30/03/2007

O Pé Tolo



Bravães tinha-o de reserva. Era o seu lado pragmático, a sua face deslavada e oportunista. Todos se riam dele, o escarneciam ou lhe ignoravam a existência, se vinha a talho de foice falar em brio e dignidade. Mas à hora menos pensada, na primeira apertadinha, numa destas aflições que tem qualquer povo que se preza, o instinto colectivo de conservação elegia-o por unanimidade padroeiro da honra do convento. E lá ia o pobre do Pé Tolo em missão de paz fingida ou de aparente submissão, conforme as necessidades.
As relações de Bravães com Soutelo, sede do concelho, desde tempos imemoriais que dançam na corda bamba. A vila não perdoa à aldeia o ar lavado que lhe dignifica a pobreza, a feira dos nove, sem comparação nas redondezas, a bela situação que disfruta no centro do município, e, sobretudo, a rebeldia que se estampa no rosto másculo dos seus filhos. Homens de timbre e landreiro, rijos de corpo e alma, ninguém se meta com eles se não está disposto a arriscar a vida. Ora como os de Soutelo são doutra natureza - pemósticos, troca-tintas e amigos de coser o semelhante agachados atrás do balcão das repartições -, nunca se entenderam. Daí o calvário dum convívio difícil e atormentado, que recorreu durante muitos anos à diplomacia irresponsável do Pé Tolo. Através dela, nem os de Bravães se sentiam diminuídos no reconhecimento da vassalagem obrigatória, nem os de Soutelo deixavam de receber o preito devido. E quando depois, em horas calmas, o caso era discutido, ambas as partes tiravam proveito da baixa qualidade da deputação. Uns afirmavam que no lugar não havia melhor; e os outros que, para quem era, bacalhau bastava.
O certo é que, bem ou mal, desde rapaz que o Pé Tolo ia salvando a situação, sempre economicamente e com êxito. Bastava embebedá-lo, meter-lhe uns tostões no bolso para manter por lá, à força de mais vinho, o fogareiro aceso, e recomendar-lhe que desse vivas à Patuleia a torto e a direito. Foi assim nas guerras entre progressistas e regeneradores, no Trinta e um de Janeiro, na implantação da República e na própria inauguração do busto do Conselheiro Azevedo. Pena as vidas serem tão curtas e acabarem às vezes no pior momento.
Ninguém, fora de Trás-os-Montes, o sabe, mas declara-se já: Bravães tinha o seu quê de talassa. Razões? Bem, o rei passara por lá numa das suas visitas ao Norte, acenara muito com a mão, era loiro... Sem falar no exemplo do Senhor Nóbrega, o manda-chuva da povoação, que marrava como um toiro se via à frente o barrete frígio. Ora quando na Traulitânia aparece a tropa vinda não se sabe de onde, os comandantes se amesendam em casa do figurão, e a soldadesca, nos armazéns do mesmo, se põe a esvaziar os tonéis num regabofe universal, pareceu a todos que se tratava do Advento. E pronto: tocaram o sino a rebate, a mulher do Zebedeu largou pela veiga fora a gritar ao homem que viesse ver a monarquia, e foi o fim do mundo. Música e foguetes, dança desenfreada a noite inteira, e, às tantas, não se sabe dada por quem e posta por que mão, apareceu hasteada na coroa do negrilho a bandeira azul e branca.
No dia seguinte, o exército glorioso marcha sobre Mirandela, há combate, morrem alguns heróis, mas, finalmente, o país tinha a governá-lo a excelsa figura de Sua Majestade. Pelo menos assim o garantia a Isaura, fêmea do Senhor Nóbrega, a beber do fino na etiqueta dos tratamentos.
O pior é que de repente a coisa muda. A tropa fandanga é derrotada., e aí temos nós Bravães metida numa arriosca dos diabos. Içado no calor do entusiasmo, o bocado de pano ali ficou esquecido. Se alguém, pela calada da noite, tem a feliz ideia de o arriar, o caso talvez passasse despercebido. Mas ninguém se lembrou de tal, vem a reviravolta, e chega ordem de Soutelo para que o regedor apeasse imediatamente aquele símbolo de rebelião contra a ordem estabelecida, e o fosse entregar à sede da administração na quinta-feira próxima, dia em que se festejava na vila o regresso à normalidade constitucional, com sessão solene e discursos. Isto, enquanto não se procedia a um rigoroso inquérito que apurasse as responsabilidades.
Por azar, o regedor era precisamente o feitor do Senhor Nóbrega. E, claro, o ricaço travou-lhe a andadura.
- Tu não dás um passo. A bandeira está muito bem onde está. Eles que a venham buscar.
Foi quanto bastou para se armar a trovoada. De um lado, que sim, do outro, que não, o povo começa a tomar calor, e quem é que se atrevia a entrar em Bravães e subir ao negrilho? Armados de arcabuzes, sacholas, forquilhas e foices, os de lá guardavam a povoação como cães. A bandeira a drapejar na crista da árvore perdera toda a significação partidária, para ser um ponto de honra da resistência da terra à prepotência de Soutelo.
Intimações da capital do distrito, ameaças de Lisboa, e nada. Uma tentativa da Guarda foi rechaçada a tiros, à pedrada e a estadulho. E, claro, o Governo ameaçou de bombardear a terra. Deu três dias de espera, os que faltavam para a festança em Soutelo, e depois que ninguém se queixasse. Falsa ou verdadeira, a notícia circulou assim.
Protestos, imprecações, fanfarronadas, mas, à medida que as horas passavam, a bazófia começou a esmorecer. Numa reunião de emergência, convocada na véspera do prazo indicado, chegou-se à conclusão de que o mais sensato era acabar com a fantochada. Tirar o farrapo cá para baixo e mandá-lo entregar em Soutelo. Não valia a pena morrer por duas varas de linharéu.
Mas quem se prestava a ser o Egas Moniz da rendição?
O regedor, sempre preso à argola do Senhor Nóbrega, que via na humilhação do caseiro a sua própria, que não contassem com ele; o Lúcio, que batessem a outra porta; o Moura, idem, idem...
E aqui é que, mais uma vez, os préstimos do Pé Tolo acudiram à consciência de todos.
Simplesmente, o Pé Tolo, revelho e adoentado há muito, lembrara-se de dar a alma ao Criador precisamente naquela manhã. Depois da assembleia, ia o sacristão tocar a finados e o Silvério dar parte ao registo.
E foi nessa altura que o Anelhe teve uma inspiração.
- Suspendei lá isso. Fazei de conta que ele não morreu por enquanto.
Essa agora! É que me veio uma ideia. Quem vai levar a bandeira sou eu.
- Tu?!... - e todos se espantaram daquela súbita abnegação.
- É só dar um jeito à cara... Ninguém percebeu. Tanoeiro de seu oficio, o Anelhe era também comediante nas horas vagas. Entremez, auto, drama, farsa ou estrelóquio que houvesse na terra, lá estava ele no primeiro papel. Capaz de mudar de semblante como quem muda de camisa, imitava um qualquer, que ninguém os distinguia.
- Faz lá de Fulano!
Dava meia volta, dava outra meia e já estava. A mesma voz, o mesmo tique na cara, os mesmos ombros caídos, tudo chapadinho. Até parecia engordar de repente, se o caso o exigia. E foi ir a Soutelo na figura do Pé Tolo que se lhe meteu em cabeça.
- Faço de conta que sou ele, e está o caso arrumado.
- E se dão conta?
- Eles são burros. Deixai-me cá manobrar o barco.
Quando no dia seguinte o virar- aparecer de perna lázara a abanar, de bigode caído sobre a beiçola e chapéu cabaneiro enterrado nas orelhas despegadas, nem queriam acreditar. Parecia o Pé Tolo ressuscitado.
Grandes admirações, muitos ainda duvidavam, mas os factos estavam à vista.
E o Anelhe, sem se descompor, mandou um neto subir ao negrilho, agarrou na bandeira endemoninhada, enrolou-a, desfraldou ao sol a verde e vermelha, deu um viva à República e largou.
Chegou a Soutelo pelo caminho velho, do seu vagar e no seu normal. Mas logo diante da primeira casa da vila começou a dar ao pé. Subiu neste preparo as escadas da Câmara, entrou no salão nobre das sessões, alinhou ao lado dos representantes das freguesias, aclamou, bateu palmas, e, na hora própria, foi apertar a mão do presidente e entregar-lhe o testemunho da rendição.
Acostumados à presença daquele bonifrates em todos os grandes momentos da vida cívica da vila, os de Soutelo engoliram a pílula sem reparar no tamanho. Apenas o conservador do Registo Civil, mais papista do que o Papa, se aproximou do Anelhe e o interpelou:
- Vocês não tinham em Bravães ninguém mais decente para mandar?
Resposta pronta do Anelhe:
- Não, senhor. Para estes serviços, sou sempre eu.
O outro meteu o rabo entre as pernas, e o plenipotenciário, acabada a funçanata, regressou consolado a casa.
- Pronto. Amanhã de manhã já se pode dar andamento ao defunto. Cuidado com o figurão dos assentos.
No outro dia, à entrada da repartição, o Silvério ainda sentiu tremer-lhe a passarinha. Mas, caramba, da firmeza com que se houvesse dependia o bom êxito de toda aquela comédia. E puxou pela coragem.
- António da Silva Osório, diz você? - estranhou o Dr. Acúreio.
- Exactamente.
- Não era um a quem chamavam o Pé Tolo?
- Exactamente.
- Essa agora! Eu vi-o ontem na sessão! Até lhe falei.
- Pois viu, viu! Mas já lá está a dar contas a Deus.
- Como pode ser isso?! Parecia vender saúde...
- A vida é um engano... - filosofou o de Bravães.
- E então morreu de quê?
O Silvério lembrou-se do Anelhe, riu-se por dentro, e resolveu completar-lhe a obra. Pigarreou e respondeu com o ar mais safado que pôde arranjar:
- Olhe, de vergonha, coitado...

Miguel Torga, Contos da Montanha


26/03/2007

Uma Galinha

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.

Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto voo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou - o tempo da cozinheira dar um grito - e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro voo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trémula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.

Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.

Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra igualzinha como se fora a mesma.

Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.

Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:

- Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!

Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:

- Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!

- Eu também! jurou a menina com ardor.

A mãe, cansada, deu de ombros.

Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.

Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga - e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.

Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho - era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.



Clarice Lispector, In Laços de Família






25/03/2007

A Menina do Mar



Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas.

Nessa casa morava um rapazito que passava os dias a brincar na praia. Era uma praia muito grande e quase deserta onde havia rochedos maravilhosos. Mas durante a maré alta os rochedos estavam cobertos de água. Só se viam as ondas que vinham crescendo do longe até quebrarem na areia com barulho de palmas. Mas na maré vazia as rochas apareciam cobertas de limos, de búzios, de anémonas, de lapas, de algas e de ouriços. Havia poças de água, rios, caminhos, grutas, arcos, cascatas. Havia pedras de todas as cores e feitios, pequeninas e macias, polidas pelas ondas. E a água do mar era transparente e fria. Às vezes passava um peixe, mas tão rápido que mal se via.

Dizia-se «Vai ali um peixe» e já não se via nada. Mas as vinagreiras passavam devagar, majestosamente, abrindo e fechando o seu manto roxo. E os caranguejos corriam por todos os lados com uma cara furiosa e um ar muito apressado.

O rapazinho da casa branca adorava as rochas. Adorava o verde das algas, o cheiro da maresia, a frescura

transparente das águas. E por isso tinha imensa pena de não ser um peixe para poder ir até ao fundo do mar sem se afogar. E tinha inveja das algas que baloiçavam ao sabor das correntes com um ar tão leve e feliz.

Em Setembro veio o equinócio. Vieram marés vivas, ventanias, nevoeiros, chuvas, temporais. As marés altas varriam a praia e subiam até à duna. Certa noite, as ondas gritaram tanto, uivaram tanto, bateram e quebraram-se com tanta força na praia, que, no seu quarto caiado da casa branca, o rapazinho esteve até altas horas sem dormir.

As portadas das janelas batiam. As madeiras do chão estalavam como madeiras de mastros. Parecia que as ondas iam cercar a casa e que o mar ia devorar o Mundo. E o rapazito pensava que, lá fora, na escuridão da noite, se travava uma imensa batalha em que o mar, o céu e o vento se combatiam. Mas por fim, cansado de escutar, adormeceu embalado pelo temporal.

De manhã quando acordou estava tudo calmo. A batalha tinha acabado. Já não se ouviam os gemidos do vento, nem gritos do mar, mas só um doce murmúrio de ondas pequeninas. E o rapazinho saltou da cama, foi à janela e viu uma manhã linda de sol brilhante, céu azul e mar azul. Estava maré vaza. Pôs o fato de banho e foi para a praia a correr. Tudo estava tão claro e sossegado que ele pensou que o temporal da véspera tinha sido um sonho.

Mas não tinha sido um sonho. A praia estava coberta de espumas deixadas pelas ondas da tempestade. Eram fileiras e fileiras de espuma que tremiam à menor aragem. Pareciam castelos fantásticos, brancos mas cheios de reflexos de mil cores. O rapaz quis tocar-lhes, mas mal punha neles as suas mãos os castelos trémulos desfaziam-se.

Então foi brincar para as rochas. Começou por seguir um fio de água muito claro entre dois grandes rochedos escuros, cobertos de búzios. O rio ia dar a uma grande poça de água onde o rapazinho tomou banho e nadou muito tempo. Depois do banho continuou o seu caminho através das rochas. Ia andando para o sul da praia que era um deserto para onde nunca ninguém ia. A maré estava muito baixa e a manhã estava linda. As algas pareciam mais verdes do que nunca e o mar tinha reflexos lilases. O rapazinho sentia-se tão feliz que às vezes punha-se a dançar em cima dos rochedos. De vez em quando encontrava uma poça boa e tomava outro banho Quando ia já no décimo banho, lembrou-se que deviam ser horas de voltar para casa. Saiu da água e deitou-se numa rocha a apanhar sol.

«Tenho que ir para casa», pensava ele, mas não lhe apetecia nada ir-se embora. E, enquanto assim estava deitado, com a cara encostada às algas, aconteceu de repente uma coisa extraordinária: ouviu uma gargalhada muito esquisita, parecia um pouco uma gargalhada de ópera dada por uma voz de «baixo»: depois ouviu uma segunda gargalhada ainda mais esquisita, uma gargalhada pequenina, seca que parecia uma tosse: em seguida uma terceira gargalhada, que era como se alguém dentro de água fizesse «glu, glu». Mas o mais extraordinário de tudo foi a quarta gargalhada: era como uma gargalhada humana, mas muito mais pequenina, muito mais fina e muito mais clara. Ele nunca tinha ouvido uma voz tão clara: era como se a água ou o vidro se rissem.

Com muito cuidado para não fazer barulho levantou-se e pôs-se a espreitar escondido entre duas pedras. E viu um grande polvo a rir, um caranguejo a rir, um peixe a rir e uma menina muito pequenina a rir também. A menina, que devia medir um palmo de altura, tinha cabelos verdes, olhos roxos e um vestido feito de algas encarnadas. E estavam os quatro numa poça de água muito limpa e transparente toda rodeada de anémonas. E nadavam e riam.

- Oh! Oh! Oh! - ria o polvo.

- Que! Que! Que! - ria o caranguejo.

- Glu! Glu! Glu! - ria o peixe.

- Ah! Ah! Ah! - ria a menina.

Depois pararam de rir e a menina disse:

-Agora quero dançar.

Então, num instante, o polvo, o caranguejo e o peixe transformaram-se numa orquestra.

O peixe, com as suas barbatanas, batia palmas na água.

O caranguejo subiu para uma rocha e com as suas tenazes começou a tocar castanholas.

O polvo trepou para cima dos rochedos e esticando muito sete dos seus oito braços prendeu-os pelas pontas com as suas ventosas na pedra e, com o braço que tinha ficado livre, começou a tocar guitarra nos seus sete braços.

Depois pôs-se a cantar.

Então a menina saiu da água, subiu para uma rocha e principiou a dançar. E a água junto dos seus pés ia e vinha e bailava também.

Escondido, atrás do rochedo, o rapaz, imóvel e, calado, olhava.

Quando a cantiga e a dança acabaram, o polvo pegou na menina e com os seus oito braços muito escuros pôs-se a embalá-la.

- Vem aí a maré alta, são horas de nos irmos embora - disse o caranguejo.

- Vamos - disse o polvo.

Chamaram o peixe e puseram-se os quatro a caminho. O peixe ia à frente a nadar com a menina ao lado, depois vinha o polvo e no fim o caranguejo, sempre com um ar muito desconfiado e furioso.

Foram indo por entre as areias e as rochas, até que chegaram a uma gruta para onde entraram os quatro. O rapaz quis ir atrás deles, mas a entrada da gruta era muito pequena e ele não cabia. E como a maré estava a subir, teve que se ir embora, pois se ali ficasse morria afogado.

Foi para casa muito espantado com o que tinha visto e durante esse dia não pensou noutra coisa. Na manhã seguinte mal acordou foi a correr para a praia. Foi pelo caminho da véspera, tornou a esconder-se atrás das duas pedras, espreitou e ouviu as mesmas gargalhadas da véspera. A menina, o caranguejo, o polvo e o peixe estavam a fazer uma roda dentro de água. Estavam divertidíssimos.

O rapaz, louco de curiosidade, não conseguiu ficar quieto mais tempo. Deu um salto e agarrou a menina.

Ai, ai, ai! Que desgraça! Gritava ela.

O polvo, o caranguejo e o peixe tinham desaparecido, aterrorizados, num abrir e fechar de olhos.

Ó polvo, ó caranguejo, ó peixe, acudam-me, salvem-me – gritava a Menina do mar.

Então o polvo, o caranguejo e o peixe, apesar de estarem cheios de medo, saíram detrás das algas onde se tinham escondido, e começaram a tentar salvar a Menina. Faziam o que podiam: o polvo trepava pelas pernas do rapaz, o caranguejo com as suas tenazes belisca-lhe os pés, o peixe mordia-lhe nas canelas. Mas o rapaz era maior e tinha mais força, deu-lhes alguns pontapés e fugiu para longe com a Menina do mar que continuava a chamar:

- Ó polvo, ó caranguejo, ó peixe! - Não grites, não chores, não te assustes – dizia o rapaz. Eu não te faço mal nenhum.

-Eu sei que me vais fazer mal.

-Que mal é que eu hei-de fazer a uma menina tão pequenina e tão bonita?

- Vais-me fritar - disse a Menina do mar. E pôs-se outra vez a chorar e a gritar: - Ó polvo, ó caranguejo, ó peixe!

- Eu fritar-te! Para quê? Que ideia tão esquisita! - disse o rapaz espantadíssimo.

Os peixes dizem que os homens fritam tudo quanto apanham.

O rapaz pôs-se a rir e disse:

- Isso são os pescadores. Os pescadores é que apanham os peixes para os fritar. Mas eu não sou pescador e tu não és um peixe. Não te quero fritar nem te quero fazer mal nenhum. Só te quero ver bem, porque nunca na minha vida vi uma menina tão pequena e tão bonita. E quero que me contes quem tu és, como é que vives, o que é que fazes aqui no mar e como é que te chamas.

Então ela parou de gritar, limpou as lágrimas, penteou e alisou os cabelos com os dedos das mãos a fazerem de pente, e disse:

- Vamos sentar-nos os dois naquele rochedo e eu conto-te tudo.

- Prometes que não foges?

- Prometo.

Sentaram-se os dois um em frente do outro e a menina contou:

- Eu sou uma menina do mar. Chamo-me Menina do Mar e não tenho outro nome. Não sei onde nasci. Um dia uma gaivota trouxe-me no bico para esta praia. Pôs-me numa rocha na maré vazia e o polvo, o caranguejo e o peixe tomaram conta de mim. Vivemos os quatro numa gruta muito bonita. O polvo arruma a casa, alisa a areia, vai buscar a comida. É de nós todos o que trabalha mais, porque tem muitos braços. O caranguejo é o cozinheiro. Faz

caldo verde com limos, sorvetes de espuma, e salada de algas, sopa de tartaruga, caviar e muitas outras receitas. É um grande cozinheiro. Quando a comida está pronta o polvo põe a mesa. A toalha é uma alga branca e os pratos são conchas. Depois, à noite, o polvo faz a minha cama com algas muito verdes e muito macias. Mas o costureira dos meus vestidos é o caranguejo. E é também o meu ourives: ele é que faz os meus colares de búzios, de corais e de pérolas. O peixe não faz nada porque não tem mãos, nem braços com ventosas como o polvo, nem braços com tenazes como o caranguejo. Só tem barbatanas e as barbatanas servem só para nadar. Mas é o meu melhor amigo.

Como não tem braços nunca me põe de castigo. É com ele que eu brinco. Quando a maré está vazia brincamos nas rochas, quando está maré alta damos passeios no fundo do mar. Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá tudo é bonito. Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas. Há cavalos marinhos suspensos água com um ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores. Há grutas misteriosas, azuis-escuras, roxas, verdes e há planícies sem fim de areia branca, lisa. Tu és da terra e se fosses ao fundo do mar morrias afogado. Mas eu sou uma menina do mar. Posso respirar dentro da água como os peixes e posso respirar fora da água como os homens. E posso passear pelo mar todo e fazer tudo quanto eu quero e ninguém me faz mal porque eu sou a bailarina da Grande Raia. E a Grande Raia é a dona destes mares. É enorme, tão grande que é capaz de engolir um barco com dez homens dentro. Tem cara de má e come homens e peixes e está sempre com fome. A mim não me come porque diz que eu sou pequena de mais e não sirvo para comer, só sirvo para dançar. E a Raia gosta muito de me ver dançar. Quando ela dá uma festa convida os tubarões e as baleias e sentam-se todos no fundo do mar e eu danço em frente deles até de madrugada. E quando a Raia está triste ou mal disposta eu também tenho que dançar para a distrair. Por isso sou a bailarina do mar e faço tudo quanto eu quero e todos gostam de mim. Mas eu não gosto nada da Raia e tenho medo dela. Ela detesta os homens e também não gosta dos peixes. Até as baleias têm medo dela. Mas eu posso andar à vontade no mar e ninguém me come e ninguém me faz mal porque eu sou a bailarina da Raia. E agora que já contei a minha história leva-me outra vez para o pé dos meus amigos que devem estar aflitíssimos.

O rapaz pegou na Menina do Mar com muito cuidado na palma da mão e levou-a outra vez para o sítio de onde a tinha trazido. O polvo, o caranguejo e o peixe lá estavam os três a chorar abraçados.

- Estou aqui - gritou a Menina do Mar.

O polvo, o caranguejo e o peixe, mal a viram, pararam de chorar e atiraram-se os três como cães aos pés do rapaz e começaram outra vez a mordê-lo e a picá-lo. O polvo com os seus oito braços chicoteava-lhe as pernas.

- Estejam quietos, parem, não lhe façam mal, ele é meu amigo e não me vai fritar - gritou-lhes a Menina do Mar.

O polvo, o caranguejo e o peixe interromperam a pancadaria, espantadíssimos com estas palavras. O rapaz baixou-se e pôs a menina na água ao pé dos seus três amigos, que davam saltos de alegria e muitas gargalhadas. Pediu à Menina do Mar, ao polvo, ao caranguejo e ao peixe para voltarem no dia seguinte à mesma hora àquele mesmo sítio.

- Tenho tanta curiosidade da Terra – disse a Menina, - amanhã, quando vieres, traz-me uma coisa da terra.

E assim ficou combinado.

No dia seguinte, logo de manhã. o rapaz foi ao seu jardim e colheu uma rosa encarnada muito perfumada. Foi para a praia e procurou o lugar da véspera.

-Bom-dia, bom-dia, bom-dia - disseram a Menina, o polvo, o caranguejo e o peixe.

-Bom-dia - disse o rapaz. E ajoelhou-se na água, em frente da Menina do Mar.

- Trago-te aqui uma flor da terra - disse; chama-se uma rosa.

E linda, é linda - disse a Menina do Mar, dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.

- Respira o seu cheiro para veres como é perfumada.

A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.

Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.

- Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.

- Mas o que é a saudade? - perguntou a Menina do Mar.

- A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.

- Ai! - suspirou a Menina do Mar olhando para a Terra. Por que é que me mostraste a rosa? Agora estou com vontade de chorar.

O rapaz atirou fora a rosa e disse:

- Esquece-te da rosa e vamos brincar.

E foram os cinco, o rapaz, a Menina., o polvo, o caranguejo e o peixe pelos carreirinhos de água, rindo e brincando durante a manhã toda.

Até que a maré começou a subir e o rapaz teve que se ir embora.

No dia seguinte, de manhã, tornaram a encontrar-se todos no sítio do costume.

- Bom-dia - disse a Menina. - O que é que me trouxeste hoje?

O rapaz pegou na Menina do Mar, sentou-a numa rocha e ajoelhou-se a seu lado.

- Trouxe-te isto - disse. - E uma caixa de fósforos.

- Não é muito bonito - disse a Menina.

- Não; mas tem lá dentro uma coisa maravilhosa, linda e alegre que se chama o fogo. Vais ver.

E o rapaz abriu a caixa e acendeu um fósforo.

A Menina deu palmas de alegria e pediu para tocar no fogo. - Isso -- disse o rapaz - é impossível. O fogo é alegre mas queima.

- É um sol pequenino - disse a Menina do Mar.

- Sim - disse o rapaz - mas não se lhe pode tocar.

E o rapaz soprou o fósforo e o fogo apagou-se.

- Tu és bruxo - disse a Menina - sopras e as coisas desaparecem.

- Não sou bruxo. O fogo é assim. Enquanto é pequeno qualquer sopro o apaga. Mas depois de crescido pode devorar florestas e cidades.

- Então o fogo e pior do que a Raia? - perguntou - a Menina.

- É conforme. Enquanto o fogo é pequeno e tem juízo é o maior amigo do homem: aquece-o no Inverno, cozinha-lhe a comida, alumia-o durante. a noite. Mas quando o fogo cresce de mais, zanga-se, enlouquece e fica mais ávido, mais cruel e mais perigoso do que todos os animais ferozes.

- As coisas da terra são esquisitas e diferentes - disse a Menina do Mar. Conta-me mais coisas da terra.

Então sentaram-se os dois dentro de água e o rapaz contou-lhe como era a sua casa e o seu jardim e como eram as cidades e os campos, as florestas e as estradas.

- Ah! como eu gostava de ver isso tudo - disse a Menina cheia de curiosidade.

- Vem comigo - disse o rapaz - eu levo-te à terra e mostro-te coisas lindas.

- Não posso porque sou uma Menina do Mar. O mar é a minha terra. Tu se vieres para o mar afogas-te. E eu se for para a terra seco. Não posso estar muito tempo fora de água. Fora de água fico como as algas na maré vaza, que ficam todas enrugados e secas. Se eu saísse do mar, ao fim de algumas horas ficava igual a um farrapo de roupa velha ou a um papel de jornal, destes que às vezes há nas praias e que têm um ar tão triste e infeliz de coisa que já

não serve e que foi deitada fora e que já ninguém quer.

- Que pena que eu tenho de não te poder mostrar a terra! – disse o rapaz.

- E eu que pena tenho de não te poder levar comigo ao fundo do mar para te mostrar as florestas de algas, as grutas de corais e os jardins de anémonas!

E nessa manhã o rapaz e a Menina, enquanto nadavam na água, iam contando um ao outro as histórias do mar e as histórias da terra.

Até que a maré subiu e despediram-se.

No dia seguinte o rapaz chegou à praia, sentou-se ao lado da Menina do Mar e disse:

- Hoje trago-te uma coisa da terra que é bonita e tem lá dentro alegria. Chama-se vinho. Quem bebe fica cheio de alegria.

Enquanto dizia isto o rapaz pousou na ar um copo cheio de vinho. Era um daqueles copos muito pequenos que servem para beber licores. A Menina do Mar segurou o copo com as duas mãos e olhou o vinho cheia de curiosidade, respirando o seu perfume.

- É muito encarnado e muito perfumado - disse ela. - Conta-me o que é o vinho.

- Na terra -- respondeu o rapaz - há uma planta que se chama videira. No Inverno parece morta e seca. Mas na Primavera enche-se de folhas e no Verão enche-se de frutos que se chamam uvas e que crescem em cachos. E no Outono os homens colhem os cachos de uvas e põem-nos em grandes tanques de pedra onde os pisam até que o seu sumo escorra. E a esse sumo dos frutos da videira que chamamos o vinho. Esta é a história do vinho, mas o seu sabor não o sei contar. Bebe se queres saber como é.

E a Menina bebeu o vinho, riu-se e disse:

- É bom e é alegre. Agora já sei o que é a terra. Agora já sei o que é o sabor da Primavera, do Verão e do Outono.

Já sei o que é o sabor dos frutos. Já sei o que é a frescura das árvores. Já sei como é o calor duma montanha ao sol.

Leva-me a ver a terra. Eu quero ir ver a terra. Há tantas coisas que eu não sei. O mar é uma prisão transparente e gelada. No mar não há Primavera nem Outono. No mar o tempo não morre. As anémonas estão sempre em flor e a espuma é sempre branca. Leva-me a ver a terra.

- Tenho uma ideia - disse o rapaz. - Amanhã trago um balde e encho-o com água do mar e algas. E tu pões-te dentro do balde para não secares e eu levo-te comigo a ver a terra.

- Está bem - disse a Menina. - Amanhã vou contigo dentro do balde de água. E vou ver a tua casa e vou ver o teu jardim e vou ver passar os comboios: e vou ver a noite numa cidade cheia de luzes, de gente e de carros. E vou ver os animais da terra, os cães, os cavalos, os gatos: e vou ver as montanhas, as florestas e todas as coisas que me contaste.

E assim o rapaz e a Menina do Mar passaram o resto da manhã a fazer planos para a aventura do dia seguinte.

Até que a maré subiu e o rapaz foi-se embora.

No outro dia o rapaz veio para as rochas com o balde. Vinha muito alegre, entusiasmado com o seu projecto, cantando e dando saltos. Mas quando chegou à poça de água encontrou a Menina do Mar com um ar muito desesperado e o polvo, o caranguejo e o peixe todos três com cara de caso.

- Bom-dia - disse o rapaz. Trago aqui o balde. Vamos embora depressa.

- Eu não posso ir - disse a Menina do Mar. E desatou a chorar como uma fonte.

- Mas porquê? - perguntou o rapaz.

- Por causa dos búzios. Os búzios têm muito bom ouvido, ouvem tudo, são os ouvidos do mar. E ouviram as nossas conversas e foram contá-las à Raia que ficou furiosa e agora eu já não posso ir contigo.

- Mas a Raia não está aqui. Mete-te dentro do balde e vamos embora depressa.

- É impossível - disse a Menina do Mar. A Raia ordenou aos polvos que não me deixassem passar. As rochas estão cheias de polvos escondidos que nós não vemos, mas que nos vêem e espiam cada um dos nossos gestos.

Tenho que te dizer adeus para sempre. Amanhã já não volto aqui porque a Raia, para me castigar de eu ter querido fugir, decidiu que esta noite ao nascer da Lua eu serei levada pelos polvos, para uma praia distante, que eu não sei como se chama, nem onde fica. E nunca mais nos poderemos encontrar.

- Vamos experimentar fugir - disse o rapaz. Eu com as minhas duas pernas corro mais do que os polvos com os seus oito braços, que nem são braços nem são pernas.

E, tendo dito isto, pôs a Menina do Mar dentro do balde e pôs-se a correr. Mas, no mesmo instante, as rochas cobriram-se de polvos. Para qualquer lado que ele olhasse só via polvos. Procurou uma aberta por onde passar mas não havia nenhuma. Em sua roda os polvos tinham feito um círculo fechado. E ele estava no meio do círculo e não podia fugir. Então tentou saltar por cima dos polvos, mas logo dezenas de tentáculos lhe ataram as pernas.

- Larga-me, larga-me - dizia a Menina do Mar. Larga-me senão matam-te.

- Não, não te largo - respondeu o rapaz.

Mas já os polvos lhe envolviam a cintura e o peito, lhe prendiam os ombros, lhe atavam os pulsos e ele caiu nas rochas sem poder fazer nenhum gesto. Mas a sua mão ainda não tinha largado o balde. Até que um polvo se enrolou à roda do seu pescoço e o foi apertando lentamente. Então o rapaz viu o céu ficar preto, deixou de ouvir o barulho das ondas e esqueceu-se de tudo. Estava desmaiado. Acordou com a água a bater-lhe na cara. A maré tinha subido e as ondas já quase cobriam a rocha onde ele estava caído. Levantou-se e todo o seu corpo ainda lhe doía, coberto de marcas deixadas pelas ventosas dos polvos. Foi para casa devagar.

Passaram dias e dias. O rapaz voltou muitas vezes às rochas mas nunca mais viu a Menina nem os seus três amigos. Era como se tudo tivesse sido um sonho.

Até que chegou o Inverno. O tempo estava frio, o mar cinzento e chovia quase todos os dias. E numa manhã de nevoeiro o rapaz sentou-se na praia a pensar na Menina do Mar. E enquanto assim estava viu uma gaivota que vinha do mar alto com uma coisa no bico. Era uma coisa brilhante que reflectia luz e o rapaz pensou que devia ser um peixe. Mas a gaivota chegou junto dele, deu urna volta no ar e deixou cair a coisa na areia.

O rapaz apanhou-a e viu que era um frasco cheio duma água muito clara e luminoso.

- Bom-dia, bom-dia - disse a gaivota.

- Bom-dia, bom-dia - respondeu o rapaz.

Donde é que vens e porque é que me dás este frasco?

- Venho da parte da Menina do Mar - disse a gaivota. Ela manda-te dizer que já sabe o que é a saudade. E pediu-me para te perguntar se queres ir ter com ela ao fundo do mar.

- Quero, quero - disse o rapaz. Mas como é que eu hei-de ir ao fundo do mar sem me afogar?

- O frasco que te dei tem dentro suco de anémonas e suco de plantas mágicas. Se beberes agora este filtro passarás a ser como a Menina do Mar. Poderás viver dentro da água como os peixes e fora da água como os homens.

- Vou beber já - disse o rapaz.

E bebeu o filtro.

Então viu tudo à sua roda tornar-se mais vivo e mais brilhante. Sentiu-se alegre, feliz, contente como um peixe.

Era como se alguma coisa nos seus movimentos tivesse ficado mais livre, mais forte, mais fresca e mais leve.

- Ali no mar - disse a gaivota - está um golfinho à tua espera para te ensinar o caminho.

O rapaz olhou e viu um grande golfinho preto e brilhante dando saltos atrás da arrebentação das ondas. Então disse:

- Adeus, adeus, gaivota. Obrigado, obrigado.

E correu para as ondas e nadou até ao golfinho.

- Agarra-te à minha cauda - disse o golfinho.

E foram os dois pelo mar fora.

Nadaram muitos dias e muitas noites através de calmarias e tempestades.

Atravessaram o mar dos Sargaços e viram os peixes voadores. E viram as grandes baleias que atiram repuxos de água para o céu e viram os grandes vapores que deixam atrás de si colunas de fumo suspensas no ar. E viram os icebergues majestosos e brancos na solidão do oceano. E nadaram ao lado dos veleiros que corriam velozes esticados no vento. E os marinheiros gritavam de espanto quando viam um rapaz agarrado à cauda dum golfinho.

Mas eles mergulhavam e desciam ao fundo do mar para não serem pescados.

Aí estavam os antigos navios naufragados com os seus cofres carregados de oiro e os seus mastros quebrados cobertos de anémonas e conchas.

Depois de nadarem sessenta dias e sessenta noites chegaram a uma ilha rodeada de corais. O golfinho deu a volta à ilha e por fim parou em frente duma gruta e disse:

- É aqui: entra na gruta e encontrarás a Menina do Mar.

- Adeus, adeus, golfinho. Obrigado, obrigado.

A gruta era toda de coral e o seu chão era de areia branca e fina. Tinha em frente um jardim de anémonas azuis.

O rapaz entrou na gruta e espreitou. A Menina, o polvo, o caranguejo e o peixe estavam a brincar com conchinhas. Estavam quietos, tristes e calados. De vez em quando a Menina suspirava.

- Estou aqui! Cheguei! sou eu! - gritou o rapaz.

Todos se voltaram para ele. Houve um momento de grande confusão. Todos se abraçaram, todos riam, todos gritavam. A Menina do Mar dançava, batia palmas e ria com gargalhadas claras como a água. O polvo fazia o pino.

O caranguejo dava cambalhotas e o peixe dava saltos mortais. Depois de todas estas habilidades ficaram um pouco mais calmos.

Então a Menina do Mar sentou-se no ombro do rapaz e disse:

- Estou tão feliz, tão feliz, tão feliz! Pensei que nunca mais te ia ver. Sem ti o mar, apesar de todas as suas anémonas, parecia triste e vazio. E eu passava os dias inteiros a suspirar. E não sabia o que havia de fazer. Até que um dia o Rei do Mar deu uma grande festa. Convidou muitas baleias, muitos tubarões e muitos peixes importantes.

E mandou-me ir ao palácio para eu dançar na festa. No fim do banquete chegou a altura da minha dança e eu entrei na gruta onde o Rei do Mar estava com os seus convidados, sentado no seu trono de nácar, rodeado de cavalos marinhos.

Então os búzios começaram a cantar uma cantiga antiquíssima que foi inventada no princípio do Mundo.

Mas eu estava muito triste e por isso dancei muito mal.

- Porque é que estás a dançar tão mal? - perguntou o Rei do Mar.

- Porque estou cheia de saudades - respondi eu.

- Saudades? - disse o Rei do Mar. Que história é essa?

E perguntou ao polvo, ao caranguejo e ao peixe o que tinha acontecido. Eles contaram-lhe tudo. Então o Rei do Mar teve pena da minha tristeza e teve pena de ver uma bailarina que já não sabia dançar. E disse:

- Amanhã de manhã vem ao meu palácio.

No dia seguinte de manhã eu voltei ao palácio. E o Rei do Mar sentou-me no seu ombro e subiu comigo à tona das águas. Chamou uma gaivota, deu-lhe o frasco com o filtro das anémonas e mandou-a ir à tua procura. E foi assim que eu consegui que tu voltasses.

- Agora nunca mais nos separamos - disse o rapaz.

- Agora vais ser forte como um polvo.

- Agora vais ser sábio como um caranguejo - disse o caranguejo.

- Agora vais ser feliz como um peixe - disse o peixe.

- Agora a tua terra é o Mar - disse a Menina do Mar.

E foram os cinco através de florestas, areais e grutas.

No dia seguinte houve outra festa no Palácio do Rei. A Menina do Mar dançou toda a noite e as baleias, os tubarões, as tartarugas e todos os peixes diziam:

- Nunca vimos dançar tão bem.

E o Rei do Mar estava sentado no seu trono de nácar, rodeado de cavalos-marinhos, e o seu manto de púrpura nas águas.


Sophia de Mello Breyner, A Menina do Mar








18/03/2007

Uma árvore na Lua


Daphne é uma menina que quer ser uma árvore. Gosta tanto de árvores que acha nada haver de mais belo à face da terra. “Ou da lua”, acrescentam, a brincar, os avós. Daphne passa sempre as férias com os avós, que afiançam que a neta está, muitas vezes, “na lua”. Enganam-se, porque Daphne não está “na lua”.
Está nas árvores. Nas do jardim dos avós, nas da floresta mais próxima, e sobretudo naquela que é considerada o tesouro da família: a Árvore das Quatro Estações. Esta árvore tem a particularidade de ser, ao mesmo tempo, todas as árvores, em todas as estações.
O que é muito prático para Daphne. Se lhe apetece estar no Natal, instala-se nos ramos do Inverno e colhe visco e azevinho. Na ponta dos ramos da Primavera, descobre ninhos e observa os ovos a abrir. Faz colares e pulseiras com as folhas do Outono. E, num só ramo de Verão, pode colher ameixas, damascos, cerejas e figos.
Como é filha única, Daphne está habituada a estar só. Na solidão que é a sua, procura não fazer mal a nada nem a ninguém: pessoa, animal, ou planta. Melhor ainda, cuida das borboletas feridas. Abriu mesmo um hospital, onde é enfermeira. Trata dos ramos partidos das árvores com fita adesiva e consegue, graças à sua paciência, colá-los completamente. Se tivesse cartões de visita como os adultos, esses cartões diriam:

Daphne
Enfermeira de borboletas
E médica de árvores.

Quando está cansada de brincar com a Árvore das Quatro Estações, ou com as borboletas, Daphne vai para a floresta, que começa onde acaba o jardim. Trata-se de uma floresta mágica, como o são todas as florestas, onde uma menina pode passear sem medo, já que aí os animais não lutam entre si. Amam-se. Podemos ver passar, de braço dado, o coelho e a doninha, a raposa e o faisão, a corça e o lobo. Os caçadores não podem lá entrar. Sempre que tentam, rebenta uma tempestade que os molha até aos ossos, e que os obriga a arrepiar caminho. O único proveito que tiram dessa incursão é uma constipação que dura oito dias, no mínimo, sem falar de outras complicações, da bronquite e da pleurisia.
Nesta floresta mágica, Daphne vê e ouve coisas muito engraçadas. Encontra uma poupa. Como é a primeira vez que vê um pássaro destes, exclama:
— Que animal é este? Dir-se-ia um antílope, pelos chifres, e uma zebra, pela cauda.
— Não sou uma zebra, embora seja raiada de preto e branco — corrige o pássaro. — Também não sou um antílope, embora pareça ter chifres na cabeça. São chifres de plumas que formam uma poupa, e daí o meu nome. Sou a Poupa, a mais bela das Poupas, pois sou a Rainha das Poupas.
— Majestade — saúda Daphne, fazendo uma vénia ─ queira aceitar as minhas desculpas.
— Estão aceites — responde a Poupa, que é boa pessoa.
Em seguida, vão passear juntas. Quando Daphne entra na floresta mágica, a Poupa poisa no seu ombro e começa a contar-lhe os últimos acontecimentos: o desabrochar de um cogumelo que cheira a violetas, o nascimento de uma fonte dourada, o casamento de uma libelinha com um alecrim frisado.
De uma outra vez, Daphne encontra um seixo no caminho, todo branquinho e muito redondinho. Dir-se-ia um ovo de mármore. É tão bonito que Daphne o mete no bolso. O seixo protesta imediatamente, já que não gosta de estar na escuridão do bolso. Só gosta da luz.
— Outrora — conta ele a Daphne, surpreendida por ouvir uma pedra falar — quando os deuses viviam com os homens, e tinham estátuas nos templos, eu era o dedo de uma deusa. Os deuses e os templos desapareceram e, no meio da confusão, a deusa perdeu a cabeça e os braços. Os braços com as mãos, e as mãos com os dedos, foram dispersos pela natureza. Pouco a pouco, perderam as formas que o escultor lhes dera e tornaram-se o que antes tinham sido: simples pedras.
Esta é a história do Pequeno Seixo (assim se chama a pedra), que, do seu esplendor antigo e dos templos erguidos no cimo das colinas, conserva o gosto pela luz. Daphne promete-lhe que o porá aos pés da Árvore das Quatro Estações, do lado do Verão, para assim estar sempre ao sol. Com é bem-educado, o Pequeno Seixo desfaz-se em agradecimentos.
Contando com a Árvore das Quatro Estações, a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo, Daphne já tem três amigos. Vai ter um quarto, ou melhor, uma quarta: trata-se de uma feiticeira.
Mesmo no meio da floresta, existe um carvalho enorme: é lá que habita a feiticeira. Escolheu morar ali, porque também gosta de árvores. Construiu um ninho para si mesma, à semelhança dos pássaros, mas à sua medida: um metro e cinquenta centímetros. Como os habitantes da floresta lhe querem tanto bem quanto a respeitam, chamam-lhe “Venerável”. Quando ouve o epíteto, a feiticeira ri-se de si própria e diz: — Veneranda Mãe, sou a Venerável Ninho de Pássaro.
Venerável Ninho de Pássaro: assim lhe chamam os amigos íntimos, entre os quais se conta Daphne, deslumbrada e conquistada pelas proezas da feiticeira. Com efeito, é ela que faz desabar a tempestade sobre os caçadores.
A Venerável Ninho de Pássaro ensina a Daphne imensas coisas sobre as árvores: os seus hábitos, os seus costumes, os seus segredos.
— O que é uma árvore? É alguém que não tem mãos para se defender, nem pés para fugir.
E acrescenta:
— As pessoas aproveitam-se disso para as massacrar. Daphne, nunca se deve maltratar uma árvore, tal como nunca se deve dizer a uma criança que é estúpida. O que é uma criança? É um adulto que ainda não teve tempo de crescer.
O mês de Julho passa, enquanto Daphne se diverte com os amigos e escuta a Venerável Ninho de Pássaro. Chega o mês de Agosto. Um dia, no início do mês, o avô entra em casa e põe os jornais sobre a mesa.
— Vejam — diz, consternado, dirigindo-se à avó e a Daphne.
Todos os jornais trazem a mesma notícia:

SOS Floresta
M M ataca

Daphne pergunta o que quer dizer MM. MM quer dizer Máquina Malvada, aquela que engole árvores às centenas e devora uma floresta inteira de uma só vez.
As florestas ameaçadas lançam um apelo, um SOS.
Por ora, a Máquina Malvada não ataca os seres humanos, contentando-se com aterrorizá-los com o seu barulho infernal e os seus odores pestilentos. Tresanda e mata. É decretado o estado de tristeza geral no país. O que se pode fazer? É Verão. As pessoas estão na praia ou na montanha. Na aldeia da floresta mágica, só há velhos e crianças como Daphne. Cada um se fecha na sua casa quando a Máquina Malvada desfila pelas ruas, arrotando vapores de gasolina e ameaçando as árvores, mesmo aquelas que se escondem nos jardins:
— Nenhum muro e nenhuma grade conseguirão deter-me quando eu tiver fome.
Daphne decide salvar a floresta e libertar o seu país da Máquina Malvada.
Para o efeito, convoca a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo, que aprovam a sua resolução. É claro que é preciso acabar com ela, e já. A Árvore das Quatro Estações, que vê os seus dias contados, definha. Na floresta mágica, os animais não ousam sair das suas tocas e passam fome e sede. É uma situação intolerável. Mas o que fazer para destruir a Máquina Malvada?
Daphne, a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo partem em busca dos conselhos e da ajuda da feiticeira. A Venerável Ninho de Pássaro está desesperada. Nada pode fazer contra a Máquina Malvada. A tempestade que ela enviava contra os caçadores já não lhe obedece.
— Antes quero molhar os caçadores do que sujar as minhas gotas de chuva e os meus trovões com esta máquina gordurenta que transpira óleo queimado — repete, obstinada, a tempestade.
Exasperada com tal atitude, a Venerável Ninho de Pássaro anuncia aos amigos que se vai embora de vez, que deixa a floresta para se refugiar em qualquer parte do céu.
— Quem gostar de mim que me siga — diz a feiticeira. Posso transformar o meu ninho em tapete voador e podemos partir imediatamente.
Ninguém quer, ou pode, partir imediatamente. Daphne tem de avisar os avós, e a Rainha das Poupas o seu povo.
Antes de partir para sempre, a Venerável Ninho de Pássaro revela a Daphne uma fórmula mágica, que deve ser aprendida de cor, não pode ser divulgada, e só deve ser utilizada em caso de perigo extremo:

Árvore, querida árvore,
Transforma-me em árvore
No centro da lua.

— Nunca imaginei que a Venerável Ninho de Pássaro fosse tão egoísta e nos abandonasse quando mais necessitamos dela — queixa-se a Rainha das Poupas
Ao que Daphne respondeu:
— Não faz mal. Acabaremos por vencer. Os fortes serão vencidos. Nós venceremos porque somos os mais fracos.
— Está tudo ao contrário — lamenta a Rainha das Poupas.
— A Daphne tem razão — assevera o Pequeno Seixo. A Máquina Malvada é muito forte, mas deve ter uma fraqueza escondida. Se a encontrarmos, podemos tirar partido dela e bater a Máquina. Quando era o dedo de uma deusa, falava-se muito, nos templos, de um rapazinho chamado David, que tinha conseguido derrubar um gigante, Golias, ao acertar-lhe com uma pedra em plena testa. Serei eu essa pedra e Daphne será David.
É preciso salvar as árvores. O tempo urge. Fica decidido, por unanimidade, que Daphne se disfarçará de árvore para chamar a atenção e despertar o apetite da Máquina Malvada. É fácil: Daphne só tem de vestir o casaco de bombazina castanha do avô, que parece mesmo uma casca de árvore. Na cabeça, usará a capelina com flores da avó.
— Parecerei uma árvore florida a passear — comenta.
Meu dito, meu feito. Disfarçada de árvore, Daphne passeia na estrada. Leva o Pequeno Seixo dentro da mão cerrada. Este suplica:
— Não me apertes tanto que me abafas. Não te esqueças do nosso plano de ataque. Logo que a Máquina Malvada abra a boca, atiras-me lá para dentro. Acredita que um pedaço de mármore, um antigo dedo de deusa, que teria hoje três mil anos, é mais difícil de digerir do que uma árvore tenra ou uma floresta mágica. A Máquina Malvada vai morrer de indigestão. Quando estiver morta, libertas- me. Não me deixes no meio daquele ferro-velho.
— Claro que não. Agora cala-te, que já a ouço aproximar-se — sussurra Daphne.
Ei-la que chega, negra de óleo e malvadez, qual monstruosa vespa feita de ferro, com os olhos salientes e em forma de ampola.
— Eis uma árvore que se passeia. Vou comê-la para ganhar apetite.
Abre os maxilares e mostra uma fila de dentes, de tal forma pontiagudos e feios que Daphne, apanhada de surpresa, erra a pontaria.
O Pequeno Seixo acerta no olho da Máquina Malvada, que estremece de dor e de cólera. Enfurecida, consegue arrancar o Pequeno Seixo da pálpebra e atira-o com tal força que a pedrinha desaparece lá para as bandas do sol. A deusa esperava-a, com um sorriso radioso:
— Eis-te, enfim, pequeno dedo. Faltavas-me tu para poder entrar inteira no paraíso das deusas.
Daphne e a Máquina Malvada ficam frente a frente.
— Vou devorar-te — ruge a máquina, lançando sobre Daphne um sopro eléctrico de tal forma potente e viscoso que a deita ao chão. A menina reúne as forças que lhe restam para se levantar e correr para a floresta, a fim de se refugiar no carvalho. Daphne corre e os amigos acorrem em seu socorro. Em vão.
Nem a Rainha das Poupas, nem as borboletas conseguem abrandar a Máquina Malvada, que é cada vez mais veloz. Aproxima-se de Daphne, sem apelo nem agravo. Daphne sente-se perdida e é então que se lembra da fórmula mágica que a Venerável Ninho de Pássaro lhe confiara:

Árvore, querida árvore,
Transforma-me em árvore
No centro da lua.

O desejo é formulado com tanta força que é de imediato realizado. Daphne levanta voo sob os aplausos da Rainha das Poupas e dos amigos da floresta, enquanto a Máquina Malvada se debate sozinha e, enraivecida, se reduz a um montão de óleo fumegante.

Daphne sobe, sobe, atravessa as fronteiras celestes, e percorre o país da Luz. De passagem, cumprimenta a feiticeira Venerável Ninho de Pássaro, o Pequeno Seixo, a nuvem, o peixe, a onda, os signos do Zodíaco e a Ursa Maior.

Chega finalmente ao centro da lua e aí transforma-se em árvore. A árvore da lua, que podemos ver nas noites de lua cheia…


Jean Chalon/Martine Delerm, Un arbre dans la lune