24/06/2007

Aquela Casa Triste...

A casa grande das quinze janelas branqueja no espinhaço do monte.

As janelas fecharam-se há seis meses, ao mesmo tempo que duas sepulturas se abriram.

A sepultura do Africano, que chegava ao cemitério quando a filha expirava; e a sepultura de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos funerais do pai.

*

Ao homem que morreu naquela casa triste chamavam o Africano.

Estou-a vendo daqui.

As vidraças reverberam o sol poente.

Eu, há hoje dez anos, vi abrir os alicerces daquela casa.

Lidavam operários a centenares.

Entre os alvenéis estava um sujeito, na pujança dos anos, magro, macilento e tostado pelo sol da África.

Disseram-me que era homem muito rico, e viera do cabo do mundo, e se chamava Duque por apelido e o Africano por alcunha.

Avizinhei-me dele, com o semblante risonho de cortesias, para lhe perguntar como ia, em monte assim agro e ermo, fabricar edifício tão grandemente cimentado.

Respondeu que tinha em Benguela uma filha, com quem andara viajando na Suíça. E que a sua Deolinda, estanciando nas empinadas serras de S. Gotardo, lhe dissera que seria feliz se morasse no topo duma montanha, em casa imitante de outra onde pernoitara, e donde vira levantar-se o Sol do seu leito de neve.

E ele, pai extremoso, rico e saudoso da pátria, disse à filha que, pôr cima da casinha onde nascera, em um outeiro do Minho, sobranceava um alto monte, golpeado de regatos que derivavam por entre arvoredos fresquíssimos.

E a filha, cingindo-se-lhe ao pescoço, exclamara:

— E quando vamos?

— Irei fazer a casa no alto do monte, e depois irás tu, e levaremos para a capela os ossos de tua mãe. E eu descansarei desta labutação em que pude granjear mais que o preciso ao teu passadio, visto que preferes, a viver em Paris, uma casa nas serras de Portugal.

E saiu de Benguela, provido de dinheiro para edificar o ostentoso chalé que a filha fantasiara.

Ora, os arquitectos do Minho, como não percebessem a planta do Africano, construíram-lhe um palácio aldeão, espécie de dormitório monástico, um leviatão de granito zebrado de vidraças enormes e portas alterosas.

Perto dali, na outra lombada do mesmo outeiro, está o antigo solar torreado dos senhores de Farelães.

E eu, que, naquele tempo, me embrenhava nas ruinarias grandiosas do paço senhorial de Ruivães, a decifrar a lenda meio histórica dos Correias de Sá nos frescos do tecto apainelado, ao perpassar pelas grossas cantarias do Africano, dizia entre mim: “O palácio cavaleiroso que desaba e o palácio industrial que se levanta. Aquele recorda as manhas épicas do peito ilustre lusitano, indústria da lança que atirou da Índia para ali, na ponta ensangüentada, a pedraria dos reis de Chaul, de Calecute e Mombaça. Ergue-se o novo palácio para assinalar à posteridade que o peito moderno lusitano é ainda ilustre e empreendedor, diferençando-se do antigo sòmente no que vai entre adaga e azorrague, entre acutilar o Índio pela frente ou verberar o Etíope pelas costas.”

Mas eu não sabia se aquele homem, tão entranhadamente pai, amealhara os seus haveres pôr entre os perigos do cruzeiro. Talvez que não. A riqueza não é sempre o estipêndio generoso dos homens cruéis. E, em corações afistulados por peçonha de cobiça — sede execrável que se apaga em lágrimas — não cabe o exaltado e santíssimo sentimento do amor paternal. Quem chora por um filho não tem olhos que vejam, enxutos, arrancar escravos dos braços de suas mães. Verdade é que os práticos destes ultrajes a Jesus — ser divino em que Deus se manifestou no mais elevado grau da consciência humana — dizem que lá, nas cubatas, não há mães nem filhos: há indivíduos bestialmente rebanhados e inconsciente de laços de família. Se assim é, meu Deus, porque não destes à vossa criatura de epiderme negra o amor maternal que dulcifica as meiguices da hiena enroscada nos filhos?

*

Aprumadas as paredes, delineados os repartimentos, os patins, as portas, a capela e o jardim, Duque, o Africano, saudoso da filha, deixou a obra em meio e dinheiro de sobra ao seu feitor, pautando-lhe que, no prazo de doze meses, a casa estaria feita.

E voltou a Benguela, onde tinha centenas de escravos, armazéns de café, de marfim, de gomas, e as suas vastas sementeiras sobre dez léguas circulares de terra, onde o suor da pele fusca, porejado pelo sol a pique, era um como adubo forte, um guano de sangue estilado por entre febras vigorosas e distendidas pelo látego.

Vendeu as fazendas, enfeirou as bestas e os negros, abarrotou a galera de carregação sua, esquipou a tolda, decorou de froixéis de seda o camarim da filha e proejou à pátria. Parecia um dos antigos vizo-reis que voltavam da Índia, duns que não se chamavam João de castro nem Afonso de Albuquerque.

— Vale duzentos contos a carga da Deolinda! — diziam os amigos do Africano, quando as velas da galera, chamada com o nome da filha de seu dono, trapeavam bafejadas por aprazível brisa.

A navegação, por perto da costa, e sempre ajudada por prósperos ventos, correu alegre e descuidosa de receios.

Deolinda deleitava-se a remirar a prata das ondas espumantes, ou, enlevada em leituras amenas, passava as tardes na tolda, enquanto não chegavam os seus amores mais queridos, as estrelas do céu e as fosforescências do mar.

Ela era mulata, e bela quanto cabe ser, com a face beijada por aqueles raios ardentes e o sangue escaldeado das lufadas do deserto — mulata, com as feições levemente denunciativas da raça materna, quase tirante a esmaiado amarelido, um bem harmonizado conjunto de graças, avantajadas ao que se diz beleza, debaixo deste nosso céu de rostos níveos, sangue pobre e epiderme alvacenta.

Trasmontada a linha e festejado o passo com descantes da maruja, o céu entrou de nublar-se, a nortada a ringir nas gáveas os silvos agoureiros e o piloto esperto a encarar mui fito em um nevoeiro que se acastelava, sobrenoite, à volta do sol esmaecido. Era em fevereiro de 1869.

Ao repontar a manhã do dia seguinte, o mar urrava acapelado, as nuvens desciam a sorver as ondas que se encurvavam, o sol apenas entreluzia frio e marmóreo na baça claridade da manhã.

Ao meio-dia, o escurecer fez-se rápido e pardacento como um crepúsculo de noite invernosa.

Bravejou súbita fúria de mar, apenas colhido o velame.

O piloto vira terra, e cobrara alento na esperança de aproar a Cabo Verde, conquanto se temesse daquela costa infamada de muitos naufrágios, desde que portugueses se andam à cata de oiro e opróbrio pôr entre os colmilhos da morte, na espádua das tempestades, a braços com a ira de Deus e dos homens.

Noite alta, estrondeou no cavername da galera um como estampido de peça que detonasse dentro.

Deolinda foi colhida nos braços do pai, quando resvalava da camilha ao pavimento, com o livro das suas orações nas mãos convulsas, e o nome da Mãe dos aflitos nos lábios.

— Morreremos, meu pai?! — perguntou trespassada de horror.

— Ânimo! — murmurou ele —, abraça-te em mim, que eu não quero chorar-te nem que me chores, filha... Morreremos juntos.

Em cima estrugia a celeuma dos marinheiros, o rojar ríspido das amarras, os gritos, as súplicas, os apitos, o troar da peça, que pedia socorro, e o dos trovões, que reboavam, e um relampadejar que azulava os abismos.

E, de súbito, a galera, após aquele repelão que lhe vibrou as cavernas, quedou-se arquejante, a roçar nos espigões da restinga.

E as vagas, raivando contra aquele estorvo, galgavam-no, rolando-se, refervendo e marulhando de um bordo a outro. O porão descosia-se, bebendo e golfando jorros de água como o monstro dos mares escalavrado pelos arpéus.

O capitão, pálido mas sereno, debruçou-se no corrimão da câmara e disse:

— Encalhou a galera, Sr. Duque. É tempo de sair a terra.

— Nenhuma esperança? — perguntou o Africano.

— Só?...

Perguntou o homem rico; mas aquele monossílabo, estrangulado na garganta, rouquejou como um arranco da vida. Só! Só a vida? O meu suor de quarenta anos, os meus duzentos contos de réis não salvam? Eu hei-de sair pobre de entre esta riqueza que é minha, que é o repouso da velhice, o patrimônio de minha filha? Só!

E as lanchas, balançadas no vaivém das ondas, chofravam nos flancos do navio por entre espadanas de espuma.

Deolinda atravessou corajosa, e firmada no braço do pai, até ao portaló. O Africano levava no rosto um terror indescritível e nas contorções e visagens de aflição a agonia da pior morte.

E ela saltou de ímpeto ao escaler, apenas amparada na mão de um passageiro, que lhe disse:

— Adeus...

— Não vem? — perguntou ela.

— Primeiro hão-de vir as crianças, as mulheres e os velhos.

Deolinda contemplou-o alguns momentos, e amparou-se na face do pai, onde as lágrimas derivavam copiosas.

Os escaleres varavam na areia, revessados no rolo da vaga. Estavam salvos os velhos, as mulheres e as crianças.

E, logo, os remadores intrépidos que outra vez se arrostavam com a morte, viram a galera a balouçar-se entre o vagalhão e ouviram o estralejar do cavername por sobre os clamores dos náufragos; depois, levantou-se um grande mar, e a lancha ficou para além dessa formidável montanha; e, quando o escarcéu descaiu para solevar a barca, um momento quieta nas fauces da voragem, os mareantes já não viram da galera senão o gume da quilha e à volta dela o bracejar dos agonizantes.

*

Um dos que ali morreram foi aquele que, dando a mão a Deolinda, lhe dissera: “Adeus!”

Era um homem de trinta anos, bem figurado, ares de fina raça e maneiras de cortesão, com palavras polidas e muito alheias das usuais nos homens que viandam por aquelas paragens. Não lhe sei o nome, nem que lho soubera o diria. Foi-lhe túmulo o mar, como se a sorte quisesse que o seu nome se não lesse em epitáfio. Sei que ele cumprira sentença de três anos em angola, porque aspirara às honras de ser rico, sem escrupulizar nos meios. Tinham-lhe dito que os seus conterrâneos mais nobilitados se haviam enriquecido trocando as riquezas de sã consciência por outras que levam ao Inferno, é verdade, mas pelas portas do Paraíso das regalias deste mundo. Via-os saborearem-se em sossego dos bens mal adquiridos, sem remorso que lhes desvelasse as noites, nem injúria da sociedade que lhes pusesse ferrete na testa; ao revés disso, eles eram a classe mais ao de cima, a gente chamada às honras, sem desconto na estupidez nem proterva reputação, quando à procedência dos seus bens de fortuna.

Nascimento ilustre, educação primorosa em letras e bastante descuidada em moral, pobreza repentina por efeito de demandas que o esbulharam do património, impaciência, ruins exemplos de infames prosperados — todas estas coisas se travaram de mão para o perderem. O seu crime foi associar-se desaproveitadamente com moedeiros falsos, prestando-se a servir de passador de notas no Brasil; no acto, porém, de fazer-se à vela para lá, de um porto do arquipélago açoriano, foi denunciado, preso e condenado.

De volta para Portugal, foi visto por Deolinda a bordo da galera de seu pai, que o tratava com desdém, se não desprezo. A filha do negreiro — negreiro no começo da vida mercantil, mas depois (bendita seja a civilização!) filantropo seguidor das leis humanitárias impostas pelo cruzeiro — soube do seu pai o crime do passageiro e não se compenetrou do racional horror de tamanho delito. Bem que o condenado não ousasse abeirar-se dos mercadores, e menos dela, Deolinda usou traças de conversar com ele uma fugitiva hora de noite serena, enquanto o pai, no seu camarim, formava esquadrões de algarismos, dos quais tirou a prova real de que os seus haveres excediam para muito os duzentos contos que lhe atribuíam.

Desde essa hora da noite estrelada em que ela ouvira palavras nunca ouvidas, acendeu-se no coração combustível da mulata o fogo que costuma purificar as culpas do homem amado, tanto monta que ele seja moedeiro falso, como homicida, quer negreiro, quer ladrão de encruzilhada.

E ele soube que era amado daquela mulher que havia de herdar muito ouro, e nem por isso lhe deu o galardão de Ter descido até ao pobre estigmatizado para sempre. Nem palavra de humildade agradecida, nem ânimo alvoroçado por esperança de ser, a um tempo, amado e rico. Deolinda ousou argui-lo de frio e desdenhoso. Ele explicou docemente a sua frialdade, dizendo que só havia no mundo uma mulher que não devia desprezá-lo, e uma só a quem ele devesse amar sem pejo nem temor de ser repelido.

— Quem é? — perguntou ela em sobressalto.

— É minha mãe. Vou procurá-la e pedir-lhe perdão, porque pus a minha ignomínia à cabeceira do seu leito de moribunda. Se a não mataram vergonhas e saudades, é porque Deus quer que eu a veja.

*

Quem sabe aí dizer o que Deus quer de nós?

O degredado, na volta da pátria, ali morreu naquele naufrágio, depois que ajudou a salvar as crianças, as mulheres e os anciãos, despedindo-se de todos com aquele sereno adeus que dissera à filha do Africano.

E Deolinda, quando soube que ele era um dos vinte e cinco cadáveres escalavrados na costa de Cabo Verde, chorou poucas lágrimas, e parecia querer romper no seio uma represa delas, que lhe deliam os estames da vida.

— Estamos pobres!—exclamava o pai.

— Temos de mais para o que havemos de viver — respondia ela com uma alegre serenidade.

— Porque hás-de tu morrer, minha filha? — volvia ele, já conformado com a desgraça.

— Porque senti há pouco um estalo no coração e cuidei que morria abafada. Passou esta ânsia, mas sei que hei-de morrer disto. Parece que vejo a sepultura aberta e que o frio do cadáver me trespassa.

O pai aconchegou-a ao seio, como quem aquece uma criança enregelada e soluçou:

— Ó meu Deus, levai-me minha filha quando eu me queixar da vossa vontade que me reduziu a esta pobreza!

II

Quando soou em Ruivães a nova de haver chegado ao Porto o Africano, com a filha, os homens ricos e pobres, da terra e de fora, contribuíram com mais ou menos para se lhes fazer uma espera de estrondo em Famalicão. Contrataram-se as bandas musicais mais em voga, ou mais na berra, como diziam os antigos. Parece que a frase seiscentista foi inventada particularmente para as orquestras daqueles sítios, as quais berram pelas suas goelas de metal, quando a paixão filarmónica as não exalta do berro ao mugido, do mugido ao urro e do urro ao bramido. Há ali trombetas que parecem Ter assistido ao arrasar-se d Jericó da Bíblia, e se reservam para trovejarem o horrendo sinal da ressurreição de Josafat.

Eram quatro as filarmónicas chamadas a festejarem a entrada de António Duque no conselho. A música de Landim, famosa por seis cornetas de chaves, que executavam valsas e peças teatrais, de modo que, se Ducis as ouvisse, diria que a ópera lírica balbuciara os seus primórdios entre as florestas druídicas. A banda de Fafião competia com a de Guinfões na substância das trompas e troada das caixas. A de Ruivães avantajava-se às três rivais na delicadeza das modas e sentimentalismo com que as charamelas respiravam o sopro daqueles músicos, cujas bochechas pareciam estar cheias de alma e castanhas assadas.

Sou um homem feliz e digno de inveja. Tenho saboreado os inocentes deleites que prodigalizam ao seu auditório as quatro bandas musicais de Landim, Fafião, Ruivães e Guinfões. Quando algum amigo vai alegrar o ermo de S. Miguel de Ceide, chamo logo a música mais delicada, a de Ruivães; principalmente se o amigo é de Lisboa, e frequentador de S. Carlos. O senhor visconde de Castilho e seu filho Eugénio são chamados a depor neste processo da imortalidade que vou instaurando ao figle e à requinta, principalmente à requinta de Ruivães. Não vi o senhor visconde chorar de prazer, mas observei que S. Ex.a estava comovido quando a requinta assobiava uns guinchos estridentes da Maria Cachucha.

Tomás Ribeiro, o poeta eminente, recolhia-se às vezes, não ao seu quarto a calafetar os ouvidos, mas ao íntimo de sua alma a fazer viveiro de inspirações. Eugénio de Castilho, o poeta das fantasias louras, quer a música de Ruivães lhe amolentasse a sensibilidade, quer os rouxinóis das ramarias lhe dessem invejas dos seus amores, fosse o que fosse, foi assaltado e vencido duma paixão.

Esta paixão tem uma história. Não sei se ele tenciona escrevê-la nas suas memórias póstumas; e assim, contá-la eu, é esbulhá-lo da novidade e primazia; desconfio, porém, que o meu hóspede e amigo desconhece a história daquela raparigaça de cabelos de ouro e ancas boleadas que deslumbrava a dúzia de moças requebradas que lhe apresentei na eira.

Chamava-se ela Amélia de Landim. Contava-se que tinha vindo para ali da roda dos expostos de Barcelos. Naturalmente, porque era linda e pobre, ou se vendera ou tinha sido vendida. Assim se disse; mas o certo foi que um filho de lavrador rico lhe dera o impulso no alto da ladeira, ao fundo da qual estava a voragem. Pode ser que a alma se abismasse e requeimasse no fogo dos infernos por onde resvala a mulher perdida. Pode ser. Do corpo é que ela não perdera a menor beleza; nem sequer o viço dos dezoitos anos.

Teria então vinte e cinco. Não era beleza peninsular. Aquele escarlate, os olhos azuis, os opulentos cabelos louros, a pujança das formas, a musculatura rosada e rija, a elegância congénita, o riso, a desenvoltura sem despejo, a graça lúbrica do trajo, enfim, a mulher, os arvoredos, a música de Ruivães, nomeadamente a requinta, e em meio de tudo isto um rapaz de vinte e dois anos, poeta porque é Castilho, e ardente porque é trigueiro, e apaixonado porque é ardente, eis aqui o porquê daqueles amores.

Castilho carecia de um confidente com ouvidos e crítica. A poesia não lhe deu para se confidenciar com os sobreiros da mata, nem me consta que ele se andasse a entalhar na cortiça iniciais e datas.

O seu confidente foi o morgado de Pereira, último senhor da honra e couro de Esmeriz, um rapaz de grande coração, que eu apresentei, no Limoeiro, a José Cardoso Vieira de Castro, que, em 5 de Outubro do ano passado, morreu no degredo, para onde o acompanhou aquele morgado. Este neto dos Ferreiras Eças e dos remotos castelões de Riba de Ave é hoje, em Cassengo, na África, negociante de café, de marfim, de gomas, de farinhas, etc. Depois de haver bandarreado vida de fausto, com muitas ilusões perdidas, mas pouquíssimas lágrimas, porque a desgraça lhe anda sempre a morder os tacões das botas, em dia de fiéis defuntos ajoelhava, e então chorava, no cemitério de Luanda, defronte do cômodo onde jaz Vieira de Castro, o mais sublime desgraçado que os homens injuriaram, desde que o sol de Deus aquece condições de feras dentro dos covis que se chamam arcas do peito.

Ó meu caro morgado, estas linhas não chegam ao seu sertão, nem eu desejo que as leia, para lhe não darem rebates de saudades daquelas noites de 1866, quando você e mais o seu gentil confidente, com intervenção da Lua, falavam da Amélia de Landim, enquanto os meus queridos visconde de Castilho e Tomás Ribeiro se embelezavam nas trovas da Custódia da Feira, que seria Hipatias, se nascesse na Grécia, ou Corina, se os amavios de Itália lhe coassem no seio coisas mais limpas do que as coplas que a trovadora do Minho tirava do estômago em perfumes de vinho verde.

Não sei como Eugénio de Castilho saiu de S. Miguel de Ceide, pelo que respeita à alma. Lá dizia-se que Amélia, a doida, veementemente apaixonada, iria depós ele. Eu receei o lanço de fino amor, donde adviriam ao meu hóspede agros desgostos. Se os de Lisboa lha vissem, quantos rivais, que mordentíssimos ciúmes! Aquilo era mulher para destinos extravagantes. Que a sentassem numa frisa de S. Carlos! Os binóculos assestados nela seriam tantos como as paixões, e ao outro dia a enjeitada de Landim, se não fizesse ministérios, havia de fazer muito amanuense de secretaria e dar vazão ao estanque de muito bacharel.

Não foi: estava-lhe reservado menos brilhante mas mais pacífico destino.

Um dia, apareceu em Landim um homem de Barcelos, procurando a mulher que trouxera da roda dos expostos, em 1851, uma menina chamada Amélia. Vivia ainda a ama que a criara. Foi chamada a exposta à presença do homem que se dizia portador de uma fausta nova.

Chegou Amélia, e recebeu do velho desconhecido o tratamento de excelência. Cuidou-se ela ludíbrio do sujeito e riu-se às casquinadas para lhe agorentar o prazer da zombaria.

No entanto, o velho, composto gravemente o aspecto, disse-lhe:

— Minha senhora, não é para gargalhadas a missão que venho cumprir...

— Pois V. S.a está a dar-me excelência! — volveu Amélia.

— Dou-lhe o tratamento de seu pai e seus avós. Seu pai, o Sr. Álvaro de Mendanha, antiquíssimo fidalgo e representante dos alcaides-mores de Barcelos, faleceu há três dias com testamento, em que declara que houvera de uma sua parenta, àquele tempo freira no mosteiro de Vairão, uma filha, que por justos motivos expusera, assinalando-a com o nome e outras circunstâncias. Acrescenta que tem notícia de existir em Landim essa menina, que ele reconhece sua filha, e a institui sua universal herdeira. É V. Ex.a, portanto, a herdeira do Sr. Álvaro de Mendanha.

A ama abriu a boca e despediu um ah surdo, que vinha da garganta afogada pelo júbilo.

Amélia quedou-se imóvel, pensativa, triste, e murmurou:

— Se meu pai sabia que eu estava aqui, porque me não levou para a sua companhia?

— Respondo, minha senhora. Quando V.Ex.ª tinha dezoito anos, seu pai indagou e descobriu que a Sr.ª D. Amélia estava aqui; porém, ao mesmo tempo, exactas ou inexactas informações lhe asseveraram que a senhora levava uma vida péssima, desonrada e cheia de opróbrio. Receou, com algum fundamento, o Sr. Álvaro de Mendanha que o aviltamento de sua filha desluzisse o lustre do seu nome, e por isso abafou o coração e o remorso debaixo do peso da dignidade, ou recuou diante da irrisão do mundo...

— Mas... — interrompeu Amélia — se eu estava perdida, foi porque ele me atirou ao mundo e à sorte sem amparo de ninguém...

— Tem razão, minha senhora, e foi essa mesma a razão que moveu seu pai a deixar-lhe todos os seus bens.

— Mas eu antes queria conhecê-lo es ser pobre, que ser rica por morte dele.

— Já que não é remediável essa nobre dor — tornou o testamento de Mendanha — receba V. Ex.a a suprema prova do arrependimento de seu pai. Neste legado dos bens está o legado do coração. Seja de hoje em diante V. Ex.a digna dele, já que desde esta hora os seus apelidos são dos mais ilustres desta província.

Neste mesmo dia, D. Amélia de Mendanha saiu para Barcelos, onde entrou a ocultas para o palacete de seu pai, a fim de trajar luto e aparecer convenientemente aos numerosos parentes que confluíam a desanojá-la.

Os bens eram grandes em terras e foros. Casa antiga e sólida. Alfaias do tempo de D. João V a dourarem os salões de tecto apainelado, com reposteiros brasonados. Na parte mais velha do edifício, cadeiras repregadas de bronze, contadores atauxiados de prata e enxadrezados a cores, guadamecins nas paredes, amplas mesas de pés torneados, leitos rendilhados com as armas dos Mendanhas na espalda, bufetes, jarras da Índia com as iniciais de um governador de Chaul, oriundo de Mendanha, retratos de família, a começarem em D. Gil Gutierres de Mendanha, solarengo de Barcelos. Em meio disto, e senhora de tudo isto, aquela Amélia de Landim, ó meu amigo Eugénio de Castilho! Aquela Amélia, que sarabandeava a Cana verde, o Leva água o regadinho, e descantava umas Torradas com manteiga que não há aí mais que se diga.

— Onde estava ela?

Perguntavam entre si as primas e os primos.

E diziam exactamente onde ela estivera e de que infectos pauis se levantara com asas de ouro aquela borboleta saída de tão feio casulo! Relatavam-se os pormenores da sua desgraçada vida, encareciam-se, como se fosse preciso, as desonestidades... e visitavam-na.

Volvidos alguns meses, três padres, à compita, lhe saíram a propor três casamentos: rapazes, parentes, abastados ou arruinados, mas fidalgos e gentilíssimos de suas pessoas.

Rejeitou-os.

Um dia, saiu D. Amélia de Barcelos, na sua sege, apeou em Famalicão, saiu a pé, e parou perto de Landim, à porta de um lavrador. Procurou por um homem que dava pelo nome de António do Couto de Baixo.

Saiu a falar-lhe no quinteiro, ou alpendre, um sujeito de trinta anos, boa figura de campônio, estupidez em barda por todo aquele carão.

— António — disse ela —, conheces-me?

— A senhora, a senhora.... acho que é... — tartamudeou o lavrador agadanhando no occipital.

— Sou a Amélia de Landim. Quando eu tinha 15 anos, amei-te. Era então inocente. Esperava ser tua mulher, e perdi-me. Teu pai não te quis deixar casar comigo, porque eu era pobre. Sei que sofreste, e quiseste fugir para o Brasil a fim de ganhares dinheiro, para depois me receberes. Eu não te deixei ir. Sabes qual foi a minha vida depois. Hoje estou rica, ainda te amo, porque foste a origem da minha desventura. Queres casar comigo? Responde.

— Quero.

— Então segue-me.

— Deixa-me ir dizer a minha mãe, que essa queria que eu casasse contigo.

— Podes dizê-lo a teu pai, que esse também quer agora.

E, daí a momentos, o pai e a mãe saíram ao alpendre, a recebê-la, e levaram-na para o sobrado entre carícias.

Aí pernoitou.

O velho nunca pôde desarticular os queixos da apostura do espasmo, desde que D. Amélia principiou a contar por milhares de alqueires de milho o rendimento de sua casa.

Ao outro dia, que era Domingo, leram-se os primeiros banhos, e, com dispensa dos imediatos, casaram-se na Igreja de Santa Maria de Abade.

*

Mas a que propósito caiu este conto, que não tem que ver com Aquela Casa Triste!...

Ah! Foi pôr amor da requinta da música de Ruivães, que está agora silvando na Barca da Trofa, à espera de António Duque, o Africano.

III

As quatro músicas reunidas na Ponte da Trofa, Depois de espavorirem os passarinhos, que, ao descer da tarde, se embocavam nas ramarias do rio Ave, retrocederam, porque o Duque não chegou. Os promotores da festa, mandando sobraçar os feixes de foguetes de três estouros, disseram entre si que o Africano, faltando à hora da espera triunfal, bem demonstrava ser filho do capador da Lamela. Outro era de parecer que o Duque, tratando de resto as pessoas que o obsequiavam, dava a perceber que não queria amigos... do seu dinheiro.

O Africano havia escrito de Lisboa ao seu feitor, anunciando-lhe o dia em que tencionava chegar à sua casa de Ruivães, com recomendação de lhe ter preparados os leitos e assoldadada uma boa criada para o quarto de sua filha.

Divulgou o feitor a nova, sem propalar a do naufrágio, porque a não sabia. Se o homem lesse gazetas, informaria os seus vizinhos do desastre de seu amo, da riqueza engolida pelas goelas da tormenta, da quase pobreza em que ficara o náufrago, e, enfim, das piedosas lástimas com que os periódicos deploravam a catástrofe de duzentos contos granjeados honestamente. Se isto se soubesse em Ruivães, não haveria quem se afanasse em busca de músicas, competindo entre si os obsequiadores sobre qual arranjaria aquela que maiores gritos fazia dar à fama pelos buracos da requinta. Quando às vinte e quatro dúzias de foguetes de três estouros que os rapazinhos de Ruivães tinham carregado até à Ponte da Trofa, é bem de ver que ninguém se abalançaria a tamanho estrondo de generosidade, se soubesse que o Duque não vinha em circunstâncias de chorar de ternura abraçado ao peito magnânimo donde rabeavam tantos foguetes.

No dia marcado ao feitor, devia o Africano chegar à Ponte, onde era esperado; porém, apeando na estalagem de Carriça, légua e meia distante, ouviu dizer que na Trofa estava o poder do mundo, com quatro músicas e muito fogo do ar, à espera de um brasileiro que vinha da África.

Ouvido isto, Duque disse ao boleeiro que recolhesse a parelha da sege, porque resolvera sair de madrugada.

Depois, foi contar à filha o que ouvira e o desgosto que queria evitar no encontro de festas, tão desapropositadas da tristeza de ambos.

Deolinda, prostrada no leito, aprovou a resolução do pai, queixando-se de agonias, sufocações e desmaios do coração, que mal a deixavam seguir a jornada.

Passou o pai o restante do dia e parte da noite à beira da cama, inventando com santo esforço alegrias que divertissem Deolinda da concentração que uma ou outra lágrima desafogava por momentos. Alegrias!...

Que heroísmos cabem em peito de pai! Quantos há que são supliciados por esse amor que parece vir da mão de Deus! Que maiores angústias tem esta vida, se compararmos todas à daquele pai que ali estava ao pé da filha que os médicos de Lisboa lhe haviam auscultado e considerado perdida!

Mas ele, acreditando na ciência que tem a certeza de ser lesão mortal a hipertrofia do coração, afigurava-se-lhe que a Providência o não castigaria tão severamente, fazendo-o sobreviver ao perdimento dos bens, para depois amparar em seus braços a filha agonizante. Nunca discutira entre si se Deus era preciso, ou que parte lhe coubesse no regimento deste mundo. São meditações estas que, em África, passam rápidas como o siroco, mas não abrasam, nem obrigam as caravanas a curvar o corpo até bater com as faces nos areais. Os que por ali veniagam, à imitação do pai de Deolinda pensam, se acaso pensam, que a justiça do Céu tem alçada em mais amenos climas e descura saber se lá o homem tem mais ou menos semelhança com o tigre. Porém, depois que o céu se azula e estrela, aquém da linha, e a brisa refrigera o sangue, os expatriados, maiormente os ricos, não recusam crer que há Deus, dadas certas condições; fazem-lhe o obséquio de o conjecturar sentado à mão direita do Padre Eterno e absorvido na perenal glória de sua divindade, sem entender nas trivialidades deste globo, mais pequeno que os milhares de mundos que lhe circunvalam à ourela do trono. Esta filosofia é grandiosa e barata. Cansam-se os mestres em a propagar, e, todavia, qualquer sandeu bem engraxado a tem espontânea na alma, como tortulho em lodaçal, sem que os filósofos lha inculquem. Estudem Ario, Espinosa, Renan e outros, afora o meu bacalhoeiro, que tem dentro de si três filósofos, um pórtico, um liceu, dentro de si, repito, porque o si, o ele, são as cédulas bancárias, a burra, que tem um nome de predestinação para aviso e escarmento de sábios que se burrificam, não querendo acabar de entender que saber, honras, regalos, respeitos, inviolabilidades, vem tudo da burra.

Sucede, porém, uma vez ou outra, encrespar-se uma onda, que logo se arqueia em vagalhão e se abre em voragem. Aí resvala a riqueza do homem, que se arrodelara com ela das farpas do mundo. Os brilhantes impenetráveis do arnês caíram e rolam na profundidade do abismo. Aqui está o homem a pensar em Deus, porque está pobre, está sozinho, já se não vê ídolo dos outros e divindade de si próprio. A desgraça, que traz sempre consigo um anjo vestido no Céu com uma luz que arde inextinguível no túmulo de Sílvio Pélico, assenta-se ao lado do infeliz e começa por lhe dizer:

“Que eram esses bens da vida, se tão depressa te reduziste a esta pobreza? Olha tu para as estrelas que cintilam serenamente sobre a voragem que tos devorou, e pede ao meu anjo que te diga o que há destes milhões de mundos para além!”

Ah! Quando esta voz repercute na consciência de um pai, e ao mesmo tempo a asa da morte roça e tinge de rubor febril a face de sua filha, então sim, Deus entreluz na treva, a alma crê, mas crê para pedir de mãos erguidas. Isto é fé, é fé que relampagueia; mas eu não sei se alguma hora a razão dos grandes desgraçados foi alumiada por esse relâmpago.

Pelo que, assim orava o Africano, às quatro horas da manhã, em pé, defronte do leito da filha adormecida.

*

Entraram na casa apalaçada de Ruivães, inesperadamente.

Quando o souberam os vizinhos, um correu à igreja a repicar o sino e a sineta, outro rompeu as nuvens com girândolas, a orquestra da terra, que andava dispersa a sachar os milharais, confluiu de galope a casa do mestre, escodeou as mãos no regato, travou dos metais e prorrompeu estrìdulamente à porta do Africano, tocando o hino de 20, o hino do Sr. Costa Cabral, o hino da Sr.a Maria da Fonte, o hino do Sr. Duque de Saldanha e o do Santo Padre Pio IX.

O Africano saiu à janela com sua filha, cortejou o público, assistiu a das mazurcas tocadas com variações de requinta e pediu vênia para recolher-se, em razão de sua filha se sentir mal com o sol que lhe dava no rosto.

O público murmurou, trejeitando uns momos significativos de menos respeito.

O feitor foi dizer a seu amo que era preciso dar de beber aos músicos e receber a visita dos parentes e mais lavradores.

O Duque respondeu:

— Vá aí fora ao pátio e diga bem alto que eu estou pobre.

— Pobre! — acudiu o feitor casquinando um riso perspicaz. — Bem me fio eu nisso! V. S.a está a mangar!...

— Faça o que lhe digo — volveu severamente o amo.

E, de facto, o criado foi ao pátio, chamou a si os lavradores mais grados, o mestre da música, o boticário de Delães, e o boticário de Landim, e o regedor de Vermoim, e disse-lhes:

— O Ilustríssimo Senhor Duque manda-me dizer a vossemecês que está pobre.

Os circunstantes olharam uns para os outros, embrutecidos pelo mesmo choque. Um deles, porém, que eu presumo fosse um dos dois boticários, deu aos beiços um jeito de quem vai orar. Encararam-no todos, e o boticário tirou do peito estas duas palavras:

— Ora bolas!

E saiu do pátio.

Tenho esquadrinhado o melhor sentido daquelas palavras do ático farmacêutico. Consultei filólogos que mais convizinham deste sujeito, e apenas colhi que as expressões <> montavam tanto como dizer: ora bolas.

Eu porém, dou mais lata interpretação ao epifonema, sabendo que todo aquele gentio boloirou(*) para casa.

*

O Africano, passados seis meses, procurou um brasileiro rico de Ninães, recentemente chegado, e disse-lhe:

— Sei que o senhor está resolvido a edificar uma casa. Se quer poupar-se a grandes despesas, incómodos e desgostos, compre-me a minha. Vendo-lha metade do que me custou, com uma condição: se eu e minha filha não tivermos morrido dentro de seis meses, serei obrigado a dar-lhe a casa no fim deste prazo; mas, nestes primeiros seis meses, o senhor não poderá ocupá-la.

Pediu o brasileiro explicações de tão estranha cláusula.

O Duque respondeu:

— Minha filha está mortalmente enferma. Tem um aneurisma. Eu também me sinto no termo da vida. Vou morrendo a cada hora que a doença me deixa ver a morte na face de minha filha. Não hei-de sobreviver-lhe, se Deus me não fizer o benefício de me levar adiante.

Consolou-o o brasileiro conforme soube, aceitou a proposta e assinou as escrituras no dia seguinte, entregando ao vendedor alguns contos de réis.

Pagou o Africano as dívidas contraídas em Cabo Verde, encerrou-se na antecâmara do quarto de sua filha, e deu-se pressa em agravar os seus padecimentos à custa de se remirar no seu infortúnio, de cortar bem dentro as fibras ainda rijas do coração antecipando a imagem da filha morta, repulsando todo o alívio da esperança, furtando-se a todo o desafogo, matando-se com a lentidão de um desvairado que se escavernasse num antro, esperando sem terror a entrada da fera e ansiando-a para se lhe rasgar nas presas.

Ao quinto mês do contrato, os padecimentos de Deolinda tocaram nos extremos sintomas da morte. As hemorragias amiudaram-se. Estava já entorpecida, imóvel, salvo quando arrancava do seio as aspirações, que revelavam ao través das coberturas da cama os arquejos do coração.

Nesta conjuntura, o pai estabeleceu entre si e Deus uma convenção que era já delírio precursor da demência ou da morte: “Se ela hoje morrer, ou Deus me mata amanhã ou, quando ela estiver sepultada, eu me matarei.”

O pároco, que sacramentara Deolinda, ouviu esta vozes e disse aos botões da sua batina: “Este homem está no Inferno.”

Quando ficou sozinha, Deolinda chamou o pai e disse-lhe:

— Não quero ir desta vida sem dizer-lhe um segredo com que não devo morrer. No meu baú está uma caixinha de folha, que o mar lançou à praia, depois do naufrágio. Levaram-me em Cabo Verde esta caixinha, cuidando um marujo que fosse minha. Abri-a, e vi que encerrava cartas de uma mãe muito extremosa para seu filho. O filho era aquele rapaz que vinha do degredo, e salvou os velhos e as crianças antes de morrer. A mãe, que lhe escrevia, diz-lhe em algumas cartas que tem sentido as angústias da fome. Chama-se ela... Meu pai lhe verá o nome e a terra onde vivia... Se tiver morrido, feliz dela. Se ainda viver, meu pai, manda-lhe como esmola o que ficar do meu espólio e diga-lhe que eu... lhe amei o seu infeliz filho... até morrer... por ele!...

— Cumprirei a tua vontade, minha filha — respondeu o pai.

*

Ditas aquelas palavras, o Africano encarou na filha com a fixidez torva de um amaurótico. Depois, como se sentisse dobrar sobre os joelhos, saiu da alcova, atirou-se como ébrio para o leito, e murmurou estas vozes:

— Meu Deus! Morro por amor de minha filha, e ela... morre por outro... Bem podia consentir a desgraça que eu morresse sem este desengano... Vinte anos a adorar esta filha, um ano a agonizar ao pé da sua agonia... e afinal ouço-lhe dizer que morre por um homem... que não era seu pai...

Escabujou em ânsias muito aflitivas, pedindo a Deus com dilacerante esforço que lhe abreviasse o transe. Rompeu em soluços; e, sufocado pelo choro ou por um golfo de sangue, arrancou da vida num estremecimento instantâneo.

Deolinda ouviu o murmúrio rouco desta convulsão da morte, e voltou a face para onde supunha que estava o pai.

Chamou-o. Sentou-se no leito com supremo esforço. Tangeu a campainha. Acudiu a criada, a quem ela pediu que lhe desse o seu vestido. Foi nos braços da criada à sala contígua, onde o pai tinha o seu leito. Dobrou-se sobre o peito dele, colhendo-lhe nos lábios um hálito ainda quente, como vestígio da alma que passara queimando as fibras por onde abrira a fuga do seu inferno.

— Morto! — bradou ela, golfando-lhe no seio o derradeiro sangue.

Transportada ao canapé fronteiro, ali se quedou empedernida. Não houve rogos que a tirassem de lá. Viu amortalhar o cadáver de seu pai, viu-o sair no esquife para ser depositado na capela da casa, ouviu o último dobre da sepultura; e então, comprimindo o seio esquerdo com ambas as mãos, invocou a compaixão da Virgem Santíssima e expirou.

*

Lá está em cima aquela casa triste... O brasileiro que a comprou não a quis habitar. As janelas nunca mais se abriram. O vestido que despiram do cadáver de Deolinda pende ainda da espalda do canapé em que ela morreu.


Camilo Castelo Branco, In Noites de Insónia


21/06/2007

O Comendador


É tão fatalmente séria a vida que o sofrê-la, sem misturar
a tragédia com a comédia, seria impossível.

H. Heine, Reisebilder


A D. António da Costa


Em testemunho da regalada leitura que V. Ex. a me deu com o seu MINHO, lhe ofereço uma das novelas de cá. O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família. A paisagem sugeriu-lhe, meu caro poeta, as prosas floridas do ridente livro. O seu estilo tem a macia luz do luar das noites estivas, e o cadencioso murmúrio das ribeiras onde o céu estrelado se espelha.

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex. a perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex. a o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex. a, afora o mais que aformoseia o seu livro, os encarecimentos, as lisonjas, as feiti­çarias da arte com que V. Ex. a disputa primores à natureza.

Mas o que D. António da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer - os costumes, o viver que por aqui palpita no povoa­do destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila.

Ah! meu amigo! Romances, tecidos de casos cândidos e inocentes, apenas os fazem por aqui os pássaros em Abril quando urdem e afofam os seus ninhos. O restante dos animais não ovíparos vista-mos V. Ex. a no Catarro ou no estabelecimento da famosa senhora Cecília Fernandes, da Travessa de Santa Justa, que eu lhos farei representar ao vivo no próprio coração do Minho - entre Fafião e S. João do Calendário - as cenas contemporâneas da fina Baixa e piores.

A peste, que infeccionou os costumes destas aldeias, não sei decidir se veio das cidades para aqui, se foi daqui para lá. Sá de Mi­randa considerou isto tudo estragado quando viu



correr pardaus
Por Cabeceiras de Basto.

Imagine V. Ex. a o que terá feito o esmeril do progresso a descodear e a brunir este gentio há três séculos! Não faz ideia, meu amigo! Até a fotografia, abarracada nas cabeças dos conce­lhos, tem feito colaborar o sol e o cloreto de prata na relaxação dos costumes. Os «conversados» permutam retratos, e beijam-se reciprocamente em papel-cartão, aguçando o instinto da natureza bruta. Verdade é que os pastores minhotos, há trezentos anos, já traziam ao pescoço os retratos das pastoras pintados em madeira, como se depreende destes versos de Diogo Bernardes, o rouxinol do Lima:



Pendurei num salgueiro a minha lira,
Ouvi-la ao som do vento é uma mágoa,
Em lugar de tanger geme e suspira.
Marília que pintada numa tábua
Aqui no seio trago, também chora;
Seus olhos dão-me fogo, e os meus dão-lhe água.



Não obstante, o fogo, que acendrava a paixão nos peitos da­queles Bieitos e Melibeus das éclogas, era uma espécie de lume sacro que velava a virgindade... dos retratos pintados em tábua. Porquanto, deve V. Ex. a lembrar-se que os pegureiros do Minho tais fornalhas faulavam do peito que os vizinhos iam lá prover-se de lume para cozinhar a ceia, como se colige das lástimas deste pastor do canoro Bernardes:



A viva chama aquele intenso ardor
Que brando sinto já pelo costume,
De noite de si dá tal resplandor
Que mil pastores vem a buscar lume(1) .


É verdadeiro e bonito. Os mestres da vernaculidade mandam que a gente leia isto, e mais os outros líricos seiscentistas - caldeirada de favas clássicas com as quais o entendimento se opila e encrua; mas a língua cresce.

Como quer que seja, entre os retratos em tábua quais os pintava S. Lucas, e o retrato em fotografia aperfeiçoado por Fox Talbot, mede a distância que etnologicamente separa as Nizes e Filis de Diogo Bernardes destas Joanas e Tomásias que hão-de florejar nas Novelas do Minho.

Ouço dizer que a via férrea, sulcando o seio virginal desta província, afugentou com o estridor das suas asas os pardais, a mala-posta e a Probidade.

É possível. Os caixeiros do Porto, sadios e sanguíneos, com as suas luvas amarelas, e todo o verniz, que lhes coube em sorte, nos pés, entraram Minho dentro, e derramaram a dissolvente chalaça nas aldeias. Por outro lado, a raça turdetana de Braga fechou pelo norte a barreira à inocência espavorida. A cidade santa de nossos pais e dos cónegos, a esposa de Fr. Bartolomeu dos Mártires, Braga despeitorou-se, desnalgou-se, sofraldou as saias e mostrou a liga sobre o joelho desde que um jornal da terra lhe chamou segunda Paris. Eu não reparo na desproporção do confronto, quando ali me vejo no Café Faria , a sentir-me arquejar em uma das arté­rias do grande corpo da civilização chamada Europa, como lindamente diz o sr. Vaz de Freitas na sua Guia do Viajante em Braga, por seis vinténs. Tudo me leva à persuasão de que me acho na segunda Paris, quando a Guia me assevera com exactidão, ainda não contraditada pela inveja, que Braga encerra nos seus muros sete procuradores de causas, e que aí (pág. 28) os barbeiros superabundam. Fazia-se ainda pelos modos uma terceira Paris com a super­fluidade dos barbeiros!

A categoria modesta, em que o jornalista afidalgou a sua terra, justifica-se principalmente nas estalagens. Aí, é aí onde o viajante se sente saturado de Paris, a ponto de, cuidando que acorda alvoroçado pelas campainhas eléctricas do Grande Hotel no Boulevard des Capucines, achar-se em Braga, no hotel Aveirense, largo dos Penedos. Avantajam-se ainda às hospedarias parisienses, no ponto de vista zoológico, os hotéis da princesa do Minho. Os forasteiros dados a pesquisas de anatomia comparada, podem, mediante uma gratificação razoável, passar as suas noites em vigílias úteis estudando insectos sem queixos e sem asas, de membros articulados, consoante a classificação de Cuvier. Ali se lhes oferecem exemplares em barda da pulga braguês ( Pulex bracharensis ). Convencer-se-á que as seis pernas deste parasita são desiguais, o que assim se faz mister para o salto. Não duvidará que ele tem o bico alongado com duas cerdas, e guarnecido na base de dois palpos escamosos. Se reparar bem nas pulgas maiores, dissipará suspeitas de que têm asas, que realmente não têm as do Hotel Leão d'ouro nem as do Hotel transmontano . Encontram-se nestes dois estabelecimentos larvas das mesmas, cilíndricas e sem pernas. O olho ar­mado pode observá-las a mudarem-se em ninfas, que não são exactamente umas de quem cantava Garrett:

As ninfas invoquei do Tejo ameno
Que em mim criassem novo engenho ardente
Etc.

C AM . C . IV.


Nem as outras de quem dizia o épico:

Caem as ninfas, lançam das secretas
Entranhas ardentíssimos suspiros...


L US . Cant. IX.



Verdade é que o acessório das secretas, inclusas no verso de Camões, deixa supor que ele quisesse falar das ninfas dos hotéis de Braga. Que estude o caso o sr. visconde de Juromenha, e não o desampare a Academia Real das Ciências.

Nos hotéis de Braga, finalmente, dão-se as mãos o espavento das modernas indústrias, as refinações da decoração, a obra-prima de marcenaria e vidraria, - um luxo levantino, como em recâma­ras de Nababos - e sobretudo a higiene expansiva de saúde a dar cambalhotas na brancura virginal dos lençóis; e à mistura com tu­do isto ressalta não sei quê de arqueológico naqueles quartos! A gente, quando vai deitar-se, imagina que naquela mesma cama dormiu na noite passada S. Pedro de Rates ou Gonçalo Mendes da Maia.

Por fora das estalagens ainda há proeminentíssimas feições de Paris em Braga. O Jardim , por exemplo. V. Ex. a já esteve no jardim? Impressionaram-no com certeza uns rumores, «ora sufocados, ora estrepitosos» que ali se escutam nos domingos de tarde? Também a mim. Não pôde soletrar em sons articulados aquele confuso borborinho? Nem eu. Quem explica o fenómeno, trivial nos Champs-Elysées e no parc de Monceau , é o já citado sr. Vaz de Freitas na sua Guia do viajante em Braga, por seis vin­téns, pág. 41. A coisa é isto: O chilrear das crianças, o devanear das poetisas, o quei­xume sonolento dos poetas, a conversação pesada e metálica dos proprietários, todos estes murmúrios vagos ou alegres, sufocados ou estrepitosos (hic) infundem uma vida nova e excepcional ao passeio, que o tornam atraente ou deleitoso. Théophile Gautier, o Benvenuto Cellini da prosa francesa, não rendilharia com tão subtis filigranas de frase a explicação dos ruídos babilónicos do Luxemburg . Donde se colhe que Braga tem poetisas que exibem delirantemente os seus devaneios no jardim, ao mesmo tempo que os poetas se queixam sonolentos. Paris, tal qual. Note V. Ex. a o contraste no sexo destas pessoas que bebem na Castália: elas devaneiam , apostrofando a gritos o arrebol da tarde e a brisa que cicia e se perfuma nas cilindras; eles, cabeceando marasmados pelo ópio do narguilé , queixam-se sonolentos, porque não os deixam dormir as poetisas. São homens gastos, estafados, roués. Saíram do café Faria intoxicados do absinto de Espronceda, de Nerval, de Larra e de Musset. Entraram no jardim com o cérebro anestesiado, querem dormir; e elas, à imitação do femeaço da Trácia, projectam escalavrar aqueles Orfeus dormi­nhocos, Márcias que elas, filhas de Apolo, querem esfolar. Segun­da Paris.

Aí vê V. Ex. a a razão dos «estrépitos» explicada na Guia. Pareciam outra coisa pior.

Eu, afora isto, conheço outras analogias entre Braga e Paris, que estudei, sem subsídio - entendamo-nos. Há três meses senti-me ali adoecer da nevropatia, que é moléstia endémica dos gran­des centros de população, onde os deleites requintam, e o fluido nervoso se desperdiça - o que sucede em Londres, em Braga, em New-York, em Paris, quando a gente desconhece as leis da rela­tividade dos prazeres, como diz o professor escocês Bain. Confiando nos anti-histéricos, fui comprar à botica do sr. Pipa, na rua do Souto, um frasco de cápsulas de éter-sulfúrico, e preparava-me para pagá-las com 300 rs. (um fr e 50 cênt.) - preço corrente no Porto - quando o praticante da farmácia me mandou entender o preço da droga com mais cinco tostões, e mostrou-me que o sinal aritmético de um franco estava emendado em dois. Ainda assim, observei-lhe que dois francos cambiados em moeda portuguesa eram quatrocentos réis. O interlocutor refutou triunfantemente a minha objecção, alegando que em Braga dois francos eram oito tostões.

Esta fisionomia da botica bracarense dá feições à terra, não de 2. a , mas de 1. a Paris. A 2. a é a outra que os geó­grafos ignaros nos inculcam 1. a . Corrija-se.

Dou de barato que as referidas poetisas do jardim consumam cápsulas de súlfur copiosamente nas suas eterizações, e que os poetas sonolentos se despertem com elas, não querendo usar economicamente das cócegas; deve-se talvez às condições especiais das musas bracarenses o preço superlativo dos anti-espasmódicos: assim mesmo, Paris 2. a não pode arbitrariamente dobrar o valor da moeda de Paris 1. a , nos géneros que importa, ao mesmo passo que, no valor legal da moeda francesa, exporta para França os seus chapéus, os seus cavaquinhos e as suas frigideiras.

Aqui tem, pois, D. António da Costa, o foco de progresso que esparge raios de luz para as aldeias setentrionais do Minho, enquanto o Porto alastra no Sul os caixeiros contaminadores, que levam consigo a corrupção dos romances e as tentações do cabelo untuoso com a risca ao meio da cabeça, lasciva como o dorso de um gato de Angora.

É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas. Há treze anos que apeguei por esse Minho, em cata do bálsamo dos pi­nheirais e das fragrâncias das almas inocentes. Diziam-me que a rusticidade era o derradeiro baluarte da pureza, e que os lavradores do Minho, nivelados com os saloios da Estremadura, eram os cândidos pastores da Arcádia comparados aos malandrins de Gomorra. Um dos meus estudos, no intuito de me habilitar para o con­fronto do saloio com o minhoto - da raça sarracena com a galega - é esta historinha que lhe dedico, meu nobre amigo.


De Coimbra, aos 15 de Outubro de 1875.


Primeira parte



Seis de Janeiro de 1832. Manhã chuvosa e frigidíssima. O zimbro rufava nas frestas envidraçadas da igreja de Santa Maria de Abade. Ringiam as carvalheiras varejadas pelo norte. Ao arraiar do dia, a devota dos Três Reis Magos, a tia Bernabé, tecedeira, - viúva do operário Bernabé, que lhe deixara o nome e uma caba­na com sua horta - ergueu-se, foi à residência paroquial pedir a chave da igreja; e, sobraçando a bassoura de giesta para barrer o chão, e a almotolia para prover as lâmpadas, entrou no adro. Ao passar em frente da porta principal, ajoelhou, persignou-se e orou. Neste momento, ouviu o vagir convulso e ríspido de criança. Voltou o rosto para o lado donde lhe parecia sair aquele choro. Não viu alguém. Espantou-se.

- Jesus! Santo Nome de Jesus! Isto é coisa ruim! - exclamou ela, pousando no degrau da porta a vasilha e a bassoura.

E o chorar da criança cessou.

A tia Bernabé debruçou-se na parede baixa que murava o adro, e viu entre as grossas raízes de uma oliveira secular um embrulho de baeta azul, donde saiu um vagido. Saltou a parede, agachou-se à raiz da árvore, e pegou da criança, aconchegando-a do calor do peito e bafejando-a no rosto azulado do frio. A baeta estava enso­pada da chuva que escorria da ramaria da oliveira. Tirou-lha apressadamente, envolveu o menino no avental, e agasalhou-o entre o seio e o farto jaqué de picotilho. Depois, desandou para a residência, e mandou dizer ao abade que topara no adro uma criança, que parecia estar a despedir.

- Pois que quer ela então? - perguntou o abade, expondo uma parte do nariz e metade do olho esquerdo à frialdade do ar. - Que tenho eu com isso? Que a leve a Barcelos. Aqui não há roda de enjeitados.

A criada do abade deu o recado.

- Torne lá, sr.ª Joana - replicou a tia Bernabé friccionando os pés álgidos do recém-nascido com a barra da sua saia de sarago­ça - e diga ao sr. padre que este menino, se morrer sem baptismo, é um anjinho do céu que se perde. O sr. abade há-de saber isto melhor que eu...

A criada repetiu a réplica, e ajuntou:

- A tia Bernabé diz bem. - Salte daí p'ra fora, seu calaceiro! - E deu-lhe uma sonora palmada na nádega esquerda. - Um rapaz de vinte e sete anos está aí enteiriçado como um velho! Upa!

- Está quieta, Joana, olha que me fazes vento!

E ela puxou-lhe pelo pé direito, que excedia o volume de três pés; e ele, com o outro, despedido à toa, sacou-lhe do baixo ventre um som timpânico de odre cheio.

- T'arrenego! - bradou ela, recuando com as mãos postas na parte molestada. - Você atira? Tem má manha!

- Cheguei-te? - volveu ele risonho, embiocando-se na felpuda coberta, e encostando-se à almofada de chita que estofava o es­paldar do leito.

- Que brincadeira! - queixou-se a moçoila arrufada - podia-me matar com o couce, se me dá aqui no coração!...

E punha a mão no estômago.

- Isso não é nada, rapariga!... Olha se amuas!

- Nada, não é... não que a barriga é minha...

- Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete, que tem a friei­ra aberta!...

- Então dissesse-o... - tornou ela com semblante ajeitado à reconciliação. - Salte daí!... vá baptizar o enjeitado; que, se ele morre sem baptismo, verá que ingranzéu se levanta na freguesia. Bem basta o que já dizem...

- Calça-me as meias de lã; mas tem cuidado que não se despe­gue o emplasto da frieira.

E, enquanto a moça com jeitosa meiguice lhe encanudava nas pernas cerdosas as grossas meias alisando-lhas ao correr da tíbia, resmungava ele:

- Quem seria a grande bêbeda que enjeitou a cria?

- Isso há-de ser de fora da freguesia...

- Também me parece... Cá não me consta... E vem-ma cá pôr no adro!... Ah! bom estadulho!...

- Fica uma coisa pela outra. As de cá também as levam às outras freguesias, quando acontece - disse Joana.

E nomeou várias ovelhas fecundas e tinhosas, enquanto o pastor lavava a cara no alguidar vermelho que a rapariga lhe chega­va, com a toalha no ombro.

Ao pegar da toalha, sacudindo a cara e assoprando ruidosamente com a sensação do frio, o abade apertou a polpa da espádua à moça com ternura felina. Este carinho confirmou as pazes. Joana arregaçou os beiços ridentíssimos até às orelhas, e mostrou-lhe nos dentes de brilhante esmalte que o seu amor infinito resistira à prova do couce.

A tia Bernabé afligida, porque o menino soluçando se esverdeava, chamou outra vez Joana com encarecidos rogos.

- O sr. abade está já vestido - disse a moça saindo à jane­la. - Passe você por casa do tio Isidro da Fonte, e diga-lhe que vá p'ra igreja, e deite água na pia.



*



O padre saiu de casa carrancudo e bocejando. De cada vez que escancarava as mandíbulas, traçava no envasamento da boca três cruzes com o dedo polegar.

A tecedeira, que o esperava no adro, abeirou-se dele mostrando-lhe a cara roxa da criança. O padre olhou-a de esconso, e per­guntou:

- É macho ou fêmea?

- É um menino - respondeu a viúva.

- Acenda um daqueles cotos - disse o abade ao Isidro, apontando para os sórdidos castiçais de chumbo dum altar. - A pia tem água?

- Vem aí o meu rapaz com o cântaro.

- Vocês são os padrinhos? O rapaz há-de chamar-se Isidro, ou então põe-se-lhe o nome do santo de hoje - observou o abade, boquejando e benzendo a boca, no limiar da porta travessa onde a mulher esperava, segundo o ritual.

- Hoje é dia dos Santos Reis - disse ela.

- É verdade - confirmou o padre, e cismou se Reis seria nome ou apelido. Não se lembrava de ter estudado esta espécie.

- Os Santos Reis Magos eram três - prosseguiu a tia Bernabé.

- Bem sei - acudiu o padre.

- Um chamava-se S. Belchior, outro S. Gaspar, outro S. Baltazar - explanou a devota dos magos orientais: - O menino pode chamar-se Belchior, se o sr. abade quiser.

- Eu quero tudo que vocês quiserem. Vamos a isto, que está um frio de rachar. - E, recolhendo-se à sacristia, esfregava as mãos, bufando-as com os gases do estômago ainda perfumados do vinho da ceia.

- Meu rico anjinho, irá ele morrer na água fria? - lamentava a boa criatura bafejando-lhe as duas faces.

O abade enfiou a sobrepeliz, revestiu a estola, mandou chegar o enjeitado ao baptistério, fez um resumo do latim cerimonial, e disse:

- Vão-se à vida.

- Vou-me daqui às Lagoas a ver se a Teresa do Eido me dá o peito a este anjinho, até ver se arranjo que algum lavrador me faça a esmola de um bocado de leite de cabra - disse a tia Bernabé.

- Então você não o leva à roda? - perguntou a abade esbugalhando o espanto nos olhos.

- Agora levo eu à roda o meu enjeitadinho! Já que Deus me não deu filhos...

- E tem muito que lhe dar você?

- Enquanto eu puder fiar uma meada e tecer uma teia, dou-lhe eu o meu caldo e o meu pão; depois, quando eu não puder, dá-mo ele. Casa e dois palmos de horta, graças a Deus, tenho eu, e não na devo a ninguém... O pior é que o pequeno, se lhe não acudo, morre de fome... Ai! meu Deus! há cadelas mais amoráveis que algumas mães.

- Ande lá... meta-se em trabalhos... - concluiu o abade, sa­fando-se com os cabeções do capote apanhados na testa.



*



A criança vingou, espigou e saiu robusta e menos mal encarada. Entre os sete e onze anos aprendia à ler, e nas horas vagas enchia as canelas do fiado ou dobava meadas.

Belchior Bernabé (assinava-se assim com satisfação da mãe adoptiva), deparado a algum romancista imaginoso, daria trela ao esvoaçar alto da fantasia, quanto à sua origem. A mãe poderia ser uma fidalga de Famalicão ou de Santo Tirso. O pai, com toda a verosimilhança, poderia fantasiar-se algum dos generais do exército realista ou liberal que, por aquele tempo, manobraram nessas paragens. Com estes dois elementos, a fidalga e o general, qualquer mediano talento, aproveitando o acessório das batalhas, compunha um romance de maus costumes, pelo que respeitaria ao enjeitado, e um livro histórico, pelo que interessaria à história da restauração da Carta Constitucional e do sistema representativo. Feito isto, o pequeno lucrava muito, sabendo nós que sua mãe era uma devassa recatada que, por noite desabrida de Janeiro, o mandou expor entre as raízes de uma árvore, em que os cevados foçavam luras com o focinho, e o não devoraram naquela madrugada porque estavam ainda cerrados nas suas pocilgas. Contanto que esta mãe desnaturada enjeitasse o filho, em respeito ao brasão e ao crédito, a criança ser-nos-ia mais simpática, as linhas de fina casta extremá-lo-iam entre as caras boçais da plebe, a auréola de nascimento misterioso banhá-lo-ia então da luz de um melancólico romance. Assim é; mas eu não sei quem fossem os pais de Belchior Bernabé. O rapaz, segundo ouvi dizer aos que o viram criança e adulto, era feio, espesso de cara, achamboado de pernas. Ninguém lhe farejava o pai nem a mãe pela semelhança do rosto: parecia-se com todas as mulheres e com todos os homens daquelas freguesias, onde as caras são achatadas sem ressalto de protuberância, ou, angulosas como as peras de sete cotovelos.

É maravilhoso este capricho fisiológico! A terra da Maia é um alfobre de moças bonitas, com os seios altos e alvos como pombas no ninho; os quadris elásticos e boleados têm saliências que vos le­vam cativo, e vos levarão doido se lhes virdes as lisas colunas em que a hera do verso de Camões lembra sempre...



Desejos que como hera se enrolavam.



E lembra sempre este verso e os outros convizinhos(2) por serem os Lusíadas um poema que se lê nas escolas, e se encontra no açafate de costura das educandas que puderam subtrair-se à morigera­ção pestilencial dos lazaristas.

Transpostos os limites da Maia, a primeira mulher que se vos depara na primeira freguesia do concelho de Famalicão é feia e su­ja até ao asco, escanelada, escalavrada no peito, veste-se a frisar com a desgraça da sua má figura. E daí até Braga, se vos apraz, podereis inalar em todo seu perfume a pura flor da castidade. Se há terra onde possam ermar e defecar-se de sensualismo santos tentadiços, é ali. Cada mulher é uma figa benta de que fogem os três inimigos da alma, principalmente o último.



*



Belchior, aí por Maio, mês das flores, da brotoeja e doutras fatalidades específicas, começou a amar. Tinha dezanove anos, carnadura rubra, ombros largos, assobiava como um melro, tangia cavaquinho, e amava a Maria Ruiva, filha do Silvestre Ruivo, o maior lavrador da freguesia. Este amor resguardava-se como um delito, e por isso mesmo se escandecia e refinava até à quinta-essência da paixão que está paredes meias do desastre. O enjeitado, se se afoitasse a alardear preferências nas atenções de Maria Ruiva, seria espancado pelos rivais ou por algum dos três padres tios da cachopa. Eram três clérigos afamados por façanhas de estudantes em Braga. Haviam militado nas guerrilhas da usurpação; terçaram de novo as armas em 1846, na carnificina de Braga; recolheram a casa depois da morte de Mac Donald, e diziam missas a oito vinténs para não se descaçarem no ofício.

Uma noite, quando um dos padres recolhia, enxergou um vulto esbatido no escuro do murtal que formava o tapume da eira de sua casa, e lobrigou por entre a sebe o alvejar de uma saia a fugir. Cresceu sobre o vulto como pau em programa de bordoada, e ouviu o estalido do perro de pistola. Susteve a pancada, e perguntou:

- Quem está aí?

- Sou o Belchior Bernabé.

- Que fazes aí?

- Nada, sr. padre João.

- Porque te escondeste?

- Não faço mal a ninguém, sr. padre João.

- Mas engatilhaste uma arma de fogo! - e acercou-se dele arremetendo. - Que queres tu desta casa, enjeitado? Servem-te as minhas sobrinhas...? - e atirou-lhe um epíteto que definia a natureza da mãe incógnita.

- Sr. padre João, olhe que, se me bate, eu, bem me custa, mas... atiro-lhe. Siga o seu caminho, e deixe estar quem está quedo e manso.

Padre João Ruivo sobraçou o marmeleiro ferrado, e murmurou:

- Tomo-te à minha conta, brejeiro!

E passou avante.

Ao apontar do sol, esporeou a égua para Famalicão, demorou-se com a autoridade administrativa, com os membros da comissão distrital, com o regedor, e saiu alegre. Ao outro dia, na porta da igreja de Santa Maria d'Abade, lia-se Belchior Bernabé, enjeitado, entre os mancebos apurados para o recrutamento.

E, entretanto, Silvestre, o pai de Maria, chamou ao sobrado da tulha três filhas que tinha, e disse:

- Qual foi uma de vocês que esteve esta noite na eira a conversar para o quinchoso com o enjeitado da Bernabé?

Duas responderam logo ao mesmo tempo:

- Eu não! - e acrescentaram:

- Cega eu seja d'ambos os olhos!

- Quebradas tenha eu as pernas!

- Má raios me partam!

A terceira, Maria, abaixou a cabeça, levou o avental de estopa aos olhos, e chorou.

- Foste tu? - exclamou o pai; e, pegando de um engaço, ia cravar-lhe os dentes na cabeça, quando as duas filhas lhe ferraram o pulso. O pai, homem possante de quarenta anos, sacudiu-se a custo das presas das valentes raparigas, largando-lhes o engaço, esmurraçou a outra com tamanho ímpeto de raiva que Maria caiu atordoada.

Em seguida, voltou-se para as duas filhas, e disse:

- Esta mulher fica fechada aqui, entendem vocês? Se quiserem, tragam-lhe o caldo; se não, que morra para aí, que a levem os diabos!

E, saindo, rodou a chave, e guardou-a na algibeira interior da véstia.



*



A tecedeira, quando Belchior, lavado em lágrimas, lhe disse que ia ser soldado, encostou o queixo às mãos postas em súplica, relançou os olhos à imagem do Bom Jesus do Monte, deteve-se instantes, e disse serenamente:

- Não irás para soldado, meu filho. O tio Silvestre Ruivo já me ofereceu dois centos por esta casa, com a condição de me deixar morrer nela. Vende-se a casa, ficas tu sem ela, mas onde quer se vive. Para soldado não vais, Belchior. Dás o dinheiro aos governos, como fazem os filhos dos lavradores ricos, e estás livre.

Belchior não cessava de chorar, e de vez em quando, por entre soluços, articulava palavras que a tecedeira, um tanto surda e de todo alheia dos amores do rapaz, não percebia.

- Não chores, moço! - insistia a velha, repetindo o expediente de vender a casa; e Belchior, por fim, obrigado a explicar-se, rompeu nesta exclamação:

- A Maria Ruiva está perdida e desgraçadinha!

- Credo!... tu que dizes, Belchior?!

O rapaz arrepelava-se; apanhava com as mãos a nuca, e batia com os cotovelos um contra o outro. Atirava-se de trambolhão sobre uma grande caixa de castanho, e jogava a cabeça contra os joelhos com a pasmosa elasticidade da sua aflição. Fazia aquilo porque não sabia as frases que nós, os maus romancistas, costumamos emprestar a esta espécie de sujeitos.

A tia Bernabé, ora lhe pegava na cabeça, ora nos braços, dizendo-lhe as mais carinhosas consolações. Por fim, o enjeitado, erguendo-se de salto, e olhando em redor tão sinistramente quanto cabe na rubrica de um drama e na pupila fulva do sr. Isidoro Sabino Ferreira na tragédia, disse com o esbofar das angústias vertigi­nosas:

- Assim com'ássim... mato-me!

Aqui foi um alto soluçar da tecedeira, um desentoado choro que alvorotou a vizinhança.

Belchior, assim que viu a casa a encher-se de gente, fugiu pela porta da cozinha, saltou valados, emboscou-se numa seara de centeio, e aí, estirado por terra sobre as loiras gabelas, chorou copiosamente.

A tia Bernabé pedia entretanto aos vizinhos que fossem atrás dele, porque o seu Belchior dissera que se matava.

O enjeitado deixou-se trazer como um ébrio nos braços dos vizinhos; e, chegando a casa, pediu que o deixassem deitar. Depois, ganhando ânimo - que é sempre certo, esgotadas as lágrimas - contou à tia Bernabé a sua curta história com Maria Ruiva, concluindo-a com uma revelação que eriçou os cabelos da velha.



*



Nessa mesma hora, a tecedeira saiu cambaleando e encostada às paredes, em demanda do abade.

Era ainda o mesmo que baptizara Belchior. Envelhecera e engordara. Meditava depois de jantar no destino da sua alma, assim que o destino do corpo lhe parecera consumado. Joana, a das sapatadas naquela anca de Hércules Farnésio, havia muito que cauterizava a consciência chagada, cortando o cabelo e cilhando os rins pecadores com a corda nodosa dos cilícios. O abade também sofrera um abalo rijo de contrição, a ponto de não substituir Joa­na, e calçar as meias directa e pessoalmente. Nesta espécie de amputação espontânea, não podendo criar processos de filosofia nova, como Pedro Abélard, comia às suas horas e profanava com silabadas o latim do missal. Prometia acabar bem.

A tia Bernabé referiu-lhe o que Belchior lhe confessara a respeito de Maria Ruiva.

- Eu bem lhe disse a você, mulher, que se metia em trabalhos, lembra-se? - recordou o abade.

- Sim, senhor, lembra... mas então? Ainda me não arrependo, se o sr. abade me fizer a caridade de falar ao Silvestre, e dizer-lhe que o melhor é, já agora, deixar casar a rapariga.

- Você - atalhou o padre - você, Bernabé, deu-lhe volta o miolo! O Silvestre dar a filha ao enjeitado!... Ora, mulher, peça a Deus juízo, e diga a esse tratante que se vá quanto antes sentar praça, antes que lhe dêem cabo da pele. Com que então!... o alma do diabo foi às do cabo, hein?

A tecedeira ouviu-o com o rosto lavado em lágrimas; e ele, solfejando as palavras iracundas ao compasso do rufo que fazia com a caixa prata sobre o braço da cadeira, prosseguiu:

- Forte maroto! Atrever-se a conversá-la, já era muito; mas isso que você me diz, mulher, só na forca! E então. uma rapariga sem nota, que já foi pedida pelo Francisquinho das Lamelas, que colhe oitenta carros e vinte pipas, afora o azeite!... E, vamos lá, era a melhor das irmãs, uma mocetona!... Com que então esse pa­tife disse-lhe mesmo que ela. daqui a pouco... já não pode escon­der o fruto do seu crime?

- Sim, senhor - balbuciou a tia Bernabé.

- Isto só no inferno! - volveu o abade, rebitando a ponta do nariz para dilatar a circunferência das ventas sobranceiras à pitada. - Isto só no inferno!...

- Valha-me Deus, sr. abade! - replicou timidamente a tecedeira. - Então a religião de Nosso Senhor Jesus Cristo não dá remédio a estas desgraças, que tantas vezes acontecem? No melhor pano cai uma nódoa. Logo que eles se casem, está tudo remediado, pois não está?...

- Está o quê?... Então uma rapariga de boa família, que tem três tios padres e que é filha dum capitão de ordenanças, casa-se assim com um enjeitado que você encontrou na bouça da igreja en­tre o mato!?...

- É verdade; mas todos somos filhos de Deus - argumentou a tia Bernabé, e mais longe iria na sua prelecção de caridade ao pastor, quando uma vizinha a chamou à porta da residência para lhe dizer que Belchior estava preso entre seis cabos de polícia que o levavam para soldado, e ele a mandava chamar para se despedir.

Ainda desceu precipitadamente as escaleiras a trémula velhinha; mas, a poucos passos, caiu de joelhos, amparou-se no valo, e debruçou-se desmaiada.

Entretanto, o regedor ordenava aos cabos que levassem o pre­so, visto que a tia Bernabé fora levada sem acordo para a residência. Belchior pediu que o deixassem ir lá despedir-se de sua mãe. O regedor voltou-lhe as costas, e acenou aos cabos que marchassem.



*



Em Famalicão deram-lhe uma guia, e enviaram-no entre seis espingardas para Braga. Ao outro dia era soldado.

A tia Bernabé procurou-o no quartel do Pópulo nesse mesmo dia. Quando o viu de cabeça tosquiada como cão morrinhoso, e coleira de couro preta, estonteou-se-lhe o juízo e esteve a pique de cair. O recruta, chorando com ela nos braços, apiedou o comandante da guarda, que os mandou entrar na casa das tarimbas. Daí a duas horas, tocou a corneta a recruta. Belchior já não tinha nome. Era o 29.

- Salta daí, 29! - bradou-lhe um anspeçada.

- Que é? - perguntou a tecedeira.

- Vou para o exercício, minha mãe.

Ela viu-o marchar com outros para o campo do exercício; e logo, a meio caminho do terreno das manobras, um furriel barbaçudo e de chibata lhe assentou na parte sobrejacente às pernas um pontapé instrutivo. Diga-se a verdade - era o primeiro.

A tecedeira, quando isto presenciou, saiu do campo estrangulada por soluços, entrou na Sé, e orou largo tempo com o rosto no pavimento. Depois levantou-se reanimada, e foi para a sua aldeia executar o que ficara convencionado com Belchior: vender a casa, e substituí-lo.

Pregou anúncios na porta da igreja e nas árvores vizinhas das estradas. O pai de Maria Ruiva muito queria comprá-la para arredondar um campo com a horta e armar na casa térrea um estábulo de bois para embarque; porém, receando que o seu dinheiro servisse a resgatar o soldado, consultou os irmãos clérigos. Padre João foi a Braga mexer os pauzinhos, disse ele; e, voltando sossegou o irmão:

- Compra a casa, que o enjeitado as correias não as bota fora do lombo.

O lavrador tinha oferecido duzentos mil réis, quando a tecedeira não pensava vender a casa onde nascera; mas agora, por terceira pessoa, mandou-lhe oferecer cento e quarenta.

A desventurada velha ia ceder, pensando que vinte moedas de ouro bastariam a resgatar o filho; neste aperto, uma beata de freguesia distante, e confessada do abade, lhe propôs a compra, a fim de passar a estação das penitências ali à beira do seu director espi­ritual. Esta mulher, que era virtuosa, foi desde logo difamada pelos padres Ruivos à conta do confessor que a dirigia; e o lavrador por sua parte enraivava-se sabendo que a Bernabé vendera a casa por duzentos mil réis. Padre João, conversando a tal respeito com o abade, desfechou-lhe esta ironia entre duas pitadas:

- Quando se está assim gordo, sr. abade, é preciso trazê-las para perto...

E o pastor, exulcerado na sua candura, cascalhou uns froixos de tosse de esgana, e gosmou:

- Se eu trouxesse para esta freguesia ovelhas de fora, talvez que o padre João me deixasse em paz as do meu rebanho...

Entendiam-se.



*



A tia Bernabé foi a Braga com o dinheiro e com um seu cunhado, que havia sido embarcadiço, e então era calafate em Vila do Conde. Por felicidade viera ele à terra ver os parentes; e, condoendo-se da paixão da cunhada, se oferecera a dar em Braga os passos necessários à baixa do Belchior. O requerimento foi indeferido. O calafate andou por advogados que lhe escreviam réplicas inúteis. Por fim, compreendeu que o rapaz havia de gemer sob o peso da vingança do lavrador. E como ele passara quarenta anos no mar e ali ganhara ódio às misérias da terra, tanto que soube que o rancor era de padres e o crime do rapaz era de amores, voltou-se para a cunhada e disse:

- O rapaz vai d'hoje a quinze dias para o Brasil. Tu pagas-lhe a passagem, e o resto fica por minha conta. Daqui até Vila do Conde é desertor; assim que sair a barra, é livre... olha... vês aquela andorinha? é livre como ela!

- E não hei-de tornar a vê-lo? - atalhou ela chorando.

- Se o não tornares a ver, que monta? Tens tu que fechar os olhos para sempre ou não? Qual queres tu: vê-lo aqui soldado, ou saber que ele está no Brasil a manobrar a sua vida? Deixa-o ir. A rapariga, quando ele chegar a Pernambuco, já lhe não lembra; e, se enjoar, então, é como quem deita o coração pelas goelas fora. Tu vens para Vila do Conde comigo. Tens que comer e uma enxer­ga onde durmas.



*



Em Março de 1852, fez-se à vela de Vila do Conde a barca Conceição. Entre os passageiros ia o desertor. Chamava-se aí Manuel José da Silva Guimarães, e nunca mais ouviu proferir o seu nome.

Quando a polícia deitava inculcas no concelho de Famalicão procurando a paragem da tia Bernabé, rendia ela a alma ao seu Criador em Vila do Conde. Vira desaparecer as velas da barca Conceição, ajoelhada no terraço do castelo. Depois, quedara-se de bruços a chorar. Levaram-na nos braços a casa do cunhado. As lágrimas secaram-se. Veio a febre e o delírio. Chamou, chamou por seu filho, até que Deus a chamou a ela. Não foi confessada nem ungida; mas morreu santa porque vivera santamente. Achara aquele enjeitadinho, criara-o, amara-o, vendera um cordão para o vestir jeitosamente a fim de o mandar à escola, vendera as arrecadas para lhe comprar fato novo quando foi à primeira confissão, vendera a casa e o tear e o leito onde morrera sua mãe para o remir de soldado. Padeceu grandes angústias quando soube que o filho do seu coração era culpado na desgraça de uma rapariga honesta. Cuidou que o padre, o pregador da caridade e da igualdade dos servos de Jesus Cristo, iria admoestar o lavrador abastado a conceder a filha para esposa do pobre. Esta santa cegueira da cristã é de crer que Deus lha perdoasse. Por fim, de virtude em virtude, e de dor em dor, logo que aos setenta anos de idade viu sumir-se para sempre o seu querido enjeitado, pediu a Deus por ele, por si, e... morreu.



Segunda parte





Vinte anos volvem-se tão depressa, que eu, neste salto que o leitor vai dar, não me despenderei a encher-lhe de frases o passadiço. O melhor é fechar os olhos e saltar.

Vinte anos! Que são vinte anos?

Nós ainda ontem éramos rapazes, ó velhos! Este ontem gastou vinte anos a resvalar para hoje. Que se passou neste lapso fugitivo de nossa vida entre a juventude e a velhice? Nada! Temos a nosso lado filhos homens, e netos que amanhã serão homens; e, todavia, parece que ainda ontem com um raio de sol e com o perfume de uma rosa compúnhamos o sorriso da loira mãe destes homens, que está hoje velha! Ainda ontem éramos poetas pelo amor, afoitos pela aspiração, valentes pela mocidade. Que grandes coisas de­vem ter-se passado nesse instante de vinte anos, enquanto esperávamos outras que nunca vieram! A cismar sempre com o futuro não o víamos passar. Afinal parou; e deixou-se conhecer porque marchava pesado, tardio e triste: era a velhice. Chegou de repente; escureceu-se-nos tudo como se as alegrias nos fulgissem do seio de um relâmpago. Esta treva foi instantânea, e gastou vinte anos a condensar-se. Que são vinte anos?



*



Em 1872, hospedou-se no hotel de Famalicão um brasileiro a quem os seus criados negros e brancos chamavam simplesmente o sr. Comendador. Não viera recomendado a algum dos barões da terra. Enviara adiante a recomendação da parelha das horsas, da caleche, dos lacaios. Representava quarenta anos florentíssimos. Basto bigode, suíça inglesa, espesso cabelo levantado em novelos crespos que lhe encantavam a fronte. Espáduas amplas, à proporção das pernas que se moviam rijas e baseadas em pés infalíveis co­mo os alicerces das pirâmides dos faraós. Trajava a primor, de preto, com um ar de pessoa que passeava de tarde na estrada de Braga, com o intento de ir à noite a Covent-Garden , ao Royal Ita­lian Opera . Fumava sempre uns charutos que vaporavam os aromas das recâmaras das sultanas. Na mesa, era de uma elegância frugal que desmentia a procedência. Olhava para o bife com um fastio tal e tamanha tristeza, que fazia lembrar Tertuliano quando, meditando na metempsicose, olhava para o boi cozido, e dizia: «Estarei eu comendo meu avô?»

Conquanto nem ele nem os criados declarassem os seus nomes e apelidos, os jornais do Porto haviam anunciado a chegada do maior capitalista de Pelotas, o sr. Manuel José da Silva Guimarães.

Nada de bioquices com o leitor: aí está Belchior Bernabé, o enjeitado.



*



Ao terceiro dia de hospedagem em Famalicão, o comendador cavalgou, acompanhou-se do lacaio e seguiu na direcção de Santiago de Antas.

- Vai ver a igreja que fizeram os moiros... - Calculou outro comendador da terra, e assim o comunicou a mais dois comendadores, atribuindo aos moiros a igreja dos cavaleiros de Rodes.

- Há-de ser isso - confirmou o mais correcto. - Este homem é mágico. O Guimarães do hotel já lhe perguntou se era nascido cá no Minho, e ele respondeu...

- Que não tinha a certeza - concluiu o outro. - Tem grande telha!

- Ontem, na feira, estava ele a ver vender duas juntas de bois para embarque. Quem nas vendia era o Silvestre Ruivo...

- Bem sei, o irmão daquele padre João que morreu há três anos de apoplexia.

- É isso. O telhudo, que não fala com ninguém, pôs-se a conversar com o Silvestre a respeito dos bois: depois levou-o à hospedaria, e deu-lhe de jantar. O Silvestre esteve depois comigo e vinha espantado de ver dois criados de casaca, bota de verniz, gravata branca e luvas, a servir à mesa. - E em que falaram vocês? - perguntei-lhe eu. Disse-me que o comendador lhe perguntara coisas e tal et coetera cá da província, e que ficara de ir a casa dele ver a corte dos bois. Mágico ou não? Olhem vocês! Vai ver os bois!

- Se fosse aqui há dez anos atrás - disse o comendador Nunes - valia-lhe a pena de ir ver as bezerras... Você ainda conheceu as Ruivas, a Antónia e a Chica, ó sor Leite?

- Ora, se conheci! Que fatias!...

- Que diriam vocês - volveu o sr. Nunes - se conhecessem a Maria que eu m'alembro de ver antes de ir em o Rio... Que pim­pona! Apanhou-a um enjeitado...

- Já ouvi contar esse caso.

- Você não sabe nada, perdoe. O enjeitado entrava em a escola do Zé Batata quando eu saía já pronto. Depois, lá tive notícias no Rio que a moça dera em droga. Ele foi preso para soldado e desertou; e ela nunca mais ninguém lhe pôs o olho no lombo. Uns dizem que está num recolhimento de convertidas, outros dizem que está fechada, desde que isso foi... há-de haver, João Nunes, há-de haver bons vinte anos...

- Isso é que é pai de febras!... fez muito bem! - aplaudiu o mais devasso.



*



Entretanto, chegava o comendador Guimarães à porta do ex-capitão de ordenanças Silvestre Lopes, de alcunha o Ruivo. Era esperado.

No patamal da escada que conduzia à vasta quadra chamada «a sala dos padres» estava o lavrador, entre três clérigos veneran­dos por sua idade: devia contar qualquer deles bastantes anos sobre setenta.

O comendador deu as rédeas do seu alazão ao lacaio, subiu prazenteiramente, apertando a mão a Silvestre, e cortejando os padres.

- V. Ex. a não se perdeu nos atalhos? - perguntou o lavrador.

- Quem tem boca vai a Roma - respondeu o comendador; e referindo-se aos padres:

- São seus manos, sr. Lopes?

- Dois são; o outro é o sr. abade.

O hóspede encarou-o muito a fito e perguntou:

- É abade há muitos anos nesta freguesia?

- Vim para aqui paroquiar em 1828, na idade de vinte e cinco anos; tenho setenta e seis; conte lá V. Ex. a .

- Está aqui há cinquenta e um anos feitos - acrescentou o padre Bento Lopes.

- Justamente, - confirmou o clérigo que baptizara Belchior, o enjeitado exposto na manhã de 6 de Janeiro de 1833.

O comendador não via naquele ancião um só traço do corpulento abade.

Conversaram sobre a guerra do Paraguai, sobre a emigração dos minhotos, sobre o estado florescente da indústria e da agricultura portuguesa. O lavrador, apoiando o comendador, encarecia a nossa prosperidade com este conciso, pesado e até certo ponto bicór­nio argumento:

- Vejam o dinheirame que dão os bois!

Estava a mesa posta no sobrado imediato, e à cabeceira da mesa a cadeira destinada ao hóspede.

- V. Ex. a vem para aqui - disse o lavrador apontando-lha com urbana homenagem. - Ninguém mais se sentou nessa cadeira desde que morreu o nosso irmão mais velho, padre João. Faz agora três anos que morreu dum estupor...

- De apoplexia - emendou o padre Hipólito.

- Tanto faz - replicou Silvestre. - Estava a dizer missa e caiu redondo no altar.

- É de crer que a sua alma estivesse preparada para esse transe - observou o comendador em tom compungido.

- Era bom padre - disse o abade, talhando à faca os canudos flexuosos da sopa de macarrão - isso era, coitado! Deus o tenha à sua vista!...

- Está aqui toda a sua família, sr. Silvestre? - perguntou o hóspede. - Se bem me recordo, disse-me na feira de Vila Nova que tinha filhos...

- Filhos, não, meu senhor. Tenho duas filhas.

- Três... - emendou o abade.

- Duas! - retorquiu desabridamente o lavrador, coruscando-lhe os olhos irados.

- Ah!, sim.., duas... eu agora estava distraído... - remediou o indiscreto.

E o comendador não perdia a mínima expressão das quatro fisionomias.

- Tenho duas filhas - repetiu o pai de Maria. - Uma está casada fora com um proprietário, já tem um filho em Braga para padre e outro a doutorar-se em Coimbra. A outra está em casa. Não quis casar e já está a caminhar para os trinta e sete anos. É a que governa a casa.

Este incidente passou. O comendador mostrava-se profundamente abstraído. Comeu pouquíssimo, e quase nada disse. Apenas, terminado o suplício da exposição do peru, do lombo de porco de vinho e alhos, da perna de vitela e do leitão, pediu licença para retirar-se, pretextando a precisão de estar cedo em Vila Nova.

O abade acompanhou-o, porque o brasileiro mostrou o desejo de ver umas sepulturas notáveis, de que certo romance dava notícia, no adro da igreja de Santa Maria(3) .

Os outros padres quiseram ir também; mas o comendador dispensou-os com delicada violência, prometendo voltar a vê-los mais de espaço.

O abade, mostradas as duas campas vazias, convidou o ricaço a subir à sua pobre residência.

- Com muita satisfação, sr. abade: simpatizo com V. S. a , quero mesmo granjear a sua amizade.

- Ó excelentíssimo senhor! que valho eu, pobre velho, e pobre abade da mais pobre das abadias!... Aqui gastei a vida, já ago­ra quero que esta terra, onde dormem tantos que baptizei, tantos que casei, me coma também os ossos.

O padre estava lugubremente palavroso. Havia ali uma flor de poesia elegíaca a entreabrir-se um pouco borrifada de mau vinho do Porto. Sentia-se expansivo.

Pensava o brasileiro em ocasionar conversação acerca do incidente, acontecido no jantar, sobre se eram duas ou três as filhas de Silvestre. Não foi preciso rodeios. O padre endireitou logo com o assunto nestes termos:

- O Silvestre é bom sujeito, bom paroquiano, amiguinho dos seus interesses, isso sim: mas desse pecado, se o é, está o inferno cheio. Porém, excelentíssimo senhor, tem este homem um modo de pensar a respeito da honra que não se conforma com a religião da caridade e do perdão. V. Ex. a havia de notar a ira com que ele disse que as suas filhas eram duas, quando eu, por descuido, disse que eram três. Conheci logo que andei mal, e emendei-me contra a minha consciência; mas enfim, eu estava a jantar em casa do homem, estava ali um cavalheiro respeitável, a civilidade mandou-me tapar a boca...

- Sim... eu notei que V. S. a , cedendo ao número das duas, fê-lo constrangidamente.

- Pois por isso mesmo que eu percebi que V. Ex. a notou, é que devo à minha posição de padre esclarecer a verdade diante do sr. comendador. Se quer ouvir a história... mas V. Ex. a disse que tinha pressa...

- Não, senhor. Queira dizer. Tenho muito tempo.

O abade saiu à janela, e disse para fora ao criado que fosse levar a égua pela fresca ao mato. Depois, fechando o trinco da porta da saleta, continuou, fazendo sentar o hóspede em uma cómoda cadeira de estofo, e ocupando ele outra de pregaria com espaldar de moscóvia:

- O Silvestre não tem duas filhas, tem três. A mais velha, que eu baptizei há trinta e nove anos, chama-se Maria. Esta rapariga, aqui há vinte anos, andou de amores com um enjeitado que por aqui se criou em casa de uma santa criatura, que o encontrou no mato da igreja, pelo lado de fora das campas que V. Ex. a viu há pouco. O diabo do rapaz desviou-a do bom caminho, e pô-la na mais mísera situação que em tais casos é possível. Enfim, a rapariga sentia-se mãe, quando um dos padres, que já lá está na presença de Deus, deu com eles em palestra de noite. Daí a dias, o Belchior (chamava-se assim o enjeitado), foi daqui preso para Braga, e deitaram-lhe as correias às costas. Passado pouco tempo, o soldado desertou, e foi para onde estivesse seguro. Agora falemos da moça. O pai moeu-a bem moída de pancadaria, fechou-a no sobrado de uma tulha, e mandava-lhe dar todos os dias duas tigelas de caldo, dois pedaços de pão, e uma caneca d'água. Dois ou três meses depois, apareceu-me aqui um calafate de Vila do Conde, que vinha a ser cunhado da tal Bernabé que criara o Belchior, e disse-me que sua cunhada morrera de saudades do desertor que não podia mais voltar à pátria; e que, antes de expirar, lhe pedira que viesse ter comigo e me rogasse, pelo divino amor de Deus, que fizesse eu todas as diligências por haver à mão o filho do seu Belchior, que ele, calafate, se encarregava de o levar para Vila do Conde. A falar verdade, era empreitada de costa arriba meter-me eu neste delicado negócio com o Silvestre; mas pedi forças a Deus e fui-me ter com ele. Contei-lhe o estado da filha, e ofereci-me para dar à criança, quando nascesse, o único destino possível em har­monia com os interesses da terra e os da divina religião da caridade de Jesus, que mandava chegarem-se a Ele as criancinhas. O homem ouviu, praguejou, berrou que ia matar a filha; e eu então, resolvido a tudo, disse-lhe sem temor que se ele matasse a filha iria eu acusá-lo de matador de duas vidas. O homem teve medo, e concluiu afinal que a criança me seria entregue; mas que a rapariga nunca mais veria sol nem lua... Estou maçando o sr. comenda­dor...

- Pelo amor de Deus! estou interessadíssimo nessa triste história...

- Tristíssima, Excelentíssimo Senhor! Eis que nasce um rapaz, e quem assistiu ao nascimento e mo trouxe foi uma viúva ser­va de Deus, minha confessada, que vivia aqui na casa que compra­ra à tal Bernabé. Fui eu que lhe pedi que merecesse a divina graça por esta obra de misericórdia. Já cá estava então em casa de uns parentes o calafate à espera do filho do Belchior. Entreguei-lho, e lá foi o pequeno para Vila do Conde, depois que o baptizei com o nome de seu pai.

- E esse menino... - atalhou o comendador, arrancando a pergunta das ânsias que a débil vista do abade não divisava.

- Eu lhe conto, meu senhor. Dois anos depois, morreu o calafate, e eis que a criada dele mo remete para aqui, dizendo que o patrão assim lho ordenara, para que eu o entregasse às irmãs e sobrinhas dele que moram aí numa freguesia ao pé. Chamei as tais mulheres, mostrei a criancinha, dei-lhes o recado do calafate falecido, e elas responderam que não queriam saber de histórias; que tomas­se o avô e a mãe conta dele, que eram bem ricos. A serva de Deus que morava, como já disse a Vossa Excelência, na casa que fora da tia Bernabé, tomou conta do enjeitadinho. Havia nisto mistério profundo! O pai fora criado na mesma casa onde era criado o filho, ambos sem pai nem mãe! Desgraçadamente, quando o pequeno ia nos seis anos, morre a benfeitora de morte repentina. Os parentes sacudiram dali o mocinho, e o Silvestre comprou a casa, botou-a abaixo e fez uma corte de bois. Ali daquela janela pode Vossa Excelência ver a corte onde foi a casa das duas santas mulheres. É aquela que branqueja por entre aqueles dois carvalhos.

O comendador foi à janela, reconheceu os arredores da extinta casa da sua infância, enxugou as lágrimas, voltando as costas ao abade, e tornou a sentar-se em frente ao ancião.

- Que havia eu de fazer-lhe? - prosseguiu o abade - trouxe para aqui o pequeno, e mandei-o à escola.

- Muito bem! muito bem! - exclamou arrebatado o brasileiro - muito bem, honrado homem! - e apertou-lhe a mão, le­vando-a aos lábios.

O abade, retirando a mão húmida de lágrimas, disse comovido:

- Fiz o meu dever, senhor! Oxalá que esta boa acção me seja descontada nas muitas que tenho ruins na minha vida...

- E depois, o pequeno... - atalhou pressurosamente o hós­pede.

- O pequeno, eu lhe digo... Agora tornemos a falar da mãe... Três anos e meio esteve fechada no tal cárcere. Via apenas uma irmã que lhe levava o alimento. Depois esteve em perigo de vida e pediu um confessor. Fui eu o chamado à falta de outro. No acto da confissão, disse-lhe que o seu filho estava em minha casa, e que passava por ser meu parente. Outros, sr. comendador, diziam que ele era meu filho e da mulher que o amparara. Perdoei aos caluniadores, para que Deus me perdoe os escândalos que dei: era justo que me difamassem por que eu dei azo a isso com os desatinos da minha mocidade. Maria, quando soube que tinha seu filho vivo, ganhou forças, quis viver, e venceu a doença. Dizia-me ela: «se eu viver, hei-de ter alguma coisa desta casa, e o que eu tiver será do meu filho: e, se eu morrer ficará pobrezinho de pedir». De pedir não - disse eu -, porque vou mandar-lhe ensinar um ofício, logo que ele chegue à idade de poder trabalhar. Perguntou-me então se eu sabia alguma coisa do Belchior. Fora da confissão, respondi-lhe que o calafate muito em segredo me dissera que ele fora para o Brasil. No primeiro ano, o calafate recebia a miúdo cartas do Belchior, que o rapaz escrevia à mãe adoptiva, cuidando que ela estava viva. O calafate escrevia para lá que a Bernabé tinha morrido; e o rapaz a escrever sempre à Bernabé. A opinião do calafate era que o Belchior andasse lá pelos sertões onde nunca lhe chegavam as cartas idas de Portugal. Depois, o calafate morreu. O que se passou daí em diante não sei. Foi isto que eu contei a Maria. Por fim, espalhou-se por aí que o Belchior tinha morrido; e eu aproveitei a notícia, quer fosse verdade, quer não, a fim de ver se o pai da pobre moça lhe dava alguma liberdade. Falei nisto a Silvestre, e em nome de Deus o fiz responsável pela privação em que a tinha da missa e dos sacramentos. Tanto lhe bati à porta da consciência dura, que consentiu deixá-la confessar-se e ouvir missa ao menos uma vez de três em três meses. Pouco e pouco, obtive que ela viesse à igreja de quatro em quatro semanas, e nessas ocasiões já ela sabia que o seu filho era o menino que me ajudava à missa. Uma vez entrou na sacristia, não estando mais ninguém na igreja; abraçou-se no filho e desfez-se em lágrimas. Deixei-a, coitadinha! mas depois pedi-lhe que não tornasse a fazer tal imprudência, porque, se alguém a visse, não tornaria a sair do seu cárcere. O rapaz, quando fez catorze anos, lia e escrevia correntemente. Mandei-lhe ensinar o ofício que escolhesse: quis ser carpinteiro, para o que tinha muita habilidade. Essa cadeira em que V. Ex. a está sentado fez-ma ele. Veja que bonita peça! pois ainda não tinha dado um ano ao ofício quando fabricou essa obra que parece feita no Porto!

- E está aqui nesta freguesia o tal Belchior? - perguntou o brasileiro.

- Não, meu senhor, está trabalhando em Braga; mas vem aqui todos os meses ver a mãe no dia em que ela se confessa.

- Todos os meses?

- Sim, senhor, na primeira segunda-feira de cada mês. D'ho­je a oito dias, se eu viver, hei-de ouvi-la de confissão, e dou de jantar ao meu Belchior.

- D'hoje a oito dias? Que prazer V. S. a me dava, sr. abade, meu honrado e querido amigo, se me consentisse que eu contemplasse na sua igreja essa mártir a rever-se no seu pobre filho! Seria possível?

- Pois não é?! apareça V. Ex. a na segunda-feira aí pelas seis horas de manhã, que é quando eu a confesso e lhe dou a comunhão. Vê-a a ela, e vê o rapaz que é ainda quem me ajuda à missa, e ministra o jarro da água à mãe, depois que ela comunga.

Eriçaram-se os cabelos ao comendador por uma espécie de eterização, mescla de entusiasmo, de arroubamento e de tristeza. Apertou ao seio as cãs do ancião, e beijou-o na fronte. O padre encarava-o com assombro, e ele murmurava:

- A sua história arrebatou-me!... Eu sou um homem que tenho a loucura da admiração pelas acções grandes. Se até hoje não acreditasse em Deus, cairia de joelhos a seus pés, confessando-o!

- Quem é que não acredita em Deus, meu amigo?! - perguntou o velho enxugando as lágrimas.



*



A segunda-feira aprazada raiou com todas as pompas e músicas e perfumes de uma aurora de Julho. O comendador Guimarães chegara de Braga, por volta da meia-noite, e ordenara ao escudeiro que o chamasse às quatro horas da manhã. Supérflua recomendação. Não dormira. Antes do alvorecer da manhã, chamara ele os criados, e mandara aparelhar os cavalos.

Às cinco e meia da manhã estava ele encostado a uma das campas do adro de Santa Maria de Abade. A distância, escarvavam os cavalos insofridos na terra barrenta de um montado calvo. O sol verberava em uma das frestas da igreja. Os pardais pipilavam na oliveira, naquela mesma que, trinta e nove anos antes, dera, nas suas raízes recurvas à flor da terra, um berço empapado de chuva àquele homem que ali se sentia feliz até ao extremo em que as palpitações de júbilo laceram o coração como as famas da agonia. As andorinhas chilreavam em redor da cornija da igreja, e, esvoaçando-se por longos círculos, cortavam de notas embaladas pelas ondas da luz o grande hino, que na terra se completa com as lágrimas dos que podem chorá-las de gratidão à Divina Providência.

Ele, Belchior Bernabé, chorava essas lágrimas benditas, contemplando a terra onde a tecedeira pobre se ajoelhara para o le­vantar regelado até ao peito, e ressuscitá-lo com um milagre da caridade.

Às cinco horas e três quartos ouviu passos que soavam na trempe de ferro que forma o limiar do adro. Correu pressuroso ao cunhal da igreja, e viu uma mulher com um capote aconchegado da face, encaminhando-se para a porta transversal. Simultaneamente chegava, transpondo de salto a parede, um rapaz de boa presença, vestido de azul, com o seu chapéu de felpo branco na mão. O comendador parou, encostado ao cunhal. A mãe e o filho abraçavam-se, quando deram tento daquele homem estranho.

- Quem é? - perguntou Maria.

- É figurão! - disse ele. - Eu vi aquele homem em Braga com o sr. deão e entraram no paço do sr. arcebispo. Ali abaixo na bouça estão dois cavalos, e um criado de libré. Hão-de ser dele...

- Queres tu ver que é um comendador que esteve em casa de teu avô faz hoje oito dias? Tua tia viu-o, e disse-me que ele era assim de bigode e suíças...

- Que estará ele a fazer aqui?

- Ele olha para nós?! - perguntou a mãe olhando-o de través por entre a fresta formada pelo capote em que se encapuzava.

- Não tira os olhos da gente... e parece que está assim a modo de quem quer perder os sentidos.

- Estará doente?... Ainda bem que aí está o sr. abade.

- E lá vai falar com ele, minha mãe...

- Então é o mesmo que eu te dizia.

- Belchior! - chamou o abade - pega lá a chave, e entrem que eu já vou.

O moço foi buscar a chave, beijou a mão ao padre, e abaixou a cabeça ao senhor desconhecido. O comendador, com os olhos cravados nele, movia-se num balanceado arfar de peito: era o esforço que punha em resistir aos ímpetos que o impulsionavam para o filho. O carpinteiro abriu a porta e entrou com a mãe na igreja, dizendo-lhe:

- Aquele sujeito estava a olhar para mim de um modo que parecia querer falar-me...

O brasileiro, depois que respondeu ao cumprimento do abade, perguntou-lhe:

- V. S. a terá dúvida em me ouvir de confissão?...

- Com muito contentamento, sr. comendador. Quando quer, V. Ex. a ?

- Agora. Desejo receber a comunhão juntamente com a sua confessada.

- Pois seja agora.

E dizia entre si o padre: «Este homem foi alumiado pela graça divina, e Deus Nosso Senhor escolheu o mais pecador dos seus ser­vos para instrumento da sua misericórdia com outro pecador!»

Entraram no arco da igreja de passagem para a sacristia. O abade curvou-se ao ouvido de Maria que fazia oração no altar do Santíssimo, e disse-lhe:

- Demora-te um pouquinho que eu vou confessar uma pessoa: - E, chamando Belchior: - Vai a casa, abre o segundo gavetão da cómoda, e traze a toalha grande de rendas que está engomada, para ministrar a comunhão àquele senhor que vou confessar.



*



O comendador saiu da sacristia meia hora depois, e foi ajoelhar no primeiro degrau do altar-mor. Maria, como visse sair o abade e acenar-lhe para o confessionário, ergueu-se, passou rente do desconhecido, com os olhos no chão, e a gola do capote apanhada nas faces.

Belchior tinha vindo com a toalha de folhos encanudados que desdobrava e ajeitava para o sagrado ministério. Depois, entrou na sacristia com o galheteiro, renovou a água e o vinho, dobrou e sacudiu a toalhinha de modo que a porção ainda não maculada servisse ao lavatório. De vez em quando, saía ao limiar da sacristia, e quedava-se a olhar para o comendador, que se conservava de joelhos, bom a cabeça abaixada, amparando a fronte nas mãos erguidas.

O abade saiu do confessionário a manquejar trôpego, amparando-se à teia gradeada de um altar. O filho de Maria Ruiva foi dar-lhe o braço, e o ancião queixava-se de dores reumáticas nos joelhos e nos rins. A confessada subiu até à capela-mor, e ajoelhou atrás do brasileiro, lendo actos de contrição e a ladainha.

O abade começara a revestir-se para ir celebrar, quando o comendador se levantou, e de passagem para a sacristia, relançando os olhos a Maria, pôde ver-lhe o rosto alumiado pela réstea refracta do sol que lampejava palpitante através da fresta, na superfície metálica de uns tocheiros doirados. Não a conheceria, se a encontrasse. Aquele rosto havia sido purpurino, acetinado como as pétalas das rosas húmidas pelo rociar das formosas madrugadas. Tivera as curvas boleadas e lisas da saúde, da força, dos atritos do ar forte e do sol que enrubesce a epiderme e colora o sangue.

Estava magra, angulosa e lívida como as santas esculturas sob a inspiração do martírio; mas esta maceração era a formosura divinal da alma, era a santificação da mulher aos olhos daquele ho­mem.

Entrou na sacristia, e com trémula voz, disse ao padre:

- Sr. abade, peço-lhe que antes de subir ao altar chame aqui a sua confessada.

- Aqui?! - perguntou o abade com espanto. - Ela é muito acanhada...

Presumia que o comendador desejava simplesmente ver de perto a mulher cuja desgraçada história o comovera.

- Não importa - volveu o brasileiro - é urgente que ela aqui venha antes que o sr. abade nos dê a comunhão.

- Sim?! - volveu o padre. - Pois bem...

E, saindo ao umbral da sacristia, chamou a filha de Silvestre.

Ela entrou com timidez e assombro. O filho, que suspendia ainda nas mãos as dobras da alva que o padre estava vestindo, largou-as, deixou pender os braços, e empedrou na expressão imóvel da curiosidade.

Neste lance, o comendador apresentou ao abade meia folha de papel selado, e pediu-lhe que a lesse. O padre pediu a Belchior que lhe chegasse os óculos, pô-los tremulamente, acercou-se de uma fresta, e, lendo primeiro a assinatura, disse:

- É a assinatura de sua eminência o sr. arcebispo de Braga?... Conheço-a...

Ergueu a vista ao alto da folha, e leu:

Concedemos ao abade de Santa Maria desta nossa diocese, no concelho de Vila Nova de Famalicão, que possa, sem prévia leitura de banhos, celebrar o sacramento do matrimónio entre os contraentes de maior idade...

Aqui, o abade estacou, abriu demasiadamente os olhos, acertou os óculos na base do nariz, premiu as pálpebras com o dedo polegar, repôs de novo os óculos, e disse ao filho de Maria:

- Ó rapaz, que nomes são estes que estão neste papel?

O carpinteiro leu: entre os contraentes de maior idade Belchior Bernabé, filho de pais incógnitos, e Maria Lopes, filha legítima de Silvestre Lopes e...

- Que é isto? - exclamou o abade - Santo Deus! que é isto?

- Belchior Bernabé - disse o rapaz com o mais cândido assombro - sou eu!...

- Belchior Bernabé é teu pai, meu filho! - exclamou o comendador, abraçando-o; e, ao mesmo tempo, encurvando o braço pelo colo de Maria, puxou-a para o peito, tocou-lhe com os lábios ardentes como as lágrimas na face, e murmurou-lhe soluçante: - Aqui me tens, minha desgraçada Maria! aqui está o pobre enjeitado!...

Ela expediu um grito estridente como o da alegria dos encarcerados, dos condenados à eterna desonra que viram inopinadamente golfar-lhes na treva a luz do Céu e a reabilitação da honra. Queria reconhecê-lo, tacteando-lhe as faces; mas faltou-lhe a claridade dos olhos e a lucidez da razão. Ela pedia luz, pedia a Deus que a não deixasse morrer, e desfalecia pendente do pescoço de Belchior.



*


A felicidade de Maria era santa : custara vinte anos de afrontas sofridas com paciência, sem revolta contra a implacável barbaridade do pai, nem contra a imobilidade das forças divinas. Esperara em Deus, esperara sempre. Dizia ela que sonhara aquilo mesmo - a vinda de Belchior, e a restauração da sua honra.

Contava-o ela ao abade, e ao esposo, e ao filho, à porta do templo; e ele, o ancião, com as rugas da face luzentes de lágrimas, dizia:

- Fui eu quem vos baptizou, e quem vos casou, meus filhos. Agora, enterrai-me vós que eu não tenho ninguém.



*



Belchior Bernabé exigiu como dote de sua mulher o estábulo dos bois edificado sobre os alicerces da casa onde fora recolhido e aquecido ao seio da tecedeira. Ali, onde foi cabana de candura e oração, está hoje um palacete com as mesmas coisas divinas, acrescentadas pela felicidade do amor. Vê-se de longe o palácio do co­mendador Belchior; e lá ao pé, no interior do palácio, as pompas da arquitectura e das decorações desaparecem deslumbradas pelo que há de imortal nas obras humanas: a virtude. Lá está o abade resignatário de Santa Maria entrevado; mas todas as manhãs é transferido da cama para a cadeira que lhe fez o seu Belchior Júnior, aquele rapaz que não resiste à vocação de carpintejar, e está fabricando uma nova cadeira de rodas e molas para o seu velhinho.


Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho