25/08/2007

Três Tesouros Perdidos

Uma tarde, eram quatro horas, o sr. X… voltava à sua casa para jantar. O apetite que levava não o fez reparar em um cabriolé que estava parado à sua porta. Entrou, subiu a escada, penetra na sala e… dá com os olhos em um homem que passeava a largos passos como agitado por uma interna aflição.
Cumprimentou-o polidamente; mas o homem lançou-se sobre ele e com uma voz alterada, diz-lhe:
— Senhor, eu sou F…, marido da senhora Dona E…
— Estimo muito conhecê-lo, responde o sr. X…; mas não tenho a honra de conhecer a senhora Dona E…
— Não a conhece! Não a conhece! … quer juntar a zombaria à infâmia?
— Senhor!…
E o sr. X… deu um passo para ele.
— Alto lá!
O sr. F… , tirando do bolso uma pistola, continuou:
— Ou o senhor há de deixar esta corte, ou vai morrer como um cão!
— Mas, senhor, disse o sr. X…, a quem a eloqüência do sr. F… tinha produzido um certo efeito, que motivo tem o senhor?…
— Que motivo! É boa! Pois não é um motivo andar o senhor fazendo a corte à minha mulher?
— A corte à sua mulher! não compreendo!
— Não compreende! oh! não me faça perder a estribeira.
— Creio que se engana…
— Enganar-me! É boa! … mas eu o vi… sair duas vezes de minha casa…
— Sua casa!
— No Andaraí… por uma porta secreta… Vamos! ou…
— Mas, senhor, há de ser outro, que se pareça comigo…
— Não; não; é o senhor mesmo… como escapar-me este ar de tolo que ressalta de toda a sua cara? Vamos, ou deixar a cidade, ou morrer… Escolha!
Era um dilema. O sr. X… compreendeu que estava metido entre um cavalo e uma pistola. Pois toda a sua paixão era ir a Minas, escolheu o cavalo.
Surgiu, porém, uma objeção.
— Mas, senhor, disse ele, os meus recursos…
— Os seus recursos! Ah! tudo previ… descanse… eu sou um marido previdente.
E tirando da algibeira da casaca uma linda carteira de couro da Rússia, diz-lhe:
— Aqui tem dois contos de réis para os gastos da viagem; vamos, parta! parta imediatamente. Para onde vai?
— Para Minas.
— Oh! a pátria do ’Tiradentes’
Tiradentes! Deus o leve a salvamento… Perdôo-lhe, mas não volte a esta corte… Boa viagem!
Dizendo isto, o sr. F… desceu precipitadamente a escada, e entrou no cabriolé, que desapareceu em uma nuvem de poeira.
O sr. X… ficou por alguns instantes pensativo. Não podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de réis, e a realização de um dos seus mais caros sonhos. Jantou tranqüilamente, e daí a uma hora partia para a terra de Gonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo espaço de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino.
No dia seguinte, pelas onze horas da manhã, voltava o sr. F… para a sua chácara de Andaraí, pois tinha passado a noite fora.
Entrou, penetrou na sala, e indo deixar o chapéu sobre uma mesa, viu ali o seguinte bilhete:
“Meu caro esposo! Parto no paquete em companhia do teu amigo P… Vou para a Europa. Desculpa a má companhia, pois melhor não podia ser. — Tua E…”
Desesperado, fora de si, o sr. F… lança-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido às oito horas.
— Era P… que eu acreditava meu amigo… Ah! maldição! Ao menos não percamos os dois contos! Tornou a meter-se no cabriolé e dirigiu-se à casa do sr. X…, subiu; apareceu o moleque.
— Teu senhor?
— Partiu para Minas.
O sr. F… desmaiou.
Quando deu acordo de si estava louco… louco varrido!
Hoje, quando alguém o visita, diz ele com um tom lastimoso:
— Perdi três tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda prova, e uma linda carteira cheia de encantadoras notas… que bem podiam aquecer-me as algibeiras!…
Neste último ponto, o doido tem razão, e parece ser um doido com juízo.


Machado de Assis
Conto originalmente publicado em A Marmota (1858)


23/08/2007

Prelúdios de Festa


A Alberto Braga


Esse ano, a festa da Senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito – abonados e decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a entender que traria mais animalejos, uma bicharada, – talvez um macaco, se tivesse tempo de o acabar.
– Homem de uma cana! – resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a coisa fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da Loja, que tinha sido juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: – Fff! Pum!
– Ora deixa estar que eu te arranjo! – murmurou com os seus botões o António Fagote. E sorria, satisfeito de se lembrar que na noite do arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém falava noutra coisa.
– Então você já sabe?
– Já sei. A cegonha.
– A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro...
– O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?
– Pintado. No Monteverde, se me não engano. Logo adiante do Valente Rei Arauto Fiel.
Enganava-se.
O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves aferidor.
– Até que enfim, amigo Alves! Até que enfim vou ter o gosto de o ver arder.
O outro não percebeu: – «Que se explicasse...»
– Um urso, no arraial queima-se um urso.
– Então ardemos ambos, – redarguiu embezerrado o Alves. – Também se lá queima um burro.
Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua predilecção.
O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por dentro.
– Põe a tranca, se for preciso!
Mas então era cá da rua:
– Ó senhor António!
E na porta as pancadas ferviam:
– Truz! truz! truz! Senhor António!
– Ena! c’um raio de diabos! – fazia lá de dentro o homem, furioso.
– O senhor faz favor? É só uma palavrinha!
À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do nariz e a carta do fogueteiro na mão.
– O camelo? – perguntava zangado. – O urso?! Camelos me parecem vocês, ouviram? O que o homem diz é isto...
E lia a carta, rematando:
– Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... – Tirava os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos. – Irra!
E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não fosse ele burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o José da Loja!
– Temos o caldo entornado! – pensava aflito o Fagote, amedrontado com aquele espectro do José da Loja, o seu rival! Demais a mais, já lhe tinha chegado aos ouvidos que o outro agourava mal do negócio...
– Farófias! – tinha dito o José da Loja. – Farófias!
– Pois se mo diz na cara, arrebento-o! – vociferava o Fagote, quando tal soube.
E arrebentava, que o Fagote era homem para isso; tinha pulso. Desde rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições. Depois, bom olho para a caçadeira. De uma ocasião que foi preciso dar montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou lendária:
– Como-te a alma se te mexes!
– E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! – comentavam convictos.
Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com 60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto. Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força, conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.
– Safa! que isso aí é de ferro! – diziam os rapazes. – Duma cana, hem?
Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira, foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio, pacificadora:
«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau como o pintavam.»
– Ó mulher! Cala a caixa e não me defendas esse velhaco! – redarguiu o Fagote. – Do que ele é capaz sei eu.
Mas nessa ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!
Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria feita a ele, que era juiz este ano.
– Pois tu que pensas? – dizia ele para a mulher. – Quem me meteu a festa em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz: «entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas...»
– Nome do Padre, do Filho... – A mulher benzia-se «das ideias do seu António».
– Sejam ideias que não sejam! – teimou o Fagote. – Isto foi tal e qual, assim me Deus salve!
– Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?
E então desabafou: – «que não pensasse, o José da Loja, que o havia de levar à parede. Agora levava! A festa há-de-se fazer, e festa de arromba; nanja como a dele que só levava seis anjos, e não sei quantos andores, acho que meia dúzia!»
– Ó mulher! Então é para que saibas onde chega o brio de um homem! Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do corpo! Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! – E espipava olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de ver assim o seu António.
E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava farta de ouvir. – «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao atar das sangrias!»
– Leitões, se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles, por esses povos à roda. Querem-se de quatro semanas, três pelo menos:

Leitão de mês,
Cabrito de três.

A mulher contraveio: – «dois seriam bastantes...»
– Mau, que aí principiamos nós! – E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé no soalho, arreliado. – Três é que hão-de ser! Não quero cá dois, porque dois eram os do outro, o ano passado!
A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o outro.
– Agora não fanfas tu... – insistiu ele, risonho. – É assim mesmo que eu gosto. Sinal é que tens vergonha. A outra tamém não é mais que a ti!
A outra era a mulher do José da Loja, está visto.
– Nem mais, nem tanto! – emendou a Luísa Fagote, abespinhada.
– Isso mesmo! – abundou o juiz da festa. – Não me lembrava agora que antes de se casarem...
– E olha que depois de casada... – insinuou a Sr.ª Luísa, de venta no ar, enfiando a agulha. – Cala-te, boca!
Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou. Mas, neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas...
– É preciso vermos como há-de ser isso da vitela – disse o António Fagote. – Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.
Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. Demais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um pedaço de vitela assada.
– O pregador é que arrasta aí muita gente! – observou a Sr.ª Luísa. – Para um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!
– A mim o devem, se cá vem! – disse orgulhoso o Fagote. – Que o homem não queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e 14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.
– Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário...
Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.
– ... Bem, muito obrigado. E a senhora Mestra? Estimo, estimo.
Era a criada da mestra régia, foram abrir.
– A senhora Mestra que manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.ª Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.
Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi acender uma luz.
«Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta».
– Muito calor – começou a Sr.ª Luísa.
– E então a casa da senhora Mestra que é mesmo um forno – disse por demais a criada.
E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.ª Luísa, ao ouvido, de que queria dar uma palavrinha.
Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.
– Está-se aqui bem! – exclamou consolada a Sr.ª Luísa.
– Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe um favor – disse atrapalhada a criada.
– Se estiver na minha mão...
A outra começou: – «A Sr.ª Luísa estava ao facto do que se dizia dela com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira. Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda mentira». – Estamos para casar! é o que estamos! – «Ele já mandara vir os papéis lá da terra, não podiam tardar». – Está claro que eu tenho afeição ao rapaz...
– Ele esteve aí doente uma temporada – interveio a Sr.ª Luísa para dizer alguma coisa.
– Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando! Mas é ai que eu quero chegar.
– Que experimente o limão azedo – aconselhou a Sr.ª Luísa. – É milagroso nas quartãs. Não se aflija, que não há-de ser nada. – E dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.
– Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via disso que eu lhe quero pedir um favor.
Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:
– Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira, qualquer noite! E ele vai, prometeu que sim! Mas veja, naquele estado! inda não há nada que saiu da cama!
– Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau! – disse com pompa a Sr.ª Luísa. – Muito longe!
– Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai para lá de clavina e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!
Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que «lá onde eles iam pelo pau é que ela não sabia...»
– A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais os mordomos. Não ouvi.
– Pois é lá! – exclamou a criada. – Mas o que eu queria, Sr.ª Luísa, é que o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta! – suplicou aflita a rapariga.
– Lá isso, esteja descansada, não vai! – prometeu com grande autoridade a Sr.ª Luísa. – Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada...
– Era só isto, muito agradecida à senhora.
Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a testa.
– Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a senhora Mestra que desculpe. Mas enfim que leia como puder.
– Então muita maçada com a festa? – inquiriu solícita a rapariga.
– Muita. Faz lá ideia?! Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.
– Chh! – fez admirada a rapariga.
– Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! – E depois de uma pausa: – Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia uma horta, além no prado.
– Muita gente... – disse a rapariga.
– Muita! e depois de certa aquela... À mesa talvez vinte e quatro pessoas...
A rapariga benzeu-se!
– Vinte e quatro, para mais que não para menos, – insistiu o António Fagote. – Olhe: o pregador...
– Isso dizem que é coisa asseada! – interrompeu a rapariga.
– É. Não o há melhor. Missionário... – explicou o juiz. – Pois o pregador, um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre, os pequenos, dois, doze.
– A comadre não vem! que pena! – fez do lado a Sr.ª Luísa.
– Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o António Capador, catorze. O Teles, é verdade, o Teles escrivão, quinze. (Pausa). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com mais de vinte e quatro pessoas à mesa. – E a rir-se: – Mas há-de sobrar muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres?!
– Isso então é uma praga! – exclamou a Sr.ª Luísa. – Até parece que vêm do chão: assim... – E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas. – Assim...
Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se. – «Adeusinho! o que havia de estimar é que tudo corresse como desejavam.» – E se for preciso qualquer coisa... – ofereceu-se. – As minhas fracas posses...
– Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora Mestra...
– E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, – concluiu o António Fagote.
E então explicou à mulher: – «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».
– «Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo no arraial, não tem mão em si que não venha». E Deus o queira, porque o ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.
A Sr.ª Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.
– Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é homem que sabe dar o merecimento às coisas... Mas o diabo agora é o macaco! – ponderou muito apreensivo. – Está para aí meio mundo à espera do macaco...
A Sr.ª Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o bicho não viesse.
– Tate! – fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa. – Dá cá daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.
– Também pode ser – concordou a Sr.ª Luísa. – Mas hoje é que não, aquilo já está fechado, o fio.
– Vai amanhã: «Agradeço favores. Traga macaco sem falta.» Isto. Talvez acrescente: «Não se olha a dinheiro.» Mas é que acrescento, por via das dúvidas!
Então, a Sr.ª Luísa confidenciou, quase ao ouvido do homem:
– Ouves? Já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.
– Han? Qual pau?
– O da bandeira. Todo o mundo já sabe.
Ele riu-se.
– Todo o mundo, hem?... Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...
E como ela ficasse estupefacta:
– Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o vinho noutra?
– Ah!...
– Mas são verdes. Pois aí é que vai a história! – E cantarolou, satisfeito:

O ladrão do negro melro
Onde foi fazer o ninho!

***

Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando, logo de manhãzinha, o António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.
– Vai lá ver o que será, ó Luísa! – disse da cama o Fagote, sobressaltado.
Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.
– Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se!
– Há novidade?! – perguntou logo o Fagote, sobressaltado.
– Vista-se! com dez milhões de diabos! – insistiu o outro.
– Homessa! – fez espantado o Fagote. – Alguém à morte?!
– Pior do que isso! – resumiu o José Manco.
– Pior do que isso, então não sei...
– Não tardará que o saiba! Avie-se, que eu cá o espero na rua.
O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava chapéu.
– Pronto! cá estou!
– Venha comigo, avie-se! Abotoe as calças, se faz favor.
E rodaram, rua acima.
– Diabo! mas então...?! – ia perguntando o Fagote.
– Aguarde, que já vai saber! Não tarda!
De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.
– Roubaram Nosso Pai, aposto?
– Pior! – redarguiu o outro. – Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos e veja vossemecê isto, esta porcaria!
E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel pegada na torre, com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:–Farófias!
Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se, com os olhos fitos no papel.
E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.
– Hum! – resmungou. – Bem sei...
– Não tem que saber – fez o outro.
– O patife do José da Loja.
– Pois está visto.
– Bem, levará quatro lambadas – epilogou com grande sossego o Fagote. – Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.
O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que era melhor botar o patife ao desprezo.
– Pois sim – disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e metendo-o na algibeira de dentro – Pois sim!
Mas o outro, que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos arrancados do código penal. – «Que não fosse agora pagar por bom semelhante estafermo! Como mordomo, também era com ele a ofensa, com ele José Manco. Mas fazia de conta… como o outro que diz, vozes de burro não chegam ao céu.»
– Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto – disse num grande ar de condescendência o Fagote. – E você vá lá regar a horta.
Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada. Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia daquela demora...
– Grande cão! Grande cão! – monologava.
Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o tendeiro em pessoa, de casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a porta.
– Ó senhor José.
– Dirá.
– Venho aqui saber dum caso.
– Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e, depois de lho pôr ao pé da cara:
– Foi o senhor José que fez isto?
O outro olhou-o, atónito.
– Sim! se foi o senhor José que fez isto?
– Nada, eu não senhor.
– Jura pela boa sorte dos seus filhos?
Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.
– Jura pela boa sorte dos seus filhos? – repetiu mais de rijo o Fagote.
O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:
– É porque se jura, muito bem. Se não jura, o caso é outro.
– É outro, que outro?! – disse arrogante o José da Loja, num ímpeto, barriga panda sob o casacório de lona.
– Isto! – E foi-lhe uma bofetada para a cara. – E muito caladinho, que eu também não digo nada. Agora o papel, olhe! – Fê-lo em pedaços, e atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.
Saiu dali e foi matar o bicho, tranquilamente, como quem vem de cumprir uma obra de misericórdia.

***

Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar galhardamente.
– O fogueteiro! Chegou o fogueteiro!
Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas. O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro, a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o sr. fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o que queria para o jantar.
Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila, perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente um foguete.
– Foi foguete! pois que dúvida! – diziam-lhe radiantes. – Prometia, sim, senhor! prometia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!
– Pra que saibam! – clamava o António Fagote. – E então isto? – e punha-se a girar de volta com o braço – o que é fogo do chão? – Mas tinha-se visto em calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro! O caso tinha estado sério!
Mentia.
– Hem? mas não o enganavam?
– Qual? era o fogueteiro, sem tirar nem pôr! Lá ia ele a atravessar as eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!
O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da rua:
– Senhor abade! Ó senhor abade!
– Que é lá?
– Chegue à janela, faz favor?
– Mas está muito sol, entre você se quer.
– Só duas palavras.
O abade, um rapaz novo, assomou à janela.
– Que é?
– Chegou o homem!
– O homem! que homem?
– O fogueteiro, quem há-de ser?
– Ah, sim – disse o abade a rir-se, velhaco. – E você vai ter com ele?
– De cara.
– Faz-me então um favor?
– Dirá.
– Dê-lhe recados meus.
E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente «se aquilo tinha sido o fogueteiro!»
– Grande homem! com seiscentos diabos!
Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao fogueteiro, com fúria:
– Esses ossos! – e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu amigo, seu grande amigo».
– Rapazes! – gritou ele então. – E tirou o chapéu da cabeça, muito solene. – Viva o senhor fogueteiro!
– Viva! …Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores que o António Fagote – chorou!...


Trindade Coelho,Os meus amores

Mulher De Mim




Naquela noite, as horas me percorriam, insones ponteiros. Eu queria só me esquecer-me. Assim deitado, não sofria outra carência que não fosse, talvez, a morte. Não aquela, arrebatante e definitiva. A outra: a morte-estação, inverno subvertido por guerrilheiras florações.
O calor de Dezembro me fazia desaparecer, atento só à extinção do gelo no copo. A pedrinha de gelo me semelhava, ambos nós transitórios, convertendo-nos na prévia matéria de que nos havíamos formado.
Nesse enquanto, ela entrou. Era uma mulher de olhos lisos que humedeciam o quarto. Vagueou por ali, parecia não acreditar em sua própria presença. Seus dedos passeavam pelos móveis, em distraído afecto. Quem sabe ela sonambulasse, aquela realidade lhe fosse muito fictícia? Eu queria avisar-lhe que estava enganada, que aquele não era seu competente endereço. Mas o silêncio me alertou que ali estava a decorrer um destino, o cruzar das fatais providências. Então, ela se sentou na minha cama, ajeitou seu delicado lugar. Sem me olhar, começou de chorar.
Nem me guiei: já as minhas carícias se desenrolavam em seu colo. Ela se deitou, imitando a terra em estado de gestação. Seu corpo se me entreabria. Mais fôssemos, no seguinte, e chegaríamos a vias do facto. Mas, nos avanços, me tremurei. Vozes ocultas me seguravam: não, eu não podia ceder.
Mas a estranha me atentava, descendo do seu decote. Seu peito me espreitava, subornando meus intentos. As lendas antigas me avisavam: virá uma que acenderá a lua. Se resistires, merecerás o nome da gente guerreira, o povo de quem descendes. Nem eu bem decifrava a lendável mensagem. Certo era que ali, naquele quarto, se executava a prova de mim, o quanto valiam meus mandos.
Porém. Por artes da intrusa, eu desaparecia, intermitente, da existência. Me irrealizava. E quando me apelava, rumo à razão, nem sequer eu chegava a meu cérebro, o austero juiz. Por causa a voz dessa mulher: lembrava o murmurinho das fontes, a sedução do regresso a dantes quando não havia antes. Ela me queria meninar, conduzir-me às primitivas dormências. Avemente, se ninhou em meu peito. Procurava em mim espelho para o suave luar? Deixei-me, sem estatura. Aqueles círculos negros, seus olhos redondos de não terem fim, me surgiam como dois soluços, fossem partes de mim, saudosos, que me espreitassem.
Ela contou sua história, seus episódios. Variantes de verdade, me davam o doce gosto do fingimento.
Me apetecia o infinito tal igual as crianças que sempre perguntam: e depois?
Mas a estranha notou em si uma ausência. Devia ir. Prometeu que regressava logo. Já, o mais tardar. No umbral da porta, soprou um beijo a modos de antiquíssima esposa. Saiu, penumbrou-se.
Não sei o quanto demorou. Talvez umas tantas noites. Ou escassos instantes. Nem sei. Porque adormeci, ansioso por me suprimir. Doeu-me acordar, malvorei-me. Nesse custo, entendi: acordar não é a simples passagem do sono para a vigília. É mais, um lentíssimo envelhecimento, cada despertar somando o cansaço da inteira humanidade. E concluí: a vida, ela toda, é um extenso nascimento.
Então, me recordei do antecedente sonho, sabendo da verdade que só ela em delírio se revela. Afinal: os mortos, os viventes e os seres que ainda esperam por nascer formam uma única tela. A fronteira entre seus territórios se resume frágil, movente. Nos sonhos todos nos encontramos num mesmo recinto, ali onde o tempo se despromove à omniausência. Nossos sonhos são senão visitas a essas vidas outras, passadas e futuras, conversa com nascituros e falecidos, na irrazoável língua que nos é comum.
Os vindouros, esses que aguardam por corpo, são quem mais devíamos temer. Porque deles sabemos o quase nada. Dos mortos ainda vamos recebendo recados, afeiçoamo-nos a suas familiares sombras. Mas o que não suspeitamos é quando a nossa alma se compõe desses outros, transvisíveis. Esses, os pré-nascidos, não nos perdoam o habitarmos o luminoso lado da existência. Eles congeminam as mais perversas expectâncias, seus poderes nos puxam para baixo. Pretendem que regressemos, teimando-nos em sua companhia.
O que invejam eles, os vindouros? Será o não terem nome, não respirarem a límpida luz? Ou, como eu, sentirão receio que alguém percorra as suas vidas antes deles? Duvidarão que essa antecipação os torne menos possíveis, como se gastos por um prévio original?
Pois eu, no instante, invejava as ambas categorias: os mortos, por se aparentarem à perfeição dos desertos; os nascituros, por disporem do inteiro futuro.
Sentado sobre lençóis engelhados, olhava a recente luz do dia, suas trôpegas poeirinhas luminosas. Pela janela me chegavam os sons do trânsito, a cidade satisfeita com suas rápidas desordens. Me veio a saudade, não das sobrenaturais crenças mas das outras, infranaturais, nossas calcaladas convicções animais. Não era a humana nostalgia que me assaltava. Porque a saudade dos homens é toda do presente, nasce do amor não cumprir, na hora, os seus deveres. Minha tristeza era outra: vinha de ter tocado aquela mulher. Me sentia com a despesa do arrependimento. Que infracção eu cometera se o desejo despontara apenas na flor dos dedos?
Me levantei, procurando algum descuido. Mas aquele quarto me desprotegia, me orfanava. Porque, no visto das coisas, a gente vai transitando do útero para a casa, cada casa não sendo senão outra edição do ventre materno. Como um pássaro que sempre e sempre tecesse o ninho, o seu, para suas futuras nascenças e não das crias. Aquela mulher me lembrava que aquela casa, afinal, não me dava nenhum acolhimento.
Espreitei pela janela, vi a mulher chegando. Veio-me ao pensamento a suspeita, certeira, que ela não era mais que um desses seres vindouros, enviado para me retirar do reino dos viventes. Sua tentação era essa: levar-me ao exílio do mundo, emigrar-me para outra existência. Em troca eu lhe daria a carícia, em matéria de corpo, isso que apenas os viventes logram possuir.
Precisava pensar rápido: ela gozava a vantagem de não precisar de consultar a razão. Eu devia encontrar, súbito, a saída do momento. Me chegou por via de intuição: em qualquer lugar deveriam de existir os assassinos dos mortos, justiceiros dos pré-nascidos. O que eu precisava era convocar um desses matadores para suprimir não a vida mas a suspeição daquela mulher. Sendo a pergunta: onde encontraria um desses matadores, como instigar a sua repentina aparição? Porque tudo urgia, ela vinha chegando, seus passos já superavam as escadas.
Que fazer, se nenhum tempo me restava? Matá-la eu, de corpo e sangue? Serviria só se ambos estivéssemos em sonho, coisa que eu não parecia. Ela era uma enviada, com encomendado serviço de me buscar, levar-me para onde tudo é ainda futurível.
Ela entrou, eu estremeci. A intrusa surgia agora com maior beleza, cada vez mais deusa, requerendo a total devoção de um crente. Me adveio um recurso, tábua que a onda traz. Lhe disse:
- Te adivinho ainda pequena, ontem de antes. Recordas-te?
Ela se afligiu, atingida. Por momentos, lhe faltou o peito, ela toda se inspirou. Os nascituros estão isentos de memória, seu primeiro choro está ainda por despontar. O medo dela me dava argúcia, eu me ajudava enquanto a via chegar-se ao espelho. A estranha se contemplou despindo, sorrindo na pétala de cada gesto.
Só finges, nem te vês, lhe disse, mais dono de mim. Ela desistiu de si mesma, veio até ao leito, me tocou. Chamou por meu nome, docemente. Passou o dedo por meus lábios.
- Tu não entendes.
Sorria com mágoa. Minhas frágeis habilidades lhe haviam feito ofensa. Contudo, me perdoava. O sereno sorriso lhe regressara.
- Tranquila-te, eu não te venho buscar.
O que vinha fazer, caso então? Porque tanto mais ela se senhorava mais eu me inquietava. A enviada prosseguiu:
- Não percebes? Eu venho procurar lugar em ti.
Explicou suas razões: só ela guardava a eterna gestação das fontes. Sem eu ser ela, eu me incompletava, feito só na arrogância das metades. Nela eu encontrava não mulher que fosse minha mas a mulher de mim, essa que, em diante, me acenderia em cada lua.
- Me deixa nascer em ti.
Fechei os olhos, em vagaroso apagar de mim. E assim deitado, todo eu, escutei meus passos que se afastavam. Não seguiam em solitária marcha mas junto de outros de feminino deslize, fossem horas que, nessa noite, me percorreram como insones ponteiros.


Mia Couto, Cada Homem é uma Raça

19/08/2007

A Bailarina

Era uma vez uma bailarina, mas unia bailarina de pape­lão, daquelas que mexem simultaneamente os braços e as pernas. Nunca se cansava, e era bonita, bonita a valer. Tinha saias de papel frisado.

Um dia penduraram-na numa parede. O rapazito (como se chamava ele?) Gustavo, que cos­tumava ir àquela casa, adorava-a, mas ninguém o sabia. Nem a tia mais velha nem a mais nova. Julgava-o ele. Entrava na sala, dizia duas palavras aos gatos de veludo que estavam, um de cada lado do espelho, com belos olhos de contas de vidro a olhar para ele, dava mais uns passos e levantava o braço. Anda cá tu, minha beleza! Tirava a bailarina do prego e zás-que-zás, zás-que-zás... Ela dançava, levantava as pernas de lado, dava aos bra­ços... Que tentação! Gustavo, puxava-lhe freneticamente pelo cordel. Dança, minha menina, dança! mais, mais, mais! Gustavo foi crescendo e a bailarina sempre na parede. Coitadita, mas não se sabe como, envelhecia... Desbota­ram-lhe as saias, encheu-se de riscos. E esqueceu, tor­nou-se esquecida. Nem alegre nem triste, porém sempre de braços no ar e de pernas penduradas.

Lá veio um dia mais tarde em que Gustavo tornou a reparar nela. Já ele era um tamanhão.

Como a bailarina das tias o tinha entretido! E riu-se desdenhoso. Antigamente tinha uma saia cor-de-rosa.

A carinha dela é que ainda era bonita. Até lhe lembrava a da bailarina do Salão Foz.

Que bailarina! Como ela dançava! Dava às pernas e aos braços quase como aquela.

Ele ia tornar a experimentar. Não estava ninguém, a porta encostada... tirou a boneca para baixo e, como antigamente, sentou-se no chão.

Já não tinha cordel para se puxar, bolas! Levantou-lhe um braço, depois o outro. Juntou-lhe as mãos. A marota tinha graça! Como a outra... Mas a do Foz corria de cá para lá e dava umas palmadas e umas gargalhadas que ale­gravam toda a gente. Quando ela se ria riam-se todos. Havia de ir tornar a vê-la.

E quando ela se sentava no chão a fingir que estava amuada? Parecia mesmo uma garota...

Gustavo sorria àquelas ideias.

A porta, encostada, entreabre-se mansamente e a tia mais nova, já de cabelos grisalhos, pergunta-lhe, amável:

Ainda gostas da bailarina, Gustavo? Foi os teus encantos. E eu não ta dei nunca com medo de que tu a rasgasses.

Não, minha tia, já não gosto. Estava distraído.

Não tenhas vergonha! Se quiseres dou-ta por recor­dação.

Muito obrigado, minha tia, não é preciso.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

18/08/2007

Justiça



Por mais ordeiro que um povo seja, sempre há coisas. É uma asneira que se diz, um marco que o arado arranca, uma cabra lambisqueira que salta à vinha de alguém, duas maçãs que uma criança rouba. Mas tudo isso não vale nada. As mulheres engaleiam-se, o falatório no tanque anima-se, discute-se nas cavas, e acaba tudo em águas de bacalhau. No tempo do Leonardo, porém, Deus nos livrasse! Aquele cobardola só sabia dizer:
- Embargo! Ou fazes o que eu digo, ou vou à Vila e enrolo-te em meia folha de papel selado.
- Se tem assim tanta razão, salte! Salte para aqui, e tiram-se as teimas de homem para homem. Olha lá não saltasse! Metia o rabo entre as pernas, e tribunal.
Ora, o que a justiça quer é comer. Certo e sabido: vai-se ter com o Dr. Valério a Murça, e é logo:
- Você está cheio de razão, alma de Deus! Ponha a questão, que não há ninguém que lha perca. Se quiser, passe-me uma procuração, deixe trezentos mil réis para preparos, e o resto é comigo.
Um céu aberto. Até parece que a gente já está a ouvir o juiz. Mas depois é que são elas! Começa um moedoiro, de dinheiro, que não há bolsa que chegue. O advogado só diz:
- Então agora, que isto vai tão bem encaminhado, é que você se quer compor?!
E cantem para aqui mais cinco notas! O pior é que daí a um mês, zás: uma cartinha. «Senhor Fulano, é favor comparecer no meu escritório». Desce a gente de escantilhão pela serra abaixo, numas ânsias, a cuidar mil coisas. E o que há-de ser? «Tenha, paciência, isto não anda sem a mola real...»
Até que chega o dia da audiência. Aí, então, é como quem quer livrar um filho. Presente a este, presente àquele, tia Preciosa, pelo amor de Deus, diga a verdade e beba mais uma pinga. E para nada, afinal de contas, porque o outro advogado, que é um bandalho da mesma raça, embrulha tudo. «Ora explique-me lá isso bem explicado! Não minta...» A gente, quando se senta naquelas cadeiras, fica logo como há-de ir. Fazem-nos falar, apertam, apertam, e quem é que não cai? Tiram de nós o que eles querem. «Diga. Diga! Ora assim, sim! Vê como é tudo ao contrário do que pensava?!» Só visto! Ao fim, sai uma sentença que não é carne nem peixe, uma pessoa fica borrada, empenhada até às orelhas, e a dever favores até às pedras da rua.
Mas o Leonardo queria lá saber! O tribunal, para ele, era como a igreja para as beatas. Tivesse razão ou não tivesse. Sentiam-lhe dinheiro no bolso, claro, venha a nós... Todos mais a mim, mais a mim. E o lorpa a cuidar que lhe davam tantos améns por causa dos seus belos predicados! Com que biscas! Mas, como quem o tem é que o troca, ora viva o nosso amigo, o que é que o traz por cá, às suas ordens, mande! E o filho de quem o pariu, de costas quentes, trazia o povo numa apertadinha.
- Ou esbarrondas a parede, ou ainda hoje te vou fazer a cama!
- Farto seja você de tribunais nas profundas dos infernos! Não tem olhos nessa cara? Não vê que isto é meu, seu ladrão?!
A coitada da Maria Ambrósia, de raiva, até espumava, e o caso não era para menos. Ter a gente uma coisa sua, e de repente aparecer-nos um larinhoto e levá-la de mão beijada!
- Lembre-se ao menos destas crianças, que ficam desgraçadas...
Qual o quê! Sentimentos não eram com ele.
- Sejam então muito boas testemunhas... E pronto, começava o calvário. Coisas de fazer tremer a passarinha. Numa ocasião processou o Garrido só porque lhe atravessava uma leira quando ia namorar! O pai da Belmira não queria o casamento. Aqui-del-rei que matava o rapaz se o encontrasse a desencaminhar-lhe a filha. Que remédio tinha o coitado senão cortar-lhe as voltas e fazer-lhe o ninho atrás da orelha! Ia ao redor da casa, metia-se no meio do milhão, e era um regalo. Pois o badana do Leonardo deu com aquele arranjo em pantanas, e por um triz que não metia o pobre do desgraçado na cadeia.
- Ó homem do Senhor, tu parece que não tiveste vinte anos! - clamava o Pinto, indignado, a lembrar-se com saudades dos tempos da mocidade.
- Quem quer cainça, vai para os baldios. Naquilo que é meu, não!
- Estragou-te alguma coisa, porventura?
- Não quero cá saber. Sevandejava-me a propriedade, e não é pouco! Fica o aviso feito: a mim, quem me pisar o risco, vai malhar com os ossos no chilindró.
Um castanheiro à borda da extrema, que pingasse para o lado dele, era uma carga de trabalhos. Mais valia atirá-lo abaixo. Os marcos, então, andavam sempre numa fona!
Nem já ninguém queria terras ao pé das dele. Os donos punham-nas à venda, os compradores chegavam-se, mas desistiam.
- É um bom bocado, realmente, dá aqui um rico milhão, e não se pode dizer que seja caro. O pior é a má vizinhança... Não. Meter-se a gente em trabalhos escusadamente!
Foi por Deus o Abrunhosa ir ao Brasil, ganhar por lá bem contos, aprender como as bandalheiras se fazem, e vir pôr termo àquilo. De contrário, quem havia de viver em Celeirós com um justiceiro assim?
O Abrunhosa, apenas regressou do Rio - todo lorde -, pôs-se a arejar as notas. Comprou o Tapado, limpou a mina do Reguengo, e queria aumentar a casa. Bem tolo não empregar tanto dinheiro em fragas que lhe rendessem mais! Mas lá diz o ditado: pobre pássaro que nasce em ruim ninho. Segue-se que era amigo da sua terra, e a ele se sabe, tinha empenho em fazer as coisas a gosto dele. Abrir uma varanda do lado do sol, altear a cozinha, ajeirar um quarto de banho, arranjar comodidades. Mas logo por sorte quem havia de ter um palheiro em frente? O Leonardo. Os pedreiros a darem começo à obra, e o Leonardo rente com duas testemunhas.
- Embarga, tio Leonardo?
- Embargo.
- Muito bem. Ide-vos então, rapazes. E descansai. Quem paga é aqui o nosso milionário...
- Não sou milionário, mas ainda tenho o suficiente para me bater com qualquer.
- Ora essa! Que dúvida! Com quem ele se foi meter! Isto de mijar no mar tem o seu quê!
A arrotar postas de pescada, o Leonardo logo no outro dia que tinha o melhor advogado da comarca, e que ganhava, desse por onde desse.
O Abrunhosa, muito calado, que no fim se veria.
De bico amarelo! Pela mansa, manobrou as coisas de tal maneira, que comprou testemunhas, comprou advogados, comprou juizes, comprou tudo. Mas a sério! Nada de conversa fiada. Todos ali comprometidos e firmes. E sem o Leonardo sonhar sequer! Na audiência, quando contava com um p-a-pá-Santa-Justa a seu favor, sai-lhe a coisa furada. O Felizardo, o Úniico que verdadeiramente podia fazer prova, por ser a pessoa mais velha da terra, que não sabia, que ao certo, ao certo, não podia afirmar. A Bernarda, que também ao cabo e ao resto não conhecia a questão. E o Freitas, esse então disse redondamente que quem tinha razão era o Abrunhosa.
O Leonardo parecia um bicho, a bufar. Era vê-lo pelo corredor a cabo, para cá, para lá, sem parança, como um lobo num fojo. Dantes, naquelas ocasiões, espanejava-se todo, de mãos atrás das costas, como se estivesse em sua casa. Agora, com o rabo entalado, gemia. Traidores! Mas que os metia a todos na cadeia! Se metia! Com quem cuidavam eles que estavam a brincar? De resto, a procissão ia ainda no adro. Não cantasse lá o sr. Abrunhosa vitória antes do fim da festa! Então o Dr. Vaz não valia nada? Deixassem-no falar, e veriam. Esperassem-lhe pela resposta.
E aqui é que foi a bomba. O Dr. Vaz tinha a língua vendida como os outros. Nas alegações, que sim, que não, que torna, que deixa, e, para encurtar razões, que pedia justiça. Claro, os Juizes fizeram-lhe a vontade. Deram direito ao Abrunhosa.
O Leonardo, ainda a sentença estava no meio, que apelava. Havia de ir até ao cabo do mundo.
Farroncas tem a minha Joana, mas obras... Ali era meter a viola no saco e nem tugir nem mugir. Pois se até um cego via que o vento mudara de feição! Voga bem. Quando o demónio atenta uma pessoa...
O Abrunhosa, ao saber que a questão continuava, riu-se. Era de força, o tio Leonardo! Mas com valentões assim é que ele gostava de se divertir. Para o brasileiro aquilo até o distraía. Quem não tem que fazer, faz colheres.
No Porto, o Leonardo ganhou. Santo Deus! Só lhe faltou deitar foguetes. Um lorpa, que não via que era tudo combinação. Porque em Lisboa, foi de caixão à cova.
A gente não se deve rir do mal de ninguém. Mas, quando as coisas passam as marcas, é humano gostar de ver o nariz achatado a certos figurões.
- Então, tio Leonardo, sempre ganhou a questão? A modos que vi hoje os pedreiros outra vez na obra do Abrunhosa...
O Campeã era dos que em tempos fora também cosido e mal pago pelo Leonardo. E gozava a desgraça do facínora sem dó nem piedade...
- Perdi esta, mas posso ganhar outras, que tem lá isso ?
Coitado! Teve quase sempre que ir adiante. E, nisto de tribunais, quem vai à frente é que geme. Depois, com advogados do Porto e de Lisboa não se brinca. Comem muito. Não há quem os vede. Aquilo não é gente de duzentos ou trezentos mil réis. É logo às boladas de vinte ou trinta contos! -
Segue-se que quando o Leonardo se viu livre da enrascada, tinha tudo em pantanas. Hoje um lameiro, amanhã uma mata... 
- Desgraçadinho. Pobre como Job.
- Mas foi um descanso. Todos lhe podiam arregalar os olhos quando metia a mão no alheio, e cantar-lhas.
- Olhe que agora a justiça são duas lombeiradas com um estadulho! Ponha aí o que não é seu, se quer os ossos inteiros.
Lá fazia das tripas coração, pois que remédio! Mas tão danado, tão viciado na chicanice, que a ver-se naquela miséria em que os tribunais o tinham posto, não suspirava por outra coisa. Nos dias de feira da Vila, já velho e atoleimado, sentava-se na soleira da porta a ver passar o povo. Como toda a gente lhe conhecia o fraco, puxavam-lhe pela língua.
- Quer vir, tio Leonardo? 
- Não tenho pernas. Se não, bem gostava! Está um dia bendito.
- Bom para semear batatas...
- Quais batatas! Bom mas é para ir pôr uma demanda. Com um sol destes, eram favas contadas...

Miguel Torga, Contos da Montanha


15/08/2007

A Ressurreição



Não há em toda a montanha terra tão desgraçada e tão negra como Saudel. Aquilo nem são casas, nem lá mora gente. São tocas com bichos dentro.
Apesar disso, Cristo Nosso Senhor, aos domingos, digna-se visitar a aldeia na pessoa do padre Unhão, que vem rezar missa ao nascer do sol.
O padre apeia-se da égua, assoa-se a um lenço tabaqueiro encardido, tesse, dá duas badaladas no sino, e entra numa igreja tão escura e tão gelada que se lembra sempre duma pneumonia dupla. Diz o intróito com muita solenidade, sobe as escadas de granito, lê, treslê, vira-se, volta-se, benze-se, e, por fim, prega. É sempre uma descompostura de cima abaixo. Que ninguém presta. Que os pais são assim, que as mães são assado, que as filhas são porcas, que os filhos são brutos, que é tudo uma miséria.
Saudel, abismado, ouve. Depois, à saída, põe-se a ruminar. Quem irá dizer lá em cima tão mal do povo ? Os homens cavam de manhã à noite, as mulheres parem quantas vezes a Virgem Maria quer, os rapazes e as raparigas vão com o gado... Quem irá meter coisas daquelas nos ouvidos de Deus?
Seja quem for, o certo é que no domingo seguinte, Nosso Senhor, sempre pela boca sem dentes do abade, recomeça a ralhar. Que o fim do mundo está perto e que não haja ilusões. Todos para as profundas dos infernos! Os velhos, as velhas e os novos. Ficam só as ovelhas.
Saudel, ai, desespera. Chora umas lágrimas negras, barrentas, e geme como quem uiva. Os rebanhos na serra sem pastor! O que não teriam dito de Saudel no céu!
E o pior é que nem o próprio padre Unhão descortina saída para semelhante calamidade, depois da falência do remédio que tentou. Seguro de que a misericórdia divina tudo pode, resolveu salvar o desterrado lugarejo e a sua endemoninhada gente, através dum acto colectivo de expiação. Endoenças. Estava a Semana Santa à porta. Realizasse o povo endoenças, e remisse os pecados na dor e na oração.
Saudel, lanzudo como os carneiros, nem sequer percebeu. O que eram endoenças?
E foi preciso o pároco explicar. Eram a
Paixão e a Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo, representadas ao natural. Vinham o Senhor padre Gaspar, o senhor padre Abel, o senhor padre Artur, o senhor padre Rego... De Cristo, Nosso Senhor, fazia o Coelho, que nem de encomenda para o papel.
- O Coelho?!!! - e Saudel olhou, assombrado, o homem da Joana Perra.
- Tem semelhanças...
- Com Nosso Senhor Jesus Cristo!! - e a mulher, que nunca dera dez réis pelo marido, um lingrinhas que nem filhos lhe fizera, media o consorte de cima abaixo.
- Tanto quanto possível... - esclareceu o prior.
- De Herodes, talvez o Daniel. De Judas...
- Eu não! - defendeu-se o Albino. - Tu mesmo. De Centurião, o Roque. De soldados, os quatro filhos do Zeferino. De Verónica, a Isabel...
Saudel deu com a cabeça nas fragas, a matutar no caso. Repentinamente, viam-se todos transfigurados, já nenhum seguro da sua própria realidade. E quando, depois de alguns dias de ensaio, o Seara foi à Vila alugar saiais, e regressou com uma carrada de capacetes, de lanças, de togas, de turbantes, de asas, de vestidos de veludo, cada qual, a tomar conta e a experimentar os adereços que lhe pertenciam, sentia-se realmente outro, por fora e por dentro. De capa vermelha, coroa de espinhos e cana verde na mão, quem é que reconhecia o Coelho de outrora? Nem ele.
Segue-se que na Quinta-feira Santa, à noite, a povoação mudara inteiramente de fisionomia.
O seu nome, agora, era Jerusalém, e a multidão assistia de coração alanceado ao martírio do Salvador. E que martírio! O Armindo, a Caifãs, duro como um chavelho. O Arranca, a testemunha, ninguém queira saber. A Rosa, uma coninhas de Maria Madalena, se havia de agarrar num estadulho e começar a eito, não senhor. A chorar, a adorá-lo, meu Deus, meu Jesus, e mais nada. O Carlos, a negá-lo três vezes.
Com gente assim, que havia o pobre do Coelho fazer ?
Olha, deixar-se imolar como um cordeiro inocente. Apenas os juízes, do Pretório, deram a sentença, então os filhos do Zeferino não lhe atiram com uma cruz de castanho para cima do lombo, que pesava para aí quatro arrobas, não o fazem subir o cerro do Calvário, e lá não o pregam, não o içam, e não lhe metem pela boca dentro uma esponja de fel?! Só a tiro. Palavra de honra que só a tiro! Três horas naquele suplício, enquanto o padre Gaspar, dum púlpito armado debaixo de uma carvalha, berrava que parecia maluco.
Diante de um tal sofrimento, Saudel olhava o Coelho e via-o Cristo mesmo a valer, a dar a vida por nós. E foi com orgulho que a Perra, às tantas, o viu inclinar a cabeça e ficar-se. Os soluços que ouvia à volta eram palmas doutra maneira.
Ufana da auréola que nimbava já o marido, e a envolvia na mesma glória, numa aberta de lágrimas foi à sacristia tomar providências domésticas. Afinal, como era? O seu homem estava praticamente em jejum. Queria saber se lhe poderia chegar qualquer coisa. Um migalho de trigo com queijo, ao menos...
O seu homem acabava de morrer. Iam descê-lo e fazer-lhe o enterro.
De rabo entre as pernas, voltou ao lugar e ao pranto, enquanto o Coelho, muito amarelo, sem dar acordo de si, todo bambo do corpo, era despregado pelos dois Rós, que faziam de José de Arimateia e Nicodemos.
Apararam-no as Trindades, muito asnas no papel de Santas mulheres, e deram-lhe sepultura numa eça armada no meio da igreja. Entraram com ele pela porta lateral, estendido na mortalha, cada uma a pegar na sua ponta, e encafuaram-no no buraco da urna. Os Zeferinos, claro, apenas elas o depositaram lá no fundo, logo ali como corvos a guardá-lo.
- Ordem de Pilatos!
O Senhor Verruma! Não contente com lavar as mãos numa rica bacia - que não tinha culpas naquela morte -, punha-lhe agora soldados de plantão!
Ao fim da tarde, a Perra e Saudel estavam secos, de tanto chorar. Mas de que valia ? Os padres, no altar, não acabavam as mesuras e o cantochão. E olha lá que os Zeferinos, entretanto, largassem o sepulcro. Ali, especados, como guardas republicanos.
À noite, num dos intervalos das cerimónias, a Perra foi ter novamente com o prior. O homem morria-lhe mesmo, sem uma pinga de caldo há tanto tempo.
- Se morrer, rezo-lhe o responso. Começou, tem de acabar.
Resignada, foi ela meter um cibo à boca e dar penso aos bois.
Mas de manhã não pôde mais. De joelhos, chegou-se ao túmulo.
- Manuel... A resposta foi um empurrão do filho mais novo do Zeferino.
- Tire-se daí! Fariseus! Até que bateu o meio dia. O padre Unhão deu o sinal, e começou a cantar.
- Ale... ale... ale... lu... ia... 
A Matilde, que fazia de anjo, apareceu, sem se saber como, à beira da sepultura, levantou-lhe o tampo, e mostrou-a aberta e vazia.
- Non est hic... Quê?! Não estava lá?! Não estava lá o Coelho?
De olhos arregalados, atónita, a multidão não queria acreditar no que via. Nem vivo, nem morto?!
Como o prior ensinara, mal o anjo disse o latim, os filhos do Zeferino puseram-se em fuga pela nave fora. E foi então que a Perra, saída do estupor em que ficara, gritou aqui-del-rei pelo seu homem.
Solidário com aquele desespero fastigiado, Saudel em peso caiu como um abutre em cima dos quatro facínoras e da tropa fandanga por conta de quem estavam a soldo. Não faltava mais nada! Faziam-lhe trinta judiarias, crucificavam-no, davam-lhe sumiço, e ao fim 6 pernas para que vos quero! Ora ali tinham. Eles e o resto da comandita.
Transformada num campo de guerra, a igreja era um lago de sangue. De nada valia o furor do padre Unhão, a clamar em altos berros do altar contra aquele remate selvagem da santa cerimónia. Surdos às razões do abade, só atentos à voz íntima da indignação, todos vingavam como podiam a injustiça cometida, numa viril ressurreição do sagrado humano, que apenas o hino, a repicar lá fora, parecia compreender e festejar.

Miguel Torga, Contos da Montanha



12/08/2007

O Jantar

Ele entrou tarde no restaurante. Certamente ocupara-se até agora em grandes negócios. Poderia ter uns sessenta anos, era alto, corpulento, de cabelos brancos, sobrancelhas espessas e mãos potentes. Num dedo o anel de sua força. Sentou-se amplo e sólido.

Perdi-o de vista e enquanto comia observei de novo a mulher magra de chapéu. Ela ria com a boca cheia e rebri­lhava os olhos escuros.

No momento em que eu levava o garfo à boca, olhei-o. Ei-lo de olhos fechados mastigando pão com vigor e meca­nismo, os dois punhos cerrados sobre a mesa. Continuei co­mendo e olhando. O garçom dispunha os pratos sobre a toalha. Mas o velho mantinha os olhos fechados. A um ges­to mais vivo do criado, ele os abriu com tal brusquidão que este mesmo movimento se comunicou às grandes mãos e um garfo caiu. O garçom sussurrou palavras amáveis abaixan­do-se para apanhá-lo; ele não respondia. Porque, agora des­perto, virava subitamente a carne de um lado e de outro, examinava-a com veemência, a ponta da língua aparecendo — apalpava o bife com as costas do garfo, quase o cheira­va, mexendo a boca de antemão. E começava a cortá-lo com um movimento inútil de vigor de todo o corpo. Em breve levava um pedaço a certa altura do rosto e, como se tivesse que apanhá-lo em voo, abocanhou-o num arrebata­mento de cabeça. Olhei para o meu prato. Quando fitei-o de novo, ele estava em plena glória do jantar, mastigando de boca aberta, passando a língua pêlos dentes, com o olhar fixo na luz do tecto. Eu já ia cortar a carne de novo, quan­do o vi parar inteiramente.

E exactamente como se não suportasse mais — o quê? — pega rápido no guardanapo e comprime as órbitas dos olhos com as mãos cabeludas. Parei em guarda. Seu corpo respirava com dificuldade, crescia. Tira afinal o guar­danapo da vista e olha entorpecido de muito longe. Respira abrindo e fechando desmesuradamente as pálpebras, limpa os olhos com cuidado e mastiga devagar o resto de comida ainda na boca.

Daqui a um segundo, porém, está refeito e duro, apanha uma garfada de salada com o corpo todo e come inclinado, o queixo activo, o azeite humedecendo os lábios. Interrom­pe-se um instante, enxuga de novo os olhos, balança breve­mente a cabeça — e nova garfada de alface com carne é apanhada no ar. Diz ao garçom que passa: — Não é este o vinho que mandei trazer. A voz que esperava dele: voz sem réplicas possíveis pela qual via que jamais se poderia fazer alguma coisa por ele. Senão obedecê-lo.

O garçom se afastou cortês com a garrafa na mão. Mas eis que o velho se imobiliza de novo como se tives­se o peito contraído e barrado. Sua violenta potência saco-de-se presa. Ele espera. Até que a fome parece assaltá-lo e ele recomeça a mastigar com apetite, de sobrancelhas fran­zidas. Eu é que já comia devagar, um pouco nauseado sem saber porquê, participando também não sabia de quê. De repente ei-lo a estremecer todo, levando o guardanapo aos olhos e apertando-os numa brutalidade que me enleva... Abandono com certa decisão o garfo no prato, eu próprio com um aperto insuportável na garganta, furioso, quebrado em submissão. Mas o velho demora pouco com o guardana­po nos olhos. Desta vez, quando o tira sem pressa, as pupi­las estão extremamente doces e cansadas, e antes dele enxu­gar-se — eu vi. Vi a lágrima.

Inclino-me sobre a carne, perdido. Quando finalmente consigo encará-lo do fundo de meu rosto pálido, vejo que também ele se inclinou com os cotovelos apoiados sobre a mesa, a cabeça entre as mãos. E exactamente ele não supor­tava mais, As sobrancelhas grossas estavam juntas. A comi­da devia ter parado pouco abaixo da garganta sob a dureza da emoção, pois quando ele pôde continuar fez um gesto terrível de esforço para engolir e passou o guardanapo pela testa. Eu não podia mais, a carne no meu prato era crua, eu é que não podia mais. Porém ele — ele comia.

O garçom trouxe a garrafa dentro de uma vasilha de ge­lo. Eu anotava tudo, já sem discriminar: a garrafa era ou­tra, o criado de casaca, a luz aureolava a cabeça robusta de Plutão, que se movia agora com curiosidade, guloso e aten­to. Por um instante o garçom cobre minha visão do velho e vejo apenas as asas negras duma casaca: sobrevoando a me­sa, vertia vinho vermelho na taça e aguardava de olhos quentes — porque lá estava seguramente um senhor de boas gorjetas, um desses velhos que ainda estão no centro do mundo e da força. O velho engrandecido tomou um gole com segurança, largou a taça e consultou com amargura o sabor na boca. Batia um lábio no outro, estalava a língua com desgosto como se o que era bom fosse intolerável. Eu esperava, o garçom esperava, ambos nos inclinávamos sus­pensos. Afinal, ele fez uma careta de aprovação. O criado curvou a cabeça luzente com sujeição de agradecimento, saiu inclinado, e eu respirava com alívio.

Ele agora misturava à carne os goles de vinho na grande boca e os dentes postiços mastigavam pesados enquanto eu o espreitava em vão. Nada mais acontecia. O restaurante parecia irradiar-se com dupla forca sob o tilintar dos vidros e talhares; na dura coroa brilhante da sala os murmúrios cresciam e se apaziguavam em vaga doce, a mulher do cha­péu grande sorria de olhos entrefechados, tão magra e bela, o garçom derramava com lentidão o vinho do copo. Mas eis que ele faz um gesto.

Com á mão pesada e cabeluda, onde na palma as linhas eram cravadas com tal fatalidade, faz um gesto de pensa­mento. Diz com a mímica o mais que pode, e eu, eu não compreendo. E como se não suportasse mais — larga o gar­fo no prato. Desta vez foste bem agarrado, velho. Fica res­pirando, acabado, ruidoso. Pega então no copo de vinho e bebe de olhos fechados, em rumorosa ressurreição. Meus olhos ardem e a claridade é alta, persistente. Estou tomado pelo êxtase arfante da náusea. Tudo me parece grande e pe­rigoso. A mulher magra cada vez mais bela estremece séria entre as luzes.

Ele terminou. Sua cara se esvazia de expressão. Fecha os olhos, distende os maxilares. Procuro aproveitar este mo­mento, em que ele não possui mais o próprio rosto, para ver afinal. Mas é inútil. A grande aparência que vejo é des­conhecida, majestosa, cruel e cega. O que eu quero olhar, directamente, pela força extraordinária do ancião, não exis­te neste instante. Ele não quer.

Vem a sobremesa, um creme derretido, e eu me sur­preendo pela decadência da escolha. Ele come devagar, tira uma colherada e espia o líquido pastoso escorrer. Ingere tu­do, porém faz uma careta e, crescido, alimentado, afasta o prato. Então, já sem fome, o grande cavalo apoia a cabeça na mão. O primeiro sinal mais claro aparece. O velho co­medor de crianças pensa nas suas profundezas. Com palidez vejo-o levar o guardanapo à boca. Imagino ouvir um solu­ço. Ambos permanecemos em silêncio no centro do salão. Talvez ele tivesse comido depressa de mais. Porque, apesar de tudo, não perdeste a fome, hein!, instigava-o eu com iro­nia, cólera e exaustão. Mas ele se desmoronava a olhos vis­tos. Os traços agora caídos e dementes, ele balançava a ca­beça de um lado para outro, de um lado para outro sem se conter mais, com a boca apertada, os olhos cerrados, emba­lando-se — o patriarca estava chorando por dentro. A ira me asfixiava. Vi-o botar os óculos e ficar mais velho muitos anos. Enquanto contava o troco, batia os dentes projectan­do o queixo para a frente, entregando-se um instante à do­çura da velhice. Eu mesmo, tão atento estivera a ele, que não vira tirar o dinheiro para pagar, nem examinar a conta e não notara a volta do garçom com o troco.

Afinal tirou os óculos, bateu os dentes, enxugou os olhos fazendo caretas inúteis e penosas. Passou a mão qua­drada pêlos cabelos brancos, alisando-os com poder. Levan­tou-se segurando o bordo da mesa com as mãos vigorosas. E eis que, depois de liberto de um apoio, ele parece mais fraco, embora ainda enorme e ainda capaz de apunhalar qualquer um de nós. Sem que eu possa fazer nada, põe o chapéu acariciando a gravata ao espelho. Atravessa o aspec­to luminoso do salão, desaparece.

Mas eu sou um homem ainda.

Quando me traíram ou assassinaram, quando alguém foi embora para sempre, ou perdi o que de melhor me restava, ou quando soube que vou morrer — eu não como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruína. Empurro o prato, rejeito a carne e seu sangue.


Clarice Lispector, In Laços de Família


11/08/2007

A Quinta História


Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.
A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar,
farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz.
Morreram.
A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite.
Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha.No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.
A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora,um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas.As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras – subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! – essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam.Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de...” – de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.
A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno.
Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que
qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no
coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.
A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas.


Clarice Lispector, in A Legião Estrangeira

08/08/2007

A volta do marido pródigo


Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou a volta do marido pródigo


"Negra danada, siô, é Maria.
ela dá no coice, ela dá na guia,
lavando roupa na ventania.
Negro danado, siô, é Heitó
de calça branca, de paletó,
foi no inferno, mas não entrou!"

(cantiga de batuque, a grande velocidade)


- Ó seu Bicho-Cabaça!? Viu uma
velhinha passar por aí? ...
- Não vi velha, nem velhinha,
corre, corre, cabacinha.. .
Não vi velha nem velhinha!
Corre! corre! cabacinha .. .

(de uma estória.)


Nove horas e trinta. Um cincerro tilinta. É um burrinho, que vem sozinho, puxando o carroção. Patas em marcha matemática, andar consciencioso e macio, ele chega, de sobremão. Pára, no lugar justo onde tem de parar, e fecha imediatamente os olhos. Só depois é que o menino, que estava esperando, de cócoras, grita: - "Íssia!..." - e pega-lhe na rédea e o faz volver esquerda, e recuar cinco passadas. Pronto. O preto desaferrolha o taipal da traseira, e a terra vai caindo para o barranco. Os outros ajudam, com as pás. Seis minutos: o burrinho abre os olhos. O preto torna a aprumar o tabuleiro no eixo, e ergue o tampo de trás. O menino torna a pegar na rédea: direita, volver! Agora nem é preciso comandar: - "Vamos!"... - porque o burrico já saiu no mesmo passo, em rumo reto; e as rodas cobrem sempre os mesmos,sulcos no chão.

No meio do caminho, cruza-se com o burro pêlo-de-rato, que vem com o outro carroção. É o décimo terceiro encontro, hoje, e como ainda irão passar um pelo outro, sem falta, umas três vezes esse tanto - do aterro ao corte, do corte ao aterro - não se cumprimentam.

No corte, a turma do seu Marra bate rijo, de picareta, atacando no paredão pedrento a brutalidade cinzenta do gneiss. Bom trecho, pois, remunerador. Acolá, a turma dos espanhóis cavouca terra mole, xisto talcoso e micaxisto; e o chefe Garcia está irritado, porque, por causa disso, vão receber menos, por metro quadrado e metro cúbico. Adiante, uns homens colocando os paus no mata-burro. Essa outra gente, à beira, nada tem conosco: serviço particular de seu Remígio, dono das terras, que achou e está explorando uma jazida de amianto. E, mais adiante, o pessoal do Ludugéro, acabando de armar as longarinas da ponte.
Dez horas da manhã. A temperatura do ar prolonga a do corpo. Só se sabe do vento no balanço dos ramos extremos do eucalipto. Só se sabe do sol nas arestas dos quartzos - cada ponta de cristal irradiando em agulheiro. Cantos de canarinhos e pintassilgos, invisíveis. E cheiro de mato moço. Tudo muito bom. E isto aqui é um quilômetro da estrada-de-rodagem Belorizonte-São Paulo, em ativos trabalhos de construção.

Seu Marra fiscaliza e feitora. De vez em quando, pega também no pesado. Mas não tira os olhos da estrada.
Bem, buzinou. É o caminhão da empresa. Vem de voada. Diminuiu a marcha... Seu Waldemar, o encarregado, na boléia, com o chauffeur... O caminhão verde não pára... Mas, lá detrás, escorregando dos sacos e caixotes que vêm para o armazém, dependura o corpo para fora, oscila e pula, maneiro, Lalino Salãthiel.
Os trabalhadores cumprimentam seu Waldemar, seu Marra esboçou qualquer coisa assim como uma continência, seu Waldemar bateu mão e passou.
Agora seu Marra fecha a cara. Lalino Salãthiel vem bamboleando, sorridente. Blusa cáqui, com bolsinhos, lenço vermelho no pescoço, chapelão, polainas, e, no peito, um distintivo, não se sabe bem de quê. Tira o chapelão: cabelos pretíssimos, com as ondas refulgindo de brilhantina borora.
Os colegas põem muito escárnio nos sorrisos, mas Lalino dá o aspecto de quem estivesse recebendo uma ovação:
- Olá, Batista! Bastião, bom dia! Essa força como vai?!...
- Boa tarde!
Lalino tem um soberbo aprumo para andar.
- Ei, Túlio, cada vez mais, hein?
- An-han...
Lalino nunca foi soldado, mas sabe unir forte os calcanhares, ao defrontar seu Marra. E assenta os olhinhos gateados nos olhos severos do chefe.
- Bom dia, seu Marrinha! Como passou de ontem?
- Bem. Já sabe, não é? Só ganha meio dia.
E seu Marra saca o lápis e a caderneta, molha a ponta do dedo na língua, molha a ponta do lápis também, e toma nota, com a seriedade de quem assinasse uma sentença.
(Lá além, Generoso cutuca Tercino:
- Mulatinho descarado! Vai em festa, dorme que-horas, e, quando chega, ainda é todo enfeitado e salamistrão!...)
- Que é que eu hei de fazer, seu Marrinha... Amanheci com uma nelvralgia... Fiquei com cisma de apanhar friagem...
- Hum...
- Mas o senhor vai ver como eu toco o meu serviço e ainda faço este povo trabalhar...
- Não se venha! Deixa os outros em paz...
(Tercino apóia o pé no ferro da picareta; o que é que diz:
- Trabalhar é que não trabalha. Se encosta p'ra cima, e fica contando história e cozinhando o galo...
- Também, no final, ganha feito todos, porque, os que são mão, dão trela!
E Pintão golpeia com o dorso da pá, sem dó nem piedade, fazendo-a rilhar nos torrões.)
Lalino passa a mão, ajeitando a pastinha, e puxa mais para fora o lencinho do bolso.
- Vou p'r'a luta, e tiro o atraso!... Mas, que dia, hein, seu Marra?!
- Tu está fagueiro... Dormiu mais do que o catre...
- Falar nisso, seu Marrinha, eu me alembrei hoje cedo de outro teatrinho, que a companhia levou, lá no Bagre: é o drama do "Visconde Sedutor"... Vou pensar melhor, depois lhe conto. Esse é que a gente podia representar...
(Pintão suou para desprender um pedrouço, e teve de pular para trás, para que a laje lhe não esmagasse um pé. Pragueja:
- Quem não tem brio engorda!
- É... Esse sujeito só é isso, e mais isso... - opina Sidú.
- Também, tudo p'ra ele sai bom, e no fim dá certo... - diz Correia, suspirando e retomando o enxadão. - "P'ra uns, as vacas morrem... p'ra outros até boi pega a parir...”)

Seu Marra já concordou:
- Está bem, seu Laio, por hoje, como foi por doença, eu aponto o dia todo. Que é a última vez! ... E agora, deixa de conversa fiada e vai pegando a ferramenta!
- Já, já, seu Marrinha. "Quem não trabuca, não manduca"!...

Seu Marra sente-se obrigado a dar as costas. Opor carranca não adianta. Lalino vai para o meio dos outros, assoviando. Leva minutos para arregaçar bem as mangas. E logo comenta, risonho e burlão:
- Xi, Correia!...
- Que é, comigo?
- P'ra que é que você põe tanto braço no braçal? Com menos força e mais de jeito, você faz o mesmo serviço, sem carecer de ficar suando, pé-de-couve no chuvisco!
- É... Mas, muito em-antes de muita gente nascer, eu...
- Você já penava que nem duas juntas de bois, p'ra puxar um feixinho de lenha, não é, fumaça?... Qual, eu estou é brincando... (Correia tinha feito uma cara ruim...) Lá até -que é um arraial supimpa, com a igrejinha trepada, bem no monte do morro... E as terras então, hein, Correia?! P'ra cana, p’ra tudo! (Correia se praz)... Eu acho que- nunca vi espigas de milho tão como as de lá...
- É. A terra é boa...
- Caprichada! E ainda estou por conhecer lugar melhor para se viver. Essa gente da Conquista é que diz que lá só tem fumaça de pretos... Mas isso é inveja, mas muita! (Lalino passou a declamar:) Qual!... Criação de cavalo, é no Passa-Tempo... Povo p'ra saber discurso, no Dom Silvério... E, festa de igreja, no Japão... Mas, terra boa, de verdade, e gente boa de coração, isso é só lá no Rio-doPeixe!
- Serve... Serve, seu Laio...
- Ah, eu ainda hei de poder arranjar dinheiro p'ra comprar uns dez alqueires ali por perto, só de mato-de-lei... Ui, que você é um mestre neste serviço, que até dá gosto ver!... (Correia descuidou sua tarefa, e agora bate picareta para Lalino, que põe mão na cintura e não pára de discorrer...) É isso! Mando levantar casa, com jardim em redor, mas só com flor do mato: parasitas, de todas... E uma cerquinha de bambu, com trepadeira p'ra alastrar e tapar, misturadas, de toda cor... Onde foi mesmo que eu vi, assim?... Bom, depois compro mais terra... Imagina só: quero um chiqueiro grande, bem fechado, e nele botar pacas... Vou criar! Aquilo é fácil... Ficam mansinhas e gordas, que nem porco... Levando lá no Belorizonte, faço freguesia... Um tanque grande... Criar capivaras também: o óleo, só, já dá um dinheirão!...
- Tu é besta, Correia! Cavacando, aí, p'ra outro... - zomba Generoso, que parou para enrolar um cigarro.
- Te sara de invejas, siô! Pode ver ninguém com amizade, que já começa intrigando?... Caroço! ... Ah, há-te, espera: hoje eu tenho uma marca boa... - E Lalino estende o maço de cigarros. - Pode tirar mais. Vocês, eh, também?... (Generoso aceita, calada a boca, porque é Bovino razoável e sabe ser grato, valendo a pena.) Estou contando aqui um arranjo... Vocês, eu aposto que nunca pensaram em ter um galinheiro enorme, cheio de jacus, de perdizes, de codornas... Mas hei de plantar também uma chácara, como ninguém não viu, com as qualidades de frutas... Até azeitona!
- Ara, azeitona de lata não pega! não dá!
- Ora se dá! Vocês ainda hão... Compro breve meus alqueirinhos, e há de ser no Brumadinho, beira da estradade-ferro...
- Oh, seu Laio!... Pois, no começo, não estava dizendo que era lá na minha terra, no Rio-do-Peixe?!...
- Sim, sim, é no Rio-do-Peixe mesmo, Correia! Falei variado, foi por esquecimentos... Mas, melhor é o ror de enxertos que vou inventar: laranja-de-abril em goiabeiras... Limão-doce no pé de pêssego... Vai ver, cada fruta, diferente de todas que há...
- Não pega!
- Pega! Deve de ser custoso, mas tem de se existir um jeito...
Mas Tercino, que é dono de um relógio quase do tamanho de um punho, olha as horas e olha depois o sol, para ter bem a certeza, e grita:
- Vamos boiar, gente... Está na hora do almoço!
A turma vem para as marmitas. Tercino acende um foguinho, para aquentar a sua. Lalino trouxe apenas um pão-com-lingüiça.
- Isso de carregar comida cozinhada de madrugadinha, p'ra depois comer requentada, não é minha regra. O coisa, ô Sidú! Por que é que você está triste, homem?... Falar nisso, hoje de noite, se seu Marrinha arranjar o merenguém, eu meio que pago cerveja. Feito?... A gente podia chamar o Lourival, com a sanfona. Isto aqui está ficando choroso demais... Viva, Conrado! Tu veio espiar o que a gente está comendo? Foi a espanholada quem mandou você vir bater panela aqui?
Generoso e Correia se afastaram, catando gravetos. Generoso tem maus bofes:
- O que esse me arrelia, com o jeito de não se importar com nada! Só falando, e se rindo contando vantagens... Parece que vê passarinho verde toda-a-hora... Se reveste de bobo!
- É, mas, seja não: é só esperto, que nem mico-estrela... E Correia se volta, para rever furtadamente o mulatinho, que lá gesticula, animado, no meio da roda.
- Prosa, só... Pirão d'água sem farinha! ... Era melhor que ele olhasse p'r'a sua obrigação... Uns acham um assim sabido, que é muito ladino; mas, como é que não enxerga que o Ramiro espanhol anda rondando por perto da mulher dele?!
- Séria ela é, seu Generoso. Ela gosta dele, muito...
- É, mas, quem tem mulher bonita e nova, deve de trazer debaixo de olho... - E Generoso estalou um muxoxo: - Eu, tem hora que eu acho que ele é sem-brio, que não se importa... Mas agora eu vou falar com ele, vou chamar à ordem...
- Acho que o senhor devia de não mexer com essas coisas, de família-dos-outros, seu Generoso. Isso nunca que dá certo!
- Tem perigo não... Só dar as indiretas!
Lalino tinha-se sentado num toco, perto das soqueiras das bananeiras, e os outros rodeavam-no, todos de cócoras. Mas chega Generoso, com a língua mesmo querente:
- Então, seu Laio, esse negócio mesmo do espanhol...
- Ara, Generoso! Vem você com espanhol, espanhol!... Eu já estou farto dessa espanholaria toda... Inda se fosse alguma espanhola, isto sim!
- Mas, escuta aqui, seu Laio: o que eu estou falando é outra coisa...
- É nada. Mas, as espanholas!... Aposto que vocês nunca viram uma espanhola... Já?... Também, - Lalino ri com cartas - também aqui ninguém não conhece o Rio de janeiro, conhece? ... Pois, se algum morrer sem conhecer, vê é o inferno!
- Ara, coisa!
- Tem lugar lá, que de dia e de noite está cheio de mulheres, só de mulheres bonitas!... Mas, bonitas de verdade, feito santa moça, feito retrato de folhinha... Tem de toda qualidade: francesa, alemanha, turca, italiana, gringa... É só a gente chegar e escolher... Elas ficam nas janelas e nas portas, vestindo de pijama... de menos ainda... Só vendo, seus mandioqueiros! Cambada de capiaus!...
Desta vez a turma está anzolada. Alargam as ventas, para se caber, rebebem as palavras. Lalino acertou. Faz um silêncio, para a estupefação. E principalmente para poder forjar novos aspectos, porque também ele, Eulálio de Souza Salãthiel, do Em-Pé-na-Lagoa, nunca passou além de Congonhas, na bitola larga, nem de Sabará, na bitolinha, e, portanto, jamais pôs os pés na grande capital. Mas o que não é barra que o detenha:
- Em nem sei como é que vocês ficam por aqui, trabalhando tanto, p'ra gastarem o dinheirinho suado, com essas negras, com essas roxas descalças... Me dá até vergonha, por vocês, de ver tanta falta de vontade de ter progresso! Caso que não podem fazer nem uma idéia... Cada lourinha, upa!... As francesas têm olho azul, usam perfume... E muitas são novas, parecendo até moça-de-família... Pintadas que nem as de circo-de-cavalinho...
E tudo na seda, calçadas de chinelinhos de salto, vermelhos, verdes, azuis... E é só "querido" p'ra cá, "querido" p'ra lá... A gente fica até sem jeito...
- Ó seu Laio! Faz favor!
É seu Marrinha chamando. Lalino se levanta, soflagrado, e os ouvintes resmungam contra o chefe-da-turma, assim com caras.
- Acabou de almoçar, seu Laio?
- Estou acabando... Meu almoço é isto aqui...
E Lalino ferra os dentes no seu sanduíche, que, por falta de tempo, está ainda intacto.

Seu Marra tem noção de hierarquia e tacto suficiente. Começa:
- Olha, seu Laio, eu lhe chamei, para lhe aconselhar. A coisa assim não vai!... Seu serviço precisa de render...
- Pois, hoje, eu estou com uma coragem mesmo doida de trabalhar, seu Marrinha!...
- É bom... Carece de tomar jeito!... O senhor é um rapaz inteligente, de boa figura... Precisa de dar exemplo aos outros... Eu cá, palavra que até gosto de gente assim, que sabe conversar... que tem rompante... Até servia para fazer o papel do moço-que-acaba-casando, no teatro...

Seu Marra foi muito displicente no final. Deu a deixa, e agora olha para o matinho lá longe, esperando réplica.
Mas não pega. Não pega, porque, se bem que Lalino esteja cansado de saber o que é que o outro deseja, não o pode atender: do Visconde Sedutor mal conhece o título, ouvido em qualquer parte.
- Qual, isso é bondade sua, seu Marrinha... São seus olhos melhores...
- Não. Eu sou muito franco... Quando falo que é, é porque é mesmo... (Pausa)... Quem sabe, a gente podia representar esse drama, hem seu Laio?... Como é que chama mesmo?... "O Visconde Sedutor"... Foi o que você disse, não foi?
- Isso mesmo, seu Marrinha.
Definição, amável mas enérgica:
- Bem, seu Laio. Vamos sentar aqui nestas pedras e você vai me contar a peça.
Agora não tem outro jeito. Mas Lalino não se aperta: há atualmente nos seus miolos uma circunvoluçãozinha qualquer, com vapor solto e freios frouxos, e tanto melhor.
- O primeiro ato, é assim, seu Marrinha: quando levanta o pano, e uma casa de mulheres. O Visconde, mais os companheiros, estão bebendo junto com elas, apreciando música, dançando... Tem umas vinte, todas bonitas, umas vestidas de luxo, outras assim... sem roupa nenhuma quase...
- Tu está louco, seu Laio!?... Onde que já se viu esse despropósito?!... Até o povo jogava pedra e dava tiro em cima!... Nem o subdelegado não deixava' a gente aparecer com isso em palco... E as famílias, homem? Eu quero é levar peça para famílias... Você não estará inventando? Onde foi que tu viu isso?
- Ora, seu Marrinha, pois onde é que havia de ser?!... No Rio de Janeiro! Na capital... Isso é teatro de gente escovada...
- Mas, você não disse, antes, que tinha sido companhia, lá no Bagre?
- Cabeça ruim minha. Depois me alembrei... No Bagre eu vi foi a "Vingança do Bastardo"... Sabe? Um rapaz rico que descobriu que a...
- Espera! Espera, homem... Vamos devagar com o terço. Primeiro o "Visconde Sedutor". Acaba de contar.
- Bem, as mulheres são francesas, espanholas, italianas, e tudo, falando estrangeirado, fumando cigarros...
- Mas, seu Laio! Onde é que a gente vai arranjar mulher aqui para representar isso?... De que jeito?!
- Ora, a gente manda vir umas raparigas daí de perto...
- Deus me livre!
- Ou então, seu Marra, os homens mesmo podem fantasiar de mulher... Fica até bom... No teatro que seu Vigário arranjou, quando levaram a...
- Aquilo nem foi teatro! Vida de santo, bobagem! Bem, conta, conta seu Laio... Depois a gente vai ver.
- Bom, tem uma francesa mais bonita de todas, lourinha, com olhos azulzinhos, com vestido aberto nas costas... muito pintada, linda mesmo... que senta no colo do Visconde e faz festa no queixo dele... depois abraça e beija...
- Espera um pouco, seu Laio...
É o caminhão da empresa, que vem de volta. Parou.
- Alguma coisa, seu Waldemar? - pergunta seu Marra.
- Nada, não. Quero só lembrar a esse seu Lalino, que ele não deixe de ir hoje. Está ensinando a patroa a tocar violão, mas já tem dias que ele não aparece lá em casa...
- Foi por doença, seu Waldemar... E, trasantontem, umas visitas, que me empalharam de ir...
- Bem, bem, mas seja, hoje não tem desculpa. E, olhe: um dia é um dia: pode chegar para jantar... No em-ponto!

Seu Marra se lembrou de qualquer assunto:
- Bem, seu Laio, o senhor agora pode ir. Eu tenho uma conversa particular, aqui com seu Waldemar.
- Pois não, seu Marrinha, depois o resto eu conto. Adeusinho, seu Waldemar, até mais logo!
Lalino se afasta com o andar pachola, esboçando uns meios passos de corta-jaca, e seu Waldemar o acompanha, com olhar complacente.
- Mulatinho levado! Entendo um assim, por ser divertido. E não é de adulador, mais sei que não é covarde. Agrada a gente, porque é alegre e quer ver todo-o-mundo alegre, perto de si. Isso, que remoça. Isso é reger o viver.

- É o que eu acho... Só o que tem, que, às vezes, os outros podem aprovar mal o exemplo...

- Concordo. Já pensei, também. Vou arranjar para ele um serviço à parte, no armazém ou no escritório... E é o que convém, logo: veja só...

Lalino, que empunha a picareta, comandando o retorno à lida, e tirando, para que os outros o acompanhem, desafinadíssimo, um coco:


"Eu vou ralando o coco,
ralando até aqui.. .
Eu vou ralando o coco,
morena,
o coco do ouricuri!...”

E, aí, com a partida de seu Waldemar, a cena se encerra completa, ao modo de um final de primeiro ato.

II

Nessa tarde, Lalino Salãthiel não pagou cerveja para os companheiros, nem foi jantar com seu Waldemar. Foi, sim, para casa, muito cedo, para a mulher, que recebeu, entre espantada e feliz, aquele saimento de carinhos e requintes. Porque ela o bem-queria muito. Tonto, que, quando ele adormeceu, com seu jeito de dormir profundo, parecendo muito um morto, Maria Rita ainda ficou longo tempo curvada sobre as formas tranqüilas e o rosto de garoto cansado, envolvendo-o num olhar de restante ternura.
Na manhã depois, vendo que o marido não ia trabalhar, esperou ela o milagre de uma nova lua-de-mel. Enfeitou-se melhor, e, silenciosa, com quieta vigilância, desenrolava, dedo a dedo, palmo a palmo, o grande jogo, a teia sorrateira que às mulheres ninguém precisa de ensinar.
Mas, agora, Lalino andava pela casa e fumava, pensando, o que a alarmava, por inabitual. Depois ele remexeu no fundo da mala. No fundo da mala havia uns números velhos de almanaques e revistas.
E Lalino buscava as figuras c fotografias de mulheres. É, devia de ser assim... Feito esta. Janelas com venezianas... Ruas e mais ruas, com elas... Quem foi que falou em gringas, em polacas?... Sim, foi o Sizino Baiano, o marinheiro, com o peito e os braços cheios de tatuagens, que nem turco mascate-de-baú... Mas, os retratos, quem tinha era o Gestal guarda-freios: uma gorda... uma de pintinhas na cara... uma ainda quase menina... Chinelinhos de salto, verdes, azuis, vermelhos... Quem foi que falou isso? Ah, ninguém me disse, foi ele mesmo quem falou... E aquela gente da turma, acreditando em tudo, e gostando! Mas, deve de ser assim. Igual ao na revista, claro...

Maria Rita, na cozinha, arruma as vasilhas na prateleira. Não sabe de nada, mas o arcanjo-da-guarda das mulheres está induzindo-a a dar a última investida, está mandando que ela cante, com tristeza na voz, o: "Eu vim de longe, bem de longe, p'ra te ver..."

... Bem boazinha que ela é... E bonita... (Agora, como quem se esconde em neutro espaço, Lalino demora os olhos nos quadros de guerras antigas, nessas figuras que parecem as da História Sagrada, no plano de um étero-avião transplanetário, numa paisagem africana, com um locomovente rinoceronte...) Mas, são muitas... Mais de cem?...

Mil?!... E é só escolher: louras, de olhos verdes... É, Maria Rita gosta dele, mas... Gosta, como toda mulher gosta, aí está. Gostasse especial, mesmo, não chorava com saudades da mãe... Não ralhava zangada por conta d'ele se rapaziar com os companheiros, não achava ruim seu jeito de viver... Gostasse, brigavam?

E na revista de cinema havia uma deusa loira, com lindos pés desnudos, e uma outra, morena, com muita pose e roupa pouca; e Maria Rita perdeu.

... Bom, quem pensa, avéssa! Vamos tocar violão...

Depois do almoço, saiu. Andou, andou. E se resolveu.

Foi fácil. Tinha algum saldo, pouco. João Carmelo comprava o carroção e o burrinho. Seu Marra fez o que pôde para dissuadi-lo; depois, disse: - "Está direito. Você é mesmo maluco, mas mais o mundo não é exato. Se veja..."

- O pagamento, porém, tinha de ser em apólices do Estado, ao menos metade.

- Sim sim, está direito, seu Marrinha. Em ótimo! - Porque a ação tinha de ser depressinha, depressa, não de dúvidas... E Lalino dava passos aflitos e ajeitava o pescoço da camisa, sem sossego e sem assento.

Com seu Waldemar, foi mais árduo, ele ainda perguntou: - "Mas que é que já vai fazer, seu Lalino?... Quer a vagabundagem inteirada?" - Vou p'ra o Belorizonte... Arranjeizinho lá um lugar de guarda-civil... O senhor sabe: é bom ir ver. Mas um dia a gente volta! - "Mentira pura, a mim tu não engana... Mas deve de ir... Em qualquer parte que tu 'teja, tu 'tá em casa... Podem te levar denoite p'r'a estranja ou p'r'a China, e largar lá errado dormindo, que de-manhã já acorda engazopando os japonês!"...

- Adeus, seu Waldemar!

Mas, dez passos feitos, volta-se com uma micagem:

- Adeus, seu Waldemar!... "Fé em Deus, e... unha no povo!"...

Tinha oitocentos e cinqüenta mil-réis. Mas, vendidas as apólices para o Viana, deram seiscentos. Bom, agora era o pior... E, até chegar perto de casa, escarafunchava na memória todos os pequenos defeitos da mulher...

Mas, quem é aquele? Ah, é o atrevido do espanhol, que está rabeando. Bem... Bem.

Seu Ramiro, quis, mas não pôde esquivar-se. Bestalhão e bigodudo, arranja um riso fora-de-horas, e faz, apressado, um rapapé:

- Como lhe vão as saúdes, senhor Eulálio? Estava cá aguardando a sua vinda, a perguntar-lhe se há que haver mesmo uma festinha hoje, donde os Moreiras... É dizer, a festa, sei que vai ser, mas queria saber... queria saber se o senhor também...

(Nada importa. Foi o diabo quem mandou o espanhol aqui... Ele tem muito dinheiro junto, é o que o povo diz.)

- Seu Ramiro, se chegue. Escuta: tenho um particular, muito importante, com o senhor...

- Mas, senhor Eulálio, eu lhe garanto... À ordem, senhor Eulálio... Que há? O senhor sabe, que, a mim, eu gosto de estimar e respeitar os meus amigos e, grande principalmente, as suas famílias excelentíssimas...

(É preciso um sorriso, um só, senão o espanhol fica com medo. Mas, depois, fecha-se a cara, para a boa decência...)

- Eu sei, eu sei. Olhe aqui, seu Ramiro: eu quero é que o senhor me empreste um dinheiro. Uns dois contos de réis... Feito?

- Mas, senhor Eulálio... O senhor sabe... As posses não dão... As coisas...

- Olhe, seu Ramiro... a estória é séria... Eu vou-m'embora daqui. A mulher fica... Vou me separar... Ela não sabe de nada, porque eu vou assim meio assim, de

fugido... O senhor me empresta o dinheiro, que é o que falta. Senão, eu não posso ir... É só emprestado. Daqui a uns seis meses, lhe pago. Mando. Tenho um emprego bom, arranjei - vou ser tocador de bonde, no Rio de Janeiro... Se não, eu não posso ir... (Agora é a hora de uma série de ares.) Sem dinheiro, não vou. Não vou ir... Como é que posso?!...

O espanhol está com os beiços trêmulos e alisa a dedos a aba do paletó.

- Com que... mas, o senhor está declarando, senhor Eulálio? Por se acaso, não vai se arrepender... Nunca mais voltará aqui, o afirma?

- De certo que não. Não seja! (Lalino tem outro acesso de precipitação:) Ixe, já viu sapo não querer a água?! Então, arranja o cobre, não é? Mas tem que ser é p'r'agorinha...

- Mire: um conto eu posso... Fazendo um sacrificiozinho, caramba!

- Serve, serve. Mas é de indo já buscar, que o caminhão sai em pouco p'ra o Brumadinho... A já!

Agora, entra ou não entra em casa? Não tem que levar nada, senão a mulher desconfia... Mas entra: o coração está mandando que ele vá se despedir... E pega a brincar. Maria Rita está no diário, está normalmente. Brincando, brincando, Lalino lhe dá um abraço, apertado.

- Você é bobo... Laio... - ela diz, enjoosa.

Agora, disfarçando, ele póe uma nota de quinhentos em cima da mesa... vamos! Senão a coragem se estraga.

- Você já vai sair outra vez?

- Vou ali, ver o-quê que o Tercino quer...

O Ramiro espanhol, soprando de cansado, já está lá debaixo do tamarindeiro. Trouxe, certo, um conto, em cédulas de cem.

- Tudo num santiamén, senhor Eulálio... Mire o que digo...

- Té quando Deus quiser! O dinheiro eu lhe mando, seu Ramiro.

Vai afadigado. Sobe para o lado do chauffeur.

- Não carece de buzinar, seu Miranda... Vamos ligeiro...

Brumadinho, enfim. Ainda não estão vendendo passagens. - Vem tomar uma cerveja, seu Miranda. Oi! Que é aquilo, meu-deus? Ah, é a ciganada que está indo embora. Pegaram um dinheirão, levando gente de automóvel p'r'a Santa Manoelina dos Coqueiros, que agora está no Dom Silvério. Olha: tem uma ciganinha bem bonita. Mas isto é povo muito sujo, seu Miranda. Não chegam aos pés das francesas... Seu Miranda, escuta: vou lhe pedir um favor.

- Que é, seu Laio?

- Olha, fala com a Ritinha que eu não volto mais, mesmo nunca. Vou sair por esse mundo, zanzando. Como eu não presto, ela não perde... Diz a ela que pode fazer o que entender... que eu não volto, nunca mais...

- Mas, seu Laio... Isso é uma ação de cachorro! Ela é sua mulher! ...

- Olha, seu Miranda: eu, com o senhor, de qualquer jeito: à mão, a tiro, ou a pau, o senhor não pode comigo - isto é - não é?... Então, bem, eu sei que não é por mal, que o senhor está falando. E agora eu não quero me amofinar, não tenho tempo p'ra estragar a cabeça com raiva nenhuma à toa-à toa. Sou boi bravo nem cachorro danado, p'ra me enraivar? Mas, é bom o senhor pensar um pouco, em antes de falar, hem?

- Bom, eu não tenho nada com coisas dos outros...

- E, é. Quiser dar o recado, dá. Não quiser, faz de conta.

Apitou. O trem.

- Adeus, seu Miranda!... Me desculpe as coisas pesadas que eu falei, que é porque eu estou meio nervoso...

- Inda está em tempo de ter juízo, seu Laio! O senhor pode merecer um castigo de Deus...

- Que nada, seu Miranda! Deus está certo comigo, e eu com ele. Isto agora é que é assunto meu particular... Alegrias, seu Miranda!

- Não vai, não, seu Laio! Pensa bem...

Nos pântanos da beira do Paraopeba, também os sapos diziam adeus. Ou talvez estivessem gritando, apenas: - Não! Não! Não! ... Bão! Bão! Bão!... - em notável e aquática discordância.

E foi assim, por um dia haver discursado demais numa pausa de hora de almoço, que Eulálio de Souza Salãthiel veio a tomar uma vez o trem das oito e cinqüenta e cinco, sem bênçãos e sem matalotagem, e com o bolso do dinheiro defendido por um alfinete-de-mola. Procurou assento, recostou-se, e fechou os olhos, saboreando a trepidação e sonhando - sonhos errados por excesso - com o determinado ponto, em cidade, onde odaliscas veteranas apregoavam aos transeuntes, com frinéica desenvoltura, o amor: bom, barato e bonito, como o queriam os deuses.

III

Um mês depois, Maria Rita ainda vivia chorando, em casa.

Três meses passados, Maria Rita estava morando com o espanhol.

E todo-o-mundo dizia que ela tinha feito muito bem, e os que diferiam dessa opinião não eram indivíduos desinteressados. E diziam também que o marido era um canalha, que tinha vendido a mulher. E que o Ramiro espanhol era um homem de bem, porque estava protegendo a abandonada, evitando que ela caísse na má vida.

Mas, no final dos coméhtários, infalível era a harmonia, em sensata convergência:

- Mulatinho indecente! Cachorro lambeu a vergonha da cara dele! Sujeito ordinário!... Eu em algum dia me encontrar com ele, vou cuspindo na fuça!... Arre, nojo!... Tem cada um traste neste mundo!...

E assim se passou mais de meio ano. O trecho da rodovia ficou pronto. O pessoal de fora tomou rumo, com carroções e muares, famílias e ferramentas, e bolsos cheios de apólices, procurando outras construções.

Mas os espanhóis ficaram. Compraram um sítio, de sociedade. E fizeram relações e se fizeram muito conceituados, porque, ali, ter um pedaço de terra era uma garantia e um título de naturalização.

IV

As aventuras de Lalino Salãthiel na capital do país foram bonitas, mas só podem ser pensadas e não contadas, porque no meio houve demasia de imoralidade. Todavia, convenientemente expurgadas, talvez mais tarde apareçam, juntamente com a estória daquela rã catacega, que, trepando na laje e vendo o areal rebrilhante à soalheira, gritou - "Eh, aguão!..." - e pulou com gosto, e, queimando as patinhas, deu outro pulo depressa para trás.

Portanto: não, não fartava. As húris eram interesseiras, diversas em tudo, indiferentes, apressadas, um desastre; não prezavam discursos, não queriam saber de românticas histórias. A vida... Na Ritinha, nem não devia de pensar. Mas, aquelas mulheres, de gozo e bordel, as bonitas, as lindas, mesmo, mas que navegavam em desafino com a gente, assim em apartado, no real. Ah, era um outro sistema.

Aquilo cansava, os ares. Haia mal o sossego, demais. Ah, ali não valia a pena.

Ir-se embora? Não. O ruim era só no começo; por causa da inveja e das pragas dos outros, lá no arraial... Talvez, também, a Ritinha estivesse fazendo feitiços, para ele voltar... Nunca.

Caiu na estrepolia: que pândega! Antes magro e solto do que gordo e não... Que pândega!

Mas, um indivíduo, de bom valor e alguma idéia, leva no máximo um ano, para se convencer de que a aventura, sucessiva e dispersa, aturde e acende, sem bastar. E Lalino Salãthiel, dados os dados, precisava apenas de metade do tempo, para chegar ao dobro da conclusão.

O dinheiro se fora. Rareavam os biscates. Veio uma espécie de princípio de tristeza. E ele ficou entibiado e pegou a saudadear.

Foi quando estava jantando, no chinês:

- E se eu voltasse p'ra lá? É, volto! P'ra ver a cara que aquela gente vai fazer quando me ver...

Deu uma gargalhada de homem gordo, e, posto de lado o dinheiro para a passagem de segunda, organizou o programa de despedida: uma semaninha inteira de esbórnia e fuzuê.

A semana deu os seus dias.

Quando entrou no carro, aconteceu que ele teve vontade de procurar um canto discreto, para chorar. Mas achou mais útil recordar, a meia-voz, todas as cantigas conhecidas. Um paraibano, que vinha também, gostou. Garraram a se ensinar, letras e tons, tudo ótimo.

E, tarde da madrugada, com o trem a rolar barulhento nas goelas da Mantiqueira, no meio do frio bonito, que mesmo no verão ali está sempre tinindo...:

- Quero só ver a cara daquela gente, quando eles me enxergarem!...

Riu, e aquele foi o seu último pensamento, antes de dormir. Desse jeito, não teve outro remédio senão despertar, no outro dia, pomposamente, terrivelmente feliz.

V

Quando Lalino Salãthiel, atravessado o arraial, chegou em casa do espanhol, já estava cansado de inventar espírito, pois só com boas respostas é que ia podendo enfrentar às interpelações e as chufas do pessoal.

- Eta, gente! Já estavam mesmo com saudade de mim...

Ramiro viu-o da janela, e sumiu-se lá dentro.

Foi amoitar a Ritinha e pegar arma de fogo... - Lalino pensou.

Já o outro assomava à porta, que, por sinal, fechou meticulosamente atrás de si. E caminhou para o meio da estrada, pálido, torcendo o bigode de pontas centrípetas.

- Com'passou, seu Ramiro? Bem?

- Bem, graças... O senhor a que vem?... Não disse que não voltava nunca mais?... Que pretende fazer aqui?

- Tive de vir, e aproveitei para lhe trazer o seu dinheiro, para lhe pagar...

(Ainda bem! - o espanhol respira. - Então, ele não veio para desnegociar.)

- Mas, não é nada... Não é necessário. Nada tem que me pagar... Em vista de certos acontecidos, como o senhor deve saber... eu... Bem, se veio só por isso, não me deve mais nada, caramba!

(Agora é Lalino - que não tem tostão no bolso - quem se soluciona:)

- Bem, se o senhor dá a conta por liquidada, eu lhe pego da palavra, porque "sal da seca é que engorda o gado!..." O dinheiro estava aqui na algibeira, mas, já que está tudo quites, acabou-se. Não sou homem soberbo!... Mas, olha aqui, espanhol: eu não tenho combinado nenhum com você, ouviu?! Tenho compromisso com ninguém!

- Mas, certo o senhor Eulálio não vai a quedar-se residindo aqui, não é verdade? Ao melhor, pelo visto, estou seguro de que o senhor se vai...

- Que nada, seu espanhol!... Não tenho que dar satisfação a ninguém, tenho?... E agora, outra coisa: eu quero-porque-quero conversar com a Ritinha!

Lalino batera a mão no cinturão, na coronha do revólver, como por algum mal, e estava com os olhos nos do outro, fincados. Mas, para surpresa, o espanhol aquiesceu:

- Pois não, senhor Eulálio. Comigo perto, consinto... Mas não lhe aproveita, que ela não o quer ver nem em pinturas!

Lalino titubeia. Decerto, se o Ramiro está tão de acordo, é porque sabe que a Ritinha está impossível mesmo, em piores hojes.

- Qual, resolvi... Bobagem. Quero ver mais a minha mulher também não... O que eu preciso é do meu violão... Está aí, hem?

- Como queira, senhor Eulálio... vou buscar o instrumento... Um momentito.

Lalino se põe de cócoras, de costas para a casa, para estar já debochando do espanhol, quando o cujo voltar.

- Aqui está, senhor Eulálio. Ninguém lhe buliu. Não se o tirou do encapado... Há mais umas roupas e algumas coisitas suas, de maneiras que... Onde as devo fazer entregar?...

- Depois mando buscar. Não carece de tomar trabalho. Bem, tenho mais nada que conversar. Espera, o senhor está tratando bem da Ritinha? Ahn, não é por nada não. Mas, se eu souber que ela está sendo judiada...! Bem. Até outro dia, espanhol.

- Passe bem, senhor Eulálio. Deus o leve...

Mas Lalino não sabe sumir-se sem executar o seu sestro, o volta-face gaiato:

- O espanhol! Quando tu vinha na minha porta, eu te mandava entrar p'ra tomar um café com quitanda, não era?

- Oh, senhor Eulálio! Me desculpe... mas...

- Você é tudo, bigodudo!... Não vê que eu estou é arrenegando?!

Sobre o que, Ramiro vê o outro se afastar, sem mais, no gingar, em arte de moleque capadócio.

E talvez Lalino fosse pensando: - Está aí um que está rezando p'ra eu levar sumiço... Eu quisesse, à força, hoje mesmo a Ritinha vinha comigo... E se... Ah, mas tem os outros espanhóis, também... Diabo! É, então vamos ver como é que a abóbora alastra... e deixa o tiziu mudar as penas, p'ra depois cantar...

Olhou se o pinho estava com todas as cordas.

- Vou visitar seu Marrinha...

No caminho, cruza com o Jijo, que torce a cara, respondendo mal ao cumprimento.

- Onde é que vai indo, seu Jijo?

- Vou no sítio. Estou trabalhando p'ra seu Ramiro mais seu Garcia.

- E p'ra seu Echeviro e seu Saturnino e seu Queiroga, e p'r'a espanholada toda, não é? Mas, então, seu Jijo, você não tem vergonha de trabalhar p'ra esses gringos, p'ra uns estranjas, gente essa, gente à-toa?!

- Eu acho pouca-vergonha maior é...

- Olha, seu Jijo, pois enquanto você estiver ajustado com esse pessoal, nem me fale, hein?!... Nem quero que me dê bom-dia!... Olha: eu estou vindo da capital: lá, quem trabalha p'ra estrangeiro, principalmente p'ra espanhol, não vale mais nada, fica por aí mais desprezado do que criminoso... É isso mesmo. E nem espie p'ra mim, enquanto que estiver sendo escravo de galego'azedo!

O Jijo quase corre. Se foi. Lalino, já que parou, contempla os territórios ao alcance do seu querer.

- Bom, pousei no bom: estou vendo que já tem melancias maduras... Roça do Silva da Ponte... Melancia não tem dono!... Depois eu vou no seu Marrinha.

Toma a trilha da beira do córrego. Mas, que lindeza que e isto aqui! Não é que eu não me lembrava mais deste lugar?!

Somente a raros espaços se distingue a frontaria vermelha do barranco. O mais é uma mistura de trepadeiras floridas: folhas largas, refilhos, sarmentos, gavinhas, e, em glorioso e confuso trançado, as taças amarelas da erva-cabrita, os fones róseos do carajuru, as campânulas brancas do cipó-de-batatas, a cuspideira com campainhas roxas de cinco badalos, e os funis azulados da flor-de-são-joão.

Lalino depõe o violão e vai apanhar uma melancia. Tira o paletó, lava o rosto. Come. Faz travesseiro com o paletó dobrado, e deita-se no capim, à sombra do ingá-açu, namorando a ravina florejante. Corricaram, sob os mangues-brancos; voou uma ave; mas não era hora de canto de passarinhos. Foi Lalino quem cantou:

"Eu estou triste como sapo na lagoa..."

Não, a cantiga é outra, com toada rida:

"Eu estou triste, como o sapo na água suja..."

E, no entanto, assim como não se lembrava do lugar das trepadeiras, não está pensando no sapo. No sapo e no cágado da estória do sapo e do cágado, que se esconderam, juntos, dentro da viola do urubu, para poderem ir à festa no céu. A festa foi boa, mas, os dois não tendo tido tempo de entrar na viola, para o regresso, sobraram no céu e foram descobertos. E então São Pedro comunicou-lhes: "Vou varrer vocês dois lá para baixo. Jogou primeiro o cágado. E o concho cágado, descendo sem pára-quedas e vendo que ia bater mesmo em cima de uma pedra, se guardou em si e gritou "Arreda laje, que eu te parto!" Mas a pedra, que era posta. e própria, não se arredou, e o cágado espatifou-se em muitos pedaços. Remendaram-no, com esmero, e daí é que ele hoje tem a carapaça toda soldada de placas. Mas, nessa folga, o sapo estava se rindo. E, quando São Pedro perguntou por que, respondeu: "Estou rindo, porque se o meu compadre cascudo soubesse voar, como eu sei, não estava passando por tanto aperto..." E então, mais zangado, São Pedro pensou um pouco, e disse:

- "É assim? Pois nós vamos juntos lá em-baixo, que eu quero pinchar você, ou na água ou no fogo!" E aí o sapo choramingou: "Na água não, Patrão, que eu me esqueci de aprender a nadar..." - "Pois então é para a água mesmo que você vai!..." - Mas, quando o sapo caiu no poço, esticou para os lados as quatro mãozinhas, deu uma cambalhota, foi ver se o poço tinha fundo, mandou muitas bolhas cá para cima, e, quando teve tempo, veio subindo de-fasto, se desvirou e apareceu, piscando olho, para gritar: "Isto mesmo é que sapo quer!..."

E essa é que era a variante verdadeira da estória, mas Lalino Salãthiel nem mesmo sabia que era da grei dos sapos, e já estava cochilando, também.

Daí a pouco, acordou, com um tropel: é o seu Oscar, que anda consertando tapumes e vem vindo na égua ruça.

- O-quê! ? seu Laio! ... Tu está de volta?!... Não é possível!

- "Terra com sede, criação com fome", seu Oscar...

- E chegou hoje?

- Ainda estou cheirando a trem... Vim de primeira...

- O-ôme!

- Só o que não volta é dinheiro queimado, seu Oscar!

- E agora?

- Enquanto um está vivendo, tem o seu lugar.

- E a sua vida?

- Moída e cozida...

- Já se viu?! Então, agora, ainda vai atrapalhar mais as coisas? Decerto vai querer tornar a tomar a mulher que você vendeu, ahn? Não deve de fazer isso. Piorou!

- Que nada, seu Oscar. Eu estou querendo é sossego.

- A-hã? ... Uê... Então... Mas, então, tu não vai cobrar teu direito do espanhol? Vai deixar a sã Ritinha com o Ramiro?... Malfeito! Isso é ter sangue de barata... Seja homem! Deixar assim os outros desonrando a gente?!...

- Ara, ara, seu Oscar! Uai! Pois o senhor não estava dizendo primeiro que era errata eu querer me intrometer com eles? Pois então?!

- Ora, seu Laio, não queira me fazer de bobo, hom'essa!... Bem que sabe o-quê que eu quero dizer... Eu mesmo gosto de gente aluada, quando são assim alegres e têm resposta p'ra tudo. Por isso é que estou dando conselho...

- Eu sei, seu Oscar... Lhe fico até agradecido... Mas, o senhor repare: se eu for agora lá, derrubo cinza no mingau! A Ritinha, uma hora destas, há-de estar me esconjurando, querendo me ver atrás de morro... E a espanholada, prevenida, deve de estar arreliada e armada, me esperando. Sou lá besta, p'ra pôr mão em lagarta-cabeluda?! Eu não, que não vou cutucar caixa de mangangaba...

- É, isso lá é mesmo. Mas, e ela?

- Vou chamar no pio.

- E o espanhol?

- Vai desencostar e cair.

- Mas, de que jeito, seu Laio?

- Sei não.

- E você fica aí, de papo p'ra riba?

- Esperando sem pensar em nada, p'ra ver se alguma idéia vem...

- Hum-hum!

- É o que é, seu Oscar. Viver de graça é mais barato... É o que dá mais...

- E os outros, seu Laio? A sociedade tem sua regra...

- Isso não é modinha que eu inventei.

- Ta varrido!

- Pode que seja, seu Oscar. Dou água aos outros, e peço água, quando estou com sede... Este mundo é que está mesmo tão errado, que nem paga a pena a gente querer consertar... Agora, fosse eu tivesse feito o mundo, por um exemplo, seu Oscar, ah! isso é que havia de ser rente!... Magina só: eu agora estava com vontade de cigarrar... Sem aluir daqui, sem nem abrir os olhos direito, eu esticava o braço, acendia o meu cigarrinho lá no sol... e depois ainda virava o sol de trás p'ra diante, p'ra fazer de-noite e a gente poder dormir... Só assim é que valia a pena! ...

- Cruz-credo! seu Laio. Toma um cigarro, e está aqui o isqueiro... Pode fumar, sem imaginar tanta bobagem... Essa pensação besta é que bota qualquer um maluco, é que atrapalha a sua vida. Precisa de tomar juízo, fazer o que todo-o-mundo faz!... Olha: tu quer, mas quer mesmo, de verdade, acertar um propósito? Se emendar?

- Pois então, seu Oscar! Quero! Pois quero! Eu estou campeando é isso mesmo...

- Bom, prometer eu não prometo... Não posso. Mas vou falar com o velho. Vou ver se arranjo p'ra ele lhe dar um serviço.

- Lhe honro a letra, seu Oscar! Não desmereço...

- Eu acho de encomenda, p'ra um como você, tomar uma empreitada com essa política, que está brava...

- Isto! seu Oscar... O senhor já pode dizer ao velho que eu agaranto a parte minha! Ah, isto sim! Agora é que essa gente vai ver, seu Oscar... Vão ver que eleiçãozinha diferente que vai ter... Arranja mesmo, seu Oscar... Já estou aflito ... Já estou vendo a gente ganhando no fim da mão!

- Não pega fogo, seu Laio. Vou indo...

- Seu Oscar...

- Que é mais?

- Como vai passando o seu Marrinha?

- Se mudou. Foi p'ra o Divinópolis...

- Ara! foi?

- Ganhou bom dinheiro... Disse que quer pôr um teatro lá...

- Me agrada! Ô homem inteligente!

VI

Além de chefe político do distrito, Major Anacleto era homem de princípios austeros, intolerante e difícil de se deixar engambelar. Foi categórico:

- Não me fale mais nisso, seu Oscar. Definitivamente! Aquilo é um grandissíssimo cachorro, desbriado, sem moral e sem temor de Deus... Vendeu a família, o desgraçado! Não quero saber de bisca dessa marca... E, depois, esses espanhóis são gente boa, já me compraram o carro grande, os bezerros... Não quero saber de embondo!

Seu Oscar falou manso:

- Está direito, pai... Não precisa de ralhar... Eu só pensei, porque o mulatinho é um corisco de esperto, inventados de tretas. Vai daí, imaginei que, p'ra poder com as senvergonheiras do Benigno com o pessoal dele, do pior... Mas, já que o senhor não quer, estou aqui estou o que não. Agora, mudando de conversa: topei com outro boi ervado, no pastinho do açude...

Esse "mudando de conversa", com o Major Anacleto, era tiro e queda: pingava um borrão de indecisão, e pronto. Mas seu Oscar, pouco hábil, vinha ultimamente abusando muito do ardil. Por isso o Major soube que o filho estava sabendo e esperando a reação. E ele nunca dava nem um dedo a torcer.

Mas, aí, Tio Laudônío - sensato e careca, e irmão do Major - viu que era a hora de emitir o seu palpite, quase sempre o derradeiro.

Porque, Tio Laudônio, quando rapazinho, esteve no seminário; depois, soltou vinte anos na vida boêmia; e, agora, que deu outra vez para sisudo, a síntese é qualquer coisa de terrível. Devoto por hábito e casto por preguiça, vive enfurnado, na beira do rio, pescando e jogando marimbo, quando encontra parceiros. Pouquíssimas vezes vem ao arraial, e sempre para fins bem explicados: no sábado-da-aleluia, para ajudar a queimar o judas; quando tem circo-de-cavalinhos, por causa da moça - nada de comprometedor, apenas gosta de ter o prazer de ir oferecer umas flores à moça, no meio do picadeiro, exigindo para isso grande encenação, com a charanga funcionando e todos os artistas formando roda; quando há missões ou missa-cantada, mas só se por mais de um padre; ou, então, a chamado do Major, em quadra de política assanhada, porque adora trabalhar com a cabeça. Fala sussurrado e sorrindo, sem pressa, nunca repete e nem insiste, e isso não deixa de impressionar. Além do mais, e é o que tem importância, Tio Laudônio "chorou na barriga da mãe" e, como natural conseqüência, é compadre das coisas, enxerga no escuro, sabe de que lado vem a chuva, e escuta o capim crescer.

- Um mulato desses pode valer ouros... A gente esquenta a cabeça dele, depois solta em cima dos tais, e sopra... Não sei se é de Deus mesmo, mas uns assim têm qualquer um apadrinhamento... É uma raça de criaturas diferentes, que os outros não podem entender... Gente que pendura o chapéu em asa de corvo e guarda dinheiro em boca

de jia... Ajusta o mulatinho, mano Cleto, que esse-um é o Saci.

O Major sabia render-se com dignidade:

- Bem, bem, já que todos estão pedindo, que seja! Mandem recado p'ra ele vir amanhã. Mas é por conta de vocês... E nada de se meter com os espanhóis! Isso eu não admito. Absolutamente!...

Deu passadas, para lá e para cá, e:

- Seu Oscar!?

- Nhôr, pai?

- E avisa a ele para não vir falar comigo! Explica o-quê que ele tem de fazer ... Eu é que não abro boca minha para dar ordens a esse tralha, entendeu?!

- O senhor é quem manda, pai.

VII

Entretanto, Eulálio de Souza Salãthiel parecia ter pouca pressa de assumir as suas novas funções. Não veio no dia seguinte. E quando apareceu na fazenda, só quarta-feira de tarde, foi na horinha mesmo em que o Major se referia à sua pessoa, caçoando do seu Oscar e de Tio Laudônio, dizendo que o protegido deles começava muito final, e outras coisas mais, conformemente.

E, quando o mulatinho subiu, lépido, a escadinha da varanda, Major Anacleto, esquecido da condição ditada em hora severa, dispensou o intermédio de seu Oscar, e chofrou o rapaz:

- Fora! Se não quer tomar vergonha e preceito, pode ir sumindo d'aqui! O senhor está principiando bem, hein?! Está pensando que é senador ou bispo, para ter seu estado?

Mas teve de parar, porque Lalino, respeitosamente erecto, desfreou a catarata:

- Seu Major, faz favor, me desculpe! Demorei a vir, mas foi por causa que não queria chegar aqui com as mãos somenos... Mas, agora, tenho muita coisa p'ra lhe avisar, que o senhor ainda não sabe... Olhe aqui: todo-o-mundo no Papagaio vai trair o senhor, no dia da eleição. Seu Benigno andou por lá embromando o povo, convidando o Ananias p'ra ser compadre dele, e o diabo!... Na Boa Vista, também, a coisa está ruim: quem manda mais lá é o Cesário, e ele está de palavras dadas com os "marimbondos". Lá na beira do Pará, seu Benigno está atiçando uma briga do seu Antenor com seu Martinho, por causa das divisas das fazendas... Todos dois, mesmo sendo primos do senhor, como são, o senhor vai deixar eu dizer que eles são uns safados, que estão virando casaca p'ra o lado de seu Benigno, porque ele é quem entende mais de demandas aqui, e promete ajudar a um, p'ra depois ir prometer a mesma coisa ao outro... Seu Benigno não tem sossegado! E é só espalhando por aí que seu Major já não é como de em-antes, que nem agüenta mais rédea a cavalo, que não pode com uma gata p'lo rabo... Que até o Governo tirou os soldados daqui, porque não quer saber mais da política do senhor, e que só vai mandar outro destacamento porque ele, seu Benigno, pediu, quando foi lá no Belorizonte... Seu Benigno faz isso tudo sorrateiro. E, olhe aqui, seu Major: ele não sai da casa do Vigário... Confessa e comunga todo dia, com a família toda... E anda falando também que o senhor tem pouca religião, que está virando maçom... Está aí, seu Major. Por deus-do-céu, como isto tudo que eu lhe contei é a verdade!...

- Espera, espera aí, seu Eulálio... Espere ordens!

E o Major, estarrecido com as novidades, e furioso, chamou Tio Laudônio ao quarto-da-sala, para uma conferência. Durou o prazo de se capar um gato. Quando voltaram, o Major ainda rosnava:

- E o Antenor! E o Martinho Boca-Mole! ... E eu sem saber de coisa nenhuma!

- Não é nada, mano, isto é o começo da graça... Dá dinheiro ao mulatinho, que a corda nele eu dou... Cem mil-réis é muito, cinqüenta é o que chega, p'ra principiar...

Mas, na hora de sair, Lalino fez um pedido: queria o Estêvam - o Estêvão -, para servir-lhe de guarda. Podia alguém do Benigno querer fazer-lhe uma traição... Depois, esse povo andava agora implicando com ele, por demais. Não queria provocar ninguém... Era só para se garantir, se fosse preciso.

O Major fechara a cara, mas, a um aparte cochichado de Tio Laudônio, acedeu:

- Pode levar o homem, mas olhe lá, hem! Não me cace briga com pessoa nenhuma, e nem passe por perto da casa dos espanhóis. Eles são meus amigos, está entendendo?!

E, como agora estivesse de humor melhor, o Major ainda fez graça:

- Vendeu a mulher, não foi?!... Nem que tivesse vendido ao demo a alma... E só não arranjar barulho, que eu não vou capear malfeito de ninguém.

- Isto mesmo, seu Major. Com paz é que se trabalha! Amanhã, vou dar um giro, de serviço... Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Major!

E, no outro dia, Lalino saiu com o Estêvam - o Estêvão -, um dos mais respeitáveis capangas do Major Anacleto, sujeito tão compenetrado dos seus encargos, que jamais ria.

E, quando alguém vinha querendo debicá-lo, Lalino ficava impassível. Mas, como bom guarda-costas, o Estêvão se julgava ali na obrigação de escarrar para um lado, com ronco, e de demonstrar impaciência. E o outro tal se desculpava:

- Estava era brincando, seu Laio...

Porque, ainda mais, o Estêvão era de Montes Claros, e, pois, atirador de lei, e estava sempre concentrado, estudando modos de aperfeiçoar um golpe seu: pontaria bem no centro da barriga, para acertar no umbigo, varar cinco vezes os intestinos, e seccionar a medula, lá atrás.

E Lalino fazia um gesto vago, e continuava com o ar de quem medita grandes coisas. E assim o povo do arraial ficou sabendo que ele era o cabo eleitoral de seu Major Anacleto, e que tinha de receber respeito.

E tudo o mais, com a graça de Deus, foi correndo bem.

VIII

Com o relatório de Lalino, o Major compreendeu que não podia ficar descansado. Tinha de virar andejo. Mandou selar a mula e bateu para a casa do Vigário. Mas, antes da sua pessoa, enviou uma leitoa. Confessou-se, deu dinheiro para os santos. O padre era amigo seu e do Governo, mas, com o raio do Benigno chaleirando e intrigando, a gente não podia ter certeza. Felizmente, estava vago o lugar de inspetor escolar. Ofereceu-o ao Vigário.

- Mas, Major, não me fica bem, isso... Meu tempo está tomado, pelos deveres de pároco...

- É um favor aceitar, seu Vigário! Precisamos do senhor. Não é nada de política. É só pelo respeito, para ficar uma coisa mais séria. E é para a religião. Comigo é assim, seu Vigário: a religião na frente! Sem Deus, nada!...

O padre teve de aceitar leitoa, visita, dinheiro, confissão e cargo; e ainda falou:

- Sabe, Major? Quem esteve aqui ontem foi esse rapaz que agora está trabalhando para o senhor. Também se confessou e comungou, e ainda trocou duas velas para o altar de Nossa Senhora da Glória... E rezou um terço inteiro, ajoelhado aos pés da Santa. O caso dele, com a mulher mais o espanhol, é muito atrapalhado, e por ora não se pode fazer coisa alguma... Mas, havendo um jeito... Como bom católico, o senhor não ignora: a gente não deve poupar esforços visando à reconciliação de esposos. Aliás, só lhe falo nisso porque é do meu dever. O moço não me pediu nada, e isso prova que ele tem delicadeza de sentimentos. Depois, assim com tanta devoção à Virgem Puríssima, ninguém pode ser pessoa de todo má...

- Com a Virgem me amparo, seu Vigário!

- Amém, seu Major!

E Major Anacleto tocou pelas fazendas, em glorioso périplo, com Tio Laudônio à direita, seu Oscar à esquerda, e um camarada atrás.

Passaram em frente da chácara dos espanhóis. Seu Ramiro baixou à estrada, convidando-os para uma chegada. Mas isso era contra os princípios do Major. Então, seu Ramiro, ali mesmo, fez suas queixas: que o senhor Eulálio, apadrinhado pelo Estêvão, viera por lá, a cavalo, somente para o provocar... Não o saudara, a ele, Ramiro, e dera um "viva o Brasil!" mesmo diante da sua porta. E, como a Ritinha estivesse na beira do córrego, lavando roupa, o granuja, o sem-vergonha, tivera o atrevimento de jogar-lhe um beijo ... Ele, mais os outros patrícios, podiam haver armado uma contenda, pois se achavam todos em casa, na hora. Mas, como o maldito perro agora estava trabalhando para o senhor Major, não quiseram pegá-lo com as cachiporras... Agora, todavia, tinha que pedir-lhe justiça, ao distinguido Senhor Major Dom Anacleto...

Nisso, o Major, vendo que Tio Laudônio fazia esforços para não rir, ficou sem saber que propósito tomar. Mas o espanhol continuou:

- E creia, senhor Major, não o quero molestar, porém o canalha não lhe merece tantas altas confianças... Saiba o senhor, convenientemente, que ele se há feito muito amigo do filho do senhor Benigno. Foram juntos à Boa Vista, todos acá o hão sabido... Com violões, e aguardente, e levando também o Estêvão, que vive, carái! o creio, à custa do senhor Major...

Aí, foi o diabo. Major Anacleto ficou peru, de tanta raiva. Então, o Lalino, andando com o filho do adversário, e indo os dois para a Boa Vista, um dos focos da oposição? Bem feito, para a gente não ser idiota! E, pelo que disse e pelo que não disse, seu Oscar teve pena do seu protegido, seriamente.

E, uma semana depois, quando, encerrada a excursão eleitoral, regressaram à fazenda, a apóstrofe foi violentíssima. Lalino tinha chegado justamente na véspera, e estava contando potocas aos camaradas, na varanda, o que foi uma vantagem, porque o Major gritou com ele antes de ter de briquitar para tirar as botas, o que geralmente aumenta muito a ira de um cristão.

- Então, seu caradura, seu cachorro! O senhor anda agora de braço dado com o Nico do Benigno, de bem, para me trair, hein?!... Mal-agradecido, miserável!... Tu vendeu a mulher, é capaz de vender até hóstias de Deus, seu filho de uma!

- Seu Major, escuta, pelo valor do relatar! Eu juntei com o filho do seu Benigno foi só p'ra ficar sabendo de mais coisas. Pra poder trabalhar melhor para o senhor... E mais p'ra uma costura que eu não posso lhe contar agora, por causa que ainda não tenho certeza se vai dar certo... Mas, seu Major, o senhor espere só mais uns dias, que, se a Virgem mais nos ajudar, o povo da Boa Vista, começando por seu Cesário, vai virar mãe-benta para votar em nós...

Aí, Tio Laudônio fez um sinal para o Major, que se acalmou, por metade. Afinal, o diabo do seu Eulálio podia estar com a razão. Mas o Major tinha outros motivos para querer desabafar:

- Eu não lhe disse que não fosse implicar com os espanhóis? Não falei?! Que tinha o senhor de passar por lá, insultando?

- O diabo! Não é que já foram inventar candonga?! ... Não insultei ninguém, seu Major...

- Tu ainda nega, malcriado? O Ramiro me fez queixa...

- Seu Major, só se aqueles estrangeiros acham que a gente dar viva ao Brasil é mexer com eles. Mas eu nunca ouvi ninguém dizer isso... A gente na política tem de ser patriota, uai! O senhor também não é?!

- Deixe de querer se fazer! Mais respeito!... O senhor não pode negar que foi se engraçar com a dona Ritinha, que estava lá quieta na fonte, esfregando roupa...

- Ora, seu Major, o senhor não acha que a gente vendo a mulher que já foi da gente, assim sem se esperar, de repente, a gente até se esquece de que ela agora é de outro?

Foi sem querer, seu Major. Agora, o senhor me deixa contar o que foi que eu fiz nestes dias...

- Pois conta. Por que é que ainda não contou?!

- Primeiro, fui no Papagaio, assustei lá uns e outros, dando notícia de que vem aí um tenente com dez praças... Só o senhor vendo, aquele povinho ficou zaranza! As mulheres chorando, rezando, o diabo!... Depois sosseguei todos, e eles prometeram ficar com o senhor, direitinho, p'ra votar e tudo!...

- Hum...

- Depois, fui'dar uma chegada lá no Mucambo, e, com a ajuda de Deus, acabei com a questão que o seu Benigno tinha atiçado...

Tio Laudônio se adianta, roxo de curiosidade profissional:

- Como é que você fez, que é que disse?

- Ora, pois foi uma bobaginha, p'ra esparramar aquilo! Primeiro, fiz medo no seu Antenor, dizendo que seu Major era capaz de cortar a água... Pois a aguada da fazenda dele não vem do Retiro do irmão do seu Major?... Com seu Martinho, foi mais custoso. Mas inventei, por muito segredo, que o senhor dava razão a ele, mas que era melhor esperar até depois das eleições... Até, logo vi que o seu Benigno não tinha arranjado bem a mexida... A briga estava sendo por causa daqueles dois valos separando os pastos... O senhor sabe, não é? Tem o valo velho, já quase entupido de todo, e o novo. Levei seu Martinho lá, mais seu Antenor... Expliquei que, pela regra macha moderna do Foro, o valo velho não era valo e nem nada, que era grota de enxurrada... E que o valo novo é que era velho... E mais uma porção de conversa entendida... Falei que agora tinha uma nova lei, que, em caso de demandas dessas, tinha de vir um batalhão todo de gente do Governo, p'ra remedarem tudo... E o pagamento saía do bolso de quem perdesse... Quando falei nos impostos, então, Virgem! Só vendo como eles ficaram com medo, seu Major! Então, resolveram partir a razão no meio. Ajudei os dois a fazerem as pazes...

- Valeu. O que você espalhou de boca, de boca o Benigno ajunta... Fazer política não é assim tão fácil... Mas, alguma coisa fica, no fundo do tacho...

- Pois, não foi, seu Laudônio? Faço o melhor que posso, não sou ingrato. Mas, como eu ia contando... Bem, como seu Martinho é homem enjerizado e pirrônico, eu, na volta, fui na cerca que separa a roça dele do pasto do pai do seu Benigno... Dei com pedras e cortei com facão, abri um rombo largo no arame... e toquei tudo o que era cavalo e vaca, p'ra dentro da roça. Ninguém não viu, e vai ser um pagode! Assim, não tem perigo: quem é pra ficar brigado agora é o seu Martinho com o pai do outro e, decerto, depois, com seu Benigno também...

- Não tenho tanta esperança... - opinou o Major, já conforme.

E Lalino concluiu, com voz neutra, angelical:

- Está vendo, seu Major, que eu andei muito ocupado com os negócios do senhor, e não ia lá ter tempo p'ra gastar com espanhol nenhum? Gente que p'ra mim até não tem valor, seu Major, pois eles nem não votam! Estrangeiros... Estrangeiro não tem direito de votar em eleição...

IX

Correram uns dias, muito calmos, reinando a paz na fazenda, porque o Major teve a sua enxaqueca, e depois o seu mal de próstata. Já sem dores, mas ainda meio perrengue, passava o tempo no côncavo generoso da cadeira-de-lona, com pouco gosto para expansões.

O comando político estava entregue agora quase completamente a Tio Laudônio, que transitava com pouco alarde e se deitava na cama quando queria pensar melhor. De vez em quando, apenas, vinha comentar qualquer coisa, fazendo o Major enrugar mais a testa e pronunciar um murmúrio de interjeições integérrimas. Mas isso poucas vezes acontecia, por último. Da curva da cadeira, ia o Major para em-frente da cômoda do quarto-de-dormir, e lá ficava, de-pé, armando paciências de baralho - conhecia muitas variedades mas só cultivava uma, prova de alta sabedoria, pois um divertimento desses deve ser mesmo clássico, o mais possível.

Enquanto isso, Lalino Salãthiel pererecava ali por perto, sempre no meio dos capangas, compondo cantigas e recebendo aplausos, porque, como toda espécie de guerreiros, os homens do Major prezavam ter as façanhas rimadas e cantadas públicas.

E, vai então pois então, Lalíno teve um momento de fraqueza, e pediu a seu Oscar que procurasse a Ritinha e falasse, e dissesse, mas não dissesse isso, e calasse aquilo, mas dando a entender que... mas sem deixar que ela pensasse que... e aquil'outro, e também etc., e pronto.

Na manhã seguinte, seu Oscar, prestativo e bom amigo, foi. Rabeou redor à casa do espanhol, e fez um acaso, atravessando na frente da mulher, quando ela saía para procurar ninhos de galinha-d'angola no bamburral.

Mas Maria Rita tinha olhos, pernas e cabelos tentadores, e seu Oscar se atarantou. E, se chegou a se perturbar, é claro que foi por ter tido inspiração nova, resolvendo, num átimo, alijar a causa do mulatinho e entrar em execução de própria e legítima ofensiva.

Em sã consciência, ninguém poderia condená-lo por isso, mas Maria Rita desconfiou do contrário - do que antes, fora para ser, mas que tinha deixado agorinha mesmo de ser - e foi interpelando:

- Já sei! Foi aquele bandido do Laio, que mandou o senhor aqui para me falar; não foi, seu Oscar?

Seu Oscar era jogador de truque e sabia que "a primeira é a que vai à missa!" Assim, achou que estava na hora de não perder a vaza, e disse:

- Pois não foi não, sã Ritinha... Aquele seu marido é um ingrato! A senhora não deve nem de pensar nele mais, porque ele não soube dar valor ao que tem... Não guardou estima à prenda de ouro dele! É um vagabundo, que vive fazendo serenata p'ra tudo quanto é groteira e capioa por aí...

Maria Rita perdeu o aprumo:

- Então, ele nem pensa mais em mim, não é?... Faz muito bem... Porque eu cá tenho sentimento! Nem vestido de santo, não quero ver!

- Está muito direito, sã dona Ritinha! Assim é que deve ser. Olha, a senhora merece coisa muito melhor do que ele... e do que esse espanhol também... Eu juro que nunca vi moça tão bonitonazinha como a senhora, nem com um jeito tão bom p'ra agradar à gente...

Maria Rita sorria, gostando.

- É assim mesmo, dona Ritinha... Esses olhos graúdos... Essa bocazinha sua... A gente até perde as idéias, dona Ritinha...

Chegou mais para perto.

- Não ri, não, dona Ritinha! Tem pena dos outros... Ah! Se eu pedisse um beijinho à senhora...

Mas Maria Rita pulou para trás, vermelha furiosa:

- O senhor é um cachorro como os outros todos, seu Oscar! Homem nenhum não presta!... Se o senhor não sumir daqui, ligeiro, eu chamo o Ramiro para lhe ensinar a respeitar mulher dos outros!

Seu Oscar, desorganizadíssimo, quis safar-se. Mas, aí, foi ela quem o reteve, meio brava meio triste, agora em lagrimas:

- E, olhe aqui: o senhor está enganado comigo, seu Oscar! O senhor não me conhece! Eu procedi mal, mas não foi minha culpa, sabe? Eu gosto é mesmo do Laio, só dele! Não presta, eu sei, mas que é que eu hei de fazer?!... Pode ir contar a ele, aquele ingrato, que não se importa comigo... Fiquei com o espanhol, por um castigo, mas o Laio é que é meu marido, e eu hei de gostar dele, até na horinha d'eu morrer!

Seu Oscar se foi, quase correndo, porque não suportava aquele choro consentido e aqueles gritos de louca. E nem soube que, por artes das linhas travessas da boa escrita divina, se tinha saído às mil maravilhas da embaixada que Lalino Salãthiel lhe cometera.

Chegou em casa com uma raiva danada de Lalino, e, para se despicar, foi decepcionando a sôfrega expectativa do mulatinho:

- Pode tirar o cavalo da chuva, seu Laio! Ela gosta mesmo do espanhol, fiquei tendo a certeza... Vai caçando jeito de campear outra costela, que essa-uma você perdeu!

Lalino suspirou...:

- É, mulher é isso mesmo, seu Oscar... Também, gente que anda ocupada com política não tem nada que ficar perdendo tempo com dengos... Mas, muito obrigado, seu Oscar. O senhor tem sido meu pai nisso tudo. Quer escutar agora o hino que estou fazendo p'ra o senhor?

Mas seu Oscar não queria escutar coisa nenhuma. Deixou Lalino na varanda, e foi falar com o velho, aproveitando a oportunidade de Tio Laudônio no momento não estar lá.

Major Anacleto relia - pela vigésima-terceira vez - um telegrama do Compadre Vieira, Prefeito do Município, com transcrições de um outro telegrama, do Secretário do Interior, por sua vez inspirado nas anotações que o Presidente do Estado fizera num anteprimeiro telegrama, de um Ministro conterrâneo. E a coisa viera vindo, do estilo dragocrático-mandológico-coactivo ao cabalístico-estatístico, daí para o messiânico-palimpséstico-parafrástico, depois para o cozinhativo-compadresco-recordante, e assim, de caçarola a tigela, de funil a gargalo, o fino fluido inicial se fizera caldo gordo, mui substancial e eficaz; tudo isto entre parênteses, para mostrar uma das razões por que a política é ar fácil de se respirar - mas para os de casa, que os de fora nele abafam, e desistem. Major Anacleto tomava pó, comicha em punho.

Seu Oscar foi de focinho:

- Agora é que estou vendo, meu pai, que o senhor é quem tinha razão. Soubesse...

- Pois não foi? Se o Compadre Vieira não abrir os olhos, com o pessoal das Sete-Serras, nós ficamos é no mato sem cachorro... Eu já disse! Bem que eu tinha falado com o Compadre, que isso de se querer fazer política por bons modos não vai!

- Isso mesmo, pai. O senhor sempre acerta. É como no caso do mulatinho, desse Lalino... Olha, eu já estou até arrependido de ter falado em trazer o...

- Seu Major! Seu Major! - (Lalino invadira a sala, empurrando para a frente um curiboca mazelento e empoeirado, novidadeiro-espião chegado da Boa Vista num galope de arrebentar cavalo.)

- Que é? Que houve? Mataram mais algum, lá na Catraia?

E o Major se levantava, - tirando óculos e enfiando óculos, telegrama, comicha e lenço, na algibeira, - aturdido com o alarido, se escapando da compostura.

- Não senhor, seu Major meu padrinho... Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo... - e o capiauzinho procurava a mão do Major, para o beijo de bênção. - ...Foi na Boa Vista... Seu Cesário virou p'ra nós!

- Como foi isso, menino? Conta com ordem!

- O povo está todo agora do lado da gente... Não querem saber mais do seu Benigno... Tudo vota agora no senhor, seu Major meu padrinho!

- Eu já sabia... Mas conta logo como foi!

- Foi porque o filho do seu Benigno, o Nico... que desonrou, com perdão da palavra, seu Major meu padrinho ... que desonrou a filha mais nova do seu Cesário... Os parentes estão todos reunidos, falando que tem de casar, senão vai ter morte... E matam mesmo, seu Major! Seu Cesário vai vir aqui, p'ra combinar paz com o senhor, seu Major meu padrinho...

Lalino, por detrás, fazia sinais ao Major, que mandasse o mensageiro se retirar.

- Está direito, Bingo. Vai agora lá na cozinha, p'ra ganhar algum de-comer. Depois, você volta p'ra lá, e fica calado, escutando tudo direito.

Mal o outro se sumira, e Lalino Salãthiel gesticulava e modulava:

- Eu não disse, seu Major? Não falei? No pronto, agora, o senhor está vendo que deu certo... Pois foi p'ra isso que eu levei o Nico na Boa Vista, ensinando o rapaz a cantar serenata e botar flor, e ajeitando o namoro com a Gininha! Estive até em perigo de seu Benigno mandar darem um tiro em mim, porque ele não queria que o filho andasse em minha má companhia... Ah, com o amor ninguém pode!

- Pois o senhor fez muito mal. Pode dar e pode não dar certo... Se o rapaz casa com a moça, tudo ainda fica pior...

- Ele não casa, seu Major! Eu sabia que ele não casava, porque o seu Benigno quer mandar o filho p'ra o seminário... E eu aconselhei o Nico a quietar no mundo... Ele está revelio, seu Major, seu Oscar, está em uns ninhos!

- É... Eu não gosto das coisas tão atentadas... Não sei se isto é como Deus manda... A moça, coitadinha, vai sofrer?! Ninguém tem o direito de fazer isso...

- Há-de-o, que eu já deduzi também, seu Major, não arranjo meio sem mais a metade. Depois do que for, das eleições, a gente rege o rapaz, se faz o casório... Tem de casar, mas só certo... Eu sei onde é que o Nico está amoitado... Aí a raiva do seu Benigno vai ser cheia. E as festas!...

- Está direito, seu Eulálio. O senhor tem galardão.

- Só quero servir o senhor, seu Major! Com chefe bom, a gente chega longe!

- Bem, pode ir... E guarde segredo da trapalhada que o senhor aprontou, hem?!

E, ficando só com seu Oscar, Major Anacleto retomou a conversa, justo no ponto em que fora interrompida:

- Bem o senhor estava me dizendo, agorinha mesmo, que ele é levado de ladino! Foi um servição que o senhor me fez, trazendo esse diabo para mim. Gostei, seu Oscar. O senhor tem jeito para escolher camaradas, meu filho.

- Às vezes a gente acerta... Era isso mesmo que eu vinha lhe falar, meu pai...

- Está direito... Agora o senhor vá no arraial, mandar um telegrama meu para o Compadre Prefeito: Um vê, não vê estes tantos constantes trabalhos que a política dá... Passa no Paiva, e na farmácia...

Seu Oscar saiu e o Major se assoou, voltou para a cadeirade-lona. Mas, daí a pouco, chegava Tio Laudônio, trazendo uma grande notícia: tinham recebido aviso, no arraial, de que nessa mesma tarde devia passar de automóvel, vindo de Oliveira, um chefe político, deputado da oposição. Seu Benigno tinha ido para a beira do rio, para vir junto. Não sabiam bem o nome.

- Se chegarem por aqui, nem água para beber eu não dou, está ouvindo? Inda estumo cachorro neles! - rugiu o Major.

- Qual, passam de largo... Que é que eles haviam de querer aqui?

- Pau neles, isto sim, que era bom! Por isto é que eu não gosto de estrada de automóvel! Serve só para pôr essa cambada trançando afoita por toda a parte... E o cachorro do Benigno vai ficar todo ancho. Decerto há-de fazer discurso, louvar as lérias... Olha, o Eulálio podia ir no arraial, hem? Para arranjar um jeito de atrapalhar, se tiver ajuntamento.

- Não vale a pena, mano Cleto.

- É, então pode deixar... A gente já está ganhando, longe! Ah, esse seu Eulálio fez um... Já sabe?... O Oscar contou?

Aí o Major se levantou e foi até à janela. E, quando ele ia assim à janela, não era sempre para espiar a paisagem. Agora, por exemplo, era para apurar alguma ideiazinha. Tio Laudônio sabia disso, e esperava que ele se voltasse com outra pergunta. E foi:

- Escuta aqui, mano Laudônio: é verdade que espanhol não vota?

- Não. Não podem. São estrangeiros... A coisa agora está muito séria.

- Ahn... Sim... Olha: manda levar mais madeira para o seu Vigário... Para as obras da capelinha do Rosário...

- Já mandei.

- Diabo! Vocês, também, não deixam nada para eu pensar!...

E foi para a espreguiçadeira, dormir.

Quando acordou, horas depois, foi a sustos com uma matinada montante: o mulherio no meio da casa; os capangas, lá fora, empunhando os cacetes, farejando barulho grosso; e muita gente rodeando uma rapariga bonita, em pranto, com grandes olhos pretos que pareciam os de uma veadinha acuada em campo aberto.

Com a presença enérgica do patriarca, amainou-se o rebuliço, e a moça veio cair-lhe aos pés, exclamando:

- Tem pena de mim, seu Coronel, seu Major!... Não deix'eles me levarem! Pelo amor de suas filhas, pelo amor de sua mulher dona Vitalina... Não me desampare, seu Major...

- Pois sim, moça... Mas, espera um pouco... Sossega. Daqui ninguém tira a senhora por mal, sem minha ordem... Conta primeiro o que é que houve... A senhora quem é?...

- Sou a mulher do Laio; seu Major... Me perdoe, seu Major... Eu sei que o senhor tem bom coração... Sou uma infeliz, seu Major... É o Ramiro, o espanhol, que me desgraçou... Desde que o Laio voltou, que ele anda com ciúme, só falando... Eu não gosto dele, seu Major, gosto é do Laio!... Bom ou ruim, não tem juízo nenhum, mas eu tenho amor a ele, seu Major... Agora o espanhol deu para judiar comigo, só por conta do ciúme... Viu o seu Oscar conversando comigo hoje, e disse que o seu Oscar estava era levando recado... Quis me bater, o cachorro! Disse que me mata, mata o Laio, e depois vai se suicidar, já que está mesmo treslouco... Então eu fugi, para vir pedir proteção ao senhor, seu Major. Pela Virgem Santíssima, não me largue na mão dele, seu Majorzinho nosso!

- Calma, criatura! - Levanta, vai lavar esses olhos...

Ó Vitalina, engambela ela, dá um chá à coitadinha... Afinal... afinal não tem culpa de nada... É uma história feia, mas... Nem o Eulálio não tem culpa também, não... Foi só falta de juízo dele, porque no fundo ele é bom... Mas, que diabo! O espanhol é boa pessoa... Arre! Só o mano Laudônio mesmo é quem pode me aconselhar... Bem, fala com as meninas para tomarem conta dela, para ver se ela fica mais consolada... E a senhora pode dormir hoje com descanso, moça, não lhe vai acontecer coisa nenhuma, ora! - Ó Estêvam! Qu'é-de seu Eulálio?

- Seu Laio saiu... Foi p'ra a beira do rio...

- Mande avisar a ele, já! Fala que a mulher dele está aqui...

- O Juca passou inda agorinha no caminhão, e disse que o seu Laio estava lá, numa cachaça airada, no botequim velho que foi da empresa, com outros companheiros, fazendo sinagoga. Diz que chegou um doutor no automóvel e parou para tomar água, mas ficaram conversando e ouvindo as parlas do seu Laio, achando muita graça, gostando muito...

- Ra-ch'ou-parta! diabos dos infernos! Maldito! Referido!

Em fel de fera, Major Anacleto sapateava e rilhava os dentes. Os homens silenciaram, na varanda, pensando que já vinha ordem para brigar. E as mulheres, arrastando Maria Rita, se sumiram no corredor. Só Tio Laudônio, que entrava, de caniço ao ombro, vindo do corguinho, foi quem continuou calmo, pois que coisa alguma poderia pô-lo de outro jeito.

O Major bramia:

- Cachorrão! Bandido!... Mas, tu não está entendendo, mano Laudônio?! É o diabo do homem, do tal, o deputado da oposição!... Parou... Decerto! Tinha de gostar...

Pois encontra o mulatinho bêbedo, botando prosa, contando o caso da Boa Vista, e tudo... Nem quero fazer idéia de como é que vai ser isto por diante... Cachorro! Agora vai dar tudo com os burros n'água, só por causa daquele cafajeste! Mal-agradecido! E logo agora, que eu ia proteger o capeta, fazer as pazes dele com a mulher, mandar os espanhóis para longe... Mas, vai ver! Me paga! Leva uma sova de relho, não escapa!

- Calma, mano Anacleto... A gente não deve de esperdiçar choro em-antes de ver o defunto morrer...

- Qual! história... Vitalina! Ó Vitalina!... Não deixa as meninas ficarem mais junto com essa mulher! Não quero mau exemplo aqui dentro de casa!... Mulher de dois homens!... Imoralidade! Indecência!

A muito custo, Tio Laudônio conseguiu levar o Major para o quarto, e encomendou um chá de flor-de-laranjeira.

- Calma. Pode, no fim, não ser tão ruim assim.

E foi comer, qualquer coisa, pois já estava com atraso.

Principiou a escurecer. A gente já ouvia os coaxos iniciais da saparia no brejo. E os bate-paus acenderam um foguinho no pátio e se dispuseram em roda. Tio Laudônio, já jantado, chamou o Major para a varanda.

- Lá vem um automóvel...

- São eles, Laudônio... Manda vigiarem e não olharem! Manda não se estar, fecharem as janelas e portas! Ah, mulatinho - para cá, e arrastado com pancada grossa!...

- Espera... Olha, já parou, por si.

Lalino saltou primeiro e ajudava os outros a descerem. Três doutores. Um gordo... um meio velho... um de óculos... Lalino guiava-os para a escada da varanda.

- Só eu indo ver quem é, mano Cleto.

- Mas, que é que essa gente vem fazer, aqui!?... Eu quero saber de oposição nenhuma, mano Laudônío! Eu desfeiteio! Eu...

- Quieto, homem, areja! Vamos saber, só, primeiro. Se entrarem, é porque são de paz... Vem p'ra dentro. Eu vou ver.

Mas, daí a um mijo, Tio Laudônio gritava pelo Major:

- Depressa, mano, que não é oposição nenhuma, é do Governo! Depressa, homem, é Sua Excelência o Senhor Secretário do Interior, que está de passagem, de volta para o Belorizonte.

O Major correu, boca-aberta, borres, se aperfeiçoando, abotoando o paletó. Os viajantes já estavam na sala, com Lalino - pronto perto, justo à vontade e falante.

E nunca houve maior momento de hospitalidade numa fazenda. O Major se perfazia, enfim, quase sem poder bem respirar:

- Ah, que honra, mas que minha honra, senhor Doutor Secretário do Interior!... Entrar nesta cafua, que menos merece e mais recebe... Esteja à vontade! Se execute! Aqui o senhor é vós... Já jantaram? ô, diacho... Um instantinho, senhor Doutor, se abanquem... Aqui dentro, mando eu - com suas licenças -: mando o Governo se sentar... P'ra um repouso, o café, um licor... O mano Laudônio vai relatar! Ah, mas Suas Excelências fizeram boa viagem?...

Mas, não: Suas Excelências tinham pressa de prosseguir. O cafezinho, sim, aceitavam. Viagem magnífica, excursão proveitosa. Um prazer, estarem ali. E o titular sorria, sendo-se o amistoso de todos, apoiando a mão, familiar, no ombro do Major. Ah, e explicava: tinha recebido o convite, para passar pela fazenda, e não pudera recusar. O senhor Eulálio - e aqui o Doutor se entusiasmava - abordara o automóvel, na passagem do rio. O que fora muito gentil da parte do Major, haver mandado o seu emissário esperá-los tão adiante. E, falando nisso, que magnífico, o Senhor Eulálio! Divertira-os! O Major sabia escolher os seus homens... Sim, em tudo o Major estava de parabéns... E, quando fosse a Belorizonte, levasse o Eulálio, que deveria acabar de contar umas histórias, muito pândegas, da sua estada no Rio de Janeiro, e cantar uns lundus...

Tomado o -café, alegria feita, cortesia floreada, política arrulhada, e o muito mais - o estilo, o sistema, - o tempo valera. Daí, se despediam: abraço cordial, abraço cordial...

E o Doutor Secretário abraçou também Lalino, que abria a portinhola do carro.

- Adeus, Senhor Eulálio. Continue sempre ao serviço do Senhor Major Anacleto, que é ótimo e digno chefe. E, quando ele vier à capital, já prometeu trazê-lo também...

Lalino pirueteava, com risco de cair, conforme dava todos os vivas.

O automóvel sumiu-se na noite.

E, no brejo, os sapos coaxavam agora uma estória complicadíssima, de um sapo velho, sapo-rei de todos os sapos, morrendo e propondo o testamento à saparia maluca, enquanto que, como todo sapo nobre, ficava assentado, montando guarda ao próprio ventre.

- "Quando eu morrer, quem é que fica com os meus filhos?"...

- "Eu não... Eu não! Eu não!... Eu não!"...

(Pausa, para o sapo velho soltar as últimas bolhas, na água de emulsão.)

- "Quando eu morrer, quem é que fica com a minha mulher?"

- "É eu! É eu! É eu! É eu! É eu!"...

Major Anacleto chama Lalino, e as mulheres trazem Maria Rita, para as pazes. O chefão agora é quem se ri, porque a mulherzinha chora de alegria e Lalino perdeu o jeito. Mas, alumiado por inspiração repentina, o Major vem para a varanda, convocando os bate-paus:

- Estêvam! Clodino! Zuza! Raimundo! Olhem: amanhã cedo vocês vão lá nos espanhóis, e mandem aqueles tomarem rumo! É para sumirem, já, daqui!... Pago a eles o valor do sítio. Mando levar o cobre. Mas é para irem p'ra longe!

E os bate-paus abandonam o foguinho do pátio, e, contentíssimos, porque de há muito tempo têm estado inativos, fazem coro:

"Pau! Pau! Pau!

Pau de jacarandá!...

Depois do cabra na unha,

quero ver quem vem tomar!...

E os sapos agora se interpelam e se respondem, com alternâncias estranhas, mas em unanimidade atordoante:

- Chico? - Nhô! - Você vai? - Vou!

- Chico? - Nhô! - Cê vai? - Vou!...

No alto, com broto de brilhos e asterismos tremidos, o jogo de destinos esteve completo. Então, o Major voltou a aparecer na varanda, seguro e satisfeito, como quem cresce e acontece, colaborando, sem o saber, com a direção-escondida-de-todas-as-coisas-que-devem-depressa-acontecer. E gritou:

- Olha, Estêvam: se a espanholada miar, mete a lenha!

- De miséria, seu Major!

- E, pronto: se algum quiser resistir, berrem fogo!

- Feito, seu Major!

E, no brejo - friíssimo e em festa - os sapos continuavam a exultar.

João Guimarães Rosa, In Sagarana