxio? Gaitinha do Capador?!... Não lembrava ao Diabo!
- Pois não lembraria, que o Diabo é bota-de-elástico. Mas lembrou-me a mim que sou criatura de Deus, baptizado, é certo que sem ninguém me consultar nem até esta hora ter ganho nada com pertencer ao Grémio de Igreja. Mas não vejo qual a causa por que ficou tão assarapantado o meu ilustre Mestre...
- Homem, deve reconhecer que o título não é decoroso. Pode supor-se uma menina, educadinha... de boa família, hem, com um livro desses na mão!? Ou mesmo uma estudantinha do Liceu ou das nossas Faculdades a pedir numa Livraria do Chiado a Gaitinha do Capador...?!
- Justa, naturalíssima observação, concedo. Mas é que eu pretendendo focar "a adequação do momento em que vivemos à sua própria realização em plenitude", para empregar os termos excelsos do meu querido Mestre, utilizei os naipes fundamentalmente etnológicos do folclore lusitano. Vejo-o com prazer agora confirmado pela sua boca. A boa educação vocabular não existe em termos de arte. O meu Mestre é a ordem positiva em religião, política do espírito e dicionário. Perfeitamente, eu continuo a não ser previsto. Como é que a minha tese, aparentemente tola e subversiva, de que a opinião comum em literatura se formou sobre críticas e julgamentos de cretinos, não havia de revoltá-lo?
- Aconselhei-o, se bem me lembro, a que substituísse cretinos por medíocres. O senhor, na sua soberba, nem essa concessão quis fazer...
- É facto. Mas cretinos era o termo justo. Eu o que propugnava era por uma revisão de valores...
- Imagine onde isso levava, segundo os corolários que o meu discípulo deduzia! Cancioneiros ao ar, épicos, salvo Camões, ao ar, Bemardim, Garrett, Castilho, Júlio Dinis, ao ar...
- E então? Assim a minha tuba fosse a de Jericó! Toda a nossa literatura pede um terramoto como o de Lisboa em 1755.
- Ah! ah! Eróstrato...?!
- Com essas e outras é que V. Ex.a me lixou...
- Mas voltando ao nosso quid. Condeno in limine o título Gaitinha do Capador...
- Ainda não compreendi porquê. Não é assim que o nosso bom povo - como dizem os sábios da Academia e os deputados de S. Bento - chama ao instrumentinho de beiços, de tubos desiguais, feito de lata ou de cana, com que são convidadas as donas - vira-vira, vira-vira - a capar os animais, favorecendo-lhes o crescimento, com preservá-los das turbulências do vício sexual? Porque não hei-de empregar o vocábulo, se é corrente, se é o único corrente?
- Está relegado ao lazareto!
- Que critério de falsa decência, santo Deus! Ainda nisto se vê a psicose da obscenidade que atormentava os frades ou os pregadores, que foram os primeiros a mexer no léxico. Sempre queria que me dissessem se a imagem da realidade pode limpar-se do que tem de sujo a própria realidade. Se em vez de Gaitinha do Capador, empregasse Gaitinha do Castrador, a operação ficava em si mais ensaboada? Não vejo como a pudicícia verbal possa expungir da ideia o que comporta de torpe ou freudiano. Porque há-de ser nestes actos da vida rural mais decente castrar do que capar?
- Convencionou-se... Há que respeitar as convenções que encerram às vezes o mel venusino, que adoça a vida, e têm a força estática de montanhas.
- Pelo que me diz respeito, peço licença para discordar... Gaitinha do Capador dá, com a cromática verbal, a simplez e, acima de tudo, a modulação rústica dos meus versos. Por isso emprego a denominação, e por nada deste mundo a modificarei. Nunca reparou para um capador a tocar a sua gaitinha, por um dia de sol, em pleno dédalo da aldeia? Realiza-se ali a anastomose da natureza com a prática a efectuar que nem a de Cristo com a Eucaristia.
Mário Delorme riu do espalhafatoso da comparação e pronunciou com plácida e contemporizante doçura:
- Sempre com ideias ímpares este Graziel!
- Ímpares? E as pares? Que é isso, senhor Professor? Ah, já sei, é um bill ao Rodrigo das Abóboras. Foram colegas, compreende-se. Ele é o autor dessas e doutras admiráveis fioritures do estilo. Pois repare o meu querido Mestre, na minha linguagem como nos meus escritos há tantas ideias ímpares como pares. Mas V. Ex.a deu-se ao incómodo da matutar sobre o título de Gaitinha do Capador... noto-o com desvanecimento...
- Não tinha que matutar. E com franqueza lhe digo, o título provocou-me uma má disposição que se não dissipou com a leitura. Porque não lhe chamou antes Flautinha de Pã? Hem? Repare que nome tão gracioso que me acudiu!... Não gosta? E Siringe do Fauno? Não é mais bonito?!
- Confirma-se que esteve a meditar no título e, por dedução, na minha ervilhaca... Agradeço-lhe muito, mas crismá-lo nem a pedido do Cerejeira. E que me diz dos versos?
- Devo dizer-lhe, antes de ir mais longe, que não me repugna a poesia moderna, mormente a abstracta, para que se podem encontrar duas, três, ou mais explicações subjectivas.
- Ao gosto do freguês?
- Ao gosto das almas poéticas, hipersensíveis. Agora se o meu antigo discípulo, que eu tanto aprecio pela inteligência aguda e original, embora me tenha dado o grande desgosto de me obrigar a tomar uma atitude severa, quis fazer livre-versismo, porque conservou a rima?
- Precisamente porque sou partidário do livre-versismo. Se o não fosse, teria abstraído da rima.
- Não alcanço...
- É fácil de alcançar. A ideia de liberdade tanto implica saltar todas as barreiras convencionais, como só duas, como só uma. Deitei todas ao vazadoiro, menos a rima.
- A odiosa rima?
- Para não ficar a odiosa prosa. Eu aspiro a que os meus versos soem como as campainhas das vacas, as garridas das catedrais, como as cortinas venezianas de tubos sonoros às portas dos barbeiros.
- E isso é poesia?
- E é poesia essa especulação acefálica, apodética, cata vêntica onde o estro super-realista parece ter voltado ao caos do verbo?
- Abre os horizontes da imaginação...
- O meu ideal era não fazer mais que virelais. Mas a simplicidade que exige não é compatível com o nosso eu de complexos, muito mais depois de roçar os calções nas bancadas duma Faculdade portuguesa. Mas parto de duas ou três ideias elementares, cândidas como a de Branca Flor entre os anões, glosadas ao som da gaitinha de beiços, tangida por um Sileno de aldeia.
- Estou a redescobrir o meu antigo aluno... Como a índole do homem é menos inflexa que o aço!
- Esse aluno que se aprouve reprovar, hem?! Nada disso, nada disso. Por esse pode o meu ilustre Mestre rezar-lhe o De profundis no cantochão de subdiácono. Sucumbiu de morte de macaca. O Graziel que aqui vê, caçador, a cheirar ao terrunho - ainda ontem ajudei o abegão a regar o meloal - é muito outro; o que pretende é resgatar-se. Antes de mais nada, tenho em vista reembolsar meu pai de cinquenta contos que gastou comigo e pelos quais me pergunta de quando em quando. Para lhe falar franco, o meu propósito básico é governar-me. Foi por isso que me preparei para o prémio de 50 contos da Soconny e tenho em mira levantar o ramo. Este ano ganhou-o um poeta que tem talento deveras, e eu, se o meu ilustre Mestre entender, terei também talento, talento como burro, o que baste para ganhar essa pequena taluda. Está a adivinhar onde quero chegar?... O meu prezado professor, repito, faz parte do júri, é o seu presidente nato, e que não fosse, todos os membros estão impregnados do seu espírito e, conformemente, predispostos a pronunciar os seus juízos. Basta que proclame urbi et orbi, numa daquelas suas frases, que só de ouvi-la parece emprenharem as sete musas: "a poesia pura, no conceito que dela hoje fazemos, visão maravilhosa ou magnificente da Vida, êxtase, perturbação interior da presença do transcendente, dificilmente exprimível pelo discurso lógico, sugestão mais que representação do inefável, encontrou em Graziel", patati patata...
- Já sei, já sei...
- A bela frase não acabava ali. Deixe-me puxar pela memória... Ah, "essa poesia pura que acorda no mais fundo e recôndito mundo interior ecos reveladores das profundidades abissais, em que o homem se desindividualiza no ser, e a música verbal, dir-se-ia, fundir-se na harmonia das esferas, essa, bem se compreende seja como ave melindrosa afugentada por tal ruído". Uf, o meu caro Mestre tem fôlego. Custou-me a fixar. É bem assim? Veja como o admiro! Pois basta, torno a dizer, que o meu querido Mestre entorne da sua cornucópia preciosa sobre a minha cabeça de neófito semelhante linfa lustral, e está resolvido o problema. Está resolvido o problema - rematou em voz surda e rebolando o olhinho fúlgido - e o meu querido Mestre reabilitou-se da prepotência que cometeu para com um discípulo que, na sua candidez, até lhe forneceu especiaria para o sapientíssimo sarapatel...
Mário Delorme viu-lhe fuzilar no olho a terrível chispa dos loucos e iluminados e obtemperou com circunspecção:
- Mas o senhor pedia apenas a minha opinião crítica...
- A opinião crítica, sim, como base desse movimento de generosidade e reparação, de que julgo capaz uma consciência de lente que não passou por Coimbra. Tenho uma necessidade imperiosa de ganhar o concurso para tirar dois terços para meu pai e com outro terço poder pisgar-me desta capadócia sem igual.
- Deixe lá que há pior. E capadócia porquê?
Graziel olhou para o Mestre e não respondeu. O Mestre folheava o livro com mão meia desenfadada, meia complacente. Graziel murmurou:
- Os concorrentes caem de cu.
- Há muito que se lhes diga nos seus versos - proferiu ao cabo dum longo silêncio o Mestre intemerato, e a sua voz soou como as badaladas das Almas no crepúsculo dum ermo.

*

Mário Delorme pôs-se a ler alto numa voz rouca, encatarrada, horrível, capaz de converter em chocalhada de bardo as estrofes esfuziantes de António Feijó:

MORCEGO, MORCEGUINHO

Morcego, morcego,
vem à cana que tem sebo.

Pequenina sombra gris,
ambulatriz,
saltatriz,
de noite mal riscando o céu
ao bateres o véu,
cor de breu,
das asas em membrana
- leve tarlatana,
macia camurça -
montada em varetas
como as cetinetas
dos guarda-chuvas,
à cana irás dar?

Isso vais tu,
que tens um radar
para na noite de ébano ou acaju
não errar!

Todo às avessas,
sem vagar nem pressas,
volante,
lactante,
com os filhos nos flancos
como os ciganos e saltimbancos,
nem ave nem rato,
até dormes de cabeça para baixo
acrobata abstracto!

Feio salta-pocinhas,
perpassas de vasquinhas
como as huris
carregadas dos rubis
que são as estrelinhas
deslocando-se por cima de ti
a observar-te na dança de alfaqui.

Bichinho simpático,
tão discreto na caça irreal,
nada mais injusto
que te darem foral
de agoureiro e lunático!


Graziel esteve tentado, várias vezes, durante a leitura, a arrancar-lhe o original das mãos e a fazer-Ihe ouvir os versos repassados por voz decente. Mas limitou-se a soltar um grunhido de cão pisado na cauda.
- Aqui há certas imagens pretensamente poéticas encaixilhadas em madeira de pinho com a casca - exclamou com acrimonioso topete de lente. - Que mau gosto em falar nas varetas dos guarda-chuvas quando tem a linda e sugestiva palavra de umbela? E aquele horríssono salta--pocinhas, corriqueiro e mal-cheiroso? Só quero que me diga, o morcego merece tais esmeros?
- Realmente eu podia ocupar-me de preferência com o flamingo ou o pavão. Puxou-me para ali. Tenho uma dívida para com os morcegos. Na cadeia, onde estive preso dois anos - veja o meu querido mestre onde me conduziu, elo a elo, o estouvamento de escolar - consegui domesticar um. Teria morrido de tédio, se o pobre bichinho não me fizesse companhia a certas horas, pendurando-se-me do dedo. Era ele que me advertia, furando pelo ralo, da espionagem dos guardas, tão importante para mim que eu andava a preparar a fuga que, afinal, levei a cabo. Sabe que fugi do calabouço, me exilei para Paris, arrastei por lá muitos anos, sabe Deus como?
- Sei muito bem e lamento que, mercê de sua cabeça, só fosse restituído à sua portela natal através de tão ínvios caminhos. Saiba que eu, no fundo, estimo-o e admiro-o.
- Muito obrigado. Por agora o que me interessa é que me admire, não apenas in peto, mas coram populo et senatu consulto.
Mário Delorme esboçou muito ao de leve um ar de impaciência, logo reprimido, que significava: coragem, professor jubilado, tens de levar a cruz ao Calvário. Mais uns minutos de longanimidade. Abriu o caderno mais longe. Depois de uma breve pausa, pôs-se a ler A Cana do Canavial. Lia, decerto com acinte, tão torpemente que Graziel teve a impressão de que era uma malhadeira mecânica que estava a debulhar o seu verso como fazia às fachas de trigo.

A CANA DO CANAVIAL

Parei à beira do verde canavial
a olhar para a cana real das canas,
com todas as oriflamas
a adejar ao vento mistral.

- Ó cana real, quem te mandou aqui vir?!
pergunta o cantador,
como se fosses de carne e osso
e viesses, afrontosa,
lembrar algum moço
que por teu amor
tivesse fugido para Ofir
ou terra assim tenebrosa.

Nasces e vives à beira dos chafurdos,
ó planta inspiradora de absurdos,
e, como tal, és joguete da imaginação
contra o bom senso e a luz da razão.
Mas estás perdoada porque contigo fabricou
a alegre gaitinha o deus Pã,
e cansas o vento a bater o cancã.

Viras, reviras, torces como as cobras,
vai-se ele, tu a rir: não me dobras!
Em vez de sombra, dás loucas ideias,
ó mais esquisita das cananeias!

Não saíram de canas as cananeias,
lindas mulheres da Terra Santa,
fáceis, segundo a Escritura, a pintar a manta?

Também da tua cabeleira de cigana,
como levada nos frufrus da pavana,
quem não há-de ouvir no sussurro
o refrão: Príncipe com orelhas de burro!

À força de andares em trabuzanas,
ó cana, real, ó cana,
deram contigo em pantanas
convertida em zarabatana!

Foi também a cavalo numa cana
que aprendi a trotar ao redor da ama,
e que as bruxas vão para o Sabá
quando falta em casa o piaçá.

Caninha de verdes galhardetes,
quando subires ao ar em foguetes
que, estoirando, divertem o orate,
já que em ti tudo é disparate,
eu te saudarei, cana, real cana,
como à musa do marquês de Santilhana!


Uma vez concluída a leitura, depondo o manuscrito na mesa de cerejeira, disse para Graziel, postado diante dele em atitude expectante:
- Como apelou para a minha sinceridade...
- Perdão - atalhou Graziel - não apelei para a sinceridade de V. Ex.a. Tal estado de consciência não tem nada que ver com um julgamento crítico. Apelei para a boa vontade do meu antigo mestre.
- Seja. Como apelou para o meu tribunal...
- Tribunal, tribunal, é como quem diz. Onde estão as testemunhas?
- Como entendeu ouvir-me...
- Sim, senhor. E então?
- Como entendeu ouvir-me, devo confessar-lhe que isto, o Morcego, a Cana, me parece poesia feita a machado...
- E eu estive a fazer cavacos... poéticos...?
- Não é bem assim. Esteve a brincar com a tropa.
- A tropa lírica?
- Sim, porque a outra, a que vive em quartéis e constitui a ossatura da Nação, lê Os Lusíadas, e não precisa de melhor inspirador para cumprir o seu dever.
- Que dever?
- Defender a Pátria, a ordem, os legítimos interesses criados...
- Tinha-me esquecido que o meu mestre foi primeiro-cabo na Grande Guerra...
- Sargento... sargento, e até possuo a Victoria Cross.
- Lá que se havia comportado heroicamente soube-se com a notícia de que trouxe o Rodrigo às costas da terra de ninguém... siderado com a frousse!
- Que insídia!
- Perdão, perdão, foi dos logradoiros de Coimbra para os bas-fonds do Convento de Jesus.
Mário Delorme sorriu-se, mas a sua tez anegralhada tornou-se verde. Era homem pacífico, mas se impunemente, sem prejuízo da sua reputação de íntegro cidadão, como na fabulada maneira de matar o mandarim, pudesse liquidar aquele pantomineiro, liquidava-o. Por isso com suavidade, um resto das pipas de suavidade evangélica que lhe tinham feito beber no Seminário, volveu:
- Dizia eu que a sua poesia me parecia feita a machado. Então, diga-me lá, pode tratar-se assim uma velha canção nacional, do mais lídimo folclore, provavelmente já cantada por D. Teresa ou Tareja nos Paços de Guimarães?!
- É verdade, é verdade! Eu devia ter metido em nova rima o Bendito e louvado seja.
O lente olhou muito para ele a assegurar-se do quilate daquela condescendência e surpreendeu-lhe fulgurante o corisco da pupila dementada. Pelo que decidiu enveredar pelo caminho de Damasco:
- A poesia tem salvo-conduto para todas as regiões. Mas o amigo e senhor Graziel excedeu-se... excedeu-se. Logo na 2.a estrofe faz da Cana uma espécie de rameira, com o lenço a fugir para as costas, chinela batente, que vem pedir satisfação ao chulo. Aquilo de cansar o vento a bater o cancã tresanda, por cima do estrambótico, a ritmos vedados em casa das toleradas. E associar a Cana, assim entrevista, à ideia das cananeias, as santas mulheres que mataram a fome a Cristo e aos Apóstolos, e que foram as primeiras, depois da Revelação, a entrar no Reino dos Céus, passa as marcas. Aconselho-lhe que elimine esta poesia do seu florilégio por indecorosa e sacripanta. E uma pergunta: quem é este marquês de Santilhana?
- Eu lho farei saber por Lesage, meu ilustre Mestre.
Delorme tornou ao manuscrito e leu:

NO SÓTÃO DO VIGÁRIO

Na residência, lá para o sótão, do vigário,
cheio de papéis, móveis cambados, um armário,
uma rata sábia teve a ninhada:
quatro ratinhos, cedo mestres na alhada.

Um deles, padre fora, foi-se ao queijo
e deu-lhe um reverendíssimo varejo;
outro, que nasceu sagaz do bestunto,
teve artes de ir à selha e fartou-se de unto;
o terceiro, co'a fome, roeu o saiote à ama,
quando, a tremer de frio, se metera numa cama.
O quarto engoliu uma migalha de raticida,
e acalentava-o a mãe entre a morte e a vida.

Nisto, pela tarde,
no sótão do padre,
quando o guloso cantava,
ladrão fino ria e valsava,
e o outro, com o pai ratão,
aprendia violão,
um morcego surge no ar
de cá para lá a cirandar.
Pôs-se a segui-lo o ratinho
de olhos abertos, maravilhados -
Delírio, sentidos espertos cem por cem? -
desatou a gritar: Senhora mãe!...
Senhora mãe! Olhe um anjinho!


Fitando-o com fisionomia sorridente de magistrado que tem o juízo formado e a consciência tranquila quanto à verdade verdadeira, emitiu Mário Delorme:
- Esta poesia ultrapassa, em topete, as produções mais libertinas do Bocage. Se não tivesse sido abrogado o Santo Ofício, o senhor Graziel ia lá malhar com os ossos e a sua lira ratazanal. Por muito menos figuraram nos autos-da-fé os escritores taxados de heterodoxia. Concebe-se, pode-se futurar nada mais voltairiano do que esta comparação do anjo com o morcego...!?
- Mau Maria! O meu querido Mestre está a olhar pelos seus olhos de lente século xx, ou pelos olhos vesgos dum inquisidor? Eu não comparei. Diga-me, faça favor: na imaginação dum rato, supondo que a tinha, que representação mítica eu lhe podia atribuir de um morcego, a sarabandear por cima dele, que não fosse a de ser alado, habitando o mundo celestial, destes que vêm, de facto ou em sonho, pouco importa, pairar sobre a terra para êxtase dos mortais? A que título acha o meu ilustre professor que, debaixo do ponto de vista teológico, admitamos, a imagem que empreguei é sacrílega?
- Pois que o amigo é o próprio a fornecer a classificação, eu abundo. Sacrilégio e digo mais, irreverência com todas as letras. De resto, o espírito sicofanta lá está a espreitar nestoutro verso: o terceiro, com a fome, roeu o saiote à ama...
- Nego - prorrompeu Graziel com arrebatamento - que a Censura, qualquer Censura, encontre aí pretexto, sequer, para meter a faca. Eu não especifico que natureza de ama é essa que está ao serviço do vigário. Mas, o olho vesgo das pessoas de bem e almas puras o que lobriga é uma Felícia à Eusébio Macário, quando a verdade é que tanto se pode supor essa como uma respeitável matrona, velha como a Sé de Braga e que ainda tome esturrinho. Acaso hão-de ser talhadas todas pelo padrão camiliano?!
- Fica uma larga margem para a interpretação malévola. Ama de vigário é sempre contrabando para a nossa literatura de pé-fresco. Mas quero crer que no engendramento dos seus versos lhe ocorresse a ideia duma boa e inocente velhinha, ah, ah, dessas que passavam o tempo, sentadas ao borralho, ah! ah! a desfiar o rosário de Nossa Senhora...
- Nem mais. Ou das velhas que adormeciam, depois de coçar as pulgas, no seio das Onze Mil Virgens.
- Adiante. Reputo inconciliável, salto estapafúrdio de todo, essa passagem do fabuloso: o ladrão fino ria e valsava para o realista mais americanizado dos nossos hábitos: O quarto engoliu uma migalha de raticida. Antipoética a mais não poder! É como caldear o bronze com o barro.
- Assim reza a Bíblia da estátua de Nabucodonosor. Mas, não reparou, senhor Professor, que a ciência, hoje, executa toda a espécie de soldaduras que possa necessitar o freguês...?
- A imaginária humana parou nesse livro e daí não deu passo...
- Cristo pairava em helicóptero por cima do lago de Tiberíade?!... Mas, para não nos perdermos em divagações, qual é, em síntese, o parecer do Mestre quanto à versalhada? Punha-a no Índex?
- Por amor de Deus, não se trata de aprovar ou condenar o seu livro. Aponto-lhe as malhas rotas ou mal urdidas, a meu ver, de que enferma...
- No júri, rejeitava-o?
- Seria ilusório, não leve a mal que lho diga, contar com o meu voto.
- De modo que o meu fim irremediável é soçobrar...?
- O senhor é um homem novo... cheio de vitalidade... Tomara-me eu nessa idade que seria o rei do mundo!
- Rei do mundo é muito cobiçar, mas rei da madureza, com uma cana verde a fazer as vezes de ceptro, porque não? Ao Mestre basta-lhe ser príncipe do espírito com o sol a pino!
Mário Delorme largou uma breve e convicta risada. Foi a primeira vez que se não pôde coibir de descerrar as mandíbulas de cabrito esfolado, e os zigomáticos se lhe soltaram para deixar às escâncaras a alma desvanecida.
- Mas vamos a ver mais algumas composições... Pode ser que o meu pessimismo se desvaneça!

*

Mário Delorme tornou a pegar do manuscrito e forçou-se a ler. Leu um pouco melhor, enquanto o olhinho de Graziel luzia como pedaço de vidro exposto ao sol no meio dum campo:

Era uma vez um velho orango na Madragoa
que via o mundo ao avesso de qualquer pessoa,
e, porque tivesse olhos tortos e boca de viés,
tudo obrigava a és-não-és.

Era deste jeito a sua fala,
esquipática como o fogo de Bengala:

Meus anjos, pouca bulha,
os cegos enfiam a agulha.

Os viúvos parem com a zanguizarra,
que os surdos afinam a guitarra.

Apuradas bem as contas,
o boi de Muge tem duas pontas.

Corra o coxo a chamar o médico,
aleijou-se um ás do Atlético.

Caluda! Está um padreca mudo
a pregar o sermão do Entrudo!

- Pode o direito ser tão recto
como um homem parecer insecto ? -
rosna, zangada, a bruxa vesga
ao ir do Rossio para a Betesga.

Ao ouvir-lhes a treta,
como se fosse à letra,
ri o do Porto
para a patroa:
- Lá por Lisboa
tudo anda torto.


Mário Delorme depôs o manuscrito e proferiu, fitando-o muito nos olhos:
- Palavra de honra que não compreendi. Agradecia se me dissesse onde quer chegar. Quando muito, transluz nestes versos - versos, é favor! - uma intenção de malignidade que se não compadece com um cérebro lógico e sem teias de aranha. Coisas ao viés há-as em toda a parte, mais que na nossa Lísbia amada, em que predomina a geometria e a clareza debaixo do sol meridional. Para bem me exprimir, o amigo recorre a pensamentos que não são mais que salitrações... ou antes, helmintos de cérebro rancoroso. Com muita pena, tenho de fulminar; donec corrigatur.
- Evidentemente. Não foi subdiácono, antes de reger uma cadeira na Faculdade, o meu ilustre Mestre?
- Eu não lhe admito insinuações.
- Nem eu ao senhor. Tudo se me pode assacar, menos obliquidade no carácter. V. Ex.a não percebeu que o meu intento foi rir-me dos bilontras e de toda a cambada de nossas avós tortas que andam a encalistar o mundo!?
- Acha que são risíveis os nossos venerandos progenitores?
- Acho que eram supinamente idiotas... Quer os meus... quer os de V. Ex.a...
- O senhor está a delirar...
- Admira que um espírito tão cosmológico, entranhado de existencialismo, me não compreenda...
- Não senhor, não compreendo, nem quero. Se me pede uma opinião sincera sobre as suas produções, particularmente sobre esta, condeno-as in limine - completou com redobrada acrimónia.
Graziel ficou a contemplá-lo com pasmo, numa postura tão contendente de expectação, que o mestre julgou a bem de possíveis percalços corrigir o veredictum:
- Parece impossível que, possuindo o senhor Graziel real talento, não sirva as musas de luva branca como Petrarca, como Camões, como Nobre, como Pessoa, em vez de se revestir desse balandrau, atirado fora, de Baudelaire. Ó senhor, faça poesia poesia; por exemplo, poesia abstracta, decompondo os sentimentos e as aspirações de hoje em triangulações de psicologia espacial, binómios de estética; faça metafísica oniromântica, em vez de deixar ir a inspiração pelos trilhos triviais como tesoiras que talham no papel e recortam rosáceas patuscas, é questão de dobrá-lo muitas vezes em sectores circulares sobrepostos... O conselho de tolo ou de amigo que lhe dou é: atire-me fora com esse cálamo satânico que escreveu a Gaitinha do Capador. Tal género de lírica não o leva à Academia.
- Só quero que me leve à conquista do velocino da Soconny.
- Não pode levar. E, olhe lá, porque não escreve romances... novelas...? É incomparavelmente menos responsável.
- Nasci poeta. Nasce-se poeta como se nasce com uma geba. O canudo da fatalidade! Pois não reparou o meu querido Mestre que toda a minha vida é a ária da Gaitinha do Capador? Falta-me puxar da lanceta...
- Meu santo!... - e o Dr. Mário Delorme abria os braços como no orate fratres.
Graziel olhou-lhe muito fito para as mãos patudas e sorriu. Aquele sorriso induziu Delorme a que também olhasse. Viu-se os dedos grossos, mas não tornos, as unhas cascudas, mas longe de solipedais, evolução fisiológica de um homem fugido à estirpe de húmus e fanga, no ponto em que se pudera desemborralhar de tal servitude para a ascensão. Mesmo assim tomou-se de grande engulho contra o homem abusador e yoakanesco, que não soubera grimpar ao mastro social, e chamava os fantasmas. E com fastio ouviu que lhe lançava em tom de achincalhe:
- Dou conta que não posso contar com a imparcialidade, quanto mais com a benévola atitude do ilustre conterrâneo...?
- Imparcialidade!? Fuja que ela deponha!
- Ora, ora! Eu conheço os caminhos sinuosos que costumam calcorrear, até alcançarem os seus fins, os honestos pensadores da nossa terra...
- Que quer isso dizer...?
- Quero dizer que me é indispensável receber o prémio para poder deslizar en doux, para longe da Capadócia. E não me resigno a que o meu ilustre professor não tenha a cativante bondade de ser o moderador plástico da minha modesta pretensão. Parta do princípio que eu sou homem de génio...
Mário Delorme viu-lhe fulgurar a pupila. Que espécie de génio? Estro ou ânimo colérico e vingativo?
- Mesmo que quisesse, não saberia como lhe pudesse valer. Creia que a minha influência não é tão grande como se apregoa... Por outra, não é seguro que eu pertença ao júri...
- Não encontram ninguém mais apto para esses fretes honoríficos... embora tão disputados. Tenha o meu querido Mestre empenho em me ser útil, que há muitas formas. Estou a encarar outra solução ao problema...
- Sou todo ouvidos.
- O meu preclaro Mestre, que, segundo é corrente, está podre de rico, não me podia abonar a importância referida?
- Acuda Deus às faltas, senhor Graziel.
- E abrir-me crédito?
- Quem fia a um mestre-escola e homem de letras em Portugal?
- Ora, ora... Sabe-se que V. Ex.a ganha a vários carrinhos. É económico - honra lhe seja. - A economia, que é a mãe de todos os vícios, podia faltar num protótipo da sapiência lusa como é o grande Dr. Mário Delorme!?
Perpassou uma larga pausa, enfadonha e contraditória. Graziel ria ou falava sério. O professor visivelmente contraído por um lado, intimidado, por outro, com a ideia de desmerecer da turiferação de Graziel, pôs-se a procurar a decifração do quebra-cabeças no soalho mal lavado da casa provincial. E, automaticamente, foi conduzido a pegar de novo no manuscrito, curvando-o na mão e proferindo a meio tom, tão aéreo que nem que fosse o eco da voz íntima:
- Era preciso mondá-lo, mondá-lo a fundo. Também não exageremos. Algumas belezas tem. Coisa alguma da Criação está desprovida da graça... de Deus.
- Mas o meu querido Mestre não leu tudo. Leia ao menos a poesia final - proferiu com voz aliciante.
E, mais para ganhar tempo e robustecer uma evasiva, começou a ler em tom de sarau, como se tivesse damas postadas em roda a escutá-lo para o aplaudir:

AS MINHAS DUAS SEVILHANAS

Cobiçoso como era, primo Zé Cunha
tirou-ma e pôs-se a aspar na unha:
- É boa para cortar - bem vedes -
requeijão e sombra de paredes...
- Larga lá!... Fui ao amolador:
- Afie-me esta navalha, tio Heitor...
Ficou a cortar tão bem que primo Zé
uivou, em risco de dar um talho: Ué!
Escanhoou um migalho do braço...
Apareceu mais nu que o cangaço.

Deitada na palma da mão,
o cabo a fugir para o canhão,
jogava-a ao alvo como ninguém.
A dez passos cravava-a num redondo
que não seria maior que um vintém.
E ficava a vibrar, sem estrondo,
orgulhosa do seu fino aço
e do mandante de certeiro braço,
a minha sevilhana de ponta e mola,
três estalos, pé-de-cabra, argola.

Perdi-a, na sazão dos verdes anos,
sol nascente, manhã com enganos.
Comprei outra. Assim me pudesse ressarcir
em força, sonho e sentir.

Esta requer destreza de capador.
Comigo para que pode ser boa,
além de partir queijo e broa?
Cortar uma orelha a um benzedor.


Ao terminar a leitura, Graziel meteu a mão na algibeira e puxou da navalha:
- Quer ver?
Com os seus vinte a trinta centímetros de comprimento, cabo de falsa tartaruga, folha lampejante, soltou os três estalos da lei. E, deitando-a na mão, revestiu a forma caprichosa da surucuá-de-barriga-amarela, alteando o colo para ferrar.
- Muito bem, muito bem. Em nome da Pátria, poupe-se, tem obrigação de poupar-se. Todo o seu sossego é ganho para a Nação.
- Mas voltando ao nosso caso - tornou Mário Delorme, visivelmente sensibilizado. - Quando se propalou de que missão fui investido pelo presidente Tchombé, deu-se uma corrida de cem cães a um osso... ou melhor, dois ossos. Um dos lugares tem dono, o meu discípulo amado, o Moreira Bamba.
- O Moreira Bamba? Mas o Moreira Bamba é um asno à espera da albarda...
- Para o Catanga está muito bem. E é meu amigo! Também lá asno chapado, chapado, não me parece, senão não estava em vésperas de receber capelo em Coimbra. O senhor aceita, está bem de ver...
Graziel abria e fechava a navalha, dir-se-ia divertido a ouvir-lhe os estalos. E pôs-se a bambalear a cabeça:
- Não, não vou na fita. O meu querido Mestre, com a sua boa vontade, o seu prestígio, vai-me mas é ganhar o prémio da poesia. Prefiro. A poesia é uma arte que suporta todas as opiniões, louvores a Deus. Convença-se de que ressurgiu o Bocage... o Villon. O senhor deve-me esta reparação... O senhor Professor Mário Delorme deitou-me a perder...
Os olhos saíam-lhe das órbitas. Espumava.
- Ó homem, eu farei todo o possível por que lhe dêem o prémio, está bem. Vá, comprometo-me! Não quero que o patrício se queixe do patrício. Mas aceite também o lugar em África, já que se quer ver longe da piolheira... Não é como o senhor lhe chamou, piolheira?
- Não, senhor. Piolheira, chamava-lhe D. Carlos. Mas, diga-me lá V. Ex.a, esse lugar em África é coisa segura?
- Seguríssima, senão vai ver. Eu passo-lhe um cheque sobre o Credit Belgo-Katangais, onde está depositada a quantia necessária para a operação, e advirto para Elisabethville. Depois é só tomar o avião...
- Bem dizia o Mondonedo que o meu querido professor era um homem de projecção intemacional...
- Não senhor, não senhor. Isto é cá uma maçonaria das pessoas de bem e de bom senso. Mas vamos lá a ver, serve-lhe o Catanga?
- Serve-me Catanga, serve-me Fidji, serve-me qualquer casa do Catano, a questão é ir-me embora... Venha o cheque...
- Não pense mal da nossa terra...
Mário Delorme foi ao casaco dos domingos buscar o livro de cheques. Enquanto rabiscava os dizeres no cheque barrado, Graziel, senhor de todo o mecanismo daquela alma portuguesa da era nova, veio-lhe dizer por detrás do ouvido:
- Hem, fizemos a concordata sem fiadores. Só nos ouviu esta sevilhana de maltês...
Tinha na mão a sevilhana de linha recurva, desdobrada como a cobra da selva brasílica. Concluída a frase, placidamente como quem diz a uma testemunha que se pode retirar, fechou a navalha com os três estalos da lei, tau, tau, tau, para a meter na algibeira.


In RIBEIRO, Aquilino. Casa do Escorpião: Novelas