30/05/2007

Maio moço



Só quem já passou por elas ou tem imaginação é que pode fazer ideia do desconsolo que era a vida do Gonçalo em Dornelo, órfão de pai e mãe, a ser criado por esmola em casa do Anastácio. Fome, pancadaria, e o dia inteiro atrás do gado na serra como um escravo. Desprezível e sem uma letra, metia dó. Valia-lhe um pífaro de barro, que trocara por um pião de buxo, que fizera à podoa, onde contava às fragas a sua melancolia de criança infeliz.
Enquanto as ovelhas, que conhecia uma a uma como se fossem pessoas, iam tosando o panasco das lombas, soltava ele as suas queixas, empoleirado nos lapedos. Lamentava-se dum abandono humano que lhe doía no coração, vazio duma palavra de carinho ou de um gesto de ternura.
Embora recebesse dos montes, sempre abertos e atentos às suas mágoas, a dádiva duma liberdade difusa, era do próprio bafo da aldeia que precisava, quente e ritmado a bater-lhe na pele.
Esse calor, porém, estava Dornelo longe de lho dar. A solidão do pastor entranhara-se de tal modo no quotidiano da povoação, que o viam entrar à noite e sair de manhã como se ele fosse um borrego do próprio rebanho que guardava. E o seu nome nunca ocorria a ninguém, quando a arraia miúda tinha lugar de honra à mesa da gente grande.
Todos os rapazes da idade do Gonçalo guardavam na memória uma aventura. Um fora de profeta na festa, outro vestira opa e segurara as borlas do pendão, outro pegara na caldeirinha Ao dia - de Páscoa. Ele, nada. As grandes horas de Dornelo passavam-se à margem da sua vida, rota e desamparada. Nem sequer fizera a primeira comunhão. Sem licença de ir à doutrina, enquanto os mais, de roupa nova e laço branco na manga do casaco, pisavam solenemente as lajes da capela, calcorreava o desgraçado as veredas do Cabril.
Assim decorria tão negregada existência, quando o destino compassivo lhe modificou a catadura de uma maneira inesperada e bonita. Fria já de si, a Montanha naquele ano encaramelara de vez. Punha-se o nariz fora da porta, e as espadanas do ribeiro eram lâminas de gelo a trespassar-nos. Mas que remédio senão levar o gado à serra, a pastar o sincelo!
Ora os nevões, o nevoeiro e o codo são a bem-aventurança dos lobos. Num desses dias, em que só havia brancura de morte por todos os lados, de repente, surgido não sabia de onde, o Gonçalo deu com os olhos num a abocar-lhe uma cordeira.
O cão de guarda ficara-se na povoação, atrás duma cadela na cainça. Alentado e de poucas festas, era ele que dava paz e segurança ao rebanho, numa vigilância guerreira, simbolicamente representada na coleira eriçada de pregos. Por isso, sem aquela protecção, o mesmo terror que tresmalhou as reses, siderou o pastor. Garanho de frio e de medo, o pobre coitado mal podia segurar no lódão. Bambeavam-lhe as pernas, e o coiro da cabeça queria despegar-se-lhe dos ossos. Mas, subitamente, por mistérios insondáveis da natureza humana, ergueu-se-lhe dentro do corpo acobardado uma onda de coragem. E arremeteu com tal fúria sobre o ladrão, que parecia uma fera a avançar sobre a outra.
- Grande como! - gritou, a dar solidariedade aos berros da ovelha agadanhada, enquanto levantava o varapau.
Filado à cernelha da churra, o salteador negava-se a largar a bocada. Ágil e teimoso, tentava arrastar a presa e furtar-se aos golpes. O gosto doce do sangue exacerbava-lhe a fome e assanhava-lhe a teimosia. Tanto montava as bordoadas choverem, como nada.
- Cabrão! Cada vez mais desesperado, o cacete ia e vinha, numa raiva animada de minuto a minuto pela insólita duração da violência.
- Larápio dos infernos! Impávidos, os montes, numa neutralidade polar, assistiam à luta. Nem os comoviam os balidos lancinantes da borrega, nem a angústia do garoto a lutar à sobreposse.
- Não a levas, nem que te danes!
O ímpeto inicial, fruto da espontânea reacção a qualquer desafio que nos é feito, dera lugar a uma serena e voluntariosa consciência protectora. Rei dos animais pela razão, o pastor perdera o sentido do perigo e o terror dele. Agora era um inexorável fiscal da ordem a impedir desmandos.
- Excomungado! Num salto imprevisto, o inimigo arredara-se de uma estadulhada que parecia certeira, e o cajado batera em falso num fragão.
- E esta?
Desiludido com a perícia da emenda, que foi rápida e lhe assentou em cheio no lombo ‘ o lobo hesitou. Mas quando se resignou a abandonar a vítima e se dispôs a fugir, o Gonçalo cortou-lhe a retirada.
- Tem paciência: agora ficas aqui! Disse, e redobrou a força das mocadas.
- Não pões os queixos em mais nenhuma! Derreado, o lobo arreganhava os dentes inutilmente. Com mais três ou quatro amacios, estava liquidado, com a espinha quebrada, caído aos pés do vencedor.
Calhou ser dia de feira em S. Lourenço, e o Nicolau almocreve, que regressava a casa, dar de chofre com aquele espectáculo: o catraio, pálido de emoção e possuído ainda da fúria vingadora, a migar os ossos do agressor; este, esquadrilhado, a babar a neve do sangue da agonia.
- Com trinta milheiros de diabos! Tu onde arranjaste tanta coragem, rapaz?!
O pequeno limpou o ranho do nariz.
- Filho de quem o pariu! Olhe o que ele fez!
Sem vaidade, singelamente, mostrava a mola que o empurrara - a ovelha morta. O Nicolau, e logo a seguir Dornelo, é que não viam no feito senão a valentia na sua pureza original. Quantos e quantos, em semelhante situação, não teriam dado às de vila-diogo!
E a vida do Gonçalo transfigurou-se. Relatada a façanha, e provada com a presença da bicheza, que percorreu o povoado em procissão, um outro sol iluminou os seus gestos, as suas palavras, a sua solidão. Todos passaram a dar-lhe a dignidade que lhe negavam até ali. Os grandes queriam protegê-lo; os pequenos imitá-lo. A mestra protestou que era uma barbaridade deixá-lo analfabeto; o abade declarou que Ia ensinar-lhe o catecismo; a ração aparecia-lhe dobrada no bornal.
Começara entretanto a primavera a despontar da terra e dos céus. Não havia outeiro encardido que se não cobrisse de lírios, torgas e tojos em aleluia. O rebanho, farto, anediava. E a flauta de barro trinava de manhã à noite nos lábios do pastor, curados do cieiro.
- Muito bem toca o demónio do garoto! Herói do povo, aconchegavam-no orgulhosamente à fibra mais generosa do coração. Inventavam-lhe façanhas antigas, ditos cheios de graça, habilidades que nunca tivera. Do deserto monótono de outrora ia surgindo uma biografia rica, divertida, recheada de peripécias e de sentido. Pareciam abelhas a encher um favo. Ninguém queria deixar de colaborar na gesta redentora.
- Uma vez vi-o eu, por causa dum ninho, subir ao alto do negrilho, que até a gente se arrepiava!
Dita, a mentira mudava logo de sinal aos olhos do próprio mentiroso. Transformava-se numa verdade evidente. óbolo de boa vontade deposto aos pés do ídolo, passava a fazer parte da sua intangível realidade.
- Tinha ele dez anos, quando deu tamanha capilota à minha burra! Saltou-lhe para cima do lombo, credo, santo nome de Jesus!
Pouco a pouco, iam tornando sobrenatural tudo quanto fora medíocre na vida do pequeno. Uma glória sem raízes parecia-lhes inverosímil. E doiravam-lhe o passado. Forjavam-lhe a perfumada crónica dos que merecem, por qualquer acção grata aos semelhantes, que se lhes estenda aos pés, desde o berço à mortalha, um tapete de luz.
Mas nada disso os satisfazia ainda. E as próprias serras resolveram então propor um remate alegórico àquela azáfama nobilitadora. Cada vez mais floridas, metiam pelos olhos dentro uma apoteose de cor. Urdido o mito, que melhor remate do que nimbar a divindade da alegria conivente da natureza?
E o Gonçalo até santas mulheres teve ao serviço da sua causa.
- Para onde levas o gado, hoje? - perguntou-lhe à saída de casa a filha do patrão, a Sílvia, a olhá-lo numa carícia de Madalena arrependida.
- Para o Vimieiro.
- Calha bem...
- Porquê?
- Isso é cá um segredo... 
Na sua inocência, nem pensou no dia em que estavam, que era o primeiro de Maio, nem adivinhou a fundura da intenção. Só à tarde, quando encantava os penedos a arrancar melodias da Wina, é que viu um bando de raparigas surgir atrás (Num outeiro, como se fossem atraídas pelo som dos seus trilos. Carregadas de flores de giesta, rodearam-no e puseram-se a adorná-lo como um deus.
Submisso, deixou-se vestir e coroar por aquelas mãos carinhosas e devotadas do oiro que a imaginação há muito lhe prometia, e agora lhe era finalmente entregue.
E assim, feliz e festivo, entrou em Dornelo.

Miguel Torga, Contos da Montanha

27/05/2007

Saga

O mar do Norte, verde e cinzento, rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriam os rochedos escuros. Havia nesse começo de tarde um vaivém incessante de aves marítimas, as águas engrossavam devagar, as nuvens empurradas pelo vento sul acorriam e Hans viu que se estava formando a tempestade. Mas ele não temia a tempestade e, com os fatos inchados de vento, caminhou até ao extremo do promontório.

O voo das gaivotas era cada vez mais inquieto e apertado, o ímpeto e o tumulto cada vez mais violentos e os longínquos espaços escureciam. A tempestade, como uma boa orquestra, afinava os seus instrumentos.

Hans concentrava o seu espírito para a exaltação crescente do grande cântico marítimo. Tudo nele estava atento como quando escutava o cântico do órgão da igreja luterana, na igreja austera, solene, apaixonada e fria.

Para resistir ao vento, estendeu-se ao comprido no extremo do promontório. Dali via de frente o inchar da ondulação cada vez mais densa como se as águas se fossem tornando mais pesadas.

Agora as gaivotas recolhiam a terra. Só a procelária abria rente à vaga o voo duro. À direita, as longas ervas transparentes, dobradas pelo vento, estendiam no chão o caule fino. Nuvens sombrias enrolavam os anéis enormes e, sob uma estranha luz, simultaneamente sombria e cintilante, os espaços se transfiguravam. De repente, começou a chover.

A família de Hans morava no interior da ilha. Ali, o rumor marítimo só em dias de temporal, através da floresta longínqua, se ouvia.

Mas ele vinha muitas vezes até à pequena vila costeira e, esgueirando-se pelas ruelas, caminhava ao longo do cais, ao lado de botes e veleiros, atravessava a praia e subia ao extremo do promontório. Ali, no respirar da vaga, ouvia o respirar indecifrado da sua própria paixão.

Nesse dia, quando ao cair da noite entrou em casa, Hans curvou a cabeça. Pois aos catorze anos já tinha quase a altura de um homem e, em Vig, as portas de entrada são baixas.

Assim é desde o tempo antigo das guerras quando os invasores que ocupavam a ilha penetravam nas casas de cabeça erguida mas exigiam que a gente da ilha se curvasse para os saudar. Então, os homens de Vig baixaram o lintel das suas portas para obrigarem o vencedor a baixar a cabeça.

Sõren, pai de Hans, era um homem alto, magro, com os olhos cor de porcelana azul, os traços secos e belas mãos sensíveis que mais tarde, durante gerações, os seus descendentes herdaram. Nele, como na igreja luterana, havia algo de austero e solene, apaixonado e frio. À casa e à família imprimia uma inominada lei de silêncio e reserva onde o espírito de cada um concentrava a sua força. De certa forma Sõren reconhecia o risco que corria: sabia que é no silêncio que se escuta o tumulto, é no silêncio que o desafio se concentra. Mas ele impunha a si mesmo e aos outros uma disciplina de responsabilidade e de escolha dentro da qual cada um ficava terrivelmente livre. Havia porém algo de taciturno e ansioso em Sõren: ele pensava tal-vez que a integridade humana, mesmo a mais perfeita, nada podia contra o destino. Do dever cumprido, da liberdade assumida, não esperava sucesso nem prosperidade, nem mesmo paz.

Os seus irmãos mais novos - Gustav e Niels - tinham morrido no naufrágio de um veleiro que lhe pertencia. Sõren sabia que o seu barco era um bom barco onde ele próprio inspeccionara com minúcia cada cabo e cada tábua, sabia que os seus jovens irmãos eram perfeitos homens do mar e hábil e competente o capitão a quem tudo entregara. No entanto, o navio naufragou quando a experiência e o cálculo não mediram exactamente a força e a proximidade do temporal.

Mal a notícia do naufrágio foi confirmada pelo cargueiro inglês que dois dias depois recolhera ao largo os destroços do veleiro desmantelado - o mastro partido, as bóias, o bote virado - Sõren vendeu os seus barcos e comprou terras no interior da ilha. Dizia-se mesmo que nunca mais olhara o mar. Dizia-se mesmo que nesse dia tinha chicoteado o mar .

No entanto Hans suspirava e nas longas noites de Inverno procurava ouvir, quando o vento soprava do sul, entre o sussurrar dos abetos, o distante, adivinhado, rumor da rebentação. Carregado de imaginações queria ser, como os seus tios e avós, marinheiro. Não para navegar apenas entre as ilhas e as costas do Norte, seguindo nas ondas frias os cardumes de peixe. Queria navegar para o Sul. Imaginava as grandes solidões do oceano, o surgir solene dos promontórios, as praias onde baloiçam coqueiros e onde chega até ao mar a respiração dos desertos. Imaginava as ilhas de coral azul que são como os olhos azuis do mar. Imaginava o tumulto, o calor, o cheiro a canela e laranja das terras meridionais .

Queria ser um daqueles homens que a bordo do seu barco viviam rente ao maravilhamento e ao pavor, um daqueles homens de andar baloiçado, com a cara queimada por mil sóis, a roupa desbotada e rija de sal, o corpo direito como um mastro, os ombros largos de remar e o peito dilatado pela respiração dos temporais . Um daqueles homens cuja ausência era sonhada e cujo regresso, mal o navio ao longe se avistava, fazia acorrer ao cais as mulheres e as crianças de Vig e a história que eles contavam era repetida e contada de boca em boca, de geração em geração, como se cada um a tivesse vivido.

Sõren e Maria jantavam com os filhos, Hans e Cristina, em redor do círculo luminoso da lâmpada. Lá fora as madeiras da janela batiam, através da floresta arfava o rumor marinho da tempestade. Por entre as agulhas dos pinheiros e os ramos das bétulas perpassavam ecos, sibilâncias, gritos e, contra o céu baixo de nuvens, ressoava o longínquo tumulto da rebentação.

-Sõren, que notícias ouviste hoje na vila? - perguntou Maria .

-Más notícias. O Elseneur devia ter entrado a barra a meio da tarde mas, ao pôr do sol, ainda não se avistava. Vão ser obrigados a passar o temporal e a noite no mar .

-E um bom barco -dIsse Hans que conhecia o Elseneur palmo a palmo. - É um navio que aguenta muito mar .

-Deus os guarde -murmurou Maria. Pois o Elseneur era o melhor navio de Vig

e a sua tripulação era formada por gente da ilha, homens jovens que ela conhecia desde o berço, ou velhos lobos do mar que a conheciam desde a própria infância.

Porém, nessa noite, enquanto Hans dormia, o Elseneur naufragou contra os rochedos negros das falésias.

Nenhum homem se salvou. O vento espalhou os gritos no clamor da escuridão selvagem, a força das braçadas desfez-se nos redemoinhos, a água tapou as bocas. Nem os que treparam aos mastros se salvaram, nem os que se meteram nos botes, nem os que nadaram para terra. O mar quebrou tábua por tábua o casco, os mastros, os botes e os marinheiros foram rolados entre a pedra e a vaga.

Estas foram as notícias que as criadas de manhã trouxeram do mercado.

Nesse dia, à noite, depois do jantar, quando a mulher e a filha se levantaram da mesa, Sõren continuou sentado e disse a Hans :

-Fica.

Hans apoiou-se ao grande armário de madeira lavrada, fora do círculo da luz da lâmpada, semioculto na penumbra. Lá fora continuava o mau tempo e a ventania sacudia as portadas fechadas.

-Senta-te -ordenou Sõren.

Hans avançando, entrou no círculo da luz, e sentou-se em frente de Sõren e fitou o branco da toalha.

Quando o vento parava, ouvia-se um tilintar de loiça no interior da casa.

Um instante passou, pesado como um longo tempo. Finalmente Sõren falou :

-Hoje escrevi para Copenhague. No fim deste Verão vais para lá estudar. Escolhe o que queres estudar.

-Quero ser marinheiro -respondeu Hans .

-Não. Escolhe outra coisa. Podes estudar leis ou medicina ou engenharia.

-Quero ser capitão de um navio .

Sõren poisou as mãos sobre a mesa sob a luz branca e directa da lâmpada. Hans mais uma vez viu como elas eram belas, belas e penetradas de domínio em sua austera e contida paixão. No entanto, nesse momento, tremiam um pouco e Sõren apertava-as uma contra a outra enquanto falava.

-Ouve -disse ele. -Esta manhã fui ao lugar do naufrágio, à Ponta do Norte. Fui acompanhar Knud que ia em busca do corpo dos seus dois filhos. O mar já tinha atirado muitos dos corpos para a praia. Mas estavam quase todos completamente desfigurados de tanto terem sido batidos contra os rochedos da falésia. A praia estava cheia de gente. Cada um procurava os seus mort9s. Knud só pôde reconhecer os filhos pelo anel de prata que ambos usavam no terceiro dedo da mão direita. Disse: «Maldito seja o mar». Não hás-de ser marinheiro, Hans. Escolhe outro ofício. Não quero amaldi- çoar o mundo onde nasci nem acusar o Deus que me criou. Muda de ideias. Promete-me que nunca serás homem do mar. Dá-me a tua palavra.

Hans fitou a toalha. Baixo e devagar, respondeu:

-Não posso.

Sõren apertou uma contra a outra as mãos, levantou-se em silêncio e saiu sem fechar a porta. Sob os seus passos ouviram-se gemer os degraus da escada. Depois, no interior da casa, soou o tilintar da loiça e subiu um riso de mulher.

Hans estava de pé na penumbra, encostado ao armário de madeira lavrada.

Lá fora o vento fazia ressoar todas as suas harpas.

Em Agosto, chegou a Vig, vindo da Noruega, um cargueiro inglês que se chamava Angus e seguia para o Sul. O capitão era um homem de barba ruiva e aspecto terrível que navegara até aos mares da China. Foi no «Angus» que Hans fugiu de Vig, alistado como grumete.

Navegaram primeiro com bom tempo e o veleiro corria esticado no vento. Unido ao balanço, Hans, enquanto lavava o convés, polia os metais ou enrolava os cabos, aspirava a veemência da vasta respiração marítima. Os seus ouvidos escutavam a força viva do navio que galgando a onda reencontrava o equilíbrio sobre o desequilíbrio das águas .

Depois atravessaram as tempestades da Biscaia. Ali a vaga media dez metros e a água tornara-se espessa, pesada e brutal em seu cinzento metálico. Todas as madeiras gemiam como se fossem despedaçar-se e sentia-se a tensão dos cabos repuxados. As ondas varriam o convés e o navio, ora erguido na crista da vaga ora caindo pesadamente, parecia a cada instante tocar seu ponto de ruptura e desmantelamento. Mas Hans sentia a elasticidade do barco, a sua precisão de extremo a extremo e o equilíbrio que, entre vaga e contra-vaga, não se rompia. Mais tarde os navios de Hans nunca naufragaram.

Contornaram a terra, navegaram para o Sul e, ao cair de uma tarde, penetraram sob o arco das gaivotas, na barra estreita de um rio esverdeado e turvo, flutuante de imagens entre as margens cavadas. A esquerda, subindo a

vertente, erguia-se o casario branco, amarelo e vermelho, misturado com os escuros granitos.

Na luz vermelha do poente a cidade parecia carregada de memórias, insondavelmente antiga, feérica e magnetizada, com todos os vidros das suas janelas cintilando. Animava-a uma veemência indistinta que aqui e além aflorava em ecos, rumores, perpassar de vultos, gritos longínquos e perdidos, reflexo de luzes sobre o no.

Hans amou desde o primeiro momento a respiração rouca da cidade, o colorido intenso e sombrio, o arvoredo murmurante e espesso, o verde espelhado do rio. Na estrada que corria junto às margens viam-se bois enfeitados e vermelhos, puxando carros de madeira que chiavam sob o peso de pipas, pedra e areIas.

O navio demorou-se vários dias no cais, carregando e descarregando. Na véspera da partida entre Hans e o capitão levantou-se uma furiosa querela.

Hans estava de pé no cais, vestido com uma pele de urso branco que encontrara no porão. No centro de um círculo de marinheiros, que batiam palmas para marcar o ritmo, dançava e ria sacudindo uma pandeireta. Juntava-se gente. Como se se tratasse de um circo ambulante um grumete tirara o barrete e estendia-o aos espectadores que começavam a lançar moedas. A tarde escorria sobre o rio.

Foi esta cena que o capitão viu quando, de súbito, irrompeu no convés. A sua barba verme- lha brilhava de fúria. Hans, sozinho, no meio do círculo vazio, suportou com um sorriso calmo o rosto irado que o fitava. Houve um pesado silêncio.

-Despe isso -gritou o capitão. -Aqui não é um circo.

Hans, devagar, com um sorriso petulante, despiu a pele do urso e estendeu-a a outro grumete, dizendo:

-Toma, meu pagem, leva o meu manto.

E a pele, sem que nenhum braço se estendesse para a receber, caiu mole no chão.

-Aqui não é um teatro -disse o capitão, olhando Hans na cara.

Hans sustentou o olhar e o seu sorriso tomou-se duro e teimoso.

-Apanha a pele -ordenou o capitão. -E vai para bordo, tu e os outros, todos, para bordo.

No porão o capitão chicoteou Hans em frente, dos homens calados.

No fim disse-Ihe:

-Agora aprendeste a ter juízo.

Mas nessa madrugada, em segredo, Hans abandonou o navio.

Caminhou ao acaso na cidade desconhecida, perdido no som das palavras estrangeiras, per- dido na diferença dos sons, da luz, dos rostos e dos cheiros, carregando o seu pequeno saco, procurando nas ruas o lado da sombra. Através de grades de ferro pintadas de verde, espreitou o interior sussurrante de insondáveis jardins onde sob enormes arvoredos se abriam trémulos junquilhos. Parou em frente dos ourives para olhar as montras, à porta das adegas respirou a frescura sombria e o cheiro do vinho entornado. Caminhou ao longo do rio, na margem onde as mulheres, descalças, carregavam cestos de areia enquanto outras discutiam, aos magotes, cortando com grandes brados e largos gestos o ar liso da manhã. Penetrou nas igrejas de azulejo e talha que não eram claras e frias como as igrejas do seu país, mas doiradas e sombrias, numa penumbra trémula de velas onde negrumes e brilhos animavam o rosto das imagens que num incerto sorriso pareciam reconhecê-lo. Dormiu nos degraus de uma escada, sob os arcos da praça, nos bancos do jardim público e as noites pareceram-Ihe mornas e transparentes.

Assim, diz-se,i terá vagueado quatro dias, tonto de descobrimento, de espanto e de solidão. Mas ao quinto dia o seu ânimo quebrou-se. A língua estrangeira fechava em sua roda um círculo . De repente, reconheceu o seu exílio, a sua fraqueza. Foi então que um inglês chamado Hoyle que morava para o lado do rio o encontrou, a chorar, encostado ao muro da sua quinta e lhe bateu com a mão no ombro e o levou consigo e o recolheu.

Hoyle era armador e negociava no transporte de vinho para os países do Norte. Vivia naquela cidade há trinta anos, mas sempre como estrangeiro, sem aprender decentemente a língua da terra nem se habituar à sua comida. Só ao clima e aos vinhos se habituara. Para além das relações com empregados, criados e alguns comerciantes não convivia com indígenas. As suas relações e amizades eram só com ingleses, só falava bem inglês, só lia jornais ingleses e comia só comida inglesa com mostarda inglesa, na sua casa mobilada com mesas, cadeiras, armários, camas e gravuras inglesas e onde pairava sempre um cheiro inglês a farmácia.

Hans ficou a viver nessa casa, em parte como empregado, em parte como filho adopti- vo.

A sua adolescência cresceu entre os cais, os armazéns e os barcos, em conversas com mari- nheiros embarcadiços e comerciantes. De um barco ele sabia tudo desde o porão até ao cimo do mais alto mastro. E, ora a bordo ora em terra, ora debruçado nos bancos da escola sobre mapas e cálculos, ora mergulhado em narrações de viagens, estudando, sonhando e praticando, ele preparava-se para cumprir o seu projecto: regressar a Vig como capitão de um navio, ser perdoado pelo Pai e acolhido na casa.

Dois dias depois de ter recolhido Hans, Hoyle levou-o ao centro da cidade e comprou-lhe as roupas de que precisava e também papel e caneta.

Hans escreveu para casa: pediu com ardor perdão da sua fuga, dizia as suas razões, as suas aventuras, o seu paradeiro. Prometia que um dia voltaria a Vig e seria o capitão de um grande veleiro .

A resposta só veio meses depois. Era uma carta da mãe. Leu:

«Deus te perdoe, Hans, porque nos injuriaste e abandonaste. Manda-me o teu pai que te diga que não voltes a Vig pois não te receberá.»

Depois dessa carta, Hans sonhou com Vig muitas vezes. Era acordado de noite pelo clamor de tempestades em que naufragava à vista da ilha sem a poder atingir. Ou deslizava, ao lado do Pai, num grande lago gelado, rente à luz de cristal e havia em seu redor um infinito silêncio, uma transparência infinita, uma leveza e uma felicidade sem nome. Mas outras noites acordava chorando e soluçando, pois o seu pai era o capitão do navio e o chicoteava brutalmente no convés e ele fugia e de novo ficava sozinho e perdido numa cidade estrangeira.

Os anos passaram e Hans aprendeu a arte de navegar e a arte de comerciar.

Hoyle nunca casara e, numa terra para ele estrangeira, não tinha família e as suas raras amizades eram pouco íntimas. No adolescente evadido ele via agora um reflexo da sua própria juventude aventurosa que, há muito tempo, naquela cidade ancorara. Para ele, Hans era a sua nova possibilidade, o destino outra vez oferecido, aquele que iria viver por ele a verdadeira vida, que nele, Hoyle, estava já perdida como se o destino, tendo falhado seus propósitos, fizesse, com uma nova mocidade, uma nova tentativa. Assim, Hans era para ele não o herdeiro daquilo que possuía e fizera mas antes o herdeiro daquilo que perdera. Por isso seguiu passo a passo os estudos e a aprendizagem do adolescente, controlando a qualidade do ensino nas escolas onde o inscrevera e vigiando a com- petência dos superiores sob cujas ordens a bordo o colocava. Aos 21 anos, já Hans era capitão de um navio de Hoyle e homem de confiança nos seus negoclos. Assim, desde muito cedo, Hans conhecera as ilhas do Atlântico, as costas de África e do Brasil, os mares da China. Manobrou velas e dirigiu a manobra das velas, descarregou fardos e dirigiu o embarque e desembarque de mercadorias.

Respirou o arfar dos temporais e a imensidão azul das calmarias. Caminhou em grandes praias brancas onde baloiçavam coqueiros, rondou promontórios e costas desertas, perdeu-se nas ruelas das cidades desconhecidas, negociou nos portos e nas fronteiras.

Escorrendo água do mar, estendido na praia, afastado um pouco dos companheiros, poisava sobre os ouvidos dois grandes búzios brancos, rosados e semi-translúcidos e pensava: «Um dia levarei estes búzios para Vig.» E à noite, já a bordo, escrevia para casa uma longa carta que falava de búzios do Índico.

Encostado à amurada do navio em noite de luar e calmaria, com os olhos postos no grande olhar magnético da lua cujo rasto trémulo de brilho como o dorso de um peixe cortava a escuridão estática das águas, pensava: «Um dia contarei em Vig este brilho, esta escuridão transparente, este silêncio». No dia seguinte escrevia para casa, contando a noite, o mar, o luar .

Num porto distante, sentado a cear na varanda da hospedaria, sob a luz das lanternas de cor , enquanto se deslumbrava com a beleza das loiças, com seus desenhos azuis e seu branco azulado e descobria o sabor sábio dos temperos exóticos, pensava: «Levarei para Vig esta loiça e estas especiarias para alegrar e aquecer as ceias do Inverno». E, no dia seguinte, escrevia para casa contando o azul das loiças, a beleza das sedas e das lacas e as maravilhas do tempero.

Mas, quando ao fim de longos meses regressou e Hoyle lhe entregou o correio chegado na sua ausência, as cartas da mãe, em resposta às notícias que do cabo do mundo mandara, eram sempre a mesma mensagem: «Deus te proteja e te dê saúde. Mas não voltes a V ig porque o teu pai não te quer receber .»

Quando estava já passada a sua primeira mocidade, um dia, à volta de uma das suas viagens, Hans encontrou o inglês doente. O mal atacara os seus olhos e a cegueira avançava rápida.

-Hans -disse ele -, estou velho e cego, já não posso tratar dos meus barcos, dos meus armazéns, dos meus negócios. Fica comigo.

Hans ficou. Deixou de ser empregado de Hoyle e tornou-se seu sócio. Sentado em frente da pesada mesa de carvalho recebia os comerciantes, os chefes dos armazéns e os capitães de navio. As suas narinas tremiam quando no gabinete entravam gentes vindas de bordo. Porque deles se desprendia cheiro a mar. A renúncia endurecia os seus músculos. A noite relatava

a Hoyle as conversas que tivera, as decisões que tomara. Depois bebiam juntos um copo de vinho.

A vida de Hans mais uma vez tinha virado. Já não eram as longas navegações até aos con- fins dos continentes, o avançar aventuroso ao longo de costas luxuriantes e de costas desérti- cas, de povo em povo, de baía em baía. Agora verificava a ordem dos armazéns, o bom estado dos navios, a competência das equipagens, controlava as cargas e descargas, discutia negócios e contratos. As suas viagens iam-se tornando rápidas e espaçadas.

E Hans compreendeu que, como todas as vidas, a sua vida não seria mais a sua própria vida, a que nele estava impaciente e latente, mas um misto de encontro e desencontro, de desejo cumprido e desejo fracassado, embora, em rigor, tudo fosse possível. E compreendeu que as suas grandes vitórias seriam as que não tinha desejado e que, por isso, nem sequer seriam vitórias .

Escreveu ao Pai. Disse-lhe que não era mais um navegador entre as ondas e o vento. Que era um homem estabelecido, em terra firme e que queria voltar a Vig. Foi a Mãe que respondeu à sua carta dizendo que o pai não o receberia.

Associado ao inglês, Hans começou a construir uma fortuna pessoal que nunca tinha projectado . Era um homem de negócios hábil porque se apercebia da natureza das coisas e da natureza das pessoas e negociava sem paixão. A fortuna não era nem a sua ambição, nem a sua aventura nem o seu jogo e nela nada de si próprio envolvia. Enriquecia porque a sua percepção e os seus cálculos estavam certos.

Algum tempo depois casou com a filha de um general liberal que desembarcara no Mindelo e cuja espada, mais tarde, transitando de herança em herança, se conservou na família.

Escolheu Ana porque tinha a cara redonda e rosada e cheirava a maçã como a primeira mulher criada e como a casa onde ele nascera, e porque o seu loiro de minhota lhe lembrava as tranças das mulheres de Vig.

Pouco antes do seu casamento Hoyle morrera e Hans fundara a sua própria firma cuja prosperidade crescia. Era agora um homem rico e também respeitado e escutado. A sua honestidade era célebre e a sua palavra era de oiro.

Parecia estar já inteiramente integrado na cidade onde, quase ainda criança, vagueara estrangeiro e perdido. Conhecia um por um os notáveis do burgo: ele próprio agora era um dos notáveis do burgo. }\mava o rio, o granito das casas e calçadas, as enormes tílias inchadas de brisas, as cameleiras de folhas polidas que floriam desde Novembro até Maio.

E foi no tempo das últimas camélias (vermelhas, pesadas e largas) que nasceu o seu primeiro filho .

Tinha sido decidido que a criança seria baptizada no seu sétimo dia de vida e que, após o baptizado, o primeiro navio de Hans seria lançado à água.

Tudo se preparava para a festa quando, na madrugada no sexto dia, o recém-nascido adoeceu. Foi baptizado de urgência recebendo o nome de Sõren. Foi Hans quem, dobrando o seu corpo, colocou no caixão o pequeno corpo deitado nas suas mãos abertas.

Mas não deixou adiar o lançamento do navio e no dia seguinte desceu a pé desde o cemitério até à doca.

Na manhã de Maio, as árvores estavam cheias de folhas novas, e ao longe, do outro lado da foz, a claridade brilhava na rebentação da praia, as ondas sacudiam as crinas como cavalos feli- zes e as gaivotas descreviam no céu grandes arcos festivos.

Quando o navio começou a deslizar Hans disse:

-Vai, Sõren, Deus te proteja e navega por todo o mar .

Nasceu o seu segundo filho no tempo das primeiras camélias, em Novembro do seguinte ano. Era um rapaz grande e robusto e quando ele começou a andar Hans, mais uma vez, escreveu para Vig. E mais uma vez foi a Mãe que respondeu dizendo que o Pai não o receberia.

Os anos foram passando e a riqueza de Hans continuava a crescer. Nasceram-Ihe mais cinco filhos, três rapazes e duas raparigas. Aumentou também o número dos seus barcos e a extensão dos seus negócios.

E de novo se multiplicaram as suas viagens. Mas não eram já os aventurosos caminhos da sua juventude: eram viagens de negociante que vai estudar mercados, abrir sucursais, estudar con- tratos e contactos. Porém quando a bordo, à noite, sozinho à popa, olhando o rasto branco da espuma, respirava o vento salgado, ou quando no seu beliche sentia o bater das ondas no casco, às vezes, de súbito, reencontrava a voz, a fala do seu destino. Mas era só o fantasma do seu destino. Em rigor ele já não era quem era e tinha encalhado em sua própria vida. Já não era o navegador que no barco e no mar está em sua própria casa, mas apenas o viajante que por uns tempos deixou a sua própria casa aonde vai regressar. Já não era como se o barco fosse o seu corpo, como se o emergir das paisagens fosse a sua alma e o seu próprio rosto, como se o seu ser se confundisse com as águas.

A sua antiga fuga de Vig fora, de certa forma, inútil. Nem a traição lhe dera o seu destino.

E entre negócios e nostalgia, viagens e empreendimentos se foram os anos passando. No entanto parecia a Hans que algo em sua vida, embora fosse já tão tarde, era ainda espera e espaço aberto, possibilidade.

Quando a Mãe morreu, mais uma vez ele escreveu ao Pai. Mas do Pai nunca veio resposta e foi então que Hans compreendeu que jamais regressaria a Vig.

Passados alguns meses comprou uma quinta que do alto de uma pequena colina descia até ao cais de saída da barra.

Entrava-se na quinta, pelo lado dos campos, por um portão de ferro que, depois de o pas- sarmos, ao fechar-se, batia pesadamente.

Em frente, surgia a casa, enorme, desmedida, com altas janelas, largas portas e a ampla escadaria de granito, abrindo em leque. Na parte de trás, corria uma longa varanda debruçada sobre os roseirais do poente.

Hans mandou fazer grandes obras. Da Boémia vieram os vidros de cristal lavrado das portas, semi-transparentes e semi-foscas e tendo gravadas as suas iniciais, vieram os copos, jarras, jarros, taças e compoteiras cuja transparência brilhava e tilintava em almoços e jantares. Da Alemanha, da França, de Itália vieram as sedas e os veludos dos cortinados e os móveis à última moda e muito do vinho das garrafeiras, vinho do Reno e Mosela e vinho tínto da Borgonha, vinho de Champagne e vinho de Itália, alinhados por ordem de origem ao lado dos vinhos do Douro e da Madeira. Muito mais tarde, nessas caves quase vazias e cheias de teias de ara- nha e sustos, os netos de Hans, às escondidas das mestras e criadas, divagaram em explorações sonhadoras.

Mas naquele tempo chegavam sem cessar coisas novas: o enorme bilhar com as bolas de marfim encarnadas e brancas onde vieram jogar todos os campeões da região, o piano de cauda onde tocaram meninas prendadas, mas também verdadeiros pianistas, os espelhos de fundo esverdeado, as caixas de laca com os tentos de madrepérola, os quadros de um realismo romântico onde se viam campos, aldeias, pontes e camponesas sonhadoras, vestidas à moda da Calábria. Chegavam lustres, bustos, estátuas e o enorme globo terrestre onde os filhos e os netos cismaram a geografia. Mas o grande maravilhamento das crianças era uma caixa rectangular e alta e para dentro da qual se espreitava através de dois óculos. Lá dentro se viam, em relevo e a cores, cenas de óperas e bailados. Fazia-se girar um botão e as cenas mudavam. E durante horas as crianças espreitavam, pois os óculos eram para elas janelas abertas para o jardim de um outro mundo, um mundo onde princesas, caçadores, pagens e bailarinas viviam misteriosos enredos, um mundo real e inacessível como o verdadeiro destino de cada um.

Tudo na casa era desmedidamente grande desde os quartos de dormir onde as crianças andavam de bicicleta até ao enorme átrio para o qual davam todas as salas e no qual, como Hans dizia, se poderia armar o esqueleto da baleia que há anos repousava, empacotado em numerosos volumes, nas caves da Faculdade de Ciências por não haver lugar onde coubesse armado.

Agora que os filhos cresciam, Háns gostava dos longos jantares. Além da família, sempre havia amigos e convidados, muitos deles gente de passagem, capitães de navios, negociantes, músicos que vinham dar concertos na cidade. Hans precisava da diversidade das companhias, de conversas que lhe trouxessem um eco de terras e vidas diferentes. E gostava da animação das vozes, da abundância e da qualidade das comidas, da excelência dos vinhos, da frescura e da beleza das rosas, do brilho das pratas do tilintar de copos e talheres .

Entretanto, à medida que a vida ia cumprindo os seus ciclos, noivados, casamentos, nascimen- tos, baptizados iam povoando a casa de azáfama e festas, animando e dramatizando os dias, rea- justando as relações dos personagens como num caleidoscópio, quando, num clic, se reajustam as relações das figuras.

Os filhos tinham crescido. As quatro Estações giravam.

De súbito, Hans não reconhecia o tempo. Como alguém que distraído deixa passar a hora em que devia comparecer em determinado jardim e se espanta que seja já tão tarde, assim agora ele se espantava como se não tivesse à passagem reconhecido os dias e, por descuido, tivesse deixado passar os anos sem comparecer à sua própria vida. E não sabia bem como tanto se atrasara, encalhado em hábitos, afazeres e demoras sem jamais surgir, assomar, à proa do navio, no horizonte de Vig. Faltava algo que lhe era devido.

E agora deitava-se tarde. Quando os convidados saíam e a casa adormecia, ficava sozinho no átrio, sentado à mesa redonda onde se empilhavam as revistas do mês e os jornais da semana. Folheava o Times, via as cotações da Bolsa de Londres, programava e meditava os seus próprios empreendimentos. Pensava na mulher, nos filhos que tinham crescido, e que, ao crescer, se tinham ido definindo, enquanto ele, atentamente, procurava neles parecenças -ecos de memórias, sombras de rostos amados e perdidos. Depois o seu pensamento derivava e a alta proa do grande navio avançava com terra à vista ao longo de praias desertas. O cheiro de Africa penetrava o seu peito. Via as florestas,

as embocaduras, ouvia gemer os mastros. Dispersas memórias irrompiam: sob a vasta noite atlântica estava deitado no convés com o brilho das estrelas sobre o rosto, ouvindo o bater do mar no barco e o bater da velas inchadas e, sobre o seu corpo, corriam brisas e alísios sal- gados e, brandamente, penetrava no interior do universo e da noite. Estava sentado num pequeno muro em frente do cais de um porto chinês onde juncos e faluas se cruzavam, enfeitados de cores vivas, cheias de vozes, luzes e música: e as cores e as luzes reflectiam-se deslizando nas águas e as vozes e as músicas flutuavam no ar pesado e leve das noites. E no souk de Marrocos um rapaz sentado no chão respirava uma rosa. Sentia ainda a frescura do leite e a doçura das tâmaras que lhe tinham oferecido à chegada e como então descobriu um luxo que não era a pesada riqueza da Europa, mas era silêncio e rumor de água e o cerimonial das vozes, das palavras e dos gestos. E no canto do átrio vazio cismava vagamente, nem sequer sabendo que cismava, debruçado sobre papeladas, contas e jor- nais ingleses. Mas de súbito estremecia e passava para além do próprio cismar: a memória de Vig subia à flor do mar. Os nevoeiros marítimos in- vadiam a sua respiração. Desde o horizonte os navios avançavam para a ilha. Grandes velas côncavas e abertas, negros cascos cortando as águas frias. Vozes roucas no cais, cabos puxados, amarras, azáfama do atracar, dedilhar de água nas pedras, vaivém de botes. Descarga, roldanas, manobras, ordens. E um por um, nimbados de sal e distância, queimados pelo vento e pelo sol, altos homens de largos ombros desembarcavam na tarde fria e, daí a poucas horas, já de boca em boca, de casa em casa, corria a notícia das suas pescarias, das tempestades atravessadas, das singraduras percorridas, dos perigos, medos e maravilhas que tinham encontrado. E daí em diante a sua história seria contada junto ao lume dos longos Invernos e, cismada por crianças, sonhada por adolescentes, entraria no grande espaço mítico que é a alma da vida. Mas dele, Hans, burguês próspero, comerciante competente, que nem se perdera na tempestade nem regressara ao cais, nunca ninguém contaria a história, nem de geração em geração, se cantaria a saga.

Fechou os livros de contas, dobrou os jornais, levantou-se pesadamente e atravessou como estrangeiro a sua casa. Vagos os espelhos luziam nas penumbras. Neles uma pesada imagem sua, não reconhecida, passava.

Porém em redor da casa os anos faziam crescer os jardins e pomares. As cerejas brancas e as camélias da quinta tomaram-se célebres. nas cerejas brancas havia um leve sabor a amêndoa, um levíssimo travo amargo cortando a doçura sumarenta da polpa. Em Novembro as primeiras camélias eram de um rosa pálido e transparente e mantinham-se direitas e rijas na haste. Os seus troncos largavam nos dedos um pó escuro que as crianças limpavam ao bibe. E ritmados pelas quatro estações, os anos passavam e, como as tílias e os pomares, a nova geração de crianças crescia.

No fundo da quinta, para os lados da barra, Hans mandou construir uma torre. Segundo disse para ver a entrada e a saída dos seus barcos.

Daí em diante, de vez em quando, à tarde, em vez de trabalhar no escritório, trabalhava no quarto da torre onde recebia os empregados e as pessoas que o procuravam. Consigo às vezes levava Joana, a neta mais velha, que achava na torre grande aventura e mistério, e a quem ele ensinava o nome e a história dos navios.

Depois, quando queria trabalhar, dava à neta lápis e papel para que ela desenhasse enquanto ele se debruçava sobre contratos, cartas, livros, contas, relatórios .

Mas Joana desenhava pouco. Levantava a cabeça e fitava intensamente Hans pois algo na sua cara a fascinava e inquietava. E via então que também ele não trabalhava: para além da barra, para além da rebentação, os seus olhos fitavam os verdes azuis do horizonte marinho.

-Avô -disse Joana -porque é que está sempre a olhar para o mar?

-Ah! -respondeu Hans. -Porque o mar é o caminho para a minha casa.

E os anos começaram a passar muito depressa. E uma certa irrealidade começou a crescer.

Hans agora já não viajava. Estava velho como um barco que não navegava mais e prancha por prancha se vai desmantelando. Tinha as mãos um pouco trémulas, o azul dos olhos desbotado, fundas rugas lhe cavavam a testa, os cabelos e as compridas suíças estavam completamente brancas. Mas era um velho imponente e terrível, alto e direito em seu pesado andar, autoritário nas ordens que dava e sempre um pouco impaciente e taciturno .

Quando adoeceu para morrer, ia Novembro perto do fim. As camélias brancas estavam em flor, levemente rosadas, macias, transparentes. Algumas lhe trouxeram ao quarto, apanhadas à beira do roseiral.

Num tempo ainda sem radiografias morria em casa à maneira antiga, de uma doença incertamente diagnosticada, rodeado pela mulher, pelos filhos, por criados antigos e médicos e enfermeiros. A incerteza do diagnóstico era, de certa forma, uma misericórdia. Quase até ao fim todos esperaram que o homem robusto sacudisse a doença.

Durante seis dias, Hans sereno e consciente pareceu resistir. Mas ao sétimo dia a febre subiu, a respiração começou a ser difícil e na sua atenção algo se alterou. No quarto o ambiente tomou-se sussurrado, com luzes veladas e gestos silenciosos como se cada pessoa tivesse medo de quebrar qualquer fio.

Ao cair da noite, Hans -que durante longas horas parecera semi-adormecido -abriu os olhos e chamou.

A mulher e os filhos debruçaram-se sobre ele para o ouvir.

-Quando eu morrer -pediu Hans -mandem construir um navio em cima da minha sepultura.

-Um navio? -murmurou o filho mais velho. -Um navio como?

-Naufragado -disse Hans .

E até morrer, não falou mais.

Talvez Hans estivesse já delirante quando pronunciou as últimas palavras, pensou-se. No entanto o pedido foi cumprido.

Hans foi enterrado no lado sul do cemitério, no terreno reservado aos protestantes. Daí se vê o rio, a barra, o mar e, ao longo das avenidas, os plátanos arrastam no Outono as suas folhas.

Em pedra e bronze, com mastros quebra- dos e velhas rasgadas, o navio foi construído sobre a campa de Hans. Este estranho jazigo que entre lápides, bustos, anjos de pedra, canteiros e piedosas cruzes tinha algo de arrebatado e selvático, tomou-se depressa um dos monumentos famosos da cidade e vinha gente das redondezas para o ver.

A sua enorme sombra inquieta quem passe sozinho na avenida dos plátanos e muitos perguntam porquê tão estranha sepultura. Porém é nesse navio que, nas noites de temporal, Hans sai a barra e navega para o Norte, para Vig, a ilha.

Sophia de Mello Breyner:, In Histórias da Terra e do Mar

Feliz Aniversário

A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.

Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada. "Vim para não deixar de vir", dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paetês.

Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda — a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante — e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca aberta.

E à cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos.

Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito "Happy Birthday!", em outros "Feliz Aniversário!". No centro havia disposto o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para não desarrumarem a mesa.

E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe um pouco de água de colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado — sentara-a à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa.

De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o voo da mosca em torno do bolo.

Até que às quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema.

Quando a nora de Ipanema pensou que não suportaria nem um segundo mais a situação de estar sentada defronte da concunhada de Olaria — que cheia das ofensas passadas não via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema — entraram enfim José e a família. E mal eles se beijavam, a sala começou a ficar cheia de gente que ruidosa se cumprimentava como se todos tivessem esperado embaixo o momento de, em afobação de atraso, subir os três lances de escada, falando, arrastando crianças surpreendidas, enchendo a sala — e inaugurando a festa.

Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta à cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca.

— Oitenta e nove anos, sim senhor! disse José, filho mais velho agora que Jonga tinha morrido. Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mãos em admiração pública e como sinal imperceptível para todos.

Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabeça em admiração como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente.

—Oitenta e nove!, ecoou Manoel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram menos sua esposa.

A velha não se manifestava.

Alguns não lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira, uma combinação de jérsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactus — nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a própria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes, amarga, irônica.

— Oitenta e nove anos! repetiu Manoel aflito, olhando para a esposa.

A velha não se manifestava.

Então, como se todos tivessem tido a prova final de que não adiantava se esforçarem, com um levantar de ombros de quem estivesse junto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros sanduíches de presunto mais como prova de animação que por apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi servido. Zilda suava. Nenhuma cunhada ajudou propriamente. A gordura quente dos croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante, que não podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cordélia? Cordélia, a nora mais moça, sentada, sorrindo.

— Não senhor! respondeu José com falsa severidade, hoje não se fala em negócios!

— Está certo, está certo! recuou Manoel depressa, olhando rapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento.

—Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe!

Na cabeceira da mesa já suja, os copos maculados, só o bolo inteiro — ela era a mãe. A aniversariante piscou os olhos.

E quando a mesa estava imunda, as mães enervadas com o barulho que os filhos faziam enquanto as avós se recostavam complacentes nas cadeiras, então fecharam a inútil luz do corredor para acender a vela do bolo. Uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito "89". Mas ninguém elogiou a idéia de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles não estariam pensando que fora por economia de velas — ninguém se lembrando de que ninguém havia contribuído com uma caixa de fósforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, servia como uma escrava, os pés exaustos e o coração revoltado. Então acenderam a vela. E então José, o líder, cantou com muita força, entusiasmando com um olhar autoritário os mais hesitantes ou surpreendidos, "vamos! todos de uma vez!" e todos de repente começaram a cantar alto como soldados. Despertada pelas vozes, Cordélia olhou esbaforida. Como não haviam combinado, uns cantaram em português e outros em inglês. Tentaram então corrigir: e os que haviam cantado em inglês passaram a português, e os que haviam cantado em português passaram a cantar bem baixo em inglês.

Enquanto cantavam, a aniversariante, à luz da vela acesa, meditava como junto de uma lareira.

Escolheram o bisneto menor que, debruçado no colo da mãe encorajadora, apagou a chama com um único sopro cheio de saliva! Por um instante bateram palmas à potência inesperada do menino que, espantado e exultante, olhava para todos encantado. A dona da casa esperava com o dedo pronto no comutador do corredor — e acendeu a lâmpada.

— Viva mamãe!

— Viva vovó!

— Viva D. Anita, disse a vizinha que tinha aparecido.

— Happy Birthday! gritaram os netos do Colégio Bennett.

Bateram ainda algumas palmas ralas.

A aniversariante olhava o bolo apagado, grande e seco.

— Parta o bolo, vovó! disse a mãe dos quatro filhos, é ela quem deve partir! assegurou incerta a todos, com ar íntimo e intrigante. E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou de repente impetuosa: parta o bolo, vovó!

E de súbito a velha pegou na faca. E sem hesitação, como se hesitando um momento ela toda caísse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina.

— Que força, segredou a nora de Ipanema, e não se sabia se estava escandalizada ou agradavelmente surpreendida. Estava um pouco horrorizada.

— Há um ano atrás ela era capaz de subir essas escadas com mais fôlego do que eu, disse Zilda amarga.

Dada a primeira talhada, como se a primeira pá de terra tivesse sido lançada, todos se aproximaram de prato na mão, insinuando-se em fingidas acotoveladas de animação, cada um para a sua pazinha.

Em breve as fatias eram distribuídas pelos pratinhos, num silêncio cheio de reboliço. As crianças pequenas, com a boca escondida pela mesa e os olhos ao nível desta, acompanhavam a distribuição com muda intensidade. As passas rolavam do bolo entre farelos secos. As crianças angustiadas viam se desperdiçarem as passas, acompanhavam atentas a queda.

E quando foram ver, não é que a aniversariante já estava devorando o seu último bocado?

E por assim dizer a festa estava terminada.

Cordélia olhava ausente para todos, sorria.

— Já lhe disse: hoje não se fala em negócios! respondeu José radiante.

— Está certo, está certo! recolheu-se Manoel conciliador sem olhar a esposa que não o desfitava. Está certo, tentou Manoel sorrir e uma contração passou-lhe rápida pelos músculos da cara.

— Hoje é dia da mãe! disse José.

Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela era a mãe. A aniversariante piscou.

Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e entumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh, o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido tão forte pudera dar à luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão.

— Mamãe! gritou mortificada a dona da casa. Que é isso, mamãe! gritou ela passada de vergonha, e não queria sequer olhar os outros, sabia que os desgraçados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educação à velha, e não faltaria muito para dizerem que ela já não dava mais banho na mãe, jamais compreenderiam o sacrifício que ela fazia. — Mamãe, que é isso! - disse baixo, angustiada. - A senhora nunca fez isso! - acrescentou alto para que todos ouvissem, queria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando ela percebeu que eles abanavam a cabeça como se estivessem de acordo que a velha não passava agora de uma criança.

—Ultimamente ela deu pra cuspir, terminou então confessando contrita para todos.

Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em silêncio.

Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Os meninos, embora crescidos — provavelmente já além dos cinqüenta anos, que sei eu! — os meninos ainda conservavam os traços bonitinhos. Mas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos — ainda mais fracos e mais azedos — haviam escolhido. Todas vaidosas e de pernas finas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora não agüenta a mão, aquelas mulherezinhas que casavam mal os filhos, que não sabiam pôr uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias de brincos — nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava.

— Me dá um copo de vinho! disse.

O silêncio se fez de súbito, cada um com o copo imobilizado na mão.

— Vovozinha, não vai lhe fazer mal? insinuou cautelosamente a neta roliça e baixinha.

— Que vovozinha que nada! explodiu amarga a aniversariante. - Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! Me dá um copo de vinho, Dorothy! - ordenou.

Dorothy não sabia o que fazer, olhou para todos em pedido cômico de socorro. Mas, como máscaras isentas e inapeláveis, de súbito nenhum rosto se manifestava. A festa interrompida, os sanduíches mordidos na mão, algum pedaço que estava na boca a sobrar seco, inchando tão fora de hora a bochecha. Todos tinham ficado cegos, surdos e mudos, com croquetes na mão. E olhavam impassíveis.

Desamparada, divertida, Dorothy deu o vinho: astuciosamente apenas dois dedos no copo. Inexpressivos, preparados, todos esperaram pela tempestade.

Mas não só a aniversariante não explodiu com a miséria de vinho que Dorothy lhe dera como não mexeu no copo.

Seu olhar estava fixo, silencioso. Como se nada tivesse acontecido.

Todos se entreolharam polidos, sorrindo cegamente, abstratos como se um cachorro tivesse feito pipi na sala. Com estoicismo, recomeçaram as vozes e risadas. A nora de Olaria, que tivera o seu primeiro momento uníssono com os outros quando a tragédia vitoriosamente parecia prestes a se desencadear, teve que retornar sozinha à sua severidade, sem ao menos o apoio dos três filhos que agora se misturavam traidoramente com os outros. De sua cadeira reclusa, ela analisava crítica aqueles vestidos sem nenhum modelo, sem um drapeado, a mania que tinham de usar vestido preto com colar de pérolas, o que não era moda coisa nenhuma, não passava era de economia. Examinando distante os sanduíches que quase não tinham levado manteiga. Ela não se servira de nada, de nada! Só comera uma coisa de cada, para experimentar.

E por assim dizer, de novo a festa estava terminada.

As pessoas ficaram sentadas benevolentes. Algumas com a atenção voltada para dentro de si, à espera de alguma coisa a dizer. Outras vazias e expectantes, com um sorriso amável, o estômago cheio daquelas porcarias que não alimentavam mas tiravam a fome. As crianças, já incontroláveis, gritavam cheias de vigor. Umas já estavam de cara imunda; as outras, menores, já molhadas; a tarde caía rapidamente. E Cordélia? Cordélia olhava ausente, com um sorriso estonteado, suportando sozinha o seu segredo. Que é que ela tem? alguém perguntou com uma curiosidade negligente, indicando-a de longe com a cabeça, mas também não responderam. Acenderam o resto das luzes para precipitar a tranqüilidade da noite, as crianças começavam a brigar. Mas as luzes eram mais pálidas que a tensão pálida da tarde. E o crepúsculo de Copacabana, sem ceder, no entanto se alargava cada vez mais e penetrava pelas janelas como um peso.

—Tenho que ir, disse perturbada uma das noras levantando-se e sacudindo os farelos da saia. Vários se ergueram sorrindo.

A aniversariante recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele tão infamiliar fosse uma armadilha. E, impassível, piscando, recebeu aquelas palavras propositadamente atropeladas que lhe diziam tentando dar um final arranco de efusão ao que não era mais senão passado: a noite já viera quase totalmente. A luz da sala parecia então mais amarela e mais rica, as pessoas envelhecidas. As crianças já estavam histéricas.

—Será que ela pensa que o bolo substitui o jantar, indagava-se a velha nas suas profundezas.

Mas ninguém poderia adivinhar o que ela pensava. E para aqueles que junto da porta ainda a olharam uma vez, a aniversariante era apenas o que parecia ser: sentada à cabeceira da mesa imunda, com a mão fechada sobre a toalha como encerrando um cetro, e com aquela mudez que era a sua última palavra. Com um punho fechado sobre a mesa, nunca mais ela seria apenas o que ela pensasse. Sua aparência afinal a ultrapassara e, superando-a, se agigantava serena. Cordélia olhou-a espantada. O punho mudo e severo sobre a mesa dizia para a infeliz nora que sem remédio amava talvez pela última vez: É preciso que se saiba. É preciso que se saiba. Que a vida é curta. Que a vida é curta.

Porém nenhuma vez mais repetiu. Porque a verdade era um relance. Cordélia olhou-a estarrecida. E, para nunca mais, nenhuma vez repetiu — enquanto Rodrigo, o neto da aniversariante, puxava a mão daquela mãe culpada, perplexa e desesperada que mais uma vez olhou para trás implorando à velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cordélia quis olhar.

Mas a esse novo olhar — a aniversariante era uma velha à cabeceira da mesa.

Passara o relance. E arrastada pela mão paciente e insistente de Rodrigo a nora seguiu-o espantada.

— Nem todos têm o privilégio e o orgulho de se reunirem em torno da mãe, pigarreou José lembrando-se de que Jonga é quem fazia os discursos.

— Da mãe, vírgula! riu baixo a sobrinha, e a prima mais lenta riu sem achar graça.

— Nós temos, disse Manoel acabrunhado sem mais olhar para a esposa. Nós temos esse grande privilégio - disse distraído enxugando a palma úmida das mãos.

Mas não era nada disso, apenas o mal-estar da despedida, nunca se sabendo ao certo o que dizer, José esperando de si mesmo com perseverança e confiança a próxima frase do discurso. Que não vinha. Que não vinha. Que não vinha. Os outros aguardavam. Como Jonga fazia falta nessas horas — José enxugou a testa com o lenço — como Jonga fazia falta nessas horas! Também fora o único a quem a velha sempre aprovara e respeitara, e isso dera a Jonga tanta segurança. E quando ele morrera, a velha nunca mais falara nele, pondo um muro entre sua morte e os outros. Esquecera-o talvez. Mas não esquecera aquele mesmo olhar firme e direto com que desde sempre olhara os outros filhos, fazendo-os sempre desviar os olhos. Amor de mãe era duro de suportar: José enxugou a testa, heróico, risonho.

E de repente veio a frase:

— Até o ano que vem! disse José subitamente com malícia, encontrando, assim, sem mais nem menos, a frase certa: uma indireta feliz! Até o ano que vem, hein?, repetiu com receio de não ser compreendido.

Olhou-a, orgulhoso da artimanha da velha que espertamente sempre vivia mais um ano.

— No ano que vem nos veremos diante do bolo aceso! esclareceu melhor o filho Manoel, aperfeiçoando o espírito do sócio. Até o ano que vem, mamãe! e diante do bolo aceso! disse ele bem explicado, perto de seu ouvido, enquanto olhava obsequiador para José. E a velha de súbito cacarejou um riso frouxo, compreendendo a alusão.

Então ela abriu a boca e disse:

— Pois é.

Estimulado pela coisa ter dado tão inesperadamente certo, José gritou-lhe emocionado, grato, com os olhos úmidos:

- No ano que vem nos veremos, mamãe!

- Não sou surda! disse a aniversariante rude, acarinhada.

Os filhos se olharam rindo, vexados, felizes. A coisa tinha dado certo.

As crianças foram saindo alegres, com o apetite estragado. A nora de Olaria deu um cascudo de vingança no filho alegre demais e já sem gravata. As escadas eram difíceis, escuras, incrível insistir em morar num prediozinho que seria fatalmente demolido mais dia menos dia, e na acção de despejo Zilda ainda ia dar trabalho e querer empurrar a velha para as noras — pisado o último degrau, com alívio os convidados se encontraram na tranquilidade fresca da rua. Era noite, sim. Com o seu primeiro arrepio.

Adeus, até outro dia, precisamos nos ver. Apareçam, disseram rapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade sem receio. Alguns abotoavam os casacos das crianças, olhando o céu à procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais — que palavra? Eles não sabiam propriamente, e olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto. Começaram a se separar, andando meio de costas, sem saber como se desligar dos parentes sem brusquidão.

— Até o ano que vem! repetiu José a indirecta feliz, acenando a mão com vigor efusivo, os cabelos ralos e brancos esvoaçavam. Ele estava era gordo, pensaram, precisava tomar cuidado com o coração. Até o ano que vem! gritou José eloquente e grande, e sua altura parecia desmoronável. Mas as pessoas já afastadas não sabiam se deviam rir alto para ele ouvir ou se bastaria sorrir mesmo no escuro. Além de alguns pensarem que felizmente havia mais do que uma brincadeira na indirecta e que só no próximo ano seriam obrigados a se encontrar diante do bolo aceso; enquanto que outros, já mais no escuro da rua, pensavam se a velha resistiria mais um ano ao nervoso e à impaciência de Zilda, mas eles sinceramente nada podiam fazer a respeito. "Pelo menos noventa anos", pensou melancólica a nora de Ipanema. "Para completar uma data bonita", pensou sonhadora.

Enquanto isso, lá em cima, sobre escadas e contingências, estava a aniversariante sentada à cabeceira da mesa, erecta, definitiva, maior do que ela mesma. Será que hoje não vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério.


Clarice Lispector, In Laços de Família

20/05/2007

Praia


Era uma espécie de clube de Verão, um grande casarão quadrado, pintado de amarelo e com grandes verdes na varanda que dava para a avenida onde os plátanos maravilhosos povoavam a noite.

Cheirava a maresia e a fruta. Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas. E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar.

Tudo isso envolvia o clube e as suas paredes e janelas, e as suas mesas e cadeiras. E envolvia ainda, agudamente, uma por uma, cada pessoa.

Entrava-se pelo «hall» por uma grande porta que estava sempre aberta.

O «hall» era enorme e tinha no meio uma palmeira nostálgica. A decoração era de 1920, num estilo especial que só existia naquela terra.

Nos bancos verdes, encostados às paredes brancas, cobertas até ao meio por grades de madeira verde, estavam pequenos grupos de pessoas sentadas em frente das mesas verdes.

Havia três grupos escuros de homens e dois grupos mais claros de senhoras de uma certa idade.

À medida que eu ia atravessando o «hall» ia dizendo «Boa noite» aos vários grupos. Depois espreitei através da porta da sala de jogo, que era de vidro. Os jogadores pareciam condenados à morte que tentavam entreter com calma as suas últimas horas. Estavam abstractos e suspensos e não me viram. Tomei a atravessar o «hall» e entrei na sala de baile.

Era dia de orquestra. A orquestra vinha duas vezes por semana de uma praia vizinha. Os músicos eram magros e novos e tinham smokings velhos, ligeiramente esverdeados pelo uso e pela humidade das invernias marítimas. Eram músicos falhados: sem grande arte, com pouco dinheiro e sem fama. Deviam ser ou resignados ou revoltados. Espero que fossem revoltados: é menos triste. Um homem revoltado, mesmo ingloriamente, nunca está completamente vencido. Mas a resignação passiva, a resignação por ensurdecimento progressivo do ser, é o falhar completo e sem remédio. Mas os revoltados, mesmo aqueles a quem tudo - a luz do candeeiro e a luz da Primavera - dói como uma faca, aqueles que se cortam no ar e nos seus próprios gestos, são a honra da condição humana. Eles são aqueles que não aceitaram a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombra e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir.

E assim ali nós ríamos, conversávamos, dançávamos, enquanto, com os seus velhos smokings, os músicos no palco tocavam.

As vezes alguém se queixava de que tocavam mal.

Pelas janelas abertas a música saía e ia perder-se lá fora por entre as ramagens dos plátanos, misturada com o leve estremecer da brisa e o ressoar fundo do mar.

A sala de baile era grande e comprida. Tinha duas portas que davam para a varanda, duas portas que davam para o «hall» da entrada e uma quinta porta que dava para um «hall» mais pequeno que servia de passagem e ligação entre a sala de baile e o bar.

No fundo da sala de baile havia um palco, onde os músicos tocavam, mas onde nunca se representava nada. Mas sabia-se que antigamente ali se tinha representado.

Na parede que ficava à esquerda do palco havia três janelas que davam para uma pequena rua sossegada, onde raramente passava alguém.

Às vezes nos intervalos das danças vínhamos encostar-nos a essas janelas: em frente havia uma casa com paredes brancas, onde o luar ficava azul, e onde se desenhavam, trémulas, inquietas e vivas, as sombras das folhas cheias de gestos.

E nós estendíamos o braço e arrancávamos dos ramos uma folha que trincávamos devagar entre os dentes.

Depois respirávamos o perfume das tílias e levantávamos a cabeça para o céu cheio de estrelas e dizíamos:

- Está uma noite maravilhosa!

Outras vezes, quando não dançávamos, conversávamos em pequenos grupos, sentados nos compridos sofás forrados de verde encostados ao longo da parede. Havia um leve rumor de amores adolescentes Era como o rumor da brisa. Pois era o princípio da vida e nada ainda nos tinha acontecido. Ainda nada era grave, trágico, nu e sangrento.

E a noite lá fora, com os seus perfumes misturados, com os seus murmúrios e silêncios e as suas sombras e brilhos, parecia o rosto de uma promessa.

Mas não creio que ninguém, ali, nesse tempo, pensasse realmente no futuro. Só talvez dois ou três, cuja vida, mais tarde, tão eficiente e bem administrada, teve sempre um ar de coisa previamente fabricada. Mas só esses. Os outros todos não faziam nenhum cálculo sobre o futuro. Para eles o presente era um prazo ilimitado de disponibilidade, suspensão e escolha. Não calculavam o futuro -apenas, vagamente, o esperavam.

E tão vagamente que muitas vezes era como se esperassem não o futuro, mas sim o passado.

Pois ali se falava muito no passado. Constantemente nas conversas se contavam histórias das gerações anteriores, histórias dum tempo em que o existir era mais definido e mais visível, um tempo em que os sentimentos se tomavam actos e os destinos se cumpriam inteiramente.

Às vezes, de repente, no fundo dos espelhos havia um brilho que era o brilho de uma hora antiga. E então era como se as antigas noites de Agosto e as abolidas tardes de Setembro pudessem, como D. Sebastião, voltar.

Nas avenidas, nas tílias, nas varandas, no barulho dos passos sobre as ruas de saibro e areia, fazendo rolar as pequenas pedras soltas, no mar, igual a um búzio repetindo o ressoar de passados temporais, e até no chão, nas mesas, nas cadeiras, parecia estar suspensa a espera dum regresso.

E à medida que a noite ia avançando, à medida que quase toda a gente ia saindo, à medida que se ia fazendo tarde, a espera ia-se tomando quase consciente, quase visível. Dir-se-ia que o tempo perdido ia surgir e ser tocado.

As pessoas iam-se embora, as salas iam ficando vazias e passavam no ar interrogação e silêncio, como se qualquer coisa, qualquer coisa obscuramente desejada e prometida, não tivesse acontecido.

Os músicos guardavam os instrumentos e fechavam o piano. Escuros e magros, desciam as escadas do palco e depois desapareciam, suponho que por um alçapão, pois nunca os vi sair por nenhuma porta. Ou talvez se diluíssem no ar. Ou talvez fossem deuses da Pérsia e viessem de noite num tapete mágico, para contemplarem, disfarçados de músicos, o fim da sensibilidade do Ocidente.

Porque a espera, a espera das coisas fantásticas, visíveis e reais, a espera das coisas destinadas, prometidas, pressentidas, ia-se tomando quase lucidamente alucinada.

Encostado à ombreira de uma porta, um homem solitário, alto e magro como urna árvore no Inverno, tirou o relógio do bolso e viu as horas. Depois guardou o relógio depressa como se tivesse vergonha do tempo.

Estávamos à espera.

E já éramos poucos e apagava-se a luz da sala de baile, o «hall» estava deserto, na sala de jogo só já quatro jogadores esperavam a morte e quando entrávamos no bar um homem, sempre o mesmo, voltava-se no banco alto e, trazendo o seu copo, vinha sentar-se connosco numa mesa.

E era difícil dizer de que tempo ele vinha; pois dos personagens das histórias de um tempo antigo ele tinha a voz, o olhar e os gestos. Mas não o destino, nem a vida vivida. Era mesmo como se ele tivesse rejeitado todo o destino, toda a vida vivida, como uma coisa alheia, exterior e falsa e lhe bastasse aquele momento, aquele bar, aquela mesa, aquela conversa, aquele copo.

Era como se ele tivesse querido guardar o seu ser à margem do vivido, por não haver na vida acto nenhum onde o ser pudesse ser cumprido e a existência concreta fosse apenas deturpação, falsificação, profanação.

E assim ele tinha resolvido usar a sua própria vida como não sendo dele, usá-la como os músicos da orquestra usavam os seus fatos alugados.

A hora tardia dilatava, multiplicava e isolava todas as coisas.

Quase toda a gente se tinha ido embora, e o vazio pousava docemente nas mesas e nas cadeiras, enquanto a noite, com a grande sombra das suas árvores atravessadas pelo rumor do mar, entrava pela janela aberta.

E o homem que se tinha vindo sentar junto de nós falava misturando as suas palavras com o tempo, com a noite, com o barulho do mar, com o respirar da brisa nas folhagens. E das suas palavras nascia uma grande imagem que se ia abrindo e desdobrando em inumeráveis espaços.

A sua sensibilidade era tão perfeita que até na própria madeira da mesa a sua mão pousava com ternura. Enquanto falava, abria espantosamente os seus olhos, que eram azuis como o azul de uma chama de álcool. E o seu olhar era desmedido e impessoal como se para além de nós ele olhasse outra coisa. Talvez:

A memória longínqua de uma pátria

Eterna mas perdida e não sabemos

Se é passado ou futuro onde a perdemos.

E, à medida que ele ia falando, a imagem que nascia das suas palavras ia-se tornando interior à alma daqueles que o escutavam, com o mito. Ele era como um limite, como um marco que dissesse:

«Daqui em diante o mar não é mais navegável».

No entanto ele não se confundia com um deus. Nos deuses ser e existir estão unidos. Nele a vida vivida nem sequer era a serva do ser, nem sequer era o chão que o ser pisava, mas apenas acaso sem nexo, desencontro, acidente sem forma e sem verdade, acidente desprezado.

Eu estava sentada na frente dele, do outro lado da pequena mesa. Ele esteve um longo tempo calado. Depois debruçou-se sobre a mesa e disse:

- Ouve:

There is a sea,

A far and distant sea

Beyond the larthest line,

Where ali my ships that went astray,

Where all my dreams of yesterday

Are mine .

Lá fora as lâmpadas das ruas já se tinham apagado havia muito tempo.

Era tarde. E o brilho da hora tardia deslizava docemente em roda das mãos e dos copos sobre a mesa polida.

A Lua já tinha desaparecido e o nevoeiro, aéreo e branco, começava a subir do mar e entrava pela janela aberta.

- Voltou o nevoeiro - disse alguém.

Olhámos a janela. Agora o perfume que vinha de fora era ainda mais marítimo e mais fresco.

Às vezes ouvia-se ao longe o apitar dos comboios. Eram os intermináveis comboios de mercadorias da madrugada, com seus vagões de sal, de gado, de madeira e de pedras. E a mulher da linha, muito direita, mostrava no extremo do seu braço estendido a lanterna verde. E um longo rasto de melancolia parecia ficar a dissolver-se devagar nas terras por onde o comboio passava.

Era tarde.

Um criado sonâmbulo deambulava entre as mesas.

- Olha - disse ao meu lado um dos meus amigos, mostrando-me as páginas de uma ilustração aberta. Cidades e cidades bombardeadas, navios, canhões, aviões, máquinas de guerra, e o ridículo Fuhrer, capitão da estupidez, da bestialidade e da desgraça, conduzindo o seu povo.

E de repente levantou-se uma discussão rápida e violenta. Mas, apesar da discussão e das fotografias, a guerra parecia irreal e abstracta como se estivéssemos falando das invasões dos bárbaros ou dos flagelos do ano 2000. A guerra estava longe.

Então o homem do relógio levantou-se e disse:

- Vou ouvir as notícias.

Atrás dele a porta ficou a baloiçar.

Daí a instantes ouviram-se na sala pegada barulhos de telefonia misturados com farrapos de música e línguas estranhas.

Depois uma voz começou a falar claramente. Levantei-me e fui ouvir.

Rommel no deserto recuava, diziam as notícias.

E de repente, para mim, pelo poder dum nome, a guerra tomou-se real.

Voltei para o bar e sentei-me outra vez na mesma mesa, no meio das conversas.

Rommel no deserto recuava.

E tentei imaginar a noite azul do deserto onde os homens silenciosos recuavam. Tentei imaginar as sombras e a doçura das areias, o brilho lucidíssimo das estrelas, o mistério, a presença suspensa do inimigo invisível, a orla da morte, o terror, a paixão e o denso, agudo e exacto peso de cada momento. E tentei imaginar os homens. Os homens: οι ανΘρωποι Os homens: luci- damente vencidos, recuando e combatendo, rodeados de morte, medindo os seus gestos, medindo a medida de eficácia dos seus gestos, combatendo por cada passo, sabendo a causa injusta e o combate perdido. Lucidamente vencidos, combatendo sob o brilho lucidíssimo dos astros.

E era tarde.

Tão tarde que nos levantámos todos e saímos, enquanto, sonâmbulo, o criado tirava da mesa todos os copos, que chocando uns contra os outros, tilintaram longamente na bandeja.

Cá fora, mal passámos a porta que dava para a varanda, o grande sopro do mar cobriu-nos, rodeou-nos, invadiu-nos.

O nevoeiro tinha transfigurado tudo.

Agora só cheirava a mar. Um perfume apaixonado de algas escorria das árvores. Lua e estrelas não se viam. Nem os plátanos se viam. Só se viam muros brancos no nevoeiro branco. Tudo estava imóvel e suspenso.

Só a voz do mar se ouvia, espantosamente real, recriando-se incessantemente.

E parecia que os grandes, verdes e violentos espaços marinhos, como sendo o nosso próprio destino, nos chamavam.


Sophia de Mello Breyner, In Contos Exemplares