28/09/2007

Ressurreição

A mulher tirou as mãos debaixo do avental e perguntou numa voz despida de qualquer inflexão amável:
– O que deseja? – Depois, atentando melhor na figura miserável do interlocutor, acrescentou, asperamente elucidativa: – A entrada não é por aqui, é pela escada de serviço...
Mas o homem não despegava. Tinha uma teimosia humilde e inabalável:
– Quero falar ao senhor... Ele é que me mandou chamar...
– A si? – Havia uma ironia maldosa na interrogação. – Ah, ele manda chamar muita gente e depois não a recebe... Às vezes é uma romaria...
Calou-se um instante e fixou o homem.
Nos olhos dele havia uma doçura atenta e compassiva. Parecia-lhe que aquele homem, com o fato remendado, o cabelo rapado, as alpercatas rotas, a tiritar de frio, o ar clássico do vagabundo das estradas, estava com pena dela. Sentiu-se chocada e, ao mesmo tempo, intimidada. A sua vaidade agressiva de porteira de casa rica, diluira-se. Pensou que era absurdo, que era o contrário do que devia ser, mas aquele homem estava com pena dela. Teve um sobressalto de vergonha e inquiriu quase humilde:
– É por causa de algum anúncio, não é?
– Sim, um anúncio a chamar por mim... Não o li, que não sei ler nem escrever.
Foi um companheiro que me disse...
– E quem digo ao senhor que é?
– Diga-lhe que é Nosso Senhor Jesus Cristo.
A mulher afastou-se deixando a porta entreaberta.
O homem ouviu o ruído de passos no corredor e depois bater a uma porta.
– Está aqui um homem que quer falar com V. Ex.ª.
– Quem é?
– Diz que é Nosso Senhor Jesus Cristo.
– Não conheço...
Houve um instante de silêncio e depois, alguém gritou de dentro:
– Ah, já sei... Espere... Mande entrar.
– Por aqui...
Foi guiando os passos do homem até à porta do fundo.
– Já aqui está.
– Que entre...
O pintor fi cou a olhar para o homem que acabava de chegar e desatou a rir.
– Essa é boa! Essa é muito boa!... Então você julga que...
Vestia com o trajo dos artistas de Montmartre – casaco de veludo, o cachimbo ao canto da boca, numa das mãos a paleta, e, na outra, o pincel.
A luz entrava diluída pela cúpula envidraçada do «atelier», e caía em cheio sobre o modelo. Estava nua, apenas com um ligeiro sendal a envolver-lhe a cintura e o cabelo negro e comprido atirado para a frente a aflorar as pontas dos seios.
Via-se que era uma pose procurada e um pouco artificial.
Ironicamente, o pintor fez as apresentações:
– O Cristo... A Madalena...
– Ó fi lho, deixa-te de graças... Fecha mas é a porta que estou com frio.
Nos lábios deslizou-lhe um sorriso, ao mesmo tempo, impúdico e contrafeito:
– Posso vestir-me?
– Podes.
Num gesto lento foi fechar a porta.
– A mim sucede-me cada uma... – Virou-se para o homem e inquiriu: – Você veio por causa do anúncio? Com certeza? Do anúncio em que eu pedia um modelo para o Cristo da minha alegoria: «Nosso Senhor voltou ao mundo»?...
– Sim Senhor.
– E você, com esses cabelos cortados à escovinha, as barbas rapadas, supunha-se nas condições? Ou pensa que basta ter fome, ter o rosto esquálido e os olhos lânguidos e sonhadores? – Estava agora junto dele e fitava-o curiosamente:
– Foi a necessidade apenas que o trouxe, ou quê? Se eu pusesse um anúncio para me passear o cão, você também aparecia, não é verdade? – A voz compadeceu-se:
– Eu bem sei que a necessidade não tem lei e é um topa-a-tudo. Em todo o caso... Espere... Ó Zulmira, vem cá...
A cabeça da rapariga assomou por detrás do biombo ande estava a vestir-se.
– Já vou...
Aproximou-se vagarosamente.
Vestida, tornara-se numa rapariguinha da cidade, quase insignificante. Uma espécie de vergonha travava-lhe os passos.
– Anda cá ver – gritou impaciente. – Tu já viste alguma vez uns olhos assim?
– Sentia-se que estava impressionado. – É curioso! Repara bem... Tem o fulgor dos olhos dos grandes iniciados... E a boca, ahn? Que energia e que candura, ao mesmo tempo... E o queixo? Repara bem no vigor e na doçura desta linha...
O entusiasmo caiu-lhe de repente. – Mas sem barba e sem cabelo, nada feito.
Não lhe vou pôr uma barba e um cabelo postiços, nem vou imaginá-las... Sou um realista, percebeu?... Preciso de ver e palpar... Só sei pintar assim: com pelos, com carnes, com sangue...
Estava encolerizado.
– Ó seu idiota!... Porque é que você rapou o cabelo e cortou as barbas?
– Não fui eu, foram eles...
– Eles, quem?
– Eles, os guardas...
Falava numa voz clara e harmoniosa, a voz bíblica das parábolas.
– Prenderam-me... Disseram-me que era proibido andar a passear pelas ruas, sem fazer nada. Raparam-me o cabelo e cortaram-me a barba. Depois disseram-me que eu era um vagabundo e que se me tornassem a prender, me mandavam não sei para onde. Foi então que um companheiro me disse que o senhor queria falar com Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi por isso que vim...
– E porque havia de vir você especialmente?
– É porque... Sabe?... Eu sou o próprio.
– O quê?... Você é o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo?
– Sou, embora não me acredite... Mas eu não levo a mal. Já sabia que me ia suceder isto... Foi o que aconteceu da outra vez. Na Judeia também poucos me acreditaram. Foi por isso que me prenderam... e me crucificaram. Mas já lhes perdoei. É a razão porque pedi a meu Pai para me deixar voltar...
– Muito me conta... Estás a ouvir, Zulmira? E esta?
A rapariga aproximara-se sem dizer palavra. Um fulgor inquieto acordara nos seus olhos e as mãos juntaram-se num jeito de oração.
– Aposto, que estás tentada a lavar-lhe os pés com essências e a enxugá-los com os teus cabelos... Em todo o caso, não to aconselho.
Ela lançou-lhe um olhar furioso e não respondeu. Depois numa voz suplicante, insistiu:
– Conte... Não faça caso do que ele diz. É uma alma perdida... E depois?
– Meu Pai não me queria deixar vir: «Não, Meu Filho, – disse-me Ele – é inútil como já foi outrora... E desta vez vão-Te fazer pior. Em vez de Te pregarem na Cruz, terás de arrastá-la toda a vida! Terás de passar por todas as misérias! Hás-de sofrer a tortura da fome e do cárcere, hão-de internar-Te como louco e, o que é pior, não Te hão-de acreditar! Não, não consinto.» Mas eu supliquei: «Pai, a culpa não é deles, é nossa, principalmente Tua...» «Minha!» Não há nada que eu receie tanto como a cólera de Meu Pai, mas estava resolvido a afrontá-la: «Sim, Pai...»
Mas Ele, com grande surpresa, interrogou com brandura: «Minha porquê, Filho?»
«Porque nunca Te esqueceste de que Eu o era... Porque Me fizeste nascer sem pecado... Porque não Me deixaste correr os riscos dos outros homens e Me deste o poder de fazer milagres... Se não Me sentiam igual a eles, como havia Eu de redimi-los?».
«Bem, vai – sentenciou Ele – mas depois não chames por Mim, nem invoques o Meu Nome!» «Não, pai. Suceda o que suceder, Eu não o farei...»
– E Tua Mãe? – interrogou a rapariga, ansiosa: – E Nossa Senhora?
– Nossa Senhora limitou-se a chorar como todas as Mães quando vêem partir um filho para uma aventura perigosa... Mas não me desencorajou e, pelo contrário, disse-me: «Vai, Filho, é a Tua obrigação! Uma tarefa deve levar-se até ao fim... e Tu ficaste a meio caminho. Estarei sempre a Teu lado!» E agora, sinto que é Ela que me fala pela tua voz...
O pintor não desfitava o grupo formado pelos dois. O pincel tremia-lhe na mão e uma emoção violenta penetrava-o. Ah, ele bem a conhecia! Era a inquietação sublime dos momentos de inspiração. Em silêncio, afastou-se e começou a pintar.
As figuras cresciam na tela, como que vindas de dentro, e tomavam corpo, tão humanas que quase tinha medo de as magoar.
Era um Cristo estranho aquele, curvado sob um fardo e com as mãos cheias de calos, em vez de chagas. Dos olhos esparzia-se uma obstinada ilusão, e o suor escorria-lhe às bagadas dos músculos tensos, mais vivo e mais ardente do que o sangue. Uma figura diáfana de mulher, ia-lhe limpando a fronte, e da sua boca entreaberta nascia uma promessa imaterial de beijos puros.
Quando o pintor levantou os olhos do seu trabalho, viu apenas o modelo que o observava atentamente.
– E Ele? Ele onde está? – interrogou ansioso.
– Foi-se embora... Disse que não te perturbasse e que a sua missão estava cumprida. Que já te tinha restituído a fé em ti mesmo e que, afinal também tinhas acreditado nele...

Domingos Monteiro, Contos do Dia e da Noite, 1952







22/09/2007

O Violinista





Era inegável que Lars Larsson, o tocador de Olerud, na sua velhice, era humilde e modesto. Porém, não fora sempre assim. Na mocidade, tinha sido de tal maneira vaidoso e soberbo que fazia pena.
Dizem que foi numa só noite que se transformou completamente. Foi assim:

Passeava Lars Larsson, com o seu violino debaixo do braço, numa linda noite de sábado, já bastante tarde. Regressava de uma festa onde ao som do seu violino tinha feito dançar novos e velhos. Ia por isso muito alegre.
Ninguém tinha podido parar enquanto o seu arco estava em movimento. Havia por toda a casa um entusiasmo tal, que lhe parecia ver mesas e cadeiras fazerem parte da dança.
- Com certeza que nunca houve por aqui um músico assim - pensava ele. - Mas quantos obstáculos tive de vencer para chegar ao que hoje sou! Na minha infância, não era nada agradável os meus pais mandarem-me guardar carneiros e vacas. Eu, num sonho, tudo esquecia para fazer vibrar as cordas do meu violino. Que pobreza! Na minha casa não queriam comprar-me um violino autêntico. O meu instrumento era urna caixinha de madeira com umas cordas esticadas. Durante o dia ficava só na floresta e assim não era muito digno de pena; porém, à noite, ao voltar, era diferente com o rebanho extraviado. Quantas vezes o meu pai me disse que eu era um maroto, que nunca faria nada com jeito!
No sítio da floresta que Lars Larsson atravessava, um regato buscava caminho. Era a custo que avançava em terreno tão ruim: dividia-se em pequenas cascatas e no entanto dava a ideia de não chegar a qual quer parte. Ao contrário, o caminho pelo qual o músico seguia era o mais direito possível. Assim, tinha ele, de vez em quando, de atravessar uma pequena ponte sobre o regato sinuoso. O músico era portanto forçado a cruzar constantemente o regato, o que de certo modo lhe agradava. Tinha a sensação de não estar sozinho na floresta, de ir acompanhado.
A noite estava clara; o sol ainda não tinha nascido, mas mesmo assim a luz era muita. Sentia-se, porém, que ainda não era bem de dia. As coisas tinham outra cor. As árvores estavam acinzentadas e o céu todo branco, mas via-se tão bem como se fosse meio dia. Lars Larsson, parado numa das pontes, olhando o riacho, podia ver perfeitamente qualquer bolha de ar que subisse do fundo da água.
- Revejo a minha própria vida, olhando um regato selvagem como este - pensou o músico. Ao abrir caminho por entre os obstáculos que se levantaram diante de mim, mostrei a mesma firmeza. Meu pai, duro como uma rocha, embargava-me o caminho. Minha mãe envolvia-me carinhosamente, como entre verdura, tentando reter-me. Porém, consegui desprender-me de ambos e parti para a vida.
«Decerto! Julgo que minha mãe ainda chora por mim. Não me importo! Não se pusesse no meu caminho; devia perceber que eu queria ser alguém.
Deitou ao riacho umas folhas que tirou de uma moita, com um gesto nervoso.
- Foi assim que me soltei de tudo o que me prendia - disse, olhando as folhas que a corrente levava. - A minha mãe saberá que sou agora o melhor violinista de toda a Vermlândia?
Deu uns passos apressados até encontrar outra vez o regato. Parou de novo para ver a água.
O regato aqui, fazia um barulho ensurdecedor. O músico ficou muito admirado de, por ser de noite, se ouvirem sair da água sons diferentes dos que se ouviam de dia.
Nem o mais leve ruído de folhas, nem um gorjeio de aves. Nem o tilintar de campainhas na floresta, nem ranger de rodas na estrada. Apenas se ouvia a queda da água e mais distintamente do que de dia. Parecia que se mexiam no fundo da água as coisas mais extraordinárias. Primeiro, o som de mós enormes moendo trigo; depois, vinha um som cristalino como o embater de copos numa festa, outras vezes um sussurro dava a ideia que se estava no largo duma igreja, à saída, quando as pessoas travam entre si conversas animadas.
Isto é realmente uma espécie de música - disse para consigo Lars Larsson - ainda que não valha muito. Acho eu que a ária que compus noutro dia tinha mais interesse.
Mas quanto mais ouvia a cascata, mais lhe apreciava a música.
- Fazes progressos - gritou ele. - Com certeza percebeste que quem te ouve é o melhor violinista de toda a Vermlândia.
Precisamente no momento em que dizia estas palavras, julgou ouvir sons metálicos, saídos do fundo da água, como se lá em baixo alguém afinasse um instrumento.
- Oh! É o Neck em pessoa que aí vem! Ouço-o afinar o violino. Pois agora veremos se tocas melhor do que eu! gritou Lars Larsson a rir. - Mas não posso ficar aqui o resto da noite à espera que te resolvas a começar - continuou, virado para a cascata. - Por agora tenho de ir, mas paro na primeira ponte para ver se tens coragem de te medir comigo.
Seguiu o seu caminho e enquanto o regato prosseguia também o seu na floresta, o músico voltou a pensar nas coisas antigas:
- Pergunto a mim mesmo o que será feito do córrego que rodeia o pátio da nossa granja. Bem gostava de tornar a vê-lo. De vez em quando devia ir a nossa casa para saber como vive minha mãe agora sem o meu pai, que já não existe. Mas tenho tantos afazeres que me parece que não é possível. Devido às minhas ocupações de agora, acho eu, não consigo interessar-me por mais nada além do meu violino; durante toda a semana não há uma noite em que esteja disponível.
Pouco depois encontrou de novo o regato, o que lhe fez mudar o rumo às ideias. Aparecia agora em ondas profundas e calmas em vez de cascata tumultuosa. Parecia, sob a folhagem cinzenta da noite, de um negro luzente, levando ainda tufos de espuma branca, recordação das cascatas passadas.
O músico deteve-se no meio da ponte e começou a rir; só ouvia sair da água um ruído muito fraco, intervalado.
- Eu bem dizia que o Neck não vinha para o desafio; não há duvida que é um músico de valor, mas o que há a esperar de um ser que fica impassível no seu regato sem nunca ouvir nada de novo? Ele sabe que está aqui alguém que percebe disso melhor do que ele e assim mantém-se reservado.
Depois de dizer isto, seguiu o seu caminho perdendo de vista o regato.
Entrou numa parte da floresta que sempre lhe tinha parecido sinistra. O chão estava coberto por montões de pedras onde se moviam raízes de pinheiros torcidas e nuas. Era com certeza ali que estavam escondidos os espíritos maus e perigosos, se é que os havia na floresta.
Metendo-se por aquelas pedras de aspecto bravio, arrepiou-se de medo e pensou que não tinha sido muito acertado ufanar-se ante o Neck.
Teve a impressão de que as raízes, muito grossas, lhe faziam gestos como se o ameaçassem.
- Tem cuidado! Tu que supões ter mais força do que Neck! - diziam elas.
Lars Larsson sentiu que o coração se lhe apertava de aflição. Quase não podia respirar e tinha as mãos frias. Parou no meio do caminho e tentou falar consigo mesmo:
- Não houve músico algum na cascata. Isso não passa de conversa. Assim, não tem importância o que eu disse.
E olhava à volta da floresta como se esperasse a confirmação das suas palavras.
Se já fosse dia, talvez que uma pequenina folha lhe dissesse, numa piscadela de olho, que não há perigo na floresta; mas, como ainda era noite, as árvores silenciosas e mal encaradas pareciam esconder toda a espécie de perigos.
Lars Larsson pensava, horrorizado, que tinha uma vez mais de atravessar o regato que não se separava do caminho a não ser mais adiante. Perguntava a si mesmo o que lhe faria o Neck, quando passasse a última ponte. Era possível que saísse da água uma enorme mão negra para o levar para o fundo.
Estava de tal maneira exaltado que achava preferível voltar; mas encontraria de novo o regato e se deixasse o caminho para se embrenhar na floresta, tão complicado era o seu curso, mesmo assim o encontrava.
Não sabia o que fazer, estava desorientado. Enleado por aquele regato terrível, não via possibilidade de lhe escapar.
Avistou, por fim, lá ao longe a última ponte. Na margem oposta, em frente, via-se um moinho que dava a ideia de estar abandonado. Via-se a grande mó suspensa sobre a água; as janelas cobertas de musgo, a comporta estragada no chão e nas águas-furtadas, vazias, tinham crescido mimosos fetos.
- Antigamente encontraria gente aqui e assim não correria perigo - pensou o músico.
Contudo, acalmou ao ver que andara ali a mão do homem e, ao atravessar o regato, quase não tinha medo. Nada lhe aconteceu; o Neck não lhe queria mal e irritou-se consigo mesmo por se ter exaltado por coisa nenhuma.
Sentindo-se absolutamente seguro, mais alegre ficou ao ver que se abria a porta do moinho e de lá saía uma jovem que vinha agora ao seu encontro.
Tinha o aspecto de uma camponesa: blusa larga, saia curta, lenço de algodão na cabeça e pés descalços. Abeirou-se do músico e disse-lhe com simplicidade:
- Dançarei para ti, se quiseres tocar para mim.
- Da melhor vontade – respondeu ele, voltando-lhe a boa disposição, visto não haver perigo. - Não há inconveniente algum; nunca deixei de tocar para uma bela rapariga que quer dançar.
À beira da represa, ajeitou-se sobre uma pedra e, ajustando o violino ao queixo, começou a tocar.
A rapariga deu uns passos, mas parou de repente.
- O que estás a tocar não anima a gente.
O músico substituiu a ária; mudou para outra mais viva, mas a rapariga continuava descontente.
- Com uma ária tão fraca, como poderei dançar?
Lars Larsson começou então a tocar a ária mais viva que sabia.
- Se esta não te satisfizer, será necessário chamar um músico mais competente do que eu.
Ao dizer isto, teve a sensação de que uma mão começava a manejar o arco, acelerando o ritmo.
Saiu então do instrumento uma ária como nunca se tinha ouvido. O movimento era tal, que se se lançasse uma roda a toda a velocidade, não o poderia acompanhar.
- Isso é que é uma ária para dançar! - gritou a rapariga, começando a girar.
Mas o músico nem a olhava. A ária que ele próprio tocava surpreendeu-o de tal maneira que cerrou os olhos para escutar melhor.
Quando pouco depois os abriu, a rapariga tinha desaparecido, mas não ficou muito admirado por isso: continuou a tocar por tempo indefinido porque nunca ouvira música como aquela.
- Agora julgo que devo parar - disse ele, que¬rendo largar o arco.
Porém, este continuava em andamento. Ia para cá e para lá sobre as cordas, obrigando a mão e o braço a seguirem o seu movimento. E a mão que segurava o violino e manejava as cordas também não se podia desprender.
- Como será o fim disto? Serei forçado a ficar aqui até ao dia de juízo final? - perguntava a si mesmo, exasperado.
E o arco continuava a dançar desenfreadamente lembrando, como por encanto, árias sem fim. Surgia um trecho novo, constantemente, de tanta beleza, que o pobre do músico era forçado a concordar que a sua sabedoria de nada valia. E isso atormentava-o muito mais do que o cansaço.
- O que usa o meu violino é muito competente e eu não tenho passado de um trapalhão. Agora é que eu sei o que é tocar!
Por breves instantes, com o entusiasmo da música, esqueceu a sua pouca sorte, mas de súbito sentiu os braços doridos de fadiga e o desespero tomou, de novo, conta dele.
- Hei-de tocar este violino até morrer, não o poderei largar! Bem compreendo que é esse o desejo de Neck.
E, sempre a tocar, começou a chorar com pena de si mesmo.
- Era melhor ter ficado na casota de minha mãe. Para que serve todo o meu valor, se tenho de acabar assim?
Ficou na mesma horas sem fim. Chegou a manhã, rompeu o sol, os passarinhos começaram a cantar e ele tocava sem descanso.
O dia que se seguiu era domingo; por isso Lars Larsson teve de ficar só ao pé do velho moinho. Ninguém seguiu a estrada da floresta: iam todos para as aldeias que ornavam a estrada real ou para a igreja do vale.
O sol ia cada vez mais alto no céu; passou-se a manhã. Os pássaros não can-tavam, mas ouvia-se o ruído das agulhas dos pinheiros.
Lars Larsson tocava, tocava; nem o calor daquele dia de verão o detinha.
O sol desapareceu, a noite chegou, mas o seu arco não precisava de descanso e o braço continuava em movimentos febris.
- Não há dúvida que isto só acabará com a morte e será o justo castigo do meu orgulho.
Já noite alta viu que uma pessoa se aproximava por entre a floresta; era uma velhinha curvada, de cabelos brancos e rosto enrugado.
Que coisa extraordinária! - pensou o músico. Julgo conhecer esta velha. - É possível que seja a minha mãe? É possível que ela esteja tão branca, tão velha?
Para faze-la parar, chamou-a em voz alta:
- Mãe, mãe, chega aqui!
- Certifico-me agora, com os meus próprios ouvidos, que és o melhor violinista de toda a Vermlândia - disse ela - e compreendo que não te importes com uma velha como eu.
- Mãe, mãe, não passes! - gritou Lars Larsson. Não sou exímio tocador, não passo de um patife. Chega aqui para eu te falar!
Então a mãe ao aproximar-se viu como se encontrava, mortalmente pálido, os cabelos ensopados em suor e das unhas corria-lhe sangue.
- Mãe, caí em desgraça, devido à minha vaidade e agora tenho de morrer a tocar.
Todo o ressentimento que tinha contra o filho desapareceu e a mãe sentiu então uma grande pena dele.
- Perdoo-te, sim!
Mas querendo provar-lhe que lhe perdoava sinceramente, invocou o nome do Senhor para confirmar o perdão:
Lars Larsson sentiu então a testa cobrir-se-lhe de suor frio e tomou conta dele um medo horrível.
- Perdoo-te em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Então o arco parou, o violino caiu por terra e o violinista, salvo e liberto, levantou-se.
Quebrara-se o encanto na altura em que a sua velha mãe cheia de pena por vê-lo tão desgraçado, pronunciou o nome do Senhor.


Selma Lagerlöf


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18/09/2007

Para a Escola


No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras letras. A porta lá estava, amarela, com fortes pinceladas vermelhas, ao cimo da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la. Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada, num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz da Helena dizer para o senhor professor, um de óculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:
– Muito bons-dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha.


Oh! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali estava a encomendinha!
– Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?
E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu entre os joelhos do senhor professor, com o boné numa das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.
Choraminguei, quis sair na companhia dela.

– Não, agora o menino fica – disse-me a Helena. – Isto aqui é a escola, é onde se aprende a ler. – E agachando-se, diante de mim: – Olhe tanto menino, vê?
– Mas fica tu também... – disse-lhe eu então.
Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, iracundo:
– Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai tudo raso com bolaria!
Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, pelos modos. Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes; cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão principalmente.
– Isto é preciso muita paciência, senhora Helena, muita soma de paciência. Um mestre precisa de ser um santo. – (Pausa. Olho duro sobre as bancadas). – Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa hora entrasse...
– Entrou, ele há-de estudar. Ora há-de, Josézinho?
Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.
– É verdade, – insistiu por sua vez o senhor professor – o menino há-de estudar as suas lições, não é assim?
– Diga: sim senhor – ensinou-me então a Helena. – Hei-de estudar muito e ser sossegadinho na aula: diga. – E a meia voz para o professor: – isto em casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?
Ele riu, já sabia. As crianças são todas assim, enquanto estão no mimo das mães. Mas uma vez metidas na escola, as coisas mudavam um pouco. E piscando o olho, designou a palmatória. A Helena ficou transida!
– Faz milagres, senhora Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz milagres.
Eu tinha percebido. Começava de novo a embezerrar, com vontade de sair quando a Helena saísse. Aquilo sabia eu para que servia, a palmatória...
– Mas para o nosso Zézito não há-de ser precisa, ora não?
– Diga assim: não senhor, porque eu hei-de cumprir com as minhas obrigações, diga.
– Ora aí é que está! – atalhou o senhor professor. – Vê, senhora Helena? Aqui já os pequenos têm a sua obrigaçãozinha, os seus deveres a cumprir, as suas coisas...
– Sim senhor, sim, enquanto que em casa...
– Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos: meu menino isto, meu menino aquilo. Vão assim criados à lei da natureza, sabe vossemecê? É mau isso, péssimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos? – E bateu num «Monteverde» pousado sobre a mesa dizendo: – Olhe, aqui está neste livro: «de pequenino...
– ...é que se torce o pepino» – concluiu rápida a Helena, orgulhosa de saber o que estava no livro, coitada!
– Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma coisa que se cria na horta...
Risota dos rapazes!


– Ora vê isto, senhora Helena! Vê estes brutinhos?! – E com entono, de palmatória alta, fazendo-se carrancudo:
– Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à senhora Helena, começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o que se chama tudo!
E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquela ameaça, os rapazes ficaram transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que ele podia pedir licença à Sr.ª Helena, e mesmo diante dela cascar de rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, sossegaram; até o Estêvão deixou de me fazer caretas.
– É o que se vê, senhora Helena – disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom do senhor professor. – É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem ferramenta, não faz nada. Santa Luzia milagrosa! Aqui onde a vê tem feito muitos doutores.
– Essa? – perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquele pedaço de pau de buxo, se na verdade ele tivesse feito muitos doutores.
– Não, mulher, se não foi esta, outras como esta; essa é boa! Isso não faz ao caso.


Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena. Também ele, velho naquele ofício, muitas vezes investigara com mágoa o motivo por que a sua palmatória não fazia um único doutor... Morreria sem ter essa «glória», decerto! Forte martírio que a Helena veio recordar-lhe!...
Houve uma interrupção: um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia para ir lá fora.
– Licete! – foi como ele disse, arremedando o latim licet. Outros havia que diziam, por troça, Aniceto!
– Ora já a mim me admirava, – tornou-lhe o professor. – Se tu não havias de pedir para ir lá fora, tu... – E ficou-se a fitá-lo, meneando pausadamente a cabeça. – Ora vá você lá fora.
O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.
– Olá? – chamou zangado o senhor professor.
O outro assomou à porta, contrafeito.
– Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça favor de esperar um pouco.
Pôs-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:
– Tu não... Tu não... Tu não... Tu, olá, venha cá!
Levantaram-se uns poucos; foi um barulho!
– Canalha! – gritou-lhes então, batendo o pé. – Corja de atrevidos! Sentados, já!
Grande silêncio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era ele, apontando para o peito.
– Sim, és tu, para que queres os olhos? Avance e perfile-se.
Mediu-o de alto a baixo. Depois:
– Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do regulamento, fora com ela. Agora, sim senhor. Ora vês além aquele sujeito? o tal das pressas?...
– Vejo, sim senhor.
– Bem sei que vês, se o não visses é porque eras cego; que tal está o palerma? Ora acompanhe-o; já sabe para quê. E sempre quero ver se tenho de vos ir lá buscar pelas orelhas.
Saíram. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o senhor professor:
– Olá?
Eles assomaram outra vez, atrapalhados.
– Então, seus cabeças de avelã, torres de vento, então não falta nada?
Os dois puseram-se a coçar a cabeça, muito comprometidos. Faltava com efeito alguma coisa...
– Então é aí?
Eles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.
– Ora passa por esta vez, em atenção a estar aqui a senhora Helena. – E enrugando o sobrolho, comandou em tom marcial: – Ordinário! marche!
Faltava aquilo. Em obediência aos velhos hábitos de militar, dava o senhor professor aquela voz, sempre que mandava algum aluno cumprir ordens suas:
– Ordinário! marche!
Sentou-me então no joelho e perguntou:
– Olha lá, Josézinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o senhor capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?
– Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o senhor prior: dizer missas.
Riram-se. Quem sabia lá o que dali sairia? Mas o senhor professor fez notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendência qualquer. E pôs-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas bochechas.
– Corneta ou prior, hem? Pois isso é que é preciso escolher. – E para a Helena: – Pois olhe que os tenho conhecido, senhora Helena, que respondem a pés juntos que não querem ser nada! Mau sinal, péssimo, senhora Helena. Quando eles assim dizem, de ordinário assim fazem, depois. Nunca são gente. – E virando-se para mim: – Mas então, Josézinho, em que ficamos? Corneta ou prior?
Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente em dias de festa, com aquela capa toda dourada...
– Muito bem, escolheste bem. «Telha de igreja...
– ...sempre goteja» – concluiu a Helena que ainda hoje é forte em adágios.
O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.
– Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josézinho, para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?
– É.
– Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor – emendou a Helena.
O senhor professor teve um gesto de indulgência.
– Mas tu não sabes ainda, ora não?
– Não senhor.
Ele então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia na saca era um livro.
– Querem ver que é um livro?!...
– Diga – ensinou a Helena – é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá ao senhor professor, tome.
Houve na sala um murmúrio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do meu livro.
– Muito bem! muito bem! – aplaudiu o senhor professor. – Mas este livro é mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que queria ser prior, ora já?
Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquilo; mas como é que ele o sabia?
– Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar, não queres?
– Quero, sim senhor, – ensinou ainda a Helena e eu repeti. – O que eu quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.
– Primeiro do que aqueles? – perguntou voltando-me para as bancadas.
Então fui eu mesmo que respondi: – «Sim senhor!» – contente com a lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos aqueles. Até podia acontecer que o Estêvão das caretas me ajudasse a alguma...
– Ora então está muito bem, estamos entendidos! – E com intenção, ferindo muito as palavras, para mas gravar no espírito: – A primeira coisa que é precisa para prior é saber bem isto, vês? – E punha-me diante dos olhos o livro, aberto na primeira página. – Isto aqui é já missa, chama-se o a b c, e é aquilo que os priores dizem quando vão para o altar.
– Ito? – inquiri curioso, furando a página com o dedo.
– Sim, isto. E amanhã já mo hás-de trazer sabido daqui até ali. Hem? Valeu?
– Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.
Eram as seis primeiras letras, ainda me lembro bem. A minha primeira lição!
A B C D E F.
A minha primeira lição!


– Ora sabe vossemecê o que isto é, senhora Helena, isto que eu tenho estado a fazer?
– Sim senhor, sei... É assim... como quem diz... É...
– Não sabe, não admira, – disse complacente o senhor professor. – Puxar o gosto, senhora Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vai estudar com mais gosto, digo-lho eu; olé se vai!
«Mas ele não a queria demorar mais; tinha lá em casa as suas obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»
– Pois isso é verdade, senhor professor; mas não sei que é, custa-me a separar do menino... – disse a boa da Helena, quase a chorar.
– Foi ama, deu-lhe o leite, aí é que está a coisa. Pois tenha paciência. Aprender é tão preciso como mamar – concluiu numa prosa que é mesmo poesia.
– Pois é preciso, é!...
E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti na minha cara as lágrimas daquela boa amiga. Retirava-se, deixando-me ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:
– Senhora Helena?
– Meu senhor! – respondeu, levando aos olhos o avental.
– Já agora, espere mais um instante.


Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula. Depois, intimou:
– Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo um pouco. – E virando-se para a pobre mulher lacrimosa: – Ora é ali, senhora Helena ali é que é o lugar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe não deve pesar.
E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo, lágrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu lugar... – o meu primeiro posto na arriscada milícia das letras...
Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por acenos com a pessoa que estava de fora. Pequeno como era, percebi, no entanto.
O mestre vinha a dizer na sua mímica:
– Bolos?!... Não?!... Perdoe a senhora Helena, mas isso, quando forem precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a mão?... Está bem... Descanse... Mesmo com a mão...
E ela devia sorrir por entre lágrimas, porque foi também por entre lágrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...

***

…Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que principiei nesse dia. Não volto mais à escola! Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquele beijo – dulcíssimo beijo aquele! – que tu então me deste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse, acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena?



Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.
Trindade Coelho,Os meus amores

16/09/2007

O caixão de cristal

Eu devia ser lançada ao mar num caixão de cristal, como rezam as histórias... e fui.

O mar baloiçava-me.

Quem jamais teve esta sensação?

Baloiçava-me. Eu ia estendida ao comprido e de olhos muito abertos, perfeitamente imóvel. O meu caixão era cómodo. E foi correndo, seguindo. Lá muito longe, no mar alto, começou a ser sacudido e perdeu de todo a cal­ma. Entrou-me o medo no coração e olhei para os lados. Terríveis animais do mar se batiam à minha roda. Eu via eminentes espadas, medonhas, de água viva, e sentia uma chocalhada azoadora.

Quem jamais teve esta sensação?

O mar até perdera a cor, aquele azul e aquele verde que nos encantam. Era baço e sombrio, coberto de espuma suja e escamudo como um peixe. Mas não sei como tive um impulso salvador e escapei-me. Tornei a correr e a seguir livre de perigo. Pelo mar fora, sempre de olhos abertos, um murmurinho muito doce me emba­lava.

Quem jamais teve esta sensação?

O meu caixão era de puro cristal, transparente. A todo o momento me parecia que o mar e o céu se junta­vam para me engolirem. Era uma ilusão, uma curiosa ilusão.

Cobras de água, muito longas e esguias, enlaçavam-se no meu caixão. Eu nãos as temia. Suportava-lhes bem o olhar e sorria quando as via desfalecer. De outras vezes perse­guiam-me cisnes monstros, de asas em canoa. Eram espíri­tos castigados, eu sabia-o. Tanta coisa sabia, de ter ouvido em terra, aos serões! E os saltos e cabriolas dos peixes, uns que voavam, outros que mergulhavam, outros que desliza­vam. .. uns em forma de leque, outros de palma, outros de fuso... nem sei! Nada me cansava; tudo maravilhas.

Ai, quem jamais teve destas sensações?

Não sei como, uma corrente talvez, me trouxe para a costa. Choveram estrelas e eu entrei a bordejar no meio delas. Mas a chuva de estrelas era do sol... raiara a manhã. Vi grandes rochas entrando pelo mar dentro. O meu cai­xão evitava-as. Passei ao rés de um castelo. Três donzelas de luto estavam ao mirante. Choravam. Quis mandar--Ihes beijos. E elas viram-me. Coitadas, debruçaram-se a acenar-me, todas aflitas.

Mas eu ia sempre fugindo. Corria à flor do mar, com os olhos postos nas pobres. Talvez vivessem constrangidas. Teriam madrasta ou pai tirano. Sequestradas dos seus namorados, quem sabe?

Por fim os seus lenços encharcados de lágrimas caíram ao mar e vieram atrás de mim, como uns peixes, como uns pássaros...

Eu continuei, mas sempre à vista da costa, ora mais longe, ora mais perto. Que doce é a areia! Lençóis e len­çóis de brancura.

Quem jamais teve esta sensação?

Acentuou-se a calmaria e o meu caixão de manso baloiçava. Quase ia cerrando os meus olhos quando vejo, mas eu que vejo?

Um mancebo muito belo, bem vestido e bem armado, que me fitava com enlevo. Levava a mão ao coração e parecia querer arrancá-lo. Sorria-me, balbuciava... e eu que o não podia ouvir! Que pensar daquilo tudo? Se ao menos me pudesse erguer! Senti tamanha dor que dos olhos me começou a correr o pranto. Dois fios de lágri­mas contínuos, que me foram encharcando.

Ai, tornar à terra! era só o meu desejo.

Mas... e o mar que começou recuando, recuando? Traiçoeiro!

Vi luzir uma espada tão bela, tão bem temperada, tão formosa, que brilhava inteirinha ao sol. Era dele, do meu amado, que acometia o mar.

E que me parecia afinal o mar? Um monstro cobarde a negar-se.

Escarvava a areia e recuava, recuava...

Eu já estava inteiramente ensopada em lágrimas. Empalideceram-me as mãos e cerrei os olhos. Amor! ainda me dizia, já devagar, o coração.

Quando tornei a mim era noite alta e fazia um lindo luar. Nereidas, como julgo que se chamam, uns seres muito caprichosos, levantavam-me nos braços.

Quem jamais teve esta sensação?

Eu era oferecida em holocausto à lua.

Tão fria e tão rígida me pus que o peso do meu cai­xão venceu as nereidas, as adoradoras do pálido astro.

Senti-me descair, descair; eram os seus braços que des­faleciam, até que cheguei ao fundo do mar e lá fiquei.



Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

15/09/2007

Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu Império: em pé, rio a bandeiras despregadas.






A barbearia do Firipe Beruberu ficava debaixo da grande árvore, no bazar do Maquinino. O tecto era a sombra da maçaniqueira (Maçaniqueira - árvore da maçanica, cujo fruto é vulgarmente designado por maçã-da-índia.). Paredes não havia: assim ventava mais fresco na cadeira onde Firipe sentava os clientes. Uma tabuleta no tronco mostrava o custo dos serviços. Estava escrito: "cada cabeça 7$50". Com o crescer da vida, Firipe emendou a inscrição: "cada cabeçada 20$00".
Na velha madeira balançava um espelho e, ao lado, amarelecia um cartaz de Elvis Presley. Sobre um caixote, junto ao banco das esperas, sacudia-se um rádio ao sabor do chimandjemandje (Chimandjemandje - ritmo musical, dança. (3) Bula-bula - conversa fiada.).
O Firipe capinava as cabeças em voz alta. Conversa de barbeiro, isto-aquilo. Contudo, ele não gostava que a bula-bula (3) amolecesse os fregueses. Quando alguém adormecia na cadeira, o Beruberu aplicava uma taxa no preço final. Até na tabuleta, em baixo dos escritos, acrescentou: "Cabeçada com dormida - mais 5 escudos".
Mas na sombra generosa da maçaniqueira não havia zanga. O barbeiro distribuía boas disposições, dáká maus (Dákámaus - apertos de mão.). Quem passeasse seus ouvidos por ali só ouvia conversa sorridente. Propaganda do serviço, Firipe não demorava:
- Estou-vos a dizer: sou mestre dos barbeiros, eu. Podem andar aí, em toda a volta, procurar nos bairros: todos vão dizer que Firipe Beruberu é o maior.
Alguns clientes toleravam, pacientes. Mas outros lhe provocavam, fingindo contrariar:
- Boa propaganda, mesire (Mesire - tratamento de respeito. (3) Mezungo - branco, senhor.) Firipe.
- Chii, propaganda? Realidade! Se até cabelo fino de branco já cortei.
O quê? Não diga que um branco já chegou nessa barbaria...
- Eu não disse que chegou aqui um branco. Disse que cortei cabelo dele. E cortei, palavra da minha honra.
- Explique lá, ó Firipe. Se o branco não chegou até aqui como é que lhe cortou?
- É que fui chamado lá na casa dele. Cortei dele, cortei dos filhos também. Razão que eles tinham vergonha de sentar aqui, nessa cadeira. Só mais nada.
- Desculpa, mesire. Mas esse não era branco-mezungo. Era um xikaka (Xikaka - colono, português de categoria social dita inferior.).
Firipe fazia cantar a tesoura enquanto a mão esquerda puxava da carteira.
- Uáá! Vocês? Sempre duvidam, desconfiam. Já mostro prova da verdade. Espera aí, onde é que...? Ah, está aqui.
Com mil cuidados desembrulhava um postal colorido de Sidney Poitier.
- Olhem essa foto. Estão a ver esse gajo? Apreciam o cabelo dele: foi cortado aqui, com essas minhas mãos. Tesourei-lhe sem saber qual era a importância do tipo. Só vi que falava inglês.
Os fregueses faziam crescer as suas dúvidas. Firipe respondia:
- Estou-vos a dizer: esse gajo trouxe a cabeça dele desde lááá, da América até aqui na minha barbaria...
Enquanto falava ia olhando para a copa da árvore. Espreitava cautelas para se desviar dos frutos que caíam.
- Merda dessas maçanicas! Só me suja a barbaria. Depois estão sempre aí os miúdos, tentarem apanhar essas maçã-da-índia. Se vejo aqui um, desfaço-lhe com pontapés.
- Então, mesire Firipe? Não gosta as crianças?
- O quê? Se ainda outro dia um muana (Custumunha - testemunha) trouxe uma fisga e apontou a porcaria da árvore, objectivo de abater maçanica. A pedra chocou-se nas folha, mbááá, caiu na cabeça do cliente. Resultado: em vez desse cliente cortar cabelo aqui, foi rapado lá no posto de socorro.
Mudava cliente, repetia a conversa. Do bolso do mestre Firipe saía o velho postal do actor americano a dar verdade às suas glórias. Porém, o mais dificultoso era o Baba Afonso, um gordo de coração muito penteado que demorava a arrastar as partes traseiras. Afonso duvidava:
- Esse homem esteve aqui? Desculpa, mesire. Não acredito nem tão-pouco.
O barbeiro indignado, assentava as mãos nas ancas:
- Não acredita? Se ele sentou nessa cadeira onde você está.
- Mas um homem rico como aquele, estrangeiro ainda para mais, havia de ir no salão dos brancos. Não sentava aqui, mesire. Nunca!
O barbeiro fingia-se ofendido. A sua palavra não podia ser posta em dúvida. Ele então usava o seu derradeiro recurso:
- Tem dúvida? Então vou apresentar testemunha. Vocês vão ver, esperem lá.
E saía, deixando os clientes na expectativa. O Afonso era calmado pelos restantes.
- Baba Afonso, não fique sério. Essa discussão é uma brincadeira, só mais nada.
- Não gosto que falem mentiras.
- Mas isso nem mentira não é. É propaganda. Faz conta a gente acredita, pronto.
- Para mim é mentira - repetia o gordo Afonso.
- Está certo, Baba. Mas é mentira que não aleija ninguém.
O barbeiro não tinha ido longe. Afastara-se apenas uns tantos passos para conferenciar com um velho vendedor de folha de tabaco. Regressavam os dois, o Firipe e o velho:
- Está aqui o velho Jaimão. Virando-se para o vendedor, Firipe ordenava: - Fala lá você, ó Jaimão.
O velho tossia toda a rouquidão antes de confirmar.
- Sim. Na realmente, vi o homem da foto. Foi cortado o cabelo dele aqui. Sou custumunha choviam as perguntas dos clientes:
- Mas você chegou a ouvir esse estrangeiro? Falava qual língua?
- Shingrese (Shingrese - inglês.).
- E pagou com qual dinheiro?
- Com kóbiri (Kóbiri - moeda (adulteração do termo "cobre").).
- Mas qual, escudo?
- Não. Era dinheiro de fora.
O barbeiro satisfeitava-se, peito em proa. De vez em quando, Jaimão ultrapassava o combinado e arriscava suas iniciativas:
- Depois, esse homem foi no bazaro comprar coisas.
- Que coisas?
- Sabola (Sabola - cebola.), raranja (Raranja - laranja), sabau (Sabau - sabão.). Comprou fódia (Fódia - folha de tabaco), também.
O Baba Afonso saltava da cadeira, apontando com sua mão gorda:
- Agora é que te apanhei: um homem desses não compra fódia. É história isso. Um tipo dessa categoria fuma tabaco de filtro. Jaimão, você só está a contar mentira, canganhiça (Canganhiça - vigarice.), só mais nada.
O Jaimão admirava-se com a súbita teima. Olhava, receoso, o barbeiro e ainda tentava um último argumento:
- Uááá (Uááá - interjeição de espanto.), não é mentira. Até me lembro: foi um sabudu.
Depois, eram risos. Porque aquela não era batalha séria, a razão daquela dúvida era pouco mais que brincadeira.
O Firipe fingia-se amuado e aconselhava os duvidantes que escolhessem outra barbearia.
- Pronto, não precisa zangar, nós acreditamos, aceitamos sua testemunha.
E até o Baba Afonso se rendia, prolongando o jogo:
- Com certeza até esse cantor, o Elvis Presley, também esteve aqui no Ma quinino, cortar cabelo...
Mas o Firipe Beruberu não trabalhava sozinho. Gaspar Vivito, um rapaz todo aleijado, ajudava nas limpezas. Varria as areias com cuidado para não poeirar. Sacudia, longe, os panos.
Firipe Beruberu sempre ordenava precauções com os cabelos cortados.
- Enterra-lhes bem no fundo, Vivito. Não quero brincadeiras com o n' uantché-cuta.
Referia-se a um passarinho que rouba cabelos de gente para fabricar o ninho. Diz a lenda que, na cabeça do proprietário lesado, já não volta a crescer mais nem um pêlo. Firipe via no desleixo de Gaspar Vivito a causa de todas as baixas na clientela.
No entanto, muito não se podia pedir ao ajudante. Porque ele, completo, se anormalizara: as pernas bambas, marrabentavam (Marrabentar - verbo constituído a partir do termo "marrabenta", dança do Sul de Moçambique, em que as pernas executam constantes bamboleios.) a toda a hora. A cabeça pequenita coxeava sobre os ombros. Babava-se nas palavras, salivando nas vogais, cuspindo nas consoantes. E tropeçava quando tentava espantar as crianças que apanhavam maçãzinhas-da-índia.
Ao fim da tarde, quando já restava só um cliente, Firipe ordenava a Vivito que arrumasse as coisas. Essa era a hora que chegavam as reclamações. Se o Vivito não tinha jeito de ser gente, o Firipe se aplicava mais nas piadas que nas artes de barbeirar.
- Desculpe, mesire. Meu primo Salomão me mandou vir apresentar queixa da maneira como foi cortado o cabelo dele.
- Como foi cortado?
- É que não sobrou nem um pêlo, ficou completamente depenado. A cabeça dele está descalça, até brilha como se fosse um espelho.
- E não foi ele que pediu assim?
- Não. Ele agora até tem vergonha de sair. Foi por isso me mandou a mim reclamar.
O barbeiro recebia a queixa de bom humor. Fazia soar a tesoura enquanto falava:
- Olha pá: diz lá ele para deixar ficar assim. Careca, poupa nos pentes. Depois, se cortei de mais é saguate (Saguate - gorjeta.).
Rodava em volta da cadeira, afastava-se para apreciar os seus talentos.
- Vá, vaza a cadeira, já terminou. Mas é melhor olhar-se bem no espelho, senão depois ainda manda o primo reclamar.
O barbeiro sacudia a toalha, espalhando cabelos. Invariavelmente, o cliente juntava os seus protestos ao queixoso.
- Mas, mesire, o senhor me cortou quase tudo na frente. Já viu minha testa até onde vai?
- Uáá, isso na testa nem mexi. Fala com seu pai, sua mãe, se quer reclamar da forma da sua cabeça. Eu não tenho nenhuma culpa.
Os queixosos juntavam-se, lamentando a dupla carequice. Era o momento para o barbeiro filosofar sobre as desgraças capilares:
- Sabem o que faz uma pessoa ficar careca? É usar chapéu do outro. É isso que faz uma pessoa ficar careca. Eu, por exemplo, nem camisa que não conheço de onde vem, não uso. Quanto mais calças. Olha, meu cunhado comprou cueca em segunda mão, veja lá...
- Mas, mesire, não posso pagar esse corte.
- Nem precisa pagar. E tu, diz lá ao teu primo Salomão, para passar aqui amanhã: vou devolver matambira (Matambira - dinheiro.). Dinheiro, dinheiro... era assim: cliente descontente ganhava direito de não pagar. O Beruberu só cobrava satisfações. De manhã até ao anoitecer, o cansaço já lhe pesava nas pernas.
- Charra, desde manhã: tinc-tinc-tinc. Já é de mais! Viver custa, Gaspar Vivito.
E sentavam os dois. O mestre na cadeira, o ajudante no chão. Era o poente de mesire, hora de meditar suas tristezas.
- Vivito? Desconfio que você não anda a enterrar bem os cabelos. Parece que o passarinho n'uantché-cuta me está a roubar cliente.
O rapazito respondia só uns sons engasgados, defendia-se numa língua que era só dele.
- Cala-te, Vivito. Vê lá se fizemos muitos dinheiros.
Vivito agitava a caixa de madeira e dentro tilintavam as moedinhas. O riso espalhava-se no rosto de ambos.
- Como cantam bem! Esta minha loja vai crescer, palavra da minha honra. Até estou a pensar montar um telefone aqui. Pode ser no futuro vou fechar ao público. Hein, Vivito? Dedicarmos só serviço de encomendas. Está ouvir, Vivito?
O ajudante espreitava o patrão que se levantara. Firipe discursava em redor da cadeira, gozando os futuros. Depois o barbeiro encarava o aleijado e era como o seu sonho quebrasse as asas e tombasse naquela areia escura.
- Vivito: você agora devia perguntar: mas fechar como, se este lugar nem tem parede? Era assim que você devia falar, ó Gaspar Vivito.
Mas não era acusação, a sua voz estava deitada por terra. E ele se aproximava de Vivito e deixava a sua mão suspirar sobre a cabeça bamboleante do rapaz.
- Estou ver que você precisa cortar esse seu cabelo. Mas você não pára com a cabeça quieta, sempre quetequê-quetequê.
Aos custos, Gaspar lá subia para a cadeira e ajeitava o pano à volta do pescoço. O moço, aflito, apontava a escuridão à volta.
- Ainda dá tempo de apanhar umas tesouradas. Agora vê se fica quietíssimo, para despacharmos.
E os dois se retratavam, debaixo da grande árvore. Todas as sombras já tinham morrido àquela hora. Os morcegos riscavam o céu com seus gritos.
Era aquele o momento em que a vendedeira Rosinha passava por ali, de regresso a casa. Ela surgia e o barbeiro ficava suspenso, todo ele no olhar ansioso.
- Viu aquela mulher, Vivito? Bonita, bonita até de mais. Costuma passar aqui, a essas horas. Às vezes penso se estas demoras não faço de propósito: arrastar o tempo até o momento dela passar.
Só então o mesire se confessava triste, um outro Firipe surgia. Mas ele se confessava a ninguém: o Vivito calado, será que entendia a tristeza do barbeiro?
- É, Vivito, estou cansado de viver sozinho. Faz tempo a minha mulher me abandonou. Sacana de gaja, deixou-me com outro. Mas esta profissão de barbeiro, também. Um gajo está aqui amarrado, nem pode sair dar uma espreitadela lá em casa, controlar a situação. Resultado é este.
Ele então disfarçava a sua raiva. Subtraía da gente aquele peso e somava nos bichos. Apedrejava os ramos, tentando bater nos morcegos.
- Porcaria de bichos! Não vêem que isto é minha barbaria? Isto tem dono, propriedade de mestre Firipe Beruberu.
E corriam os dois atrás de imaginários inimigos. Acabavam por se tropeçarem, sem jeito para se zangarem. E cansados, ofegavam um ligeiro riso, como se perdoassem ao mundo aquela ofensa.
Foi num dia. A barbearia continuava seu sonolento serviço e essa manhã, como todas as outras, se sucediam as doces conversas. O Firipe explicava a tabuleta avisando a taxa de dormida.
- Só paga os que adormecem na cadeira. Acontece muito-muito com esse gordo, o Baba (Baba - senhor, pai, forma de tratamento que se reserva aos mais velhos.) Afonso. Começo a pôr toalha e logo ele começa a sonecar. Não gosto disso, eu. Não sou mulher de ninguém para adormecer cabeças. Isto é barbaria séria...
Foi então que apareceram dois estranhos. Só um entrou na sombra. Era um mulato, quase branco. As conversas desmaiaram ao peso do medo. O mulato se dirigiu ao barbeiro e ordenou que mostrasse os documentos.
- Porquê, os documentos? Eu, Firipe Beruberu, sou duvidado?
Um dos clientes aproximou-se de Firipe e segredou-lhe:
- Firipe, é melhor você obedecer. Esse homem é o Pide.
O barbeiro baixou-se sobre o caixote e retirou os documentos:
- Estão aqui os meus plásticos homem passou em revista a carteira. Depois, amarrotou-a e atirou-a para o chão.
- Falta uma coisa nesta carteira, ó barbeiro.
- Falta alguma coisa, como? Se todos os documentos já entreguei.
- Onde está a fotografia do estrangeiro? - Estrangeiro?
- Sim, desse estrangeiro que você recebeu aqui na barbearia.
O Firipe duvida primeiro, depois sorri. Entendera a confusão e prontificava-se a explicar:
- Mas senhor agente, isso do estrangeiro é história que inventei, brincadeira... mulato empurra-o, fazendo-lhe calar.
- Brincadeira, vamos ver. Nós sabemos muito bem que vêm subversivos da Tanzânia, da Zâmbia, de onde. Turras! Deve ser um desses que recebeste aqui.
- Mas receber, como? Eu não recebo ninguém, não mexo com política.
O agente vai inspeccionando o lugar, desouvindo. Pára em frente da tabuleta e soletra em surdina:
- Não recebes? Então explica lá o que é isto aqui: "Cabeçada com dormida: mais 5 escudos". Explica lá o que é essa dormida...
- Isso é só por causa de alguns clientes que dormecem na cadeira.
O polícia já cresce na sua fúria.
- Dá-me a foto.
O barbeiro retira o postal do bolso. O polícia interrompe o gesto, arrancando-lhe a fotografia com tal força que a rasga.
- Este aqui também adormeceu na cadeira, hein?
- Mas esse nunca esteve aqui, juro. Fé-de-Cristo (Fé-de-Cristo - forma de juramento.), senhor agente. Essa foto é do artista do cinema. Nunca viu nos filmes, desses dos americanos?
- Americanos, então? Está visto. Deve ser companheiro do outro, o tal Mondlane que veio da América. Então este também veio de lá?
- Mas esse não veio de nenhuma parte. Isso tudo é mentira, propaganda.
- Propaganda? Então deves ser tu o responsável da propaganda da organização...
O agente sacode o barbeiro pela bata, os botões caem. Vivito tenta apanhá-los mas o mulato dá-lhe um pontapé.
- Para trás, sacana. Ainda vai é tudo preso.
O mulato chama o outro agente e fala-lhe ao ouvido. O outro parte pelo atalho e regressa, minutos depois, trazendo o velho Jaimão.
- Já interrogámos este velho. Ele confirma que recebeste aqui o tal americano da fotografia.
Firipe, de sorriso frouxo, quase nem tem força para se explicar.
- Vê, senhor agente? Outra confusão. Eu que paguei ao Jaimão para ele servir de testemunha da minha mentira. Jaimão está combinado comigo.
- Está combinado, está.
- O Jaimão diz lá: não foi uma maneira que combinámos?
O pobre velho, desentendido, rodava dentro do seu casaco esfarrapado.
- Sim. Na realmente eu vi o cujo homem. Estava aqui, nesse cadeira.
O agente empurrou o velho, amarrando os seus braços aos do barbeiro. Olhou em volta, com vistas de abutre magro. Enfrentava a pequena multidão que assistia a tudo silenciosamente. Deu um pontapé na cadeira, partiu o espelho, rasgou o cartaz. Foi então que Vivito se meteu, gritando. O aleijado segurou o braço do mulato mas cedo se desequilibrou, caindo de joelhos.
- E este quem é? Que língua é que ele fala? Também é estrangeiro?
- Esse rapaz é meu ajudante.
- Ajudante? Então também vai dentro. Pronto, vamos embora! Tu, o velho e este macaco dançarino, tudo a andar à minha frente.
- Mas o Vivito...
- Cala-te barbeiro, já acabou o tempo das conversas. Vais ver que, lá na prisão, há um barbeiro especial para te cortar o cabelo a ti e aos teus amiguinhos.
E, perante o espanto do bazar inteiro, Firipe Beruberu, vestido de sua imaculada bata, tesoura e pente no bolso esquerdo, seguiu o último caminho na areia do Maquinino. Atrás, com sua antiga dignidade, o velho Jaimão. Seguia-se-lhe o Vivito de passo bêbado. Fechando o cortejo, vinham os dois agentes, vaidosos da sua caçada. Calaram-se então os pequenos milandos (Milandos - brigas, discussões.) do quanto custa, o mercado rendeu-se à mais funda melancolia.
Na semana seguinte, vieram dois cipaios. Arrancaram a tabuleta da barbearia. Mas, olhando o lugar, eles muito se admiraram: ninguém tinha tocado em nenhuma coisa. Ferramentas, toalhas, o rádio e até a caixa de trocos continuavam como foram deixados, à espera do regresso de Firipe Beruberu, mestre dos barbeiros do Maquinino.


Mia Couto, Cada Homem é uma Raça





13/09/2007

O Vinho



Era no Agosto, à tardinha. O Abel descia aos bordos pelos montes da Borralheda abaixo, a falar sozinho:
- Sempre vais muito bêbado, Abel! Muito bêbado vais tu! Metes-te nele, bote lá mais um, ti Margarida, bote lá mais um, pronto... Agora pareces um milhafre a peneirar. E o pior é o resto: chegas a casa e já sabes: ninguém a atura. «Olha em que estado vem este excomungado! Dinheiro para comprar os precisos, não há; mas para encher os cornos de vinho, que não falte!» Há? É bonito, não é ? Claro, dás-lhe a resposta que merece:
«Cala-me essa boca, que já nem te enxergo bem, mulher! Deixa-te de cantigas, se não queres saber o gosto que o fado tem! Se bebo, bem haja eu.
Quanto mais, que é que eu bebi?! Dois quartilhos. Olha a grande coisa!...» Fica danada, e continua a ladrar: «Se vês que não estás farto, eu vou-te buscar mais à venda!...»
Riu-se.
- Que me dizes à piada, Abel? Que me dizes? Aquilo é que é uma bisca!
Parou. Encostou-se a um pinheiro e abriu a braguilha. Ficou uns segundos calado, feliz, a sentir-se aliviado. De repente, alarmou-se:
- Estás-te a mijar, Abel! Estás-te a mijar pelas pernas abaixo.
Compôs-se.
- Assim, sim! Ao som da urina a cair no chão, começou a cantar:

Caninha verde, ó minha verde caninha...

Passou gente.
- Isso é que é boa disposição!
- Regular. Emprenhei esta noite a patroa... Riu-se outra vez. Fechou a braguilha e continuou a cantar:

ó de encanar, 
Encanei para o teu peito, 
Quem me há-de de lá tirar?...

Arrastado pelo ritmo da própria voz, pôs-se a dançar. Mas, apenas deu duas voltas, enrodilharam-se-lhe as pernas e estatelou-se.
- Eu bem te digo que vais muito bêbado! Não acreditas...
Tentou levantar-se.
- Quê?! Não és capaz?! Essa agora! Coçou a cabeça, num exame de consciência. - É o vinho! É o ladrão do vinho. Não tenhas dúvidas.
Penitente, deu a mão à palmatória.
- Foi sempre o teu fraco, a pinguita! Coçou de novo a cabeça.
- Sabe-te bem... E afogas as mágoas... Ela é que não vai em cantigas, e a estas horas já te rezou o responso. Por isso, trata de te erguer.
Nada.
- Ai - ai, ai - ai! Estás a desconversar!
Num pânico inconformado, apelou para os seus brios.
- Então que raio de coragem é essa, camarada? Se dás parte de fraco, deixas-me ficar mal!
Insuflado de energia, iniciou terceira tentativa:
- Upa! Arriba, burro velho, que é maré. Upa!
Estava já quase em pé, mas não se susteve e caiu. Zangou-se: 
- Raios te partam e às pernas que tens! Podes ir à merda e mais elas!
Estendeu-se ao comprido no chão e deu um suspiro fundo, de bem-estar. Mas repreendeu-se logo.
- Sabia-te bem a coisa, não?! Isso sei eu! E depois ? E lá em casa, a senhora D. Maria?
Apesar da advertência, deixou-se ficar de barriga para o ar, a olhar o céu. Dos lados da Delegada vinha nascendo a lua cheia. Avivou a atenção:
- Já viste, Abel? já viste a lua? Ali, pedaço de asno! Mesmo em frente. Que grande lua! E corada, a figurona! Até parece que também lhe cascou...
Contente da chalaça, e de olhos muito arregalados, esqueceu-se do tempo, a namorar aquela congestão suspensa, espapaçado na doce almofada que era o caminho duro, ainda quente da torreira do dia. De repente, perguntou:
- Mas isto é vida, companheiro? Diz lá, francamente, se isto é vida?! Não é? Então, ala, toca a andar...
Depois dum grande esforço, conseguiu sentar-se.
- Ora vês?! A coisa vai. O que é preciso é calma.
Apesar das boas palavras da razão, o corpo não foi mais além.
- É o que eu digo: estás bêbado! Queres, mas não podes.
Abanou a cabeça, desiludido.
- Sempre cuidei que eras mais valente... Compadecido daquela miséria, numa voz íntima, terna, de quem fala a um amigo, procurou tirar alento da força da própria realidade.
- Ouve. Bebeste, bebeste, pronto: deu-te na fraqueza. Está certo. Mas a verdade é que tens de voltar para casa. Por isso, o remédio agora é fazer das tripas coração...
Nem se mexeu.
- Mau! Temos o caldo entornado! Assim, não! A ameaça de nada valeu. A lassidão que sentia era cada vez maior. E armou-se de paciência:
- Vá lá uma cigarrada, a ver se animas. Arranjas-me cada sarilho! Não tens juízo... Depois dá este resultado.
Desenterrou do bolso do colete uma pirisca, acendeu-a e lançou para longe o fósforo de cera ainda a arder.
Com o peito cheio de fumo, consolado, voltou à carga:
- A sério, a sério, que não es capaz? Tens a certeza, Abel? A certeza certezinha?
O fósforo que atirara fora pegou fogo ao panasco seco do monte. Uma brisa ligeira que se levantara avivou a chama e pô-la a caminhar.
Conscienciosamente, alarmou-se: 
- Vês? Vês o que fizeste? Agora não trates de apagar aquilo! Se te parecer, deixa queimar tudo!...
Disse, mas continuou como estava, a olhar uma touça de carqueja que começava a fumegar. Quando a labareda se abriu, excitou-se:
- Ó Abel! meu badana! Levanta-te! Reage, alma do diabo!
Pois sim. Ficou no mesmo sítio, incapaz dum gesto.
Teve um rebate de sincera contrição:
- Não vales a ponta dum corno! Andas para aí a presumir, e não há pandilha maior nas redondezas. Com meia canada de tinto, estás como hás-de ir!
O incêndio, tocado pelo vento que crescia, lavrava já pelo monte a cabo.
- Olha que arde tudo, Abel. Se não lhe acodes, é um ar que lhe dá! A secura é muita... E és tu o Único causador!
A lua, agora, vista através da borracheira e da sebe de lume, era uma brasa redonda. O Abel é que não se deixou corromper pela sugestão da imagem.
- Foste tu, não cuides lá! A lua está assim vermelha, mas não pega fogo ao mundo...
As labaredas não tinham parança. Sôfregas, corriam à porfia sobre o palhiço. Depois, lambido o chão, chegavam-se à casca dos pinheiros, agarravam-se a ela e trepavam pelos troncos acima como cobras. No alto, na rama, era duma bocada só.
O Abel assistia impotente àquela fúria destruidora. E, embora os olhos já lhe doessem e sentisse uma parte de si responsável perante não sabia que justiça, admirou o espectáculo.
- Lá que é bonito, é, sim senhor. Linda coisa. Um arraial e pêras!
Quebrou o enlevo para limpar a alma de qualquer conivência.
- É bonito, mas... Escusas de querer encobrir. Se alguém me perguntar, já sabes, digo a verdade.
Passou um coelho espavorido.
- Viste um coelho?! Aquilo é que levava uma
pressa! Ia com o rabo quente!...
O incêndio cada vez era maior. Num tojal, as lambras pareciam cabras às turras. Anoitecera, e, à medida que se toldava a luz, avivava-se mais o brasido. Os olhos do borracho, que o vinho e o clarão cegavam, fechavam-se numa teima de cortinas insubmissas. Contudo, mesmo nessa escuridão dos sentidos, o coitado lutava ainda:
- Ó criatura de Deus, lembra-te de que tens responsabilidades... Que és um pai de família... Que contas hás-de dar em casa, amanhã?
Os montes da Borralheda estavam agora transformados numa fornalha. A lua cheia, no céu, tinha uma cara larga, de abóbora iluminada por dentro.
Aos ouvidos do bêbado começaram a chegar, indistintos, sons tresmalhados. Prestou atenção. Eram gritos de gente que vinha acudir ao fogo. Ele é que infelizmente não podia fazer nada, por mais que quisesse...
Nisto, o estalo seco de uma corcódea a arder foi como um aguilhão que lhe espetassem. Sem consciência sequer do que fazia, num salto de mola, pôs-se em pé.
Esteve assim uns segundos, cego., pétreo, maciço, no limbo, opaco do ser e do não ser. Por fim, num relâmpago de libertação, abriu os olhos. O mar vermelho submergiu-o então como uma vaga. Deslumbrado, caiu redondo no chão.
Um sono fundo, pesado, começou a quebrá-lo todo. E daquela doçura que o invadia, uma célula só, fiel à dignidade da espécie, refilou ainda:
- Ao que chega um homem! É preciso não ter vergonha na cara... Ficar para aqui, num ermo destes, a dormir ao relento como um animal! E não cuides que é lá por causa dela que me incomodo. Que se lixe! É por ti, desgraçado...

Miguel Torga, Contos da Montanha


12/09/2007

Homens de Vilarinho



Foi um grande acontecimento em Vilarinho, quando na Senhora da Agonia, à missa, o padre João leu os nomes dos mordomos da próxima festa. É que, à cabeça do rol, vinha o Firmo, e todos esperavam tudo menos isso.
- O Firmo?! - não se conteve, no silêncio da igreja, o Antônio Puga.
- Psiu!... - sibilou, dos lados da pia benta, o sacristão, que andava às esmolas.
E o caso só à saída foi comentado como merecia.
- O Firmo?! Mas então o Firmo, daqui a um ano... - e o Puga nem era capaz de levar o raciocínio ao fim.
- Fica. Desta vez fica... - garantiu a Margarida, que bebia do fino. - O padre João tantas lhe disse...
A assistência ouvia maravilhada. O Firmo de pedra e cal em Vilarinho! O mundo sempre dá muita volta!
A notícia tinha realmente que se lhe dissesse. Há muito anos já que o Firmo desorientava Vilarinho. Desde que viera de Amarante da artilharia, e embarcara, nunca mais a seu respeito se soube a quantas se andava. Nem a própria mulher. Quando lhe perguntavam pelo homem, o que fazia, se voltava, se gozava saúde, respondia, já resignada:
- O meu Firmo?! Eu sei lá do meu Firmo no Brasil, na América, na Argentina, os que o conheciam estavam na mesma. Sempre a variar de terra, sempre a mudar de emprego, e às duas por três a oferecer os préstimos para Portugal.
- Oh! oh! - São meia dúzia de dias. Daqui a nada estou cá. É só o tempo de o navio chegar, esperar que eu faça um filho à patroa, e levantar ferro...
Dito e feito. Daí a pouco regressava com a mesma cara. De tal maneira, que já todos se riam. Dera em droga, não havia que ver. Só mesmo o padre João, cabeçudo, é que podia ter ainda fé naquele valdevinos, e continuar junto dele o sermão deixado a meio da última vez. O padre era o pároco de Vilarinho. E sempre que Firmo vinha à terra e acordava da primeira noite dormida com a mulher, lá estava ele à entrada da porta com a sua batina rota e o seu cachaço de cavador.
- Dás licença, Firmo?
- Faça favor de entrar, senhor padre João. - Então tu não terás mais juízo, homem de Deus! Tu não verás que tens aqui um rebanho de filhos?!
Firmo baixava a cabeça diante daquela voz amiga e repreensiva. Nem se defendia. Aceitava cada censura como o golpe dum látego purificador. Mas passados dias, quando a Silvana começava a pedir azeitonas às vizinhas, ia dizendo: _ És tu com desejos de azeitonas e eu com desejos de mundo...
- Ah! Firmo, que sorte a minha! Valia de bem o gemido da infeliz! Quanto mais chorava, mais ele se enfrenisava na partida. Empenhava uma terra, vendia-lhe o cordão se preciso fosse, recorria em último caso ao próprio padre João, mas abalava.
- Grandes terras, ti Guilhermino!
- Não há dúvida, Firmo... Não há dúvida... Os lucros que tens tirado delas é que são fracos... - respondia melancolicamente o velho, quando o Firmo, a caminho do comboio, enchia a boca com a Califórnia.
- Não tem calhado... Que ele também para que é que o dinheiro presta?!
- Homessa! - É o que lhe digo. Desde que uma pessoa coma e beba...
- E a mulher e os filhos?
- A mulher e os filhos cá vão vivendo... E Vilarinho desanimava.
- Coisa assim, como ele se pôs! E ainda se fosse de gente doutra condição, vá lá com mil demónios! Agora quem lhe conheceu o pai, como eu, um homem sério, zelador do que lhe pertencia, amigo da família, sempre agarrado à enxada... Que ele não é mau. Mas fazer-se um tragamundos daquela maneira! - gemia o abade, quando a Silvana lhe ia pagar a côngrua. - Acredita que tenho uma paixão, que nem fazes ideia!
O padre era a própria seiva de Vilarinho. Tão agarrado à terra que costumava dizer aos colegas:
- Eu, fora cá da minha freguesia, nem latim sei.
Os outros riam-se e davam-lhe palmadinhas intencionais no costado largo.
- Ora, ora, padre João! Esquece-se do latim, esqueceu mas lembra-se do português. Que o diga quem pode...
Aludiam risonhamente à conversa que tivera na Vila com o novo bispo, quando foi chamado à pedra. O prelado, muito severo, com ar de quem ia salvar o mundo, depois de lhe estender o anel e de lhe indicar uma cadeira, pôs-se para ali a alanzoar. Que o incomodara para tratar com ele dum caso grave de consciência e de disciplina. Que sabia que Sua Reverência vivia amancebado e tinha prole. Que tomara conta da diocese há pouco tempo e que não desejava iniciar a pastoreação com actos de violência. Mas que, por outro lado, não podia consentir desmandos a nenhum membro do reverendíssimo clero. Por conseguinte, ou abandonava Sua Reverência o concubinato ou se via obrigado a aplicar-lhe os castigos disciplinares.
O réu não esteve com meias medidas. – Olhe!, senhor Bispo, cá por cima são estes usos. Padre sim, padre não, faz o mesmo. Tenha a certeza. O que são é mais finos do que eu. As fêmeas chamam-lhes criadas; e aos filhos, afilhados, Ora eu cá sou pão pão, queijo queijo. Não nego. Para quê? A mulher é minha, nunca foi doutro, gosto dela e não a largo; os filhos tenho já cinco, quero criá-los e ver se lhes deixo alguma coisa. De maneira que faça o senhor Bispo o que entender.
A resposta ficou célebre. E os colegas, sempre que vinha a propósito, davam-lhe o beliscão.
Ria-se com o seu riso aberto. E, acabada a missa cantada, o oficio ou lá o que era, trepava para o lombo da mula, cheio de saudades das suas leiras e das almas irmãs que governava.
Destas, só uma lhe fazia cabelos brancos: o Firmo. O diabo saíra ave de arribação. E para quem como ele mergulhava as raízes no chão de Vilarinho, uma realidade assim era um sofrimento.
- Homem, mas tu, afinal, quando te resolves a ser um pai de família e a ter vergonha na cara? - acabou por perguntar ao Firmo, já sem mais paciência.
- Há-de ser um dia. Prometo-lhe que há-de ser um dia!
E quando pela sexta vez o padre o acordou do sono com a mulher, na véspera da Senhora da Agonia, o Firmo sossegou-lhe o coração.
- É desta feita. Na Quaresma conte com mais um pecador para a desobriga. Agora tem-me o resto da vida, caseiro como uma galinha...
Padre João sentiu que um grande peso lhe saía dos ombros. Até que enfim!
- Dás-me a tua palavra?
- Estou-lhe a falar a sério, pode crer! Hei-de fazer tudo para isso. já iam sendo horas...
A promessa tinha uma solidez de testamento. Contudo, pelo sim, pelo não, no dia seguinte, à missa, o padre resolveu amarrar o valdevinos à argola, pondo-o, com grande espanto de Vilarinho, no principio da lista dos mordomos da festa do ano que vinha.
- Será que ele desta vez fica mesmo? - insistia o Puga na venda do Trauliteiro.
- Parece que sim. O padre João lá o convenceu...
- Custa-me a acreditar.
- Não tem que ver: está ou não está mudado? Cava ou não cava o dia inteiro, como nós ?
- Realmente... E até os mais renitentes foram cedendo terreno. A própria mulher, que nos primeiros dias andava abismada com aquela resolução, enchia agora os olhos de paz ao vê-lo a tratar do estrume para as próximas sementeiras, e de tempos a tempos a lembrar que era preciso não esquecer de tirar a esmola para a festa, e que a respeito de arraial a coisa havia de ser falada.
O padre, esse, andava de coração em aleluia. A terra de lameiro de que era feito, grossa, funda, quente, só compreendia as pessoas plantadas ali. Por isso, desde que Firmo parecia aclimatado a Vilarinho, até a vida lhe sabia melhor.
- Com que então desta vez sempre ficas por cá?! - foi perguntando o Puga, pela mansa, quando encontrou o Firmo a jeito.
- É como dizes. O bom filho à casa torna... E Vilarinho assentou de vez que o réprobo, afinal, ganhara juízo, tomara nas mãos macias as rédeas duras da casa e dera ao demo o que é do demo - o mundo.
Nos Reis, para aumentar a receita destinada à romaria, fez-se um peditório. E o Firmo, que tocava violão, puxou ali pelas seis cordas corno um valente.
- Ora vê lá tu se não e melhor a vida que agora levas do que andar como um maltês por lá! - dizia-lhe o padre João, como a varrer-lhe do pensamento qualquer resto de maluquice.
- Na verdade...
- Não há que ver: onde encontras tu terras como esta? Bom pão, bom vinho, bons ares, e em nossa casa, ao pé da mulher e dos filhos!
O mundo dera a Firmo luzes para além das fragas nativas. Por isso tinha olhos para ver o padre em plena grandeza. Um castanheiro. Tal e qual um castanheiro, redondo, maciço, frondoso. De tal modo fincado onde nascera, que não havia forças que o fizessem mudar. Só a morte. Ele, Firmo, filho de cavadores, cavador até aos vinte, que se casara, que não tinha estudos, - sem nenhum apego à terra, incapaz de se deixar penetrar da verdade dos tojos e das leiras; e aquele homem letrado, que recebera ordens, que prometera dar-se todo a quem proclamara que o seu reino não era deste mundo, - ali com mulher e filhos, cheio do amor deles, agarrado às verças como os juncos às nascentes! As razões que apresentava eram sempre as mesmas. Tantas vezes as ouvira que já nem lhes ligava sentido. Mas agora as palavras de ontem, de antes de ontem, de há vinte anos, embora igualmente incapazes de o vencer - pois sabia que não o movera nenhum dos argumentos invocados -, entravam-lhe pelos ouvidos dentro com outra significação. Mandavam-no curvar-se de pura admiração diante de uma vida sem fendas, inteira como um rochedo. Que bicho! Nem o próprio bispo pudera com ele. Metera a viola no saco e deixara correr. O bloco de pedra talvez estivesse errado em sítios onde já não tivesse valor o tamanho do natural. Em Vilarinho, metia respeito.
- É assim. Eu vou à Vila, ando por lá a dar as voltas precisas, e às duas por três tenho fome. Entro na Gaitas e como uma malga de tripas. Pois acredita que nem as tripas me sabem. Há lá nada como a nossa casa!
- São feitios, senhor padre João... - tentou, em todo o caso, o Firmo. - A vida...
- Quais feitios, qual vida! Firmo calou-se. O amor daquele homem à terra era tão absoluto como o seu próprio amor à vastidão do mundo. Para quê discutir?
- E de festa, que tal vamos? Vê lá isso! Não me deixes ficar mal...
- Está justa a música velha de Constantim, encomendámos o fogo em Cabeda e os saiais são de Sabrosa. Pregador, o senhor padre João dirá...
Nem parecia o mesmo. Como um homem se modificava! Lá diz o ditado: Infeliz pássaro que nasce em ruim ninho. Tanto monta correr, como saltar: as asas puxam-no sempre para onde aprendeu a voar. Pusessem os olhos naquele exemplo.
Mas na véspera da Senhora da Agonia, roído não se sabe por que melancólica inquietação, Firmo, que lutara como um herói durante um ano para se aguentar ali, bateu à porta da residência.
- Dá licença, senhor padre João?
- Entra, Firmo. Alguma novidade?
- Nada de importância... 
No rosto largo do abade o sangue correu mais tinto e mais alegre.
- Bem. Isso é que eu gosto de ouvir. 
Sem palavras para desiludir aquela confiança, peado, o desertor começou a gaguejar:
- Pois é verdade... Afinal...
O padre, então, olhou-o com a sua penetração profissional de confessor:
- Desembucha! 
E Firmo escancarou-lhe a alma:
- Não posso mais, senhor padre João. Embarco amanhã e venho dizer-lhe adeus.

Miguel Torga, Contos da Montanha


09/09/2007

Preciosidade


De manhã cedo era sempre a mesma coisa renovada: acordar. O que era vagaroso, desdobrado, vasto. Vastamente ela abria os olhos.

Tinha quinze anos e não era bonita. Mas por dentro da magreza, a vastidão quase majestosa em que se movia como dentro de uma meditação. E dentro da nebulosidade algo precioso. Que não se espreguiçava, não se comprometia, não se contaminava. Que era intenso com uma jóia. Ela.

Acordava antes de todos, pois para ir à escola teria de pegar um ônibus e um bonde, o que lhe tomaria uma hora. De devaneio agudo com um crime. O vento da manhã violentando a janela e o rosto até que os lábios ficavam duros, gelados. Então ela sorria. Como se sorrir fosse em si um objetivo. Tudo isso aconteceria se tivesse a sorte de "ninguém olhar para ela".

Quando de madrugada se levantava - passado o instante de vastidão em que se desenrolava toda - vestia-se correndo, mentia para si mesmo que não havia tempo de tomar banho e a família adormecida jamais adivinhara quãos poucos ela tomava. Sob a luz acesa da sala de jantar, engolia o café que a empregada, se começando no escuro da cozinha, requentara. Mal tocava no pão que a manteiga não amolecia. Com a boca fresca de jejum, os livros embaixo do braço, abria enfim a porta, transpunha a mornidão insossa da casa, galgando-se para a gélida fruição da manhã. Então já não se apressava mais.

Tinha que atravessar a longa rua deserta até alcançar a avenida, do fim da qual um ônibus emergiria cambaleando dentro da névoa, com as luzes da noite ainda acesas no farol. Ao vento de junho, o ato misterioso, autoritário e perfeito era erguer o braço - e já de longe o ônibus trêmulo começava a se deformar obedecendo à arrogância de seu corpo, representante de um poder supremo, de longe o ônibus começava a tornar-se incerto e vagaroso, vagaroso e avançando, cada vez mais concreto - até estacar no seu rosto em fumaça e calor, em calor e fumaça. Então subia, séria como uma missionária, por causa dos operários no ônibus que "poderiam dizer-lhe alguma coisa". Aqueles homens que não eram mais rapazes. Mas também de rapazes tinha medo, medo também de meninos. Medo que lhe "dissessem alguma coisa", que a olhassem muito. Na gravidade da boca fechada havia a grande súplica: respeitassem-na. Mais que isso. Como se tivesse prestado voto, era obrigada a ser venerada, e, enquanto por dentro o coração batia de medo, também ela se venerava, ela a depositária de um ritmo. Se a olhavam ficava rígida e dolorosa. O que a poupava é que os homens não a viam. Embora alguma coisa nela, a medida que dezesseis anos se aproximava emf umaça e calor, alguma coisa estivesse intensamente surpreendida - e isso surpreendesse alguns homens. Como se alguém lhes tivesse tocado no ombro. Uma sombra talvez. No chão a enorme sombra de moça sem homem, cristalizável elemento incerto que fazia parte da monótona geometria das grandes cerimônias públicas. Como se lhes tivessem tocado no ombro. Eles olhavam e não a viam. Ela fazia mais sombra do que existia.

No ônibus os operários eram silenciosos com a marmita na mão, o sono ainda no rosto. Ela sentia vergonha de não confiar neles, que eram cansados. Mas até que os esquecesse, o desconforto. É que eles "sabiam". E como também ela sabia, então o desconforto. Todos sabiam o mesmo. Também seu pai sabia. Um velho pedindo esmola sabia. A riqueza distibuída, e o silêncio.

Depois, com o andar de soldado, atravessava - incólume - o Largo da Lapa, onde era dia. A essa algura a batalha estava quase ganha. Escolhia no bonde um banco, se possível vazio ou, se tivesse sorte, sentava-se ao lado de alguma asseguradora mulher com uma trouxa de roupa no colo, por exemplo - e era a primeira trégua. ainda teria de enfrentar na escola o longo corredor onde os colegas estariam de pé conversando, e ond eos tacos de seus sapatos faziam um ruído que as pernas tensas não podiam conter como se ela quisesse inutilmente fazer parar de bater um coração, sapatos com dança própria. Fazia-se um vago silêncio entre os rapazes, talvez sentissem, sob o seu disfarce, que ela era uma das devotas. Passava entre as alas dos colegas crescendo, e eles não sabiam o que pensar nem como comentá-la. Era feio o ruído de seus sapatos. Rompia o próprio segredo com tacos de madeira. Se o corredor demorasse um pouco mais, ela esqueceria seu destino e correria com as mãos tapando os ouvidos. Só tinha sapatos duráveis. Como se fossem ainda os mesmos que em solenidade lhe haviam calçado quando nascera. Atravessava o corredor interminável com a um silêncio de trincheira, e no seu rosto havia algo tão feroz - e soberbo também, por causa de sua sombra - que ninguém lhe dizia nada. Proibitiva, ela os impedia de pensar.

Até que, enfim, a classe de aula. Onde de repente tudo se tornava sem importância e mais rápido e leve, onde seu rosto tinha algumas sardas, os cabelos caíam nos olhos, e onde ela tratada como um rapaz. Onde era inteligente. A astuciosa profissão. Parecia ter estudado em casa. Sua curiosidade informava-lhe mais que respostas. Adivinhava, sentindo na boca o gosto cítrico das dores heróicas, adivinhava a repulsão fascinada que sua cabeça pensante criava nos colegas, que, de novo, não sabiam como comentá-la. Cada vez mais a grande fingia se tornava inteligente. Aprendera a pensar. O sacrifício necessário: assim "ninguém tinha coragem".

Às vezes, enquanto o professor falava, ela, intensa, nebulosa, fazia riscos simétricos n0 caderno. Se um risco, que tinha que ser ao mesmo tempo forte e delicado, saía fora do círculo imaginário em que deveria caber, tudo desabaria: ela se concentrava ausente, guiada pela avidez do ideal. Às vezes em vez de riscos, desenhava estrelas, estrelas, estrelas, tantas e tão altas que desse trabalho anunciador saía exausta, erguendo uma cabeça mal acordada.

A volta para casa era tão cheia de fome que a impaciência e o ódio roíam seu coração. Na volta parecia outra cidade: no Largo da Lapa centenas de pessoas reverberadas pela fome pareciam ter esquecido e, se lhes lembrassem, arreganhariam dentes. O sol delineava cada homem com carvão preto. Sua própria sombra era uma estaca negra. Nesta hora em que o cuidado tinha que ser maior, ela era protegida pela espécie de feiúra que a fome acentuava, seus traços escurecidos pela adrenalina que escurecia a carne dos animais de caça. Na casa vazia, toda a família na repartição, gritava com a empregada que nem sequer lhe respondia. Comia como um centauro. Acara perto do prato, os cabelos quase na comida.

-Magrinha, mas como devora, dizia a empregada esperta.

-Pro diabo, gritava-lhe sombria

Na casa vazia, sozinha com a empregada, já não andava como um soldado, já não precisava tomar cuidado. Mas sentia falta da batalha das ruas. Melancolia da liberdade, com o horizonte ainda tão longe. Dera-se ao horizonte. Mas a nostalgia do presente. O aprendizado da paciência, o juramento da espera. Do qual talvez não soubesse jamais se livrar. A tarde transformando-se em interminável e, até todos voltarem para o jantar e ela poder se tornar com alívio uma filha, era o calor, o livro aberto e depois fechado, uma intuição, o calor: sentava-se com a cabeça entre as mãos, desesperada. Quando tinha dez anos, relembrou, um menino que a amava jogara-lhe um rato morto. Porcaria! berrara branca com a ofensa. Fora uma experiência. Jamais contara a ninguém. Com a cabeça entre as mãos, sentada. Dizia-se quinze vezes: sou vigorosa, sou vigorosa, sou vigorosa - depois percebia que apenas prestara atenção à contagem. Suprindo com a quantidade, disse mais uma vez: sou vigorosa, dezasseis. E já não estava à mercê de ninguém. Desesperada porque, vigorosa, livre, não estava mais à mercê. Perdera a fé. Foi conversar com a empregada, antiga sacerdotisa. Elas se reconheciam. As duas, descalças, de pé na cozinha, a fumaça do fogão. Perdera a fé, mas, à beira da graça, procurava na empregada apenas o que esta já perdera, não o que a ganhara. Fazia-se pois distraída e, conversando, evitava a conversa. "Ela imagina que na minha idade devo saber mais do que sei e é capaz de me ensinar alguma coisa", pensou, a cabeça entre as mãos, defendendo a ignorância como a um corpo. Faltavam-lhe elementos, mas não os queria de quem já os esquecera. A grande espera fazia parte. Dentro da vastidão, maquinando.

Tudo isso, sim. Longo, cansado, a exasperação. Mas na madrugada seguinte, como uma avestruz lenta se abre, ela acordava. Acordou no mesmo mistério intacto, abrindo os olhos ela era a princesa do mistério intacto.

Como se a fábrica já tivesse apitado, vestiu-se correndo, bebeu de um sorvo o café. Abriu a porta de casa.

E então já não apressou-se mais. A grande imolação das ruas. Sonsa, atenta, mulher de apache. Parte rude ritmo de um ritual.

Era uma manhã ainda mais fria e escura que as outras, ela estremeceu no suéter. Abranca nebulosidade deixava o fim da rua invisível. Tudo estava algodoado, não se ouviu sequer o ruído de algum ônibus que passasse pela avenida. foi andando para o imprevisível da rua. As casas dormiam nas portas fechadas. Os jardins endurecidos de frio. No ar escuro, mais que no céu, no meio da rua uma estrela. Uma grande estrela de gelo que não voltara ainda, incerta no ar, húmida, informe. Surpreendida no seu atraso, arredondava-se na hesitação. Ela olhou a estrela próxima. Caminhava sozinha na cidade bombardeada.

Não, ela não estava sozinha. Com os olhos franzidos pela incredulidade, no fim longínquo de sua rua, de dentro do vapor, viu dois homens. Dois rapazes vindo. Olhou ao redor como se pudesse ter errado de rua ou de cidade. Mas errara os minutos: saíra de casa antes que a estrela e dois homens tivessem tempo de sumir. Seu coração se espantou.

O primeiro impulso, diante de seu erro, foi o de refazer para trás os passos dados e entrar em casa até que eles passassem: "Eles vão olhar pra mim, eu si, não há mais ninguém para eles olharem e eles vão me olhar muito!" Mas como voltar e fugir, se nascera para a dificuldade. Se toda a sua lenta preparação tinha o destino ignorado a que ela, por culto, tinha que aderir. Como recuar, e depois nunca mais esquecer a vergonha de ter esperado em miséria atrás de uma porta?

E mesmo talvez não houvesse perigo. Eles não teriam coragem de dizer nada porque ela passaria com o andar duro, de boca fechada, no seu ritmo espanhol.

De pernas heróicas, continuou a andar. Cada vez que se aproximava, eles também se aproximavam - então todos se aproximava, a rua ficou cada vez um pouco mais curta. Os sapatos dos dois rapazes misturavam-se ao ruído de seus próprios sapatos, era ruim ouvir. Era insistente ouvir. Os sapatos eram ocos ou a calçada era oca. A pedra do chão avisava. Tudo era eco e ela ouvia, sem poder impedir, o silêncio do cerco comunicando-se pelas ruas do bairro, e via, sem poder impedir, que as portar mais fechadas haviam ficado. Mesmo a estrela retirara-se. Na nova palidez da escuridão, a rua entregue aos três. Ela andava, ouvia os homens, já que não poderia olhá-los e já que precisava sabê-los. Ela os ouvia e surpreendia-se com a própria coragem em continuar. Mas não era coragem. Era o dom. E a grande vocação para um destino. Ela avançava, sofrendo em obedecer. Se conseguisse pensar em outra coisa, não ouviria os sapatos. Nem o que eles pudessem dizer. Nem o silêncio com que se cruzariam.

Com brusca rigidez olhou-os. Quando menos esperava, traindo o voto de segredo, viu-os rápida. Eles sorriam? Não, estavam sérios.

Não deveria ter visto. Porque, vendo, ela por um instante arriscava-se a tornar-se individual, e também eles. Era do que parecia ter sido avisada: enquanto executasse um mundo clássico, enquanto fosse impessoal, seria filha dos deuses, e assistida pelo que tem que ser feito. Mas, tendo viso o que olhos, ao vere, diminuem, arriscara-se a ser um ela-mesma que a tradição não amparava. Por um instante hesitou toda, perdida de um rumo. Mas era tarde demais para recuar. Só que não seria tarde demais se correse. Mas correr seria como errar todos os passos, e perder o ritmo que ainda a sustentava, o ritmo que era o seu único talismã, o que lhe fôra entregue à orla do mundo onde era pra ser sozinha - à orla do mundo onde se tinham apagado todas as lembranças, e como incompreensível lembrete restara o cego talismão, ritmo que era de seu destino copiar, executando-o para a consumação do mundo. Não a própria. Se ela corresse a ordem se alteraria. E nunca lhe seria perdoado o pior: a pressa. E mesmo quando se foge correm atrás, são coisas que se sabem.

Rígida, catequista, sem alterar por um segundo a lentidão com que avançava, ela avançava. "Eles vão olhar pra mim, eu sei!" Mas tentava por instinto de uma vida anterior, não lhes transmitir susto. Adivinhava o que o medo desencadeia. Ia ser rápido, sem dor. Só por uma fracção de segundos se cruzariam, rápido, instantâneo, por causa da vantagem a seu favor dela estar em movimento e deles virem em movimento contrário, o que faria com que o instante se reduzisse ao essencial necessário - à queda do primeiro dos sete mistérios que tão secretos eram que deles ficara apenas uma sabedoria: o número sete. Fazei com que eles não digam nada, fazei com que eles só pensem, pensar eu deixo. Ia ser rápido, e um segundo depois da transposição ela diria maravilhada, galgando-se para outras e outras ruas: quase não doeu. Mas o que se seguiu não teve explicação.

O que se seguiu foram quatro mãos difíceis, foram quatro mãos que não sabiam o que queriam, quatro mãos erradas de quem não tinha a vocação, quatro mãos que a tocaram tão inesperadamente que ela fez a coisa mais certa que poderia ter feito no mundo dos movimentos: ficou paralisada. Eles, cujo papel predeterminado era apenas o de passar junto do escuro de seu medo, e então o primeiro dos sete mistérios cairia; eles que representariam apenas o horizonte de um só passo aproximado, eles não compreenderam a função que tinham e, com a individualidade dos que têm medo, haviam atacado. Foi menos de uma fracção de segundo na rua tranquila. Numa fracção de segundo a tocaram com se a eles coubessem todos os sete mistérios. Que ela conservou todos, e mais larva se tornou, e mais sete anos de atraso.

Ela não os olhou porque sua cara ficou voltada com serenidade para o nada.

Mas pela pressa com que a magoaram, soube que eles tinham mais medo do que ela. Tão assustados que já não estavam mais ali. Corriam. "Tinham medo que ela gritasse e as portas das casas uma por uma se abrissem", raciocinou, eles não sabiam que não se grita.

Ficou de pé, ouvindo com tranquila loucura os sapatos deles em fuga. A calçada ou era oca, ou os sapatos eram ocos ou ela própria era oca. No oco dos sapatos deles ouvia atenta o medo dos dois. O som batia nítido nas lajes como se batessem à porta sem parar e ela esperasse que desistissem. Tão nítido na nudez da pedra que o sapateado não parecia distanciar-se: era ali a seus pés, com um sapateado de vitória. De pé, ela não tinha por onde se sustentar senão pelos ouvidos.

A sonoridade não esmorecia, o afastamento era-lhe transmitido por um apressado cada vez mais preciso de tacos. Os tacos não ecoavam mais na pedra, ecoavam no ar como castanholas cada vez mais delicadas. Depois percebeu que há muito não ouvia nenhum som.

E, trazidos de volta pela brisa, o silêncio e uma rua vazia.

Até esse instante mantivera-se quieta, de pé no meio da calçada. Então, como se houvesse várias etapas da mesma imobilidade, ficou parada. Daí a pouco suspirou. E em nova etapa manteve-se parada. Depois mexeu a cabeça, e então ficou mais profundamente parada.

Depois recuou devagar até um muro, corcunda, bem devagar, como se tivesse um braço quebrado, até que se encostou toda no muro, onde ficou inscrita. E então manteve-se parada. Não se mover é o que importa, pensou de longe, não se mover. Depois de um tempo, provavelmente ter-se-ia dito assim: agora mova um pouco as pernas mas bem devagar. Porque, bem devagar, moveu as pernas. Depois do que, suspirou e ficou quieta olhando, Ainda estava escuro.

Depois amanheceu.

Devagar reuniu os livros espalhados pelo chão. Mais adiante estava o caderno aberto. Quando se abaixou para recolhê-lo, viu a letra redonda e graúda que até esta manhã fora sua.

Então saiu. Sem saber com que enchera o tempo, senão com passos e passos, chegou à escola com mais de duas horas de atraso. Como não tinha pensado em nada, não sabia que o tempo decorrera. Pela presença do professor de Latim constatou com uma surpresa polida que na classe já haviam começado a terceira hora.

- Que foi que te aconteceu? sussurrou a menina da carteira a ao lado

- Por quê?

- Você está branca. Está sentindo alguma coisa?

- Não, disse tão claro que vários colegas olharam-na. Levantou-se e disse bem alto:

- Dá licença!

Foi para o lavatório. Onde, diante do grande silêncio dos ladrilhos, gritou aguda, supersônica: Estou sozinha no mundo! Nunca ninguém vai me ajudar, nunca ninguém vai me amar! Estou sozinha no mundo!

Estava ali perdendo também a terceira aula, no longo banco do lavatório, em frente a várias pias. "Não faz mal, depois copio os pontos, peço emprestado os cadernos para copiar em casa - estou sozinha no mundo!", interrompeu-se batendo várias vezes a mão fechada no banco. O ruído dos quatro sapatos de repente começou como uma chuva miúda e rápida. Ruído cego, nada se reflectiu nos ladrilhos brilhantes. Só a nitidez de cada sapato que não se emaranhou nenhuma vez com outro sapato. Como nozes caindo. Era só esperar como se espera que parem de bater à porta. Então pararam.

Quando foi molhar os cabelos diante do espelho, ela era tão feia.

Ela possuía tão pouco, e eles haviam tocado.

Ela era tão feia e preciosa.

Estava pálida, os traços afinados. As mãos, humedecendo os cabelos, sujas de tinta ainda do dia anterior. "Preciso cuidar mais de mim", pensou. Não sabia como. A verdade é que cada vez sabia menos como. A expressão do nariz era a de um focinho apontando na cerca.

Voltou ao banco e ficou quieta, com um focinho. "Uma pessoa não é nada." "Não", retrucou-se em mole protesto, "não diga isso", pensou com bondade e melancolia. "Uma pessoa é alguma coisa", disse por gentileza.

Mas no jantar a vida tomou um senso imediato e histérico:

- Preciso de sapatos novos! os meus fazem muito barulho, uma mulher não pode andar com salto de madeira, chama muita atenção! Ninguém me dá nada! Ninguém me dá nada! - e estava tão frenética e estertorada que ninguém teve coragem de lhe dizer que não os ganharia. Só disseram:

- Você não é uma mulher e todo salto é de madeira.

Até que, assim como uma pessoa engorda, ela deixou, sem saber por que processo, de ser preciosa. Há uma obscura lei que faz com que se proteja o ovo até que nasça o pinto, pássaro de fogo.

E ela ganhou os sapatos novos.



Clarice Lispector, In Laços de Família