27/10/2007

O Vingador

Logo depois de haver surpreendido sua mulher em flagrante, encontrava-se Fedor Fedorovich Sigaev na loja de armas de Schmuks e Cia, a escolher o revolver que melhor lhe pudesse servir. Seu rosto expressava ira, dor e decisão irrevogável.
“Bem sei o que devo fazer!”, pensava. “Quando os fundamentos de uma família são profanados, e a honra é arrastada pela lama e triunfa o vício... eu, como cidadão e como homem honrado, devo ser o vingador. Matarei primeiro a ela, depois ao amante e finalmente suicidar-me-ei”.
Não havia ainda escolhido o revolver e nem sequer assassinara alguém, mas na imaginação já se lhe apresentavam três cadáveres ensangüentados, de crânios triturados, os miolos a flutuarem... Barulho, ruído de curiosos e autópsia.
Possuído pela insensata alegria do homem ofendido, calculava o horror dos parentes e do público, a agonia da traidora e até lhe parecia poder ler em pensamento os artigos da primeira página, a comentarem a decomposição dos fundamentos da família.
O empregado da loja, tipo inquieto, afrancesado, de ventre pequeno e colete branco, apresentava-lhe os revólveres e juntando os calcanhares dizia, sorrindo respeitosamente:
- Eu aconselharia a Mousieur que levasse este magnífico modelo do sistema Smith & Wesson. É a última palavra na ciência das armas. Possui três propulsores e pode-se dispará-lo a uma distância de seiscentos passos. Chamo também a atenção de Mousieur para a limpeza do acabamento. Seu sistema é que está mais em moda. Vendemos diariamente dezenas deles, que são utilizados contra os bandidos, os lobos e os amantes. Seu tiro é preciso e forte, alcança distâncias enormes e mata, atravessando-os, a mulher e o amante. Quanto aos suicidas, Mousieur, não conheço, para eles, melhor sistema.
E o empregado, apertando e soltando o gatinho, soprando o cano e fingindo mirar, parecia próximo a afogar-se de puro entusiasmo. A julgar-se pela expressão extasiada de seu rosto, poder-se-ia pensar que ele mesmo, de boa vontade, pregaria um tiro na testa, se possuísse uma arma tão maravilhosa quanto aquela.
- E qual o preço? – perguntou Sigaev.
- Quarenta e cinco rublos, Mousieur.
- Hum! É muito caro, para mim.
- Neste caso, Mousieur, posso oferecer-lhe algo mais em conta. Aqui está. Tenha a bondade de examinar. Temos estoque variado e de todos os preços... Este, por exemplo, do sistema Lefrauché, que custa somente 18 rublos. Porém... – o empregado fez um muxoxo de pouco caso – é um sistema, Mousieur, demasiadamente antiquado. Quem o compra são os pobres de espírito e os psicopatas. Suicidar-se ou matar a própria mulher com um Lefauché é considerado atualmente de mau gosto. O bom-tom admite somente uma Smith & Wesson.
- Não necessito matar-me ou a alguém – mentiu, com acento sombrio, Sigaev. – Compro-o simplesmente para a minha casa de campo... Para assustar os ladrões.
- No nos interessa o seu motivo –sorriu o empregado, baixando modestamente os olhos – Se, em cada caso, buscássemos as razões, já deveríamos ter fechado a loja. Para espantar os corvos, Mousieur, o Lefauché não serve, pois produz ruído um tanto surdo. Eu lhe proponho uma pistola Mortimer, das chamadas para duelos.
“E se eu o provocasse para um duelo?”, passou pela cabeça de Sigaev. “Porém... não... Seria honra demasiada. A essas bestas, devemos matá-las, como cachorros...”
O empregado, revoluteando graciosamente e em pequenos passos, sem deixar de sorrir e de conversar, apresentou-lhe todo o monte de revólveres. O Smith & Wesson era o de aspecto mais sólido e justiceiro. Sigaev tomou um destes nas mãos, fixou-o e quedou ensimesmado. A imaginação desenhava-o destroçando um crânio, o sangue a escorrer como um rio sobre o tapete e o assoalho, a traidora, moribunda, agitando um pé convulso... Para a alma indignada, aquilo era pouco. O quadro de sangue, os soluços e o estupor não o satisfaziam. Deveria pensar em algo mais terrível.
“Isto é o que farei”, pensou. “Matarei a ele e a mim em seguida, porém ela... deixaria viver. Que morra do arrependimento e do desprezo dos que a cercam! Para natureza tão nervosa quanto a sua, será martírio maior que a morte!”
Começou a imaginar o próprio funeral: ele, o ofendido, estendido no ataúde, com um sorriso bondoso nos lábios... Ela, pálida, torturada pelos remorsos, caminhando atrás do féretro, como uma Níobe, sem poder escapa aos olhares depreciativos e aniquiladores, lançados pela multidão indignada...
- Vejo, Mousieur, que lhe agrada o Smith & Wesson – comentou o empregado, interrompendo o devaneio – Se o acha muito caro, posso fazer uma redução de cinco rublos, embora tenhamos outros mais baratos.
A figurinha afrancesada girou graciosamente sobre os próprios tacões e alcançou na prateleira outra dúzia de estojos com revólveres.
- Aqui está outro, Mousieur. O preço, trinta rublos. Não é caro, se lembrarmos que o câmbio está baixo e que os direitos alfandegários sobem cada dia mais... Juro-lhe, Mousieur, que sou conservador, porém já começo a protestar! Imagine que o câmbio e a tarifa da alfândega são o motivo de que somente os ricos possam adquirir armas! Para os pobres nada mais resta que as armas de Tula, e os fósforos. E as armas de Tula são uma desgraça! Se alguém pretender disparar uma arma de Tula sobre a própria mulher, apenas consegue atingir a própria omoplata...
Repentinamente Sigaev entristeceu-se com a idéia de morrer e não contemplar os sofrimentos da traidora. A vingança unicamente é doce quando existe a possibilidade de ver e tocar seus frutos. Pois, que sentido encontraria em estar deitado no ataúde, se nada poderia perceber?!
“E se eu fizesse isto?... matá-lo, ir a seu enterro, ver tudo e depois me suicidar?... Sim. Porém... antes do enterro eu seria preso e me tirariam a arma... Bem... O que farei será matá-lo e deixar que ela viva. Eu... enquanto não decorra um certo tempo, não me matarei. Serei preso. Para suicidar-me, sempre terei ocasião. Estar preso será melhor, pois que ao prestar declarações, terei possibilidade de demonstrar, ante o poder e a sociedade, toda a baixeza do seu comportamento. Se eu morresse, ela, com seu caráter desavergonhado e embusteiro, jogaria a culpa sobre mim, e a sociedade acabaria por absolvê-la.... de outro lado, talvez caçoe de mim, se continuo a viver... Então....
Um minuto depois, pensava:
“Se... Talvez me acusem de sentimentos mesquinhos se eu me matar... E, depois, para que suicidar-me? Isso em primeiro lugar. Em segundo... o suicídio é covardia. Então, o que farei será matá-lo, deixá-la viver e eu irei para o cárcere. Serei julgado e ela figurará como testemunha... Veremos seu sobressalto e vergonha, quando precisar enfrentar meu advogado! Por certo que as simpatias do tribunal, do público e da imprensa estarão ao meu lado!...”
Enquanto assim devaneava, o empregado continuava a expor a mercadoria e considerava de seu dever, entreter o comprador.
- Veja aqui, outros, ingleses, de sistema novo, que recebemos há pouco. Porém, previno-o, Mousieur, de que todos os sistemas empalidecem diante do Smith & Wesson. Por certo, terá lido, há poucos dias, acerca de um militar que comprara um Smith & Wesson em nossa casa, e que o usou contra o amante... E que imagina tenha acontecido? A bala atravessou primeiro o amante, alcançou, depois o abajur de bronze, em seguida o piano de cauda e deste, como uma carambola, matou um cachorro pequinês e roçou a esposa... As conseqüências foram brilhantes e honraram nossa firma. O militar está preso agora... Por certo o condenarão a trabalhos forçados!... Em primeiro lugar, porque temos leis muito antiquadas , em segundo, porque já se sabe que o tribunal sempre toma o partido do amante. Por quê? Muito simples, Mousieur. Porque também o jurado, os juízes, o procurador e o advogado de defesa se entendem com esposas alheias e mais tranqüilos estão quando sabem de que um marido há na Rússia. A sociedade se encantaria, caso o Governo desterrasse todos os maridos para a ilha de Sajalin. Ah! Mousieur! Não pode o senhor imaginar a indignação que me desperta este desmoronar dos costumes morais contemporâneos!... Nestes tempos, cortejar mulheres alheias causa tanto prazer quanto filar cigarros os outros ou pedir livros emprestados! Cada ano que passa, o nosso comércio declina, porém não significa que haja menos amantes... Significa que os maridos reconciliam-se com a situação e temem os trabalhos forçados – e o empregado, olhando em torno de si, sussurrou: - E quem é o responsável, Mousieur? O Governo!
“Acabar em Sajalin, por causa de um porco... não, não é razoável”, refletiu Sigaev. “Se me condenam aos trabalhos forçados, somente conseguirei dar à minha mulher a possibilidade de casar-se outra vez e de enganar também ao segundo marido. O lucro será todo dela! O que farei então será isto: deixá-la viver, não me matar e nem matar a ele... Devo imaginar algo mais prudente e sentimental. Castigá-los-ei com meu desprezo e encetarei escandaloso processo de divórcio...”
- Aqui está, Mousieur, um sistema novo – comentou o empregado, recolhendo de outra prateleira mais uma dúzia de revólveres. – Chamou-lhe a atenção para o mecanismo original do cão...
Porém, uma vez tomada aquela decisão, Sigaev não mais necessitava de revólver. Em compensação, o empregado, cada vez mais inspirado, não cessava de mostrar-lhe os artigos que tanto elogiava. O marido ofendido envergonhou-se de que, por sua causa, o sujeito estava trabalhando em vão, a entusiasmar-se e a perder tempo.
-Bem – balbuciou. – Será melhor que eu volte mais tarde ou mande alguém...
Conquanto não visse a expressão do rosto do empregado, compreendeu que, para suavizar a violência da situação, não havia outra saída que comprar algo. Porém, o que? Seus olhos percorreram as paredes da loja, em busca de uma coisa barata, e se detiveram numa rede de cor verde, pendurada junto à porta.
- E isso? Que é isso? – perguntou.
- É uma rede para caçar codornas.
- Qual o preço?
- Oito rublos.
- Pois pode mandar embrulhar.
O marido ofendido pagou os oito rublos, passou a mão na rede para levá-la e, cada vez mais ofendido, saiu da loja.


Anton Tchecov




Amor

Nasceu aquela flor em Covelinhas, dum castanheiro velho, o Lourenço Abel, e duma urze mirrada, a Joana Benta. Nasceu e cresceu tão linda, tão airosa, que o povo em peso punha os olhos nela. Só tinha um defeito...
- Verduras da mocidade! - pretextava a Cláudia, quando o homem, ao lume, censurava os namoros da rapariga.
- Ultrapassa as marcas! Dá trela a quantos há na freguesia...
- Ainda hão-de ser mais as vozes do que as nozes.
- É, ê! No dia das inspecções lá se viu... A Cláudia calou-se. Na comprida crónica da montanha não havia página mais negra do que essa a que o homem fazia alusão. Acabadinhos de sair das garras da junta, onde nus em pêlo pareciam cordeiros tosquiados, três de Paços, dois de Fermentões, um de Vilela e outro de S. Martinho armaram tamanha guerra na Sainça, que só faltou tocar os sinos a rebate. O de Vilela, aqui-del-rei que a rapariga era dele; o de S. Martinho que o varava logo ali se continuasse com as gabarolices; o mais possante dos de Paços que não consentia trigo do seu forno na boca de cães... Um inferno. Segue-se que daí a nada ia tal polvorosa pelos montes, que Deus nos acudisse. Não morreu ninguém, felizmente, mas chegou para afligir.
A Lídia é que não queria saber de desgraças. Muito bem feita, muito corada, com aqueles dois olhos de veludo que ameigavam tojos, depois de cada sarrafusca a que dava azo, passava pela rua acima em direcção às hortas como se nada fosse. E o povo inteiro rendia-se-lhe aos pés, num sorriso de perdão, de complacência e de carinho.
- Tu a quantos atendes? - perguntava-lhe em confidência a Mariana, já com cinquenta e dois e ainda de olhinho a reluzir.
- A nenhum. Ninguém me quer, tia Mariana! E dava uma gargalhada das dela, muito clara, muito pura, pondo à mostra uns dentes que cegavam a gente.
- Raios te partam, rapariga! Trazes um regimento à corda, e a dizer que ninguém te quer!
- À consciência!...
E toda ela se dava e se recusava num requebro enigmático, com os seios a enfunarem-lhe a blusa de chita.
- Olha., fazes tu muito bem! Enquanto dura, é doçura...
E a doçura era naquele inverno gelado, noites a fio, o Pedro Verdeal comido de ciúmes a guardar o Lúcio, e o Lúcio, comido de ciúmes, a guardar o Verdeal.
- Que cegueira! Perdidinhos de todo! Um sincelo de meter medo e nenhum arreda pé! Ao menos tem pena deles, cachopa. Manda pôr uma braseira debaixo do negrilho e outra no cruzeiro...
- Eles não têm frio. Quanto mais, deixe falar, tia Cláudia! Se andam de noite, lá andam à sua vida. Cá comigo não há nada. Querem coisa mais alta.
E continuava a receber cartas do Lúcio, do Verdeal, do Vitorino, e até recados do Teodoro, um homem já viúvo! A Violante do correio entregava-lhe essas letras de amor às escondidas de toda gente, mas ia dizendo:
- Eu não sei como tu podes com tal cainçada atrás de ti!...
A Lídia, porém, era aquele coração aberto a quantos lhe batiam à porta. Como uma terra de semeadura em pousio, dizia a todas as sementes que deixassem apenas chegar a primavera... Não havia maldade nem cálculo nas promessas que fazia. Diante de cada solicitação masculina, sentia-se como que chamada a dar contas da sua íntima natureza de mulher. E todos podiam pedir-lhas com igual autoridade, justamente porque não amara ainda nenhum a valer. Limpo, o seu corpo estava destinado a pertencer a um daqueles pobres obcecados, que andavam à sua volta como lobos à volta de uma ovelha. A um deles teria de se entregar, mais dia, menos dia. Mas a qual?
- Tu é que sabes. Se fosse comigo, escolhia o mais jeitoso e mandava os outros à tábua. Sarilhos desses é que não! - repetia a Violante, apavorada com tanta carta e tanto enredo. - Vê lá!
- Deixe correr, que ainda bota, ti Violante. Uma carta custa apenas o selo e o papel.
- Parece-te! Pode custar muita lágrima. Não estiques a corda demais...
Boas palavras, realmente. Pena é que não tivessem eco nos ouvidos da Lídia. Por mais que quisesse, não conseguia decidir-se por nenhum. Os homens eram como os ramos de rebuçados na mesa da doceira: pareciam-lhe todos iguais.
- Não são, não. Repara bem, que verás... - respondia-lhe a Cláudia, cheia de paciência.
Reparava e via o mesmo desejo a arder nos Olhos de cada um. As palavras, os gestos, os amuos significavam em todos a mesma coisa. P’ra a virgindade que lhe pediam, quer o dissessem, quer não. E continuava, conciliante, a prometer-lha e a negar-lha.
- Qualquer dia estoira para aí tamanho sarrabulho, que vai ser uma vergonha... - ia insistindo o Leopoldino, agoirento.
- Olha não estoires tu do miolo! - repontava a mulher, a fazer de valente.
- Deu com o pai já comido da terra, e com a lambaças da mãe, que é uma pobre de Cristo. Posse minha filha e eu te diria. Era com uma soga por aquele lombo...
- A mãe que há-de fazer? Proibi-la de se divertir ?!
A Cláudia estava farta de saber que o homem tinha carradas de razão. Quantas e quantas vezes falara já com a Joana Benta sobre a filha. Valia de bem! A coitada ouvia, concordava, gemia, apagava-se rasteira na escuridão da cozinha. noite é que lá se atrevia a dizer uma palavra à rapariga.
- Tu não terás juízo, mulher! Coisa assim!
- Não se aflija, que não me dá o lampo. Palavras leva-as o vento...
Mas com palavras tinha ela posto a cabeça do Verdeal e do Lúcio a andar à roda. A mangar, a mangar, jurava a cada um que não queria mais ninguém e que os outros lhe rondavam a casa por palermice. Que não era culpada de quantos homens havia no concelho lhe andarem a cheirar o rasto...
Na véspera do S. Miguel, a Olívia, que era sua amiga do coração, ao vir da missa pôs-lhe os pontos nos ii.
- Tu tem lá mão na manta, que isto não acaba bem. Dá o sim-ou-sopas a um e emponta o resto. Muitos burros à nora não é negócio; escoicinham-se uns aos outros... O Verdeal anda sobre o Lúcio como um cão. Se o agarra a jeito, esfandega-o.
- Mas porquê -Ainda perguntas?
- Oh! E aconteceu o que tinha de acontecer. Nessa mesma noite, depois da ceia, o Verdeal, ao voltar a esquina da eira, viu um vulto à porta do quinteiro da moça. Disfarçou-se na sombra e chegou-se perto. Era o Lúcio a falar com ela. Avançou até junto deles. No calor da conversa, nem o viram.
- Então, muito boas noites... - cumprimentou., já de mão na pistola.
- Boas noites - responderam ambos, ela com a mesma cara, e o Lúcio cego de raiva.
- Pode-se saber quando é a boda?
- Pode... 
Mediram-se os dois de cima abaixo. 
- É capaz de ser, no dia de juízo...
- Conforme... 
- É que a bocada às vezes parece que está quase na boca e não está...
Alheia, numa volúpia de irresponsabilidade, a Lídia assistia àquela disputa de que era a causa, divertida como uma criança. Quase que nem ouviu o simultâneo deflagrar das armas.
- Canalha! Seguiram-se mais dois estalidos secos.
- Cabrão! Os insultos como que eram apenas um comentário desdenhoso à margem dos tiros rápidos e sucessivos.
- Excomungada! A inesperada maldição entrou na alma da Lídia como um punhal de quem vinha? Da boca do Lúcio, ou da boca do Verdeal?
Mas não pôde sabê-lo. Ambos jaziam quase a seus pés, cada um no último arranco. E quando a mãe, espavorida, em saiote, abriu a porta, veio encontrá-la ainda alheada junto dos dois mortos, a tentar compreender a violência daquela queixa.

Miguel Torga, Contos da Montanha



25/10/2007

Os Mastros Do Paralém


Só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo.


A chuva é carcereira, fechando a gente. Prisioneiros da chuva estavam Constante Bene e seus todos filhos, encerrados na cabana. Nunca tamanha água fora vista: a paisagem pingava há dezassete dias. Mal ensinada a nadar, a água magoava a terra. Sobre as telhas de zinco, se acotovelavam grossas gotas, grávidas de céu. Na encosta do monte, só as árvores teimavam, sem nunca se interromperem.
Sentado num canto da velha cabana, Constante Bene pesava o tamanho do tempo. Desde os princípios, era guarda na propriedade do colono, o xikaka Tavares. Morava entre laranjeiras, num lugar quase-quase fugido da terra. Ali, no cimo da montanha, o chão se comportava, direito e bom.
- Aqui só as laranjas é que tem sede.
Sede de pássaros, melhor diria Constante. Mas ele simplificava a vida. A seus dois filhos, Chiquinha e João Respectivo, ensinava os infinitos modos do sossego. Os meninos dele recebiam cuidados, muito órfãos que eram. Eles, sós, tratavam os assuntos da casa.
Chiquinha superava a idade, corpo adiantado. Já os peitos protestavam contra o aperto da blusa. O pai olhava com custo o seu crescer. Quanto mais ela se parecia mais a tristeza de Constante se afiava na lembrança da falecida.
O outro filho, João Respectivo, se mantinha pequeno, alheio ao tempo. Todos estranhavam seu nome. Respectivo? Mas aquele nome aconteceu-se, sem ordem da vontade. Levara o menino à vila para lhe dar registo. Na repartição se apresentou de intenção civilizada:
- Quero registar essa criança.
O funcionário, em vagarosa competência:
- Trouxe o respectivo?
- Não senhor. Só trouxe o meu filho. - É isso mesmo, o seu respectivo filho.
Pensou Constante Bene que outro nome estava a ser acrescentado à criança. E assim ficou de ser chamado o menino, nascido da morte de sua mãe. No curso do tempo, ele foi entrando no mundo guiado por uma só mão, na metade desigual de ser órfão.
O guarda olhava as cimeiras partes do mundo, os ombros da terra, imóveis como os séculos. No enquanto, ele pensava: o mundo é grande, mais completo que coisa cheia. O homem se credita muito enorme, quase tocando os céus. Mas onde ele chega é só por empréstimo de tamanho, sua altura se fazendo por dívida com a altitude.
Porque não se conformam as gentes, tais quais? Porque se afrontam na arrogância de sempre vencer? Constante Bene temia as sanções do mais querer. Por isso, ele proibia os filhos de espreitarem para lá da montanha.
- Nunca, sequer.
Estava o dito pelo interdito. Falava-se muita lenda da outra encosta do monte. Parece nessoutro lugar nunca os colonos haviam pisado. Quem sabe lá a terra restava com suas cores indígenas, seu perfume de outroras? Quem sabe aquelas paragens fossem propensas apenas à felicidade?
Esse lugar: Bene chamava-lhe o Paralém. Muitas vezes, no cansaço da noite, rondavam pela cabana seus secretos chamamentos. O guarda soltava seus sonhos, tais que ele nem a si mesmo confiava o relato.
Uma madrugada, ele se valentou, saindo rumo às escarpas. Subiu os penedios, chegou ao cume. Sentiu o remorso, ele se transgredia. Se desculpou:
Hoje é hoje.
Então, espreitou para a vertente proibida. Um cacimbo almofadava o luar, se espalhava como claridade que embrulha a nudez de uma mulher. A neblina era tanta que a terra devia dispensar a chuva. Deixou-se ficar ali, sentado. Até que um mocho lhe trouxe o aviso. Aquela beleza era como o fogo: longe não se via, perto queimava. E voltou à cabana.
Agora, no dezassétimo dia das chuvas, Bene sentia o suspiro da tarde. A luz estava já cansada de subir quando as folhagens espiaram o sinal. O cachimbo do velho ficou suspenso, vagou-se o instante.
Foi quando viram o mulato. Era um vindo do longe, da ultraterra. Caminhava embrulhado no rosto, todo em baixo da chuva. Trazia um saco sobreposto nas costas. Passou pela cabana, alheio à curiosidade dos três. João Respectivo foi ao caminho e espreitou. Confirmou o mulato escalando as alturas, desaparecendo entre as rochas mais subidas.
Que homem seria, de onde viera? Mesmo calados, os três se perguntavam. Mágoa de amor, adivinhava Chiquinha. Um caçador de leopardo, suspeitava João.
Esse homem não é pessoa de ser - sentenciou o pai.
Os meninos defenderam o intruso, alegando sua inocência. Precisavam de alguém que acontecesse, um susto naquele mundo tão sem febre. Mas Bene repetia:
- Aquele homem é um fugista. Se não fosse era um fugista, ele havia de parar aqui, receber os acolhimentos.
E avançou a ameaça: lhe competia saber a versão do aparecista. Afinal, era esse o seu serviço. Os filhos lhe pediram, aquele misto não podia merecer as imediatas suspeitas.
- Pois eu lhe ponho muita desconfiança. É um mulato. Vocês não conhecem as manias dessa gente.
- Mas esse homem passou, sequer não entrou na machamba.
O pai considerou: Joãozinho até que estava certo. O estranho parecia destinado a subir, lá onde os homens não escrevem pegadas.
- Tem razão, filho. Mas ele que não se chegue perto.
Depois das chuvas, os filhos saíram a procurar o estrangeiro. Espreitaram os lugares, entre as pedras do cume. Encontraram-lhe na última altura, na boca de uma gruta. Olharam como que fazia: o mulato já descobrira o sítio de morar. Parecia ter fome de habitar a terra, no meio daquele cheiro todo verde. Vivia perto do chão, rasteiro como os bichos. Só fogueira e manta compunham seu cansaço. João e Chiquinha espreitavam longe, sem coragem de se mostrarem.
Em casa, o pai repreendia aquelas espreitações:
- Não vão muito lá. Sempre eu vos aviso: o lume acende de ser soprado.
Mas no fundo, Constante gostava de saber as novidades. Inquiria sobre as coisas vistas. Os filhos devolviam palavras soltas, pedaços de um retrato rasgado. Depois, o pai insistia: que não fossem muito lá, talvez era um louco perigoso. Sobretudo, era um mulato. E se explanava: o misto não é sim, nem não. É um talvez. Branco, se lhe convém. Negro, se lhe interessa. E, depois, como esquecer a vergonha que eles trazem de sua mãe? Chiquinha intercedia: não seriam os todos. Haveria, por certo, os bons tanto como os maus.
- São vocês que não sabem. Não vão lá, acabou-se.
Por tempos, os filhos obedeceram. A menina, porém. Mais que às vezes, ela retomava a subida, fingindo ir à lenha. O velho pai, olhando as demoras, suspeitava de desobediência. Mas ficava calado, à espera do destino.
Uma noite, já o xipefo se consumia, Chiquinha foi surpreendida ao entrar. O pai:
- Estiveste onde?
- Fui lá, papá. Não posso mentir.
Constante Bene mastigou a ofensa, meditou o castigo. Mas essa filha já está do corpo da falecida, pensou. E amoleceu.
- Sabe Chiquinha: quem proíbe o mel é a própria abelha. Entende o que estou-te a dizer?
Ela acenou com a cabeça. Seguiu-se uma vagarosa espera. Bene soprou a chama, convidando o escuro. Invisíveis, os dois se fitavam melhor. O pai, então, perguntou:
- Alguma coisa ele falou?
- Sim, falou.
- Afinal? E esse misto disse o quê?
Chiquinha permaneceu como se nada tivesse ouvido. O pai aguardando na esquina da curiosidade. Mas um homem velho, por respeito devido, não pode demorar de ser respondido.
- Ouça, filha: não ouviste que te perguntei?
- É que nem me lembro o que esse homem falou. O pai calou-se. Deu um balanço na cadeira, ajudando-se a levantar. Fechava a janela quando, de novo, inquiriu:
- Chegaste de saber se existem outros lugares, lá no mundo?
Parece que existem.
O velho abanou os ombros, desacreditando. Deu uma volta na sala, tropeçando em barulhos. A filha quis saber por que razão ele não acendia a lamparina.
Para mim já chegou a noite.
Chiquinha ajeitou a capulana no arco dos ombros. Depois, sentou-se, só sendo. Adormeceram. Mas fizeram-no de alma descoberta, o que convida os maus sonhos.
Naquele pesadelo, o guarda se sentiu derradeiro. Assim ele viu: o mulato era um mussodja (Mussodja - soldado, guerrilheiro (termo formado da palavra inglesa soldier).
) e caminhava, por entre o pomar, com sua farda guerrilheira. Mas, de espanto: ele tocava as laranjas e elas se acendiam, em chamas redondas. O laranjal parecia era uma plantação de xipefos. Sobre o barulhar das folhagens, se escutavam cantos: Iripo, iripo Ngondo iripo (Iripo, iripo/Ngondo iripo - canção da luta de libertação nacional, anunciando a chegada dos guerrilheiros)
De repente, eis: o Tavares. Furioso, canhangulo (Canhangulo - espingarda antiga, de "carregar pela boca".)) nas mãos. Disparava contra onde? Contra o chão, contra as árvores, contra a montanha. O colono gritou-lhe:
- E você, Constante, é guarda de quê? Apanha essas laranjas, antes que arda tudo.
Constante hesitou. Mas o cano da espingarda, virado em seu peito, lhe fez obeditoso. Árvore ante árvore, ele foi colhendo ardências até seus dedos virarem uma dezena de chamas. O velho acordou aos berros. Queimavam-lhe as mãos. A filha encharcou-lhe os braços de generosa água. Aliviado, ele ocupou a cadeira, preparando-se para acender o cachimbo.
- Não, pai. Não mexe mais no fogo, deixa que eu acendo.
- Minha filha, agora te peço uma ordem: não sobe o monte, nunca mais.
Chiquinha prometeu, mas de falsa convicção. Porque, desde esse dia, ela prosseguiu as demoras. O pai nada comentava: sofria sozinho as dores do presságio.
Certa vez, em esperado imprevisto, Chiquinha se apresentou muito de pé, mãos cruzadas sobre o ventre. - Estou de grávida, pai.
Constante Bene sentiu a alma tombar nos pés. Chiquinha, ainda tão filha, como podia já ser mãe? Que justiça é essa, meu Santo Deus, como é uma menina-órfã pode ser mãe de criança sem o devido pai? Era urgente encontrar aquele progenitor sem aspecto.
- Foi ele?
- Juro, pai. Não foi esse.
- Então, quem é o dono da grávida? - Não posso dizer.
- Olha, filha: é melhor falar. Quem te subiu? - Pai, me deixa assim.
A menina sentou-se para melhor chorar. Constante pensou em bater, arrancar a verdade. Mas do corpo de Chiquinha se foi aumentando a lembrança da falecida mãe e seu braço deixou-se, vencido. O velho regressou ao quarto, acendeu o cachimbo e, pela janela, fumou a inteira paisagem.
Os meses foram passando com muita largura. A barriga de Chiquinha luava, de desenho cheio. Em Junho se deu o parto, assistido pelas velhas mulheres das redondezas. Constante não estava, na ocasião. Saíra em suas rondas pela machamba. Quando voltou à cabana, já as parteiras preparavam a refeição. Primeiro, ele sentiu o fumo do cheiro. Depois, o choro de um bebé. Sorriu, lembrando o ditado: onde vires o fumo, aí estão os homens; onde choram os bebés, aí estão as mulheres. Agora, se confunsionavam os ditos. Parou à entrada, de coração salteando. Um choro naquele lugar! Só podia ser! Queria saber de Chiquinha, lhe apetecia entrar correndo. Mas havia muito orgulho impedindo-lhe de ser avô.
- Esse bebé nasceu demais - confessou dentro da sua voz.
Entrou. Espreitou ruídos e sombras. Todas se calaram, tensas. Mais que as outras, se suspendeu Chiquinha com o embrulho da vida em seus braços.
O pai arrumou-se em seu canto, distante. João Respectivo foi quem estreou palavras:
- Pai, já viu que nasceu? Um menino tão muito gordo.
Os olhos de Chiquinha ansiavam resposta do pai. Ela fez um gesto quase arrependido de mostrar a criança mas corrigiu-se. As mulheres foram saindo. No lugar, agora se cabia pouco.
Passaram dias cheios de tempo sem que Constante se aceitasse avô. A menina muitas vezes se demorava perto do pai, susperando a benção. Surdinava canções de embalar, as mesmas que aprendera dele. Cantava mais para embalo do pai que da criança. Mas Constante Bene se esquivava, turvando-se aos olhares da filha.
Uma noite, quando todos já dormiam, uma luz tremente atravessou o quarto. Foi-se chegando à cama de Chiquinha e ali permaneceu, farolitando. Tocada pela claridade, Chica despertou e viu seu pai com o candeeiro na mão. Constante desculpou-se:
- Essa sua criança estava a chorar. Vim ver.
Chiquinha sorriu: mentira dele. Se o bebé tivesse chorado, ela teria ouvido, primeira que todos. João, mais tarde, confirmou: o velho vinha todas noites, através do escuro, espreitar o berço. Chica nem cabia em si. Abraçou seu pequeno filho em suavíssima felicidade.
No dia seguinte, manhã já elevada, o guarda matabichava. Mastigava sobras da noite, estalando a língua entre os dentes.
- Ouça lá, ó Chica: esse seu filho não é muitíssimo claro?
- Os bebés são assim, pai. Só depois ficam escuros. Não lembra o João?
- Isso é no princípio, antes de chegar a raça. Mas esse aí: já passaram tantos dias, é tempo de ficar da cor.
Chiquinha encolheu os ombros, não sabendo. Descascou uma batata-doce e soprou nos dedos, sobrequentes. O seu filho, agora, já era neto. Dali para a frente, não seria ela sozinha a segurar na vida do menino.
Assim se iniciou um novo sentimento na cabana. Mesmo o Bene parecia mais novo, cantarolando, trautecelão. Chiquinha premiava o pai com refeições mais demoradas de paladar. Joãozinho se entregava a infantarias, correndo os atalhos dos bichos.
Constante não o requeria, respeitando suas meninices. Antes ele brincava com o filho do patrão. Os miúdos, no arco dos risos, desconheciam a fronteira de suas raças. Bene se agradava, vendo assim Respectivinho recebendo cuidados de empréstimo.
- Ao menos, ele lá ganha comida.
Desde a chegada do mulato, contudo, o menino se desviara para mais altas paragens.
Certa vez, preocupado pela tardeza do filho, Bene saiu pelo monte, rumou as solidões por onde João se venturava. Junto ao poço, ele chamou pelo filho. Mas quem saiu dos arbustedos foi Laura, a mulher do lenhador. Ela, lata de água à cabeça, como não sentisse o peso. No embalo dos ombros, alguma aguinha tombava, molhando as costas, os braços, os seios.
- Constante, você é guarda, devia olhar a sua vida.
- E porquê, só por causa sou viúvo?
Bene pensava que Laura lhe queria desamarrar a viuvez. Olhou a mulher com muitos olhos, adivinhando-lhe o corpo debaixo da capulana. Tentou conversa doce. Mas ela desviou as falas:
- Não sabe todos dizem sobre da sua filha, maneira como ela apanhou grávida?
Ela repetiu-lhe as dicências: a menina fora vista, ninguém não sabe por quem, junto às alturas. E o incontável: um homem lhe forçara, cambalhotando nela. Constante roeu pragas, sua voz se esfriou:
- Esse homem era preto?
- Não, dizem não era.
- Já sei quem é esse satanhoca (Satanhoca - sacana, impostor.). Aliás, sempre eu já sabia.
Sem despedir, retomou o caminho de regresso. Não entrou em casa. De um caixote do quintal tirou uma catana. Passou-a pelos dedos, num pensamento de lâmina.
Depois, sem pressa, subiu a montanha. Nos cumes, procurou o mulato. Encontrou-lhe debruçado na fogueira, reparando uma avaria do fogo. Constante não escondeu intenção, arma pendurada, às vistas.
- Venho te matar.
O intruso não mostrou susto. Só os olhos, de bicho emboscado, procuraram saída. Sua garganta escassa:
- Foi o teu patrão que te mandou?
Constante desconheceu a pergunta. Por certo, o outro lhe queria distrair. Hesitou, vacilento. Vingador sem carreira, pedia ajuda ao ódio. Rezou para dentro: meu Deus, como eu nem sei matar! Só um instante, Te peço, dá-me a certeza nesta minha mão.
- Por que me odeias tanto?
De novo, o outro lhe desviava os intentos; o guarda indagou:
- Diz-me: vens de lá, do Paralém?
- De onde?
- De lá, do outro lado do monte? - Sim, venho.
- E lá se levantou já a nova bandeira?
O intruso sorriu, quase em condolentidão. Bandeira? Era isso que lhe interessava, saber de um pano, suas cores?
Respondes assim porque és mulato. E os mulatos não têm bandeira.
O outro riu, desdenhoso. Aquele riso, pensou Bene, era o sinal de Deus. A catana rebrilhou nos ares, zun-zun-zun, cravou-se no corpo do estranho. Gementio, ele caiu-lhe por cima. Agarrou-se, liana desesperada. Dançaram os dois, pisando a fogueira. Nem Bene sentia como seus pés nus se enchameavam. Mais um golpe e o intruso enroscou-se no chão, em estado de pangolím.
O guarda acocorou-se ao lado da vítima e, com as mãos, avaliou a sua morte. Sentiu o sangue engomar-lhe o gesto. Parecia os dedos, viscosos, lhe apontavam culpas. Sentou-se no chão, cansado. De onde vinha tantíssima fadiga? De matar? Não. Aquele fundo desalento lhe vinha dos pés, brasados na fogueira. Só agora lhes sentia, as chagas.
Tentou erguer-se: desconseguiu. Os passos mal podiam tocar o chão. Fixou as luzinhas, lá no vale. Aquela era uma inviável distância, um impossível regresso.
Arrastou-se até ao sacudu (Sacudu - mochila; o termo foi trazido pelos guerrilheiros da Frelimo que foram treinados na Argélia, a partir da palavra sac-au-dos.) do mulato. Tirou um cantil e bebeu. Depois, vazou a mochila: caíram papéis sob a luz da fogueira. Pegou em folhas soltas, vagarinho, decifrou as letras. Estavam escritos sonhos lindos, promessas de um tempo fortunado. Escola, hospital, casa: tudo, de abundância, para todos. Seu peito se apressava, amotinado. Voltou a sacudir a mochila. Tinha que estar, fosse amarrotada num canto, havia de constar.
Foi então que, como onda de prata, a bandeira tombou do saco. Parecia imensa, maior que universo. Bene se deslumbrava, nem ele se cria um dia chegar a tal visão.
Lembrou, entretanto, as penas daquele tempo: o mastro da administração. Ali sua lembrança se joelhava, o chamboco (Chamboco - matraca.) do cipaio, "passa sem fazer poeira, seu merdas, não suja a bandeira". E ele, de pés rasteiros, carregando seus filhos, sem levantar passo. O patrão, no passeio, simulava seguir outras atenções. Pode a pessoa assim tanto se desalmar?
Mas agora, aquela nova bandeira não parecia estar sujeita a nenhuma poeira, fosse feita da própria terra. As cores do pano lhe povoavam o sonho.
Acordou por mão de seu filho, o Respectivo. Olhou em volta, procurou o corpo do mulato. Nada, não havia corpo.
- Lhe enterraste, João?
- Não, pai. Ele fugiu.
- Fugiu? Não pode. Se eu lhe matei! - Só estava ferido, pai.
Duvideiro, o guarda sacudiu a cabeça. Ele garantira o devido falecimento do outro. Seria obra de xicuembo (Xicuembo - feitiço.)?
- Estava vivo, com certeza. Eu mesmo lhe ajudei a descer o monte.
Furioso, o guarda bateu no miúdo. Como é que podia? Ajudar um gajo que abusara dos respeitos de Chiquinha, dele, da família?
- Não foi ele, pai.
- Não foi? Então quem deu grávida a sua irmã?
- Foi o patrão, o mezungo.
Constante nem se deu licença de escutar. O mulato montara a cabeça daquelas crianças, se havia tornado sua única crença.
- Esse misto, fidaputa, é um Pide. Encontrei o saco de um mussodja, lá na gruta. Pensa são coisas dele, alguma vez? É um Pide, um Pide que abusou na sua irmã, roubou o sacudu de um guerrilheiro.
- Foi o patrão.
- Olha, João, não repete isso maistravez.
- Foi pai. Eu vi.
- Jura?
O menino se assegurava, em convictas lágrimas. Bene respirava aos quases. O tamanho daquela verdade não cabia em si. Doeram-lhe mais os pés, o sangue ensonado sobre as feridas. Já as moscas zunzuniam, desprestigiando o sagrado líquido. Com os dedos espremeu um torrão de areia. A terra se submetida, esfarinhada. Aquela obediência entre os dedos lhe foi trazendo, devagarmente, o respirar sereno dos decididos.
- Não chora mais, filho. Olha isso que eu tirei do saco.
E estendeu a bandeira. João pestanejava, em fraco entender. Uma bandeira, só dali o velho punha tanto alvoroço?
- Embrulha a bandeira com máximo cuidado, dentro do saco. Carrega o sacudu, vamos embora, ajuda o seu pai.
João lhe ofereceu os ombros. O velho se encavalitou no menino, à maneira da infância. Gracejou:
- Trocamos: eu sou filho, você o pai.
E riram-se, ambos. O velho, oblíquo, se admirava da força do menino: ele nem pausava para retocar o fôlego.
- Prontos, filho: o tudo já é muito. Desjunta seu corpo, quero descer-te.
Estavam perto da casa. Sentaram-se na sombra de uma grande mangueira.
João soltou-se às falas, anunciando futuros:
- Essa conversa é perigosa, meu filho.
Mas o Joãozinho se destemia, repetia ensinamentos do mulato. Aquela terra só convinha a seus filhos devidos, cansada de sangrar riqueza para os estrangeiros.
- O Tavares...
- Deixa lá o patrão quieto.
- O pai não pode ficar sempre no serviço de guardagem, guardar essa terra faz conta ela não foi-nos roubada pelos colonos.
O pai já subira às fúrias. O miúdo que se calasse, aquilo era só falar por boca de outros. O velho ordenou que mantivessem caminho. João fez menção de ajudar o pai mas este recusou:
- Não preciso. Caso senão ainda você aumenta mais suas espertezas.
Coxearam no trilho. Constante, agora, se apoiava num pau reclamando em desfile de resmungos. Ao menos, o pau não sofre de ideias nem vaidades. Leva-me, só mais nada. Ai, os homens... Prefiro as coisas, sempre não tenho zanga com elas.
No riacho, depois de um fresquinho, ele mudou o tom:
- Escuta João. Eu sempre penso esta dúvida: agora sou criado do colono. Depois será o quê?
- Depois será a liberdade, pai.
- Tolice, filho. Depois, seremos criados deles, desses mussodja. Tu não conhece a vida, meu filho. Essa gente de tiros, no fim da guerra, já não aguenta fazer mais outra coisa. A enxada deles é o espera-pouco (Espera-pouco - o mesmo que canhangulo; arma de carregar pela boca.).
O menino tinha os olhos curvados, negando as circunstâncias. Então, porque o pai esperava tanto a nova bandeira? Porquê aplicava em sonhar com o outro lado, o Paralém?
- É só um sonho que eu gosto.
Respectivo já não levantava argumento. Apenas sua adolescência se opunha que tão claro sol estivesse condenado ao sumário poente.
- Não se engana, filho: amanhã será o mesmo dia.
Se aproximaram da casa, notaram vozearias. Apuraram ouvido: era o colono que gritava dentro da cabana. Constante, esquecido do coxear, entrou. O patrão, embaraçado, perdeu as rédeas de si. Mas logo se refez, inchando os ombros, alargando a pele:
- Que é isso que tens nos pés? Tens as patas cheias de sangue.
O velho guarda não respondeu. Arrastou-se até enfrentar o patrão. Só então ele notou como era mais alto: ao xikaka lhe faltavam calcanhares. Acendeu, em vagares, o cachimbo. Tavares recebeu o fumo da afronta:
- Não queres dizer como fizeste isso? Pois eu te digo o que é: manha de preto. Mas fica sabendo que não levas nem um dia de dispensa. Hoje mesmo te quero a fazer ronda na propriedade.
Impassível, Bene, parecia nem ouvir. O patrão se chegou mais perto, em jeito de segredo. Andava por ali caça grossa, um turra. O administrador alertara os machambeiros sobre de um mulato, perigoso escapafúrdio.
Abre-me esses olhos, Bene. Fungula masso (Fungula masso - abre os olhos.)...
Não fala assim... patrão.
- Ora que esta?! E porquê não, me dirá Sua Excelência?
- Esse nem é seu dialecto.
Tavares riu-se, preferindo o desprezo. Concedeu as despedidas. Antes de fechar a porta, porém, se dirigiu a Chiquinha.
- Nós ficamo-nos assim, ouviste?
E foi-se. Nenhuma palavra coloriu aquele espaço. Constante consultava a janela, recebia os mudos recados da paisagem. Parecia que era o cachimbo que lhe fumava a ele. Ao cabo de muito silêncio, o guarda chamou o filho.
- Você sabe onde fica esse mulato. Vai lá dizer que eu estou a chamar, preciso ele venha aqui.
Mas é tão noite, arrepiou-se Chiquinha. Ele acarinhou o cabelo da menina, atendendo-lhe a aflição.
- Tu vai com João. Dão mensagem ao mulato, depois vão para o monte, me esperam lá nas pedras. - Vamos no Paralém?
Chiquinha se arregalava, excitada. O pai sorriu, complacente:
- Vai, acompanha seu irmão. E tapa o meu neto com esta manta. Me esperem lá, eu hei-de ir.
Os meninos se portaram com obediência. Aprontaram um cesto, provisórias provisões.
Tu, João: deixa ficar esse sacudu do misto.
Os dois filhos saíram, carreirando por capins. Evitavam os cacimbos que, reza a lenda, fazem minguar as pernas. Um mocho piou, incriminando o porvir. No escuro, o mundo perdia ângulos e arestas. Chiquinha seguia por mão de seu irmão. Respectivinho lhe pareceu, no instante, promovido à idade. Ele já havia cumprido o mando do pai, recadoando o mestiço.
Chegaram aos penedos, sentaram. Chiquinha apertava o bebé, em materna compustura. Ela falou:
- Vocês não gostam o Tavares, eu sei. Mas ele, em si, é de bom coração.
Respectivo não percebeu. Então, o xikaka lhe manchara, somando abusos. Que merecia esse branco senão os ferros da vingança?
- Cala-se, João. Você nem sabe como que aconteceu.
Chiquinha se levantou, recortando-se no luar. Aos olhos do irmão, ela surgia como nuvem em contra-lua. Chiquinha desceu a voz:
- Tavares nem merece castigo. Fui eu lhe provoquei.
O irmão não queria ouvir mais. Ela queria explicar, ele não deixava. A montanha se estremunhava na dupla berraria. A raiva de Chiquinha se sobreimpôs:
- Eu lhe queria dar um pai. Um alguém para tirar-nos desta miséria.
Foi quando ouviram as medonhas crepitâncias. Olharam o vale, parecia um fogo suspenso, chamas voantes que nem necessitavam de terra para acontecer. Só depois, eles entenderam: o completo pomar ardia.
Então, sobre o horizonte todo vermelho, os dois irmãos viram, no mastro da administração, se erguer uma bandeira. Flor da plantação de fogo, o pano fugia da sua própria imagem. Pensando ser do fumo, os meninos enxugaram os olhos. Mas a bandeira se confirmava, em prodígio de estrela, mostrando que o destino de um sol é nunca ser olhado.


Mia Couto, Cada Homem é uma Raça

21/10/2007

Os brincos da princesa

Esta princesa vivia na serra, era uma princesa serrana. Não vestia sedas nem púrpuras, que lá se não conhe­ciam. Mas como a flor da giesta, do tojo ou do cardo, ostentava uma beleza delicada e bravia. Isto só o entende quem conhece as coisas do mato.

A princesa, na sua qualidade real, é bem de ver que tinha damas e aias, mas todas elas serranas.

De manhã, mal despertavam punha logo toda a corte em reboliço. Queria que umas a vestissem, que as outras a penteassem e que outras a entretivessem. O seu favo­rito, que era um cachopito de palmo e meio, ranhoso e esperto, saltava-lhe logo como um rafeiro aos pés.

A princesa, depois de bem tratada e enfeitada, ia então para onde lhe apetecia: para os cerros atirar pedrinhas ao ar ou pêlos barrocais abaixo, ver as águias e os gaviões, e até armar aos pássaros, como a canalha. Ria muito sem ter bem de quê e batia as palmas. O seu favorito não raro a acompanhava. Apanhava-lhe bagas gostosas, seixinhos redondos, flores de cheiro e panasquinho doirado, tudo que lá havia de melhor e mais engraçado. E a princesa com isso delirava.

Mas veio um dia em que ela começou a entristecer. Tinha tido um sonho. Já ninguém mais a ouvia cantar nem dar gritos de alegria. E perdeu o sossego; queria à viva força que lhe explicassem o seu sonho.

Era assim:

Vinha pela serra fora uma figura branca que a arreba­tava, mas ela não sentia pena nem dor. Apertava-lhe a boca, fechava-lhe os olhos e levava-a. Para onde, e o que era?

As velhas da corte, sabidas em sonhos, fartavam-se de cogitar e só diziam ser coisa má.

Mas a princesa batia então o pé e exaltava-se. Qual coisa má! Era uma figura que a levava sem que ela sentisse pena nem dor, para muito longe, muito longe, muito longe...

As velhas ouviam-na pesarosas e entreolhavam-se Coitadinha! — diziam entre dentes, lá na sua linguagem de trapos, e batiam com o dedo na testa.

A princesa perdeu o comer e o dormir a olhar sem­pre para a Lua e para as estrelas de noite, e de dia para um ponto fixo da serra. E até criou mau génio: batia o pé por tudo e por nada. Achava mal feitas as coroas de flores que lhe davam para ela pôr nos cabelos, os seus cola­res de pouca vista e a roupa desajeitada. Queria mais luxo, requintes. Endoidecia as damas e as aias com as suas exigências. Coitadinha dela! — dizia o povo. Que demudada que está! E todos batiam com o dedo na testa, querendo-se explicar.

A princesa entrou a ter apetites de solidão. Fugia então para sítios escusos e longínquos. Mirava-se nas bochechas de água que via e punha-se para a sua própria imagem: não sou bonita, não sou? De outras vezes levantava os braços para o ar e gritava: quem me dera voar! E sem ter de quê chorava, chorava...

Estava ela um dia nisto quando lhe apareceu o favo­rito. Vinha alegre, aos saltos e com uma canastrinha na mão.

Que é que tu aí trazes? — pergunta-lhe a princesa.

Vede... e o gaiato ajoelha-se-lhe aos pés.

Olha, flores! De onde são? Ai, que lindas! aos pares! assim nunca eu vi!

A princesa despeja logo a canastrinha e farta-se de rir. Pega nas flores e leva-as à cara, ao peito, à cinta, abana--as e por fim dependura-as nas orelhas. Que linda estou, que linda hei-de estar! brada ela. Se agora me aparecesse o tal vulto branco... eu ria com ele. Nunca ninguém mais me havia de aqui ver! Como esta princesa ainda nunca se viu outra, diria ele, tão bonita e tão bem enfei­tada! E levava-me para muito longe, muito longe, muito longe...


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

18/10/2007

Os Ladrões das Almas


Os Cletos começaram a romaria dos lavradores abastados do lugar, na vida de jornaleiros, à mercê do tempo e das estações. Joana ia também ganhar a jorna, ela que estava habituada a entreter as horas na esteira de junça, cosendo ou fiando, e a pouco mais que cevar o bacorinho para a matança do Santo André. Trajava agora muito desprezível, saia de burel e lenço de chita, sem uma migalha daquela garridice que, nos descantes, levava os rapazes a oferecer-lhe primeiro a caneca, persuasiva e rendidamente:
- Escabece lá, tia Joana.
A Isabel Carmela, que desmoçava todos os pimpões da aldeia, dizia, batendo as palmas, "que o varrão da vila não quisera mais contrato com aquela porca".
Ordinariamente despegavam todos três ao sair dos gados, deixando em casa a Luísa, de doze anos, com os dois pequenos, um de seis e outro de quatro, muito bonitos e louros, duma pelagem que não tirava nem ao Cleto nem a Joana. Quando voltavam à noite, após as Trindades, era para se estirarem na enxerga, insensíveis e moídos como a terra dos caminhos.
Naquele Inverno, o padre Claro ocupou-os semanas inteiras, nas sachas a princípio, depois no desmonte dum morro em que porfiava experimentar bacelo. Para isso mandara rogar numerosa chusma, pondo-lhe à testa práticos, expressamente chamados do vale.
E, durante um mês, a orquestra bárbara de pás e alviões espantou os gaios que forrageavam nas carvalheiras. De garnacha pelos ombros, fumando o cigarro e peitorreando, o padre fiscalizava. À sombra duma árvore, Isaac lia Zola, suspendendo-se de tempos a tempos a observar os trabalhadores. Entre os homens, coberto de pó e de suor, ninguém distinguiria Norberto, o filho mais novo do padre, se não fossem as objurgatórias e os recados repetidos do pai, que ele partia a executar aborrecidamente porque já não esperava galardão. Duas vezes, de sol a sol, vinha Joana trazer-lhes o comer. Estendia a estopa sobre a relva e, acocorados em volta ou de joelhos, troncos moldados na camisa branca, a malta deglutia de ar truculento e voraz, sendo como era à custa da barba longa. Ninguém era tolo que metesse obreiros a comer, se não queria ficar esburgado até os ossos. Mas o padre tinha a peito dar vazão à muita feijoada que colhia nas terras de regadio, e acalentava a santa ilusão, poupando ao salário, que assim lhe saía mais barato. O que valia - comentava o filho - era deitar contas às despesas ao fim da empreitada, senão paravam ali as obras, para nunca mais.
Ao lado, num toalhete, servia Joana os mesmos pratos ao abade e ao filho, apenas para estes o pão era do alveiro e trazia-lhes o vinho, em vez de cabaça, numa pichorra de Molelos.
Como era muito desembaraçada, acocorava-se no chão, e, lenço descaído sobre os ombros, repartia-se entre as duas mesas; dum lado, a debulhar batatas, a manejar a gadanha, ou trinchante; do outro, de rainha Santa Isabel, a apaziguar as testilhas entre Isaac e o pai, suscitadas por dá cá aquela palha, inclusive as vezes que tinham bebido, que a senhora Doroteia, dona de casa muito económica e regulada, mandava sempre uma escassa medida de vinho. Nunca os dois levavam a termo a refeição sem que barulhassem; isto divertia os operários e obrigava Joana a proferir na sua rude sinceridade:
- É uma vergonha para pessoas educadas! Vejam lá se acabam!
Ao fim, os homens punham-se a pé de um pulo, e o Zé Cleto, mais desembaraçado, chegava-se ao padre:
- O senhor Reitor hoje não tem um cigarrinho para a gente?
A resmungar, porque resmungar era próprio da sua índole, entregava-lhe dois maços de kentucky que Isaac já havia maquiado.
Joana arrumava a loiça, depois de varrer as migalhas para o Moiro que, de olhos fitos e cauda a abanar, estivera desde o princípio a fazer namoro à pitança. Ajudada pelo padre, que lhe punha o cesto de duas asas à cabeça, enfiava no braço direito a cesta-brez, onde ia o panelão do caldo, e, dando as boas-tardes, despedia.
Lá adiante, a coberto do tronco dum castanheiro, Isaac chamava-a:
- Olhe aqui, que lhe quero uma coisa!
Suspendia-se; aproximava-se num requebro, meia dissimulada, a parlamentar:
- Então que quer? Diga!
O moço buscava-lhe a boca com a boca e cingia-a pela cinta. Abandonando-se, murmurava:
- Olhe que podem ver! Dianhos, uma mulher da minha idade!
Mas só trocavam beijos, não era propícia a hora. E prosseguia, lépida e mais frescal, para casa do senhor padre, onde a esperava a gralhada dos filhos com mira nos sobejos. A senhora D. Doroteia, ainda que velha e com muita lida, era mulher para pôr tudo direito numa volta de mão. Num ápice vasculhava caçoilas e tachos, arranjando um bazulaque com que atestava uma almofia em que os pequenos se atufavam até às orelhas.
E ambas, enquanto lavavam a loiça, se entretinham de Isaac, um homem doido pelo mulherio, sem emprego e sem lei, que, por aquele caminho, acabava com uns alforges às costas a pedir esmola.
- Veja prò que a gente os cria, senhora Joana!
E, arrastada na adulação, sabendo que o grande axe de Isaac era o femeaço, Joana dizia:
- Pra consumição e trabalhos, senhora D. Doroteia! Ai, ele há lá gado mais ruim que as mulheres!?...

*

Ao cabo de um mês, a barreira foi saibrada e plantada vinha. Os Cletos passaram, então, para casa do Andrade, onde havia lenhas a cortar e grandes cepos de carvalho a desfazer em cavacos. Porém, se o Cleto velho era bom trabalhador, amargando quanto custava, o filho despedia duas machadadas e punha-se boquiaberto a ver para onde as nuvens corriam.
Além disso, era fidalgo nos comeres depois que voltara do regimento. Vinha, porém, à sombra do pai porque parecia mal rogar um sem rogar outro, e porque o pai, só, se negava. Sem esta circunstância, era bisca que os patrões desejariam ver por um óculo. Além de o não estimarem por calaceiro, mormente se cheirasse moça ao lado, era rebelde, não deixando passar sem retruque a mais pequena observação. E iam-lhe impondo lazareto.
- Olha, meu rico - dizia-lhe D. Doroteia, que era franca e boa mulher - quem é pobre humilha-se.
- Mas eu não hei-de deixar que me comam o caldo na cabeça! - respondia ele, desesperado.
- Mas curva-te, homem, curva-te a quem é mais que tu!
Uma vez que a senhora Maria Andrade não serviu vinho à ceia, levantou grande celeuma:
- Tratam-nos como negros! Julgam que os pobres são de ferro!
E, diante de quem o quis ouvir, acrescentou, descarado:
- Tenho de ir ao vendeiro para me dar meio quartilho.
Isto foi uma ofensa para a senhora Mariquinhas, em casa de quem os trabalhadores eram tratados como bispos.
- Uma desfeita destas - exclamava em voz patética - só porque uma vez não apareceu a botelha na mesa!...
Os Cletos, todavia, continuaram ao serviço do Andrade, porque não havia como o velhote para arrancar raízes de carvalho, e os rapazes, sãos e de alma, desertavam para os Brasis. Mas a senhora Maria Andrade tinha declarado:
- Esta escândula, cem anos que eu viva, cá me fica!
E, cheia de ódio, ia à boca pequena denegrindo os Cletos, sobretudo o Zé, vicioso e execrado:
- Aquele lascarinho, quando não tiver o vintém para cigarros, rouba.
Uma noite, depois de cear, quando as lenhas estavam cortadas e empilhadas, à mão da cozinheira, o menino veio dizer à mãe que os Cletos tinham metido, cada um, o seu tropeço de broa no bolso, grande como burro.
Mal viraram costas, a senhora Maria Andrade correu ao açafate a verificar. E, ainda que encontrasse comido o mesmo pão de sempre, desatou em altos brados:
- Excomungados, levaram-me um pão de quarta. Oh! lobos os devorem!
Ao outro dia, os Cletos cearam, espreitados por muitos olhos. E, antes de dar graças, todos viram que, sorrateiramente, cada um alforjava na véstia a sua fatia de centeio. A senhora Mariquinhas pôde exclamar, triunfante:
- Ah! que há muito eu notava a diferença no açafate! O inocentinho não mentia. Gatunos!
O senhor Andrade, para quem a desafronta conjugal era questão de faca ao peito, despediu os Cletos dois dias antes de terminar a arrumação das lenhas. E a toda a gente a sua senhora foi dizendo:
- Vejam lá que manhas eles têm! Ainda hão-de acabar por sair à estrada.
Entre os jornaleiros não houve outra coisa em que falar. Até mesmo o latagão do Sem-Tempo, molangueiro e lorpa, abria as queixadas de jacaré:
- Abrenúncia, eu cá antes queria morrer à fome!
- Hão-de ir morrer nas Pedras Negras! Ele é um grandessíssimo cornudo e o filho um valdevinos que só está bem ao pé das marafonas.
Ergueu-se grande burburinho no povo. O Zé Cleto andou a rondar-lhes a casa, de focinho torvo. Joana veio-lhes à porta perguntar quanto devia pelas côdeas que seu homem e seu filho levaram para os meninos.
A senhora Maria Andrade, que lá tinha os seus podres e teve medo da língua dela, afiada como lanceta, desdisse-se, não teve pejo de meter os pés pelas mãos, gaguejando um rosário de lampanas. Mas em voz alta, assim que Joana voltou as costas, perante este mundo e o outro, para que fossem todos muito boas testemunhas, foi clamando que, se aparecesse morta ou ferida, do filho do Cleto se queixassem.

*

As malhadas eram para os Cletos o período das vacas gordas. Quando do cimo das medas gritavam pela primeira vez: "à eira!", já tinham os dias encarreirados por todo o tempo em que zurrassem os manguais. No lugar, havia poucos que dessem à palha como o Cleto, nem se topavam mangueiras direitas que ombreassem com o Zé. Como nisto ia alarde e valentia, o farsola revelava-se. Ele a bater o mangual e a laje reboava como o ruir dum convento. E era por ali abaixo uma trovoada, de escantilhão, pírtigo no ar, pírtigo em terra, impelidos pelo Zé, que fendia todo o carvalho cerquinho ao cabo de duas eiradas! Os pimpões das aldeias limítrofes apontavam-no a dedo:
- Aquilo é o pedaço dum malhador.
Nos eirados era o primeiro. A sua má fama era atirada para trás das costas e regateavam-no, porque não havia como ele para animar o malhio.
Ao fim da carreira estendiam-lhe a botelha em voz aduladora:
- Encabeça, Zé...
Os Cletos traziam atrás deles, pelas malhas, toda a familagem: a Joana, reles coanheira, e os pequenos, que, à sombra quente das medas, jogavam com bugalhos e maçãs-cucas. Este séquito fazia dizer aos senhores da malhada:
- Com uma novena destas, os pimpões não ficam baratos.
O Zé granjeava neste período com que pagar na taverna e comprar um terno de saragoça; o Cleto com que adquirir umas fornadinhas de pão e vestidos de cotim para as crianças. O Zé, além disso, ficava armado para a festa da Lapa, que batia quase sempre ao fim das malhadas. Aí, então, pagava vinho como um brasileiro acabado de chegar e, embebedando-se, envolvia-se em rixas de que sempre saía com a cabeça rachada. E era pelo estendal de bazófias e filistrias que os moços na terra lhe tinham respeito e as raparigas o viam com olhos de ternura.
No Verão levavam os Cletos esta vida airada de cigarra. Mas chegava o Inverno e sentiam-se fora de si, fora do meio, como belos animais que acompanham o sol em matéria de dar ao mundo a quota de préstimo com que os dotou a natureza. Em vez de pulsos esforçados tornavam-se precisas mãos pacientes e maneirinhas. Quando no cabanal do padre Claro se acabavam os troncos de árvore, o pai Cleto punha-se a tecer palhoças, pouco buscadas e mal vendidas.
À noitinha, ia armar "ferros" nos tourais de coelho e fios às lebres na linha das demarcações. Saíam por via de regra frustradas as suas canseiras, e lá continuava a tecer os polainos de junco, indolentemente, ao lado do filho, que tocava harmónio, ou dormia de papo para o ar, tendo passado a noite na vida marota. Diante de dois tições, Joana remendava, e as semanas e os dias decorriam assim tremendamente vazios, mais fastidiosos que a chuva miúda, ping-ping-pang, ao cair do telhado para as escaleiras.
Às vezes o Zé ia pirangar, com as moças, pelas quintãs, e Joana saía ao mato. O Cleto, vendo-se só, com o apetite sempre desperto, passava busca à salgadeira e bifava o que lhe caía debaíxo da unha, naco de toucinho, ou chouriço reservado para os dias santos. E despedia a imolá-lo na taverna com este ou aquele súcio dos povos vizinhos, a quem tivesse vendido um par de polainos.
Debalde esporteirava Joana contra a gula do homem:
- Um alma do diabo destes, que não tem onde cair morto, e lambisqueiro como um abade! É preciso fechar tudo a sete chaves, senão... olho vê, pé vai e mão pilha.
A carmear o junco, o Cleto desatava a berrar e jurava pela sorte dos filhos que não havia tocado na salgadeira.
- Assim Deus me salve se pus dedo molhado na ucha da grande filha da puta!

*

Um dia o pão e as batatas faltaram de todo em casa. Comer de grilo. Não havia quem fiasse, devendo já quinze alqueires ao padre Claro e vinte e cinco tostões ao filho, afora os pequenos empréstimos a tutilimúndi. Estava um Inverno rigoroso e os rebanhos não saíam ao pasto, ficando a roer nos estábulos o feto seco de Primavera, de mistura com coanhos de centeio, quem tinha para lhos deitar. Caía neve e, pelos cômoros, mal se avistavam uns arrepios de erva que as ovelhas paridas, molhadas pingando e balindo, iam espontear, de relance, sob a chibata do pegureiro. Vezes a fio, apresentou Joana à sua gente caldo de hortelã-pimenta com duas areias de sal. O Cleto acabou por praguejar e o Zé, com a ira, por partir a malga no chão. A mãe voltou-se para ele, em voz de sarcasmo e ao mesmo tempo de dor:
- Olha, se queres ser regalão vai ganhá-lo. Onde não há, el-rei o perde!
Amarelos como a cera melada, os meninos berravam por todos os foles que tinham fome.
- Este vai-se para as malvas - dizia José pelo ìrmãozinho louro, o mais novo.
As malvas eram o cemitério, entre pinhais, onde pujavam as mil plantas mesquinhas, sem nome, no solo engordado pelo mortulho.
Joana, perante tanta miséria, vestiu-se dos melhores farrapos e deitou-se a Longa debaixo de neve. Havia muito que lá não punha pés, desenganada da vila como a vila estava olvidada dela, pobre e sem graças.
Ao anoitecer, os pequenos saíram-lhe ao encontro, com o faro nas bolas-milhas, que sempre lhes trazia para regalo, compradas no padeiro; a mãe sacudiu o avental, a chorar:
- Não vos trago nada, meus filhos!
O Cleto jungiu os ombros:
- O Loba mandou-te à tabua...! Não era de esperar outra coisa de semelhante macacão...
De porta em porta, ai tio, ai tio, bateram à do mestre-escola, diabo de homem que não ia à missa nem se confessava. E, contra a expectativa, encontraram ali uns tostões. Nesse dia, comeram batatas com azeite e pão de rala. E, mais comunicativo que de costume, o Zé declarou que a porca da vida assim ia mal, que partia a assentar praça se não arranjasse passagem para o Brasil.
- Para o Brasil! - exclamou Joana. - E que vais lá fazer? Tu não te domas ao trabalho!
O filho, que estava em hora de ternura, melindrou-se e desabridamente retorquiu:
- Vá para um raio!
A mãe rompeu em grande berreiro. Mas, conciliador e patriarcal, o Cleto puxou do açafate, em que haviam sobejado migalhas, para o meio da família. E sobre ele, descoberto à bênção da casa toda, louvou ao Senhor:
- Infinitas graças e muitos louvores devemos dar a Deus por tão altos benefícios: padre-nosso...
- Hás-de ir parar a uma cadeia, cão! - resmoneava Joana. - Se alguém tem uma linguagem destas para os pais... Safado!
- Ao mártir S. Sebastião que nos livre da peste, da fome e da guerra: padre-nosso...
- ...bem diz a mulher do Andrade! Inda hás-de sair aos caminhos...
Mas o Cleto voltou-se para ela, num acento raro de comando. E, vendo-se obedecido, prosseguiu nas devoções:
- S. Pedro e S. Paulo que nos abram as portas do Céu, quando morrermos: padre-nosso…
Sem erguer as mãos nem bulir os lábios, o Zé pregara olhos irados na fogueira. O gato farejava o açafate, miando.
- Santo Avelino que nos livre dos maus repentes: padre-nosso...
- S. Martinho que nos livre das maleitas: padre-nosso...
- Este judeu, António, não reza! - pronunciou Joana, indicando o filho.
O pai fitou-os a ambos num ar de censura e continuou na via-sacra:
- S. João Baptista que guarde as nossas searas: padre-nosso...
Quase no fim da oração, o Zé apanhou o sentido da súplica ao Baptista; e a chasquear, de lábios torcidos, proferiu:
- Onde tem as searas, homem?
Mas o pai, sem fazer reparo, continuou:
- Senhora da Conceição que não nos deixe morrer sem convicção: ave-maria...
- Santa Iuzia que nos dê vista e claridade no curpo e na alma: ave-maria...
- Ergue as mãos, mulher! - ordenou Joana à filha, que de cansaço deixara cair as mãos. - Ergue bem!
- Senhora da Corredoira que corra nossas almas para o Céu: ave-maria...
Por muito tempo as preces desfilaram, sibiladas e cheias ora de fé ora de reconhecimento. Na fogueira a corcódea do carvalho estalava, alimentando uma lumalha magra, sem calor. Vencido, ainda que com indolência, o Zé Cleto alçou as mãos.
- Nossa Senhora que peça e rogue ao seu amado filho por nós: salve-rainha...
Depois, quando se suspendeu o sopro sussurrante dos lábios de Joana, o Cleto rematou, mais grave, com maior unção:
- Senhor, estas orações são pouco, ditas na Terra, recebei-as vós no Céu por muito! Senhor, que estas orações cheguem até os pés de vossa divina majestade! Senhor, que aqui nos juntastes, juntai-nos um dia no vosso santo reino. Amém Jesus!
Persignaram-se ruidosamente; Joana espalmou a mão sobre a fronte dos pequenitos, a traçar-lhe o sinal-da-cruz, e, bamboleando a cabeça, disse para José:
- Não rezaste palavrinha, mas os santos hão-de-te ajudar...
- É por isso que você nada na fortuna - replicou ele numa gargalhada. - Que lhe preste!
E, traçando a capucha, foi-se rentar as moças pelos serões!

*

Em casa dos Cletos a fome assentou arraiais. Para não falecerem à míngua, os velhos saltavam às hortas, ao acaso dos donos, colher ora um olho de couve, ora a molhada de nabiças temporãs. À boca pequena começou a soprar-se que percorriam os campos, altas horas, o Zé com um bacamarte carregado de cabeças de prego, o velho com uma saca onde abismava tudo, couves tronchas, galinhas e cabritos transviados.
Todo o sumiço de animais era agora lançado à conta dos Cletos, quando antes era atribuído ao teixugo e aos arraianos que compram ovos pelas portas e passam o contrabando, cordão para isca, o seu corte de bombazina, brownings de 9 c. fabricadas em Bilbau. A sua nomeada de ratoneiros foi crescendo até chegar a vila e termo.
- Estes almas de cão - confessou uma vez o filho do Cleto a Isaac - só porque lá os velhos apanham de quando em quando uma folha de couve pelas hortas, fazem de nós uns Zés do Telhado! Um dia derranco-me!
Isaac bateu-lhe no ombro, em tom de confidência:
- Tudo vai em saber roubar, Zé. E o saber roubar está alguma coisa no modo, mas muito na cifra.
Se puderes palmar uma herança de muitos contos, fazem-te comendador. Serás rico e respeitado. Se não puderes roubar assim à valentona, arma em santanário e pede para as almas. E vive-se. O diabo é pilhar um pão ou uma abóbora pelos campos. Parece mal e vai malhar-se com os ossos às cadeias celulares...
- Nunca furtei uma agulha. É lá minha mãe que tem fome.
- Fome não tem lei. Nesse caso é roubar tudo o que cair debaixo dos cinco mandamentos. É tirá-lo a todos, a mim, ao burguês, ao cura. Com fome, há o direito de dinamitar uma padaria para apanhar um pão.
- E a costa de África?
- Na costa de África come-se o rancho do Estado.
Mas os Cletos, formados no respeito da propriedade, só com muita lazeira se atreviam a ripar uns folharecos de caldo, ou uns porros, no campo alheio. Também, de Inverno, não havia outra coisa que forragear... E à míngua de tudo iam passando os dias. Sempre teimoso, o pai continuava a lançar as armadilhas nas veredas onde a lebre é vezeira e nas encruzilhadas da serra, onde, com a geada, os coelhos vêm despejar o fole. E era toda uma trabalheira, à noite e ao amanhecer, para caçar, de tempos a tempos, um laparoto, ainda bisonho, pouco estreado nos ardis do bicho homem.
A mãe por vezes, deixando escurecer os agravos que, nas contínuas quezílias, recebia do filho, rogava-lhe em voz de piedade:
- Oh! Zé, se tu fosses pedir uma tigela de farinha para as migas...?!
Com maus modos, o filho recusava-se; mas, vendo-a soluçar, seca como as palhas, acabava por dizer que ia buscar uma braçada de verças à primeira horta que calhasse. Ela opunha-se, e por Deus Nosso Senhor lhe suplicava que o não fizesse à hora do dia, que ia morrer a uma cadeia. O Zé largava de repelão e, metendo para os quintais, à luz do sol, com mão tão lesta como descarada, fazia um molho, que trazia debaixo do braço, pelo povo acima, à vista de quem queria ver.
Uma ocasião a tia Javarda surpreendeu-o na fazenda e foi chamar o filho. Este largou tudo para plantar-se no caminho do Cleto:
- Onde apanhou as couves, seu Zé?
- Algumas na tua horta. Tens alguma coisa a dizer?
- Quem lhe deu licença?
O Cleto cresceu para ele, de olhar torvo, no jeito de esfregar-lhe o molho na cara regougando:
- Sai-me da vista, que te racho os chavelhos!
O outro baixou a voz. Bastava pedir, que ele, louvores a Deus, tinha hortas para não recusar nunca duas folhas de caldo a um pobre.
O Cleto despediu-lhe numa última arruaça:
- Então olha, leva-me todos os dias uma abada de couves. Lá em casa não há para que erguer olhos…
- Ora a maroteira! - rosnava-se no povo. - Todas as hortas são deles. Têm bom corpo, trabalhem, vão para a Terra Quente servir um amo.
Descoroçoada com tanto murmurar, a namorada do Cleto voltou-se para outro.
Cheio de desespero, o Zé enroscou-se mais na sua preguiça, entre a fome, duas tocatas de harmónio, e a fogueira sempre acesa, que andavam bem sortidas as tapadas do monte. O resto do tempo passava-o com o filho do Reitor, que lhe nutria o vício do cigarro e, encobertamente, trazia tudo o que podia arrebanhar em casa, toucinho, feijões secos, mesmo roupa branca. Só dinheiro não trazia, porque andava arredio dele como da graça de Deus - chalaceava Isaac.
Numa tarde de lazeira, em que não havia migalha no açafate, nem gota na almotolia, o Zé comunicou ao pai o projecto que ruminava há tempos, olhos sobre as brasas a esmoer- -se em farelo branco. O pai Cleto respondeu em modos desabridos:
- Homem, que ideia estuporada! Tu queres a nossa desgraça.
À noite o filho voltou à carga, procurando deslumbrá-lo. O pai manifestou a mesma relutância, em voz alta, mais mole apenas:
- És tolo, rapaz; és tolo!
O filho exasperou-se na sua boa fé:
- Já lhe disse, é um rufo, e dentro há uns bons pares de mil réis. De noite, vá lá saber-se quem foi!
O velho ficou calado e ele afirmou que, cerca de dois anos antes, pelos seus próprios olhos, vira contar obra de doze mil réis. Só após longo silêncio o pai respondeu:
- Não; é um pecado muito grande.
- Vossemecê é maluco; o padre é quem a esvazia! Não é pecado para ele e era pecado para nós?!
A mãe, desconfiada, veio espreitar à porta e os dois calaram-se.

*

À noite os Cletos deixaram Joana acocorada ao borralho, os filhos à roda, entanguidos e friorentos, como uma galinha com os pintos. Envergaram as véstias e o Zé pegou na machadinha de mato. A mãe perante este aparato clamou:
- Vejam lá o que vão fazer! Hão-de-me dizer aonde vão...
- Aonde vamos? - repontou o filho. - Já você aí vem. Vamos buscar um molho de estacas aos pinhais. Oue mais quer saber?
Joana tinha medo do filho, que um dia lhe dera um safanão porque lhe batera com as tenazes. Foi para o velho que se virou:
- Andem lá, andem, ninguém as faz que as não pague!
Os dois escorregaram silenciosamente no escuro, muito sorrateiros, de capucha traçada sobre o queixo. Estava a molinhar e no céu baço uma ou outra estrela brilhava como brasa amortiçada em monte de cinzas. Ruas e caminhos estavam empapaçados de lama e treva.
Tupa que tupa, meteram afoitos contra a cacimba, esquivando-se às pessoas que voltavam do forno com tabuleiros de pão à cabeça. Depois, cortaram à direita do cemitério, por entre as desgrenhadas brenhas dos castanheiros a escorrer água. O vento bramia nos pinhais, e, muito raro, breves ladridos dos cães chegavam esvaídos no ar.
Leva que leva sem dizerem palavra, chegaram à ermida do Senhor da Agonia, que a piedade dos homens tinha erguido à memória daqueles que mão vingativa ali fizera morder o pó da terra. Ficava assolapada numa baixa, de sentinela a quatro caminhos, ásperos e tortuosos. E, suja do tempo e com o telhado a esboroar, alçava naquele ermo a imagem pavorosa dos assassinados, agonizando e rebolando-se na areia empoçada de seu sangue.
Já perto, os Cletos estacaram. Reboavam tamancos pela frente e, cautelosos e escoteiros, escamugiram-se para trás duma parede. Os passantes vinham falando em voz alta:
- Minha mulher manda todos os anos aqui rezar uma missa para que Deus nos leve em paz da alma e sem que se sinta a morte... Eu cá nunca passo que não deite a esmola.
Disse o Zé para o pai:
- Olha que traste! O Andrade...
Aperceberam-se do ruído de dez réis tilintando no fundo do mealheiro... do instante de imobilidade do Andrade e do jeito de marcha. Quando os passos se perderam no caminho, os Cletos foram direitos à frontaria da capela. O velho pôs a boca a uma lucarna e berrou para dentro:
- Óóóó!
- Para que ronca, homem?
- Podia lá estar aninhado algum pobre.
- Ora! Morcegos.
O Zé chegou-se à caixa das almas e experimentou abaná-la. Presa por dois gatos de ferro e couraçada de ferro, pedia esmola nos quatro caminhos, como a mão hirta e infatigável dum ermitão. O Cleto deu-lhe um murro sobre o tampo, sacudiu-a com toda a força e, mal sentindo chocalhar, declarou:
- Está chocha.
Então o Zé, à mão-tente, descarregou-lhe uma pancada de baixo para cima com o olho da machadinha. E as moedas cuspidas contra o tampo falaram, soltaram cascalhadas zombeteiras.
- Não está tão chocha como isso!
- Olha, eu cá digo-te que vamos embora. É um grande pecado; já muita gente tem ficado tolhida. Além de que não tem cara de ter grande coisa dentro.
- Se quer, vá-se, eu não preciso de vossemecê.
O Zé insinuou o gume da machada entre o ferro e a grossa tábua de carvalho. Mas os ganchos seguravam-na como garras de avarento. Inutilmente tacteou a lâmina todas as juntas, sorrateira, capciosa, feroz. O velho, a tremer como um vime, agarrou da machada; mas em seus dedos, trémulos com a enormidade do cometimento, o ferro fugia, escorregava, acendia centelhas nas cabeças grossas dos cravos. E o filho safou-lha de repelão:
- Largue! Largue!
Num relâmpago o Zé alçou a machada, descarregou-a, animada de todo o alento. Em dois golpes a caixa estava arrombada, estripada, as guarnições de ferro e a madeira fendidas como por uma cunha tremenda, que caísse do céu.
Transido e com a pressa do medo, o Cleto meteu a mão; o filho empurrou-o com uma cotovelada:
- Tire lá a pata!
- Olha que pode vir gente...
O Zé esbandulhou bem o cofre; depois, dizendo ao pai que aparasse no chapéu, varreu com a mão em rodo.
Um punhado de moedas tiniu, mas numa secura que os fez praguejar:
- Estamos roubados; não tem para mandar cantar um cego.
O Zé Cleto arrecadou o dinheiro e, apontando a caixa das almas com o ventre à mostra, exclamou:
- O melhor da mamata foi para o padre. Não há-de haver muito tempo que lhe pôs os cinco mandamentos... Gatuno!
O velho teve também um soluço de cólera, espoliado, defraudado em suas esperanças:
- Gatuno!

*

A senhora Mariquinhas arreou-se com o fato de domingo, para ir à vila ver julgar os Cletos. E, muito contente com a justiça da terra, a cavalo na égua parideira, de colcha branca na albarda, passou por entre as hortas. Nas ricas, o caldo apodrecia, e era sagrado nas pobres. Apenas as galinhas continuavam a sumir-se mailos cabritos, e no Verão aquelas melancias rúbidas, que matavam a sede a um arraial. E, não se distinguindo a mão misteriosa destes furtos, opinava ela que era alguém da quadrilha dos Cletos que sobrevivia para desassossego do povo.
Os Cletos, esses, estavam há muitos meses à sombra, com bilhete tirado para a costa de África. Ia ver a cara desses malditos, que lhe bifavam todas as noites um pão de quarta e traziam a gente em sobressalto, e o focinho da porca cilhada que tinha uma língua tão comprida que chegava para varrer o forno.
Lá pôde arranjar um lugar na audiência, pouco frequentada, de resto. E, regalada já de lhes contemplar as caras magras e tristes de fome e de vergonha, a sua alma palpitou, agradecida ao Senhor, quando em bela voz de celebrante, o juiz leu, após muitos e variados considerandos, a sentença seguinte:
"Em virtude da resposta dos senhores jurados aos quesitos compreendidos nos artigos 421.°, n.° 3 - 426.°, n.° 4 - 428.°, n.° 4, e 442.° do Código Penal (crimes de ofensas à religião do Estado, arrombamento com dano e escândalo público) em que se acha pronunciado o réu António Anacleto, casado, 63 anos de idade, natural da freguesia de Rio Pardo, desta comarca, condeno-o na pena de quatro anos de prisão maior celular ou na alternativa de seis anos de degredo em possessão de I.a classe. Não condeno o réu nos selos e custas dos autos por ser pobre, como provou."
A senhora Maria não conseguiu ouvir o final da sentença. Um choro convulso rompeu no banco dos réus, a que se seguiu na galeria o clamor do pequeno de doze anos e dos dois meninos, que berravam para chegar à mãe e porque viam chorar.
O senhor Juiz intimou silêncio e toda a sua beca negra e austera flutuou. O oficial veio enxotar as crianças, que uma serrana trouxera para darem os últimos beijos à mãezinha.
A senhora Maria Andrade ouviu pronunciar igual sentença contra o Zé Cleto. E foi de coração cerrado que ouviu invocar as atenuantes no libelo de Joana. Todavia, também era condenada em seis meses de prisão correccional por cúmplice e receptadora.
E enquanto, dentro da teia, Joana se desfazia em gritos, o velho Cleto se arrepelava e o Zé mostrava um ar idiota e insensível, expandia ela seu contentamento:
- Bem haja o senhor Juiz, bem haja! Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.
Os meirinhos e os circunstantes desataram às gargalhadas daquele desatino, e ela abalou para a aldeia, a alma cheia de gáudio, tocando com nervosos calcanhares a égua mazorreira, para levar depressa a novidade.


In RIBEIRO, Aquilino. Jardim das Tormentas

16/10/2007

Mãe!



Ao Dr. J. C. da Mota Prego


Bela cabra, a Ruça! – posso dizê-lo aos senhores. A melhor da manada, luzida e de pêlo macio, sem saliências de ossos como as outras, altiva de porte quando à frente do rebanho parecia comandá-lo, badalando cadencialmente o seu chocalho enorme – tlão! tlão! Era no rebanho a que mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.
E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro. Por isso Alípio José, pastor a quem doíam as denúncias, ao pescoço da Ruça prendera o chocalhão, para dar do atrevido ani¬mal mais fácil rumor, pois era de timbre muito distinto dos demais, e muito mais grave.
Em pastagem pelos montados, a Ruça era de uma audácia extrema. Fazia gosto vê-la trepar às últimas cumiadas, subir destemidamente às arestas superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas, pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as ervas dos declives alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com abismos, enquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e córregos, saboreando as giestas, sem se atreverem a segui-la nas suas excursões arriscadas de touriste.
Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores
audácias, e então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que encontrasse por essas paragens era para ela um desespero – tamanha a fúria com que a perseguia, e a insistência com que se ficava às marradas na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o Alípio, que dormia à sombra das azinheiras, de chapéu sobre a cara, levantava-se sobre um cotovelo e intimava para o alto, com o seu vozeirão que fazia eco: – Toma tento, Ruça!
E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovelos fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alípio José ficava-se a olhar a cabra, invejoso daquela facilidade em subir aos últimos pináculos, admirado dos saltos que ela fazia para salvar gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caísse, a morte seria infalível. E por lá andava dias inteiros a Ruça, naquela vagabundagem por sítios inacessíveis ao resto do rebanho, resguardando-se da chuva em recôncavos de rocha, onde as águias faziam ninho.

*

Foi num desses sítios que a Ruça teve o primeiro filho, por lá se deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia quis ela descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem vezes, fitando o topo da ladeira, Alípio José gritara cá de baixo, cada vez mais desesperado:
– Volta ao rebanho, Ruça!
E cuidando que mais lhe feria assim a atenção, punha-se a agitar com fúria o molho dos cho-calhos, gritando sem cessar:
– Ruça! Torna ao rebanho, Ruça!
Mas impossível! que a não deixava a quebreira em que toda ela ficara do parto, nem o pequeno poderia – pobrezinho! – descer por tais ladeiras, de pedregosas e ásperas que eram.
Mas de noite o frio era intenso naquelas alturas, e o filho congelava unindo-se à mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o aconchegava mais e mais para lhe transmitir o natural calor do seu corpo enfraquecido e doente.
Por altas horas da noite, na solidão lúgubre daquele sitio, alcantilado e íngreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava lugubremente, num como choro dolente e prolongado, o balido da mãe, traduzindo angústias e desesperos íntimos, respondia ao vagido fraco do filhinho, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a instante, inteiriçando-se-lhe, com o frio, os membros delicados e tenros.
Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por tais frios e doenças, impossível dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e mais num como abraço de eterna despedida – amigos que se iam apartar para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade, soluçando e gemendo, num adeus! que era infinito, como o infinito amor que os unia...
E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava lugubremente, assustando o animalzinho, como se aquele fora o sinal para o transe derradeiro...
Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abóbada, as estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indiferença por aquela dor suprema de que eram as únicas tes-temunhas.
E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céu a vida do filho ao menos, – ora súplice em balidos de resignação que uma profundíssima dor ungia, ora desvairada e louca, em gritos que significavam blasfémias – blasfémias de desespero contra o céu que a não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe estrangular o filhinho que ela amava tanto.
E a fazer-lhe mais viva a sua enorme dor – a ironia acerba da chocalhada longínqua das com-panheiras, que se iam pelos montes da outra banda, deixando-a a ela só com o filho, à espera da morte que era inevitável.
Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar fora o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, num – adeus! adeus! – de despedida às companheiras felizes que lá iam, num ruído longínquo de chocalhos...

*

Naquela solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam e o sangue circulava.
E o animalzinho sem poder ainda descer!...
De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as escarpas da ladei-ra, ia para um lado e outro, desvairada e trémula, como que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas horríveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio, lá baixo, rugia nas cachoeiras, aumentando-lhe o receio.
Impossível! Impossível!
E sentia-se enfraquecer à míngua de sustento, pois a erva, por ali, estava comida e recomida pela pastagem miserável de três dias.
Num momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes e crebros, refez-se de coragem a cabra, e, segurando entre os dentes o filho, tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito, assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e trémulo...
Impossível! Impossível!
Nada que signifique a dor daquela mãe, e traduzir possa em linguagem toda a gama de senti-mentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia, estendido para ali, na prostração pesada do último desalento; animava-o com carícias, aproximava-lhe da boca os úberes já flácidos e amolentados, convidando-o a mamar, como se aquele leite pudesse levar ao filho a coragem que a ela própria faltava em tamanho transe aflitivo...
Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a última cambiante do poente e sobre as gargantas dos montes passavam subtilmente as primeiras névoas, alvadias e ténues. À medida que a treva se condensava, decresciam os ruídos em todo o horizonte, acentuando-se cada vez mais a melopeia sonolenta do rio nos açudes.
Perpassavam pelo ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos voláteis de arminho, cortavam em voos mansos a profundidade calma do céu, demandando os pombais e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo. Revoadas de perdizes e de tordos passavam por ali alegremente, num chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos estevais e nas urzes. Pelas ervagens secas rastejavam apressados os répteis, e sob os tojais bravios a lebre buscava a cama...
…E tudo tinha ninho – pombas que voavam e perdizada sonora, quem passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda a colónia vagabunda de répteis e de aves, que passou alegremente o seu dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia amanhã...
Só a desgraçada cabra, ali, junto do filho tenro, não mais fizera passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração alanceado de mãe. Aí vinha o frio inclemente fla-gelar-lhe o filho... – o filho que já tremia a ela aconchegado – o triste pobrezinho!
Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante naquele silêncio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céu era baixo e torvo de nuvens. Estrelejava a espaços a abóbada, irradiando uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em últimos transes de crianças, em que a vida gradualmente se extinguisse, num latejar vagaroso de pálpebras sonolentas...
Mais álgida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva aparência da atmosfera e do céu. Noite pior do que as outras, porém com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancá-los do abraço em que se uniram, mal cerrara a noite!
A pequena distância, o monte era cortado de profundíssima garganta em rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos, acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade esverdeada e rútila. E, imóveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a que parecia terem arrancado as pálpebras, projectavam a sua luz sinistra na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retraía-se num como pavor medonho, concentrado de íntimos terrores e silêncios lôbregos de horas altas. Cerrava-se mais no céu a falange muda das nuvens, densificando-se em tintas negras, impenetráveis e caliginosas, sem cintilas de estrelas, por fugidias e ténues que fossem...
E sempre, e constantemente imóveis na escuridão pesada, aqueles dois olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a treva na direcção mais exacta do grupo. Tran-sida de susto, arquejando convulsamente no último paroxismo da sua enorme dor, a pobre mãe não ousava arriscar um único movimento, e mais e mais cerrava contra si o corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.
Assim durante horas que aquele atrocíssimo suplício fez enormes, quase eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizíveis angústias, vazias de esperança na vida do seu pequeni-no filho.
De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distância. Estremeceu a pobre de súbita alegria, – e no abalo que sofreu o seu corpo, até então retraído, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleópteros de asas fosforescentes, os olhos até então imóveis do inimigo. E por ali levou a noite toda, farejando e uivando, até que, cansado de perscrutar o insondável, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada que vinha, docemente, alumiando píncaros e arestas.

*

Ao romper d’alva o céu era azul. Apenas de longe em longe penachos de nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando, diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações imperceptíveis e suaves.
Começavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava já as diferenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céu nos altos dos montados.
Pelas ladeiras de além, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao areal da margem. Em turbilhões de espuma alvíssima precipitava-se a água nos açudes marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e informes, de uma mudez contemplativa e perpétua. Do tecto do moinho, lá em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma ambição ou como um sonho...

*

Foi então que Alípio José, à frente do rebanho, de novo abordou àquelas paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.
– Ruça! Torna ao rebanho, Ruça!
Mas precisamente a essa hora, a Ruça exalava o último alento, pendida sobre o cadáver do pobre filhinho morto!...
E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos rochedos – passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a esfaimada legião dos amaldiçoados corvos...



In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas


14/10/2007

Os Laços de Família

A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.

— Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe.

— Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência.

Ainda estava sob a impressão da cena meio cómica entre sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante as duas semanas da visita da velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada momento com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro. "Perdoe alguma palavra mal dita", dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira António não saber o que fazer das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser o bom genro. "Se eu rio, eles pensam que estou louca", pensara Catarina franzindo as sobrancelhas. "Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um", acrescentara a mãe, e António aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé, observava com malícia o marido, cuja segurança se desvanecera para dar lugar a um homem moreno e miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra: desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.

— Continuo a dizer que o menino está magro, disse a mãe resistindo aos solavancos do carro. E apesar de António não estar presente, ela usava o mesmo tom de desafio e acusação que empregava diante dele. Tanto que uma noite António se agitara: não é por culpa minha, Severina! Ele chamava a sogra de Severina, pois antes do casamento projectava serem sogra e genro modernos. Logo à primeira visita da mãe ao casal, a palavra Severina tornara-se difícil na boca do marido, e agora, então, o fato de chamá-la pelo nome não impedira que... - Catarina olhava-os e ria.

— O menino sempre foi magro, mamãe, respondeu-lhe. O táxi avançava monótono.

— Magro e nervoso, acrescentou a senhora com decisão.

— Magro e nervoso, assentiu Catarina paciente. Era um menino nervoso, distraído. Durante a visita da avó tornara-se ainda mais distante, dormira mal, perturbado pelos carinhos excessivos e pelos beliscões de amor da velha. António, que nunca se preocupara especialmente com a sensibilidade do filho, passara a dar indirectas à sogra, "a proteger uma criança” ...

— Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah! - exclamou a mãe como a um desastre irremediável, ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de repente envelhecida e pobre. E Catarina?

Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por que não chegavam logo à Estação?
— Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.

Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe.

— Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão.

— Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas foram dispostas no trem, depois de trocados os beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.

Catarina viu então que sua mãe estava envelhecida e tinha os olhos brilhantes.

O trem não partia e ambas esperavam sem ter o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e examinou-se no seu chapéu novo, comprado no mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente severo onde não faltava alguma admiração por si mesma. A filha observava divertida. Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue. Como se "mãe e filha" fosse vida e repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo. O rosto usado e ainda bem esperto parecia esforçar-se por dar aos outros alguma impressão, da qual o chapéu faria parte. A campainha da Estação tocou de súbito, houve um movimento geral de ansiedade, várias pessoas correram pensando que o trem já partia: mamãe! disse a mulher. Catarina! disse a velha. Ambas se olhavam espantadas, a mala na cabeça de um carregador interrompeu-lhes a visão e um rapaz correndo segurou de passagem o braço de Catarina, deslocando-lhe a gola do vestido. Quando puderam ver-se de novo, Catarina estava sob a iminência de lhe perguntar se não esquecera de nada...

— ...não esqueci de nada? perguntou a mãe.

— Também a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas - porque se realmente haviam esquecido, agora era tarde demais. Uma mulher arrastava uma criança, a criança chorava, novamente a campainha da Estação soou... Mamãe, disse a mulher. Que coisa tinham esquecido de dizer uma a outra? e agora era tarde demais. Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: sou tua mãe, Catarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha.

— Não vá pegar corrente de ar! gritou Catarina.

— Ora menina, sou lá criança, disse a mãe sem deixar porém de se preocupar com a própria aparência. A mão sardenta, um pouco trémula, arranjava com delicadeza a aba do chapéu e Catarina teve subitamente vontade de lhe perguntar se fora feliz com seu pai:

— Dê lembranças a titia! gritou.

— Sim, sim!

— Mamãe, disse Catarina porque um longo apito se ouvira e no meio da fumaça as rodas já se moviam.

— Catarina! disse a velha de boca aberta e olhos espantados, e ao primeiro solavanco a filha viu-a levar as mãos ao chapéu: este caíra-lhe até o nariz, deixando aparecer apenas a nova dentadura. O trem já andava e Catarina acenava. O rosto da mãe desapareceu um instante e reapareceu já sem o chapéu, o coque dos cabelos desmanchado caindo em mechas brancas sobre os ombros como as de uma donzela - o rosto estava inclinado sem sorrir, talvez mesmo sem enxergar mais a filha distante.

No meio da fumaça Catarina começou a caminhar de volta, as sobrancelhas franzidas, e nos olhos a malícia dos estrábicos. Sem a companhia da mãe, recuperara o modo firme de caminhar: sozinha era mais fácil. Alguns homens a olhavam, ela era doce, um pouco pesada de corpo. Caminhava serena, moderna nos trajes, os cabelos curtos pintados de acaju. E de tal modo haviam-se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade - tudo estava tão vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de laranja - a força fluia e refluia no seu coração com pesada riqueza. Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada na sua época e na cidade onde nascera como se a tivesse escolhido. Nos olhos vesgos qualquer pessoa adivinharia o gosto que essa mulher tinha pelas coisas do mundo. Espiava as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda húmido de lágrimas pela mãe. Desviou-se dos carros, conseguiu aproximar-se do ônibus burlando a fila, espiando com ironia; nada impediria que essa pequena mulher que andava rolando os quadris subisse mais um degrau misterioso nos seus dias.

O elevador zumbia no calor da praia. Abriu a porta do apartamento enquanto se libertava do chapeuzinho com a outra mão; parecia disposta a usufruir da largueza do mundo inteiro, caminho aberto pela sua mãe que lhe ardia no peito. Antônio mal levantou os olhos do livro. A tarde de sábado sempre fora "sua", e, logo depois da partida de Severina, ele a retomava com prazer, junto à escrivaninha.

— "Ela" foi?

— Foi sim, respondeu Catarina empurrando a porta do quarto de seu filho.

Ah, sim, lá estava o menino, pensou com alívio súbito. Seu filho. Magro e nervoso. Desde que se pusera de pé caminhara firme; mas quase aos quatro anos falava como se desconhecesse verbos: constatava as coisas com frieza, não as ligando entre si. Lá estava ele mexendo na toalha molhada, exacto e distante. A mulher sentia um calor bom e gostaria de prender o menino para sempre a este momento; puxou-lhe a toalha das mãos em censura: este menino! Mas o menino olhava indiferente para o ar, comunicando-se consigo mesmo. Estava sempre distraído. Ninguém conseguira ainda chamar-lhe verdadeiramente a atenção. A mãe sacudia a toalha no ar e impedia com sua forma a visão do quarto: mamãe, disse o menino. Catarina voltou-se rápida. Era a primeira vez que ele dizia "mamãe" nesse tom e sem pedir nada. Fora mais que uma constatação: mamãe! A mulher continuou a sacudir a toalha com violência e perguntou-se a quem poderia contar o que sucedera, mas não encontrou ninguém que entendesse o que ela não pudesse explicar. Desamarrotou a toalha com vigor antes de pendurá-la para secar. Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria que o filho dissera: mamãe, quem é Deus. Não, talvez: mamãe, menino quer Deus. Talvez. Só em símbolos a verdade caberia, só em símbolos é que a receberiam. Com os olhos sorrindo de sua mentira necessária, e sobretudo da própria tolice, fugindo de Severina, a mulher inesperadamente riu de fato para o menino, não só com os olhos: o corpo todo riu quebrado, quebrado um invólucro, e uma aspereza aparecendo como uma rouquidão. Feia, disse então o menino examinando-a.
— Vamos passear! respondeu corando e pegando-o pela mão.

Passou pela sala, sem parar avisou ao marido: vamos sair! e bateu a porta do apartamento.

António mal teve tempo de levantar os olhos do livro - e com surpresa espiava a sala já vazia. Catarina! chamou, mas já se ouvia o ruído do elevador descendo. Aonde foram? perguntou-se inquieto, tossindo e assoando o nariz. Porque sábado era seu, mas ele queria que sua mulher e seu filho estivessem em casa enquanto ele tomava o seu sábado. Catarina! chamou aborrecido embora soubesse que ela não poderia mais ouvi-lo. Levantou-se, foi à janela e um segundo depois enxergou sua mulher e seu filho na calçada.

Os dois haviam parado, a mulher talvez decidindo o caminho a tomar. E de súbito pondo-se em marcha.

Por que andava ela tão forte, segurando a mão da criança? pela janela via sua mulher prendendo com força a mão da criança e caminhando depressa, com os olhos fixos adiante; e, mesmo sem ver, o homem adivinhava sua boca endurecida. A criança, não se sabia por que obscura compreensão, também olhava fixo para a frente, surpreendida e ingénua. Vistas de cima as duas figuras perdiam a perspectiva familiar, pareciam achatadas ao solo e mais escuras à luz do mar. Os cabelos da criança voavam...

O marido repetiu-se a pergunta que, mesmo sob a sua inocência de frase cotidiana, inquietou-o: aonde vão? Via preocupado que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a seu filho... mas o quê? "Catarina", pensou, "Catarina, esta criança ainda é inocente!" Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria de pé diante desta mesma janela, batendo dedos nesta vidraça; preso. Obrigado a responder a um morto. Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao filho a herança. E com que sombrio prazer. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. Depois ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem. "Catarina", pensou com cólera, "a criança é inocente!" Tinham porém desaparecido pela praia. O mistério partilhado.

"Mas e eu? e eu?" perguntou assustado. Os dois tinham ido embora sozinhos. E ele ficara. "Com o seu sábado." E sua gripe. No apartamento arrumado, onde "tudo corria bem". Quem sabe se sua mulher estava fugindo com o filho da sala de luz bem regulada, dos móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros? fora isso o que ele lhe dera. Apartamento de um engenheiro. E sabia que se a mulher aproveitava da situação de um marido moço e cheio de futuro - deprezava-a também, com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e magro. O homem inquietou-se. Porque não poderia continuar a lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava propriamente, como se tivesse vivido sempre. As relações entre ambos eram tão tranquilas. Às vezes ele procurava humilhá-la, entrava no quarto enquanto ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista nua. Por que precisava humilhá-la? no entanto ele bem sabia que ela só seria de um homem enquanto fosse orgulhosa. Mas tinha se habituado a torna-la feminina deste modo: humilhava-a com ternura, e já agora ela sorria - sem rancor? Talvez de tudo isso tivessem nascido suas relações pacíficas, e aquelas conversas em voz tranquila que faziam a atmosfera do lar para a criança. Ou esta se irritava às vezes? Às vezes o menino se irritava, batia os pés, gritava sob pesadelos. De onde nascera esta criaturinha vibrante, senão do que sua mulher e ele haviam cortado da vida diária. Viviam tão tranquilos que, se se aproximava um momento de alegria, eles se olhavam rapidamente, quase irónicos, e os olhos de ambos diziam: não vamos gastá-lo, não vamos ridiculamente usá-lo. Como se tivessem vívido desde sempre.

Mas ele a olhara da janela, vira-a andar depressa de mãos dadas com o filho, e dissera-se: ela está tomando o momento de alegria - sozinha. Sentira-se frustrado porque há muito não poderia viver senão com ela. E ela conseguia tomar seus momentos - sozinha. Por exemplo, que fizera sua mulher entre o trem e o apartamento? não que a suspeitasse mas inquietava-se.

A última luz da tarde estava pesada e abatia-se com gravidade sobre os objetos. As areias estalavam secas. O dia inteiro estivera sob essa ameaça de irradiação. Que nesse momento, sem rebentar, embora, se ensurdecia cada vez mais e zumbia no elevador ininterrupto do edifício. Quando Catarina voltasse eles jantariam afastando as mariposas. O menino gritaria no primeiro sono, Catarina interromperia um momento o jantar... e o elevador não pararia por um instante sequer?! Não, o elevador não pararia um instante.
— "Depois do jantar iremos ao cinema", resolveu o homem. Porque depois do cinema seria enfim noite, e este dia se quebraria com as ondas nos rochedos do Arpoador.


Clarice Lispector, In Laços de Família